[Terminada] Angelical
Vá, capitulo piroso!
Mas é fofo, vá! 
Como só a Ana é que deu opinião eu em principio posta outra vez sexta. Até lá, boa leitura!
Capitulo XXII - A carne é fraca - 2ª parte
E assim foi. Só no momento em que ele me disse aquilo é que entendi que as ferias tinham terminado, mas o lado positivo era que o ia ver todos os dias, ainda que não tão perto. Quando cheguei a casa, preparei tudo, respondendo a um questionário por parte de Helen, que queria saber tudo o que tinha acontecido, mas, bem, ela não precisava de saber todos os pormenores, portanto só lhe disse algumas coisas sem grande importância para si!
No dia seguinte, o despertador tocou, irritante como sempre. Felizmente ainda reinava o sol, dava mais vontade para sair de casa, porem, tive pena de não poder vestir algo claro. Tive de voltar a assumir toda aquela escuridão aborrecida, e sair de casa mal-humorada! Que idiotice, estava farta de tanto teatro! Entrei no autocarro, assustei o motorista e os alunos! Cheguei á escola, assustei os mais jovens! Por favor!
-Lana! – Virei-me de costas.
Liliana vinha a correr ter comigo, animada como a manha! Sorri-lhe, divertida, e ela saudou-me com dois beijos.
-Não tinhas saudades da escola?
Franzi o sobrolho:
-Não!
Ela pouco se importou. Começou a falar de uma dança qualquer que viu na TV, até que Lau surgiu e a interrompeu, dirigindo-se a mim, empolgada:
-Conta-me tudo! – Guinchou – Eu sempre soube que ele gostava de ti, mas tu és tão lenta que não conseguias ver!
Senti um formigueiro nas maças do rosto. Já sabia do que ela estava a falar:
-Era a isto que te referias quando me mandavas aquelas indirectas sobre eu não entender o que se passava á minha volta?!
-Yap! – Confirmou.
-Estais a falar do Gustavo? – Liliana sorriu, como se se tivesse lembrado de algo importante – Tu já sabias, Lau?
-Era impossível não saber! Vá, agora diz-me, há quanto tempo estais juntos?
-Lau, não me faças perguntas, não te vou responder a nada!
Virei costas e suspirei. Era um pouco embaraçoso para mim falar destas coisas.
-Não me faças isto! – Ela quase choramingou – Diz-me! como foi! Quem deu o primeiro passo, tu ou ele?
-Alguém tem fome? – Questionei, fingindo não ouvir o que ela dizia.
-Lana não mudes de assunto! – Pediu, Liliana.
-Vou ao bar! – Informei dando os primeiros passos para me afastar.
Eles seguiram-me enchendo a minha cabeça de perguntas, ás quais eu nem reagia.
Subi as escadas que davam acesso á cafetaria e olhei-as:
-Parem com isso, a escola toda não precisa de saber a minha vida!
Elas mandaram-me um olhar penoso ao mesmo tempo, mas eu ignorei!
Quando chegamos ao local em questão, já havia alunos a mastigar e engolir tudo o que era comestível. O ambiente denso de auras causou um leve incomodo na minha mente, mas eu logo a consegui bloquear. Avistei algumas raparigas da nossa turma e mirei Laura e Liliana que se mostravam amuadas comigo:
-Querem ir ter com elas? – Perguntei, com um olhar provocador.
Liliana ergueu o queixo e deu-me um encontrão, passando por mim para seguir até ao grupo feminino:
-De qualquer forma só acredito quando vir!
Pisquei o olho a Lau e ela suspirou, mas seguiu-nos.
Lili abraçou Natacha com todas as suas forças, e Lau fez o mesmo com Verónica. Eu também o faria se tivesse Cristina ali, suponho.
-Onde está a Rebeca? – perguntei calmamente.
Liliana lançou-me um olhar mortífero, mas Natacha respondeu sem hesitar:
-Não faço ideia, ela esteve desaparecida as férias todas e não contactou ninguém. Provavelmente foi para fora e só chega daqui a uns dias.
-Hum… - Franzi as sobrancelhas. Outra vez o ar de mazinha, mas desta vez não consegui evitar.
Laura estranhou a minha reacção mas começou a falar animadamente com a amiga. Entretanto juntaram-se mais três colegas e ficaram todas a conversar animadamente sobre os acontecimentos mais animados das suas vidas.
Olhei em redor, alheia á conversa até que me senti observada e encarei Joana e Rui. Revirei os olhos ao aperceber-me que continuavam persistentes comigo, apesar de se mostrarem divertidos com o seu grupo e por isso não virem ter comigo.
-Puxa, Lana, isso vai deixar marca! – Comentou Natacha.
Fitei-a rapidamente, apanhada desprevenida:
-O quê?
-O golpe no pescoço! – Completou Verónica – É maior do que julgávamos! Deve ter doido!
Dei de ombros:
-Doeu. - Admiti – Mas felizmente está quase cicatrizado!
-Gostaste das tuas ferias? – Quis Natacha saber, sorridente.
Olhei para o teto e escondi um sorriso:
-Uma parte delas!
-Oh, as minhas foram óptimas! – Ela disse, entusiasmadíssima – o Sérgio veio ter comigo quase todos os dias e depois…
Não consegui evitar de sorrir. Ela movia os lábios e soltava as palavras apressadamente, mas cheia de alegria e entusiasmo. Verónica alternava com ela, comentando também o que havia acontecido com o seu amado, que eu nem sequer conhecia, todavia eu só conseguia cantarolar mentalmente “O Gustavo é meu namorado! Ele fez-me um piquenique! Nha nha nha nha nha! Toma, toma, toma!”. Sentia-me uma autentica criança! Era tão bom!
Lau mordeu o lábio, enquanto me virava, e esboçou um sorriso maroto que eu não entendi.
Mas então, um rosto encaixou no meu pescoço, ao mesmo tempo que uns braços rodearam a minha barriga para minha admiração.
-Já viste o filme “A princesa e o sapo”?
Calou-se tudo. É, calou-se mesmo. Acho que tanto as raparigas que me acompanhavam, como os rapazes com quem ele chegara, e até mesmo algumas, reduzidas, atenções daquela cafetaria, incidiram em nós. Virei a minha face para encara-lo. Não esperava minimamente não o sentir aproximar-se, mas sorri, feita idiota:
-Era suposto ter visto?
Gustavo sorriu-me e depois fez um esgar:
-A minha irmã obrigou-me a vê-lo com ela para compensar a ausência que lhe dei ontem… - Ele revirou os olhos e suspirou. O seu hálito bateu no meu e eu estremeci – Não consigo tirar uma musica da cabeça! Tens de dança-la comigo!
Natacha passou por nós, de sobrolho franzido e beijou Sérgio, que também nos olhava pasmado.
Franzi as sobrancelhas:
-Estás louco!
-É, acho estou a interiorizar isso! – ele sorriu e deu-me um beijo na bochecha.
Liliana coçou a cabeça, atrapalhada, e entreolhou os outros, que se mostravam confusos.
Senti-me tão parva, tão palerma! As minhas reacções eram tão estúpidas! Não corei, mas sorri que nem uma idiota e desviei o olhar para o chão, envergonhada por ter tantas atenções postas em nós. Gustavo não era lerdo e riu da minha reacção, soltando a minha cintura e virando-me para ele:
-Criancinha! – acusou em tom de troça.
-Velhaco! – Ripostei, cruzando os braços.
-Eu? - Ele fez um ar de perplexidade - Eu estou fresco, amor!
Gustavo não me tinha chamado aquilo, tinha?
Dei-lhe uma sapatada no braço:
-Estás fresco, estás! – ironizei.
Ele esboçou um sorriso torto, passando o seu braço por cima dos meus ombros quando o toque da campainha tocou, e guiou-nos para sair daquele local e irmos para a sala. Os nosso colegas seguiram-nos, falando meio constrangidos com a nossa situação.
Ele olhou-me de cima a baixo e fez uma careta:
-O que foi? – perguntei, incomodada.
-Preto… - Murmurou sisudo – Não é justo, já não estou habituado!
-Habitua-te! – Mandei, fingindo-me desinteressada pelo que ele sentia.
-Não! Tira isso!
-Claro, e desfilo nua, não?
Ele sorriu:
-Não era mal pensado!
-Estúpido!
-Sabes o que significa essa palavra no meu dicionário?
Olhei-o pelo canto do olhos, desconfiada:
-Até tenho medo da resposta.
Ele sorriu, com malandrice:
-Sexualmente apetecível! – Respondeu.
Olhei para o céu como se reflectisse e dei de ombros:
-está bem… não posso discordar!
Ele corou. Era raro faze-lo, mas aconteceu. Sorri orgulhosa:
-Consegui fazer-te corar, viva eu!
Ele olhou o chão, constrangido e depois o céu, humedecendo os lábios. Sorri amavelmente e ele encarou-me, enquanto a sua epiderme voltava ao normal:
-Eu envergonho-te muitas vezes, mas a única coisa que fazes é caretas! Como é que é possível eu nunca te ter feito corar?
-Eu não coro! – Expliquei - A minha pele é sempre amarelada!
-Que idiotice, tu não és amarelada! És tipo… Bronzeada? – Palpitou.
Dei de ombros:
-No verão fico mais!
-Sempre gostei de morenas! – Ele sorriu-me
-Sempre gostei de loiros! – Sorri-lhe de retorno e soltei-o para entrar no bloco de aulas.
Pus a mão na cabeça, incomodada com tantos espíritos diferentes e mordi o lábio. Gustavo não viu a minha cara, mas vinha sempre atrás de mim, enquanto subíamos as escadas para chegar á sala.
Acho que todos ficamos aborrecidos quando percebemos que a professora de inglês já tinha entrado na sala. Cumprimos o nosso papel e entramos também naquela divisão escolar.
Gustavo passou a mão no meu cabelo e roubou-me uma das fitinhas de seda lilases que se entrelaçavam com pequenas mechas do meu cabelo castanho, adornando-o discretamente. Olhei-o de soslaio, sem saber porque o fizera, mas dirigi-me ao meu lugar individual no fundo da sala.
-Good Morning, classe! – Exclamou a professora, tão aborrecida como nós pelo recomeço das aulas.
-Good mornig, teacher! – Dissemos todos em uníssono.
Suspirei entediada e peguei nos meus cadernos e lápis. Olhei em meu redor em busca de Rebeca. Ela não estava, para meu descontentamento. A professora deu inicio á aula. Tentei não me desconcentrar, mas era complicado, já não estava habituada ao horário e o sono apertava comigo. Bocejei discretamente e comecei a fazer desenhos totalmente abstractos nas margens do caderno. A professora mandou-nos fazer uns exercícios do livro, para depois os corrigir no quadro. Fiz os meus em poucos segundos e depois olhei para o relógio que parecia ter parado. Os alunos começaram a ser chamados para irem corrigir os exercícios ao quadro.
-Ivo! – Chamou a professora – Come here, please!
Ivo estava sentado junto do meu namorado, impedindo que nós nos conseguíssemos ver. Mal ele se levantou, Gustavo trocou um olhar comigo, fazendo-me sorrir, inevitavelmente. Ele tinha a minha fita de seda entrelaçada nos seus dedos, perto do seu nariz, como se a cheirasse.
Baixei o meu olhar timidamente e depois atentei no quadro.
Acho que só um surdo não ouviria aquilo. A mesa ao meu lado arrastou-se ruidosamente levando consigo duas cadeiras, até se colar á minha. Todos olharam para ver o que tinha sido aquilo, e a professora fez um ar de poucos amigos. Procurei um buraco para em enterrar:
-Gustavo, o que estás fazer? –Interrogou a professora, batendo o pé.
Ele sorriu encantadoramente:
-Desculpe professora, mas quero confirmar um exercício com a minha colega, acho que o Ivo tem mal!
“Que mentiroso!” pensei, contendo um sorriso.
A professora franziu as sobrancelhas, pouco convencida, e Ivo fez um ar de vingança a Gustavo por ele tê-lo envolvido na situação.
-não te desconcentres! – Avisou a professora, desconfiada.
-Claro que não! – o seu ar de troça era tão evidente, como é que ela virou costas novamente?
Alguns colegas, contudo, continuaram a ver o que ele estava a fazer. Gustavo mudou-se para a cadeira de Ivo, ficando ao meu lado, e sorriu:
-Qual é a ideia? – sussurrei.
Ele deu de ombros:
-A aula está chata! – respondeu.
Apertei os lábios para não sorrir.
Gustavo inclinou-se para mais perto de mim:
-Lala, Estive a pensar…
-“Lala”?! - Interrompi – desde quando é que me chamas isso?! – Questionei, aparvalhada.
-Desde agora! – Ele disse, como se fosse obvio – Podes chamar-me “Gugu” se quiseres!
Não me controlei e soltei um riso que abafei rapidamente com a mão para não chamar a atenção da professora. Alguns alunos, porem olharam-nos, enquanto eu tentava calar as minhas gargalhadas.
-Não sufoques! – Advertiu Gustavo, preocupado – Qual é a graça? A minha avó chamava-me isso quando eu era pequeno!
-Quando eras pequeno! – Relembrei, mordendo os lábios - Eu não te vou chamar isso!
-Pronto, tu é que sabes! Não é fofo? – Ele fez aquela questão como se quisesse entrar na minha personagem.
-É piroso!
Ele sorriu, feito idiota, e fez voz de mel:
-Lala, vamos dizer coisas pirosas um ao outro?
Olhei-o divertida:
-Claro, chuchuzinho, o que me querias dizer?
-Estava a dizer que a minha abelhinha ainda não me picou hoje!
“Abelhinha”?!
-O quê?
-Ainda não me beijaste!
Fixei-o surpreendida:
-E depois?
-Eu quero! – Respondeu, como se fosse uma criança mimada.
-Aguenta-te! – Respondi, encarando o quadro.
Ele fez um pranto e deu com a cabeça em cima da mesa, chamando novamente as atenções alheias:
-Gustavo?! –A professora parecia fula, mas preocupada.
Ele levantou a cabeça e encarou-a:
-O exercício está mal! – Desculpou-se.
-Então toma atenção é correcção!
-É o que eu estou a fazer!
Ela acenou com a cabeça e olhou-o pelo canto do olho.
Ele fingiu estar a escrever no caderno e ela sossegou.
-És mesmo mentiroso! – murmurei, tentando não rir.
-Beija-me! – pediu.
Arqueei a sobrancelha:
-Espera, está quase a tocar!
Ele aproximou a boca do meu ouvido, e roçou o nariz no meu cabelo:
-Mas eu quero agora! – sussurrou, com voz grave.
Senti um calor no peito de repente.
-Isso são provocações? – quis saber.
Ele deu-me um beijinho no maxilar. Quase saltei da cadeira, arrepiada. Onde estavam as minhas pernas?!
-estamos em aula! – Relembrei, mordendo o lábio e cerrando as mãos debaixo da mesa.
Senti-me observada, mas queria lá saber. Já sabia que eram os poucos colegas que nos coscuvilhavam. As suas auras distintas não enganavam. Gustavo passou os dedos no meu pescoço, sob a cicatriz que eu tinha:
-A carne é fraca… - murmurou.
“A carne é fraca!” – admiti, virando o rosto na direcção dele.
E eu não sabia em que mundo estava, e que ser eu era, e que loucura estava a cometer, mas também não quis saber. Beijamo-nos ali mesmo. Ele passou a sua mão grande na minha face e envolveu-me nos seus lábios, que eu agarrei profunda mas levemente. Uma onda de choque percorreu a sala. Os alunos cochicharam, outros abafaram sorrisos marotos. Eu sorri. Senti-me rebelde! Onde é que eu algum dia imaginei beijar alguém em contexto de sala de aula? Nunca, mas era tão bom! Aquele fogo despertou-me.
Levei com uma borracha na cabeça e larguei Gustavo, para saber quem foi o engraçadinho. Então vi o cenário. Ivo controlava a professora para ela não se virasse de costas para o quadro e nos encarasse aos beijos, e os outros alunos lançaram-nos simultaneamente olhares de “Estais loucos?” e “São loucos!”. Naquele momento já ninguém podia duvidar que estávamos juntos, fosse de que forma fosse. Alguns pareciam agradados com a ideia, outros sem reacção e uma rapariga ou outra mostrara-se descontente e enciumada, mas no geral o cepticismo tomou contada da sala.
Fitei Gustavo, mas ri da situação:
-Provocaste-me!
-Não consegui resistir. – ele mordeu o lábio de forma provocante – Começa a arrumar as tuas coisas, rápido!
-Para quê?
-Está quase a tocar! – Ele piscou-me o olho, mas eu, mesmo com o meu estranho dom de captar as emoções, não consegui entender o que ele pretendia.
Obedeci quando o vi a fazer o mesmo com os seus pertences.
A campainha tocou ele pôs-se a pé como quem ia atrasado para o comboio:
-Anda comigo, depressa!
Dei-lhe a mão e saímos os dois a correr, antes de todos os outros. Descemos as escadas rapidamente, e enquanto as portas das salas se abriam para expulsar os alunos, nós saímos do pavilhão como flechas. Gustavo guiou-me até um aglomerado de arvores, e a uma velocidade que eu não controlei, ele empurrou-me violentamente contra o tronco de uma arvore e beijou-me fugazmente. Fiquei surpresa com toda aquela vontade, mas não fui forte o suficiente para o separar de mim, e deixei que as suas mãos entrassem por baixo do meu top e acariciassem a minha pele, enquanto me mantinha com os braços apoiados nos seus ombros, desfrutando do sabor do seu beijo.
-diz lá que não sentiste a minha falta desde ontem! – Ele brincou, com a boca ainda próxima da minha, enquanto o seu nariz acariciava a minha pele facial.
Sorri e empurrei-o pelo abdominal:
-Acho que me aguento bem!
-Pelos vistos sou o único fraco aqui…
Ele voltou a tomar os meu lábios, não tão bruscamente, mas também não mais calmo. O frenesim dos nossos corpos era nítido, todavia, óptimo.
Mais uma vez afastei a minha boca da sua e encostei a cabeça ao tronco áspero da arvore:
-Eu não sou assim! – Disse-lhe.
Ele fitou-me rapidamente, confuso:
-Assim como?
Respirei fundo e não o deixei beijar-me novamente:
-Eu sei que provavelmente me vais achar uma idiota aborrecida, mas… Eu não sou o tipo de namorada que te beija a toda a hora e que dedica todos os seus minutos a ti! – Ele franziu as sobrancelhas, indiferente ao que lhe dizia – Nós temos amigos, e eu quero que os preservemos! não vou deixar de passar tempo com a Liliana ou seja com quem for, e não quero que tu te desligues dos teus parceiros!
-Isso não vai acontecer. - prometeu, pronto para me beijar novamente.
Eu impedi-o:
-Também não quero armar-me em lambona e melosa!
Ele fez um esgar e deu um passo de recua de mim:
-Ewh! Assim tornas os nossos beijos nojentos! Não são, pois não? – quis confirmar.
Eu ri-me:
-Eu não os acho! Mas… - passei os meus braços em redor do seu pescoço e encostei-me mais a ele – Acho uma falta de educação beijarmo-nos a torto e a direito junto ás outras pessoas, especialmente se estivermos todos a ter alguma conversa!
Ele torceu os lábios e olhou o céu, pensativo:
-Tu és virgem, não és? – Inquiriu de repente.
-Desculpa?!
Aquela pergunta era tão dele! Indiscreta!
Ele sorriu, trapaceiro:
-Não é nada disso! A Susana anda com a mania dos horóscopos! Tenho a certeza que és virgem, és uma seca!
Dei-lhe um sapatada no braço e larguei-o, fingindo-me de ofendida:
-Por acaso não sei o meu signo, já que a minha data de nascimento não é certa, mas… Se é isso que tu achas!
Virei costas, fazendo-o pensar que eu me ia embora chateada, apesar de não ter intenções de o fazer. Ele agarrou-me a coxa do braço e impediu-me deslocar. Aproximou-se de mim e beijou a minha face, perto da orelha:
-Mas eu gosto de ti assim…! – sussurrou.
Contorci-me arrepiada:
-já desconfiava!
-Então… - ele passou o dedo indicador pelo contorno do meu maxilar – Não te posso beijar quando quiser?
-Podes… Mas com moderação. – respondi.
-E quando só estamos nós os dois?
Ele sorriu e mordeu o lábio.
-Aproveita bem! – Pisquei-lhe o olho, de forma incentivadora.
As nossas bocas voltaram a bailar numa sintonia perfeita e vibrante.
“A carne é fraca”
Espero comentários, meus leitores preguiçosos!
Aproveito e desejo os parabens á minha amiga Cristina, que me inspirou para criar a personagem Cristina, melhor amiga da Lana! lol!
bjokas
Mas é fofo, vá! 
Como só a Ana é que deu opinião eu em principio posta outra vez sexta. Até lá, boa leitura!
Capitulo XXII - A carne é fraca - 2ª parte
E assim foi. Só no momento em que ele me disse aquilo é que entendi que as ferias tinham terminado, mas o lado positivo era que o ia ver todos os dias, ainda que não tão perto. Quando cheguei a casa, preparei tudo, respondendo a um questionário por parte de Helen, que queria saber tudo o que tinha acontecido, mas, bem, ela não precisava de saber todos os pormenores, portanto só lhe disse algumas coisas sem grande importância para si!
No dia seguinte, o despertador tocou, irritante como sempre. Felizmente ainda reinava o sol, dava mais vontade para sair de casa, porem, tive pena de não poder vestir algo claro. Tive de voltar a assumir toda aquela escuridão aborrecida, e sair de casa mal-humorada! Que idiotice, estava farta de tanto teatro! Entrei no autocarro, assustei o motorista e os alunos! Cheguei á escola, assustei os mais jovens! Por favor!
-Lana! – Virei-me de costas.
Liliana vinha a correr ter comigo, animada como a manha! Sorri-lhe, divertida, e ela saudou-me com dois beijos.
-Não tinhas saudades da escola?
Franzi o sobrolho:
-Não!
Ela pouco se importou. Começou a falar de uma dança qualquer que viu na TV, até que Lau surgiu e a interrompeu, dirigindo-se a mim, empolgada:
-Conta-me tudo! – Guinchou – Eu sempre soube que ele gostava de ti, mas tu és tão lenta que não conseguias ver!
Senti um formigueiro nas maças do rosto. Já sabia do que ela estava a falar:
-Era a isto que te referias quando me mandavas aquelas indirectas sobre eu não entender o que se passava á minha volta?!
-Yap! – Confirmou.
-Estais a falar do Gustavo? – Liliana sorriu, como se se tivesse lembrado de algo importante – Tu já sabias, Lau?
-Era impossível não saber! Vá, agora diz-me, há quanto tempo estais juntos?
-Lau, não me faças perguntas, não te vou responder a nada!
Virei costas e suspirei. Era um pouco embaraçoso para mim falar destas coisas.
-Não me faças isto! – Ela quase choramingou – Diz-me! como foi! Quem deu o primeiro passo, tu ou ele?
-Alguém tem fome? – Questionei, fingindo não ouvir o que ela dizia.
-Lana não mudes de assunto! – Pediu, Liliana.
-Vou ao bar! – Informei dando os primeiros passos para me afastar.
Eles seguiram-me enchendo a minha cabeça de perguntas, ás quais eu nem reagia.
Subi as escadas que davam acesso á cafetaria e olhei-as:
-Parem com isso, a escola toda não precisa de saber a minha vida!
Elas mandaram-me um olhar penoso ao mesmo tempo, mas eu ignorei!
Quando chegamos ao local em questão, já havia alunos a mastigar e engolir tudo o que era comestível. O ambiente denso de auras causou um leve incomodo na minha mente, mas eu logo a consegui bloquear. Avistei algumas raparigas da nossa turma e mirei Laura e Liliana que se mostravam amuadas comigo:
-Querem ir ter com elas? – Perguntei, com um olhar provocador.
Liliana ergueu o queixo e deu-me um encontrão, passando por mim para seguir até ao grupo feminino:
-De qualquer forma só acredito quando vir!
Pisquei o olho a Lau e ela suspirou, mas seguiu-nos.
Lili abraçou Natacha com todas as suas forças, e Lau fez o mesmo com Verónica. Eu também o faria se tivesse Cristina ali, suponho.
-Onde está a Rebeca? – perguntei calmamente.
Liliana lançou-me um olhar mortífero, mas Natacha respondeu sem hesitar:
-Não faço ideia, ela esteve desaparecida as férias todas e não contactou ninguém. Provavelmente foi para fora e só chega daqui a uns dias.
-Hum… - Franzi as sobrancelhas. Outra vez o ar de mazinha, mas desta vez não consegui evitar.
Laura estranhou a minha reacção mas começou a falar animadamente com a amiga. Entretanto juntaram-se mais três colegas e ficaram todas a conversar animadamente sobre os acontecimentos mais animados das suas vidas.
Olhei em redor, alheia á conversa até que me senti observada e encarei Joana e Rui. Revirei os olhos ao aperceber-me que continuavam persistentes comigo, apesar de se mostrarem divertidos com o seu grupo e por isso não virem ter comigo.
-Puxa, Lana, isso vai deixar marca! – Comentou Natacha.
Fitei-a rapidamente, apanhada desprevenida:
-O quê?
-O golpe no pescoço! – Completou Verónica – É maior do que julgávamos! Deve ter doido!
Dei de ombros:
-Doeu. - Admiti – Mas felizmente está quase cicatrizado!
-Gostaste das tuas ferias? – Quis Natacha saber, sorridente.
Olhei para o teto e escondi um sorriso:
-Uma parte delas!
-Oh, as minhas foram óptimas! – Ela disse, entusiasmadíssima – o Sérgio veio ter comigo quase todos os dias e depois…
Não consegui evitar de sorrir. Ela movia os lábios e soltava as palavras apressadamente, mas cheia de alegria e entusiasmo. Verónica alternava com ela, comentando também o que havia acontecido com o seu amado, que eu nem sequer conhecia, todavia eu só conseguia cantarolar mentalmente “O Gustavo é meu namorado! Ele fez-me um piquenique! Nha nha nha nha nha! Toma, toma, toma!”. Sentia-me uma autentica criança! Era tão bom!
Lau mordeu o lábio, enquanto me virava, e esboçou um sorriso maroto que eu não entendi.
Mas então, um rosto encaixou no meu pescoço, ao mesmo tempo que uns braços rodearam a minha barriga para minha admiração.
-Já viste o filme “A princesa e o sapo”?
Calou-se tudo. É, calou-se mesmo. Acho que tanto as raparigas que me acompanhavam, como os rapazes com quem ele chegara, e até mesmo algumas, reduzidas, atenções daquela cafetaria, incidiram em nós. Virei a minha face para encara-lo. Não esperava minimamente não o sentir aproximar-se, mas sorri, feita idiota:
-Era suposto ter visto?
Gustavo sorriu-me e depois fez um esgar:
-A minha irmã obrigou-me a vê-lo com ela para compensar a ausência que lhe dei ontem… - Ele revirou os olhos e suspirou. O seu hálito bateu no meu e eu estremeci – Não consigo tirar uma musica da cabeça! Tens de dança-la comigo!
Natacha passou por nós, de sobrolho franzido e beijou Sérgio, que também nos olhava pasmado.
Franzi as sobrancelhas:
-Estás louco!
-É, acho estou a interiorizar isso! – ele sorriu e deu-me um beijo na bochecha.
Liliana coçou a cabeça, atrapalhada, e entreolhou os outros, que se mostravam confusos.
Senti-me tão parva, tão palerma! As minhas reacções eram tão estúpidas! Não corei, mas sorri que nem uma idiota e desviei o olhar para o chão, envergonhada por ter tantas atenções postas em nós. Gustavo não era lerdo e riu da minha reacção, soltando a minha cintura e virando-me para ele:
-Criancinha! – acusou em tom de troça.
-Velhaco! – Ripostei, cruzando os braços.
-Eu? - Ele fez um ar de perplexidade - Eu estou fresco, amor!
Gustavo não me tinha chamado aquilo, tinha?
Dei-lhe uma sapatada no braço:
-Estás fresco, estás! – ironizei.
Ele esboçou um sorriso torto, passando o seu braço por cima dos meus ombros quando o toque da campainha tocou, e guiou-nos para sair daquele local e irmos para a sala. Os nosso colegas seguiram-nos, falando meio constrangidos com a nossa situação.
Ele olhou-me de cima a baixo e fez uma careta:
-O que foi? – perguntei, incomodada.
-Preto… - Murmurou sisudo – Não é justo, já não estou habituado!
-Habitua-te! – Mandei, fingindo-me desinteressada pelo que ele sentia.
-Não! Tira isso!
-Claro, e desfilo nua, não?
Ele sorriu:
-Não era mal pensado!
-Estúpido!
-Sabes o que significa essa palavra no meu dicionário?
Olhei-o pelo canto do olhos, desconfiada:
-Até tenho medo da resposta.
Ele sorriu, com malandrice:
-Sexualmente apetecível! – Respondeu.
Olhei para o céu como se reflectisse e dei de ombros:
-está bem… não posso discordar!
Ele corou. Era raro faze-lo, mas aconteceu. Sorri orgulhosa:
-Consegui fazer-te corar, viva eu!
Ele olhou o chão, constrangido e depois o céu, humedecendo os lábios. Sorri amavelmente e ele encarou-me, enquanto a sua epiderme voltava ao normal:
-Eu envergonho-te muitas vezes, mas a única coisa que fazes é caretas! Como é que é possível eu nunca te ter feito corar?
-Eu não coro! – Expliquei - A minha pele é sempre amarelada!
-Que idiotice, tu não és amarelada! És tipo… Bronzeada? – Palpitou.
Dei de ombros:
-No verão fico mais!
-Sempre gostei de morenas! – Ele sorriu-me
-Sempre gostei de loiros! – Sorri-lhe de retorno e soltei-o para entrar no bloco de aulas.
Pus a mão na cabeça, incomodada com tantos espíritos diferentes e mordi o lábio. Gustavo não viu a minha cara, mas vinha sempre atrás de mim, enquanto subíamos as escadas para chegar á sala.
Acho que todos ficamos aborrecidos quando percebemos que a professora de inglês já tinha entrado na sala. Cumprimos o nosso papel e entramos também naquela divisão escolar.
Gustavo passou a mão no meu cabelo e roubou-me uma das fitinhas de seda lilases que se entrelaçavam com pequenas mechas do meu cabelo castanho, adornando-o discretamente. Olhei-o de soslaio, sem saber porque o fizera, mas dirigi-me ao meu lugar individual no fundo da sala.
-Good Morning, classe! – Exclamou a professora, tão aborrecida como nós pelo recomeço das aulas.
-Good mornig, teacher! – Dissemos todos em uníssono.
Suspirei entediada e peguei nos meus cadernos e lápis. Olhei em meu redor em busca de Rebeca. Ela não estava, para meu descontentamento. A professora deu inicio á aula. Tentei não me desconcentrar, mas era complicado, já não estava habituada ao horário e o sono apertava comigo. Bocejei discretamente e comecei a fazer desenhos totalmente abstractos nas margens do caderno. A professora mandou-nos fazer uns exercícios do livro, para depois os corrigir no quadro. Fiz os meus em poucos segundos e depois olhei para o relógio que parecia ter parado. Os alunos começaram a ser chamados para irem corrigir os exercícios ao quadro.
-Ivo! – Chamou a professora – Come here, please!
Ivo estava sentado junto do meu namorado, impedindo que nós nos conseguíssemos ver. Mal ele se levantou, Gustavo trocou um olhar comigo, fazendo-me sorrir, inevitavelmente. Ele tinha a minha fita de seda entrelaçada nos seus dedos, perto do seu nariz, como se a cheirasse.
Baixei o meu olhar timidamente e depois atentei no quadro.
Acho que só um surdo não ouviria aquilo. A mesa ao meu lado arrastou-se ruidosamente levando consigo duas cadeiras, até se colar á minha. Todos olharam para ver o que tinha sido aquilo, e a professora fez um ar de poucos amigos. Procurei um buraco para em enterrar:
-Gustavo, o que estás fazer? –Interrogou a professora, batendo o pé.
Ele sorriu encantadoramente:
-Desculpe professora, mas quero confirmar um exercício com a minha colega, acho que o Ivo tem mal!
“Que mentiroso!” pensei, contendo um sorriso.
A professora franziu as sobrancelhas, pouco convencida, e Ivo fez um ar de vingança a Gustavo por ele tê-lo envolvido na situação.
-não te desconcentres! – Avisou a professora, desconfiada.
-Claro que não! – o seu ar de troça era tão evidente, como é que ela virou costas novamente?
Alguns colegas, contudo, continuaram a ver o que ele estava a fazer. Gustavo mudou-se para a cadeira de Ivo, ficando ao meu lado, e sorriu:
-Qual é a ideia? – sussurrei.
Ele deu de ombros:
-A aula está chata! – respondeu.
Apertei os lábios para não sorrir.
Gustavo inclinou-se para mais perto de mim:
-Lala, Estive a pensar…
-“Lala”?! - Interrompi – desde quando é que me chamas isso?! – Questionei, aparvalhada.
-Desde agora! – Ele disse, como se fosse obvio – Podes chamar-me “Gugu” se quiseres!
Não me controlei e soltei um riso que abafei rapidamente com a mão para não chamar a atenção da professora. Alguns alunos, porem olharam-nos, enquanto eu tentava calar as minhas gargalhadas.
-Não sufoques! – Advertiu Gustavo, preocupado – Qual é a graça? A minha avó chamava-me isso quando eu era pequeno!
-Quando eras pequeno! – Relembrei, mordendo os lábios - Eu não te vou chamar isso!
-Pronto, tu é que sabes! Não é fofo? – Ele fez aquela questão como se quisesse entrar na minha personagem.
-É piroso!
Ele sorriu, feito idiota, e fez voz de mel:
-Lala, vamos dizer coisas pirosas um ao outro?
Olhei-o divertida:
-Claro, chuchuzinho, o que me querias dizer?
-Estava a dizer que a minha abelhinha ainda não me picou hoje!
“Abelhinha”?!
-O quê?
-Ainda não me beijaste!
Fixei-o surpreendida:
-E depois?
-Eu quero! – Respondeu, como se fosse uma criança mimada.
-Aguenta-te! – Respondi, encarando o quadro.
Ele fez um pranto e deu com a cabeça em cima da mesa, chamando novamente as atenções alheias:
-Gustavo?! –A professora parecia fula, mas preocupada.
Ele levantou a cabeça e encarou-a:
-O exercício está mal! – Desculpou-se.
-Então toma atenção é correcção!
-É o que eu estou a fazer!
Ela acenou com a cabeça e olhou-o pelo canto do olho.
Ele fingiu estar a escrever no caderno e ela sossegou.
-És mesmo mentiroso! – murmurei, tentando não rir.
-Beija-me! – pediu.
Arqueei a sobrancelha:
-Espera, está quase a tocar!
Ele aproximou a boca do meu ouvido, e roçou o nariz no meu cabelo:
-Mas eu quero agora! – sussurrou, com voz grave.
Senti um calor no peito de repente.
-Isso são provocações? – quis saber.
Ele deu-me um beijinho no maxilar. Quase saltei da cadeira, arrepiada. Onde estavam as minhas pernas?!
-estamos em aula! – Relembrei, mordendo o lábio e cerrando as mãos debaixo da mesa.
Senti-me observada, mas queria lá saber. Já sabia que eram os poucos colegas que nos coscuvilhavam. As suas auras distintas não enganavam. Gustavo passou os dedos no meu pescoço, sob a cicatriz que eu tinha:
-A carne é fraca… - murmurou.
“A carne é fraca!” – admiti, virando o rosto na direcção dele.
E eu não sabia em que mundo estava, e que ser eu era, e que loucura estava a cometer, mas também não quis saber. Beijamo-nos ali mesmo. Ele passou a sua mão grande na minha face e envolveu-me nos seus lábios, que eu agarrei profunda mas levemente. Uma onda de choque percorreu a sala. Os alunos cochicharam, outros abafaram sorrisos marotos. Eu sorri. Senti-me rebelde! Onde é que eu algum dia imaginei beijar alguém em contexto de sala de aula? Nunca, mas era tão bom! Aquele fogo despertou-me.
Levei com uma borracha na cabeça e larguei Gustavo, para saber quem foi o engraçadinho. Então vi o cenário. Ivo controlava a professora para ela não se virasse de costas para o quadro e nos encarasse aos beijos, e os outros alunos lançaram-nos simultaneamente olhares de “Estais loucos?” e “São loucos!”. Naquele momento já ninguém podia duvidar que estávamos juntos, fosse de que forma fosse. Alguns pareciam agradados com a ideia, outros sem reacção e uma rapariga ou outra mostrara-se descontente e enciumada, mas no geral o cepticismo tomou contada da sala.
Fitei Gustavo, mas ri da situação:
-Provocaste-me!
-Não consegui resistir. – ele mordeu o lábio de forma provocante – Começa a arrumar as tuas coisas, rápido!
-Para quê?
-Está quase a tocar! – Ele piscou-me o olho, mas eu, mesmo com o meu estranho dom de captar as emoções, não consegui entender o que ele pretendia.
Obedeci quando o vi a fazer o mesmo com os seus pertences.
A campainha tocou ele pôs-se a pé como quem ia atrasado para o comboio:
-Anda comigo, depressa!
Dei-lhe a mão e saímos os dois a correr, antes de todos os outros. Descemos as escadas rapidamente, e enquanto as portas das salas se abriam para expulsar os alunos, nós saímos do pavilhão como flechas. Gustavo guiou-me até um aglomerado de arvores, e a uma velocidade que eu não controlei, ele empurrou-me violentamente contra o tronco de uma arvore e beijou-me fugazmente. Fiquei surpresa com toda aquela vontade, mas não fui forte o suficiente para o separar de mim, e deixei que as suas mãos entrassem por baixo do meu top e acariciassem a minha pele, enquanto me mantinha com os braços apoiados nos seus ombros, desfrutando do sabor do seu beijo.
-diz lá que não sentiste a minha falta desde ontem! – Ele brincou, com a boca ainda próxima da minha, enquanto o seu nariz acariciava a minha pele facial.
Sorri e empurrei-o pelo abdominal:
-Acho que me aguento bem!
-Pelos vistos sou o único fraco aqui…
Ele voltou a tomar os meu lábios, não tão bruscamente, mas também não mais calmo. O frenesim dos nossos corpos era nítido, todavia, óptimo.
Mais uma vez afastei a minha boca da sua e encostei a cabeça ao tronco áspero da arvore:
-Eu não sou assim! – Disse-lhe.
Ele fitou-me rapidamente, confuso:
-Assim como?
Respirei fundo e não o deixei beijar-me novamente:
-Eu sei que provavelmente me vais achar uma idiota aborrecida, mas… Eu não sou o tipo de namorada que te beija a toda a hora e que dedica todos os seus minutos a ti! – Ele franziu as sobrancelhas, indiferente ao que lhe dizia – Nós temos amigos, e eu quero que os preservemos! não vou deixar de passar tempo com a Liliana ou seja com quem for, e não quero que tu te desligues dos teus parceiros!
-Isso não vai acontecer. - prometeu, pronto para me beijar novamente.
Eu impedi-o:
-Também não quero armar-me em lambona e melosa!
Ele fez um esgar e deu um passo de recua de mim:
-Ewh! Assim tornas os nossos beijos nojentos! Não são, pois não? – quis confirmar.
Eu ri-me:
-Eu não os acho! Mas… - passei os meus braços em redor do seu pescoço e encostei-me mais a ele – Acho uma falta de educação beijarmo-nos a torto e a direito junto ás outras pessoas, especialmente se estivermos todos a ter alguma conversa!
Ele torceu os lábios e olhou o céu, pensativo:
-Tu és virgem, não és? – Inquiriu de repente.
-Desculpa?!
Aquela pergunta era tão dele! Indiscreta!
Ele sorriu, trapaceiro:
-Não é nada disso! A Susana anda com a mania dos horóscopos! Tenho a certeza que és virgem, és uma seca!
Dei-lhe um sapatada no braço e larguei-o, fingindo-me de ofendida:
-Por acaso não sei o meu signo, já que a minha data de nascimento não é certa, mas… Se é isso que tu achas!
Virei costas, fazendo-o pensar que eu me ia embora chateada, apesar de não ter intenções de o fazer. Ele agarrou-me a coxa do braço e impediu-me deslocar. Aproximou-se de mim e beijou a minha face, perto da orelha:
-Mas eu gosto de ti assim…! – sussurrou.
Contorci-me arrepiada:
-já desconfiava!
-Então… - ele passou o dedo indicador pelo contorno do meu maxilar – Não te posso beijar quando quiser?
-Podes… Mas com moderação. – respondi.
-E quando só estamos nós os dois?
Ele sorriu e mordeu o lábio.
-Aproveita bem! – Pisquei-lhe o olho, de forma incentivadora.
As nossas bocas voltaram a bailar numa sintonia perfeita e vibrante.
“A carne é fraca”
Espero comentários, meus leitores preguiçosos!

Aproveito e desejo os parabens á minha amiga Cristina, que me inspirou para criar a personagem Cristina, melhor amiga da Lana! lol!
bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Gugu xDDD
A sério, eu não em teria controlado. Dava uma gargalhada que a tora até me poria na rua xDD
Capitulo cheio de mel.. mas fofo sim. As caras de toda a gente quando vêm a Lana e o Gugu a beijarem-se (acho que vou começar a chama ro Gustavo de Gugu.. tao fofinho..) x)
Espero que o Gugunão seja um namorado tao meloso e 'colas'.. caso contrário, a Lana ainda se farta dele antes do fim da fanfic
Espero por mais..
A sério, eu não em teria controlado. Dava uma gargalhada que a tora até me poria na rua xDD
Capitulo cheio de mel.. mas fofo sim. As caras de toda a gente quando vêm a Lana e o Gugu a beijarem-se (acho que vou começar a chama ro Gustavo de Gugu.. tao fofinho..) x)
Espero que o Gugunão seja um namorado tao meloso e 'colas'.. caso contrário, a Lana ainda se farta dele antes do fim da fanfic

