[Terminada] Angelical
(Primeira parte na pagina anterior!
')
Gustavo negou:
-Eu não vou dormir sem ti…
-Não, eu não quero dormir mais! – Embirrei – Vão descansar, por favor!
-E tu?! – Helen quis saber!
-Eu vou ligar a televisão e passar o tempo…
-Eu fico contigo! – Exclamou Gustavo.
-Não quero! – Resmunguei, limpando a face, enquanto a minha mente tentava criar uma barreira invisível entre aquilo que se passava no mundo real e naquele ruído perturbador de fundo.
-Por favor! Pelo menos fica comigo no quarto! Podes ver televisão á vontade, mas deixa-me estar á tua beira, nem que seja a dormir!
Helen mordeu o lábio, numa expressão indecifrável, até para mim.
Dei de ombros, desanimada, e aceitei o pedido de Gustavo. Por entre a visão turva, reparei que ele estava mais vestido do que quando tínhamos adormecido.
Acompanhei-o de regresso ao meu quarto e ele ligou a televisão. Estavam a dar aquelas televendas horríveis, por isso Helen pôs um desenho animado qualquer no leitor Dvd, e depois foi para o seu quarto. Gustavo e eu deitamo-nos lado a lado. Inicialmente ele queria ficar acordado comigo, enquanto mexia no meu cabelo e me olhava calado e deprimido, mas sem atenção á televisão, acabou por adormecer.
Os gritos que ecoavam na minha cabeça eram abafados pelas dobragens animadas dos desenhos animados, dando-me um pouco de alivio mas não o suficiente para me sentir reconfortada após o pesadelo daquela noite. Olhei Gustavo deitado ao meu lado. As pálpebras fechadas, os lábios semiabertos respirando em abafos, e contudo o rosto sereno e relaxado como o de uma criança. Sorri, emocionada, e acariciei-lhe a bochecha, enquanto o lábio me tremia pela vontade aguda de libertar tudo o que me fazia sufocar. Saí da beira dele, abafando gemidos e dirigi-me á casa de banho. Eram cerca de seis da manha e todos dormiam. Não queria acordar ninguém com um choro que nem eu conseguia explicar. Enchi a banheira até cima com sais e espuma, e deitei-me nela durante tempo suficiente para a minha pele enrugar como um elefante. Por um motivo que me era desconhecido, sentia-me suja e não conseguia parar de me esfregar com a esponja de banho carregada de sabão, sem que isso fizesse diferença.
Quando voltei para o meu quarto, já seca e com a roupa interior vestida, faltava cerca de um quarto de hora para o despertador tocar, mas eu resolvi vestir-me antes.
Lá fora o céu estava escuro e carregado de nuvens negras, evidenciando a ocorrência de aguaceiros a qualquer momento, mas o clima mantinha-se quente, numa temperatura tropical que me intensificava a sensação de abafo. Por esse motivo, não me acautelei muito com a roupa. Acautelei-me apenas com o casaco e o com um calçado que me protegesse da chuva.
Gustavo acordou quando eu estava em frente ao espelho, a escurecer a maquilhagem, quase sem forças na mão, e ficou uns segundos a “acordar” realmente. Abraçou a minha almofada durante um suspiro, e ficou com a cabeça na minha direcção, olhando-me, deprimido:
-estás melhor? – Vozeou.
-hum. – Foi a minha resposta, seca e quase muda, sem sequer ser acompanhada por um olhar ou um sorriso.
Gustavo levantou-se da cama e aproximou-se de mim. Abraçou-me pelas costas e beijou a minha nuca. Uma parte de mim levou a melhor e eu fugi dos seus lábios.
Ele estranhou, mas não protestou. Sabia, lá no fundo, que eu estava melhor sem demonstrações de afecto naquele momento, portanto, voltou a vestir a roupa do dia anterior, com pressa:
-Vou a casa dar um banho e preparar-me para a escola… Queres vir comigo? – Ele hesitou, enquanto calçava as sapatilhas.
Olhei-o de soslaio, sem saber se aceitaria ou não, mas não o fiz. Não fui contestada felizmente, e Gustavo deu-me um beijo na face antes de sair.
Esperei que Helen estivesse pronta para me levar á escola e fiquei a olhar para a tigela com leite frio, tentando entender os gritos na minha cabeça. Eram muitas conversas. Desesperadas. Estavam com medo de alguém e queriam que tudo terminasse.
“Mas tudo, o quê?”, não pude deixar de pensar, atormentada. Algo me dizia que tudo estava a começar de novo. O medo da perseguição, a frieza, a solidão e sobretudo o pavor a ser tocada. Quando Helen me tocara durante a noite eu senti tanto medo e nojo que quase me atirei para o chão numa tentativa frustrada de fuga. Quando Gustavo me beijou, senti um tremor por todo o corpo, mas diferente dos habituais. Eu não sabia o que fazer.
Quando Helen se pôs pronta levou-me á escola, sem protestos. Ainda era cedo para ela, e percebia muito bem que eu estava mal.
Nem sequer me despedi dela quando chegamos. Fui andando para o ginásio, mas nem sequer me equipei. Fiquei parada a olhar para os azulejos brancos, enquanto continuava a ouvir gritos indecifráveis. As minhas colegas começaram a chegar mas eu não tive forças, nem atenção, e muito menos vontade de as cumprimentar o que elas estranharam.
Isso levou a que durante as restantes horas eu fosse alvo de mexericos. Muitos achavam que eu e Gustavo nos tínhamos zangados, outros achavam que eu era bipolar, e ainda outros, tinham a certeza que eu estava a voltar ao que era quando cheguei àquela escola. Gustavo, ao contrario do que acontecia nos outros dias, passou todos os santos minutos comigo. Normalmente eu dava-lhe espaço para estar com os amigos, e só á noite é que aproveitávamos bem os nossos momentos, mas durante todo aquele tempo, ele manteve-se ao meu lado, de vez em quando fazendo perguntas sobre o meu pesadelo para me tentar ajudar, no entanto eu mal falava com ele. Eu não tinha vontade para nada. Infelizmente eu percebi que ele estava triste por minha culpa e isso ainda me deixava melhor. Esforcei-me para sorrir, mas cada vez que arreganhava o beiço acho que o assustava.
-Lana, venha ao quadro explicar o que eu acabei de dizer! - Ordenou a professora de Filosofia, ao ver-me sem tirar apontamentos.
Levantei a minha cabeça, até então quase deitada no braço e olhei-a como a morte:
-Não.
Todos ficaram meio parvos com a minha resposta.
A professora mostrou-se fula e aproximou-se de mim, batendo o pé:
-Desculpe, acho que não percebi a sua resposta!
-Eu não vou! – Exclamei, antes de ela dizer algo mais.
Ela susteve alguma ar:
-Não vai porque não sabe, porque não quer, ou porque está a armar-se em respondona?
-Os três. – Respondi, seca.
A professora franziu as sobrancelhas:
-Lana, tomou algo que não devia?
-Tipo o quê? Acha que andei a cheirar coisas…?
Ela abriu a boca para falar, mas fechou-a a encarar-me. Até para aquela mulher eu tinha sido sempre bem educada. Não me surpreendi com a hesitação em expulsar-me da aula.
-Lana, sente-se bem? Precisa de ir apanhar ar?
-Preciso de silencio. – Respondi, baixinho.
Ela virou-se para Gustavo. Toda a gente sabia que ele era meu namorado, até mesmo as funcionárias:
-Importa-se de acompanhar a sua “colega” até ao corredor para ela apanhar ar?
Gustavo deu de ombros, sem escapatória, e levantou-se antes de mim. Eu fiquei a observa-lo a aproximar-se de mim, sem me mover um milímetro, apoiada pelo cotovelo.
-Lana, tem permissão para sair. - informou a professora.
Gustavo, ao ver que nem me mexi, suprimiu um gemido de preocupação:
-Anda… - murmurou.
Ele alcançou o meu pulso com os seus dedos e eu afastei-me num reflexo. Toda agente se apercebeu, e mais rumores surgiram naquelas mentes. Gustavo ficou apático, porem, esforçou-se para não o demonstrar perante a turma.
Eu cedi ao seu olhar tristonho e levantei-me da cadeira. Por momentos uma leve tontura alcançou a minha mente cheia e fez-me travar os passos, mas Gustavo empurrou-me pelas cintura para o exterior da sala, com cuidado para não me sobressaltar:
-Tens de me dizer o que se passa, Alannis…
Eu não respondi e como consequência, Gustavo encostou-me á parede mais longe da sala.
-tu já não agias assim há semanas… - Disse, aflito - Até a Liliana se apercebeu que tu te afastaste dela quando te foi cumprimentar. As pessoas acham isso estranho e…
-Cala-te… – Cerrei os olhos – Por favor, faz pouco barulho…
Ele bateu na parede, ao meu lado:
-Que raio de vozes são essas?! Lana, Tu não andaste a tomar medicamentes, pois não!?
-Claro que não! – Respondi, ofendida – Eu ainda sei o que faço!
-Não foi o que pareceu na sala de aula.
Virei o rosto e bufei:
-Desculpa, mas é insuportável ter de vos ouvir, sentir as vossas emoções e ainda por cima escutar gritos, já para não falar nas dores de costas…
Os meus olhos encheram-se de lágrimas, até que o senti abraçar-me. No inicio quis fugir, mas depois deixei que ele me fizesse sentir protegida.
Ele beijou-me a testa e afagou-me o cabelo:
-Ok, desculpa, sou um egoísta… - Ele beijou-me os lábios, docemente, e por fim encarou-me nostálgico – Eu sinto-me tão mal por estares assim… Parece que me afectas, que me estás a apegar a tristeza…
-Lamento… - Murmurei.
-Eu quero que…
Uma voz feminina interrompeu-o e fez-nos olhar para a sua esquerda. A professora de matemática estava de braços cruzados e cara de poucos amigos a olhar-nos:
-Vocês não deviam estar em aula?
Uni as sobrancelhas e tive vontade de lhe arrancar o cabelo. Não gostava daquela mulher, mas algo nela intimidava-me mais do que a minha capacidade de a tratar mal. De uma certa maneira quase que me fazia ajoelhar-me aos seus pés como uma escrava, mas eu não tinha controlo sobre isso. Ela amedrontava-me profundamente.
-a professora pediu que viéssemos cá fora. – Respondeu Gustavo, afastando-se de mim.
A professora olhava mais para mim do que para o meu namorado, como se eu tivesse a cometer um crime em estar ao lado dele. Durante alguns segundos pareceu examinar-me corpórea e mentalmente. Estremeci intimidada e novamente a vontade de fugir e gritar apoderou-se de mim. A proximidade dela comigo dava-me a volta ao estômago e eu só me queria esconder atrás de Gustavo.
-Tenho a certeza que já passou bastante tempo desde isso, não é?
Gustavo fez cara feia:
-por acaso acabamos de…!
Travei-o, incomodada:
-Nós já vamos… - Murmurei de cabeça baixa para a professora.
A mulher arqueou a sobrancelha e fez um ar de importância:
-Acho melhor terem juízo… - Balbuciou, afastando-se de nós.
Gustavo viu-a sair, baralhado e depois atentou em mim:
-Queres mesmo voltar já?
-Eu não gosto dela. Assusta-me. Prefiro ouvir textos filosóficos do que tê-la por perto.
Ele suspirou e abanou a cabeça repreensivamente de olhos fechados:
-Tu não estás nada bem… - Sibilou.
-esta noite não precisas de vir ter comigo.
Nem esperei que ele me voltasse a encarar e entrei na sala de aula, ignorando a surpresa que o seu espírito pintou na cara.
E na verdade, foi melhor assim. Aquela noite foi pior do que a anterior. Eu só via nuvens negras e trovões a assolarem o ambiente que me envolvia. Desta vez não havia Gustavo para me proteger, não haviam gritos, nem sangue meu a escorrer pelo meu corpo. O principal barulho era uns burburinhos de fundo, do género daqueles que se escutam quando alguém está a falar de nós sem descrição, leves mas muito irritantes e desagradáveis. Todavia, tudo parecia vazio, solitário e triste. O nevoeiro era cortante, e dava uma sensação de medo enorme, pois parecia que a qualquer momento eu podia cair e não haver ninguém para me segurar. Depois três luzes apareceram ao longe. Eram lindas mas eu não me quis aproximar, com medo. Contudo elas vieram até mim e tomaram formas humanas. A primeira assemelhava-se á minha professora de matemática, a segunda ao meu professor e a terceira a uma criança. Cada um me incomodava á sua maneira e não sei de que forma a sua proximidade aterrorizou-me tanto que acordei aos gritos e suada.
As vozes tornaram a ecoar na minha cabeça em altos berros. Tentei calar-me para não acordar Helen quando me apercebi que eram três da manhã.
Fiz algo que já não fazia há algum tempo e ainda descalça, corri até á minha cachoeira.
A escuridão deixava-me medrosa, mas eu sabia que me sentiria melhor depois daquilo. Mergulhei na agua mal me vi sobre uma rocha polida. Já tinha esquecido aquela sensação, aquela sensação de ser libertada de maleitas e ver o oxigénio escapar por bolhas de ar. Deixei-me estar ali a flutuar, enquanto lágrimas escorriam pelo meu rosto, devagar, carregadas de tormento. Eu só pedia silencio, mas isso não acontecia. Escutava pessoas a pedir castigo para alguém, em pânico. Isso deixava-me cismada, pois por alguma razão eu associava isso a mim.
Acho que passei horas dentro de agua, e as seguintes deitada numa rocha, ignorando o frio na noite. Quando começou a amanhecer, voltei a sentir-me mais quente. Estava tempo abafado como de trovoada.
Pé ante pé, regressei a casa, fraca, e lá vesti a coisa mais leve que vi, para não ir de camisa de dormir para a escola. Um vestido preto foi a minha opção, de alças e decote em V que me chegava quase aos joelhos. Obviamente que tive de me agasalhar com um casaco e calçar algo propicio ao clima. A minha falta de forças não em permitiu arranjar o cabelo depois daquele banho gelado, portanto ele ficou todo desarrumado e sem formas definida, e a cara metia medo. Geralmente eu não ficava com olheiras, e o facto de pintar os olhos de preto ajudava a esconde-las quando apareciam, mas naquela manha a minha força era tão pouca que eu só consegui passar um delineador. Rastejei até á cozinha e enchi o copo com leite vindo do frigorifico. Não consegui tomar nem metade. Os meus dedos tremelicavam e parecia que iam cair a qualquer momento.
Não esperei mais e subi lentamente até á paragem de autocarro que me levou á escola numa das viagens mais longas e ensurdecedoras da minha vida.
Quando lá cheguei fui para junto da sala e sentei-me no chão, exausta. Letícia foi a primeira a aparecer junto a mim. Fiquei levemente agradada, apesar de a minha vontade ser estar só.
Ela sentou-se ao meu lado, com um sorriso nos lábios:
-Bom dia!
-olá…
Ela analisou-me com mais atenção:
-Sentes-te bem? Estás pálida…
Tentei sorrir:
-estou bem, obrigada. Dormi mal, só isso…
-Oh… Bem, ontem também não estavas muito bem… Chateaste-te com o Gustavo?
-Não, não! – Neguei, aliviada por tal não ter nunca acontecido – Está tudo bem com ele! Eu é que… Ando cansada…
Ela pareceu acreditar e suspirou:
-Lana… Eu ontem não falei contigo porque estavas um pouco desnorteada… hoje também não pareces estar na melhor forma, mas eu tenho de te dizer – Ela mordeu o lábio – Eu tentei falar com a Liliana quando me recomendaste, e nunca pensei que… que ela se tivesse envolvido com o Nicholas. Ela nunca me disse nada depois do que aconteceu…
-Vocês ficaram bem? – Quis saber.
-Não propriamente… Bom, é certo que percebemos melhor as atitudes uma da outra, mas acho que as situações que passamos ainda nos fazem… “Fugir”.
Nem a deixei terminar, focando a minha visão num pouco indefinido do bloco:
-É natural… - Comentei - Sei que a qualquer momento vocês podem ficar melhor…
Letícia acenou com a cabeça:
-Talvez.
Depois encarou-me e ficou a avaliar o meu estado em silencio. Eu não olhei uma única vez para ela, não obstante, julgo que ela se apercebeu que eu estava deprimida e sisuda.
Os nossos colegas foram chegando entretanto e ela levantou-se para ir ter com Darla:
-Queres ajuda? – Perguntou, estendendo-me a mão.
Encolhi-me com descrição contra a parede e sacudi a cabeça, negando.
Sentia os olhares de quase toda a gente pregados em mim, confusos, assustados e preocupados, envolvidos por rumores e palpites em relação ao meu estado. Tentei não ligar àquilo até que Lau se aproximou:
-Hei Lana… - Ela levantou a mão e acenou – Tu sentes-te bem?
Levantei o rosto até ela e dei de ombros, indiferente.
Ela, pela primeira vez, não sabia o que dizer, pelo simples facto de não saber o que me angustiava.
Senti um corpo sentar-se ao meu lado, também encostado á parede, mas não reagi:
-Lannis… - Gustavo passou a mão na minha cara, causando-me um pequeno choque – Não te sentes melhor?
Neguei com a cabeça e olhei-o. Ele parecia triste, mais do que antes e preocupado comigo. Os seus olhos azuis revelavam a sua insegurança e medo, mas ele esforçava-se por esconde-lo.
-Tiveste pesadelos?
-Tive…
-E as vozes?
-continuam…
Ele respirou fundo, e fez-me encara-lo. Olhou para o meu rosto de sobrancelhas caídas:
-Estás um caco.
-Desculpa… - Falei, baixo.
Ele franziu o cenho:
-porquê?
-Por te entristecer e deixar-te preocupado…
Ele tentou sorrir, mas apenas conseguiu uma feição querida no rosto:
-tu não tens culpa de eu gostar tanto de ti…
Ele conseguiu que eu mostrasse um sorriso mais sincero, ainda que pequeno, e inclinou a sua cabeça na direcção da minha, com uma certa cautela por causa do meu estado. Os seus lábios tocaram os meus com leveza. Senti-me ligeiramente melhor, era verdade. Ele conseguia deixar-me assim, felizmente, e isso levou-me a dar-lhe passagem para aprofundar o beijo, como ele desejava. Os seus movimentos foram calmos e lentos, para não me assustarem e eu consegui arranjar força para lhos retribuir, mesmo com a mente carregada de compaixão por parte dos meus colegas e vozes a chatearem-me o juízo, eu consegui concentrar-me só nele, que era o que eu mais queria.
-Err!
Reconheci aquela voz autoritária e fiz Gustavo soltar-me. Olhamos ambos para cima e a Professora de Matemática batia o pé no chão, furiosa. Senti um aperto no peito e levantei-me de cabeça baixa por respeito, como se fosse uma vénia. Acho que ninguém ficou indiferente ao meu acto.
-As hormonas adolescentes podem ser controladas! – murmurou entre dentes a mulher intimidadora.
Ela entrou na sala, de olhar matador, e os alunos seguiram-na. Começou a ensinar a nova matéria. Esforcei-me por me manter atenta até á fase da exercitação. Ela foi chamando alguns alunos para resolverem os exercícios do livro, até que por azar me chamou a mim.
Eu já tinha pouca resistência nas pernas, mas não conseguia negar as suas ordens e levantei-ma até ao quadro. Ao meu lado, Pedro acabava um exercício complexo e pousou o giz para regressar ao seu lugar, limpando as mãos ás calças.
-Conseguiste fazer o exercício no caderno diário? – Perguntou a professora.
-Na verdade, não…
Ela bufou, discreta, excepto para mim.
-Não conseguiste ou nem tentaste?
Mantive-me em silencio. Ela cruzou os braços e arrastou o salto alto pelo soalho:
-Tens cinco minutos!
Fitei-a pelo canto do olho, admirada com a cronometração do tempo. Já não me lembrava de ter tempo contado para fazer algo há muito tempo, excepto nos testes. Na verdade, a única pessoa que me controlava a fazer exercícios tinha sido o meu professor de explicações, há já muito tempo. Estremeci com a recordação, mas comecei a resolver lentamente o exercício, até estancar numa espécie de ratoeira. Fiquei a olhar para os símbolos que escrevi, equivocada.
A professora Luísa voltou a aproximar-se:
-Porque paraste?
-Não sei resolve-lo.
-Sabes, sim! – Declarou, assertiva – Vê onde te enganaste!
-Eu não sei! – Repeti.
Os alunos olhavam-me, duvidosos.
-Sabes, garanto! Tu não és burra nenhuma, só és preguiçosa!
Encarei-a, perplexa. Desde quando ela sabia tão assertivamente se eu era ou deixava de ser preguiçosa? Esse foi outro ponto em semelhança que achei entre ela e o meu professor. Ele também costumava chamar-me preguiçosa, e com razão. O meu coração acelerou por estar a pensar tanto nele naquele momento. Quase que podia sentir a sua presença.
-Eu não sei.
A professora cerrou os dentes por detrás dos lábios rosados e agarrou o meu pulso de repente, mas com força e elevou a minha mão até ao meu erro, porem, eu nem consegui entende-lo, pois o pânico estava a atolar-se na minha mente.
-Entendes, agora?
Com a boca seca, suspirei aquilo que consegui:
-Largue-me.
Ela encarou-me perplexa com a ordem. Na realidade, quase toda a turma petrificou com a minha resposta.
-Desculpa?!
Fechei os olhos e sacudi o meu pulso preso:
-Solte-me, já!
Ela não obedeceu:
-Quem julgas que és para me dar ordens?!
Tive vontade de lhe saltar em cima e amordaça-la, mas estava ainda mais estática do que ela. Senti as lágrimas encherem-me os olhos e dei um passo de recua para fugir-lhe:
-Largue-me imediatamente! Eu não quero que me toque!
Os seus olhos escuros cravaram os meus e eu puxei o meu braço para escapar-lhe:
-Solte-me ou eu grito! – Ameacei, com falta de ar.
-Eu não admito essa falta de educação! – Ela voltou a puxar-me e entregou-me o giz para a mão – tu vais acabar este exercício, Alannis klein!
Parei por completo, em choque. Ouvi murmúrios por parte de toda a gente, e Gustavo, sobressaltou-se na cadeira.
-O…? O quê?
-Vais fazer este exercício! - O meu braço ficou dormente quando ela me apertou com mais força.
-Quem é você?! – Tentei fugir, sem esconder o meu olhar aterrorizado.
Ela apercebeu-se, então, do erro que cometera e não conseguiu remediar a situação.
-Quem é você? – repeti, com a respiração a falhar.
Comecei a sentir tonturas e falta de ar. A visão turva e o pânico empregue em mim como as raízes de uma arvore na terra, faziam-me tentar fugir sem forças, e os gritos aumentarem em sintonia com a dor aguda nas minhas costas.
-A tua superior!
Senti as lágrimas escaparem-me dos olhos, grossas e quentes:
-Largue-me… – Implorei numa tentativa frustrada de respirar direito - largue-me! – Mas ela não largou.
Gustavo saltou da cadeira e puxou-me dos braços daquela mulher. A duvida invadia as auras do lugar.
-Você ouviu! – Ele tapou-me atrás do seu corpo, ao qual encostei a minha cara molhada, com medo.
A professora olhou pelo canto do olho e vislumbrou a classe:
-Alunos, podem sair!
-Mas professora, ainda falta mais de meia hora para tocar!
-Não importa, saiam!
Começaram todos a arrumar, cheios de hesitação, e outros, claro, animados.
Quem ficou para trás foram Liliana, Letícia e Lau, mas a professora obrigou-as a sair também, trancando a porta de seguida.
O meu coração parou por segundos.
-Quem é você? – inquiriu Gustavo, nervoso.
-Como sabe o meu nome?! – Solucei.
Ela cerrou os dentes:
-Há muita coisa que se descobre sendo professora! O teu verdadeiro nome estava nos registos da escola.
-Isso é mentira! – Acusei – Eu inscrevi-me nesta escola com o nome “Lana Anderson”.
A professora engoliu a saliva e olhou-me por baixo:
-Muito bem… Alannis. De certeza que não te lembras de mim? – Ela ficou séria, a olhar-me.
As lágrimas escorreram pelos meus olhos:
-Não… - Respondi, num fio de voz.
-De certeza? Sabes, existem fenómenos que não estão explicados humananente. Um deles é a mudança de corpo natural.
Fiquei de lábio caído a olha-la:
-Você?
Hum, quem será este "voce"? Aposto que já todos desconfiam!
está a chegar o final! Muhahaha!
comentem, se nao amanha á noite nao posto!
bjokas
')Gustavo negou:
-Eu não vou dormir sem ti…
-Não, eu não quero dormir mais! – Embirrei – Vão descansar, por favor!
-E tu?! – Helen quis saber!
-Eu vou ligar a televisão e passar o tempo…
-Eu fico contigo! – Exclamou Gustavo.
-Não quero! – Resmunguei, limpando a face, enquanto a minha mente tentava criar uma barreira invisível entre aquilo que se passava no mundo real e naquele ruído perturbador de fundo.
-Por favor! Pelo menos fica comigo no quarto! Podes ver televisão á vontade, mas deixa-me estar á tua beira, nem que seja a dormir!
Helen mordeu o lábio, numa expressão indecifrável, até para mim.
Dei de ombros, desanimada, e aceitei o pedido de Gustavo. Por entre a visão turva, reparei que ele estava mais vestido do que quando tínhamos adormecido.
Acompanhei-o de regresso ao meu quarto e ele ligou a televisão. Estavam a dar aquelas televendas horríveis, por isso Helen pôs um desenho animado qualquer no leitor Dvd, e depois foi para o seu quarto. Gustavo e eu deitamo-nos lado a lado. Inicialmente ele queria ficar acordado comigo, enquanto mexia no meu cabelo e me olhava calado e deprimido, mas sem atenção á televisão, acabou por adormecer.
Os gritos que ecoavam na minha cabeça eram abafados pelas dobragens animadas dos desenhos animados, dando-me um pouco de alivio mas não o suficiente para me sentir reconfortada após o pesadelo daquela noite. Olhei Gustavo deitado ao meu lado. As pálpebras fechadas, os lábios semiabertos respirando em abafos, e contudo o rosto sereno e relaxado como o de uma criança. Sorri, emocionada, e acariciei-lhe a bochecha, enquanto o lábio me tremia pela vontade aguda de libertar tudo o que me fazia sufocar. Saí da beira dele, abafando gemidos e dirigi-me á casa de banho. Eram cerca de seis da manha e todos dormiam. Não queria acordar ninguém com um choro que nem eu conseguia explicar. Enchi a banheira até cima com sais e espuma, e deitei-me nela durante tempo suficiente para a minha pele enrugar como um elefante. Por um motivo que me era desconhecido, sentia-me suja e não conseguia parar de me esfregar com a esponja de banho carregada de sabão, sem que isso fizesse diferença.
Quando voltei para o meu quarto, já seca e com a roupa interior vestida, faltava cerca de um quarto de hora para o despertador tocar, mas eu resolvi vestir-me antes.
Lá fora o céu estava escuro e carregado de nuvens negras, evidenciando a ocorrência de aguaceiros a qualquer momento, mas o clima mantinha-se quente, numa temperatura tropical que me intensificava a sensação de abafo. Por esse motivo, não me acautelei muito com a roupa. Acautelei-me apenas com o casaco e o com um calçado que me protegesse da chuva.
