A Guardiã dos Sonhos
Obrigada pelo comentário lulu 
Não, eu estava a falar da outra fanfic de SM que estou a escrever 'Onde estás Endymion?'. Essa ainda vou em andamento e por este andar será a última fanfic que alguma vez escreverei. Quando acabar estas duas, não volto a escrever (apesar de ter uma ideia grande.. mesmo grande a desenvolver-se na minha cabeça. Mas para tal, tenho que acabar estas fanfics até ao fim do meu 12º ano - tarefa quase impossivel - ou isso, ou paro de escrever uma delas...).
No que toca ao capítulo, o titulo é Os Dançarinos, parte quase desenvolvida (ainda falta a dança final
) e A Flor de Mercurio, ou seja, ainda me falta dois terços importantes do capítulo para acabar, para além da palha que vou lá pôr (mais cenas da relação Eiji/Linda e Mari/Kenji).
O objectivo da Misaki naquele sitio era apenas assustar a Linda e também para ficar a conheçer a mãe de Cecília. Não a criei para ser uma vilã. Alias, vilã só há uma (e é uma autentica bitch... - isso faz-me lembrar que tenho que dedicar-lhe um capítulo inteirinho, há já muito que não escrevo sobre ela xDD).
Mas posso já dizer-te isto (sou terrivel a guardar surpresas). O Eiji vai "ouvir" uma conversinha entre Edward e Linda. Agora, se ela irá revelar alguma coisa importante.. isso ainda vamos ver
Sabes o que é estares um ano a pensar "eu vou criar um capítulo ond eel anda à pancada por causa dela" e chega a altura e... já nem sei onde inserir a cena? É mesmo estupido e até me passou a cabeça de por o Eiji a partir os dentes a uns gajos duas vezes. Nesta cena e noutra. Ideia mesmo maluca...
Eiji principe? Mas para isso a Linda teria que ser princesa. (falo do titulo oficial... oficialmente a Linda e o Kenji não são a realeza, pois nunca se mostraram ao público..)
No que toca às visões da Mari... Ela é diferente (navegante? que disparate é esse? O_o), mas a Cecília também o é. Também sente as auras das pessoas. Claro que ainda não explorei isso melhor, mas é diferente do poder da Rei.
E por fim.. falamos de ti...
Tu tens uma historinha novinha? ESCREVE!!! Gostava de ler uma criação tua sem nada sobrenatural. Tambem já me fartei do sobrenatural e gostava de ver algo novo. Podes dar-me umas pistas sobre a história que pensaste? 
E, mais uma vez, obrigada pelo comentário lulu.. Já sempre gosto ler.

Não, eu estava a falar da outra fanfic de SM que estou a escrever 'Onde estás Endymion?'. Essa ainda vou em andamento e por este andar será a última fanfic que alguma vez escreverei. Quando acabar estas duas, não volto a escrever (apesar de ter uma ideia grande.. mesmo grande a desenvolver-se na minha cabeça. Mas para tal, tenho que acabar estas fanfics até ao fim do meu 12º ano - tarefa quase impossivel - ou isso, ou paro de escrever uma delas...).
No que toca ao capítulo, o titulo é Os Dançarinos, parte quase desenvolvida (ainda falta a dança final
) e A Flor de Mercurio, ou seja, ainda me falta dois terços importantes do capítulo para acabar, para além da palha que vou lá pôr (mais cenas da relação Eiji/Linda e Mari/Kenji).O objectivo da Misaki naquele sitio era apenas assustar a Linda e também para ficar a conheçer a mãe de Cecília. Não a criei para ser uma vilã. Alias, vilã só há uma (e é uma autentica bitch... - isso faz-me lembrar que tenho que dedicar-lhe um capítulo inteirinho, há já muito que não escrevo sobre ela xDD).
Mas posso já dizer-te isto (sou terrivel a guardar surpresas). O Eiji vai "ouvir" uma conversinha entre Edward e Linda. Agora, se ela irá revelar alguma coisa importante.. isso ainda vamos ver

Sabes o que é estares um ano a pensar "eu vou criar um capítulo ond eel anda à pancada por causa dela" e chega a altura e... já nem sei onde inserir a cena? É mesmo estupido e até me passou a cabeça de por o Eiji a partir os dentes a uns gajos duas vezes. Nesta cena e noutra. Ideia mesmo maluca...

Eiji principe? Mas para isso a Linda teria que ser princesa. (falo do titulo oficial... oficialmente a Linda e o Kenji não são a realeza, pois nunca se mostraram ao público..)
No que toca às visões da Mari... Ela é diferente (navegante? que disparate é esse? O_o), mas a Cecília também o é. Também sente as auras das pessoas. Claro que ainda não explorei isso melhor, mas é diferente do poder da Rei.
E por fim.. falamos de ti...
Tu tens uma historinha novinha? ESCREVE!!! Gostava de ler uma criação tua sem nada sobrenatural. Tambem já me fartei do sobrenatural e gostava de ver algo novo. Podes dar-me umas pistas sobre a história que pensaste? 
E, mais uma vez, obrigada pelo comentário lulu.. Já sempre gosto ler.

Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
Olá Ana.
Primeiro que tudo o facto de dizeres que as tuas histórias não interessam a ninguém não corresponde à verdade.
Eu estou apaixonada pela história desde que li o 1º capítulo.
Já tinha lido alguns capítulos e creio ter comentado uma vez mas entretanto também fiquei um bcd ausente.
Hoje passei uma boa parte da tarde a ler toda a fic desde o inicío e devo dizer que está brutal! Adorei!
Escreves muito bem, as descrições de espaços, sentimentos, perfeito.
A história está cheia de mistério e é diferente, porque falas das novas gerações. É interessante ver como se safam no mundo real estes principes,lool.
Ainda bem que a lulumoon é uma leitora assídua e não te deixou desanimar. Também vou comentar com mais frequência.
Não acho assim tão despropositado pensarmos na Mari e na Cecília como navegantes. Quando descreveste a sailor harmony e sailor faith colocaste-as muito semelhantes fisicamente a elas. E além disso a Aiko encontrou um brinco com forma de estrela no quarto da Mari.
Por isso também pensei que fossem elas.
A flor de Vénus palpita-me que é a mãe da Cecília que tem...
Seria giro um novo mascarado! LOL
Sobre não gostares da Linda, bem eu gosto da personalidade dela calma, mas esta "nova" Linda está muito interessante.
O romance Kenji e Mari tá muito fixe, e o Eiji com a Linda nem se fala, tou a gostar muito.
O Kenji a ouvir vozes, a Mari a ter visões,( e afinal qual é o segredo que ela esconde?), uau..., espero ansiosamente pelo próximo!
Beijos**
Primeiro que tudo o facto de dizeres que as tuas histórias não interessam a ninguém não corresponde à verdade.
Eu estou apaixonada pela história desde que li o 1º capítulo.
Já tinha lido alguns capítulos e creio ter comentado uma vez mas entretanto também fiquei um bcd ausente.
Hoje passei uma boa parte da tarde a ler toda a fic desde o inicío e devo dizer que está brutal! Adorei!
Escreves muito bem, as descrições de espaços, sentimentos, perfeito.
A história está cheia de mistério e é diferente, porque falas das novas gerações. É interessante ver como se safam no mundo real estes principes,lool.
Ainda bem que a lulumoon é uma leitora assídua e não te deixou desanimar. Também vou comentar com mais frequência.

Não acho assim tão despropositado pensarmos na Mari e na Cecília como navegantes. Quando descreveste a sailor harmony e sailor faith colocaste-as muito semelhantes fisicamente a elas. E além disso a Aiko encontrou um brinco com forma de estrela no quarto da Mari.
Por isso também pensei que fossem elas.
A flor de Vénus palpita-me que é a mãe da Cecília que tem...
Seria giro um novo mascarado! LOL
Sobre não gostares da Linda, bem eu gosto da personalidade dela calma, mas esta "nova" Linda está muito interessante.
O romance Kenji e Mari tá muito fixe, e o Eiji com a Linda nem se fala, tou a gostar muito.
O Kenji a ouvir vozes, a Mari a ter visões,( e afinal qual é o segredo que ela esconde?), uau..., espero ansiosamente pelo próximo!
Beijos**
Obrigada pelo comentário Rub. Já tenho andado para te responder, mas por questões pessoais deixei passar.
Não sei como conseguiste adorar a minha fanfic a lê-la desde o inicio. Tentei fazer o mesmo e fiquei de boca aberta com os erros (inacreditavel, mas eu pus a Cecília com cabelo liso no 3º capítulo.. não vou corrigir... faço de conta que naquele dia ela tinha esticado o cabelo xDD)
Como já tinha dito, canon é muito dificil, mas queria também escrever uma fanfic de sailor moon. Resultado: uma fanfic que fala de uma geração nunca mencionada. Agora qe se passaram anos e eu "evolui" a minha escrita (nalgum sentido...), vejo que podia ter ultilizado outros contornos nesta história. Mas enfim, começei, terei que terminar...
Mas eu nunca quis que voces pensassem que a Mari e a Cecilia fossem navegantes. A Cecilia tem cabelo e cor de olhos bastante comum e a Mari... enfim, há muitas tipas de mau feitio por ai
Mas voces é que sabem... xDD
Quem tem a flor de Venus... hum... essa não digo..
Bem, eu não criei uma nova Linda. A Linda que eu tinha criado sempre fora assim, mas com um bichinho lá dentro. Desde o inicio da fanfic que eu pensei em mostrar uma Linda calma, simpática, responsável e etc.. enfim, a neta de Endymion e Serenity. Mas já pensava em, num capítulo mais à frente, ela perder a paciencia e mostrar a sua outra face. Como isse antes, decidi apressar esse momento, para preparar terreno
Tenho que ser sincera, esta parte das vozes do Kenji veio ao calhas... mas já tapa uns buraquinhos interessantes.
Já tou a preparar o novo capítulo e espero postá-lo ants do fim de Agosto. Até lá...
Agradeço a ti e à lulu por lerem a minha fanfic e mostrarem interesse nela
Não sei como conseguiste adorar a minha fanfic a lê-la desde o inicio. Tentei fazer o mesmo e fiquei de boca aberta com os erros (inacreditavel, mas eu pus a Cecília com cabelo liso no 3º capítulo.. não vou corrigir... faço de conta que naquele dia ela tinha esticado o cabelo xDD)
Como já tinha dito, canon é muito dificil, mas queria também escrever uma fanfic de sailor moon. Resultado: uma fanfic que fala de uma geração nunca mencionada. Agora qe se passaram anos e eu "evolui" a minha escrita (nalgum sentido...), vejo que podia ter ultilizado outros contornos nesta história. Mas enfim, começei, terei que terminar...
Mas eu nunca quis que voces pensassem que a Mari e a Cecilia fossem navegantes. A Cecilia tem cabelo e cor de olhos bastante comum e a Mari... enfim, há muitas tipas de mau feitio por ai

Mas voces é que sabem... xDD
Quem tem a flor de Venus... hum... essa não digo..
Bem, eu não criei uma nova Linda. A Linda que eu tinha criado sempre fora assim, mas com um bichinho lá dentro. Desde o inicio da fanfic que eu pensei em mostrar uma Linda calma, simpática, responsável e etc.. enfim, a neta de Endymion e Serenity. Mas já pensava em, num capítulo mais à frente, ela perder a paciencia e mostrar a sua outra face. Como isse antes, decidi apressar esse momento, para preparar terreno

Tenho que ser sincera, esta parte das vozes do Kenji veio ao calhas... mas já tapa uns buraquinhos interessantes.
Já tou a preparar o novo capítulo e espero postá-lo ants do fim de Agosto. Até lá...
Agradeço a ti e à lulu por lerem a minha fanfic e mostrarem interesse nela

Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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Ufa, já acabei...
Novo capítulo, pouco antes do fim do mês. Foi-me um pouco dificil de escrever, de mostrar todas as emoções que queria que as personagens sentissem. Com isto quero dizer... eu entendo que me queriam mandar tijolos pela péssima qualidade de escrita nos momentos romanticos.. em relação aos outros, acho que estão bem. Pelo menos gostei de imaginar e escrever sobre a batalha.
Espero que gostem
Capítulo 21 Os dançarinos | A Flor de Mercúrio parte 3
-tu…
Linda revirava a cabeça de um lado para o outro, quer para o rapaz, quer para Eiji, com raiva expressa nos olhos. Não sabia se haveria de bater num ou de bater no outro. Ambos mereciam. Um por ser um anormal que não sabe manter a boca fechada e outro por ser um idiota que não sabe estar quieto.
Com raiva de si própria, fechou olhos pesadamente e voltou a abri-los, para depois deslocar-se até ao biombo e afastá-lo, deixando o rapaz e a enfermeira fora de vista dela e de Eiji.
No meio de aquilo tudo, Linda esqueceu-se que havia mais dois ocupantes na divisão.
-Tu... tens noção do quanto és ridículo?
Eiji mordeu os lábios severamente. Já vira aquela expressão em Linda. E fora há pouco tempo. Bastava Eiji deixar a sua mente retornar umas semanas atrás, para voltar a ver aquele rosto triste e ao mesmo tempo zangado.
Focou os olhos no chão, evitando contacto visual com a amiga. Já esta parecia determinada a controlar o seu temperamento. Inspirou e expirou várias vezes, até que o silêncio desconfortável ocupou o ar.
-Porquê? – Perguntou ela de súbito.
-Ele… - Eiji considerou a resposta a dar. – Estava a dizer coisas sobre ti…
-E porque é que não deixaste? Tu sabes bem que eu não ligo ao que os outros dizem.
-Tu… eu não. – Murmurou o loiro.
Linda mordeu o lábio e virou o tronco para a porta. O professor Amadeus tardava e ela queria que ele viesse. Já era a terceira vez que ficava sozinha com Eiji. Todas precedidas por momentos constrangedores.
-E o Kenji e o Setsu? Como é que eles se meteram nisso, aliás, explica-me como tudo se passou.
-Basicamente estávamos na conversa, quando entrei ouvi uns tipos a falarem sobre uma rapariga. Diziam coisas mesmo…. – Eiji não acabou a frase, mas Linda entendeu – Não me conseguiu controlar e ataquei o que falava mais. O meu irmão e o Kenji tentaram separar-nos, mas quando eu disse que eles estavam a falar de ti, o Kenji também perdeu a cabeça e começou a bater neles todos. O Setsu acho que apenas se defendeu.
Linda suspirou pesadamente. Então o irmão tinha entrado numa luta para a proteger. Parecia-se bastante com o Kenji que tomara conta dela quando os avós estavam longe. Aquele menino que acariciava o seu rosto quando ela se sentia triste.
Era estranha a mudança. Parecia que, de repente, Kenji tivesse uma enorme necessidade de a proteger. De onde ela teria vindo? Não era por causa de Edward, aliás, logo após o encontro dos dois irmãos na universidade que Kenji revelou-se preocupado por qualquer detalhe da vida da irmã, até mesmo namorados. O que fizera Kenji mudar de atitude tão de repente?
E depois era Eiji. Não sabia ele estar quieto? As pessoas falavam, mas eram apenas isso. Palavras. Sem fundamentos, nem verdades. Apenas palavras.
A porta abriu-se e o professor de Educação de Física entrou. Franziu o sobrolho e, após uma pequena pausa dramática, disse, num tom de voz assustadoramente calmo:
-E eu que pensava que este ano tinha-me saído a sorte grande. Não só arranjo grandes alunos na dança, mas também nos miolos. E não é que, quando acabo de saber que os meus dois pares passaram à segunda fase com distinção – Linda e Eiji deixaram escapar um pequeno brilho no rosto, mas não interromperam o professor, cujo tom de voz estava agora mais sombrio – descubro que um dos meus alunos ANDOU À PORRADA! Inadmissível! E a Directora está aqui presente! QUE VERGONHA YAMAMOTO! QUE VERGONHA!
Amadeus soltou todo o ar preso nos pulmões, o rosto agora de cor púrpura. Cecília e Setsu estavam logo atrás dele, com as cabeças viradas para o chão. Sem dúvida que eles tinham ouvido um sermão semelhante, apesar de não terem sido eles os que andaram à luta.
Kenji surgiu do outro lado, seguido por Mari. Ao notar na presença deles, Linda olhou desconfiada para o irmão. Este estava extremamente nervoso, possivelmente devido ao facto de Mari ter-se apoiado nele, pousando a mão no seu ombro.
Do outro lado, saiu o rapaz, que lançou um olhar de ódio a Linda e aos três rapazes antes de sair. A enfermeira seguiu-o. Olhando cautelosamente para Amadeus e para Linda, aproximou-se de Eiji e examinou o seu pé.
-Tens sorte. Foi só uma pequena entorse. Se relaxares o pé durante uma semana, ficarás como novo. – Disse, evitando os olhos de todos.
-Uma semana? – Perguntou Amadeus, aterrorizado. – Mas então…
-Ele não pode dançar hoje, professor… lamento.
A enfermeira levantou-se e seguiu para Mari:
-Devias estar deitada.
-Eu estou bem. – Disse Mari, teimosamente.
-Veremos isso…
-Mas o que é que fazemos? – Perguntou Amadeus, mais para si do que para a enfermeira e os adolescentes. Colocou as suas mãos na cabeça, desesperado. – Se o Eiji não dança, será menos um par…
-Professor! – Chamou Cecília, interrompendo a tortura emocional de Amadeus, que rondava a sala. – E que tal o Kenji dançar com a Linda?
Todas as pessoas na divisão esperavam qualquer coisa, qualquer ideia vindo de Cecília. Tudo menos aquela…
Linda, Eiji, Mari e a enfermeira abriram a boca, incrédulos. Setsu olhou surpreendido para a morena. Kenji ficou pensativo e apenas Amadeus pareceu ter gostado da ideia.
-Hum… - olhou para Kenji, examinando-o. Como este era mais alto do que o professor, este teve que erguer a cabeça – Tu sabes dançar?
Antes que Kenji pudesse abrir a boca, já Cecília falava:
-Sim. Ele e a Linda tiveram o mesmo professor de dança. Além disso, ele e o Eiji são ambos loiros, quase da mesma altura e estrutura. Basta pôr uma máscara e o uniforme da escola que ninguém notará na diferença.
Quanto mais Cecília falava, mais incrédulos ficavam os ocupantes da enfermaria e mais sorridente Amadeus ficava, cujo rosto estava iluminado de excitação, como se a ideia de utilizar Kenji como dançarino substituto fosse dele e não da sua outra dançarina.
-Irei falar com o júri. Sei que é possível utilizar um substituto. – Lançou um olhar a Kenji, raciocinando os detalhes – é melhor ele utilizar uma máscara, pois não quero que ninguém se aperceba que o dançarino é um universitário.
Isso era um facto óbvio. Apesar de a diferença de idades ser de apenas quatro anos, dava para notar uma maior maturidade no rosto de Kenji do que no de Eiji.
-Ah… espere ai – Kenji não teve tempo para raciocinar na proposta. Amadeus desaparecera, arrastando Cecília consigo. A enfermeira mordia os lábios. Pouco antes de o professor desaparecer, ia preparar-se para dizer algo contra, mas o olhar ameaçador de Linda fê-la recuar.
-Ah…
-Fogo Kenji diz algo mais útil para variar.
E mais uma vez, o silêncio rondou a divisão. De todas as pessoas, esperava-se que o comentário viesse de qualquer pessoa menos de Linda.
Kenji virou-se para a irmã.
-Estás mesmo furiosa.
-Pudera, vocês os três andaram à porrada por minha causa…
-Hei… calminha, que eu não andei. Apenas os separei. – Interrompeu Setsu.
-Pois não. Tu não. Mas estes dois… Quando é que vocês ganham juízo?
Kenji e Eiji entreolharam-se, partilhando um sorriso. Linda semicerrou os olhos.
-Pensando bem, não me respondam. Prefiro não saber.
Mari não conseguiu deixar de sorrir, assim como os três rapazes.
Amadeus voltara, juntamente com Cecília e François.
-Está tudo pronto. Agora gostava de saber se cabes no uniforme do Eiji ou se…
-Acho que me aguento com o dele.
Claro que era mentira. Kenji tinha o tronco muito mais desenvolvido que Eiji. O uniforme ficava um pouco mais pequeno nos ombros. Mas fora isso, as calças e os sapatos acentuavam-lhe como uma luva, pois ambos calçavam o mesmo número e Eiji utilizava as calças um pouco mais abaixo que o normal, por causa das meias.
-Hum… e a música? Ele sabe a coreografia?
-Cá nos arranjamos professor – disse Linda, pegando numa das máscaras que Cecília tinha na mão. Afinal, se ele iria usar máscara, também ela o faria. Por algum motivo, sentiu-se estranha ao colocar a mascara. Não era a sensação comum do rosto escondido, da sua identidade ocultada a todos, de menos oxigénio para respirar. Não, era uma sensação... de conforto?
Linda esperou que o irmão se vestisse para o arrastar pelo braço porta fora. Cecília seguiu-a, com François atrás.
Nenhuma das duas notou no olhar furioso de Mari, ao ver o loiro a ser levado pela sua hóspede para outro lugar. Para dançar com ela.
Nenhuma delas notou que, em nenhum momento, Cecília deixara escapar que Kenji e Linda não tinham uma relação séria. Como tal, qualquer pessoa que não soubesse que eles eram irmãos, teria pensado que eles tinham algo mais… tal como Mari…
**
-Tens ideias?
-Ainda não me entrou na cabeça que vou dançar em frente a esta gente toda e já me estás a perguntar por ideias?
-Bem, eu já o fiz. – Disse Linda, mostrando um meio sorriso.
-Mas isso és tu. Eu cá não gosto de chamar as atenções.
Linda ergueu a sobrancelha
-Deveras?
-Claro… porque achas que não há uma única pessoa neste país que não me reconheça como sendo…
Kenji não acabou a frase, mas era óbvio o que ia dizer.
-Nunca conheci esse teu lado – sussurrou ela, respirando de alivio quando notou que ele não ouvira.
Linda deitou um olhar no irmão, que tinha colocado a máscara. Só olhando de perto é que se notava nas diferenças entre Kenji e Eiji. Só de perto se podia ver a cor azulada dos olhos do irmão, ao invés da cor de avelã do amigo.
-Estás perfeito.
Este não pareceu satisfeito. Pegou num maço de folhas e examinou-o atentamente:
-Qual música ias dançar com o Eiji?
Linda deu uma olhadela no bloco:
-Esta – disse, apontando. Kenji fez uma cara feia. Não conhecia a música.
-Hum… e que tal dançarmos… esta?
Linda ficou surpresa com a escolha do irmão.
-Estás louco? Essa foi a música que nós dançamos…
-Há quatro anos atrás, em pleno palácio – completou o loiro. – Sim, eu sei. Mas acho que devíamos fazê-lo de novo. A nossa técnica melhorou para melhor e devíamos esfregar isso na cara dele.
-Kenji, não me metas entre esta guerra entre ti e ele.
-Tu também fazes parte disto, não sei se te lembras. Afinal…. Ele queria casar-te com um tipo que não conhecias.
Aquilo calou-a. Rogou pragas a Edward e a Kenji pelos problemas que lhe davam, pela estúpida guerra fria que decorria em pleno pavilhão.
-Mas... e se alguém nos reconhecer?
-Quem é que nos pode reconhecer, para além dele e da Misaki? – Aí, Kenji pareceu-se lembrar de algo – Porra, às tantas a filha da Misaki ainda nos reconhece.
-Ah... a Cecília já sabe.
-Já sabe como? – Perguntou Kenji, surpreso.
-Ela viu-me a dançar com o Eiji e reconheceu-me logo.
-E não diz nada? Guarda segredo? – Perguntou ele, com receio.
-Por razões que só a mim e a ela dizem respeito. Sim, ela guarda segredo.
-Então está tudo bem – disse ele, mais para ele do que para ela. Linda calculou que, no fundo, o irmão esperava por uma desculpa para não ter que dançar.
Mas este não era o seu dia de sorte… E o dela parecia estar a esgotar-se.
-Achas mesmo que vamos conseguir?
Kenji virou-se para a irmã.
-Sim. Tu tens mesmo jeito para isto Linda, de certeza que vais conseguir. E eu lá estarei para te apoiar. – Disse, mostrando um sorriso quente, que foi retribuído pela irmã.
Linda pôs a máscara, que lhe cobria parte do rosto, e juntos dirigiram-se para junto dos outros participantes, de mão dada. Um sorriso nervoso pairava nos seus rostos, mas o simples toque de dedos que os dois irmãos partilhavam dava pequenas réstias de confiança a ambos.
Cecília fora primeiro, arrastando muitos pares para a derrota, mas não era o suficiente. Os campeões do ano passado, representantes de Juuban, davam tudo por tudo para os ultrapassar. As diversas técnicas e danças brilhavam no chão de madeira do pavilhão, uns mais do que outros.
Mas para Linda e Kenji nada disso importava. Ela queria acabar aquilo o mais depressa possível. Queria acabar a conversa com Eiji que, por várias vezes fora interrompida. Queria ouvir o que ele tinha a dizer e, finalmente, revelar-lhe os seus sentimentos. Ou melhor, parte deles. A timidez de Linda impedia que ela chegasse ao pé dele e o beijasse em frente a tudo e todos.
Não! Ela iria com calma, querendo saber se ele ainda se encontrava interessado nela, ou então, apenas falar com ele, a fim de arranjar uma certeza para todas aquelas emoções reveladas.
Já Kenji tinha diferentes intenções. Por um lado queria dançar e mostrar a Edward que podia ser melhor do que ele na dança, ponto forte do seu progenitor. Provar-lhe que estava junto de Linda para o bem e para o mal. E, acima de tudo, mostrar-lhe que se encontrava bem sem ele. Sem o homem que o deserdara.
Mas havia também uma outra razão. A voz voltara a falar para Kenji, que já se sentia desesperado à custa disso. Não sabia o que causava aquela mudança, mas sempre que a voz falava, o seu coração dava um salto, quase querendo sair pela caixa torácica. E ficava tão zonzo que até se esquecia do que estava a falar no momento em que a voz surgira.
Só encontrava uma explicação. Quando a voz surgia, todos os seus pensamentos giravam em torno de uma loira de olhos verdes…
Talvez desapareça durante a dança… se me mantiver ocupado, pensou, enquanto inspirava e expirava repetidamente, tentando relaxar. Mas se não era a pressão que o treinador de Linda lhe punha ao dar-lhe conselhos, o olhar castanho de Edward nele e na irmã ou Setsu a gritar ao longe “Força Eunuco!” que o punham com os nervos em franja, era o facto de saber que Mari o olhava nas bancadas, junto de Aiko.
Linda avançou, empurrando levemente o irmão. E a música começou.
Quase ninguém notou na alteração do par. Alias, todas as atenções estavam na rapariga.
Nenhum deles esperava que a música, uma mistura de tango e salsa, tivesse voz. Tinham dançado com apenas o instrumental no baile, mas ali… a voz de uma mulher gritava pelas colunas uma letra em espanhol.
Teriam feito uma péssima figura se não soubessem o que a cantora dizia. Mas eles sabiam, pois tinham-na ouvido pela primeira vez em Espanha e Linda dera-se ao trabalho de traduzir a música, de modo a conhecê-la melhor.
O facto de a música ter sons vocais, obrigava a coreografia a alterar-se.
Uma dama…
Amada por todos…
Querida por todos…
Senhora de um coração de ouro…
E de uma alma pura…
Possuidora de extrema beleza…
Fadada por um instinto de orientação…
Uma princesa…
Linda deixou-se guiar por Kenji. Sendo ela a ‘princesa’, tinha que deixar o seu par curvar-se para ela. O seu tronco mal se movia, apenas os pés, que realizavam um monte de piruetas suportadas pelo seu porte digno de uma princesa. Ele agarrou a mão dela e fê-la girar por cima dele, colocando-se de cocas. No chão, ela realizou uma espargata rápida e perfeita. Graciosidade, leves movimentos de cabeça. A máscara tapava o seu rosto, mas não o riso forçado e cordial que Linda tanto aprendera no palácio. Os braços abriram-se em forma de ballet, cumprimentando o Júri, enquanto ele se curvava, submisso à sua beleza. Ela passou a mão esquerda pelo seu corpo, dando destaque às suas curvas que, com a luz emitida e com os movimentos graciosos dela, se destacavam ainda mais.
Aproximaram-se e dançaram sem se tocar. Ele fingiu ser ninguém e querê-la. Tentava tocar-lhe no rosto, mas o máximo que conseguia era ter ela a abanar levemente as ancas de costas para ele, como que seduzindo-o. E ela afastou-se, mas deixando que ele agarrasse a sua mão e a conduzisse numa valsa regular, no segundo refrão.
Dançaram separados, aproximando-se lentamente. Se Linda estivesse a dançar com Eiji, um toque nos lábios selaria a magnificência da dança.
Mas não era Eiji que dançava com ela. Era o seu irmão. Os laços de sangue impediam-na de se aproximar mais.
‘Será sempre uma princesa’
Ao som da frase, Kenji aproximou-se do rosto dela, que aterrorizada, não se moveu. E depois, em movimentos rápidos e precisos, ajoelhou-se e beijou-lhe a mão, rendido aos seus pés. O beijo na mão foi feito com tanto sentimento, que causou o mesmo efeito que teria se Linda o tivesse beijado nos lábios. Ou até mais…
Ele fê-la rodar e ter o seu corpo junto do dela. Ela acenou e sorriu, satisfeita. Afastou-se e, dois segundos antes de a música terminar, fez uma vénia ao seu par.
E a dança terminara. Minutos que mais pareceram séculos. Para muitos, o par vencedor já estava decidido, mas a competência também era feroz. O Júri tinha, pela primeira vez, um caso difícil.
Mas o par sensação já tinha desaparecido. Eram agora abraçados pelos colegas, amigos e por Amadeus, que não parava de felicitar Kenji e Linda. Eiji apareceu, vindo de trás e, quando se preparava para abraçar a amiga, esta agarrou na sua mão e levou-o para fora do frenesim de pessoas.
Kenji olhou em volta, procurando a irmã e o amigo, mas apenas viu Mari a fixá-lo.
Se ele não se tivesse preocupado tanto em virar-se tão depressa quando o seu olhar se cruzara com a loira, teria notado que esta olhara para ele com uma fúria cega nos seus olhos, agora num verde-escuro. Teria notado que ela quase que fuzilara Linda com os olhos quando a vira desaparecer com Eiji e teria notado que ela não respondia a nada que Aiko dissesse, querendo controlar o seu feroz temperamento.
Se ele tivesse notado… mas não notou…
Novo capítulo, pouco antes do fim do mês. Foi-me um pouco dificil de escrever, de mostrar todas as emoções que queria que as personagens sentissem. Com isto quero dizer... eu entendo que me queriam mandar tijolos pela péssima qualidade de escrita nos momentos romanticos.. em relação aos outros, acho que estão bem. Pelo menos gostei de imaginar e escrever sobre a batalha.