Espero por mais..
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
Como não reli o capitulo tenho a certeza que há pormenores que eu gostava de ver alterados. No entanto, estou sem vontade de o corrigir, e por isso espero apenas que gostem do capitulo. Relembro que, vá, o Gustavo e a Lana são namorados, portanto cenas melosas podem acontecer (nao sei se é o caso, pois nao me lembro ao certo como é o capitulo, mas peço que tenham paciência!
')
Capitulo XXIII - Letícia
Ajeitei as fitinhas do meu cabelo, que ficaram ainda mais desarrumadas depois daquela escapadela romântica. Sentia um gosto suave nos lábios, e não conseguia evitar de humedece-los constantemente enquanto regressava sozinha para a próxima sala, sorrindo com descrição. Gustavo tinha ido ao bar e eu decidi ir ter com Liliana, que devia estar louca por nossa culpa. Subi as escadas, enquanto entrançava a ultima fita no cabelo e cantarolava interiormente a musica que dava cabo do juízo de Gustavo desde que vira o filme com a sua irmã na noite anterior.
-Lana, sua maluca! – O grito ecoou por todo o bloco.
Levantei o olhar e fiz-me de desentendida a Natacha, Liliana, Lau e Verónica.
-O que é que eu fiz? – perguntei, tentando não sorrir… Demasiado.
-Ainda perguntas, desmiolada!? – Liliana cruzou os braços.
-Estávamos em aula! – Completou Lau.
-Desde quando é que tu e o Gustavo estais juntos?!
-Ahm… - Não sabia o que dizer a nenhuma delas – Eu… A culpa é dele! – Acusei, infantilmente.
Elas riram ao mesmo tempo e entreolharam-se:
-Eu nem consigo acreditar! – Verónica suspirou animada – A Lau sempre disse que havia qualquer coisa entre vocês os dois, mas eu ultimamente via-vos tão distantes que nunca pude imaginar!
Humedeci os lábios outra vez, e olhei o chão, timidamente. Lau sorriu:
-Oh, és tão tímida! – Ele apertou-me as bochechas – Que querida!
-Lau, pára! – Tentei não sorrir e soltei-me dela.
Ela riu e entreolhou as outras:
-Conta-nos como foi! – Pediu Natacha - Como é que vocês começaram a andar?
Dei de ombros:
-Começando!
Liliana rodeou os meus ombros e soltou uma breve risada:
-Na minha casa! – Exclamou –Eles beijaram-se na noite em que a família dele veio lá a casa! Depois de ele a ensinar a dançar!
-Não posso! – Verónica riu.
-Lili, assim deixas-me embaraçada! – Retorqui mordendo os lábios – Odeio ser o centro das atenções!
-Desculpa?! – Lau parecia chocada - Tu tens noção que beijaste o Gustavo durante uma aula?! Eu acho que vai ser o assunto mais badalado da escola!
-Que exagero!
-Lana, Vocês estavam em aula, com uma professora por perto! Se o Ivo não a tivesse distraído, nem sei que teria acontecido!
Verónica penteou os cabelos longos com os dedos e fixou-me densamente:
-O que é que vos passou pela cabeça?
Sorri:
-Ele provocou-me! Não sei como o faz, mas é… Incontrolável! – concluí.
-Uau! Estás completamente babada por ele!
-Não estou nada!
Pousei as minhas coisas á porta da sala e arranjei a minha camisola, ao aperceber-me que estava um pouco amarrotada. Verifiquei pela ultima vez se as fitinhas de seda estavam bem colocadas e encostei-me á parede, á espera do toque para a próxima aula. Escutei passos apressados a subir as escadas, uma respiração ofegante, mas uma aura radiante, acompanhada por mais algumas, vulgares, mas também animadas.
Darla correu até nós, entusiasmada:
-Não vamos ter matemática! – Anunciou, num guincho histérico.
-O quê? – Perguntamos todas.
Ela olhou-me de soslaio, meia enciumada, e depois retomou á noticia:
-O professor foi passar férias e partiu uma perna a fazer desporto! Está de baixa!
A boa disposição contagiou-se por todas nós. Não quisemos esperar mais ali e fugimos a qualquer hipótese de aula de substituição. Decidi ir procurar Gustavo ao bar, mas ele já não estava lá. Estranhei não me ter cruzado com ele, mas não me importei. Eu e as minhas colegas resolvemos lanchar e aproveitar o tempo livre. Sentamo-nos numa mesa da cafetaria, enquanto os restantes alunos se iam afastando por causa do sinal de entrada.
Coloquei os auriculares nos ouvidos, para disfarçar a minha falta de atenção ás suas conversas e rabisquei uma folha de papel, com os pensamentos noutro mundo. Os rapazes surgiram entretanto, entre os quais, o “meu”, todavia ele respeitou o que eu lhe pedira e não fez nenhum “filme” para os nossos colegas, que por acaso estranharam a nossa “abstinência”. Mais tarde, vieram ter connosco as raparigas que restavam, entre elas Letícia. Fiz de conta que não me apercebi da sua chegada, e muito menos do olhar que lançou a Gustavo, apesar de o meu sangue ter fervilhado naquele momento. Ele manteve-se perto de mim o tempo todo, e durante o resto do dia de aulas, conversamos, sobretudo, sobre temas idiotas e sem nexo, mas que ainda assim tinham a sua piada e me faziam sentir bem. Os beijos que trocamos eram leves e efémeros, mas era melhor assim, nunca saberíamos que asneiras cometeríamos se nos deixássemos levar por todos os impulsos.
No dia seguinte porem, apercebi-me que a minha tentativa de controlar o meu corpo era frustrada. Algo em mim, que eu não sabia o que era, despertou juntamente comigo naquela manha. Parecia que faltava algo, que o meu ser precisava de alguma coisa que eu não conseguia alcançar naquele momento para me sentir completa. Eu sabia o que era. Eu própria tinha de admitir que era irresistível beijar Gustavo de forma fugaz. Parecia que a minha ideia de me controlar era como um jejum que me deixava inquieta e frenética! Por causa disso, naquele dia eu quis ser rápida a vê-lo. Vesti uma roupa preta, mas mais normal do que o costume, e coloquei menos maquilhagem nos olhos. Queria sentir-me melhor ao seu lado, mais natural, como ele preferia. Apanhei o autocarro e bati o pé até chegar á escola, sentindo que a viagem era demasiado lenta para o meu gosto.
Quando cheguei á escola foi um alivio. Procurei por alguém conhecido, e Verónica foi a primeira que apareceu. Ela não era a melhor companhia para mim naquele momento, aliás ninguém era, mas não me importei de escutar e responder-lhe consoante as conversas. Subimos as escadas e depois demos a volta a um dos blocos de aula, chegando a uma zona com relvado, arvores e alguns bancos. Estavam poucas pessoas por ali, mas as que estavam eram suficientes para mostrarem que havia gente naquela escola.
Foi aí que a minha visão de arrastou até um casal. Fiquei sem sangue no rosto mas respirei fundo, tentando controlar a minha parte vingativa.
-Olha, estão ali o Gustavo e a Letícia! – Disse Verónica, sem se aperceber que eu já os tinha avistados.
Observei-os um pouco. Estavam os dois sentados num banco, e conversavam animada, mas calmamente. Letícia sorria. O brilho do seu olhar era intenso e cativante, e reluzia conforme os movimentos rápidos dos seus lábios, sempre tortos pelos sorriso, enquanto as mãos gesticulavam dinamicamente. Gustavo sorria-lhe de volta. Aquele seu sorriso amável, querido e atencioso, que ás vezes esboçava só para mim. Respondia-lhe sempre, também alegre e nitidamente feliz.
Senti as minhas bochechas arderem e mordi o lábio inferior, ao mesmo tempo que arranhava os meus braços com descrição, com as minhas unhas afiadas. Verónica deu um passo á frente, ignorante:
-Vem, tenho a certeza que já estavas com saudades do teu namorado! – Troçou.
Tentei sorrir e segui os seus passos, convicta que conseguiria chegar perto deles normalmente, mas logo após cinco passos lentos, travei-me bruscamente. Letícia fora rápida e ágil. Num momento apenas falavam, com olhares cúmplices, e noutro, ela lançou-se para os braços dele e abraçou-o com força, sendo retribuída sem hesitação, e tendo ainda um “bónus” do MEU namorado! Ele beijou-a! Foi na cara, mas foi um beijo!
Cerrei os dentes e virei costas, furiosa. Verónica quase não teve tempo de me ver correr. A ultima coisa que vi foi o olhar de Letícia cruzar-se com o meu, mas não quis saber o resto.
Voltei a rodear o pavilhão, a um passo acelerado e tentei controlar a minha respiração. Estava presa e tinha vontade de gritar de ódio! Para melhorar a situação os olhos ardiam e dificultavam a vista! Que raiva!
-Lana, espera!
As voz não era de Verónica nem de Gustavo. Era mais aguda, ainda que não tão irritante como das primeiras vezes que a escutara. Parei de andar e voltei-me num reflexo rápido. Letícia parou á minha frente ofegante e sorriu:
-Não foi nada do que estás a pensar! – Disse, acalmando a respiração.
Olhei para o lado e ergui o queixo:
-Tu não sabes o que eu estou pensar!
-Ora, Lana! – Ela sorriu, subtilmente – Até parece que nunca abraçaste um amigo!
-“Amigo”! – Citei, cruzando os braços, orgulhosa - Eh!
Ela revirou os olhos e deu um passo na minha direcção:
-Pensei que só ele é que era ciumento! – Ela riu-se, como se aquilo tivesse piada.
-Eu não sou ciumenta! – Disse, elevando levemente o meu timbre – Nunca fui!
-Poupa-me! – Ela cruzou os braços – Está estampado na tua cara! Eu também seria se o Gustavo fosse meu!
-O Gustavo não tem dono.
-Tu entendeste! – Ela sorriu, meia desajeitada, com um olhar mafioso – Não precisas de ficar tão revoltada, eu não sou nenhuma ladra de namorados!
-Não, és uma obcecada que gosta de inventar gravidezes…!
Tapei boca com a mão, logo após dizer aquilo. Aqueles pensamentos não deviam ter saído da minha boca, eu não os queria falar.
-Desculpa, eu não queria dizer isto!
Letícia abriu a boca, como se tivesse levado uma facada na barriga e semicerrou os olhos:
-Então é isso?! É esse o teu problema? – A voz dela saiu magoada e fina. O seu olhar brilhou de desilusão – Por favor, pensei que fosses diferente!
Acenei com a cabeça, baralhada e dei um passo para me aproximar:
-Eu falei sem pensar! – tentei dizer.
Ela interrompeu-me:
-Não…! Tu pensaste isso! Só não pensaste que o ias dizer em voz alta! – Ela cerrou os dentes e cruzou os punhos – Nunca pensei que te guiasses pelo que as pessoas dizem! Tu mais do que ninguém, devias saber que as aparências iludem!
-Desculpa, eu juro que…
-Tu não me conheces! – Ela interrompeu – Eu entendo que sejam muitas vozes contra mim, mas eu julgava que tu eras mais esperta do que isso! Enganei-me, afinal!
Olhei para o chão. Sentia-me terrivelmente por ter dito aquilo, mas não disse nada. Ela não acreditaria:
-Vence sempre a maioria, não é? – murmurei.
Ela libertou uma lágrima, carregada de ódio. Não sei o que me deu naquele instante. O meu coração ficou apertado por vê-la assim, e o meu estômago ficou numa azia:
-Letz, desculpa eu… Eu fiquei irritada por te ver com o Gustavo.
-Pois claro, estavas com medo que eu dissesse que estava grávida dele só porque me deu um beijo na cara! – Ela disse alto, enraivecida – Tu és uma idiota!
Engoli a ofensa. Eu merecia.
-Tu não sabes a sorte que tens por o Gustavo gostar tanto de ti! – Ela verteu outra lágrima, fazendo-me abraçar mais os meus próprios braços – Se tu soubesses o que ele passou por tua culpa, nunca poderias duvidar da fidelidade dele!
-Desculpa… - Repeti.
-Eu estive mesmo grávida, estúpida! – Ela murmurou, furiosa.
Fixei-a, perplexa:
-O quê?!
Ela cerrou os punhos:
-Eu abortei porque fui obrigada! – Ela fungou com a respiração presa e tapou o rosto com as mãos, para esconder a face, envergonhada – Eu pensei que tu não te deixavas guiar pelos rumores! Mas se até tu acreditas no que as pessoas dizem, então eu estou disposta a limpar o meu nome para que ao menos confies no teu próprio namorado!
-Letícia, eu…
-O Nicholas enganou-me… - Ela disse – Aquele romeno idiota veio para cá no intercambio de há dois anos e depois de deixar todas as raparigas pelo beicinho, meteu-se comigo em segredo! – Ela cerrou os punhos e libertou mais lágrimas – E eu, grande idiota, pensei que ele realmente gostava de mim e fazia tudo por ele! Aquele traste conseguiu deixar-me cega ao ponto de me entregar a ele de corpo e alma! – Ela mordeu o lábio tremulo – Ele engravidou-me!
Desencostei-me da parede e sem reflectir muito abracei-a com forma nos meus braços:
-Desculpa, desculpa… - Lamentei – Eu nunca pensei…
Ela aceitou os meus braços e abraçou-me de volta, afogando o rosto no meu ombro:
-Eu não queria ter abortado… - Ela tentou controlar os soluços – Foi a minha mãe que me obrigou porque tinha vergonha de manchar o bom nome da família! Doeu tanto… E o Nick não quis saber, porque eu afinal só estava a atrapalha-lo desde que nos tínhamos conhecido! Como é que eu fui tão parva?
Senti os meus olhos arderem:
-Tu não tiveste culpa, ele enganou-te…
Letícia desencostou o rosto do meu corpo e encarou-me, enquanto limpava a face:
-É por isso que tu tens de confiar no Gustavo! Eu conheço-o há mais tempo que tu, mesmo que nunca tenhamos sido muito próximos, mas posso garantir-te que ele te adora acima de todas as coisas e tu não podes desperdiçar isso!
Baixei o olhar e fiz um biquinho com a boca:
-Desculpa Letie… - murmurei, entristecida. A minha voz saiu como a de uma criança tímida - Eu fui má… mas eu não gosto de ser…
Ela sorriu, sem muito humor:
-Ele tinha razão… A forma como falas faz-te parecer uma criança ás vezes…
Senti o meu rosto corar, e depois senti-me melhor ao perceber que a aura dele tinha surgido naquele local. Olhei-o timidamente e ele franziu as sobrancelhas, alternando a visão de mim para Letícia e vice versa:
-Lana? Letie? Aconteceu alguma coisa?
Ele aproximou-se analisando os nossos rostos. Desviei a minha face da sua percepção, ao contrario de Letícia que não quis esconder o que sentia.
Gustavo ficou um pouco atrapalhado e apreensivo ao mesmo tempo. Ele não sabia a quem se dirigir naquele momento, mas eu não me importava se ele preferisse reconfortar Letícia. Agora entendia que ele sabia tudo aquilo que ela me contara e por isso eram tão cúmplices, e isso reduzira a minha insegurança.
-Vocês estão bem?
Letícia tentou sorrir e abraçou-o pela barriga. Ele mostrou-se desconfortável por ela faze-lo ao meu lado, mas eu sorri-lhe, deixando-o ainda mais confuso, esperando respostas ás suas duvidas, e como que por milagre, eu senti uma onda de coragem trespassar o meu espírito.
-Letie… - murmurei. Ela olhou para mim, ainda abraçada a Gustavo e eu fitei o chão, nervosa – Eu estou aqui porque… - Respirei fundo e cerrei os olhos – Ia sendo… violada…!
Gustavo tremeu com a minha confissão. Letícia desencostou a cabeça do peito dele e manteve-se vidrada em mim. Engoli a seco e sem conseguir olhar nenhum deles, prossegui:
-Eu visto-me assim para me tentar esconder porque tenho medo de ser encontrada por alguém que me faça mal, e assim sempre posso parecer mais forte…
Tentei sorrir sem sucesso, e não retirei o meu olhar do chão.
-Lana… - Gustavo estendeu-me a sua mão, e quando eu lha dei, puxou-me delicadamente para os seus braços junto de Letícia. Fechei os olhos e abracei-os aos dois, concentrando-me totalmente no cheiro de Gustavo, tão protector e bom.
-Lana, eu… - Ele sorriu, detendo o eu ia dizer – Te iubesc…
Letícia sorriu para mim, e depois para ele surpreendida.
-Porque não lhe dizes em português? – perguntou.
-Porque ela me impede!
Franzi as sobrancelhas.
-Eu? Eu não te impeço de dizer nada. – murmurei, olhando-o, sem saber ao que se referia – O que significa Te…Buiesc? – Tentei acertar na palavra, mas foi em vão.
-Te iubesc! – Corrigiu Letícia, de uma forma muito mais rápida e estranha do que Gustavo, rindo melodiosamente do meu erro – Diz-lhe Gustavo!
Senti o coração dele acelerar o “tun-tun” e a sua pele pareceu aquecer. Ele corou levemente e eu sorri:
-Diz-me. – pedi, apertando-o mais nos meus braços. Ele apertou também o meu corpo contra o dele, com Letícia amparada no outro braço sem fazer confusão. Ele olhou-me nos olhos, sem qualquer indicio de mentira ou graça em mente, e declarou, com voz grave e agradável:
-Eu amo-te…
Descolei os lábios e pestanejei, apanhada desprevenida. Senti borboletas enormes no estômago, e fiz uma careta, constrangida:
-Ohm…
Ele sorriu e deu-me um beijo na testa:
-Eu disse que não ias gostar de ouvir! Agora vou ter de procurar noutro idioma para tu não saberes que eu te digo isto!
Letícia sorriu:
-Mas ela gosta! – Corrigiu – Só que fica atrapalhada e por isso prefere que não digas para não ficar sem saber o que fazer!
Ela sorriu e mordeu o lábio.
-Que língua é essa? – Tentei mostrar-me á vontade, mas acho que eles perceberam.
-Romeno! – Clarificou Letícia.
-Oh…
Gustavo deu um beijo na testa de cada uma de nós:
-Minhas L’s – chamou – Vocês sabem que já tocou para a aula há cerca de 10 minutos ou mais?
-O quê?
Nós as duas entreolhamo-nos, chocadas:
-E só agora é que avisas?
Ele sorriu:
-Antes tarde que nunca, vamos?
Ele limpou o rosto de Letícia, que estava marcado pelas lágrimas já secas, e deu-nos as mãos para nos puxar ás duas. Libertei uma lufada de ar:
-Era mau demais não fazer a aula e ficar só a assistir?
Letícia lançou-me um olhar cúmplice:
-Gosto da ideia…
Gustavo sorriu:
-Acho que uma vez não são vezes, mas eu não vou perder a oportunidade de mostrar os meus músculos ás meninas!
Dei-lhe uma sapatada no braço e sorri:
-Narcisista!
-Obrigado! – Ele sorriu, vitorioso e separou-se de nós para se dirigir ao balneário masculino. Eu e Letícia entramos no pavilhão e dirigimo-nos ao professor com a desculpa esfarrapada que nos tínhamos esquecido do equipamento, e que estávamos em “dias maus” para fazermos aqueles desportos. Ele não se mostrou irritado, talvez por ser a primeira aula do período, e apenas nos pediu para assistirmos á aula nas bancadas do pavilhão.
Eu e Letícia sentamo-nos lado a lado, e os nossos colegas já estavam praticamente todos ali.
Liliana, Natacha e Darla estranharam a nossa proximidade, mas viram-se forçadas a não questionar o que se passava.
Tentei manter dialogo aberto com Letie e mais uma vez lamentei o que se tinha passado momentos antes:
-Eu não gosto de admitir, mas acho que o Gustavo me está a mudar – disse – Eu nunca fui assim ciumenta! No máximo ficava triste quando era trocada ou quando as pessoas preferiam outra no meu lugar… Só que agora… Sei lá, é estranho!
Ela riu:
-Se calhar isso acontece porque pela primeira vez gostas mesmo de alguém ao ponto de o estimar!
-Talvez… - Admiti olhando as minhas mãos – Mas eu sempre fui muito insegura, e ver-te com ele deixava-me de rastos, na verdade…
-Porquê? Eu sou só mais uma amiga!
-Letícia, tu és linda, és atraente, tens personalidade… E olha para mim! Sou uma seca!
Ela soltou um riso:
-Que estupidez! O Gustavo adora-te, a sério!
Desenhei um sorriso:
-Acho que ainda estou em fase de interiorização. Sabes como é… - suspirei - É tudo novo para mim, normalmente os rapazes nem se lembram da minha existência! Às vezes tenho a sensação que se eu me afastar as pessoas se esquecem de mim e um dia ao passarem por mim na rua, não me vão conhecer!
-Eu acho que ninguém desta escola te vai esquecer! Se não fosses tu, provavelmente neste momento eu e o Gustavo nem éramos amigos!
Levantei o olhar, confusa:
-Porquê?
-tu transformaste-o! Naquele dia em que ele quase me agrediu para te defender eu percebi que ele te ia proteger a todo o custo, mas quando no dia seguinte ele veio ter comigo para me pedir desculpa, eu percebi que ele… - Ela hesitou – Ele estava estranhamente afectado por tua culpa e precisava de alguém com quem falar, alguém que não mantivesse contacto directo nem contigo nem com ele! Por isso eu fi-lo desabafar comigo e… Eu percebi logo que ele estava completamente apaixonado por ti – A minha boca ficou seca de repente. Eu olhei Letícia sem saber como agir e ela continuou – No inicio não consegui entender porquê – Ela fez um esgar, porem, depois sorriu – Eu achava-te tão estranha! Parecia que só querias chamar as atenções para depois espezinhares as pessoas, como se te achasses superior só por vires da cidade e te vestires como uma rebelde….
Consegui sorrir da sua ideia e abanei a cabeça:
-Eu não o fazia por querer. – Confessei.
Letícia deu de ombros e olhou o céu:
-Eu sei… Quando o Gustavo e eu nos aproximamos, eu tornei-me a sua conselheira e ouvinte! Ele falava tanto de ti! Dizia como agias, como falavas, como comias, ao que cheiravas…! Depois contava o que tinham feito até se afastarem, mas eu percebia que ele estava triste por estarem longe, só não sabia porquê… Aliás, não sei! A única coisa que sei é que ela andava revoltado com todos por culpa disso, e vivia num tormento porque se sentia sufocado por não poder estar contigo! Parecia que te queria proteger, e que tomava conta de ti, mas era estranho… – Ela cerrou as sobrancelhas e olhou-me – Porque é que vocês se afastaram, Lana?
Dei de ombros:
-Eu achava que ele tinha nojo de mim… Por causa do que te contei hoje, e por isso nem o queria perto de mim… - suspirei e olhei para o campo onde decorria um jogo de andebol - Fazia-me sentir mal, e eu quis a todo o custo mostrar que não precisava dele para nada, o que era totalmente mentira!
-Ora, o Gustavo não é assim… Ele não tinha nojo, de certeza!
Acenei afirmativamente:
-Ele disse-me que tinha medo de me por em risco por estar perto de mim, por saber quem eu era e o que eu escondia… E talvez fosse verdade… Talvez eu esteja mais sujeita a perigo por haver muita gente a saber que a Lana não existe.
Letícia pareceu ficar baralhada:
-Como assim “não existe”?
Fitei-a, atrapalhada, mas tentei não fazer mistérios:
-O meu nome é Alannis… - murmurei.
Ela abriu a boca chocada:
-A sério?
Ri-me e confirmei num aceno:
-Mas por favor, não espalhes o que te conto!
Ela concordou:
-É um segredo, claro!
Sorri e depois encostei-me á parede e olhei para as janelas que iluminavam o ginásio:
-Letie… Quando te conheci pareceste tão autoritária e fria… E falavas e querias estar com o Gustavo como se ele te pertencesse… Porquê? Tudo por causa do teu passado?
Ela sorriu:
-Mais ou menos… Eu sei que sou assim ás vezes, mas acho que é um escudo para me proteger. Assim as pessoas não brincam comigo nem com o que sinto pois eu finjo-me de má e elas nem tentam! – Ela entrelaçou os dedos e alçou a perna – Quanto ao Gustavo…. Acho que sempre tive uma certa curiosidade em relação a ele! – Ela voltou-se para mim – Sabes, a Darla sempre falou tão bem dele, que eu chegava a achar que ele era mesmo perfeito, e se havia coisa que eu queria depois do Nicholas era perfeição! Por isso não gostava quando as outras raparigas se aproximavam mais dele do que eu! Não que isso fosse um problema! O Gustavo sempre foi inconstante! Ora parece animado e faz toda a gente rir, ora fica sério e nostálgico!
-é, já me apercebi disso! – Sorri - mas não sei de que faceta gosto mais! Sabes, Domingo ele disse-me que te contou que eu tinha ciúmes de ti! – Sorri pateticamente – Mas garantiu-me que nós éramos parecidas… Agora entendo porquê. Tenho pena de te ter julgado…
Ela segurou a minha mão:
-Eu também… Amigas?
Sorri e acenei com a cabeça. Talvez aquilo fosse o inicio de uma grande cumplicidade.
-Amigas! – confirmei.
Sorrimos uma para a outra e depois atentamos no desporto exercido pelos nossos colegas enquanto Letícia me falava um pouco de cada um deles, já que os conhecia há bastante tempo. O meu olhar estava mais atento a Gustavo, a velocidade dele, a agilidade, a determinação. Ele era um dos melhores da equipa. Que orgulho!
-A Rebeca? – perguntei entretanto.
Letícia observou o ginásio atentamente:
-Pelos vistos faltou outra vez… Que estranho, será que está mal? – Ela estremeceu – Acho que os pais dela deviam ter cautela por causa da sua saúde, ela é tão magra!
Mordi o lábio. A ideia de doença ainda percorria as pessoas que a conheciam, excepto eu, todavia não disse nada. Estava preocupada com ela.
Escutou-se o apito do professor e todos pararam de jogar. A aula tinha terminado.
Eu e Letícia saímos das bancadas e fomos ter com as nossas colegas ao balneário. Liliana lançou-me um olhar repreensivo e eu entortei os lábios, para que ela não se irritasse.
-Estou morta de fome! – Disse eu – Acho que vou ao bar, vou comer o chocolate mais calórico que lá tiver!
Soltei um risinho.
-Se alguém perguntar por mim já sabem!
Pisquei o olho e saí dali. Fui até á cafetaria como tinha dito, e as pessoas já se acumulavam. Comprei o meu chocolate e encostei-me á parede, calmamente a saboreá-lo. Foi quando uma aura conhecida surgiu, e o corpo portador dela deu-me um beliscão para me chamar a atenção:
-Lana, sua mentirosa!
-O quê? – Tossi engasgada com o susto e olhei Susana, de braços cruzados enquanto batia o pé, acompanhada pelas duas amigas do costume – O que é que eu fiz?
Ela lançou-me um olhar mortífero:
-Ainda perguntas?! Toda a escola já sabia, excepto eu! Tu e o meu irmão beijaram-se numa aula e namoram?! – Ela deu com a mão na testa – Tu juraste de pés juntos que entre ti e ele não se passava nada!
Sorri:
-Mas isso foi antes de se passar!
Ela deixou cair o queixo:
-Então é verdade? – Ela mirou as colegas, perplexa.
-Não era o que tu querias?
Ela ficou estática a encarar-me, mas de repente riu-se e abraçou-me:
-Que fixe! Agora vamos ser tipo irmãs! – Deduziu, aos pulos.
-Quase isso! – Sorri-lhe, envergonhada, e ela segurou-me as mãos.
-Eu quero ver!
-Queres ver o quê?
-O que pensei que vi, mas que não vi!
Semicerrei os olhos:
-Tens de ser mais especifica!
-Eu quero ver-vos beijarem-se!
-O quê?!
Fiquei com uma cara de tacho inigualável. Isso era coisa que se pedisse?
-Então, se vocês namoram, eu quero provas!
-A minha palavra não basta?
-Basta, mas não tem tanta piada!
Desencostei-me da parede e sorri, aparvalhada, dirigindo-me até ao caixote do lixo mais próximo:
-És inacreditável! – declarei – de qualquer forma o teu irmão ainda não saiu do balneário e está quase a tocar para a próxima aula, portanto não fiques a pensar nisso!
Pisquei-lhe o olho e acenei-lhe ao sair daquele local agora infestado de gente. Passei pelos desconhecidos que me olhavam um pouco surpresos e fui para o bloco de aulas, descontraída, enquanto enrolava uma mecha de cabelo no meu dedo. Entretanto a aula começou. Não sei onde Gustavo tinha andado para chegar tão atrasado, mas a sensação matinal com que acordei ainda não tinha sido controlada. Era estranho pensar aquilo, mas eu tinha saudades dele e por algum motivo ainda não tínhamos conseguido ficar um minuto sozinha com ele, por culpa de percalços pequenos. Depois de sair de biologia, mais uma vez, não conseguimos ir ter um com o outro pelo simples facto de Rodrigo e Sérgio terem levado sabe-se lá aonde. Comecei a ficar irritada, especialmente porque na hora de almoço fomos obrigados a fazer uma pesquisa qualquer para a aula de português que se seguia, com um aviso tardio para tal.
-já conseguiste, Lili? – perguntei, no tom de voz mais aborrecido do momento.
Ela olhou-me, estupefacta:
-Que cara!
-Estou irritada! – disse entre dentes.
Ela arqueou a sobrancelha e depois fez um esgar:
-Reparei que na aula de Educação física falaste muito com a Letícia. Ela disse-te alguma coisa que não devia?
-Não, foi porreira…
Liliana franziu as sobrancelhas, e voltou a encarar o monitor do computador:
-Não caias na conversa daquela vadia!
-Lili! – Repreendi – Não fales assim das pessoas!
-Estás a defende-la? – Ela ficou chocada.
-Ouve… - Virei-me na sua direcção – tu tens de aprender a respirar fundo. Eu sei que tu e a Letícia tem algumas divergências, mas tens de reconhecer que são parte do passado, e talvez… se fechares os olhos e tentares começar tudo de novo… consigas dar-te bem com ela…? – As minhas palavras começaram a sair como palpites quando eu me apercebi que ela não estava a gostar da conversa. Baixei o olhar constrangida.
-Isso é alguma tentativa de não teres ciúmes dela? – Ela sorriu, matreira.
Dei de ombros. Nem sabia o que lhe dizer. Liliana ás vezes tinha um temperamento complicado, e se eu lhe dissesse sem mais nem menos que Letícia até era boa pessoa, ela tinha um enfarte!
-A Rebeca continua sem vir ás aulas! – Murmurei, alterando o tema.
-E isso incomoda-te? Devias estar grata e bater as asinhas de felicidade! – Riu-se – E por falar nisso, que tal os voos?
-Neste momento não ando muito preocupada com isso! As asas agora são apenas como um adereço, afinal, elas estão aqui e só saem quando eu quero, portanto, julgo que se as controlar bem, não serão a minha destruição, não é?
-“Destruição”! Falas como se elas fossem fatais na tua vida!
-Eu sei lá… - murmurei.
Conseguimos recolher a informação que a professora pedira á ultima da hora e fomos para a aula. Já em contexto de sala aula, tive de me distrair com alguma coisa para não adormecer. Depois tive de aturar Filosofia! céus, que aborrecimento! Felizmente, na ultima aula recebi um bilhete de Gustavo. Aquilo foi como uma lufada de ar fresco depois de uma seca. Parecia que já não sabia nada dele há anos!
“Estou feliz por saber que tu e a Letícia se estão a dar melhor. Acabaram-se os ciúmes?”
Sorri e comecei a escrever a resposta: “ Pela minha parte, acho que sim. Então e tu, ciumento crónico?”
Mandei o bilhete pelos colegas mais próximos e depressa recebi a resposta.
“Andas a portar-te bem.”. Sorri e olhei para o local da sala onde ele estava – “Mas estou com saudades. Hoje ainda não tivemos muito tempo juntos.”
“Acho que não está a resultar” – respondi
Quando ele leu o bilhete olhou-me da outra ponta da sala:
-O quê?!
Toda a turma olhou para ele, que me fitava perplexo. Sorri, desajeitada e com um gesto pedi que esperasse. Devia ter sido mais explicita, e por isso rasguei um pouco de papel do final do caderno.
“Estava enganada! Acho que os limites que tento controlar não resultam! Eu sinto falta dos teus beijos…” Risquei a ultima parte, envergonhada e dobrei o papel assim mesmo, atirando-o desta vez pelo ar, sem que a professora visse. Gustavo apanhou-o e leu-o. Depois sorriu, como que aliviado, e voltou a escrever-me.
“Eu também! Apetece-me levantar da cadeira e beijar-te agora mesmo! Isto é doentio!”
Senti o meu coração acelerar e mordi o lábio. Parecia que conseguia ouvi-lo a sussurrar aquilo ao meu ouvido. Até em palavras desenhadas aquilo era arrepiante.
“10 minutos!” Foi a minha resposta. E ele não voltou a dizer nada, apenas trocou olhares comigo e esperamos ansiosos pelo fim da aula, que parecia eterna. Acabei de passar os apontamentos que a professora ditou e fechei o caderno, quando ela deu ordem. Arrumei tudo na minha bolsa e humedeci os lábios, mas fui interrompida quando Pedro se aproximou da minha secretaria:
-Lana, passaste a ultima parte que a professora ditou? Eu e a Liliana não conseguimos acabar tudo!
Gustavo passou pela minha secretaria e lançou um olhar ciumento, ao mesmo tempo que fez um sinal para eu ir ter com ele.
-Claro! – Respondi a Pedro. Peguei no caderno desajeitadamente, por causa da pressa, e atirei-o bruscamente para os braços de Pedro, que estranhou a minha distracção. Ela folheou as primeiras paginas e fez um esgar:
-Não é este!
-Desculpa! – Voltei a abrir a mochila e peguei noutro caderno, certificando-me que era o tal. Pedro entregou-me o errado e eu guardei-o.
-Obrigada! – Ele agradeceu com um sorriso simpático – Então, como vão as coisas? Anda não falamos desde que acabaram as férias!
-Ah… Pois! – Olhei pela janela da sala e mordi o lábio. O meu autocarro era rápido, eu era lenta, Pedro atrasava-me e Gustavo esperava-me! Tinha de remediar a situação – É, tu sabes! Eu ás vezes “desligo”!
Ele riu-se e acompanhou os meus passos apressados para fora da sala:
-Tens autocarro? – quis saber.
-Tenho…! – Apeteceu-me gritar – Acho que estou atrasada!
Ele preparou-se para me responder, mas foi interrompido por um chamamento:
-Lana! – Letícia acenou-me – Espera, tenho de te dar uma coisa!
Ela basculhou a bolsa, com pressa. Pedro deu de ombros, constrangido:
-bem, eu… Vou andando! Até amanha, Lana!
-Tchau! – Respondi.
Bati o pé e olhei para os lados, ansiosa. Letícia apercebeu-se:
-O que foi? – Perguntou, enquanto desviava os cadernos na sua mochila.
-Estou com pressa! – Respondi, tentando imaginar onde Gustavo estava á minha espera.
Ela erguei uma capinha de plástico verde, mais pequena do que a sua mão:
-O teu passe do autocarro! – Disse, entregando-mo -Deixaste-o cair depois de educação física, mas esqueci-me de entrega-lo!
Dei com a mão na testa:
-Oh, obrigada! Nem me apercebi!
-Acho melhor despachares-te! – Ela empurrou-me pelos ombros – acho que o teu autocarro chegou!
-Não acredito! - cerrei os olhos e os punhos – Tenho de ir! Tchau!
-Adeus!
Dia estragado!
Corri para sair do bloco de aulas, mas mal passei a porta, senti o meu corpo ser agarrado e quase caí no colo de Gustavo:
-Hei, apressada!
-Gustavo! – Sacudi a minha mão, para sentir algum vento contra mim – Desculpa, atrasei-me e…
-Calma! – Ele deu-me a mão e riu do meu jeito desengonçado.
Puxei-o apressada:
-Não posso, o meu autocarro já chegou, e sinceramente não me apetece ficar na escola até amanha!
Vi os últimos dois alunos entrarem no autocarro e soltei a mão de Gustavo:
-Depois falamos, ok? – Apressei os meus passos para me afastar.
-Então e o meu beijo?! – ele agarrou o meu braço e impediu-me de correr.
Se não fosse a pressa eu nem pensaria duas vezes, mas era tarde. Encostei rapidamente os meus lábios aos dele:
-Depois compenso!
Ele preparou-se para protestar, mas eu intervim formando um esgar facial de misericórdia:
-Desculpa!
Ele revirou os olhos e eu entrei no veiculo estudantil. Passei o passe na maquina e suspirei, enquanto procurava um lugar para desfrutar da viagem.
Quando cheguei a casa, Helen já lá estava e escrevia algo em imensas fichas:
-O que é isso? – perguntei.
-Relatórios! – Respondeu atenta ao que fazia – que tal o teu dia?
-Um tédio! – Respondi, atirando a bolsa para cima do sofá.
Ela sorriu em tom trocista:
-Pensei que agora que tens namorado as aulas fossem mais interessantes… - Ele sorriu e depois sussurrou para si num tom maroto - Nos meus tempos eram!
Suspirei e sorri, enquanto ligava a TV:
-Hoje andamos desencontrados!
Ela deu de ombros e depois encarou-me esperançosa:
-Cozinhas por mim hoje?
Franzi o sobrolho:
-Estás revoltada?
-Não.
Voltei a tentar:
-Isso é uma tentativa de suicídio?
Ela riu-se enquanto abanava a cabeça:
-Não!
-Então porque queres apanhar uma intoxicação alimentar? – Não conseguia entender.
-Exagerada! Não cozinhas assim tão mal - Ela alterou a folha em que escrevia –, és uma preguiçosa, isso sim! Por favor, ainda me faltam mais uns quantos relatórios, e se for cozinhar não saio mais daqui!
Encostei-me á parede e fiz um biquinho com os lábios. Ela ganhava sempre.
bjokas
')Capitulo XXIII - Letícia
Ajeitei as fitinhas do meu cabelo, que ficaram ainda mais desarrumadas depois daquela escapadela romântica. Sentia um gosto suave nos lábios, e não conseguia evitar de humedece-los constantemente enquanto regressava sozinha para a próxima sala, sorrindo com descrição. Gustavo tinha ido ao bar e eu decidi ir ter com Liliana, que devia estar louca por nossa culpa. Subi as escadas, enquanto entrançava a ultima fita no cabelo e cantarolava interiormente a musica que dava cabo do juízo de Gustavo desde que vira o filme com a sua irmã na noite anterior.
-Lana, sua maluca! – O grito ecoou por todo o bloco.
Levantei o olhar e fiz-me de desentendida a Natacha, Liliana, Lau e Verónica.
-O que é que eu fiz? – perguntei, tentando não sorrir… Demasiado.
-Ainda perguntas, desmiolada!? – Liliana cruzou os braços.
-Estávamos em aula! – Completou Lau.
-Desde quando é que tu e o Gustavo estais juntos?!
-Ahm… - Não sabia o que dizer a nenhuma delas – Eu… A culpa é dele! – Acusei, infantilmente.
Elas riram ao mesmo tempo e entreolharam-se:
-Eu nem consigo acreditar! – Verónica suspirou animada – A Lau sempre disse que havia qualquer coisa entre vocês os dois, mas eu ultimamente via-vos tão distantes que nunca pude imaginar!
Humedeci os lábios outra vez, e olhei o chão, timidamente. Lau sorriu:
-Oh, és tão tímida! – Ele apertou-me as bochechas – Que querida!
-Lau, pára! – Tentei não sorrir e soltei-me dela.
Ela riu e entreolhou as outras:
-Conta-nos como foi! – Pediu Natacha - Como é que vocês começaram a andar?
Dei de ombros:
-Começando!
Liliana rodeou os meus ombros e soltou uma breve risada:
-Na minha casa! – Exclamou –Eles beijaram-se na noite em que a família dele veio lá a casa! Depois de ele a ensinar a dançar!
-Não posso! – Verónica riu.
-Lili, assim deixas-me embaraçada! – Retorqui mordendo os lábios – Odeio ser o centro das atenções!
-Desculpa?! – Lau parecia chocada - Tu tens noção que beijaste o Gustavo durante uma aula?! Eu acho que vai ser o assunto mais badalado da escola!
-Que exagero!
-Lana, Vocês estavam em aula, com uma professora por perto! Se o Ivo não a tivesse distraído, nem sei que teria acontecido!
Verónica penteou os cabelos longos com os dedos e fixou-me densamente:
-O que é que vos passou pela cabeça?
Sorri:
-Ele provocou-me! Não sei como o faz, mas é… Incontrolável! – concluí.
-Uau! Estás completamente babada por ele!
-Não estou nada!
Pousei as minhas coisas á porta da sala e arranjei a minha camisola, ao aperceber-me que estava um pouco amarrotada. Verifiquei pela ultima vez se as fitinhas de seda estavam bem colocadas e encostei-me á parede, á espera do toque para a próxima aula. Escutei passos apressados a subir as escadas, uma respiração ofegante, mas uma aura radiante, acompanhada por mais algumas, vulgares, mas também animadas.
Darla correu até nós, entusiasmada:
-Não vamos ter matemática! – Anunciou, num guincho histérico.
-O quê? – Perguntamos todas.
Ela olhou-me de soslaio, meia enciumada, e depois retomou á noticia:
-O professor foi passar férias e partiu uma perna a fazer desporto! Está de baixa!
A boa disposição contagiou-se por todas nós. Não quisemos esperar mais ali e fugimos a qualquer hipótese de aula de substituição. Decidi ir procurar Gustavo ao bar, mas ele já não estava lá. Estranhei não me ter cruzado com ele, mas não me importei. Eu e as minhas colegas resolvemos lanchar e aproveitar o tempo livre. Sentamo-nos numa mesa da cafetaria, enquanto os restantes alunos se iam afastando por causa do sinal de entrada.
Coloquei os auriculares nos ouvidos, para disfarçar a minha falta de atenção ás suas conversas e rabisquei uma folha de papel, com os pensamentos noutro mundo. Os rapazes surgiram entretanto, entre os quais, o “meu”, todavia ele respeitou o que eu lhe pedira e não fez nenhum “filme” para os nossos colegas, que por acaso estranharam a nossa “abstinência”. Mais tarde, vieram ter connosco as raparigas que restavam, entre elas Letícia. Fiz de conta que não me apercebi da sua chegada, e muito menos do olhar que lançou a Gustavo, apesar de o meu sangue ter fervilhado naquele momento. Ele manteve-se perto de mim o tempo todo, e durante o resto do dia de aulas, conversamos, sobretudo, sobre temas idiotas e sem nexo, mas que ainda assim tinham a sua piada e me faziam sentir bem. Os beijos que trocamos eram leves e efémeros, mas era melhor assim, nunca saberíamos que asneiras cometeríamos se nos deixássemos levar por todos os impulsos.
No dia seguinte porem, apercebi-me que a minha tentativa de controlar o meu corpo era frustrada. Algo em mim, que eu não sabia o que era, despertou juntamente comigo naquela manha. Parecia que faltava algo, que o meu ser precisava de alguma coisa que eu não conseguia alcançar naquele momento para me sentir completa. Eu sabia o que era. Eu própria tinha de admitir que era irresistível beijar Gustavo de forma fugaz. Parecia que a minha ideia de me controlar era como um jejum que me deixava inquieta e frenética! Por causa disso, naquele dia eu quis ser rápida a vê-lo. Vesti uma roupa preta, mas mais normal do que o costume, e coloquei menos maquilhagem nos olhos. Queria sentir-me melhor ao seu lado, mais natural, como ele preferia. Apanhei o autocarro e bati o pé até chegar á escola, sentindo que a viagem era demasiado lenta para o meu gosto.
Quando cheguei á escola foi um alivio. Procurei por alguém conhecido, e Verónica foi a primeira que apareceu. Ela não era a melhor companhia para mim naquele momento, aliás ninguém era, mas não me importei de escutar e responder-lhe consoante as conversas. Subimos as escadas e depois demos a volta a um dos blocos de aula, chegando a uma zona com relvado, arvores e alguns bancos. Estavam poucas pessoas por ali, mas as que estavam eram suficientes para mostrarem que havia gente naquela escola.
Foi aí que a minha visão de arrastou até um casal. Fiquei sem sangue no rosto mas respirei fundo, tentando controlar a minha parte vingativa.
-Olha, estão ali o Gustavo e a Letícia! – Disse Verónica, sem se aperceber que eu já os tinha avistados.
Observei-os um pouco. Estavam os dois sentados num banco, e conversavam animada, mas calmamente. Letícia sorria. O brilho do seu olhar era intenso e cativante, e reluzia conforme os movimentos rápidos dos seus lábios, sempre tortos pelos sorriso, enquanto as mãos gesticulavam dinamicamente. Gustavo sorria-lhe de volta. Aquele seu sorriso amável, querido e atencioso, que ás vezes esboçava só para mim. Respondia-lhe sempre, também alegre e nitidamente feliz.
Senti as minhas bochechas arderem e mordi o lábio inferior, ao mesmo tempo que arranhava os meus braços com descrição, com as minhas unhas afiadas. Verónica deu um passo á frente, ignorante:
-Vem, tenho a certeza que já estavas com saudades do teu namorado! – Troçou.
Tentei sorrir e segui os seus passos, convicta que conseguiria chegar perto deles normalmente, mas logo após cinco passos lentos, travei-me bruscamente. Letícia fora rápida e ágil. Num momento apenas falavam, com olhares cúmplices, e noutro, ela lançou-se para os braços dele e abraçou-o com força, sendo retribuída sem hesitação, e tendo ainda um “bónus” do MEU namorado! Ele beijou-a! Foi na cara, mas foi um beijo!
Cerrei os dentes e virei costas, furiosa. Verónica quase não teve tempo de me ver correr. A ultima coisa que vi foi o olhar de Letícia cruzar-se com o meu, mas não quis saber o resto.
Voltei a rodear o pavilhão, a um passo acelerado e tentei controlar a minha respiração. Estava presa e tinha vontade de gritar de ódio! Para melhorar a situação os olhos ardiam e dificultavam a vista! Que raiva!
-Lana, espera!
As voz não era de Verónica nem de Gustavo. Era mais aguda, ainda que não tão irritante como das primeiras vezes que a escutara. Parei de andar e voltei-me num reflexo rápido. Letícia parou á minha frente ofegante e sorriu:
-Não foi nada do que estás a pensar! – Disse, acalmando a respiração.
Olhei para o lado e ergui o queixo:
-Tu não sabes o que eu estou pensar!
-Ora, Lana! – Ela sorriu, subtilmente – Até parece que nunca abraçaste um amigo!
-“Amigo”! – Citei, cruzando os braços, orgulhosa - Eh!
Ela revirou os olhos e deu um passo na minha direcção:
-Pensei que só ele é que era ciumento! – Ela riu-se, como se aquilo tivesse piada.
-Eu não sou ciumenta! – Disse, elevando levemente o meu timbre – Nunca fui!
-Poupa-me! – Ela cruzou os braços – Está estampado na tua cara! Eu também seria se o Gustavo fosse meu!
-O Gustavo não tem dono.
-Tu entendeste! – Ela sorriu, meia desajeitada, com um olhar mafioso – Não precisas de ficar tão revoltada, eu não sou nenhuma ladra de namorados!
-Não, és uma obcecada que gosta de inventar gravidezes…!
Tapei boca com a mão, logo após dizer aquilo. Aqueles pensamentos não deviam ter saído da minha boca, eu não os queria falar.
-Desculpa, eu não queria dizer isto!
Letícia abriu a boca, como se tivesse levado uma facada na barriga e semicerrou os olhos:
-Então é isso?! É esse o teu problema? – A voz dela saiu magoada e fina. O seu olhar brilhou de desilusão – Por favor, pensei que fosses diferente!
Acenei com a cabeça, baralhada e dei um passo para me aproximar:
-Eu falei sem pensar! – tentei dizer.
Ela interrompeu-me:
-Não…! Tu pensaste isso! Só não pensaste que o ias dizer em voz alta! – Ela cerrou os dentes e cruzou os punhos – Nunca pensei que te guiasses pelo que as pessoas dizem! Tu mais do que ninguém, devias saber que as aparências iludem!
-Desculpa, eu juro que…
-Tu não me conheces! – Ela interrompeu – Eu entendo que sejam muitas vozes contra mim, mas eu julgava que tu eras mais esperta do que isso! Enganei-me, afinal!
Olhei para o chão. Sentia-me terrivelmente por ter dito aquilo, mas não disse nada. Ela não acreditaria:
-Vence sempre a maioria, não é? – murmurei.
Ela libertou uma lágrima, carregada de ódio. Não sei o que me deu naquele instante. O meu coração ficou apertado por vê-la assim, e o meu estômago ficou numa azia:
-Letz, desculpa eu… Eu fiquei irritada por te ver com o Gustavo.
-Pois claro, estavas com medo que eu dissesse que estava grávida dele só porque me deu um beijo na cara! – Ela disse alto, enraivecida – Tu és uma idiota!
Engoli a ofensa. Eu merecia.
-Tu não sabes a sorte que tens por o Gustavo gostar tanto de ti! – Ela verteu outra lágrima, fazendo-me abraçar mais os meus próprios braços – Se tu soubesses o que ele passou por tua culpa, nunca poderias duvidar da fidelidade dele!
-Desculpa… - Repeti.
-Eu estive mesmo grávida, estúpida! – Ela murmurou, furiosa.
Fixei-a, perplexa:
-O quê?!
Ela cerrou os punhos:
-Eu abortei porque fui obrigada! – Ela fungou com a respiração presa e tapou o rosto com as mãos, para esconder a face, envergonhada – Eu pensei que tu não te deixavas guiar pelos rumores! Mas se até tu acreditas no que as pessoas dizem, então eu estou disposta a limpar o meu nome para que ao menos confies no teu próprio namorado!
-Letícia, eu…
-O Nicholas enganou-me… - Ela disse – Aquele romeno idiota veio para cá no intercambio de há dois anos e depois de deixar todas as raparigas pelo beicinho, meteu-se comigo em segredo! – Ela cerrou os punhos e libertou mais lágrimas – E eu, grande idiota, pensei que ele realmente gostava de mim e fazia tudo por ele! Aquele traste conseguiu deixar-me cega ao ponto de me entregar a ele de corpo e alma! – Ela mordeu o lábio tremulo – Ele engravidou-me!
Desencostei-me da parede e sem reflectir muito abracei-a com forma nos meus braços:
-Desculpa, desculpa… - Lamentei – Eu nunca pensei…
Ela aceitou os meus braços e abraçou-me de volta, afogando o rosto no meu ombro:
-Eu não queria ter abortado… - Ela tentou controlar os soluços – Foi a minha mãe que me obrigou porque tinha vergonha de manchar o bom nome da família! Doeu tanto… E o Nick não quis saber, porque eu afinal só estava a atrapalha-lo desde que nos tínhamos conhecido! Como é que eu fui tão parva?
Senti os meus olhos arderem:
-Tu não tiveste culpa, ele enganou-te…
Letícia desencostou o rosto do meu corpo e encarou-me, enquanto limpava a face:
-É por isso que tu tens de confiar no Gustavo! Eu conheço-o há mais tempo que tu, mesmo que nunca tenhamos sido muito próximos, mas posso garantir-te que ele te adora acima de todas as coisas e tu não podes desperdiçar isso!
Baixei o olhar e fiz um biquinho com a boca:
-Desculpa Letie… - murmurei, entristecida. A minha voz saiu como a de uma criança tímida - Eu fui má… mas eu não gosto de ser…
Ela sorriu, sem muito humor:
-Ele tinha razão… A forma como falas faz-te parecer uma criança ás vezes…
Senti o meu rosto corar, e depois senti-me melhor ao perceber que a aura dele tinha surgido naquele local. Olhei-o timidamente e ele franziu as sobrancelhas, alternando a visão de mim para Letícia e vice versa:
-Lana? Letie? Aconteceu alguma coisa?
Ele aproximou-se analisando os nossos rostos. Desviei a minha face da sua percepção, ao contrario de Letícia que não quis esconder o que sentia.
Gustavo ficou um pouco atrapalhado e apreensivo ao mesmo tempo. Ele não sabia a quem se dirigir naquele momento, mas eu não me importava se ele preferisse reconfortar Letícia. Agora entendia que ele sabia tudo aquilo que ela me contara e por isso eram tão cúmplices, e isso reduzira a minha insegurança.
-Vocês estão bem?
Letícia tentou sorrir e abraçou-o pela barriga. Ele mostrou-se desconfortável por ela faze-lo ao meu lado, mas eu sorri-lhe, deixando-o ainda mais confuso, esperando respostas ás suas duvidas, e como que por milagre, eu senti uma onda de coragem trespassar o meu espírito.
-Letie… - murmurei. Ela olhou para mim, ainda abraçada a Gustavo e eu fitei o chão, nervosa – Eu estou aqui porque… - Respirei fundo e cerrei os olhos – Ia sendo… violada…!
Gustavo tremeu com a minha confissão. Letícia desencostou a cabeça do peito dele e manteve-se vidrada em mim. Engoli a seco e sem conseguir olhar nenhum deles, prossegui:
-Eu visto-me assim para me tentar esconder porque tenho medo de ser encontrada por alguém que me faça mal, e assim sempre posso parecer mais forte…
Tentei sorrir sem sucesso, e não retirei o meu olhar do chão.
-Lana… - Gustavo estendeu-me a sua mão, e quando eu lha dei, puxou-me delicadamente para os seus braços junto de Letícia. Fechei os olhos e abracei-os aos dois, concentrando-me totalmente no cheiro de Gustavo, tão protector e bom.
-Lana, eu… - Ele sorriu, detendo o eu ia dizer – Te iubesc…
Letícia sorriu para mim, e depois para ele surpreendida.
-Porque não lhe dizes em português? – perguntou.
-Porque ela me impede!
Franzi as sobrancelhas.
-Eu? Eu não te impeço de dizer nada. – murmurei, olhando-o, sem saber ao que se referia – O que significa Te…Buiesc? – Tentei acertar na palavra, mas foi em vão.
-Te iubesc! – Corrigiu Letícia, de uma forma muito mais rápida e estranha do que Gustavo, rindo melodiosamente do meu erro – Diz-lhe Gustavo!
Senti o coração dele acelerar o “tun-tun” e a sua pele pareceu aquecer. Ele corou levemente e eu sorri:
-Diz-me. – pedi, apertando-o mais nos meus braços. Ele apertou também o meu corpo contra o dele, com Letícia amparada no outro braço sem fazer confusão. Ele olhou-me nos olhos, sem qualquer indicio de mentira ou graça em mente, e declarou, com voz grave e agradável:
-Eu amo-te…
Descolei os lábios e pestanejei, apanhada desprevenida. Senti borboletas enormes no estômago, e fiz uma careta, constrangida:
-Ohm…
Ele sorriu e deu-me um beijo na testa:
-Eu disse que não ias gostar de ouvir! Agora vou ter de procurar noutro idioma para tu não saberes que eu te digo isto!
Letícia sorriu:
-Mas ela gosta! – Corrigiu – Só que fica atrapalhada e por isso prefere que não digas para não ficar sem saber o que fazer!
Ela sorriu e mordeu o lábio.
-Que língua é essa? – Tentei mostrar-me á vontade, mas acho que eles perceberam.
-Romeno! – Clarificou Letícia.
-Oh…
Gustavo deu um beijo na testa de cada uma de nós:
-Minhas L’s – chamou – Vocês sabem que já tocou para a aula há cerca de 10 minutos ou mais?
-O quê?
Nós as duas entreolhamo-nos, chocadas:
-E só agora é que avisas?
Ele sorriu:
-Antes tarde que nunca, vamos?
Ele limpou o rosto de Letícia, que estava marcado pelas lágrimas já secas, e deu-nos as mãos para nos puxar ás duas. Libertei uma lufada de ar:
-Era mau demais não fazer a aula e ficar só a assistir?
Letícia lançou-me um olhar cúmplice:
-Gosto da ideia…
Gustavo sorriu:
-Acho que uma vez não são vezes, mas eu não vou perder a oportunidade de mostrar os meus músculos ás meninas!
Dei-lhe uma sapatada no braço e sorri:
-Narcisista!
-Obrigado! – Ele sorriu, vitorioso e separou-se de nós para se dirigir ao balneário masculino. Eu e Letícia entramos no pavilhão e dirigimo-nos ao professor com a desculpa esfarrapada que nos tínhamos esquecido do equipamento, e que estávamos em “dias maus” para fazermos aqueles desportos. Ele não se mostrou irritado, talvez por ser a primeira aula do período, e apenas nos pediu para assistirmos á aula nas bancadas do pavilhão.
Eu e Letícia sentamo-nos lado a lado, e os nossos colegas já estavam praticamente todos ali.
Liliana, Natacha e Darla estranharam a nossa proximidade, mas viram-se forçadas a não questionar o que se passava.
Tentei manter dialogo aberto com Letie e mais uma vez lamentei o que se tinha passado momentos antes:
-Eu não gosto de admitir, mas acho que o Gustavo me está a mudar – disse – Eu nunca fui assim ciumenta! No máximo ficava triste quando era trocada ou quando as pessoas preferiam outra no meu lugar… Só que agora… Sei lá, é estranho!
Ela riu:
-Se calhar isso acontece porque pela primeira vez gostas mesmo de alguém ao ponto de o estimar!
-Talvez… - Admiti olhando as minhas mãos – Mas eu sempre fui muito insegura, e ver-te com ele deixava-me de rastos, na verdade…
-Porquê? Eu sou só mais uma amiga!
-Letícia, tu és linda, és atraente, tens personalidade… E olha para mim! Sou uma seca!
Ela soltou um riso:
-Que estupidez! O Gustavo adora-te, a sério!
Desenhei um sorriso:
-Acho que ainda estou em fase de interiorização. Sabes como é… - suspirei - É tudo novo para mim, normalmente os rapazes nem se lembram da minha existência! Às vezes tenho a sensação que se eu me afastar as pessoas se esquecem de mim e um dia ao passarem por mim na rua, não me vão conhecer!
-Eu acho que ninguém desta escola te vai esquecer! Se não fosses tu, provavelmente neste momento eu e o Gustavo nem éramos amigos!
Levantei o olhar, confusa:
-Porquê?
-tu transformaste-o! Naquele dia em que ele quase me agrediu para te defender eu percebi que ele te ia proteger a todo o custo, mas quando no dia seguinte ele veio ter comigo para me pedir desculpa, eu percebi que ele… - Ela hesitou – Ele estava estranhamente afectado por tua culpa e precisava de alguém com quem falar, alguém que não mantivesse contacto directo nem contigo nem com ele! Por isso eu fi-lo desabafar comigo e… Eu percebi logo que ele estava completamente apaixonado por ti – A minha boca ficou seca de repente. Eu olhei Letícia sem saber como agir e ela continuou – No inicio não consegui entender porquê – Ela fez um esgar, porem, depois sorriu – Eu achava-te tão estranha! Parecia que só querias chamar as atenções para depois espezinhares as pessoas, como se te achasses superior só por vires da cidade e te vestires como uma rebelde….
Consegui sorrir da sua ideia e abanei a cabeça:
-Eu não o fazia por querer. – Confessei.
Letícia deu de ombros e olhou o céu:
-Eu sei… Quando o Gustavo e eu nos aproximamos, eu tornei-me a sua conselheira e ouvinte! Ele falava tanto de ti! Dizia como agias, como falavas, como comias, ao que cheiravas…! Depois contava o que tinham feito até se afastarem, mas eu percebia que ele estava triste por estarem longe, só não sabia porquê… Aliás, não sei! A única coisa que sei é que ela andava revoltado com todos por culpa disso, e vivia num tormento porque se sentia sufocado por não poder estar contigo! Parecia que te queria proteger, e que tomava conta de ti, mas era estranho… – Ela cerrou as sobrancelhas e olhou-me – Porque é que vocês se afastaram, Lana?
Dei de ombros:
-Eu achava que ele tinha nojo de mim… Por causa do que te contei hoje, e por isso nem o queria perto de mim… - suspirei e olhei para o campo onde decorria um jogo de andebol - Fazia-me sentir mal, e eu quis a todo o custo mostrar que não precisava dele para nada, o que era totalmente mentira!
-Ora, o Gustavo não é assim… Ele não tinha nojo, de certeza!
Acenei afirmativamente:
-Ele disse-me que tinha medo de me por em risco por estar perto de mim, por saber quem eu era e o que eu escondia… E talvez fosse verdade… Talvez eu esteja mais sujeita a perigo por haver muita gente a saber que a Lana não existe.
Letícia pareceu ficar baralhada:
-Como assim “não existe”?
Fitei-a, atrapalhada, mas tentei não fazer mistérios:
-O meu nome é Alannis… - murmurei.
Ela abriu a boca chocada:
-A sério?
Ri-me e confirmei num aceno:
-Mas por favor, não espalhes o que te conto!
Ela concordou:
-É um segredo, claro!
Sorri e depois encostei-me á parede e olhei para as janelas que iluminavam o ginásio:
-Letie… Quando te conheci pareceste tão autoritária e fria… E falavas e querias estar com o Gustavo como se ele te pertencesse… Porquê? Tudo por causa do teu passado?
Ela sorriu:
-Mais ou menos… Eu sei que sou assim ás vezes, mas acho que é um escudo para me proteger. Assim as pessoas não brincam comigo nem com o que sinto pois eu finjo-me de má e elas nem tentam! – Ela entrelaçou os dedos e alçou a perna – Quanto ao Gustavo…. Acho que sempre tive uma certa curiosidade em relação a ele! – Ela voltou-se para mim – Sabes, a Darla sempre falou tão bem dele, que eu chegava a achar que ele era mesmo perfeito, e se havia coisa que eu queria depois do Nicholas era perfeição! Por isso não gostava quando as outras raparigas se aproximavam mais dele do que eu! Não que isso fosse um problema! O Gustavo sempre foi inconstante! Ora parece animado e faz toda a gente rir, ora fica sério e nostálgico!
-é, já me apercebi disso! – Sorri - mas não sei de que faceta gosto mais! Sabes, Domingo ele disse-me que te contou que eu tinha ciúmes de ti! – Sorri pateticamente – Mas garantiu-me que nós éramos parecidas… Agora entendo porquê. Tenho pena de te ter julgado…
Ela segurou a minha mão:
-Eu também… Amigas?
Sorri e acenei com a cabeça. Talvez aquilo fosse o inicio de uma grande cumplicidade.
-Amigas! – confirmei.
Sorrimos uma para a outra e depois atentamos no desporto exercido pelos nossos colegas enquanto Letícia me falava um pouco de cada um deles, já que os conhecia há bastante tempo. O meu olhar estava mais atento a Gustavo, a velocidade dele, a agilidade, a determinação. Ele era um dos melhores da equipa. Que orgulho!
-A Rebeca? – perguntei entretanto.
Letícia observou o ginásio atentamente:
-Pelos vistos faltou outra vez… Que estranho, será que está mal? – Ela estremeceu – Acho que os pais dela deviam ter cautela por causa da sua saúde, ela é tão magra!
Mordi o lábio. A ideia de doença ainda percorria as pessoas que a conheciam, excepto eu, todavia não disse nada. Estava preocupada com ela.
Escutou-se o apito do professor e todos pararam de jogar. A aula tinha terminado.
Eu e Letícia saímos das bancadas e fomos ter com as nossas colegas ao balneário. Liliana lançou-me um olhar repreensivo e eu entortei os lábios, para que ela não se irritasse.
-Estou morta de fome! – Disse eu – Acho que vou ao bar, vou comer o chocolate mais calórico que lá tiver!
Soltei um risinho.
-Se alguém perguntar por mim já sabem!
Pisquei o olho e saí dali. Fui até á cafetaria como tinha dito, e as pessoas já se acumulavam. Comprei o meu chocolate e encostei-me á parede, calmamente a saboreá-lo. Foi quando uma aura conhecida surgiu, e o corpo portador dela deu-me um beliscão para me chamar a atenção:
-Lana, sua mentirosa!
-O quê? – Tossi engasgada com o susto e olhei Susana, de braços cruzados enquanto batia o pé, acompanhada pelas duas amigas do costume – O que é que eu fiz?
Ela lançou-me um olhar mortífero:
-Ainda perguntas?! Toda a escola já sabia, excepto eu! Tu e o meu irmão beijaram-se numa aula e namoram?! – Ela deu com a mão na testa – Tu juraste de pés juntos que entre ti e ele não se passava nada!
Sorri:
-Mas isso foi antes de se passar!
Ela deixou cair o queixo:
-Então é verdade? – Ela mirou as colegas, perplexa.
-Não era o que tu querias?
Ela ficou estática a encarar-me, mas de repente riu-se e abraçou-me:
-Que fixe! Agora vamos ser tipo irmãs! – Deduziu, aos pulos.
-Quase isso! – Sorri-lhe, envergonhada, e ela segurou-me as mãos.
-Eu quero ver!
-Queres ver o quê?
-O que pensei que vi, mas que não vi!
Semicerrei os olhos:
-Tens de ser mais especifica!
-Eu quero ver-vos beijarem-se!
-O quê?!
Fiquei com uma cara de tacho inigualável. Isso era coisa que se pedisse?
-Então, se vocês namoram, eu quero provas!
-A minha palavra não basta?
-Basta, mas não tem tanta piada!
Desencostei-me da parede e sorri, aparvalhada, dirigindo-me até ao caixote do lixo mais próximo:
-És inacreditável! – declarei – de qualquer forma o teu irmão ainda não saiu do balneário e está quase a tocar para a próxima aula, portanto não fiques a pensar nisso!
Pisquei-lhe o olho e acenei-lhe ao sair daquele local agora infestado de gente. Passei pelos desconhecidos que me olhavam um pouco surpresos e fui para o bloco de aulas, descontraída, enquanto enrolava uma mecha de cabelo no meu dedo. Entretanto a aula começou. Não sei onde Gustavo tinha andado para chegar tão atrasado, mas a sensação matinal com que acordei ainda não tinha sido controlada. Era estranho pensar aquilo, mas eu tinha saudades dele e por algum motivo ainda não tínhamos conseguido ficar um minuto sozinha com ele, por culpa de percalços pequenos. Depois de sair de biologia, mais uma vez, não conseguimos ir ter um com o outro pelo simples facto de Rodrigo e Sérgio terem levado sabe-se lá aonde. Comecei a ficar irritada, especialmente porque na hora de almoço fomos obrigados a fazer uma pesquisa qualquer para a aula de português que se seguia, com um aviso tardio para tal.
-já conseguiste, Lili? – perguntei, no tom de voz mais aborrecido do momento.
Ela olhou-me, estupefacta:
-Que cara!
-Estou irritada! – disse entre dentes.
Ela arqueou a sobrancelha e depois fez um esgar:
-Reparei que na aula de Educação física falaste muito com a Letícia. Ela disse-te alguma coisa que não devia?
-Não, foi porreira…
Liliana franziu as sobrancelhas, e voltou a encarar o monitor do computador:
-Não caias na conversa daquela vadia!
-Lili! – Repreendi – Não fales assim das pessoas!
-Estás a defende-la? – Ela ficou chocada.
-Ouve… - Virei-me na sua direcção – tu tens de aprender a respirar fundo. Eu sei que tu e a Letícia tem algumas divergências, mas tens de reconhecer que são parte do passado, e talvez… se fechares os olhos e tentares começar tudo de novo… consigas dar-te bem com ela…? – As minhas palavras começaram a sair como palpites quando eu me apercebi que ela não estava a gostar da conversa. Baixei o olhar constrangida.
-Isso é alguma tentativa de não teres ciúmes dela? – Ela sorriu, matreira.
Dei de ombros. Nem sabia o que lhe dizer. Liliana ás vezes tinha um temperamento complicado, e se eu lhe dissesse sem mais nem menos que Letícia até era boa pessoa, ela tinha um enfarte!
-A Rebeca continua sem vir ás aulas! – Murmurei, alterando o tema.
-E isso incomoda-te? Devias estar grata e bater as asinhas de felicidade! – Riu-se – E por falar nisso, que tal os voos?
-Neste momento não ando muito preocupada com isso! As asas agora são apenas como um adereço, afinal, elas estão aqui e só saem quando eu quero, portanto, julgo que se as controlar bem, não serão a minha destruição, não é?
-“Destruição”! Falas como se elas fossem fatais na tua vida!
-Eu sei lá… - murmurei.
Conseguimos recolher a informação que a professora pedira á ultima da hora e fomos para a aula. Já em contexto de sala aula, tive de me distrair com alguma coisa para não adormecer. Depois tive de aturar Filosofia! céus, que aborrecimento! Felizmente, na ultima aula recebi um bilhete de Gustavo. Aquilo foi como uma lufada de ar fresco depois de uma seca. Parecia que já não sabia nada dele há anos!
“Estou feliz por saber que tu e a Letícia se estão a dar melhor. Acabaram-se os ciúmes?”
Sorri e comecei a escrever a resposta: “ Pela minha parte, acho que sim. Então e tu, ciumento crónico?”
Mandei o bilhete pelos colegas mais próximos e depressa recebi a resposta.
“Andas a portar-te bem.”. Sorri e olhei para o local da sala onde ele estava – “Mas estou com saudades. Hoje ainda não tivemos muito tempo juntos.”
“Acho que não está a resultar” – respondi
Quando ele leu o bilhete olhou-me da outra ponta da sala:
-O quê?!
Toda a turma olhou para ele, que me fitava perplexo. Sorri, desajeitada e com um gesto pedi que esperasse. Devia ter sido mais explicita, e por isso rasguei um pouco de papel do final do caderno.
“Estava enganada! Acho que os limites que tento controlar não resultam! Eu sinto falta dos teus beijos…” Risquei a ultima parte, envergonhada e dobrei o papel assim mesmo, atirando-o desta vez pelo ar, sem que a professora visse. Gustavo apanhou-o e leu-o. Depois sorriu, como que aliviado, e voltou a escrever-me.
“Eu também! Apetece-me levantar da cadeira e beijar-te agora mesmo! Isto é doentio!”
Senti o meu coração acelerar e mordi o lábio. Parecia que conseguia ouvi-lo a sussurrar aquilo ao meu ouvido. Até em palavras desenhadas aquilo era arrepiante.
“10 minutos!” Foi a minha resposta. E ele não voltou a dizer nada, apenas trocou olhares comigo e esperamos ansiosos pelo fim da aula, que parecia eterna. Acabei de passar os apontamentos que a professora ditou e fechei o caderno, quando ela deu ordem. Arrumei tudo na minha bolsa e humedeci os lábios, mas fui interrompida quando Pedro se aproximou da minha secretaria:
-Lana, passaste a ultima parte que a professora ditou? Eu e a Liliana não conseguimos acabar tudo!
Gustavo passou pela minha secretaria e lançou um olhar ciumento, ao mesmo tempo que fez um sinal para eu ir ter com ele.
-Claro! – Respondi a Pedro. Peguei no caderno desajeitadamente, por causa da pressa, e atirei-o bruscamente para os braços de Pedro, que estranhou a minha distracção. Ela folheou as primeiras paginas e fez um esgar:
-Não é este!
-Desculpa! – Voltei a abrir a mochila e peguei noutro caderno, certificando-me que era o tal. Pedro entregou-me o errado e eu guardei-o.
-Obrigada! – Ele agradeceu com um sorriso simpático – Então, como vão as coisas? Anda não falamos desde que acabaram as férias!
-Ah… Pois! – Olhei pela janela da sala e mordi o lábio. O meu autocarro era rápido, eu era lenta, Pedro atrasava-me e Gustavo esperava-me! Tinha de remediar a situação – É, tu sabes! Eu ás vezes “desligo”!
Ele riu-se e acompanhou os meus passos apressados para fora da sala:
-Tens autocarro? – quis saber.
-Tenho…! – Apeteceu-me gritar – Acho que estou atrasada!
Ele preparou-se para me responder, mas foi interrompido por um chamamento:
-Lana! – Letícia acenou-me – Espera, tenho de te dar uma coisa!
Ela basculhou a bolsa, com pressa. Pedro deu de ombros, constrangido:
-bem, eu… Vou andando! Até amanha, Lana!
-Tchau! – Respondi.
Bati o pé e olhei para os lados, ansiosa. Letícia apercebeu-se:
-O que foi? – Perguntou, enquanto desviava os cadernos na sua mochila.
-Estou com pressa! – Respondi, tentando imaginar onde Gustavo estava á minha espera.
Ela erguei uma capinha de plástico verde, mais pequena do que a sua mão:
-O teu passe do autocarro! – Disse, entregando-mo -Deixaste-o cair depois de educação física, mas esqueci-me de entrega-lo!
Dei com a mão na testa:
-Oh, obrigada! Nem me apercebi!
-Acho melhor despachares-te! – Ela empurrou-me pelos ombros – acho que o teu autocarro chegou!
-Não acredito! - cerrei os olhos e os punhos – Tenho de ir! Tchau!
-Adeus!
Dia estragado!
Corri para sair do bloco de aulas, mas mal passei a porta, senti o meu corpo ser agarrado e quase caí no colo de Gustavo:
-Hei, apressada!
-Gustavo! – Sacudi a minha mão, para sentir algum vento contra mim – Desculpa, atrasei-me e…
-Calma! – Ele deu-me a mão e riu do meu jeito desengonçado.
Puxei-o apressada:
-Não posso, o meu autocarro já chegou, e sinceramente não me apetece ficar na escola até amanha!
Vi os últimos dois alunos entrarem no autocarro e soltei a mão de Gustavo:
-Depois falamos, ok? – Apressei os meus passos para me afastar.
-Então e o meu beijo?! – ele agarrou o meu braço e impediu-me de correr.
Se não fosse a pressa eu nem pensaria duas vezes, mas era tarde. Encostei rapidamente os meus lábios aos dele:
-Depois compenso!
Ele preparou-se para protestar, mas eu intervim formando um esgar facial de misericórdia:
-Desculpa!
Ele revirou os olhos e eu entrei no veiculo estudantil. Passei o passe na maquina e suspirei, enquanto procurava um lugar para desfrutar da viagem.
Quando cheguei a casa, Helen já lá estava e escrevia algo em imensas fichas:
-O que é isso? – perguntei.
-Relatórios! – Respondeu atenta ao que fazia – que tal o teu dia?
-Um tédio! – Respondi, atirando a bolsa para cima do sofá.
Ela sorriu em tom trocista:
-Pensei que agora que tens namorado as aulas fossem mais interessantes… - Ele sorriu e depois sussurrou para si num tom maroto - Nos meus tempos eram!
Suspirei e sorri, enquanto ligava a TV:
-Hoje andamos desencontrados!
Ela deu de ombros e depois encarou-me esperançosa:
-Cozinhas por mim hoje?
Franzi o sobrolho:
-Estás revoltada?
-Não.
Voltei a tentar:
-Isso é uma tentativa de suicídio?
Ela riu-se enquanto abanava a cabeça:
-Não!
-Então porque queres apanhar uma intoxicação alimentar? – Não conseguia entender.
-Exagerada! Não cozinhas assim tão mal - Ela alterou a folha em que escrevia –, és uma preguiçosa, isso sim! Por favor, ainda me faltam mais uns quantos relatórios, e se for cozinhar não saio mais daqui!
Encostei-me á parede e fiz um biquinho com os lábios. Ela ganhava sempre.
bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Ai xiça penico!
Nem sabem! Acabei a fic!
OMG!
Nem acredito que já acabei de escrever! Recordem este dia!
Estou ansiosa por acabar de postar aqui, apesar de o final ainda deixar algumas coisas por explicar e não estar totalmente como eu imaginava, juro que fiquei emocionada simplesmente por ser o fim! XD
Estou á espera de comentários para postar todos os dias a partir de agora!
Caso não comentem, bem, posto á mesma!
bjokas
Nem sabem! Acabei a fic!
OMG!Nem acredito que já acabei de escrever! Recordem este dia!
Estou ansiosa por acabar de postar aqui, apesar de o final ainda deixar algumas coisas por explicar e não estar totalmente como eu imaginava, juro que fiquei emocionada simplesmente por ser o fim! XD
Estou á espera de comentários para postar todos os dias a partir de agora!

Caso não comentem, bem, posto á mesma!

bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
lulumoon, tal como diria a Helen, quando não tem palavras pra descrever algo "I have no words to describe this, it's fantastic
"
Eu fiquei mesmo sem palavras para descrever a tua forma super brilhante de escrever, escreves maravilhosamente bem, e a história é super cativante e acima de tudo apaixonante
(bem, como ainda não li tudo, tenho de me por a par do resto da história para conseguir depois postar um comentário a sério
Mas amanhã já devo ter acabado de ler, e então depois conseguirei fazer um comentário construtivo
)
Continua a escrever maravilhosamente bem como tens escrito, acabaste de ganhar uma nova leitora super fascinada pelo sobrenatural
Beijinhooos ***
EDIT:
OK, agora sim, posso fazer algo de jeito quanto ao comentário XD E bolto a reiterar aquilo que disse ao inicio, fiquei completamente agarrada à história
Fiquei bué feliz por saber que a Lana e o Gugu ficaram juntos
E fiquei surpresa por ver que a Letícia era melhor pessoa do que aquilo que ao princípio fiquei a pensar dela, ao princípio pensava que ela era uma C**** que só queria ficar com o Gustavo, e agora vejo que as coisas são diferentes. Outra coisa, odiei aquele Ricardo ahg odiei ele mesmo do fundo do coração XD só me apeteceu arrancar-lhe a cabeça à dentada quando li aquilo XD Ele irritou-me taaanto
AHG
Mas depois o Gustavo veio ajudar a Lana, e então eu fiquei mais feliiiiz
aHH agora tou tao curioooosaaaa com o que vem a seguir!!
Quando postas mais???
Eu ficarei aqui à espera pacientemente que postes o próximo
Beijinhooos **
"Eu fiquei mesmo sem palavras para descrever a tua forma super brilhante de escrever, escreves maravilhosamente bem, e a história é super cativante e acima de tudo apaixonante
(bem, como ainda não li tudo, tenho de me por a par do resto da história para conseguir depois postar um comentário a sério
Mas amanhã já devo ter acabado de ler, e então depois conseguirei fazer um comentário construtivo
)Continua a escrever maravilhosamente bem como tens escrito, acabaste de ganhar uma nova leitora super fascinada pelo sobrenatural

Beijinhooos ***
EDIT:
OK, agora sim, posso fazer algo de jeito quanto ao comentário XD E bolto a reiterar aquilo que disse ao inicio, fiquei completamente agarrada à história
Fiquei bué feliz por saber que a Lana e o Gugu ficaram juntos
E fiquei surpresa por ver que a Letícia era melhor pessoa do que aquilo que ao princípio fiquei a pensar dela, ao princípio pensava que ela era uma C**** que só queria ficar com o Gustavo, e agora vejo que as coisas são diferentes. Outra coisa, odiei aquele Ricardo ahg odiei ele mesmo do fundo do coração XD só me apeteceu arrancar-lhe a cabeça à dentada quando li aquilo XD Ele irritou-me taaanto
AHG Mas depois o Gustavo veio ajudar a Lana, e então eu fiquei mais feliiiiz
aHH agora tou tao curioooosaaaa com o que vem a seguir!!
Quando postas mais???
Eu ficarei aqui à espera pacientemente que postes o próximo
Beijinhooos **