Gustavo acordou quando eu estava em frente ao espelho, a escurecer a maquilhagem, quase sem forças na mão, e ficou uns segundos a “acordar” realmente. Abraçou a minha almofada durante um suspiro, e ficou com a cabeça na minha direcção, olhando-me, deprimido:
-estás melhor? – Vozeou.
-hum. – Foi a minha resposta, seca e quase muda, sem sequer ser acompanhada por um olhar ou um sorriso.
Gustavo levantou-se da cama e aproximou-se de mim. Abraçou-me pelas costas e beijou a minha nuca. Uma parte de mim levou a melhor e eu fugi dos seus lábios.
Ele estranhou, mas não protestou. Sabia, lá no fundo, que eu estava melhor sem demonstrações de afecto naquele momento, portanto, voltou a vestir a roupa do dia anterior, com pressa:
-Vou a casa dar um banho e preparar-me para a escola… Queres vir comigo? – Ele hesitou, enquanto calçava as sapatilhas.
Olhei-o de soslaio, sem saber se aceitaria ou não, mas não o fiz. Não fui contestada felizmente, e Gustavo deu-me um beijo na face antes de sair.
Esperei que Helen estivesse pronta para me levar á escola e fiquei a olhar para a tigela com leite frio, tentando entender os gritos na minha cabeça. Eram muitas conversas. Desesperadas. Estavam com medo de alguém e queriam que tudo terminasse.
“Mas tudo, o quê?”, não pude deixar de pensar, atormentada. Algo me dizia que tudo estava a começar de novo. O medo da perseguição, a frieza, a solidão e sobretudo o pavor a ser tocada. Quando Helen me tocara durante a noite eu senti tanto medo e nojo que quase me atirei para o chão numa tentativa frustrada de fuga. Quando Gustavo me beijou, senti um tremor por todo o corpo, mas diferente dos habituais. Eu não sabia o que fazer.
Quando Helen se pôs pronta levou-me á escola, sem protestos. Ainda era cedo para ela, e percebia muito bem que eu estava mal.
Nem sequer me despedi dela quando chegamos. Fui andando para o ginásio, mas nem sequer me equipei. Fiquei parada a olhar para os azulejos brancos, enquanto continuava a ouvir gritos indecifráveis. As minhas colegas começaram a chegar mas eu não tive forças, nem atenção, e muito menos vontade de as cumprimentar o que elas estranharam.
Isso levou a que durante as restantes horas eu fosse alvo de mexericos. Muitos achavam que eu e Gustavo nos tínhamos zangados, outros achavam que eu era bipolar, e ainda outros, tinham a certeza que eu estava a voltar ao que era quando cheguei àquela escola. Gustavo, ao contrario do que acontecia nos outros dias, passou todos os santos minutos comigo. Normalmente eu dava-lhe espaço para estar com os amigos, e só á noite é que aproveitávamos bem os nossos momentos, mas durante todo aquele tempo, ele manteve-se ao meu lado, de vez em quando fazendo perguntas sobre o meu pesadelo para me tentar ajudar, no entanto eu mal falava com ele. Eu não tinha vontade para nada. Infelizmente eu percebi que ele estava triste por minha culpa e isso ainda me deixava melhor. Esforcei-me para sorrir, mas cada vez que arreganhava o beiço acho que o assustava.
-Lana, venha ao quadro explicar o que eu acabei de dizer! - Ordenou a professora de Filosofia, ao ver-me sem tirar apontamentos.
Levantei a minha cabeça, até então quase deitada no braço e olhei-a como a morte:
-Não.
Todos ficaram meio parvos com a minha resposta.
A professora mostrou-se fula e aproximou-se de mim, batendo o pé:
-Desculpe, acho que não percebi a sua resposta!
-Eu não vou! – Exclamei, antes de ela dizer algo mais.
Ela susteve alguma ar:
-Não vai porque não sabe, porque não quer, ou porque está a armar-se em respondona?
-Os três. – Respondi, seca.
A professora franziu as sobrancelhas:
-Lana, tomou algo que não devia?
-Tipo o quê? Acha que andei a cheirar coisas…?
Ela abriu a boca para falar, mas fechou-a a encarar-me. Até para aquela mulher eu tinha sido sempre bem educada. Não me surpreendi com a hesitação em expulsar-me da aula.
-Lana, sente-se bem? Precisa de ir apanhar ar?
-Preciso de silencio. – Respondi, baixinho.
Ela virou-se para Gustavo. Toda a gente sabia que ele era meu namorado, até mesmo as funcionárias:
-Importa-se de acompanhar a sua “colega” até ao corredor para ela apanhar ar?
Gustavo deu de ombros, sem escapatória, e levantou-se antes de mim. Eu fiquei a observa-lo a aproximar-se de mim, sem me mover um milímetro, apoiada pelo cotovelo.
-Lana, tem permissão para sair. - informou a professora.
Gustavo, ao ver que nem me mexi, suprimiu um gemido de preocupação:
-Anda… - murmurou.
Ele alcançou o meu pulso com os seus dedos e eu afastei-me num reflexo. Toda agente se apercebeu, e mais rumores surgiram naquelas mentes. Gustavo ficou apático, porem, esforçou-se para não o demonstrar perante a turma.
Eu cedi ao seu olhar tristonho e levantei-me da cadeira. Por momentos uma leve tontura alcançou a minha mente cheia e fez-me travar os passos, mas Gustavo empurrou-me pelas cintura para o exterior da sala, com cuidado para não me sobressaltar:
-Tens de me dizer o que se passa, Alannis…
Eu não respondi e como consequência, Gustavo encostou-me á parede mais longe da sala.
-tu já não agias assim há semanas… - Disse, aflito - Até a Liliana se apercebeu que tu te afastaste dela quando te foi cumprimentar. As pessoas acham isso estranho e…
-Cala-te… – Cerrei os olhos – Por favor, faz pouco barulho…
Ele bateu na parede, ao meu lado:
-Que raio de vozes são essas?! Lana, Tu não andaste a tomar medicamentes, pois não!?
-Claro que não! – Respondi, ofendida – Eu ainda sei o que faço!
-Não foi o que pareceu na sala de aula.
Virei o rosto e bufei:
-Desculpa, mas é insuportável ter de vos ouvir, sentir as vossas emoções e ainda por cima escutar gritos, já para não falar nas dores de costas…
Os meus olhos encheram-se de lágrimas, até que o senti abraçar-me. No inicio quis fugir, mas depois deixei que ele me fizesse sentir protegida.
Ele beijou-me a testa e afagou-me o cabelo:
-Ok, desculpa, sou um egoísta… - Ele beijou-me os lábios, docemente, e por fim encarou-me nostálgico – Eu sinto-me tão mal por estares assim… Parece que me afectas, que me estás a apegar a tristeza…
-Lamento… - Murmurei.
-Eu quero que…
Uma voz feminina interrompeu-o e fez-nos olhar para a sua esquerda. A professora de matemática estava de braços cruzados e cara de poucos amigos a olhar-nos:
-Vocês não deviam estar em aula?
Uni as sobrancelhas e tive vontade de lhe arrancar o cabelo. Não gostava daquela mulher, mas algo nela intimidava-me mais do que a minha capacidade de a tratar mal. De uma certa maneira quase que me fazia ajoelhar-me aos seus pés como uma escrava, mas eu não tinha controlo sobre isso. Ela amedrontava-me profundamente.
-a professora pediu que viéssemos cá fora. – Respondeu Gustavo, afastando-se de mim.
A professora olhava mais para mim do que para o meu namorado, como se eu tivesse a cometer um crime em estar ao lado dele. Durante alguns segundos pareceu examinar-me corpórea e mentalmente. Estremeci intimidada e novamente a vontade de fugir e gritar apoderou-se de mim. A proximidade dela comigo dava-me a volta ao estômago e eu só me queria esconder atrás de Gustavo.
-Tenho a certeza que já passou bastante tempo desde isso, não é?
Gustavo fez cara feia:
-por acaso acabamos de…!
Travei-o, incomodada:
-Nós já vamos… - Murmurei de cabeça baixa para a professora.
A mulher arqueou a sobrancelha e fez um ar de importância:
-Acho melhor terem juízo… - Balbuciou, afastando-se de nós.
Gustavo viu-a sair, baralhado e depois atentou em mim:
-Queres mesmo voltar já?
-Eu não gosto dela. Assusta-me. Prefiro ouvir textos filosóficos do que tê-la por perto.
Ele suspirou e abanou a cabeça repreensivamente de olhos fechados:
-Tu não estás nada bem… - Sibilou.
-esta noite não precisas de vir ter comigo.
Nem esperei que ele me voltasse a encarar e entrei na sala de aula, ignorando a surpresa que o seu espírito pintou na cara.
E na verdade, foi melhor assim. Aquela noite foi pior do que a anterior. Eu só via nuvens negras e trovões a assolarem o ambiente que me envolvia. Desta vez não havia Gustavo para me proteger, não haviam gritos, nem sangue meu a escorrer pelo meu corpo. O principal barulho era uns burburinhos de fundo, do género daqueles que se escutam quando alguém está a falar de nós sem descrição, leves mas muito irritantes e desagradáveis. Todavia, tudo parecia vazio, solitário e triste. O nevoeiro era cortante, e dava uma sensação de medo enorme, pois parecia que a qualquer momento eu podia cair e não haver ninguém para me segurar. Depois três luzes apareceram ao longe. Eram lindas mas eu não me quis aproximar, com medo. Contudo elas vieram até mim e tomaram formas humanas. A primeira assemelhava-se á minha professora de matemática, a segunda ao meu professor e a terceira a uma criança. Cada um me incomodava á sua maneira e não sei de que forma a sua proximidade aterrorizou-me tanto que acordei aos gritos e suada.
As vozes tornaram a ecoar na minha cabeça em altos berros. Tentei calar-me para não acordar Helen quando me apercebi que eram três da manhã.
Fiz algo que já não fazia há algum tempo e ainda descalça, corri até á minha cachoeira.
A escuridão deixava-me medrosa, mas eu sabia que me sentiria melhor depois daquilo. Mergulhei na agua mal me vi sobre uma rocha polida. Já tinha esquecido aquela sensação, aquela sensação de ser libertada de maleitas e ver o oxigénio escapar por bolhas de ar. Deixei-me estar ali a flutuar, enquanto lágrimas escorriam pelo meu rosto, devagar, carregadas de tormento. Eu só pedia silencio, mas isso não acontecia. Escutava pessoas a pedir castigo para alguém, em pânico. Isso deixava-me cismada, pois por alguma razão eu associava isso a mim.
Acho que passei horas dentro de agua, e as seguintes deitada numa rocha, ignorando o frio na noite. Quando começou a amanhecer, voltei a sentir-me mais quente. Estava tempo abafado como de trovoada.
Pé ante pé, regressei a casa, fraca, e lá vesti a coisa mais leve que vi, para não ir de camisa de dormir para a escola. Um vestido preto foi a minha opção, de alças e decote em V que me chegava quase aos joelhos. Obviamente que tive de me agasalhar com um casaco e calçar algo propicio ao clima. A minha falta de forças não em permitiu arranjar o cabelo depois daquele banho gelado, portanto ele ficou todo desarrumado e sem formas definida, e a cara metia medo. Geralmente eu não ficava com olheiras, e o facto de pintar os olhos de preto ajudava a esconde-las quando apareciam, mas naquela manha a minha força era tão pouca que eu só consegui passar um delineador. Rastejei até á cozinha e enchi o copo com leite vindo do frigorifico. Não consegui tomar nem metade. Os meus dedos tremelicavam e parecia que iam cair a qualquer momento.
Não esperei mais e subi lentamente até á paragem de autocarro que me levou á escola numa das viagens mais longas e ensurdecedoras da minha vida.
Quando lá cheguei fui para junto da sala e sentei-me no chão, exausta. Letícia foi a primeira a aparecer junto a mim. Fiquei levemente agradada, apesar de a minha vontade ser estar só.
Ela sentou-se ao meu lado, com um sorriso nos lábios:
-Bom dia!
-olá…
Ela analisou-me com mais atenção:
-Sentes-te bem? Estás pálida…
Tentei sorrir:
-estou bem, obrigada. Dormi mal, só isso…
-Oh… Bem, ontem também não estavas muito bem… Chateaste-te com o Gustavo?
-Não, não! – Neguei, aliviada por tal não ter nunca acontecido – Está tudo bem com ele! Eu é que… Ando cansada…
Ela pareceu acreditar e suspirou:
-Lana… Eu ontem não falei contigo porque estavas um pouco desnorteada… hoje também não pareces estar na melhor forma, mas eu tenho de te dizer – Ela mordeu o lábio – Eu tentei falar com a Liliana quando me recomendaste, e nunca pensei que… que ela se tivesse envolvido com o Nicholas. Ela nunca me disse nada depois do que aconteceu…
-Vocês ficaram bem? – Quis saber.
-Não propriamente… Bom, é certo que percebemos melhor as atitudes uma da outra, mas acho que as situações que passamos ainda nos fazem… “Fugir”.
Nem a deixei terminar, focando a minha visão num pouco indefinido do bloco:
-É natural… - Comentei - Sei que a qualquer momento vocês podem ficar melhor…
Letícia acenou com a cabeça:
-Talvez.
Depois encarou-me e ficou a avaliar o meu estado em silencio. Eu não olhei uma única vez para ela, não obstante, julgo que ela se apercebeu que eu estava deprimida e sisuda.
Os nossos colegas foram chegando entretanto e ela levantou-se para ir ter com Darla:
-Queres ajuda? – Perguntou, estendendo-me a mão.
Encolhi-me com descrição contra a parede e sacudi a cabeça, negando.
Sentia os olhares de quase toda a gente pregados em mim, confusos, assustados e preocupados, envolvidos por rumores e palpites em relação ao meu estado. Tentei não ligar àquilo até que Lau se aproximou:
-Hei Lana… - Ela levantou a mão e acenou – Tu sentes-te bem?
Levantei o rosto até ela e dei de ombros, indiferente.
Ela, pela primeira vez, não sabia o que dizer, pelo simples facto de não saber o que me angustiava.
Senti um corpo sentar-se ao meu lado, também encostado á parede, mas não reagi:
-Lannis… - Gustavo passou a mão na minha cara, causando-me um pequeno choque – Não te sentes melhor?
Neguei com a cabeça e olhei-o. Ele parecia triste, mais do que antes e preocupado comigo. Os seus olhos azuis revelavam a sua insegurança e medo, mas ele esforçava-se por esconde-lo.
-Tiveste pesadelos?
-Tive…
-E as vozes?
-continuam…
Ele respirou fundo, e fez-me encara-lo. Olhou para o meu rosto de sobrancelhas caídas:
-Estás um caco.
-Desculpa… - Falei, baixo.
Ele franziu o cenho:
-porquê?
-Por te entristecer e deixar-te preocupado…
Ele tentou sorrir, mas apenas conseguiu uma feição querida no rosto:
-tu não tens culpa de eu gostar tanto de ti…
Ele conseguiu que eu mostrasse um sorriso mais sincero, ainda que pequeno, e inclinou a sua cabeça na direcção da minha, com uma certa cautela por causa do meu estado. Os seus lábios tocaram os meus com leveza. Senti-me ligeiramente melhor, era verdade. Ele conseguia deixar-me assim, felizmente, e isso levou-me a dar-lhe passagem para aprofundar o beijo, como ele desejava. Os seus movimentos foram calmos e lentos, para não me assustarem e eu consegui arranjar força para lhos retribuir, mesmo com a mente carregada de compaixão por parte dos meus colegas e vozes a chatearem-me o juízo, eu consegui concentrar-me só nele, que era o que eu mais queria.
-Err!
Reconheci aquela voz autoritária e fiz Gustavo soltar-me. Olhamos ambos para cima e a Professora de Matemática batia o pé no chão, furiosa. Senti um aperto no peito e levantei-me de cabeça baixa por respeito, como se fosse uma vénia. Acho que ninguém ficou indiferente ao meu acto.
-As hormonas adolescentes podem ser controladas! – murmurou entre dentes a mulher intimidadora.
Ela entrou na sala, de olhar matador, e os alunos seguiram-na. Começou a ensinar a nova matéria. Esforcei-me por me manter atenta até á fase da exercitação. Ela foi chamando alguns alunos para resolverem os exercícios do livro, até que por azar me chamou a mim.
Eu já tinha pouca resistência nas pernas, mas não conseguia negar as suas ordens e levantei-ma até ao quadro. Ao meu lado, Pedro acabava um exercício complexo e pousou o giz para regressar ao seu lugar, limpando as mãos ás calças.
-Conseguiste fazer o exercício no caderno diário? – Perguntou a professora.
-Na verdade, não…
Ela bufou, discreta, excepto para mim.
-Não conseguiste ou nem tentaste?
Mantive-me em silencio. Ela cruzou os braços e arrastou o salto alto pelo soalho:
-Tens cinco minutos!
Fitei-a pelo canto do olho, admirada com a cronometração do tempo. Já não me lembrava de ter tempo contado para fazer algo há muito tempo, excepto nos testes. Na verdade, a única pessoa que me controlava a fazer exercícios tinha sido o meu professor de explicações, há já muito tempo. Estremeci com a recordação, mas comecei a resolver lentamente o exercício, até estancar numa espécie de ratoeira. Fiquei a olhar para os símbolos que escrevi, equivocada.
A professora Luísa voltou a aproximar-se:
-Porque paraste?
-Não sei resolve-lo.
-Sabes, sim! – Declarou, assertiva – Vê onde te enganaste!
-Eu não sei! – Repeti.
Os alunos olhavam-me, duvidosos.
-Sabes, garanto! Tu não és burra nenhuma, só és preguiçosa!
Encarei-a, perplexa. Desde quando ela sabia tão assertivamente se eu era ou deixava de ser preguiçosa? Esse foi outro ponto em semelhança que achei entre ela e o meu professor. Ele também costumava chamar-me preguiçosa, e com razão. O meu coração acelerou por estar a pensar tanto nele naquele momento. Quase que podia sentir a sua presença.
-Eu não sei.
A professora cerrou os dentes por detrás dos lábios rosados e agarrou o meu pulso de repente, mas com força e elevou a minha mão até ao meu erro, porem, eu nem consegui entende-lo, pois o pânico estava a atolar-se na minha mente.
-Entendes, agora?
Com a boca seca, suspirei aquilo que consegui:
-Largue-me.
Ela encarou-me perplexa com a ordem. Na realidade, quase toda a turma petrificou com a minha resposta.
-Desculpa?!
Fechei os olhos e sacudi o meu pulso preso:
-Solte-me, já!
Ela não obedeceu:
-Quem julgas que és para me dar ordens?!
Tive vontade de lhe saltar em cima e amordaça-la, mas estava ainda mais estática do que ela. Senti as lágrimas encherem-me os olhos e dei um passo de recua para fugir-lhe:
-Largue-me imediatamente! Eu não quero que me toque!
Os seus olhos escuros cravaram os meus e eu puxei o meu braço para escapar-lhe:
-Solte-me ou eu grito! – Ameacei, com falta de ar.
-Eu não admito essa falta de educação! – Ela voltou a puxar-me e entregou-me o giz para a mão – tu vais acabar este exercício, Alannis klein!
Parei por completo, em choque. Ouvi murmúrios por parte de toda a gente, e Gustavo, sobressaltou-se na cadeira.
-O…? O quê?
-Vais fazer este exercício! - O meu braço ficou dormente quando ela me apertou com mais força.
-Quem é você?! – Tentei fugir, sem esconder o meu olhar aterrorizado.
Ela apercebeu-se, então, do erro que cometera e não conseguiu remediar a situação.
-Quem é você? – repeti, com a respiração a falhar.
Comecei a sentir tonturas e falta de ar. A visão turva e o pânico empregue em mim como as raízes de uma arvore na terra, faziam-me tentar fugir sem forças, e os gritos aumentarem em sintonia com a dor aguda nas minhas costas.
-A tua superior!
Senti as lágrimas escaparem-me dos olhos, grossas e quentes:
-Largue-me… – Implorei numa tentativa frustrada de respirar direito - largue-me! – Mas ela não largou.
Gustavo saltou da cadeira e puxou-me dos braços daquela mulher. A duvida invadia as auras do lugar.
-Você ouviu! – Ele tapou-me atrás do seu corpo, ao qual encostei a minha cara molhada, com medo.
A professora olhou pelo canto do olho e vislumbrou a classe:
-Alunos, podem sair!
-Mas professora, ainda falta mais de meia hora para tocar!
-Não importa, saiam!
Começaram todos a arrumar, cheios de hesitação, e outros, claro, animados.
Quem ficou para trás foram Liliana, Letícia e Lau, mas a professora obrigou-as a sair também, trancando a porta de seguida.
O meu coração parou por segundos.
-Quem é você? – inquiriu Gustavo, nervoso.
-Como sabe o meu nome?! – Solucei.
Ela cerrou os dentes:
-Há muita coisa que se descobre sendo professora! O teu verdadeiro nome estava nos registos da escola.
-Isso é mentira! – Acusei – Eu inscrevi-me nesta escola com o nome “Lana Anderson”.
A professora engoliu a saliva e olhou-me por baixo:
-Muito bem… Alannis. De certeza que não te lembras de mim? – Ela ficou séria, a olhar-me.
As lágrimas escorreram pelos meus olhos:
-Não… - Respondi, num fio de voz.
-De certeza? Sabes, existem fenómenos que não estão explicados humananente. Um deles é a mudança de corpo natural.
Fiquei de lábio caído a olha-la:
-Você?
Hum, quem será este "voce"? Aposto que já todos desconfiam!
está a chegar o final! Muhahaha!
comentem, se nao amanha á noite nao posto!

bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
1º.... Lulu, vou-te matar!!! É que eu nunca vi Molin Rouge e não sabia que acabava daquela forma. Acabei por ficar deprimida à custa disso :/
2º... depois de te matar por teres revelado segredos sobre um filme que eu ainda não vi, irei realizar vudu ou algo do género para te ressuscitar e voltar a matar-te por teres deixado o capítulo assim...
A vó Constança é uma maluca! A minha avó era como ela, até mesmo com os seus pensamentos retrógedos. Já a outra avó, lembra-me a minha ex-ama, que embirrava com a minha avó *bons tempos* xDD
Pobre Lana, agora é que vai ser. O filho da mãe do prof. tá ali outra vez e ás tantas ela não se safa (ou não..). Acho que as formas que apareceram no sonho da Lana eram as formas que o sacana se vai transformar. Ou seja, ainda falta a criança. Ou ela já foi? Veremos o resto...
E era agora eu estar aqui a falar do gajo, quando pode ser outra pessoa. Ora bolas...
Sabes como podes consolar a minha frustação? Pondo capítulos maiores... mas também tu agora postas um todo o santo dia.. eh.. consigo esperar.
E essas vozes que ela ouve... Para começar a reacção da Rebeca não me surpreendeu. Esperava algo assim e a fuga das duas foi cena de filme. parabens
Agora tenho que esperar +/- 24h para ler novos capítulos mas, pelo que tenho lido, valerá a pena
2º... depois de te matar por teres revelado segredos sobre um filme que eu ainda não vi, irei realizar vudu ou algo do género para te ressuscitar e voltar a matar-te por teres deixado o capítulo assim...
A vó Constança é uma maluca! A minha avó era como ela, até mesmo com os seus pensamentos retrógedos. Já a outra avó, lembra-me a minha ex-ama, que embirrava com a minha avó *bons tempos* xDD
Pobre Lana, agora é que vai ser. O filho da mãe do prof. tá ali outra vez e ás tantas ela não se safa (ou não..). Acho que as formas que apareceram no sonho da Lana eram as formas que o sacana se vai transformar. Ou seja, ainda falta a criança. Ou ela já foi? Veremos o resto...
E era agora eu estar aqui a falar do gajo, quando pode ser outra pessoa. Ora bolas...
Sabes como podes consolar a minha frustação? Pondo capítulos maiores... mas também tu agora postas um todo o santo dia.. eh.. consigo esperar.
E essas vozes que ela ouve... Para começar a reacção da Rebeca não me surpreendeu. Esperava algo assim e a fuga das duas foi cena de filme. parabens

Agora tenho que esperar +/- 24h para ler novos capítulos mas, pelo que tenho lido, valerá a pena

Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
Ahhh luluuu!!!!!
Tadinha da Lanaaaaaa!!!
És mesmo maléfica, meteres a rapariga a sofrer deste jeito XD
(eu gosto, )
Idem idem XD
Arruinaste a minha potencial visualização do filme XD
Ahh não me digas q a professora é afinal... um homem??
XD
Quero mais sff
Beijinhooos***
Tadinha da Lanaaaaaa!!!
És mesmo maléfica, meteres a rapariga a sofrer deste jeito XD
(eu gosto, )
AnA_Sant0s escreveu:Lulu, vou-te matar!!! É que eu nunca vi Molin Rouge e não sabia que acabava daquela forma. Acabei por ficar deprimida à custa disso :/
Idem idem XD
Arruinaste a minha potencial visualização do filme XD
Ahh não me digas q a professora é afinal... um homem??
XD
Quero mais sff
Beijinhooos***

さよならできずに, 立ち止まったままの僕と一緒に...
Capitulo com direito a imagem! (A sério, está mesmo bem adequada a uma cena do cap! o.o)
Boa leitura!

Capitulo XXVIII - Morte
Se Gustavo não estivesse atrás de mim eu teria tombado no chão com o choque e o medo.
-Quem é você? – Ele interrogou, em alta voz, enraivecido por causa do meu estado.
-Talvez a Alannis algum dia te tenha falado de um tal professor Frederico Mendes…
Enterrei a minha cara chorosa na camisola de Gustavo e abanei a cabeça, em completo desespero:
-É ele… - Vociferei.
-Ele? - Gustavo não conseguia fazer a associação, visto o tal “Ele” ser uma mulher.
-O meu professor…
-o quê?!
Gustavo franziu as sobrancelhas, confuso. A esbelta mulher não mostrou qualquer sorriso ou cara bonita:
-Teria sido tão fácil se tivesses cedido á primeira, Alannis… - Disse, firmemente. Quase vomitei quando ela disse aquilo – Pouparias tantos problemas!
-o que está a dizer?! – Consegui dizer, perplexa – Eu não consigo entender essa obsessão por mim!
-Alannis… - Ela respirou fundo – Tu entendeste tudo mal. Eu nunca quis fazer-te o mal que julgas. Eu não te ia “violar” – Disse, fazendo aspas com as mãos – Na verdade, até sou o bom da fita.
Tentei acalmar-me. As palavras que a professora libertava deixavam-me mais tranquila de certa forma, apesar de a sua aura ainda me assustar.
-Você disse que me ia apanhar… Que eu não ia escapar.
-Oh, e não vais…! – Ela centrou-se nos meus olhos, provocando-me uma dor forte.
Dei um grito agudo e tapei os meus ouvidos, caindo no chão. As vozes falavam mais alto e gritavam, e de um momento para o outro senti que não ia resistir àquilo.
Gustavo ficou em pânico e baixou-se para me consolar:
-Calem-se! – Gritei com lágrimas nos olhos.