Espero que gostem

Capítulo 21 Os dançarinos | A Flor de Mercúrio parte 3
-tu…
Linda revirava a cabeça de um lado para o outro, quer para o rapaz, quer para Eiji, com raiva expressa nos olhos. Não sabia se haveria de bater num ou de bater no outro. Ambos mereciam. Um por ser um anormal que não sabe manter a boca fechada e outro por ser um idiota que não sabe estar quieto.
Com raiva de si própria, fechou olhos pesadamente e voltou a abri-los, para depois deslocar-se até ao biombo e afastá-lo, deixando o rapaz e a enfermeira fora de vista dela e de Eiji.
No meio de aquilo tudo, Linda esqueceu-se que havia mais dois ocupantes na divisão.
-Tu... tens noção do quanto és ridículo?
Eiji mordeu os lábios severamente. Já vira aquela expressão em Linda. E fora há pouco tempo. Bastava Eiji deixar a sua mente retornar umas semanas atrás, para voltar a ver aquele rosto triste e ao mesmo tempo zangado.
Focou os olhos no chão, evitando contacto visual com a amiga. Já esta parecia determinada a controlar o seu temperamento. Inspirou e expirou várias vezes, até que o silêncio desconfortável ocupou o ar.
-Porquê? – Perguntou ela de súbito.
-Ele… - Eiji considerou a resposta a dar. – Estava a dizer coisas sobre ti…
-E porque é que não deixaste? Tu sabes bem que eu não ligo ao que os outros dizem.
-Tu… eu não. – Murmurou o loiro.
Linda mordeu o lábio e virou o tronco para a porta. O professor Amadeus tardava e ela queria que ele viesse. Já era a terceira vez que ficava sozinha com Eiji. Todas precedidas por momentos constrangedores.
-E o Kenji e o Setsu? Como é que eles se meteram nisso, aliás, explica-me como tudo se passou.
-Basicamente estávamos na conversa, quando entrei ouvi uns tipos a falarem sobre uma rapariga. Diziam coisas mesmo…. – Eiji não acabou a frase, mas Linda entendeu – Não me conseguiu controlar e ataquei o que falava mais. O meu irmão e o Kenji tentaram separar-nos, mas quando eu disse que eles estavam a falar de ti, o Kenji também perdeu a cabeça e começou a bater neles todos. O Setsu acho que apenas se defendeu.
Linda suspirou pesadamente. Então o irmão tinha entrado numa luta para a proteger. Parecia-se bastante com o Kenji que tomara conta dela quando os avós estavam longe. Aquele menino que acariciava o seu rosto quando ela se sentia triste.
Era estranha a mudança. Parecia que, de repente, Kenji tivesse uma enorme necessidade de a proteger. De onde ela teria vindo? Não era por causa de Edward, aliás, logo após o encontro dos dois irmãos na universidade que Kenji revelou-se preocupado por qualquer detalhe da vida da irmã, até mesmo namorados. O que fizera Kenji mudar de atitude tão de repente?
E depois era Eiji. Não sabia ele estar quieto? As pessoas falavam, mas eram apenas isso. Palavras. Sem fundamentos, nem verdades. Apenas palavras.
A porta abriu-se e o professor de Educação de Física entrou. Franziu o sobrolho e, após uma pequena pausa dramática, disse, num tom de voz assustadoramente calmo:
-E eu que pensava que este ano tinha-me saído a sorte grande. Não só arranjo grandes alunos na dança, mas também nos miolos. E não é que, quando acabo de saber que os meus dois pares passaram à segunda fase com distinção – Linda e Eiji deixaram escapar um pequeno brilho no rosto, mas não interromperam o professor, cujo tom de voz estava agora mais sombrio – descubro que um dos meus alunos ANDOU À PORRADA! Inadmissível! E a Directora está aqui presente! QUE VERGONHA YAMAMOTO! QUE VERGONHA!
Amadeus soltou todo o ar preso nos pulmões, o rosto agora de cor púrpura. Cecília e Setsu estavam logo atrás dele, com as cabeças viradas para o chão. Sem dúvida que eles tinham ouvido um sermão semelhante, apesar de não terem sido eles os que andaram à luta.
Kenji surgiu do outro lado, seguido por Mari. Ao notar na presença deles, Linda olhou desconfiada para o irmão. Este estava extremamente nervoso, possivelmente devido ao facto de Mari ter-se apoiado nele, pousando a mão no seu ombro.
Do outro lado, saiu o rapaz, que lançou um olhar de ódio a Linda e aos três rapazes antes de sair. A enfermeira seguiu-o. Olhando cautelosamente para Amadeus e para Linda, aproximou-se de Eiji e examinou o seu pé.
-Tens sorte. Foi só uma pequena entorse. Se relaxares o pé durante uma semana, ficarás como novo. – Disse, evitando os olhos de todos.
-Uma semana? – Perguntou Amadeus, aterrorizado. – Mas então…
-Ele não pode dançar hoje, professor… lamento.
A enfermeira levantou-se e seguiu para Mari:
-Devias estar deitada.
-Eu estou bem. – Disse Mari, teimosamente.
-Veremos isso…
-Mas o que é que fazemos? – Perguntou Amadeus, mais para si do que para a enfermeira e os adolescentes. Colocou as suas mãos na cabeça, desesperado. – Se o Eiji não dança, será menos um par…
-Professor! – Chamou Cecília, interrompendo a tortura emocional de Amadeus, que rondava a sala. – E que tal o Kenji dançar com a Linda?
Todas as pessoas na divisão esperavam qualquer coisa, qualquer ideia vindo de Cecília. Tudo menos aquela…
Linda, Eiji, Mari e a enfermeira abriram a boca, incrédulos. Setsu olhou surpreendido para a morena. Kenji ficou pensativo e apenas Amadeus pareceu ter gostado da ideia.
-Hum… - olhou para Kenji, examinando-o. Como este era mais alto do que o professor, este teve que erguer a cabeça – Tu sabes dançar?
Antes que Kenji pudesse abrir a boca, já Cecília falava:
-Sim. Ele e a Linda tiveram o mesmo professor de dança. Além disso, ele e o Eiji são ambos loiros, quase da mesma altura e estrutura. Basta pôr uma máscara e o uniforme da escola que ninguém notará na diferença.
Quanto mais Cecília falava, mais incrédulos ficavam os ocupantes da enfermaria e mais sorridente Amadeus ficava, cujo rosto estava iluminado de excitação, como se a ideia de utilizar Kenji como dançarino substituto fosse dele e não da sua outra dançarina.
-Irei falar com o júri. Sei que é possível utilizar um substituto. – Lançou um olhar a Kenji, raciocinando os detalhes – é melhor ele utilizar uma máscara, pois não quero que ninguém se aperceba que o dançarino é um universitário.
Isso era um facto óbvio. Apesar de a diferença de idades ser de apenas quatro anos, dava para notar uma maior maturidade no rosto de Kenji do que no de Eiji.
-Ah… espere ai – Kenji não teve tempo para raciocinar na proposta. Amadeus desaparecera, arrastando Cecília consigo. A enfermeira mordia os lábios. Pouco antes de o professor desaparecer, ia preparar-se para dizer algo contra, mas o olhar ameaçador de Linda fê-la recuar.
-Ah…
-Fogo Kenji diz algo mais útil para variar.
E mais uma vez, o silêncio rondou a divisão. De todas as pessoas, esperava-se que o comentário viesse de qualquer pessoa menos de Linda.
Kenji virou-se para a irmã.
-Estás mesmo furiosa.
-Pudera, vocês os três andaram à porrada por minha causa…
-Hei… calminha, que eu não andei. Apenas os separei. – Interrompeu Setsu.
-Pois não. Tu não. Mas estes dois… Quando é que vocês ganham juízo?
Kenji e Eiji entreolharam-se, partilhando um sorriso. Linda semicerrou os olhos.
-Pensando bem, não me respondam. Prefiro não saber.
Mari não conseguiu deixar de sorrir, assim como os três rapazes.
Amadeus voltara, juntamente com Cecília e François.
-Está tudo pronto. Agora gostava de saber se cabes no uniforme do Eiji ou se…
-Acho que me aguento com o dele.
Claro que era mentira. Kenji tinha o tronco muito mais desenvolvido que Eiji. O uniforme ficava um pouco mais pequeno nos ombros. Mas fora isso, as calças e os sapatos acentuavam-lhe como uma luva, pois ambos calçavam o mesmo número e Eiji utilizava as calças um pouco mais abaixo que o normal, por causa das meias.
-Hum… e a música? Ele sabe a coreografia?
-Cá nos arranjamos professor – disse Linda, pegando numa das máscaras que Cecília tinha na mão. Afinal, se ele iria usar máscara, também ela o faria. Por algum motivo, sentiu-se estranha ao colocar a mascara. Não era a sensação comum do rosto escondido, da sua identidade ocultada a todos, de menos oxigénio para respirar. Não, era uma sensação... de conforto?
Linda esperou que o irmão se vestisse para o arrastar pelo braço porta fora. Cecília seguiu-a, com François atrás.
Nenhuma das duas notou no olhar furioso de Mari, ao ver o loiro a ser levado pela sua hóspede para outro lugar. Para dançar com ela.
Nenhuma delas notou que, em nenhum momento, Cecília deixara escapar que Kenji e Linda não tinham uma relação séria. Como tal, qualquer pessoa que não soubesse que eles eram irmãos, teria pensado que eles tinham algo mais… tal como Mari…
**
-Tens ideias?
-Ainda não me entrou na cabeça que vou dançar em frente a esta gente toda e já me estás a perguntar por ideias?
-Bem, eu já o fiz. – Disse Linda, mostrando um meio sorriso.
-Mas isso és tu. Eu cá não gosto de chamar as atenções.
Linda ergueu a sobrancelha
-Deveras?
-Claro… porque achas que não há uma única pessoa neste país que não me reconheça como sendo…
Kenji não acabou a frase, mas era óbvio o que ia dizer.
-Nunca conheci esse teu lado – sussurrou ela, respirando de alivio quando notou que ele não ouvira.
Linda deitou um olhar no irmão, que tinha colocado a máscara. Só olhando de perto é que se notava nas diferenças entre Kenji e Eiji. Só de perto se podia ver a cor azulada dos olhos do irmão, ao invés da cor de avelã do amigo.
-Estás perfeito.
Este não pareceu satisfeito. Pegou num maço de folhas e examinou-o atentamente:
-Qual música ias dançar com o Eiji?
Linda deu uma olhadela no bloco:
-Esta – disse, apontando. Kenji fez uma cara feia. Não conhecia a música.
-Hum… e que tal dançarmos… esta?
Linda ficou surpresa com a escolha do irmão.
-Estás louco? Essa foi a música que nós dançamos…
-Há quatro anos atrás, em pleno palácio – completou o loiro. – Sim, eu sei. Mas acho que devíamos fazê-lo de novo. A nossa técnica melhorou para melhor e devíamos esfregar isso na cara dele.
-Kenji, não me metas entre esta guerra entre ti e ele.
-Tu também fazes parte disto, não sei se te lembras. Afinal…. Ele queria casar-te com um tipo que não conhecias.
Aquilo calou-a. Rogou pragas a Edward e a Kenji pelos problemas que lhe davam, pela estúpida guerra fria que decorria em pleno pavilhão.
-Mas... e se alguém nos reconhecer?
-Quem é que nos pode reconhecer, para além dele e da Misaki? – Aí, Kenji pareceu-se lembrar de algo – Porra, às tantas a filha da Misaki ainda nos reconhece.
-Ah... a Cecília já sabe.
-Já sabe como? – Perguntou Kenji, surpreso.
-Ela viu-me a dançar com o Eiji e reconheceu-me logo.
-E não diz nada? Guarda segredo? – Perguntou ele, com receio.
-Por razões que só a mim e a ela dizem respeito. Sim, ela guarda segredo.
-Então está tudo bem – disse ele, mais para ele do que para ela. Linda calculou que, no fundo, o irmão esperava por uma desculpa para não ter que dançar.
Mas este não era o seu dia de sorte… E o dela parecia estar a esgotar-se.
-Achas mesmo que vamos conseguir?
Kenji virou-se para a irmã.
-Sim. Tu tens mesmo jeito para isto Linda, de certeza que vais conseguir. E eu lá estarei para te apoiar. – Disse, mostrando um sorriso quente, que foi retribuído pela irmã.
Linda pôs a máscara, que lhe cobria parte do rosto, e juntos dirigiram-se para junto dos outros participantes, de mão dada. Um sorriso nervoso pairava nos seus rostos, mas o simples toque de dedos que os dois irmãos partilhavam dava pequenas réstias de confiança a ambos.
Cecília fora primeiro, arrastando muitos pares para a derrota, mas não era o suficiente. Os campeões do ano passado, representantes de Juuban, davam tudo por tudo para os ultrapassar. As diversas técnicas e danças brilhavam no chão de madeira do pavilhão, uns mais do que outros.
Mas para Linda e Kenji nada disso importava. Ela queria acabar aquilo o mais depressa possível. Queria acabar a conversa com Eiji que, por várias vezes fora interrompida. Queria ouvir o que ele tinha a dizer e, finalmente, revelar-lhe os seus sentimentos. Ou melhor, parte deles. A timidez de Linda impedia que ela chegasse ao pé dele e o beijasse em frente a tudo e todos.
Não! Ela iria com calma, querendo saber se ele ainda se encontrava interessado nela, ou então, apenas falar com ele, a fim de arranjar uma certeza para todas aquelas emoções reveladas.
Já Kenji tinha diferentes intenções. Por um lado queria dançar e mostrar a Edward que podia ser melhor do que ele na dança, ponto forte do seu progenitor. Provar-lhe que estava junto de Linda para o bem e para o mal. E, acima de tudo, mostrar-lhe que se encontrava bem sem ele. Sem o homem que o deserdara.
Mas havia também uma outra razão. A voz voltara a falar para Kenji, que já se sentia desesperado à custa disso. Não sabia o que causava aquela mudança, mas sempre que a voz falava, o seu coração dava um salto, quase querendo sair pela caixa torácica. E ficava tão zonzo que até se esquecia do que estava a falar no momento em que a voz surgira.
Só encontrava uma explicação. Quando a voz surgia, todos os seus pensamentos giravam em torno de uma loira de olhos verdes…
Talvez desapareça durante a dança… se me mantiver ocupado, pensou, enquanto inspirava e expirava repetidamente, tentando relaxar. Mas se não era a pressão que o treinador de Linda lhe punha ao dar-lhe conselhos, o olhar castanho de Edward nele e na irmã ou Setsu a gritar ao longe “Força Eunuco!” que o punham com os nervos em franja, era o facto de saber que Mari o olhava nas bancadas, junto de Aiko.
Linda avançou, empurrando levemente o irmão. E a música começou.
Quase ninguém notou na alteração do par. Alias, todas as atenções estavam na rapariga.
Nenhum deles esperava que a música, uma mistura de tango e salsa, tivesse voz. Tinham dançado com apenas o instrumental no baile, mas ali… a voz de uma mulher gritava pelas colunas uma letra em espanhol.
Teriam feito uma péssima figura se não soubessem o que a cantora dizia. Mas eles sabiam, pois tinham-na ouvido pela primeira vez em Espanha e Linda dera-se ao trabalho de traduzir a música, de modo a conhecê-la melhor.
O facto de a música ter sons vocais, obrigava a coreografia a alterar-se.
Uma dama…
Amada por todos…
Querida por todos…
Senhora de um coração de ouro…
E de uma alma pura…
Possuidora de extrema beleza…
Fadada por um instinto de orientação…
Uma princesa…
Linda deixou-se guiar por Kenji. Sendo ela a ‘princesa’, tinha que deixar o seu par curvar-se para ela. O seu tronco mal se movia, apenas os pés, que realizavam um monte de piruetas suportadas pelo seu porte digno de uma princesa. Ele agarrou a mão dela e fê-la girar por cima dele, colocando-se de cocas. No chão, ela realizou uma espargata rápida e perfeita. Graciosidade, leves movimentos de cabeça. A máscara tapava o seu rosto, mas não o riso forçado e cordial que Linda tanto aprendera no palácio. Os braços abriram-se em forma de ballet, cumprimentando o Júri, enquanto ele se curvava, submisso à sua beleza. Ela passou a mão esquerda pelo seu corpo, dando destaque às suas curvas que, com a luz emitida e com os movimentos graciosos dela, se destacavam ainda mais.
Aproximaram-se e dançaram sem se tocar. Ele fingiu ser ninguém e querê-la. Tentava tocar-lhe no rosto, mas o máximo que conseguia era ter ela a abanar levemente as ancas de costas para ele, como que seduzindo-o. E ela afastou-se, mas deixando que ele agarrasse a sua mão e a conduzisse numa valsa regular, no segundo refrão.
Dançaram separados, aproximando-se lentamente. Se Linda estivesse a dançar com Eiji, um toque nos lábios selaria a magnificência da dança.
Mas não era Eiji que dançava com ela. Era o seu irmão. Os laços de sangue impediam-na de se aproximar mais.
‘Será sempre uma princesa’
Ao som da frase, Kenji aproximou-se do rosto dela, que aterrorizada, não se moveu. E depois, em movimentos rápidos e precisos, ajoelhou-se e beijou-lhe a mão, rendido aos seus pés. O beijo na mão foi feito com tanto sentimento, que causou o mesmo efeito que teria se Linda o tivesse beijado nos lábios. Ou até mais…
Ele fê-la rodar e ter o seu corpo junto do dela. Ela acenou e sorriu, satisfeita. Afastou-se e, dois segundos antes de a música terminar, fez uma vénia ao seu par.
E a dança terminara. Minutos que mais pareceram séculos. Para muitos, o par vencedor já estava decidido, mas a competência também era feroz. O Júri tinha, pela primeira vez, um caso difícil.
Mas o par sensação já tinha desaparecido. Eram agora abraçados pelos colegas, amigos e por Amadeus, que não parava de felicitar Kenji e Linda. Eiji apareceu, vindo de trás e, quando se preparava para abraçar a amiga, esta agarrou na sua mão e levou-o para fora do frenesim de pessoas.
Kenji olhou em volta, procurando a irmã e o amigo, mas apenas viu Mari a fixá-lo.
Se ele não se tivesse preocupado tanto em virar-se tão depressa quando o seu olhar se cruzara com a loira, teria notado que esta olhara para ele com uma fúria cega nos seus olhos, agora num verde-escuro. Teria notado que ela quase que fuzilara Linda com os olhos quando a vira desaparecer com Eiji e teria notado que ela não respondia a nada que Aiko dissesse, querendo controlar o seu feroz temperamento.
Se ele tivesse notado… mas não notou…
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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-Foram fabulosos, não foram? – Perguntou a Directora, maravilhada.
-Sim – respondeu Edward simplesmente, tentando disfarçar um sorriso de orgulho.
Eles eram perfeitos. Os dois. A forma de eles dançarem deixava qualquer um rendido. Ele sentira todas as emoções possíveis naquela dança. Como se eles tivessem representado uma história de amor impossível, ou então apenas um relato do esplendor de uma princesa.
Ele apostava no segundo. Ela era tão bela quanto a mãe, e dançava tão bem quanto ele. Se Edward tivesse dançado aquela música com a esposa anos antes, teria feito muito melhor do que Kenji e ela, sendo Real de berço, teria parte do brilho da filha.
Mas nem Kenji nem Usagi eram tão bons quanto Linda e Edward.
Oh não, isso é algo que eu passei apenas a ela…
Tinha agora novos planos. Iria tentar falar com a filha no final do torneio, dar-lhe os parabéns pela prestação. Vê-la de perto, como nunca a tinha visto em anos. E depois regressaria para casa, e contaria à sua esposa no quão bela e talentosa a sua filha mais nova se tornara. E caso perguntasse por Kenji… bem, diria que ele estava são e junto da irmã. Essas notícias chegariam para ela.
Afinal, chegavam para ele…
**
-Foste brilhante.
-A sério?
-Sim, se eu não soubesse que tu e o Ken fossem irmão eu…
-Eiji – interrompeu a morena, tentando respirar. Tal como antes, tentava recuperar o fôlego lentamente. – Deixa-me…
-O quê?
Ela olhou para ele. Os seus olhos cor de avelã tinham um brilho invulgar quando fitavam os seus olhos azuis. E ele sorria. Aquele seu sorriso que punha as pernas dela a tremer que nem gelatina.
Céus, ele não me pode estar a fazer isto.
-Como está o teu pé? – Tentou mudar de assunto, rezando para que o seu coração parasse de saltitar e que a sua respiração voltasse ao normal.
Eiji deitou um olhar pé esquerdo, envolto em ligaduras leves.
-Melhor – disse, suspirando. – A enfermeira não vai abrir a boca, devido ao tratamento lento que me deu e a mim e à Mari. Como tal, não ficarei em sarilhos e ninguém saberá que um universitário dançou por mim.
-Que bom.
Linda sentou-se no banco mais próximo. Estavam nos corredores da escola, onde várias fotográficas que estudantes já formados decoravam as suas paredes, pintadas em cores leves de verde e creme.
-Lindinha?
Ela sorriu, mas não respondeu. Sabia que ele lhe chamara de ‘Lindinha’ só para a animar.
Ele sentou-se ao seu lado. Passou a sua mão pelo ombro dela em tom de conforto, mas Linda não aceitou o toque a bem. Levantou-se de repente e ficou de costas voltada para ele.
-O que me escondes?
-Adivinha – respondeu ela, entre suspiros. Estava tão nervosa…
Ele largou um pequeno sorriso e observou-a de costas. Ela tinha os braços cruzados, como se protegesse do frio. Mas ele sabia que, naquele momento, frio era o que Linda menos sentia.
Tão nervosa, tão tímida, tão querida, tão bela…
Tinha-se apaixonado por ela por estas qualidades, que agora se agrupavam todas naquela figura esbelta, como querendo enlouquece-lo.
Levantou-se silenciosamente e, sem dar um pequeno som de aviso à morena, abraçou-a por trás.
Ela era tão pequena em comparação a ele, que os seus braços envolviam-na toda e ainda quase que chegava a uma segunda volta. O cheiro do suor dela punha-o louco. Mas ela não o largou. Em vez disso, tornou o seu corpo para ele, deixando os rostos a apenas uns centímetros de distância.
Os corações seguiam agora o menos compasso de ritmo. Calmo e harmonioso, como se ambas as almas tivessem esperado por aquele momento em séculos.
-Conseguiste – murmurou ela, erguendo a cabeça, deixando o seu nariz roçar no queixo dele.
-O que consegui? – Ele já sabia do que ela falava, mas tinha que saber. Tinha que ouvi-la dizer as palavras.
-Conseguiste-me pôr louca por ti.
Perderam a noção das coisas. Num segundo, ele sorria e puxava-a para perto dele, noutro a boca dele tomava a dela, suavemente, mas deixando transparecer o desejo há muito guardado.
Linda sentiu uma explosão de sabores ao mesmo tempo. O seu coração disparou, enquanto ele punha as suas mãos nas ancas dela, puxando-a para cima, facilitando o beijo. Os lábios dele roçaram nos dela, levemente, aumentando o desejo, antes de tomá-la de novo, desta vez, num beijo mais selvagem.
Querendo poupar forças, ele soltou-a e baixou-se para ela. Enquanto uma mão segurava a anca dela, a outra massajava os cabelos dela, em busca de algo. Quando encontrou o que procurava, fez um pequeno movimento de dedos e, um segundo depois, Linda tinha o seu cabelo livre.
O cabelo dela, agora ondulado, só mostrava a Eiji a Linda que ele queria beijar. A rapariga que ela escondia atrás dos óculos e de totós. A bela moça que o hipnotizava com um simples olhar. E que o deixava louco.
Ele afastou-se, mirando-a. Ela sorria, um pouco surpreendida.
-O que foi? – Perguntou ele, estranhando a reacção da rapariga.
-Nunca achei que fosse assim – disse ela.
-Assim como? Queres dizer…
-Nunca nenhum outro homem me beijara antes. Tinha lido sobre… como era… nos livros… mas a realidade é muito melhor. – Ela sorriu, relaxando-o.
Também pensa lá. Estamos a falar do primeiro beijo, não da….
Eiji teve um outro pensamento, mas não se atreveu a partilhar com ela. Era obvio que, se ela nunca tivesse beijado ninguém então também…
Porque raio te preocupas?
Porque ele gostava de ser o primeiro. Não só fazia bem ao seu ego, como também tornava o romance mais quente, ligava-os mais. O facto das grandes experiencias no amor teriam sido realizadas com a mesma pessoa, dava uma sensação de conforto no par. Conseguiam confiar um no outro. E o romance evoluía e nada (ou quase nada) podia acabar com a flor mais bela do jardim da Vida.
Levou os lábios aos dela, tocando suavemente. Ela retribuiu, mordendo o lábio quando ele se afastou.
Continuavam abraçados e ela agora tinha a cabeça pousada no tronco dele, deixando-o com o rosto sobre os seus cabelos.
-Eu sabia – disse ele por fim. – Eu sabia que te conseguia convencer.
Ela nada disse, apenas sorriu.
**
Cho estava no gabinete da Directora da sua escola, procurando uns papéis. A busca já era demorada e ela já mal sabia o que de facto viera lá à procura.
O gabinete estava agora uma desarrumação. Onde raios estariam os papeis que a sua chefe pedira?
Olhou para o grande relógio branco com ponteiros negros. 20h15. O Júri tinha-se juntado, a fim de decidir o par vencedor, enquanto todos os restantes comiam um jantar leve.
Ao pensar em jantar, o seu estômago rugiu, reclamando por reabastecimento. Cho desejou um prato de sushi de goiaba, o seu preferido, a acompanhar com vinho branco. E para sobremesa, umas natas do céu.
Infelizmente, tinha que se contentar com uma lata de Coca-Cola e um bolo gorduroso da máquina de petiscos.
Fez uma careta e encolheu os ombros. Iria comer algo e depois voltaria. Também a Directora não precisava dos papéis com urgência. Voltou a arrumar as coisas e fechou a porta do gabinete.
Ao caminhar pelos corredores, o seu corpo foi percorrido por uma sensação estranha. Como se estivesse alguém atrás de si.
Ao ouvir um barulho vindo de trás, virou-se, assustada.
Calma, Cho. Não se passa nada, disse para si própria.
Quando se voltou a virar viu um homem à sua frente, que lhe sorria maliciosamente.
Só teve tempo de gritar até tudo ficar negro.
**
Aquela sensação não parecia ter fim. As borboletas no estômago punham-na a tremer o corpo todo. Ela estava deitada no banco, com a cabeça no ombro dele, enquanto ele abraçava-a. Por várias vezes ele beijou o pescoço dela carinhosamente, como se tocasse numa flor. Ela sentia-se leve e protegida naqueles braços. Uma princesa envolta numa fortaleza guardada por um cavaleiro de cavalo branco.
Bem, tecnicamente ela era uma princesa e Eiji era o seu cavaleiro que, naquele momento, a protegia de uma ameaça desconhecida. Durante vários minutos, ela esqueceu-se do que se passava à sua volta e ele também. Deixou-se guiar por aquela sensação de prazer que ela nunca sentira antes.
Querendo passar o tempo, observaram as fotografias nas paredes, contando os elementos de cada turma ou comparando os uniformes e as suas alterações ao longo dos anos.
Até que os olhos dele se focaram numa determinada fotografia. Um pormenor chamara-o a atenção:
-Hei! Esta aqui… pareces tu!
Linda observou Eiji a levantar-se do banco e a aproximar-se de uma fotografia das mais antigas. Ao longe, viu uma turma com o uniforme de Juuban azul-escuro e branco, com uma linha vermelha no colarinho. Não reconheceu caras, mas reconheceu o original penteado de Usagi Tsukino.
Levantou-se e juntou-se a ele, examinando a foto. Viu Ami, do lado esquerdo da avó, segurando um livro de capa turquesa e sem óculos. Minako estava à direita, pousando as mãos no ombro da avó, enquanto fazia pose para a câmara. Makoto, a mais alta, estava atrás, por entre Ami e Usagi e sorria alegremente de Minako, que se destacava, propositadamente, na foto. Faltava Rei, que estudara noutro colégio, mas sabia, pelo gesto que Makoto fazia ao seu lado direito, onde não estava ninguém, que elas tinham de algum modo guardado lugar para a sua amiga.
A sua avó sorria. Mas já não era o sorriso de criança pelo qual fora sempre conhecida. Era já o sorriso da mãe de Small Lady e da avó de Linda e Kenji, uma mulher madura e responsável. Era a única com um adorno especial. Um alfinete dourado com asas decorava a fita azul escura do seu uniforme que, juntamente com o seu penteado, tornava Usagi a mais original da turma.
-É a minha avó.
-Estranho… podia jurar que, quando olhei para ela estava a ver…
-A mim? – Cortou ela, já ciente da resposta.
-Não, o Kenji.
Linda não acreditou.
-Estás a gozar!
-Quem me dera. É verdade que são parecidas, mas é que… olha para o olhar que ela está a fazer. Ela, aquela loira toda excitada – Linda sorriu ao vê-lo apontar para Minako – a de cabelos azuis e a morena atrás parecem ser a únicas relaxadas ali. O Kenji também nos olha assim, quando está relaxado.
Era verdade. Apesar de a expressão ser diferente, uma pequena semelhança notava-se entre avó e neto. Ambos pareciam seguros, alegres, sem preocupações. Mas o que tornava o olhar de ambos tão parecidos, era o facto de eles aparentarem não terem preocupações, mas no fundo terem.
Usagi era uma navegante, princesa da Lua e futura rainha
Kenji era o irmão mais velho de uma navegante, príncipe de Cristal Tokyo e futuro rei.
Para além de outras coisas…
Eiji colocou a mão na cintura dela e juntos admiraram a avó de Linda uma vez mais. Meses antes, Linda teria jurado que era a cara chapada dela e pouco tinha dos pais. Mas agora… Elas pareciam tão diferentes…
Linda suspirou pesadamente e, quando se preparava para afastar, ouviu um grito atrás de si.
-O que é isto? – Perguntou Eiji, avançando instintivamente para a frente de Linda. Já esta perdeu toda a cor do rosto.
Tinha acabado de reconhecer o corredor onde estava. Era o mesmo da visão de Mari. E aquele berro só podia significar uma coisa…
-Eiji – fê-lo virar-se para ela – eu tenho que ir à casa de banho. Podes ir indo e arranjar algo para comermos?
-Mas aquele berro… – ele sabia que ela lhe escondia algo.
-Ás tantas são dois alunos a comerem-se no armário do funcionário de limpeza. – Oxalá assim fosse, pensou. Conseguiu dar um meio sorriso. Ele não pareceu convencido.
-Não me pareceu o grito de… tu sabes…
-Cada uma tem o seu grito personalizado. – Oh Raios, vai-te por favor… não me faças mentir mais…
-Linda, o que me escondes? – Ele segurou os braços dela e forçou-a a olhá-lo nos olhos. Ela viu tristeza no mar de castanho, mas também medo. Não lhe podia mentir mais. Mas também não podia perder mais tempo.