さよならできずに, 立ち止まったままの僕と一緒に...
Awh!!!
Tenho uma nova leitora! 
Obrigada por leres e comentar Tinoco, fico muito feliz por saber que há pessoas a gostar da minha fic!
Dedico este capitulo á nova leitora!
Capitulo XXIV – Romeu
Fiz a ementa que Helen pediu. Ser eu a cozinhar era como dobrar o trabalho da casa. De cada vez que praticava essa arte, não só criava algo abstracto para comer, como também acabava por pintar a cozinha com os mais diferentes ingredientes, e por conseguinte, tinha de lavar muita mais louça do que quando era Helen a cozinhar. Ela era sempre optimista e, não sei como, gostava dos menus que eu fazia. Inacreditável! Depois de jantarmos, ela ajudou-me a limpar o que sujei a mais, e foi para o seu quarto acabar o trabalho. Eu fui para o meu. Mandei uma SMS a Gustavo, lamentando não ter estado mais tempo com ele. Ele não respondeu via escrita. Quando dei por mim, o telemóvel vibrava em cima do móvel por causa da sua chamada. Atendi ao quinto tremor:
-‘Tou?
Escutei um suspiro do outro lado:
-Estou com saudades tuas… - Ele parecia amuado, o que me fez rir.
-Desculpa.
Ele soltou uma lufada de ar:
-Porque é que te atrasaste com o Pedro?
Mordi o lábio para não rir:
-Atrasei-me com a Letícia! – Corrigi. – Ela ficou com o meu passe do autocarro!
-Ah… - Ele silenciou, constrangido. Chegava a ser cómico.
-Eu lamento, acredita que lamento. - Vozeei, com calma, sentando-me na orla da cama - Parece que estou com a boca tapada e não posso falar.
-É horrível! – dissemos ao mesmo tempo.
Sorri logo em seguida, e apercebi-me que do outro lado da linha Gustavo também o fez.
-Quero ver-te. – Afirmou.
Enrolei uma mecha de cabelo no meu dedo indicador:
-Eu também, mas… Até amanha, só se for em sonhos…!
Ele demorou a responder, e apenas escutei um estalido antes de ele o fazer:
-Eu não quero apenas sonhar.
A chamada terminou. Olhei para o ecrã, sem saber o que fazer. Deduzi que talvez ele tivesse ficado sem saldo, mas eu própria não tinha o suficiente para lhe ligar, o que me deixou um pouco amuada.
Resolvi ir dar um banho para restabelecer forças e dormir melhor. Depois de perder aquela meia hora na agua quente, apercebi-me que no quarto de Helen já não havia luz, pelo que ela devia já estar a dormir.
No meu quarto, escovei o cabelo e sacudi-o antes de o secar. Quando ia vestir o pijama, vi no fundo do armário uma saca de uma loja de roupa, onde estava o vestido branco que Helen me havia comprado no dia em que foi ao shopping sem mim. Peguei nele e pu-lo á minha frente, admirando-o ao espelho, e não resisti de o experimentar.
Era tão leve e tão solto, e os pormenores dos folhos davam-lhe um ar delicado que fazia o branco parecer ainda mais puro contra a minha pele.
Sentia-me bonita com ele vestido, mas suspirei quando tomei a decisão de o retirar.
Quando comecei a levantar a saia para o despir, escutei um estalido na janela e parei, para ter a certeza que não tinha sido impressão minha. Dei passos lentos até ela. Voltei a escutar um “Plick” e hesitei até que abri-a. Apoiei as mãos no peitoril e espreitei lá para baixo:
-Gustavo? – Não consegui evitar de sorrir, á medida que tentava controlar o volume da minha voz para não acordar Helen - O que estás aqui a fazer?
Ele deitou-me aquele sorriso, que nem o príncipe mais encantado conseguiria desenhar, e a sua íris azul penetrou no meu olhar como uma bala, deixando o meu coração aos pulos:
-Eu não quis sonhar e esperar até amanha. – ele disse-o como se fosse algo em que eu tinha de acreditar irrevogavelmente - Tinha de te ver agora!
O meu bom senso obrigou-me a contesta-lo:
-Tu és louco? É muito tarde!
-Eu estava com saudades tuas! – interrompeu.
Tapei a boca com a mão e ri-me levemente:
-Não acredito!
Ele franziu as sobrancelhas, ainda com aquele sorriso branco, lindo, perfeito e aliciante a adornar-lhe o rosto:
-O que tens vestido, Julieta?
Olhei para mim mesma, envergonhada:
-Um vestido que a Helen me deu, mas eu vou já trocar-me!
-Não! – a sua voz impediu-me. Ele encarava-me sem pestanejar –Estás linda! Vem ter comigo assim!
Vinquei o sobrolho:
-Não é mais pratico tu vires cá acima?
-Não quero incomodar a Helen! – explicou - Alem disso, a minha mãe não sabe que eu saí de casa, e se a Helen me vir pode-lhe contar! Vamos para a cachoeira! – propôs.
-Agora? – Sorri; a ideia era tentadora.
-Por favor! – ele fez olhar á gato do shrek.
Torci o nariz, mordi o lábio e lancei-lhe um olhar repreensivo:
-Está bem, Romeu! – cedi, revirando os olhos. Ele olhou-me provocante, mas eu pausei o seu orgulho – Mas primeiro deixa-me secar o cabelo!
Fui refutada:
-Mas está calor! E isso demora muito!
-é rápido, prometo! Nem sequer o aliso! Podes ir indo para a cachoeira, eu não demoro nada!
Ele revirou os olhos, com um sorriso enviesado na face:
-Não me obrigues a vir cá buscar-te ao colo!
Ri-me da ideia:
-não te preocupes, agora vai, antes que a Helen nos ouça!
-Despacha-te!
Mandei-lhe um beijo. Não sei porquê, mas naquele momento não consegui evitar, talvez porque a vontade de o beijar fosse mais forte.
(N.A.: Adoro imaginar a cena seguinte com esta musica de fundo!
https://www.youtube.com/watch?v=VxZByfLPdSQ )
Fechei a janela. tapei a boca com a mão e sorri, incrédula, no entanto, não perdi tempo e sacudi o meu cabelo ao ritmo do secador, sem qualquer preocupação com o seu aspecto. Ele acabou por ficar todo desengonçado e sem forma, ficando, porem, com um volume atraente.
Calcei umas sandálias de Helen, sem sequer reparar de que cor eram, e desfiz a cama, para o caso de ela acordar de noite e achar que eu não dormia em casa. Abri a porta do meu quarto e avancei pela ponta dos pés até á porta de entrada. Abria-a e saí para o exterior com cuidado para não provocar nenhum estrondo ao fecha-la.
A noite estava morna, mas era refrescada pela brisa que vinha da serra. Era lua cheia e haviam poucas estrelas no céu, mas tudo aquilo me pareceu perfeito, com um aspecto magico e meio… Romântico! Quando me apercebi que estava demasiado escuro, poupei-me ao trabalho de tropeçar nas raízes e de me arranhar nas silvas, e abri as minhas asas para aproveitar as suas funções. Bati-as uma única vez e o meu corpo foi elevado o suficiente para ficar acima das arvores que me causavam mais confusão. Em poucos segundos consegui chegar onde eu pretendia e só aí aterrei, fechando as asas para não ser descoberta e transitar melhor. Dei alguns passos para me aproximar das rochas, e no meio da escuridão, vislumbrei Gustavo, de costas para mim.
Encostei-me a uma arvore e cruzei os braços, sorridente:
-Hei, Romeu…! - Ele voltou-se para me ver - Cheguei!
Ele sorriu, e depois apertou os lábios e observou-me se cima a baixo, com a aura pintada de uma cor agradada.
-Finalmente!
Aproximamo-nos um do outro. Gustavo pôs as suas mãos no meu tronco e eu envolvi as minhas no seu pescoço. Senti logo o meu corpo aquecer e a respiração urgente. Ele inclinou a cabeça inspirando o ar:
-não aguentava mais sem te ver… Obrigado por vires…
Sorri e olhei-o nos olhos. Parecia que me afogava neles, que todo o mundo estava lá concentrado. Ele fechou-os, e eu fechei os meus, cravando a minha boca na dele com delicadeza. Finalmente a sede que passei durante todo o dia estava a ser saciada e sabia a tudo. A arco íris e cor, a relâmpagos e faíscas, a sol e a chuva. Apertei mais os nossos corpos e deixei-me encostar a uma pedra lisa e fria que fez o meu corpo dar choque. Mordi o seu lábio inferior com a minha extremidade bocal e tentei aguentar mais a minha respiração, enquanto as nossas línguas se cruzavam e as mãos percorriam os corpos quentes. Passei os dedos por baixo da camisola dele e á medida que sentia a firmeza dos seus músculos, fui levantando-a mais do seu corpo, até que numa pausa que quase não senti, ele a retirou e jogou no chão.
-Vamos dar um mergulho? – Perguntou, mordendo o meu lábio, enquanto sorria.
Afastei o meu rosto do seu e encarei o seu peito nu, apercebendo-me que ele ainda tinha o fio da minha mãe, enquanto pensava e humedecia os lábios:
-É um pouco tarde, não achas? E está escuro! – ri para ele, que se revelou malandro com a minha ultima observação.
-É só para nos refrescarmos! – ele arrastou os lábios até á minha orelha e deu-lhe um pequeno beijinho no lóbulo – não vai ser divertido? – ele trincou-me e eu abafei um gemido ao empurra-lo pelo peito, com o coração aos saltitos.
-É melhor não fazeres isso! – Avisei.
Ele riu, e agarrou-me os pulsos para me conduzir aonde queria. O local estava iluminado por alguns pirilampos que voavam em circulo perto das rochas. Gustavo ajudou-me a passar para a zona com agua do local e fez-me entrar com ele na cachoeira gelada, entre pequenos beijos. Tentei ser imune àquela temperatura, mas era complicado, porem, quando dei por mim, estava com as pernas e a cinta envolvidas pela agua, enquanto me mantinha envolvida nos seus lábios.
-Se a Helen desconfia que estou aqui, mata-me!
-Junta-te ao clube! – Gustavo riu-se – Mas eu não aguentava até amanha! – ele encarou-me e passou a mão húmida pela minha face, levemente – É tão mais fácil quando estamos só os dois! Não precisamos de dar satisfações a ninguém e o tempo pára…
Ele beijou-me outra vez, enquanto eu lhe passava as unhas sobre o pescoço, descolei os nossos lábios e fiquei a milímetros de distancias, recebendo o seu hálito em vez de oxigénio:
-Senti-me doida por não ter estado contigo hoje… - Ele sorriu e eu também - Porque é que eu fico assim por tua culpa?
Gustavo olhou-me com doçura:
-Porque tu és minha, Alannis Klein… – ele beijou-me docemente o pescoço e depois a clavícula – E eu sou teu...
-promete-me…! – fechei os olhos e suspirei profundamente.
Ele entrelaçou os seus dedos com os meus e voltou a tomar os meus lábios, com suavidade:
-Tu és muito importante para mim… Se soubesses metade do que me fazes sentir…!
Ele voltou a humedecer os meus lábios com os dele, enquanto os seus dedos se entrelaçavam com o meu cabelo e me faziam tremer por todos os lados. Abri os olhos ainda a beija-lo e olhei-o. Queria ver a aura de todas as formas, até porque ele estava enganado. Voltei a cerrar as pálpebras e apertei-o mais contra mim, massajando o seu tronco e cintura, em busca das mais variadas reacções. Ele parecia conter-se, num esforço profundo para domar o seu corpo quando eu lhe fazia aquilo, mas eu não queria desconhecer o que lhe provocava.
-Estás enganado… - murmurei, afastando-o – Eu sei melhor do que tu pensas!
Ele olhou-me nos olhos, confuso:
-Não parece…! Às vezes pareces tão desligada daquilo que eu sinto…
Sorri e olhei de relance para a agua que nos banhava até á cintura:
-Não… Eu apenas sou mais fria… - levantei as atenções até ele – basta-me olhar-te nos olhos para descobrir tudo sobre ti!
Ele sorriu-me, incrédulo e segurou a minha mão, até chegar á sua boca, para me beijar os dedos.
-Como é isso possível?
-Eu sou um anjo. – foi a minha resposta.
Gustavo franziu as sobrancelhas sem entender, fazendo-me explicar melhor:
-Desde que as asas nasceram eu consigo… ver o que as pessoas sentem e o que são…!
Ele largou os meus dedos e olhou-me céptico:
-O quê?!
-É verdade! – ri-me do seu esgar – ás vezes é incomodo, mas acontece… Quanto mais calma eu conseguir estar, menos complicado é, e com algum esforço, se conseguir centrar-me apenas em mim e naquilo que eu penso, consigo abstrair-me dos outros espíritos.
Ele entortou os lábios, num sorrisinho:
-Como é? Como é que vês? – quis saber, curioso.
Nunca tinha reflectido sobre isso. Normalmente eu sentia e pronto, mas como?
Olhei para ele, tentando obter a resposta. Apercebi-me que havia em torno do seu corpo, como se fosse uma película fina e transparente, uma cor que em nada alterava o seu físico. Parecia uma cor formada pela sua mente:
-Uma cor… – Os meus olhos não se desviaram dele nem por segundos. Eu continuava a ver aquilo que ilustrava a sua alma com interesse, mas apercebi-me que não era só isso. Havia também um cheiro. Um cheiro que somado á cor era um espírito e se tornava mais ou menos denso conforme a situação. Era esse cheiro que me fazia pressenti-lo sem mesmo ainda o ter visto. – também a fragrância… - fiz um biquinho com os labios - Sabes uma coisa? És mesmo tentador!
-E consegues saber o que é que me tenta a mim?
Desenhei um sorriso enviesado e a minha resposta foi um gesto. Passei as unhas com força desde o seu peito até ao abdominal. Ele fechou os olhos como reacção e travou a sua respiração por dois segundos:
-Não faças isso… - Aquilo não era uma ordem, nem tampouco um pedido. Era um opção.
Parei, com noção de que era o melhor, mas encostei os meus lábios aos seus ombros, e beijei a sua pele, lentamente, deslizando a minha boca até ao pescoço e depois na zona superior do peitoral. Ele inclinou a sua cabeça na minha direcção e alcançou a minha pele facial também com a sua boca. Os seus braços amassaram a minha cintura, quase segurando o meu corpo sem eu necessitar de chão, e ele fez-me passar os lábios para os dele.
Eu não os neguei e beijei-o como se não o fizesse há séculos. Sentia-me fatalmente atraída, e não sabia como tal tinha acontecido, mas naqueles momentos isso perdia a importância. Ele passou as suas mãos pela minha cintura abaixo, e foi deslizando até chegar ás minhas coxas, entre massagens, para me fazer rodear os seu corpo com as pernas e manter-me no seu colo. Ele afastou a cara da minha e sorriu:
-Um…
-Não faças isso! – Ordenei, prendendo-o mais fortemente com os meus membros, mas ele lançou um olhar irónico e não obedeceu.
-…Dois… Três!
Sustive a respiração e os nossos corpos foram abaixo até as cabeças ficarem totalmente afundadas na agua. O meu corpo pareceu dar choque quando senti a temperatura baixa entrar em contacto directo com ele. Apertei-me mais contra o corpo do meu namorado e ele regressou á tona comigo no seu colo como se eu fosse uma criança. Parecia não fazer grande esforço para me manter segura nos seus braços.
Limpei os olhos com as minhas mãos e tentei ajeitar o cabelo. Gustavo riu-se da minha cara:
-Não soube bem, Lala?
Abracei-o com força;
-Se eu ficar constipada, mato-te! – Brinquei, com os dentes a tremer – Ainda há pouco dei banho!
-Mas é muito melhor comigo! – Ele sorriu, convencido – Alem disso esse vestido branco deixa-te interessante!
-Gustavo! – Repreendi abraçando-o. O raio do vestido tinha de ficar meio transparente depois de molhado? – Assim eu tenho vergonha!
Ele caminhou comigo ainda no seu colo:
-Porquê, anjinha?
Fiz um biquinho com os lábios:
-Vês a banha toda!
Ele soltou uma gargalhada, que me fez rir também, e depois beijou-me a testa:
-Tonta! Tu não tens banha!
-Mas eu sou gorda!
-Não és nada! – Ele apalpou-me as coxas, trincando o seu próprio lábio com força - És carnuda! Tens onde se lhe agarrar!
Estremeci quando ele continuou a passar as maos na minha pele.
-Olha que se fosses uma trinca espinhas eu nunca teria sequer olhado para ti! – sussurrou ao meu ouvido, mordendo a minha orelha – Tu és como és e eu gosto disso!
-Hum… mas eu não quero que tu olhes para o meu corpo… - falei infantilmente.
Ele riu-se:
-Está bem, bebézinha! – Respeitou, passando a mão pela minha face – É melhor sairmos da agua, ainda não paraste de tremer!
-É uma boa ideia! – concordei.
Ele olhou para a agua, como se tivesse medo do que eu ia dizer:
-Queres ir já para casa?
-não… - Lamentei – Eu não quero ir! Eu quero ficar aqui contigo!
Ele tentou não sorrir:
-Não quero que fiques doente!
-Eu não fico!
Olhei em redor, em busca de uma pedra seca e ampla, no entanto só havia uma assim, mas para lá chegar era preciso combater contra a corrente e andar por cima de pequenas pedras escorregadias, o que no meio daquela escuridão era difícil.
-Como vamos para ali? – perguntei, apontando para a tal rocha.
Gustavo observou-a e depois deu-me a mão e fez-me sair da agua. A minha roupa escorria agua e estava pesada. Tentei desapega-la da minha pele, para não salientar tanto as minhas formas, e Gustavo fez-me entrar na floresta atrás dele. Ele fez-me descer para uma parte em que havia mais terra do que plantas, sujando os meus pés e as sandálias de Helen, e mostrou-me que havia outra parte da cachoeira que eu não havia visitado ainda. Algumas rochas altas tapavam-me a visão, mas ele conduziu-me com cuidado, até entrar-mos novamente dentro da cachoeira, que desta vez era menos funda. Segui-o até á tal rocha. Era mais alta do que eu julgava, mas Gustavo ajudou-me a saltar para cima dela, seguindo-me de seguida. Ele deitou-se de barriga para cima, a olhar-me ainda de pé, e eu, ainda tremula, sorri:
-Resiste, ok?
Ele não entendeu, porem, eu desviei o cabelo todo para um lado, e expulsei as asas, mostrando que eu tinha razão quanto ao que ele sentia quando eu as expunha. Uma parte dele parecia ficar frenética e sem controlo, como se também sentisse a minha aura e a desejasse mais do que todas as coisas, todavia, deixou-se ficar deitado a olhar-me. Pareceu-me vê-lo corar ligeiramente:
-O que vais fazer? – Interrogou.
-Uma experiencia!
Abri as asas por completo, sobre a sua supervisão, e sem as apontar para o chão, como fazia quando queria descolar, agitei-as como um leque, o mais rápido e com mais força que consegui, batendo cerca de cinco vezes por cada segundo. O vento que elas faziam agitava as folhas das arvores, que faziam a floresta assobiar sinistramente, em conjunto com o som da agua que se movia também por minha culpa. O meu objectivo era produzir o máximo de vento para conseguir afastar as partículas de H2O da minha roupa e deixa-la menos húmida. Gustavo franziu o cenho, ao receber também algum vento no rosto, e percebi que pelo menos com ele estava a resultar. O seu cabelo parecia estar a secar rapidamente, e depois apercebi-me que o meu vestido já não estava tão pesado e esvoaçava conforme o movimento de cada asas.
Infelizmente, aquilo era como correr. Eu estava a sentir-me cansada e tive de parar. A minha respiração estava ofegante, mas quando eu apalpei o vestido fiquei satisfeita por estar mais seco e sorri.
-Esperta! – Admirou Gustavo.
Sentei-me nas suas pernas, sem sequer me lembrar de fechar as armações das minhas costas e envolvi o seu pescoço nos meus braços, selando um beijo:
-Assim ficamos juntos! – Declarei – E olha, também estás mais seco!
Gustavo sorriu e olhou-me nos olhos de uma forma encantada, sorrindo levemente para mim. Olhei para as minhas pernas timidamente, e sorri também. Ele levantou o meu queixo para eu o olhar, e manteve aquele ar de apaixonado:
-Eu amo-te…! – declarou, deixando-me mais envergonhada ainda.
Beijei-o para esconder o meu rosto da sua visão, e depois abracei-o e encostei a cabeça ao seu ombro, sem nada a dizer.
-Sabes que pesas mais com as asas? - Inquiriu subitamente.
Fechei-as sem pensar. Ele fez uma careta:
-Não era preciso. – Informou.
-Mas eu quis! É melhor assim! Se não estiver atenta ainda levas com uma asa na testa!
Ele soltou um gargalhada melodiosa e eu fiz o mesmo, apesar do meu riso ser um pouco ridículo.
-Isso não convém!
-Eu já acertei com ela na cara da Liliana e da Cristina ao mesmo tempo! – Ri-me da situação, apesar de na altura não ter graça.
-A Liliana sabe? – Ele pareceu chocado.
-Bem, sim. Ela ajudou-me a conseguir voar, inclusive!
-E o Pedro?!
Abafei um sorriso e apertei-lhe o nariz com os meus dedos. Ele fez um esgar:
-É obvio que não, Romeu! A Lili também só descobriu por acidente!
-Hum… - ele olhou para a agua, em tom reflectivo.
Os pirilampos mais próximos iluminaram-lhe o rosto, e ele levantou-me num gesto rápido e pôs-se á minha frente, segurando as minhas mãos:
-Lala, vamos dançar!
Neguei com a cabeça, rindo da ideia, mas ele fez aquele movimento que me fazia involuntariamente girar em torno do meu próprio eixo ao comando da sua mão:
-Sabes uma coisa que me apercebi quando dançamos juntos?
-O quê?
-Tu danças em bicos dos pés! – Ele riu.
-Isso é muito mau? – perguntei, voltando a imitar os passos que ele me recomendava, todavia aquela dança era diferente da que dançamos antes. Era mais lenta e aconchegante.
-É estranho. – comentou, balançando o meu corpo como queria - Parece que tens medo de assentar!
-Talvez tenha! – Confirmei – Eu gosto de estar com a cabeça na nuvens!
-E o corpo também! – concluiu, fazendo-me rodar devagarinho até as minhas costas encostarem ao seu peito – Quando eu era pequeno queria ser um super herói – Ele riu-se e beijou-me a bochecha – para voar e fazer coisas incríveis!
-Rói-te de inveja, eu posso voar! – mostrei-lhe a língua e ele riu. Aquilo continuava a ser inacreditável para ele.
-O que querias ser tu, quando eras pequena? – perguntou, fazendo-me voltar a ficar de frente para ele.
-Uma princesa!
Rimo-nos ambos do sonho.
-Aposto que adoravas cor-de-rosa! – ele troçou.
-Por acaso é a minha segunda cor preferida!
Ele franziu as sobrancelhas e olhou para o céu a sorrir:
-Não acredito!
Fi-lo soltar-me e dei um passo de recua dele. Pus as minhas mãos na cintura e inclinei o rosto:
-E sabes que mais? – indaguei - Sou louca por Barbies! Goza á vontade, mas já vi todos os filmes! – Fiz um ar de orgulho.
-És mesmo uma criancinha!
Ele deixou-se sentar no chão, rindo da minha cara.
Eu fingi-me indiferente, e sentei-me descaradamente no seu colo, de frente para ele, cruzando as pernas em redor do seu tronco:
-Vais dizer que não tens paixões secretas e embaraçosas?
-Não! – respondeu, fazendo-se de superior.
-Men-ti-ro-so! – Acusei em tom de gozo, prolongando a palavra - Eu consigo captar as tuas emoções! Vá, confessa!
-Não!
Empurrei o seu peito com força, fazendo-o deitar completamente o corpo sobre a rocha. Ele gemeu por causa do contacto entre a sua pele e a pedra polida gelada. Pus as minhas mãos no seu pescoço e inclinei-me em cima dele:
-Confessa!
-Não! – Ele negou com a cabeça – E acho melhor saíres de cima de mim, pode ser perigoso!
-Porquê?
Ele fez um ar maroto e eu entendi o que ele quis dizer, contudo apenas alterei a minha posição, continuando sobre ele:
-Vou ter de adivinhar? Ou tenho de perguntar á cidade inteira?
-Ninguém sabe!
-aposto que a Su me diz!
-Não! – Ele ficou aflito.
-Então diz-me! Algo que pouca gente saiba sobre ti!
Ele revirou os olhos e suspirou amuado:
-ok…
Esperei interessada pela confissão, mas ele parecia procurar uma desculpa para não me dizer nada:
-Então? – tentei que ele prosseguisse – Não adianta mentir!
Gustavo soltou uma lufada de ar e admitiu:
-Sou louco por desenhos animados! - disse - Faço de conta que a Susana me obriga a ver os clássicos da Disney, mas adoro ver seja o que for! Pronto, já disse!
-Isso não é embaraçoso! – corrigi, sorrindo.
-é sim! – contrapôs – se eu digo a alguém que me atraso só porque quero ver o que acontece á bela e ao monstro no final do filme, apesar de já saber de cor e salteado o que vai acontecer, ia ser a chacota da zona!
Não consegui evitar de rir. Afinal aquilo podia ter a sua piada!
Abafei o rosto no seu peito, tentando parar as risadas:
-Isso é fofinho!
Ele riu-se também:
-Goza!
Dei-lhe um beijo rápido nos lábios e deitei-me ao seu lado, com a cabeça encostada ao seu braço:
-Conta mais! – pedi.
-não dizes nada a ninguém?
-Não!
Ele suspirou e mexeu no meu cabelo, enquanto olhávamos para a lua cheia a deslocar-se para oeste:
-Gosto de ver romances! – admitiu.
-Ah, isso já me tinha apercebido, Romeu!
Ele sorriu:
-E queres saber qual é o pior?
-Conta, conta! – Pedi olhando-o.
-Todos os dias anoto o que me aconteceu…
-Num diário? – interrompi.
-Odeio que lhe chamem isso! – protestou, irritado - Estás a ver, é por isso que me envergonha! Aquilo é só um caderno, mas o nome “Diário” torna-o na coisa mais idiota em que alguém pode escrever!
Ri-me da sua fúria:
-Ora, eu também tenho um diário desde sábado! Só que é ilustrado!
Gustavo fitou-me admirado:
-Ilustrado?!
-hum, hum! Mas não te preocupes, eu criei personagens para nos representarem! Assim ninguém sabe que é um diário!
-espertinha! – ele riu-se e depois observou o pirilampo que voou perto de nós – porque é que o fazes?
-o quê?
-porque tens um diário?
-E tu? – quis saber acomodando-me mais no seu corpo.
Ele abraçou-me e beijou-me a nuca, olhando para o céu numa medida reflectora:
-Para não me esquecer daquilo que estou a viver… e para um dia, especialmente se estiver infeliz, recordar os bons momentos que vivi. – ele atentou em mim, e mexeu-me delicadamente no cabelo. As suas palavras eram tão profundas - E tu?
Dei de ombros:
-Para dar aos meus netinhos! – Libertei uma gargalhada em conjunto com ele.
-Já pensas nisso?
-Bem… Eu quero ter filhos… - confessei timidamente – Tu não?
-Eu quero faze-los! – Ele riu-se e deu-me um beijo na testa.
Não consegui evitar de me rir também da sua resposta.
-Descarado!
-Não sou nada! Mas acho que é a melhor parte!
Torci o nariz. Aquela conversa era embaraçosa num certo ponto:
-És virgem? – perguntei.
Ele olhou-me e sorriu, misteriosamente:
-Não te vou responder a isso!
-Porquê? Tens vergonha? – tentei adivinhar.
-Não, mas da primeira vez que te perguntei isso, deste-me um estalo!
Recordei o momento e levantei o meu tronco, ofendida:
-Tu não paravas de falar do meu corpo! Disseste que eu tinha uma anca muito desenvolvida para a minha idade…! – Franzi as sobrancelhas e depois olhei para mim mesma - Tenho mesmo?!
Ele riu:
-Eu estava a brincar! – Admitiu, rodando os olhos, e fazendo-me deitar novamente sobre o seu peito - É totalmente vulgar!
-Hum… Deixaste-me obcecada com isso, sabias?
-É bom saber que mexo contigo! – brincou.
-Ah, ah, que engraçadinho! – Apertei-lhe a bochecha ao estilo de Greta e depois de Gustavo fazer um esgar, dei-lhe um beijinho leve nos lábios.
Movi o meu corpo e abracei-o lateralmente, admirando o seu físico. Ele era tão bonito. Os seus olhos, mesmo na noite, brilhavam como safiras quando ele me olhava, e o corpo parecia ter sido esculpido por Miguel Ângelo. O cheiro, por si só, deixava-me completamente hipnotizada, e as palavras saiam como musica para os meus ouvidos.
Mantivemo-nos os dois fixados um no outro e eu sorri com carinho, baixando a minha visão para a mão dele, que passeava sobre o meu braço, enquanto eu assimilava o que ia dizer.
-O verdadeiro motivo porque desenho um diário…É que quero ter uma prova de que especialmente tu não és apenas mais um sonho da minha cabeça, e que isto que estou a viver agora contigo é a realidade. – Gustavo acariciou-me a face, atento ao que eu dizia - Tenho medo de ser acordada por um balde de agua fria e perceber que foi tudo uma ilusão…
Tenho uma nova leitora! 
Obrigada por leres e comentar Tinoco, fico muito feliz por saber que há pessoas a gostar da minha fic!

Dedico este capitulo á nova leitora!

Capitulo XXIV – Romeu
Fiz a ementa que Helen pediu. Ser eu a cozinhar era como dobrar o trabalho da casa. De cada vez que praticava essa arte, não só criava algo abstracto para comer, como também acabava por pintar a cozinha com os mais diferentes ingredientes, e por conseguinte, tinha de lavar muita mais louça do que quando era Helen a cozinhar. Ela era sempre optimista e, não sei como, gostava dos menus que eu fazia. Inacreditável! Depois de jantarmos, ela ajudou-me a limpar o que sujei a mais, e foi para o seu quarto acabar o trabalho. Eu fui para o meu. Mandei uma SMS a Gustavo, lamentando não ter estado mais tempo com ele. Ele não respondeu via escrita. Quando dei por mim, o telemóvel vibrava em cima do móvel por causa da sua chamada. Atendi ao quinto tremor:
-‘Tou?
Escutei um suspiro do outro lado:
-Estou com saudades tuas… - Ele parecia amuado, o que me fez rir.
-Desculpa.
Ele soltou uma lufada de ar:
-Porque é que te atrasaste com o Pedro?
Mordi o lábio para não rir:
-Atrasei-me com a Letícia! – Corrigi. – Ela ficou com o meu passe do autocarro!
-Ah… - Ele silenciou, constrangido. Chegava a ser cómico.
-Eu lamento, acredita que lamento. - Vozeei, com calma, sentando-me na orla da cama - Parece que estou com a boca tapada e não posso falar.
-É horrível! – dissemos ao mesmo tempo.
Sorri logo em seguida, e apercebi-me que do outro lado da linha Gustavo também o fez.
-Quero ver-te. – Afirmou.
Enrolei uma mecha de cabelo no meu dedo indicador:
-Eu também, mas… Até amanha, só se for em sonhos…!
Ele demorou a responder, e apenas escutei um estalido antes de ele o fazer:
-Eu não quero apenas sonhar.
A chamada terminou. Olhei para o ecrã, sem saber o que fazer. Deduzi que talvez ele tivesse ficado sem saldo, mas eu própria não tinha o suficiente para lhe ligar, o que me deixou um pouco amuada.
Resolvi ir dar um banho para restabelecer forças e dormir melhor. Depois de perder aquela meia hora na agua quente, apercebi-me que no quarto de Helen já não havia luz, pelo que ela devia já estar a dormir.
No meu quarto, escovei o cabelo e sacudi-o antes de o secar. Quando ia vestir o pijama, vi no fundo do armário uma saca de uma loja de roupa, onde estava o vestido branco que Helen me havia comprado no dia em que foi ao shopping sem mim. Peguei nele e pu-lo á minha frente, admirando-o ao espelho, e não resisti de o experimentar.
Era tão leve e tão solto, e os pormenores dos folhos davam-lhe um ar delicado que fazia o branco parecer ainda mais puro contra a minha pele.
Sentia-me bonita com ele vestido, mas suspirei quando tomei a decisão de o retirar.
Quando comecei a levantar a saia para o despir, escutei um estalido na janela e parei, para ter a certeza que não tinha sido impressão minha. Dei passos lentos até ela. Voltei a escutar um “Plick” e hesitei até que abri-a. Apoiei as mãos no peitoril e espreitei lá para baixo:
-Gustavo? – Não consegui evitar de sorrir, á medida que tentava controlar o volume da minha voz para não acordar Helen - O que estás aqui a fazer?
Ele deitou-me aquele sorriso, que nem o príncipe mais encantado conseguiria desenhar, e a sua íris azul penetrou no meu olhar como uma bala, deixando o meu coração aos pulos:
-Eu não quis sonhar e esperar até amanha. – ele disse-o como se fosse algo em que eu tinha de acreditar irrevogavelmente - Tinha de te ver agora!
O meu bom senso obrigou-me a contesta-lo:
-Tu és louco? É muito tarde!
-Eu estava com saudades tuas! – interrompeu.
Tapei a boca com a mão e ri-me levemente:
-Não acredito!
Ele franziu as sobrancelhas, ainda com aquele sorriso branco, lindo, perfeito e aliciante a adornar-lhe o rosto:
-O que tens vestido, Julieta?
Olhei para mim mesma, envergonhada:
-Um vestido que a Helen me deu, mas eu vou já trocar-me!
-Não! – a sua voz impediu-me. Ele encarava-me sem pestanejar –Estás linda! Vem ter comigo assim!
Vinquei o sobrolho:
-Não é mais pratico tu vires cá acima?
-Não quero incomodar a Helen! – explicou - Alem disso, a minha mãe não sabe que eu saí de casa, e se a Helen me vir pode-lhe contar! Vamos para a cachoeira! – propôs.
-Agora? – Sorri; a ideia era tentadora.
-Por favor! – ele fez olhar á gato do shrek.
Torci o nariz, mordi o lábio e lancei-lhe um olhar repreensivo:
-Está bem, Romeu! – cedi, revirando os olhos. Ele olhou-me provocante, mas eu pausei o seu orgulho – Mas primeiro deixa-me secar o cabelo!
Fui refutada:
-Mas está calor! E isso demora muito!
-é rápido, prometo! Nem sequer o aliso! Podes ir indo para a cachoeira, eu não demoro nada!
Ele revirou os olhos, com um sorriso enviesado na face:
-Não me obrigues a vir cá buscar-te ao colo!
Ri-me da ideia:
-não te preocupes, agora vai, antes que a Helen nos ouça!
-Despacha-te!
Mandei-lhe um beijo. Não sei porquê, mas naquele momento não consegui evitar, talvez porque a vontade de o beijar fosse mais forte.
(N.A.: Adoro imaginar a cena seguinte com esta musica de fundo!
https://www.youtube.com/watch?v=VxZByfLPdSQ )Fechei a janela. tapei a boca com a mão e sorri, incrédula, no entanto, não perdi tempo e sacudi o meu cabelo ao ritmo do secador, sem qualquer preocupação com o seu aspecto. Ele acabou por ficar todo desengonçado e sem forma, ficando, porem, com um volume atraente.
Calcei umas sandálias de Helen, sem sequer reparar de que cor eram, e desfiz a cama, para o caso de ela acordar de noite e achar que eu não dormia em casa. Abri a porta do meu quarto e avancei pela ponta dos pés até á porta de entrada. Abria-a e saí para o exterior com cuidado para não provocar nenhum estrondo ao fecha-la.
A noite estava morna, mas era refrescada pela brisa que vinha da serra. Era lua cheia e haviam poucas estrelas no céu, mas tudo aquilo me pareceu perfeito, com um aspecto magico e meio… Romântico! Quando me apercebi que estava demasiado escuro, poupei-me ao trabalho de tropeçar nas raízes e de me arranhar nas silvas, e abri as minhas asas para aproveitar as suas funções. Bati-as uma única vez e o meu corpo foi elevado o suficiente para ficar acima das arvores que me causavam mais confusão. Em poucos segundos consegui chegar onde eu pretendia e só aí aterrei, fechando as asas para não ser descoberta e transitar melhor. Dei alguns passos para me aproximar das rochas, e no meio da escuridão, vislumbrei Gustavo, de costas para mim.
Encostei-me a uma arvore e cruzei os braços, sorridente:
-Hei, Romeu…! - Ele voltou-se para me ver - Cheguei!
Ele sorriu, e depois apertou os lábios e observou-me se cima a baixo, com a aura pintada de uma cor agradada.
-Finalmente!
Aproximamo-nos um do outro. Gustavo pôs as suas mãos no meu tronco e eu envolvi as minhas no seu pescoço. Senti logo o meu corpo aquecer e a respiração urgente. Ele inclinou a cabeça inspirando o ar:
-não aguentava mais sem te ver… Obrigado por vires…
Sorri e olhei-o nos olhos. Parecia que me afogava neles, que todo o mundo estava lá concentrado. Ele fechou-os, e eu fechei os meus, cravando a minha boca na dele com delicadeza. Finalmente a sede que passei durante todo o dia estava a ser saciada e sabia a tudo. A arco íris e cor, a relâmpagos e faíscas, a sol e a chuva. Apertei mais os nossos corpos e deixei-me encostar a uma pedra lisa e fria que fez o meu corpo dar choque. Mordi o seu lábio inferior com a minha extremidade bocal e tentei aguentar mais a minha respiração, enquanto as nossas línguas se cruzavam e as mãos percorriam os corpos quentes. Passei os dedos por baixo da camisola dele e á medida que sentia a firmeza dos seus músculos, fui levantando-a mais do seu corpo, até que numa pausa que quase não senti, ele a retirou e jogou no chão.
-Vamos dar um mergulho? – Perguntou, mordendo o meu lábio, enquanto sorria.
Afastei o meu rosto do seu e encarei o seu peito nu, apercebendo-me que ele ainda tinha o fio da minha mãe, enquanto pensava e humedecia os lábios:
-É um pouco tarde, não achas? E está escuro! – ri para ele, que se revelou malandro com a minha ultima observação.
-É só para nos refrescarmos! – ele arrastou os lábios até á minha orelha e deu-lhe um pequeno beijinho no lóbulo – não vai ser divertido? – ele trincou-me e eu abafei um gemido ao empurra-lo pelo peito, com o coração aos saltitos.
-É melhor não fazeres isso! – Avisei.
Ele riu, e agarrou-me os pulsos para me conduzir aonde queria. O local estava iluminado por alguns pirilampos que voavam em circulo perto das rochas. Gustavo ajudou-me a passar para a zona com agua do local e fez-me entrar com ele na cachoeira gelada, entre pequenos beijos. Tentei ser imune àquela temperatura, mas era complicado, porem, quando dei por mim, estava com as pernas e a cinta envolvidas pela agua, enquanto me mantinha envolvida nos seus lábios.
-Se a Helen desconfia que estou aqui, mata-me!
-Junta-te ao clube! – Gustavo riu-se – Mas eu não aguentava até amanha! – ele encarou-me e passou a mão húmida pela minha face, levemente – É tão mais fácil quando estamos só os dois! Não precisamos de dar satisfações a ninguém e o tempo pára…
Ele beijou-me outra vez, enquanto eu lhe passava as unhas sobre o pescoço, descolei os nossos lábios e fiquei a milímetros de distancias, recebendo o seu hálito em vez de oxigénio:
-Senti-me doida por não ter estado contigo hoje… - Ele sorriu e eu também - Porque é que eu fico assim por tua culpa?
Gustavo olhou-me com doçura:
-Porque tu és minha, Alannis Klein… – ele beijou-me docemente o pescoço e depois a clavícula – E eu sou teu...
-promete-me…! – fechei os olhos e suspirei profundamente.
Ele entrelaçou os seus dedos com os meus e voltou a tomar os meus lábios, com suavidade:
-Tu és muito importante para mim… Se soubesses metade do que me fazes sentir…!
Ele voltou a humedecer os meus lábios com os dele, enquanto os seus dedos se entrelaçavam com o meu cabelo e me faziam tremer por todos os lados. Abri os olhos ainda a beija-lo e olhei-o. Queria ver a aura de todas as formas, até porque ele estava enganado. Voltei a cerrar as pálpebras e apertei-o mais contra mim, massajando o seu tronco e cintura, em busca das mais variadas reacções. Ele parecia conter-se, num esforço profundo para domar o seu corpo quando eu lhe fazia aquilo, mas eu não queria desconhecer o que lhe provocava.
-Estás enganado… - murmurei, afastando-o – Eu sei melhor do que tu pensas!
Ele olhou-me nos olhos, confuso:
-Não parece…! Às vezes pareces tão desligada daquilo que eu sinto…
Sorri e olhei de relance para a agua que nos banhava até á cintura:
-Não… Eu apenas sou mais fria… - levantei as atenções até ele – basta-me olhar-te nos olhos para descobrir tudo sobre ti!
Ele sorriu-me, incrédulo e segurou a minha mão, até chegar á sua boca, para me beijar os dedos.
-Como é isso possível?
-Eu sou um anjo. – foi a minha resposta.
Gustavo franziu as sobrancelhas sem entender, fazendo-me explicar melhor:
-Desde que as asas nasceram eu consigo… ver o que as pessoas sentem e o que são…!
Ele largou os meus dedos e olhou-me céptico:
-O quê?!
-É verdade! – ri-me do seu esgar – ás vezes é incomodo, mas acontece… Quanto mais calma eu conseguir estar, menos complicado é, e com algum esforço, se conseguir centrar-me apenas em mim e naquilo que eu penso, consigo abstrair-me dos outros espíritos.
Ele entortou os lábios, num sorrisinho:
-Como é? Como é que vês? – quis saber, curioso.
Nunca tinha reflectido sobre isso. Normalmente eu sentia e pronto, mas como?
Olhei para ele, tentando obter a resposta. Apercebi-me que havia em torno do seu corpo, como se fosse uma película fina e transparente, uma cor que em nada alterava o seu físico. Parecia uma cor formada pela sua mente:
-Uma cor… – Os meus olhos não se desviaram dele nem por segundos. Eu continuava a ver aquilo que ilustrava a sua alma com interesse, mas apercebi-me que não era só isso. Havia também um cheiro. Um cheiro que somado á cor era um espírito e se tornava mais ou menos denso conforme a situação. Era esse cheiro que me fazia pressenti-lo sem mesmo ainda o ter visto. – também a fragrância… - fiz um biquinho com os labios - Sabes uma coisa? És mesmo tentador!
-E consegues saber o que é que me tenta a mim?
Desenhei um sorriso enviesado e a minha resposta foi um gesto. Passei as unhas com força desde o seu peito até ao abdominal. Ele fechou os olhos como reacção e travou a sua respiração por dois segundos:
-Não faças isso… - Aquilo não era uma ordem, nem tampouco um pedido. Era um opção.
Parei, com noção de que era o melhor, mas encostei os meus lábios aos seus ombros, e beijei a sua pele, lentamente, deslizando a minha boca até ao pescoço e depois na zona superior do peitoral. Ele inclinou a sua cabeça na minha direcção e alcançou a minha pele facial também com a sua boca. Os seus braços amassaram a minha cintura, quase segurando o meu corpo sem eu necessitar de chão, e ele fez-me passar os lábios para os dele.
Eu não os neguei e beijei-o como se não o fizesse há séculos. Sentia-me fatalmente atraída, e não sabia como tal tinha acontecido, mas naqueles momentos isso perdia a importância. Ele passou as suas mãos pela minha cintura abaixo, e foi deslizando até chegar ás minhas coxas, entre massagens, para me fazer rodear os seu corpo com as pernas e manter-me no seu colo. Ele afastou a cara da minha e sorriu:
-Um…
-Não faças isso! – Ordenei, prendendo-o mais fortemente com os meus membros, mas ele lançou um olhar irónico e não obedeceu.
-…Dois… Três!
Sustive a respiração e os nossos corpos foram abaixo até as cabeças ficarem totalmente afundadas na agua. O meu corpo pareceu dar choque quando senti a temperatura baixa entrar em contacto directo com ele. Apertei-me mais contra o corpo do meu namorado e ele regressou á tona comigo no seu colo como se eu fosse uma criança. Parecia não fazer grande esforço para me manter segura nos seus braços.
Limpei os olhos com as minhas mãos e tentei ajeitar o cabelo. Gustavo riu-se da minha cara:
-Não soube bem, Lala?
Abracei-o com força;
-Se eu ficar constipada, mato-te! – Brinquei, com os dentes a tremer – Ainda há pouco dei banho!
-Mas é muito melhor comigo! – Ele sorriu, convencido – Alem disso esse vestido branco deixa-te interessante!
-Gustavo! – Repreendi abraçando-o. O raio do vestido tinha de ficar meio transparente depois de molhado? – Assim eu tenho vergonha!
Ele caminhou comigo ainda no seu colo:
-Porquê, anjinha?
Fiz um biquinho com os lábios:
-Vês a banha toda!
Ele soltou uma gargalhada, que me fez rir também, e depois beijou-me a testa:
-Tonta! Tu não tens banha!
-Mas eu sou gorda!
-Não és nada! – Ele apalpou-me as coxas, trincando o seu próprio lábio com força - És carnuda! Tens onde se lhe agarrar!
Estremeci quando ele continuou a passar as maos na minha pele.
-Olha que se fosses uma trinca espinhas eu nunca teria sequer olhado para ti! – sussurrou ao meu ouvido, mordendo a minha orelha – Tu és como és e eu gosto disso!
-Hum… mas eu não quero que tu olhes para o meu corpo… - falei infantilmente.
Ele riu-se:
-Está bem, bebézinha! – Respeitou, passando a mão pela minha face – É melhor sairmos da agua, ainda não paraste de tremer!
-É uma boa ideia! – concordei.
Ele olhou para a agua, como se tivesse medo do que eu ia dizer:
-Queres ir já para casa?
-não… - Lamentei – Eu não quero ir! Eu quero ficar aqui contigo!
Ele tentou não sorrir:
-Não quero que fiques doente!
-Eu não fico!
Olhei em redor, em busca de uma pedra seca e ampla, no entanto só havia uma assim, mas para lá chegar era preciso combater contra a corrente e andar por cima de pequenas pedras escorregadias, o que no meio daquela escuridão era difícil.
-Como vamos para ali? – perguntei, apontando para a tal rocha.
Gustavo observou-a e depois deu-me a mão e fez-me sair da agua. A minha roupa escorria agua e estava pesada. Tentei desapega-la da minha pele, para não salientar tanto as minhas formas, e Gustavo fez-me entrar na floresta atrás dele. Ele fez-me descer para uma parte em que havia mais terra do que plantas, sujando os meus pés e as sandálias de Helen, e mostrou-me que havia outra parte da cachoeira que eu não havia visitado ainda. Algumas rochas altas tapavam-me a visão, mas ele conduziu-me com cuidado, até entrar-mos novamente dentro da cachoeira, que desta vez era menos funda. Segui-o até á tal rocha. Era mais alta do que eu julgava, mas Gustavo ajudou-me a saltar para cima dela, seguindo-me de seguida. Ele deitou-se de barriga para cima, a olhar-me ainda de pé, e eu, ainda tremula, sorri:
-Resiste, ok?
Ele não entendeu, porem, eu desviei o cabelo todo para um lado, e expulsei as asas, mostrando que eu tinha razão quanto ao que ele sentia quando eu as expunha. Uma parte dele parecia ficar frenética e sem controlo, como se também sentisse a minha aura e a desejasse mais do que todas as coisas, todavia, deixou-se ficar deitado a olhar-me. Pareceu-me vê-lo corar ligeiramente:
-O que vais fazer? – Interrogou.
-Uma experiencia!
Abri as asas por completo, sobre a sua supervisão, e sem as apontar para o chão, como fazia quando queria descolar, agitei-as como um leque, o mais rápido e com mais força que consegui, batendo cerca de cinco vezes por cada segundo. O vento que elas faziam agitava as folhas das arvores, que faziam a floresta assobiar sinistramente, em conjunto com o som da agua que se movia também por minha culpa. O meu objectivo era produzir o máximo de vento para conseguir afastar as partículas de H2O da minha roupa e deixa-la menos húmida. Gustavo franziu o cenho, ao receber também algum vento no rosto, e percebi que pelo menos com ele estava a resultar. O seu cabelo parecia estar a secar rapidamente, e depois apercebi-me que o meu vestido já não estava tão pesado e esvoaçava conforme o movimento de cada asas.
Infelizmente, aquilo era como correr. Eu estava a sentir-me cansada e tive de parar. A minha respiração estava ofegante, mas quando eu apalpei o vestido fiquei satisfeita por estar mais seco e sorri.
-Esperta! – Admirou Gustavo.
Sentei-me nas suas pernas, sem sequer me lembrar de fechar as armações das minhas costas e envolvi o seu pescoço nos meus braços, selando um beijo:
-Assim ficamos juntos! – Declarei – E olha, também estás mais seco!
Gustavo sorriu e olhou-me nos olhos de uma forma encantada, sorrindo levemente para mim. Olhei para as minhas pernas timidamente, e sorri também. Ele levantou o meu queixo para eu o olhar, e manteve aquele ar de apaixonado:
-Eu amo-te…! – declarou, deixando-me mais envergonhada ainda.
Beijei-o para esconder o meu rosto da sua visão, e depois abracei-o e encostei a cabeça ao seu ombro, sem nada a dizer.
-Sabes que pesas mais com as asas? - Inquiriu subitamente.
Fechei-as sem pensar. Ele fez uma careta:
-Não era preciso. – Informou.
-Mas eu quis! É melhor assim! Se não estiver atenta ainda levas com uma asa na testa!
Ele soltou um gargalhada melodiosa e eu fiz o mesmo, apesar do meu riso ser um pouco ridículo.
-Isso não convém!
-Eu já acertei com ela na cara da Liliana e da Cristina ao mesmo tempo! – Ri-me da situação, apesar de na altura não ter graça.
-A Liliana sabe? – Ele pareceu chocado.
-Bem, sim. Ela ajudou-me a conseguir voar, inclusive!
-E o Pedro?!
Abafei um sorriso e apertei-lhe o nariz com os meus dedos. Ele fez um esgar:
-É obvio que não, Romeu! A Lili também só descobriu por acidente!
-Hum… - ele olhou para a agua, em tom reflectivo.
Os pirilampos mais próximos iluminaram-lhe o rosto, e ele levantou-me num gesto rápido e pôs-se á minha frente, segurando as minhas mãos:
-Lala, vamos dançar!
Neguei com a cabeça, rindo da ideia, mas ele fez aquele movimento que me fazia involuntariamente girar em torno do meu próprio eixo ao comando da sua mão:
-Sabes uma coisa que me apercebi quando dançamos juntos?
-O quê?
-Tu danças em bicos dos pés! – Ele riu.
-Isso é muito mau? – perguntei, voltando a imitar os passos que ele me recomendava, todavia aquela dança era diferente da que dançamos antes. Era mais lenta e aconchegante.
-É estranho. – comentou, balançando o meu corpo como queria - Parece que tens medo de assentar!
-Talvez tenha! – Confirmei – Eu gosto de estar com a cabeça na nuvens!
-E o corpo também! – concluiu, fazendo-me rodar devagarinho até as minhas costas encostarem ao seu peito – Quando eu era pequeno queria ser um super herói – Ele riu-se e beijou-me a bochecha – para voar e fazer coisas incríveis!
-Rói-te de inveja, eu posso voar! – mostrei-lhe a língua e ele riu. Aquilo continuava a ser inacreditável para ele.
-O que querias ser tu, quando eras pequena? – perguntou, fazendo-me voltar a ficar de frente para ele.
-Uma princesa!
Rimo-nos ambos do sonho.
-Aposto que adoravas cor-de-rosa! – ele troçou.
-Por acaso é a minha segunda cor preferida!
Ele franziu as sobrancelhas e olhou para o céu a sorrir:
-Não acredito!
Fi-lo soltar-me e dei um passo de recua dele. Pus as minhas mãos na cintura e inclinei o rosto:
-E sabes que mais? – indaguei - Sou louca por Barbies! Goza á vontade, mas já vi todos os filmes! – Fiz um ar de orgulho.
-És mesmo uma criancinha!
Ele deixou-se sentar no chão, rindo da minha cara.
Eu fingi-me indiferente, e sentei-me descaradamente no seu colo, de frente para ele, cruzando as pernas em redor do seu tronco:
-Vais dizer que não tens paixões secretas e embaraçosas?
-Não! – respondeu, fazendo-se de superior.
-Men-ti-ro-so! – Acusei em tom de gozo, prolongando a palavra - Eu consigo captar as tuas emoções! Vá, confessa!
-Não!
Empurrei o seu peito com força, fazendo-o deitar completamente o corpo sobre a rocha. Ele gemeu por causa do contacto entre a sua pele e a pedra polida gelada. Pus as minhas mãos no seu pescoço e inclinei-me em cima dele:
-Confessa!
-Não! – Ele negou com a cabeça – E acho melhor saíres de cima de mim, pode ser perigoso!
-Porquê?
Ele fez um ar maroto e eu entendi o que ele quis dizer, contudo apenas alterei a minha posição, continuando sobre ele:
-Vou ter de adivinhar? Ou tenho de perguntar á cidade inteira?
-Ninguém sabe!
-aposto que a Su me diz!
-Não! – Ele ficou aflito.
-Então diz-me! Algo que pouca gente saiba sobre ti!
Ele revirou os olhos e suspirou amuado:
-ok…
Esperei interessada pela confissão, mas ele parecia procurar uma desculpa para não me dizer nada:
-Então? – tentei que ele prosseguisse – Não adianta mentir!
Gustavo soltou uma lufada de ar e admitiu:
-Sou louco por desenhos animados! - disse - Faço de conta que a Susana me obriga a ver os clássicos da Disney, mas adoro ver seja o que for! Pronto, já disse!
-Isso não é embaraçoso! – corrigi, sorrindo.
-é sim! – contrapôs – se eu digo a alguém que me atraso só porque quero ver o que acontece á bela e ao monstro no final do filme, apesar de já saber de cor e salteado o que vai acontecer, ia ser a chacota da zona!
Não consegui evitar de rir. Afinal aquilo podia ter a sua piada!
Abafei o rosto no seu peito, tentando parar as risadas:
-Isso é fofinho!
Ele riu-se também:
-Goza!
Dei-lhe um beijo rápido nos lábios e deitei-me ao seu lado, com a cabeça encostada ao seu braço:
-Conta mais! – pedi.
-não dizes nada a ninguém?
-Não!
Ele suspirou e mexeu no meu cabelo, enquanto olhávamos para a lua cheia a deslocar-se para oeste:
-Gosto de ver romances! – admitiu.
-Ah, isso já me tinha apercebido, Romeu!
Ele sorriu:
-E queres saber qual é o pior?
-Conta, conta! – Pedi olhando-o.
-Todos os dias anoto o que me aconteceu…
-Num diário? – interrompi.
-Odeio que lhe chamem isso! – protestou, irritado - Estás a ver, é por isso que me envergonha! Aquilo é só um caderno, mas o nome “Diário” torna-o na coisa mais idiota em que alguém pode escrever!
Ri-me da sua fúria:
-Ora, eu também tenho um diário desde sábado! Só que é ilustrado!
Gustavo fitou-me admirado:
-Ilustrado?!
-hum, hum! Mas não te preocupes, eu criei personagens para nos representarem! Assim ninguém sabe que é um diário!
-espertinha! – ele riu-se e depois observou o pirilampo que voou perto de nós – porque é que o fazes?
-o quê?
-porque tens um diário?
-E tu? – quis saber acomodando-me mais no seu corpo.
Ele abraçou-me e beijou-me a nuca, olhando para o céu numa medida reflectora:
-Para não me esquecer daquilo que estou a viver… e para um dia, especialmente se estiver infeliz, recordar os bons momentos que vivi. – ele atentou em mim, e mexeu-me delicadamente no cabelo. As suas palavras eram tão profundas - E tu?
Dei de ombros:
-Para dar aos meus netinhos! – Libertei uma gargalhada em conjunto com ele.
-Já pensas nisso?
-Bem… Eu quero ter filhos… - confessei timidamente – Tu não?
-Eu quero faze-los! – Ele riu-se e deu-me um beijo na testa.
Não consegui evitar de me rir também da sua resposta.
-Descarado!
-Não sou nada! Mas acho que é a melhor parte!
Torci o nariz. Aquela conversa era embaraçosa num certo ponto:
-És virgem? – perguntei.
Ele olhou-me e sorriu, misteriosamente:
-Não te vou responder a isso!
-Porquê? Tens vergonha? – tentei adivinhar.
-Não, mas da primeira vez que te perguntei isso, deste-me um estalo!
Recordei o momento e levantei o meu tronco, ofendida:
-Tu não paravas de falar do meu corpo! Disseste que eu tinha uma anca muito desenvolvida para a minha idade…! – Franzi as sobrancelhas e depois olhei para mim mesma - Tenho mesmo?!
Ele riu:
-Eu estava a brincar! – Admitiu, rodando os olhos, e fazendo-me deitar novamente sobre o seu peito - É totalmente vulgar!
-Hum… Deixaste-me obcecada com isso, sabias?
-É bom saber que mexo contigo! – brincou.
-Ah, ah, que engraçadinho! – Apertei-lhe a bochecha ao estilo de Greta e depois de Gustavo fazer um esgar, dei-lhe um beijinho leve nos lábios.
Movi o meu corpo e abracei-o lateralmente, admirando o seu físico. Ele era tão bonito. Os seus olhos, mesmo na noite, brilhavam como safiras quando ele me olhava, e o corpo parecia ter sido esculpido por Miguel Ângelo. O cheiro, por si só, deixava-me completamente hipnotizada, e as palavras saiam como musica para os meus ouvidos.
Mantivemo-nos os dois fixados um no outro e eu sorri com carinho, baixando a minha visão para a mão dele, que passeava sobre o meu braço, enquanto eu assimilava o que ia dizer.
-O verdadeiro motivo porque desenho um diário…É que quero ter uma prova de que especialmente tu não és apenas mais um sonho da minha cabeça, e que isto que estou a viver agora contigo é a realidade. – Gustavo acariciou-me a face, atento ao que eu dizia - Tenho medo de ser acordada por um balde de agua fria e perceber que foi tudo uma ilusão…
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Ele negou com a cabeça:
-Eu sou a coisa mais real que tu tens, não duvides. Só comigo é que tu és tu… A Lana não é verdadeira, mas a Alannis é, e só eu é que a conheço verdadeiramente. Se eu, que sei muitas mais coisas sobre ti do que a maioria das pessoas que conheces, não sou real, então quem é?
Fiquei a olha-lo, especada. Não esperava aquela resposta, especialmente porque aquilo fazia todo o sentido, mas ainda assim me deixava insegura.
-E se tu me magoares?
Ele franziu as sobrancelhas:
-Eu não te quero magoar.
-Já magoaste… - recordei.
Ele olhou para o céu:
-Mas eu não quis… Lannis, lembra-te do que te vou dizer – Ele virou o seu corpo para mim e abraçou-me contra ele – Se eu algum dia te magoar… é porque te amo. Nunca te esqueças disso...
Abracei-o com força e acenei com a cabeça, confirmando o seu pedido. Ele beijou-me a testa e sorriu. Passei as minhas mãos na sua pele e levei-as até às suas costas, apercebendo-me que estavam geladas:
-Gustavo, se calhar é melhor irmos para casa, tu estás gelado. – observei - Que horas são?
Ele olhou para o seu relógio de pulso. Felizmente era á prova de agua e ainda funcionava direito:
-Passa das Duas e meia.
-Já? – olhei-o assustada, mas ele sorriu, despreocupado.
-Eu não quero ir já embora… - murmurou – Vamos ficar mais um bocadinho!
-Amanha temos aulas – Relembrei -, e tu deixaste a camisola sei lá onde! Podes ficar doente.
-Não… Abraça-me. O teu calor corporal basta para eu ficar bem.
-Mas daqui a pouco vamos embora, ok?
Ele assentiu e sorriu, envolvendo-me nos seus braços, enquanto afagava o meu cabelo. Enterrei a minha face na sua pele e passei as minhas mãos nas suas costas, para as aquecer.
Parecia que a minha visão estava a ficar cada vez mais escura, mas quando eu julgava não haver mais nada que eu conseguisse ver, um clarão de luz e cor apareceu-me diante dos olhos, e eu explorei-o longamente, com um sorriso nos lábios.
***
Algo debaixo de mim deu um salto.
Abri os olhos confusa. A luz ofuscou-me os olhos e o som da agua a correr e os pássaros a chilrear intensificaram a confusão que me invadia. Levantei a cabeça, que estava encostada em algo macio e quente e olhei para o corpo de Gustavo, adormecido. Ele estava com as sobrancelhas franzidas ainda de olhos fechados. parecia sonhar, mas com algo incomodo. Levantei o tronco e sacudi-o:
-Gustavo… - A minha voz falhou. Sentia-me baralhada. O que é que eu estava ali a fazer?
-hum…
-Gustavo, acorda!
Ele abriu os olhos e pestanejou-o por causa da luz que lhe atingiu a visão:
-Adormecemos… – deduziu – bolas! Que dia é hoje?
Tentei lembrar-me:
-Sábado? – palpitei.
Ele semicerrou os olhos:
-Ontem foi sexta?
Dei um gritinho e pus-me a pé:
-Hoje é quarta feira! Que horas são?
Ele tentou mover o braço para ver as horas, mas não conseguiu:
-Estou dorido…! – Murmurou, ainda ensonado.
-Desculpa, acho que dormi toda torta em cima de ti! – cocei a cabeça e bocejei, antes de lhe segurar o pulso para ver as horas – São… oito e quarenta e cinco?! Estamos atrasados!
-Oh não… – Ele fez um esgar e com preguiça rebolou na pedra, tentando espreguiçar-se.
-A Helen deve estar louca! – Exclamei, tentando desajeitadamente saber por que lado sair dali - Se calhar já chamou a policia!
-Calma! – Tranquilizou erguendo o seu tronco.
-não, não, eu tenho de ir!
Olhei para a agua, sem vontade de nadar naquele momento. Expus as asas, apressada, e bati-as devagar, para levantar o corpo da pedra:
-Vemo-nos logo! – Falei, atrapalhada.
Gustavo levantou-se e segurou-me a mão, impedindo-me de sair dali. Segurou a minha cintura e puxou-me até os nossos lábios se tocaram, envolvendo-me lentamente. Eu quis conter-me, mas não consegui. Segurei o seu rosto, ainda suspensa no ar e correspondi ao seu toque labial, até que ele me largou e eu fiquei livre para sair dali:
-Eu vou já!
Acenei com a cabeça e bati as asas apressadamente. O meu corpo moveu-se agilmente por entre as arvores e eu subi até avistar a minha casa. Despachei-me e só aterrei encostada á porta. Fechei as asas e tentei abri-la. Estava trancada.
Dei três batidas, apressada:
-Helen, estás aí?!
Ninguém respondeu. Voltei a bater, aflita:
-Helen, sou eu! Preciso que me leves á escola! Helen!
Quase parti a porta de tantas vezes que lhe bati, mas nunca ninguém veio abrir. Procurei o seu carro e nada! Estava por minha conta!
Corri para a estrada. Gustavo acabara de aparecer vindo da floresta:
-o que foi?
-A Helen não está em casa! Já deve ter ido para a escola! – suspirei aflita – antes isso do que andar feita louca á minha procura!
-E agora?
-Preciso que me leves!
-Assim? – ele olhou-me de cima abaixo, mas eu apercebi-me que ele estava agradado com o que via.
-assim como?
-Nada de preto? – ele sorriu.
-Oh não! - Tapei a cara com as mãos e abanei a cabeça – não acredito! Pronto, hoje não vou á escola!
-Nem pensar! – ele deu-me a mão e puxou-me – Não vais levar faltas só porque tens vergonha de ir assim para a escola!
-Mas Gustavo…!
-Ninguém vai reparar!
Fiz um ar céptico, mas deixei-me render á sua força e montei a sua moto. Ele ia para me dar o seu capacete, mas eu recusei:
-Eu fecho os olhos! Leva tu!
Ele não refutou; não havia tempo.
Montou também a moto e fizemo-nos á estrada. Apertei-me com força a ele e esperei que a viagem terminasse. Mais rápida do que de carro, sem duvida. Mal estacionamos no portão da escola, o porteiro abriu-nos a entrada e corremos de mão dada para o bloco de aulas. Ele parou em frente a um cacifo e abriu-o apressadamente. Entregou-me uns cadernos e uns livros para as mãos e levou outros com ele:
-Não podemos chegar de mãos a abanar! – relembrou.
Óptimo. Tinha-me esquecido do pormenor mais importante da escola: as aulas!
Subimos as escadas a correr. A minha respiração começou a ficar dificultada e o coração descompassado. Aquilo era a morte! céus!
Gustavo parou em frente á sala e deu três batidas na porta antes da abrir e entrar:
-Podemos? – perguntou a sei lá quem. Nem sabia que disciplina era aquela!
Nem esperamos resposta. Gustavo entrou de rompante na sala e entrei depois, mais timidamente, fechando a porta:
-O que é isto, meninos? Já passou muito tempo desde o toque de entrada!
Encostei-me á porta e suspirei, cansada.
As mentes daquela sala ficaram… loucas! Sem duvida. Todas atentas em mim, perplexas e de certa forma divertidas. Não tive coragem de olhar ninguém. Que vergonha!
-Desculpe, nós adormecemos! – justificou-se Gustavo, com a voz mais calma e educada que conseguiu.
Escutei alguns risinhos e senti-me corar. Gustavo fez um esgar também envergonhado:
-Ahm… cada um na sua casa! – corrigiu.
Sinceramente, sempre pensei que ele mentisse melhor!
Reconheci o som de tacões a chocarem no soalho, e observei o corpo esbelto da professora, de cabelos loiros cintilantes como ouro, em caracóis perfeitos e estreitos, metade presos por um gancho na zona traseira da cabeça. A pele calva parecia delicada como cetim, e as suas formas eram tão atraentes quanto a sua voz:
-Espero que daqui para a frente não se repita. – Advertiu, inclinada sobre o livros de ponto.
Franzi as sobrancelhas e levantei a visão até á desconhecida. Os nossos olhares cruzaram-se ao mesmo tempo e eu senti o meu coração parar. Os seus olhos verdes penetraram de uma maneira desconfortável nos meus, e algo naquele espírito era indecifrável. Ela fixou-me também, sem hesitar minimamente, e senti-me ficar cada vez mais pequena, com a respiração presa, como se de alguma forma eu lhe devesse algo, uma espécie de devoção. Ela sorriu levemente para mim. Os seus lábios simétricos e rosados entortaram-se e ela vincou os olhos de um jeito estranho, com a cabeça baixa. Tentei detectar que sentido existia naquele sorriso, mas não consegui, e isso deixou-me estática a olha-la. Gustavo atravessou-se á minha frente e atirou-me um olhar preocupado que me distraiu por momentos e me fez recordar que eu tinha de regressar ao lugar na sala. Dei um passo amedrontado atrás dele, e ainda sem fitar os meus colegas, voltei a admirar aquela mulher, que me seguia também com as suas atenções.
Eu sentei-me por fim e ela deu outro passo em frente ao quadro escuro:
-Para os atrasados, eu sou a nova professora de Matemática, Luísa Mehiel - O seu rosto era tão brilhante que até custava olhá-lo! – Vamos então prosseguir!
Gustavo acotovelou-me o braço:
-Lana, estás estática – Murmurou –, sentes-te bem?
Acenei com a cabeça, constrangida.
Mas quem era aquela?!
Fitei Gustavo de soslaio e sorri para que ele não se preocupasse, mas a realidade era que durante toda a aula não consegui descansar. Algo naquela mulher era-me familiar, mas eu não sabia o quê. Tentei ouvir o sotaque, decorar os movimentos e sobretudo decifrar a sua aura, mas parecia ofuscada. Em simultâneo ao medo e desconforto, aquela professora transmitia uma espécie de serenidade. Todos os alunos pareciam agradados com ela, sobretudo os rapazes, não fosse ela tão bonita. Ansiei pelo toque da campainha, e mal ele soou, irritante, mas ainda assim como um alivio, levantei-me antes de todos os outros e saí da sala sem olhar para trás. Levei simplesmente comigo o caderno e o material que usei durante a aulas.
Encostei-me á parede á espera dos meus colegas e respirei de alivio. Sem me aperceber, aquela aula tinha me tirado o fôlego. Era estranho.
Fechei os olhos e respirei fundo, até que fui surpreendida quando o meu pulso foi rodeado pela mão masculina de Gustavo. Abri os olhos para encara-lo.
-Eu não leio pensamentos, mas conheço-te minimamente. – informou, entrelaçando os dedos com os meus. Segui caminho com ele, o mais próxima possível do seu corpo,
-Eu sei… - Murmurei – Desculpa, mas senti-me estranha com aquela professora.
Ele sorriu em tom de troça:
-Pareceu-te má?
-Não me pareceu nada, apenas familiar. É isso que me assusta, a familiaridade!
Ele deu-me um beijo na testa e desceu as escadas comigo:
-Não te preocupes. Certamente é o teu medo de desconhecidos a falar mais alto.
-Sou paranóica, não sou…? – suspirei olhando para os meus pés enquanto saiamos do bloco, amuada.
Gustavo sorriu e fez-me encara-lo, negando com a cabeça:
-Não… Tu tens o direito de ser assim… - foi a sua resposta.
Ele sorriu levemente e olhou-me nos olhos. Retribui o sorriso timidamente e depois ele, sorrindo mais perante a minha vergonha, inclinou o rosto para me beijar, mas fomos interrompidos, para meu desagrado.
-É lá! – Reconheci a voz de Sérgio e depois um ou dois assobios masculinos.
Cerrei os dentes fula e envergonhadíssima.
-Então dormiram juntos? – confirmou Ivo, esboçando um sorriso maroto.
-Não sejas perverso! – A minha voz saiu mais fina do que o habitual.
Sérgio riu da nossa cara e aproximou-se de mim
-Gustavo, tu vê lá o que fazes á rapariga!
O meu namorado corou, mas fuzilou o amigo com o olhar, assim como eu.
- Agora veste-se de branco? Não me digas que vais dar uma de anjinho? – Perguntou-me Ivo, em tom de troça.
Liliana surgiu atrás de nós, acompanhada por Natacha, que se apressou a ir ter com Sérgio:
-Se soubesses a ironia do que acabaste de dizer…
Eu e Gustavo trocamos um olhar cúmplice e ele sorriu-me por causa daquele comentário.
Liliana fez um ar maroto e arqueou as sobrancelhas:
-Jeitosa! – Brincou, dando-me uma palmada na perna!
-Lili! – Repreendi, saltando para o lado. Os rapazes riram e ela também.
-O que é?! Quase não te reconhecia!
-Pois sim!
Rodrigo apoiou-se em Ivo e mirou-me dos pés á cabeça, confuso e ensonado
-Fogo! – Ele encostou a cara á mão apoiada pelo cotovelo e olhou-me fixamente – Estou a tentar descobrir de onde é que te conheço e ainda não cheguei lá!
Todos rimos com a brincadeira, mas aí, ele manteve-se sério e eu realmente fiquei confusa:
-O quê?
Ele não sabia mesmo quem eu era?
Acho que não fui só eu que fiquei incrédula com aquela informação. No entanto, ele estava a falar a sério. O seu espírito revelava que eu realmente era desconhecida para ele! Incrível!
Ivo deu-lhe uma cacetada na cabeça:
-Tu és burro ou fazes-te?!
Gustavo soltou uma gargalhada, céptico com o amigo, assim como a maioria das pessoas que estavam ali. Senti-me na obrigação de ser eu a desvendar o “enigma”.
-Rodrigo… - comecei por dizer, calmamente - Eu tenho muito sono, e acredito que tu ainda tenhas mais do que eu, mas… - Até me senti ridícula a dar aquela explicação – hei, sou eu!? A Lana?
Ele ficou a olhar para mim com cara de idiota. Eu não gostava de pensar estas coisas, mas ele estava mesmo com essa cara.
Vários risos se contiveram á espera de uma reacção dele, incluindo o meu. Ele semicerrou os olhos:
-Não…? - ele entreolhou os outros, como se esperasse que mais alguém não conseguisse ver.
Não consegui evitar de me rir, com a mão á frente da boca para não soar a mal educada, mas os meus colegas eram muito mais naturais e riram sem pena dele, que se manteve fixado em mim:
-Eu juro que não consigo associar! – Ele começou a sentir-se mal, mas sorriu, constrangido.
Peguei no caderno de capa preto e pu-lo á frente da minha boca, deixando apenas os meus olhos e cabelo á mostra, esperando uma reacção:
-Eu ainda não vi a minha cara hoje, mas suponho que o cabelo esteja encaracolado… Imagina-o liso!
Ele abriu a boca. Só faltava uma lâmpada acesa em cima da sua cabeça:
-Que diferença! fogo! – Gritou –Tu és mesmo bonita!
Fiquei com cara de tacho. Onde é que estavam os buracos quando precisávamos deles? Felizmente tinha o caderno á minha frente, e tapei o rosto com ele, envergonhadíssima.
-Hei! – Gustavo abraçou os meus braços – Nem penses!
Os outros riram em tom de troça, tanto para mim, como para os dois rapazes. Sorri, timidamente, mas era tão bom estar nos seus braços. Para quê afasta-lo?
Rodrigo revirou os olhos, mas não ligou ao aviso visual do meu namorado:
-O que te aconteceu? – Interrogou-me. Todos os outros mostraram interesse na questão.
-Fiquei trancada fora de casa e não pude vestir nada normal!
-“Normal”? – Darla riu-se ironicamente, aproximando-se na presença de Letícia, mas eu não liguei.
Sorri e dei de ombros. Letícia interveio:
-Ficas muito gira assim! O branco faz sobressair o teu tom de pele!
-Podias andar assim mais vezes! – Comentou Natacha.
Senti o meu rosto aquecer e baixei o olhar. Gustavo sorriu, e passou a sua mão sobre o meu braço:
-Cuidado que ela é envergonhada – Avisou. Depois ficou mais sério e semicerrou os olhos - Lana, tenho de te contar uma coisa…! – disse, baixinho.
Infelizmente, não fui só eu que o ouvi.
-O que foi? – perguntei, preocupada.
-Tive um sonho estranho!
Ivo assobiou:
-Tem juízo, Gustavo!
-Olha, cala-te! – Respondeu Gustavo corado, rindo das ideias malucas do nosso colega matulão.
Ri-me também. Os adolescentes conseguiam ser tão tolos!
-Vocês dormiram juntos, portanto…! – Verónica sorriu e deu de ombros.
-E quem disse que dormimos juntos? – interrompi.
-E é preciso dizer? - Interveio Laura
Ela riu-se acompanhada por risos cúmplices. Revirei os olhos e abanei a cabeça, repreensivamente.
-Ok – admitiu Gustavo –, nós dormimos, e então? Vocês não dormem também?
-Ah, então sempre admitem!
-Claro que admitimos! – Cedi – Eu preciso de dormir, senão pareço uma caveira! E o Gustavo também, senão, coitado, ia parecer um urso panda! – fiz um gesto com as mãos á frente dos olhos para representar o animal.
Todos riram, descontraidamente.
-E só por acaso dormiram juntos! – ironizou Liliana.
-Só por acaso! – concordei, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
-E os papas e as mamas não disseram nada? – brincou Ivo, com um olhar maroto.
Gustavo deu de ombros e sorriu para mim, sedutor. Eu sorri de volta para ele.
-Os Montecchio e os Capuleto não sabiam que o Romeu e a Julieta se encontravam á noite!
-Uh, que romântico! - Falou Rodrigo, esboçando um esgar enojado.
-Aprende! – trocei.
Ele negou com a cabeça e passou a mão no cabelo para o sacudir. Aquilo devia ser algum tique.
A nova professora passou por nós e olhou-nos de relance a todos, parando em mim. Encostei-me mais a Gustavo e fingi um sorriso.
Quando ela se afastou Ivo bateu nas costas de Rodrigo:
-Já vale a pena ter aulas! Olha-me para aquela mulher!
-oh, por favor, não sejam idiotas! – Advertiu Natacha, quando se apercebeu do sorriso malandro de Sérgio.
Revirei os olhos, mas nem sequer tive curiosidade de saber se Gustavo partilhava a mesma opinião dos outros rapazes. Afastei-me dele bocejando e aproximei-me das raparigas:
-Alguém tem fome?
-Calma, Capuleto! – Exclamou Gustavo seguindo-me – Também estou em jejum!
-Então não fiques aí especado! Se eu não comer depressa fico completamente descontrolada!
Desviei o cabelo para trás e olhei os outros de relance:
-Venham! – incentivei.
Ninguém contestou, e fomos todos á cafetaria da escola, apesar de eu não lhes prestar mais atenção e falar animadamente com Gustavo sobre coisas sem qualquer importância. Ele não tirava os olhos de mim, e sorria ou ria conforme os meus comentários tontos, mas sempre atento e receptivo. Quando chegamos ao local pretendido estava a abarrotar, e para minha admiração ninguém olhou para mim com aquele ar de “lá vem a bruxa”, nem sequer se aperceberam que eu, era “Eu”. Talvez a coisa que tenha sobressaído mais fora o facto de Gustavo ter a mão dada e mim, mas ainda assim poucos de aperceberam.
Susana foi uma dessas pessoas. Já que me conhecia ao natural, não era difícil distinguir-me no meio daquelas pessoas.
Sorri discretamente a olhar para o chão. Gustavo apercebeu-se e riu também:
-O que foi?
-Está ali a tua irmã…
Ele levantou o olhar ate ela e franziu as sobrancelhas.
-E então?
Ri-me de novo e abanei repreensivamente com a cabeça:
-Ela está ansiosa que nos beijemos...
-A sério?
Ele sorriu maliciosamente:
-Aparentemente não acredita a 100% no nosso namoro!
-Hum… Temos de mudar isso!
Olhei-o de relance, desconfiada, e ele prendeu os lábios numa linha recta, tentando manter-se sério.
-O que é que estás a pensar?
-Que és tímida!
Semicerrei os olhos:
-ok…?
Ele revirou os olhos e suspirou, tentando apagar da sua mente algo absurdo aparentemente. Isso deixou-me desconfiada, mas eu não me quis chatear em descobrir do que se tratava. Lau tocou-me no ombro, captando a minha atenção e falou, sorridente:
-Nós vamo-nos sentar ali! – Avisou, apontando para um sitio onde os nossos colegas juntavam duas mesas e puxavam cadeiras para se sentarem.
-Ninguém quer comer nada? – perguntei.
-Aparentemente, não, pelo menos para já! – Ela piscou-me o olho e virou costas, levantando a mão e em tom de “Até já!”.
Suspirei e inclinei a cabeça, já de costas para ela, e coloquei o dedo indicador no queixo, numa medida de reflexão. Gustavo olhou-me, atencioso.
-O que foi? – Interrogou, curioso.
-Não sei o que comer! – Admiti levantando as mãos ao mesmo tempo que encolhia os ombros.
Ele sorriu da minha reacção. Ultimamente parecia que ele só fazia isso, sorrir! E fazia-o de um jeito tão meigo e atencioso que até me sentia um bebé!
-O que é que mais gostas de comer, gulosa?
-uh…! – Fiz um ar de entusiasmo e sorri, saltitando discretamente – Estou indecisa entre um chocolate – olhei para o tecto, com um sorriso tonto no rosto, e depois abri a boca e arregalei os olhos –, ou um bolo enorme – ponderei, prolongando a palavra “enorme”, enquanto dava outro saltito, sob o ar alegre de Gustavo, que me observava animado -, Ou… Ahm… - Suspirei e mordi o lábio – Estou confusa, mas talvez…!
O meu namorado interrompeu-me com um beijo rápido nos lábios, que fez o meu rosto enfeitar-se com um sorriso. Olhei pelo canto do olhos para onde Su estava e vi que ela mantinha-se atenta, tentando confirmar se realmente tinha acontecido algo. Envolvi os meus braços no pescoço dele, permanecendo firme com o tronco em volta das suas mãos grandes.
-Fazemos assim, eu trago-te algo para encheres o estômago e o teu chocolate preferido!
-Mas eu não tenho chocolate preferido…! – Relembrei dando de ombros.
Gustavo sorriu.
-Mas tu adoras Mars!
Abri a boca, admirada:
-Como sabes?
Ele riu levemente e afastou o seu olhar do meu por um segundo, divertido:
-Digamos que já provei…!
Ri-me da resposta e soltei-lhe o pescoço, todavia ele não me largou. Olhei-o confusa:
-Tenho mau hálito? – perguntei, esperançosa.
Ele libertou uma pequena gargalhada e negou coma cabeça, céptico pela pergunta:
-Tonta! Estás a brincar? Beijos com sabor a chocolate? Eu podia habituar-me a isso!
Ri-me também, divertida, e dei um pulinho de felicidade:
-Que bom!
Gustavo não respondeu e beijou-me, desta vez sem pressas. Toda a intensidade da sua alegria e do seu desejo multiplicou-se e fez-me sorrir, ainda presa à sua boca. Passei as minhas mãos no seu rosto, devagar e com delicadeza, fazendo-o sorrir também, sem, porem, parar de mover os lábios em sintonia com os meus. A minha mente começou a esvaziar-se, calmamente, mas depressa começou a ser envolvida por sentimentos alheios.
Comecei a contar; Um, dois, três corações despedaçados.
“Ups…”
As primeiras raparigas com esses sentimentos fizeram sentir-me mal, mas depois as outras mentes foram escondendo aquelas almas infelizes, colocando as suas atenções em nós os dois, num misto de incredulidade, dúvida em relação á minha identidade, espanto por causa de Gustavo, e também alguma animação.
Ele fez, de repente, aquele movimento brusco que me dava a sensação de queda, arqueando as minhas costas para trás, o que fez eu começar rir-me sem intenção, travando o beijo. Ele riu-se também e mordeu o lábio:
-Eu não te vou deixar cair, anjo…
Revirei os olhos, descontraída:
-Mas adoras dar-me essa sensação!
-Podes contar com isso! – Disse, e levantou o meu tronco outra vez, sem deixar de me olhar nos olhos.
Encostei a boca ao ombro dele, abafando as gargalhadas. Ele gargalhou também, sem compreender a minha atitude:
-O que foi?
-Adoras ser o centro das atenções! – Trocei, fitando-o maliciosa.
Ele fez-se de desentendido e encolheu os ombros:
-Gosto de exibir felicidade!
-Ena, que animado!
Ele deu-me outro beijo, desta vez na bochecha, e soltou-me por fim, andando de recua na direcção da fila do bar:
-Foi uma boa noite!
Sorri, e ele sorriu-me de volta, piscando o olho com um encanto irresistível. Mordi o lábio a repreendi-o num balanço de cabeça. Senti meia dúzia de borboletas a esvoaçarem no meu estômago, e senti-me corar, sem conseguir travar aquele esgar de felicidade que ele ajudou a esculpir na minha face.
Cada gesto nosso, cada palavra dele, cada momento mágico e cada novo milímetro que parecia surgir no meu coração cada vez mais acelerado, apontava-me para uma única conclusão: Eu estava completamente apaixonada por ele.
Ah, batam-me, mas eu até acho capitulo fofinho!
A partir de hoje posto todos os dias, em principio, o que significa que daqui a poucos capitulos acaba a fic! O.O
Vá, comentem!
bjokas
-Eu sou a coisa mais real que tu tens, não duvides. Só comigo é que tu és tu… A Lana não é verdadeira, mas a Alannis é, e só eu é que a conheço verdadeiramente. Se eu, que sei muitas mais coisas sobre ti do que a maioria das pessoas que conheces, não sou real, então quem é?
Fiquei a olha-lo, especada. Não esperava aquela resposta, especialmente porque aquilo fazia todo o sentido, mas ainda assim me deixava insegura.
-E se tu me magoares?
Ele franziu as sobrancelhas:
-Eu não te quero magoar.
-Já magoaste… - recordei.
Ele olhou para o céu:
-Mas eu não quis… Lannis, lembra-te do que te vou dizer – Ele virou o seu corpo para mim e abraçou-me contra ele – Se eu algum dia te magoar… é porque te amo. Nunca te esqueças disso...
Abracei-o com força e acenei com a cabeça, confirmando o seu pedido. Ele beijou-me a testa e sorriu. Passei as minhas mãos na sua pele e levei-as até às suas costas, apercebendo-me que estavam geladas:
-Gustavo, se calhar é melhor irmos para casa, tu estás gelado. – observei - Que horas são?
Ele olhou para o seu relógio de pulso. Felizmente era á prova de agua e ainda funcionava direito:
-Passa das Duas e meia.
-Já? – olhei-o assustada, mas ele sorriu, despreocupado.
-Eu não quero ir já embora… - murmurou – Vamos ficar mais um bocadinho!
-Amanha temos aulas – Relembrei -, e tu deixaste a camisola sei lá onde! Podes ficar doente.
-Não… Abraça-me. O teu calor corporal basta para eu ficar bem.
-Mas daqui a pouco vamos embora, ok?
Ele assentiu e sorriu, envolvendo-me nos seus braços, enquanto afagava o meu cabelo. Enterrei a minha face na sua pele e passei as minhas mãos nas suas costas, para as aquecer.
Parecia que a minha visão estava a ficar cada vez mais escura, mas quando eu julgava não haver mais nada que eu conseguisse ver, um clarão de luz e cor apareceu-me diante dos olhos, e eu explorei-o longamente, com um sorriso nos lábios.
***
Algo debaixo de mim deu um salto.
Abri os olhos confusa. A luz ofuscou-me os olhos e o som da agua a correr e os pássaros a chilrear intensificaram a confusão que me invadia. Levantei a cabeça, que estava encostada em algo macio e quente e olhei para o corpo de Gustavo, adormecido. Ele estava com as sobrancelhas franzidas ainda de olhos fechados. parecia sonhar, mas com algo incomodo. Levantei o tronco e sacudi-o:
-Gustavo… - A minha voz falhou. Sentia-me baralhada. O que é que eu estava ali a fazer?
-hum…
-Gustavo, acorda!
Ele abriu os olhos e pestanejou-o por causa da luz que lhe atingiu a visão:
-Adormecemos… – deduziu – bolas! Que dia é hoje?
Tentei lembrar-me:
-Sábado? – palpitei.
Ele semicerrou os olhos:
-Ontem foi sexta?
Dei um gritinho e pus-me a pé:
-Hoje é quarta feira! Que horas são?
Ele tentou mover o braço para ver as horas, mas não conseguiu:
-Estou dorido…! – Murmurou, ainda ensonado.
-Desculpa, acho que dormi toda torta em cima de ti! – cocei a cabeça e bocejei, antes de lhe segurar o pulso para ver as horas – São… oito e quarenta e cinco?! Estamos atrasados!
-Oh não… – Ele fez um esgar e com preguiça rebolou na pedra, tentando espreguiçar-se.
-A Helen deve estar louca! – Exclamei, tentando desajeitadamente saber por que lado sair dali - Se calhar já chamou a policia!
-Calma! – Tranquilizou erguendo o seu tronco.
-não, não, eu tenho de ir!
Olhei para a agua, sem vontade de nadar naquele momento. Expus as asas, apressada, e bati-as devagar, para levantar o corpo da pedra:
-Vemo-nos logo! – Falei, atrapalhada.
Gustavo levantou-se e segurou-me a mão, impedindo-me de sair dali. Segurou a minha cintura e puxou-me até os nossos lábios se tocaram, envolvendo-me lentamente. Eu quis conter-me, mas não consegui. Segurei o seu rosto, ainda suspensa no ar e correspondi ao seu toque labial, até que ele me largou e eu fiquei livre para sair dali:
-Eu vou já!
Acenei com a cabeça e bati as asas apressadamente. O meu corpo moveu-se agilmente por entre as arvores e eu subi até avistar a minha casa. Despachei-me e só aterrei encostada á porta. Fechei as asas e tentei abri-la. Estava trancada.
Dei três batidas, apressada:
-Helen, estás aí?!
Ninguém respondeu. Voltei a bater, aflita:
-Helen, sou eu! Preciso que me leves á escola! Helen!
Quase parti a porta de tantas vezes que lhe bati, mas nunca ninguém veio abrir. Procurei o seu carro e nada! Estava por minha conta!
Corri para a estrada. Gustavo acabara de aparecer vindo da floresta:
-o que foi?
-A Helen não está em casa! Já deve ter ido para a escola! – suspirei aflita – antes isso do que andar feita louca á minha procura!
-E agora?
-Preciso que me leves!
-Assim? – ele olhou-me de cima abaixo, mas eu apercebi-me que ele estava agradado com o que via.
-assim como?
-Nada de preto? – ele sorriu.
-Oh não! - Tapei a cara com as mãos e abanei a cabeça – não acredito! Pronto, hoje não vou á escola!
-Nem pensar! – ele deu-me a mão e puxou-me – Não vais levar faltas só porque tens vergonha de ir assim para a escola!
-Mas Gustavo…!
-Ninguém vai reparar!
Fiz um ar céptico, mas deixei-me render á sua força e montei a sua moto. Ele ia para me dar o seu capacete, mas eu recusei:
-Eu fecho os olhos! Leva tu!
Ele não refutou; não havia tempo.
Montou também a moto e fizemo-nos á estrada. Apertei-me com força a ele e esperei que a viagem terminasse. Mais rápida do que de carro, sem duvida. Mal estacionamos no portão da escola, o porteiro abriu-nos a entrada e corremos de mão dada para o bloco de aulas. Ele parou em frente a um cacifo e abriu-o apressadamente. Entregou-me uns cadernos e uns livros para as mãos e levou outros com ele:
-Não podemos chegar de mãos a abanar! – relembrou.
Óptimo. Tinha-me esquecido do pormenor mais importante da escola: as aulas!
Subimos as escadas a correr. A minha respiração começou a ficar dificultada e o coração descompassado. Aquilo era a morte! céus!
Gustavo parou em frente á sala e deu três batidas na porta antes da abrir e entrar:
-Podemos? – perguntou a sei lá quem. Nem sabia que disciplina era aquela!
Nem esperamos resposta. Gustavo entrou de rompante na sala e entrei depois, mais timidamente, fechando a porta:
-O que é isto, meninos? Já passou muito tempo desde o toque de entrada!
Encostei-me á porta e suspirei, cansada.
As mentes daquela sala ficaram… loucas! Sem duvida. Todas atentas em mim, perplexas e de certa forma divertidas. Não tive coragem de olhar ninguém. Que vergonha!
-Desculpe, nós adormecemos! – justificou-se Gustavo, com a voz mais calma e educada que conseguiu.
Escutei alguns risinhos e senti-me corar. Gustavo fez um esgar também envergonhado:
-Ahm… cada um na sua casa! – corrigiu.
Sinceramente, sempre pensei que ele mentisse melhor!
Reconheci o som de tacões a chocarem no soalho, e observei o corpo esbelto da professora, de cabelos loiros cintilantes como ouro, em caracóis perfeitos e estreitos, metade presos por um gancho na zona traseira da cabeça. A pele calva parecia delicada como cetim, e as suas formas eram tão atraentes quanto a sua voz:
-Espero que daqui para a frente não se repita. – Advertiu, inclinada sobre o livros de ponto.
Franzi as sobrancelhas e levantei a visão até á desconhecida. Os nossos olhares cruzaram-se ao mesmo tempo e eu senti o meu coração parar. Os seus olhos verdes penetraram de uma maneira desconfortável nos meus, e algo naquele espírito era indecifrável. Ela fixou-me também, sem hesitar minimamente, e senti-me ficar cada vez mais pequena, com a respiração presa, como se de alguma forma eu lhe devesse algo, uma espécie de devoção. Ela sorriu levemente para mim. Os seus lábios simétricos e rosados entortaram-se e ela vincou os olhos de um jeito estranho, com a cabeça baixa. Tentei detectar que sentido existia naquele sorriso, mas não consegui, e isso deixou-me estática a olha-la. Gustavo atravessou-se á minha frente e atirou-me um olhar preocupado que me distraiu por momentos e me fez recordar que eu tinha de regressar ao lugar na sala. Dei um passo amedrontado atrás dele, e ainda sem fitar os meus colegas, voltei a admirar aquela mulher, que me seguia também com as suas atenções.
Eu sentei-me por fim e ela deu outro passo em frente ao quadro escuro:
-Para os atrasados, eu sou a nova professora de Matemática, Luísa Mehiel - O seu rosto era tão brilhante que até custava olhá-lo! – Vamos então prosseguir!
Gustavo acotovelou-me o braço:
-Lana, estás estática – Murmurou –, sentes-te bem?
Acenei com a cabeça, constrangida.
Mas quem era aquela?!
Fitei Gustavo de soslaio e sorri para que ele não se preocupasse, mas a realidade era que durante toda a aula não consegui descansar. Algo naquela mulher era-me familiar, mas eu não sabia o quê. Tentei ouvir o sotaque, decorar os movimentos e sobretudo decifrar a sua aura, mas parecia ofuscada. Em simultâneo ao medo e desconforto, aquela professora transmitia uma espécie de serenidade. Todos os alunos pareciam agradados com ela, sobretudo os rapazes, não fosse ela tão bonita. Ansiei pelo toque da campainha, e mal ele soou, irritante, mas ainda assim como um alivio, levantei-me antes de todos os outros e saí da sala sem olhar para trás. Levei simplesmente comigo o caderno e o material que usei durante a aulas.
Encostei-me á parede á espera dos meus colegas e respirei de alivio. Sem me aperceber, aquela aula tinha me tirado o fôlego. Era estranho.
Fechei os olhos e respirei fundo, até que fui surpreendida quando o meu pulso foi rodeado pela mão masculina de Gustavo. Abri os olhos para encara-lo.
-Eu não leio pensamentos, mas conheço-te minimamente. – informou, entrelaçando os dedos com os meus. Segui caminho com ele, o mais próxima possível do seu corpo,
-Eu sei… - Murmurei – Desculpa, mas senti-me estranha com aquela professora.
Ele sorriu em tom de troça:
-Pareceu-te má?
-Não me pareceu nada, apenas familiar. É isso que me assusta, a familiaridade!
Ele deu-me um beijo na testa e desceu as escadas comigo:
-Não te preocupes. Certamente é o teu medo de desconhecidos a falar mais alto.
-Sou paranóica, não sou…? – suspirei olhando para os meus pés enquanto saiamos do bloco, amuada.
Gustavo sorriu e fez-me encara-lo, negando com a cabeça:
-Não… Tu tens o direito de ser assim… - foi a sua resposta.
Ele sorriu levemente e olhou-me nos olhos. Retribui o sorriso timidamente e depois ele, sorrindo mais perante a minha vergonha, inclinou o rosto para me beijar, mas fomos interrompidos, para meu desagrado.
-É lá! – Reconheci a voz de Sérgio e depois um ou dois assobios masculinos.
Cerrei os dentes fula e envergonhadíssima.
-Então dormiram juntos? – confirmou Ivo, esboçando um sorriso maroto.
-Não sejas perverso! – A minha voz saiu mais fina do que o habitual.
Sérgio riu da nossa cara e aproximou-se de mim
-Gustavo, tu vê lá o que fazes á rapariga!
O meu namorado corou, mas fuzilou o amigo com o olhar, assim como eu.
- Agora veste-se de branco? Não me digas que vais dar uma de anjinho? – Perguntou-me Ivo, em tom de troça.
Liliana surgiu atrás de nós, acompanhada por Natacha, que se apressou a ir ter com Sérgio:
-Se soubesses a ironia do que acabaste de dizer…
Eu e Gustavo trocamos um olhar cúmplice e ele sorriu-me por causa daquele comentário.
Liliana fez um ar maroto e arqueou as sobrancelhas:
-Jeitosa! – Brincou, dando-me uma palmada na perna!
-Lili! – Repreendi, saltando para o lado. Os rapazes riram e ela também.
-O que é?! Quase não te reconhecia!
-Pois sim!
Rodrigo apoiou-se em Ivo e mirou-me dos pés á cabeça, confuso e ensonado
-Fogo! – Ele encostou a cara á mão apoiada pelo cotovelo e olhou-me fixamente – Estou a tentar descobrir de onde é que te conheço e ainda não cheguei lá!
Todos rimos com a brincadeira, mas aí, ele manteve-se sério e eu realmente fiquei confusa:
-O quê?
Ele não sabia mesmo quem eu era?
Acho que não fui só eu que fiquei incrédula com aquela informação. No entanto, ele estava a falar a sério. O seu espírito revelava que eu realmente era desconhecida para ele! Incrível!
Ivo deu-lhe uma cacetada na cabeça:
-Tu és burro ou fazes-te?!
Gustavo soltou uma gargalhada, céptico com o amigo, assim como a maioria das pessoas que estavam ali. Senti-me na obrigação de ser eu a desvendar o “enigma”.
-Rodrigo… - comecei por dizer, calmamente - Eu tenho muito sono, e acredito que tu ainda tenhas mais do que eu, mas… - Até me senti ridícula a dar aquela explicação – hei, sou eu!? A Lana?
Ele ficou a olhar para mim com cara de idiota. Eu não gostava de pensar estas coisas, mas ele estava mesmo com essa cara.
Vários risos se contiveram á espera de uma reacção dele, incluindo o meu. Ele semicerrou os olhos:
-Não…? - ele entreolhou os outros, como se esperasse que mais alguém não conseguisse ver.
Não consegui evitar de me rir, com a mão á frente da boca para não soar a mal educada, mas os meus colegas eram muito mais naturais e riram sem pena dele, que se manteve fixado em mim:
-Eu juro que não consigo associar! – Ele começou a sentir-se mal, mas sorriu, constrangido.
Peguei no caderno de capa preto e pu-lo á frente da minha boca, deixando apenas os meus olhos e cabelo á mostra, esperando uma reacção:
-Eu ainda não vi a minha cara hoje, mas suponho que o cabelo esteja encaracolado… Imagina-o liso!
Ele abriu a boca. Só faltava uma lâmpada acesa em cima da sua cabeça:
-Que diferença! fogo! – Gritou –Tu és mesmo bonita!
Fiquei com cara de tacho. Onde é que estavam os buracos quando precisávamos deles? Felizmente tinha o caderno á minha frente, e tapei o rosto com ele, envergonhadíssima.
-Hei! – Gustavo abraçou os meus braços – Nem penses!
Os outros riram em tom de troça, tanto para mim, como para os dois rapazes. Sorri, timidamente, mas era tão bom estar nos seus braços. Para quê afasta-lo?
Rodrigo revirou os olhos, mas não ligou ao aviso visual do meu namorado:
-O que te aconteceu? – Interrogou-me. Todos os outros mostraram interesse na questão.
-Fiquei trancada fora de casa e não pude vestir nada normal!
-“Normal”? – Darla riu-se ironicamente, aproximando-se na presença de Letícia, mas eu não liguei.
Sorri e dei de ombros. Letícia interveio:
-Ficas muito gira assim! O branco faz sobressair o teu tom de pele!
-Podias andar assim mais vezes! – Comentou Natacha.
Senti o meu rosto aquecer e baixei o olhar. Gustavo sorriu, e passou a sua mão sobre o meu braço:
-Cuidado que ela é envergonhada – Avisou. Depois ficou mais sério e semicerrou os olhos - Lana, tenho de te contar uma coisa…! – disse, baixinho.
Infelizmente, não fui só eu que o ouvi.
-O que foi? – perguntei, preocupada.
-Tive um sonho estranho!
Ivo assobiou:
-Tem juízo, Gustavo!
-Olha, cala-te! – Respondeu Gustavo corado, rindo das ideias malucas do nosso colega matulão.
Ri-me também. Os adolescentes conseguiam ser tão tolos!
-Vocês dormiram juntos, portanto…! – Verónica sorriu e deu de ombros.
-E quem disse que dormimos juntos? – interrompi.
-E é preciso dizer? - Interveio Laura
Ela riu-se acompanhada por risos cúmplices. Revirei os olhos e abanei a cabeça, repreensivamente.
-Ok – admitiu Gustavo –, nós dormimos, e então? Vocês não dormem também?
-Ah, então sempre admitem!
-Claro que admitimos! – Cedi – Eu preciso de dormir, senão pareço uma caveira! E o Gustavo também, senão, coitado, ia parecer um urso panda! – fiz um gesto com as mãos á frente dos olhos para representar o animal.
Todos riram, descontraidamente.
-E só por acaso dormiram juntos! – ironizou Liliana.
-Só por acaso! – concordei, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
-E os papas e as mamas não disseram nada? – brincou Ivo, com um olhar maroto.
Gustavo deu de ombros e sorriu para mim, sedutor. Eu sorri de volta para ele.
-Os Montecchio e os Capuleto não sabiam que o Romeu e a Julieta se encontravam á noite!
-Uh, que romântico! - Falou Rodrigo, esboçando um esgar enojado.
-Aprende! – trocei.
Ele negou com a cabeça e passou a mão no cabelo para o sacudir. Aquilo devia ser algum tique.
A nova professora passou por nós e olhou-nos de relance a todos, parando em mim. Encostei-me mais a Gustavo e fingi um sorriso.
Quando ela se afastou Ivo bateu nas costas de Rodrigo:
-Já vale a pena ter aulas! Olha-me para aquela mulher!
-oh, por favor, não sejam idiotas! – Advertiu Natacha, quando se apercebeu do sorriso malandro de Sérgio.
Revirei os olhos, mas nem sequer tive curiosidade de saber se Gustavo partilhava a mesma opinião dos outros rapazes. Afastei-me dele bocejando e aproximei-me das raparigas:
-Alguém tem fome?
-Calma, Capuleto! – Exclamou Gustavo seguindo-me – Também estou em jejum!
-Então não fiques aí especado! Se eu não comer depressa fico completamente descontrolada!
Desviei o cabelo para trás e olhei os outros de relance:
-Venham! – incentivei.
Ninguém contestou, e fomos todos á cafetaria da escola, apesar de eu não lhes prestar mais atenção e falar animadamente com Gustavo sobre coisas sem qualquer importância. Ele não tirava os olhos de mim, e sorria ou ria conforme os meus comentários tontos, mas sempre atento e receptivo. Quando chegamos ao local pretendido estava a abarrotar, e para minha admiração ninguém olhou para mim com aquele ar de “lá vem a bruxa”, nem sequer se aperceberam que eu, era “Eu”. Talvez a coisa que tenha sobressaído mais fora o facto de Gustavo ter a mão dada e mim, mas ainda assim poucos de aperceberam.
Susana foi uma dessas pessoas. Já que me conhecia ao natural, não era difícil distinguir-me no meio daquelas pessoas.
Sorri discretamente a olhar para o chão. Gustavo apercebeu-se e riu também:
-O que foi?
-Está ali a tua irmã…
Ele levantou o olhar ate ela e franziu as sobrancelhas.
-E então?
Ri-me de novo e abanei repreensivamente com a cabeça:
-Ela está ansiosa que nos beijemos...
-A sério?
Ele sorriu maliciosamente:
-Aparentemente não acredita a 100% no nosso namoro!
-Hum… Temos de mudar isso!
Olhei-o de relance, desconfiada, e ele prendeu os lábios numa linha recta, tentando manter-se sério.
-O que é que estás a pensar?
-Que és tímida!
Semicerrei os olhos:
-ok…?
Ele revirou os olhos e suspirou, tentando apagar da sua mente algo absurdo aparentemente. Isso deixou-me desconfiada, mas eu não me quis chatear em descobrir do que se tratava. Lau tocou-me no ombro, captando a minha atenção e falou, sorridente:
-Nós vamo-nos sentar ali! – Avisou, apontando para um sitio onde os nossos colegas juntavam duas mesas e puxavam cadeiras para se sentarem.
-Ninguém quer comer nada? – perguntei.
-Aparentemente, não, pelo menos para já! – Ela piscou-me o olho e virou costas, levantando a mão e em tom de “Até já!”.
Suspirei e inclinei a cabeça, já de costas para ela, e coloquei o dedo indicador no queixo, numa medida de reflexão. Gustavo olhou-me, atencioso.
-O que foi? – Interrogou, curioso.
-Não sei o que comer! – Admiti levantando as mãos ao mesmo tempo que encolhia os ombros.
Ele sorriu da minha reacção. Ultimamente parecia que ele só fazia isso, sorrir! E fazia-o de um jeito tão meigo e atencioso que até me sentia um bebé!
-O que é que mais gostas de comer, gulosa?
-uh…! – Fiz um ar de entusiasmo e sorri, saltitando discretamente – Estou indecisa entre um chocolate – olhei para o tecto, com um sorriso tonto no rosto, e depois abri a boca e arregalei os olhos –, ou um bolo enorme – ponderei, prolongando a palavra “enorme”, enquanto dava outro saltito, sob o ar alegre de Gustavo, que me observava animado -, Ou… Ahm… - Suspirei e mordi o lábio – Estou confusa, mas talvez…!
O meu namorado interrompeu-me com um beijo rápido nos lábios, que fez o meu rosto enfeitar-se com um sorriso. Olhei pelo canto do olhos para onde Su estava e vi que ela mantinha-se atenta, tentando confirmar se realmente tinha acontecido algo. Envolvi os meus braços no pescoço dele, permanecendo firme com o tronco em volta das suas mãos grandes.
-Fazemos assim, eu trago-te algo para encheres o estômago e o teu chocolate preferido!
-Mas eu não tenho chocolate preferido…! – Relembrei dando de ombros.
Gustavo sorriu.
-Mas tu adoras Mars!
Abri a boca, admirada:
-Como sabes?
Ele riu levemente e afastou o seu olhar do meu por um segundo, divertido:
-Digamos que já provei…!
Ri-me da resposta e soltei-lhe o pescoço, todavia ele não me largou. Olhei-o confusa:
-Tenho mau hálito? – perguntei, esperançosa.
Ele libertou uma pequena gargalhada e negou coma cabeça, céptico pela pergunta:
-Tonta! Estás a brincar? Beijos com sabor a chocolate? Eu podia habituar-me a isso!
Ri-me também, divertida, e dei um pulinho de felicidade:
-Que bom!
Gustavo não respondeu e beijou-me, desta vez sem pressas. Toda a intensidade da sua alegria e do seu desejo multiplicou-se e fez-me sorrir, ainda presa à sua boca. Passei as minhas mãos no seu rosto, devagar e com delicadeza, fazendo-o sorrir também, sem, porem, parar de mover os lábios em sintonia com os meus. A minha mente começou a esvaziar-se, calmamente, mas depressa começou a ser envolvida por sentimentos alheios.
Comecei a contar; Um, dois, três corações despedaçados.
“Ups…”
As primeiras raparigas com esses sentimentos fizeram sentir-me mal, mas depois as outras mentes foram escondendo aquelas almas infelizes, colocando as suas atenções em nós os dois, num misto de incredulidade, dúvida em relação á minha identidade, espanto por causa de Gustavo, e também alguma animação.
Ele fez, de repente, aquele movimento brusco que me dava a sensação de queda, arqueando as minhas costas para trás, o que fez eu começar rir-me sem intenção, travando o beijo. Ele riu-se também e mordeu o lábio:
-Eu não te vou deixar cair, anjo…
Revirei os olhos, descontraída:
-Mas adoras dar-me essa sensação!
-Podes contar com isso! – Disse, e levantou o meu tronco outra vez, sem deixar de me olhar nos olhos.
Encostei a boca ao ombro dele, abafando as gargalhadas. Ele gargalhou também, sem compreender a minha atitude:
-O que foi?
-Adoras ser o centro das atenções! – Trocei, fitando-o maliciosa.
Ele fez-se de desentendido e encolheu os ombros:
-Gosto de exibir felicidade!
-Ena, que animado!
Ele deu-me outro beijo, desta vez na bochecha, e soltou-me por fim, andando de recua na direcção da fila do bar:
-Foi uma boa noite!
Sorri, e ele sorriu-me de volta, piscando o olho com um encanto irresistível. Mordi o lábio a repreendi-o num balanço de cabeça. Senti meia dúzia de borboletas a esvoaçarem no meu estômago, e senti-me corar, sem conseguir travar aquele esgar de felicidade que ele ajudou a esculpir na minha face.
Cada gesto nosso, cada palavra dele, cada momento mágico e cada novo milímetro que parecia surgir no meu coração cada vez mais acelerado, apontava-me para uma única conclusão: Eu estava completamente apaixonada por ele.
Ah, batam-me, mas eu até acho capitulo fofinho!
A partir de hoje posto todos os dias, em principio, o que significa que daqui a poucos capitulos acaba a fic! O.O
Vá, comentem!

bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
lulumoon escreveu:Awh!!!Tenho uma nova leitora!
Obrigada por leres e comentar Tinoco, fico muito feliz por saber que há pessoas a gostar da minha fic!
Dedico este capitulo á nova leitora!
Alto! As minhas preçes foram ouvidas

Oh... Que queridaaaa
Obrigada lulumoon 
Epah, a Lana e o Gustavo estão tão fofinhos, tão juntinhooooos

Uhm... Agora fiquei intrigada, porque é que a nova prof de matemática lhe pareceu tão familiar??
Fiquei mesmo curiosíssima
E depois...
Ah, ri-me tanto com o Rodrigo e cia. Tudo a olhar pra Lana, e nem a reconheciam
Coitada da moça, deve-se ter sentido meio frustrada 
Ai, lulumoon, ja disse que escreves muito muito bem?? Acho que sim, mas volto a dizer XD
hee
Todos os dias
Ficarei todos os dias à espera de um novo
Mesmo que depois não possas postar, eu sou paciente, e espero
É pena que o q é bom vá chegar a um fim, e quando se acabar... acho que vou percisar de um lenço
Pq eu vou chorar... Eu não gosto nada de ver as fics que eu gosto a chegarem a um fim
Enfim... Quero mais (tou sempre a dizer isto em todas as fics que leio
)Beijinhooos **

さよならできずに, 立ち止まったままの僕と一緒に...
Obrigada pelos comentarios meninas! 
Agora: SS - a Santa sogra!
Capitulo XXV – A sogra
-O que terá acontecido á Rebeca? Já não a vejo há séculos…!
O comentário de Natacha fez-me encolher o corpo. Na verdade já tinham passado quase três semanas desde que a escola recomeçara, e nem sinal da criatura. No entanto, eu tinha de admitir que o namoro com Gustavo estava a fazer-me esquecer dela. Os dias tinham andado calmos para mim, e muito pouca gente se mostrou surpreendida com o facto de “aquela rapariga” que Gustavo beijara na cafetaria, ser na verdade “a rapariga que se vestia de preto”. Deduzi que só para mim tinha sido surpreendente nós nos tornarmos namorados, já que todos pareciam saber que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Naquele dia, logo após Gustavo me ir buscar o lanche, Su saltou para os meus braços e revelou a minha identidade aos outros, animada. Era estranho como ela me admirava tanto, mas eu devia ser como mel para aquela família! As pretendentes do meu namorado ficaram ainda mais martirizadas quando me reconheceram. Era um pouco… Constrangedor. Fazia-me sentir mal por eu gostar tanto dele. Seria normal? Eu não sabia, mas a forma como Gustavo me tratava não me deixava ser altruísta e pensar primeiro naquelas pobre raparigas despedaçadas que me deviam odiar mais do que nunca. Um facto que todos se aperceberam, contudo, foi que eu não voltei a aparecer totalmente vestida de branco. Aquela situação tinha sido um percalço do destino, não uma vontade súbita de chamar ainda mais a atenção. Helen também não revelara qualquer preocupação por não me ver na manha daquele dia, nem sequer desconfiou, o que foi um ponto a meu favor, visto que nos dias que se seguiram, aquelas fugas nocturnas até á cachoeira se tornaram um ritual para mim e para Gustavo, com a diferença que desta vez levávamos os telemóveis para escutarmos o despertador, caso adormecêssemos outra vez. Tinha de admitir que todas as noites eram perfeitas. Não que nós passássemos o tempo todo aos beijos e enrolados, a dizer coisas pirosas. Era bom só pela simples companhia. Sabia bem ficar acordada até mais tarde, num silencio agradável, enquanto observávamos os pirilampos a voar lentamente em círculos, a agua a correr e a natureza esplendorosa durante as diferentes horas da noite e da madrugada. As diferentes fases da lua eram facilmente decifráveis para nós, que as controlávamos todos os dias, como uma brincadeira. O único inconveniente desses encontros era sem duvida ficarmos com os sonos trocados. Eu tentava que isso não me afectasse nas aulas, e não afectava, felizmente. Eu continuava atenta, talvez por ter interesse naquilo que ouvia, mas tinha de reconhecer, que havia uma aula em que eu não conseguia estar relaxada. Sim, aquela nova professora deixava-me insegura, por motivos que eu desconhecia. Todos pareciam adora-la, mas eu sinceramente preferia levar com cuspo do antigo professor tísico e arrogante enquanto aprendia a disciplina, do que sentir-me observada por aquela mulher esbelta. Não que eu tivesse alternativa.
-Ouvi dizer que ela desistiu da escola! – Informou Darla, acordando-me dos meus pensamentos.
-Com certeza foi por causa da doença! – Suspirou Verónica – Não entendo, ela é tão bonita, porque quer ser magra?
Olhei para o chão, entristecida, continuando a escutar os seus comentários. Letícia apercebeu-se e engatou o seu braço no meu, atenciosamente:
-O que se passa?
Tentei sorrir:
-Estou preocupada com a Rebeca… - Murmurei.
-Não te preocupes, havemos de revê-la. Alem disso, tenho a certeza que ela ficará melhor…
Acenei afirmativamente com a cabeça. Letícia era muito delicada e atenciosa, era impossível não tentar ser simpática com ela. Era impressionante como as pessoas estavam tão enganadas em respeito a ela, mas eu não podia desmascara-la sem o seu consentimento, infelizmente.
Liliana suspirou, enciumada tanto por causa de Letie e eu, como pela minha preocupação por Rebeca. Naquela tarde de sexta-feira, já só se encontravam raparigas no grupo. Os rapazes tinham-nos abandonado para se divertirem, traduzindo, para praticarem MotoCross. Na verdade, ainda não tinha tido a oportunidade de ver Gustavo correr, mas o entusiasmo dele cada vez que falava comigo depois daqueles momentos com os amigos, dava-me a entender que ele em dois anos não havia perdido o talento. Isso deixava-me orgulhosa, de verdade! Eu já lhe tinha prometido que havia de o ver correr, e isso tinha de acontecer! Gustavo, porem, queria guardar-me para uma corrida a sério, não uma com os amigos. Não que isso me importasse. O que me importava era vê-lo.
-A Cris voltou a ligar-te? – Lili perguntou, preocupada.
Acenei coma cabeça, apreensiva.
Havia semanas que Cristina me ligava todos os dias, cerca de cinco vezes, mas infelizmente as nossas redes estavam confusas e eu nunca conseguia entender o que ela me queria dizer. Só sabia que era algo importante, e isso deixava-me nervosa.
-Continuo sem saber o que se passa. Já tentei ligar do telemóvel da Helen e mesmo assim não consigo falar-lhe…
-E por e-mail?
-Ela não tem internet.
-Hum… - Lili fez um biquinho com os lábios e depois mirou-me desconfiada – Será algo importante…? Quero dizer, algo sobre coisas invulgares?
Dei de ombros, mas lancei-lhe um olhar em que indirectamente eu revelava que eu acreditava que isso fosse possível. As outras colegas não entendiam do que falávamos, excepto Lau, que já desconfiava que algo se passava comigo.
-Logo farei outra tentativa, se não me esquecer.
Tentei impedir um sorriso, ao recordar que ia estar com Gustavo outra noite.
Foi nesse preciso momento que Su se aproximou de nós, vinda sabe-se lá de onde.
Ele sentou-se no meu colo, descaradamente, e sorriu:
-Olá cunhadinha!
Revirei os olhos, envergonhada, sendo motivo de risos para as outras. Susana estava a habituar-se àquele apelido.
-Isso continua a soar-me estranho! – admiti.
Ela riu levemente:
-O teu namorado?
-Foi divertir-se com os amigos! – Respondi, prontamente. Ela suspirou martirizada.
-Mas qual é a piada de andar de mota?
Fiz um ar surpreso:
-Estás brincar? é tão fixe! Sentes um frio no estômago e dá vontade de gritar…
-De medo? – interrompeu.
-De adrenalina! Tens de pedir ao Gustavo para andares com ele! È tão bom sentir o vento contra ti!
Letícia sorriu e mordeu o lábio.
-O Gustavo teve sorte por tu pensares assim!
-Eles são alma gémeas, no fundo! – Balbuciou Lau, rindo, enquanto chupava o seu ice tea por uma palhinha colorida.
-Eu acho que somos diferentes… - Admiti – Ele é mais… - faltaram-me as palavras, mas eu sabia que havia algo nele que se sobrepunha a todas as minhas características – sei lá…!
-Porque não passas lá por casa, hoje? – Convidou Susana.
O meu coração quase saltou pelo peito, assim como o estômago que foi invadido por uma azia profunda que me fez franzir o sobrolho:
-Eu nem sequer sei onde vocês moram! Alem disso seria embaraçoso.
A pequena troçou de mim:
-Que parva! Assim fazias uma surpresa ao Gustavo quando chegasses!
-Não acho boa ideia…
Lau aproximou-se de nós e desbocou-se:
-Ela tem medo de se apresentar como namorada do Gustavo á tua família!
Su abriu a boca, pasmada:
-Lana, podes ir lá como minha amiga, simplesmente! Eu acho que só eu é que sei que és tu a namorada do Gustavo!
-A sério? – Natacha mostrou-se céptica – O Gustavo não contou a ninguém?
-Bem , o Gustavo também é tímido! – Esclareceu Su, libertando uma pequena gargalhada de seguida – E se alguém lhe faz um questionário sobre a sua vida amorosa ele ficar vermelho que nem um tomate!
Ri-me também, divertida. Não conseguia imaginar o “meu” Gustavo tímido. Ele era sempre tão confiante naquilo que dizia, e muito indiscreto, sem duvida.
-Su, não quero dar-lhe um ataque de vermelhidão se for lá a casa. Já pensaste? Coitadinho!
-Não inventes desculpas! – Reclamou Darla – Porque não vais conhecer o chalezinho da família? – ela riu em tom de troça – E se tiveres sorte ainda conheces a vovó Constança.
Susana riu-se com as outras, mas eu não entendi o porquê. A pequena levantou-se do meu colo e olhou para o relógio:
-Falta um quarto de hora para o autocarro chegar. Acabaram-se as desculpas!
-Susana! – Reclamei.
-Vá lá! Tu no fundo até queres! – Brincou Letícia.
Respirei fundo e revirei os olhos, nervosa.
-é obvio que eu não me importo de fazer uma “surpresa” – fiz aspas com as mãos -, mas… Olhem para mim! Não quero assustar ninguém da família!
Liliana Levantou-se da sua cadeira e pegou na sua mochila, de onde retirou um necessaire Florido:
-Que não seja por isso…!
-Oh, nem penses! – Recusei, atrapalhada.
Susana interveio a meu favor:
-Não é preciso, meninas! Eu não me importo que te vistas assim, aliás, até gosto! A propósito, Lana, tens de me ensinar como é que fazes isso nas pálpebras!
Darla abriu a boca, incrédula:
-Miúda, agora vais virar punk?!
-Não faças isso, Su! – Pedi, atrapalhada.
-Ora essa, que moral tens tu para me impedir de adoptar um estilo que tu também usas?
Estive quase para admitir que eu não me vestia assim porque queria, mas calei-me a tempo e suspirei profundamente:
-Ok, vocês ganharam! – Estendi a mão para que Lili me entregasse o seu necessaire.
-Espera, eu quero ir contigo! – Exclamou Verónica.
-Vamos todas! – Completou Lau, empurrando-me, literalmente, para a casa de banho mais próxima. Entramos todas aos encontrões, e só paramos, depois de o desmaquilhante e os discos de algodão percorrerem o meu rosto, extraindo toda a maquilhagem que eu trouxera comigo. Senti-me ligeiramente desconfortável com tantas mãos a tocarem-me e tantas vozes femininas entusiasmada a falarem comigo. Senti alguém tocar-me as pernas e saltei:
-Hei! Lau, o que estás a fazer?! – indaguei, atrapalhada.
Ela sorriu com malícia:
-Fizeste a depilação?
-Nem penses! – Antecipei-me, cruzando os braços.
-Tu não disseste que querias parecer bem? – Troçou Letícia.
-Eu apenas disse que não queria assustar ninguém! Bastava tirar-me a maquilhagem, não?
-Mas tem umas boas pernas e esta túnica é comprida o suficiente para ser reconhecida como um vestido!
Formei um esgar facial e revirei os olhos:
-Recuso-me! Basta por aqui!
-Basta, sim! – concordou Susana, agarrando a minha mão – Está na hora de irmos!
Ela enfiou todos os meus pertences dentro da minha bolsa e ambas acenamos ás outras, enquanto corríamos para não nos atrasarmos.
Quando chegamos á paragem do autocarro, repleta de alunos, a camioneta de Susana foi a primeira a surgir, salvando-nos do sol quente daquela tarde. Não sei como, conseguimos ser as primeiras a entrar, e como tal sentamo-nos num bom local. Durante o curto trajecto, Su não se calou nem um instante, e eu, mesmo atenta ao que ela me dizia com entusiasmo, ia observando o caminho verde, tentando descobrir para onde me dirigia, invadida por um nervoso miúdo.
Foi então que ela se levantou e me arrastou junto, saindo do autocarro para uma zona pacata da aldeia.
-Vem! – Exclamou, correndo por uma subida íngreme.
Segui-a, controlando os nervos, até que ela se dirigiu a uma casa de Pedra, de um andar só, com portadas de madeira escura, e uma chaminé larga, com um aspecto de chalé, bem como Darla havia dito. Tinha um ar muito acolhedor e á primeira vista deu-me uma sensação de conforto. Não pude deixar de reparar no jardim que a adornava do lado oeste. Susana passou por entre ele, permitindo-me vislumbrar uma mesinha de pedra numa zona ampla, perto de uma churrasqueira, e uma rede de baloiço larga presa a duas arvores distantes. Há medida que avançamos, surgiu uma pequena vedação de madeira que separava o quintal do jardim, e vi ao longe que havia uma capoeira e casotas com coelhos. Achei aquilo tão fofo, que não pude deixar de sorrir discretamente. Susana dirigiu-se á porta das traseiras e abriu-a, sem precisar de chave:
-Entra, Lana!
Deparei-me com a cozinha, primeiramente. Muito bem arrumada, por sinal, sem um único vestígio de sujidade á vista, com armários de madeira decorados com poucos elementos, e os balcões pareciam de granito, onde haviam pequenas caixinhas de especiarias. Junto á porta havia um bengaleiro para os aventais, e uns ganchos na parede, com chaves penduradas, que tornavam tudo muito mais organizado.
Suspirei, imaginando o que Gustavo pensaria da minha cozinha, tendo em conta toda aquela organização. Chegava a ser vergonhoso para mim!
Susana observou as chaves e sorriu:
-O Gustavo já está em casa! – Anunciou, sorrindo, enquanto dava passos rápidos em direcção á porta oposta á da entrada.
Seguia-a, timidamente, até que entramos num corredor largo, com uma consola encostada á parede, enfeitada com uma jarra de flores e uma pintura abstracta na parede que condizia com o tapete. Susana foi até á terceira porta e abriu-a sem sequer bater. Para minha surpresa fez um ar de completa decepção.
-O que foi? – Perguntei.
Ela deu-me sinal para se aproximar com a mão, e apontou para o interior daquele compartimento:
-Vamos acorda-lo? – sorriu e arqueou a sobrancelha, matreira.
Eu espreitei para o local onde ela parara. Senti-me corar quando enxerguei Gustavo atravessado na cama de barriga para baixo, de tronco nu, com a cara enterrada na almofada, a dormir. A sua boca estava ligeiramente aberta e apesar de não ressonar, a respiração era alta e abafada, talvez por estar quase presa por causa da forma como a coberta lhe tocava a face. Nesse momento vi que a cama estava desfeita, e o quarto estava todo desarrumado, ao invés daquilo que eu esperava. Sorri, embevecida pela situação de Gustavo. Nunca o tinha visto tão calmo como naquele momento. Ele já era relaxado, era um facto, mas a forma como ele estava naquele momento, era ainda mais. Por momentos pareceu uma criança indefesa, a dormir a sesta sem preocupações e a sonhar com tudo o que mais queria. Entrei no quarto antes de responder a Susana. O meu coração acelerou quando me apercebi do cheiro que o envolvia. Era como se entrasse dentro de Gustavo, de verdade, como se não existisse mais ninguém a não ser ele e aquele fosse um mundo que só ele habitava, tudo por culpa do seu aroma único que aparecia de todos os lugares, quer da parede, do armário, dos tapetes, ou até mesmo da televisão artificial. A sua aura parecia concentrar-se naquele lugar! Quase me senti tonta por sentir tanto dele de uma só vez, mas era agradável estar ali.
Susana riu-se malevolamente e correu para lhe saltar em cima, mas eu agarrei-a a tempo e tapei-lhe a boca:
-Não faças isso! – Pedi. Ela olhou-me desiludida – Deixa-o dormir!
-Mas assim ele não sabe que estás cá!
-Não te preocupes… Deixa-o descansar.
Analisei o quarto, nas suas características mais artificiais. Era simples, acolhedor e iluminado. As paredes brancas perdiam a sintonia apenas pelo edredão vermelho e preto, e pelos tapetes lisos e discretos. Em cima da cómoda, para alem de um perfume, o seu relógio e uma estatueta derrubada, havia um monte de DVDs desorganizados, que, pelo que pude ver, eram na maioria de corridas de MotoCross e raids. Todavia, encontrei perto do seu leitor DVD alguns filmes animados, que me fizeram sorrir. Na sua mesinha de cabeceira única, haviam umas revistas também de MotoCross, um despertador tradicional e um livro com pagina marcada, que me surpreendeu, mas que eu não consegui decifrar o seu nome visto estar ao contrario para mim. Num canto, perto do seu armário, estavam umas botas enlameadas, próprias para ele andar de moto. A camisola que lhe faltava no corpo estava pousada num puff preto, iluminado pela janela ampla.
-Repara Lana… - murmurou Susana – O teu namorado é um desarrumado! Perdoa-o, ok?
Ri-me levemente e aproximei-me da cama:
-Achas que eu conseguia resistir a este bebé grande?
Apoiei as minhas mãos no colchão e selei um beijo na sua face. Gustavo sorriu, ainda a dormir, segundo o que a sua aura me mostrava, e depois moveu o seu corpo ligeiramente. Passei a mão ao de leve nas suas costas lisas e largas. Eu sabia que ele gostava disso, só esperava não o acordar:
-Su, estás a ver o teu irmão?
A jovem acenou afirmativamente, sem saber o que eu queria com aquela pergunta:
-O que é que tem?
-Ele é meu! - Exclamei fazendo-a rir – Rói-te de inveja!
Ela revirou os olhos e mostrou-me a língua. Eu afastei-me por fim e observei Gustavo ao lado da cama. Foi então que ele moveu a cabeça, deixando a sua tatuagem á mostra. Era a primeira vez que a via, talvez porque quando estava com ele me esquecia de lhe pedir para ma mostrar, porem não fiquei surpreendida com aquilo que ela ilustrava. Era uma espada envolta por duas asas, que pareciam indirectamente tomar a forma de um coração, pelo menos era essa a sensação que as linhas curvas das asas me davam em conjunto com a espada, onde no punho havia uma inscrição em letras minúsculas. Senti curiosidade em lê-las e aproximei mais a minha cabeça, semicerrando os olhos com dificuldade em entender.
-“Amor omnia vinciti”? – perguntei-me, no sotaque mais labrego que eu conhecia.
Olhei Susana:
-Amor…?
-Vence tudo! – concluiu.
Senti um friozinho na barriga e cheguei á conclusão que era o momento de sair daquele quarto. Humedeci os lábios envergonhada e saí daquele espaço, encarando novamente o corredor.
Susana fechou a porta atrás de mim e eu sorri-lhe:
-Mostras-me o teu quarto, agora?
-Claro! – Respondeu entusiasmada, correndo até á porta do lado.
Sorri e acompanhei-a de boa vontade. Era um quarto muito mais organizado do que o de Gustavo, e tinha muitos mais pertences. Em cima do armário haviam peluches antigos e a colcha era branca, assim como todas as paredes. Em cima dos moveis haviam fotografias e caixinhas de jóias e de maquilhagem.
Susana começou a mostrar-me todas as suas roupas, e depois os seus CDs e musicas preferidas. Reconheci facilmente as suas canções preferidas, até porque eu própria gostava do seu estilo musical. Depois disso ela mostrou-me a sua guitarra acústica:
-Tocas? – perguntei.
-Não! – Surpreendeu-me – O Gustavo toca para mim, especialmente quando eu quero cantar!
Sorri, completamente apaixonada:
-Ele toca Guitarra? – Questionei, com a mão encostada ao peito – Isso é tão… Uau, há alguma coisa que ele não saiba fazer?
-Cantar, definitivamente! – Respondeu - Parece uma cana rachada quando abre a boca!
Coloquei o dedo indicador no queixo, admirada:
-Estranho… A voz dele é tão bonita…!
-E é, mas não para cantar…
-Oh, bem, eu também canto mal, portanto, estamos em sintonia!
Susana riu-se e procurou algo nas gavetas, cheias de papeis e algumas revistas juvenis:
-Lana, podes ir á cozinha procurar a revista Bravo desta semana? Acho que a deixei lá!
Franzi o cenho. Tinha ideia de a cozinha estar completamente organizada quando lá estivemos, mas assenti, pacientemente. Dirigi-me ao local indicado e olhei em redor. Estava tudo silencioso, pois estavam todos a trabalhar, excepto os mais novos. Vi em cima da mesa, e depois em cima do balcão. Ainda desviei algumas caixas do balcão, mas nada surgia. Pensei em abrir as gavetas e procurar lá, mas hesitei-me quando os meus dedos tocaram o puxador. Era errado faze-lo. Se a revista não estava ali, então não estava em mais lado nenhum, alem disso não ia basculhar propriedade alheia, mesmo que tivesse permissão.
Escutei um passo atrás de mim de repente:
-Ladrão!!! – alguém berrou, assustado.
Dei um salto e quase gritei com o susto. À minha frente, junto á entrada traseira da casa, estava uma senhora de idade mais avançada, com uma sachola na mão. Recuei até o meu rabo ficar praticamente em cima do balcão. O meu coração ia saltar pela boca e eu não sabia o que fazer.
-Na-Não…! – Neguei coma cabeça, assustada.
-Quem és tu? – A senhora apontou-me a sachola, o que me aterrorizou ainda mais! Aquilo parecia um filme de terror, mas em vez da motosserra, havia um instrumento agrícola que me podia atingir a cabeça e corta-la em duas partes!
-Lana, encontrei a… - Su entrou na cozinha com a revista empacotada na mão, e calou-se ao ver a senhora e eu a trocar olhares de medo – Avó o que se passa?
-Susaninha, conheces esta rapariga? – perguntou, ainda em posição de ataque. Eu encolhi-me, engolindo a seco, enquanto entreolhava Su.
A miúda, por sua vez, riu-se:
-Relaxa avó, é minha amiga!
A mulher conformou-se e pousou a sua “arma”do lado de fora da porta. Limpou as mãos ao avental e olhou-me de cima a baixo:
-Tens amigas muito estranhas…
Fiquei com uma cara de tacho que só visto!
-Estranha porquê? – Susana aproximou-se de mim, de braços cruzados.
A senhora teve tento na língua e apenas abanou a cabeça:
-Que idade tens, moça?
-Dezasseis… - murmurei, constrangida.
-E vestes-te assim? – Ela arregalou os olhos – és vudu?
-O… O quê…?
-De onde é que vocês se conhecem?
-Da escola, avó! – Esclareceu Susana, revirando os olhos – É da turma do Gustavo!
-hum… - A senhora inspeccionou-me, desconfiada. Senti-me bastante constrangida com aquela situação. Era em momentos daqueles que eu queria ser uma avestruz para enterrar a cabeça na areia – A tua mãe, Susaninha?
-Estou aqui! – Reconheci a voz da D. Mª do Carmo ainda do lado de fora da casa, mas o seu corpo logo emergiu pela porta, sombreado por causa do sol atrás de si, que a fez parecer um anjo a cair do céu, com passos pequenos, mas apressados, que logo a fizeram pousar umas sacas de compras em cima da mesa, sem ainda me ver – O que foi, mãe?
Ela então virou-se e viu-me ao lado de Susana, sorrindo de seguida, surpreendida:
-Lana, que surpresa! – Ela aproximou-se de mim, num andar elegante em cima do seu peep toe negro que condizia na perfeição com a roupa simples e ainda assim glamourosa, e cumprimentou-me com dois beijos na face.
Sorri atrapalhada, mas nunca pensei que ver a minha “sogra”, como lhe chamara Susana, fosse tão relaxante como naquele momento.
A senhora mais velha falou, mais uma vez, impedindo-a de me dizer algo:
-Também a conheces?
-Claro que conheço, mãe! É a namorada do Gustavo!
-O quê?! – A avó de Susana fez um pranto, chocada com a novidade.
Senti-me a levar com uma panela na cabeça. Fiquei tão, mas tão envergonhada que olhei para a pia da louça, ponderando novamente sobre a técnica da avestruz, mas senti o meu corpo quente e inconsistente. A respiração saiu como uma tosse e a única coisa que eu tive coragem de fazer foi olhar Susana e desenhar com os meus lábios um “Como é que ela sabe?” que foi respondido também num desenho labial, com um pouco mais de som do que o meu:
-Juro que não fui eu…!
Fiz uma careta aflita e evitei o olhar das mulheres mais velhas. D. Maria do Carmo não fez caso do que a sua mãe lhe dizia, e escutou-a sem interesse:
-… e com dezoito anos achas que o Gustavo tem maturidade para namorar?! Ele é muito novo, não se pode comprometer e ir pelos caminhos do pecado! O Senhor que o perdoe, valha-me nossa senhora! Então agora até trás a namorada cá a casa, sem ninguém para ter juízo por eles?
-Mãe, por favor! – D. Maria revirou os olhos e começou a tirar as coisas das sacas que trouxera consigo, ignorando o que a idosa lhe dizia.
A senhora, apercebendo-se que era ignorada, virou-se para mim, e esticou o dedo indicador abanando-o na minha direcção:
-Ouve-me bem, moça, depois do beijo, vem o desejo! Tu não te ponhas a fazer bruxarias para agarrar o meu neto…!
-Mãe! – Repreendeu a sua filha, perplexa – Pare com isso, ora!
Susana mirou-me de soslaio e encolheu os ombros, tão pasmada como eu.
-Paro, não, Maria! Primeiro dás-lhe a mota, agora isto! Filha, ele só tem dezoito anos, como é?
-Mãe, caso não se lembre, eu casei-me aos dezoito anos quando engravidei, e só não o fiz mais cedo porque você e o pai me impediam de namorar! Alem disso os tempos são outros, e eu confio no meu filho e na namorada para saberem se querem estar juntos ou não, e prevenirem-se caso desejem ter relações sexuais! Até lhes compro preservativos se isso a deixar descansada!
“Oh meu deus! Lana, foge!!!” Gritei comigo mesma. Se eu não soubesse, diria que ia explodir de vergonha. Aquele devia ser um dos maiores embaraços da minha vida!
-Ai filha, as coisas que tu dizes, cachopa! – Repreendeu a mais velha, benzendo-se – Olha, eu vim cá para te avisar que já plantei os pepinos no quintal, e que não precisas de regar porque eu já o fiz, mas vou fazer de conta que estás cansada por hoje ser sexta-feira, e vou-me embora a fingir que tu não falaste em coisas impróprias á frente da Susaninha!
-Está bem, mãe, eu logo vou lá a casa. Não se preocupe! – Suspirou abanando a cabeça, aborrecida.
A avó do meu namorado olhou-me mais uma vez, numa tentativa bem conseguida de me fuzilar, e saiu, batendo a porta atrás de si. D. Maria do Carmo riu-se com graciosidade, e voltou a olhar para as coisas em cima da mesa, abanando a cabeça, sem conseguir evitar as leves gargalhadas:
-Oh meu Deus… - murmurou, Guardando as coisas nos armários.
Eu e Susana olhamo-nos constrangidas. Acho que havia chegada a hora de eu cair para o lado, certo?
-Lana, peço-te imensa desculpa! – Ela continuou a rir – Esta família é de doidos!
-Posso fingir que me sinto melhor agora? – Aquilo saiu como um suspiro. Na verdade nem era de bom tom dizer algo assim, mas sinceramente foi a única coisa que me ocorreu.
Ela olhou-me divertida e mostrou-se sem saber o que dizer:
-Desculpa se te deixamos constrangida…!
-Mãe? – Susana interrompeu – Como é que sabes que a Lana é namorada do Gustavo?
Ok, alguém me queria ver morta? É que eu podia jurar que naquele momento levei uma cacetada na cabeça! Era preciso voltar a tocar no assunto!?
A mulher sorriu, ao ver a minha cara de medo e deu de ombros:
-Ora, eu já sabia desde que conheci a Lana!
Su franziu as sobrancelhas, duvidosa, assim como eu, que já nem sabia o que havia de fazer.
-Como, se nessa altura eles ainda não estavam juntos?
-Filhota, há coisas que basta uma pessoa olhar para saber!
Recordei a primeira vez que D. Maria do Carmo me vira, no café de Liliana, quando bati naquela cara linda de Gustavo. Que má! No entanto, não conseguia perceber como ela tinha entendido algo nesse dia. Precisei de o saber:
-Mas nós estávamos zangados…
-Tu até podias estar, mas o Gustavo só estava enciumado, garanto-te!
-A sério?
-Obviamente! Ele mal te viu no café corou, depois, evitava olhar para ti, e quando eu brinquei com a Liliana a dizer que tu eras pretendente do Pedro, ele quase que o fuzilou com o olhar… Aliás, acho que foi por isso que ele foi trocar a chávena de café dele, para vos distrair um do outro… Depois entornou-a, mas isso já me ultrapassa. – Ela riu-se e eu não consegui evitar de sorrir também – Só sei que ele ficou de rastos depois de vocês discutirem, e acredita, depois de discussões em publico, o máximo que costuma acontecer é as pessoas ficarem constrangidas, e não tristes!
-Não lhe devia ter dito aquilo… - Reflecti, recordando que havia-lhe dito que o odiava naquele dia. Tinha de o compensar!
-As coisas que tu vês, mãe! – Reclamou Susana - Sinceramente, eu julgo que os vejo aos beijos e eles quase me esfolam para provar que é mentira, e tu vê-los a discutir e já sabes que namoram! Isso é um absurdo!
A rapariga mostrou-se frenética e retirou o plástico que envolvia a revista, sentando-se na cadeira da mesa de seguida, para ler a revista á vontade.
A sua mãe pegou no plástico e votou-o ao lixo, sem pressas.
-Então, onde está o Gustavo?
-A dormir! – Respondeu Susana.
-A dormir?! Desde quando é que ele dorme durante a tarde?! E ele não sabe que a Lana está aqui?
-Não, ele não sabe! – sorri atrapalhada – Eu vim com a Susana, mas não quisemos acorda-lo!
-Correcção – interrompeu Su – tu não quiseste acorda-lo! Eu queria saltar-lhe em cima, mas enfim…!
-Susana, ás vezes és tão mazinha! – Acusou. D. Maria do Carmo - Sabes muito bem que o Gustavo quando acorda parece uma barata tonta, precisa de um minuto para saber onde está e quem é, se não pode muito bem cair e rachar a cabeça! Alem disso ainda o apanhavas mal disposto…!
-Achas, a Lana está aqui, de certeza que ele ficava animado!
Sorri envergonhada, mordendo o lábio logo após.
D. Maria do Carmo pôs as suas mãos sobre os meus ombros e conduziu-me, devagar:
-Já conheces a casa toda?
-Oh, vai começar…! – Balbuciou Susana, folheando a revista.
Ignorei a sua reacção e respondi á sua mãe:
-Bem, conheço o quarto da Susana e o do Gustavo… Ah, e a cozinha!
Ri-me atrapalhada.
-Bom, vais ter de me perdoar – já estava á espera que ela lamentasse a desarrumação, como toda a gente fazia quando algo não estava bem na casa, nem que fosse a cor de uma parede, mas para mim aquilo estava tudo limpo, portanto teria de refuta-la, contudo fui surpreendida quando ela fugiu ao habitual – mas de cada vez que eu tenho visitas, tenho o habito de as maçar, mostrando tudo o que me aparecer á frente!
Ri-me em sintonia com ela e segui até á porta do fundo do corredor. A mulher elegante abriu-a e conduziu-me para dentro dela:
-Não há proble… - As minhas palavras desapareceram quando olhei em frente, por cima de uma lareira rústica, onde um retrato repousava em harmonia com a restante decoração. A única coisa que fiz naquele momento foi pestanejar, sem reacção – oh… meu… Deus…
-O que foi, querida?
D. Maria do Carmo olhou na direcção eu que eu observava, e depois sorriu, mais descontraída:
-Por momentos assustaste-me!
-Desculpe, mas…!
Fiquei a encarar aquele retrato familiar. Tudo bem, estava ali a Susana, o Gustavo, a Diana, o Alex, a mãe de família e… Uma montagem do Gustavo com rugas e cabelo negro curto, a sorrir com uma covinha simpática no lado direito do rosto?!
-Ainda ninguém te tinha dito que eram parecidos?
-Bem, sim, mas podiam quase ser gémeos! – Será que Gustavo tinha sido feito enquanto tiravam fotocópias?
Ela riu-se, e sentou-se no sofá de grupo, bege, de perna alçada, descontraidamente:
-Chega a ser assustador… – Gemi – Parece que até já o conheço e ao mesmo tempo é um perfeito desconhecido… - Franzi as sobrancelhas, ainda fixada no quadro, sem reacção exacta.
Analisei Gustavo naquela foto. Tinha o cabelo mais curto, parecia mais baixo, o corpo era menos definido e o rosto era mais infantil. Mas o sorriso era o mesmo, senão mais forte ainda. Esbocei um sorriso discreto. Os seus olhos azuis pareciam a Gioconda de Da Vinci, perseguindo-me em qualquer parte da sala.
Dona Maria do Carmo trocou as pernas e deu de ombros, desta vez com um sorriso mais pequeno:
-Bem, o meu marido era muito parecido com o Gustavo quando o conheci. Eram exactamente iguais!
Aproximei-me dela e sentei-me ao seu lado, no sofá, pronta para ouvir a historia. Dona Maria do Carmo levantou-se foi até ao armário requintado da sala, em busca de algo. Numa porta do canto, pegou num álbum grosso de capa castanha e trouxe-o até mim. Abancou outra vez ao meu lado e abriu-o, desvendando os seus mistérios.
-Acho que tenho uma foto dele a preto e branco que quase não dá para distinguir quem é.

Agora: SS - a Santa sogra!