-Eles não vão parar, Alannis. – Disse a professora.
Nesse momento começamos a ouvir pancadas na porta. Alguém tentava entrar, sem sucesso. As batidas eram mais violentas e urgentes:
-Abram a porta! O que se passa aí?!
A mulher fez um verdadeiro ar de raiva:
-Devias ter ficado calada!
Então escutamos o vidro da janela partir em milhares de cacos que se distribuíram pelo chão da sala, e um punhal voou na minha direcção. Gustavo deu-me um encontrão que o fez ficar deitado sobre mim, e o objecto afiado cravou-se na porta de madeira da sala. Apercebi-me que um pequeno golpe surgiu na sua bochecha, perto da maça do rosto.
Ele levantou o olhar, sem saber o que se passava e encarou a professora no estado mais alto de calma:
-o que se passa?
Eu nem precisei da resposta. Senti duas novas presenças na sala e contorci-me com dores no peito e na cabeça, com os olhos cerrados com força e as mãos a taparem os ouvidos. As pancadas na porta abrandaram:
Todos ficaram em silencio, excepto eu que gemia e chorava.
Um corpo forte deu passos lentos, mas pesados na minha direcção e então senti o meu corpo ser elevado no colo de alguém.
Esperneei e abri os olhos para fitar aquele ser, sem palavras adequadas para dizer.
-está na hora.
Era um homem. O seu cabelo dava-lhe pelos ombros, castanho, e tinha a barba mal aparada no rosto. Tinha uma face serena e terna, mas o seu olhar azul claro era perturbador. Atrás dele vi três pares de asas e isso fez-me ficar sem reacção.
As dores esperaram que eu analisasse aquele homem para me incomodarem novamente.
Só nesse momento que apercebi que a minha professora tapava a boca de Gustavo e lhe prendia os braços, enquanto ele tentava vir até mim. Lacrimejei e tentei sair daqueles braços:
-Larga-o… - Pedi, rouca, sem evitar de chorar mais, assustada.
Nenhum obedeceu e eu não tinha forças para lutar.
Foi então que um homem mais velho falou, num tom calmo:
-Devias ter ficado longe deste anjinho! – Gracejou a Gustavo.
Olhei para aquele homem. Sorria com duas covinhas na face e os seus olhos brilhavam. Todavia, não conseguia entender o que se passava. Quem eram eles e o que faziam ali. Quis perguntar, mas a voz era fraca, e numa leitura de pensamentos exacta o meu portador respondeu-me:
-É melhor sairmos daqui. - Ele arrastou-me até á janela partida e pendurou-se no peitoril. Esperneei com medo do que ele ia fazer, mas de repente ele abriu por completo a sua majestosa armação branca e resplandecente. Aquilo sim era um anjo.
Gustavo conseguiu soltar a sua boca, já cansado:
-Onde a levam?! – Interrogou, possesso.
-Para o mesmo sitio que tu, rapaz!
E de repente, a professora tapou-lhe os olhos e eles simplesmente se deixou cair no chão, desmaiado.
-Gustavo! – Gritei, lavada em lágrimas – O que lhe fizeram? Gustavo, acorda!
Senti um pingo de forças no corpo e esperneei tentando saltar do colo daquele ser. Porem, tudo em mim era fraco, mesmo quando eu tinha força. O homem manteve-me presa nos seus braços e apenas me olhou, sério:
-Não te preocupes… Não dói.
A única coisa que o vi fazer foi colocar as mãos á frente dos meus olhos e de repente tudo ficou negro.
***
Acordei num sitio escuro e frio, deitada sobre o chão. O meu corpo tremia involuntariamente em conjunto com os dentes, e senti um liquido debaixo de mim enquanto me tentava mexer. O meu corpo estava dolorido, mas em contrapartida as vozes estavam caladas e isso era uma grande ajuda para alguém que não aguentava com o próprio corpo. Tentei mover-me mas apenas consegui virar-me para o outro lado. Apesar da dificuldade visual distingui Gustavo ao meu lado, desmaiado, de barriga para baixo, com o ferimento na maça do rosto mais sujo do que inicialmente.
-Gustavo… - chamei, rouca e fraca.
Ele não acordou. Estiquei o meu braço até si, com dificuldade, e tentei tocar-lhe mas ele ainda estava a cerca de um metro de mim, pelo que não o consegui alcançar. Senti-me angustiada pois queria tocar-lhe, senti-lo para ter alguma esperança dentro de mim. Era escusado.
Deixei uma lágrima escorrer-me pelo rosto sujo.
-Gustavo… Acorda…! – Os meus dedos tremelicavam sem parar – Tenho medo…
Nada aconteceu. Eu fiquei a olha-lo enquanto rios de lágrimas cobriam a minha face e o único som que se ouvia eram os meus gemidos. Ao olhar para o ambiente tenebroso conseguia ver uma mesa rectangular de madeira praticamente podre. Água pingava pelo tecto frágil e o pouco mobiliário que existia estava sujo e praticamente destruído. Ao fundo, vi um rasto de luz, vindo de uma fenda num pano que cobria uma janela partida, por onde entrava uma corrente de ar que me causava calafrios.
Escutei um estrondo de repente que me fez saltar de medo. Vinha de uma porta grande em metal que parecia firme e dura como ferro. Os passos aproximaram-se e eu encolhi-me, virada para Gustavo, de costas para aquela saída.
-Lannis...? – Murmurou Gustavo com os lábios secos, pestanejando, confuso.
-Gustavo… - apertei os meus olhos – onde estamos? - solucei – Tenho medo…
Ele tentou mover-se, mas estava exausto, tal como eu. Mexeu apenas o seu olhar analisando o sitio
-Não sei… - Vociferou, encarando-me novamente – eu não me lembro de nada… Parece que levei uma tareia…- ele gemeu – Tu sentes-te bem?
Neguei num balanço do crânio:
-Estou assustada… - Funguei – Eu quero sair daqui.
-Quem são eles? – Perguntou-me.
-Pareciam anjos… Mas ao mesmo tempo… Metiam-me medo. – Novos fios de agua salgada banharam-me a face e eu encarei Gustavo com piedade – Tira-nos daqui…
Pelo seu rosto, uma lágrima grossa e solitária rolou de encontro aos seus lábios.
Ele esticou, lentamente, o seu braço para perto de mim e eu fiz o mesmo, tentando alcançar a sua mão grande, firme e protectora, no entanto, antes que nos tocássemos a grande porta de ferro abriu-se, assustando Gustavo com aquele ser. No reflexo dos seus olhos vi um vulto enorme que se aproximava de nós em passos pesados e violentos. Ele parou junto ao meu corpo, e ao seu lado surgiram os outros dois.
-Tarde demais… - Disse aos outros dois, e tocou com o seu pé nas minhas costas – levanta-te!
A ordem, tão firme e decidida, não me quis deixar imune a ela e eu, mesmo cheia de nódoas negras, apoiei-me nos cotovelos, tentando erguer pelo menos o meu corpo, mas tombei logo de seguida, com o maxilar contra o chão.
-Lana… - Gustavo abanou a cabeça ao ver-me a gemer de dor. Ele queria ajudar-me, mas não conseguiu.
-Levanta-te, Alannis! – ordenou a suposta professora, mas eu nem me mexi.
-Não… Consigo…
Alguém apertou o meu braço com força e levantou-me violentamente através dele, como se eu fosse uma boneca de trapos. O outro braço foi segurado pelo outro homem e fiquei de frente para os três. Os seus corpos por si só iluminavam o lugar.
-há quanto tempo te nasceram as asas? – Questionou o terceiro.
-Dois meses… Mais ou menos… - vozeei.
A mulher olhou os outros dois e trocaram um olhar de cumplicidade antes de atentaram em mim novamente.
-Quem são vocês? – perguntei.
-Anjos. – Respondeu o mais forte – Fomos enviados pelo mestre para impedir a tua evolução, mas chegamos tarde.
-Qual evolução…? – Perguntou Gustavo no chão, tentando levantar-se.
-A tua evolução corporal e espiritual. – Respondeu a professora, virada para mim - Essas asas nunca deviam ter surgido.
Realmente, eu concordava, só não percebi o resto:
-Vocês também tem asas…
-Nós somos anjos!
-E eu?
Eles entreolharam-se e empurraram-me:
-Nada. Tu não és nada. Tu foste um simples erro da natureza que não foi eliminado a tempo.
Estremeci e dei um passo de recua. Gustavo já estava atrás de mi, com as pernas moles e débeis:
-O que significa isso?
Todos atentaram em Gustavo, irritados e a professora mostrou-se revoltada:
-Não te devias ter metido, rapaz. Descoordenaste-nos!
Gustavo ficou calado, sem saber o que dizer e eu olhei-o, sem reacção aparente. Só conseguia pensar nos três anjos.
-agora que a evolução começou, teremos de ser drásticos. O criador foi especifico.
Franzi o cenho:
-Que criador?
-Deus. Quem mais?!
Fiz um ar céptico:
-Eu não acredito em Deus.
Dizer aquilo foi como acertar com uma bola de bowling na cabeça de cada um. Ficaram petrificados com o que eu disse, e o terceiro anjo, também o de corpo mais velho, agarrou o meu pescoço com a sua mão larga e prendeu-o de repente. Num movimento rápido e habilidoso empurrou-me com tanta força que nem senti os meus pés no chão e caí violentamente deitada de costas na mesa de madeira, ainda com as cordas vocais travadas pelos seus dedos:
-Como ousas duvidar?!
Gemi inutilmente e coloquei as minhas mãos sobre as dele, tentando soltar-me em vão.
-Larga-a! – Implorou Gustavo rastejando até nós.
-Cala-te! – Ordenou – Achaiah, prende-o!
O líder agarrou Gustavo que nem uma lutador e empurrou-o contra a parede fazendo-o gemer. Sem lhe dar tempo de se mexer agarrou as suas mãos com duas cordas e prendeu-as a dois ganchos. Quis gritar para que o soltassem, mas mal conseguia respirar. Aquilo era assustador.
-Soltem-me! – gritou Gustavo.
-Por… Favor… - Tossi.
O anjo que me mirava manteve-se sisudo:
-tu duvidas da tua origem?
Não disse nada. Se dissesse a verdade ele ainda me matava. Se mentisse ia-me arrepender, sem dúvida.
-Responde, Alannis! – Berrou o que me transportou.
-Eu… - Senti a minha garganta ficar livre – Eu não sei quem sou, nunca soube… Nunca conheci os meus pais, portanto… Eu não tenho nenhuma certeza em relação á minha origem. – Não pude evitar de chorar levemente, mais por medo do que por dor.
Para minha surpresa, a suposta professora de matemática/ex-professor psicopata pôs as mãos sobre os ombros dos colegas e assentiu:
-Ela diz a verdade.
Eles entreolharam-se e depois atentaram os três em mim.
Gustavo na parede, esperneava e tentava libertar os pulsos, sem sucesso, gemendo o meu nome.
-Queres dizer que não conheces nada?
Neguei com a cabeça.
O anjo que parecia liderar exibiu as suas seis asas e afastou-se até Gustavo. Os outros dois exibiram também as suas grandes armações e seguiram-no:
-pois muito bem… Mereces saber antes que acabe… - Ele aproximou-se do meu parceiro e prendeu-lhe o maxilar – para teu bem, espero que te mantenhas calado… - murmurou e depois soltou-lhe a face com um olhar furioso.
-Eu não sei que tipo de sádicos vocês são, mas se lhe fazem mal, eu juro que não vai ficar assim!
Aquele que me segurara o pescoço soltou uma gargalhada em tom irónico e virou-se novamente para o sitio onde eu estava.
O líder e a professora viraram-se também e o do meio deu um passo á frente, olhando-me de um jeito soberano, de queixo erguido:
-Existem três hierarquias angelicais – disse, em tom majestoso e cativante – A primeira, onde permanecem os anjos que estão junto a Deus, encarregados por transmitir a sua mensagem aos outros anjos, é composta pelos tronos, pelos querubins e pelos serafins, como é o meu caso. A nossa categoria é aquela que está mais próxima do senhor – Ele inclinou a cabeça e colocou a mão no peito - O meu nome é Achaiah.
Com o corpo tremulo contorci-me um pouco, ainda deitada sobre aquela mesa. Achei o nome estranho, mas nada do que diziam fazia sentido, portanto o nome era a menor das minhas duvidas.
-A segunda hierarquia é composta pelas Virtudes, Dominações e Potencias. – prosseguiu - Os anjos desta ordem são os encarregados dos acontecimentos do universo. Haaiah – Disse, apontando para o mais velho – é uma dominação e como tal está aqui para garantir que cumprimos o nosso trabalho.
Cerrei os olhos marejados e engoli a seco, arrepiada com tal timbre vocal. Gustavo, escutava tudo atentamente junto á parede e notava-se que também estava incomodado.
-E ela é o quê? – Disse, referindo-se á professora com desdém.
Ela colocou as mãos atrás das costas e caminhou devagar na minha direcção, olhando-me nos olhos:
-Já tinhas lidado comigo há algum tempo, mas as circunstancias não foram as melhores e isso atrasou-nos. – Disse – Acredites ou não eu estava a tentar poupar-te a isto, Alannis.
Eu não disse nada e semicerrei os olhos marejados.
Achaiah aproximou-se e apresentou-a devidamente:
-Ele é um arcanjo. Mehiel. Terceira hierarquia, a mais próxima dos homens, composta por principados, arcanjos e os anjos vulgares, que conhecem a natureza humana graças ao estudo que fazem enquanto convivem com ela a mando de Deus. Tens convivido com ele há já muito tempo.
-É verdade… - disse a mulher – Já te conheço desde a altura do orfanato. Lembraste de uma senhora idosa que te deu uma boneca e todas as semanas te levava uma guloseima? – Disse.
Abri a boca, chocada. A minha infância era um local enevoado e pouco visível. Eu não tinha grandes lembranças porque era pequena, mas aquela recordação veio-me á mente com facilidade. Lembrava-me de uma senhora magra, de cabelo grisalho e sempre com um xaile ás costas que vinha visitar-nos todas as semanas. Ela era tão velha que a seu rosto parecia ter riscos desenhados por causa das rugas, mas era muito amável. Por algum motivo depositava especial atenção em mim e chegou a oferecer-me uma boneca de trapo que eu adorava mas que deixei no orfanato quando fui adoptada.
-Era eu. – Referiu - E a professora do segundo ano, aquela a quem levavas flores a mando de Greta, lembraste? - Ela olhou-me pacificamente - Também era eu. Depois quando tinhas doze anos e aprendeste a nadar, eu era o salva-vidas da piscina. Mas cresceste. Eu tomava conta dos teus gestos, mas tu começaste a ser menos acessível, sempre rodeada de amigos. Foi então que começaste a tornar-te uma verdadeira adolescente problemática.
-Problemática?! – Eu nunca tinha dado problemas a ninguém!
-No nono ano começaste a ter atitudes estranhas. – Respondeu - Podes não saber, mas o simples facto de passares os dedos pela lamina de uma faca é sinal suficiente para perceber que um lado teu tem algo de vil, mesmo que o fizesses sem intenções enquanto lavavas a louça. Apesar de não saber se o fizeste, eu notava com simples movimentos teus que tu estavas a mudar de algum jeito. Aí decidi que tinha de te manter debaixo de olho e quando entraste para o secundário vi a minha oportunidade quando começaste a desleixar-te nos estudos. Acredita que tudo o que fiz naquele ano foi para te ajudar
-Ajudar-me? – murmurei.
Ela acenou com a cabeça:
-Eu podia ter feito com que levasses uma vida normal, mas tu adiantaste-te, tomaste conclusões precipitadas e fugiste de mim mesmo sem saber quem eu era. O homem que mandaram prender está neste momento a cumprir uma curta pena, sem saber ao certo o que fez, tudo porque, caso não saibas, nós anjos temos a capacidade de mudar os nossos espíritos de corpo, isto se formos aceites.
-Então eu também posso?
Os três sorriram ao mesmo tempo:
-Podia dar-te jeito neste momento, mas não, tu não podes.
Deixei os meus olhos aliviarem alguma dor e expulsei algumas lágrimas deles e mexi-me, desconfortável:
-Porquê? – Inquiri – Porque é que eu não posso? Em que é que eu sou tão diferente para fosse me terem feito isto?
Achaiah sentou-se num sofá de pele escuro, poeirento e adornado com rasgos de podridão, no entanto a sua posição era majestosa como a de um rei. Ele alçou uma perna de forma masculina e ficou a olhar-me:
-Façamos disto como uma historia. Uma novela barata daqueles que vocês adoram por estes lados.
Os outros dois puseram-se ao seu lado, de pé.
-Como é que começa? Ah, sim… “Era uma vez”, adoro estes inícios. – Sorriu.
Gustavo gemeu e apercebi-me que os seus pulsos estavam em carne viva de tanto que ele se mexia para se libertar.
-Gustavo… - murmurei, a olha-lo.
Os anjos aperceberam-se que eu dei mais atenção a ele do que ao que estavam prestes a contar e ficaram ofendidos com isso.
-Toma atenção, Alannis! - Imperou Achaiah. Eu olhei-o como que obrigada e semicerrei os olhos, vidrada nele por ordem da sua mente. – Não queres saber o que te tenho a dizer?! Não queres saber o porquê de tudo isto?!
Engoli a seco e baixei as pálpebras derrotada.
Haaiah sorriu e acomodou-se, esperando para ouvir o que o seu superior tinha a dizer.
-Pois bem, continuando – retomou, ajustando-se no sofá – Existia um anjo, um majestoso Serafim de três pares de asas que vivia em harmonia junto a Deus, servindo-o de todas as formas. – O Serafim fez uma leve pausa e perdeu o seu olhar, como se tivesse a vivenciar o que dizia, falando de seguida novamente - Ele era apaixonado pelo pai. – concluiu - Tinha-lhe devoção e fazia tudo por ele. Costumávamos dizer que era anjo da boa vontade, pois não havia coisa que não fosse capaz de fazer pelo criador. Mas um dia, esse anjo revoltou-se. – Achaiah levantou a visão até mim e entrelaçou as mãos em frente á boca sem a tapar - Revoltou-se porque viu que os homens tinham mais recompensas do que os anjos que amavam o senhor acima de todas as coisas. Esse anjo, Lúcifer, traiu o pai e caiu, arrastando com ele milhares de anjos que aos poucos foram perdendo a sua fé. Esses anjos ficaram com os espíritos negros e arderam no fogo do inferno tornando-se mais tarde, os demónios mais poderosos do submundo. Uma vez demoníacos, esses anjos tinham a capacidade de interagir com os humanos e leva-los a cometer pecados, crimes e erros fatais. – Ouviu-se um suspiro de cansaço por parte dos três anjos - Foi uma época negra. A época dos Nephilin, ou por outras palavras, o tempo dos anjos caídos. Os seres ainda angelicais esforçavam-se para não cair e lutar pelo espírito santo, mas era difícil. – Os seus olhos brilharam na minha direcção – É aí que começa a tua historia… - Ele sorriu - Havia um anjo, Lassael, que como tantos outros tentou segurar-se ao lado do senhor. ´
Haaiah interrompeu:
-No entanto, tens de imaginar que um anjo não é como uma pessoa. Não tem sexo. Tudo o que nós somos é como uma luz. Um espírito, como aqueles que tu sentes. Temos apenas uma cor, uma luz , uma essência que nos distingue. As nossas lutas com os demónios é como derrotar a escuridão e só alguns tem força suficiente para se sobrepor ás sombras demoníacas. A energia que libertamos é a nossa arma.
Achaiah assentiu e prosseguiu:
-Lassael teve de se juntar á batalha. Podia não ser o anjo mais forte, mas era o mais calmo e um anjo calmo tem muitas mais capacidades do que um forte, pois tem mais determinação nos momentos de stress. O que aconteceu, foi que numa dessas batalhas, um demónio puro, ou seja, um demónio que teve a sua origem no inferno e não num Nephilin, travou uma luta com ele, por um mero acaso do destino. – O contador da historia ajeitou-se no cadeirão e suspirou - Mas há almas e almas. Duas almas, por muito diferentes que sejam, podem atrair-se sem motivo… E foi o que aconteceu. Algo neles fez faísca e os dois acabaram por misturar as suas almas. Claro que aquilo não podia ser chamado de romance, como acontece com os humanos, alem disso os demónios são traiçoeiros. Aquele monstro não tinha nenhuma compaixão por Lassael. O que os fez juntarem-se foi apenas a atracção de espíritos.
-E antes que questiones, fica sabendo que os anjos também acasalam. –Informou Mehiel – Não dão origem a bebés como neste mundo, mas dão origem a novas almas, almas essas que não são criadas por Deus.
O serafim clareou a garganta e cruzou as mãos:
-Quando o Criador soube da traição de Lassael e se preparou para o fazer cair, ele antecipou-se e apoderou-se de um corpo de uma humana adolescente grávida. Foi uma estratégia para guardar o novo espírito. Normalmente só após o nascimento e o baptizado é que uma pessoa tem uma alma digna da palavra de Deus. Mas essa criança não. Mesmo dentro da placenta, teve a sua aura imposta. Normalmente estas criações impuras são eliminadas antes de se desenvolverem, mas uma vez num corpo humano era impossível faze-lo pois seria contra o mandamento de Deus, “Não matarás.”. Essa criança eras tu Alannis.
Virei os rosto inundado de lágrimas e não os encarei. Apenas tentei controlar os soluços, com uma sensação de impotência dentro de mim. Senti-me como uma estrangeira perdida num país que não o seu. Senti que o mundo ia desabar nas minhas costas e esmagar-me por causa de coisas que eu não fiz. Gustavo deu um pontapé na parede de metal fazendo um estrondo. Ele estava tão furioso que os seus olhos estavam avermelhados com lágrimas presas neles:
-E o que é que isso tem?
Achaiah levantou-se e foi até ele:
-Imagina, rapaz. É simples e exacto como matemática!
-Diz, Gustavo, o que achas que isto implica?
Ele rangeu os dentes:
-Eu não entendo!
-então façamos assim - falou a Dominação andando de um lado para o outro á sua frente. Eu apenas os observava – Um anjo mais um demónio é igual a…?
Gustavo semicerrou os olhos:
-Um ser metade anjo, metade demónio? – palpitou confuso.
-Um ser muito poderoso! – Corrigiu - Tem a capacidade de escutar os pensamentos dos anjos e interagir com eles para alem de estar a par das ordens de Deus. A parte demoníaca torna-o imprevisível a qualquer momento e dá-lhe força que adicionada a sentimentos como raiva e vontades impulsivas o torna perigoso.
-Agora imagina o que acontece quando esse ser é também meio humano? - Incentivou a professora, cruzando os braços - Isto é, nasce num corpo humano, logo também tem capacidades humanas e é mais susceptível a ser domado por sentimentos. Se a Alannis não se tivesse enervado tanto as asas não teriam aparecido tão cedo. Ela podia até morrer sem saber que elas existiam. Mas aquela parte demoníaca dela despertou e fê-la ficar tão furiosa que o seu corpo sofreu as consequências. Agora ela parece um anjo perdido no meio dos humanos, mas não é só isso. É também um ser demoníaco que a qualquer momento pode-se descontrolar.
Gustavo negou com a cabeça, baralhado:
-Não, ela não é má… Eu sei, eu sinto…
-Não, tu não sentes isso. O que tu sentes é a mesma atracção que Lassael sentiu por aquele demónio dos infernos.
Senti que estava a ser apunhalado no peito ao ouvir isso. Eu não podia acreditar no que eles estavam a dizer a Gustavo. Eu não suportaria isso. Ele era demasiado importante para mim para se tratar apenas de uma atracção e num momento de stress como aquele eu tinha a certeza que o que me prendia a ele era algo muito mais forte do que uma atracção. Sim, agora eu sabia que tinha estado a fugir da verdade cada vez que ele me tentava dizer o que sentia por mim e arrependia-me profundamente por tê-lo feito.
-Lembra-te Gustavo, a qualquer instante ela vai-se virar contra ti e pode matar-se apenas com um gesto.
Ele não acreditava e abanava a cabeça. As lágrimas caíram por fim pela sua pele:
-Eu amo-a… - murmurou-lhes. Eu ouvi e uma espécie de calor pareceu encher o meu coração, numa espécie de reconforto.
-Não te iludas. – aconselhou Achaiah aproximando-se de um balcão cheio de objectos enferrujados. Pegou num punhal amarelado e aproximou-se de mim. Encolhi-me como reacção - Os demónios são muito atraentes - disse, passando a faca pelo meu maxilar - É por isso que estamos aqui. Vamos livrar-nos desse perigo.
-O quê?... – Vociferei assustada.
-os anjos andam agitados desde que começaste a voar. – Explicou a professora, enrolando o cabelo numa mecha - Deus mandou três, um de cada hierarquia, para resolver este problema e acalmar os ânimos no paraíso. As vozes que tens ouvido são deles. Querem que tu deixes de ser um perigo.
-foi difícil encontrar-te depois de te esconderes e mascarares a tua aura. Felizmente quando regressaste á tua cidade Rogério viu-te.
-Rogério?
-Sim. Ele estava a nosso mando á espera de novidades tuas. Não que quisesse, mas não tinha alternativa uma vez que nós o estávamos a domar. Ah, e a propósito, lamentamos o que aconteceu com a Helen, mas a verdade é que ele não era santo nenhum.
A minha boca estava seca. Continuei a sentir o punhal a roçar na minha pele, amedrontada.
-Aconteceu-te alguma coisa ás asas? – Perguntou Haaiah.
Olhei-o petrificada, questionando-me como é que ele sabia:
-Não. - menti.
-Mentir é pecado.
Cerrei os lábios e afastei as minhas atenções deles.
Foi então que me senti agarrada pelas mãos femininas e o meu tronco ergueu-se. O vestido negro deu-lhe passagem directa para as minhas costas:
-Esta mancha diz o contrário. Foi um vampiro, não foi?
-Como sabem?
-os vampiros ficam loucos com sangue de anjo, especialmente se tiver asas verdadeiras. Alem disso a cor da nódoa não engana. Certamente metade das tuas penas já caíram.
-o quê?! – Questionei chocada.
-mostra-as! – Imperou Achaiah.
-Não. – Recusei.
-Não te atrevas a desafiar-nos! Abre-as imediatamente!
-Não! – Gritei, chorosa.
Os outros dois agarraram os meus braços com firmeza causando-me dores por todo o corpo:
-Teremos de ser drásticos, então!
Gustavo contorceu-se numa tentativa de se soltar:
-Não lhe façam mal! – Berrou, furioso – Ela já disse que não as mostra!
-Cala-te! – Haaiah fez um gesto com a mão direita que lhe prendeu a boca, impedindo-o de proferir fosse o que fosse, como se tivesse fita cola nela.
Eu senti uma espécie de martelada nas minhas costas. Uma dor semelhante àquela que sentia antes de as asas surgirem. A única diferença que me apercebi foi que a martelada era verdadeira. A professora esmurraçou-me as costas e eu gritei de dor. Senti-as rasgar na minha pele com violência e sentia todo o corpo a arder como se estivesse em carne viva dentro de uma banheira com álcool etílico! Gustavo gemeu, com a boca presa e esperneou.