-Depois conto-te. Prometo. Mas, por favor, vai buscar algo para comermos e evita este corredor. Por favor – suplicou. – Confia em mim.
E ele confiou. Algo lhe dizia para o fazer. Mas não apenas isso. Um instinto dentro dele não o deixava ficar ali. Parecia que ele próprio reconhecia o perigo.
Ela parecia confiante. Determinada e confiante. Fosse o que fosse, ela não estava assustada. Quem seria ele para também ficar assustado?
-Está bem. Mas, se daqui a quinze minutos não vieres ter comigo, eu volto. – De alguma forma, ele sentiu-se um mentiroso. Parecia que a parte de si que queria proteger Linda lutava contra uma outra parte, que queria que ele corresse dali e não voltasse mais. A parte cobarde contra a parte apaixonada.
Ele foi, mas devagar. Linda sentia o coração a saltar. Ainda iria a tempo?
Quando Eiji já não se via no fundo do corredor, ela correu na direcção oposta.
Segurou no seu medalhão e chamou pela Guardiã dos Sonhos.
Ao chegar ao seu destino, deu graças por não haver nenhum estudante, professor ou funcionário por perto para ver uma criatura a sugar a vida do corpo inconsciente de Cho Kobayashi.
-Foram fabulosos, não foram? – Perguntou a Directora, maravilhada.
-Sim – respondeu Edward simplesmente, tentando disfarçar um sorriso de orgulho.
Eles eram perfeitos. Os dois. A forma de eles dançarem deixava qualquer um rendido. Ele sentira todas as emoções possíveis naquela dança. Como se eles tivessem representado uma história de amor impossível, ou então apenas um relato do esplendor de uma princesa.
Ele apostava no segundo. Ela era tão bela quanto a mãe, e dançava tão bem quanto ele. Se Edward tivesse dançado aquela música com a esposa anos antes, teria feito muito melhor do que Kenji e ela, sendo Real de berço, teria parte do brilho da filha.
Mas nem Kenji nem Usagi eram tão bons quanto Linda e Edward.
Oh não, isso é algo que eu passei apenas a ela…
Tinha agora novos planos. Iria tentar falar com a filha no final do torneio, dar-lhe os parabéns pela prestação. Vê-la de perto, como nunca a tinha visto em anos. E depois regressaria para casa, e contaria à sua esposa no quão bela e talentosa a sua filha mais nova se tornara. E caso perguntasse por Kenji… bem, diria que ele estava são e junto da irmã. Essas notícias chegariam para ela.
Afinal, chegavam para ele…
**
-Foste brilhante.
-A sério?
-Sim, se eu não soubesse que tu e o Ken fossem irmão eu…
-Eiji – interrompeu a morena, tentando respirar. Tal como antes, tentava recuperar o fôlego lentamente. – Deixa-me…
-O quê?
Ela olhou para ele. Os seus olhos cor de avelã tinham um brilho invulgar quando fitavam os seus olhos azuis. E ele sorria. Aquele seu sorriso que punha as pernas dela a tremer que nem gelatina.
Céus, ele não me pode estar a fazer isto.
-Como está o teu pé? – Tentou mudar de assunto, rezando para que o seu coração parasse de saltitar e que a sua respiração voltasse ao normal.
Eiji deitou um olhar pé esquerdo, envolto em ligaduras leves.
-Melhor – disse, suspirando. – A enfermeira não vai abrir a boca, devido ao tratamento lento que me deu e a mim e à Mari. Como tal, não ficarei em sarilhos e ninguém saberá que um universitário dançou por mim.
-Que bom.
Linda sentou-se no banco mais próximo. Estavam nos corredores da escola, onde várias fotográficas que estudantes já formados decoravam as suas paredes, pintadas em cores leves de verde e creme.
-Lindinha?
Ela sorriu, mas não respondeu. Sabia que ele lhe chamara de ‘Lindinha’ só para a animar.
Ele sentou-se ao seu lado. Passou a sua mão pelo ombro dela em tom de conforto, mas Linda não aceitou o toque a bem. Levantou-se de repente e ficou de costas voltada para ele.
-O que me escondes?
-Adivinha – respondeu ela, entre suspiros. Estava tão nervosa…
Ele largou um pequeno sorriso e observou-a de costas. Ela tinha os braços cruzados, como se protegesse do frio. Mas ele sabia que, naquele momento, frio era o que Linda menos sentia.
Tão nervosa, tão tímida, tão querida, tão bela…
Tinha-se apaixonado por ela por estas qualidades, que agora se agrupavam todas naquela figura esbelta, como querendo enlouquece-lo.
Levantou-se silenciosamente e, sem dar um pequeno som de aviso à morena, abraçou-a por trás.
Ela era tão pequena em comparação a ele, que os seus braços envolviam-na toda e ainda quase que chegava a uma segunda volta. O cheiro do suor dela punha-o louco. Mas ela não o largou. Em vez disso, tornou o seu corpo para ele, deixando os rostos a apenas uns centímetros de distância.
Os corações seguiam agora o menos compasso de ritmo. Calmo e harmonioso, como se ambas as almas tivessem esperado por aquele momento em séculos.
-Conseguiste – murmurou ela, erguendo a cabeça, deixando o seu nariz roçar no queixo dele.
-O que consegui? – Ele já sabia do que ela falava, mas tinha que saber. Tinha que ouvi-la dizer as palavras.
-Conseguiste-me pôr louca por ti.
Perderam a noção das coisas. Num segundo, ele sorria e puxava-a para perto dele, noutro a boca dele tomava a dela, suavemente, mas deixando transparecer o desejo há muito guardado.
Linda sentiu uma explosão de sabores ao mesmo tempo. O seu coração disparou, enquanto ele punha as suas mãos nas ancas dela, puxando-a para cima, facilitando o beijo. Os lábios dele roçaram nos dela, levemente, aumentando o desejo, antes de tomá-la de novo, desta vez, num beijo mais selvagem.
Querendo poupar forças, ele soltou-a e baixou-se para ela. Enquanto uma mão segurava a anca dela, a outra massajava os cabelos dela, em busca de algo. Quando encontrou o que procurava, fez um pequeno movimento de dedos e, um segundo depois, Linda tinha o seu cabelo livre.
O cabelo dela, agora ondulado, só mostrava a Eiji a Linda que ele queria beijar. A rapariga que ela escondia atrás dos óculos e de totós. A bela moça que o hipnotizava com um simples olhar. E que o deixava louco.
Ele afastou-se, mirando-a. Ela sorria, um pouco surpreendida.
-O que foi? – Perguntou ele, estranhando a reacção da rapariga.
-Nunca achei que fosse assim – disse ela.
-Assim como? Queres dizer…
-Nunca nenhum outro homem me beijara antes. Tinha lido sobre… como era… nos livros… mas a realidade é muito melhor. – Ela sorriu, relaxando-o.
Também pensa lá. Estamos a falar do primeiro beijo, não da….
Eiji teve um outro pensamento, mas não se atreveu a partilhar com ela. Era obvio que, se ela nunca tivesse beijado ninguém então também…
Porque raio te preocupas?
Porque ele gostava de ser o primeiro. Não só fazia bem ao seu ego, como também tornava o romance mais quente, ligava-os mais. O facto das grandes experiencias no amor teriam sido realizadas com a mesma pessoa, dava uma sensação de conforto no par. Conseguiam confiar um no outro. E o romance evoluía e nada (ou quase nada) podia acabar com a flor mais bela do jardim da Vida.
Levou os lábios aos dela, tocando suavemente. Ela retribuiu, mordendo o lábio quando ele se afastou.
Continuavam abraçados e ela agora tinha a cabeça pousada no tronco dele, deixando-o com o rosto sobre os seus cabelos.
-Eu sabia – disse ele por fim. – Eu sabia que te conseguia convencer.
Ela nada disse, apenas sorriu.
**
Cho estava no gabinete da Directora da sua escola, procurando uns papéis. A busca já era demorada e ela já mal sabia o que de facto viera lá à procura.
O gabinete estava agora uma desarrumação. Onde raios estariam os papeis que a sua chefe pedira?
Olhou para o grande relógio branco com ponteiros negros. 20h15. O Júri tinha-se juntado, a fim de decidir o par vencedor, enquanto todos os restantes comiam um jantar leve.
Ao pensar em jantar, o seu estômago rugiu, reclamando por reabastecimento. Cho desejou um prato de sushi de goiaba, o seu preferido, a acompanhar com vinho branco. E para sobremesa, umas natas do céu.
Infelizmente, tinha que se contentar com uma lata de Coca-Cola e um bolo gorduroso da máquina de petiscos.
Fez uma careta e encolheu os ombros. Iria comer algo e depois voltaria. Também a Directora não precisava dos papéis com urgência. Voltou a arrumar as coisas e fechou a porta do gabinete.
Ao caminhar pelos corredores, o seu corpo foi percorrido por uma sensação estranha. Como se estivesse alguém atrás de si.
Ao ouvir um barulho vindo de trás, virou-se, assustada.
Calma, Cho. Não se passa nada, disse para si própria.
Quando se voltou a virar viu um homem à sua frente, que lhe sorria maliciosamente.
Só teve tempo de gritar até tudo ficar negro.
**
Aquela sensação não parecia ter fim. As borboletas no estômago punham-na a tremer o corpo todo. Ela estava deitada no banco, com a cabeça no ombro dele, enquanto ele abraçava-a. Por várias vezes ele beijou o pescoço dela carinhosamente, como se tocasse numa flor. Ela sentia-se leve e protegida naqueles braços. Uma princesa envolta numa fortaleza guardada por um cavaleiro de cavalo branco.
Bem, tecnicamente ela era uma princesa e Eiji era o seu cavaleiro que, naquele momento, a protegia de uma ameaça desconhecida. Durante vários minutos, ela esqueceu-se do que se passava à sua volta e ele também. Deixou-se guiar por aquela sensação de prazer que ela nunca sentira antes.
Querendo passar o tempo, observaram as fotografias nas paredes, contando os elementos de cada turma ou comparando os uniformes e as suas alterações ao longo dos anos.
Até que os olhos dele se focaram numa determinada fotografia. Um pormenor chamara-o a atenção:
-Hei! Esta aqui… pareces tu!
Linda observou Eiji a levantar-se do banco e a aproximar-se de uma fotografia das mais antigas. Ao longe, viu uma turma com o uniforme de Juuban azul-escuro e branco, com uma linha vermelha no colarinho. Não reconheceu caras, mas reconheceu o original penteado de Usagi Tsukino.
Levantou-se e juntou-se a ele, examinando a foto. Viu Ami, do lado esquerdo da avó, segurando um livro de capa turquesa e sem óculos. Minako estava à direita, pousando as mãos no ombro da avó, enquanto fazia pose para a câmara. Makoto, a mais alta, estava atrás, por entre Ami e Usagi e sorria alegremente de Minako, que se destacava, propositadamente, na foto. Faltava Rei, que estudara noutro colégio, mas sabia, pelo gesto que Makoto fazia ao seu lado direito, onde não estava ninguém, que elas tinham de algum modo guardado lugar para a sua amiga.
A sua avó sorria. Mas já não era o sorriso de criança pelo qual fora sempre conhecida. Era já o sorriso da mãe de Small Lady e da avó de Linda e Kenji, uma mulher madura e responsável. Era a única com um adorno especial. Um alfinete dourado com asas decorava a fita azul escura do seu uniforme que, juntamente com o seu penteado, tornava Usagi a mais original da turma.
-É a minha avó.
-Estranho… podia jurar que, quando olhei para ela estava a ver…
-A mim? – Cortou ela, já ciente da resposta.
-Não, o Kenji.
Linda não acreditou.
-Estás a gozar!
-Quem me dera. É verdade que são parecidas, mas é que… olha para o olhar que ela está a fazer. Ela, aquela loira toda excitada – Linda sorriu ao vê-lo apontar para Minako – a de cabelos azuis e a morena atrás parecem ser a únicas relaxadas ali. O Kenji também nos olha assim, quando está relaxado.
Era verdade. Apesar de a expressão ser diferente, uma pequena semelhança notava-se entre avó e neto. Ambos pareciam seguros, alegres, sem preocupações. Mas o que tornava o olhar de ambos tão parecidos, era o facto de eles aparentarem não terem preocupações, mas no fundo terem.
Usagi era uma navegante, princesa da Lua e futura rainha
Kenji era o irmão mais velho de uma navegante, príncipe de Cristal Tokyo e futuro rei.
Para além de outras coisas…
Eiji colocou a mão na cintura dela e juntos admiraram a avó de Linda uma vez mais. Meses antes, Linda teria jurado que era a cara chapada dela e pouco tinha dos pais. Mas agora… Elas pareciam tão diferentes…
Linda suspirou pesadamente e, quando se preparava para afastar, ouviu um grito atrás de si.
-O que é isto? – Perguntou Eiji, avançando instintivamente para a frente de Linda. Já esta perdeu toda a cor do rosto.
Tinha acabado de reconhecer o corredor onde estava. Era o mesmo da visão de Mari. E aquele berro só podia significar uma coisa…
-Eiji – fê-lo virar-se para ela – eu tenho que ir à casa de banho. Podes ir indo e arranjar algo para comermos?
-Mas aquele berro… – ele sabia que ela lhe escondia algo.
-Ás tantas são dois alunos a comerem-se no armário do funcionário de limpeza. – Oxalá assim fosse, pensou. Conseguiu dar um meio sorriso. Ele não pareceu convencido.
-Não me pareceu o grito de… tu sabes…
-Cada uma tem o seu grito personalizado. – Oh Raios, vai-te por favor… não me faças mentir mais…
-Linda, o que me escondes? – Ele segurou os braços dela e forçou-a a olhá-lo nos olhos. Ela viu tristeza no mar de castanho, mas também medo. Não lhe podia mentir mais. Mas também não podia perder mais tempo.
-Depois conto-te. Prometo. Mas, por favor, vai buscar algo para comermos e evita este corredor. Por favor – suplicou. – Confia em mim.
E ele confiou. Algo lhe dizia para o fazer. Mas não apenas isso. Um instinto dentro dele não o deixava ficar ali. Parecia que ele próprio reconhecia o perigo.
Ela parecia confiante. Determinada e confiante. Fosse o que fosse, ela não estava assustada. Quem seria ele para também ficar assustado?
-Está bem. Mas, se daqui a quinze minutos não vieres ter comigo, eu volto. – De alguma forma, ele sentiu-se um mentiroso. Parecia que a parte de si que queria proteger Linda lutava contra uma outra parte, que queria que ele corresse dali e não voltasse mais. A parte cobarde contra a parte apaixonada.
Ele foi, mas devagar. Linda sentia o coração a saltar. Ainda iria a tempo?
Quando Eiji já não se via no fundo do corredor, ela correu na direcção oposta.
Segurou no seu medalhão e chamou pela Guardiã dos Sonhos.
Ao chegar ao seu destino, deu graças por não haver nenhum estudante, professor ou funcionário por perto para ver uma criatura a sugar a vida do corpo inconsciente de Cho Kobayashi.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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**
Ela ouvira o berro. Outra vez…
Parecia um pesadelo tornado realidade. E ela já sabia que aquilo iria acontecer. Mas não fizera nada para o impedir. Ficara quieta a comer uma sandes, enquanto aquela mulher era atacada pelo monstro.
No entanto, algo estava errado. O monstro vacilava.
Alguém estava com ele.
Levantou-se rapidamente e dirigiu-se para o corredor. Não iria deixar mais alguém ser atacado. Não depois de todas as falhas.
Procurou a companheira com os olhos. Esta fitava-a, como se já estivesse à espera dela.
**
E se estava. Durante uns bons minutos ficara a olhar para a amiga, querendo interpretar aquilo que ela via. Perguntou-se se ela ouvira o berro de novo.
Por sua vez, ela não ouviu nem viu nada. Mas sentiu.
Uma aura negra atravessara os corredores da escola e atravessara como uma espada afiada a aura pura de uma outra pessoa. Uma pessoa especial.
A Flor de Mercúrio
De súbito, os sons à sua volta deixaram de ter importância. Alguém a chamou, mas ela não prestou atenção. Ao cruzar o seu olhar com a companheira, dirigiu-se para junto dela:
-Ouviste? – Perguntou a amiga, preocupada.
-Acho que só tu é que podes ouvir.
-Então?
-Não temos tempo a perder.
-Está alguém com ele – disse a amiga, de repente. – Alguém que estava por perto e que ouviu o grito.
Os olhos de ambas encheram-se de medo.
-Então não podemos ficar aqui. Essa pessoa não terá hipótese contra a criatura.
Afastaram-se. Pelo caminho, chocaram contra um jovem loiro que, por estar cercado de pensamentos, só teve um pequeno vislumbre delas.
Ao verem-se sozinhas, chamaram as suas Guardiãs e correram em direcção à fera. Harmony guiou a companheira, tentando distinguir as almas nos vários corredores da escola.
De repente parou. Sentira uma nova alma. Provavelmente a outra pessoa que Faith afirmara ter visto. Mas essa pessoa tinha uma aura brilhante e muito forte.
-O que foi? – Perguntou a navegante da fé. – Porque paraste?
Olhando de lado para a amiga, seguiu em frente, desta vez, consciente do caminho correcto.
E esperou que a sua companheira não reagisse mal à presença da Sailor Dream.
**
Uma sensação de Deja vu percorreu Linda. Um monstro verde de olhos vermelhos vivos com oito tentáculos estava à sua frente, sugando um fio de prata, onde as memórias de Cho choravam pelo seu mau destino.
Não querendo ficar parada, correu em direcção ao monstro. Esqueceu-se que era uma navegante e, como mera mortal, atirou-se para cima da fera, fazendo-a quebrar o contacto com Cho.
A pele da besta era extremamente áspera e Dream sentiu dor no seu braço direito, exposto a maior contacto. Tentou levantar-se, mas a besta debateu-se, tentando deitá-la ao chão. Utilizou os seus tentáculos para agarrar a perna dela, impedindo-a não só de se levantar, mas também de fugir.
A besta ergue-a, deixando-a de cabeça para baixo e abanou-a como um brinquedo. De repente, lembrando-se da sua missão, dirigiu um dos seus olhos vermelhos para a mulher desmaiada no chão e avançou para ela. Em pânico, Dream esticou o corpo e tentou alcançar os pés, agarrados pelo tentáculo. Utilizando a sua elasticidade de dançarina, conseguiu lá chegar, mas a pele da criatura fez-lhe pequenos cortes nos dedos dela, fazendo-a gemer e largar o tentáculo.
O monstro estava agora muito perto de Cho e estendia outro dos seus oito tentáculos para ela.
Respirando forçadamente, Dream tentou fazer algo. Até que lhe deu uma vontade enorme de bater com a mão na testa
Ela era uma navegante. Com mil raios, ela tinha poderes…
-Silver star dream – gritou, deixando que o poder fluísse pelos seus dedos e libertasse uma corrente de estrelas prateadas que, ao atingir o monstro, cortaram-lhe a pele, fazendo-o emitir um gemido de dor. Atordoado, largou a jovem, que caiu de pé como um gato.
Ela, por sua vez, aproveitou para correr para junto de Cho, vendo a sua pulsação. Está apenas desmaiada, pensou aliviada. Ao deitar um olhar sobre o monstro, viu que as estrelas do seu ataque tinham perfurado a pele áspera do monstro, deixando que um líquido roxo escorresse pelo corpo da besta.
Ouviu passos e, quando se virou, estava frente a frente com Sailor Harmony e Sailor Faith. Esta não parecia muito feliz pelo reencontro mas, preocupada com Cho, nada disse.
Harmony chegou-se perto de Dream:
-Ela está bem?
-Sim. Consegui impedi-lo.
Harmony olhou para o monstro, agora recuperado. Nos seus olhos, um minúsculo ponto preto fixara-se nelas, com raiva bem expressa. Faith foi a mais rápida. Quando o monstro tentou atacá-la, Faith desviou-se e deu-lhe um valente pontapé naquilo que se podia assemelhar a um joelho, desequilibrando o monstro:
-Holl of Faith – murmurou ela, deixando que os seus olhos ficassem negros por sete segundos até que uma luz incolor atacasse o monstro. Dream e Harmony pegaram em Cho e levaram-na para o lado, mantendo-se encostadas às paredes. Apenas a navegante da fé podia ver o raio de luz que disparara e que, naquele momento drenava energia da criatura.
Cho gemeu de dor. E Dream deitou um olhar a Faith. Os seus olhos tinham voltado á sua cor original, um verde-garrafa. Ela suspirou, como se tivesse acabado de sair de um transe. Aquilo estranhou à navegante dos sonhos, que semicerrou os olhos, desconfiada.
Com Dream a mirar Faith e esta a tentar recuperar o fôlego, apenas Harmony pudera ver a figura baixa.
Um homem com pouco cabelo, um pouco rechonchudo, cara severa e sobrancelhas finas olhava para o demónio com desprezo e para as três navegantes com curiosidade. Curiosidade que não demorou muito, pois ao ver a possuidora da Flor de Mercúrio deitada aos pés delas, formou uma linha recta nos seus lábios sem cor e ergueu a mão para a besta.
Tinha que ser ele a tratar a rapariga. E o monstro… bem, ele podia se divertir com as navegantes.
Um raio de luz rosa atingiu a criatura, que gritou de dor. O som era doloroso de se ouvir e obrigara as três navegantes a taparem os ouvidos com as mãos. As ondas sonoras batiam nos objectos do corredor e espalharam-nos pelo chão, partindo alguns vidros de vitrinas e algumas taças de prémios da escola. O chão tremeu e o monstro sofreu uma metamorfose. Aumentou o seu tamanho, ficando com a cabeça quase a bater no tecto, os tentáculos multiplicaram-se, a pele recuperou dos seus ataques mas o pior caso foi o facto de o monstro ter agora todas as suas energias reabastecidas e estranhamente, as três navegantes pensaram no mesmo. Não teriam a mesma facilidade em esgotar aquela energia.
O monstro saltou para elas. Faith e Dream desviaram-se, mas Harmony, não querendo deixar Cho, foi atingida no peito por dois tentáculos. Esta gritou de dor e largou a rapariga. Faith correu para junto da amiga e desviou-a de um segundo ataque.
Sentindo-se impotente, Dream voltou a usar o seu ataque na criatura, mas sem sucesso. O monstro recebeu o seu ataque e absorveu-o, ficando ainda mais forte. A sua boca monstruosa abriu-se numa gargalhada aterradora, mostrando dentes pontiagudos e afiados e avançou para Dream. Esta correu por entre as pernas do monstro, deixando-o confuso sobre o seu paradeiro. Só parou de correr quando viu que estava fora do ângulo de visão da besta. Viu ele virar-se para as outras duas, ainda perto de Cho, e tentar atacá-las. Estas desviaram-se rapidamente.
Foi então que o plano do inimigo ficou bem visível na cabeça de Dream. Longe de Cho, as duas navegantes tentavam assustar a besta, chamando-lhe a atenção. O que nem era necessário. O monstro não queria saber dela. Em vez disso, a figura baixa dirigia-se para ela deixando a criatura encarregar-se delas.
Faith ergueu os braços, pronta a atacar:
-Não! – Impediu Dream, deixando a outra navegante espantada. – Ele irá absorver o teu poder.
Faith não pareceu convencida, mas foi travada pela companheira, que se virou para ela, depois de se desviar de outro ataque:
-Então como fazemos?
Dream abanou a cabeça para o homem. Harmony entendeu e assentiu a cabeça como resposta.
-O que é que ela quer? – Perguntou Faith, furiosa por não ter entendido o plano.
-Não importa agora. Temos que distrair o monstro. Anda! – Puxando a amiga, avançaram para a besta. Este tentou, mais uma vez, derrubá-las, desta vez com sucesso. Elas correram, sem qualquer ideia de como o impedir de atacar Dream que, nas costas do monstro tentava avançar até ao homem.
Na cabeça desta, apenas aulas de ginástica lhe passavam pela cabeça. Lembrava-se de Makoto lhe ensinar a jogar futebol, andebol, a fazer ginástica artística. E lembrava-se de, uma vez, Makoto ter que sair e, sozinha, ela tentara fazer alguns exercícios, sem sucesso. Até que viu uma mulher de cabelos loiros muito curtos e fato dourado à porta. Esta entrara sem bater e examinou o corpo da rapariguinha antes de dizer:
-Queres mesmo saber como isso se faz?
Ela assentira com a cabeça e Haruka Tenou ensinara-lhe vários saltos e movimentos de ginástica que ela nunca aprenderia com mais ninguém. Ela sempre achara estranho, ela ter uma grande flexibilidade e agora a resposta era bem visível aos seus olhos. Era navegante. E apenas esse facto lhe conferia uma flexibilidade e destreza que muitas mulheres lutavam uma vida inteira para ter.
Respostas, planos e ideias percorreram a mente da navegante dos sonhos a jacto. Soltou um leve sorriso, antes de mudar de direcção. Tinha que lhes dizer, mas, ao mesmo tempo, não denunciar as suas intenções ao homem.
Saltou para cima do monstro e caminhou por cima dele até estar lado a lado com as outras duas.
-Então e o plano? – Perguntou Faith.
-Continua na mesma. Mas não vos posso deixar sem indicações.
-Quem te disse que precisamos de indicações?
-DESVIEM-SE! – Gritou Harmony, atirando-se para o chão. Dream e Faith fizeram o mesmo, mas Faith fora apanhada com o tentáculo como um chicote, que lhe provocara uma ferida aberta na perna.
-Ai… - gritou esta, cheia de dor. Dream viu um pequeno fluxo de líquido vermelho vivo escorrer pela perna da navegante de cabelos loiros.
- É por isso que precisam de mim. Ouçam – desviou-se de mais um ataque e, quando teve a certeza que as duas a ouviam, continuou – Sejam navegantes.
-Como?
Dream não percebeu quem tinha feito a pergunta, mas prosseguiu:
-Navegantes. Vocês têm uma flexibilidade inata. Usem-na! – Deu ênfase na última palavra, antes de correr para o monstro. Harmony seguiu-a. Ambas foram em torno do monstro, uma em cada lado, e esperaram que este as atacasse. Quando ele o fez, desviaram-se, mas Dream deu uma cambalhota para trás, ficando em cima do equivalente ao ombro do monstro. Quando este voltou a atacar, saltou, deixando o monstro gritar pelo seu próprio ataque.
Vendo o raciocínio de Dream, Faith e Harmony prosseguiram no ataque ao monstro, derrubando prateleiras e partindo bancos e cacifos. Este, devido a um pontapé – cortesia da bota de cano alto de Sailor Faith – ficara cego do seu olho esquerdo, agora ainda mais vermelho e não conseguia ver as duas navegantes a correrem que nem ratos por debaixo dele e desviando-se dos seus ataques. Pouco a pouco, foi perdendo energia e já mal se conseguia aguentar de pé.
Entretanto Dream correra para junto do homem e de Cho. Este retirava a Flor de Mercúrio, que apareceu irradiando uma belíssima luz azul clara.
-Pára! – Gritou ela, querendo distrai-lo.
Este focou-a por uns segundos até que lhe mandou um jacto de vento, que a derrubou no chão. As suas costas latejaram de dor, mas isso não a fez desistir.
-Moon treasure! – Murmurou, tal como Faith fizera. Desta vez, sentiu uma onda fria a percorrer-lhe o corpo e os seus olhos ficaram negros como o carvão. A força das suas palavras provocara um efeito diferente no ataque, que o diferenciava do raio luminoso do seu primeiro ataque.
O calafrio permaneceu no corpo, os membros inferiores ficaram tensos e uma luz branca escapou-lhe não do medalhão, como anteriormente, mas dos seus olhos. A luz propagou-se até ao homem, fazendo-o gritar de dor.
Tentou andar, mas as suas pernas estavam petrificadas, obrigando-a a rastejar. Os seus olhos ainda emitiam a tão forte luz branca e tal impedia-a de ver o quer que seja.
Utilizando a audição, soube que o homem ainda lhe mandara raios luminosos contra ela, alguns embatendo nos braços dela, fazendo-a fraquejar. Mas ela continuou e, quando sentiu os olhos a perderem um pouco da luz, e os membros das pernas perderem rigidez, levantou-se. Avançou determinada, mas os raios que o homem lhe mandava impediam-na de se mexer muito. Em compensação, a luz que saia dos seus olhos, impedia-o também de andar mais do que dois passos. A Flor de Mercúrio brilhava no meio das duas figuras, intocável.
Sentindo-se fraca e com o corpo dorido, Dream tentou avançar mais, mas sem sucesso. Estava a perder forças e sabia que, assim que o ataque findasse, ele avançaria e roubaria a Flor da mulher.
Até que a visão ficou turva. Não via nada a não ser a mulher dos seus sonhos a realizar aquela dança esquisita.
E então soube o que fazer.
Utilizando os seus dotes de dançarina, moveu-se em piruetas - as mesmas piruetas realizadas por Agnes no seu sonho - escapando aos raios luminosos. Apenas conseguia ver a luz azul da Flor de Mercúrio. O resto era guiado por instinto e som. O braço direito servia como escudo, enquanto o esquerdo estava esticado, pronto a alcançar a flor.
Tudo acontecera em segundos. Faith e Harmony, ao verem o monstro fraco demais para se proteger, gritaram juntas:
-Hope Star – e um raio cinzento claro esbarrou contra o monstro, desfazendo-o em pedaços.
Por seu lado, Dream nada dissera. Apenas conseguiu tocar na Flor pela ponta dos dedos e empurrou-a levemente na vertical. A flor, possuindo vida própria, aceitou o estímulo e voltou para dentro do peito de Cho, que agora respirava normalmente. O Homem viu então o fracasso.
A luz desapareceu e três navegantes fitavam o homem que, com os seus poderes esgotados, nada podia fazer.
-Vocês vão-mas pagar. Principalmente tu! – Cuspiu, com grande desprezo, apontando para Sailor Dream, antes de desaparecer.
Esta não tinha forças para se mover. Fora a dança e a luta que a deixaram esgotada. Todo o corpo lhe doía, mas agradeceu às forças superiores o facto de não sentir feridas abertas. Tentou controlar-se e virou-se para as outras duas. Faith tocava na perna, que parara de sangrar, mas que exibia um corte feio. Harmony sorria:
-Bom trabalho.
-O me-smo dig-o de vo-ccês – disse ela, quase comendo as palavras.
Faith acenou para ela, olhando para ela com curiosidade:
-Afinal não és tão má como eu pensava – disse num sussurro, mas que provocou um sorriso nas morenas da divisão. – Voltaremos a ver-nos.
E ambas desapareceram no fundo do corredor.
Esgotada, Dream apenas teve forças para segurar no pêndulo no seu cabelo e transformar-se de novo em Linda, antes de ouvir a voz de Eiji e passos ao longe e tudo ficar negro.
**
-Estás bem?
Eiji. A sua voz era agora um calmante para os nervos de Linda. Esta estava tão fraca que, pela primeira vez, dava tudo por uma cama e uns bons dias de férias.
-hum hum – sussurrou ela, tentando sorrir, mas sem conseguir. Nem para isso tinha forças. O corpo reclamava por descanso. – Onde estou?