Capitulo XXV – A sogra
-O que terá acontecido á Rebeca? Já não a vejo há séculos…!
O comentário de Natacha fez-me encolher o corpo. Na verdade já tinham passado quase três semanas desde que a escola recomeçara, e nem sinal da criatura. No entanto, eu tinha de admitir que o namoro com Gustavo estava a fazer-me esquecer dela. Os dias tinham andado calmos para mim, e muito pouca gente se mostrou surpreendida com o facto de “aquela rapariga” que Gustavo beijara na cafetaria, ser na verdade “a rapariga que se vestia de preto”. Deduzi que só para mim tinha sido surpreendente nós nos tornarmos namorados, já que todos pareciam saber que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Naquele dia, logo após Gustavo me ir buscar o lanche, Su saltou para os meus braços e revelou a minha identidade aos outros, animada. Era estranho como ela me admirava tanto, mas eu devia ser como mel para aquela família! As pretendentes do meu namorado ficaram ainda mais martirizadas quando me reconheceram. Era um pouco… Constrangedor. Fazia-me sentir mal por eu gostar tanto dele. Seria normal? Eu não sabia, mas a forma como Gustavo me tratava não me deixava ser altruísta e pensar primeiro naquelas pobre raparigas despedaçadas que me deviam odiar mais do que nunca. Um facto que todos se aperceberam, contudo, foi que eu não voltei a aparecer totalmente vestida de branco. Aquela situação tinha sido um percalço do destino, não uma vontade súbita de chamar ainda mais a atenção. Helen também não revelara qualquer preocupação por não me ver na manha daquele dia, nem sequer desconfiou, o que foi um ponto a meu favor, visto que nos dias que se seguiram, aquelas fugas nocturnas até á cachoeira se tornaram um ritual para mim e para Gustavo, com a diferença que desta vez levávamos os telemóveis para escutarmos o despertador, caso adormecêssemos outra vez. Tinha de admitir que todas as noites eram perfeitas. Não que nós passássemos o tempo todo aos beijos e enrolados, a dizer coisas pirosas. Era bom só pela simples companhia. Sabia bem ficar acordada até mais tarde, num silencio agradável, enquanto observávamos os pirilampos a voar lentamente em círculos, a agua a correr e a natureza esplendorosa durante as diferentes horas da noite e da madrugada. As diferentes fases da lua eram facilmente decifráveis para nós, que as controlávamos todos os dias, como uma brincadeira. O único inconveniente desses encontros era sem duvida ficarmos com os sonos trocados. Eu tentava que isso não me afectasse nas aulas, e não afectava, felizmente. Eu continuava atenta, talvez por ter interesse naquilo que ouvia, mas tinha de reconhecer, que havia uma aula em que eu não conseguia estar relaxada. Sim, aquela nova professora deixava-me insegura, por motivos que eu desconhecia. Todos pareciam adora-la, mas eu sinceramente preferia levar com cuspo do antigo professor tísico e arrogante enquanto aprendia a disciplina, do que sentir-me observada por aquela mulher esbelta. Não que eu tivesse alternativa.
-Ouvi dizer que ela desistiu da escola! – Informou Darla, acordando-me dos meus pensamentos.
-Com certeza foi por causa da doença! – Suspirou Verónica – Não entendo, ela é tão bonita, porque quer ser magra?
Olhei para o chão, entristecida, continuando a escutar os seus comentários. Letícia apercebeu-se e engatou o seu braço no meu, atenciosamente:
-O que se passa?
Tentei sorrir:
-Estou preocupada com a Rebeca… - Murmurei.
-Não te preocupes, havemos de revê-la. Alem disso, tenho a certeza que ela ficará melhor…
Acenei afirmativamente com a cabeça. Letícia era muito delicada e atenciosa, era impossível não tentar ser simpática com ela. Era impressionante como as pessoas estavam tão enganadas em respeito a ela, mas eu não podia desmascara-la sem o seu consentimento, infelizmente.
Liliana suspirou, enciumada tanto por causa de Letie e eu, como pela minha preocupação por Rebeca. Naquela tarde de sexta-feira, já só se encontravam raparigas no grupo. Os rapazes tinham-nos abandonado para se divertirem, traduzindo, para praticarem MotoCross. Na verdade, ainda não tinha tido a oportunidade de ver Gustavo correr, mas o entusiasmo dele cada vez que falava comigo depois daqueles momentos com os amigos, dava-me a entender que ele em dois anos não havia perdido o talento. Isso deixava-me orgulhosa, de verdade! Eu já lhe tinha prometido que havia de o ver correr, e isso tinha de acontecer! Gustavo, porem, queria guardar-me para uma corrida a sério, não uma com os amigos. Não que isso me importasse. O que me importava era vê-lo.
-A Cris voltou a ligar-te? – Lili perguntou, preocupada.
Acenei coma cabeça, apreensiva.
Havia semanas que Cristina me ligava todos os dias, cerca de cinco vezes, mas infelizmente as nossas redes estavam confusas e eu nunca conseguia entender o que ela me queria dizer. Só sabia que era algo importante, e isso deixava-me nervosa.
-Continuo sem saber o que se passa. Já tentei ligar do telemóvel da Helen e mesmo assim não consigo falar-lhe…
-E por e-mail?
-Ela não tem internet.
-Hum… - Lili fez um biquinho com os lábios e depois mirou-me desconfiada – Será algo importante…? Quero dizer, algo sobre coisas invulgares?
Dei de ombros, mas lancei-lhe um olhar em que indirectamente eu revelava que eu acreditava que isso fosse possível. As outras colegas não entendiam do que falávamos, excepto Lau, que já desconfiava que algo se passava comigo.
-Logo farei outra tentativa, se não me esquecer.
Tentei impedir um sorriso, ao recordar que ia estar com Gustavo outra noite.
Foi nesse preciso momento que Su se aproximou de nós, vinda sabe-se lá de onde.
Ele sentou-se no meu colo, descaradamente, e sorriu:
-Olá cunhadinha!
Revirei os olhos, envergonhada, sendo motivo de risos para as outras. Susana estava a habituar-se àquele apelido.
-Isso continua a soar-me estranho! – admiti.
Ela riu levemente:
-O teu namorado?
-Foi divertir-se com os amigos! – Respondi, prontamente. Ela suspirou martirizada.
-Mas qual é a piada de andar de mota?
Fiz um ar surpreso:
-Estás brincar? é tão fixe! Sentes um frio no estômago e dá vontade de gritar…
-De medo? – interrompeu.
-De adrenalina! Tens de pedir ao Gustavo para andares com ele! È tão bom sentir o vento contra ti!
Letícia sorriu e mordeu o lábio.
-O Gustavo teve sorte por tu pensares assim!
-Eles são alma gémeas, no fundo! – Balbuciou Lau, rindo, enquanto chupava o seu ice tea por uma palhinha colorida.
-Eu acho que somos diferentes… - Admiti – Ele é mais… - faltaram-me as palavras, mas eu sabia que havia algo nele que se sobrepunha a todas as minhas características – sei lá…!
-Porque não passas lá por casa, hoje? – Convidou Susana.
O meu coração quase saltou pelo peito, assim como o estômago que foi invadido por uma azia profunda que me fez franzir o sobrolho:
-Eu nem sequer sei onde vocês moram! Alem disso seria embaraçoso.
A pequena troçou de mim:
-Que parva! Assim fazias uma surpresa ao Gustavo quando chegasses!
-Não acho boa ideia…
Lau aproximou-se de nós e desbocou-se:
-Ela tem medo de se apresentar como namorada do Gustavo á tua família!
Su abriu a boca, pasmada:
-Lana, podes ir lá como minha amiga, simplesmente! Eu acho que só eu é que sei que és tu a namorada do Gustavo!
-A sério? – Natacha mostrou-se céptica – O Gustavo não contou a ninguém?
-Bem , o Gustavo também é tímido! – Esclareceu Su, libertando uma pequena gargalhada de seguida – E se alguém lhe faz um questionário sobre a sua vida amorosa ele ficar vermelho que nem um tomate!
Ri-me também, divertida. Não conseguia imaginar o “meu” Gustavo tímido. Ele era sempre tão confiante naquilo que dizia, e muito indiscreto, sem duvida.
-Su, não quero dar-lhe um ataque de vermelhidão se for lá a casa. Já pensaste? Coitadinho!
-Não inventes desculpas! – Reclamou Darla – Porque não vais conhecer o chalezinho da família? – ela riu em tom de troça – E se tiveres sorte ainda conheces a vovó Constança.
Susana riu-se com as outras, mas eu não entendi o porquê. A pequena levantou-se do meu colo e olhou para o relógio:
-Falta um quarto de hora para o autocarro chegar. Acabaram-se as desculpas!
-Susana! – Reclamei.
-Vá lá! Tu no fundo até queres! – Brincou Letícia.
Respirei fundo e revirei os olhos, nervosa.
-é obvio que eu não me importo de fazer uma “surpresa” – fiz aspas com as mãos -, mas… Olhem para mim! Não quero assustar ninguém da família!
Liliana Levantou-se da sua cadeira e pegou na sua mochila, de onde retirou um necessaire Florido:
-Que não seja por isso…!
-Oh, nem penses! – Recusei, atrapalhada.
Susana interveio a meu favor:
-Não é preciso, meninas! Eu não me importo que te vistas assim, aliás, até gosto! A propósito, Lana, tens de me ensinar como é que fazes isso nas pálpebras!
Darla abriu a boca, incrédula:
-Miúda, agora vais virar punk?!
-Não faças isso, Su! – Pedi, atrapalhada.
-Ora essa, que moral tens tu para me impedir de adoptar um estilo que tu também usas?
Estive quase para admitir que eu não me vestia assim porque queria, mas calei-me a tempo e suspirei profundamente:
-Ok, vocês ganharam! – Estendi a mão para que Lili me entregasse o seu necessaire.
-Espera, eu quero ir contigo! – Exclamou Verónica.
-Vamos todas! – Completou Lau, empurrando-me, literalmente, para a casa de banho mais próxima. Entramos todas aos encontrões, e só paramos, depois de o desmaquilhante e os discos de algodão percorrerem o meu rosto, extraindo toda a maquilhagem que eu trouxera comigo. Senti-me ligeiramente desconfortável com tantas mãos a tocarem-me e tantas vozes femininas entusiasmada a falarem comigo. Senti alguém tocar-me as pernas e saltei:
-Hei! Lau, o que estás a fazer?! – indaguei, atrapalhada.
Ela sorriu com malícia:
-Fizeste a depilação?
-Nem penses! – Antecipei-me, cruzando os braços.
-Tu não disseste que querias parecer bem? – Troçou Letícia.
-Eu apenas disse que não queria assustar ninguém! Bastava tirar-me a maquilhagem, não?
-Mas tem umas boas pernas e esta túnica é comprida o suficiente para ser reconhecida como um vestido!
Formei um esgar facial e revirei os olhos:
-Recuso-me! Basta por aqui!
-Basta, sim! – concordou Susana, agarrando a minha mão – Está na hora de irmos!
Ela enfiou todos os meus pertences dentro da minha bolsa e ambas acenamos ás outras, enquanto corríamos para não nos atrasarmos.
Quando chegamos á paragem do autocarro, repleta de alunos, a camioneta de Susana foi a primeira a surgir, salvando-nos do sol quente daquela tarde. Não sei como, conseguimos ser as primeiras a entrar, e como tal sentamo-nos num bom local. Durante o curto trajecto, Su não se calou nem um instante, e eu, mesmo atenta ao que ela me dizia com entusiasmo, ia observando o caminho verde, tentando descobrir para onde me dirigia, invadida por um nervoso miúdo.
Foi então que ela se levantou e me arrastou junto, saindo do autocarro para uma zona pacata da aldeia.
-Vem! – Exclamou, correndo por uma subida íngreme.
Segui-a, controlando os nervos, até que ela se dirigiu a uma casa de Pedra, de um andar só, com portadas de madeira escura, e uma chaminé larga, com um aspecto de chalé, bem como Darla havia dito. Tinha um ar muito acolhedor e á primeira vista deu-me uma sensação de conforto. Não pude deixar de reparar no jardim que a adornava do lado oeste. Susana passou por entre ele, permitindo-me vislumbrar uma mesinha de pedra numa zona ampla, perto de uma churrasqueira, e uma rede de baloiço larga presa a duas arvores distantes. Há medida que avançamos, surgiu uma pequena vedação de madeira que separava o quintal do jardim, e vi ao longe que havia uma capoeira e casotas com coelhos. Achei aquilo tão fofo, que não pude deixar de sorrir discretamente. Susana dirigiu-se á porta das traseiras e abriu-a, sem precisar de chave:
-Entra, Lana!
Deparei-me com a cozinha, primeiramente. Muito bem arrumada, por sinal, sem um único vestígio de sujidade á vista, com armários de madeira decorados com poucos elementos, e os balcões pareciam de granito, onde haviam pequenas caixinhas de especiarias. Junto á porta havia um bengaleiro para os aventais, e uns ganchos na parede, com chaves penduradas, que tornavam tudo muito mais organizado.
Suspirei, imaginando o que Gustavo pensaria da minha cozinha, tendo em conta toda aquela organização. Chegava a ser vergonhoso para mim!
Susana observou as chaves e sorriu:
-O Gustavo já está em casa! – Anunciou, sorrindo, enquanto dava passos rápidos em direcção á porta oposta á da entrada.
Seguia-a, timidamente, até que entramos num corredor largo, com uma consola encostada á parede, enfeitada com uma jarra de flores e uma pintura abstracta na parede que condizia com o tapete. Susana foi até á terceira porta e abriu-a sem sequer bater. Para minha surpresa fez um ar de completa decepção.
-O que foi? – Perguntei.
Ela deu-me sinal para se aproximar com a mão, e apontou para o interior daquele compartimento:
-Vamos acorda-lo? – sorriu e arqueou a sobrancelha, matreira.
Eu espreitei para o local onde ela parara. Senti-me corar quando enxerguei Gustavo atravessado na cama de barriga para baixo, de tronco nu, com a cara enterrada na almofada, a dormir. A sua boca estava ligeiramente aberta e apesar de não ressonar, a respiração era alta e abafada, talvez por estar quase presa por causa da forma como a coberta lhe tocava a face. Nesse momento vi que a cama estava desfeita, e o quarto estava todo desarrumado, ao invés daquilo que eu esperava. Sorri, embevecida pela situação de Gustavo. Nunca o tinha visto tão calmo como naquele momento. Ele já era relaxado, era um facto, mas a forma como ele estava naquele momento, era ainda mais. Por momentos pareceu uma criança indefesa, a dormir a sesta sem preocupações e a sonhar com tudo o que mais queria. Entrei no quarto antes de responder a Susana. O meu coração acelerou quando me apercebi do cheiro que o envolvia. Era como se entrasse dentro de Gustavo, de verdade, como se não existisse mais ninguém a não ser ele e aquele fosse um mundo que só ele habitava, tudo por culpa do seu aroma único que aparecia de todos os lugares, quer da parede, do armário, dos tapetes, ou até mesmo da televisão artificial. A sua aura parecia concentrar-se naquele lugar! Quase me senti tonta por sentir tanto dele de uma só vez, mas era agradável estar ali.
Susana riu-se malevolamente e correu para lhe saltar em cima, mas eu agarrei-a a tempo e tapei-lhe a boca:
-Não faças isso! – Pedi. Ela olhou-me desiludida – Deixa-o dormir!
-Mas assim ele não sabe que estás cá!
-Não te preocupes… Deixa-o descansar.
Analisei o quarto, nas suas características mais artificiais. Era simples, acolhedor e iluminado. As paredes brancas perdiam a sintonia apenas pelo edredão vermelho e preto, e pelos tapetes lisos e discretos. Em cima da cómoda, para alem de um perfume, o seu relógio e uma estatueta derrubada, havia um monte de DVDs desorganizados, que, pelo que pude ver, eram na maioria de corridas de MotoCross e raids. Todavia, encontrei perto do seu leitor DVD alguns filmes animados, que me fizeram sorrir. Na sua mesinha de cabeceira única, haviam umas revistas também de MotoCross, um despertador tradicional e um livro com pagina marcada, que me surpreendeu, mas que eu não consegui decifrar o seu nome visto estar ao contrario para mim. Num canto, perto do seu armário, estavam umas botas enlameadas, próprias para ele andar de moto. A camisola que lhe faltava no corpo estava pousada num puff preto, iluminado pela janela ampla.
-Repara Lana… - murmurou Susana – O teu namorado é um desarrumado! Perdoa-o, ok?
Ri-me levemente e aproximei-me da cama:
-Achas que eu conseguia resistir a este bebé grande?
Apoiei as minhas mãos no colchão e selei um beijo na sua face. Gustavo sorriu, ainda a dormir, segundo o que a sua aura me mostrava, e depois moveu o seu corpo ligeiramente. Passei a mão ao de leve nas suas costas lisas e largas. Eu sabia que ele gostava disso, só esperava não o acordar:
-Su, estás a ver o teu irmão?
A jovem acenou afirmativamente, sem saber o que eu queria com aquela pergunta:
-O que é que tem?
-Ele é meu! - Exclamei fazendo-a rir – Rói-te de inveja!
Ela revirou os olhos e mostrou-me a língua. Eu afastei-me por fim e observei Gustavo ao lado da cama. Foi então que ele moveu a cabeça, deixando a sua tatuagem á mostra. Era a primeira vez que a via, talvez porque quando estava com ele me esquecia de lhe pedir para ma mostrar, porem não fiquei surpreendida com aquilo que ela ilustrava. Era uma espada envolta por duas asas, que pareciam indirectamente tomar a forma de um coração, pelo menos era essa a sensação que as linhas curvas das asas me davam em conjunto com a espada, onde no punho havia uma inscrição em letras minúsculas. Senti curiosidade em lê-las e aproximei mais a minha cabeça, semicerrando os olhos com dificuldade em entender.
-“Amor omnia vinciti”? – perguntei-me, no sotaque mais labrego que eu conhecia.
Olhei Susana:
-Amor…?
-Vence tudo! – concluiu.
Senti um friozinho na barriga e cheguei á conclusão que era o momento de sair daquele quarto. Humedeci os lábios envergonhada e saí daquele espaço, encarando novamente o corredor.
Susana fechou a porta atrás de mim e eu sorri-lhe:
-Mostras-me o teu quarto, agora?
-Claro! – Respondeu entusiasmada, correndo até á porta do lado.
Sorri e acompanhei-a de boa vontade. Era um quarto muito mais organizado do que o de Gustavo, e tinha muitos mais pertences. Em cima do armário haviam peluches antigos e a colcha era branca, assim como todas as paredes. Em cima dos moveis haviam fotografias e caixinhas de jóias e de maquilhagem.
Susana começou a mostrar-me todas as suas roupas, e depois os seus CDs e musicas preferidas. Reconheci facilmente as suas canções preferidas, até porque eu própria gostava do seu estilo musical. Depois disso ela mostrou-me a sua guitarra acústica:
-Tocas? – perguntei.
-Não! – Surpreendeu-me – O Gustavo toca para mim, especialmente quando eu quero cantar!
Sorri, completamente apaixonada:
-Ele toca Guitarra? – Questionei, com a mão encostada ao peito – Isso é tão… Uau, há alguma coisa que ele não saiba fazer?
-Cantar, definitivamente! – Respondeu - Parece uma cana rachada quando abre a boca!
Coloquei o dedo indicador no queixo, admirada:
-Estranho… A voz dele é tão bonita…!
-E é, mas não para cantar…
-Oh, bem, eu também canto mal, portanto, estamos em sintonia!
Susana riu-se e procurou algo nas gavetas, cheias de papeis e algumas revistas juvenis:
-Lana, podes ir á cozinha procurar a revista Bravo desta semana? Acho que a deixei lá!
Franzi o cenho. Tinha ideia de a cozinha estar completamente organizada quando lá estivemos, mas assenti, pacientemente. Dirigi-me ao local indicado e olhei em redor. Estava tudo silencioso, pois estavam todos a trabalhar, excepto os mais novos. Vi em cima da mesa, e depois em cima do balcão. Ainda desviei algumas caixas do balcão, mas nada surgia. Pensei em abrir as gavetas e procurar lá, mas hesitei-me quando os meus dedos tocaram o puxador. Era errado faze-lo. Se a revista não estava ali, então não estava em mais lado nenhum, alem disso não ia basculhar propriedade alheia, mesmo que tivesse permissão.
Escutei um passo atrás de mim de repente:
-Ladrão!!! – alguém berrou, assustado.
Dei um salto e quase gritei com o susto. À minha frente, junto á entrada traseira da casa, estava uma senhora de idade mais avançada, com uma sachola na mão. Recuei até o meu rabo ficar praticamente em cima do balcão. O meu coração ia saltar pela boca e eu não sabia o que fazer.
-Na-Não…! – Neguei coma cabeça, assustada.
-Quem és tu? – A senhora apontou-me a sachola, o que me aterrorizou ainda mais! Aquilo parecia um filme de terror, mas em vez da motosserra, havia um instrumento agrícola que me podia atingir a cabeça e corta-la em duas partes!
-Lana, encontrei a… - Su entrou na cozinha com a revista empacotada na mão, e calou-se ao ver a senhora e eu a trocar olhares de medo – Avó o que se passa?
-Susaninha, conheces esta rapariga? – perguntou, ainda em posição de ataque. Eu encolhi-me, engolindo a seco, enquanto entreolhava Su.
A miúda, por sua vez, riu-se:
-Relaxa avó, é minha amiga!
A mulher conformou-se e pousou a sua “arma”do lado de fora da porta. Limpou as mãos ao avental e olhou-me de cima a baixo:
-Tens amigas muito estranhas…
Fiquei com uma cara de tacho que só visto!
-Estranha porquê? – Susana aproximou-se de mim, de braços cruzados.
A senhora teve tento na língua e apenas abanou a cabeça:
-Que idade tens, moça?
-Dezasseis… - murmurei, constrangida.
-E vestes-te assim? – Ela arregalou os olhos – és vudu?
-O… O quê…?
-De onde é que vocês se conhecem?
-Da escola, avó! – Esclareceu Susana, revirando os olhos – É da turma do Gustavo!
-hum… - A senhora inspeccionou-me, desconfiada. Senti-me bastante constrangida com aquela situação. Era em momentos daqueles que eu queria ser uma avestruz para enterrar a cabeça na areia – A tua mãe, Susaninha?
-Estou aqui! – Reconheci a voz da D. Mª do Carmo ainda do lado de fora da casa, mas o seu corpo logo emergiu pela porta, sombreado por causa do sol atrás de si, que a fez parecer um anjo a cair do céu, com passos pequenos, mas apressados, que logo a fizeram pousar umas sacas de compras em cima da mesa, sem ainda me ver – O que foi, mãe?
Ela então virou-se e viu-me ao lado de Susana, sorrindo de seguida, surpreendida:
-Lana, que surpresa! – Ela aproximou-se de mim, num andar elegante em cima do seu peep toe negro que condizia na perfeição com a roupa simples e ainda assim glamourosa, e cumprimentou-me com dois beijos na face.
Sorri atrapalhada, mas nunca pensei que ver a minha “sogra”, como lhe chamara Susana, fosse tão relaxante como naquele momento.
A senhora mais velha falou, mais uma vez, impedindo-a de me dizer algo:
-Também a conheces?
-Claro que conheço, mãe! É a namorada do Gustavo!
-O quê?! – A avó de Susana fez um pranto, chocada com a novidade.
Senti-me a levar com uma panela na cabeça. Fiquei tão, mas tão envergonhada que olhei para a pia da louça, ponderando novamente sobre a técnica da avestruz, mas senti o meu corpo quente e inconsistente. A respiração saiu como uma tosse e a única coisa que eu tive coragem de fazer foi olhar Susana e desenhar com os meus lábios um “Como é que ela sabe?” que foi respondido também num desenho labial, com um pouco mais de som do que o meu:
-Juro que não fui eu…!
Fiz uma careta aflita e evitei o olhar das mulheres mais velhas. D. Maria do Carmo não fez caso do que a sua mãe lhe dizia, e escutou-a sem interesse:
-… e com dezoito anos achas que o Gustavo tem maturidade para namorar?! Ele é muito novo, não se pode comprometer e ir pelos caminhos do pecado! O Senhor que o perdoe, valha-me nossa senhora! Então agora até trás a namorada cá a casa, sem ninguém para ter juízo por eles?
-Mãe, por favor! – D. Maria revirou os olhos e começou a tirar as coisas das sacas que trouxera consigo, ignorando o que a idosa lhe dizia.
A senhora, apercebendo-se que era ignorada, virou-se para mim, e esticou o dedo indicador abanando-o na minha direcção:
-Ouve-me bem, moça, depois do beijo, vem o desejo! Tu não te ponhas a fazer bruxarias para agarrar o meu neto…!
-Mãe! – Repreendeu a sua filha, perplexa – Pare com isso, ora!
Susana mirou-me de soslaio e encolheu os ombros, tão pasmada como eu.
-Paro, não, Maria! Primeiro dás-lhe a mota, agora isto! Filha, ele só tem dezoito anos, como é?
-Mãe, caso não se lembre, eu casei-me aos dezoito anos quando engravidei, e só não o fiz mais cedo porque você e o pai me impediam de namorar! Alem disso os tempos são outros, e eu confio no meu filho e na namorada para saberem se querem estar juntos ou não, e prevenirem-se caso desejem ter relações sexuais! Até lhes compro preservativos se isso a deixar descansada!
“Oh meu deus! Lana, foge!!!” Gritei comigo mesma. Se eu não soubesse, diria que ia explodir de vergonha. Aquele devia ser um dos maiores embaraços da minha vida!
-Ai filha, as coisas que tu dizes, cachopa! – Repreendeu a mais velha, benzendo-se – Olha, eu vim cá para te avisar que já plantei os pepinos no quintal, e que não precisas de regar porque eu já o fiz, mas vou fazer de conta que estás cansada por hoje ser sexta-feira, e vou-me embora a fingir que tu não falaste em coisas impróprias á frente da Susaninha!
-Está bem, mãe, eu logo vou lá a casa. Não se preocupe! – Suspirou abanando a cabeça, aborrecida.
A avó do meu namorado olhou-me mais uma vez, numa tentativa bem conseguida de me fuzilar, e saiu, batendo a porta atrás de si. D. Maria do Carmo riu-se com graciosidade, e voltou a olhar para as coisas em cima da mesa, abanando a cabeça, sem conseguir evitar as leves gargalhadas:
-Oh meu Deus… - murmurou, Guardando as coisas nos armários.
Eu e Susana olhamo-nos constrangidas. Acho que havia chegada a hora de eu cair para o lado, certo?
-Lana, peço-te imensa desculpa! – Ela continuou a rir – Esta família é de doidos!
-Posso fingir que me sinto melhor agora? – Aquilo saiu como um suspiro. Na verdade nem era de bom tom dizer algo assim, mas sinceramente foi a única coisa que me ocorreu.
Ela olhou-me divertida e mostrou-se sem saber o que dizer:
-Desculpa se te deixamos constrangida…!
-Mãe? – Susana interrompeu – Como é que sabes que a Lana é namorada do Gustavo?
Ok, alguém me queria ver morta? É que eu podia jurar que naquele momento levei uma cacetada na cabeça! Era preciso voltar a tocar no assunto!?
A mulher sorriu, ao ver a minha cara de medo e deu de ombros:
-Ora, eu já sabia desde que conheci a Lana!
Su franziu as sobrancelhas, duvidosa, assim como eu, que já nem sabia o que havia de fazer.
-Como, se nessa altura eles ainda não estavam juntos?
-Filhota, há coisas que basta uma pessoa olhar para saber!
Recordei a primeira vez que D. Maria do Carmo me vira, no café de Liliana, quando bati naquela cara linda de Gustavo. Que má! No entanto, não conseguia perceber como ela tinha entendido algo nesse dia. Precisei de o saber:
-Mas nós estávamos zangados…
-Tu até podias estar, mas o Gustavo só estava enciumado, garanto-te!
-A sério?
-Obviamente! Ele mal te viu no café corou, depois, evitava olhar para ti, e quando eu brinquei com a Liliana a dizer que tu eras pretendente do Pedro, ele quase que o fuzilou com o olhar… Aliás, acho que foi por isso que ele foi trocar a chávena de café dele, para vos distrair um do outro… Depois entornou-a, mas isso já me ultrapassa. – Ela riu-se e eu não consegui evitar de sorrir também – Só sei que ele ficou de rastos depois de vocês discutirem, e acredita, depois de discussões em publico, o máximo que costuma acontecer é as pessoas ficarem constrangidas, e não tristes!
-Não lhe devia ter dito aquilo… - Reflecti, recordando que havia-lhe dito que o odiava naquele dia. Tinha de o compensar!
-As coisas que tu vês, mãe! – Reclamou Susana - Sinceramente, eu julgo que os vejo aos beijos e eles quase me esfolam para provar que é mentira, e tu vê-los a discutir e já sabes que namoram! Isso é um absurdo!
A rapariga mostrou-se frenética e retirou o plástico que envolvia a revista, sentando-se na cadeira da mesa de seguida, para ler a revista á vontade.
A sua mãe pegou no plástico e votou-o ao lixo, sem pressas.
-Então, onde está o Gustavo?
-A dormir! – Respondeu Susana.
-A dormir?! Desde quando é que ele dorme durante a tarde?! E ele não sabe que a Lana está aqui?
-Não, ele não sabe! – sorri atrapalhada – Eu vim com a Susana, mas não quisemos acorda-lo!
-Correcção – interrompeu Su – tu não quiseste acorda-lo! Eu queria saltar-lhe em cima, mas enfim…!
-Susana, ás vezes és tão mazinha! – Acusou. D. Maria do Carmo - Sabes muito bem que o Gustavo quando acorda parece uma barata tonta, precisa de um minuto para saber onde está e quem é, se não pode muito bem cair e rachar a cabeça! Alem disso ainda o apanhavas mal disposto…!
-Achas, a Lana está aqui, de certeza que ele ficava animado!
Sorri envergonhada, mordendo o lábio logo após.
D. Maria do Carmo pôs as suas mãos sobre os meus ombros e conduziu-me, devagar:
-Já conheces a casa toda?
-Oh, vai começar…! – Balbuciou Susana, folheando a revista.
Ignorei a sua reacção e respondi á sua mãe:
-Bem, conheço o quarto da Susana e o do Gustavo… Ah, e a cozinha!
Ri-me atrapalhada.
-Bom, vais ter de me perdoar – já estava á espera que ela lamentasse a desarrumação, como toda a gente fazia quando algo não estava bem na casa, nem que fosse a cor de uma parede, mas para mim aquilo estava tudo limpo, portanto teria de refuta-la, contudo fui surpreendida quando ela fugiu ao habitual – mas de cada vez que eu tenho visitas, tenho o habito de as maçar, mostrando tudo o que me aparecer á frente!
Ri-me em sintonia com ela e segui até á porta do fundo do corredor. A mulher elegante abriu-a e conduziu-me para dentro dela:
-Não há proble… - As minhas palavras desapareceram quando olhei em frente, por cima de uma lareira rústica, onde um retrato repousava em harmonia com a restante decoração. A única coisa que fiz naquele momento foi pestanejar, sem reacção – oh… meu… Deus…
-O que foi, querida?
D. Maria do Carmo olhou na direcção eu que eu observava, e depois sorriu, mais descontraída:
-Por momentos assustaste-me!
-Desculpe, mas…!
Fiquei a encarar aquele retrato familiar. Tudo bem, estava ali a Susana, o Gustavo, a Diana, o Alex, a mãe de família e… Uma montagem do Gustavo com rugas e cabelo negro curto, a sorrir com uma covinha simpática no lado direito do rosto?!
-Ainda ninguém te tinha dito que eram parecidos?
-Bem, sim, mas podiam quase ser gémeos! – Será que Gustavo tinha sido feito enquanto tiravam fotocópias?
Ela riu-se, e sentou-se no sofá de grupo, bege, de perna alçada, descontraidamente:
-Chega a ser assustador… – Gemi – Parece que até já o conheço e ao mesmo tempo é um perfeito desconhecido… - Franzi as sobrancelhas, ainda fixada no quadro, sem reacção exacta.
Analisei Gustavo naquela foto. Tinha o cabelo mais curto, parecia mais baixo, o corpo era menos definido e o rosto era mais infantil. Mas o sorriso era o mesmo, senão mais forte ainda. Esbocei um sorriso discreto. Os seus olhos azuis pareciam a Gioconda de Da Vinci, perseguindo-me em qualquer parte da sala.
Dona Maria do Carmo trocou as pernas e deu de ombros, desta vez com um sorriso mais pequeno:
-Bem, o meu marido era muito parecido com o Gustavo quando o conheci. Eram exactamente iguais!
Aproximei-me dela e sentei-me ao seu lado, no sofá, pronta para ouvir a historia. Dona Maria do Carmo levantou-se foi até ao armário requintado da sala, em busca de algo. Numa porta do canto, pegou num álbum grosso de capa castanha e trouxe-o até mim. Abancou outra vez ao meu lado e abriu-o, desvendando os seus mistérios.
-Acho que tenho uma foto dele a preto e branco que quase não dá para distinguir quem é.
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Ela começou a folhear o livro com pressa, passando fotos que na verdade pareciam ser interessantes, enquanto eu tentava guardar restos de algumas na minha memoria. Só parou quando encontrou a pretendida. Ela tinha razão. Se o rapaz da foto que ela apontara não estivesse acompanhado com uma rapariga com roupas mais antiquadas, sem duvida eu diria que era Gustavo.
-são mesmo idênticos! – Observei - Não admira que se tenha apaixonado por ele! Ainda bem que criaram um júnior para mim!
Ri-me divertida. Aos poucos o stress que a “sogra-avó” me tinha causado estava a desaparecer.
-Oh, eu acho que as historias são muito diferentes. Estás a ver esta rapariga ao lado dele? – Perguntou, apontando para a jovem com vestido até ao joelho, colorido – Essa sou eu!
-Não perdeu a formosura! – Exclamei animada, atenta á rapariga da foto.
D. Carmo corou, mas agradeceu o elogio, e prosseguiu:
-Eu conhecia o Luís desde criança. Sabes, eu quando era pequena era uma autentica Maria-rapaz! Só era amiga dos rapazes, gostava de jogar á bola e gozava com as raparigas da minha idade por elas serem tão femininas, se é que me entendes! – Ela fez uma careta simpática – O Luís era meu vizinho e meu melhor amigo. Estávamos sempre a trapacear as pessoas e não nos largávamos…!
-Começou cedo! – Comentei.
Ele negou num balanço:
-Na verdade, não… Ele era meu amigo, facto, mas quando tínhamos cerca de 12 anos, os meus pais e eu viajamos para França. – Ela sorriu amuada com esse facto – A recordação que eu levava dele era de uma rapazito magricela e mais pequeno do que eu, mas de bom coração, com uma família acolhedora, e acho que aquela despedida foi difícil, mas para compensar fi-lo prometer que me telefonava e me escrevia sempre, para continuarmos amigos, sabes como é… - Ela suspirou e sorriu – se soubesses a birra que ele fez quando eu falei em cartas! Começou a dizer que isso era coisa de meninas e recusou-se, mas felizmente eu convenci-o! Durante cinco anos estive fora, mas sempre lhe contei as novidades e ele também, até que um dia anunciei que ia voltar. Não podia estar mais feliz, mas nessa altura eu já tinha dezassete anos e tanto tempo sem o ver fez-me regressar com ilusão que seria o mesmo rapazito magro, só que enganei-me – Ela voltou a apontar para a foto – Esta foto foi tirada no dia do regresso, e repara, este não era um rapaz magro e baixote!
Sorri admirada e olhei-a:
-Então foi uma espécie de amor á segunda vista?
-Foi mais á terceira ou á quarta! Sinceramente foi uma desilusão o reencontro. Com certeza já te apercebeste que quando falas com alguém por telemóvel ou por email, as facetas são outras. Podes ser mais profunda, mais calma, mais irritada, mais sincera e sensível… Enfim, és o que queres e o no fundo és o que realmente és contigo mesma, porque ninguém está a olhar para ti para te julgar. As palavras só são lidas por alguns, por isso não precisas de ter medo de dizeres o que queres… - Assenti, concordando com o que ouvia – Foi isso que nos aconteceu. Quando eu regressei, apercebi-me que ele era mais rebelde do que eu, ou era isso que parecia junto dos amigos. E só aí é que vi que eu também tinha mudado. Eu já não era a Maria rapaz, era uma simples rapariga jovem… Escusado será dizer que nós chocamos por causa dessas diferenças. Ele o rapaz livre e eu a rapariga da família conservadora! Sim, porque aquela senhora que tu viste lá fora não é complicada só contigo! – garantiu, fazendo-me sorrir – Foram precisos ciúmes para eu perceber que talvez já não fossemos amigos, não porque éramos diferentes, mas porque nós talvez nos tivéssemos apaixonado…
-Essa historia é bonita… - admiti, reflectiva – O que aconteceu depois?
-Depois cedemos… Eu gostava dele, ele gostava de mim e enfrentou os amigos para estar comigo… Nós só queríamos ficar juntos, mas depois houve o problema dos meus pais, que me impediam de namorar. Claro que nós não obedecemos, e aí surgiu o Alexandre que, no fundo, foi um passe para que ninguém nos impedisse de ficar juntos!
-Como reagiram os vossos pais? – Inquiri.
D. Maria encolheu os ombros, rindo:
-Bem, um choque para os meus, uma felicidade para os dele! E nós queríamos lá saber! Casamos e fomos felizes. Isso bastou-nos!
-hum…
Baixei o olhar para o álbum amarelado pelo tempo e fui passando as fotos, sorrindo em cada uma, á medida que iam ganhando mais cor e melhor resolução, em papes mais lustrosos. Começaram a aparecer os bebés, os dois primeiros miúdos, com ares distintos. Alex com sorrisos marotos e Diana sempre serena e inocente. Depois apareceu Gustavo, e as típicas fotos no banho e de rabinho para o ar. Se ele soubesse que eu estava a ver aquilo, matava alguém! Continuei a folhear e apareceram algumas dele a fazer caretas, outras na escola, outras no carnaval. Depois surgiu Susana e as fotos ficavam mais preenchidas, até que finalmente os rosto se assemelhavam mais áquilo que eu conhecia. A ultima foto em que parei, foi numa de Gustavo, coma cara suja de óleo, com os ombros envoltos pelo braço do pai, também ele sujo, com uma moto atrás deles, numa espécie de oficina. Ambos sorriam para a câmara, semelhantes quer no olhar, quer no sorriso. O que melhor os distinguia era o cabelo, um claro e outro escuro como carvão. Deixei o álbum parado naquela foto e fiquei a olha-la, pensativa. Dona Maria do Carmo analisou-me e descruzou as pernas:
-O que foi? – perguntou.
Mantive-me séria:
-Eles eram mesmo melhores amigos…?
Ela afirmou, constrangida.
-Foi injusto tudo acabar de repente… - murmurei.
O espírito da mulher que me acompanhava ficou ligeiramente mais apático, mas ela deu de ombros, como se não se importasse:
-Foi difícil para todos… Tanto para os meus filhos como para mim… Eu nunca… - Ela hesitou, com olhos brilhantes e húmidos - … senti tanta raiva como naquele dia. Eu acho que fiquei tão revoltada que assustei a minha própria família e tornei tudo ainda mais difícil de suportar, mas não consegui controlar…
Conseguia imaginar o desespero apenas pela nostalgia que a sua voz expressava. Suspirei e voltei a pagina. Não sei porquê, mas foi como se adivinhasse que aquela foto tinha sido a ultima dos dias vivos. As seguintes eram menos divertidas, mais rígidas e forçadas. Havia uma em que estava apenas Gustavo e Susana. Ela no colo dele, vestidos formalmente. Ela sorria com o dentes todos á mostra, talvez porque o fotografo a tivesse conseguido fazer rir, pois algo no seu olhar mostrava que tinha sido difícil. Gustavo por outro lado não disfarçava tanto a tristeza. Tinha apenas os lábios tortos num sorriso forçado, mas o olhar era tão vazio. Parecia perdido, como se quisesse fechar as pálpebras e não conseguisse. Senti uma pontada no peito com aquela visão. A sua mãe apercebeu-se e encostou-se mais a mim:
-Foste uma dádiva, Lana… - Aquela declaração foi uma surpresa - Desde que o Gustavo e tu estais juntos, que ele voltou a ser o que era. Não imaginas como é mau ver um filho a fingir constantemente que é feliz, a tentar ser divertido com os amigos, a tentar mostrar-se interessado nas raparigas, quando na verdade quer-se esconder e dormir para sempre, sem razão nenhuma para avançar, sem objectivos… Desde há uns meses para cá ele voltou, felizmente, a animar-se um pouco mais, a ser mais interessado nas coisas e a retomar aquele jeito indiscreto e descontraído. Eu só percebi que tinha sido por tua culpa, quando disseste há quanto tempo tinhas vindo para o Geres, no jantar em casa da Teresa. As datas coincidiram…
-Desculpe dizer isto… - interrompi – Mas… Se via o Gustavo tão triste, porque não…
-Tentei anima-lo? – tentou adivinhar, apesar de não ser essa a minha questão – Até pensei em dar-lhe apoio medico. A Susana andou num psicólogo, mas ele recusou-se…
-Não… - interrompi novamente e suspirei, fechando o álbum, sobre as minhas pernas – Quando eu conheci o Gustavo caracterizei-o logo como uma pessoa indiscreta, irónica e insuportável… - tive mesmo de rir brevemente – Mas na primeira conversa a sério que eu tive com ele, percebi que tal como eu, era só uma mascara… Porque ele não era tão extrovertido como queria-me mostrar, e algo que eu percebi, quando ele me contou sobre o pai e todos vocês, foi que ele guardava uma certa culpa que supostamente era intensificada pela família…
D. Maria do Carmo, abriu a boca, chocada:
-Culpa?
Assenti, pouco á vontade, e falei devagar, para não chocar:
-Eu acredito, que naquele dia fatídico, tal como você já disse, estivesse muito nervosa e tenha dito coisas sem pensar… No entanto, julgo que o pode ter atingido com alguma dessas coisas…Ele não prometeu que ia deixar de andar de mota, só porque vocês obrigaram…
A senhora semicerrou os olhos, baralhada, e depois olhou-me:
-Lana, tu queres dizer que ele deixou de andar de mota, não porque respeitava que nós queríamos que ele tivesse mais cuidado, mas porque sentiu que nós o estávamos a culpar a ele a aos desporto pela morte do meu marido?
-Sim… - Murmurei – Talvez a infelicidade do Gustavo se tivesse tratado apenas com uma frase que o fizesse acreditar que foi o destino e que ninguém teve culpa. Que você não o impediu de andar de mota porque queria ver-se livre daquilo que destruiu a família, roubar-lhe todas as alegrias de uma só vez por vingança, mas porque queria protege-lo…
-O que tu me estás a dizer, choca-me… Eu… - D. Maria do Carmo estava céptica e não sabia o que dizer. O seu interior agitado era percorrido por um arrependimento mortal, mas eu não me arrependi de lhe contar aquelas coisas. Mais uma vez tinha sido um equivoco.
Ela levantou-se do sofá, e entrelaçou os dedos, baralhada.
-Admito que antes de a conhecer pessoalmente, não tinha uma boa ideia de si, por achar que culpava o Gustavo pela morte do pai… Aliás, não sei se foi bom ou mau, mas fui eu que falei com a Susana, quando ele fez dezoito anos, por causa de ele voltar a andar de mota. Ela estava muito inquieta também. – suspirei, entrelaçando os dedos sobre as minhas coxas – Eu espero que não fique perturbada com o que lhe estou a contar… Eu só o fiz porque… Bem, ainda há pouco disse que eu tinha sido uma dadiva para o Gustavo, mas acredite que para mim foi ao contrario, e eu só lhe falei destas coisas porque cada dia que passa, eu percebo que faltam esclarecimentos na vida das pessoas… Ás vezes são estes pequenos erros que nem sabemos que existem que nos atrapalham a vida… Não concorda…?
Ela respirou fundo e olhou para o tecto, incomodada:
-Obrigada por me contares isso, Lana… Há coisas que nem me passam pela cabeça… - Ela humedeceu os lábios carnudos e baixou o olhar, reflectiva.
-De qualquer modo, acho que o tempo foi cicatrizando as feridas – Sorri, tentando conforta-la – Acho que nos últimos tempos, o Gustavo mal se lembra destas coisas, portanto, talvez não seja necessário incomodar-se...
-Não. – Negou – Por muito melhor que ele se sinta, eu não quero que ele viva muito mais tempo com uma mancha no peito. Eu gosto de ter tudo esclarecido e…
Ouviu-se um estrondo do outro lado da porta, que interrompeu as palavras de D. Maria do Carmo, e assustou-me por momentos. A porta abriu-se, após a maçaneta se mover com pressa, e dela emergiu Gustavo, com os olhos semicerrados, a esfregar a testa e abafando um gemido, á medida que dava passos desastrados para o interior da sala:
-Mãe, onde está…?
O seu olhar cruzou-se com o meu por momentos, e não sei de que maneira ele o fez, mas descoordenou ainda mais os seus passos com a surpresa que lhe causei e o seu corpo tombou no chão com grande violência, fazendo-me saltar do sofá por reflexo.
-Gustavo! – D. Maria do Carmo aproximou-se preocupada e baixou-se até ele – Tu estás bem?
Su apareceu também na porta da sala, assustada com o estrondo do seu trambolhão, mas ao contrario de mim e da sua mãe, ela não se mostrou aflita e gargalhou em tom de troça, apontando para Gustavo que rebolou no chão, gemendo, completamente baralhado:
-Aposto que te levantaste muito depressa! – Exclamou, rindo com descaramento – És uma barata tonta!
Achei estranho toda aquele desconcerto motoro, até porque já havia passado a noite com Gustavo e nunca me tinha apercebido de tal. Todavia, aquela parte idiota de mim, achou a situação fofa e não resisti a aproximar-me de Gustavo, ajoelhando-o me ao seu lado. Quando ele me encarou, mesmo ao seu lado, olhou de soslaio para a sua mãe, mas depressa retomou a mim e abriu um largo sorriso:
-Lana?... O que estás aqui a fazer?
Não consegui evitar de sorrir-lhe com timidez, e muito menos vencer o íman que agarrava os nossos olhares um no outro, de maneira intensa. Por momentos perdi-me no seu olhar confuso, ainda assim profundo, e só consegui encolher os ombros como resposta.
-Sentes-te melhor? – Perguntou a sua mãe, trazendo-me de volta á realidade.
Ele acenou com a cabeça, ainda a observar-me, mas levantou-se do chão, um pouco atrapalhado ainda.
Susana aproximou-se dele, com uma cara que apresentava alguma tramóia e encostou-se a mim, segurando o meu braço:
-O que foi Gustavo? Não estás feliz por a tua namorada te ter vindo visitar cá a casa?
Ele parou de respirar por um segundo e o seu rosto começou a corar enquanto ele fixava a irmã com um ar de fuzileiro.
Evitei um sorriso e olhei Susana repreensivamente.
D. Maria do Carmo, por outro lado, pareceu nem se aperceber do constrangimento do seu filho quando este a olhou de relance, envergonhado. O seu espírito estava algures perdido nos pensamentos que eu lhe suscitei, o que lhe causou uma surpresa.
Ela olhou para mim e suspirou. A pupila negra envolta pela íris verde declarava nitidamente que ela queria falar com Gustavo, mas não sabia o que dizer para conseguir ficar a sós com ele.
Humedeci os lábios e olhei Susana:
-A tua revista tem testes?
A atenção da jovem foi captada e ela sorriu:
-Sim, queres fazer comigo?!
-Claro!
Gustavo franziu as sobrancelhas com descompressão. A sua mãe lançou-me um olhar de agradecimento. Era algo estranho a cumplicidade que as duas formamos de repente, mas eu fiquei aliviada por assim ser. Virei costas a Mãe e filho e empurrei, literalmente, Susana para fora da sala.
Gustavo não se mostrou confortável com a situação e preparou-se para nos seguir, sendo interrompido pela sua mãe que o chamou:
-Gustavo, fica… Quero falar contigo…!
Ele travou os seus passos e fez um esgar aflito, ilustrando mentalmente milhares de situações incomodas com a sua mãe.
Sorri-lhe antes de fechar a porta, num gesto de reconforto. Ele mostrou-se ainda mais baralhado, porem, aceitou com mais facilidade a conversa que sua a mãe queria ter com ele.
Encostei a divisória de madeira ao de leve, e Susana olhou-me á espera de explicações.
-O que se passa? – A voz de Gustavo fez-se ouvir vinda da sala.
Empurrei Susana para a cozinha, onde ela deixara a sua revista cor-de-rosa, enquanto a escutava a fazer-me perguntas sobre o que a sua progenitora queria do irmão.
-Susana, eu não sei! – menti, sentando-me na cadeira ao seu lado.
-Mas tu riste-te para o Gustavo! Sabias que algo se passava! Achas que a minha mãe lhe vai dar bronca?
-Não. – Respondi calmamente.
Ela fixou-me, irritada por saber que eu escondia algo, mas ignorei-a e comecei a folhear a revista. O papel lustroso mostrava artigos diferentes daqueles que Helen lia, sobre os adolescentes do momento e filmes da moda. Nada de muito intelectual mas que dava para passar o tempo a ler e também a fazer umas criações DADA. Depois, haviam os truques de beleza e moda, as historiazinhas das fãs, as anedotas e os típicos testes “Será que ele gosta de ti?”. Foi aí que Susana me incentivou a começar, mas apercebi-me que ainda não sabia o suficiente sobre mim e Gustavo, para responder a tudo com certidão:
-Desisto! – Declarei, rindo das respostas idiotas que a revista propunha – Preciso de beber! Aonde tens agua, Su?
-No frigorifico. – esclareceu, mudando de pagina, assim que eu me levantei da cadeira - Os copos estão naquele armário.
Segui a direcção que o seu dedo indicava e peguei num copo transparente, depois peguei na agua fresca que estava dentro de uma caneca no frigorifico e servi-me. Enquanto bebia a agua límpida e saborosa, a porta da cozinha abriu-se e Diana entrou, de cabelo metade preso com um gancho. Ela pousou a sua bolsa em cima da mesa e depois contemplou-me:
-Lana, que surpresa!
-Olá, Diana! – Respondi, sorrindo.
-O que fazes aqui?
-Vim com a Susana! – Esclareci.
Ela preparou-se para fazer uma série de perguntas, mas a porta que dava para o corredor abriu atrás de mim. Gustavo surgiu, mais calmo, mais feliz, e talvez mais apaixonado, e aproximou-se de mim, impedindo, indirectamente, de Diana falar. Estremeci por causa dos seus passos determinados. A minhas mãos ficaram frias, com suores irritantes, e a minha espinha foi percorrida por um calafrio que desequilibrou também as minhas pernas. Apesar de toda essa fraqueza corporal, tive de morder o lábio para não sorrir quando ele me beijou a bochecha com força e me apertou contra si pela cintura. Senti-me corar com a situação, especialmente pela plateia, mas não queria impedi-lo de estar perto de mim.
-Ainda duvidas que eu te amo? – Ele beijou-me novamente a bochecha, ignorando o olhar espantado da irmã mais velha.
Fechei os olhos e abanei com a cabeça arrepiada e com o coração aos pulos, enquanto ele me apertava mais contra si:
-ok, isto… - tentei afastar-me um pouco dele - é constrangedor… - murmurei.
Ele sorriu, e segurou a minha face com as mãos:
-Quero lá saber!
Levantei as minhas atenções até aos seus olhos, posicionados acima dos meus e sorri incrédula, mesmo antes de ele se entregar a mim sem problemas num beijo saboroso e doce. Apesar de ser sempre bom ser tocada pelos seus lábios, não consegui evitar de me envergonhar pelas presenças femininas que nos rodeavam e vi-me obrigada a trava-lo, de repente.
-Não sabes que eu sou tímida? – Retorqui.
Ele vislumbrou-me pacificamente e sorriu-me:
-Obrigado… - Disse, baixinho.
Respirei fundo e acenei afirmativamente, evitando a todo o custo encarar a “nova família”.
Diana virou costas, embaraçada e sem saber o que fazer, o que ajudou Susana a rir, assim como D. Maria do Carmo, que aparentemente também estava naquela cozinha. Não havia forma de me sentir mais humilhada.
-O problema deve ser da cozinha. Sempre que ponho aqui os pés, sinto-me uma parva! – Resmunguei para mim mesma.
-Porquê? Passou assim tanta coisa aqui?
Confirmei a questão e a Sogra interveio:
-A vossa avó assustou a Lana!
-O quê?! – Gustavo olhou a mãe por cima do ombro.
Susana riu-se:
-A Avó entrou cá em casa e pensava que a Lana era um ladrão, por isso apontou-lhe a sachola e depois resmungou por tu trazeres raparigas cá para casa com a idade que tens!
Diana soltou uma gargalhada e voltou-se para nós:
-A avó Constança é sempre a mesma!
Darla tinha falado algo sobre essa avó. Devia ser previsível.
Gustavo achou piada só de imaginar, no entanto tentou ser cavalheiro:
-Desculpa… A minha avó é um pouco… - Ele deteve-se sem achar uma palavra apropriada, especialmente por a mãe estar por perto. Não fosse ela ficar ofendida.
-Estamos quites. – Declarei – A tua avó aponta-me uma “arma” e a Greta aperta-te as bochechas! Acredito que o resultado final nos levaria os dois á dor, portanto…
Ele fez uma careta reflectiva e concordou comigo num meio sorriso.
-Esperem – Diana vincou o sobrolho – A Greta não é doutra cidade?
-Sim. – confirmei.
-Como é que a conheces, Gustavo?
D. Maria do Carmo estranhou também.
-É família! – Soltou, fazendo-me encolher de vergonha.
-Oh, pois claro! – Diana mostrou-se sarcástica – é família, mas nem por isso contas á tua quem é a tua namorada!
Ele revirou os olhos e sorriu ligeiramente:
-Não me chateies! – O meu namorado olhou para mim, mais calmamente – Anda comigo. – Pediu.
Agarrou a minha mão e puxou-me para o exterior da casa. Ninguém contestou. Devia fazer isso com todas, e alem disso, certamente Diana ia encher as outras duas com perguntas sobre nós os dois!
Enquanto passos lentos nos levavam para a zona mais ampla do jardim extenso da sua casa, ele fez-me parar, num gesto tímido e acariciou o meu rosto:
-Obrigado…
Fiz-me de desentendida:
-Pelo quê? – Queria uma resposta que me fizesse realmente sentir orgulho.
-Por seres tão intrometida.
Abri a boca, surpreendida, mas ele riu-se, e abraçou-me, como há muito tempo não fazia. Não me abraçava por carinho, nem era para me proteger, mas sim por agradecimento e felicidade:
-Primeiro a Susana e agora a minha mãe. Eu quase podia odiar-te por me expores tanto, mas não sei como, consegues sempre fazer-me feliz.
Não sabia o que responder.
-Não sabes o peso que me tiraste de cima…
-Sei… - Contrapus, sorridente – Tu merecias isto. Foi só um empurrãozinho. Estavas a precisar!
Ele abanou a cabeça, incrédulo, e levantou o meu maxilar com os seus dedos, para encarar a minha face. Depois, suspirou.
-Devias ter chegado há muito mais tempo!
-Antes tarde do que nunca!
Gustavo concordou, e retomou os passos:
-Sabes uma coisa? – Rectificou á medida que me arrastava para o jardim – Adoro surpresas!
-A sério? – Fiz-me de parva – A mim assustam-me!
Ele revirou os olhos, e depois deitou-se na rede de baloiço, que tinha entre duas arvores, incentivando-me a fazer o mesmo ao pé dele.
Encostei a cabeça ao seu peito, enquanto me deixava balançar pelos movimentos que o vento provocava.
-Não sabia que ficavas tão tonto de cada vez que acordavas…
Ele manteve-se em silencio para minha surpresa, mas apercebi-me que estava nervoso.
-o que se passa? – Quis saber.
-Por acaso acordei sobressaltado porque queria ir ter contido… Tenho tido sonhos estranhos!
-Pesadelos? – Tentei adivinhar.
-Mais ou menos… Ultimamente tenho reflectido sobre ti…
Isso inquietou-me:
-o que se passa? – Perguntei.
-Nos meus sonhos… Tu estás em perigo porque alguém quer apanhar-te… - Ele engoliu a seco, evitando que eu me apercebesse. – Eu fico pouco descansado quando não te vejo. Tenho medo que te aconteça alguma coisa na minha ausência…
Mirei-o apreensiva:
-Não quero que penses nisso. – Falei, incomodada – Eu tenho pesadelos, tu sonhas! É isso que faz sentido!
-Mas eu gosto muito de ti… - Ele baixou o olhar – não posso ver-te cansada de cada vez que dormes. Talvez seja a minha vez.
-A tua vez de quê, Gustavo? – Tentei não parecer magoada – É passado… Eu não corro perigo…
Ele não respondeu. Permaneceu amuado, apesar de haver algo a inquietar-lhe a alma.
-O meu professor teve uma pena. Não me vai descobrir e tentar encontrar-me novamente a mim! – Tentei parecer crente naquilo que dizia, e sorri.
Ele negou com a cabeça:
-tu não entendes. Eu não sonho que ele te quer fazer mal como aconteceu no passado… Eu sonho que ele te quer matar! Que te quer arrancar as asas!
Descolei os lábios chocada, mas neguei coma cabeça:
-Mas eu não tenho medo… Não tanto.
Gustavo suspirou, frustrado, mas manteve a voz pacifica:
-Ás vezes consegues ser tão… Eh! Parece que não temes a morte! Parece que se ela acontecer, tu não te importas!
-E não. – desboquei-me.
Ele levantou o tronco, céptico:
-Porquê? Não entendo! A morte é a pior coisa que pode acontecer a alguém!
-Não, não é! – neguei – Para alguns pode ser a única resolução dos problemas!
-O quê?! – Ele ficou desiludido comigo - Como podes dizer isso?!
-Porque eu já a desejei! – Respondi, sem medo de admitir.
Ele balançou o crânio, irritado:
-A morte é horrível!
-Não. É calma. É o fim. Tu não tens de ter medo dela, porque não será tão dura como os problemas mais míseros que tenhas!
Ele agarrou-me a cabeça, perplexo:
-Não digas isso, Alannis! – Os seus olhos pareciam furiosos e ao mesmo tempo nostálgicos – Será preciso que morra alguém de quem tu gostes para perceberes que isso é mentira!
Senti uma pontada no peito e reflecti sobre o que ele dizia, ao imaginar Helen, Greta, algum amigo, e especialmente Gustavo a desaparecer de um segundo para o outro. A parar de reagir e nunca mais me encarar.
-Mas eu não quero que ninguém morra. – Arfei, em choque – Ninguém precisa de morrer. Eu só acho que, pelo menos a minha, não será má!
Gustavo cerrou os dentes e fechou os olhos:
-Mas como achas que eu ia ficar se te acontecesse alguma coisa?
Não conseguir pronunciar uma única palavra, enquanto o meu raciocínio encadeava os pensamentos:
-Desculpa. – murmurei, por fim.
-Promete-me, Lana. Aconteça o que acontecer, tu vais sempre lutar pela tua vida!
Hesitei um momento a olhar para a sua cara séria, mas aceitei finalmente:
-Sim… Eu prometo.
O meu namorado sorriu durante uma lufada de ar, e beijou-me, aliviado. Quando voltou a separar a boca da minha, ficou a uns milímetros de mim e afagou-me o cabelo:
-agora que entraste na minha vida, não podes morrer… Eu não posso ficar mais sem ti, Alannis.
-Eu não quero que fiques sem mim… - murmurei, perto dele.
-Nunca mais tenhas a vontade súbita de morrer… - Pediu, apático, passando o seu dedo polegar pelo meu lábio interior – Não enquanto eu me mantiver ao teu lado. Eu disse á minha mãe e digo-te a ti, tu és a única razão para que vivo, e eu era capaz de dar a minha vida por ti…
Sorri-lhe com descrição:
-Tu és muito romântico - Ele corou –, mas eu não gosto que digas essas coisas. São fortes demais.
-São verdadeiras, juro!
-Eu acredito em ti… - Aquilo não era bem verdade. Eu acreditava que ele dissesse a verdade naquele momento, mas duvidava que fizesse coisas loucas por mim. Não que me importasse, apenas o queria bem e sem problemas por minha causa.
Ele beijou-me a boca que já estava dormente pelo toque dos seus dedos. Deitou-se completamente e eu fiz o mesmo, enquanto o ouvia a falar sobre a conversa que tivera com a sua mãe. Parecia feliz, e isso era gratificante. Depois perguntou-me sobre mim, sobre Helen e sobre a tarde com as raparigas, que levou novamente as atenções para ele e para a corrida de motos que fez com os amigos. O entusiasmo na sua voz era já um vicio e eu não me cansava de o escutar a tagarelar sem parar sobre o que tinha falado e feito com os colegas. Passada cerca de meia hora, a sua mãe veio ver o que estávamos a fazer, e ficou feliz por nos ver deitados na rede a conversar tão animadamente. Falou connosco um pouco, perguntou-me sobre a minha madrinha e incentivou a que ela fosse á sua casa, o que era aterrador na minha mente. Depois, Alex passou no passeio em direcção ao interior de casa, mas travou-se bruscamente ao reparar na minha presença. Ficou céptico com a capacidade do seu irmão mais novo para me conquistar, mas para mim ele era charmoso, fazer o quê?
Acabamos por ficar sozinhos outra vez, desfrutando da mudança de temperatura. Gustavo, porem, caiu no erro de me mexer no cabelo, e apesar de eu o avisar sobre o efeito das suas mãos no meu coro cabeludo, ele não se travou e o inevitável aconteceu.
Eu adormeci.
O proximo capitulo já começa a ser uma seca, mas enfim, sem ele nao se avança!
bjokas!
-são mesmo idênticos! – Observei - Não admira que se tenha apaixonado por ele! Ainda bem que criaram um júnior para mim!
Ri-me divertida. Aos poucos o stress que a “sogra-avó” me tinha causado estava a desaparecer.
-Oh, eu acho que as historias são muito diferentes. Estás a ver esta rapariga ao lado dele? – Perguntou, apontando para a jovem com vestido até ao joelho, colorido – Essa sou eu!
-Não perdeu a formosura! – Exclamei animada, atenta á rapariga da foto.
D. Carmo corou, mas agradeceu o elogio, e prosseguiu:
-Eu conhecia o Luís desde criança. Sabes, eu quando era pequena era uma autentica Maria-rapaz! Só era amiga dos rapazes, gostava de jogar á bola e gozava com as raparigas da minha idade por elas serem tão femininas, se é que me entendes! – Ela fez uma careta simpática – O Luís era meu vizinho e meu melhor amigo. Estávamos sempre a trapacear as pessoas e não nos largávamos…!
-Começou cedo! – Comentei.
Ele negou num balanço:
-Na verdade, não… Ele era meu amigo, facto, mas quando tínhamos cerca de 12 anos, os meus pais e eu viajamos para França. – Ela sorriu amuada com esse facto – A recordação que eu levava dele era de uma rapazito magricela e mais pequeno do que eu, mas de bom coração, com uma família acolhedora, e acho que aquela despedida foi difícil, mas para compensar fi-lo prometer que me telefonava e me escrevia sempre, para continuarmos amigos, sabes como é… - Ela suspirou e sorriu – se soubesses a birra que ele fez quando eu falei em cartas! Começou a dizer que isso era coisa de meninas e recusou-se, mas felizmente eu convenci-o! Durante cinco anos estive fora, mas sempre lhe contei as novidades e ele também, até que um dia anunciei que ia voltar. Não podia estar mais feliz, mas nessa altura eu já tinha dezassete anos e tanto tempo sem o ver fez-me regressar com ilusão que seria o mesmo rapazito magro, só que enganei-me – Ela voltou a apontar para a foto – Esta foto foi tirada no dia do regresso, e repara, este não era um rapaz magro e baixote!
Sorri admirada e olhei-a:
-Então foi uma espécie de amor á segunda vista?
-Foi mais á terceira ou á quarta! Sinceramente foi uma desilusão o reencontro. Com certeza já te apercebeste que quando falas com alguém por telemóvel ou por email, as facetas são outras. Podes ser mais profunda, mais calma, mais irritada, mais sincera e sensível… Enfim, és o que queres e o no fundo és o que realmente és contigo mesma, porque ninguém está a olhar para ti para te julgar. As palavras só são lidas por alguns, por isso não precisas de ter medo de dizeres o que queres… - Assenti, concordando com o que ouvia – Foi isso que nos aconteceu. Quando eu regressei, apercebi-me que ele era mais rebelde do que eu, ou era isso que parecia junto dos amigos. E só aí é que vi que eu também tinha mudado. Eu já não era a Maria rapaz, era uma simples rapariga jovem… Escusado será dizer que nós chocamos por causa dessas diferenças. Ele o rapaz livre e eu a rapariga da família conservadora! Sim, porque aquela senhora que tu viste lá fora não é complicada só contigo! – garantiu, fazendo-me sorrir – Foram precisos ciúmes para eu perceber que talvez já não fossemos amigos, não porque éramos diferentes, mas porque nós talvez nos tivéssemos apaixonado…
-Essa historia é bonita… - admiti, reflectiva – O que aconteceu depois?
-Depois cedemos… Eu gostava dele, ele gostava de mim e enfrentou os amigos para estar comigo… Nós só queríamos ficar juntos, mas depois houve o problema dos meus pais, que me impediam de namorar. Claro que nós não obedecemos, e aí surgiu o Alexandre que, no fundo, foi um passe para que ninguém nos impedisse de ficar juntos!
-Como reagiram os vossos pais? – Inquiri.
D. Maria encolheu os ombros, rindo:
-Bem, um choque para os meus, uma felicidade para os dele! E nós queríamos lá saber! Casamos e fomos felizes. Isso bastou-nos!
-hum…
Baixei o olhar para o álbum amarelado pelo tempo e fui passando as fotos, sorrindo em cada uma, á medida que iam ganhando mais cor e melhor resolução, em papes mais lustrosos. Começaram a aparecer os bebés, os dois primeiros miúdos, com ares distintos. Alex com sorrisos marotos e Diana sempre serena e inocente. Depois apareceu Gustavo, e as típicas fotos no banho e de rabinho para o ar. Se ele soubesse que eu estava a ver aquilo, matava alguém! Continuei a folhear e apareceram algumas dele a fazer caretas, outras na escola, outras no carnaval. Depois surgiu Susana e as fotos ficavam mais preenchidas, até que finalmente os rosto se assemelhavam mais áquilo que eu conhecia. A ultima foto em que parei, foi numa de Gustavo, coma cara suja de óleo, com os ombros envoltos pelo braço do pai, também ele sujo, com uma moto atrás deles, numa espécie de oficina. Ambos sorriam para a câmara, semelhantes quer no olhar, quer no sorriso. O que melhor os distinguia era o cabelo, um claro e outro escuro como carvão. Deixei o álbum parado naquela foto e fiquei a olha-la, pensativa. Dona Maria do Carmo analisou-me e descruzou as pernas:
-O que foi? – perguntou.
Mantive-me séria:
-Eles eram mesmo melhores amigos…?
Ela afirmou, constrangida.
-Foi injusto tudo acabar de repente… - murmurei.
O espírito da mulher que me acompanhava ficou ligeiramente mais apático, mas ela deu de ombros, como se não se importasse:
-Foi difícil para todos… Tanto para os meus filhos como para mim… Eu nunca… - Ela hesitou, com olhos brilhantes e húmidos - … senti tanta raiva como naquele dia. Eu acho que fiquei tão revoltada que assustei a minha própria família e tornei tudo ainda mais difícil de suportar, mas não consegui controlar…
Conseguia imaginar o desespero apenas pela nostalgia que a sua voz expressava. Suspirei e voltei a pagina. Não sei porquê, mas foi como se adivinhasse que aquela foto tinha sido a ultima dos dias vivos. As seguintes eram menos divertidas, mais rígidas e forçadas. Havia uma em que estava apenas Gustavo e Susana. Ela no colo dele, vestidos formalmente. Ela sorria com o dentes todos á mostra, talvez porque o fotografo a tivesse conseguido fazer rir, pois algo no seu olhar mostrava que tinha sido difícil. Gustavo por outro lado não disfarçava tanto a tristeza. Tinha apenas os lábios tortos num sorriso forçado, mas o olhar era tão vazio. Parecia perdido, como se quisesse fechar as pálpebras e não conseguisse. Senti uma pontada no peito com aquela visão. A sua mãe apercebeu-se e encostou-se mais a mim:
-Foste uma dádiva, Lana… - Aquela declaração foi uma surpresa - Desde que o Gustavo e tu estais juntos, que ele voltou a ser o que era. Não imaginas como é mau ver um filho a fingir constantemente que é feliz, a tentar ser divertido com os amigos, a tentar mostrar-se interessado nas raparigas, quando na verdade quer-se esconder e dormir para sempre, sem razão nenhuma para avançar, sem objectivos… Desde há uns meses para cá ele voltou, felizmente, a animar-se um pouco mais, a ser mais interessado nas coisas e a retomar aquele jeito indiscreto e descontraído. Eu só percebi que tinha sido por tua culpa, quando disseste há quanto tempo tinhas vindo para o Geres, no jantar em casa da Teresa. As datas coincidiram…
-Desculpe dizer isto… - interrompi – Mas… Se via o Gustavo tão triste, porque não…
-Tentei anima-lo? – tentou adivinhar, apesar de não ser essa a minha questão – Até pensei em dar-lhe apoio medico. A Susana andou num psicólogo, mas ele recusou-se…
-Não… - interrompi novamente e suspirei, fechando o álbum, sobre as minhas pernas – Quando eu conheci o Gustavo caracterizei-o logo como uma pessoa indiscreta, irónica e insuportável… - tive mesmo de rir brevemente – Mas na primeira conversa a sério que eu tive com ele, percebi que tal como eu, era só uma mascara… Porque ele não era tão extrovertido como queria-me mostrar, e algo que eu percebi, quando ele me contou sobre o pai e todos vocês, foi que ele guardava uma certa culpa que supostamente era intensificada pela família…
D. Maria do Carmo, abriu a boca, chocada:
-Culpa?
Assenti, pouco á vontade, e falei devagar, para não chocar:
-Eu acredito, que naquele dia fatídico, tal como você já disse, estivesse muito nervosa e tenha dito coisas sem pensar… No entanto, julgo que o pode ter atingido com alguma dessas coisas…Ele não prometeu que ia deixar de andar de mota, só porque vocês obrigaram…
A senhora semicerrou os olhos, baralhada, e depois olhou-me:
-Lana, tu queres dizer que ele deixou de andar de mota, não porque respeitava que nós queríamos que ele tivesse mais cuidado, mas porque sentiu que nós o estávamos a culpar a ele a aos desporto pela morte do meu marido?
-Sim… - Murmurei – Talvez a infelicidade do Gustavo se tivesse tratado apenas com uma frase que o fizesse acreditar que foi o destino e que ninguém teve culpa. Que você não o impediu de andar de mota porque queria ver-se livre daquilo que destruiu a família, roubar-lhe todas as alegrias de uma só vez por vingança, mas porque queria protege-lo…
-O que tu me estás a dizer, choca-me… Eu… - D. Maria do Carmo estava céptica e não sabia o que dizer. O seu interior agitado era percorrido por um arrependimento mortal, mas eu não me arrependi de lhe contar aquelas coisas. Mais uma vez tinha sido um equivoco.
Ela levantou-se do sofá, e entrelaçou os dedos, baralhada.
-Admito que antes de a conhecer pessoalmente, não tinha uma boa ideia de si, por achar que culpava o Gustavo pela morte do pai… Aliás, não sei se foi bom ou mau, mas fui eu que falei com a Susana, quando ele fez dezoito anos, por causa de ele voltar a andar de mota. Ela estava muito inquieta também. – suspirei, entrelaçando os dedos sobre as minhas coxas – Eu espero que não fique perturbada com o que lhe estou a contar… Eu só o fiz porque… Bem, ainda há pouco disse que eu tinha sido uma dadiva para o Gustavo, mas acredite que para mim foi ao contrario, e eu só lhe falei destas coisas porque cada dia que passa, eu percebo que faltam esclarecimentos na vida das pessoas… Ás vezes são estes pequenos erros que nem sabemos que existem que nos atrapalham a vida… Não concorda…?
Ela respirou fundo e olhou para o tecto, incomodada:
-Obrigada por me contares isso, Lana… Há coisas que nem me passam pela cabeça… - Ela humedeceu os lábios carnudos e baixou o olhar, reflectiva.
-De qualquer modo, acho que o tempo foi cicatrizando as feridas – Sorri, tentando conforta-la – Acho que nos últimos tempos, o Gustavo mal se lembra destas coisas, portanto, talvez não seja necessário incomodar-se...
-Não. – Negou – Por muito melhor que ele se sinta, eu não quero que ele viva muito mais tempo com uma mancha no peito. Eu gosto de ter tudo esclarecido e…
Ouviu-se um estrondo do outro lado da porta, que interrompeu as palavras de D. Maria do Carmo, e assustou-me por momentos. A porta abriu-se, após a maçaneta se mover com pressa, e dela emergiu Gustavo, com os olhos semicerrados, a esfregar a testa e abafando um gemido, á medida que dava passos desastrados para o interior da sala:
-Mãe, onde está…?
O seu olhar cruzou-se com o meu por momentos, e não sei de que maneira ele o fez, mas descoordenou ainda mais os seus passos com a surpresa que lhe causei e o seu corpo tombou no chão com grande violência, fazendo-me saltar do sofá por reflexo.
-Gustavo! – D. Maria do Carmo aproximou-se preocupada e baixou-se até ele – Tu estás bem?
Su apareceu também na porta da sala, assustada com o estrondo do seu trambolhão, mas ao contrario de mim e da sua mãe, ela não se mostrou aflita e gargalhou em tom de troça, apontando para Gustavo que rebolou no chão, gemendo, completamente baralhado:
-Aposto que te levantaste muito depressa! – Exclamou, rindo com descaramento – És uma barata tonta!
Achei estranho toda aquele desconcerto motoro, até porque já havia passado a noite com Gustavo e nunca me tinha apercebido de tal. Todavia, aquela parte idiota de mim, achou a situação fofa e não resisti a aproximar-me de Gustavo, ajoelhando-o me ao seu lado. Quando ele me encarou, mesmo ao seu lado, olhou de soslaio para a sua mãe, mas depressa retomou a mim e abriu um largo sorriso:
-Lana?... O que estás aqui a fazer?
Não consegui evitar de sorrir-lhe com timidez, e muito menos vencer o íman que agarrava os nossos olhares um no outro, de maneira intensa. Por momentos perdi-me no seu olhar confuso, ainda assim profundo, e só consegui encolher os ombros como resposta.
-Sentes-te melhor? – Perguntou a sua mãe, trazendo-me de volta á realidade.
Ele acenou com a cabeça, ainda a observar-me, mas levantou-se do chão, um pouco atrapalhado ainda.
Susana aproximou-se dele, com uma cara que apresentava alguma tramóia e encostou-se a mim, segurando o meu braço:
-O que foi Gustavo? Não estás feliz por a tua namorada te ter vindo visitar cá a casa?
Ele parou de respirar por um segundo e o seu rosto começou a corar enquanto ele fixava a irmã com um ar de fuzileiro.
Evitei um sorriso e olhei Susana repreensivamente.
D. Maria do Carmo, por outro lado, pareceu nem se aperceber do constrangimento do seu filho quando este a olhou de relance, envergonhado. O seu espírito estava algures perdido nos pensamentos que eu lhe suscitei, o que lhe causou uma surpresa.
Ela olhou para mim e suspirou. A pupila negra envolta pela íris verde declarava nitidamente que ela queria falar com Gustavo, mas não sabia o que dizer para conseguir ficar a sós com ele.
Humedeci os lábios e olhei Susana:
-A tua revista tem testes?
A atenção da jovem foi captada e ela sorriu:
-Sim, queres fazer comigo?!
-Claro!
Gustavo franziu as sobrancelhas com descompressão. A sua mãe lançou-me um olhar de agradecimento. Era algo estranho a cumplicidade que as duas formamos de repente, mas eu fiquei aliviada por assim ser. Virei costas a Mãe e filho e empurrei, literalmente, Susana para fora da sala.
Gustavo não se mostrou confortável com a situação e preparou-se para nos seguir, sendo interrompido pela sua mãe que o chamou:
-Gustavo, fica… Quero falar contigo…!
Ele travou os seus passos e fez um esgar aflito, ilustrando mentalmente milhares de situações incomodas com a sua mãe.
Sorri-lhe antes de fechar a porta, num gesto de reconforto. Ele mostrou-se ainda mais baralhado, porem, aceitou com mais facilidade a conversa que sua a mãe queria ter com ele.
Encostei a divisória de madeira ao de leve, e Susana olhou-me á espera de explicações.
-O que se passa? – A voz de Gustavo fez-se ouvir vinda da sala.
Empurrei Susana para a cozinha, onde ela deixara a sua revista cor-de-rosa, enquanto a escutava a fazer-me perguntas sobre o que a sua progenitora queria do irmão.
-Susana, eu não sei! – menti, sentando-me na cadeira ao seu lado.
-Mas tu riste-te para o Gustavo! Sabias que algo se passava! Achas que a minha mãe lhe vai dar bronca?
-Não. – Respondi calmamente.
Ela fixou-me, irritada por saber que eu escondia algo, mas ignorei-a e comecei a folhear a revista. O papel lustroso mostrava artigos diferentes daqueles que Helen lia, sobre os adolescentes do momento e filmes da moda. Nada de muito intelectual mas que dava para passar o tempo a ler e também a fazer umas criações DADA. Depois, haviam os truques de beleza e moda, as historiazinhas das fãs, as anedotas e os típicos testes “Será que ele gosta de ti?”. Foi aí que Susana me incentivou a começar, mas apercebi-me que ainda não sabia o suficiente sobre mim e Gustavo, para responder a tudo com certidão:
-Desisto! – Declarei, rindo das respostas idiotas que a revista propunha – Preciso de beber! Aonde tens agua, Su?
-No frigorifico. – esclareceu, mudando de pagina, assim que eu me levantei da cadeira - Os copos estão naquele armário.
Segui a direcção que o seu dedo indicava e peguei num copo transparente, depois peguei na agua fresca que estava dentro de uma caneca no frigorifico e servi-me. Enquanto bebia a agua límpida e saborosa, a porta da cozinha abriu-se e Diana entrou, de cabelo metade preso com um gancho. Ela pousou a sua bolsa em cima da mesa e depois contemplou-me:
-Lana, que surpresa!
-Olá, Diana! – Respondi, sorrindo.
-O que fazes aqui?
-Vim com a Susana! – Esclareci.
Ela preparou-se para fazer uma série de perguntas, mas a porta que dava para o corredor abriu atrás de mim. Gustavo surgiu, mais calmo, mais feliz, e talvez mais apaixonado, e aproximou-se de mim, impedindo, indirectamente, de Diana falar. Estremeci por causa dos seus passos determinados. A minhas mãos ficaram frias, com suores irritantes, e a minha espinha foi percorrida por um calafrio que desequilibrou também as minhas pernas. Apesar de toda essa fraqueza corporal, tive de morder o lábio para não sorrir quando ele me beijou a bochecha com força e me apertou contra si pela cintura. Senti-me corar com a situação, especialmente pela plateia, mas não queria impedi-lo de estar perto de mim.
-Ainda duvidas que eu te amo? – Ele beijou-me novamente a bochecha, ignorando o olhar espantado da irmã mais velha.
Fechei os olhos e abanei com a cabeça arrepiada e com o coração aos pulos, enquanto ele me apertava mais contra si:
-ok, isto… - tentei afastar-me um pouco dele - é constrangedor… - murmurei.
Ele sorriu, e segurou a minha face com as mãos:
-Quero lá saber!
Levantei as minhas atenções até aos seus olhos, posicionados acima dos meus e sorri incrédula, mesmo antes de ele se entregar a mim sem problemas num beijo saboroso e doce. Apesar de ser sempre bom ser tocada pelos seus lábios, não consegui evitar de me envergonhar pelas presenças femininas que nos rodeavam e vi-me obrigada a trava-lo, de repente.
-Não sabes que eu sou tímida? – Retorqui.
Ele vislumbrou-me pacificamente e sorriu-me:
-Obrigado… - Disse, baixinho.
Respirei fundo e acenei afirmativamente, evitando a todo o custo encarar a “nova família”.
Diana virou costas, embaraçada e sem saber o que fazer, o que ajudou Susana a rir, assim como D. Maria do Carmo, que aparentemente também estava naquela cozinha. Não havia forma de me sentir mais humilhada.
-O problema deve ser da cozinha. Sempre que ponho aqui os pés, sinto-me uma parva! – Resmunguei para mim mesma.
-Porquê? Passou assim tanta coisa aqui?
Confirmei a questão e a Sogra interveio:
-A vossa avó assustou a Lana!
-O quê?! – Gustavo olhou a mãe por cima do ombro.
Susana riu-se:
-A Avó entrou cá em casa e pensava que a Lana era um ladrão, por isso apontou-lhe a sachola e depois resmungou por tu trazeres raparigas cá para casa com a idade que tens!
Diana soltou uma gargalhada e voltou-se para nós:
-A avó Constança é sempre a mesma!
Darla tinha falado algo sobre essa avó. Devia ser previsível.
Gustavo achou piada só de imaginar, no entanto tentou ser cavalheiro:
-Desculpa… A minha avó é um pouco… - Ele deteve-se sem achar uma palavra apropriada, especialmente por a mãe estar por perto. Não fosse ela ficar ofendida.
-Estamos quites. – Declarei – A tua avó aponta-me uma “arma” e a Greta aperta-te as bochechas! Acredito que o resultado final nos levaria os dois á dor, portanto…
Ele fez uma careta reflectiva e concordou comigo num meio sorriso.
-Esperem – Diana vincou o sobrolho – A Greta não é doutra cidade?
-Sim. – confirmei.
-Como é que a conheces, Gustavo?
D. Maria do Carmo estranhou também.
-É família! – Soltou, fazendo-me encolher de vergonha.
-Oh, pois claro! – Diana mostrou-se sarcástica – é família, mas nem por isso contas á tua quem é a tua namorada!
Ele revirou os olhos e sorriu ligeiramente:
-Não me chateies! – O meu namorado olhou para mim, mais calmamente – Anda comigo. – Pediu.
Agarrou a minha mão e puxou-me para o exterior da casa. Ninguém contestou. Devia fazer isso com todas, e alem disso, certamente Diana ia encher as outras duas com perguntas sobre nós os dois!
Enquanto passos lentos nos levavam para a zona mais ampla do jardim extenso da sua casa, ele fez-me parar, num gesto tímido e acariciou o meu rosto:
-Obrigado…
Fiz-me de desentendida:
-Pelo quê? – Queria uma resposta que me fizesse realmente sentir orgulho.
-Por seres tão intrometida.
Abri a boca, surpreendida, mas ele riu-se, e abraçou-me, como há muito tempo não fazia. Não me abraçava por carinho, nem era para me proteger, mas sim por agradecimento e felicidade:
-Primeiro a Susana e agora a minha mãe. Eu quase podia odiar-te por me expores tanto, mas não sei como, consegues sempre fazer-me feliz.
Não sabia o que responder.
-Não sabes o peso que me tiraste de cima…
-Sei… - Contrapus, sorridente – Tu merecias isto. Foi só um empurrãozinho. Estavas a precisar!
Ele abanou a cabeça, incrédulo, e levantou o meu maxilar com os seus dedos, para encarar a minha face. Depois, suspirou.
-Devias ter chegado há muito mais tempo!
-Antes tarde do que nunca!
Gustavo concordou, e retomou os passos:
-Sabes uma coisa? – Rectificou á medida que me arrastava para o jardim – Adoro surpresas!
-A sério? – Fiz-me de parva – A mim assustam-me!
Ele revirou os olhos, e depois deitou-se na rede de baloiço, que tinha entre duas arvores, incentivando-me a fazer o mesmo ao pé dele.
Encostei a cabeça ao seu peito, enquanto me deixava balançar pelos movimentos que o vento provocava.
-Não sabia que ficavas tão tonto de cada vez que acordavas…
Ele manteve-se em silencio para minha surpresa, mas apercebi-me que estava nervoso.
-o que se passa? – Quis saber.
-Por acaso acordei sobressaltado porque queria ir ter contido… Tenho tido sonhos estranhos!
-Pesadelos? – Tentei adivinhar.
-Mais ou menos… Ultimamente tenho reflectido sobre ti…
Isso inquietou-me:
-o que se passa? – Perguntei.
-Nos meus sonhos… Tu estás em perigo porque alguém quer apanhar-te… - Ele engoliu a seco, evitando que eu me apercebesse. – Eu fico pouco descansado quando não te vejo. Tenho medo que te aconteça alguma coisa na minha ausência…
Mirei-o apreensiva:
-Não quero que penses nisso. – Falei, incomodada – Eu tenho pesadelos, tu sonhas! É isso que faz sentido!
-Mas eu gosto muito de ti… - Ele baixou o olhar – não posso ver-te cansada de cada vez que dormes. Talvez seja a minha vez.
-A tua vez de quê, Gustavo? – Tentei não parecer magoada – É passado… Eu não corro perigo…
Ele não respondeu. Permaneceu amuado, apesar de haver algo a inquietar-lhe a alma.
-O meu professor teve uma pena. Não me vai descobrir e tentar encontrar-me novamente a mim! – Tentei parecer crente naquilo que dizia, e sorri.
Ele negou com a cabeça:
-tu não entendes. Eu não sonho que ele te quer fazer mal como aconteceu no passado… Eu sonho que ele te quer matar! Que te quer arrancar as asas!
Descolei os lábios chocada, mas neguei coma cabeça:
-Mas eu não tenho medo… Não tanto.
Gustavo suspirou, frustrado, mas manteve a voz pacifica:
-Ás vezes consegues ser tão… Eh! Parece que não temes a morte! Parece que se ela acontecer, tu não te importas!
-E não. – desboquei-me.
Ele levantou o tronco, céptico:
-Porquê? Não entendo! A morte é a pior coisa que pode acontecer a alguém!
-Não, não é! – neguei – Para alguns pode ser a única resolução dos problemas!
-O quê?! – Ele ficou desiludido comigo - Como podes dizer isso?!
-Porque eu já a desejei! – Respondi, sem medo de admitir.
Ele balançou o crânio, irritado:
-A morte é horrível!
-Não. É calma. É o fim. Tu não tens de ter medo dela, porque não será tão dura como os problemas mais míseros que tenhas!
Ele agarrou-me a cabeça, perplexo:
-Não digas isso, Alannis! – Os seus olhos pareciam furiosos e ao mesmo tempo nostálgicos – Será preciso que morra alguém de quem tu gostes para perceberes que isso é mentira!
Senti uma pontada no peito e reflecti sobre o que ele dizia, ao imaginar Helen, Greta, algum amigo, e especialmente Gustavo a desaparecer de um segundo para o outro. A parar de reagir e nunca mais me encarar.
-Mas eu não quero que ninguém morra. – Arfei, em choque – Ninguém precisa de morrer. Eu só acho que, pelo menos a minha, não será má!
Gustavo cerrou os dentes e fechou os olhos:
-Mas como achas que eu ia ficar se te acontecesse alguma coisa?
Não conseguir pronunciar uma única palavra, enquanto o meu raciocínio encadeava os pensamentos:
-Desculpa. – murmurei, por fim.
-Promete-me, Lana. Aconteça o que acontecer, tu vais sempre lutar pela tua vida!
Hesitei um momento a olhar para a sua cara séria, mas aceitei finalmente:
-Sim… Eu prometo.
O meu namorado sorriu durante uma lufada de ar, e beijou-me, aliviado. Quando voltou a separar a boca da minha, ficou a uns milímetros de mim e afagou-me o cabelo:
-agora que entraste na minha vida, não podes morrer… Eu não posso ficar mais sem ti, Alannis.
-Eu não quero que fiques sem mim… - murmurei, perto dele.
-Nunca mais tenhas a vontade súbita de morrer… - Pediu, apático, passando o seu dedo polegar pelo meu lábio interior – Não enquanto eu me mantiver ao teu lado. Eu disse á minha mãe e digo-te a ti, tu és a única razão para que vivo, e eu era capaz de dar a minha vida por ti…
Sorri-lhe com descrição:
-Tu és muito romântico - Ele corou –, mas eu não gosto que digas essas coisas. São fortes demais.
-São verdadeiras, juro!
-Eu acredito em ti… - Aquilo não era bem verdade. Eu acreditava que ele dissesse a verdade naquele momento, mas duvidava que fizesse coisas loucas por mim. Não que me importasse, apenas o queria bem e sem problemas por minha causa.
Ele beijou-me a boca que já estava dormente pelo toque dos seus dedos. Deitou-se completamente e eu fiz o mesmo, enquanto o ouvia a falar sobre a conversa que tivera com a sua mãe. Parecia feliz, e isso era gratificante. Depois perguntou-me sobre mim, sobre Helen e sobre a tarde com as raparigas, que levou novamente as atenções para ele e para a corrida de motos que fez com os amigos. O entusiasmo na sua voz era já um vicio e eu não me cansava de o escutar a tagarelar sem parar sobre o que tinha falado e feito com os colegas. Passada cerca de meia hora, a sua mãe veio ver o que estávamos a fazer, e ficou feliz por nos ver deitados na rede a conversar tão animadamente. Falou connosco um pouco, perguntou-me sobre a minha madrinha e incentivou a que ela fosse á sua casa, o que era aterrador na minha mente. Depois, Alex passou no passeio em direcção ao interior de casa, mas travou-se bruscamente ao reparar na minha presença. Ficou céptico com a capacidade do seu irmão mais novo para me conquistar, mas para mim ele era charmoso, fazer o quê?
Acabamos por ficar sozinhos outra vez, desfrutando da mudança de temperatura. Gustavo, porem, caiu no erro de me mexer no cabelo, e apesar de eu o avisar sobre o efeito das suas mãos no meu coro cabeludo, ele não se travou e o inevitável aconteceu.
Eu adormeci.
O proximo capitulo já começa a ser uma seca, mas enfim, sem ele nao se avança!