Achaiah aproximou-se dele, ignorando o meu choro agoniado e os meus gemidos intensos, e pegou num pano grosso e escuro. Ergueu-o até aos olhos de Gustavo e antes de lhe tapar a visão com ele, foi especifico:
-É melhor não veres. Não te queremos traumatizado!
Ele fez um esgar que aparentava estar a cerrar os dentes e soltou algumas lágrimas solitárias.
Senti uma dor intensa no peito e levei uma pancada que me fez cair sobre a mesa de frente, ficando com as costas voltadas para cima. Olhei as asas de soslaio e assustei-me. Eles tinham razão. As asas tinham perdido a sua cor alva e angélica e as poucas penas que ainda estavam agarradas á minha pele, ou estavam enegrecidas ou sujas com o sangue que escorria pela minha ferida profunda. Nem sequer havia vestígios do curativo que Gustavo me tinha feito. A imagem era traumatizante sem duvida, porem, eu sabia que Achaiah não se tinha referido ao trauma por causa desse aspecto, o que me inquietou.
A mão de Mehiel deslizou pela minha face, enquanto um olhar sem sentimento me percorreu. Gemi como resposta, esperando alguma piedade, mas nada. Não aconteceu nada. Consegui escutar o som de laminas a chocarem e rasparem uma na outra de forma sinistra, só que não tinha força para procurar a origem do som. Era uma sensação sufocante. Querer ver e estar tudo turbo pelas lágrimas e pela escuridão do lugar. Querer mexer-me e ter o corpo dorido e preso. Querer gritar, soltar toda a minha voz num grito estridente e sentir-me rouca e com medo de abrir a boca para não assustar Gustavo. Só conseguia ouvir os murmúrios dos anjos e novamente aquela sensação de dormência mental atacou-me e fez-me chorar silenciosamente.
Haaiah aproximou-se do meu rosto e olhou-me:
-Não fiques assim. Vai ser rápido.
-O que é que vocês me vão fazer? – Quis saber, num fio de voz.
-Vamos fazer com que deixes de ser uma ameaça.
Funguei, com os o olhar marejado:
-Como?
Ele não respondeu e deu um meio sorriso forçado. Depois levantou-se e aproximou-se Gustavo, enquanto Achaiah, ao que parecia, andava de um lado para o outro com algumas coisas na mão. Pelo canto do olho pareceu-me ver um pote ferrugento, diferentes tipos de faca e punhais e outros instrumentos acabados de afiar. O meu corpo estremeceu e encolhi-me ligeiramente aterrorizada, questionando-me que tipo de pesadelo estava prestes a presenciar.
-Não te preocupes, rapaz… - murmurou Haaiah a Gustavo, que se contorcia sem parar – Os gritos que vais ouvir não são tão ruins como julgas.
O meu coração parou de bater por segundos. Era em ocasiões como aquela que a vida nos passa toda á frente dos olhos, com uma carga nostálgica que não dá para explicar. Fiquei a olhar o vazio, enquanto reproduzia os momentos piores e melhores da minha vida. Agora, melhor do que nunca, lembrava-me de situações do orfanato. Dantes era difícil recordar mas naquele momento a minha mente parecia ficar muito mais limpa. Lembrava-me do sitio. Era feio, paredes beges aborrecidas, sujas pelo clima e descascadas. Lá fora havia um jardim seco, deserto com uns baloiços ferrugentos que chiavam cada vez que tentávamos divertir-nos com eles. Lembrava-me de uma noite, há pouco tempo, em que só os conseguia ouvir na minha cabeça. O interior era menos assustador. Era também simples e sem decoração. O máximo de cor que havia eram os nossos desenhos, muitas vezes feitos com lápis de pouco bico, e haviam alguns autocolantes nas janelas. Havia uma sala de convívio que tinha algumas historias, algumas sem paginas e com as lombadas rasgadas. Eu gostava em particular dos contos de fadas que as educadoras nos contavam na hora da sesta. Uma que me ficava na memoria era a Cinderela, apesar de hoje em dia achar que existem princesas melhores. Adorava brincar com as Barbies e caí no erro de cortar o cabelo á minha preferida. O corte ficou tão mau á primeira que eu tentei remediar a situação e quando me apercebi a boneca estava com a cabeça careca, mas esperancei que o cabelo voltasse a crescer.
Sorri da minha ingenuidade.
Na altura não reflecti sobre isso. As outras meninas ficaram muito zangadas comigo, e para dizer a verdade elas não gostavam muito de mim. Eu sempre fui a mais solitária em relação aos outros. Não tinha um grupo em que me inserisse. De vez em quando brincava com uma ou outra, mas no geral os meus melhores amigos eram os funcionários do orfanato e os visitantes. Talvez por isso eu tenha sido a primeira, depois dos bebés, a ser adoptada. A família era tão diferente do que eu julgava. Todas as crianças tinham medo de ser adoptadas, Tinham medo que os pais fossem maus. Quando a Greta e o Joseph vieram visitar-me pela primeira vez eu achei-os estranhos. Tinham um ar diferente das outras pessoas, peles mais brancas, cabelos e olhos mais claros. Isso devia-se á sua origem. Mas quando Helen surgiu, entre eles, tão querida e simpática apressou-se a brincar comigo e acho que foi esse gesto que os fez optarem por mim. Por algum motivo surgiu logo uma grande cumplicidade entre nós duas. A partir desse momento a minha vida seria tão normal quanto as outras. A primaria era divertida e as pessoas eram mais simpáticas. Ainda me lembro de dizer que um miúdo da quarta classe era o meu namorado quando ele nem sequer sabia que eu “gostava” dele. Deu-me uma tampa, e acredite-se ou não, mesmo sendo na infância, estas coisas magoam. Claro que dois dias depois estava recomposta do meu coração partido.
Depois veio aquela fase da pré-adolescência. Andava imparável. Só queria sair de casa para ir ter com os meus amigos da escola, mas não podia pois ainda era nova e a não ser que alguém me levasse, eu não podia ir á praia com os colegas. Isso era muito frustrante, especialmente nas ferias de verão, que eu odiava pois ficava em casa sem fazer nada a não ser quando Helen me levava com ela aos seus encontros amorosos. Obrigada, obviamente. Finalmente as coisas começaram a compor-se e no nono ano já tinha mais liberdade. O problema é que as minhas amigas não, o que me levava de novo á monotonia. Eu e Cristina éramos as melhores amigas desde a primaria. Ela entrou para o primeiro ano e a disposição das mesas, de modo circular fez-me ficar com uma rapariga entre nós. Essa, falava muito comigo e cochichava mal de Cristina dizendo que ela era uma copiona e burra. Eu olhava-a sem compreender. Parecia tão tímida e calada, nova por ali, tal como eu. Depois comecei a aprender o que significava copiar, e como já sabia ser marota na altura aproveitava os momentos em que a nossa colega cochichava mal dela para copiar as suas contas básicas enquanto assentia tudo o que ela dizia. Não sei como, mas a rapariga não se apercebia. Finalmente, quando cheguei ao terceiro ano comecei a falar com Cristina, apercebendo-me que ela era bem extrovertida, e aí nasceu uma grande amizade. Nunca mais nos largamos desde então. Continuávamos a fazer das nossas e nos momentos de tédio fazíamos o inesperado. Uma vez Cristina, no oitavo ano, escreveu durante uma aula num papel “Eu sou burro”. Encheu o papel de cola, já que não havia fita e pediu á professora para ir afiar o lápis. Ao passar pelo nosso colega da frente deu-lhe uma pancada nas costas a fim de colar o papel, mas correu mal. Estragou-lhe o casaco com tanta cola e a professora quase a expulsou por causa do bilhete. Esta foi uma das muitas trapacices que fizemos. Também tivemos os nossos momentos baixos, como aconteceu quando nos vimos apaixonadas pelo mesmo tipo. Eu, calma como era, e pessimista também, resolvi abrir-lhe caminho, mas ela afastou-se. Mais tarde quando a paixoneta passou voltamos a ser as melhores amigas e só nos separamos quando eu tive de me mudar.
Sorri.
https://www.youtube.com/watch?v=rhp5EnCrRJU
A mudança foi a melhor coisa que me aconteceu. Pode não ter sido a coisa mais engraçada, mas o simples facto de ter conhecido pessoas como Lili, e até mesmo Rebeca foi bom. Gustavo, por outro lado, arrebatada todas as minhas experiencias. Nunca ninguém me tinha feito sentir que eu era mais do que “só mais uma”. A amizade é algo bom, pois temos quem nos apoie e divirta. Mas não se compara á existência de alguém que nos trate acima de todos os outros. Alguém que nos acha mais especiais do que qualquer outra pessoa e que deposite toda a atenção em nós. Isso é muito mais completivo do que ter de dividir atenções por vários amigos e não há sensação melhor do que o friozinho do estômago quando alguém nos beija. Recordei o nosso primeiro beijo. Não, o segundo. Na altura era uma zanga, mas há coisas que não se podem evitar e a forma como aconteceu foi óptima ainda que no final eu tenha saído a discutir.
Olhei-o, inquieto preso á parede de olhos vendados como um Cristo.
Voltei a ficar com a cara encharcada, relembrando os nossos momentos.
Como eu estava enganada. Eu amava-o desde que o conheci. Foi por isso que ele me afectou tanto, porque eu o amava, apesar de nem sequer ponderar sobre isso e não querer ouvi-lo a dizer-mo. Se eu tivesse forças, dizia-lhe naquele momento que eu o adorava mais do que a mim mesma, contudo a garganta estava tão inflamada que eu mal conseguia respirar. Só queria recuar no tempo e dizer-lhe tudo o que sentia. Dizer-lhe, quando ele me conheceu, que eu gostava dele. Dizer-lhe, quando ele me levou a conhecer a vila e me mostrou a cachoeira, que eu o adorava. Dizer-lhe, quando lhe contei a minha historia, que eu não podia viver sem ele. Dizer-lhe, quando estávamos afastados, que eu estava louca por ele. Dizer-lhe, quando ele me beijou, que eu o amava. Dizer-lhe, quando ele foi ter comigo antes de eu partir para a Povoa de Varzim, que eu o queria ao meu lado para sempre. Dizer-lhe, quando ele foi ter comigo, que eu não ia fugir-lhe mais. Dizer-lhe, quando eu senti ciúmes de Letícia, que ele era meu. Dizer-lhe, quando ele me fez um piquenique, que eu estava irrevogavelmente apaixonada por ele. Dizer-lhe sempre e a toda a hora que eu o amava.
Estúpidos anjos que não entendiam os sentimentos dos humanos.
Eu não queria ficar muito mais tempo sem dizer a verdade, mas tinha medo do que se seguia.
Achaiah tinha punhais de diferentes tamanho nas suas mãos.
Perguntei-me se eu ia morrer, afinal, se queriam impedir-me de algo, provavelmente só matando-me.
Apercebi-me também que estivera enganada em relação ao termo de “morte” durante todo este tempo. A morte não era boa. Não acabava com os problemas e nos dava paz. Não. A morte endividava-nos. Impedia-nos de conhecer as coisas boas da vida e deixava-nos com assuntos pendentes, como dizer um simples “Amo-te” a alguém especial e explicar-lhe que se acontecesse algo de mau, queríamos que a vida continuasse. Ao olhar Gustavo tão abatido eu queria dizer-lhe que para ele ficar bem, mas não podia.
As mãos de Haaiah percorreram uma das minhas asas fazendo-me centrar no que se passava no meu físico.
-Não te preocupes, Alannis. Vai ser melhor assim.
E de repente um objecto frio cravou violentamente das minhas costas.
Gritei como se a minha voz fosse uma arma, trazendo o som bem do interior da minha garganta que soava como um guizo estridente.
-Largam-me! – ordenei, aterrorizada, entre soluços.
As lágrimas jorraram pelos meus olhos como se viessem de um mar quente e molharam toda a minha pele e até mesmo o suporte em que eu estava deitada. Esperneei, aflita, coma respiração a travar-se por segundo e o grito a transformar-se em berros agoniados.
Conseguia escutar os gemidos de preocupação de Gustavo, mas nem isso me distraia. Senti as costas molhadas com algo quente e um cheiro de ferrugem misturado com algo salgado invadiu-me as narinas por completo. Era sangue. Muito.
Voltei a sentir outra punhalada em lado da primeira e voltei a gritar entre soluços histéricos e sonoros, com o corpo dormente a arder como se o estivessem a queimar.
As mãos femininas agarraram a minha cabeça com força, como se a fossem arrancar e taparam-me a boca com um pano. Um sabor a veneno chegou-me ás papilas gustativas e aos poucos comecei a ficar com menos força.
Foi dada uma terceira facada no mesmo sitio, mais profunda do que as anteriores e eu chorei, sem força, com a respiração impedida pelo pano.
Encarei Gustavo com os pulsos em carne viva a tentar dizer algo em vão, e aos poucos, no meio de choro incontrolável, comecei a perder a força e os flashes na minha mente não pararam.
Vi uma luz a ofuscar-me os olhos e tentei fugir dela, mas não consegui, ele queria-me engolir de alguma forma.
Gustavo bateu com os pés e chorou sem nada a prender o que sentia. A sua imagem foi a ultima que vi. Podia não ser a melhor, mas era a única que eu queria ver naquele momento, para sentir alguma paz no meu espírito cansado e no meu corpo exausto.
Pestanejei e tossi sangue.
Tudo andou á roda na minha mente, mas já era tarde para me controlar.
Naquele momento, um anjo morreu… E não foi nenhum dos que me torturava.
Nao me batam! ;_;
Bjokas
Boa leitura!

Capitulo XXVIII - Morte
Se Gustavo não estivesse atrás de mim eu teria tombado no chão com o choque e o medo.
-Quem é você? – Ele interrogou, em alta voz, enraivecido por causa do meu estado.
-Talvez a Alannis algum dia te tenha falado de um tal professor Frederico Mendes…
Enterrei a minha cara chorosa na camisola de Gustavo e abanei a cabeça, em completo desespero:
-É ele… - Vociferei.
-Ele? - Gustavo não conseguia fazer a associação, visto o tal “Ele” ser uma mulher.
-O meu professor…
-o quê?!
Gustavo franziu as sobrancelhas, confuso. A esbelta mulher não mostrou qualquer sorriso ou cara bonita:
-Teria sido tão fácil se tivesses cedido á primeira, Alannis… - Disse, firmemente. Quase vomitei quando ela disse aquilo – Pouparias tantos problemas!
-o que está a dizer?! – Consegui dizer, perplexa – Eu não consigo entender essa obsessão por mim!
-Alannis… - Ela respirou fundo – Tu entendeste tudo mal. Eu nunca quis fazer-te o mal que julgas. Eu não te ia “violar” – Disse, fazendo aspas com as mãos – Na verdade, até sou o bom da fita.
Tentei acalmar-me. As palavras que a professora libertava deixavam-me mais tranquila de certa forma, apesar de a sua aura ainda me assustar.
-Você disse que me ia apanhar… Que eu não ia escapar.
-Oh, e não vais…! – Ela centrou-se nos meus olhos, provocando-me uma dor forte.
Dei um grito agudo e tapei os meus ouvidos, caindo no chão. As vozes falavam mais alto e gritavam, e de um momento para o outro senti que não ia resistir àquilo.
Gustavo ficou em pânico e baixou-se para me consolar:
-Calem-se! – Gritei com lágrimas nos olhos.
-Eles não vão parar, Alannis. – Disse a professora.
Nesse momento começamos a ouvir pancadas na porta. Alguém tentava entrar, sem sucesso. As batidas eram mais violentas e urgentes:
-Abram a porta! O que se passa aí?!
A mulher fez um verdadeiro ar de raiva:
-Devias ter ficado calada!
Então escutamos o vidro da janela partir em milhares de cacos que se distribuíram pelo chão da sala, e um punhal voou na minha direcção. Gustavo deu-me um encontrão que o fez ficar deitado sobre mim, e o objecto afiado cravou-se na porta de madeira da sala. Apercebi-me que um pequeno golpe surgiu na sua bochecha, perto da maça do rosto.
Ele levantou o olhar, sem saber o que se passava e encarou a professora no estado mais alto de calma:
-o que se passa?
Eu nem precisei da resposta. Senti duas novas presenças na sala e contorci-me com dores no peito e na cabeça, com os olhos cerrados com força e as mãos a taparem os ouvidos. As pancadas na porta abrandaram:
Todos ficaram em silencio, excepto eu que gemia e chorava.
Um corpo forte deu passos lentos, mas pesados na minha direcção e então senti o meu corpo ser elevado no colo de alguém.
Esperneei e abri os olhos para fitar aquele ser, sem palavras adequadas para dizer.
-está na hora.
Era um homem. O seu cabelo dava-lhe pelos ombros, castanho, e tinha a barba mal aparada no rosto. Tinha uma face serena e terna, mas o seu olhar azul claro era perturbador. Atrás dele vi três pares de asas e isso fez-me ficar sem reacção.
As dores esperaram que eu analisasse aquele homem para me incomodarem novamente.
Só nesse momento que apercebi que a minha professora tapava a boca de Gustavo e lhe prendia os braços, enquanto ele tentava vir até mim. Lacrimejei e tentei sair daqueles braços:
-Larga-o… - Pedi, rouca, sem evitar de chorar mais, assustada.
Nenhum obedeceu e eu não tinha forças para lutar.
Foi então que um homem mais velho falou, num tom calmo:
-Devias ter ficado longe deste anjinho! – Gracejou a Gustavo.
Olhei para aquele homem. Sorria com duas covinhas na face e os seus olhos brilhavam. Todavia, não conseguia entender o que se passava. Quem eram eles e o que faziam ali. Quis perguntar, mas a voz era fraca, e numa leitura de pensamentos exacta o meu portador respondeu-me:
-É melhor sairmos daqui. - Ele arrastou-me até á janela partida e pendurou-se no peitoril. Esperneei com medo do que ele ia fazer, mas de repente ele abriu por completo a sua majestosa armação branca e resplandecente. Aquilo sim era um anjo.
Gustavo conseguiu soltar a sua boca, já cansado:
-Onde a levam?! – Interrogou, possesso.
-Para o mesmo sitio que tu, rapaz!
E de repente, a professora tapou-lhe os olhos e eles simplesmente se deixou cair no chão, desmaiado.
-Gustavo! – Gritei, lavada em lágrimas – O que lhe fizeram? Gustavo, acorda!
Senti um pingo de forças no corpo e esperneei tentando saltar do colo daquele ser. Porem, tudo em mim era fraco, mesmo quando eu tinha força. O homem manteve-me presa nos seus braços e apenas me olhou, sério:
-Não te preocupes… Não dói.
A única coisa que o vi fazer foi colocar as mãos á frente dos meus olhos e de repente tudo ficou negro.
***
Acordei num sitio escuro e frio, deitada sobre o chão. O meu corpo tremia involuntariamente em conjunto com os dentes, e senti um liquido debaixo de mim enquanto me tentava mexer. O meu corpo estava dolorido, mas em contrapartida as vozes estavam caladas e isso era uma grande ajuda para alguém que não aguentava com o próprio corpo. Tentei mover-me mas apenas consegui virar-me para o outro lado. Apesar da dificuldade visual distingui Gustavo ao meu lado, desmaiado, de barriga para baixo, com o ferimento na maça do rosto mais sujo do que inicialmente.
-Gustavo… - chamei, rouca e fraca.
Ele não acordou. Estiquei o meu braço até si, com dificuldade, e tentei tocar-lhe mas ele ainda estava a cerca de um metro de mim, pelo que não o consegui alcançar. Senti-me angustiada pois queria tocar-lhe, senti-lo para ter alguma esperança dentro de mim. Era escusado.
Deixei uma lágrima escorrer-me pelo rosto sujo.
-Gustavo… Acorda…! – Os meus dedos tremelicavam sem parar – Tenho medo…
Nada aconteceu. Eu fiquei a olha-lo enquanto rios de lágrimas cobriam a minha face e o único som que se ouvia eram os meus gemidos. Ao olhar para o ambiente tenebroso conseguia ver uma mesa rectangular de madeira praticamente podre. Água pingava pelo tecto frágil e o pouco mobiliário que existia estava sujo e praticamente destruído. Ao fundo, vi um rasto de luz, vindo de uma fenda num pano que cobria uma janela partida, por onde entrava uma corrente de ar que me causava calafrios.
Escutei um estrondo de repente que me fez saltar de medo. Vinha de uma porta grande em metal que parecia firme e dura como ferro. Os passos aproximaram-se e eu encolhi-me, virada para Gustavo, de costas para aquela saída.
-Lannis...? – Murmurou Gustavo com os lábios secos, pestanejando, confuso.
-Gustavo… - apertei os meus olhos – onde estamos? - solucei – Tenho medo…
Ele tentou mover-se, mas estava exausto, tal como eu. Mexeu apenas o seu olhar analisando o sitio
-Não sei… - Vociferou, encarando-me novamente – eu não me lembro de nada… Parece que levei uma tareia…- ele gemeu – Tu sentes-te bem?
Neguei num balanço do crânio:
-Estou assustada… - Funguei – Eu quero sair daqui.
-Quem são eles? – Perguntou-me.
-Pareciam anjos… Mas ao mesmo tempo… Metiam-me medo. – Novos fios de agua salgada banharam-me a face e eu encarei Gustavo com piedade – Tira-nos daqui…
Pelo seu rosto, uma lágrima grossa e solitária rolou de encontro aos seus lábios.
Ele esticou, lentamente, o seu braço para perto de mim e eu fiz o mesmo, tentando alcançar a sua mão grande, firme e protectora, no entanto, antes que nos tocássemos a grande porta de ferro abriu-se, assustando Gustavo com aquele ser. No reflexo dos seus olhos vi um vulto enorme que se aproximava de nós em passos pesados e violentos. Ele parou junto ao meu corpo, e ao seu lado surgiram os outros dois.
-Tarde demais… - Disse aos outros dois, e tocou com o seu pé nas minhas costas – levanta-te!
A ordem, tão firme e decidida, não me quis deixar imune a ela e eu, mesmo cheia de nódoas negras, apoiei-me nos cotovelos, tentando erguer pelo menos o meu corpo, mas tombei logo de seguida, com o maxilar contra o chão.
-Lana… - Gustavo abanou a cabeça ao ver-me a gemer de dor. Ele queria ajudar-me, mas não conseguiu.
-Levanta-te, Alannis! – ordenou a suposta professora, mas eu nem me mexi.
-Não… Consigo…
Alguém apertou o meu braço com força e levantou-me violentamente através dele, como se eu fosse uma boneca de trapos. O outro braço foi segurado pelo outro homem e fiquei de frente para os três. Os seus corpos por si só iluminavam o lugar.
-há quanto tempo te nasceram as asas? – Questionou o terceiro.
-Dois meses… Mais ou menos… - vozeei.
A mulher olhou os outros dois e trocaram um olhar de cumplicidade antes de atentaram em mim novamente.
-Quem são vocês? – perguntei.
-Anjos. – Respondeu o mais forte – Fomos enviados pelo mestre para impedir a tua evolução, mas chegamos tarde.
-Qual evolução…? – Perguntou Gustavo no chão, tentando levantar-se.
-A tua evolução corporal e espiritual. – Respondeu a professora, virada para mim - Essas asas nunca deviam ter surgido.
Realmente, eu concordava, só não percebi o resto:
-Vocês também tem asas…
-Nós somos anjos!
-E eu?
Eles entreolharam-se e empurraram-me:
-Nada. Tu não és nada. Tu foste um simples erro da natureza que não foi eliminado a tempo.
Estremeci e dei um passo de recua. Gustavo já estava atrás de mi, com as pernas moles e débeis:
-O que significa isso?
Todos atentaram em Gustavo, irritados e a professora mostrou-se revoltada:
-Não te devias ter metido, rapaz. Descoordenaste-nos!
Gustavo ficou calado, sem saber o que dizer e eu olhei-o, sem reacção aparente. Só conseguia pensar nos três anjos.
-agora que a evolução começou, teremos de ser drásticos. O criador foi especifico.
Franzi o cenho:
-Que criador?
-Deus. Quem mais?!
Fiz um ar céptico:
-Eu não acredito em Deus.
Dizer aquilo foi como acertar com uma bola de bowling na cabeça de cada um. Ficaram petrificados com o que eu disse, e o terceiro anjo, também o de corpo mais velho, agarrou o meu pescoço com a sua mão larga e prendeu-o de repente. Num movimento rápido e habilidoso empurrou-me com tanta força que nem senti os meus pés no chão e caí violentamente deitada de costas na mesa de madeira, ainda com as cordas vocais travadas pelos seus dedos:
-Como ousas duvidar?!
Gemi inutilmente e coloquei as minhas mãos sobre as dele, tentando soltar-me em vão.
-Larga-a! – Implorou Gustavo rastejando até nós.
-Cala-te! – Ordenou – Achaiah, prende-o!
O líder agarrou Gustavo que nem uma lutador e empurrou-o contra a parede fazendo-o gemer. Sem lhe dar tempo de se mexer agarrou as suas mãos com duas cordas e prendeu-as a dois ganchos. Quis gritar para que o soltassem, mas mal conseguia respirar. Aquilo era assustador.
-Soltem-me! – gritou Gustavo.
-Por… Favor… - Tossi.
O anjo que me mirava manteve-se sisudo:
-tu duvidas da tua origem?
Não disse nada. Se dissesse a verdade ele ainda me matava. Se mentisse ia-me arrepender, sem dúvida.
-Responde, Alannis! – Berrou o que me transportou.
-Eu… - Senti a minha garganta ficar livre – Eu não sei quem sou, nunca soube… Nunca conheci os meus pais, portanto… Eu não tenho nenhuma certeza em relação á minha origem. – Não pude evitar de chorar levemente, mais por medo do que por dor.
Para minha surpresa, a suposta professora de matemática/ex-professor psicopata pôs as mãos sobre os ombros dos colegas e assentiu:
-Ela diz a verdade.
Eles entreolharam-se e depois atentaram os três em mim.
Gustavo na parede, esperneava e tentava libertar os pulsos, sem sucesso, gemendo o meu nome.
-Queres dizer que não conheces nada?
Neguei com a cabeça.
O anjo que parecia liderar exibiu as suas seis asas e afastou-se até Gustavo. Os outros dois exibiram também as suas grandes armações e seguiram-no:
-pois muito bem… Mereces saber antes que acabe… - Ele aproximou-se do meu parceiro e prendeu-lhe o maxilar – para teu bem, espero que te mantenhas calado… - murmurou e depois soltou-lhe a face com um olhar furioso.
-Eu não sei que tipo de sádicos vocês são, mas se lhe fazem mal, eu juro que não vai ficar assim!
Aquele que me segurara o pescoço soltou uma gargalhada em tom irónico e virou-se novamente para o sitio onde eu estava.
O líder e a professora viraram-se também e o do meio deu um passo á frente, olhando-me de um jeito soberano, de queixo erguido:
-Existem três hierarquias angelicais – disse, em tom majestoso e cativante – A primeira, onde permanecem os anjos que estão junto a Deus, encarregados por transmitir a sua mensagem aos outros anjos, é composta pelos tronos, pelos querubins e pelos serafins, como é o meu caso. A nossa categoria é aquela que está mais próxima do senhor – Ele inclinou a cabeça e colocou a mão no peito - O meu nome é Achaiah.