Tentou erguer a cabeça, mas desistiu. Tinha que descansar. Eiji passava a sua mão pelo rosto dela carinhosamente.
-Estamos no balneário das raparigas. O dos rapazes estava cheio e eu não te queria na enfermaria.
-Porquê?
-Porque assim iriam te perguntar o que te tinha acontecido e… Céus Linda, tu estavas num corredor completamente destruído, junto ao corpo de uma funcionária desta escola. Podes dizer-me o que te aconteceu? – Na sua voz notava-se desespero e preocupação.
Ela molhou os lábios secos e disse, ainda num tom baixo:
-Trouxeste-me para aqui?
-Não queria que te metesses em sarilhos. Disse-te quinze minutos, mas distraí-me e quando dei por mim já tinha passado meia hora. Fiquei louco de preocupação e corri para o teu lado. Só me parecias desmaiada, mas…. Oh Linda, se ficaste assim só porque cheguei tarde….
-Não! A culpa não é tua. Chegaste no momento certo – conseguiu sorrir para ele, acalmando-o. - Eu estou apenas fraca. Uma boa noite de sono vai-me fazer bem.
-Sendo assim amanhã não vais à escola.
Isso lembrou a Linda algo. Era quinta-feira, na primeira semana de Dezembro, penúltimo dia de aulas. Dia do torneio de dança.
-O torneio – tentou levantar-se, mas Eiji impediu-a, soltando uma gargalhada.
-Estás louca. Não podes ir para ali. Depois alguém nos diz quem ganhou.
-Eu tenho que lá estar. Temos os dois. Somos participantes, para além de… - gemeu de desconforto – para além de, se não quereres chamar as atenções sobre o meu paradeiro, temos que ir.
Aquilo convenceu Eiji, que a ajudou a levantar. Segurou-a pela cintura, numa tentativa de a apoiar.
Linda sorriu. Assim ninguém desconfiaria que ela estava quase a cair, mas sim que ela apoiava Eiji, que ainda mancava.
Juntos caminharam em direcção ao pavilhão. Pelo caminho ouviram relatos de que Cho Kobayashi fora atacada por vândalos, que destruíram o corredor. Homens da policia pediam pelo paradeiro de cada pessoa, a fim de eliminar suspeitos, pois a escola estava cheia de pessoas na altura do acto de vandalismo. Alguém afirmou que a porta das traseiras tinha sido forçada e isso obrigou os oficiais a concluir que não tinham sido pessoas que vieram assistir ao torneio, pois o segurança da entrada principal não viu ninguém afastar-se na direcção da porta. Agora a jovem mulher estava na enfermaria, sã e salva. Parece que afinal, ela apenas desmaiara de susto.
-Onde estiveram? – perguntou Kenji, quase correndo para junto de Eiji e Linda. Achou estranho ele estar a agarrar a irmã, mas nada disse. – Estive preocupado.
-Estivemos a comer junto aos balneários. – disse Eiji. E era verdade. Pelo menos no caso dele. Fora lá que ele estivera, tendo o cuidado de não ser visto por ninguém. – Alguém deu pela nossa falta?
-Todos, mas ninguém se preocupou tanto quando eu.
-Isso é porque és um mano coruja – comentou Linda, com a voz ainda fraca.
-O que lhe aconteceu?
-Algo que ela me vai dizer, certo?
-Não agora... Por favor, Eiji. – suplicou Linda, fazendo um olhar de cachorrinho para ele, ainda que involuntário. Este encolheu os ombros em resposta, rendido ao seu olhar. Kenji abafou uma gargalhada.
-Eiji, chega aqui! – chamou Setsu do fundo. Eiji deitou um olhar em Linda e, quando a morena insistiu em que a deixasse, afastou-se. Só uma pessoa viu Linda a cair nos braços de Kenji, que a segurou carinhosamente:
-Andaste a lutar minha navegante? – sussurrou ele ao ouvido dela.
-Como sabias?
-Nota-se. Para além de eu ter estado nos balneários e ter visto o Eiji sozinho. Ao sair, ouvi um rugido e fiquei preocupado. Apenas não fui a teu paradeiro por que…. Não poderia fazer nada.
Ela sorriu, encostando a cabeça no tronco dele. Tinha tanta vontade de dormir.
-Então sê-me útil agora. – e fechou os olhos.
Ao longe, Mari via Kenji agarrar Linda com um carinho notável. Ele gosta mesmo dela. E ela a brincar com ele e com o Eiji… Sim, porque ela vira-a agarrada ao Eiji e depois, mal o amigo se afasta, ela já está agarrada a outro.
Raiva percorria as suas veias e apeteceu à loira dar um soco na cara do homem rechonchudo à sua frente, apesar deste não ter culpa nenhuma.
Tentou acalmar-se, mas não conseguia. Pequenas lágrimas tentavam sair pelas orbitas, mas ela empurrava-as para dentro.
Não! Ela não choraria. Já fazia muito tempo desde que derramara a sua última lágrima. E os motivos foram bem piores do que aquele.
Ela estava roída de ciúmes. Não podia ignorar. Passara parte da vida a sonhar com alguém como ele e, quando ele aparece... Gosta de outra.
Era doloroso e nem mesmo uma rapariga com a força de Mari conseguia aguentar aquela dor sem rachar a fortaleza.
Mas tinha que aguentar. Não se podia deixar perder por causa de um tipo, por muito charmoso que ele fosse.
Não...
Não...
Mesmo que o seu coração já tivesse feito uma decisão, controlaria a sua mente e o seu corpo. Não poderia cometer erros.
Não podia amar ninguém...
Não podia amar Kenji...
**
-Oxalá, oxalá – murmurava o professor Amadeus, enquanto eles esperavam pelo resultado. Cecília e François estavam ao seu lado, ambos um pouco aborrecidos. Atrás Kenji e Eiji seguravam Linda, pondo os braços em volta dela. Esta não conseguia parar de se rir da situação.
-Podem largar-me?
-Para quê? Para caíres redondinha no chão?
-Não passo do chão.
-Não arriscamos – disseram eles em uníssono, provocando outro riso de Linda.
A voz do apresentador ouviu-se e todo o pavilhão lhe prestava atenção.
-Muito obrigada senhoras, senhores e jovens, pela vossa esplêndida presença neste torneio de dança. Tenho aqui na minha mão os nomes dos pares vencedores.
Linda pousou a cabeça no ombro de Eiji, que lhe sorriu em resposta. Kenji, ao ver a irmã junto do melhor amigo, afastou-se devagar, passando parte do peso de Linda para o loiro.
Não pôde deixar de sorrir da imagem. A irmã ficava tão feliz junto dele, tão completa. E se havia algo que Kenji tanto pedia aos céus, era a felicidade da irmã. Depois de tudo o que acontecera, ela merecia.
-Em terceiro lugar…. Cecília Tamura e François Barbieri.
Seguiram-se palmas, enquanto Cecília e o seu par se dirigiam para o pódio, onde receberam a medalha de bronze. Amadeus olhava agora para Linda com todas as esperanças depositadas nela. Mas esta nem notou.
O Júri decidira dar um comentário. Afirmara ter se apaixonado por dois pares e a decisão de escolha fora a mais difícil de sempre. Não se meteram em rodeios ao anunciar o par de Juuban e Linda e Eiji como os preferidos. Amadeus estava agora numa pilha de nervos. Ou era o primeiro lugar, ou era o mísero segundo.
-E em primeiro lugar…
O mundo parecera parar para várias pessoas naquele momento, ansiosas para saber o vencedor. Cecília fazia figas pela colega, François sorria para Linda, Kenji mordia os lábios de tanto nervosismo, Setsu roía as unhas e o professor Amadeus chegava mesmo a rezar baixinho.
Nas bancadas, Aiko e a Directora diziam ‘Vá lá, vá lá’ constantemente, enquanto Edward e Mari perdiam-se em pensamentos.
-Seja qual for o resultado, hoje já ganhei – sussurrou Eiji ao ouvido de Linda.
-E em primeiro lugar… Linda Tsukino e Eiji Nakamura.
Palmas voaram por todo o lado, pessoas davam pulos de alegria, mas para Linda apenas três pessoas se encontravam no pavilhão. Três homens loiros que a miravam com diferentes emoções.
Eiji com paixão
Kenji com alegria
Edward… Linda deitou um olhar no pai e não pôde deixar de se sentir como gelatina ao vê-lo sorrir para ela. Um sorriso cheio de orgulho.
Orgulho de pai.
Os olhos de Linda focaram-se no pai, vendo-o sair. Não notou na medalha de ouro que lhe puseram no pescoço, pouca importância dera aos uivos de Setsu, Eiji, Kenji e do Professor Amadeus, que insistiu em dar-lhe um beijo em cada face. E muito menos ouviu calorosos elogios do júri, extremamente impressionados pela sua postura na dança.
Os seus pensamentos iam agora para o pai. Não o podia deixar ir… tinha que falar com ele.
Sem notar no que fazia, correu para os corredores. Ao ver que estavam selados, tentou dar a volta pelo outro lado. Estava tão distraída que quase que esbarrava com a pessoa que procurava.
O pai tirara os óculos escuros e agora fitava-a com os seus belos olhos castanhos, como se esperasse que ela fosse cair. Pudera, Linda ainda estava fraca por causa da luta.
Segurou-se a uma parede e retribuiu o olhar:
-O que faz aqui?
Edward não respondeu. Continuava a olhá-la, com um semblante que não se deixava ler.
-Eu perguntei…
-Eu ouvi. Mas isso não quer dizer que te vá responder. Isso é assunto que só a mim me diz respeito.
Habituada ao bloco de gelo, Linda nem pestanejou. Tentou encontrar equilíbrio longe da parede, tendo sucesso. Agora apenas esperava ter coragem para falar:
-O que vai fazer?
-O que tu queres…- respondeu ele num sussurro.
-Como? – Perguntou Linda, espantada.
-Se queres ficar aqui, não direi nada. Até porque não tenho direitos sobre ti.
Mas podia ter tido, pensaram os dois.
-Ah… obrigada.
Edward preparou-se para seguir caminho. Mas hesitou. Tinha que lhe dizer… Afinal, ele dirigira-se para ali com essa intuição. Tinha de lhe dizer o quando estava orgulhoso, de como ela estava bonita e crescida.
-Dançaste muito bem… minha filha.
Pousou a mão no ombro dela, sorrindo levemente. Linda não se virou, pois sabia que não se conseguiria aguentar durante muito mais tempo. Apetecia-lhe gritar para ele, acusá-lo de ser um pai insensível e bater-lhe. A raiva acumulada durante anos de indiferença começava a vir ao de cima, reclamando espaço nas acções de Linda. Aguentou-se e apenas se virou quando já os passos do pai iam longe. Mas tão depressa uns passos foram, quando outros vieram.
-“Minha filha”? – Perguntou alguém com uma voz extremamente familiar.
Linda ficou pálida de morte e ergueu os seus olhos para enfrentar os de Eiji.
**
Ele vira-a desaparecer. E fora atrás dela. Afinal ela estava de rastos, mal se aguentava de pé. Perdeu-a de vista por uns minutos, mas depressa a encontrou.
Mas ela não estava sozinha.
Um homem loiro, na casa dos quarenta e olhos da mesma cor que os dele estava com ela. O olhar do homem era de extrema mágoa, que Eiji estranhamente associou ao olhar de Kenji.
Até que reconheceu o homem. Edward Natsumara, Rei de Cristal Tokyo.
Mas o que é que ele faz aqui? E porque fala com a Linda?
Edward respondera á sua pergunta com uma única frase:
-Dançaste muito bem… minha filha.
O que queria ele dizer com aquilo? Ele era o pai da Linda? Mas isso queria dizer que a Linda era…
-Sim – disse ela, calmamente, acordando Eiji dos seus pensamentos.
-O Rei é o teu pai – murmurou ele, chocado. – Tu és…
-A Princesa. – Acabou a frase, sempre num tom calmo. Já não adiantava esconder mais. Ele tinha o direito de saber.
-Não pode ser… mas… e então o Kenji?
-É o herdeiro. O futuro Rei... isto é… se eles não arranjarem outro – disse Linda, secamente. Ela olhava-o nos olhos, examinando as suas expressões. Tal como ela imaginava, havia choque, surpresa e…
Mágoa
-Porque é que nenhum de vocês me contou?
-Porque não é nada que se conte logo. E também não é uma coisa que nós queremos que os nossos amigos saibam.
-mas não confiam em nós? – Perguntou ele, furioso.
-Não é isso! – Agora ela também estava furiosa – O Berço onde nós nascemos não muda nada na nossa personalidade. Mas muda nas acções das pessoas à nossa volta…
-Não mudaria comigo.
-Como podíamos saber? Ou melhor… como podia eu saber? Eiji, eu nunca tive grandes amigos e grandes socializações antes de te conhecer. Eu apenas queria ser normal e não contar o meu segredo a ninguém. Enterrá-lo bem fundo. Não porque não confie em ti, apenas… é algo de que não me orgulhe.
Eiji fitou os sapatos, pensativo.
-E o Kenji? Quero dizer... pensei que nós fossemos amigos…
-E são… mas ele… - hesitou, mordendo o lábio inferior.
-Ele o quê?
-Aquele homem com quem tu me viste falar, deserdou-o.
Aquelas palavras tiveram forte embate em Eiji, como se este tivesse sido atingido por um tijolo.
-Deserdou-o?
-Sim... e eu fui ignorada toda a minha vida por esta gente. – Ela aproximou-se dele. – Eiji, eu e o meu irmão apenas queremos esquecer aquela vida. Não é a nossa.
Tentou agarrar a mão dele, mas ele desviou-se. Linda pousou o olhar na parede, magoada:
-Só te peço que entendas.
Eiji virou-lhe as costas e caminhou em círculos. O quanto aquela questão o magoava. Era a rapariga que ele gostava e o seu melhor amigo. Mais tijolos não lhe podiam ter mandado.
-Eu… não sei… em parte entendo, mas também… sinto-me magoado, traído… eu…
Linda controlou as lágrimas, que teimavam a sair.
-Preciso de tempo, Linda. Tempo para pensar. De repente, sinto que não te conheço. A ti e ao meu melhor amigo.
Ela, para surpresa dele, assentiu.
-Eu entendo Eiji. Mas no final, vais notar que eu e o Kenji fomos sempre os mesmos. Toda a gente tem pelo menos um segredo que abala o mundo, mas nem sempre abala o seu. Apenas… está a mais.
Ela desapareceu na esquina, deixando-o sozinho. Horas tinham passado desde que a tentara acalmar. Em que vira uma Linda Tsukino tímida, nervosa e querida.
Agora, a mulher que se afastara era firme, forte, uma excelente dançarina, corajosa, ainda mais bela do que ele pudesse imaginar, uma Linda que também podia perder o controlo, que podia perder o bom humor e revelar um temperamento forte.
Uma Linda que sofria por baixo de uma camada de verniz.
Uma Linda que era também a Princesa de Tokyo.
**
Linda deixou que a água do chuveiro lavasse o seu corpo. Ignorou todos os pensamentos do dia que passara e vestira a camisa de dormir, deitando-se na cama. Ignorou o pingente, colocado em cima da cómoda e que brilhava intensamente. Ignorou as palavras do pai, as palavras de Eiji, as palavras de Misaki. Fingiu nunca ter passado por uma batalha tão cansativa quanto aquela. Ignorou a dor que sentia por Eiji a ter afastado pouco depois de se terem entendido, a mágoa e raiva que Edward a fizera voltar a sentir. Ignorou as lágrimas, que tanto queriam sair.
Mas não pôde ignorar o forte apelo a água que a sua garganta exigia.
Levantou-se e arrastou o corpo mole até à cozinha, onde viu que não era a única com desejos nocturnos.
Mari comia umas bolachas na mesa e nem ergueu a cabeça quando Linda entrou e pegou num copo, enchendo-o de água.
Bebeu parte do conteúdo, antes de roubar uma bolacha a Mari, que parecia determinada a ignorá-la. Encolhendo os ombros ao comportamento da loira Linda bebeu o resto do líquido incolor e dirigiu-se até ao quarto, ainda a empurrar pensamentos para fora da sua mente.
Mas já à porta, houve um que não conseguiu afastar.
Lembrou-se de ter visto Sailor Faith a levar uma chicotada do monstro e a ficar com um severo corte na perna.
Os olhos de Linda abriram-se por completo, ao aperceber-se de algo.
Sailor Faith teria agora um grande corte na perna esquerda…
…tal como Mari.
Ela ouvira o berro. Outra vez…
Parecia um pesadelo tornado realidade. E ela já sabia que aquilo iria acontecer. Mas não fizera nada para o impedir. Ficara quieta a comer uma sandes, enquanto aquela mulher era atacada pelo monstro.
No entanto, algo estava errado. O monstro vacilava.
Alguém estava com ele.
Levantou-se rapidamente e dirigiu-se para o corredor. Não iria deixar mais alguém ser atacado. Não depois de todas as falhas.
Procurou a companheira com os olhos. Esta fitava-a, como se já estivesse à espera dela.
**
E se estava. Durante uns bons minutos ficara a olhar para a amiga, querendo interpretar aquilo que ela via. Perguntou-se se ela ouvira o berro de novo.
Por sua vez, ela não ouviu nem viu nada. Mas sentiu.
Uma aura negra atravessara os corredores da escola e atravessara como uma espada afiada a aura pura de uma outra pessoa. Uma pessoa especial.
A Flor de Mercúrio
De súbito, os sons à sua volta deixaram de ter importância. Alguém a chamou, mas ela não prestou atenção. Ao cruzar o seu olhar com a companheira, dirigiu-se para junto dela:
-Ouviste? – Perguntou a amiga, preocupada.
-Acho que só tu é que podes ouvir.
-Então?
-Não temos tempo a perder.
-Está alguém com ele – disse a amiga, de repente. – Alguém que estava por perto e que ouviu o grito.
Os olhos de ambas encheram-se de medo.
-Então não podemos ficar aqui. Essa pessoa não terá hipótese contra a criatura.
Afastaram-se. Pelo caminho, chocaram contra um jovem loiro que, por estar cercado de pensamentos, só teve um pequeno vislumbre delas.
Ao verem-se sozinhas, chamaram as suas Guardiãs e correram em direcção à fera. Harmony guiou a companheira, tentando distinguir as almas nos vários corredores da escola.
De repente parou. Sentira uma nova alma. Provavelmente a outra pessoa que Faith afirmara ter visto. Mas essa pessoa tinha uma aura brilhante e muito forte.
-O que foi? – Perguntou a navegante da fé. – Porque paraste?
Olhando de lado para a amiga, seguiu em frente, desta vez, consciente do caminho correcto.
E esperou que a sua companheira não reagisse mal à presença da Sailor Dream.
**
Uma sensação de Deja vu percorreu Linda. Um monstro verde de olhos vermelhos vivos com oito tentáculos estava à sua frente, sugando um fio de prata, onde as memórias de Cho choravam pelo seu mau destino.
Não querendo ficar parada, correu em direcção ao monstro. Esqueceu-se que era uma navegante e, como mera mortal, atirou-se para cima da fera, fazendo-a quebrar o contacto com Cho.
A pele da besta era extremamente áspera e Dream sentiu dor no seu braço direito, exposto a maior contacto. Tentou levantar-se, mas a besta debateu-se, tentando deitá-la ao chão. Utilizou os seus tentáculos para agarrar a perna dela, impedindo-a não só de se levantar, mas também de fugir.
A besta ergue-a, deixando-a de cabeça para baixo e abanou-a como um brinquedo. De repente, lembrando-se da sua missão, dirigiu um dos seus olhos vermelhos para a mulher desmaiada no chão e avançou para ela. Em pânico, Dream esticou o corpo e tentou alcançar os pés, agarrados pelo tentáculo. Utilizando a sua elasticidade de dançarina, conseguiu lá chegar, mas a pele da criatura fez-lhe pequenos cortes nos dedos dela, fazendo-a gemer e largar o tentáculo.
O monstro estava agora muito perto de Cho e estendia outro dos seus oito tentáculos para ela.
Respirando forçadamente, Dream tentou fazer algo. Até que lhe deu uma vontade enorme de bater com a mão na testa
Ela era uma navegante. Com mil raios, ela tinha poderes…
-Silver star dream – gritou, deixando que o poder fluísse pelos seus dedos e libertasse uma corrente de estrelas prateadas que, ao atingir o monstro, cortaram-lhe a pele, fazendo-o emitir um gemido de dor. Atordoado, largou a jovem, que caiu de pé como um gato.
Ela, por sua vez, aproveitou para correr para junto de Cho, vendo a sua pulsação. Está apenas desmaiada, pensou aliviada. Ao deitar um olhar sobre o monstro, viu que as estrelas do seu ataque tinham perfurado a pele áspera do monstro, deixando que um líquido roxo escorresse pelo corpo da besta.
Ouviu passos e, quando se virou, estava frente a frente com Sailor Harmony e Sailor Faith. Esta não parecia muito feliz pelo reencontro mas, preocupada com Cho, nada disse.
Harmony chegou-se perto de Dream:
-Ela está bem?
-Sim. Consegui impedi-lo.
Harmony olhou para o monstro, agora recuperado. Nos seus olhos, um minúsculo ponto preto fixara-se nelas, com raiva bem expressa. Faith foi a mais rápida. Quando o monstro tentou atacá-la, Faith desviou-se e deu-lhe um valente pontapé naquilo que se podia assemelhar a um joelho, desequilibrando o monstro:
-Holl of Faith – murmurou ela, deixando que os seus olhos ficassem negros por sete segundos até que uma luz incolor atacasse o monstro. Dream e Harmony pegaram em Cho e levaram-na para o lado, mantendo-se encostadas às paredes. Apenas a navegante da fé podia ver o raio de luz que disparara e que, naquele momento drenava energia da criatura.
Cho gemeu de dor. E Dream deitou um olhar a Faith. Os seus olhos tinham voltado á sua cor original, um verde-garrafa. Ela suspirou, como se tivesse acabado de sair de um transe. Aquilo estranhou à navegante dos sonhos, que semicerrou os olhos, desconfiada.
Com Dream a mirar Faith e esta a tentar recuperar o fôlego, apenas Harmony pudera ver a figura baixa.
Um homem com pouco cabelo, um pouco rechonchudo, cara severa e sobrancelhas finas olhava para o demónio com desprezo e para as três navegantes com curiosidade. Curiosidade que não demorou muito, pois ao ver a possuidora da Flor de Mercúrio deitada aos pés delas, formou uma linha recta nos seus lábios sem cor e ergueu a mão para a besta.
Tinha que ser ele a tratar a rapariga. E o monstro… bem, ele podia se divertir com as navegantes.
Um raio de luz rosa atingiu a criatura, que gritou de dor. O som era doloroso de se ouvir e obrigara as três navegantes a taparem os ouvidos com as mãos. As ondas sonoras batiam nos objectos do corredor e espalharam-nos pelo chão, partindo alguns vidros de vitrinas e algumas taças de prémios da escola. O chão tremeu e o monstro sofreu uma metamorfose. Aumentou o seu tamanho, ficando com a cabeça quase a bater no tecto, os tentáculos multiplicaram-se, a pele recuperou dos seus ataques mas o pior caso foi o facto de o monstro ter agora todas as suas energias reabastecidas e estranhamente, as três navegantes pensaram no mesmo. Não teriam a mesma facilidade em esgotar aquela energia.
O monstro saltou para elas. Faith e Dream desviaram-se, mas Harmony, não querendo deixar Cho, foi atingida no peito por dois tentáculos. Esta gritou de dor e largou a rapariga. Faith correu para junto da amiga e desviou-a de um segundo ataque.
Sentindo-se impotente, Dream voltou a usar o seu ataque na criatura, mas sem sucesso. O monstro recebeu o seu ataque e absorveu-o, ficando ainda mais forte. A sua boca monstruosa abriu-se numa gargalhada aterradora, mostrando dentes pontiagudos e afiados e avançou para Dream. Esta correu por entre as pernas do monstro, deixando-o confuso sobre o seu paradeiro. Só parou de correr quando viu que estava fora do ângulo de visão da besta. Viu ele virar-se para as outras duas, ainda perto de Cho, e tentar atacá-las. Estas desviaram-se rapidamente.
Foi então que o plano do inimigo ficou bem visível na cabeça de Dream. Longe de Cho, as duas navegantes tentavam assustar a besta, chamando-lhe a atenção. O que nem era necessário. O monstro não queria saber dela. Em vez disso, a figura baixa dirigia-se para ela deixando a criatura encarregar-se delas.
Faith ergueu os braços, pronta a atacar:
-Não! – Impediu Dream, deixando a outra navegante espantada. – Ele irá absorver o teu poder.
Faith não pareceu convencida, mas foi travada pela companheira, que se virou para ela, depois de se desviar de outro ataque:
-Então como fazemos?
Dream abanou a cabeça para o homem. Harmony entendeu e assentiu a cabeça como resposta.
-O que é que ela quer? – Perguntou Faith, furiosa por não ter entendido o plano.
-Não importa agora. Temos que distrair o monstro. Anda! – Puxando a amiga, avançaram para a besta. Este tentou, mais uma vez, derrubá-las, desta vez com sucesso. Elas correram, sem qualquer ideia de como o impedir de atacar Dream que, nas costas do monstro tentava avançar até ao homem.
Na cabeça desta, apenas aulas de ginástica lhe passavam pela cabeça. Lembrava-se de Makoto lhe ensinar a jogar futebol, andebol, a fazer ginástica artística. E lembrava-se de, uma vez, Makoto ter que sair e, sozinha, ela tentara fazer alguns exercícios, sem sucesso. Até que viu uma mulher de cabelos loiros muito curtos e fato dourado à porta. Esta entrara sem bater e examinou o corpo da rapariguinha antes de dizer:
-Queres mesmo saber como isso se faz?
Ela assentira com a cabeça e Haruka Tenou ensinara-lhe vários saltos e movimentos de ginástica que ela nunca aprenderia com mais ninguém. Ela sempre achara estranho, ela ter uma grande flexibilidade e agora a resposta era bem visível aos seus olhos. Era navegante. E apenas esse facto lhe conferia uma flexibilidade e destreza que muitas mulheres lutavam uma vida inteira para ter.
Respostas, planos e ideias percorreram a mente da navegante dos sonhos a jacto. Soltou um leve sorriso, antes de mudar de direcção. Tinha que lhes dizer, mas, ao mesmo tempo, não denunciar as suas intenções ao homem.
Saltou para cima do monstro e caminhou por cima dele até estar lado a lado com as outras duas.
-Então e o plano? – Perguntou Faith.
-Continua na mesma. Mas não vos posso deixar sem indicações.
-Quem te disse que precisamos de indicações?
-DESVIEM-SE! – Gritou Harmony, atirando-se para o chão. Dream e Faith fizeram o mesmo, mas Faith fora apanhada com o tentáculo como um chicote, que lhe provocara uma ferida aberta na perna.
-Ai… - gritou esta, cheia de dor. Dream viu um pequeno fluxo de líquido vermelho vivo escorrer pela perna da navegante de cabelos loiros.
- É por isso que precisam de mim. Ouçam – desviou-se de mais um ataque e, quando teve a certeza que as duas a ouviam, continuou – Sejam navegantes.
-Como?
Dream não percebeu quem tinha feito a pergunta, mas prosseguiu:
-Navegantes. Vocês têm uma flexibilidade inata. Usem-na! – Deu ênfase na última palavra, antes de correr para o monstro. Harmony seguiu-a. Ambas foram em torno do monstro, uma em cada lado, e esperaram que este as atacasse. Quando ele o fez, desviaram-se, mas Dream deu uma cambalhota para trás, ficando em cima do equivalente ao ombro do monstro. Quando este voltou a atacar, saltou, deixando o monstro gritar pelo seu próprio ataque.
Vendo o raciocínio de Dream, Faith e Harmony prosseguiram no ataque ao monstro, derrubando prateleiras e partindo bancos e cacifos. Este, devido a um pontapé – cortesia da bota de cano alto de Sailor Faith – ficara cego do seu olho esquerdo, agora ainda mais vermelho e não conseguia ver as duas navegantes a correrem que nem ratos por debaixo dele e desviando-se dos seus ataques. Pouco a pouco, foi perdendo energia e já mal se conseguia aguentar de pé.
Entretanto Dream correra para junto do homem e de Cho. Este retirava a Flor de Mercúrio, que apareceu irradiando uma belíssima luz azul clara.
-Pára! – Gritou ela, querendo distrai-lo.
Este focou-a por uns segundos até que lhe mandou um jacto de vento, que a derrubou no chão. As suas costas latejaram de dor, mas isso não a fez desistir.
-Moon treasure! – Murmurou, tal como Faith fizera. Desta vez, sentiu uma onda fria a percorrer-lhe o corpo e os seus olhos ficaram negros como o carvão. A força das suas palavras provocara um efeito diferente no ataque, que o diferenciava do raio luminoso do seu primeiro ataque.
O calafrio permaneceu no corpo, os membros inferiores ficaram tensos e uma luz branca escapou-lhe não do medalhão, como anteriormente, mas dos seus olhos. A luz propagou-se até ao homem, fazendo-o gritar de dor.
Tentou andar, mas as suas pernas estavam petrificadas, obrigando-a a rastejar. Os seus olhos ainda emitiam a tão forte luz branca e tal impedia-a de ver o quer que seja.
Utilizando a audição, soube que o homem ainda lhe mandara raios luminosos contra ela, alguns embatendo nos braços dela, fazendo-a fraquejar. Mas ela continuou e, quando sentiu os olhos a perderem um pouco da luz, e os membros das pernas perderem rigidez, levantou-se. Avançou determinada, mas os raios que o homem lhe mandava impediam-na de se mexer muito. Em compensação, a luz que saia dos seus olhos, impedia-o também de andar mais do que dois passos. A Flor de Mercúrio brilhava no meio das duas figuras, intocável.
Sentindo-se fraca e com o corpo dorido, Dream tentou avançar mais, mas sem sucesso. Estava a perder forças e sabia que, assim que o ataque findasse, ele avançaria e roubaria a Flor da mulher.
Até que a visão ficou turva. Não via nada a não ser a mulher dos seus sonhos a realizar aquela dança esquisita.
E então soube o que fazer.
Utilizando os seus dotes de dançarina, moveu-se em piruetas - as mesmas piruetas realizadas por Agnes no seu sonho - escapando aos raios luminosos. Apenas conseguia ver a luz azul da Flor de Mercúrio. O resto era guiado por instinto e som. O braço direito servia como escudo, enquanto o esquerdo estava esticado, pronto a alcançar a flor.
Tudo acontecera em segundos. Faith e Harmony, ao verem o monstro fraco demais para se proteger, gritaram juntas:
-Hope Star – e um raio cinzento claro esbarrou contra o monstro, desfazendo-o em pedaços.
Por seu lado, Dream nada dissera. Apenas conseguiu tocar na Flor pela ponta dos dedos e empurrou-a levemente na vertical. A flor, possuindo vida própria, aceitou o estímulo e voltou para dentro do peito de Cho, que agora respirava normalmente. O Homem viu então o fracasso.