bjokas!
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Aiaiaia
Ri-me tanto XD
Coitadiinha da Lana XD
Quase que morria de susto por causa da avó do Gustavo XD Ah morri de riso XD
Foi taaao fixe
E a mae do Gustavo a defendê-los, foi fofinho. Gostei de saber da historia do passado dos pais dele eheh tao fofinhoooos
Aiai.. Que mais nos reservas lulumoon???
Quero mais sim??
HEhe. Beijinhooos**
Ri-me tanto XD
Coitadiinha da Lana XD
Quase que morria de susto por causa da avó do Gustavo XD Ah morri de riso XD
Foi taaao fixe
E a mae do Gustavo a defendê-los, foi fofinho. Gostei de saber da historia do passado dos pais dele eheh tao fofinhoooos

Aiai.. Que mais nos reservas lulumoon???
Quero mais sim??
HEhe. Beijinhooos**

さよならできずに, 立ち止まったままの僕と一緒に...
Oi pessoal! Trago um novo capitulo, mas ainda estou com duvidas em relaçao ao titulo! Pensei em "Amizades", "Perigo", "Uma questao de sangue" e por aí adiante! Se depois de lerem tiverem alguma ideia digam! 
Agora, quem tinha saudades da Rebeca vai gostar do capitulo!
Capitulo XXVI - ????
Abri os olhos devagarinho, com medo da luz que me fazia fugir. Não sabia onde estava ao certo, só sabia que era cedo, pois os pássaros estavam a cantar. Apercebi-me que atrás de mim, havia um corpo colado ao meu, que envolvia-me com o braço e tocava o meu pescoço com a respiração calma. O colchão coberto por um fino lençol bege era o que me suportava, e o resto era ainda confuso nos primeiros vislumbres.
Tinha a sensação de me ter esquecido de algo importante, e enquanto tentava descobrir o quê, reflecti que tinha adormecido. Tentei mover-me, com o braço másculo a cobrir-me o corpo, e com sorte fiquei de frente para Gustavo, que dormia com uma respiração mais pacifica do que a da tarde anterior. Parecia um verdadeiro bebé, adorável. Apeteceu-me ficar ali a olhar para ele, no entanto eu vi-me forçada a sacudi-lo para o acordar. Ele gemeu e afundou o rosto entre o meu pescoço e o meu peito, fazendo-me gargalhar com cócegas. Sorriu, depois de ouvir o meu riso e entreabriu os olhos, tentando assimilar as ideias.
Dei-lhe um beijo na bochecha, e desviei o seu cabelo para o lado. Ele apertou-me contra ele, meio-desperto:
-Bom dia, princesa! – Exclamou, encostando os seus lábios aos meus, levemente.
Nesse instante, apercebi-me que estávamos atravessados na sua cama, as cobertas estavam todas enroscadas, metade no chão, metade em cima do colchão, os lençóis eram panos soltos em cima da cama e até os tapetes do chão estavam desalinhados. Por fim bastava olhar para a posição da minha roupa e dos nossos corpos, para me sentir envergonhada com a situação.
-Bom dia? – Comecei a assimilar o horário. Eu tinha passado a noite ali?
-Adormeceste ontem… Eu não te quis acordar e a minha mãe concordou em dormires cá…
Voltei a ser assombrada pela sensação de esquecimento e julgo que foi visível no meu rosto, pois Gustavo tentou que eu ficasse melhor:
-Não te preocupes, a Helen sabe!
-Oh, a Helen! – tapei a cara com as mãos. Como me tinha esquecido de falar com ela? Nem sequer a tinha avisado que tinha estado até mais tarde com as outras raparigas no dia anterior, quanto mais que tinha ido visitar Gustavo. Ela devia ter entrado em desespero.
Gustavo levantou o tronco:
-Vamos tomar o pequeno almoço? Deves estar esfomeada, não jantaste ontem!
-Vamos primeiro arrumar isto, ok?
Ele fez uma careta, mas aprovou. Nunca me tinha apercebido que nos mexíamos tanto de noite para deixar um quarto praticamente destruído, mas tentei compensar a desordem. Depois, fomos os dois para a cozinha. Estava apenas Diana lá.
-Aleluia! – Exclamou – Vocês devem mesmo andar com os sonos trocados!
-Porquê?
-Nunca vi ninguém dormir tanto tempo. – Ela riu-se – Eu ainda gostava de saber o que andas a fazer de noite ultimamente, Gustavo! Estás sempre a dormir de tarde!
Ele sorriu e virou o rosto, envergonhado. Fiz-me de surpreendida:
-Gustavo, não me digas que és daqueles que passa a vida na internet!
Ele deu de ombros:
-A noite é uma criança!
Trocamos um olhar cúmplice. Se alguém desconfiasse que todas as noites estávamos no mínimo duas horas juntos, davam-nos uma pancada na cabeça!
-Pois sim! E a minha noite já terminou e eu estou atrasada para o meu turno! – Ela bufou e pôs-se a pé, limpando a sua louça do pequeno almoço – A mãe foi á avó e a Susana está a dormir. Não façam barulho, ok?
-Claro! – Respondeu Gustavo, e depois entregou-lhe a bolsa em cima da mesa, ansioso que ela se fosse embora.
-Até logo, Diana!
-Portem-se bem! – Exclamou, batendo a porta.
Gustavo não respeitou o conselho e mais depressa do que um trovão, encostou-me contra a mesa da cozinha e beijou-me freneticamente. Eu correspondi sem hesitar. Já estava com saudades.
-o que queres comer? – Questionou, enquanto trocava breves beijos comigo.
-Qualquer coisa! Sabes que eu não costumo tomar pequeno-almoço.
-Mas devias! – Ele beijou-me uma ultima vez e afastou-se para preparar a primeira refeição do dia.
Eu não era esquisita. Gostava de leite, de chá, e não me importava de beber café de vez em quando, apesar de o gosto amargo não me cativar. Alem disso, estava sempre disposta a comer fosse o que fosse, desde bolachas, cereais, torradas ou panquecas. Na verdade Gustavo era quem me servia os pequenos almoços mais completos, portanto eu era uma verdadeira namorada babada!
Depois de os dois comermos, ele levou-me para o exterior, saindo dos limites da sua casa. Eu não sabia aonde ele me levava, mas não questionei. A única coisa que me incomodava era a roupa ser do dia anterior. Só queria ir para casa para poder alterar isso, mas antes que tal acontecesse, Gustavo conduziu-me a uma casa mais antiga, muito mais pequena do que a dele, mas adornada exteriormente com heras a trepar os muros.
-Onde estamos? – perguntei.
-Em casa da minha avó.
Travei-me de repente, assustada.
Gustavo soltou uma gargalhada e voltou a puxar-me:
-Da minha outra avó! – corrigiu - E não te preocupes, mais depressa do que julgas a avó Constança vai adorar-te! Ela é sempre assim!
-Não sei se acredito nisso! – Suspirei, entrando na casa, que aparentemente estava com a porta aberta.
O interior era mais abafado e quente, e não tinha tanta luz como no exterior. A tinta branca das paredes estava nitidamente mais gasta. Havia umas molduras antigas na parede, com imagens de paisagens e uma ou outra religiosa. Se não fossem as portas, a casa era praticamente toda no mesmo sitio. A cozinha era logo a seguir á porta de entrada, que estava disposta numa espécie de sala, onde havia uns sofás, um armário e uma mesa. Á volta desse compartimento havia as outras portas.
-‘Vó! – Chamou Gustavo, entrando na cozinha.
A resposta veio do outro lado de uma entrada para um quarto amplo.
Segui Gustavo e entrei nele. Lá estava uma senhora, mais rechonchuda do que a outra avó, e também mais velha. O seu cabelo era curto, pintado, e as roupas eram as típicas de uma viúva. O seu andar era lento e arrastado, com as costas meias curvadas para a frente. A senhora estava de costas para nós, e dobrava os travesseiros de umas almofadas, colocando ao lado de uns lençóis finos de tons azulados. Gustavo abraçou-a pelas costas, e deu-lhe um beijo forte na bochecha flácida, fazendo a mulher praguejar, apesar de agradada com o cumprimento. Achei a situação muito querida e sorri.
-Avó, quero-lhe apresentara minha namorada! – Disse ele.
A sua avó olhou-o surpreendida, mas sorriu e voltou-se para trás ao perceber que eu estava ali:
-Bom dia! – Exclamei um pouco atrapalhada, enquanto me aproximava com um sorriso largo no rosto.
-É bonita! – Disse a Gustavo, num tom de voz rouco, mas engraçado.
-É, não é, avó? – Ele riu-se divertido e deu-me a mão.
-Como te chamas? – perguntou. As suas mãos tremiam sem que ela se apercebesse.
-Lana! – Respondi.
Ela arqueou a sobrancelha, surpreendida com o nome invulgar:
-Andas na escola com o Gustavo?
Ele antecipou-se:
-Anda, avó. Somos da mesma turma.
Ela mais uma vez estranhou:
-Hum, que estranho. Tu és filha de quem? Eu não me lembro de ti!
-Na verdade eu mudei-me para cá. A minha família não é daqui! – respondi.
-oh! Assim percebo! Então vieste visitar o Gustavo?
-Sim, a Susana insistiu!
A senhora riu-se:
-Ela é muito infantil para a idade que tem, mas é uma teimosa!
-A quem o diz! – Ri-me também. Gustavo, envolveu-me os ombros:
-Sabe ‘vó, a avó Constança assustou a Lana ontem!
A idosa libertou um riso rouco e divertido e dirigiu-se a mim:
-Não te preocupes, ela ás vezes é uma chata!
Achei piada á opinião e ao forma de falar da senhora. Esta era muito mais simples e agradável de conviver, sem duvida.
-Avó, precisa que eu lhe faça alguma coisa hoje? – perguntou Gustavo.
-Quero que me vás á fonte buscar água!
Ele fez uma careta:
-Agora?
-Vá lá, rapaz! Tens bom corpo, não te custa nada!
-Aonde é a fonte? – perguntei.
-A uns metros daqui! – Respondeu o preguiçoso.
-Oh, então vamos lá, eu ajudo-te! – incentivei.
Ele revirou os olhos, mas assentiu. Fomos buscar os garrafões de agua vazios e fomos ao local indicado. Sentei-me no muro enquanto esperava que ele enchesse um a um. Era uma tarefa demorada, mas eu não me importei.
Depois voltamos para casa da sua avó e Gustavo resolveu levar-me a casa por fim. Helen protestou por eu não a ter avisado no dia anterior, mas não me incomodou muito e em vez disso pediu-me para contar como tinha corrido em casa da minha “sogra”. Durante a tarde arrumamos a casa e depois vimos juntas um filme, coisa que já não fazíamos havia muito tempo. Naquela noite porem, eu e Gustavo não nos encontramos. O encontro ficou para a manhã de Domingo.
Já era costume a sua família ir á missa de manhã e depois passar na vila para ir até ao café de Lili, cumprimentar D. Teresa e falar com os conhecidos. Eu e Helen, apesar de não sermos religiosas e não fazermos questão de ir a uma cerimonia religiosa, acordávamos também cedo ao Domingo. Eu sempre disse que não queria guardar a minha melhor roupa para os Domingos ou ela deixava de me servir, mas de uma forma ou de outra, eu e a minha madrinha acabávamos sempre por estar mais “chiques” naquele dia. Depois do trajecto de carro, com o rádio num som elevado o suficiente para que tudo o resto passasse despercebido, Helen estacionou mais longe do café do que era habitual para ir ao multibanco. Eu acompanhei-a como boa “irmã” que era. Quando voltávamos para o estabelecimento que queríamos frequentar, ela foi cativada pelas ervas medicinais que uma senhora vendia na rua e travou-nos novamente. Comprou um chã de cidreira e eu convenci-a a comprar um frasco de mel. Ela deu-me as coisas e eu ofereci-me para as pôr no carro, já que tinha deixado lá o telemóvel. Tranquei-o e depois fui atrás dela para o interior do café, porem, a minhas atenções caíram sobre uma casa amarela rodeada por mato, situada num ponto mais alto do que as outras casas, tornando-a assim mais isolada. Senti um arrepio na espinha e balancei a cabeça para me livrar da má sensação que tive. Apercebi-me que Helen já tinha entrado no café e que eu estava estancada no meio da rua como uma turista perdida, portanto apressei os meus passos. Entrei no interior do café e logo levei com um sopro leve de ar que fez os meus caracóis naturais esvoaçarem. Antes de olhar para as mesas em busca de Helen, fitei o interior do balcão em busca de Liliana e quando a vi sorri e acenei, enquanto me aproximava:
-Hei, Lili! Tudo bem?
Ela acenou com a cabeça e sorriu discretamente. Algo na sua aura demonstrava claramente que havia alguma coisa a incomoda-la:
-O que se passa? – perguntei.
Ela não me olhou nos olhos, e colocou duas chávenas com meia de leite no tabuleiro, já adornado com um bolo e uma torrada:
-Nada. Eu só não tenho tempo para conversas! Não te vais sentar?
-Estás chateada comigo? – interroguei receosa.
-Não.
-Liliana!
Ela suspirou e pegou no tabuleiro, ignorando o meu chamamento:
-Vem, isto é para a tua mesa.
-Mas eu ainda não pedi nada!
Fui surpreendida por uns lábios pregados no meu rosto, mas não fui capaz de ter uma única reacção. Liliana virou-nos costas, o que me deixou aparvalhada, e dirigiu-se á minha suposta mesa. Gustavo reagiu:
-O que se passa?
-Acho que fiz algo de errado, mas não sei o quê…
-A Liliana discutiu contigo? – Ele mostrou-se preocupado.
Assenti com a cabeça, e ele entrelaçou os seus dedos com os meus, como resposta:
-Deixa lá, tu não consegues que as pessoas fiquem chateadas contigo durante muito tempo.
Sem que eu me tivesse apercebido ele já me tinha levado para uma mesa, repleta de gente, incluindo Helen que me surpreendeu ao falar tão animadamente com os mais velhos da família de Gustavo. Cumprimentei-os a todos, chateada pela forma como Liliana estava a reagir, mas sentei-me ao lado de Susana e meti conversa, enquanto Gustavo se mantinha perto de mim, a passar a sua mãos sobre a minha pele macia e se divertia a gozar com as conversas feministas entre mim e a sua irmã mais nova. Liliana, entretanto, veio servir-me a mim e a Helen, mas eu vi-me na obrigação de me levantar da mesa ao vê-la tão indiferente a mim. Segui-a apressada e segurei-lhe o braço antes de ela entrar na zona proibida a pessoas estranhas ao serviço.
-Liliana! Será que me podes explicar o que se passa?
Ela sorriu cinicamente:
-Nada! Estou apenas aborrecida, hoje!
Fiz um ar de desgosto e deixei os meus ombros caírem:
-Lili! - choraminguei - Vá lá, sabes que não me enganas, e ultimamente andas muito afastada de mim…
-Não ando nada. Tu é que andas demasiado ocupada!
-Achas que passo demasiado tempo com o Gustavo? – Essa questão deixou-me perplexa, até porque nós os dois esforçávamo-nos para, durante o tempo de aulas, nos mantermos relativamente afastados de modo a conseguirmos manter a relação com os amigos. Aliás, o nosso namoro era vivido muito mais durante a noite, do que durante o dia, não envolvendo loucuras, se é que se entende!
-Não! – Ela negou – Claro que não. Estou feliz por vocês, sabes bem disso!
-Mas há algo em mim que te incomoda, nestes últimos tempos. Gostava de saber o que é, para poder melhorar isso!
-Olha, tu queres saber? – Ela fez uma careta e suspirou – Eu estou assim porque ultimamente és muito amiga da Letz!
Acho que durante um minuto fiquei a olha-la de boca aberta, e a única coisa que conseguia ouvir dentro da minha cabeça era o eco e os grilos a cantar! Quando finalmente consegui fazer alguma associação ao que ela me tinha dito, comecei-me a rir que nem uma louca. Será que as pessoas de quem eu mais gostava eram todas ciumentas?! Sem duvida!
-Lili! – Abri os meus braços e abracei-a com força – Sua tola, é só isso?! E eu a pensar que tinha feito alguma coisa de mal!
Ela não respondeu e revirou os olhos:
-Pensei que estivesses do meu lado…
-Em quê?
-No que te contei… Sobre mim e ela.
Sorri e abanei a cabeça:
-Ai, Lili… Eu não posso estar do lado ninguém, porque essa historia nem tem lados! Sabes, tens de apagar esse episodio da tua mente, pelo menos no que toca a culpar a Letícia. – Ela analisou-me, céptica – Na verdade, acho que se tentares esquecer o que se passou, até podes vir a gostar dela, como aconteceu comigo e com o Gustavo!
Liliana uniu as sobrancelhas e abanou a cabeça em sinal de incredulidade, virando-me costas para regressar ao seu trabalho agitado.
-Tu estás louca! Adora-la á vontade! Eu quero lá saber. Lambe-lhe as botas, não me interessa! Afinal, o que sou eu? Uma tonta que está sempre errada?! Sempre a má da fita!
Revirei os olhos e entrei com ela para o outro lado do balcão, para a travar:
-Hei! Não podes estar aqui!
-Hei! Eu não quero saber!
-Olha Lana, se gostas assim tanto da Letz – Nesse momento percebi que o apelido “Letz” tinha uma carga bastante negativa para as pessoas – Vai ter com ela, divirtam-se e não me chateies!
Agarrei o seu pulso de repente e roubei-lhe um beijo na cara. Ela fez um esgar, mas eu não me senti rebaixada e falei:
-Caso nunca te tenha dito, tu és a melhor amiga que eu fiz nesta cidade! – Ela corou e evitou sorrir, sem sucesso - Por muitas pessoas interessantes que existam por aí, tenho a certeza que nenhuma será como tu! Eu posso dar-me bem com a Letícia, tentar proteger a Rebeca, mas no final, é contigo que eu me quero divertir e desabafar! Por favor, Liliana, acho que já sabes tanto sobre mim e já passamos tanto juntas que é horrível que tu estejas chateada comigo!
Ela sorriu pelo canto dos lábios e olhou para o tecto, fazendo-se de difícil.
-Sabes que o teu pequeno almoço já deve estar frio, certo?
Ri-me feita tonta:
-Pois… - Boa lembrança - Dane-se! Fazemos as pazes?
Ela suspirou e abriu os braços:
-Oh, está bem…
Abracei-a levemente.
-E podes tentar dar-te melhor com a Letícia?
-Não!
-Raios!
Ela riu-se comigo e depois eu soltei-a para ir comer.
Claro que tive direito a outra chávena de leite.
Sentei-me ao lado de Gustavo. Alguns dos que estavam na mesa olharam-me sem saber o que se tinha passado, mas Gustavo deu-me um beijo na face, prevendo o sucedido:
-Eu não disse que não conseguias manter as pessoas muito tempo chateadas contigo?
Mordi o meu bolo delicioso:
-Adivinha a situação!
-Letícia? – Palpitou.
-Bingo!
Trocamos risos cúmplices, mas as pequenas palavras esclareceram os restantes, em parte, já que poucos sabiam dos conflitos entre Letícia e metade da população escolar.
Durante a tarde eu e o Gustavo estivemos juntos e fomos ao cinema ver uma animação. Ele sabia que eu adorava, portanto, levou-me com ele para ver o filme, todavia, todos os casais sabiam que o cinema era um lugar, no mínimo, tentador, pelo que só metade do filme ficou na minha mente.
Como na noite anterior, não nos encontramos na cachoeira e esperamos até segunda feira para ficar novamente juntos.
Naquela manhã a aula de inglês correu como tantas outras. Eu fingia-me de atenta, fazia os exercícios com pressa e passava o resto da aula a analisar as minhas unhas ou a rabiscar a margem do caderno com ilustrações da minha mente.
Ao analisar os restantes alunos era-me possível verificar que se dividiam em três grupos: O primeiro era o dos alunos que veneravam a disciplina; o segundo era aquele em que eu estava inserida, onde os alunos não prestavam atenção e sabiam o suficiente da matéria para tirar positiva na disciplina; e o terceiro era composto por desgraçados que quase dormiam em cima dos livros por não entenderam nada do que a professora dizia.
Atentei em Liliana, longe de mim. Ela parecia normal por fora, calma e ainda assim simpática e animado com os amigos, no entanto, eu sabia que ela ainda estava ligeiramente desconfortável comigo devido á minha amizade com Letie. Ao observar esta última, porém, eu chegava á conclusão que elas poderiam facilmente ser amigas se esquecessem o passado. Isso levava-me a outra questão: Recentemente, tinha-me apercebido que Letícia não odiava Liliana como esta a odiava a ela, e isso fez-me crer que talvez a loira não tivesse conhecimento do pseudo-namoro que Lili havia vivido com o Romeno. Por essa razão eu tinha de intervir. Só assim eu e Lili podíamos ficar em paz e Letícia ganhar outra amiga. Eu não podia simplesmente contar a Liliana o que acontecera na realidade com Letícia, mas podia esclarecer a amiga de Gustavo quanto a isso, e, quem sabe, tornar a relação entre nós mais cómoda.
Sim, era isso que eu queria fazer.
Esperei que o toque da campainha soasse, e antes que alguém viesse ter comigo, arrastei Letícia, literalmente, para perto dos cacifos.
-Letie, podemos falar?
Ela estranhou a questão:
-Claro, sobre quê?
-Bem, não sei como te dizer isto… - e não sabia mesmo. Cheguei á conclusão que a abordagem tinha sido directa demais.
-Aconteceu alguma coisa? - Inquietou-se – É com o Gustavo?
-Não – Abanei a cabeça –, na verdade… bom… É sobre ti…
-o que é que eu fiz?
-Nada, é só que…. Ultimamente a Lili anda mais afastada de mim e eu… E eu sei que isso se deve ao facto de nós sermos mais amigas.
-Oh, já percebi. A Liliana nunca gostou muito de mim…
-Nem sempre, julgo… É sobre isso que quero falar…
Fui cortada de repente:
-Hei, Lana, queres vir connosco ao bar? – perguntou Natacha acompanhada por Lau, Lili e Verónica.
Mordi o lábio e olhei Letícia de relance, mas aceitei o convite:
-Desculpa, Letícia, depois falamos.
Ela aceitou mas eu notei a sua preocupação antes de virar costas com as outras.
Abracei Lili mal ficamos menos rodeadas de gente.
Ela enrijeceu o corpo como resposta e eu dei-lhe um beijo forte na cara:
-Parvalhona! – trocei.
Ela não fez cara bonita, mas eu nem liguei, e envolvi-me na conversa que as outras produziam.
Fizemos o percurso até ao bar da escola, repleto de gente, como sempre, e quando lá chegamos fomos fazer os nossos pedidos. Como fui a ultima a ser atendida, tive de ficar á espera que me trouxessem o lanche, enquanto elas se foram sentar numa mesa. Foi quando me apercebi de uma presença familiar desconfortável, ou melhor, duas.
-Olá Lana! – cumprimentou Rui, com as voz grossa carregada de cinismo.
A sua adorada prima sorriu, vitoriosa, o que me inquietou.
-olá… - murmurei, sem os olhar nos olhos, ansiando cada vez mais por sair dali.
-Está tudo bem? – perguntou Joana.
Revirei os olhos e suspirei:
-O que é que vocês querem?
-Ora, Lana, não precisas de ser tão rude! – Troçou o rapaz rindo animado.
A situação estava estranha.
-Sabes, ultimamente temos estado muito animados. É que, sabes, não precisamos da tua ajuda.
Olhei-a num reflexo rápido:
-Ajuda para quê?
-Bem, digamos que já descobrimos tudo. Bate palmas, já não te vamos fazer perguntas incomodas do tipo “quem é o Vampiro?”!
Foi como se tivesse levado uma facada no peito. Algo nas suas auras deixava-me na duvida se o que diziam era realidade ou não, mas toda aquela determinação e orgulho, inquietaram-me.
-Isso é um absurdo. Vampiros não existem…
Rui sorriu e pegou no refrigerante que uma funcionaria trouxera para ele:
-Estás quase certa.
-Depois de hoje haverá menos uma, e não faltará muito até que não existam mesmo. – Joana completou.
Olhei-a com uma sensação de asfixia dentro de mim, e depois mirei em redor. Rebeca continuava a faltar e nesse momento o pior passou-me pela cabeça. Talvez eles a tivessem descoberto. Talvez a tivessem confrontado há semanas e ninguém soubesse. Ou talvez tivessem acabado de descobrir e se preparassem para avançar.
-vocês… - A voz saiu num fio e eu tive de tossir para limpar a garganta – Não… Eu… A Rebeca não é quem vocês procuram… Ela…
-Rebeca?! – Joana abriu um largo sorriso perante o meu erro – Obrigada, Lana! Pelos vistos resultou!
Abri a boca aflita e tentei dizer algo que me desmentisse, mas as palavras ficaram mudas.
Rui envolveu a prima pelos ombros e riu-se provocatoriamente:
-Hei, Ju, a Rebeca não é aquela anoréctica?
-Que tem andado a faltar? – A prima retribuiu o riso.
Eu queria falar, combate-los, fazer qualquer coisa, mas fui fraca.
Joana separou-se de Rui e afastou-se:
-Já sabemos onde ir hoje! – Exclamou afastando-se.
Abanei a cabeça, que subitamente me começou a doer, e murmurei algo:
-Rui, não… Não façam isso! – Pedi.
Rui sorriu, impiedoso, e afagou-me o cabelo, como se eu fosse um cão sarnento antes de ser morto.
-A tua amiga já era!
Os meus olhos encheram-se de lágrimas e a respiração começou a sair aos solavancos, enquanto eu me tentava manter segura á sua frente, combatendo as tonturas que percorriam todo o meu ser.
-Não faças isso! – Implorei, com voz mais alta, captando algumas atenções – Por favor!
Ele deu de ombros, um gesto completamente grotesco para mim. As lágrimas escorreram pelo meu rosto e eu tapei a cara envolta por um desespero indescritível que me deixou sem força nas pernas, sem visão, sem audição e sem qualquer órgão sensorial a funcionar na perfeição. Esfreguei a minha pele e o meu cabelo, a chorar sufocada, mas ainda assim com o som facilmente perceptível para muita gente, que me olharam estupefactos, sem saber o que fazer, até mesmo Rui se mostrou atrapalhado.
-Tem de ser! – Ele disse, enervado com a minha reacção.
-Não! Ela não fez mal a ninguém! – solucei olhando-o nos olhos, respirando com tanta dificuldade quanto um asmático durante uma corrida. A forma como o dióxido de carbono saia tão rapidamente do meu organismo fez-me ficar completamente fraca e em conjunto com a visão turba, fez-me tombar no chão sem forças. Pessoas correram até mim, incluindo aquele que mais me protegia. Gustavo empurrou todos os outros e baixou-me ao pé de mim, sacudindo os meus ombros. A minha audição estava fraca mas eu ouvi-o chamar-me, aflito, e depois a levantar-se na direcção de Rui e a gritar com ele. O idiota não reagia, e Gustavo, possesso, esmurraçou-o.
Eu apaguei de vez.
***
Entreabri os olhos com dificuldade. Encontrava-me num local iluminado, de paredes brancas e armários de metal , cheios de remédios lá dentro. O cheiro forte, e no entanto pouco desagradável, não me deixou qualquer duvidas quanto ao local onde eu estava. A enfermaria era pequena. Havia uma secretaria, dois armários e uma maca junto á janela, mesmo há beira de uma balança.
Levantei o meu tronco. A minha costela esquerda estava dorida por causa da queda.
A porta de fora abriu-se, mostrando-me Liliana seguida de Letícia, que ficaram bastante surpreendidas ao ver-me sentada.
-Lana! Tu estás bem? – Liliana perguntou, ignorando a presença de Letícia.
Eu não sorri a nenhuma e olhei pela janela em silencio, tentando esconder as lágrimas que me nasciam nos olhos.
-O que te aconteceu? – Letícia quis saber, apreensiva.
-o Gustavo? – Inquiri, sem desviar a minha atenção da janela, onde algumas nuvens negras, começavam a surgir. Aquilo parecia um mau pressagio.
-Ele e o Rui tiveram de ir ao director. – Esclareceu, Lili, sentando-se ao meu lado.
-Acho que não se vão livrar de um castigo. – Completou Letícia.
-Ele está bem? – Questionei fitando-as, preocupada.
-Sim, a enfermeira já cuidou dos ferimentos.
-Ferimentos?! – Levei a mão á cabeça, e mordi o lábio, carregada de medo.
-Não te preocupes. Foram só umas nódoas negras!
-boa. – suspirei, como se aquilo me fizesse sentir melhor – Eu estive muito tempo desmaiada?
-uns minutos. Tocou para dentro agora mesmo, mas nós temos desculpa para chegarmos atrasadas! – Referiu Liliana – Podes-nos explicar o que aconteceu?
-Não.
Elas entreolharam-se após uma resposta tão seca e determinada. Liliana, todavia, pareceu conseguir fazer a associação entre Rui e Rebeca e fez uma careta azeda.
-Bem… - Letícia deu breves passos no compartimento - O Gustavo vem já, de qualquer modo, e nós temos de ir. Ficas bem sozinha?
-Claro.
Liliana levantou-se e ambas se aproximaram da porta, até que algo na minha consciência reagiu e me mandou para-las:
-Vocês…? - Elas olharam para mim, com a maçaneta na mão, á espera que eu dissesse algo – Podem conversar…? Sobre o passado?
Liliana revirou os olhos e abriu a porta, revoltada. Letícia manteve-se parada a olhar-me, confusa, e não impediu Liliana de sair da enfermaria.
-que passado? – Interrogou a jovem.
-O romeno.
Ela descolou os lábios finos, desentendida:
-porque é que eu haveria de falar com ela sobre isso?
Olhei para as minhas perna de olhar macambúzio e suspirei:
-Porque é preciso… Letie, não te vais arrepender, prometo. – olhei-a nos olhos – a Liliana precisa de ouvir a verdade mais do que qualquer pessoa. Mais até mesmo do que eu precisei. Acredita em mim!
Ela não teve tempo de dizer nada.
Gustavo entrou enfermaria a dentro, com uma das maças do rosto levemente arroxeada e o maxilar esfarrapado.
Tapei a boca com a mão e levantei-me da maca, numa corrida lenta até aos seus braços fortes. Ele abraçou-me fortemente e beijou-me a testa.
-Desculpa… - Lamentei.
Ele abanou a cabeça e bufou. Apercebi-me que Letícia saiu nesse momento.
-O que é que aquele sacana te disse?
Afastei o meu rosto dos seus ombros e levantei a cara até poder observa-lo. Depois humedeci os lábios e olhei para o chão:
-Onde é que ele foi?
-Não sei… Saiu da directoria com pressa e vi-o a sair da escola com a prima. Parecia que tinham algo de muito importante para fazer.
Não consegui controlar e comecei a chorar silenciosamente.
Gustavo ficou perturbado, e tentou limpar-me o rasto de agua do rosto, em vão.
-Lana, conta-me o que se passa, por favor! – Ordenou – Se ele te fez algum mal, eu juro que…!
-Não! Ele não me fez nada, directamente… - Lambi os lábios secos – Eu preciso da tua ajuda.
Ele assentiu, sério.
-Tu sabes onde a Rebeca mora?
Ele pareceu confuso com a questão:
-O que é que isso tem a ver?
-Por favor, Gustavo! Responde, simplesmente!
Ele bateu o pé, agitado e olhou para os lados, pensativo:
-Sim… - murmurou confuso, e sobre o meu olhar de expectativa começou a situar-me - No Gerês, há uma casa situada mais acima do que as restantes, envolvida por muitas arvores, pintada em amarelo torrado. – Nem era preciso dizer mais nada. Tinha-a visto no dia anterior antes de entrar no café de Lili - Não sei se alguma vez reparaste nela, mas á noite costuma sobressair-se porque parece mais iluminada. Se subires por um caminho íngreme, chegas lá. É a casa dela. Só lá fui umas duas vezes, e já se passou algum tempo, mas se tiveres sorte encontras lá a Rebeca.
-Obrigada, obrigada! – Exclamei apertando-o nos meus braços.
Ele segurou-me com firmeza, antes que eu tentasse fugir:
-Agora diz-me porque precisas de saber!
-Eu não te posso contar!
Ele ficou a encarar-me, céptico:
-O que é que me estás a esconder?
-Não é nada sobre nós, ok?! Eu não te vou dizer nada porque não te diz respeito, desculpa!
Tentei fugir dele, mas fui seguida pelos corredores já silenciosos da escola.
-Lana, eu não te estou a conseguir entender! Onde é que tu vais com tanta pressa?
-A casa da Rebeca! É uma questão de vida ou de morte!
-o quê?! – Não devia ter dito aquilo.
-Não te preocupes!
Saí do bloco de aulas, com pressa e desci o grande lance de escadas o mais rápido que consegui.
As nuvens estavam cinzentas como há semanas não estavam, mas isso não me tirava a coragem de fazer o que tinha de ser feito.
Gustavo agarrou-me firmemente pela coxa do braço:
-Lana, lembra-te do que me prometeste!
Parei de andar e voltei-me para ele. Segurei a sua face com as minhas mãos e fixei-o:
-Não me vai acontecer nada! – Assegurei – Acredita em mim, está bem?
-Eu quero saber o que se passa…
-Mais tarde! Diz á professora que eu me senti mal e me fui embora. Eu não posso perder tempo!
-E como vais para lá? A vila fica longe daqui!
Tirei o casaco fino de malha e entreguei-lho, deixando as minhas costas completamente exibidas.
Ele olhou para o meu casaco e depois para mim, receoso, com um ar que me deixava com vontade de abraça-lo e nunca mais me afastar. Segurei o seu rosto ao de leve e enquanto os meus braços envolviam mais o seu pescoço, entreguei-lhe os meus lábios num beijo longo, ao qual ele reagiu de imediato, abraçando-me a cintura com força:
-Não vás…! – Sussurrou ao meu ouvido mal afastamos as nossas bocas.
-Desculpa… - respondi-lhe, passando os meus dedos no seu cabelo para o afastar da sua testa, e depois dei um passo de recua e fiz com que ele me soltasse num deslize de mão sobre a minha roupa - Não há perigo… por agora! – Ele travou a respiração por segundos após ouvir aquilo, e então eu tive mesmo de sair dali, antes que ele me impedisse - Tenho de ir.
Virei costas e corri o mais rápido que consegui.
-Lana! – Ela gritou para que eu parasse, mas não funcionou.
Gustavo correu atrás de mim, tentando alcançar-me. Eu cerrei os dentes e sem lhe dar hipótese acelerei os meus passos. Quando as escadas estavam a chegar ao fim as asas abriram numa fracção de segundo e nem precisei de as bater para sair do chão. A velocidade da minha corrida foram o primeiro impulso para levantar voo e o resto foram batimentos rápidos que me fizeram ser tão rápida como uma águia a chegar á vila. O meu corpo sobrevoou toda a barragem e depois camuflei-me por entre as plantas, para não ser vista quando chegasse á vila.
A tal casa era fácil de chegar, especialmente via aérea. Mal vi o caminho deserto dei um salto para alcançar o chão. Fechei as asas por cautela e observei a casa. Por algum motivo fazia-me lembrar a casa de Sabrina, a bruxinha adolescente, o que era ainda mais bizarro do que o facto de eu estar á procura de uma vampira.
Engoli a seco, e dirigi-me á porta principal, de madeira trabalhada. Cerrei a minha mão e elevei-a até perto do objecto que me impedia de entrar na casa. Mantive-me parada em frente da porta com a mão apontada a ela, e concentrei-me naquilo que podia sentir. A energia densa era estranhamente agradável, apesar de aquele rasto de crueldade se manter activo no ambiente. Inspirei fundo e dei três pancadas na porta.
Tudo parecia ainda mais silencioso do que antes. Até os pássaros se calaram. Isso deixou-me furiosa, e por isso bati na porta com tanta força e tantas vezes que até me doeu. Ao ver que ninguém me respondia gritei, enquanto atacava a porta com as minhas costas:
-Rebeca! Abre esta porta! – Berrei – Eu sei que estás aí! É urgente!
Continuei a dar pancadas e depois chutei a madeira, irritada por sentir do outro lado da porta a energia vil de Rebeca a interrogar-se sobre a minha presença.
Descolei-me daquela entrada e tentei achar outra forma de entrar. Estranhamente todo o ambiente parecia fechado, quer pelas persianas, quer elos vidros das janelas, e até mesmo por cortinas escuras, na janela mais alta da casa.
Benzi-me, na esperança de não me arrepender do que ia fazer, mas já que as tinha, então ia usa-las! Exibi outra vez as asas e alcancei a única janela aberta da casa. Mal os meus pés tocaram o soalho escuro, vagueei naquele quarto vazio e procurei a forma de chegar à sua saída para procurar Rebeca pela casa, ignorando qualquer aspecto decorativo do seu lar. Desci o lance de escadas que me apareceu primeiramente, e vi uma sombra alta numa das paredes. Isso fez o meu coração palpitar com mais força e eu parei bem a meio do caminho. A sombra andou agora para o lado oposto e a minha audição permitiu-me ouvir um rosnar mudo e abafado.
-Rebeca? Sou eu, a Lana! – Exclamei.
Refiz o meu caminho, esperançosa, e segui os meus instintos entrando na primeira porta do piso inferior que achei. Conseguia decifrar uma espécie de passos de corrida a tentarem fugir-me, com grande relutância.
-Rebeca! Pára! – Gritei – Eu tenho algo para te avisar! – Ninguém respondeu, portanto continuei – Rebeca! O Rui e a Joana – Esperei uma reacção, mas nada – eles podem aparecer aqui a qualquer momento. Já desconfiam, ou melhor, sabem, que tu és… tu!
Finalmente escutei algo esclarecedor. Um verdadeiro rugido enraivecido. Parecia de sofrimento e agonia, e ao mesmo tempo de raiva. Senti uma rajada de vento por perto e nesse momento percebi que eu era louca. E porquê? porque ainda não tinha fechado as asas e só podia ser esse o motivo de tanta agitação por parte da minha colega. Dei uma cacetada em mim mesma e fechei as asas. Esperei alguns segundos, os suficientes para me deixarem louca, e fiz o ultimo chamamento necessário:
-Podes vir!
Ouvi um berro das escadas:
-Tu és louca ou quê?!
Olhei para o cimo da escadaria e vi o que se assemelhava a uma forma feminina esbelta. Inicialmente não percebi quem era por causa da escuridão da casa, mas a voz era inconfundível, especialmente irritada.
-Rebeca?
-O que fazes aqui? – Ela descia as escadas devagar, coma respiração presa e relutante.
O meu olhar e o seu cruzaram-se num momento que pareceu infinito, e logo após eu observei o seu corpo e o seu rosto. Estava diferente. As formas acentuadas, e a face oval perfeita. Nenhum sintoma de magreza exagerada como era habitual. Pela primeira vez pareceu-me uma rapariga completamente normal e saudável, o que me fez sorrir.
Ela estranhou o meu olhar e desviou a sua íris estranhamente mais avermelhada de mim, acelerando os passos. Era a minha vez de lhe responder.
-Eles devem estar a vir para cá neste momento. – Referi.
-Idiota! – Gritou – Eu sabia que nunca te devia ter contado a verdade!
-Bolas, Rebeca! Eu vim cá para te ajudar e tu ages assim!?
-Tu deste com a língua nos dentes! – Ela agora estava frente a frente comigo.
-Foi sem querer! Eles enganaram-me. Fizeram-me acreditar que já eras, e com as tuas faltas na escola eu não duvidei do que diziam e soltei o teu nome sem intenção!
-Perfeito! Achas que a tua desculpa me deixa melhor!? Acabaste de me desmascarar!
Agarrei-lhe o pulso. A minha mão quente em contacto com a sua pele gelada deu choque, mas eu não a soltei até me habituar ao toque:
-Basta sairmos daqui! – Vamos para um lugar seguro!
-“Vamos”?!
-Sim, vem! Aqui é que não estás em segurança! – Exclamei, puxando-a de reboque.
-Eu não preciso que te preocupes comigo! – Exclamou, em fúria.
-Isso não me interessa – Respondi – Meti-te nisto, portanto também te tiro!
Voltei a segura-la e puxei-a. Sabia que bastava querer para ela me partir um braço e não me acompanhar, mas ela apenas reclamou:
-Eu não posso!
Revirei os olhos e abri a porta de entrada. Mal os raios de sol tocaram a sua pele, foi como se alguém tivesse colado a mão num fogão em chama. Ela ficou em carne viva e por momento pareceu-me ver fumo sair de si. Ela entrou dentro de casa, deixando-me espaçada sem saber o que fazer.
-Rebeca? O que te aconteceu? – Inquiri ruborizadamente.
Ela não respondeu e fitou a pele que regressava ao normal.
-Foi por isso que não regressaste á escola?
Ela acenou afirmativamente:
-Digamos que a vida é feita de escolhas. E após serem feitas não há volta a dar…
-O que queres dizer?
Senti um aperto no peito.
-Bebi sangue humano… - Murmurou, constrangida.
As lágrimas vieram-me aos olhos, num misto de desilusão e medo. Ela continuou:
-Pelos vistos a minha abstinência tinha o beneficio de me manter imune aos raios solares. A partir do momento que bebi sangue fresco, fiquei mais forte, o meu corpo voltou ao aspecto que eu tinha antes de morrer, enfim… Pensei que fosse algo bom, até me aperceber dos problemas de pele.
Virei os rosto, enraivecida, e deixei uma lágrima rolar pelo meu rosto:
-Porquê? – foi a única coisa que consegui dizer – Tu estavas tão bem a ser… Boa. – Olhei-a de soslaio - Tinhas logo de me tirar os motivos que eu tinha para te querer ajudar? Porquê?
Ela deu de ombros:
-Porque estava por perto, ainda estava quente e cheirava bem.
Cerrei os punhos, com uma vontade súbita de lhe arrancar a cabeça:
-Tu matas-te alguém?! – Gritei furiosa.
-Não! – Respondeu para minha surpresa – Morreu no preciso momento em que eu passava por perto. Não fiz qualquer ferida naquele corpo, apenas o sequei, mas não me arrependo. Nunca me senti tão saciada como naquele momento.
-Então tens-te mantido firme desde aí?
Ela não respondeu.
-Como devo encarar esse silêncio?
Ela cerrou os dentes:
-Eu não matei ninguém!
-Então como estás assim forte?
-Roubei o sangue do hospital!
Abri a boca chocada:
-Tu o quê?!
-Bolas, deixa-me em paz! Tu não tens nada a ver comigo!
Senti o ambiente adensar subitamente e Rebeca fez-me ficar calada enquanto parecia concentrar-se em algum som vindo do exterior.
-Eles chegaram… - Disse eu.
Ela cerrou os dentes e pela primeira vez vi-a atrapalhada. Segurei a sua mão com leveza:
-Corre! O sol não está em todo o lado!
Ela levou os olhos das nossas mãos para mim e acenou. Naquele momento esquecemos aquilo que tínhamos acabado de dizer, e corremos as duas para o primeiro quarto em que eu entrei. A janela alta estava aberta ainda, e eu espreitei através dela. Um carro preto estava mal escondido perto das arvores e vi Joana avançar, com uma arma encostada ao peito.
Eu e Rebeca trocamos um olhar cúmplice:
-consegues saltar sem que te vejam?
Ela assentiu.
-Óptimo, vais á frente. Eu vou por cima e controlo-os por ar.
A vampira arqueou a sobrancelha, espantada com o que eu tinha acabado de dizer, mas subiu para o peitoril da janela. Esperou que Joana dobrasse a esquina da casa e saltou como um gato, tocando o chão duro como se de almofadas se tratasse. Estava sombra naquele local.
Ela levantou o olhar até mim e eu abri as asas o mais que pude. Tinha chegado á conclusão recentemente que cada uma delas tinha exactamente o tamanho do meu corpo, pelo que a visão dela lá em baixo devia ser algo surpreendente. A partir dali eu guiava.
Lancei-me de cabeça na direcção do chão, e quando faltavam uns metros para o atingir bati as asas com tanta força que voltei a ficar paralela á janela alta. Verifiquei a coordenação dos nossos “inimigos” e voei na direcção livre para que Rebeca me seguisse em terra. Quando ela se expôs ao sol, parecia uma verdadeiro presunto a ser fumado, pelo que apercebi-me que ela teria de fazer muitas paragens para recuperar o fôlego até chegarmos ao local ainda indefinido.
Tentei guia-la pelo centro da mata perto da sua casa, e vi que rapidamente nos afastávamos do perigo que Rui e Joana representavam para nós.
Rebeca era rápida. Mais que um carro talvez, e eu consegui-a sê-lo também, mas cada vez que eu descia um metro ela ficava mais descontrolada por minha culpa, e por isso eu não sabia como descer até ela e saber para onde íamos. Tentei dar-lhe um sinal para subirmos a serra. Não seria difícil para ela e se eu chegasse lá antes, então podia fechar as asas e falar com ela.
Dei lhe sinal para ela me seguir e aumentei a minha velocidade. Ao ver uma zona onde rochas estavam sobrepostas de forma aparentemente artificial, apesar de ser obvio que aquilo era apenas uma obra da natureza, eu aterrei a pique, e quando estava a três metros do chão fechei as asas e deixei-me cair sem qualquer protecção. Obviamente que a queda não ocorreu sem danos. Fiquei com uma ardência na canela direita e percebi que não ia escapar a uma nódoa negra. Sentei-me na erva á sombra de uma grande rocha, e em menos de 10 segundos, Rebeca surgiu e deu uma corrida até mim, enquanto o seu corpo já avermelhado fumegava. Ela estava com a respiração presa e encostou-se á rocha, tentando voltar ao normal, todavia, mesmo não estando ao sol, toda aquela luminosidade era dolorosa para si. Ela apercebeu-se que eu massajava a minha perna e sentou-se ao meu lado:
-Sentes-te bem?
A minha resposta foi positiva:
-E tu? Sentes-te bem aqui?
Ela foi franca:
-Não. Mas é melhor do que estar ao sol, e sinceramente já sentia falta de ver como o dia é bonito.
Sorri, calmamente e contemplei o céu. As nuvens negras continuavam a agrupar-se, escuras e horríveis, o que me fazia sentir completamente o oposto de Rebeca em relação á beleza daquele dia. Uma nuvem deslocou-se para perto do sol, e tapou metade dele. Toda a paisagem escureceu levemente, mas no fundo, era isso que precisávamos.
-Vai chover… - Ela disse, encolhendo as pernas e prendendo os joelhos entre os braços.
-Eu sei… - murmurei.
Ela fixou-se em mim, apesar de eu não a olhar nos olhos e depois suspirou, levemente chateada.
-Parece que já controlas bem as asas.
Abanei a cabeça em confirmação. Ela continuou:
-Costumas voar muitas vezes?
-Não. – Respondi seca.
Ela não respondeu e olhou o horizonte, cada vez mais sombrio. O silencio começou a tornar-se incomodo mas eu não sabia o que dizer. Ficamos durante uns minutos, sentadas encostadas á rochas, e as primeiras gotas de agua caíram, quase como orvalho. Rebeca estava a ficar pálida novamente e soltou uma lufada de alivio.
Ela fez-me encara-la, pacificamente:
-Desculpa… - disse. Tentei não sorrir, mas o pedido soube-me bem. – Eu sei que não devia ter bebido sangue… humano… Mas eu estava fraca e foi mais forte que eu. Depois da primeira vez é difícil parar, e apesar de eu não querer matar ninguém, só o sangue humano é que me controla, por isso roubei o banco de sangue da cidade… Eu nunca o faria se tivesse opção.
Baixei a cabeça e suspirei. Eu não podia julga-la, não tendo ela uma natureza que não escolheu. No fundo, sabia que ela era uma espécie de alma gémea minha, mas distorcida.
-Rebeca… Eu lamento… Juro! Meti-te em sarilhos, sem querer, mas meti. – mordi o lábio, desiludida comigo mesma – Ás vezes sou muito ingénua. Acho que mesmo que eu consiga captar os sentimentos dos outros, sou facilmente enganada. Juro que se soubesse quem te transformou, se tivesse força suficiente, destruía essa criatura… Como eu a odeio.
A chuva começou a cair com mais pressão, mas não me incomodou.
-Porquê…? Porque é que tentas sempre ver o que eu tenho de bom e ajudar-me, mesmo quando faço mal?
Ela ficou á espera que eu respondesse, enquanto eu tentava arranjar uma boa forma de lhe explicar algo que nem eu compreendia ao certo.
Virei o meu rosto para olha-la e tentei dizer algo:
-Talvez… Talvez porque te vejo como uma espécie de irmã… - Ela ficou surpreendida com a resposta – Sei que se calhar não farias o mesmo por mim, mas isso não me importa, porque, de algum jeito, eu quase te amo. Somos duas aberrações, e isso devia afastarmo-nos por sermos tão diferentes, mas algo em ti diz-me que o sangue que corre em nós é o mesmo: Demoníaco e perigoso.
Rebeca inclinou o seu corpo para mais perto do meu e ficou frente a frente comigo. Os seus olhos castanhos exibiam os pigmentos encarnados nas reentrâncias da sua íris, mas não havia como negar que eram uns olhos bonitos daquela cor.
-Um dia vou salvar-te a vida.
E antes que eu pudesse responder, ela cercou-me os lábios com os seus. O meu coração bateu descompassado pelo medo e eu tentei afastar-me e fugir, só que ela era forte, e fez-me beija-la também ainda contra minha vontade. Sentir a sua boca gelada contra a minha, porem, era mais agradável do que eu julgava, e apesar de eu não querer fazer aquilo deixei que ela o fizesse, na esperança de acabar mais rápido.
“Eu vi-a voar.” Escutei uma voz feminina familiar pronunciar na minha mente.
Uma voz masculina respondeu “Para onde?”
“Não sei, mas já dominava bem as asas. Pelo que percebi ela tinha passado mal na cafetaria e desmaiou”
“Isso pode ser perigoso para nós. Não sabemos que parte a domina.”
Dei uma cacetada no peito de Rebeca para ela me soltar. As vozes continuaram a falar, mas o medo que elas me transmitiam deixou-me confusa e não consegui entender mais o que disseram. Quando Rebeca se afastou de mim, apercebi-me que não era mais ela. Os seus dentes caninos estavam mais afiados e prestes a caçar-me. Dei um salto para fugir dela, mas a única coisa suficientemente rápida para que eu o fizesse eram as asas que eu não hesitei em abrir. O problema foi que isso a deixou ainda mais sedenta e ela abriu a boca pronta para alcançar o meu pescoço. Eu dei uma batida para escapar, no entanto, a agilidade da vampira fez com que ela agarrasse a minha asa esquerda com a sua boca e eu gritei, quando sangue começou a banhar as penas brancas. Tive, felizmente, força suficiente para bate-la novamente e isso fez com que Rebeca me soltasse de raspão enquanto eu subia uns metros de altura, na esperança de ela não me alcançar!
-Rebeca, pára! – Gritei lacrimosa, tentando controlar o meu corpo que latejava.
Ela rosnou e saltou como um animal para cima da rocha onde anteriormente estávamos encostadas.
Sabia que se fugisse ela voltaria ao normal, mas não conseguia deslocar-me na perfeição pelo ar, para alem de que a chuva agora violenta, não me deixava permanecer apta para voar.
Tentei bater as asas para sair dali pelo menos uns metros, e assim fiz, tentando manter o meu corpo hirto por causa da asa magoada que não correspondia aos movimentos que eu queria realizar. Rebeca tentou saltar para me alcançar mas eu movi-me a tento e ela caiu no chão. As minhas lágrimas confundiam-se com a chuva, mas a minha visão continuava atenta a Rebeca, com um certo desdém e tristeza:
-Um dia vais salvar-me? Vou esperar por esse dia…! – Exclamei, desgostosa.
Ela encostou-se á pedra e arfou, tentando trepa-la.
Eu fiz de tudo para me ir embora dali.
Voei com dificuldade por cima da floresta , tentando fugir o mais rápido possível para que ela não me alcançasse.
A asa esquerda por vezes não batia e eu corri duas vezes o risco de cair, mas continuei a lutar para chegar até algum lugar habitado. As dores infernais do meu corpo não paravam e o sangue jorrava da minha ferida como uma torneira, fazendo-me perder o controlo da situação. Costuma-se dizer que á terceira é de vez, e foi. A asa travou de repente e eu descontrolei o meu corpo, sem tempo de tentar remediar-me. O meu corpo caiu sobre os ramos uma arvore, que me arranhou a pele substancialmente, até que finalmente tombei no chão e dei com a testa num pequeno calhau pontiagudo e molhado. Senti a cabeça a explodir, mas tentei levantar-me sem forças. Não sabia ao certo onde estava. Só sabia que era uma mata, como quase todos os locais daquela cidade. Agarrei-me ao tronco de uma arvore e comecei a andar. Quis fechar as asas mas não consegui. Elas não fechavam por culpa da chuva, portanto tive de tentar controla-las para não bater em lado nenhum.
Fui caminhando sem rumo, atenta ao ambiente que me rodeava. A fome já apertava e pelos meus passos lentos não era difícil entender que já tinha passado muito tempo. O meu telemóvel não dava sinal de vida, sem bateria, então, eu estava por minha conta. Cansada, sentei-me sobre a terra molhada e tentei manter-me acordada. Passei a mão na testa e senti uma ferida aberta. Um pequeno golpe lateral causado pela pedrinha em que acertei ao cair. Os meus braços estavam arranhados, assim como o peito e os ombros. Na asa esquerda, olhando com atenção, faltavam algumas penas na zona em que Rebeca cravara os seus dentes, e onde depois havia um rasto profundo que media cerca de quinze centímetros traçado pelos seus caninos. O sangue, mesmo com tanta chuva, não parava de verter. A minha respiração presa começou a sair aos solavancos e, entre soluços, as lágrimas rolaram pela minha cara. Prendi os meus joelhos nos braços e encostei a minha cabeça. Não queria acreditar que Rebeca tinha feito aquilo, mas o que me dera mais beijo foram as vozes que escutei na minha mente. Pareciam ser de alguém que sabia muito sobre mim, mas que eu não sabia nada.
Quando dei por mim, adormeci, á chuva.
Comentem, sim, se nao amanha nao posto! Muahahaha!
bjokas

Agora, quem tinha saudades da Rebeca vai gostar do capitulo!