Com o corpo tremulo contorci-me um pouco, ainda deitada sobre aquela mesa. Achei o nome estranho, mas nada do que diziam fazia sentido, portanto o nome era a menor das minhas duvidas.
-A segunda hierarquia é composta pelas Virtudes, Dominações e Potencias. – prosseguiu - Os anjos desta ordem são os encarregados dos acontecimentos do universo. Haaiah – Disse, apontando para o mais velho – é uma dominação e como tal está aqui para garantir que cumprimos o nosso trabalho.
Cerrei os olhos marejados e engoli a seco, arrepiada com tal timbre vocal. Gustavo, escutava tudo atentamente junto á parede e notava-se que também estava incomodado.
-E ela é o quê? – Disse, referindo-se á professora com desdém.
Ela colocou as mãos atrás das costas e caminhou devagar na minha direcção, olhando-me nos olhos:
-Já tinhas lidado comigo há algum tempo, mas as circunstancias não foram as melhores e isso atrasou-nos. – Disse – Acredites ou não eu estava a tentar poupar-te a isto, Alannis.
Eu não disse nada e semicerrei os olhos marejados.
Achaiah aproximou-se e apresentou-a devidamente:
-Ele é um arcanjo. Mehiel. Terceira hierarquia, a mais próxima dos homens, composta por principados, arcanjos e os anjos vulgares, que conhecem a natureza humana graças ao estudo que fazem enquanto convivem com ela a mando de Deus. Tens convivido com ele há já muito tempo.
-É verdade… - disse a mulher – Já te conheço desde a altura do orfanato. Lembraste de uma senhora idosa que te deu uma boneca e todas as semanas te levava uma guloseima? – Disse.
Abri a boca, chocada. A minha infância era um local enevoado e pouco visível. Eu não tinha grandes lembranças porque era pequena, mas aquela recordação veio-me á mente com facilidade. Lembrava-me de uma senhora magra, de cabelo grisalho e sempre com um xaile ás costas que vinha visitar-nos todas as semanas. Ela era tão velha que a seu rosto parecia ter riscos desenhados por causa das rugas, mas era muito amável. Por algum motivo depositava especial atenção em mim e chegou a oferecer-me uma boneca de trapo que eu adorava mas que deixei no orfanato quando fui adoptada.
-Era eu. – Referiu - E a professora do segundo ano, aquela a quem levavas flores a mando de Greta, lembraste? - Ela olhou-me pacificamente - Também era eu. Depois quando tinhas doze anos e aprendeste a nadar, eu era o salva-vidas da piscina. Mas cresceste. Eu tomava conta dos teus gestos, mas tu começaste a ser menos acessível, sempre rodeada de amigos. Foi então que começaste a tornar-te uma verdadeira adolescente problemática.
-Problemática?! – Eu nunca tinha dado problemas a ninguém!
-No nono ano começaste a ter atitudes estranhas. – Respondeu - Podes não saber, mas o simples facto de passares os dedos pela lamina de uma faca é sinal suficiente para perceber que um lado teu tem algo de vil, mesmo que o fizesses sem intenções enquanto lavavas a louça. Apesar de não saber se o fizeste, eu notava com simples movimentos teus que tu estavas a mudar de algum jeito. Aí decidi que tinha de te manter debaixo de olho e quando entraste para o secundário vi a minha oportunidade quando começaste a desleixar-te nos estudos. Acredita que tudo o que fiz naquele ano foi para te ajudar
-Ajudar-me? – murmurei.
Ela acenou com a cabeça:
-Eu podia ter feito com que levasses uma vida normal, mas tu adiantaste-te, tomaste conclusões precipitadas e fugiste de mim mesmo sem saber quem eu era. O homem que mandaram prender está neste momento a cumprir uma curta pena, sem saber ao certo o que fez, tudo porque, caso não saibas, nós anjos temos a capacidade de mudar os nossos espíritos de corpo, isto se formos aceites.
-Então eu também posso?
Os três sorriram ao mesmo tempo:
-Podia dar-te jeito neste momento, mas não, tu não podes.
Deixei os meus olhos aliviarem alguma dor e expulsei algumas lágrimas deles e mexi-me, desconfortável:
-Porquê? – Inquiri – Porque é que eu não posso? Em que é que eu sou tão diferente para fosse me terem feito isto?
Achaiah sentou-se num sofá de pele escuro, poeirento e adornado com rasgos de podridão, no entanto a sua posição era majestosa como a de um rei. Ele alçou uma perna de forma masculina e ficou a olhar-me:
-Façamos disto como uma historia. Uma novela barata daqueles que vocês adoram por estes lados.
Os outros dois puseram-se ao seu lado, de pé.
-Como é que começa? Ah, sim… “Era uma vez”, adoro estes inícios. – Sorriu.
Gustavo gemeu e apercebi-me que os seus pulsos estavam em carne viva de tanto que ele se mexia para se libertar.
-Gustavo… - murmurei, a olha-lo.
Os anjos aperceberam-se que eu dei mais atenção a ele do que ao que estavam prestes a contar e ficaram ofendidos com isso.
-Toma atenção, Alannis! - Imperou Achaiah. Eu olhei-o como que obrigada e semicerrei os olhos, vidrada nele por ordem da sua mente. – Não queres saber o que te tenho a dizer?! Não queres saber o porquê de tudo isto?!
Engoli a seco e baixei as pálpebras derrotada.
Haaiah sorriu e acomodou-se, esperando para ouvir o que o seu superior tinha a dizer.
-Pois bem, continuando – retomou, ajustando-se no sofá – Existia um anjo, um majestoso Serafim de três pares de asas que vivia em harmonia junto a Deus, servindo-o de todas as formas. – O Serafim fez uma leve pausa e perdeu o seu olhar, como se tivesse a vivenciar o que dizia, falando de seguida novamente - Ele era apaixonado pelo pai. – concluiu - Tinha-lhe devoção e fazia tudo por ele. Costumávamos dizer que era anjo da boa vontade, pois não havia coisa que não fosse capaz de fazer pelo criador. Mas um dia, esse anjo revoltou-se. – Achaiah levantou a visão até mim e entrelaçou as mãos em frente á boca sem a tapar - Revoltou-se porque viu que os homens tinham mais recompensas do que os anjos que amavam o senhor acima de todas as coisas. Esse anjo, Lúcifer, traiu o pai e caiu, arrastando com ele milhares de anjos que aos poucos foram perdendo a sua fé. Esses anjos ficaram com os espíritos negros e arderam no fogo do inferno tornando-se mais tarde, os demónios mais poderosos do submundo. Uma vez demoníacos, esses anjos tinham a capacidade de interagir com os humanos e leva-los a cometer pecados, crimes e erros fatais. – Ouviu-se um suspiro de cansaço por parte dos três anjos - Foi uma época negra. A época dos Nephilin, ou por outras palavras, o tempo dos anjos caídos. Os seres ainda angelicais esforçavam-se para não cair e lutar pelo espírito santo, mas era difícil. – Os seus olhos brilharam na minha direcção – É aí que começa a tua historia… - Ele sorriu - Havia um anjo, Lassael, que como tantos outros tentou segurar-se ao lado do senhor. ´
Haaiah interrompeu:
-No entanto, tens de imaginar que um anjo não é como uma pessoa. Não tem sexo. Tudo o que nós somos é como uma luz. Um espírito, como aqueles que tu sentes. Temos apenas uma cor, uma luz , uma essência que nos distingue. As nossas lutas com os demónios é como derrotar a escuridão e só alguns tem força suficiente para se sobrepor ás sombras demoníacas. A energia que libertamos é a nossa arma.
Achaiah assentiu e prosseguiu:
-Lassael teve de se juntar á batalha. Podia não ser o anjo mais forte, mas era o mais calmo e um anjo calmo tem muitas mais capacidades do que um forte, pois tem mais determinação nos momentos de stress. O que aconteceu, foi que numa dessas batalhas, um demónio puro, ou seja, um demónio que teve a sua origem no inferno e não num Nephilin, travou uma luta com ele, por um mero acaso do destino. – O contador da historia ajeitou-se no cadeirão e suspirou - Mas há almas e almas. Duas almas, por muito diferentes que sejam, podem atrair-se sem motivo… E foi o que aconteceu. Algo neles fez faísca e os dois acabaram por misturar as suas almas. Claro que aquilo não podia ser chamado de romance, como acontece com os humanos, alem disso os demónios são traiçoeiros. Aquele monstro não tinha nenhuma compaixão por Lassael. O que os fez juntarem-se foi apenas a atracção de espíritos.
-E antes que questiones, fica sabendo que os anjos também acasalam. –Informou Mehiel – Não dão origem a bebés como neste mundo, mas dão origem a novas almas, almas essas que não são criadas por Deus.
O serafim clareou a garganta e cruzou as mãos:
-Quando o Criador soube da traição de Lassael e se preparou para o fazer cair, ele antecipou-se e apoderou-se de um corpo de uma humana adolescente grávida. Foi uma estratégia para guardar o novo espírito. Normalmente só após o nascimento e o baptizado é que uma pessoa tem uma alma digna da palavra de Deus. Mas essa criança não. Mesmo dentro da placenta, teve a sua aura imposta. Normalmente estas criações impuras são eliminadas antes de se desenvolverem, mas uma vez num corpo humano era impossível faze-lo pois seria contra o mandamento de Deus, “Não matarás.”. Essa criança eras tu Alannis.
Virei os rosto inundado de lágrimas e não os encarei. Apenas tentei controlar os soluços, com uma sensação de impotência dentro de mim. Senti-me como uma estrangeira perdida num país que não o seu. Senti que o mundo ia desabar nas minhas costas e esmagar-me por causa de coisas que eu não fiz. Gustavo deu um pontapé na parede de metal fazendo um estrondo. Ele estava tão furioso que os seus olhos estavam avermelhados com lágrimas presas neles:
-E o que é que isso tem?
Achaiah levantou-se e foi até ele:
-Imagina, rapaz. É simples e exacto como matemática!
-Diz, Gustavo, o que achas que isto implica?
Ele rangeu os dentes:
-Eu não entendo!
-então façamos assim - falou a Dominação andando de um lado para o outro á sua frente. Eu apenas os observava – Um anjo mais um demónio é igual a…?
Gustavo semicerrou os olhos:
-Um ser metade anjo, metade demónio? – palpitou confuso.
-Um ser muito poderoso! – Corrigiu - Tem a capacidade de escutar os pensamentos dos anjos e interagir com eles para alem de estar a par das ordens de Deus. A parte demoníaca torna-o imprevisível a qualquer momento e dá-lhe força que adicionada a sentimentos como raiva e vontades impulsivas o torna perigoso.
-Agora imagina o que acontece quando esse ser é também meio humano? - Incentivou a professora, cruzando os braços - Isto é, nasce num corpo humano, logo também tem capacidades humanas e é mais susceptível a ser domado por sentimentos. Se a Alannis não se tivesse enervado tanto as asas não teriam aparecido tão cedo. Ela podia até morrer sem saber que elas existiam. Mas aquela parte demoníaca dela despertou e fê-la ficar tão furiosa que o seu corpo sofreu as consequências. Agora ela parece um anjo perdido no meio dos humanos, mas não é só isso. É também um ser demoníaco que a qualquer momento pode-se descontrolar.
Gustavo negou com a cabeça, baralhado:
-Não, ela não é má… Eu sei, eu sinto…
-Não, tu não sentes isso. O que tu sentes é a mesma atracção que Lassael sentiu por aquele demónio dos infernos.
Senti que estava a ser apunhalado no peito ao ouvir isso. Eu não podia acreditar no que eles estavam a dizer a Gustavo. Eu não suportaria isso. Ele era demasiado importante para mim para se tratar apenas de uma atracção e num momento de stress como aquele eu tinha a certeza que o que me prendia a ele era algo muito mais forte do que uma atracção. Sim, agora eu sabia que tinha estado a fugir da verdade cada vez que ele me tentava dizer o que sentia por mim e arrependia-me profundamente por tê-lo feito.
-Lembra-te Gustavo, a qualquer instante ela vai-se virar contra ti e pode matar-se apenas com um gesto.
Ele não acreditava e abanava a cabeça. As lágrimas caíram por fim pela sua pele:
-Eu amo-a… - murmurou-lhes. Eu ouvi e uma espécie de calor pareceu encher o meu coração, numa espécie de reconforto.
-Não te iludas. – aconselhou Achaiah aproximando-se de um balcão cheio de objectos enferrujados. Pegou num punhal amarelado e aproximou-se de mim. Encolhi-me como reacção - Os demónios são muito atraentes - disse, passando a faca pelo meu maxilar - É por isso que estamos aqui. Vamos livrar-nos desse perigo.
-O quê?... – Vociferei assustada.
-os anjos andam agitados desde que começaste a voar. – Explicou a professora, enrolando o cabelo numa mecha - Deus mandou três, um de cada hierarquia, para resolver este problema e acalmar os ânimos no paraíso. As vozes que tens ouvido são deles. Querem que tu deixes de ser um perigo.
-foi difícil encontrar-te depois de te esconderes e mascarares a tua aura. Felizmente quando regressaste á tua cidade Rogério viu-te.
-Rogério?
-Sim. Ele estava a nosso mando á espera de novidades tuas. Não que quisesse, mas não tinha alternativa uma vez que nós o estávamos a domar. Ah, e a propósito, lamentamos o que aconteceu com a Helen, mas a verdade é que ele não era santo nenhum.
A minha boca estava seca. Continuei a sentir o punhal a roçar na minha pele, amedrontada.
-Aconteceu-te alguma coisa ás asas? – Perguntou Haaiah.
Olhei-o petrificada, questionando-me como é que ele sabia:
-Não. - menti.
-Mentir é pecado.
Cerrei os lábios e afastei as minhas atenções deles.
Foi então que me senti agarrada pelas mãos femininas e o meu tronco ergueu-se. O vestido negro deu-lhe passagem directa para as minhas costas:
-Esta mancha diz o contrário. Foi um vampiro, não foi?
-Como sabem?
-os vampiros ficam loucos com sangue de anjo, especialmente se tiver asas verdadeiras. Alem disso a cor da nódoa não engana. Certamente metade das tuas penas já caíram.
-o quê?! – Questionei chocada.
-mostra-as! – Imperou Achaiah.
-Não. – Recusei.
-Não te atrevas a desafiar-nos! Abre-as imediatamente!
-Não! – Gritei, chorosa.
Os outros dois agarraram os meus braços com firmeza causando-me dores por todo o corpo:
-Teremos de ser drásticos, então!
Gustavo contorceu-se numa tentativa de se soltar:
-Não lhe façam mal! – Berrou, furioso – Ela já disse que não as mostra!
-Cala-te! – Haaiah fez um gesto com a mão direita que lhe prendeu a boca, impedindo-o de proferir fosse o que fosse, como se tivesse fita cola nela.
Eu senti uma espécie de martelada nas minhas costas. Uma dor semelhante àquela que sentia antes de as asas surgirem. A única diferença que me apercebi foi que a martelada era verdadeira. A professora esmurraçou-me as costas e eu gritei de dor. Senti-as rasgar na minha pele com violência e sentia todo o corpo a arder como se estivesse em carne viva dentro de uma banheira com álcool etílico! Gustavo gemeu, com a boca presa e esperneou.
Achaiah aproximou-se dele, ignorando o meu choro agoniado e os meus gemidos intensos, e pegou num pano grosso e escuro. Ergueu-o até aos olhos de Gustavo e antes de lhe tapar a visão com ele, foi especifico:
-É melhor não veres. Não te queremos traumatizado!
Ele fez um esgar que aparentava estar a cerrar os dentes e soltou algumas lágrimas solitárias.
Senti uma dor intensa no peito e levei uma pancada que me fez cair sobre a mesa de frente, ficando com as costas voltadas para cima. Olhei as asas de soslaio e assustei-me. Eles tinham razão. As asas tinham perdido a sua cor alva e angélica e as poucas penas que ainda estavam agarradas á minha pele, ou estavam enegrecidas ou sujas com o sangue que escorria pela minha ferida profunda. Nem sequer havia vestígios do curativo que Gustavo me tinha feito. A imagem era traumatizante sem duvida, porem, eu sabia que Achaiah não se tinha referido ao trauma por causa desse aspecto, o que me inquietou.
A mão de Mehiel deslizou pela minha face, enquanto um olhar sem sentimento me percorreu. Gemi como resposta, esperando alguma piedade, mas nada. Não aconteceu nada. Consegui escutar o som de laminas a chocarem e rasparem uma na outra de forma sinistra, só que não tinha força para procurar a origem do som. Era uma sensação sufocante. Querer ver e estar tudo turbo pelas lágrimas e pela escuridão do lugar. Querer mexer-me e ter o corpo dorido e preso. Querer gritar, soltar toda a minha voz num grito estridente e sentir-me rouca e com medo de abrir a boca para não assustar Gustavo. Só conseguia ouvir os murmúrios dos anjos e novamente aquela sensação de dormência mental atacou-me e fez-me chorar silenciosamente.
Haaiah aproximou-se do meu rosto e olhou-me:
-Não fiques assim. Vai ser rápido.
-O que é que vocês me vão fazer? – Quis saber, num fio de voz.
-Vamos fazer com que deixes de ser uma ameaça.
Funguei, com os o olhar marejado:
-Como?
Ele não respondeu e deu um meio sorriso forçado. Depois levantou-se e aproximou-se Gustavo, enquanto Achaiah, ao que parecia, andava de um lado para o outro com algumas coisas na mão. Pelo canto do olho pareceu-me ver um pote ferrugento, diferentes tipos de faca e punhais e outros instrumentos acabados de afiar. O meu corpo estremeceu e encolhi-me ligeiramente aterrorizada, questionando-me que tipo de pesadelo estava prestes a presenciar.
-Não te preocupes, rapaz… - murmurou Haaiah a Gustavo, que se contorcia sem parar – Os gritos que vais ouvir não são tão ruins como julgas.
O meu coração parou de bater por segundos. Era em ocasiões como aquela que a vida nos passa toda á frente dos olhos, com uma carga nostálgica que não dá para explicar. Fiquei a olhar o vazio, enquanto reproduzia os momentos piores e melhores da minha vida. Agora, melhor do que nunca, lembrava-me de situações do orfanato. Dantes era difícil recordar mas naquele momento a minha mente parecia ficar muito mais limpa. Lembrava-me do sitio. Era feio, paredes beges aborrecidas, sujas pelo clima e descascadas. Lá fora havia um jardim seco, deserto com uns baloiços ferrugentos que chiavam cada vez que tentávamos divertir-nos com eles. Lembrava-me de uma noite, há pouco tempo, em que só os conseguia ouvir na minha cabeça. O interior era menos assustador. Era também simples e sem decoração. O máximo de cor que havia eram os nossos desenhos, muitas vezes feitos com lápis de pouco bico, e haviam alguns autocolantes nas janelas. Havia uma sala de convívio que tinha algumas historias, algumas sem paginas e com as lombadas rasgadas. Eu gostava em particular dos contos de fadas que as educadoras nos contavam na hora da sesta. Uma que me ficava na memoria era a Cinderela, apesar de hoje em dia achar que existem princesas melhores. Adorava brincar com as Barbies e caí no erro de cortar o cabelo á minha preferida. O corte ficou tão mau á primeira que eu tentei remediar a situação e quando me apercebi a boneca estava com a cabeça careca, mas esperancei que o cabelo voltasse a crescer.
Sorri da minha ingenuidade.
Na altura não reflecti sobre isso. As outras meninas ficaram muito zangadas comigo, e para dizer a verdade elas não gostavam muito de mim. Eu sempre fui a mais solitária em relação aos outros. Não tinha um grupo em que me inserisse. De vez em quando brincava com uma ou outra, mas no geral os meus melhores amigos eram os funcionários do orfanato e os visitantes. Talvez por isso eu tenha sido a primeira, depois dos bebés, a ser adoptada. A família era tão diferente do que eu julgava. Todas as crianças tinham medo de ser adoptadas, Tinham medo que os pais fossem maus. Quando a Greta e o Joseph vieram visitar-me pela primeira vez eu achei-os estranhos. Tinham um ar diferente das outras pessoas, peles mais brancas, cabelos e olhos mais claros. Isso devia-se á sua origem. Mas quando Helen surgiu, entre eles, tão querida e simpática apressou-se a brincar comigo e acho que foi esse gesto que os fez optarem por mim. Por algum motivo surgiu logo uma grande cumplicidade entre nós duas. A partir desse momento a minha vida seria tão normal quanto as outras. A primaria era divertida e as pessoas eram mais simpáticas. Ainda me lembro de dizer que um miúdo da quarta classe era o meu namorado quando ele nem sequer sabia que eu “gostava” dele. Deu-me uma tampa, e acredite-se ou não, mesmo sendo na infância, estas coisas magoam. Claro que dois dias depois estava recomposta do meu coração partido.
Depois veio aquela fase da pré-adolescência. Andava imparável. Só queria sair de casa para ir ter com os meus amigos da escola, mas não podia pois ainda era nova e a não ser que alguém me levasse, eu não podia ir á praia com os colegas. Isso era muito frustrante, especialmente nas ferias de verão, que eu odiava pois ficava em casa sem fazer nada a não ser quando Helen me levava com ela aos seus encontros amorosos. Obrigada, obviamente. Finalmente as coisas começaram a compor-se e no nono ano já tinha mais liberdade. O problema é que as minhas amigas não, o que me levava de novo á monotonia. Eu e Cristina éramos as melhores amigas desde a primaria. Ela entrou para o primeiro ano e a disposição das mesas, de modo circular fez-me ficar com uma rapariga entre nós. Essa, falava muito comigo e cochichava mal de Cristina dizendo que ela era uma copiona e burra. Eu olhava-a sem compreender. Parecia tão tímida e calada, nova por ali, tal como eu. Depois comecei a aprender o que significava copiar, e como já sabia ser marota na altura aproveitava os momentos em que a nossa colega cochichava mal dela para copiar as suas contas básicas enquanto assentia tudo o que ela dizia. Não sei como, mas a rapariga não se apercebia. Finalmente, quando cheguei ao terceiro ano comecei a falar com Cristina, apercebendo-me que ela era bem extrovertida, e aí nasceu uma grande amizade. Nunca mais nos largamos desde então. Continuávamos a fazer das nossas e nos momentos de tédio fazíamos o inesperado. Uma vez Cristina, no oitavo ano, escreveu durante uma aula num papel “Eu sou burro”. Encheu o papel de cola, já que não havia fita e pediu á professora para ir afiar o lápis. Ao passar pelo nosso colega da frente deu-lhe uma pancada nas costas a fim de colar o papel, mas correu mal. Estragou-lhe o casaco com tanta cola e a professora quase a expulsou por causa do bilhete. Esta foi uma das muitas trapacices que fizemos. Também tivemos os nossos momentos baixos, como aconteceu quando nos vimos apaixonadas pelo mesmo tipo. Eu, calma como era, e pessimista também, resolvi abrir-lhe caminho, mas ela afastou-se. Mais tarde quando a paixoneta passou voltamos a ser as melhores amigas e só nos separamos quando eu tive de me mudar.
Sorri.
https://www.youtube.com/watch?v=rhp5EnCrRJU
A mudança foi a melhor coisa que me aconteceu. Pode não ter sido a coisa mais engraçada, mas o simples facto de ter conhecido pessoas como Lili, e até mesmo Rebeca foi bom. Gustavo, por outro lado, arrebatada todas as minhas experiencias. Nunca ninguém me tinha feito sentir que eu era mais do que “só mais uma”. A amizade é algo bom, pois temos quem nos apoie e divirta. Mas não se compara á existência de alguém que nos trate acima de todos os outros. Alguém que nos acha mais especiais do que qualquer outra pessoa e que deposite toda a atenção em nós. Isso é muito mais completivo do que ter de dividir atenções por vários amigos e não há sensação melhor do que o friozinho do estômago quando alguém nos beija. Recordei o nosso primeiro beijo. Não, o segundo. Na altura era uma zanga, mas há coisas que não se podem evitar e a forma como aconteceu foi óptima ainda que no final eu tenha saído a discutir.
Olhei-o, inquieto preso á parede de olhos vendados como um Cristo.
Voltei a ficar com a cara encharcada, relembrando os nossos momentos.
Como eu estava enganada. Eu amava-o desde que o conheci. Foi por isso que ele me afectou tanto, porque eu o amava, apesar de nem sequer ponderar sobre isso e não querer ouvi-lo a dizer-mo. Se eu tivesse forças, dizia-lhe naquele momento que eu o adorava mais do que a mim mesma, contudo a garganta estava tão inflamada que eu mal conseguia respirar. Só queria recuar no tempo e dizer-lhe tudo o que sentia. Dizer-lhe, quando ele me conheceu, que eu gostava dele. Dizer-lhe, quando ele me levou a conhecer a vila e me mostrou a cachoeira, que eu o adorava. Dizer-lhe, quando lhe contei a minha historia, que eu não podia viver sem ele. Dizer-lhe, quando estávamos afastados, que eu estava louca por ele. Dizer-lhe, quando ele me beijou, que eu o amava. Dizer-lhe, quando ele foi ter comigo antes de eu partir para a Povoa de Varzim, que eu o queria ao meu lado para sempre. Dizer-lhe, quando ele foi ter comigo, que eu não ia fugir-lhe mais. Dizer-lhe, quando eu senti ciúmes de Letícia, que ele era meu. Dizer-lhe, quando ele me fez um piquenique, que eu estava irrevogavelmente apaixonada por ele. Dizer-lhe sempre e a toda a hora que eu o amava.
Estúpidos anjos que não entendiam os sentimentos dos humanos.
Eu não queria ficar muito mais tempo sem dizer a verdade, mas tinha medo do que se seguia.
Achaiah tinha punhais de diferentes tamanho nas suas mãos.
Perguntei-me se eu ia morrer, afinal, se queriam impedir-me de algo, provavelmente só matando-me.
Apercebi-me também que estivera enganada em relação ao termo de “morte” durante todo este tempo. A morte não era boa. Não acabava com os problemas e nos dava paz. Não. A morte endividava-nos. Impedia-nos de conhecer as coisas boas da vida e deixava-nos com assuntos pendentes, como dizer um simples “Amo-te” a alguém especial e explicar-lhe que se acontecesse algo de mau, queríamos que a vida continuasse. Ao olhar Gustavo tão abatido eu queria dizer-lhe que para ele ficar bem, mas não podia.
As mãos de Haaiah percorreram uma das minhas asas fazendo-me centrar no que se passava no meu físico.
-Não te preocupes, Alannis. Vai ser melhor assim.
E de repente um objecto frio cravou violentamente das minhas costas.
Gritei como se a minha voz fosse uma arma, trazendo o som bem do interior da minha garganta que soava como um guizo estridente.
-Largam-me! – ordenei, aterrorizada, entre soluços.
As lágrimas jorraram pelos meus olhos como se viessem de um mar quente e molharam toda a minha pele e até mesmo o suporte em que eu estava deitada. Esperneei, aflita, coma respiração a travar-se por segundo e o grito a transformar-se em berros agoniados.
Conseguia escutar os gemidos de preocupação de Gustavo, mas nem isso me distraia. Senti as costas molhadas com algo quente e um cheiro de ferrugem misturado com algo salgado invadiu-me as narinas por completo. Era sangue. Muito.