A luz desapareceu e três navegantes fitavam o homem que, com os seus poderes esgotados, nada podia fazer.
-Vocês vão-mas pagar. Principalmente tu! – Cuspiu, com grande desprezo, apontando para Sailor Dream, antes de desaparecer.
Esta não tinha forças para se mover. Fora a dança e a luta que a deixaram esgotada. Todo o corpo lhe doía, mas agradeceu às forças superiores o facto de não sentir feridas abertas. Tentou controlar-se e virou-se para as outras duas. Faith tocava na perna, que parara de sangrar, mas que exibia um corte feio. Harmony sorria:
-Bom trabalho.
-O me-smo dig-o de vo-ccês – disse ela, quase comendo as palavras.
Faith acenou para ela, olhando para ela com curiosidade:
-Afinal não és tão má como eu pensava – disse num sussurro, mas que provocou um sorriso nas morenas da divisão. – Voltaremos a ver-nos.
E ambas desapareceram no fundo do corredor.
Esgotada, Dream apenas teve forças para segurar no pêndulo no seu cabelo e transformar-se de novo em Linda, antes de ouvir a voz de Eiji e passos ao longe e tudo ficar negro.
**
-Estás bem?
Eiji. A sua voz era agora um calmante para os nervos de Linda. Esta estava tão fraca que, pela primeira vez, dava tudo por uma cama e uns bons dias de férias.
-hum hum – sussurrou ela, tentando sorrir, mas sem conseguir. Nem para isso tinha forças. O corpo reclamava por descanso. – Onde estou?
Tentou erguer a cabeça, mas desistiu. Tinha que descansar. Eiji passava a sua mão pelo rosto dela carinhosamente.
-Estamos no balneário das raparigas. O dos rapazes estava cheio e eu não te queria na enfermaria.
-Porquê?
-Porque assim iriam te perguntar o que te tinha acontecido e… Céus Linda, tu estavas num corredor completamente destruído, junto ao corpo de uma funcionária desta escola. Podes dizer-me o que te aconteceu? – Na sua voz notava-se desespero e preocupação.
Ela molhou os lábios secos e disse, ainda num tom baixo:
-Trouxeste-me para aqui?
-Não queria que te metesses em sarilhos. Disse-te quinze minutos, mas distraí-me e quando dei por mim já tinha passado meia hora. Fiquei louco de preocupação e corri para o teu lado. Só me parecias desmaiada, mas…. Oh Linda, se ficaste assim só porque cheguei tarde….
-Não! A culpa não é tua. Chegaste no momento certo – conseguiu sorrir para ele, acalmando-o. - Eu estou apenas fraca. Uma boa noite de sono vai-me fazer bem.
-Sendo assim amanhã não vais à escola.
Isso lembrou a Linda algo. Era quinta-feira, na primeira semana de Dezembro, penúltimo dia de aulas. Dia do torneio de dança.
-O torneio – tentou levantar-se, mas Eiji impediu-a, soltando uma gargalhada.
-Estás louca. Não podes ir para ali. Depois alguém nos diz quem ganhou.
-Eu tenho que lá estar. Temos os dois. Somos participantes, para além de… - gemeu de desconforto – para além de, se não quereres chamar as atenções sobre o meu paradeiro, temos que ir.
Aquilo convenceu Eiji, que a ajudou a levantar. Segurou-a pela cintura, numa tentativa de a apoiar.
Linda sorriu. Assim ninguém desconfiaria que ela estava quase a cair, mas sim que ela apoiava Eiji, que ainda mancava.
Juntos caminharam em direcção ao pavilhão. Pelo caminho ouviram relatos de que Cho Kobayashi fora atacada por vândalos, que destruíram o corredor. Homens da policia pediam pelo paradeiro de cada pessoa, a fim de eliminar suspeitos, pois a escola estava cheia de pessoas na altura do acto de vandalismo. Alguém afirmou que a porta das traseiras tinha sido forçada e isso obrigou os oficiais a concluir que não tinham sido pessoas que vieram assistir ao torneio, pois o segurança da entrada principal não viu ninguém afastar-se na direcção da porta. Agora a jovem mulher estava na enfermaria, sã e salva. Parece que afinal, ela apenas desmaiara de susto.
-Onde estiveram? – perguntou Kenji, quase correndo para junto de Eiji e Linda. Achou estranho ele estar a agarrar a irmã, mas nada disse. – Estive preocupado.
-Estivemos a comer junto aos balneários. – disse Eiji. E era verdade. Pelo menos no caso dele. Fora lá que ele estivera, tendo o cuidado de não ser visto por ninguém. – Alguém deu pela nossa falta?
-Todos, mas ninguém se preocupou tanto quando eu.
-Isso é porque és um mano coruja – comentou Linda, com a voz ainda fraca.
-O que lhe aconteceu?
-Algo que ela me vai dizer, certo?
-Não agora... Por favor, Eiji. – suplicou Linda, fazendo um olhar de cachorrinho para ele, ainda que involuntário. Este encolheu os ombros em resposta, rendido ao seu olhar. Kenji abafou uma gargalhada.
-Eiji, chega aqui! – chamou Setsu do fundo. Eiji deitou um olhar em Linda e, quando a morena insistiu em que a deixasse, afastou-se. Só uma pessoa viu Linda a cair nos braços de Kenji, que a segurou carinhosamente:
-Andaste a lutar minha navegante? – sussurrou ele ao ouvido dela.
-Como sabias?
-Nota-se. Para além de eu ter estado nos balneários e ter visto o Eiji sozinho. Ao sair, ouvi um rugido e fiquei preocupado. Apenas não fui a teu paradeiro por que…. Não poderia fazer nada.
Ela sorriu, encostando a cabeça no tronco dele. Tinha tanta vontade de dormir.
-Então sê-me útil agora. – e fechou os olhos.
Ao longe, Mari via Kenji agarrar Linda com um carinho notável. Ele gosta mesmo dela. E ela a brincar com ele e com o Eiji… Sim, porque ela vira-a agarrada ao Eiji e depois, mal o amigo se afasta, ela já está agarrada a outro.
Raiva percorria as suas veias e apeteceu à loira dar um soco na cara do homem rechonchudo à sua frente, apesar deste não ter culpa nenhuma.
Tentou acalmar-se, mas não conseguia. Pequenas lágrimas tentavam sair pelas orbitas, mas ela empurrava-as para dentro.
Não! Ela não choraria. Já fazia muito tempo desde que derramara a sua última lágrima. E os motivos foram bem piores do que aquele.
Ela estava roída de ciúmes. Não podia ignorar. Passara parte da vida a sonhar com alguém como ele e, quando ele aparece... Gosta de outra.
Era doloroso e nem mesmo uma rapariga com a força de Mari conseguia aguentar aquela dor sem rachar a fortaleza.
Mas tinha que aguentar. Não se podia deixar perder por causa de um tipo, por muito charmoso que ele fosse.
Não...
Não...
Mesmo que o seu coração já tivesse feito uma decisão, controlaria a sua mente e o seu corpo. Não poderia cometer erros.
Não podia amar ninguém...
Não podia amar Kenji...
**
-Oxalá, oxalá – murmurava o professor Amadeus, enquanto eles esperavam pelo resultado. Cecília e François estavam ao seu lado, ambos um pouco aborrecidos. Atrás Kenji e Eiji seguravam Linda, pondo os braços em volta dela. Esta não conseguia parar de se rir da situação.
-Podem largar-me?
-Para quê? Para caíres redondinha no chão?
-Não passo do chão.
-Não arriscamos – disseram eles em uníssono, provocando outro riso de Linda.
A voz do apresentador ouviu-se e todo o pavilhão lhe prestava atenção.
-Muito obrigada senhoras, senhores e jovens, pela vossa esplêndida presença neste torneio de dança. Tenho aqui na minha mão os nomes dos pares vencedores.
Linda pousou a cabeça no ombro de Eiji, que lhe sorriu em resposta. Kenji, ao ver a irmã junto do melhor amigo, afastou-se devagar, passando parte do peso de Linda para o loiro.
Não pôde deixar de sorrir da imagem. A irmã ficava tão feliz junto dele, tão completa. E se havia algo que Kenji tanto pedia aos céus, era a felicidade da irmã. Depois de tudo o que acontecera, ela merecia.
-Em terceiro lugar…. Cecília Tamura e François Barbieri.
Seguiram-se palmas, enquanto Cecília e o seu par se dirigiam para o pódio, onde receberam a medalha de bronze. Amadeus olhava agora para Linda com todas as esperanças depositadas nela. Mas esta nem notou.
O Júri decidira dar um comentário. Afirmara ter se apaixonado por dois pares e a decisão de escolha fora a mais difícil de sempre. Não se meteram em rodeios ao anunciar o par de Juuban e Linda e Eiji como os preferidos. Amadeus estava agora numa pilha de nervos. Ou era o primeiro lugar, ou era o mísero segundo.
-E em primeiro lugar…
O mundo parecera parar para várias pessoas naquele momento, ansiosas para saber o vencedor. Cecília fazia figas pela colega, François sorria para Linda, Kenji mordia os lábios de tanto nervosismo, Setsu roía as unhas e o professor Amadeus chegava mesmo a rezar baixinho.
Nas bancadas, Aiko e a Directora diziam ‘Vá lá, vá lá’ constantemente, enquanto Edward e Mari perdiam-se em pensamentos.
-Seja qual for o resultado, hoje já ganhei – sussurrou Eiji ao ouvido de Linda.
-E em primeiro lugar… Linda Tsukino e Eiji Nakamura.
Palmas voaram por todo o lado, pessoas davam pulos de alegria, mas para Linda apenas três pessoas se encontravam no pavilhão. Três homens loiros que a miravam com diferentes emoções.
Eiji com paixão
Kenji com alegria
Edward… Linda deitou um olhar no pai e não pôde deixar de se sentir como gelatina ao vê-lo sorrir para ela. Um sorriso cheio de orgulho.
Orgulho de pai.
Os olhos de Linda focaram-se no pai, vendo-o sair. Não notou na medalha de ouro que lhe puseram no pescoço, pouca importância dera aos uivos de Setsu, Eiji, Kenji e do Professor Amadeus, que insistiu em dar-lhe um beijo em cada face. E muito menos ouviu calorosos elogios do júri, extremamente impressionados pela sua postura na dança.
Os seus pensamentos iam agora para o pai. Não o podia deixar ir… tinha que falar com ele.
Sem notar no que fazia, correu para os corredores. Ao ver que estavam selados, tentou dar a volta pelo outro lado. Estava tão distraída que quase que esbarrava com a pessoa que procurava.
O pai tirara os óculos escuros e agora fitava-a com os seus belos olhos castanhos, como se esperasse que ela fosse cair. Pudera, Linda ainda estava fraca por causa da luta.
Segurou-se a uma parede e retribuiu o olhar:
-O que faz aqui?
Edward não respondeu. Continuava a olhá-la, com um semblante que não se deixava ler.
-Eu perguntei…
-Eu ouvi. Mas isso não quer dizer que te vá responder. Isso é assunto que só a mim me diz respeito.
Habituada ao bloco de gelo, Linda nem pestanejou. Tentou encontrar equilíbrio longe da parede, tendo sucesso. Agora apenas esperava ter coragem para falar:
-O que vai fazer?
-O que tu queres…- respondeu ele num sussurro.
-Como? – Perguntou Linda, espantada.
-Se queres ficar aqui, não direi nada. Até porque não tenho direitos sobre ti.
Mas podia ter tido, pensaram os dois.
-Ah… obrigada.
Edward preparou-se para seguir caminho. Mas hesitou. Tinha que lhe dizer… Afinal, ele dirigira-se para ali com essa intuição. Tinha de lhe dizer o quando estava orgulhoso, de como ela estava bonita e crescida.
-Dançaste muito bem… minha filha.
Pousou a mão no ombro dela, sorrindo levemente. Linda não se virou, pois sabia que não se conseguiria aguentar durante muito mais tempo. Apetecia-lhe gritar para ele, acusá-lo de ser um pai insensível e bater-lhe. A raiva acumulada durante anos de indiferença começava a vir ao de cima, reclamando espaço nas acções de Linda. Aguentou-se e apenas se virou quando já os passos do pai iam longe. Mas tão depressa uns passos foram, quando outros vieram.
-“Minha filha”? – Perguntou alguém com uma voz extremamente familiar.
Linda ficou pálida de morte e ergueu os seus olhos para enfrentar os de Eiji.
**
Ele vira-a desaparecer. E fora atrás dela. Afinal ela estava de rastos, mal se aguentava de pé. Perdeu-a de vista por uns minutos, mas depressa a encontrou.
Mas ela não estava sozinha.
Um homem loiro, na casa dos quarenta e olhos da mesma cor que os dele estava com ela. O olhar do homem era de extrema mágoa, que Eiji estranhamente associou ao olhar de Kenji.
Até que reconheceu o homem. Edward Natsumara, Rei de Cristal Tokyo.
Mas o que é que ele faz aqui? E porque fala com a Linda?
Edward respondera á sua pergunta com uma única frase:
-Dançaste muito bem… minha filha.
O que queria ele dizer com aquilo? Ele era o pai da Linda? Mas isso queria dizer que a Linda era…
-Sim – disse ela, calmamente, acordando Eiji dos seus pensamentos.
-O Rei é o teu pai – murmurou ele, chocado. – Tu és…
-A Princesa. – Acabou a frase, sempre num tom calmo. Já não adiantava esconder mais. Ele tinha o direito de saber.
-Não pode ser… mas… e então o Kenji?
-É o herdeiro. O futuro Rei... isto é… se eles não arranjarem outro – disse Linda, secamente. Ela olhava-o nos olhos, examinando as suas expressões. Tal como ela imaginava, havia choque, surpresa e…
Mágoa
-Porque é que nenhum de vocês me contou?
-Porque não é nada que se conte logo. E também não é uma coisa que nós queremos que os nossos amigos saibam.
-mas não confiam em nós? – Perguntou ele, furioso.
-Não é isso! – Agora ela também estava furiosa – O Berço onde nós nascemos não muda nada na nossa personalidade. Mas muda nas acções das pessoas à nossa volta…
-Não mudaria comigo.
-Como podíamos saber? Ou melhor… como podia eu saber? Eiji, eu nunca tive grandes amigos e grandes socializações antes de te conhecer. Eu apenas queria ser normal e não contar o meu segredo a ninguém. Enterrá-lo bem fundo. Não porque não confie em ti, apenas… é algo de que não me orgulhe.
Eiji fitou os sapatos, pensativo.
-E o Kenji? Quero dizer... pensei que nós fossemos amigos…
-E são… mas ele… - hesitou, mordendo o lábio inferior.
-Ele o quê?
-Aquele homem com quem tu me viste falar, deserdou-o.
Aquelas palavras tiveram forte embate em Eiji, como se este tivesse sido atingido por um tijolo.
-Deserdou-o?
-Sim... e eu fui ignorada toda a minha vida por esta gente. – Ela aproximou-se dele. – Eiji, eu e o meu irmão apenas queremos esquecer aquela vida. Não é a nossa.
Tentou agarrar a mão dele, mas ele desviou-se. Linda pousou o olhar na parede, magoada:
-Só te peço que entendas.
Eiji virou-lhe as costas e caminhou em círculos. O quanto aquela questão o magoava. Era a rapariga que ele gostava e o seu melhor amigo. Mais tijolos não lhe podiam ter mandado.
-Eu… não sei… em parte entendo, mas também… sinto-me magoado, traído… eu…
Linda controlou as lágrimas, que teimavam a sair.
-Preciso de tempo, Linda. Tempo para pensar. De repente, sinto que não te conheço. A ti e ao meu melhor amigo.
Ela, para surpresa dele, assentiu.
-Eu entendo Eiji. Mas no final, vais notar que eu e o Kenji fomos sempre os mesmos. Toda a gente tem pelo menos um segredo que abala o mundo, mas nem sempre abala o seu. Apenas… está a mais.
Ela desapareceu na esquina, deixando-o sozinho. Horas tinham passado desde que a tentara acalmar. Em que vira uma Linda Tsukino tímida, nervosa e querida.
Agora, a mulher que se afastara era firme, forte, uma excelente dançarina, corajosa, ainda mais bela do que ele pudesse imaginar, uma Linda que também podia perder o controlo, que podia perder o bom humor e revelar um temperamento forte.
Uma Linda que sofria por baixo de uma camada de verniz.
Uma Linda que era também a Princesa de Tokyo.
**
Linda deixou que a água do chuveiro lavasse o seu corpo. Ignorou todos os pensamentos do dia que passara e vestira a camisa de dormir, deitando-se na cama. Ignorou o pingente, colocado em cima da cómoda e que brilhava intensamente. Ignorou as palavras do pai, as palavras de Eiji, as palavras de Misaki. Fingiu nunca ter passado por uma batalha tão cansativa quanto aquela. Ignorou a dor que sentia por Eiji a ter afastado pouco depois de se terem entendido, a mágoa e raiva que Edward a fizera voltar a sentir. Ignorou as lágrimas, que tanto queriam sair.
Mas não pôde ignorar o forte apelo a água que a sua garganta exigia.
Levantou-se e arrastou o corpo mole até à cozinha, onde viu que não era a única com desejos nocturnos.
Mari comia umas bolachas na mesa e nem ergueu a cabeça quando Linda entrou e pegou num copo, enchendo-o de água.
Bebeu parte do conteúdo, antes de roubar uma bolacha a Mari, que parecia determinada a ignorá-la. Encolhendo os ombros ao comportamento da loira Linda bebeu o resto do líquido incolor e dirigiu-se até ao quarto, ainda a empurrar pensamentos para fora da sua mente.
Mas já à porta, houve um que não conseguiu afastar.
Lembrou-se de ter visto Sailor Faith a levar uma chicotada do monstro e a ficar com um severo corte na perna.
Os olhos de Linda abriram-se por completo, ao aperceber-se de algo.
Sailor Faith teria agora um grande corte na perna esquerda…
…tal como Mari.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
Olá Ana.
Só uma correcção. O meu nome é Bun, não Rub. (ou então Maria que é o verdadeiro,
)
Atirar-te com tijolos? Só se não postares o próximo capítulo!
As cenas românticas estavam muito bem.
Não estava nada à espera que o Eiji descobrisse a verdade.
Então o Kenji só ouve vozes por causa da Mari...que curioso, porque será...
Pensei que era suposto a Mari e a Cecília não serem navegantes. Mas pelo que dás a entender a Mari é mesmo a Sailor Faith.
Gostei muito de todo o capítulo, soube a pouco, quero mais!
Quando puderes acrescenta um capítulo. Ainda há muitos segredos por desvendar.
Beijo**
Só uma correcção. O meu nome é Bun, não Rub. (ou então Maria que é o verdadeiro,
)Atirar-te com tijolos? Só se não postares o próximo capítulo!
As cenas românticas estavam muito bem.
Não estava nada à espera que o Eiji descobrisse a verdade.
Então o Kenji só ouve vozes por causa da Mari...que curioso, porque será...
Pensei que era suposto a Mari e a Cecília não serem navegantes. Mas pelo que dás a entender a Mari é mesmo a Sailor Faith.
Gostei muito de todo o capítulo, soube a pouco, quero mais!
Quando puderes acrescenta um capítulo. Ainda há muitos segredos por desvendar.
Beijo**
OMFG!
Ana, se soubesses como estou enervada! Há seculos que estou a tentar vir ao forum postar uma coisa e isto nao aceitava as minhas mensagens! que cena! Mas ás tantas deparo-me com um capitulo enorme!
Foi o meio de me entreter enquanto isto nao funcionava! Aiii, estou apaixonada pelo beijo entre a Linda e o Eiji! Foi tao... Tao... Tao!! Nao há palavras, foi simplesmente lindo! 
Nunca vi capitulo com tantas emoções juntas!
Agarrei-me completamente. A relação do Eiji e da Linda, a batalha descrita a pormenor, a troca de pares, os ciumes da Mari... E por falar nisso, afinal ela é a sailor ou não?! Ai tu baralhas-me!
Por fm, todo aquele misterio em volta do Rei. Absolutamente soberbo!
Nem sei que dizer mais!
Estou rendida, mal posso esperar pelo proximo capitulo, e eu acho bem que o Eiji nao seja (desculpa o termo) um trengo, porque ela é princesa e isso que se lixe! Se ele gosta dela que deixe de lado tudo o resto!
Morta pelo próximo capitulo!
bjokas
Ana, se soubesses como estou enervada! Há seculos que estou a tentar vir ao forum postar uma coisa e isto nao aceitava as minhas mensagens! que cena! Mas ás tantas deparo-me com um capitulo enorme!
Foi o meio de me entreter enquanto isto nao funcionava! Aiii, estou apaixonada pelo beijo entre a Linda e o Eiji! Foi tao... Tao... Tao!! Nao há palavras, foi simplesmente lindo! 
Nunca vi capitulo com tantas emoções juntas!
Agarrei-me completamente. A relação do Eiji e da Linda, a batalha descrita a pormenor, a troca de pares, os ciumes da Mari... E por falar nisso, afinal ela é a sailor ou não?! Ai tu baralhas-me!
Por fm, todo aquele misterio em volta do Rei. Absolutamente soberbo!Nem sei que dizer mais!
Estou rendida, mal posso esperar pelo proximo capitulo, e eu acho bem que o Eiji nao seja (desculpa o termo) um trengo, porque ela é princesa e isso que se lixe! Se ele gosta dela que deixe de lado tudo o resto!
Morta pelo próximo capitulo!
bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Bun (ainda não sei como é que li Rub
): Eu não posso andar por ai a confirmar tudo aquilo que voces dizem. Se voces dizem que o Kenji vai morrer num acidente de carro, eu tenho que negar ou mudar de assunto, nunca confirmar. Assim as coisas não têm piada 
Obrigada por não me atirares tijolos. Sinceramente, não consigo deixar de ler aquilo e pensar que não me expressei o suficiente, mas se vocês dizem que está bom... quem sou eu para vos contrarear
No que toca a segredos... ui, há bastantes por desvendar, mas alguns já aparecem neste capítulo novo. Os restantes ainda vão demorar a aparecer.
Lulu: O Eiji não é trenguinho nenhum! Ok, ele ás vezes tem os seus momentos (o Setsu tbm tem.. de que parte da familia isso veio?), mas é uma personagem racional. Vamos considerar isto (eu pelo menos considero) uma birrinha de adolescente
Baralhei-te? Pois.. tu tbm me baralhaste na tua fanfic algumas vezes (*mim canta* cá se faz cá se paga
) E garanto-vos que ainda se vão baralhar algumas vezes. Pelo menos no que toca ao assunto principal.
Obrigada pelos vossos comentários, fico mesmo feliz por os ler
Pois bem, estou de férias e este capítulo é dos meus preferidos. Como tal, escrevi-o num único dia. Andei sempre ansiosa por esta cena que é quando duas personagens principais descarregam as suas emoções (ambas da pior maneira) e ficam revoltadas consigo próprias.
Mais uma vez, senti este capítulo com qualidade fraquita e aceito sugestões para o alterar.
Segui o exemplo da lulu (espero que não te importes) e pus uma musiquinha de ambiente no meio. Adoro-a e acho que tem muito a ver com a cena em causa.
P.S: No final, vou pôr umas mini-curiosidades porque este capitulo está cheio delas. Quando acabei de reler, decidi tentar esclarecer algumas coisas, pois a minha fanfic não tem muitas coisas interessantes para contar, mas este capítulo já tem uma mão cheia.
--------------------------
21. A queda da máscara
Num castelo de ar encantado, reinava o silêncio. Nos corredores desertos, apenas se ouvia os passos pesados de uma figura baixa, que caminhava devagar. Até ele, homem de poderes misteriosos, tinha medo. Medo de desapontar a sua Lady.
Mas esta já sabia que ele vinha de mãos vazias. Pela primeira vez. O primeiro e único erro cometido.
Tinha subestimado as jovens navegantes. Principalmente a princesa…
Bateu a uma porta no fundo do corredor central. Ao ouvir uma confirmação do outro lado, entrou receoso.
Lady Dawson estava de pé junto a uma janela, virada de costas para ele. No horizonte que a janela mostrava, via-se o palácio da família real. Dawson parecia irritada. Pior ficaria quando descobrisse.
-Lady? – Chamou o homem, dando um passo em frente. A divisão era apenas iluminada pelos raios lunares que vinham da janela e pelas luzes das Flores, que postavam ao seu lado, brilhando tristemente.
A mulher virou-se. Vestia um fato negro até ao joelho e um leve lenço cinzento-escuro cobria-lhe as costas brancas. Os olhos negros brilhavam de emoção. Emoção que desaparecera, quando vira as mãos vazias do seu servo:
-Onde está a Flor?
-Não consegui apanha-la. Agora elas estão a guardá-la. – Desculpou-se o homem. Dawson sabia a quem ele se referia. À Rainha Velha e as suas ajudantes. Agora que elas a protegiam, era quase impossível para ela alcançar a Flor de Mercúrio.
-Falhaste-me – acusou ela, com desprezo. O homem aproximou-se dela e pôs-se de joelhos.
-Por favor Lady. Perdoa-me. – Suplicou ele, pegando na mão dela e beijando-a.
-Levanta-te seu imbecil! – Dawson afastou a mão, com nojo e voltou a fitar o horizonte. Desta vez, não escondia a raiva. – Acabaste por alterar os meus planos. Mas isso não quer dizer que eu ainda não possa vencer. No final, a família real jamais porá os pés no mesmo solo que eu piso.
Sorriu maliciosamente. Sim, ela estava na pista certa.
-Porque falhaste? – Virou-se para o seu servo, perdendo o sorriso. Este não ousou olhá-la nos olhos, encontrando uma pequena poeira no chão.
-As jovens navegante, Lady. Elas…
-Já percebi – cortou ela, friamente. Aquilo no fundo, eram boas notícias. Com a ajuda das adolescentes, ela iria conseguir ganhar. Era preciso apenas esperar… - Mas porque raio demoraste muito a atacar a rapariga? Acabaste por dar tempo às pirralhas!
-Minha Lady… - ele não ousou dizer aquilo que pensara. Mas ela já sabia.
-Subestimaste-as. Não devias. Uma delas tem o sangue de navegante a correr-lhe pelas veias. Instinto de líder e de batalha. Devias saber disso!
-Eu sei... mas não foi apenas isso…
-O que foi? Fala imbecil! – Gritou ela, impaciente.
-Havia interferências nos meus poderes enquanto procurava a Flor.
-Estás a dizer-me que… - ela não continuou a frase, compreensão a chegar aos seus olhos escuros.
-Havia mais uma Flor naquele Pavilhão. E estava bem perto de mim…
**
O dia amanhecera nublado, com a promessa de chuva. No apartamento Nakamura, Aiko fazia o pequeno-almoço para as amigas, cantarolando uma canção da rádio alegremente. A sua boa disposição fazia contraste com o tempo horrível no exterior.
Nos quartos, as duas adolescentes acordaram e vestiram roupas normais. Linda amaldiçoou a sorte de Mari por não ter que usar uniforme naquele dia. Sendo o último dia de aulas, a sua mochila ia apenas carregada por alguns cadernos e estojo e os professores davam autorização para eles usarem as roupas do dia-a-dia. Como tal, Mari estava de calças, não dando oportunidade a Linda de ver o corte na perna.
Ela tinha a certeza que o tinha visto na noite anterior. Que não fora um sonho ou uma alucinação. Vira o corte, o mesmo que a Guardiã da Fé teria naquele exacto momento na perna esquerda.
As duas tomaram o pequeno-almoço, ignorando a existência uma da outra. Linda vestia uma camisola cinzenta e um casaco azul-escuro, enquanto um pequeno cachecol pousava no seu colo, a fim de ser colocado no seu pescoço ao sair. Mari tinha uma camisola vermelha e o casaco era de um verde-claro. O cachecol era às riscas verdes e cinzentas.
Linda ia deitando uma olhadela em Mari, que comia os cereais calmamente. Quando viu Mari coçar a perna esquerda, viu - de raspão - aquilo que procurava:
-Como fizeste esse corte? – Perguntou, tentando parecer casual.
Mari olhou espantada para a hóspede, mas demorou a responder:
-Caí.
-Caís-te de onde?
-Das bancadas – respondeu a loira num tom aborrecido. Linda sabia que ela mentira e deu graças a Aiko para colaborar com ela.
-Caíste nas bancadas? Mas eu estive sempre lá e não te vi cair! Oh Mari deixa ver esse corte.
-Não avó, não é preciso! – Reclamou a loira, mas não conseguindo evitar que a avó puxasse as calças para cima. Linda, por seu lado, abafou uma gargalhada e esticou a cabeça para ver.
E lá estava, o grande corte, que rasgava a pele da loira e que demoraria a cicatrizar. Parecia ter sangrado muito, mas agora estava apenas vermelho, com um pouco de amarelo à volta. Mari pusera betadine, mas pouco efeito parecia estar a fazer.
-Oh Mari. Como fizeste isso?
-Já disse, caí nas bancadas. – Mari estava agora zangada e olhava para Linda como se quisesse fuzilá-la. Esta tentou parecer chocada com a ferida. Mas era claro que não estava. Respostas a muitas perguntas começavam a surgir e, pouco antes de sair de casa, tinha a certeza de muita coisa.
**
Eiji pedira tempo. Como tal, não ficava perto de Linda por mais de cinco minutos, antes de se afastar. Falava com ela, mas nunca sozinho. Por várias vezes, Linda sentiu-se observada por ele nas aulas e quando todos lhes davam os parabéns, mas sempre que ela olhava, ele desviava a atenção para outra pessoa.
Era estúpido dizer que aquilo não a magoava. Estúpido e imaturo. Ela falara com ele, admitira que ele era especial para ela e, por infelicidades do destino, afastaram-se mais em vez de ficarem mais unidos.
Ele chegara perto dela logo na primeira aula, com algo na mão:
-O Kenji pediu-me para te dar isto – estendeu uma rosa branca sem espinhos meio fechada para Linda. – Achou que tu a merecesses. Ele dava-te pessoalmente, mas hoje ele e o Setsu só saem da faculdade às 20h15.
Ele sorriu, mas apenas durou dois segundos, antes de se virar para a sua mesa e iniciar uma conversa banal com um outro colega.
Quase toda a escola dera os parabéns a Linda e Eiji, mas principalmente à primeira, pois a história do ferimento de Eiji e do substituto correra paredes da escola à velocidade da luz. Alguns alunos, que estava presentes no torneio, tinham filmado Linda nas duas danças e, de algum modo, o vídeo chegou a Kiara, que pusera a reproduzir na última aula de matemática do período.
No final, todos elogiavam Linda. Menos uma pessoa.
Uma loira de olhos verdes não dirigira a palavra a Linda o tempo todo e ignorava a sua presença em qualquer lado, mudando o assunto de conversa sempre que tinha a ver com ela e respondendo torto quando perguntavam a sua opinião sobre algo acerca de Linda.