Capitulo XXVI - ????
Abri os olhos devagarinho, com medo da luz que me fazia fugir. Não sabia onde estava ao certo, só sabia que era cedo, pois os pássaros estavam a cantar. Apercebi-me que atrás de mim, havia um corpo colado ao meu, que envolvia-me com o braço e tocava o meu pescoço com a respiração calma. O colchão coberto por um fino lençol bege era o que me suportava, e o resto era ainda confuso nos primeiros vislumbres.
Tinha a sensação de me ter esquecido de algo importante, e enquanto tentava descobrir o quê, reflecti que tinha adormecido. Tentei mover-me, com o braço másculo a cobrir-me o corpo, e com sorte fiquei de frente para Gustavo, que dormia com uma respiração mais pacifica do que a da tarde anterior. Parecia um verdadeiro bebé, adorável. Apeteceu-me ficar ali a olhar para ele, no entanto eu vi-me forçada a sacudi-lo para o acordar. Ele gemeu e afundou o rosto entre o meu pescoço e o meu peito, fazendo-me gargalhar com cócegas. Sorriu, depois de ouvir o meu riso e entreabriu os olhos, tentando assimilar as ideias.
Dei-lhe um beijo na bochecha, e desviei o seu cabelo para o lado. Ele apertou-me contra ele, meio-desperto:
-Bom dia, princesa! – Exclamou, encostando os seus lábios aos meus, levemente.
Nesse instante, apercebi-me que estávamos atravessados na sua cama, as cobertas estavam todas enroscadas, metade no chão, metade em cima do colchão, os lençóis eram panos soltos em cima da cama e até os tapetes do chão estavam desalinhados. Por fim bastava olhar para a posição da minha roupa e dos nossos corpos, para me sentir envergonhada com a situação.
-Bom dia? – Comecei a assimilar o horário. Eu tinha passado a noite ali?
-Adormeceste ontem… Eu não te quis acordar e a minha mãe concordou em dormires cá…
Voltei a ser assombrada pela sensação de esquecimento e julgo que foi visível no meu rosto, pois Gustavo tentou que eu ficasse melhor:
-Não te preocupes, a Helen sabe!
-Oh, a Helen! – tapei a cara com as mãos. Como me tinha esquecido de falar com ela? Nem sequer a tinha avisado que tinha estado até mais tarde com as outras raparigas no dia anterior, quanto mais que tinha ido visitar Gustavo. Ela devia ter entrado em desespero.
Gustavo levantou o tronco:
-Vamos tomar o pequeno almoço? Deves estar esfomeada, não jantaste ontem!
-Vamos primeiro arrumar isto, ok?
Ele fez uma careta, mas aprovou. Nunca me tinha apercebido que nos mexíamos tanto de noite para deixar um quarto praticamente destruído, mas tentei compensar a desordem. Depois, fomos os dois para a cozinha. Estava apenas Diana lá.
-Aleluia! – Exclamou – Vocês devem mesmo andar com os sonos trocados!
-Porquê?
-Nunca vi ninguém dormir tanto tempo. – Ela riu-se – Eu ainda gostava de saber o que andas a fazer de noite ultimamente, Gustavo! Estás sempre a dormir de tarde!
Ele sorriu e virou o rosto, envergonhado. Fiz-me de surpreendida:
-Gustavo, não me digas que és daqueles que passa a vida na internet!
Ele deu de ombros:
-A noite é uma criança!
Trocamos um olhar cúmplice. Se alguém desconfiasse que todas as noites estávamos no mínimo duas horas juntos, davam-nos uma pancada na cabeça!
-Pois sim! E a minha noite já terminou e eu estou atrasada para o meu turno! – Ela bufou e pôs-se a pé, limpando a sua louça do pequeno almoço – A mãe foi á avó e a Susana está a dormir. Não façam barulho, ok?
-Claro! – Respondeu Gustavo, e depois entregou-lhe a bolsa em cima da mesa, ansioso que ela se fosse embora.
-Até logo, Diana!
-Portem-se bem! – Exclamou, batendo a porta.
Gustavo não respeitou o conselho e mais depressa do que um trovão, encostou-me contra a mesa da cozinha e beijou-me freneticamente. Eu correspondi sem hesitar. Já estava com saudades.
-o que queres comer? – Questionou, enquanto trocava breves beijos comigo.
-Qualquer coisa! Sabes que eu não costumo tomar pequeno-almoço.
-Mas devias! – Ele beijou-me uma ultima vez e afastou-se para preparar a primeira refeição do dia.
Eu não era esquisita. Gostava de leite, de chá, e não me importava de beber café de vez em quando, apesar de o gosto amargo não me cativar. Alem disso, estava sempre disposta a comer fosse o que fosse, desde bolachas, cereais, torradas ou panquecas. Na verdade Gustavo era quem me servia os pequenos almoços mais completos, portanto eu era uma verdadeira namorada babada!
Depois de os dois comermos, ele levou-me para o exterior, saindo dos limites da sua casa. Eu não sabia aonde ele me levava, mas não questionei. A única coisa que me incomodava era a roupa ser do dia anterior. Só queria ir para casa para poder alterar isso, mas antes que tal acontecesse, Gustavo conduziu-me a uma casa mais antiga, muito mais pequena do que a dele, mas adornada exteriormente com heras a trepar os muros.
-Onde estamos? – perguntei.
-Em casa da minha avó.
Travei-me de repente, assustada.
Gustavo soltou uma gargalhada e voltou a puxar-me:
-Da minha outra avó! – corrigiu - E não te preocupes, mais depressa do que julgas a avó Constança vai adorar-te! Ela é sempre assim!
-Não sei se acredito nisso! – Suspirei, entrando na casa, que aparentemente estava com a porta aberta.
O interior era mais abafado e quente, e não tinha tanta luz como no exterior. A tinta branca das paredes estava nitidamente mais gasta. Havia umas molduras antigas na parede, com imagens de paisagens e uma ou outra religiosa. Se não fossem as portas, a casa era praticamente toda no mesmo sitio. A cozinha era logo a seguir á porta de entrada, que estava disposta numa espécie de sala, onde havia uns sofás, um armário e uma mesa. Á volta desse compartimento havia as outras portas.
-‘Vó! – Chamou Gustavo, entrando na cozinha.
A resposta veio do outro lado de uma entrada para um quarto amplo.
Segui Gustavo e entrei nele. Lá estava uma senhora, mais rechonchuda do que a outra avó, e também mais velha. O seu cabelo era curto, pintado, e as roupas eram as típicas de uma viúva. O seu andar era lento e arrastado, com as costas meias curvadas para a frente. A senhora estava de costas para nós, e dobrava os travesseiros de umas almofadas, colocando ao lado de uns lençóis finos de tons azulados. Gustavo abraçou-a pelas costas, e deu-lhe um beijo forte na bochecha flácida, fazendo a mulher praguejar, apesar de agradada com o cumprimento. Achei a situação muito querida e sorri.
-Avó, quero-lhe apresentara minha namorada! – Disse ele.
A sua avó olhou-o surpreendida, mas sorriu e voltou-se para trás ao perceber que eu estava ali:
-Bom dia! – Exclamei um pouco atrapalhada, enquanto me aproximava com um sorriso largo no rosto.
-É bonita! – Disse a Gustavo, num tom de voz rouco, mas engraçado.
-É, não é, avó? – Ele riu-se divertido e deu-me a mão.
-Como te chamas? – perguntou. As suas mãos tremiam sem que ela se apercebesse.
-Lana! – Respondi.
Ela arqueou a sobrancelha, surpreendida com o nome invulgar:
-Andas na escola com o Gustavo?
Ele antecipou-se:
-Anda, avó. Somos da mesma turma.
Ela mais uma vez estranhou:
-Hum, que estranho. Tu és filha de quem? Eu não me lembro de ti!
-Na verdade eu mudei-me para cá. A minha família não é daqui! – respondi.
-oh! Assim percebo! Então vieste visitar o Gustavo?
-Sim, a Susana insistiu!
A senhora riu-se:
-Ela é muito infantil para a idade que tem, mas é uma teimosa!
-A quem o diz! – Ri-me também. Gustavo, envolveu-me os ombros:
-Sabe ‘vó, a avó Constança assustou a Lana ontem!
A idosa libertou um riso rouco e divertido e dirigiu-se a mim:
-Não te preocupes, ela ás vezes é uma chata!
Achei piada á opinião e ao forma de falar da senhora. Esta era muito mais simples e agradável de conviver, sem duvida.
-Avó, precisa que eu lhe faça alguma coisa hoje? – perguntou Gustavo.
-Quero que me vás á fonte buscar água!
Ele fez uma careta:
-Agora?
-Vá lá, rapaz! Tens bom corpo, não te custa nada!
-Aonde é a fonte? – perguntei.
-A uns metros daqui! – Respondeu o preguiçoso.
-Oh, então vamos lá, eu ajudo-te! – incentivei.
Ele revirou os olhos, mas assentiu. Fomos buscar os garrafões de agua vazios e fomos ao local indicado. Sentei-me no muro enquanto esperava que ele enchesse um a um. Era uma tarefa demorada, mas eu não me importei.
Depois voltamos para casa da sua avó e Gustavo resolveu levar-me a casa por fim. Helen protestou por eu não a ter avisado no dia anterior, mas não me incomodou muito e em vez disso pediu-me para contar como tinha corrido em casa da minha “sogra”. Durante a tarde arrumamos a casa e depois vimos juntas um filme, coisa que já não fazíamos havia muito tempo. Naquela noite porem, eu e Gustavo não nos encontramos. O encontro ficou para a manhã de Domingo.
Já era costume a sua família ir á missa de manhã e depois passar na vila para ir até ao café de Lili, cumprimentar D. Teresa e falar com os conhecidos. Eu e Helen, apesar de não sermos religiosas e não fazermos questão de ir a uma cerimonia religiosa, acordávamos também cedo ao Domingo. Eu sempre disse que não queria guardar a minha melhor roupa para os Domingos ou ela deixava de me servir, mas de uma forma ou de outra, eu e a minha madrinha acabávamos sempre por estar mais “chiques” naquele dia. Depois do trajecto de carro, com o rádio num som elevado o suficiente para que tudo o resto passasse despercebido, Helen estacionou mais longe do café do que era habitual para ir ao multibanco. Eu acompanhei-a como boa “irmã” que era. Quando voltávamos para o estabelecimento que queríamos frequentar, ela foi cativada pelas ervas medicinais que uma senhora vendia na rua e travou-nos novamente. Comprou um chã de cidreira e eu convenci-a a comprar um frasco de mel. Ela deu-me as coisas e eu ofereci-me para as pôr no carro, já que tinha deixado lá o telemóvel. Tranquei-o e depois fui atrás dela para o interior do café, porem, a minhas atenções caíram sobre uma casa amarela rodeada por mato, situada num ponto mais alto do que as outras casas, tornando-a assim mais isolada. Senti um arrepio na espinha e balancei a cabeça para me livrar da má sensação que tive. Apercebi-me que Helen já tinha entrado no café e que eu estava estancada no meio da rua como uma turista perdida, portanto apressei os meus passos. Entrei no interior do café e logo levei com um sopro leve de ar que fez os meus caracóis naturais esvoaçarem. Antes de olhar para as mesas em busca de Helen, fitei o interior do balcão em busca de Liliana e quando a vi sorri e acenei, enquanto me aproximava:
-Hei, Lili! Tudo bem?
Ela acenou com a cabeça e sorriu discretamente. Algo na sua aura demonstrava claramente que havia alguma coisa a incomoda-la:
-O que se passa? – perguntei.
Ela não me olhou nos olhos, e colocou duas chávenas com meia de leite no tabuleiro, já adornado com um bolo e uma torrada:
-Nada. Eu só não tenho tempo para conversas! Não te vais sentar?
-Estás chateada comigo? – interroguei receosa.
-Não.
-Liliana!
Ela suspirou e pegou no tabuleiro, ignorando o meu chamamento:
-Vem, isto é para a tua mesa.
-Mas eu ainda não pedi nada!
Fui surpreendida por uns lábios pregados no meu rosto, mas não fui capaz de ter uma única reacção. Liliana virou-nos costas, o que me deixou aparvalhada, e dirigiu-se á minha suposta mesa. Gustavo reagiu:
-O que se passa?
-Acho que fiz algo de errado, mas não sei o quê…
-A Liliana discutiu contigo? – Ele mostrou-se preocupado.
Assenti com a cabeça, e ele entrelaçou os seus dedos com os meus, como resposta:
-Deixa lá, tu não consegues que as pessoas fiquem chateadas contigo durante muito tempo.
Sem que eu me tivesse apercebido ele já me tinha levado para uma mesa, repleta de gente, incluindo Helen que me surpreendeu ao falar tão animadamente com os mais velhos da família de Gustavo. Cumprimentei-os a todos, chateada pela forma como Liliana estava a reagir, mas sentei-me ao lado de Susana e meti conversa, enquanto Gustavo se mantinha perto de mim, a passar a sua mãos sobre a minha pele macia e se divertia a gozar com as conversas feministas entre mim e a sua irmã mais nova. Liliana, entretanto, veio servir-me a mim e a Helen, mas eu vi-me na obrigação de me levantar da mesa ao vê-la tão indiferente a mim. Segui-a apressada e segurei-lhe o braço antes de ela entrar na zona proibida a pessoas estranhas ao serviço.
-Liliana! Será que me podes explicar o que se passa?
Ela sorriu cinicamente:
-Nada! Estou apenas aborrecida, hoje!
Fiz um ar de desgosto e deixei os meus ombros caírem:
-Lili! - choraminguei - Vá lá, sabes que não me enganas, e ultimamente andas muito afastada de mim…
-Não ando nada. Tu é que andas demasiado ocupada!
-Achas que passo demasiado tempo com o Gustavo? – Essa questão deixou-me perplexa, até porque nós os dois esforçávamo-nos para, durante o tempo de aulas, nos mantermos relativamente afastados de modo a conseguirmos manter a relação com os amigos. Aliás, o nosso namoro era vivido muito mais durante a noite, do que durante o dia, não envolvendo loucuras, se é que se entende!
-Não! – Ela negou – Claro que não. Estou feliz por vocês, sabes bem disso!
-Mas há algo em mim que te incomoda, nestes últimos tempos. Gostava de saber o que é, para poder melhorar isso!
-Olha, tu queres saber? – Ela fez uma careta e suspirou – Eu estou assim porque ultimamente és muito amiga da Letz!
Acho que durante um minuto fiquei a olha-la de boca aberta, e a única coisa que conseguia ouvir dentro da minha cabeça era o eco e os grilos a cantar! Quando finalmente consegui fazer alguma associação ao que ela me tinha dito, comecei-me a rir que nem uma louca. Será que as pessoas de quem eu mais gostava eram todas ciumentas?! Sem duvida!
-Lili! – Abri os meus braços e abracei-a com força – Sua tola, é só isso?! E eu a pensar que tinha feito alguma coisa de mal!
Ela não respondeu e revirou os olhos:
-Pensei que estivesses do meu lado…
-Em quê?
-No que te contei… Sobre mim e ela.
Sorri e abanei a cabeça:
-Ai, Lili… Eu não posso estar do lado ninguém, porque essa historia nem tem lados! Sabes, tens de apagar esse episodio da tua mente, pelo menos no que toca a culpar a Letícia. – Ela analisou-me, céptica – Na verdade, acho que se tentares esquecer o que se passou, até podes vir a gostar dela, como aconteceu comigo e com o Gustavo!
Liliana uniu as sobrancelhas e abanou a cabeça em sinal de incredulidade, virando-me costas para regressar ao seu trabalho agitado.
-Tu estás louca! Adora-la á vontade! Eu quero lá saber. Lambe-lhe as botas, não me interessa! Afinal, o que sou eu? Uma tonta que está sempre errada?! Sempre a má da fita!
Revirei os olhos e entrei com ela para o outro lado do balcão, para a travar:
-Hei! Não podes estar aqui!
-Hei! Eu não quero saber!
-Olha Lana, se gostas assim tanto da Letz – Nesse momento percebi que o apelido “Letz” tinha uma carga bastante negativa para as pessoas – Vai ter com ela, divirtam-se e não me chateies!
Agarrei o seu pulso de repente e roubei-lhe um beijo na cara. Ela fez um esgar, mas eu não me senti rebaixada e falei:
-Caso nunca te tenha dito, tu és a melhor amiga que eu fiz nesta cidade! – Ela corou e evitou sorrir, sem sucesso - Por muitas pessoas interessantes que existam por aí, tenho a certeza que nenhuma será como tu! Eu posso dar-me bem com a Letícia, tentar proteger a Rebeca, mas no final, é contigo que eu me quero divertir e desabafar! Por favor, Liliana, acho que já sabes tanto sobre mim e já passamos tanto juntas que é horrível que tu estejas chateada comigo!
Ela sorriu pelo canto dos lábios e olhou para o tecto, fazendo-se de difícil.
-Sabes que o teu pequeno almoço já deve estar frio, certo?
Ri-me feita tonta:
-Pois… - Boa lembrança - Dane-se! Fazemos as pazes?
Ela suspirou e abriu os braços:
-Oh, está bem…
Abracei-a levemente.
-E podes tentar dar-te melhor com a Letícia?
-Não!
-Raios!
Ela riu-se comigo e depois eu soltei-a para ir comer.
Claro que tive direito a outra chávena de leite.
Sentei-me ao lado de Gustavo. Alguns dos que estavam na mesa olharam-me sem saber o que se tinha passado, mas Gustavo deu-me um beijo na face, prevendo o sucedido:
-Eu não disse que não conseguias manter as pessoas muito tempo chateadas contigo?
Mordi o meu bolo delicioso:
-Adivinha a situação!
-Letícia? – Palpitou.
-Bingo!
Trocamos risos cúmplices, mas as pequenas palavras esclareceram os restantes, em parte, já que poucos sabiam dos conflitos entre Letícia e metade da população escolar.
Durante a tarde eu e o Gustavo estivemos juntos e fomos ao cinema ver uma animação. Ele sabia que eu adorava, portanto, levou-me com ele para ver o filme, todavia, todos os casais sabiam que o cinema era um lugar, no mínimo, tentador, pelo que só metade do filme ficou na minha mente.
Como na noite anterior, não nos encontramos na cachoeira e esperamos até segunda feira para ficar novamente juntos.
Naquela manhã a aula de inglês correu como tantas outras. Eu fingia-me de atenta, fazia os exercícios com pressa e passava o resto da aula a analisar as minhas unhas ou a rabiscar a margem do caderno com ilustrações da minha mente.
Ao analisar os restantes alunos era-me possível verificar que se dividiam em três grupos: O primeiro era o dos alunos que veneravam a disciplina; o segundo era aquele em que eu estava inserida, onde os alunos não prestavam atenção e sabiam o suficiente da matéria para tirar positiva na disciplina; e o terceiro era composto por desgraçados que quase dormiam em cima dos livros por não entenderam nada do que a professora dizia.
Atentei em Liliana, longe de mim. Ela parecia normal por fora, calma e ainda assim simpática e animado com os amigos, no entanto, eu sabia que ela ainda estava ligeiramente desconfortável comigo devido á minha amizade com Letie. Ao observar esta última, porém, eu chegava á conclusão que elas poderiam facilmente ser amigas se esquecessem o passado. Isso levava-me a outra questão: Recentemente, tinha-me apercebido que Letícia não odiava Liliana como esta a odiava a ela, e isso fez-me crer que talvez a loira não tivesse conhecimento do pseudo-namoro que Lili havia vivido com o Romeno. Por essa razão eu tinha de intervir. Só assim eu e Lili podíamos ficar em paz e Letícia ganhar outra amiga. Eu não podia simplesmente contar a Liliana o que acontecera na realidade com Letícia, mas podia esclarecer a amiga de Gustavo quanto a isso, e, quem sabe, tornar a relação entre nós mais cómoda.
Sim, era isso que eu queria fazer.
Esperei que o toque da campainha soasse, e antes que alguém viesse ter comigo, arrastei Letícia, literalmente, para perto dos cacifos.
-Letie, podemos falar?
Ela estranhou a questão:
-Claro, sobre quê?
-Bem, não sei como te dizer isto… - e não sabia mesmo. Cheguei á conclusão que a abordagem tinha sido directa demais.
-Aconteceu alguma coisa? - Inquietou-se – É com o Gustavo?
-Não – Abanei a cabeça –, na verdade… bom… É sobre ti…
-o que é que eu fiz?
-Nada, é só que…. Ultimamente a Lili anda mais afastada de mim e eu… E eu sei que isso se deve ao facto de nós sermos mais amigas.
-Oh, já percebi. A Liliana nunca gostou muito de mim…
-Nem sempre, julgo… É sobre isso que quero falar…
Fui cortada de repente:
-Hei, Lana, queres vir connosco ao bar? – perguntou Natacha acompanhada por Lau, Lili e Verónica.
Mordi o lábio e olhei Letícia de relance, mas aceitei o convite:
-Desculpa, Letícia, depois falamos.
Ela aceitou mas eu notei a sua preocupação antes de virar costas com as outras.
Abracei Lili mal ficamos menos rodeadas de gente.
Ela enrijeceu o corpo como resposta e eu dei-lhe um beijo forte na cara:
-Parvalhona! – trocei.
Ela não fez cara bonita, mas eu nem liguei, e envolvi-me na conversa que as outras produziam.
Fizemos o percurso até ao bar da escola, repleto de gente, como sempre, e quando lá chegamos fomos fazer os nossos pedidos. Como fui a ultima a ser atendida, tive de ficar á espera que me trouxessem o lanche, enquanto elas se foram sentar numa mesa. Foi quando me apercebi de uma presença familiar desconfortável, ou melhor, duas.
-Olá Lana! – cumprimentou Rui, com as voz grossa carregada de cinismo.
A sua adorada prima sorriu, vitoriosa, o que me inquietou.
-olá… - murmurei, sem os olhar nos olhos, ansiando cada vez mais por sair dali.
-Está tudo bem? – perguntou Joana.
Revirei os olhos e suspirei:
-O que é que vocês querem?
-Ora, Lana, não precisas de ser tão rude! – Troçou o rapaz rindo animado.
A situação estava estranha.
-Sabes, ultimamente temos estado muito animados. É que, sabes, não precisamos da tua ajuda.
Olhei-a num reflexo rápido:
-Ajuda para quê?
-Bem, digamos que já descobrimos tudo. Bate palmas, já não te vamos fazer perguntas incomodas do tipo “quem é o Vampiro?”!
Foi como se tivesse levado uma facada no peito. Algo nas suas auras deixava-me na duvida se o que diziam era realidade ou não, mas toda aquela determinação e orgulho, inquietaram-me.
-Isso é um absurdo. Vampiros não existem…
Rui sorriu e pegou no refrigerante que uma funcionaria trouxera para ele:
-Estás quase certa.
-Depois de hoje haverá menos uma, e não faltará muito até que não existam mesmo. – Joana completou.
Olhei-a com uma sensação de asfixia dentro de mim, e depois mirei em redor. Rebeca continuava a faltar e nesse momento o pior passou-me pela cabeça. Talvez eles a tivessem descoberto. Talvez a tivessem confrontado há semanas e ninguém soubesse. Ou talvez tivessem acabado de descobrir e se preparassem para avançar.
-vocês… - A voz saiu num fio e eu tive de tossir para limpar a garganta – Não… Eu… A Rebeca não é quem vocês procuram… Ela…
-Rebeca?! – Joana abriu um largo sorriso perante o meu erro – Obrigada, Lana! Pelos vistos resultou!
Abri a boca aflita e tentei dizer algo que me desmentisse, mas as palavras ficaram mudas.
Rui envolveu a prima pelos ombros e riu-se provocatoriamente:
-Hei, Ju, a Rebeca não é aquela anoréctica?
-Que tem andado a faltar? – A prima retribuiu o riso.
Eu queria falar, combate-los, fazer qualquer coisa, mas fui fraca.
Joana separou-se de Rui e afastou-se:
-Já sabemos onde ir hoje! – Exclamou afastando-se.
Abanei a cabeça, que subitamente me começou a doer, e murmurei algo:
-Rui, não… Não façam isso! – Pedi.
Rui sorriu, impiedoso, e afagou-me o cabelo, como se eu fosse um cão sarnento antes de ser morto.
-A tua amiga já era!
Os meus olhos encheram-se de lágrimas e a respiração começou a sair aos solavancos, enquanto eu me tentava manter segura á sua frente, combatendo as tonturas que percorriam todo o meu ser.
-Não faças isso! – Implorei, com voz mais alta, captando algumas atenções – Por favor!
Ele deu de ombros, um gesto completamente grotesco para mim. As lágrimas escorreram pelo meu rosto e eu tapei a cara envolta por um desespero indescritível que me deixou sem força nas pernas, sem visão, sem audição e sem qualquer órgão sensorial a funcionar na perfeição. Esfreguei a minha pele e o meu cabelo, a chorar sufocada, mas ainda assim com o som facilmente perceptível para muita gente, que me olharam estupefactos, sem saber o que fazer, até mesmo Rui se mostrou atrapalhado.
-Tem de ser! – Ele disse, enervado com a minha reacção.
-Não! Ela não fez mal a ninguém! – solucei olhando-o nos olhos, respirando com tanta dificuldade quanto um asmático durante uma corrida. A forma como o dióxido de carbono saia tão rapidamente do meu organismo fez-me ficar completamente fraca e em conjunto com a visão turba, fez-me tombar no chão sem forças. Pessoas correram até mim, incluindo aquele que mais me protegia. Gustavo empurrou todos os outros e baixou-me ao pé de mim, sacudindo os meus ombros. A minha audição estava fraca mas eu ouvi-o chamar-me, aflito, e depois a levantar-se na direcção de Rui e a gritar com ele. O idiota não reagia, e Gustavo, possesso, esmurraçou-o.
Eu apaguei de vez.
***
Entreabri os olhos com dificuldade. Encontrava-me num local iluminado, de paredes brancas e armários de metal , cheios de remédios lá dentro. O cheiro forte, e no entanto pouco desagradável, não me deixou qualquer duvidas quanto ao local onde eu estava. A enfermaria era pequena. Havia uma secretaria, dois armários e uma maca junto á janela, mesmo há beira de uma balança.
Levantei o meu tronco. A minha costela esquerda estava dorida por causa da queda.
A porta de fora abriu-se, mostrando-me Liliana seguida de Letícia, que ficaram bastante surpreendidas ao ver-me sentada.
-Lana! Tu estás bem? – Liliana perguntou, ignorando a presença de Letícia.
Eu não sorri a nenhuma e olhei pela janela em silencio, tentando esconder as lágrimas que me nasciam nos olhos.
-O que te aconteceu? – Letícia quis saber, apreensiva.
-o Gustavo? – Inquiri, sem desviar a minha atenção da janela, onde algumas nuvens negras, começavam a surgir. Aquilo parecia um mau pressagio.
-Ele e o Rui tiveram de ir ao director. – Esclareceu, Lili, sentando-se ao meu lado.
-Acho que não se vão livrar de um castigo. – Completou Letícia.
-Ele está bem? – Questionei fitando-as, preocupada.
-Sim, a enfermeira já cuidou dos ferimentos.
-Ferimentos?! – Levei a mão á cabeça, e mordi o lábio, carregada de medo.
-Não te preocupes. Foram só umas nódoas negras!
-boa. – suspirei, como se aquilo me fizesse sentir melhor – Eu estive muito tempo desmaiada?
-uns minutos. Tocou para dentro agora mesmo, mas nós temos desculpa para chegarmos atrasadas! – Referiu Liliana – Podes-nos explicar o que aconteceu?
-Não.
Elas entreolharam-se após uma resposta tão seca e determinada. Liliana, todavia, pareceu conseguir fazer a associação entre Rui e Rebeca e fez uma careta azeda.
-Bem… - Letícia deu breves passos no compartimento - O Gustavo vem já, de qualquer modo, e nós temos de ir. Ficas bem sozinha?
-Claro.
Liliana levantou-se e ambas se aproximaram da porta, até que algo na minha consciência reagiu e me mandou para-las:
-Vocês…? - Elas olharam para mim, com a maçaneta na mão, á espera que eu dissesse algo – Podem conversar…? Sobre o passado?
Liliana revirou os olhos e abriu a porta, revoltada. Letícia manteve-se parada a olhar-me, confusa, e não impediu Liliana de sair da enfermaria.
-que passado? – Interrogou a jovem.
-O romeno.
Ela descolou os lábios finos, desentendida:
-porque é que eu haveria de falar com ela sobre isso?
Olhei para as minhas perna de olhar macambúzio e suspirei:
-Porque é preciso… Letie, não te vais arrepender, prometo. – olhei-a nos olhos – a Liliana precisa de ouvir a verdade mais do que qualquer pessoa. Mais até mesmo do que eu precisei. Acredita em mim!
Ela não teve tempo de dizer nada.
Gustavo entrou enfermaria a dentro, com uma das maças do rosto levemente arroxeada e o maxilar esfarrapado.
Tapei a boca com a mão e levantei-me da maca, numa corrida lenta até aos seus braços fortes. Ele abraçou-me fortemente e beijou-me a testa.
-Desculpa… - Lamentei.
Ele abanou a cabeça e bufou. Apercebi-me que Letícia saiu nesse momento.
-O que é que aquele sacana te disse?
Afastei o meu rosto dos seus ombros e levantei a cara até poder observa-lo. Depois humedeci os lábios e olhei para o chão:
-Onde é que ele foi?
-Não sei… Saiu da directoria com pressa e vi-o a sair da escola com a prima. Parecia que tinham algo de muito importante para fazer.
Não consegui controlar e comecei a chorar silenciosamente.
Gustavo ficou perturbado, e tentou limpar-me o rasto de agua do rosto, em vão.
-Lana, conta-me o que se passa, por favor! – Ordenou – Se ele te fez algum mal, eu juro que…!
-Não! Ele não me fez nada, directamente… - Lambi os lábios secos – Eu preciso da tua ajuda.
Ele assentiu, sério.
-Tu sabes onde a Rebeca mora?
Ele pareceu confuso com a questão:
-O que é que isso tem a ver?
-Por favor, Gustavo! Responde, simplesmente!
Ele bateu o pé, agitado e olhou para os lados, pensativo:
-Sim… - murmurou confuso, e sobre o meu olhar de expectativa começou a situar-me - No Gerês, há uma casa situada mais acima do que as restantes, envolvida por muitas arvores, pintada em amarelo torrado. – Nem era preciso dizer mais nada. Tinha-a visto no dia anterior antes de entrar no café de Lili - Não sei se alguma vez reparaste nela, mas á noite costuma sobressair-se porque parece mais iluminada. Se subires por um caminho íngreme, chegas lá. É a casa dela. Só lá fui umas duas vezes, e já se passou algum tempo, mas se tiveres sorte encontras lá a Rebeca.
-Obrigada, obrigada! – Exclamei apertando-o nos meus braços.
Ele segurou-me com firmeza, antes que eu tentasse fugir:
-Agora diz-me porque precisas de saber!
-Eu não te posso contar!
Ele ficou a encarar-me, céptico:
-O que é que me estás a esconder?
-Não é nada sobre nós, ok?! Eu não te vou dizer nada porque não te diz respeito, desculpa!
Tentei fugir dele, mas fui seguida pelos corredores já silenciosos da escola.
-Lana, eu não te estou a conseguir entender! Onde é que tu vais com tanta pressa?
-A casa da Rebeca! É uma questão de vida ou de morte!
-o quê?! – Não devia ter dito aquilo.
-Não te preocupes!
Saí do bloco de aulas, com pressa e desci o grande lance de escadas o mais rápido que consegui.
As nuvens estavam cinzentas como há semanas não estavam, mas isso não me tirava a coragem de fazer o que tinha de ser feito.
Gustavo agarrou-me firmemente pela coxa do braço:
-Lana, lembra-te do que me prometeste!
Parei de andar e voltei-me para ele. Segurei a sua face com as minhas mãos e fixei-o:
-Não me vai acontecer nada! – Assegurei – Acredita em mim, está bem?
-Eu quero saber o que se passa…
-Mais tarde! Diz á professora que eu me senti mal e me fui embora. Eu não posso perder tempo!
-E como vais para lá? A vila fica longe daqui!
Tirei o casaco fino de malha e entreguei-lho, deixando as minhas costas completamente exibidas.
Ele olhou para o meu casaco e depois para mim, receoso, com um ar que me deixava com vontade de abraça-lo e nunca mais me afastar. Segurei o seu rosto ao de leve e enquanto os meus braços envolviam mais o seu pescoço, entreguei-lhe os meus lábios num beijo longo, ao qual ele reagiu de imediato, abraçando-me a cintura com força:
-Não vás…! – Sussurrou ao meu ouvido mal afastamos as nossas bocas.
-Desculpa… - respondi-lhe, passando os meus dedos no seu cabelo para o afastar da sua testa, e depois dei um passo de recua e fiz com que ele me soltasse num deslize de mão sobre a minha roupa - Não há perigo… por agora! – Ele travou a respiração por segundos após ouvir aquilo, e então eu tive mesmo de sair dali, antes que ele me impedisse - Tenho de ir.
Virei costas e corri o mais rápido que consegui.
-Lana! – Ela gritou para que eu parasse, mas não funcionou.
Gustavo correu atrás de mim, tentando alcançar-me. Eu cerrei os dentes e sem lhe dar hipótese acelerei os meus passos. Quando as escadas estavam a chegar ao fim as asas abriram numa fracção de segundo e nem precisei de as bater para sair do chão. A velocidade da minha corrida foram o primeiro impulso para levantar voo e o resto foram batimentos rápidos que me fizeram ser tão rápida como uma águia a chegar á vila. O meu corpo sobrevoou toda a barragem e depois camuflei-me por entre as plantas, para não ser vista quando chegasse á vila.
A tal casa era fácil de chegar, especialmente via aérea. Mal vi o caminho deserto dei um salto para alcançar o chão. Fechei as asas por cautela e observei a casa. Por algum motivo fazia-me lembrar a casa de Sabrina, a bruxinha adolescente, o que era ainda mais bizarro do que o facto de eu estar á procura de uma vampira.
Engoli a seco, e dirigi-me á porta principal, de madeira trabalhada. Cerrei a minha mão e elevei-a até perto do objecto que me impedia de entrar na casa. Mantive-me parada em frente da porta com a mão apontada a ela, e concentrei-me naquilo que podia sentir. A energia densa era estranhamente agradável, apesar de aquele rasto de crueldade se manter activo no ambiente. Inspirei fundo e dei três pancadas na porta.
Tudo parecia ainda mais silencioso do que antes. Até os pássaros se calaram. Isso deixou-me furiosa, e por isso bati na porta com tanta força e tantas vezes que até me doeu. Ao ver que ninguém me respondia gritei, enquanto atacava a porta com as minhas costas:
-Rebeca! Abre esta porta! – Berrei – Eu sei que estás aí! É urgente!
Continuei a dar pancadas e depois chutei a madeira, irritada por sentir do outro lado da porta a energia vil de Rebeca a interrogar-se sobre a minha presença.
Descolei-me daquela entrada e tentei achar outra forma de entrar. Estranhamente todo o ambiente parecia fechado, quer pelas persianas, quer elos vidros das janelas, e até mesmo por cortinas escuras, na janela mais alta da casa.
Benzi-me, na esperança de não me arrepender do que ia fazer, mas já que as tinha, então ia usa-las! Exibi outra vez as asas e alcancei a única janela aberta da casa. Mal os meus pés tocaram o soalho escuro, vagueei naquele quarto vazio e procurei a forma de chegar à sua saída para procurar Rebeca pela casa, ignorando qualquer aspecto decorativo do seu lar. Desci o lance de escadas que me apareceu primeiramente, e vi uma sombra alta numa das paredes. Isso fez o meu coração palpitar com mais força e eu parei bem a meio do caminho. A sombra andou agora para o lado oposto e a minha audição permitiu-me ouvir um rosnar mudo e abafado.
-Rebeca? Sou eu, a Lana! – Exclamei.
Refiz o meu caminho, esperançosa, e segui os meus instintos entrando na primeira porta do piso inferior que achei. Conseguia decifrar uma espécie de passos de corrida a tentarem fugir-me, com grande relutância.
-Rebeca! Pára! – Gritei – Eu tenho algo para te avisar! – Ninguém respondeu, portanto continuei – Rebeca! O Rui e a Joana – Esperei uma reacção, mas nada – eles podem aparecer aqui a qualquer momento. Já desconfiam, ou melhor, sabem, que tu és… tu!
Finalmente escutei algo esclarecedor. Um verdadeiro rugido enraivecido. Parecia de sofrimento e agonia, e ao mesmo tempo de raiva. Senti uma rajada de vento por perto e nesse momento percebi que eu era louca. E porquê? porque ainda não tinha fechado as asas e só podia ser esse o motivo de tanta agitação por parte da minha colega. Dei uma cacetada em mim mesma e fechei as asas. Esperei alguns segundos, os suficientes para me deixarem louca, e fiz o ultimo chamamento necessário:
-Podes vir!
Ouvi um berro das escadas:
-Tu és louca ou quê?!
Olhei para o cimo da escadaria e vi o que se assemelhava a uma forma feminina esbelta. Inicialmente não percebi quem era por causa da escuridão da casa, mas a voz era inconfundível, especialmente irritada.
-Rebeca?
-O que fazes aqui? – Ela descia as escadas devagar, coma respiração presa e relutante.
O meu olhar e o seu cruzaram-se num momento que pareceu infinito, e logo após eu observei o seu corpo e o seu rosto. Estava diferente. As formas acentuadas, e a face oval perfeita. Nenhum sintoma de magreza exagerada como era habitual. Pela primeira vez pareceu-me uma rapariga completamente normal e saudável, o que me fez sorrir.
Ela estranhou o meu olhar e desviou a sua íris estranhamente mais avermelhada de mim, acelerando os passos. Era a minha vez de lhe responder.
-Eles devem estar a vir para cá neste momento. – Referi.
-Idiota! – Gritou – Eu sabia que nunca te devia ter contado a verdade!
-Bolas, Rebeca! Eu vim cá para te ajudar e tu ages assim!?
-Tu deste com a língua nos dentes! – Ela agora estava frente a frente comigo.
-Foi sem querer! Eles enganaram-me. Fizeram-me acreditar que já eras, e com as tuas faltas na escola eu não duvidei do que diziam e soltei o teu nome sem intenção!
-Perfeito! Achas que a tua desculpa me deixa melhor!? Acabaste de me desmascarar!
Agarrei-lhe o pulso. A minha mão quente em contacto com a sua pele gelada deu choque, mas eu não a soltei até me habituar ao toque:
-Basta sairmos daqui! – Vamos para um lugar seguro!
-“Vamos”?!
-Sim, vem! Aqui é que não estás em segurança! – Exclamei, puxando-a de reboque.
-Eu não preciso que te preocupes comigo! – Exclamou, em fúria.
-Isso não me interessa – Respondi – Meti-te nisto, portanto também te tiro!
Voltei a segura-la e puxei-a. Sabia que bastava querer para ela me partir um braço e não me acompanhar, mas ela apenas reclamou:
-Eu não posso!
Revirei os olhos e abri a porta de entrada. Mal os raios de sol tocaram a sua pele, foi como se alguém tivesse colado a mão num fogão em chama. Ela ficou em carne viva e por momento pareceu-me ver fumo sair de si. Ela entrou dentro de casa, deixando-me espaçada sem saber o que fazer.
-Rebeca? O que te aconteceu? – Inquiri ruborizadamente.
Ela não respondeu e fitou a pele que regressava ao normal.
-Foi por isso que não regressaste á escola?
Ela acenou afirmativamente:
-Digamos que a vida é feita de escolhas. E após serem feitas não há volta a dar…
-O que queres dizer?
Senti um aperto no peito.
-Bebi sangue humano… - Murmurou, constrangida.
As lágrimas vieram-me aos olhos, num misto de desilusão e medo. Ela continuou:
-Pelos vistos a minha abstinência tinha o beneficio de me manter imune aos raios solares. A partir do momento que bebi sangue fresco, fiquei mais forte, o meu corpo voltou ao aspecto que eu tinha antes de morrer, enfim… Pensei que fosse algo bom, até me aperceber dos problemas de pele.
Virei os rosto, enraivecida, e deixei uma lágrima rolar pelo meu rosto:
-Porquê? – foi a única coisa que consegui dizer – Tu estavas tão bem a ser… Boa. – Olhei-a de soslaio - Tinhas logo de me tirar os motivos que eu tinha para te querer ajudar? Porquê?
Ela deu de ombros:
-Porque estava por perto, ainda estava quente e cheirava bem.
Cerrei os punhos, com uma vontade súbita de lhe arrancar a cabeça:
-Tu matas-te alguém?! – Gritei furiosa.
-Não! – Respondeu para minha surpresa – Morreu no preciso momento em que eu passava por perto. Não fiz qualquer ferida naquele corpo, apenas o sequei, mas não me arrependo. Nunca me senti tão saciada como naquele momento.
-Então tens-te mantido firme desde aí?
Ela não respondeu.
-Como devo encarar esse silêncio?
Ela cerrou os dentes:
-Eu não matei ninguém!
-Então como estás assim forte?
-Roubei o sangue do hospital!
Abri a boca chocada:
-Tu o quê?!
-Bolas, deixa-me em paz! Tu não tens nada a ver comigo!
Senti o ambiente adensar subitamente e Rebeca fez-me ficar calada enquanto parecia concentrar-se em algum som vindo do exterior.
-Eles chegaram… - Disse eu.
Ela cerrou os dentes e pela primeira vez vi-a atrapalhada. Segurei a sua mão com leveza:
-Corre! O sol não está em todo o lado!
Ela levou os olhos das nossas mãos para mim e acenou. Naquele momento esquecemos aquilo que tínhamos acabado de dizer, e corremos as duas para o primeiro quarto em que eu entrei. A janela alta estava aberta ainda, e eu espreitei através dela. Um carro preto estava mal escondido perto das arvores e vi Joana avançar, com uma arma encostada ao peito.
Eu e Rebeca trocamos um olhar cúmplice:
-consegues saltar sem que te vejam?
Ela assentiu.
-Óptimo, vais á frente. Eu vou por cima e controlo-os por ar.
A vampira arqueou a sobrancelha, espantada com o que eu tinha acabado de dizer, mas subiu para o peitoril da janela. Esperou que Joana dobrasse a esquina da casa e saltou como um gato, tocando o chão duro como se de almofadas se tratasse. Estava sombra naquele local.
Ela levantou o olhar até mim e eu abri as asas o mais que pude. Tinha chegado á conclusão recentemente que cada uma delas tinha exactamente o tamanho do meu corpo, pelo que a visão dela lá em baixo devia ser algo surpreendente. A partir dali eu guiava.
Lancei-me de cabeça na direcção do chão, e quando faltavam uns metros para o atingir bati as asas com tanta força que voltei a ficar paralela á janela alta. Verifiquei a coordenação dos nossos “inimigos” e voei na direcção livre para que Rebeca me seguisse em terra. Quando ela se expôs ao sol, parecia uma verdadeiro presunto a ser fumado, pelo que apercebi-me que ela teria de fazer muitas paragens para recuperar o fôlego até chegarmos ao local ainda indefinido.
Tentei guia-la pelo centro da mata perto da sua casa, e vi que rapidamente nos afastávamos do perigo que Rui e Joana representavam para nós.
Rebeca era rápida. Mais que um carro talvez, e eu consegui-a sê-lo também, mas cada vez que eu descia um metro ela ficava mais descontrolada por minha culpa, e por isso eu não sabia como descer até ela e saber para onde íamos. Tentei dar-lhe um sinal para subirmos a serra. Não seria difícil para ela e se eu chegasse lá antes, então podia fechar as asas e falar com ela.
Dei lhe sinal para ela me seguir e aumentei a minha velocidade. Ao ver uma zona onde rochas estavam sobrepostas de forma aparentemente artificial, apesar de ser obvio que aquilo era apenas uma obra da natureza, eu aterrei a pique, e quando estava a três metros do chão fechei as asas e deixei-me cair sem qualquer protecção. Obviamente que a queda não ocorreu sem danos. Fiquei com uma ardência na canela direita e percebi que não ia escapar a uma nódoa negra. Sentei-me na erva á sombra de uma grande rocha, e em menos de 10 segundos, Rebeca surgiu e deu uma corrida até mim, enquanto o seu corpo já avermelhado fumegava. Ela estava com a respiração presa e encostou-se á rocha, tentando voltar ao normal, todavia, mesmo não estando ao sol, toda aquela luminosidade era dolorosa para si. Ela apercebeu-se que eu massajava a minha perna e sentou-se ao meu lado:
-Sentes-te bem?
A minha resposta foi positiva:
-E tu? Sentes-te bem aqui?
Ela foi franca:
-Não. Mas é melhor do que estar ao sol, e sinceramente já sentia falta de ver como o dia é bonito.
Sorri, calmamente e contemplei o céu. As nuvens negras continuavam a agrupar-se, escuras e horríveis, o que me fazia sentir completamente o oposto de Rebeca em relação á beleza daquele dia. Uma nuvem deslocou-se para perto do sol, e tapou metade dele. Toda a paisagem escureceu levemente, mas no fundo, era isso que precisávamos.
-Vai chover… - Ela disse, encolhendo as pernas e prendendo os joelhos entre os braços.
-Eu sei… - murmurei.
Ela fixou-se em mim, apesar de eu não a olhar nos olhos e depois suspirou, levemente chateada.
-Parece que já controlas bem as asas.
Abanei a cabeça em confirmação. Ela continuou:
-Costumas voar muitas vezes?
-Não. – Respondi seca.
Ela não respondeu e olhou o horizonte, cada vez mais sombrio. O silencio começou a tornar-se incomodo mas eu não sabia o que dizer. Ficamos durante uns minutos, sentadas encostadas á rochas, e as primeiras gotas de agua caíram, quase como orvalho. Rebeca estava a ficar pálida novamente e soltou uma lufada de alivio.
Ela fez-me encara-la, pacificamente:
-Desculpa… - disse. Tentei não sorrir, mas o pedido soube-me bem. – Eu sei que não devia ter bebido sangue… humano… Mas eu estava fraca e foi mais forte que eu. Depois da primeira vez é difícil parar, e apesar de eu não querer matar ninguém, só o sangue humano é que me controla, por isso roubei o banco de sangue da cidade… Eu nunca o faria se tivesse opção.
Baixei a cabeça e suspirei. Eu não podia julga-la, não tendo ela uma natureza que não escolheu. No fundo, sabia que ela era uma espécie de alma gémea minha, mas distorcida.
-Rebeca… Eu lamento… Juro! Meti-te em sarilhos, sem querer, mas meti. – mordi o lábio, desiludida comigo mesma – Ás vezes sou muito ingénua. Acho que mesmo que eu consiga captar os sentimentos dos outros, sou facilmente enganada. Juro que se soubesse quem te transformou, se tivesse força suficiente, destruía essa criatura… Como eu a odeio.
A chuva começou a cair com mais pressão, mas não me incomodou.
-Porquê…? Porque é que tentas sempre ver o que eu tenho de bom e ajudar-me, mesmo quando faço mal?
Ela ficou á espera que eu respondesse, enquanto eu tentava arranjar uma boa forma de lhe explicar algo que nem eu compreendia ao certo.
Virei o meu rosto para olha-la e tentei dizer algo:
-Talvez… Talvez porque te vejo como uma espécie de irmã… - Ela ficou surpreendida com a resposta – Sei que se calhar não farias o mesmo por mim, mas isso não me importa, porque, de algum jeito, eu quase te amo. Somos duas aberrações, e isso devia afastarmo-nos por sermos tão diferentes, mas algo em ti diz-me que o sangue que corre em nós é o mesmo: Demoníaco e perigoso.
Rebeca inclinou o seu corpo para mais perto do meu e ficou frente a frente comigo. Os seus olhos castanhos exibiam os pigmentos encarnados nas reentrâncias da sua íris, mas não havia como negar que eram uns olhos bonitos daquela cor.
-Um dia vou salvar-te a vida.
E antes que eu pudesse responder, ela cercou-me os lábios com os seus. O meu coração bateu descompassado pelo medo e eu tentei afastar-me e fugir, só que ela era forte, e fez-me beija-la também ainda contra minha vontade. Sentir a sua boca gelada contra a minha, porem, era mais agradável do que eu julgava, e apesar de eu não querer fazer aquilo deixei que ela o fizesse, na esperança de acabar mais rápido.
“Eu vi-a voar.” Escutei uma voz feminina familiar pronunciar na minha mente.
Uma voz masculina respondeu “Para onde?”
“Não sei, mas já dominava bem as asas. Pelo que percebi ela tinha passado mal na cafetaria e desmaiou”
“Isso pode ser perigoso para nós. Não sabemos que parte a domina.”
Dei uma cacetada no peito de Rebeca para ela me soltar. As vozes continuaram a falar, mas o medo que elas me transmitiam deixou-me confusa e não consegui entender mais o que disseram. Quando Rebeca se afastou de mim, apercebi-me que não era mais ela. Os seus dentes caninos estavam mais afiados e prestes a caçar-me. Dei um salto para fugir dela, mas a única coisa suficientemente rápida para que eu o fizesse eram as asas que eu não hesitei em abrir. O problema foi que isso a deixou ainda mais sedenta e ela abriu a boca pronta para alcançar o meu pescoço. Eu dei uma batida para escapar, no entanto, a agilidade da vampira fez com que ela agarrasse a minha asa esquerda com a sua boca e eu gritei, quando sangue começou a banhar as penas brancas. Tive, felizmente, força suficiente para bate-la novamente e isso fez com que Rebeca me soltasse de raspão enquanto eu subia uns metros de altura, na esperança de ela não me alcançar!
-Rebeca, pára! – Gritei lacrimosa, tentando controlar o meu corpo que latejava.
Ela rosnou e saltou como um animal para cima da rocha onde anteriormente estávamos encostadas.
Sabia que se fugisse ela voltaria ao normal, mas não conseguia deslocar-me na perfeição pelo ar, para alem de que a chuva agora violenta, não me deixava permanecer apta para voar.
Tentei bater as asas para sair dali pelo menos uns metros, e assim fiz, tentando manter o meu corpo hirto por causa da asa magoada que não correspondia aos movimentos que eu queria realizar. Rebeca tentou saltar para me alcançar mas eu movi-me a tento e ela caiu no chão. As minhas lágrimas confundiam-se com a chuva, mas a minha visão continuava atenta a Rebeca, com um certo desdém e tristeza:
-Um dia vais salvar-me? Vou esperar por esse dia…! – Exclamei, desgostosa.
Ela encostou-se á pedra e arfou, tentando trepa-la.
Eu fiz de tudo para me ir embora dali.
Voei com dificuldade por cima da floresta , tentando fugir o mais rápido possível para que ela não me alcançasse.
A asa esquerda por vezes não batia e eu corri duas vezes o risco de cair, mas continuei a lutar para chegar até algum lugar habitado. As dores infernais do meu corpo não paravam e o sangue jorrava da minha ferida como uma torneira, fazendo-me perder o controlo da situação. Costuma-se dizer que á terceira é de vez, e foi. A asa travou de repente e eu descontrolei o meu corpo, sem tempo de tentar remediar-me. O meu corpo caiu sobre os ramos uma arvore, que me arranhou a pele substancialmente, até que finalmente tombei no chão e dei com a testa num pequeno calhau pontiagudo e molhado. Senti a cabeça a explodir, mas tentei levantar-me sem forças. Não sabia ao certo onde estava. Só sabia que era uma mata, como quase todos os locais daquela cidade. Agarrei-me ao tronco de uma arvore e comecei a andar. Quis fechar as asas mas não consegui. Elas não fechavam por culpa da chuva, portanto tive de tentar controla-las para não bater em lado nenhum.
Fui caminhando sem rumo, atenta ao ambiente que me rodeava. A fome já apertava e pelos meus passos lentos não era difícil entender que já tinha passado muito tempo. O meu telemóvel não dava sinal de vida, sem bateria, então, eu estava por minha conta. Cansada, sentei-me sobre a terra molhada e tentei manter-me acordada. Passei a mão na testa e senti uma ferida aberta. Um pequeno golpe lateral causado pela pedrinha em que acertei ao cair. Os meus braços estavam arranhados, assim como o peito e os ombros. Na asa esquerda, olhando com atenção, faltavam algumas penas na zona em que Rebeca cravara os seus dentes, e onde depois havia um rasto profundo que media cerca de quinze centímetros traçado pelos seus caninos. O sangue, mesmo com tanta chuva, não parava de verter. A minha respiração presa começou a sair aos solavancos e, entre soluços, as lágrimas rolaram pela minha cara. Prendi os meus joelhos nos braços e encostei a minha cabeça. Não queria acreditar que Rebeca tinha feito aquilo, mas o que me dera mais beijo foram as vozes que escutei na minha mente. Pareciam ser de alguém que sabia muito sobre mim, mas que eu não sabia nada.
Quando dei por mim, adormeci, á chuva.
Comentem, sim, se nao amanha nao posto! Muahahaha!
bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
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-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Como já é tarde, apenas leio o Capitulo XXV – A sogra amanhã.
Para já digo isto: Já acabaste? O_O quem me dera já ter acabado uma das minhas fanfics. A sério, estou farta, mas tbm tenho tanta preguiça em escrever...
Gostei dos capítulos que li. Romanticos, simples e.... grandes xDD
Fiquei mesmo a ler o capítulo ao som dos Nickelback (eu adoro-os
) e fiquei K.O. Achei mesmo que eles iam para a frente.. estupidez a minha 
Daqui a umas horas comento o outro, que deve estar tao bom quanto os outros x)
Para já digo isto: Já acabaste? O_O quem me dera já ter acabado uma das minhas fanfics. A sério, estou farta, mas tbm tenho tanta preguiça em escrever...
Gostei dos capítulos que li. Romanticos, simples e.... grandes xDD
Fiquei mesmo a ler o capítulo ao som dos Nickelback (eu adoro-os
) e fiquei K.O. Achei mesmo que eles iam para a frente.. estupidez a minha 
Daqui a umas horas comento o outro, que deve estar tao bom quanto os outros x)
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
Ai lulu!!! Queres matar-me do coração!!!
Tadita da Lana!!!!
Eu quase morri quando a desgraçada da rapariga foi mordida, depois caiu em pleno voo, e ainda a bater com a cabeça numa pedra XD AI CREEEDOOOO!!!
Ahah
aparte disso, Ahhh que fofinha a avó do Gustavo, ah a D. Constança é assim, meio desgroveada XD ahah XD(pelo menos foi isso q me deu a entender)XD
Descrições, mesmo perfect *.*Fico sempre pasma com as tuas descrições, tão detalhadas, deixou-me mesmo a imaginar os locais
Quero maiiiis se fazes favor, ´mais umzinhooo
Tadita da Lana!!!!
Eu quase morri quando a desgraçada da rapariga foi mordida, depois caiu em pleno voo, e ainda a bater com a cabeça numa pedra XD AI CREEEDOOOO!!!
Ahah
aparte disso, Ahhh que fofinha a avó do Gustavo, ah a D. Constança é assim, meio desgroveada XD ahah XD(pelo menos foi isso q me deu a entender)XD
Descrições, mesmo perfect *.*Fico sempre pasma com as tuas descrições, tão detalhadas, deixou-me mesmo a imaginar os locais

Quero maiiiis se fazes favor, ´mais umzinhooo

さよならできずに, 立ち止まったままの僕と一緒に...
Olá meninas!
Bem, vocês acordam/deitam-se a umas horas! hahaha!
Já estava com saudades Ana_Sant0s, mas é verdade, a fic está a acabar. Também, valha-me Deus, para mim até escrevi demais, 599 paginas A4 no word em letra Times New Roman! Lol Isto para mim já foi um recorde! Lol Ah eu sou completamente louca pelos Nickelback!
Depois, quando acabar de postar a fic, vou postar também um especial curiosidades, onde vou falar de como surgiu a historia, as alterações que fui fazendo, e as musicas que me inspiraram, fazendo referencia a cada momento.
Se fosse agora em todos os capitulo teria metido uma musica, mas na altura pronto.
'
Tinoco, chhh, não digam a ninguém, mas as minhas avós são parecidas com as do Gustavo, na verdade inspirei-me nelas para as criar! A única coisa que não se assemelha é o facto de a minha avó não apontar uma sachola! hahaha! De resto posso dizer que uma é mais calma e meiga, e a outra mais rigorosa e trabalhadora. A cena de o Gustavo abraçar a avó é uma cena típica que um primo meu da idade dele faz, e eu acho tão fofo!
Um dia destes ainda escrevo um livro! Kekeke!
bjokas
Bem, vocês acordam/deitam-se a umas horas! hahaha! Já estava com saudades Ana_Sant0s, mas é verdade, a fic está a acabar. Também, valha-me Deus, para mim até escrevi demais, 599 paginas A4 no word em letra Times New Roman! Lol Isto para mim já foi um recorde! Lol Ah eu sou completamente louca pelos Nickelback!
Depois, quando acabar de postar a fic, vou postar também um especial curiosidades, onde vou falar de como surgiu a historia, as alterações que fui fazendo, e as musicas que me inspiraram, fazendo referencia a cada momento.
Se fosse agora em todos os capitulo teria metido uma musica, mas na altura pronto.
'Tinoco, chhh, não digam a ninguém, mas as minhas avós são parecidas com as do Gustavo, na verdade inspirei-me nelas para as criar! A única coisa que não se assemelha é o facto de a minha avó não apontar uma sachola! hahaha! De resto posso dizer que uma é mais calma e meiga, e a outra mais rigorosa e trabalhadora. A cena de o Gustavo abraçar a avó é uma cena típica que um primo meu da idade dele faz, e eu acho tão fofo!