Voltei a sentir outra punhalada em lado da primeira e voltei a gritar entre soluços histéricos e sonoros, com o corpo dormente a arder como se o estivessem a queimar.
As mãos femininas agarraram a minha cabeça com força, como se a fossem arrancar e taparam-me a boca com um pano. Um sabor a veneno chegou-me ás papilas gustativas e aos poucos comecei a ficar com menos força.
Foi dada uma terceira facada no mesmo sitio, mais profunda do que as anteriores e eu chorei, sem força, com a respiração impedida pelo pano.
Encarei Gustavo com os pulsos em carne viva a tentar dizer algo em vão, e aos poucos, no meio de choro incontrolável, comecei a perder a força e os flashes na minha mente não pararam.
Vi uma luz a ofuscar-me os olhos e tentei fugir dela, mas não consegui, ele queria-me engolir de alguma forma.
Gustavo bateu com os pés e chorou sem nada a prender o que sentia. A sua imagem foi a ultima que vi. Podia não ser a melhor, mas era a única que eu queria ver naquele momento, para sentir alguma paz no meu espírito cansado e no meu corpo exausto.
Pestanejei e tossi sangue.
Tudo andou á roda na minha mente, mas já era tarde para me controlar.
Naquele momento, um anjo morreu… E não foi nenhum dos que me torturava.
Nao me batam! ;_;
Bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
NAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!
Tu...tu...tu nao fizeste o que eu estou a pensaaaar, pois nao????!!!
lulumoon, estou neste perciso momento a enviar a Urano e a Neptuno atrás de ti para te castigar XD
Ai ai ai, o que tu me fizeste à Lannis!!!!
É bom que este não seja o fim dela, ouviste?!
Quero mais sim??
Beijinhos**
Tu...tu...tu nao fizeste o que eu estou a pensaaaar, pois nao????!!!
lulumoon, estou neste perciso momento a enviar a Urano e a Neptuno atrás de ti para te castigar XD
Ai ai ai, o que tu me fizeste à Lannis!!!!
É bom que este não seja o fim dela, ouviste?!
Quero mais sim??
Beijinhos**

さよならできずに, 立ち止まったままの僕と一緒に...
WTF?
Então, uma pessoa está um tempo sem vir ao computador e esta faz uma lixeira aqui? Matas pessoas à tua vontade sem que elas tenham feito nad... ai espera... Eu já fiz isso...
E olha que eu chorei! Eu sou extremamente sensível a coisas assim! Tens de começar a enfiar nessa cabeça... cabeçorra... seja lá o que for, que eu fico má quando isso acontece. Muito má mesmo.
O grupo assassino ainda está aberto a novas inscrições? É que eu acho que há alguém que precisa de um desmembramento dos braços para parar de escrever baboseiras.
Lulu, não leves a mal o que disse. Apenas odiei a forma com isto que se está passar... Não estava nada à espera. Apanhou-me de surpresa!
Então, uma pessoa está um tempo sem vir ao computador e esta faz uma lixeira aqui? Matas pessoas à tua vontade sem que elas tenham feito nad... ai espera... Eu já fiz isso...
E olha que eu chorei! Eu sou extremamente sensível a coisas assim! Tens de começar a enfiar nessa cabeça... cabeçorra... seja lá o que for, que eu fico má quando isso acontece. Muito má mesmo.
O grupo assassino ainda está aberto a novas inscrições? É que eu acho que há alguém que precisa de um desmembramento dos braços para parar de escrever baboseiras.
Lulu, não leves a mal o que disse. Apenas odiei a forma com isto que se está passar... Não estava nada à espera. Apanhou-me de surpresa!
| Spoiler: | |
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http://sm-portugal.coolbb.net/fanfics-gerais-f23/fairy-tales-o-incio-t4901.htm
[email protected] -->Meu MSN, adicionem à vontade!
LINDO! 
Foi o capítulo mais lindo de toda a fanifc. Os sentimentos da Lana, quando se lembra de toda a sua vida, de como finalmente admite o seu amor pelo Gustavo. Não algo pequeno, mas sim um sentimento forte que nem os anjos conseguem entender.
A história é lindissima. Já ouvi semelhantes com o Sobrenatural, penso que foi daí que te baseaste, mas gostei também a parte tua desta história.
Não aco que a Lana tenha morrido. Tenha deixado de ser anjo ou demónio, mas não deve ter morrido. Há que lembrar do mandamento "Não matarás". Não imagino os anjos a acabarem com uma vida humana, porque a Lana é humana.
Mas seja como for, ADOREI! Deixaste-me a tremer com a ultima frase (e ainda por cima li ouvindo a música, para aumentar o drama), mas acredito que tudo acabará bem (mesmo com a morte da Lana - que eu duvido - acabarás por arranjar um bom final)
Espero pelo próxmo capítulo

Foi o capítulo mais lindo de toda a fanifc. Os sentimentos da Lana, quando se lembra de toda a sua vida, de como finalmente admite o seu amor pelo Gustavo. Não algo pequeno, mas sim um sentimento forte que nem os anjos conseguem entender.
A história é lindissima. Já ouvi semelhantes com o Sobrenatural, penso que foi daí que te baseaste, mas gostei também a parte tua desta história.
Não aco que a Lana tenha morrido. Tenha deixado de ser anjo ou demónio, mas não deve ter morrido. Há que lembrar do mandamento "Não matarás". Não imagino os anjos a acabarem com uma vida humana, porque a Lana é humana.
Mas seja como for, ADOREI! Deixaste-me a tremer com a ultima frase (e ainda por cima li ouvindo a música, para aumentar o drama), mas acredito que tudo acabará bem (mesmo com a morte da Lana - que eu duvido - acabarás por arranjar um bom final)
Espero pelo próxmo capítulo

Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
Oh meu Deus!!!!
Eu estou tão, tão p*ta da vida! Há séculos que queria responder aos comentários, mas o fórum não os aceitava! Que raiva! estava a ver que nao ia conseguir postar o capitulo ... ;_;
Ok, eu estou surpreendida por haver gente a dizer que chorou no cap anterior. É que eu chorei no que vou postar agora, portanto nao sei que impacto é que este vai ter em vocês!
E atenção! este capitulo tem muita musica pa dar ambiente!
Acabaram-se os mistérios neste capitulo, já que é o ultimo e depois só falta o epilogo! Claro que coisas ficam por explicar no final da historia, mas isso só será esclarecido se eu escrever uma continuaçao.
Agora, capitulo!
Capitulo XXIX - Dor
Gustavo PDV
Há momentos na vida, em que uma pessoa pensa que está num
pesadelo.
O problema é que eu sabia que aquilo não era um, pelo
menos um em que eu estivesse a dormir. Sempre conheci más sensações, mas só
naquele momento descobri qual era a pior sensação do mundo. Não era o ódio. Não
era o ciúme. Nem tampouco era a inveja. Não. As três piores sensações do mundo inscreveram-se
em mim em dois minutos. A terceira era a solidão. Estar sozinho é horrível pois
não há nenhuma forma de se viver, não há energia para continuar a lutar e os
problemas parecem maiores do que aquilo que realmente são. A segunda era o
luto. Sempre achei que essa era a primeira, mas agora via que estava enganado.
A perda é sufocante, leva-nos ao delírio pois no exacto momento em que acontece
não faz sentido. Não se acredita porque não estava planeado e não era suposto
acontecer, e pior ainda, não tem volta a dar. Mas a pior sensação é uma só. É a
impotência. É uma pessoa saber que algo se passa e não poder fazer nada,
especialmente se isso acontecer com alguém importante. Demasiado importante.
Às vezes a vida prega-nos partidas. A primeira partida foi
a morte do meu pai, e apesar de ter sido a segunda pior coisa que me aconteceu,
não foi a partida que mais revirou a minha vida. Conhecer a Lana, sim, foi um
verdadeiro estrondo, pelo simples facto de pela primeira vez ter sentido um
bebé com asas a acertar-me com uma flecha no rabo. Para mim ela não era
assustadora… Era diferente! Não houve explicação para aquilo que senti quando a
vi. Não foi medo, foi receio. Fiquei atrapalhado porque não soube o que fazer,
porque ela mexeu em algo dentro de mim que eu não soube o que foi. Então,
conhecer alguém como ela era energético. Sim, ela parecia meio mórbida no
inicio, mas todo o mistério em que ela se escondia deixava-me mais curioso, com
vontade de estar com ela e descobri-la. Só nunca pensei que o segredo dela
fosse tão perturbante para mim. Quando ela me contou, soube que ela não era
apenas uma amiga que eu queria ajudar, e apesar de ter as minhas suspeitas em
relação aos meus sentimentos, foi Letícia quem me confirmou, quando eu, acidentalmente,
fiquei amigo dela. O seu diagnóstico foi directo. Surgiu logo após eu desabafar
com ela sobre uma discussão com a Lana. Eu não sei o que disse ou que fiz, mas
fosse o que fosse fê-la sorrir timidamente e dizer-me, como se eu fosse uma
criança ingénua, que eu estava completamente apaixonado. A negação é sempre a
primeira fase do choque, mas quando dei por mim não conseguia parar de olhar
para ela, de querer protege-la, de corar quando ela olhava por acidente para
mim, e de ficar estranhamente afectado de cada vez que discutíamos. Sentia-me
morto e frenético quando a via a sorrir para Pedro e quase que queria atira-la
para o pólo norte, comigo, para ela se manter longe dele, nem que passássemos
seis meses a discutir ás escuras! Sim, eu estava louco. Letie tinha razão,
estava louco por ela e a gota de agua caiu quando a Lana me disse que se ia
embora. Sem saber como ou porquê as nossas discussões acabavam sempre por
deixar o clima pesado de uma forma ou de outra e eu não resisti a certa altura.
A partir daí só me deixei deslizar pelo que sentia e esperar o melhor, que chegou
com calma. Agora, o problema instala-se quando uma pessoa se vê tão envolvida
noutra que já não sabe o que fazer na sua ausência, quando a sua dor afecta em
demasia e quando descobre pela primeira vez que “amor” não é uma palavra idiota
para descrever aquilo que adolescentes paranóicas sentem quando as hormonas
andam aos saltitos, e sim algo que depois de encontrado é como ar, não se pode
viver sem.
Os gritos dela tinham parado há já alguns minutos, mas continuavam
a fazer eco na minha mente. Eu não me mexi sequer. Sentia-me em transe, sem
saber o que fazer. A maldita sensação de impotência! Os meus olhos estavam
vendados e eu não sabia o que esperar, só conseguia sentir o pano húmido
encostado a mim.
Quem disse que os homens não choram? Um mentiroso que não
sabia o que era a dor!
A minha boca não expressava nada, não sei como. Parecia
que tinha algo a abafar os meus sons e a prender-me os lábios um contra o outro
com firmeza.
Escutei os passos distintos a regressarem. As três
criaturas tinham saído do local passados uns dois minutos do final dos gritos,
deixando apenas um sitio frio a cheirar a sangue. Cada vez que imaginava o mal
que podiam ter-lhe feito, ficava com tanta raiva que tinha descargas de força e
tentava soltar-me sem sucesso das cordas que me prendiam que nem um Cristo.
-Está na hora de irmos. – Reconheci a voz de Achaiah. Ele
era o líder do trio – O nosso trabalho está completo.
Os seus passos duros percorreram o local até â porta que
se arrastou e uma brisa trespassou-a. Senti o cheiro intensificar-se e uma
rajada de vento provocada fez os seus passos desapareceram por completo. Ele
foi embora.
Os outros dois iam sair também, mas a voz feminina
interrompeu:
-Haaiah… - os dois travaram-se – E ele? – Calculei que se
referisse a mim.
Fez-se uma pausa e depois os passos retomaram:
-Solta-o e vem embora. Não há muito que ele possa fazer
neste momento, e alem disso, este cheiro a sangue vai inquietar muita “Gente”.
Outra rajada de vento refrescou o local. Ficou apenas
Mehiel.
Escutei um suspiro pesado e ela deu um passo, receosa, na
minha direcção:
-Gustavo? – chamou. A sua voz, pela primeira vez parecia
humana, demonstrando uma espécie de medo.
A minha boca ficou solta de repente e eu gemi.
As mãos quentes contornaram os meus pulsos e soltaram-me
por fim. Caí no chão sem força e nem me movi, ofegando. Ela retirou-me a venda
dos olhos, porem eu nem levantei a cara para olha-la.
-Eu não queria que isto lhe acontecesse. – Disse - Não
queria que tivesses ouvido nem sequer teres estado presente.
Gemi e movi-me um mísero milímetro no chão:
-Eu odeio-vos. – Balbuciei.
Não obtive resposta e apertei os dentes com força para não
chorar ou coisa parecida:
-Vocês deram cabo de mim. Tiraram-me as forças para viver
ao tocar-lhe.
A mulher ergueu-se e olhou na direcção de Lana, que eu
ainda não tinha encarado por falta de força.
-Gustavo, nós só cumprimos ordens. Acredita que eu estava
a torcer para que ela ficasse bem e não fosse preciso eles virem. Eu sei muito
bem que ela não ia ser um problema, mas eu não mando. Eu sou apenas um
mensageiro.
-porque é que ela gritou tanto? – Inquiri, enquanto
encarava o vazio – o que é que vocês lhe fizeram?
O local ficou ainda mais silencioso. Mil e uma coisa
passaram-me pela cabeça. Violação, tortura, mutilação, e até mesmo morte.
Desta vez foi impossível não soltar a dor pelo olhar:
-Eu quero saber.
-arrancamos-lhe as asas.
Levantei o meu olhar num reflexo rápido, céptico:
-o quê?
-Tivemos de arranca-las desde a raiz. Assim retiramos-lhe
uma espécie de função. Toda a sua essência angelical desapareceu. Ela já não
ouve os anjos, já não pressente as emoções alheias, já não pode voar. É apenas…
-Eu não acredito… - interrompi.
-Gustavo… Eu não concordo que tenha sido melhor assim, mas
não havia hipótese.
-Como está ela?
-Mal…
Tapei o rosto nos meus braços, enxugando as lágrimas na
minha pele. “Mal” tinha tantos sentidos.
-Gustavo, pelo menos continua humana… Ao contrario de Lassael que voltou a
transformar-se num espírito e tu sabes onde encontra-lo.
Levantei a cabeça, encarando-a, perplexo.
-A cachoeira que a Alannis adora, onde tu e ela passam a
maior parte do tempo juntos, tem lá o espírito de Lassael, a mãe dela. É por
isso que a Alannis gosta de lá estar. Porque é agradável e calmo como o colo de
uma mãe. – Não consegui dizer nada – Gustavo! A Alannis ainda pode ter
esperança, mas depende ti. Não te iludas com aquilo que vais ver. Só precisas
que lhe recuperar os sentidos.
-Eu não tenho forças… - murmurei.
-Eu sei. Já cá estão á cerca de três dias. Só acordaram
hoje e mal isso aconteceu, nós procedemos.
Três dias? Fiquei chocado como o tempo tinha passado e eu
não me lembrava. Não podia imaginar o caos que ia por casa.
-Eu vou-te dar as forças que precisas por agora. Tens de
tirar a Alannis daqui antes que alguns vampiros sintam o cheiro a sangue e o
procurem. Pode já não estar tão quente como deveria, mas é um sangue especial,
portanto não podes perder tempo. Leva-a para um local seguro e reanima-a antes
que seja tarde demais.
-O que quer dizer “tarde demais”?
Ela calou-se e colocou a sua mão na minha testa, ignorando
a minha questão. Senti um calor diferente no corpo. Era como receber vida.
-se descobrem que fiz isto, caio, portanto põe-te atento.
Esta energia não vai durar muito.
Energia, era isso que era. Fazia sentido pois já me sentia
com mais força no corpo, tanta que me comecei a mexer no chão, em gestos lentos
que me fizeram primeiramente erguer o tronco e depois apoiar-me nas pernas
anteriormente moles para conseguir ver onde estava Lana.
Senti o coração murchar quando a vi deitada sobre a mesa
de madeira suja com uma possa de sangue. Estava de barriga para baixo, de olhos
fechados. Nas suas costas a marca de duas facadas fazia-se sobressair num tom vermelho
escuro e o vestido estava levemente rasgado exibindo mais das costas, pintadas
com manchas encarnadas. Por momentos pareceu-me mais branca do que o costume e
isso deixou-se sem reacção. Estava como morta. Completamente imóvel, e nem a
respiração parecia activa. O meu rosto ficou molhado de repente e eu corri até
alcançar o seu corpo gelado:
-Lana! Lana, acorda! – Pedi nervoso.
Ela não se mexeu sequer. Tentei sacudi-la e nada.
-O que é que vocês fizeram?! – Gritei a fim de receber
resposta do arcanjo. Mas nada. Já não estava lá ninguém, apenas nós os dois.
-Lannis… – Virei o seu corpo de frente e dei-lhe pequenas
palmadas na face – Acorda… por favor!
Não sabia ao certo o que fazer. Só conseguia analisar o
seu estado doentio. Afastei-me sem saber o que fazer e dei passos incertos de
um lado para o outro, analisando o local escuro em busca de uma forma de sair
dali.
Lembrei-me do meu telemóvel e pequei nele, trémulo. A
bateria estava no fim, mas eu não sabia mais o que fazer.
Disquei o numero de casa e esperei.
A voz da minha mãe saudou-me em desespero, causando-me de
imediato uma dor infernal na cabeça, acrescentada ás lágrimas que soltava.
-Mãe…? – Disse, em voz rouca.
-Gustavo, Gustavo, onde é que tu estás meu filho? – A sua
voz estava histérica mas detectei que isso se devia ao seu choro contido – Tu
estás bem? Desapareceste há dias! A Lana está contigo?
-sim… - foi a resposta mais seca que algum dia dei, mas
não tinha mais nada que pudesse dizer naquele momento. Tudo o resto não podia
ser dito por telemóvel.
-onde é que vocês estão? Gustavo, por favor voltem, nós
estamos todos desesperados á vossa procura!
-Posso ir para casa? - Desta vez ela entendeu a minha voz
de choro, não tivesse eu fungado enquanto coçava os olhos com o punho.
-Gustavo… Que pergunta é essa? O… o que aconteceu?
-A Diana está em casa? Preciso de alguém especializado em
saúde…
-Ai… - Senti o arfar da minha mãe do outro lado da linha.
Se eu não fosse rápido ela ainda tinha uma ataque – Gustavo estás a deixar-me
preocupada. Onde é que vocês estão?
-Nós vamos voltar já…
O telemóvel desligou-se, como se soubesse que eu já tinha
dito o suficiente. Voltei a olhar para Lana e acariciei-lhe o rosto. Os lábios
estavam pintados de vermelho, mas não era batom, infelizmente.
Peguei-a ao colo com cuidado. A força renovada era a minha
única forma de sobrevivência.
-O pior já passou, Lana… - murmurei – Vai tudo voltar ao
normal… Eu prometo, meu amor…
Caminhei até ao portão de metal e sai para fora. Estava
escuro no exterior. Era noite. Algumas estrelas pintavam o céu e nem sequer
havia lua para iluminar o local. Ao que parecia tínhamos estado num barracão
abandonado que eu não conhecia, mas tinha a certeza que estava na minha cidade,
mais perto de casa do que se poderia julgar.
Entrei pela floresta dentro. Por algum lugar tinha de
começar e a energia tinha de ser aproveitada. Caminhei pela escuridão, ouvindo
mochos e tendo cuidado para não tropeçar. Lana parecia mais leve do que era
habitual, talvez pela energia que eu tinha recebido. A minha única preocupação
era levava-la sã até minha casa enquanto ainda sentia o seu coração a soar
lento.
Caminhei e caminhei sem rumo. Eu só queria encontrar uma
estrada, mas parecia que estava a andar para o lado errado. Parei e olhei á
volta. Optei por mudar a direcção dos meus passos e caminhei novamente. Aos
poucos o meu corpo começou a tremer, conforme a humidade ia aumentando. Estava
uma noite gélida e tudo o que eu tinha sobre o corpo não era o suficiente,
muito menos a roupa de Lana que estava rasgada. Aconcheguei-a mais contra o meu
peito tentando dar algum calor àquela pele fria. Dei-lhe um beijo na testa, com
ardor nos olhos e tentei ser rápido, porem, a velocidade foi traiçoeira e eu
caí sobre a terra molhada coberta por um pouco de erva. Para piorar a situação
caí por cima da Lana, e provavelmente tinha feito mais alguma ferida no seu
corpo. Libertei uma lágrima e abracei-a com força:
-desculpa… - Sussurrei ao seu ouvido, para logo a minha
voz ser escondida por soluços lacrimosos – se eu te magoo, é porque eu te amo…
- Não sei porque continuava a falar. Provavelmente ela nem me ouvia.
Tentei levantar-me e traze-la comigo. O seu ombro estava
agora esfarrapado, mostrando um pouco de sangue.
Tive vontade de morrer. Olhei o céu deserto e cerrei os
dentes. Por momentos pareceu-me escutar algo, mas de certeza que eram animais.
Atirei uma pedra contra uma arvore, irritado:
-Será que alguém me pode dizer como sair daqui?! – Gritei
para o céu, fazendo eco por toda a mata, conformado em não ter resposta.
Mas fui surpreendido.
-Vai pela tua direita e corre. –Vi um vulto atrás de um
arvore. Os braços estavam colados estrategicamente á frente do nariz, pelo que
a voz saiu estranha mas mesmo assim familiar - Vai aparecer um caminho de terra
batida e apenas tens de ir na direcção da luz. Vais chegar até perto da escola.
-Quem está aí? – Interroguei, assustado.
-Por favor, Gustavo. Vai-te embora o mais depressa que
conseguires! Eu não aguento mais esse cheiro.
As sombras do seu corpo afastaram-se rápidas como a luz.
Levantei-me preocupado e ergui Lana no meu colo. Fiz o que me mandara a voz e
andei em marcha rápida até alcançar o suposto caminho que estava mais perto do
que eu achava. Ao longe via-se luz de algumas casas e eu não perdi tempo.
Quando reconheci o caminho, foi só seguir até perto de minha casa. Esperancei
que algum carro passasse, mas aquela estrada era muito monótona, especialmente
se reflectíssemos sobre a cidade em questão. Cambaleei pela orla do caminho e
fui avançando. Provavelmente ia demorar mais de uma hora a chegar a casa, tendo
em conta a velocidade a que ia.
Estava certo. Tinha passado meia hora e eu ainda não ia a
meio do caminho. Já estava a ficar sem energia outra vez. Por isso tive de
parar. Pousei a Lana no chão, com o tronco erguido colado a um muro. Sentei-me
ao seu lado e arfei, cansado. Olhei-a com cautela. Não havia nenhum movimento,
nem o da respiração. Isso deixava-me aflito.
Foi então que avistei um carro negro a vir na direcção
oposta a nós, devagar. Nem queria acreditar. Levantei-me e esbracejei. Alex
parou numa travagem brusca e saiu do carro, revoltado:
-Miúdo, finalmente! – Exclamou, nervoso - Onde tens
andado?!
-Alex… - Suspirei – Por favor, leva-nos para casa!
Ele olhou para o chão e viu Lana. Abriu a boca ao ver
pingos de sangue por toda a sua pele e olhou-me assustado:
-O que…?
Não respondi e peguei-a ao colo. O seu corpo estava
completamente “morto”.
Alex gaguejou e abriu a porta de trás do carro. Eu entrei
para dentro e deitei-a com a cabeça nas minhas pernas. Encostei a minha nuca ao
banco macio e fechei os olhos.
O meu irmão entrou a seguir e olhou para trás:
-o que é que aconteceu? A mãe está em pânico há dias. A
Helen está hospedada lá em casa em completo desespero, acompanhada pela mãe e
pelo pai! E a Letícia e Liliana foram as únicas que nos deram uma informação
decente, apesar de ainda ninguém ter entendido o que se passou!
-Nem eu ainda não entendi o que se passou… - Vozeei – Mas
por favor leva-nos para casa antes que seja tarde demais. Eu preciso da ajuda
da Diana.
Ele ficou boquiaberto e mais depressa do que devia
levou-nos para casa. Quando lá chegamos abri os olhos e ele abriu a porta. A
casa estava com as luzes lá dentro todas ligadas.
Saí para fora do veiculo e voltei a pegar na minha amada
ao colo. Aconcheguei-a contra o meu corpo e caminhei até á porta principal.
Alex, abriu e eu entrei directamente na sala, onde estava tanta luminosidade
que eu tive de cerrar os olhos com força e pestanejar para me habituar a ela.
-Oh meu Deus! – Helen levantou-se do sofá onde estava e só
aí me apercebi de como a sala estava cheia.
-Não me fales em Deus neste momento. – Sem quase me
aperceber dei um passo de recua quando ela tentou tocar na Lana, lavada em
lágrimas.
-Gustavo, meu filho, onde estiveste? – A minha mãe tentou
alcançar-me, chorosa, mas eu não consegui dizer nada e mantive o olhar sério e
sem reacção.
-o que aconteceu com a Alannis? – Perguntou Greta,
acompanhada por um homem, mais alto do que ela, com um bigode peculiar e cabelo
cinzento, portador de uns óculos leves que lhe escondiam a íris esverdeada.
Vestiam-se ambos de maneira elegante.
Não respondi, e tentei passar por eles. O sofá já estava
livre, visto todos estarem levantados e eu deitei-a com cuidado sobre ele.
Passei as minhas mãos na sua face e apalpei-lhe as bochechas. Estavam muito
frias e rijas:
-Lana… - Chamei, baixinho – Lana, já podes acordar,
estamos em casa…
Ela nem se mexeu e eu inspirei algum ar, nervoso.
Helen caminhou até nós:
-Por favor, conta-me o que aconteceu, Gustavo! – Ela já
soluçava.
Os meus olhos ardiam e eu passei a mão na minha cara
deslizando-a até chegar ao meu cabelo. Nesse momento apercebi-me do estado dos
meus pulsos. Estavam em ferida de tanto que as cordas roçaram neles.
-Eu odeio anjos… - Murmurei, num tom mais débil.
Ela encarou-me sem saber ao que eu me referia e eu nada
mais lhe disse. Enterrei a minha cabeça junto ao pescoço de Lana e mantive-me
ajoelhado junto ao seu corpo. Todos os outros faziam perguntas mas eu não as
ouvia. De vez em quando chamava-a para tentar acorda-la.
-A Diana? – perguntei de repente.
-Foi adormecer a Su. – Respondeu alguém.
-Precisamos dela.
-Eu vou chama-la! – Prontificou Alex.
Alterei a posição da Alannis e fi-la ficar de costas.
Todos abriram a boca ao ver o seu estado. E eu também. Com tanta luz era
impossível não ver tudo. Os golpes ainda estavam longe de cicatrizar, contudo
já não vertiam sangue. As costas estavam sujas com terra e com sangue, brancas
e com os ossos salientes como se ela tivesse perdido quilos em apenas três
dias.
-Filhos da (palavra feia!)! – Berrei deixando a testa cair sobre a
duas feridas.
Não me importei com o constrangimento que provoquei no
geral e prossegui:
-Eu juro, Lana, que quando tu estiveres de volta ao
normal, eu vou encontrar aquelas criaturas e dar cabo delas!