Até os professores teciam numerosos elogios. Principalmente porque as pautas dos testes tinham saído e Linda estava no topo de todas as aulas. Apesar de mais alunos, como Eiji e Cecília também estarem no topo, Linda chamara mais a atenção, por ser a mais nova na escola e pelo dom na dança.
E claro que a paciência de uns tinha tendência a bulir em situações destas.
Mari olhava para Linda com profundo ódio, enquanto esta comparava notas com Kiara e outras raparigas. Alguém ao seu lado dissera algo sobre o quanto Linda era notável e fora aí que o seu temperamento explodira:
-Mas vocês não sabem nada sobre ela!
O seu comentário chamara a atenção de algumas cabeças, a de Linda no meio. Mari, ao ver que tinha a atenção da morena, continuou:
-Vocês todos comentam que ela é fantástica. Mas não é! Ela mora na minha casa e eu sei muito bem como ela age. Arma-se em miss perfeita à frente da minha avó, dos professores e de vocês. Mas ela tem segredos. E pelo menos um eu sei. Tu mudas de homem como quem muda de camisa – gritou, apontando o dedo para Linda. – Andas enrolada com um, mas atiras-te a outro e pelo caminho ainda sais com um terceiro.
-Mari chega! – Cecília abriu caminho na multidão que se impusera à volta das duas, com Eiji atrás – Não tens fundamentos para isso.
-Tenho sim senhora. Eu própria vi ela sair com um tipo, depois enrolada com outro, para finalmente a ter visto ontem com outro rapaz, cujo nome não irei dizer. – Olhou Eiji pelo canto do olho. Este por sua vez, sentiu a raiva subir-lhe á cabeça.
-Mari chega! – Gritou ele para a loira. Esta indignada, respondeu:
-Tu que és homem não devias cair nas garras nesta impostora. Nenhum de vocês sabe como ela é. Sabem lá se um dia ela ainda vos dá uma apunhalada nas costas.
Linda tinha a boca ligeiramente aberta. Não sabia o que dizer e, estranhamente as palavras de Mari doíam-lhe no coração.
Mari tornou a sua atenção para ela:
-Tu és falsa, manipuladora e mesquinha. Gozas com a boa vontade dos outros. Não me admira nada que os teus pais não queriam saber de ti.
PASSSSSS
O estalo apanhara Mari de surpresa e fora dado com tanta força, que esta tombou para trás. Todos olhavam incrédulos para Linda, que já não escondia a raiva e fitava Mari sem brilho algum nos olhos escuros.
-É verdade – a voz saiu rouca, mas decidida. – Não sabem nada sobre mim. Mas tu também não sabes nada. Alias – o seu olhar percorreu a multidão, parando em Eiji e Cecília – Há quem pensa que me conhece. Mas no final de contas… não sabe nada sobre mim.
Não disfarçou as lágrimas, que caiam pelo seu rosto. Querendo sair dali, barrou caminho por entre a multidão, antes que os professores viessem, e saiu porta fora. Eiji correra atrás dela, chamando-a, mas ela não parou.
Nem parara quando chocara com um caixote do lixo, nem com um homem que ia a passar:
-Então? veja por onde anda! – Reclamou o homem, que quase caíra ao chão.
A certa altura correu. Correu por entre ruas na qual ela nunca tinha passado, passou por uma rotunda, parques, casas, prédios, escolas, um museu…
Não sabia onde estava. Nunca tinha vindo a aquela zona da cidade.
Podia pedir ajuda, mas não queria. Para quê? Voltar para a casa de Aiko, onde iria encontrar Mari?
Caminhou por entre o cinzento das ruas, até chegar a um parque desconhecido.
Passou por bancos, uma fonte, casais apaixonados a namorar debaixo da árvore, apesar de não estar tempo para isso, viu uma criança a dar de comer aos pássaros, que saboreavam as migalhas de pão na mão da criança, fazendo barulhos suaves em tom de agradecimento, antes de voarem para longe.
Finalmente, chegou a uma zona quase deserta. Apenas um casal de namorados e um homem na casa dos cinquentas e com cabelo grisalho estavam ali. Sentou-se na relva molhada pela humidade e observou a vista.
Aquilo era o belo horrível que ouvira falar em filosofia, sem dúvida. As nuvens negras carregadas de água pairavam por cima de casas desabitadas e antigas, junto a uma ponte, que dava para a Baia de Tokyo. Perguntou-se o quão longe de casa estava.
Suspirou, abraçando-se a si própria. O frio aumentava e começava a ser mais difícil estar fora de casa. Linda olhou para o relógio. Eram 15h02. Ainda tinha mais uma aula. Mas claro que iria faltar. Não estava em condições em ir para a escola.
Ainda estava exausta por causa da energia desperdiçada na batalha, ainda se sentia mole nos pés por causa da dança. Não tinha vontade nenhuma de estar de pé.
Ficou por uns momentos a observar a paisagem, até que sentiu a sensação estranha de que era observava. Ao virar-se para trás, viu o homem a olhar para ela, enquanto escrevinhava no caderno. Este sorriu:
-Espero que não te importes. – Apontou para um caderno no seu colo. Parecia que, nos últimos minutos ele tinha estado a desenhá-la com o lápis a carvão. – És um bom modelo!
-Obrigada. – Disse ela com a voz fraca, antes de se virar para a frente. O homem, não satisfeito, saiu do banco onde estava sentado e dirigiu-se para o pé dela.
-Que bom ver-te, Linda! – Estendeu a mão. Linda aceitou-a, espantada.
-Como sabe que eu me chamo Linda?
O homem continuou a sorrir:
-Oh… é uma longa história. E quem sou eu para não te contar. Pois bem… Sou Kentaro Sagahara e sou professor da Universidade de Artes. Sei o teu nome por causa de um desenho.
-Um desenho?
-Sim – o homem pegou na grande pasta de ombro e vasculhou-a até encontrar uma capa preta cheia de folhas soltas. Algumas eram antigas e estavam já amareladas, mas pareciam em bom estado.
-Era uma vez… - Kentaro tirou um desenho, que parecia ser dos mais antigos. Lá um belíssimo unicórnio de pelagem branca e cabelos e chifre dourado cavalgava por prados verdes. O desenho tinha traços notáveis e dava um ar angelical à criatura, livre e confiante.
– ...Uma rapariga que adorava unicórnios. Quando o pai veio à faculdade ver como a filha se saia, mostrei-lhe este desenho e ele deu uma alta gargalhada, dizendo que unicórnios sempre foram o único capricho da filha. Exigira um unicórnio no Natal quando tinha apenas seis anos. – Kentaro e Linda sorriram pela inocência da menina. Linda, ao observar melhor o desenho, conseguia ver tranquilidade nos traços da rapariga que o desenhara. Tranquilidade, mas não ingenuidade. Provavelmente ainda sentia carinho por aquela parte da sua infância, apesar de já não acreditar neles.
-E depois… - continuou Kentaro, tirando outro desenho da pasta – Ela cresceu e encontro dúvidas na sua vida.
O desenho tinha agora apenas quatro cores. Preto, azul, violeta e branco. Ela desenhara traços, buracos em espiral, relógios, portas fechadas, luzes. Apenas quem desenhara aquilo poderia entender o seu significado.
-Ela amava um homem, mas não podia ter nada com ele. Havia muitos fossos. – Kentaro apontou para os buracos e para as portas fechadas. Os traços, Linda entendeu, representavam corredores, espaços. – Parecia perder tempo. – Kentaro não precisou de dizer nada. Era óbvio o significado dos relógios. – Até que, quando ela menos esperava, conseguiu encontrar uma luz no fundo do túnel. Ela não conseguiu abrir as portas com nenhuma chave, por isso utilizou o punho. – Apontou para as portas e para uma pequena chave mesmo na margem esquerda inferior do desenho e muito distante das portas. Linda ergueu os olhos para a luz. Era o que mais se destacava no desenho, apesar de ser pequena em comparação ao tamanho das portas.
-Que luz era? – Perguntou, curiosa.
-A luz de uma porta. Ela não a conseguiu abrir, até que alguém a abriu do outro lado. – Kentaro riu-se, juntamente com Linda. Esta começava a identificar-se com a rapariga. Alguém que se encontrava presa, sem que nenhuma chave pudesse abrir portas para a sua fuga. Mas alguém salvara a rapariga. Alguém abrira-lhe a porta.
-Ela nunca gostou de filosofia, mas quando desenhava mostrava sempre o seu lado filosófico. – O homem voltou a rir-se. - Foi feliz. Amou e foi amada. Casou-se e ficou grávida. E é ai que fico a saber o teu nome. – Kentaro dirigiu o seu olhar cinzento para Linda, que ficou pálida. Tinha agora uma pequena ideia de quem fora a mulher. Mas a avó nunca lhe contara que sabia desenhar. Para além do homem não parecer ser assim tão velho. Havia outra hipótese, mas Linda recusava-se a acreditar. – Já ouviste falar de Linda O’Connell?
-Não. – Respondeu, confusa. - Quem é?
-Uma escritora irlandesa. A preferida da minha aluna. Ela lera todos os romances e admirava a escritora e a sua protagonista: Andrea Sullivan.
Andrea era uma morena, com cabelo escuro como o teu e olhos azuis… mas os dela eram mais claros. – Acrescentou Kentaro, antes de prosseguir. – Era de estatura média, bonita, curiosa, corajosa, determinada, a heroína preferida das mulheres japonesas. – O homem tinha agora um outro desenho, que parecia ser mais recente, na sua mão. – Andrea tinha um irmão mais velho, George, que num dos livros, viaja para o Japão (esse foi o livro mais vendido por cá) e acaba por se meter em sarilhos, ao endividar-se com um barão do jogo. Andrea vai para o Japão salvar o irmão, mas quando lá chega, descobre que ele usava um nome falso para não ser apanhado. Sabes qual?
Linda tinha uma sugestão. Mas negou com a cabeça.
-Kenji
Agora não adiantava negar. A rapariga que desenhara aquilo tudo fora a sua mãe. Fora assim que o seu nome e o de Kenji viera ao de cima, para além do facto de Kenji ter o nome do pai da avó. Era essa a origem do seu nome.
Mas ela nunca adivinhara que a mãe desenhava.
Ou melhor, agora que ela se lembrava, havia quadros em casa, feitos antes do seu nascimento, que tinham um estilo parecido com o da rapariga.
Estava explicado como o homem a conhecia. Reconhecera-a como sendo filha da sua mãe e chamara-a de Linda, confiando que a sua antiga estudante fosse fiel à sua palavra.
-Linda e Kenji eram os nomes que ela escolhera para o filho que ela esperava. Como não sabia como a criança seria, imaginou a filha como Andrea, mas com as suas feições e o rapaz como George (loiro de olhos azuis também) mas com as feições do marido. – Estendeu o desenho para Linda. Esta mal podia acreditar no que os seus olhos viam.
Uma verdadeira replica sua estava ali desenhada, com uma pose séria, de braços cruzados e a cabeça virada para o lado. Usagi Chiba desenhava muito bem, acabando por imaginar a própria filha muito antes de esta nascer. Por baixo do desenho da moça, que vestia umas calças de ganga, um casaco e botas beges e uma blusa azul, da cor dos olhos, ostentava um nome: Linda, escrito a lápis.
Linda ficou impressionada. A mãe tinha uma caligrafia semelhante à dela, redonda, delicada e extremamente organizada, que combinava com os traços tranquilos dos seus desenhos.
Ao lado, um rapaz sorria, com cabelos exactamente iguais ao de Kenji. Mas aquele não era Kenji. Metade das suas feições eram as mesmas, mas a outra metade não. As semelhanças do irmão com o avô não estavam ali, não tornando a réplica exacta. Debaixo do desenho, o nome: Kenji.
No entanto, as semelhanças entre as feições que Usagi imaginava que os filhos teriam das feições reais eram impressionantes. Não admirava nada que Kentaro tivesse reconhecido Linda.
Este observou a jovem largar uma pequena lágrima que caiu pelo rosto. Com um dedo, limpou a lágrima de sal.
-Ela teve um filho. Deu-lhe o nome que tinha planeado. Ela e o marido depois vieram visitar-me. Faziam um casal perfeito. Eu também dei aulas a ele.
-Deu? – Custava a Linda acreditar que o pai tivesse ingressado na faculdade de Artes.
-Sim. Não me perguntes como é que ele fez, mas estava nas minhas aulas e nas aulas de Relações Publicas, o curso que queria tirar.
-Então porque veio para artes?
Kentaro sorriu das memórias
-Para estar com a tua mãe. Conhecera-a num workshop de Relações Publicas que ela decidira tirar por prazer, em Inglaterra. Fora ai que o conhecera. Ele encantou-se com ela e acompanhou-a até ao Japão. Ele nascera nas Ilhas Britânicas, mas a mãe era japonesa e ele sempre sentira um carinho por estas terras. Na aula onde pedi para desenhar pedaços da infância, a tua mãe desenhou o unicórnio e o teu pai uma paisagem vista do templo Meiji, local que passeara com a mãe quando era pequeno. Depois disso os pais morreram e ele voltou para Inglaterra com o tio, herdeiro do trono Britânico. Mas ele nunca gostou daquele sítio. Daria um melhor rei do que o tio e os primos, mas não ali. Ainda bem que encontrou a tua mãe – disse, piscando o olho.
-Você sabe que…
-É claro que sei. Apenas parei de lhe escrever por dois motivos. Um foi que, a partir do nascimento do primeiro filho, ela deixou as artes e focou-se nas questões do reino, tal como o marido. Mandávamos cartas um ao outro mas, quatro anos depois algo aconteceu…
Kentaro suspirou, fitando o horizonte. As nuvens estavam agora mais negras e o casal de namorados já se tinha ido embora. Apenas Linda e Kentaro estavam no parque.
-Algo aconteceu. Soube que ela estava grávida pela segunda vez, mas ela não me disse nada. Pensei que ela tivesse passado por um aborto ou descoberto que o filho que carregava transportava uma doença ou uma deformação. Nunca cheguei a saber. – Olhou para Linda, que tinha os braços abraçados às pernas – Sabes o que foi? Digo, deves ter dezasseis...
-Hum hum… - ela suspirou pesadamente, incomodada com o frio. Apertou o casaco e virou-se para o professor de Artes – eu não sei. Nunca soube. Eu nem sequer sabia que…
-Pois… - Kentaro pegou num último desenho, estendendo-o a Linda – A última vez que a vi tinha trazido o filho de três anos para aqui. Era uma criança linda. Espero que esteja bem.
-Sim… está. – Linda agora evitava olhar para o homem. Muitos pensamentos circulavam a sua mente.
Como o homem tinha o desenho estendido, Linda pegou nele por educação. Toda a boa disposição que podia ter ganho com aquela conversa desapareceu.
O desenho mostrava um casal a segurar uma criança de três anos que brincava com um barquito. A criança sorria, enquanto o pai a segurava com os dois braços, mostrando um enorme sorriso. Do outro lado, a mãe beijava a face rechonchuda do pequeno, que parecia alheio ao que se passava à sua volta, mantendo as suas atenções no barquito nas suas mãos.
-Eu… - tentou dizer ela, mas sem forças. Aquilo era demais para um dia só – não sei o que…
-Fiquei com estes três desenhos da tua mãe e este retrato feito por mim. Espero que não te importes. A tua mãe foi uma das minhas alunas preferidas e ainda guardo-lhe um cantinho especial no meu coração. Adorei também o teu pai. Via-se que ele não fora feito para aquilo, mas esforçava-se e era inteligente e acabou por ter notas mais elevadas que alguns alunos. Eu cheguei a perguntar-lhe como é que ele conseguia e ele apenas disse “Dois pontos abaixo do grau de sobredotado”, acreditas?
Linda perdeu toda a cor da pele. Ela também tinha um Q.I dois pontos abaixo do grau de sobredotado. Explicava a sua facilidade em aprender a matéria e a facilidade de entender as coisas à sua volta.
Mas ela não sabia que tinha herdado aquilo do pai. Quantas mais semelhanças com ele iria encontrar?
Preferiu não esperar para saber…
-Bem... já está tarde – começou.
-Desculpa jovem. Eu sei que tens que ir para casa. – Pegou na folha do seu caderno e rasgou-a – toma-a – disse, estendendo um auto-retrato de Linda, sentada na relva a observar o horizonte.
-Por acaso sabe onde estou? – Perguntou ela meio atrapalhada.
-Estás perdida?
-Mais ou menos. Moro a oeste da torre de Tokyo.
-Então segue esta rua – apontou para a esquerda – depois vais sempre em frente até chegares a uma rotunda.
Ela lembrava-se da rotunda. Fora aí que começara a correr e a perder noção de onde estava.
-Já apanhei. Obrigada. – Disse, com um sorriso fraco, mas cordial.
Linda levantou-se e colocou a folha no bolso das calças. Despediu-se do homem e dirigiu-se para casa.
Ao ver o relógio eram 16h38. Ainda tinha muito tempo…
As palavras de Kentaro ecoavam na sua cabeça, assim como a imagem da família feliz da qual Linda nunca fizera parte.
“Mas, quatro anos depois algo aconteceu… “
Ela nasceu. Fora isso que acontecera. E fora a partir dai que as coisas tinham mudado. Kenji perdera os pais que o tinham amado desde o nascimento e ela… nunca perdera nada, porque nunca tivera.
Estava tudo explicado. Ela era a causa de todo o desespero dos pais e do irmão. Se ela não tivesse nascido, Kenji ainda estaria a morar no palácio, junto dos pais, que talvez seriam um casal feliz.
Chegara a casa. Guardou o desenho e esperou na sala.
As pessoas queriam respostas. Então iam tê-las.
**
(paralelamente, pouco depois de Linda ter saído)
-Desta vez foste longe de mais, Mari! – Gritou Cecília, furiosa com a atitude da amiga. Atrás de si, várias pessoas concordaram.
E Mari sentiu vergonha pela primeira vez. Eiji voltara, fulo da vida e evitava olhar para Mari, virando-se para Cecília:
-Desapareceu. Corri atrás dela, mas ela foi mais rápida do que eu. Não foi para casa.
Todos pareciam preocupados com Linda. Mari entendia. Nunca vira a morena tão furiosa em todo o tempo que ela estivera na sua casa. E não era apenas fúria, mas também mágoa.
Tinha tocado um nervo sensível ao mencionar os pais dela.
Ninguém ajudou Mari a levantar-se. Na sua face, ainda se via a marca vermelha do estalo que Linda lhe dera, mas Mari já não estava furiosa. Por algum motivo, toda a raiva desaparecera quando Linda lhe batera. Parecera que a tinha acordado para a vida. Ela estava furiosa, mas não com a sua hóspede. Não, ela era apenas o bode expiratório para todas as suas desilusões da vida. Descarregara nela tudo aquilo que sentia em si própria.
Os professores aproximaram-se, querendo separar a multidão. Ao perguntarem o que se passava, rostos viraram-se para Mari:
-Menina Nakamura, o que aconteceu? – Perguntou um professor, num tom sério.
Mari não respondeu. Em vez disso foi Eiji:
-Ela e a Linda zangaram-se, apenas isso.
-E onde está a menina Tsukino?
-Foi para casa, senhor. Não se estava a sentir bem.
O professor não pareceu acreditar, mas não fez mais perguntas. Ordenou que todos os alunos regressassem para as suas salas e voltou para a sala de professores. Apenas a turma de Linda, Mari, Eiji e Cecília ficara.
Os olhos de todos concentravam-se em Mari e na mochila de Linda, ali no chão esquecida.
-Quem leva a pasta dela? – Perguntou Kiara.
Cecília e Eiji olharam para Mari, não escondendo a raiva e a frieza.
-Eu levo – disse Mari.
-Nem penses. Ainda dás cabo das coisas dela! – Gritou alguém.
-Eiji porque não a denunciaste? – Perguntou uma rapariga.
-Porque há coisas que a Mari não sabe – respondeu o loiro.
-Mas pode saber… se aprender a pedir desculpas. – Completou Cecília, virando-se para a sala e desaparecendo.
Todos abandonaram Mari, que sentia-se pesada e com frio. Pegou na pasta de Linda e dirigiu-se para casa.
Mas ela não estava lá. Preocupação encheu os olhos de Mari. Linda ainda não conhecia Tokyo por inteiro.
Pegou no casaco e foi em busca da hóspede.
**
Procurara-a por todo o lado, desde a Universidade de Medicina até ao parque onde uma rapariga fora atacada.
Nem sinais dela.
Olhou o relógio. 19h58.
Tinha ficado no parque a ver se Linda aparecia, mas também a pensar. Tinha sido estúpida. Os ciúmes faziam-na assim.
Agora esperava encontrá-la em casa, ou iria ligar para a polícia.
Quando entrou, o cheiro a carne assada com esparguete encheu o ar. A avó já estava em casa.
Assim como Linda.
Esta via o jornal, onde uma notícia de destaque roubava espaço às outras também importantes. Uma notícia sobre a Rainha. Mari estranhou que o pivô tivesse a máxima atenção de Linda, que não ergueu a cabeça quando ela entrara na divisão.
Pousou o casaco e chegou-se perto dela, sentando-se na ombreira do sofá vermelho. Sabia que ela a observava pelo canto do olho, mas por outro lado, via a noticia com o máximo interesse. Não parecia fingir.
Mari decidiu tomar atenção à notícia, tentando arranjar palavras para iniciar uma conversa.
“Depois de diversos rumores terem passado pelas paredes do palácio, chegam agora – através de fontes próximas e credíveis – factos que confirmam a veracidade dos rumores. A Rainha está a morrer! Ninguém sabe que doença a monarca contraiu, mas sabe-se que apenas o médico e familiares próximos têm permissão para a ver e que Vossa Majestade já não tem muito tempo de vida. A Rainha Serenity e o Rei Endymion - renunciados ao direito do trono doze anos antes a favor da filha – recusaram-se a prestar declarações, assim como Vossa Majestade, o rei Edward.
Já vários admiradores do trabalho da Rainha – que mandou construir dúzias de hospitais para crianças necessitadas - mandaram cartas para o palácio desejando as melhoras e afirmando estarem a rezar por ela. O porta-voz da Rainha diz que esta está muito comovida, mas nada mais afirma.
Espera-se por mais informações acerca do caso, principalmente devido ao constante problema da sucessão, visto circular um rumor de que o rei Edward renunciara os direitos do príncipe herdeiro ao trono, para além de não existir sinais de vida da princesa e de não haver mais herdeiros.”
A notícia falava agora dos grandes trabalhos da Rainha, mas Mari já não prestava atenção. Linda suspirara desconfortavelmente. Por causa da notícia?
Mari não sabia que ela era fã do trabalho da Rainha, afinal nunca a vira ler nenhuma revista e sempre que mencionavam a família real na televisão, Linda desligava o aparelho ou mudava de canal.
Era muito estranho…
Abriu a boca para falar, mas Linda foi mais rápida:
-Onde fizeste o corte?
De tudo o que ela pudesse perguntar, aquela era a menos esperada.
-Já te disse. – Respondeu a loira, tentando parecer calma. – Eu…
-Mentes – cortou ela, friamente.
Mari lambeu os lábios secos, desconfortável.
-Olha... eu queria falar contigo…
-Já estás a falar comigo – voltou Linda a interromper, sem nunca mostrar um pingo de delicadeza no tom de voz. – Ou queres discutir?
-Não! Quero apenas… olha, eu sei que nunca me irás perdoar, mas…
-Para Guardiã, não tens muita fé – murmurou Linda.
Mari congelou no sítio.
-O que disseste? – Perguntou, aterrorizada.
-Para Guardiã, não tens muita fé – repetiu a morena, em tom de gozo mas sem perder a frieza.
-De que é que estás a falar?
-Tenho mesmo que te responder? – Linda virou-se para a loira. Os seus olhos não brilhavam e estavam negros como o céu nocturno, os lábios formavam uma linha recta e o seu olhar quase que fez Mari saltar da ombreira do sofá. – Julguei que a teoria de que ‘as loiras são burras’ fosse um mito.
Mari engoliu em seco e sentiu-se subitamente muito desconfortável ao pé de Linda.
-Como é que sabes…?
-Eu estava lá. – Cortou Linda. Parecia decidida a não deixar Mari acabar uma frase.
-Estavas? – Compreensão chegou a Mari, chocando-a mais do que surpreendera. -Tu és…
-A Guardiã dos Sonhos – acabou Linda, levantando-se. Pelo canto do olho, ia deitando um olhar à televisão, que ainda falava da mãe. – Surpresa? – Lançou um sorriso frio e cínico, que arrepiou Mari. -Sabes… a Cecília bem que condiz com o papel dela. Tenta sempre ir buscar a harmonia de toda a gente. Tu, quando tiveste aquela visão, deixaste-me preocupada, mas quando mais tarde te vi outra vez em transe, suspeitei. E os meus miolos juntaram as peças quando te vi com aquele corte feio na perna. O comportamento que tu e a Cecília tinham ao meu lado era exactamente o mesmo que as navegantes. Uma era atenciosa, mas não demais. – Enquanto falava, Linda fazia gestos com as mãos, dando presença dramática no seu discurso - A outra odiava-me só por estar ali. Giro não? Somos rivais em tudo! – Linda soltou uma gargalhada falsa, até que parou. O momento que ela tão esperava apareceu na televisão.
-Queres mesmo saber quem eu sou? Vá lá Mari, não tenhas medo. Queres saber ou não? Pois então olha para a televisão!! – gritou, apontando para a TV. Lá, a Rainha cortava a fita de abertura de um novo hospital, um ano antes. Estava toda sorridente, mas o seu sorriso escondia sombras.
Mari perdeu a voz. Era um clone de Linda, mas mais velha e com diferente cor de cabelo e olhos. De resto... era igual!
-Ela é…
-A minha mãe. E agora, Mari faz as contas. Diz lá, o que é que eu escondo?!
Mari não conseguia falar. Toda a sua voz perdera-se na garganta, recusando-se a sair.
-Tu… és… princesa.
-Bingo. 10 Pontos para ti, Mari. Sim. – Linda fingiu comemorar até que se aproximou da loira, com os olhos a fumegar – eu sou a princesa.
Linda falara com tal determinação e convicção que era impossível a Mari duvidar da sua palavra. Então era aquele o seu segredo…
Mari sentiu como se um camião cheio de cimento estivesse estacionado em cima dela. Afinal, o segredo dela era muito mais forte do que ela alguma vez imaginara. Era um segredo que não se contava a toda a gente. Como fora parva!
-Linda, eu…
-E sabes a melhor? Um dos rapazes com quem me viste enrolada… é meu irmão!
Mari tremeu e os seus olhos ficaram muito abertos. Linda não disse mais nada, deixando o silêncio instalar-se na divisão.
-O Kenji é…
Nenhuma das duas conseguia falar. Uma porque não tinha palavras, apesar de parte de si estar a suplicar por perdão para a morena. A outra porque tentava esconder todas as suas emoções. Não podia libertá-las agora... tinha que esperar.
-Meninas, está tudo bem? Ouvi a Linda gritar! – Chamou Aiko, vinda da cozinha.
-Está tudo bem Aiko. – Linda desviou os olhos de Mari para o seu relógio de pulso. 20h41. A pessoa que ela procurava já estava em casa. – Aiko, não tenho fome. Peço desculpa, mas vou sair.
Pegou no casaco e saiu sem dizer mais nada. Aiko ficou a olhar para a porta e para a neta, desconfiada.
-O que fizeste desta vez? – Perguntou, um pouco irritada.
Para sua surpresa, a neta não reclamou. Em vez disso, respondeu com pesar:
-Agi que nem uma idiota.
**
Linda caminhou devagar, pensando em tudo o que acontecera hoje. Mas cada pensamento vinha com uma pedrada para a sua cabeça, pois sentia-se ainda pior. Alguém devia adorar brincar com os sentimentos dela, para a pôr feliz num minuto e completamente desesperada noutro. Para que, num momento descobrisse que a sua mãe tivera carisma de tal, para noutro descobrir que esta estava a morrer. Iria perder a mãe que nunca conhecera.
Os seus problemas eram pequenos como bolas de sabão ao lado de muitos, mas ainda assim eram demasiados problemas para alguém da sua idade. Eram demais para que ela pudesse aguentar.
Mas depois de um dia como aquele, depois de ter recebido muitas facadas nas costas, tentara acalmar-se e retirar as pontas afiadas do seu corpo, purificar-se. Mas houve uma que não saiu. E talvez nunca mais viesse a sair.
Chegara ao seu destino. Parara em frente à porta, a sua parte racional tentando levá-la a desistir daquilo. Que aquilo não iria melhorar o seu estado de espírito, até poderia pô-la pior. Mas tinha que o enfrentar.
Ela não era cobarde. Alias, isso era algo que ela recusava-se a ser comparada.
O coração doía e provavelmente iria doer mais depois disto.
Mas eu já sofri muito. Não posso sofrer mais do que isto, pensou. Bateu à porta e entrou sem cumprimentar Eiji, que ficara especado à porta, estupefacto.
Não se metera em rodeios ao ver Setsu:
-Onde está ele? – Perguntou, a sua voz ainda no tom frio com que falara a Mari.
-Quem? O Kenji? Está no quarto – Setsu arrependeu-se do que disse no momento em que Linda disparou em direcção ao quarto de Kenji, no fundo do corredor e fechara a porta com força atrás de si.
O irmão nunca podia tê-la adivinhado naquele estado. Soube no momento em que a vira que algo estava errado.
-Linda? O que é que…
-Traidor! – Acusou ela, disparando a mágoa que sentia em cada palavra.
-O quê?
-Agora estás surdo? Eu disse que eras um TRAIDOR!
Kenji não sabia o que fazer. Tentou aproximar-se da irmã, tentar acalmá-la, mas esta afastou-o com brusquidão:
-Não me toques. Eu não quero as tuas mãos de traidor em cima de mim!
-Linda, mas o que é que…
-Tu sabias! Sabias que eles tinham mudado por minha causa e não me disseste! – Ela tentava controlar as lágrimas, mas a luta estava a ser renhida. O nó na garganta tentava-a impedir de falar, mas tinha que expulsar aquelas emoções. Linda engoliu em seco, olhando o irmão nos olhos.
Kenji entendeu do que ela falava:
-Linda, não sei como descobriste…
-Admites! – Sussurrou, com a voz frágil - Admites que sabias que eu nunca fui desejada e que fui a causa da queda da nossa… ou melhor da tua família e não me disseste nada? – Agora ela gritava, chamando a atenção dos outros dois habitantes da casa.
-Linda, Kenji, está tudo bem ai dentro? – ouviu-se a voz de Eiji por detrás da porta. Por uma questão de prudência, nenhum deles se atreveu a abri-la. Linda ignorou-os.
-Eu…
-Eu confiava em ti. Achei que fosses uma vítima como eu!
-E fui! Também eu sofri como tu.
-NÃO É A MESMA COISA! – Já não controlava as lágrimas. Estas caiam como cascata molhando o rosto dela e deixando a sua vista meio turva - Tu só suportaste alguma indiferença por partes deles. Tu eras desejado. Eu NÃO! Eu tive que aguentar a indiferença e o nojo. Eu não era querida naquela família e TU SABIAS DISSO!