Um dia destes ainda escrevo um livro! Kekeke!
bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
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lulumoon escreveu:Depois, quando acabar de postar a fic, vou postar também um especial curiosidades, onde vou falar de como surgiu a historia, as alterações que fui fazendo, e as musicas que me inspiraram, fazendo referencia a cada momento.
Se fosse agora em todos os capitulo teria metido uma musica, mas na altura pronto.'
Hihhi que bom
Depois vou querer ler, quando (infelizmente) acabares de postar a fic 
lulumoon escreveu:Tinoco, chhh, não digam a ninguém, mas as minhas avós são parecidas com as do Gustavo, na verdade inspirei-me nelas para as criar!
Deixa la, eu também me inspiro em pessoas cá do mundo exterior pra criar as minhas personagens.Na minha 1ª fic, havia um personagem, o mau da fita no meio daquilo tudo, que era inspirada num colega meu que eu ODEIO XD
Ou então... Vá, eu tiro sempre um pouco de cada pessoa que conheço para dar mais carisma às minhas personagens, se bem que às vezes, estrago tudo XD
Vá menina lulumoon, queremos mais, estás à espera do quieã??
Posta lá vá!!

さよならできずに, 立ち止まったままの僕と一緒に...
Bah! Este capitulo é tao frustrante que eu nem tinha vontade de posta-lo, muito menos de rele-lo!
Perdoem-me se tiver muitos erros!
boa leitura!
Capitulo XXVII – Martírio
Acordei passadas duas horas. Já não chovia, mas eu tinha muito frio. Levantei-me com esforço e sacudi as asas doridas na esperança de poder fecha-las. Talvez voltassem ao normal depois disso.
Infelizmente elas mal se moviam, e por isso tive de continuar á procura de um trilho que me levasse á estrada com todas aquelas dores infernais. Passou cerca de uma hora ou mais. Estava morta de fome e sem forças, mas lutava para não desmaiar ou coisa parecida. Tinha noção que já tinha passado tanto tempo que provavelmente Gustavo já tinha saído da escola e ido á minha procura, só lamentei que ele não soubesse onde me procurar.
Foi então que vi uma arvore irregular perto de umas rochas. Corri até ela e tentei trepa-la para saber onde estava. Saltei para a pedra alta e tentei bater as asas para vislumbrar a paisagem. Consegui mas só durou um segundo, tempo suficiente para eu saber o meu norte. A partir desse momento foi só correr até achar uma estrada conhecida. Quando lá cheguei, porem, vi-me obrigada a andar sempre dentro da floresta para que não fosse vista por ninguém. Quando passei pela capela que mostrava o caminho para minha casa, desci o caminho o mais rápido que pude. A minha corrida deixou-me tão atrapalhada que acabei por tropeçar e quase cair. As dores eram tão fortes que eu só queria gritar, mas não podia. Finalmente, vi a minha casa ao longe e abrandei, exausta. O carro de Helen ainda não tinha chegado. Subi as escadas, cansada e abri a porta com a chave que havia debaixo do vaso de flores. Senti tanto alivio que até me senti livre de dores. Antes de tudo peguei num queque para tentar recuperar forças. Depois despi a minha roupa na casa de banho e pu-la para lavar, antes que alguém visse toda aquela lama. Sacudi as asas com dificuldade, pois cada movimento fazia-me contorcer o corpo de dor. Pedi ajuda ao meu secador, e depois de sentir que já conseguia domar as minhas armas, contorci as costas numa tentativa bem sucedida de as fechar. Logo entrei na banheira e depois de me lavar, deixei-me estar lá deitada a recuperar forças.
Com algum custo saí da casa de banho e fui para o meu quarto. Vesti uma roupa confortável e sequei o cabelo, sem atenção em ele ficar liso ou encaracolado. Prendi-o todo desengonçado, mas isso dava-lhe uma certa graça.
Deitei-me na cama, exausta, mas uma dor interna impedia-me de ali estar. Saltei para o chão e andei de uma lado para o outro, irrequieta por causa da dor.
A campainha despertou as minhas atenções e fui abri-la.
Gustavo entrou de rompante e pousou as minhas coisas num canto, seguido por Liliana, fula como tudo.
-Tu és louca! – Gritou ela, furiosa.
Eu não respondi nada e mantive o meu ar deprimido. Caminhei até Gustavo e abracei-o em silencio, enterrando a minha cabeça no seu ombro. Ele pegou no meu braço, ao vê-lo em tão mau estado e ficou tão irritado quanto Liliana:
-Lannis, por amor de deus, diz-me o que se passou!
Ele levantou o meu rosto e analisou o golpe na testa, as feridas no pescoço e depois desviou a minha camisola e viu também as feridas no ombro.
-Desculpa… - Murmurei, com as lágrimas a encherem os meus olhos.
Ele não conseguiu praguejar comigo por causa do meu olhar e abraçou-me, até que eu gemi alto quando ele me tocou as costas.
Liliana deu um passo até nós os dois e franziu as sobrancelhas:
-O que se passa?
Ela levantou-me a camisola atrás e abriu a boca, assustada. Fiquei inquieta com a sua admiração:
-o que tem, Liliana?
Ela olhou Gustavo e depois para mim.
-O que é que te aconteceu? – Ela quis saber, mas eu não me libertei – Lana, tens uma nódoa negra nas costas que te ocupa praticamente o tamanho de uma bíblia.
Encolhi-me ligeiramente e afastei-me deles.
Gustavo seguiu-me e pediu-me que eu me sentasse.
Eu respeitei-o.
Aí ele acariciou-me o rosto:
-Podes contar-me. – Garantiu – acho que mais aflito do que me deixaste não posso ficar.
Levei o olhar ás minhas pernas e tomei coragem para falar:
-A Rebeca é uma vampira, o Rui e a Joana querem mata-la e eu quero que ela se salve. Tudo se resume a isto.
Ela ficou a olhar para mim embasbacado, até que finalmente reagiu:
-O quê?! Vampiros não existem, isso é… É mentira! Lana o que…? Isso…
-É verdade. – defendi-me - Eu sou um anjo, ela é um vampiro, tu és um humano…
-E a Liliana é uma sereia?! – interrompeu, cinicamente – Lana, isso não faz sentido!
-Mas é verdade. – Lili sentou-se ao nosso lado – A Rebeca já quase matou a Lana!
-O quê?! – Ele olhou-me na esperança que eu desmentisse aquilo, mas eu não o fiz, o que o deixou como um louco – Quando?
-Já foi á muito tempo, nós afastamo-nos!
-Porque eu obriguei! – Corrigiu Liliana, para meu desagrado.
Gustavo levantou-se do sofá e andou de um lado para o outro:
-ok… - Ele parou e franziu as sobrancelhas - Então…? O que é que o Rui e a Joana tem a ver com isso?!
-Bem, no dia em que eu descobri a verdade sobre a Rebeca e contei á Liliana chamamos algumas atenções. A partir daí eles andavam sempre atrás de mim para tentar saber quem ela era. – Gustavo olhou para o vazio, recordando algumas situações em que me vira junto dos dois primos – Hoje eles descobriram, lá na cafetaria. Eu tive um ataque de pânico e depois desmaiei. Quando tu me disseste que eles tinham saído da escola, eu sabia que era para irem apanha-la, por isso tentei ser mais rápida e quando finalmente a encontrei em sua casa, discutimos até eles apareceram. Armei uma táctica para fugirmos sem sermos vistas, mas a Rebeca quase não aguentava por causa do sol. – Liliana franziu a testa, atenta ao que eu dizia - Eu levei-a para uma zona com sombras, na serra, e lá falamos com calma… Depois ela… - interrompi-me ao aperceber-me do que ia dizer. Não podia dizer que ela me tinha beijado. Isso era estranho e imperdoável – Ela fez algo que descontrolou os seus instintos… e depois eu aleijei-me e tentei fugir, mas acabei por me magoar ainda mais na mata e adormecer lá, enquanto tentava regressar para casa.
Gustavo olhou-me magoado:
-Porque fizeste isso, Lana?
Levantei-me do sofá, e limpei os olhos para não chorar:
-Porque ela ainda me há-de salvar a vida…
Ele negou coma cabeça e baixou o olhar, decepcionado comigo.
Eu segurei o seu rosto perto do meu, e tentei não chorar:
-Desculpa… Eu só queria ajuda-la…
Ele ficou a olhar-me, entristecido com a minha acção, e passou a mão no meu cabelo, como resposta, mas o seu espírito, apesar de zangado, estava em relutância consigo mesmo, pois não sabia se me devia perdoar ou não.
Ele acabou por me recolher nos seus braços, lentamente e encostou a sua bochecha á minha, com a boca perto do meu ouvido, onde libertou um suspiro:
-Eu amo-te… - disse baixinho, e depois deu-me um leve beijo na face, aliviante.
-Obrigada… - Agradeci, abraçando-o levemente.
Liliana pôs-se a pé, atrapalhada connosco, e aproximou-se de mim:
-Err… - Ela fez aquela tosse seca, para que eu a olhasse – Podes mostrar as asas?
Assenti, ainda abraçada a Gustavo e pedi que ela me levantasse a camisola, de modo a não rasga-la, e com dificuldade libertei os meus membros. Gemi de dor e apertei-me mais contra Gustavo que como sempre ficou afectado por mim. Liliana passou os dedos na camada de penas até achar a minha grande ferida.
-Não acredito. Ela mordeu-te?
-Sim…
O coração de Gustavo acelerou junto ao meu ouvido e eu choraminguei.
-Gustavo… Eu não tive culpa…! Tu também ficas louco quando eu estou com as asas abertas. Ela é como tu!
Ele soltou uma lufada de ar e abanou a cabeça, repreensivo:
-E agora? Essa ferida dói-te muito?
Confirmei num balanço do crânio.
-Por acaso não conhecem nenhum veterinário que não se assuste com um anjo?
Gustavo enrijeceu o corpo, mais deprimido do que anteriormente. Eu não compreendi, mas Liliana olhou-o, apreensiva.
-o que foi? – Perguntei, preocupada.
Ele suspirou:
-O meu pai era veterinário… E ele não ia ter medo de ti. – os seus olhos azuis ficaram nostálgicos, como se naquele momento ele quisesse chamar pelo pai para me ajudar.
Levei as minhas mãos até ao seu rosto:
-Desculpa, desculpa! Eu hoje tirei o dia para te magoar.
Ele inclinou a cabeça e deu de ombros, fingindo-se bem com a situação. Ao olhar para os seus lábios eu tive uma estranha recordação das vozes que ouvi na minha cabeça quando Rebeca me beijou e travei a respiração por segundos.
-Posso fazer uma coisa? – perguntei.
Ele franziu as sobrancelhas e consentiu.
Eu aproveitei o facto de a sua cabeça estar inclinada e aproximei os meus lábios dos dele. Quando os toquei foi como uma explosão de energia dentro de mim e eu voltei a afastar-me sem sequer intensificar a sensação.
-Ouviste? – perguntei.
-O quê?
Voltei a segurar o seu rosto e encostei a minha boca á dele. Apenas os lábios se tocavam levemente, e eu conseguia sempre ouvir vozes dentro da minha cabeça, mas eram tantas que não conseguia entende-las.
Gustavo pareceu ficar frenético a cada toque que eu lhe dava e ficava ainda mais louco por eu me afastar dele antes que ele me conseguisse prender. Liliana, apesar de constrangida, apercebeu-se que eu testava algo.
-Eu ouço vozes. – Murmurei, travando a minha boca em frente á de Gustavo – Alguém está a falar de mim. São muitos… Espíritos.
-O quê? – Liliana cruzou os braços frente ao peito, incrédula.
Fitei-a de soslaio.
-Esta tarde apercebi-me disso. Alguém dizia que eu tinha saído da escola a voar. Era uma voz feminina. Parecia conversar com alguém sobre eu ser perigosa – franzi as sobrancelhas - , não percebi direito.
-E ouves de cada vez que eu te beijo? – Inquiriu Gustavo.
-Não… Eu acho… Eu acho que há algo mais…
-Será por teres as asas abertas? – Palpitou Liliana.
-Talvez pela energia que depositamos um no outro… - tentei focalizar-me. A teoria das asas era boa, mas quando Rebeca me beijou eu tinha-as fechadas, portanto, talvez os beijos fossem algo que me desligassem tanto do exterior, que eu conseguisse chegar até ao interior de pensamentos desconhecidos, mas muito mais altos do que o habitual.
Gustavo ficou sério:
-Não gosto disso, especialmente porque começou de repente.
-Houve alguma coisa estranha que conseguisses decifrar?
-Não… - falei, baixo. Enterrei novamente o meu rosto no pescoço de Gustavo e apertei-o contra mim, preocupada – Mas tenho medo… Por algum motivo sinto que alguém me anda a perseguir…
Gustavo deu-me um beijo na testa e abraçou-me com mais força.
Liliana por outro lado deu de ombros:
-Com certeza é ideia tua. Não há ninguém que queira perseguir-te, certo?
Gustavo engoliu a seco, preocupado, mas eu fiz o meu ar mais simples e representei como uma verdadeira actriz:
-Claro que não. Eu só… Sinto-me estranha… Parece que o perigo aproxima-se…
Gustavo passou as mãos na minha asa magoada, com cuidado para não me magoar.
-Podemos remediar isto. - Disse.
Sorri por gentileza. Ele pediu-me que eu dissesse onde estavam todos os produtos desinfectantes e clínicos e depois eu sentei-me no sofá, á sua frente, sentindo os seus dedos percorrerem o meu ferimento. Liliana entretinha-me para que eu me distraísse da dor, mas era difícil. Eu ainda não me tinha esquecido que ela e Letícia talvez tivessem falado, mas senti que não era hora para perguntar nada sobre isso.
Helen chegou entretanto e quase teve um ataque ao ver-me tão magoada e quis ajudar. A única ajuda que precisamos naquele momento foi que ela levasse Liliana a casa, pois já era a sua hora. Gustavo ia ficar comigo até mais tarde.
-Hoje não podemos encontrarmo-nos durante a noite, disse, ao entrarmos no meu quarto. –
Fiz um ar de desilusão, mas ao olhar pela janela concordei com ele.
Tentei controlar as asas ainda abertas para não chocar contra nada. Gustavo pegou-me a mão, e acariciou-me os dedos. Depois afagou-me o cabelo. Um lado de mim sentiu-se mal. No fundo, naquela tarde eu havia cometido um grande erro. Eu não queria viver com ele para sempre.
-Gustavo… - Chamei – Eu tenho uma coisa para te dizer. O motivo porque a Rebeca perdeu o controlo á minha beira e também quando comecei a ouvir vozes.
Ele não pareceu se importar com o que eu ia dizer, apesar de aquilo me corroer por dentro.
-Sim…? – falou, continuando a passar os dedos na minha pele.
-Nós estávamos a conversar e… Bem, eu não sei porquê mas ela… Ela beijou-me.
Ele estacou o olhar em mim, surpreso:
-Beijou-te?
-Na boca.
Ele fez uma cara de nojo e ao mesmo tempo os ciúmes coloriram o seu rosto de vermelho. Ele soltou a minha mão e deu uma passo de recua:
-E tu…?
-Eu fui beijada. – Resposta estúpida – Eu tive medo de a parar. Tive medo que ela me atacasse, alem disso ela era demasiado forte para eu conseguir fugir. Então ouvi as vozes e devo ter tido uma descarga de energia porque consegui afasta-la de mim. Aí apercebi-me que ela estava pronta para me atacar e tentei fugir. Por isso tinha esta ferida na asa…
Ele ficou em silencio a olhar-me com duvidas na sua mente. Continuava corado com a situação, tanto por constrangimento, como por ciúme, como por ódio.
-Desculpa… Eu tive de te dizer mas quero que saibas que… Tu és a única pessoa que eu quero ver colada aos meu lábios. És o único a quem eu quero entregar a minha boca e cobrir de beijos… Então, eu não quero que tu julgues que a Rebeca me beijou porque eu quis… - Ele virou os olhos para outro lado que não eu, sem nada dizer – por favor, esquece o que aconteceu, ok? Eu já prometi a mim mesma que ia esquecer.
Ele soltou dióxido de carbono com um esforço ligeiro, mas não se moveu nem um milímetro, fosse para se aproximar ou fugir. Então agi eu. Agarrei o seu rosto e beijei-o como se não houvesse amanha. Exibi tudo o que eu tinha acabado de dizer, carregando todos os meus gestos com os sentimentos e desejos que eu sentia por Gustavo, para que ele, de modo algum, tivesse duvidas sobre ele. Uma parte dele não tinha, na verdade. A outra queria ter, mas não conseguia, porque era mais fraca e não resistia a mim.
Tentei apagar as vozes confusas da minha mente. Pensar apenas em mim e nele até que elas se transformassem num burburinho de fundo que eu não queria reconhecer.
Helen ainda não tinha regressado.
Eu acabei por cair de costas na cama quando Gustavo me pressionou o corpo com força, com sorte por as asas ficarem completamente abertas no colchão e eu não me magoar com a posição delas. Não o impedi de me tocar e me beijar, apenas retribui o sabor dos seus beijos e tentei mantê-lo perto de mim.
-Eu não quero que te afastes de mim… - murmurei, deitada com ele sobre mim - Por favor… tu és tão importante para mim - Exclamei, na pausa dos beijos.
Ele passou as mãos na minha pele e acenou, com carinho:
-Tu também…
Sorri-lhe, sem esconder ainda a minha fragilidade, e esperei que ele voltasse a encostar os seus lábios aos meus, fosse de que forma fosse.
Ele encostou os nossos narizes e fechou os olhos. Eu fechei um segundo depois e arqueei o meu corpo para sentir o seu calor, o toque da sua boca húmida na minha. As suas mãos correrem a minha asas no sentido em que as minhas penas cresciam numa carícia arrepiante que nos fez a ambos ficar com o coração aos pulos. Entrelacei os meus dedos com o tecido macio da sua camisola e fiz um pouco de pressão para que ele me olhasse nos olhos:
-Não quero que te vás embora… - murmurei.
Gustavo pegou na minha mão e beijou-ma:
-Eu não quero ir.
-Quero estar contigo esta noite. – informei. Fitei a janela do quarto que exibia um céu escuro e depois volteia encara-lo - Não me importo com a chuva, desde que estejas aqui comigo.
Ele sorriu e acenou com a cabeça. Levantou o seu corpo de cima do meu e pegou no telemóvel que tinha no bolso. Aproveitei o momento para fechar as asas com cuidado. Ele olhava-me pelo canto do olho com o telemóvel encostado ao ouvido e encheu o seu peito de ar, esvaziando-o como se tivesse a prender a respiração enquanto eu tinha as asas expostas.
-Mãe. – Ele saudou de repente – É só para saberes que vou passar a noite fora, ok?
Ele fez um esgar com a resposta que ouviu e sentou-se ao meu lado na cama:
-Ouve, a Lana magoou-se e eu quero ficar com ela esta noite. – Ele sorriu durante a pausa para D. Maria do Carmo falar – A Helen está em casa, ok? Eu não vou fazer nada de perverso. – Não consegui evitar de rir do comentário, e Gustavo revirou os olhos e selou um beijinho nos meus lábios – Eu fico bem. – Disse, e desligou.
-Obrigada. – falei com sinceridade.
-Ainda bem que agradeces. A Dona Maria do Carmo já estava a pensar que eu ir roubar-te a virtude.
Ri-me e balancei a cabeça:
-Não o farias?
Ele mordeu o lábio, provocante:
-Eu sou uma rapaz ás direitas. – Ele apoiou-se nas duas mãos e voltou a pôr-se sobre mim, roubando-me um beijo – Não faço nada que não queiram.
-Quem disse que não quero? – inquiri agarrando-o com os meus olhos.
Ele corou e mostrou um sorrisinho no canto dos lábios:
-Não me provoques. Sabes muito bem que vontade não me falta – E de repente já o podia sentir quente contra mim.
Para dizer a verdade, desde que começamos a namorar o desejo que os nossos corpos revelavam um pelo outro era tão intenso – especialmente quando eu assumia a minha forma de angélica – que a maior luta que tivemos era centrada no nosso autocontrolo. Todas as noite havia uma parte de nós, um calor ardente que se intensificava pelo ambiente natural, uma hora em que quase perdíamos a noção daquilo que fazíamos. Mas depois um ou outro acordava do transe e tentava amainar a tentação com conversas quotidianas que acabavam por arrefecer a consciência e tornar-nos novamente dois namorados de fresco.
Os olhos dele encaravam-me, sedento, e ele beijou-me o pescoço. Lá íamos nós, pensei, mas a porta de fora abriu e ele teve a noção que Helen não seria impune ao seu comportamento, pelo que me beijou simplesmente os lábios e deitou-se ao meu lado, com o braço debaixo do meu pescoço a servir de almofada.
Ela entrou no quarto como era de esperar:
-Estás melhor? – perguntou-me.
-uhum. – confirmei – O Gustavo vai dormir cá. – Ataquei de repente.
Ela moveu a cabeça para trás como um peru:
-Ahm… Ok…? – Ela fez um careta confusa – A tua mãe sabe?
Ele acenou coma cabeça:
-Não te preocupes, eu não faço asneiras.
Ela sorriu e revirou os olhos:
-Não tens alternativa se não queres que eu te ponha a dormir no sofá.
-Claro, chefe!
Ela revirou os olhos:
-Vou preparar o jantar. Daqui a pouco chamo-vos, ok?
E depois de comermos de Televisão ligada nos meus desenhos animados, Gustavo e eu ajudamos Helen a arrumar a cozinha e fomos para o meu quarto. Eu fui á casa de banho tratar da minha higiene pessoal e vestir o pijama. Quando voltei ao quarto, ele estava sentado numa posição descontraída, com as pernas meias abertas e um dos joelhos dobrado ao alto, sem a camisola e apenas com as suas calças de ganga, em frente á minha TV, com uma pilha de DVDs na mão. Apeteceu-me fazer “grrr” como uma gata e enroscar-me no seu colo, mas corei mal pensai nisso. Ele olhou as minhas pernas seminuas a pé ao seu lado e escondeu um sorriso de mim:
-qual destes dois preferes? – Ele exibiu os dois DVDs. Na mão direita “A walk to remember” e na esquerda “Moulin Rouge”.
-Alguma vez os viste? – perguntei, duvidosa.
-Não.
-Está explicado! – murmurei para mim mesma. Bem me parecia que ele não sabia que aqueles filmes tinham sido criados para fazerem pessoas secretamente lamechas, tipo eu, chorar baba e ranho no final.
-São interessantes? – perguntou, sentindo-se desiludido com a sua escolha ao olhar para as capas.
-São, por acaso são os meus preferidos… Quer dizer, todos os meus filmes são os meus preferidos, mas enfim… Esses fazem parte do grupo.
-Então vamos ver, ou não te apetece?
Peguei no filme “Moulin Rouge”. Por algum motivo não o achava tão dramático apesar do final, talvez por ser um musical e envolver momentos divertidos.
Peguei nas almofadas e coloquei-as na cama. Saltei para o meu lugar e sentei-me com o comando do Leitor na mão, á espera que Gustavo me viesse fazer companhia.
Ele colocou o CD e começou a desapertar os botões das calças o que me fez ficar quente como lava:
-o que estás a fazer?! – Questionei. Acho que desta vez tinha ficado mesmo vermelha.
Ele olhou-me:
-Não vou dormir de roupa.
-Vais dormir nu?!
-De roupa interior? – palpitou.
Apaguei a Luz para ele não ver o meu ar de medo:
-ok! – Disse como quem fugia.
Ele riu-se da minha cara e eu deitei-me a olhar para o tecto, tímida quando ele se deitou ao meu lado, por baixo dos lençóis e da coberta primaveril. Ele aproveitou o meu estaticismo e beijou-me o pescoço para me fazer sentir ainda mais parvinha, e roubou-me o comando, iniciando o filme.
O seu corpo quente aconchegou-se contra e mim e eu tentei mostrar-me mais atenta ao filme do que aos arrepios que me percorriam mas que eu não deixava serem visíveis exteriormente. Aos poucos fui-me habituando e cedendo a calor corporal que Gustavo me passava, aceitando a suas carícias na minha pele, que ele já fazia sem se aperceber, já que estava preso ao filme. De vez em quando sorria, outras fazia esgares, mas quando o final começava a chegar, ele começou a entender que o filme não era tão amável como achava. Não é difícil imaginar a reacção dele quando teve a certeza que Satine realmente havia morrido e que aquilo não fora uma daquelas situações em que acabam todos felizes no final. Ele abraçou-me com mais força quando Christian, o protagonista, chora a morte da amada, como se soubesse exactamente qual a sensação, ou pior, imaginasse como seria se algum dia a sentisse.
Voltei-me para ele quando passaram os créditos finais e beijei-lhe os lábios, já ensonada.
-Não te preocupes… - vozeei, apreensiva.
-É por isto que não quero que tu te arrisques e corras perigos… Eu não suportaria se tu…
Impedi-o de falar com os meus dedos e depois coma boca. Passei uma perna por cima do seu quadris e abracei-o. Ele beijou-me o pescoço e depois os ombros, enquanto eu fazia o mesmo com o seu peito, rente á minha cara.
Ele avançou mais na minha direcção, e quando me apercebi já estava praticamente em cima de mim, com a boca novamente envolvida na minha.
O seu corpo quente aquecia-me a pele, talvez até em demasia, mas era bom. Ele voltou a beijar-me o maxilar e depois o meu pescoço causando-me pequenos calafrios. Senti que nos reconfortávamos mutuamente, o que era óptimo. Cada dia me sentia mais á vontade na sua presença e tinha menos receio de expor o meu verdadeiro eu, de fazer palhaçadas e idiotices, e de mostrar facetas que até então escondia dele e de mim mesma.
Senti que algo de bom poderia a qualquer momento acontecer, eu queria-o, ainda que tivesse medo. Deixei que ele tocasse o meu corpo com as suas mãos e abracei-o com as pernas. Isso pareceu deixa-lo agradado, mas antes que ele pudesse fazer algo mais, o meu telemóvel começou a tocar na mesinha de cabeceira. Eu quis ignorar, mas aquele toque irritante parecia aflito e Gustavo não teve outra alternativa a não ser sair de cima de mim:
-Atende. – Disse, seco.
Suspirei aborrecida e estiquei o meu braço até alcançar o maldito telemóvel. Quando olhei para o ecrã a luz quase me cegava, mas consegui ler o nome da minha melhor amiga no ecrã. Uma onda de receio atravessou-me o peito, pelo simples facto de ela me ligar quase todos os dias e nunca conseguirmos falar.
Carreguei no botãozinho verde e encostei o telemóvel ao meu ouvido:
-Cris?
-La… tu… Perig… é urgen...
-Cristina, eu não te consigo ouvir! – Avisei ao escutar tantas interferências a cortar a sua voz.
-Eles… Encontrar…Estão a preparar…
-A preparar o quê?! Não te entendo!
-Tens… Sair… Não falta muito…
-Para o quê?! Repete!
-…Anjos… Querem fazer-te m…
A chamada caiu. Fiquei com tanta raiva que atirei o telemóvel ao chão.
-O que se passa? – perguntou Gustavo, preocupado.
-A Cristina está a tentar falar comigo á séculos e não conseguimos! Parece que me quer dizer algo importante mas há sempre interferências ou falta de rede.
Ele franziu as sobrancelhas:
-Não consegues entender mesmo nada do que te disse?
-Não, parece bruxedo! Consigo telefonar a toda a gente menos a ela.
-Talvez o telemóvel esteja estragado!
-Talvez, mas é estranho… Ela disse qualquer coisa de ter de sair e falou em anjos! Não percebi nada, mas parecia aflita… - Fiz um esgar e arrastei o meu cabelo para trás. Com a outra mão desliguei a TV – olha, eu vou dormir. Já fiquei irritada. – falei, aborrecida.
Ele torceu os lábios, mas deu de ombros, compreensivo.
Deitei-me ao seu lado, de costas para ele e deixei que me cobrisse com os seus braços, enquanto me mexia no cabelo, até que adormeci por fim.
***
“Está a desenvolve-se.”
“Se não avançarmos rapidamente, pode ser tarde.”
“Quando avançamos?”
“Em breve! Ela é um ser muito perigoso para nós e se não a pararmos a tempo, pode destruir a nossa ordem.”
“Os anjos estão a ficar agitados. Ela provavelmente apercebeu-se que eles não se mantiveram em silencio. Isso não será perigoso?”
Perigoso, sim, isso ecoava na minha cabeça. Via perigo por todo o lado. Rebeca alimentava-se do meu sangue, Cristina gritava de medo, mas não por causa da vampira. E uma chuva de penas invadia o céu negro e chuvoso que deitava os cabelos loiros de Gustavo sobre os olhos chorosos. Era a imagem mais chocante de toda a cena, sem duvida e sentia-me remoída por dentro quando a via assim. O meu professor corria em redor de todos os nós, a rir-se enquanto apanhava todas as penas e as atirava na nossa direcção como flechas assassinas. Eu queria fugir e gritar, mas Rebeca prendia-me com os dentes cravados no meu maxilar. Eu queria pedir a Cristina que não gritasse nos meus ouvidos, pois doía imenso, mas não conseguia falar entre tantos soluços lacrimosos. Eu queria afastar o meu professor, mas ele era cada vez mais apressado e rapidamente me segurou o corpo e apertou-o contra ele. Tentou apalpar a minha face, mas eu sacudi-me e ele não o fez. Foi pior. Ela apertou-me os ombros e beijou-os, correndo a boca pelos meus braços, a sua boca molhada e imunda, nojenta! E nada o parava, nem o meu namorado, pois olhava-me como se eu fosse a culpada, cheio de ódio, desilusão e tristeza. Lágrimas de raiva escorriam pelo seu rosto e de um segundo para o outro ele caiu no chão, exausto, sem que eu pudesse fazer nada para o apanhar. As vozes na minha cabeça gritavam e gritavam mais, fazendo os meus ouvidos sangrar. Eu não podia parar nada. Rebeca tirava-me as forças e matava-me, Cristina gritava e fazia-me arder, o meu professor não me largava, tocava-me sedento, e Gustavo simplesmente não reagia porque não tinha forças e precisava de mim para se levantar. Eu queria poder dar-lhe o que ele precisava, mas não conseguia. Essa era a sensação mais sufocante de todas.
-Lana! Acorda! – Senti alguém sacudir-me os ombros com violência e abri os olhos, agitada.
Sem sequer olhar para a luz do quarto, enterrei a minha cara na almofada, sufocando os rios de lágrimas que caiam sem parar. A minha caixa toraxica aumentava e diminuía, sem me deixar controlar os soluços e a respiração aos solavancos.
Senti a aura de Helen ao meu lado, a passar a mão no meu braço. Esperneei ao mínimo toque, aumentando o choro.
-Lana, tem calma, foi só um pesadelo. – Ela tentou dizer.
Chorei ainda mais, recordando o sonho mau. Tentei cobrir-me com o lençol e fugir das suas mãos. Já não estava habituada á sensação eléctrica do toque das pessoas no meu corpo, e isso dava-me medo. Continuava a ouvir vozes. Por momentos pensei que os meus ouvidos estivessem a sangrar com tantas dores, mas nem com as mãos a tapa-los, os gritos paravam. Eram tão intensos e histéricos que eu contorcia-me de dor. Helen abraçou-me e eu fiquei tão amedrontada que lhe deu um murro, sei lá aonde. Ela gemeu de dor e eu tentei para de chorar mas não consegui.
-Lana, acorda! – Vozeou, espantada e dorida.
-Cala-te! – Gritei, apertando os meus ouvidos com mais força.
Senti uma dor forte nas costas, semelhante a uma punhalada e gemi de dores:
-Dói tanto…! – Funguei, levantando a minha cara da almofada.
-O quê? O que te dói?
-As costas! As vozes! Porque é que não se calam!?
Levantei-me atordoada e empurrei Helen violentamente, fazendo-a embater na parede. Saí do quarto para fora e na cozinha vi Gustavo com um copo na mão trémula. Ele estava preocupado e quando viu o meu estado, ficou pior ainda.
Ele aproximou-se de mim, e prendeu-me nos seus braços, tentando acalmar-me.
-Lannis, o que se passa? – Perguntou, baixinho – Estás a deixar-me preocupado.
-As vozes não se calam! – Resmunguei, lavada em lágrimas.
-O que é que dizem?
-Não consigo entender…! São milhares ao mesmo tempo! – Parei de repente, ao escutar algo.
“Vamos apanha-la!”
Parecia estar a sentir um martelo a acertar-me nas costas e fiquei sem ar por momentos.
Gustavo, olhou-me em estado de choque e tentou que eu reagisse, mas eu apenas chorei e deixei que os seus braços me guardassem.
-Acalma-te, por favor. – Pediu, beijando-me a testa quente – Sabes como me sinto quando te vejo assim? – Não respondi – Eu não suporto – A sua voz saiu mais débil, como se fosse também chorar – É horrível!
Tentei parar a choradeira mas só consegui soluçar abafada.
Helen já estava atrás de mim nessa altura, com um copo de agua na mão. Tocou-me nas costas para eu me voltar, o que fez a dor aumentar. Encolhi-me mais contra Gustavo e suprimi um gemido:
-Lana, bebe um pouco de agua e acalma-te! – Recomendou a minha madrinha, apreensiva.
Neguei num gesto de cabeça e não a encarei.
-Nossa, Alannis, já não te via assim á séculos! Estou a ficar preocupada!
-Que horas são? – inquiri, ignorando a sua preocupação.
-Cinco e pouco da manhã. – Respondeu Gustavo.
-Então, por favor, vão dormir… - Pedi, olhando-a por cima do ombros para Helen – Eu não quero que se cansem, está bem?
Perdoem-me se tiver muitos erros!
boa leitura!
Capitulo XXVII – Martírio
Acordei passadas duas horas. Já não chovia, mas eu tinha muito frio. Levantei-me com esforço e sacudi as asas doridas na esperança de poder fecha-las. Talvez voltassem ao normal depois disso.
Infelizmente elas mal se moviam, e por isso tive de continuar á procura de um trilho que me levasse á estrada com todas aquelas dores infernais. Passou cerca de uma hora ou mais. Estava morta de fome e sem forças, mas lutava para não desmaiar ou coisa parecida. Tinha noção que já tinha passado tanto tempo que provavelmente Gustavo já tinha saído da escola e ido á minha procura, só lamentei que ele não soubesse onde me procurar.
Foi então que vi uma arvore irregular perto de umas rochas. Corri até ela e tentei trepa-la para saber onde estava. Saltei para a pedra alta e tentei bater as asas para vislumbrar a paisagem. Consegui mas só durou um segundo, tempo suficiente para eu saber o meu norte. A partir desse momento foi só correr até achar uma estrada conhecida. Quando lá cheguei, porem, vi-me obrigada a andar sempre dentro da floresta para que não fosse vista por ninguém. Quando passei pela capela que mostrava o caminho para minha casa, desci o caminho o mais rápido que pude. A minha corrida deixou-me tão atrapalhada que acabei por tropeçar e quase cair. As dores eram tão fortes que eu só queria gritar, mas não podia. Finalmente, vi a minha casa ao longe e abrandei, exausta. O carro de Helen ainda não tinha chegado. Subi as escadas, cansada e abri a porta com a chave que havia debaixo do vaso de flores. Senti tanto alivio que até me senti livre de dores. Antes de tudo peguei num queque para tentar recuperar forças. Depois despi a minha roupa na casa de banho e pu-la para lavar, antes que alguém visse toda aquela lama. Sacudi as asas com dificuldade, pois cada movimento fazia-me contorcer o corpo de dor. Pedi ajuda ao meu secador, e depois de sentir que já conseguia domar as minhas armas, contorci as costas numa tentativa bem sucedida de as fechar. Logo entrei na banheira e depois de me lavar, deixei-me estar lá deitada a recuperar forças.
Com algum custo saí da casa de banho e fui para o meu quarto. Vesti uma roupa confortável e sequei o cabelo, sem atenção em ele ficar liso ou encaracolado. Prendi-o todo desengonçado, mas isso dava-lhe uma certa graça.
Deitei-me na cama, exausta, mas uma dor interna impedia-me de ali estar. Saltei para o chão e andei de uma lado para o outro, irrequieta por causa da dor.
A campainha despertou as minhas atenções e fui abri-la.
Gustavo entrou de rompante e pousou as minhas coisas num canto, seguido por Liliana, fula como tudo.
-Tu és louca! – Gritou ela, furiosa.
Eu não respondi nada e mantive o meu ar deprimido. Caminhei até Gustavo e abracei-o em silencio, enterrando a minha cabeça no seu ombro. Ele pegou no meu braço, ao vê-lo em tão mau estado e ficou tão irritado quanto Liliana:
-Lannis, por amor de deus, diz-me o que se passou!
Ele levantou o meu rosto e analisou o golpe na testa, as feridas no pescoço e depois desviou a minha camisola e viu também as feridas no ombro.
-Desculpa… - Murmurei, com as lágrimas a encherem os meus olhos.
Ele não conseguiu praguejar comigo por causa do meu olhar e abraçou-me, até que eu gemi alto quando ele me tocou as costas.
Liliana deu um passo até nós os dois e franziu as sobrancelhas:
-O que se passa?
Ela levantou-me a camisola atrás e abriu a boca, assustada. Fiquei inquieta com a sua admiração:
-o que tem, Liliana?
Ela olhou Gustavo e depois para mim.
-O que é que te aconteceu? – Ela quis saber, mas eu não me libertei – Lana, tens uma nódoa negra nas costas que te ocupa praticamente o tamanho de uma bíblia.
Encolhi-me ligeiramente e afastei-me deles.
Gustavo seguiu-me e pediu-me que eu me sentasse.
Eu respeitei-o.
Aí ele acariciou-me o rosto:
-Podes contar-me. – Garantiu – acho que mais aflito do que me deixaste não posso ficar.
Levei o olhar ás minhas pernas e tomei coragem para falar:
-A Rebeca é uma vampira, o Rui e a Joana querem mata-la e eu quero que ela se salve. Tudo se resume a isto.
Ela ficou a olhar para mim embasbacado, até que finalmente reagiu:
-O quê?! Vampiros não existem, isso é… É mentira! Lana o que…? Isso…
-É verdade. – defendi-me - Eu sou um anjo, ela é um vampiro, tu és um humano…
-E a Liliana é uma sereia?! – interrompeu, cinicamente – Lana, isso não faz sentido!
-Mas é verdade. – Lili sentou-se ao nosso lado – A Rebeca já quase matou a Lana!
-O quê?! – Ele olhou-me na esperança que eu desmentisse aquilo, mas eu não o fiz, o que o deixou como um louco – Quando?
-Já foi á muito tempo, nós afastamo-nos!
-Porque eu obriguei! – Corrigiu Liliana, para meu desagrado.
Gustavo levantou-se do sofá e andou de um lado para o outro:
-ok… - Ele parou e franziu as sobrancelhas - Então…? O que é que o Rui e a Joana tem a ver com isso?!
-Bem, no dia em que eu descobri a verdade sobre a Rebeca e contei á Liliana chamamos algumas atenções. A partir daí eles andavam sempre atrás de mim para tentar saber quem ela era. – Gustavo olhou para o vazio, recordando algumas situações em que me vira junto dos dois primos – Hoje eles descobriram, lá na cafetaria. Eu tive um ataque de pânico e depois desmaiei. Quando tu me disseste que eles tinham saído da escola, eu sabia que era para irem apanha-la, por isso tentei ser mais rápida e quando finalmente a encontrei em sua casa, discutimos até eles apareceram. Armei uma táctica para fugirmos sem sermos vistas, mas a Rebeca quase não aguentava por causa do sol. – Liliana franziu a testa, atenta ao que eu dizia - Eu levei-a para uma zona com sombras, na serra, e lá falamos com calma… Depois ela… - interrompi-me ao aperceber-me do que ia dizer. Não podia dizer que ela me tinha beijado. Isso era estranho e imperdoável – Ela fez algo que descontrolou os seus instintos… e depois eu aleijei-me e tentei fugir, mas acabei por me magoar ainda mais na mata e adormecer lá, enquanto tentava regressar para casa.
Gustavo olhou-me magoado:
-Porque fizeste isso, Lana?
Levantei-me do sofá, e limpei os olhos para não chorar:
-Porque ela ainda me há-de salvar a vida…
Ele negou coma cabeça e baixou o olhar, decepcionado comigo.
Eu segurei o seu rosto perto do meu, e tentei não chorar:
-Desculpa… Eu só queria ajuda-la…
Ele ficou a olhar-me, entristecido com a minha acção, e passou a mão no meu cabelo, como resposta, mas o seu espírito, apesar de zangado, estava em relutância consigo mesmo, pois não sabia se me devia perdoar ou não.
Ele acabou por me recolher nos seus braços, lentamente e encostou a sua bochecha á minha, com a boca perto do meu ouvido, onde libertou um suspiro:
-Eu amo-te… - disse baixinho, e depois deu-me um leve beijo na face, aliviante.
-Obrigada… - Agradeci, abraçando-o levemente.
Liliana pôs-se a pé, atrapalhada connosco, e aproximou-se de mim:
-Err… - Ela fez aquela tosse seca, para que eu a olhasse – Podes mostrar as asas?
Assenti, ainda abraçada a Gustavo e pedi que ela me levantasse a camisola, de modo a não rasga-la, e com dificuldade libertei os meus membros. Gemi de dor e apertei-me mais contra Gustavo que como sempre ficou afectado por mim. Liliana passou os dedos na camada de penas até achar a minha grande ferida.
-Não acredito. Ela mordeu-te?
-Sim…
O coração de Gustavo acelerou junto ao meu ouvido e eu choraminguei.
-Gustavo… Eu não tive culpa…! Tu também ficas louco quando eu estou com as asas abertas. Ela é como tu!
Ele soltou uma lufada de ar e abanou a cabeça, repreensivo:
-E agora? Essa ferida dói-te muito?
Confirmei num balanço do crânio.
-Por acaso não conhecem nenhum veterinário que não se assuste com um anjo?
Gustavo enrijeceu o corpo, mais deprimido do que anteriormente. Eu não compreendi, mas Liliana olhou-o, apreensiva.
-o que foi? – Perguntei, preocupada.
Ele suspirou:
-O meu pai era veterinário… E ele não ia ter medo de ti. – os seus olhos azuis ficaram nostálgicos, como se naquele momento ele quisesse chamar pelo pai para me ajudar.
Levei as minhas mãos até ao seu rosto:
-Desculpa, desculpa! Eu hoje tirei o dia para te magoar.
Ele inclinou a cabeça e deu de ombros, fingindo-se bem com a situação. Ao olhar para os seus lábios eu tive uma estranha recordação das vozes que ouvi na minha cabeça quando Rebeca me beijou e travei a respiração por segundos.
-Posso fazer uma coisa? – perguntei.
Ele franziu as sobrancelhas e consentiu.
Eu aproveitei o facto de a sua cabeça estar inclinada e aproximei os meus lábios dos dele. Quando os toquei foi como uma explosão de energia dentro de mim e eu voltei a afastar-me sem sequer intensificar a sensação.
-Ouviste? – perguntei.
-O quê?
Voltei a segurar o seu rosto e encostei a minha boca á dele. Apenas os lábios se tocavam levemente, e eu conseguia sempre ouvir vozes dentro da minha cabeça, mas eram tantas que não conseguia entende-las.
Gustavo pareceu ficar frenético a cada toque que eu lhe dava e ficava ainda mais louco por eu me afastar dele antes que ele me conseguisse prender. Liliana, apesar de constrangida, apercebeu-se que eu testava algo.
-Eu ouço vozes. – Murmurei, travando a minha boca em frente á de Gustavo – Alguém está a falar de mim. São muitos… Espíritos.
-O quê? – Liliana cruzou os braços frente ao peito, incrédula.
Fitei-a de soslaio.
-Esta tarde apercebi-me disso. Alguém dizia que eu tinha saído da escola a voar. Era uma voz feminina. Parecia conversar com alguém sobre eu ser perigosa – franzi as sobrancelhas - , não percebi direito.
-E ouves de cada vez que eu te beijo? – Inquiriu Gustavo.
-Não… Eu acho… Eu acho que há algo mais…
-Será por teres as asas abertas? – Palpitou Liliana.
-Talvez pela energia que depositamos um no outro… - tentei focalizar-me. A teoria das asas era boa, mas quando Rebeca me beijou eu tinha-as fechadas, portanto, talvez os beijos fossem algo que me desligassem tanto do exterior, que eu conseguisse chegar até ao interior de pensamentos desconhecidos, mas muito mais altos do que o habitual.
Gustavo ficou sério:
-Não gosto disso, especialmente porque começou de repente.
-Houve alguma coisa estranha que conseguisses decifrar?
-Não… - falei, baixo. Enterrei novamente o meu rosto no pescoço de Gustavo e apertei-o contra mim, preocupada – Mas tenho medo… Por algum motivo sinto que alguém me anda a perseguir…
Gustavo deu-me um beijo na testa e abraçou-me com mais força.
Liliana por outro lado deu de ombros:
-Com certeza é ideia tua. Não há ninguém que queira perseguir-te, certo?
Gustavo engoliu a seco, preocupado, mas eu fiz o meu ar mais simples e representei como uma verdadeira actriz:
-Claro que não. Eu só… Sinto-me estranha… Parece que o perigo aproxima-se…
Gustavo passou as mãos na minha asa magoada, com cuidado para não me magoar.
-Podemos remediar isto. - Disse.
Sorri por gentileza. Ele pediu-me que eu dissesse onde estavam todos os produtos desinfectantes e clínicos e depois eu sentei-me no sofá, á sua frente, sentindo os seus dedos percorrerem o meu ferimento. Liliana entretinha-me para que eu me distraísse da dor, mas era difícil. Eu ainda não me tinha esquecido que ela e Letícia talvez tivessem falado, mas senti que não era hora para perguntar nada sobre isso.
Helen chegou entretanto e quase teve um ataque ao ver-me tão magoada e quis ajudar. A única ajuda que precisamos naquele momento foi que ela levasse Liliana a casa, pois já era a sua hora. Gustavo ia ficar comigo até mais tarde.
-Hoje não podemos encontrarmo-nos durante a noite, disse, ao entrarmos no meu quarto. –
Fiz um ar de desilusão, mas ao olhar pela janela concordei com ele.
Tentei controlar as asas ainda abertas para não chocar contra nada. Gustavo pegou-me a mão, e acariciou-me os dedos. Depois afagou-me o cabelo. Um lado de mim sentiu-se mal. No fundo, naquela tarde eu havia cometido um grande erro. Eu não queria viver com ele para sempre.
-Gustavo… - Chamei – Eu tenho uma coisa para te dizer. O motivo porque a Rebeca perdeu o controlo á minha beira e também quando comecei a ouvir vozes.
Ele não pareceu se importar com o que eu ia dizer, apesar de aquilo me corroer por dentro.
-Sim…? – falou, continuando a passar os dedos na minha pele.
-Nós estávamos a conversar e… Bem, eu não sei porquê mas ela… Ela beijou-me.
Ele estacou o olhar em mim, surpreso:
-Beijou-te?
-Na boca.
Ele fez uma cara de nojo e ao mesmo tempo os ciúmes coloriram o seu rosto de vermelho. Ele soltou a minha mão e deu uma passo de recua:
-E tu…?
-Eu fui beijada. – Resposta estúpida – Eu tive medo de a parar. Tive medo que ela me atacasse, alem disso ela era demasiado forte para eu conseguir fugir. Então ouvi as vozes e devo ter tido uma descarga de energia porque consegui afasta-la de mim. Aí apercebi-me que ela estava pronta para me atacar e tentei fugir. Por isso tinha esta ferida na asa…
Ele ficou em silencio a olhar-me com duvidas na sua mente. Continuava corado com a situação, tanto por constrangimento, como por ciúme, como por ódio.
-Desculpa… Eu tive de te dizer mas quero que saibas que… Tu és a única pessoa que eu quero ver colada aos meu lábios. És o único a quem eu quero entregar a minha boca e cobrir de beijos… Então, eu não quero que tu julgues que a Rebeca me beijou porque eu quis… - Ele virou os olhos para outro lado que não eu, sem nada dizer – por favor, esquece o que aconteceu, ok? Eu já prometi a mim mesma que ia esquecer.
Ele soltou dióxido de carbono com um esforço ligeiro, mas não se moveu nem um milímetro, fosse para se aproximar ou fugir. Então agi eu. Agarrei o seu rosto e beijei-o como se não houvesse amanha. Exibi tudo o que eu tinha acabado de dizer, carregando todos os meus gestos com os sentimentos e desejos que eu sentia por Gustavo, para que ele, de modo algum, tivesse duvidas sobre ele. Uma parte dele não tinha, na verdade. A outra queria ter, mas não conseguia, porque era mais fraca e não resistia a mim.
Tentei apagar as vozes confusas da minha mente. Pensar apenas em mim e nele até que elas se transformassem num burburinho de fundo que eu não queria reconhecer.
Helen ainda não tinha regressado.
Eu acabei por cair de costas na cama quando Gustavo me pressionou o corpo com força, com sorte por as asas ficarem completamente abertas no colchão e eu não me magoar com a posição delas. Não o impedi de me tocar e me beijar, apenas retribui o sabor dos seus beijos e tentei mantê-lo perto de mim.
-Eu não quero que te afastes de mim… - murmurei, deitada com ele sobre mim - Por favor… tu és tão importante para mim - Exclamei, na pausa dos beijos.
Ele passou as mãos na minha pele e acenou, com carinho:
-Tu também…
Sorri-lhe, sem esconder ainda a minha fragilidade, e esperei que ele voltasse a encostar os seus lábios aos meus, fosse de que forma fosse.
Ele encostou os nossos narizes e fechou os olhos. Eu fechei um segundo depois e arqueei o meu corpo para sentir o seu calor, o toque da sua boca húmida na minha. As suas mãos correrem a minha asas no sentido em que as minhas penas cresciam numa carícia arrepiante que nos fez a ambos ficar com o coração aos pulos. Entrelacei os meus dedos com o tecido macio da sua camisola e fiz um pouco de pressão para que ele me olhasse nos olhos:
-Não quero que te vás embora… - murmurei.
Gustavo pegou na minha mão e beijou-ma:
-Eu não quero ir.
-Quero estar contigo esta noite. – informei. Fitei a janela do quarto que exibia um céu escuro e depois volteia encara-lo - Não me importo com a chuva, desde que estejas aqui comigo.
Ele sorriu e acenou com a cabeça. Levantou o seu corpo de cima do meu e pegou no telemóvel que tinha no bolso. Aproveitei o momento para fechar as asas com cuidado. Ele olhava-me pelo canto do olho com o telemóvel encostado ao ouvido e encheu o seu peito de ar, esvaziando-o como se tivesse a prender a respiração enquanto eu tinha as asas expostas.
-Mãe. – Ele saudou de repente – É só para saberes que vou passar a noite fora, ok?
Ele fez um esgar com a resposta que ouviu e sentou-se ao meu lado na cama:
-Ouve, a Lana magoou-se e eu quero ficar com ela esta noite. – Ele sorriu durante a pausa para D. Maria do Carmo falar – A Helen está em casa, ok? Eu não vou fazer nada de perverso. – Não consegui evitar de rir do comentário, e Gustavo revirou os olhos e selou um beijinho nos meus lábios – Eu fico bem. – Disse, e desligou.
-Obrigada. – falei com sinceridade.
-Ainda bem que agradeces. A Dona Maria do Carmo já estava a pensar que eu ir roubar-te a virtude.
Ri-me e balancei a cabeça:
-Não o farias?
Ele mordeu o lábio, provocante:
-Eu sou uma rapaz ás direitas. – Ele apoiou-se nas duas mãos e voltou a pôr-se sobre mim, roubando-me um beijo – Não faço nada que não queiram.
-Quem disse que não quero? – inquiri agarrando-o com os meus olhos.
Ele corou e mostrou um sorrisinho no canto dos lábios:
-Não me provoques. Sabes muito bem que vontade não me falta – E de repente já o podia sentir quente contra mim.
Para dizer a verdade, desde que começamos a namorar o desejo que os nossos corpos revelavam um pelo outro era tão intenso – especialmente quando eu assumia a minha forma de angélica – que a maior luta que tivemos era centrada no nosso autocontrolo. Todas as noite havia uma parte de nós, um calor ardente que se intensificava pelo ambiente natural, uma hora em que quase perdíamos a noção daquilo que fazíamos. Mas depois um ou outro acordava do transe e tentava amainar a tentação com conversas quotidianas que acabavam por arrefecer a consciência e tornar-nos novamente dois namorados de fresco.
Os olhos dele encaravam-me, sedento, e ele beijou-me o pescoço. Lá íamos nós, pensei, mas a porta de fora abriu e ele teve a noção que Helen não seria impune ao seu comportamento, pelo que me beijou simplesmente os lábios e deitou-se ao meu lado, com o braço debaixo do meu pescoço a servir de almofada.
Ela entrou no quarto como era de esperar:
-Estás melhor? – perguntou-me.
-uhum. – confirmei – O Gustavo vai dormir cá. – Ataquei de repente.
Ela moveu a cabeça para trás como um peru:
-Ahm… Ok…? – Ela fez um careta confusa – A tua mãe sabe?
Ele acenou coma cabeça:
-Não te preocupes, eu não faço asneiras.
Ela sorriu e revirou os olhos:
-Não tens alternativa se não queres que eu te ponha a dormir no sofá.
-Claro, chefe!
Ela revirou os olhos:
-Vou preparar o jantar. Daqui a pouco chamo-vos, ok?
E depois de comermos de Televisão ligada nos meus desenhos animados, Gustavo e eu ajudamos Helen a arrumar a cozinha e fomos para o meu quarto. Eu fui á casa de banho tratar da minha higiene pessoal e vestir o pijama. Quando voltei ao quarto, ele estava sentado numa posição descontraída, com as pernas meias abertas e um dos joelhos dobrado ao alto, sem a camisola e apenas com as suas calças de ganga, em frente á minha TV, com uma pilha de DVDs na mão. Apeteceu-me fazer “grrr” como uma gata e enroscar-me no seu colo, mas corei mal pensai nisso. Ele olhou as minhas pernas seminuas a pé ao seu lado e escondeu um sorriso de mim:
-qual destes dois preferes? – Ele exibiu os dois DVDs. Na mão direita “A walk to remember” e na esquerda “Moulin Rouge”.
-Alguma vez os viste? – perguntei, duvidosa.
-Não.
-Está explicado! – murmurei para mim mesma. Bem me parecia que ele não sabia que aqueles filmes tinham sido criados para fazerem pessoas secretamente lamechas, tipo eu, chorar baba e ranho no final.
-São interessantes? – perguntou, sentindo-se desiludido com a sua escolha ao olhar para as capas.
-São, por acaso são os meus preferidos… Quer dizer, todos os meus filmes são os meus preferidos, mas enfim… Esses fazem parte do grupo.
-Então vamos ver, ou não te apetece?
Peguei no filme “Moulin Rouge”. Por algum motivo não o achava tão dramático apesar do final, talvez por ser um musical e envolver momentos divertidos.
Peguei nas almofadas e coloquei-as na cama. Saltei para o meu lugar e sentei-me com o comando do Leitor na mão, á espera que Gustavo me viesse fazer companhia.
Ele colocou o CD e começou a desapertar os botões das calças o que me fez ficar quente como lava:
-o que estás a fazer?! – Questionei. Acho que desta vez tinha ficado mesmo vermelha.
Ele olhou-me:
-Não vou dormir de roupa.
-Vais dormir nu?!
-De roupa interior? – palpitou.
Apaguei a Luz para ele não ver o meu ar de medo:
-ok! – Disse como quem fugia.
Ele riu-se da minha cara e eu deitei-me a olhar para o tecto, tímida quando ele se deitou ao meu lado, por baixo dos lençóis e da coberta primaveril. Ele aproveitou o meu estaticismo e beijou-me o pescoço para me fazer sentir ainda mais parvinha, e roubou-me o comando, iniciando o filme.
O seu corpo quente aconchegou-se contra e mim e eu tentei mostrar-me mais atenta ao filme do que aos arrepios que me percorriam mas que eu não deixava serem visíveis exteriormente. Aos poucos fui-me habituando e cedendo a calor corporal que Gustavo me passava, aceitando a suas carícias na minha pele, que ele já fazia sem se aperceber, já que estava preso ao filme. De vez em quando sorria, outras fazia esgares, mas quando o final começava a chegar, ele começou a entender que o filme não era tão amável como achava. Não é difícil imaginar a reacção dele quando teve a certeza que Satine realmente havia morrido e que aquilo não fora uma daquelas situações em que acabam todos felizes no final. Ele abraçou-me com mais força quando Christian, o protagonista, chora a morte da amada, como se soubesse exactamente qual a sensação, ou pior, imaginasse como seria se algum dia a sentisse.
Voltei-me para ele quando passaram os créditos finais e beijei-lhe os lábios, já ensonada.
-Não te preocupes… - vozeei, apreensiva.
-É por isto que não quero que tu te arrisques e corras perigos… Eu não suportaria se tu…
Impedi-o de falar com os meus dedos e depois coma boca. Passei uma perna por cima do seu quadris e abracei-o. Ele beijou-me o pescoço e depois os ombros, enquanto eu fazia o mesmo com o seu peito, rente á minha cara.
Ele avançou mais na minha direcção, e quando me apercebi já estava praticamente em cima de mim, com a boca novamente envolvida na minha.
O seu corpo quente aquecia-me a pele, talvez até em demasia, mas era bom. Ele voltou a beijar-me o maxilar e depois o meu pescoço causando-me pequenos calafrios. Senti que nos reconfortávamos mutuamente, o que era óptimo. Cada dia me sentia mais á vontade na sua presença e tinha menos receio de expor o meu verdadeiro eu, de fazer palhaçadas e idiotices, e de mostrar facetas que até então escondia dele e de mim mesma.
Senti que algo de bom poderia a qualquer momento acontecer, eu queria-o, ainda que tivesse medo. Deixei que ele tocasse o meu corpo com as suas mãos e abracei-o com as pernas. Isso pareceu deixa-lo agradado, mas antes que ele pudesse fazer algo mais, o meu telemóvel começou a tocar na mesinha de cabeceira. Eu quis ignorar, mas aquele toque irritante parecia aflito e Gustavo não teve outra alternativa a não ser sair de cima de mim:
-Atende. – Disse, seco.
Suspirei aborrecida e estiquei o meu braço até alcançar o maldito telemóvel. Quando olhei para o ecrã a luz quase me cegava, mas consegui ler o nome da minha melhor amiga no ecrã. Uma onda de receio atravessou-me o peito, pelo simples facto de ela me ligar quase todos os dias e nunca conseguirmos falar.
Carreguei no botãozinho verde e encostei o telemóvel ao meu ouvido:
-Cris?
-La… tu… Perig… é urgen...
-Cristina, eu não te consigo ouvir! – Avisei ao escutar tantas interferências a cortar a sua voz.
-Eles… Encontrar…Estão a preparar…
-A preparar o quê?! Não te entendo!
-Tens… Sair… Não falta muito…
-Para o quê?! Repete!
-…Anjos… Querem fazer-te m…
A chamada caiu. Fiquei com tanta raiva que atirei o telemóvel ao chão.
-O que se passa? – perguntou Gustavo, preocupado.
-A Cristina está a tentar falar comigo á séculos e não conseguimos! Parece que me quer dizer algo importante mas há sempre interferências ou falta de rede.
Ele franziu as sobrancelhas:
-Não consegues entender mesmo nada do que te disse?
-Não, parece bruxedo! Consigo telefonar a toda a gente menos a ela.
-Talvez o telemóvel esteja estragado!
-Talvez, mas é estranho… Ela disse qualquer coisa de ter de sair e falou em anjos! Não percebi nada, mas parecia aflita… - Fiz um esgar e arrastei o meu cabelo para trás. Com a outra mão desliguei a TV – olha, eu vou dormir. Já fiquei irritada. – falei, aborrecida.
Ele torceu os lábios, mas deu de ombros, compreensivo.
Deitei-me ao seu lado, de costas para ele e deixei que me cobrisse com os seus braços, enquanto me mexia no cabelo, até que adormeci por fim.
***
“Está a desenvolve-se.”
“Se não avançarmos rapidamente, pode ser tarde.”
“Quando avançamos?”
“Em breve! Ela é um ser muito perigoso para nós e se não a pararmos a tempo, pode destruir a nossa ordem.”
“Os anjos estão a ficar agitados. Ela provavelmente apercebeu-se que eles não se mantiveram em silencio. Isso não será perigoso?”
Perigoso, sim, isso ecoava na minha cabeça. Via perigo por todo o lado. Rebeca alimentava-se do meu sangue, Cristina gritava de medo, mas não por causa da vampira. E uma chuva de penas invadia o céu negro e chuvoso que deitava os cabelos loiros de Gustavo sobre os olhos chorosos. Era a imagem mais chocante de toda a cena, sem duvida e sentia-me remoída por dentro quando a via assim. O meu professor corria em redor de todos os nós, a rir-se enquanto apanhava todas as penas e as atirava na nossa direcção como flechas assassinas. Eu queria fugir e gritar, mas Rebeca prendia-me com os dentes cravados no meu maxilar. Eu queria pedir a Cristina que não gritasse nos meus ouvidos, pois doía imenso, mas não conseguia falar entre tantos soluços lacrimosos. Eu queria afastar o meu professor, mas ele era cada vez mais apressado e rapidamente me segurou o corpo e apertou-o contra ele. Tentou apalpar a minha face, mas eu sacudi-me e ele não o fez. Foi pior. Ela apertou-me os ombros e beijou-os, correndo a boca pelos meus braços, a sua boca molhada e imunda, nojenta! E nada o parava, nem o meu namorado, pois olhava-me como se eu fosse a culpada, cheio de ódio, desilusão e tristeza. Lágrimas de raiva escorriam pelo seu rosto e de um segundo para o outro ele caiu no chão, exausto, sem que eu pudesse fazer nada para o apanhar. As vozes na minha cabeça gritavam e gritavam mais, fazendo os meus ouvidos sangrar. Eu não podia parar nada. Rebeca tirava-me as forças e matava-me, Cristina gritava e fazia-me arder, o meu professor não me largava, tocava-me sedento, e Gustavo simplesmente não reagia porque não tinha forças e precisava de mim para se levantar. Eu queria poder dar-lhe o que ele precisava, mas não conseguia. Essa era a sensação mais sufocante de todas.
-Lana! Acorda! – Senti alguém sacudir-me os ombros com violência e abri os olhos, agitada.
Sem sequer olhar para a luz do quarto, enterrei a minha cara na almofada, sufocando os rios de lágrimas que caiam sem parar. A minha caixa toraxica aumentava e diminuía, sem me deixar controlar os soluços e a respiração aos solavancos.
Senti a aura de Helen ao meu lado, a passar a mão no meu braço. Esperneei ao mínimo toque, aumentando o choro.
-Lana, tem calma, foi só um pesadelo. – Ela tentou dizer.
Chorei ainda mais, recordando o sonho mau. Tentei cobrir-me com o lençol e fugir das suas mãos. Já não estava habituada á sensação eléctrica do toque das pessoas no meu corpo, e isso dava-me medo. Continuava a ouvir vozes. Por momentos pensei que os meus ouvidos estivessem a sangrar com tantas dores, mas nem com as mãos a tapa-los, os gritos paravam. Eram tão intensos e histéricos que eu contorcia-me de dor. Helen abraçou-me e eu fiquei tão amedrontada que lhe deu um murro, sei lá aonde. Ela gemeu de dor e eu tentei para de chorar mas não consegui.
-Lana, acorda! – Vozeou, espantada e dorida.
-Cala-te! – Gritei, apertando os meus ouvidos com mais força.
Senti uma dor forte nas costas, semelhante a uma punhalada e gemi de dores:
-Dói tanto…! – Funguei, levantando a minha cara da almofada.
-O quê? O que te dói?
-As costas! As vozes! Porque é que não se calam!?
Levantei-me atordoada e empurrei Helen violentamente, fazendo-a embater na parede. Saí do quarto para fora e na cozinha vi Gustavo com um copo na mão trémula. Ele estava preocupado e quando viu o meu estado, ficou pior ainda.
Ele aproximou-se de mim, e prendeu-me nos seus braços, tentando acalmar-me.
-Lannis, o que se passa? – Perguntou, baixinho – Estás a deixar-me preocupado.
-As vozes não se calam! – Resmunguei, lavada em lágrimas.
-O que é que dizem?
-Não consigo entender…! São milhares ao mesmo tempo! – Parei de repente, ao escutar algo.
“Vamos apanha-la!”
Parecia estar a sentir um martelo a acertar-me nas costas e fiquei sem ar por momentos.
Gustavo, olhou-me em estado de choque e tentou que eu reagisse, mas eu apenas chorei e deixei que os seus braços me guardassem.
-Acalma-te, por favor. – Pediu, beijando-me a testa quente – Sabes como me sinto quando te vejo assim? – Não respondi – Eu não suporto – A sua voz saiu mais débil, como se fosse também chorar – É horrível!
Tentei parar a choradeira mas só consegui soluçar abafada.
Helen já estava atrás de mim nessa altura, com um copo de agua na mão. Tocou-me nas costas para eu me voltar, o que fez a dor aumentar. Encolhi-me mais contra Gustavo e suprimi um gemido:
-Lana, bebe um pouco de agua e acalma-te! – Recomendou a minha madrinha, apreensiva.
Neguei num gesto de cabeça e não a encarei.
-Nossa, Alannis, já não te via assim á séculos! Estou a ficar preocupada!
-Que horas são? – inquiri, ignorando a sua preocupação.
-Cinco e pouco da manhã. – Respondeu Gustavo.
-Então, por favor, vão dormir… - Pedi, olhando-a por cima do ombros para Helen – Eu não quero que se cansem, está bem?
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
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