-Gustavo, quem vos fez isso? – A minha mãe agarrou-me
pelos ombros, de olhos avermelhados.
-Anjos… - Murmurei com o lábio tremulo. Ela ficou a
olhar-me sem saber o que dizer. Até que reagiu:
-Porquê?
-Porque são monstros. Idiotas! – Desta vez um fio de agua
salgada deslizou-me pela face – Aqueles desgraçados. Estúpidos… - Voltei a
deixar cair a cara no corpo de Lana – Porque é que eles achavam que tu eras perigosa?!
Tu és um anjo! E eu sei que te amo, porque é que não aceitam isso? Porque é que
te fizeram isto a ti?
Levantei-me e peguei no primeiro objecto que vi.
Estatelei-o contra a parede, furioso:
-Eles arrancaram-lhe as asas!
-Eles o quê? – O homem que acompanhava Greta questionou,
baralhado. O seu sotaque era mais forte do que o de Greta.
Helen respirou com descontrolo e abanou a mão para tentar
controlar o oxigénio que ingeria:
-Não… isso não… Como?!
Tapei a cara nas mãos e solucei:
-Ela já não é um
anjo! – Gritei.
-Um anjo?!
Todos se entreolharam. Provavelmente achando que eu estava
louco e que as minhas palavras não faziam sentido. Só Helen, naquele grupo, me
entendia, e a minha mãe apenas desconfiava, mas continuava sem acreditar.
Senti as forças acabarem de repente e encostei-me á
parede, cansado:
-Mãe, preciso de comer qualquer coisa…
Ela nem esperou por mais nada. Levantou-se a correr e foi
á cozinha. Foi a vez de Helen ter a palavra:
-Gustavo… Eu quero que tu me contes tudo… Não me importa
que tenha demasiada gente aqui, eu quero saber ao certo o que aconteceu.
Mas antes de eu dizer algo, Diana irrompeu pela porta:
-Gustavo! – Ela abraçou-me com força, sem me dar tempo de
eu escapar e depois olhou para mim, com as mãos no meu rosto – Tu estás bem?
-Di, eu preciso que a reanimes, e que lhe faças um
curativo!
Ela olhou para o sofá, onde Lana repousava com uma cara
serena, de costas para cima.
Diana abriu a boca, perplexa com os eu estado e
encarou-me:
-Gustavo, ela precisa de um medico!
-Não posso leva-la ao medico agora, já perdi muito tempo!
Mehiel disse que eu tinha de ser rápido porque ela já perdeu muito sangue! – Helen
gemeu - Faz qualquer coisa, eu sei que tu consegues!
Ela prendeu a respiração e aproximou-se de Lana. Primeiro
sentiu a sua temperatura e fez cara feia. Depois analisou os golpes profundos e
respirou fundo, assustada com a visão. A cara que ela fez soou-me a “Isto é
muito mau.”
A minha mãe chegou com algo nas mãos para mim. Nem vi o
que era e ingeri. Logo depois fechei os olhos cansado, ainda encostado á
parede, coberto por flashbacks dos melhores momentos que passei com Lana.
Adorava todas a noites que passávamos juntos. As coisas que descobria sobre
ela. Aquele jeito infantil que ela mostrava de vez em quando e os momentos em
que ela e eu tínhamos minutos de ciúmes um do outro. As nossas escapadelas
românticas na escola, quando os outros estavam bastante distraídos para nos
ver. O seu cheiro era tão bom, os beijos, os abraços, e quando ela mostrava
aquelas asas esplendorosas e me sorria matreira, tentava fugir de mim e eu
acabava sempre por apanha-la e cobri-la de beijos, louco por ela. Não podia
imaginar vida sem ela. Não fazia sentido, era vazia. Eu só queria que ela
abrisse os olhos e saltasse para os meus braços, com aqueles sorriso lindo desenhado
no rosto. Será que era pedir de mais?
https://www.youtube.com/watch?v=vrPKiCCo4Mo
Escutei um gemido choroso novo. Foi Diana quem o soltou e
eu abri os olhos assustado. Helen estava ao seu lado, ajoelhada, e chorava
também, com o rosto perto da cabeça de Lana. Greta e o acompanhante
aproximaram-se, e agarraram as mãos dela. A minha mãe levantou Diana e
abraçou-a. Murmurou algo e depois Alex juntou-se a elas. Senti uma pontada no
peito, com o coração cada vez mais acelerado e não tive coragem para me mexer.
Helen abanava a cabeça, e murmurava “Não!” enquanto Greta a abraçava ao seu
lado e tentava manter a suas lágrimas presas. O pai dela era quem estava mais
calado, mas mesmo assim parecia triste. Murmurou algo e agarrou a mão de Lana,
dando-lhe um beijo. Enquanto isso, a minha mãe lacrimejava e tentava dizer algo
a Diana que não a queria ouvir, e Alex, também fragilizado, tentava ajudar a
nossa mãe a convencer a minha irmã mais velha a fazer algo. Helen levantou-se
de repente, e saiu da sala para o exterior da casa, com a face toda molhada por
agua salgada. Diana, limpou o rosto e afastou-se dos outros dois, para vir na
minha direcção. Ela cruzou os braços como se tivesse frio e baixou o olhar:
-Gustavo… Eu não posso fazer nada pela Lana… - Suspirou,
com a voz melancólica.
Senti um ardor no estômago e descolei-me da parede, com os
lábios entreabertos, tentando acalmar o frio que me provocava tremuras no
corpo:
-Não, Di, tu consegues, eu sei! Talvez se lhe deres uns
pontos nos golpes e…
-Não! – Ela soluçou – Eu não posso! Nem um medico pode!
A minha boca ficou sem saliva de repente, com o coração
acelerado:
-Porquê? – A minha voz saiu fraca e eu fixei-a, assustado.
-Gustavo… Ela está… - Ela soluçou e colocou os dedos
polegar e indicador sobre os olhos, esfregando as pálpebras que interrompiam o
derrame de lágrimas.
-O quê?
-Ela já não… Já é tarde demais, Gustavo…!
A minha respiração estagnou por segundos e eu fiquei a
olha-la, chocado e incrédulo. Quando finalmente reagi, engoli a seco:
-Não… Mehiel disse que não era o que parecia. Que eu só
tinha de reanima-la enquanto tinha tempo…!
-Seja o que for que te tenham dito, era mentira, Gustavo!
– Ela soluçou e prendeu a boca com as mãos – O coração da Lana já não bate há
algum tempo, mas tu não te tinhas apercebido, assim como a respiração que
estagnou há muito… O corpo está gelado… eu não queria ser eu a dizer-te isto,
mas não posso fazer nada por vocês.
-Não… - Abanei a cabeça. A respiração começou a sair
descontrolada e apressada – Ela está só desmaiada! Pega em… Em vinagre e fá-la
sentir o cheiro ou… ou mete-lhe sal na boca! Ela está viva, eu sei que sim!
Diana cerrou os dentes furiosa:
-Não! – Berrou – Tu não entendes! É tarde demais, Gustavo!
“Acabou.”
A minha reacção foi indecifrável. O olhar perdido,
marejado, a respiração presa, o corpo estático, e a voz extinta. Os primeiros
movimentos surgiram na minha cabeça, que balançou levemente, tentando reagir. A
minha atenção dirigiu-se para o sofá onde Lana repousava.
-Não… - Senti uma descarga de força no meu corpo e corri
até ela. Greta afastou-se do seu lado, dando-me espaço e eu segurei-lhe a face:
-Lana, acorda! Acorda! – Implorei – Prova á Diana que ela
está enganada! Eu sei que está!
Sacudi-lhe os ombros enquanto tentava domar os meus lábios
que tremiam:
-Alannis…! Por favor! – Os meus olhos verteram e eu
funguei, sem controlo – Acorda, não me faças isto!
Beijei-lhe os lábios de repente. Estavam gelados e não
tinham o toque macio que os caracterizava. Senti uma pontada no peito e afastei
os seus cabelos castanhos do rosto:
-Lana…? - murmurei - Lala…? Eu sei que tu estás viva…! – A
minha voz saiu tremula - Tu prometeste que ias lutar pela tua vida, por muito
que a morte te parecesse mais fácil…! – Voltei a beija-la, á espera de reacção e
depois olhei-a – Não me faças isto! Eu amo-te… - Deixei a minha cabeça cair no
seu peito e solucei – Eu amo-te, bolas! Amo-te mais do que a mim mesmo, porque
é que tu não cumpres a tua promessa?! – Levantei novamente o tronco e agarrei-lhe
o rosto – Ouviste?! Acorda! – Cerrei os dentes furioso e com medo de a magoar,
dei-lhe um estalo na face que fez a sua cara virar para o lado oposto com a
força que exerci sobre o seu rosto.
Greta saiu para o exterior com o seu parceiro lavada em
lágrimas. Pareceu-me até escutar Alex a chorar com Diana e a minha mãe e depois
a porta do corredor bateu com força, após algum sair de lá.
-Gustavo… - As mãos quentes mas tremulas da minha mãe
tocaram-me os ombros – Não faças isso…
Sacudi-me, e escondi a cara chorosa junto ao corpo de
Lana, passando as minhas mãos por ele em busca de vida.
Um dia alguém me tinha dito que era melhor sentir dor do
que não sentir nada. Essa pessoa estava enganada. O quanto eu desejava não
sentir nada naquele momento. A dor que sentira na morte do meu pai era a quarta
parte daquilo que eu sentia naquele instante. Não conseguia, nem podia,
imaginar o que seria da minha vida dali para a frente, sem poder vê-la todos os
dias, sem poder toca-la e sentir o seu corpo junto ao meu em mais uma noite. Eu
não podia viver sem ela. Eu preferia morrer!
-Lana… - Chamei pela ultima vez, sem ter resposta. Olhei-a
e afaguei-lhe o rosto sereno – Lembraste quando brincamos de sermos o Romeu e a
Julieta? –Falei, enxugando as lágrimas que me mantinham molhado nas minhas
mãos, mas logo o meu rosto voltou a ser coberto por rios salgados e eu prendi a
respiração, tentando escapar a mais soluços – Eu… Eu agora entendo que não
estávamos assim tão… Tão longe de sermos eles… Agora já sei porque é que o
Romeu se envenenou… Eu tenho vontade de fazer o mesmo neste preciso momento,
porque eu não quero viver sem a pessoa que mais amo no mundo… Não é justo…
A minha mãe tentou puxar-me da beira de Lana ao ouvir
isso, mas eu fiz força para ela me soltar e prossegui:
-Tu vais acordar como ela acordou depois de algumas horas?
– Inquiri sem parar de lacrimejar.
Não vi nenhuma reacção. Nem um suspiro, nem um batimento
cardíaco, nem um movimento. Continuava imóvel e sem vida, branca e coberta de
manchas de sangue.
-Lana… porquê…?
Fiquei a olha-la, mas a justificação não chegou.
https://www.youtube.com/watch?v=nalOXRHotGg
Levantei-me desnorteado, coberto por gotas daquele liquido
quente irritante e empurrei Diana para poder passar para o corredor. Entrei no
meu quarto e abri a primeira gaveta da mesinha de cabeceira, retirando de lá um
caderno grosso de capa preta e paginas amareladas, com alguns bilhetes presos
no meio. Pu-lo debaixo do meu braço e caminhei para a cozinha de rompante.
Procurei no chaveiro as chaves da minha mota e agarrei-as com raiva. A minha
mãe agarrou-me antes de eu sair porta fora:
-Gustavo, não faças isso, estás demasiado desnorteado, eu
não te vou deixar!
-Larga-me! – Ordenei, puxando o braço das suas mãos.
-Gustavo, tu estás proibido de…!
-Deixa-me em paz! – Gritei - Pára de querer que eu sofra! Já
perdi o meu pai e a Lana, não quero que me tires tudo o que me faz minimamente
feliz!
Ela soltou-me, apreensiva:
-Mas filho…!
-Eu não quero saber! – Funguei – Aconteça o que acontecer
não me interessa! Eu já perdi demasiado! Queres que faça o quê?! Que fique aqui
á espera que morra a Su?!
Ela tapou a boca com a mão, chocada e lacrimosa.
Senti-me mal por ter dito aquilo, todavia não o lamentei.
Saí porta fora e fui na direcção da garagem, onde liguei a mota e saí apressado
de casa. A noite estava escura e as sombras das arvores passavam por mim com
velocidade, contudo, nem o vento que me atingia o rosto era capaz de secar o
derrame de lágrimas. As casas já não tinham luz, o rio estava calmo e sem vida,
e, olhasse para onde olhasse, eu não sabia para onde ir. Parei na ponte que fazia
caminho para chegar á vila e desmontei a mota. Como não havia transito não
havia problema em eu estar ali. Pousei o caderno no muro de segurança e
curvei-me para ver o rio. Não se via nada, só escuridão e profundidade como um
posso sem fundo. Apoiei os meus cotovelos no muro e esfreguei a minhas cara nas
mãos. Queria travar o choro, mas tudo parecia ser em vão, queria gritar ao céu
que a trouxesse de volta, mas não conseguia. Abri o caderno e fui folheando-o até
chegar a pouco antes do meio para reler algumas palavras na esperança de me
sentir melhor e sorrir, mas parecia que as alegrias passadas só traziam mais
tristeza. Eu tinha apontado tudo. Tudo o que tinha dito, tudo o que tinha
presenciado e tudo o que tinha ouvido. As palavras da Lana também estavam lá
expressas e os momentos contados ao detalhe. Olhando para aquele caderno, não
queria aceitar o que me estava a acontecer. Ainda havia tanto para fazer, tanto
para explorar, tanto para presenciar e dizer. Aquelas paginas estavam
destinadas a contarem mais do que aquelas vagas recordações, e eu não podia
crer que era o fim, que teria de escrever um “The end”.
Tapei a boca com a mão , ofegante e voltei a montar o meu
transporte. Já sabia onde queria ir. Um sitio que partilhávamos.
Tentei ser rápido e passar pelas ruas curvas com cautela
para chegar bem ao meu destino. Fiz a descida do costume e quando parei em
frente a uma casa nostálgica a partir daquela noite, abandonei a mota e
caminhei até á cachoeira. Quando lá cheguei encostei-me a uma pedra maior do
que eu, lisa. Olhei o reflexo dos pirilampos na agua que corria com agitação e
limpei o rosto.
Humedeci o lábios e olhei o céu. Depois vislumbrei as
arvores, as rochas e a agua novamente.
-Não faz sentido sozinho… - assumi a mim mesmo. Toda a
magia do local tinha desaparecido sem Lannis ali comigo.
Tentei trepar a uma rocha para chegar àquela em que nos
costumávamos deitar, mas um passo em falso e eu caí dentro da agua gelada.
Senti que me estavam a apunhalar por todos os lados e tentei regressar á tona.
O meu corpo tremia, fazendo-me abraçar os meus próprios braços sem raciocinar
direito. Mehiel havia referido que o espírito de Lassael estava preso naquele
sitio, mas eu olhasse para onde olhasse não conseguia entender de que forma
isso era possível. Senti uma gota cair sobre a minha face e desta vez não eram
lágrimas. Eram gotas de chuva que de certa forma me lavavam o espírito, sem,
contudo, limpar a raiva que me invadia. Sentia-me preso.
-Cobarde…! – Acusei para o céu, em busca de atingir
Lassael com as minhas palavras - Achas bem o que aconteceu á tua filha?! Que
tipo de mãe deixa que isto aconteça?! Responde! – Dei um soco numa rocha, já
molhada pela chuva e prossegui - Se sabias que ia terminar assim, porque não
deixaste o espírito dela ser capturado antes?! Foi para me fazer sofrer?! Eu
tenho a certeza que vivia melhor sem esta dor! Preferia viver a vida toda no
tédio que vivia, do que conhecer a Lana para depois a perder! – Encostei a
cabeça á pedra e o choro regressou, enquanto eu lhe batia inutilmente - Não é
justo!
Virei costas á rocha e ainda encostado a ela olhei o céu.
Toda a minha mente estava confusa, mas nenhuma confusão podia explicar a dor
que eu sentia.
Afastei-me por entre algumas rochas e subi para cima de uma,
ligeiramente mais pequena do que eu. Deitei-me sobre ela, de lado, com as mãos
a agarrar os joelhos, enquanto a chuva aliviava. As minhas lágrimas começaram a
secar com as recordações que me preenchiam a memoria, e que,
surpreendentemente, me faziam sorrir, com a visão nublada.
Aos poucos tudo voltou a ser perfeito… Em sonhos.
***
Eu estou tão, tão p*ta da vida! Há séculos que queria responder aos comentários, mas o fórum não os aceitava! Que raiva! estava a ver que nao ia conseguir postar o capitulo ... ;_;
Ok, eu estou surpreendida por haver gente a dizer que chorou no cap anterior. É que eu chorei no que vou postar agora, portanto nao sei que impacto é que este vai ter em vocês!

E atenção! este capitulo tem muita musica pa dar ambiente!
Acabaram-se os mistérios neste capitulo, já que é o ultimo e depois só falta o epilogo! Claro que coisas ficam por explicar no final da historia, mas isso só será esclarecido se eu escrever uma continuaçao.
Agora, capitulo!

Capitulo XXIX - Dor
Gustavo PDV
Há momentos na vida, em que uma pessoa pensa que está num
pesadelo.
O problema é que eu sabia que aquilo não era um, pelo
menos um em que eu estivesse a dormir. Sempre conheci más sensações, mas só
naquele momento descobri qual era a pior sensação do mundo. Não era o ódio. Não
era o ciúme. Nem tampouco era a inveja. Não. As três piores sensações do mundo inscreveram-se
em mim em dois minutos. A terceira era a solidão. Estar sozinho é horrível pois
não há nenhuma forma de se viver, não há energia para continuar a lutar e os
problemas parecem maiores do que aquilo que realmente são. A segunda era o
luto. Sempre achei que essa era a primeira, mas agora via que estava enganado.
A perda é sufocante, leva-nos ao delírio pois no exacto momento em que acontece
não faz sentido. Não se acredita porque não estava planeado e não era suposto
acontecer, e pior ainda, não tem volta a dar. Mas a pior sensação é uma só. É a
impotência. É uma pessoa saber que algo se passa e não poder fazer nada,
especialmente se isso acontecer com alguém importante. Demasiado importante.
Às vezes a vida prega-nos partidas. A primeira partida foi
a morte do meu pai, e apesar de ter sido a segunda pior coisa que me aconteceu,
não foi a partida que mais revirou a minha vida. Conhecer a Lana, sim, foi um
verdadeiro estrondo, pelo simples facto de pela primeira vez ter sentido um
bebé com asas a acertar-me com uma flecha no rabo. Para mim ela não era
assustadora… Era diferente! Não houve explicação para aquilo que senti quando a
vi. Não foi medo, foi receio. Fiquei atrapalhado porque não soube o que fazer,
porque ela mexeu em algo dentro de mim que eu não soube o que foi. Então,
conhecer alguém como ela era energético. Sim, ela parecia meio mórbida no
inicio, mas todo o mistério em que ela se escondia deixava-me mais curioso, com
vontade de estar com ela e descobri-la. Só nunca pensei que o segredo dela
fosse tão perturbante para mim. Quando ela me contou, soube que ela não era
apenas uma amiga que eu queria ajudar, e apesar de ter as minhas suspeitas em
relação aos meus sentimentos, foi Letícia quem me confirmou, quando eu, acidentalmente,
fiquei amigo dela. O seu diagnóstico foi directo. Surgiu logo após eu desabafar
com ela sobre uma discussão com a Lana. Eu não sei o que disse ou que fiz, mas
fosse o que fosse fê-la sorrir timidamente e dizer-me, como se eu fosse uma
criança ingénua, que eu estava completamente apaixonado. A negação é sempre a
primeira fase do choque, mas quando dei por mim não conseguia parar de olhar
para ela, de querer protege-la, de corar quando ela olhava por acidente para
mim, e de ficar estranhamente afectado de cada vez que discutíamos. Sentia-me
morto e frenético quando a via a sorrir para Pedro e quase que queria atira-la
para o pólo norte, comigo, para ela se manter longe dele, nem que passássemos
seis meses a discutir ás escuras! Sim, eu estava louco. Letie tinha razão,
estava louco por ela e a gota de agua caiu quando a Lana me disse que se ia
embora. Sem saber como ou porquê as nossas discussões acabavam sempre por
deixar o clima pesado de uma forma ou de outra e eu não resisti a certa altura.
A partir daí só me deixei deslizar pelo que sentia e esperar o melhor, que chegou
com calma. Agora, o problema instala-se quando uma pessoa se vê tão envolvida
noutra que já não sabe o que fazer na sua ausência, quando a sua dor afecta em
demasia e quando descobre pela primeira vez que “amor” não é uma palavra idiota
para descrever aquilo que adolescentes paranóicas sentem quando as hormonas
andam aos saltitos, e sim algo que depois de encontrado é como ar, não se pode
viver sem.
Os gritos dela tinham parado há já alguns minutos, mas continuavam
a fazer eco na minha mente. Eu não me mexi sequer. Sentia-me em transe, sem
saber o que fazer. A maldita sensação de impotência! Os meus olhos estavam
vendados e eu não sabia o que esperar, só conseguia sentir o pano húmido
encostado a mim.
Quem disse que os homens não choram? Um mentiroso que não
sabia o que era a dor!
A minha boca não expressava nada, não sei como. Parecia
que tinha algo a abafar os meus sons e a prender-me os lábios um contra o outro
com firmeza.
Escutei os passos distintos a regressarem. As três
criaturas tinham saído do local passados uns dois minutos do final dos gritos,
deixando apenas um sitio frio a cheirar a sangue. Cada vez que imaginava o mal
que podiam ter-lhe feito, ficava com tanta raiva que tinha descargas de força e
tentava soltar-me sem sucesso das cordas que me prendiam que nem um Cristo.
-Está na hora de irmos. – Reconheci a voz de Achaiah. Ele
era o líder do trio – O nosso trabalho está completo.
Os seus passos duros percorreram o local até â porta que
se arrastou e uma brisa trespassou-a. Senti o cheiro intensificar-se e uma
rajada de vento provocada fez os seus passos desapareceram por completo. Ele
foi embora.
Os outros dois iam sair também, mas a voz feminina
interrompeu:
-Haaiah… - os dois travaram-se – E ele? – Calculei que se
referisse a mim.
Fez-se uma pausa e depois os passos retomaram:
-Solta-o e vem embora. Não há muito que ele possa fazer
neste momento, e alem disso, este cheiro a sangue vai inquietar muita “Gente”.
Outra rajada de vento refrescou o local. Ficou apenas
Mehiel.
Escutei um suspiro pesado e ela deu um passo, receosa, na
minha direcção:
-Gustavo? – chamou. A sua voz, pela primeira vez parecia
humana, demonstrando uma espécie de medo.
A minha boca ficou solta de repente e eu gemi.
As mãos quentes contornaram os meus pulsos e soltaram-me
por fim. Caí no chão sem força e nem me movi, ofegando. Ela retirou-me a venda
dos olhos, porem eu nem levantei a cara para olha-la.
-Eu não queria que isto lhe acontecesse. – Disse - Não
queria que tivesses ouvido nem sequer teres estado presente.
Gemi e movi-me um mísero milímetro no chão:
-Eu odeio-vos. – Balbuciei.
Não obtive resposta e apertei os dentes com força para não
chorar ou coisa parecida:
-Vocês deram cabo de mim. Tiraram-me as forças para viver
ao tocar-lhe.
A mulher ergueu-se e olhou na direcção de Lana, que eu
ainda não tinha encarado por falta de força.
-Gustavo, nós só cumprimos ordens. Acredita que eu estava
a torcer para que ela ficasse bem e não fosse preciso eles virem. Eu sei muito
bem que ela não ia ser um problema, mas eu não mando. Eu sou apenas um
mensageiro.
-porque é que ela gritou tanto? – Inquiri, enquanto
encarava o vazio – o que é que vocês lhe fizeram?
O local ficou ainda mais silencioso. Mil e uma coisa
passaram-me pela cabeça. Violação, tortura, mutilação, e até mesmo morte.
Desta vez foi impossível não soltar a dor pelo olhar:
-Eu quero saber.
-arrancamos-lhe as asas.
Levantei o meu olhar num reflexo rápido, céptico:
-o quê?
-Tivemos de arranca-las desde a raiz. Assim retiramos-lhe
uma espécie de função. Toda a sua essência angelical desapareceu. Ela já não
ouve os anjos, já não pressente as emoções alheias, já não pode voar. É apenas…
-Eu não acredito… - interrompi.
-Gustavo… Eu não concordo que tenha sido melhor assim, mas
não havia hipótese.
-Como está ela?
-Mal…
Tapei o rosto nos meus braços, enxugando as lágrimas na
minha pele. “Mal” tinha tantos sentidos.
-Gustavo, pelo menos continua humana… Ao contrario de Lassael que voltou a
transformar-se num espírito e tu sabes onde encontra-lo.
Levantei a cabeça, encarando-a, perplexo.
-A cachoeira que a Alannis adora, onde tu e ela passam a
maior parte do tempo juntos, tem lá o espírito de Lassael, a mãe dela. É por
isso que a Alannis gosta de lá estar. Porque é agradável e calmo como o colo de
uma mãe. – Não consegui dizer nada – Gustavo! A Alannis ainda pode ter
esperança, mas depende ti. Não te iludas com aquilo que vais ver. Só precisas
que lhe recuperar os sentidos.
-Eu não tenho forças… - murmurei.
-Eu sei. Já cá estão á cerca de três dias. Só acordaram
hoje e mal isso aconteceu, nós procedemos.
Três dias? Fiquei chocado como o tempo tinha passado e eu
não me lembrava. Não podia imaginar o caos que ia por casa.
-Eu vou-te dar as forças que precisas por agora. Tens de
tirar a Alannis daqui antes que alguns vampiros sintam o cheiro a sangue e o
procurem. Pode já não estar tão quente como deveria, mas é um sangue especial,
portanto não podes perder tempo. Leva-a para um local seguro e reanima-a antes
que seja tarde demais.
-O que quer dizer “tarde demais”?
Ela calou-se e colocou a sua mão na minha testa, ignorando
a minha questão. Senti um calor diferente no corpo. Era como receber vida.
-se descobrem que fiz isto, caio, portanto põe-te atento.
Esta energia não vai durar muito.
Energia, era isso que era. Fazia sentido pois já me sentia
com mais força no corpo, tanta que me comecei a mexer no chão, em gestos lentos
que me fizeram primeiramente erguer o tronco e depois apoiar-me nas pernas
anteriormente moles para conseguir ver onde estava Lana.
Senti o coração murchar quando a vi deitada sobre a mesa
de madeira suja com uma possa de sangue. Estava de barriga para baixo, de olhos
fechados. Nas suas costas a marca de duas facadas fazia-se sobressair num tom vermelho
escuro e o vestido estava levemente rasgado exibindo mais das costas, pintadas
com manchas encarnadas. Por momentos pareceu-me mais branca do que o costume e
isso deixou-se sem reacção. Estava como morta. Completamente imóvel, e nem a
respiração parecia activa. O meu rosto ficou molhado de repente e eu corri até
alcançar o seu corpo gelado:
-Lana! Lana, acorda! – Pedi nervoso.