-Linda, por favor… - ele tentou acalmá-la, mas ela empurrou-o para longe dela
-Não me toques. Tu és um traidor. Tu que és do meu sangue ficaste do lado deles.
-NÃO! – Gritou ele, agora ofendido – eu nunca te trai.
-Traíste pois! Eu sempre me perguntei porque é que num momento eras o meu irmão protector, quando noutros fingias que eu nem existia. Agora sei, era nessas alturas em que te lembravas daquilo que te custei.
-Isso é mentira. Eu amo-te Linda. Estive sempre…
-Amas-me porque somos filhos dos mesmos pais. Nada mais! – Cortou ela, já histérica. Ela sabia que a dor não iria sair, mas não imaginava que pudesse doer ainda mais. As lágrimas molhavam-lhe o rosto, o pescoço e o colarinho da camisola, livre de cachecol.
Kenji sentia-se impotente. Sempre que se aproximava da irmã, esta repudiava-o, para além de nunca o deixar acabar uma frase. Mas tinha que insistir. Era a sua irmã.
-Linda! – Tentou mais uma vez chegar perto dela. Mas desta vez, a sensação de toque por parte dele foi uma afronta descomunal. Ele jamais se iria esquecer do olhar furioso que a irmã lhe mandara naquele momento.
-Tu estiveste do lado deles. Podes nunca vir a admitir, mas estiveste pois. Sempre que me ignoravas, estava a ir para o lado deles, a esquecer-me. Eu era muito pequena para perceber e deixava-te voltar. Mas agora não…
Aquelas palavras atingiram o loiro como uma bala de canhão.
-O quê? – Sussurrou, com medo da resposta dela.
Mas Linda não respondeu. Em vez disso, abriu a porta e abriu caminho à força por entre Setsu e Eiji, que ainda se encontravam na porta, chocados. Kenji correu atrás da irmã, até esta chegar à porta.
-Linda, espera! – Gritou ele, apertando o braço dela.
-ESQUECE-ME! – Gritou ela, forçando-o a largar o braço dela. - Nunca mais quero voltar a ver a tua cara. Tu devias ter-me protegido, ser o meu irmão mais velho. Tu devias ter ficado do meu lado. Invés disso traíste-me. Tu… - Mais lágrimas correram pelo rosto de Linda. Algo dentro dela partira-se. Tentou acalmar-se e conseguiu proferir algumas palavras em tom baixo antes de sair e bater a porta com força. Mas as palavras foram tão duras como se tivessem sido gritadas na cara dele:
-Eu já não tenho irmão. – Dissera ela, com a maior frieza que podia haver.
(https://www.youtube.com/watch?v=w_LOOKssMpA)
Ela saíra, mas ele lá ficara junto à porta. Chorava lágrimas de dor. Uma dor que ele nunca pensara poder sentir. Sentia-se partido, quebrado em pedaços sem promessa de alguma vez voltar a ser o mesmo. Perdera a pessoa que ele mais amava. Mas não a perdera para a morte. Perdera-a para a vida e para a mentira. Pessoas e peritos dizem ser a mesma coisa, que a dor é a mesma, mas não era. Uma pessoa pode-se quebrar por perder aqueles que se ama, mas pode voltar a erguer-se, sabendo que o espírito da pessoa que tanto amava estava lá para a guiar.
Mas quando uma das pessoas que mais amamos nos afasta do seu coração, a dor é insuportável e sentimo-nos a afogar lentamente, como se tivéssemos morrido e voltado a nascer. Dificilmente arranjamos ar para respirar. Sendo uma mulher ou um homem que marcou a nossa vida, ainda que por meses ou alguns anos, a dor é muita, mas há formas de a ultrapassar.
Até que o erro é cometido entre dois irmãos. Ver a sua única irmã fechar-lhe com a porta na cara, a recusar-se a partilhar o mesmo sangue com ele era a pior dor que Deus, Zeus, Alá, Buda… qualquer deus podia inventar. Kenji sentiu-se a cair num abismo, toda a esperança de felicidade destruída. Ele partilhara doces momentos com ela, amava-a mais do que tudo, tinha o mesmo sangue com ela. Estavam ligados. Ligados para a vida.
Ele não entendia como os pais conseguiam ignorar alguém do seu próprio sangue. Como conseguiam olhar para eles varias vezes sem um pingo de carinho e respeito quando ele ficara com uma súbita vontade de morrer ao ouvir as palavras de Linda pela primeira vez?
Talvez porque ela era a última réstia de família que tinha.
Talvez porque não havia mais ninguém para ele se apoiar nos tempos maus do que a sua lindíssima irmã.
Não havia mais ninguém... a não ser ela.
Mas ele afastara-a de vez. Ela fora-se e deixara-o partido.
Deixara-o só.
**
Ela não estava em melhor estado . Pior do que ser traída pelos pais, por Eiji, por Mari, Cecília… era ser traída pelo próprio irmão.
Se algum dia aquela dor passasse, seria o dia em que Linda apodrecesse num caixão, sem um único fôlego de vida.
No fundo, ela queria que ele dissesse “não”. Que negasse aquilo tudo, que dissesse que não se lembrava. Mas nada fora como ela queria…
Não tinha consciência para onde ia. Estava em caminhos familiares, mas não sabia aonde. Mas nada disso lhe importava agora.
Ela, sendo uma lutadora, iria lutar. Por muito que a vontade de morrer fosse forte, era apenas uma fase passageira. Ela iria conseguir. Era forte, corajosa, inteligente. Podia espezinhar toda a gente se quisesse.
Mas não o faria. Acima de tudo, permaneceria humilde, como a avó e o avô sempre quiseram.
Os seus avôs.
Os únicos que ainda não a tinham desiludido. No entanto, estavam longe. Não podiam estar sempre com ela.
Estava sozinha…
Mas isso não seria problema. ‘Mais vale só do que mal acompanhado’ diz o ditado. Pois bem, ficava só, mas teria certezas de tudo.
Estava agora no parque. A vegetação estava num verde-escuro brilhante, devido às pequenas gotas de água que teimavam a cair do céu nublado.
Parou junto a um pequeno lago. Cinzento reinava na paisagem e apenas o palácio, no fundo de tudo, permanecia uma luz naquela mistura de cores tristes.
Mas aquele sítio não era luz. Era escuridão.
O nó na garganta impedia-a de soluçar. As lágrimas já não caiam. Tinham secado, e agora uma dor seca permanecia no seu corpo, magoando cada pedaço de alma pura de criança que pudesse encontrar. As suas memórias eram agora meros pedaços. Já não pensava no passado, nem no presente.
Só via o futuro.
Colocou as mãos nos bolsos do casaco e os seus dedos tocaram em algo. De lá, tirou uma rosa branca sem espinhos. A rosa que o seu irmão lhe tinha dado.
Agora chuviscava e gotas de água molhavam a pequena flor frágil na mão de Linda. Ela não conseguia deixar de pensar no quanto ele tinha razão. Ela sempre fora inocente e ingénua. O que é que aquilo a levara? A ser traída pelo seu próprio irmão.
Sentia-se perdida, despedaçada. A sua alma de criança deixara de ser branca como a rosa, passara a ser cinzenta, ainda entre fases.
Toda a fé que sentia em si própria desapareceu. Não se lembrava do que fazer, mas sabia que tinha que o fazer sozinha.
Em vinte e quatro míseras horas, perdera fé naqueles que mais gostava, perdera confiança em si própria. Perguntou-se o que havia de errado com ela. Porque é que ela afastava as pessoas? Seria possuidora de uma essência que impedia as pessoas de serem aquilo que ela queria? Não que quisesse que todos se submetessem a si. Ela nunca desejara tal coisa.
O que poderia ela fazer? Porque é que todos a tratavam como se fosse uma bomba prestes a explodir?
Ela pedia respostas, mas respostas não vinham. Mas também não lhe importavam naquele momento.
Ela apenas queria um irmão
Apenas queria amigos
Apenas queria uma família.
Mas nada disso lhe fora dado. Era tudo um sonho. O seu único sonho.
Esmagou a rosa branca nos seus dedos e largou-a, deixando que o vento arrastasse as pétalas mais leves e o caule caído no chão, despedaçado.
A chuva aumentou a parada, molhando todo o corpo frágil de Linda, esta submetendo-se ao poder das chuvas. A sua alma aos poucos foi ficando mais limpa, mais purificada. Remorsos corroíam o seu espírito, mas tinha que os ignorar.
O corpo estremeceu de frio, mas ela não se moveu. Deixou que a água apagasse todas as suas memórias, boas e más, dos últimos dias. Gotas venciam o tecido das suas roupas e percorriam o corpo quente dela, acordando-a de pensamentos maus.
Ela fechou os olhos, querendo dormir. Querendo fingir que tudo aquilo era um sonho. Que no final de tudo, ela ainda sabia quem era, e para onde ia.
Deixa de ser inocente, gritou uma voz na sua cabeça.
Aquilo não era um sonho. Era a forte e dura realidade. Tentara esconder aquilo que ela era de todos e no final, quem saíra magoada fora ela. Eles não se contentavam com aquilo que ela lhes dava. Queriam sempre ultrapassar a camada de verniz. E quando finalmente a tiravam, afastavam-se, aborrecidos com o que encontravam. E se não estavam aborrecidos, afastavam-se por ela ser diferente. Por ter nascido num berço diferente do dele. De ter um destino diferente do deles.
Vozes gritavam na sua mente, enquanto os seus cabelos ficavam completamente encharcados, assim como toda a sua roupa e a sua pele. Não havia ninguém no parque, ninguém nas ruas. Eram apenas vozes. Eiji, Kenji, Edward, Mari, Misaki, , a mãe, a avó… derramou duas últimas lágrimas antes de inspirar fundo e empurrar as vozes para fora da sua mente, esquecendo-as.
Abriu os olhos. Já não sentia frio, mas também não sentia calor. Ainda chovia, mas perdera velocidade e força. Ela já não sentia nada, nem as gotas de água a caírem no seu casaco, não sentia os calafrios que o seu corpo dava, involuntariamente, não sentia a mágoa que ainda pairava no seu coração.
Pela primeira vez, pensou no seu futuro. No que faria quando acabasse a escola, na vida que teria sozinha e sem ninguém. Ou talvez com alguém. Mas ninguém importante. Talvez um cão ou uma companheira de conversas.
O quanto lhe custava pensar naquilo…
Bem, ela sabia quem era. Chamava-se Linda e as pessoas que escolhessem o seu apelido. Era determinada e não iria desistir até encontrar a sua felicidade. Não iria deixar que as pessoas voltassem a magoá-la.
Algo mudara dentro dela, mas nada tinha a ver com a dor. O verniz estalara e ela agora poderia ver-se a ela própria ao espelho.
Regressou a casa, com um meio sorriso nos lábios. Estava só, mas sabia quem era.
Finalmente, a máscara tinha caído.
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E com esta vocês devem querer matar-me. Mas pronto, não me arrependo do que escrevi, apenas a forma. Continuo a achar que não me expressei o suficiente.
E agora uns factos...
o- Linda O'Connell não existe. Eu ainda andei à procura no google e wikipedia, mas não ela não existe no mundo real, para meu alivio.
o-O nome veio do filme A Múmia, um dos meus preferidos. O protagonista é Rick O'Connell e decidi aproveitar o apelido. A personagem Andrea e o seu irmão George também me baseei nesse filme. A co-protagonista, Evelyn - futura esposa do Rick - tem todas as caracteristicas de Andrea, para além de ter um irmão que só se mete em sarilhos e, no final, acaba por ser ela e o Rick a salvá-lo dos sarilhos em que se mete.
o-O papel de Evelyn, nos primeiros dois filmes (no 3º trocaram-na
) foi representado por Rachel Weisz. Por coincidencia, baseei-me no aspecto dela para criar a Cecília e a Misako.
o- O templo Meiji realmente existe. Andei na net à procura de templos e este atraiu-me por ser tão... templo, se é que me entendem
Também o escolhi porque, no meio da pesquisa, não encontrei dados que dissessem que fosse interdito ao publico.
o- A principio a cena central deste capitulo era a zanga da Mari e da Linda, mas mudei de ideias.
E é tudo!... Espero comentários xDD
): Eu não posso andar por ai a confirmar tudo aquilo que voces dizem. Se voces dizem que o Kenji vai morrer num acidente de carro, eu tenho que negar ou mudar de assunto, nunca confirmar. Assim as coisas não têm piada 
Obrigada por não me atirares tijolos. Sinceramente, não consigo deixar de ler aquilo e pensar que não me expressei o suficiente, mas se vocês dizem que está bom... quem sou eu para vos contrarear

No que toca a segredos... ui, há bastantes por desvendar, mas alguns já aparecem neste capítulo novo. Os restantes ainda vão demorar a aparecer.
Lulu: O Eiji não é trenguinho nenhum! Ok, ele ás vezes tem os seus momentos (o Setsu tbm tem.. de que parte da familia isso veio?), mas é uma personagem racional. Vamos considerar isto (eu pelo menos considero) uma birrinha de adolescente

Baralhei-te? Pois.. tu tbm me baralhaste na tua fanfic algumas vezes (*mim canta* cá se faz cá se paga
) E garanto-vos que ainda se vão baralhar algumas vezes. Pelo menos no que toca ao assunto principal.Obrigada pelos vossos comentários, fico mesmo feliz por os ler

Pois bem, estou de férias e este capítulo é dos meus preferidos. Como tal, escrevi-o num único dia. Andei sempre ansiosa por esta cena que é quando duas personagens principais descarregam as suas emoções (ambas da pior maneira) e ficam revoltadas consigo próprias.
Mais uma vez, senti este capítulo com qualidade fraquita e aceito sugestões para o alterar.
Segui o exemplo da lulu (espero que não te importes) e pus uma musiquinha de ambiente no meio. Adoro-a e acho que tem muito a ver com a cena em causa.
P.S: No final, vou pôr umas mini-curiosidades porque este capitulo está cheio delas. Quando acabei de reler, decidi tentar esclarecer algumas coisas, pois a minha fanfic não tem muitas coisas interessantes para contar, mas este capítulo já tem uma mão cheia.
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21. A queda da máscara
Num castelo de ar encantado, reinava o silêncio. Nos corredores desertos, apenas se ouvia os passos pesados de uma figura baixa, que caminhava devagar. Até ele, homem de poderes misteriosos, tinha medo. Medo de desapontar a sua Lady.
Mas esta já sabia que ele vinha de mãos vazias. Pela primeira vez. O primeiro e único erro cometido.
Tinha subestimado as jovens navegantes. Principalmente a princesa…
Bateu a uma porta no fundo do corredor central. Ao ouvir uma confirmação do outro lado, entrou receoso.
Lady Dawson estava de pé junto a uma janela, virada de costas para ele. No horizonte que a janela mostrava, via-se o palácio da família real. Dawson parecia irritada. Pior ficaria quando descobrisse.
-Lady? – Chamou o homem, dando um passo em frente. A divisão era apenas iluminada pelos raios lunares que vinham da janela e pelas luzes das Flores, que postavam ao seu lado, brilhando tristemente.
A mulher virou-se. Vestia um fato negro até ao joelho e um leve lenço cinzento-escuro cobria-lhe as costas brancas. Os olhos negros brilhavam de emoção. Emoção que desaparecera, quando vira as mãos vazias do seu servo:
-Onde está a Flor?
-Não consegui apanha-la. Agora elas estão a guardá-la. – Desculpou-se o homem. Dawson sabia a quem ele se referia. À Rainha Velha e as suas ajudantes. Agora que elas a protegiam, era quase impossível para ela alcançar a Flor de Mercúrio.
-Falhaste-me – acusou ela, com desprezo. O homem aproximou-se dela e pôs-se de joelhos.
-Por favor Lady. Perdoa-me. – Suplicou ele, pegando na mão dela e beijando-a.
-Levanta-te seu imbecil! – Dawson afastou a mão, com nojo e voltou a fitar o horizonte. Desta vez, não escondia a raiva. – Acabaste por alterar os meus planos. Mas isso não quer dizer que eu ainda não possa vencer. No final, a família real jamais porá os pés no mesmo solo que eu piso.
Sorriu maliciosamente. Sim, ela estava na pista certa.
-Porque falhaste? – Virou-se para o seu servo, perdendo o sorriso. Este não ousou olhá-la nos olhos, encontrando uma pequena poeira no chão.
-As jovens navegante, Lady. Elas…
-Já percebi – cortou ela, friamente. Aquilo no fundo, eram boas notícias. Com a ajuda das adolescentes, ela iria conseguir ganhar. Era preciso apenas esperar… - Mas porque raio demoraste muito a atacar a rapariga? Acabaste por dar tempo às pirralhas!
-Minha Lady… - ele não ousou dizer aquilo que pensara. Mas ela já sabia.
-Subestimaste-as. Não devias. Uma delas tem o sangue de navegante a correr-lhe pelas veias. Instinto de líder e de batalha. Devias saber disso!
-Eu sei... mas não foi apenas isso…
-O que foi? Fala imbecil! – Gritou ela, impaciente.
-Havia interferências nos meus poderes enquanto procurava a Flor.
-Estás a dizer-me que… - ela não continuou a frase, compreensão a chegar aos seus olhos escuros.
-Havia mais uma Flor naquele Pavilhão. E estava bem perto de mim…
**
O dia amanhecera nublado, com a promessa de chuva. No apartamento Nakamura, Aiko fazia o pequeno-almoço para as amigas, cantarolando uma canção da rádio alegremente. A sua boa disposição fazia contraste com o tempo horrível no exterior.
Nos quartos, as duas adolescentes acordaram e vestiram roupas normais. Linda amaldiçoou a sorte de Mari por não ter que usar uniforme naquele dia. Sendo o último dia de aulas, a sua mochila ia apenas carregada por alguns cadernos e estojo e os professores davam autorização para eles usarem as roupas do dia-a-dia. Como tal, Mari estava de calças, não dando oportunidade a Linda de ver o corte na perna.
Ela tinha a certeza que o tinha visto na noite anterior. Que não fora um sonho ou uma alucinação. Vira o corte, o mesmo que a Guardiã da Fé teria naquele exacto momento na perna esquerda.
As duas tomaram o pequeno-almoço, ignorando a existência uma da outra. Linda vestia uma camisola cinzenta e um casaco azul-escuro, enquanto um pequeno cachecol pousava no seu colo, a fim de ser colocado no seu pescoço ao sair. Mari tinha uma camisola vermelha e o casaco era de um verde-claro. O cachecol era às riscas verdes e cinzentas.
Linda ia deitando uma olhadela em Mari, que comia os cereais calmamente. Quando viu Mari coçar a perna esquerda, viu - de raspão - aquilo que procurava:
-Como fizeste esse corte? – Perguntou, tentando parecer casual.
Mari olhou espantada para a hóspede, mas demorou a responder:
-Caí.
-Caís-te de onde?
-Das bancadas – respondeu a loira num tom aborrecido. Linda sabia que ela mentira e deu graças a Aiko para colaborar com ela.
-Caíste nas bancadas? Mas eu estive sempre lá e não te vi cair! Oh Mari deixa ver esse corte.
-Não avó, não é preciso! – Reclamou a loira, mas não conseguindo evitar que a avó puxasse as calças para cima. Linda, por seu lado, abafou uma gargalhada e esticou a cabeça para ver.
E lá estava, o grande corte, que rasgava a pele da loira e que demoraria a cicatrizar. Parecia ter sangrado muito, mas agora estava apenas vermelho, com um pouco de amarelo à volta. Mari pusera betadine, mas pouco efeito parecia estar a fazer.
-Oh Mari. Como fizeste isso?
-Já disse, caí nas bancadas. – Mari estava agora zangada e olhava para Linda como se quisesse fuzilá-la. Esta tentou parecer chocada com a ferida. Mas era claro que não estava. Respostas a muitas perguntas começavam a surgir e, pouco antes de sair de casa, tinha a certeza de muita coisa.
**
Eiji pedira tempo. Como tal, não ficava perto de Linda por mais de cinco minutos, antes de se afastar. Falava com ela, mas nunca sozinho. Por várias vezes, Linda sentiu-se observada por ele nas aulas e quando todos lhes davam os parabéns, mas sempre que ela olhava, ele desviava a atenção para outra pessoa.
Era estúpido dizer que aquilo não a magoava. Estúpido e imaturo. Ela falara com ele, admitira que ele era especial para ela e, por infelicidades do destino, afastaram-se mais em vez de ficarem mais unidos.
Ele chegara perto dela logo na primeira aula, com algo na mão:
-O Kenji pediu-me para te dar isto – estendeu uma rosa branca sem espinhos meio fechada para Linda. – Achou que tu a merecesses. Ele dava-te pessoalmente, mas hoje ele e o Setsu só saem da faculdade às 20h15.
Ele sorriu, mas apenas durou dois segundos, antes de se virar para a sua mesa e iniciar uma conversa banal com um outro colega.
Quase toda a escola dera os parabéns a Linda e Eiji, mas principalmente à primeira, pois a história do ferimento de Eiji e do substituto correra paredes da escola à velocidade da luz. Alguns alunos, que estava presentes no torneio, tinham filmado Linda nas duas danças e, de algum modo, o vídeo chegou a Kiara, que pusera a reproduzir na última aula de matemática do período.
No final, todos elogiavam Linda. Menos uma pessoa.
Uma loira de olhos verdes não dirigira a palavra a Linda o tempo todo e ignorava a sua presença em qualquer lado, mudando o assunto de conversa sempre que tinha a ver com ela e respondendo torto quando perguntavam a sua opinião sobre algo acerca de Linda.
Até os professores teciam numerosos elogios. Principalmente porque as pautas dos testes tinham saído e Linda estava no topo de todas as aulas. Apesar de mais alunos, como Eiji e Cecília também estarem no topo, Linda chamara mais a atenção, por ser a mais nova na escola e pelo dom na dança.
E claro que a paciência de uns tinha tendência a bulir em situações destas.
Mari olhava para Linda com profundo ódio, enquanto esta comparava notas com Kiara e outras raparigas. Alguém ao seu lado dissera algo sobre o quanto Linda era notável e fora aí que o seu temperamento explodira:
-Mas vocês não sabem nada sobre ela!
O seu comentário chamara a atenção de algumas cabeças, a de Linda no meio. Mari, ao ver que tinha a atenção da morena, continuou:
-Vocês todos comentam que ela é fantástica. Mas não é! Ela mora na minha casa e eu sei muito bem como ela age. Arma-se em miss perfeita à frente da minha avó, dos professores e de vocês. Mas ela tem segredos. E pelo menos um eu sei. Tu mudas de homem como quem muda de camisa – gritou, apontando o dedo para Linda. – Andas enrolada com um, mas atiras-te a outro e pelo caminho ainda sais com um terceiro.
-Mari chega! – Cecília abriu caminho na multidão que se impusera à volta das duas, com Eiji atrás – Não tens fundamentos para isso.
-Tenho sim senhora. Eu própria vi ela sair com um tipo, depois enrolada com outro, para finalmente a ter visto ontem com outro rapaz, cujo nome não irei dizer. – Olhou Eiji pelo canto do olho. Este por sua vez, sentiu a raiva subir-lhe á cabeça.
-Mari chega! – Gritou ele para a loira. Esta indignada, respondeu:
-Tu que és homem não devias cair nas garras nesta impostora. Nenhum de vocês sabe como ela é. Sabem lá se um dia ela ainda vos dá uma apunhalada nas costas.
Linda tinha a boca ligeiramente aberta. Não sabia o que dizer e, estranhamente as palavras de Mari doíam-lhe no coração.
Mari tornou a sua atenção para ela:
-Tu és falsa, manipuladora e mesquinha. Gozas com a boa vontade dos outros. Não me admira nada que os teus pais não queriam saber de ti.
PASSSSSS
O estalo apanhara Mari de surpresa e fora dado com tanta força, que esta tombou para trás. Todos olhavam incrédulos para Linda, que já não escondia a raiva e fitava Mari sem brilho algum nos olhos escuros.
-É verdade – a voz saiu rouca, mas decidida. – Não sabem nada sobre mim. Mas tu também não sabes nada. Alias – o seu olhar percorreu a multidão, parando em Eiji e Cecília – Há quem pensa que me conhece. Mas no final de contas… não sabe nada sobre mim.
Não disfarçou as lágrimas, que caiam pelo seu rosto. Querendo sair dali, barrou caminho por entre a multidão, antes que os professores viessem, e saiu porta fora. Eiji correra atrás dela, chamando-a, mas ela não parou.
Nem parara quando chocara com um caixote do lixo, nem com um homem que ia a passar:
-Então? veja por onde anda! – Reclamou o homem, que quase caíra ao chão.
A certa altura correu. Correu por entre ruas na qual ela nunca tinha passado, passou por uma rotunda, parques, casas, prédios, escolas, um museu…
Não sabia onde estava. Nunca tinha vindo a aquela zona da cidade.
Podia pedir ajuda, mas não queria. Para quê? Voltar para a casa de Aiko, onde iria encontrar Mari?
Caminhou por entre o cinzento das ruas, até chegar a um parque desconhecido.
Passou por bancos, uma fonte, casais apaixonados a namorar debaixo da árvore, apesar de não estar tempo para isso, viu uma criança a dar de comer aos pássaros, que saboreavam as migalhas de pão na mão da criança, fazendo barulhos suaves em tom de agradecimento, antes de voarem para longe.
Finalmente, chegou a uma zona quase deserta. Apenas um casal de namorados e um homem na casa dos cinquentas e com cabelo grisalho estavam ali. Sentou-se na relva molhada pela humidade e observou a vista.
Aquilo era o belo horrível que ouvira falar em filosofia, sem dúvida. As nuvens negras carregadas de água pairavam por cima de casas desabitadas e antigas, junto a uma ponte, que dava para a Baia de Tokyo. Perguntou-se o quão longe de casa estava.
Suspirou, abraçando-se a si própria. O frio aumentava e começava a ser mais difícil estar fora de casa. Linda olhou para o relógio. Eram 15h02. Ainda tinha mais uma aula. Mas claro que iria faltar. Não estava em condições em ir para a escola.
Ainda estava exausta por causa da energia desperdiçada na batalha, ainda se sentia mole nos pés por causa da dança. Não tinha vontade nenhuma de estar de pé.
Ficou por uns momentos a observar a paisagem, até que sentiu a sensação estranha de que era observava. Ao virar-se para trás, viu o homem a olhar para ela, enquanto escrevinhava no caderno. Este sorriu:
-Espero que não te importes. – Apontou para um caderno no seu colo. Parecia que, nos últimos minutos ele tinha estado a desenhá-la com o lápis a carvão. – És um bom modelo!
-Obrigada. – Disse ela com a voz fraca, antes de se virar para a frente. O homem, não satisfeito, saiu do banco onde estava sentado e dirigiu-se para o pé dela.
-Que bom ver-te, Linda! – Estendeu a mão. Linda aceitou-a, espantada.
-Como sabe que eu me chamo Linda?
O homem continuou a sorrir:
-Oh… é uma longa história. E quem sou eu para não te contar. Pois bem… Sou Kentaro Sagahara e sou professor da Universidade de Artes. Sei o teu nome por causa de um desenho.
-Um desenho?
-Sim – o homem pegou na grande pasta de ombro e vasculhou-a até encontrar uma capa preta cheia de folhas soltas. Algumas eram antigas e estavam já amareladas, mas pareciam em bom estado.
-Era uma vez… - Kentaro tirou um desenho, que parecia ser dos mais antigos. Lá um belíssimo unicórnio de pelagem branca e cabelos e chifre dourado cavalgava por prados verdes. O desenho tinha traços notáveis e dava um ar angelical à criatura, livre e confiante.
– ...Uma rapariga que adorava unicórnios. Quando o pai veio à faculdade ver como a filha se saia, mostrei-lhe este desenho e ele deu uma alta gargalhada, dizendo que unicórnios sempre foram o único capricho da filha. Exigira um unicórnio no Natal quando tinha apenas seis anos. – Kentaro e Linda sorriram pela inocência da menina. Linda, ao observar melhor o desenho, conseguia ver tranquilidade nos traços da rapariga que o desenhara. Tranquilidade, mas não ingenuidade. Provavelmente ainda sentia carinho por aquela parte da sua infância, apesar de já não acreditar neles.
-E depois… - continuou Kentaro, tirando outro desenho da pasta – Ela cresceu e encontro dúvidas na sua vida.
O desenho tinha agora apenas quatro cores. Preto, azul, violeta e branco. Ela desenhara traços, buracos em espiral, relógios, portas fechadas, luzes. Apenas quem desenhara aquilo poderia entender o seu significado.
-Ela amava um homem, mas não podia ter nada com ele. Havia muitos fossos. – Kentaro apontou para os buracos e para as portas fechadas. Os traços, Linda entendeu, representavam corredores, espaços. – Parecia perder tempo. – Kentaro não precisou de dizer nada. Era óbvio o significado dos relógios. – Até que, quando ela menos esperava, conseguiu encontrar uma luz no fundo do túnel. Ela não conseguiu abrir as portas com nenhuma chave, por isso utilizou o punho. – Apontou para as portas e para uma pequena chave mesmo na margem esquerda inferior do desenho e muito distante das portas. Linda ergueu os olhos para a luz. Era o que mais se destacava no desenho, apesar de ser pequena em comparação ao tamanho das portas.
-Que luz era? – Perguntou, curiosa.
-A luz de uma porta. Ela não a conseguiu abrir, até que alguém a abriu do outro lado. – Kentaro riu-se, juntamente com Linda. Esta começava a identificar-se com a rapariga. Alguém que se encontrava presa, sem que nenhuma chave pudesse abrir portas para a sua fuga. Mas alguém salvara a rapariga. Alguém abrira-lhe a porta.
-Ela nunca gostou de filosofia, mas quando desenhava mostrava sempre o seu lado filosófico. – O homem voltou a rir-se. - Foi feliz. Amou e foi amada. Casou-se e ficou grávida. E é ai que fico a saber o teu nome. – Kentaro dirigiu o seu olhar cinzento para Linda, que ficou pálida. Tinha agora uma pequena ideia de quem fora a mulher. Mas a avó nunca lhe contara que sabia desenhar. Para além do homem não parecer ser assim tão velho. Havia outra hipótese, mas Linda recusava-se a acreditar. – Já ouviste falar de Linda O’Connell?
-Não. – Respondeu, confusa. - Quem é?
-Uma escritora irlandesa. A preferida da minha aluna. Ela lera todos os romances e admirava a escritora e a sua protagonista: Andrea Sullivan.
Andrea era uma morena, com cabelo escuro como o teu e olhos azuis… mas os dela eram mais claros. – Acrescentou Kentaro, antes de prosseguir. – Era de estatura média, bonita, curiosa, corajosa, determinada, a heroína preferida das mulheres japonesas. – O homem tinha agora um outro desenho, que parecia ser mais recente, na sua mão. – Andrea tinha um irmão mais velho, George, que num dos livros, viaja para o Japão (esse foi o livro mais vendido por cá) e acaba por se meter em sarilhos, ao endividar-se com um barão do jogo. Andrea vai para o Japão salvar o irmão, mas quando lá chega, descobre que ele usava um nome falso para não ser apanhado. Sabes qual?
