Naoko Takeuchi, criadora de Sailor Moon – A Navegante da Lua, partilhou uma rara e muito pessoal crítica cinematográfica a A Odisseia, o mais recente filme de Christopher Nolan, inspirado no célebre poema épico atribuído a Homero.
O texto foi publicado no Japão pela MOVIE WALKER PRESS, a 19 de Setembro de 2026, no âmbito da promoção do filme, e revela não só o que Takeuchi achou da adaptação, como também a curiosa relação da autora e da sua família com o cinema de Christopher Nolan.

Uma paixão por Christopher Nolan que começou na África do Sul
Naoko Takeuchi conta que o seu primeiro verdadeiro encontro com o cinema de Nolan aconteceu há vários anos, durante uma viagem em família à África do Sul.
Depois de um safari, Takeuchi passou uma noite em Joanesburgo com o marido, Yoshihiro Togashi (o autor de Yu Yu Hakusho e Hunter × Hunter) e o filho do casal. Sem muito para fazer no hotel, pai e filho começaram a ver O Terceiro Passo (The Prestige) na televisão.
Apesar de Takeuchi não compreender inglês suficientemente bem para acompanhar todos os diálogos, acabou completamente absorvida pelo filme. Togashi terá ficado igualmente impressionado, chegando a revê-lo várias vezes.
Foi assim que, segundo a própria Naoko, toda a família se tornou fã dos filmes de Christopher Nolan.
A autora associa desde então a atmosfera característica das obras do realizador a uma memória muito específica: o ar morno de uma suite de hotel num país estrangeiro.
Uma epopeia gigantesca… sobre uma família
Apesar da dimensão de A Odisseia, filmada em seis países e assumidamente influenciada pelo trabalho do lendário Ray Harryhausen, de quem Takeuchi também se declara fã, a criadora de Sailor Moon considera que, no fundo, Nolan está a contar uma história bastante simples.
Para Takeuchi, é essencialmente a história de um pai e de um filho: um filho que admira e espera pelo pai, uma mulher que sofre com a sua ausência e um marido que, pelo caminho, nem sempre consegue resistir às tentações.
A história de Odisseu acabou ainda por despertar memórias muito recentes da própria vida da autora.
Takeuchi revelou que tinha viajado para a Grécia com o filho no ano anterior, passando por Atenas, Creta e Tessalónica. Durante essa viagem, recorda ter conversado com ele sobre o futuro e colocado questões como o que queria fazer da vida e que caminho pretendia seguir.
Ao ver o filme, aquelas paisagens e conversas regressaram-lhe à memória. E foi aí que a crítica cinematográfica de Naoko Takeuchi se tornou… muito Naoko Takeuchi.
Ao olhar para Matt Damon como Odisseu, a mangaka começou a vê-lo como uma espécie de versão do seu próprio marido quando este desaparece durante longos períodos para trabalhar fechado nos seus projectos.
Quanto ao facto de Odisseu passar anos envolvido com outras mulheres antes de finalmente regressar a casa, Takeuchi admite que ficou irritada com o protagonista. Mas acrescenta, simplesmente, que também o compreende.
«Como se tivesse feito uma viagem de três horas pela vida»
No final, Takeuchi descreve a experiência proporcionada pelo filme como extremamente satisfatória, comparando as suas três horas de duração a uma verdadeira viagem pela vida.
Para a autora, A Odisseia pode parecer uma enorme aventura mitológica, mas é também uma história surpreendentemente próxima da nossa própria experiência: uma narrativa sobre partir, perder-se e tentar encontrar o caminho de regresso.
Takeuchi destaca ainda a forma como Nolan consegue colocar mensagens contemporâneas dentro de uma história profundamente nostálgica, criando uma ligação entre uma narrativa com milhares de anos e o presente.
É precisamente essa combinação que, segundo a mangaka, torna o filme emocionalmente poderoso.
E depois há os homens bonitos…
Naturalmente, Naoko Takeuchi não ficou apenas pela análise existencial.
A criadora de Sailor Moon dedica uma parte considerável do texto ao elenco masculino de A Odisseia, brincando com a quantidade de homens maduros, atraentes e constantemente sujeitos a todo o tipo de sofrimento que aparecem no filme.
Segundo Takeuchi, este tipo de homem é praticamente uma especialidade de Christopher Nolan.
A autora destaca a sensualidade que encontrou em vários momentos da produção: desde os guerreiros no interior do Cavalo de Troia até às cenas passadas no navio durante a viagem de regresso, passando pelos homens seduzidos e enganados por Circe.
É uma observação particularmente divertida vinda da autora que, ao longo de Sailor Moon, nunca escondeu o seu gosto por personagens masculinas elegantes, misteriosas e visualmente idealizadas.
Naoko queria uma Athena ainda mais «deusa»
Takeuchi teve, no entanto, uma pequena crítica à interpretação visual de Athena, representada no filme por Zendaya.
A mangaka confessa que teria gostado de ver a actriz com um vestido muito mais assumidamente inspirado na imagem clássica de uma deusa grega.
Ainda assim, reconhece que a Athena de Nolan desempenha sobretudo o papel tradicional da divindade que oferece sabedoria e orientação, em vez de participar directamente nas batalhas.
Takeuchi observa também, com algum humor, que a relação apresentada no filme lhe parece por vezes aproximar Athena de uma amante ou companheira romântica.
E acaba por desculpar a opção à sua maneira: afinal, trata-se de um filme feito por Christopher Nolan e do seu universo de homens atraentes.
De Sailor Moon à mitologia grega
A opinião de Naoko Takeuchi sobre A Odisseia ganha uma dimensão particularmente curiosa quando recordamos a forte presença da mitologia greco-romana no universo de Sailor Moon.
Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Neptuno e Plutão são simultaneamente nomes de corpos do Sistema Solar e nomes romanos de divindades da Antiguidade, correspondentes a figuras da mitologia grega como Hermes, Afrodite, Ares, Zeus, Cronos, Úrano, Poseidon e Hades.
Ao longo do manga, Takeuchi recorreu repetidamente à astronomia, à mitologia e ao simbolismo clássico para construir personagens, poderes e conceitos do universo de Sailor Moon.
Talvez por isso não seja assim tão surpreendente descobrir a autora fascinada por uma nova interpretação cinematográfica de uma das maiores epopeias da mitologia grega.
Mais inesperado é podermos ler Naoko Takeuchi a falar de Christopher Nolan, das viagens com o filho, de Yoshihiro Togashi fechado a trabalhar em casa, de Matt Damon, de Zendaya e de uma quantidade aparentemente muito satisfatória de homens bonitos dentro do Cavalo de Troia.
Mas, convenhamos: é precisamente esse lado pessoal e espontâneo que torna este raro texto da criadora de Sailor Moon tão interessante.