Ela não se mexeu sequer. Tentei sacudi-la e nada.
-O que é que vocês fizeram?! – Gritei a fim de receber
resposta do arcanjo. Mas nada. Já não estava lá ninguém, apenas nós os dois.
-Lannis… – Virei o seu corpo de frente e dei-lhe pequenas
palmadas na face – Acorda… por favor!
Não sabia ao certo o que fazer. Só conseguia analisar o
seu estado doentio. Afastei-me sem saber o que fazer e dei passos incertos de
um lado para o outro, analisando o local escuro em busca de uma forma de sair
dali.
Lembrei-me do meu telemóvel e pequei nele, trémulo. A
bateria estava no fim, mas eu não sabia mais o que fazer.
Disquei o numero de casa e esperei.
A voz da minha mãe saudou-me em desespero, causando-me de
imediato uma dor infernal na cabeça, acrescentada ás lágrimas que soltava.
-Mãe…? – Disse, em voz rouca.
-Gustavo, Gustavo, onde é que tu estás meu filho? – A sua
voz estava histérica mas detectei que isso se devia ao seu choro contido – Tu
estás bem? Desapareceste há dias! A Lana está contigo?
-sim… - foi a resposta mais seca que algum dia dei, mas
não tinha mais nada que pudesse dizer naquele momento. Tudo o resto não podia
ser dito por telemóvel.
-onde é que vocês estão? Gustavo, por favor voltem, nós
estamos todos desesperados á vossa procura!
-Posso ir para casa? - Desta vez ela entendeu a minha voz
de choro, não tivesse eu fungado enquanto coçava os olhos com o punho.
-Gustavo… Que pergunta é essa? O… o que aconteceu?
-A Diana está em casa? Preciso de alguém especializado em
saúde…
-Ai… - Senti o arfar da minha mãe do outro lado da linha.
Se eu não fosse rápido ela ainda tinha uma ataque – Gustavo estás a deixar-me
preocupada. Onde é que vocês estão?
-Nós vamos voltar já…
O telemóvel desligou-se, como se soubesse que eu já tinha
dito o suficiente. Voltei a olhar para Lana e acariciei-lhe o rosto. Os lábios
estavam pintados de vermelho, mas não era batom, infelizmente.
Peguei-a ao colo com cuidado. A força renovada era a minha
única forma de sobrevivência.
-O pior já passou, Lana… - murmurei – Vai tudo voltar ao
normal… Eu prometo, meu amor…
Caminhei até ao portão de metal e sai para fora. Estava
escuro no exterior. Era noite. Algumas estrelas pintavam o céu e nem sequer
havia lua para iluminar o local. Ao que parecia tínhamos estado num barracão
abandonado que eu não conhecia, mas tinha a certeza que estava na minha cidade,
mais perto de casa do que se poderia julgar.
Entrei pela floresta dentro. Por algum lugar tinha de
começar e a energia tinha de ser aproveitada. Caminhei pela escuridão, ouvindo
mochos e tendo cuidado para não tropeçar. Lana parecia mais leve do que era
habitual, talvez pela energia que eu tinha recebido. A minha única preocupação
era levava-la sã até minha casa enquanto ainda sentia o seu coração a soar
lento.
Caminhei e caminhei sem rumo. Eu só queria encontrar uma
estrada, mas parecia que estava a andar para o lado errado. Parei e olhei á
volta. Optei por mudar a direcção dos meus passos e caminhei novamente. Aos
poucos o meu corpo começou a tremer, conforme a humidade ia aumentando. Estava
uma noite gélida e tudo o que eu tinha sobre o corpo não era o suficiente,
muito menos a roupa de Lana que estava rasgada. Aconcheguei-a mais contra o meu
peito tentando dar algum calor àquela pele fria. Dei-lhe um beijo na testa, com
ardor nos olhos e tentei ser rápido, porem, a velocidade foi traiçoeira e eu
caí sobre a terra molhada coberta por um pouco de erva. Para piorar a situação
caí por cima da Lana, e provavelmente tinha feito mais alguma ferida no seu
corpo. Libertei uma lágrima e abracei-a com força:
-desculpa… - Sussurrei ao seu ouvido, para logo a minha
voz ser escondida por soluços lacrimosos – se eu te magoo, é porque eu te amo…
- Não sei porque continuava a falar. Provavelmente ela nem me ouvia.
Tentei levantar-me e traze-la comigo. O seu ombro estava
agora esfarrapado, mostrando um pouco de sangue.
Tive vontade de morrer. Olhei o céu deserto e cerrei os
dentes. Por momentos pareceu-me escutar algo, mas de certeza que eram animais.
Atirei uma pedra contra uma arvore, irritado:
-Será que alguém me pode dizer como sair daqui?! – Gritei
para o céu, fazendo eco por toda a mata, conformado em não ter resposta.
Mas fui surpreendido.
-Vai pela tua direita e corre. –Vi um vulto atrás de um
arvore. Os braços estavam colados estrategicamente á frente do nariz, pelo que
a voz saiu estranha mas mesmo assim familiar - Vai aparecer um caminho de terra
batida e apenas tens de ir na direcção da luz. Vais chegar até perto da escola.
-Quem está aí? – Interroguei, assustado.
-Por favor, Gustavo. Vai-te embora o mais depressa que
conseguires! Eu não aguento mais esse cheiro.
As sombras do seu corpo afastaram-se rápidas como a luz.
Levantei-me preocupado e ergui Lana no meu colo. Fiz o que me mandara a voz e
andei em marcha rápida até alcançar o suposto caminho que estava mais perto do
que eu achava. Ao longe via-se luz de algumas casas e eu não perdi tempo.
Quando reconheci o caminho, foi só seguir até perto de minha casa. Esperancei
que algum carro passasse, mas aquela estrada era muito monótona, especialmente
se reflectíssemos sobre a cidade em questão. Cambaleei pela orla do caminho e
fui avançando. Provavelmente ia demorar mais de uma hora a chegar a casa, tendo
em conta a velocidade a que ia.
Estava certo. Tinha passado meia hora e eu ainda não ia a
meio do caminho. Já estava a ficar sem energia outra vez. Por isso tive de
parar. Pousei a Lana no chão, com o tronco erguido colado a um muro. Sentei-me
ao seu lado e arfei, cansado. Olhei-a com cautela. Não havia nenhum movimento,
nem o da respiração. Isso deixava-me aflito.
Foi então que avistei um carro negro a vir na direcção
oposta a nós, devagar. Nem queria acreditar. Levantei-me e esbracejei. Alex
parou numa travagem brusca e saiu do carro, revoltado:
-Miúdo, finalmente! – Exclamou, nervoso - Onde tens
andado?!
-Alex… - Suspirei – Por favor, leva-nos para casa!
Ele olhou para o chão e viu Lana. Abriu a boca ao ver
pingos de sangue por toda a sua pele e olhou-me assustado:
-O que…?
Não respondi e peguei-a ao colo. O seu corpo estava
completamente “morto”.
Alex gaguejou e abriu a porta de trás do carro. Eu entrei
para dentro e deitei-a com a cabeça nas minhas pernas. Encostei a minha nuca ao
banco macio e fechei os olhos.
O meu irmão entrou a seguir e olhou para trás:
-o que é que aconteceu? A mãe está em pânico há dias. A
Helen está hospedada lá em casa em completo desespero, acompanhada pela mãe e
pelo pai! E a Letícia e Liliana foram as únicas que nos deram uma informação
decente, apesar de ainda ninguém ter entendido o que se passou!
-Nem eu ainda não entendi o que se passou… - Vozeei – Mas
por favor leva-nos para casa antes que seja tarde demais. Eu preciso da ajuda
da Diana.
Ele ficou boquiaberto e mais depressa do que devia
levou-nos para casa. Quando lá chegamos abri os olhos e ele abriu a porta. A
casa estava com as luzes lá dentro todas ligadas.
Saí para fora do veiculo e voltei a pegar na minha amada
ao colo. Aconcheguei-a contra o meu corpo e caminhei até á porta principal.
Alex, abriu e eu entrei directamente na sala, onde estava tanta luminosidade
que eu tive de cerrar os olhos com força e pestanejar para me habituar a ela.
-Oh meu Deus! – Helen levantou-se do sofá onde estava e só
aí me apercebi de como a sala estava cheia.
-Não me fales em Deus neste momento. – Sem quase me
aperceber dei um passo de recua quando ela tentou tocar na Lana, lavada em
lágrimas.
-Gustavo, meu filho, onde estiveste? – A minha mãe tentou
alcançar-me, chorosa, mas eu não consegui dizer nada e mantive o olhar sério e
sem reacção.
-o que aconteceu com a Alannis? – Perguntou Greta,
acompanhada por um homem, mais alto do que ela, com um bigode peculiar e cabelo
cinzento, portador de uns óculos leves que lhe escondiam a íris esverdeada.
Vestiam-se ambos de maneira elegante.
Não respondi, e tentei passar por eles. O sofá já estava
livre, visto todos estarem levantados e eu deitei-a com cuidado sobre ele.
Passei as minhas mãos na sua face e apalpei-lhe as bochechas. Estavam muito
frias e rijas:
-Lana… - Chamei, baixinho – Lana, já podes acordar,
estamos em casa…
Ela nem se mexeu e eu inspirei algum ar, nervoso.
Helen caminhou até nós:
-Por favor, conta-me o que aconteceu, Gustavo! – Ela já
soluçava.
Os meus olhos ardiam e eu passei a mão na minha cara
deslizando-a até chegar ao meu cabelo. Nesse momento apercebi-me do estado dos
meus pulsos. Estavam em ferida de tanto que as cordas roçaram neles.
-Eu odeio anjos… - Murmurei, num tom mais débil.
Ela encarou-me sem saber ao que eu me referia e eu nada
mais lhe disse. Enterrei a minha cabeça junto ao pescoço de Lana e mantive-me
ajoelhado junto ao seu corpo. Todos os outros faziam perguntas mas eu não as
ouvia. De vez em quando chamava-a para tentar acorda-la.
-A Diana? – perguntei de repente.
-Foi adormecer a Su. – Respondeu alguém.
-Precisamos dela.
-Eu vou chama-la! – Prontificou Alex.
Alterei a posição da Alannis e fi-la ficar de costas.
Todos abriram a boca ao ver o seu estado. E eu também. Com tanta luz era
impossível não ver tudo. Os golpes ainda estavam longe de cicatrizar, contudo
já não vertiam sangue. As costas estavam sujas com terra e com sangue, brancas
e com os ossos salientes como se ela tivesse perdido quilos em apenas três
dias.
-Filhos da (palavra feia!)! – Berrei deixando a testa cair sobre a
duas feridas.
Não me importei com o constrangimento que provoquei no
geral e prossegui:
-Eu juro, Lana, que quando tu estiveres de volta ao
normal, eu vou encontrar aquelas criaturas e dar cabo delas!
-Gustavo, quem vos fez isso? – A minha mãe agarrou-me
pelos ombros, de olhos avermelhados.
-Anjos… - Murmurei com o lábio tremulo. Ela ficou a
olhar-me sem saber o que dizer. Até que reagiu:
-Porquê?
-Porque são monstros. Idiotas! – Desta vez um fio de agua
salgada deslizou-me pela face – Aqueles desgraçados. Estúpidos… - Voltei a
deixar cair a cara no corpo de Lana – Porque é que eles achavam que tu eras perigosa?!
Tu és um anjo! E eu sei que te amo, porque é que não aceitam isso? Porque é que
te fizeram isto a ti?
Levantei-me e peguei no primeiro objecto que vi.
Estatelei-o contra a parede, furioso:
-Eles arrancaram-lhe as asas!
-Eles o quê? – O homem que acompanhava Greta questionou,
baralhado. O seu sotaque era mais forte do que o de Greta.
Helen respirou com descontrolo e abanou a mão para tentar
controlar o oxigénio que ingeria:
-Não… isso não… Como?!
Tapei a cara nas mãos e solucei:
-Ela já não é um
anjo! – Gritei.
-Um anjo?!
Todos se entreolharam. Provavelmente achando que eu estava
louco e que as minhas palavras não faziam sentido. Só Helen, naquele grupo, me
entendia, e a minha mãe apenas desconfiava, mas continuava sem acreditar.
Senti as forças acabarem de repente e encostei-me á
parede, cansado:
-Mãe, preciso de comer qualquer coisa…
Ela nem esperou por mais nada. Levantou-se a correr e foi
á cozinha. Foi a vez de Helen ter a palavra:
-Gustavo… Eu quero que tu me contes tudo… Não me importa
que tenha demasiada gente aqui, eu quero saber ao certo o que aconteceu.
Mas antes de eu dizer algo, Diana irrompeu pela porta:
-Gustavo! – Ela abraçou-me com força, sem me dar tempo de
eu escapar e depois olhou para mim, com as mãos no meu rosto – Tu estás bem?
-Di, eu preciso que a reanimes, e que lhe faças um
curativo!
Ela olhou para o sofá, onde Lana repousava com uma cara
serena, de costas para cima.
Diana abriu a boca, perplexa com os eu estado e
encarou-me:
-Gustavo, ela precisa de um medico!
-Não posso leva-la ao medico agora, já perdi muito tempo!
Mehiel disse que eu tinha de ser rápido porque ela já perdeu muito sangue! – Helen
gemeu - Faz qualquer coisa, eu sei que tu consegues!
Ela prendeu a respiração e aproximou-se de Lana. Primeiro
sentiu a sua temperatura e fez cara feia. Depois analisou os golpes profundos e
respirou fundo, assustada com a visão. A cara que ela fez soou-me a “Isto é
muito mau.”
A minha mãe chegou com algo nas mãos para mim. Nem vi o
que era e ingeri. Logo depois fechei os olhos cansado, ainda encostado á
parede, coberto por flashbacks dos melhores momentos que passei com Lana.
Adorava todas a noites que passávamos juntos. As coisas que descobria sobre
ela. Aquele jeito infantil que ela mostrava de vez em quando e os momentos em
que ela e eu tínhamos minutos de ciúmes um do outro. As nossas escapadelas
românticas na escola, quando os outros estavam bastante distraídos para nos
ver. O seu cheiro era tão bom, os beijos, os abraços, e quando ela mostrava
aquelas asas esplendorosas e me sorria matreira, tentava fugir de mim e eu
acabava sempre por apanha-la e cobri-la de beijos, louco por ela. Não podia
imaginar vida sem ela. Não fazia sentido, era vazia. Eu só queria que ela
abrisse os olhos e saltasse para os meus braços, com aqueles sorriso lindo desenhado
no rosto. Será que era pedir de mais?
https://www.youtube.com/watch?v=vrPKiCCo4Mo
Escutei um gemido choroso novo. Foi Diana quem o soltou e
eu abri os olhos assustado. Helen estava ao seu lado, ajoelhada, e chorava
também, com o rosto perto da cabeça de Lana. Greta e o acompanhante
aproximaram-se, e agarraram as mãos dela. A minha mãe levantou Diana e
abraçou-a. Murmurou algo e depois Alex juntou-se a elas. Senti uma pontada no
peito, com o coração cada vez mais acelerado e não tive coragem para me mexer.
Helen abanava a cabeça, e murmurava “Não!” enquanto Greta a abraçava ao seu
lado e tentava manter a suas lágrimas presas. O pai dela era quem estava mais
calado, mas mesmo assim parecia triste. Murmurou algo e agarrou a mão de Lana,
dando-lhe um beijo. Enquanto isso, a minha mãe lacrimejava e tentava dizer algo
a Diana que não a queria ouvir, e Alex, também fragilizado, tentava ajudar a
nossa mãe a convencer a minha irmã mais velha a fazer algo. Helen levantou-se
de repente, e saiu da sala para o exterior da casa, com a face toda molhada por
agua salgada. Diana, limpou o rosto e afastou-se dos outros dois, para vir na
minha direcção. Ela cruzou os braços como se tivesse frio e baixou o olhar:
-Gustavo… Eu não posso fazer nada pela Lana… - Suspirou,
com a voz melancólica.
Senti um ardor no estômago e descolei-me da parede, com os
lábios entreabertos, tentando acalmar o frio que me provocava tremuras no
corpo:
-Não, Di, tu consegues, eu sei! Talvez se lhe deres uns
pontos nos golpes e…
-Não! – Ela soluçou – Eu não posso! Nem um medico pode!
A minha boca ficou sem saliva de repente, com o coração
acelerado:
-Porquê? – A minha voz saiu fraca e eu fixei-a, assustado.
-Gustavo… Ela está… - Ela soluçou e colocou os dedos
polegar e indicador sobre os olhos, esfregando as pálpebras que interrompiam o
derrame de lágrimas.
-O quê?
-Ela já não… Já é tarde demais, Gustavo…!
A minha respiração estagnou por segundos e eu fiquei a
olha-la, chocado e incrédulo. Quando finalmente reagi, engoli a seco:
-Não… Mehiel disse que não era o que parecia. Que eu só
tinha de reanima-la enquanto tinha tempo…!
-Seja o que for que te tenham dito, era mentira, Gustavo!
– Ela soluçou e prendeu a boca com as mãos – O coração da Lana já não bate há
algum tempo, mas tu não te tinhas apercebido, assim como a respiração que
estagnou há muito… O corpo está gelado… eu não queria ser eu a dizer-te isto,
mas não posso fazer nada por vocês.
-Não… - Abanei a cabeça. A respiração começou a sair
descontrolada e apressada – Ela está só desmaiada! Pega em… Em vinagre e fá-la
sentir o cheiro ou… ou mete-lhe sal na boca! Ela está viva, eu sei que sim!
Diana cerrou os dentes furiosa:
-Não! – Berrou – Tu não entendes! É tarde demais, Gustavo!
“Acabou.”
A minha reacção foi indecifrável. O olhar perdido,
marejado, a respiração presa, o corpo estático, e a voz extinta. Os primeiros
movimentos surgiram na minha cabeça, que balançou levemente, tentando reagir. A
minha atenção dirigiu-se para o sofá onde Lana repousava.
-Não… - Senti uma descarga de força no meu corpo e corri
até ela. Greta afastou-se do seu lado, dando-me espaço e eu segurei-lhe a face:
-Lana, acorda! Acorda! – Implorei – Prova á Diana que ela
está enganada! Eu sei que está!
Sacudi-lhe os ombros enquanto tentava domar os meus lábios
que tremiam:
-Alannis…! Por favor! – Os meus olhos verteram e eu
funguei, sem controlo – Acorda, não me faças isto!
Beijei-lhe os lábios de repente. Estavam gelados e não
tinham o toque macio que os caracterizava. Senti uma pontada no peito e afastei
os seus cabelos castanhos do rosto:
-Lana…? - murmurei - Lala…? Eu sei que tu estás viva…! – A
minha voz saiu tremula - Tu prometeste que ias lutar pela tua vida, por muito
que a morte te parecesse mais fácil…! – Voltei a beija-la, á espera de reacção e
depois olhei-a – Não me faças isto! Eu amo-te… - Deixei a minha cabeça cair no
seu peito e solucei – Eu amo-te, bolas! Amo-te mais do que a mim mesmo, porque
é que tu não cumpres a tua promessa?! – Levantei novamente o tronco e agarrei-lhe
o rosto – Ouviste?! Acorda! – Cerrei os dentes furioso e com medo de a magoar,
dei-lhe um estalo na face que fez a sua cara virar para o lado oposto com a
força que exerci sobre o seu rosto.
Greta saiu para o exterior com o seu parceiro lavada em
lágrimas. Pareceu-me até escutar Alex a chorar com Diana e a minha mãe e depois
a porta do corredor bateu com força, após algum sair de lá.
-Gustavo… - As mãos quentes mas tremulas da minha mãe
tocaram-me os ombros – Não faças isso…
Sacudi-me, e escondi a cara chorosa junto ao corpo de
Lana, passando as minhas mãos por ele em busca de vida.
Um dia alguém me tinha dito que era melhor sentir dor do
que não sentir nada. Essa pessoa estava enganada. O quanto eu desejava não
sentir nada naquele momento. A dor que sentira na morte do meu pai era a quarta
parte daquilo que eu sentia naquele instante. Não conseguia, nem podia,
imaginar o que seria da minha vida dali para a frente, sem poder vê-la todos os
dias, sem poder toca-la e sentir o seu corpo junto ao meu em mais uma noite. Eu
não podia viver sem ela. Eu preferia morrer!
-Lana… - Chamei pela ultima vez, sem ter resposta. Olhei-a
e afaguei-lhe o rosto sereno – Lembraste quando brincamos de sermos o Romeu e a
Julieta? –Falei, enxugando as lágrimas que me mantinham molhado nas minhas
mãos, mas logo o meu rosto voltou a ser coberto por rios salgados e eu prendi a
respiração, tentando escapar a mais soluços – Eu… Eu agora entendo que não
estávamos assim tão… Tão longe de sermos eles… Agora já sei porque é que o
Romeu se envenenou… Eu tenho vontade de fazer o mesmo neste preciso momento,
porque eu não quero viver sem a pessoa que mais amo no mundo… Não é justo…
A minha mãe tentou puxar-me da beira de Lana ao ouvir
isso, mas eu fiz força para ela me soltar e prossegui:
-Tu vais acordar como ela acordou depois de algumas horas?
– Inquiri sem parar de lacrimejar.
Não vi nenhuma reacção. Nem um suspiro, nem um batimento
cardíaco, nem um movimento. Continuava imóvel e sem vida, branca e coberta de
manchas de sangue.
-Lana… porquê…?
Fiquei a olha-la, mas a justificação não chegou.
https://www.youtube.com/watch?v=nalOXRHotGg
Levantei-me desnorteado, coberto por gotas daquele liquido
quente irritante e empurrei Diana para poder passar para o corredor. Entrei no
meu quarto e abri a primeira gaveta da mesinha de cabeceira, retirando de lá um
caderno grosso de capa preta e paginas amareladas, com alguns bilhetes presos
no meio. Pu-lo debaixo do meu braço e caminhei para a cozinha de rompante.
Procurei no chaveiro as chaves da minha mota e agarrei-as com raiva. A minha
mãe agarrou-me antes de eu sair porta fora:
-Gustavo, não faças isso, estás demasiado desnorteado, eu
não te vou deixar!
-Larga-me! – Ordenei, puxando o braço das suas mãos.
-Gustavo, tu estás proibido de…!
-Deixa-me em paz! – Gritei - Pára de querer que eu sofra! Já
perdi o meu pai e a Lana, não quero que me tires tudo o que me faz minimamente
feliz!
Ela soltou-me, apreensiva:
-Mas filho…!
-Eu não quero saber! – Funguei – Aconteça o que acontecer
não me interessa! Eu já perdi demasiado! Queres que faça o quê?! Que fique aqui
á espera que morra a Su?!
Ela tapou a boca com a mão, chocada e lacrimosa.
Senti-me mal por ter dito aquilo, todavia não o lamentei.
Saí porta fora e fui na direcção da garagem, onde liguei a mota e saí apressado
de casa. A noite estava escura e as sombras das arvores passavam por mim com
velocidade, contudo, nem o vento que me atingia o rosto era capaz de secar o
derrame de lágrimas. As casas já não tinham luz, o rio estava calmo e sem vida,
e, olhasse para onde olhasse, eu não sabia para onde ir. Parei na ponte que fazia
caminho para chegar á vila e desmontei a mota. Como não havia transito não
havia problema em eu estar ali. Pousei o caderno no muro de segurança e
curvei-me para ver o rio. Não se via nada, só escuridão e profundidade como um
posso sem fundo. Apoiei os meus cotovelos no muro e esfreguei a minhas cara nas
mãos. Queria travar o choro, mas tudo parecia ser em vão, queria gritar ao céu
que a trouxesse de volta, mas não conseguia. Abri o caderno e fui folheando-o até
chegar a pouco antes do meio para reler algumas palavras na esperança de me
sentir melhor e sorrir, mas parecia que as alegrias passadas só traziam mais
tristeza. Eu tinha apontado tudo. Tudo o que tinha dito, tudo o que tinha
presenciado e tudo o que tinha ouvido. As palavras da Lana também estavam lá
expressas e os momentos contados ao detalhe. Olhando para aquele caderno, não
queria aceitar o que me estava a acontecer. Ainda havia tanto para fazer, tanto
para explorar, tanto para presenciar e dizer. Aquelas paginas estavam
destinadas a contarem mais do que aquelas vagas recordações, e eu não podia
crer que era o fim, que teria de escrever um “The end”.
Tapei a boca com a mão , ofegante e voltei a montar o meu
transporte. Já sabia onde queria ir. Um sitio que partilhávamos.
Tentei ser rápido e passar pelas ruas curvas com cautela
para chegar bem ao meu destino. Fiz a descida do costume e quando parei em
frente a uma casa nostálgica a partir daquela noite, abandonei a mota e
caminhei até á cachoeira. Quando lá cheguei encostei-me a uma pedra maior do
que eu, lisa. Olhei o reflexo dos pirilampos na agua que corria com agitação e
limpei o rosto.
Humedeci o lábios e olhei o céu. Depois vislumbrei as
arvores, as rochas e a agua novamente.
-Não faz sentido sozinho… - assumi a mim mesmo. Toda a
magia do local tinha desaparecido sem Lannis ali comigo.
Tentei trepar a uma rocha para chegar àquela em que nos
costumávamos deitar, mas um passo em falso e eu caí dentro da agua gelada.
Senti que me estavam a apunhalar por todos os lados e tentei regressar á tona.
O meu corpo tremia, fazendo-me abraçar os meus próprios braços sem raciocinar
direito. Mehiel havia referido que o espírito de Lassael estava preso naquele
sitio, mas eu olhasse para onde olhasse não conseguia entender de que forma
isso era possível. Senti uma gota cair sobre a minha face e desta vez não eram
lágrimas. Eram gotas de chuva que de certa forma me lavavam o espírito, sem,
contudo, limpar a raiva que me invadia. Sentia-me preso.
-Cobarde…! – Acusei para o céu, em busca de atingir
Lassael com as minhas palavras - Achas bem o que aconteceu á tua filha?! Que
tipo de mãe deixa que isto aconteça?! Responde! – Dei um soco numa rocha, já
molhada pela chuva e prossegui - Se sabias que ia terminar assim, porque não
deixaste o espírito dela ser capturado antes?! Foi para me fazer sofrer?! Eu
tenho a certeza que vivia melhor sem esta dor! Preferia viver a vida toda no
tédio que vivia, do que conhecer a Lana para depois a perder! – Encostei a
cabeça á pedra e o choro regressou, enquanto eu lhe batia inutilmente - Não é
justo!
Virei costas á rocha e ainda encostado a ela olhei o céu.
Toda a minha mente estava confusa, mas nenhuma confusão podia explicar a dor
que eu sentia.
Afastei-me por entre algumas rochas e subi para cima de uma,
ligeiramente mais pequena do que eu. Deitei-me sobre ela, de lado, com as mãos
a agarrar os joelhos, enquanto a chuva aliviava. As minhas lágrimas começaram a
secar com as recordações que me preenchiam a memoria, e que,
surpreendentemente, me faziam sorrir, com a visão nublada.
Aos poucos tudo voltou a ser perfeito… Em sonhos.
***
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
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