Linda tinha uma sugestão. Mas negou com a cabeça.
-Kenji
Agora não adiantava negar. A rapariga que desenhara aquilo tudo fora a sua mãe. Fora assim que o seu nome e o de Kenji viera ao de cima, para além do facto de Kenji ter o nome do pai da avó. Era essa a origem do seu nome.
Mas ela nunca adivinhara que a mãe desenhava.
Ou melhor, agora que ela se lembrava, havia quadros em casa, feitos antes do seu nascimento, que tinham um estilo parecido com o da rapariga.
Estava explicado como o homem a conhecia. Reconhecera-a como sendo filha da sua mãe e chamara-a de Linda, confiando que a sua antiga estudante fosse fiel à sua palavra.
-Linda e Kenji eram os nomes que ela escolhera para o filho que ela esperava. Como não sabia como a criança seria, imaginou a filha como Andrea, mas com as suas feições e o rapaz como George (loiro de olhos azuis também) mas com as feições do marido. – Estendeu o desenho para Linda. Esta mal podia acreditar no que os seus olhos viam.
Uma verdadeira replica sua estava ali desenhada, com uma pose séria, de braços cruzados e a cabeça virada para o lado. Usagi Chiba desenhava muito bem, acabando por imaginar a própria filha muito antes de esta nascer. Por baixo do desenho da moça, que vestia umas calças de ganga, um casaco e botas beges e uma blusa azul, da cor dos olhos, ostentava um nome: Linda, escrito a lápis.
Linda ficou impressionada. A mãe tinha uma caligrafia semelhante à dela, redonda, delicada e extremamente organizada, que combinava com os traços tranquilos dos seus desenhos.
Ao lado, um rapaz sorria, com cabelos exactamente iguais ao de Kenji. Mas aquele não era Kenji. Metade das suas feições eram as mesmas, mas a outra metade não. As semelhanças do irmão com o avô não estavam ali, não tornando a réplica exacta. Debaixo do desenho, o nome: Kenji.
No entanto, as semelhanças entre as feições que Usagi imaginava que os filhos teriam das feições reais eram impressionantes. Não admirava nada que Kentaro tivesse reconhecido Linda.
Este observou a jovem largar uma pequena lágrima que caiu pelo rosto. Com um dedo, limpou a lágrima de sal.
-Ela teve um filho. Deu-lhe o nome que tinha planeado. Ela e o marido depois vieram visitar-me. Faziam um casal perfeito. Eu também dei aulas a ele.
-Deu? – Custava a Linda acreditar que o pai tivesse ingressado na faculdade de Artes.
-Sim. Não me perguntes como é que ele fez, mas estava nas minhas aulas e nas aulas de Relações Publicas, o curso que queria tirar.
-Então porque veio para artes?
Kentaro sorriu das memórias
-Para estar com a tua mãe. Conhecera-a num workshop de Relações Publicas que ela decidira tirar por prazer, em Inglaterra. Fora ai que o conhecera. Ele encantou-se com ela e acompanhou-a até ao Japão. Ele nascera nas Ilhas Britânicas, mas a mãe era japonesa e ele sempre sentira um carinho por estas terras. Na aula onde pedi para desenhar pedaços da infância, a tua mãe desenhou o unicórnio e o teu pai uma paisagem vista do templo Meiji, local que passeara com a mãe quando era pequeno. Depois disso os pais morreram e ele voltou para Inglaterra com o tio, herdeiro do trono Britânico. Mas ele nunca gostou daquele sítio. Daria um melhor rei do que o tio e os primos, mas não ali. Ainda bem que encontrou a tua mãe – disse, piscando o olho.
-Você sabe que…
-É claro que sei. Apenas parei de lhe escrever por dois motivos. Um foi que, a partir do nascimento do primeiro filho, ela deixou as artes e focou-se nas questões do reino, tal como o marido. Mandávamos cartas um ao outro mas, quatro anos depois algo aconteceu…
Kentaro suspirou, fitando o horizonte. As nuvens estavam agora mais negras e o casal de namorados já se tinha ido embora. Apenas Linda e Kentaro estavam no parque.
-Algo aconteceu. Soube que ela estava grávida pela segunda vez, mas ela não me disse nada. Pensei que ela tivesse passado por um aborto ou descoberto que o filho que carregava transportava uma doença ou uma deformação. Nunca cheguei a saber. – Olhou para Linda, que tinha os braços abraçados às pernas – Sabes o que foi? Digo, deves ter dezasseis...
-Hum hum… - ela suspirou pesadamente, incomodada com o frio. Apertou o casaco e virou-se para o professor de Artes – eu não sei. Nunca soube. Eu nem sequer sabia que…
-Pois… - Kentaro pegou num último desenho, estendendo-o a Linda – A última vez que a vi tinha trazido o filho de três anos para aqui. Era uma criança linda. Espero que esteja bem.
-Sim… está. – Linda agora evitava olhar para o homem. Muitos pensamentos circulavam a sua mente.
Como o homem tinha o desenho estendido, Linda pegou nele por educação. Toda a boa disposição que podia ter ganho com aquela conversa desapareceu.
O desenho mostrava um casal a segurar uma criança de três anos que brincava com um barquito. A criança sorria, enquanto o pai a segurava com os dois braços, mostrando um enorme sorriso. Do outro lado, a mãe beijava a face rechonchuda do pequeno, que parecia alheio ao que se passava à sua volta, mantendo as suas atenções no barquito nas suas mãos.
-Eu… - tentou dizer ela, mas sem forças. Aquilo era demais para um dia só – não sei o que…
-Fiquei com estes três desenhos da tua mãe e este retrato feito por mim. Espero que não te importes. A tua mãe foi uma das minhas alunas preferidas e ainda guardo-lhe um cantinho especial no meu coração. Adorei também o teu pai. Via-se que ele não fora feito para aquilo, mas esforçava-se e era inteligente e acabou por ter notas mais elevadas que alguns alunos. Eu cheguei a perguntar-lhe como é que ele conseguia e ele apenas disse “Dois pontos abaixo do grau de sobredotado”, acreditas?
Linda perdeu toda a cor da pele. Ela também tinha um Q.I dois pontos abaixo do grau de sobredotado. Explicava a sua facilidade em aprender a matéria e a facilidade de entender as coisas à sua volta.
Mas ela não sabia que tinha herdado aquilo do pai. Quantas mais semelhanças com ele iria encontrar?
Preferiu não esperar para saber…
-Bem... já está tarde – começou.
-Desculpa jovem. Eu sei que tens que ir para casa. – Pegou na folha do seu caderno e rasgou-a – toma-a – disse, estendendo um auto-retrato de Linda, sentada na relva a observar o horizonte.
-Por acaso sabe onde estou? – Perguntou ela meio atrapalhada.
-Estás perdida?
-Mais ou menos. Moro a oeste da torre de Tokyo.
-Então segue esta rua – apontou para a esquerda – depois vais sempre em frente até chegares a uma rotunda.
Ela lembrava-se da rotunda. Fora aí que começara a correr e a perder noção de onde estava.
-Já apanhei. Obrigada. – Disse, com um sorriso fraco, mas cordial.
Linda levantou-se e colocou a folha no bolso das calças. Despediu-se do homem e dirigiu-se para casa.
Ao ver o relógio eram 16h38. Ainda tinha muito tempo…
As palavras de Kentaro ecoavam na sua cabeça, assim como a imagem da família feliz da qual Linda nunca fizera parte.
“Mas, quatro anos depois algo aconteceu… “
Ela nasceu. Fora isso que acontecera. E fora a partir dai que as coisas tinham mudado. Kenji perdera os pais que o tinham amado desde o nascimento e ela… nunca perdera nada, porque nunca tivera.
Estava tudo explicado. Ela era a causa de todo o desespero dos pais e do irmão. Se ela não tivesse nascido, Kenji ainda estaria a morar no palácio, junto dos pais, que talvez seriam um casal feliz.
Chegara a casa. Guardou o desenho e esperou na sala.
As pessoas queriam respostas. Então iam tê-las.
**
(paralelamente, pouco depois de Linda ter saído)
-Desta vez foste longe de mais, Mari! – Gritou Cecília, furiosa com a atitude da amiga. Atrás de si, várias pessoas concordaram.
E Mari sentiu vergonha pela primeira vez. Eiji voltara, fulo da vida e evitava olhar para Mari, virando-se para Cecília:
-Desapareceu. Corri atrás dela, mas ela foi mais rápida do que eu. Não foi para casa.
Todos pareciam preocupados com Linda. Mari entendia. Nunca vira a morena tão furiosa em todo o tempo que ela estivera na sua casa. E não era apenas fúria, mas também mágoa.
Tinha tocado um nervo sensível ao mencionar os pais dela.
Ninguém ajudou Mari a levantar-se. Na sua face, ainda se via a marca vermelha do estalo que Linda lhe dera, mas Mari já não estava furiosa. Por algum motivo, toda a raiva desaparecera quando Linda lhe batera. Parecera que a tinha acordado para a vida. Ela estava furiosa, mas não com a sua hóspede. Não, ela era apenas o bode expiratório para todas as suas desilusões da vida. Descarregara nela tudo aquilo que sentia em si própria.
Os professores aproximaram-se, querendo separar a multidão. Ao perguntarem o que se passava, rostos viraram-se para Mari:
-Menina Nakamura, o que aconteceu? – Perguntou um professor, num tom sério.
Mari não respondeu. Em vez disso foi Eiji:
-Ela e a Linda zangaram-se, apenas isso.
-E onde está a menina Tsukino?
-Foi para casa, senhor. Não se estava a sentir bem.
O professor não pareceu acreditar, mas não fez mais perguntas. Ordenou que todos os alunos regressassem para as suas salas e voltou para a sala de professores. Apenas a turma de Linda, Mari, Eiji e Cecília ficara.
Os olhos de todos concentravam-se em Mari e na mochila de Linda, ali no chão esquecida.
-Quem leva a pasta dela? – Perguntou Kiara.
Cecília e Eiji olharam para Mari, não escondendo a raiva e a frieza.
-Eu levo – disse Mari.
-Nem penses. Ainda dás cabo das coisas dela! – Gritou alguém.
-Eiji porque não a denunciaste? – Perguntou uma rapariga.
-Porque há coisas que a Mari não sabe – respondeu o loiro.
-Mas pode saber… se aprender a pedir desculpas. – Completou Cecília, virando-se para a sala e desaparecendo.
Todos abandonaram Mari, que sentia-se pesada e com frio. Pegou na pasta de Linda e dirigiu-se para casa.
Mas ela não estava lá. Preocupação encheu os olhos de Mari. Linda ainda não conhecia Tokyo por inteiro.
Pegou no casaco e foi em busca da hóspede.
**
Procurara-a por todo o lado, desde a Universidade de Medicina até ao parque onde uma rapariga fora atacada.
Nem sinais dela.
Olhou o relógio. 19h58.
Tinha ficado no parque a ver se Linda aparecia, mas também a pensar. Tinha sido estúpida. Os ciúmes faziam-na assim.
Agora esperava encontrá-la em casa, ou iria ligar para a polícia.
Quando entrou, o cheiro a carne assada com esparguete encheu o ar. A avó já estava em casa.
Assim como Linda.
Esta via o jornal, onde uma notícia de destaque roubava espaço às outras também importantes. Uma notícia sobre a Rainha. Mari estranhou que o pivô tivesse a máxima atenção de Linda, que não ergueu a cabeça quando ela entrara na divisão.
Pousou o casaco e chegou-se perto dela, sentando-se na ombreira do sofá vermelho. Sabia que ela a observava pelo canto do olho, mas por outro lado, via a noticia com o máximo interesse. Não parecia fingir.
Mari decidiu tomar atenção à notícia, tentando arranjar palavras para iniciar uma conversa.
“Depois de diversos rumores terem passado pelas paredes do palácio, chegam agora – através de fontes próximas e credíveis – factos que confirmam a veracidade dos rumores. A Rainha está a morrer! Ninguém sabe que doença a monarca contraiu, mas sabe-se que apenas o médico e familiares próximos têm permissão para a ver e que Vossa Majestade já não tem muito tempo de vida. A Rainha Serenity e o Rei Endymion - renunciados ao direito do trono doze anos antes a favor da filha – recusaram-se a prestar declarações, assim como Vossa Majestade, o rei Edward.
Já vários admiradores do trabalho da Rainha – que mandou construir dúzias de hospitais para crianças necessitadas - mandaram cartas para o palácio desejando as melhoras e afirmando estarem a rezar por ela. O porta-voz da Rainha diz que esta está muito comovida, mas nada mais afirma.
Espera-se por mais informações acerca do caso, principalmente devido ao constante problema da sucessão, visto circular um rumor de que o rei Edward renunciara os direitos do príncipe herdeiro ao trono, para além de não existir sinais de vida da princesa e de não haver mais herdeiros.”
A notícia falava agora dos grandes trabalhos da Rainha, mas Mari já não prestava atenção. Linda suspirara desconfortavelmente. Por causa da notícia?
Mari não sabia que ela era fã do trabalho da Rainha, afinal nunca a vira ler nenhuma revista e sempre que mencionavam a família real na televisão, Linda desligava o aparelho ou mudava de canal.
Era muito estranho…
Abriu a boca para falar, mas Linda foi mais rápida:
-Onde fizeste o corte?
De tudo o que ela pudesse perguntar, aquela era a menos esperada.
-Já te disse. – Respondeu a loira, tentando parecer calma. – Eu…
-Mentes – cortou ela, friamente.
Mari lambeu os lábios secos, desconfortável.
-Olha... eu queria falar contigo…
-Já estás a falar comigo – voltou Linda a interromper, sem nunca mostrar um pingo de delicadeza no tom de voz. – Ou queres discutir?
-Não! Quero apenas… olha, eu sei que nunca me irás perdoar, mas…
-Para Guardiã, não tens muita fé – murmurou Linda.
Mari congelou no sítio.
-O que disseste? – Perguntou, aterrorizada.
-Para Guardiã, não tens muita fé – repetiu a morena, em tom de gozo mas sem perder a frieza.
-De que é que estás a falar?
-Tenho mesmo que te responder? – Linda virou-se para a loira. Os seus olhos não brilhavam e estavam negros como o céu nocturno, os lábios formavam uma linha recta e o seu olhar quase que fez Mari saltar da ombreira do sofá. – Julguei que a teoria de que ‘as loiras são burras’ fosse um mito.
Mari engoliu em seco e sentiu-se subitamente muito desconfortável ao pé de Linda.
-Como é que sabes…?
-Eu estava lá. – Cortou Linda. Parecia decidida a não deixar Mari acabar uma frase.
-Estavas? – Compreensão chegou a Mari, chocando-a mais do que surpreendera. -Tu és…
-A Guardiã dos Sonhos – acabou Linda, levantando-se. Pelo canto do olho, ia deitando um olhar à televisão, que ainda falava da mãe. – Surpresa? – Lançou um sorriso frio e cínico, que arrepiou Mari. -Sabes… a Cecília bem que condiz com o papel dela. Tenta sempre ir buscar a harmonia de toda a gente. Tu, quando tiveste aquela visão, deixaste-me preocupada, mas quando mais tarde te vi outra vez em transe, suspeitei. E os meus miolos juntaram as peças quando te vi com aquele corte feio na perna. O comportamento que tu e a Cecília tinham ao meu lado era exactamente o mesmo que as navegantes. Uma era atenciosa, mas não demais. – Enquanto falava, Linda fazia gestos com as mãos, dando presença dramática no seu discurso - A outra odiava-me só por estar ali. Giro não? Somos rivais em tudo! – Linda soltou uma gargalhada falsa, até que parou. O momento que ela tão esperava apareceu na televisão.
-Queres mesmo saber quem eu sou? Vá lá Mari, não tenhas medo. Queres saber ou não? Pois então olha para a televisão!! – gritou, apontando para a TV. Lá, a Rainha cortava a fita de abertura de um novo hospital, um ano antes. Estava toda sorridente, mas o seu sorriso escondia sombras.
Mari perdeu a voz. Era um clone de Linda, mas mais velha e com diferente cor de cabelo e olhos. De resto... era igual!
-Ela é…
-A minha mãe. E agora, Mari faz as contas. Diz lá, o que é que eu escondo?!
Mari não conseguia falar. Toda a sua voz perdera-se na garganta, recusando-se a sair.
-Tu… és… princesa.
-Bingo. 10 Pontos para ti, Mari. Sim. – Linda fingiu comemorar até que se aproximou da loira, com os olhos a fumegar – eu sou a princesa.
Linda falara com tal determinação e convicção que era impossível a Mari duvidar da sua palavra. Então era aquele o seu segredo…
Mari sentiu como se um camião cheio de cimento estivesse estacionado em cima dela. Afinal, o segredo dela era muito mais forte do que ela alguma vez imaginara. Era um segredo que não se contava a toda a gente. Como fora parva!
-Linda, eu…
-E sabes a melhor? Um dos rapazes com quem me viste enrolada… é meu irmão!
Mari tremeu e os seus olhos ficaram muito abertos. Linda não disse mais nada, deixando o silêncio instalar-se na divisão.
-O Kenji é…
Nenhuma das duas conseguia falar. Uma porque não tinha palavras, apesar de parte de si estar a suplicar por perdão para a morena. A outra porque tentava esconder todas as suas emoções. Não podia libertá-las agora... tinha que esperar.
-Meninas, está tudo bem? Ouvi a Linda gritar! – Chamou Aiko, vinda da cozinha.
-Está tudo bem Aiko. – Linda desviou os olhos de Mari para o seu relógio de pulso. 20h41. A pessoa que ela procurava já estava em casa. – Aiko, não tenho fome. Peço desculpa, mas vou sair.
Pegou no casaco e saiu sem dizer mais nada. Aiko ficou a olhar para a porta e para a neta, desconfiada.
-O que fizeste desta vez? – Perguntou, um pouco irritada.
Para sua surpresa, a neta não reclamou. Em vez disso, respondeu com pesar:
-Agi que nem uma idiota.
**
Linda caminhou devagar, pensando em tudo o que acontecera hoje. Mas cada pensamento vinha com uma pedrada para a sua cabeça, pois sentia-se ainda pior. Alguém devia adorar brincar com os sentimentos dela, para a pôr feliz num minuto e completamente desesperada noutro. Para que, num momento descobrisse que a sua mãe tivera carisma de tal, para noutro descobrir que esta estava a morrer. Iria perder a mãe que nunca conhecera.
Os seus problemas eram pequenos como bolas de sabão ao lado de muitos, mas ainda assim eram demasiados problemas para alguém da sua idade. Eram demais para que ela pudesse aguentar.
Mas depois de um dia como aquele, depois de ter recebido muitas facadas nas costas, tentara acalmar-se e retirar as pontas afiadas do seu corpo, purificar-se. Mas houve uma que não saiu. E talvez nunca mais viesse a sair.
Chegara ao seu destino. Parara em frente à porta, a sua parte racional tentando levá-la a desistir daquilo. Que aquilo não iria melhorar o seu estado de espírito, até poderia pô-la pior. Mas tinha que o enfrentar.
Ela não era cobarde. Alias, isso era algo que ela recusava-se a ser comparada.
O coração doía e provavelmente iria doer mais depois disto.
Mas eu já sofri muito. Não posso sofrer mais do que isto, pensou. Bateu à porta e entrou sem cumprimentar Eiji, que ficara especado à porta, estupefacto.
Não se metera em rodeios ao ver Setsu:
-Onde está ele? – Perguntou, a sua voz ainda no tom frio com que falara a Mari.
-Quem? O Kenji? Está no quarto – Setsu arrependeu-se do que disse no momento em que Linda disparou em direcção ao quarto de Kenji, no fundo do corredor e fechara a porta com força atrás de si.
O irmão nunca podia tê-la adivinhado naquele estado. Soube no momento em que a vira que algo estava errado.
-Linda? O que é que…
-Traidor! – Acusou ela, disparando a mágoa que sentia em cada palavra.
-O quê?
-Agora estás surdo? Eu disse que eras um TRAIDOR!
Kenji não sabia o que fazer. Tentou aproximar-se da irmã, tentar acalmá-la, mas esta afastou-o com brusquidão:
-Não me toques. Eu não quero as tuas mãos de traidor em cima de mim!
-Linda, mas o que é que…
-Tu sabias! Sabias que eles tinham mudado por minha causa e não me disseste! – Ela tentava controlar as lágrimas, mas a luta estava a ser renhida. O nó na garganta tentava-a impedir de falar, mas tinha que expulsar aquelas emoções. Linda engoliu em seco, olhando o irmão nos olhos.
Kenji entendeu do que ela falava:
-Linda, não sei como descobriste…
-Admites! – Sussurrou, com a voz frágil - Admites que sabias que eu nunca fui desejada e que fui a causa da queda da nossa… ou melhor da tua família e não me disseste nada? – Agora ela gritava, chamando a atenção dos outros dois habitantes da casa.
-Linda, Kenji, está tudo bem ai dentro? – ouviu-se a voz de Eiji por detrás da porta. Por uma questão de prudência, nenhum deles se atreveu a abri-la. Linda ignorou-os.
-Eu…
-Eu confiava em ti. Achei que fosses uma vítima como eu!
-E fui! Também eu sofri como tu.
-NÃO É A MESMA COISA! – Já não controlava as lágrimas. Estas caiam como cascata molhando o rosto dela e deixando a sua vista meio turva - Tu só suportaste alguma indiferença por partes deles. Tu eras desejado. Eu NÃO! Eu tive que aguentar a indiferença e o nojo. Eu não era querida naquela família e TU SABIAS DISSO!
-Linda, por favor… - ele tentou acalmá-la, mas ela empurrou-o para longe dela
-Não me toques. Tu és um traidor. Tu que és do meu sangue ficaste do lado deles.
-NÃO! – Gritou ele, agora ofendido – eu nunca te trai.
-Traíste pois! Eu sempre me perguntei porque é que num momento eras o meu irmão protector, quando noutros fingias que eu nem existia. Agora sei, era nessas alturas em que te lembravas daquilo que te custei.
-Isso é mentira. Eu amo-te Linda. Estive sempre…
-Amas-me porque somos filhos dos mesmos pais. Nada mais! – Cortou ela, já histérica. Ela sabia que a dor não iria sair, mas não imaginava que pudesse doer ainda mais. As lágrimas molhavam-lhe o rosto, o pescoço e o colarinho da camisola, livre de cachecol.
Kenji sentia-se impotente. Sempre que se aproximava da irmã, esta repudiava-o, para além de nunca o deixar acabar uma frase. Mas tinha que insistir. Era a sua irmã.
-Linda! – Tentou mais uma vez chegar perto dela. Mas desta vez, a sensação de toque por parte dele foi uma afronta descomunal. Ele jamais se iria esquecer do olhar furioso que a irmã lhe mandara naquele momento.
-Tu estiveste do lado deles. Podes nunca vir a admitir, mas estiveste pois. Sempre que me ignoravas, estava a ir para o lado deles, a esquecer-me. Eu era muito pequena para perceber e deixava-te voltar. Mas agora não…
Aquelas palavras atingiram o loiro como uma bala de canhão.
-O quê? – Sussurrou, com medo da resposta dela.
Mas Linda não respondeu. Em vez disso, abriu a porta e abriu caminho à força por entre Setsu e Eiji, que ainda se encontravam na porta, chocados. Kenji correu atrás da irmã, até esta chegar à porta.
-Linda, espera! – Gritou ele, apertando o braço dela.
-ESQUECE-ME! – Gritou ela, forçando-o a largar o braço dela. - Nunca mais quero voltar a ver a tua cara. Tu devias ter-me protegido, ser o meu irmão mais velho. Tu devias ter ficado do meu lado. Invés disso traíste-me. Tu… - Mais lágrimas correram pelo rosto de Linda. Algo dentro dela partira-se. Tentou acalmar-se e conseguiu proferir algumas palavras em tom baixo antes de sair e bater a porta com força. Mas as palavras foram tão duras como se tivessem sido gritadas na cara dele:
-Eu já não tenho irmão. – Dissera ela, com a maior frieza que podia haver.
(https://www.youtube.com/watch?v=w_LOOKssMpA)
Ela saíra, mas ele lá ficara junto à porta. Chorava lágrimas de dor. Uma dor que ele nunca pensara poder sentir. Sentia-se partido, quebrado em pedaços sem promessa de alguma vez voltar a ser o mesmo. Perdera a pessoa que ele mais amava. Mas não a perdera para a morte. Perdera-a para a vida e para a mentira. Pessoas e peritos dizem ser a mesma coisa, que a dor é a mesma, mas não era. Uma pessoa pode-se quebrar por perder aqueles que se ama, mas pode voltar a erguer-se, sabendo que o espírito da pessoa que tanto amava estava lá para a guiar.
Mas quando uma das pessoas que mais amamos nos afasta do seu coração, a dor é insuportável e sentimo-nos a afogar lentamente, como se tivéssemos morrido e voltado a nascer. Dificilmente arranjamos ar para respirar. Sendo uma mulher ou um homem que marcou a nossa vida, ainda que por meses ou alguns anos, a dor é muita, mas há formas de a ultrapassar.
Até que o erro é cometido entre dois irmãos. Ver a sua única irmã fechar-lhe com a porta na cara, a recusar-se a partilhar o mesmo sangue com ele era a pior dor que Deus, Zeus, Alá, Buda… qualquer deus podia inventar. Kenji sentiu-se a cair num abismo, toda a esperança de felicidade destruída. Ele partilhara doces momentos com ela, amava-a mais do que tudo, tinha o mesmo sangue com ela. Estavam ligados. Ligados para a vida.
Ele não entendia como os pais conseguiam ignorar alguém do seu próprio sangue. Como conseguiam olhar para eles varias vezes sem um pingo de carinho e respeito quando ele ficara com uma súbita vontade de morrer ao ouvir as palavras de Linda pela primeira vez?
Talvez porque ela era a última réstia de família que tinha.
Talvez porque não havia mais ninguém para ele se apoiar nos tempos maus do que a sua lindíssima irmã.
Não havia mais ninguém... a não ser ela.
Mas ele afastara-a de vez. Ela fora-se e deixara-o partido.
Deixara-o só.
**
Ela não estava em melhor estado . Pior do que ser traída pelos pais, por Eiji, por Mari, Cecília… era ser traída pelo próprio irmão.
Se algum dia aquela dor passasse, seria o dia em que Linda apodrecesse num caixão, sem um único fôlego de vida.
No fundo, ela queria que ele dissesse “não”. Que negasse aquilo tudo, que dissesse que não se lembrava. Mas nada fora como ela queria…
Não tinha consciência para onde ia. Estava em caminhos familiares, mas não sabia aonde. Mas nada disso lhe importava agora.
Ela, sendo uma lutadora, iria lutar. Por muito que a vontade de morrer fosse forte, era apenas uma fase passageira. Ela iria conseguir. Era forte, corajosa, inteligente. Podia espezinhar toda a gente se quisesse.
Mas não o faria. Acima de tudo, permaneceria humilde, como a avó e o avô sempre quiseram.
Os seus avôs.
Os únicos que ainda não a tinham desiludido. No entanto, estavam longe. Não podiam estar sempre com ela.
Estava sozinha…
Mas isso não seria problema. ‘Mais vale só do que mal acompanhado’ diz o ditado. Pois bem, ficava só, mas teria certezas de tudo.
Estava agora no parque. A vegetação estava num verde-escuro brilhante, devido às pequenas gotas de água que teimavam a cair do céu nublado.
Parou junto a um pequeno lago. Cinzento reinava na paisagem e apenas o palácio, no fundo de tudo, permanecia uma luz naquela mistura de cores tristes.
Mas aquele sítio não era luz. Era escuridão.
O nó na garganta impedia-a de soluçar. As lágrimas já não caiam. Tinham secado, e agora uma dor seca permanecia no seu corpo, magoando cada pedaço de alma pura de criança que pudesse encontrar. As suas memórias eram agora meros pedaços. Já não pensava no passado, nem no presente.
Só via o futuro.
Colocou as mãos nos bolsos do casaco e os seus dedos tocaram em algo. De lá, tirou uma rosa branca sem espinhos. A rosa que o seu irmão lhe tinha dado.
Agora chuviscava e gotas de água molhavam a pequena flor frágil na mão de Linda. Ela não conseguia deixar de pensar no quanto ele tinha razão. Ela sempre fora inocente e ingénua. O que é que aquilo a levara? A ser traída pelo seu próprio irmão.
Sentia-se perdida, despedaçada. A sua alma de criança deixara de ser branca como a rosa, passara a ser cinzenta, ainda entre fases.
Toda a fé que sentia em si própria desapareceu. Não se lembrava do que fazer, mas sabia que tinha que o fazer sozinha.
Em vinte e quatro míseras horas, perdera fé naqueles que mais gostava, perdera confiança em si própria. Perguntou-se o que havia de errado com ela. Porque é que ela afastava as pessoas? Seria possuidora de uma essência que impedia as pessoas de serem aquilo que ela queria? Não que quisesse que todos se submetessem a si. Ela nunca desejara tal coisa.
O que poderia ela fazer? Porque é que todos a tratavam como se fosse uma bomba prestes a explodir?
Ela pedia respostas, mas respostas não vinham. Mas também não lhe importavam naquele momento.
Ela apenas queria um irmão
Apenas queria amigos
Apenas queria uma família.
Mas nada disso lhe fora dado. Era tudo um sonho. O seu único sonho.
Esmagou a rosa branca nos seus dedos e largou-a, deixando que o vento arrastasse as pétalas mais leves e o caule caído no chão, despedaçado.
A chuva aumentou a parada, molhando todo o corpo frágil de Linda, esta submetendo-se ao poder das chuvas. A sua alma aos poucos foi ficando mais limpa, mais purificada. Remorsos corroíam o seu espírito, mas tinha que os ignorar.
O corpo estremeceu de frio, mas ela não se moveu. Deixou que a água apagasse todas as suas memórias, boas e más, dos últimos dias. Gotas venciam o tecido das suas roupas e percorriam o corpo quente dela, acordando-a de pensamentos maus.
Ela fechou os olhos, querendo dormir. Querendo fingir que tudo aquilo era um sonho. Que no final de tudo, ela ainda sabia quem era, e para onde ia.
Deixa de ser inocente, gritou uma voz na sua cabeça.
Aquilo não era um sonho. Era a forte e dura realidade. Tentara esconder aquilo que ela era de todos e no final, quem saíra magoada fora ela. Eles não se contentavam com aquilo que ela lhes dava. Queriam sempre ultrapassar a camada de verniz. E quando finalmente a tiravam, afastavam-se, aborrecidos com o que encontravam. E se não estavam aborrecidos, afastavam-se por ela ser diferente. Por ter nascido num berço diferente do dele. De ter um destino diferente do deles.
Vozes gritavam na sua mente, enquanto os seus cabelos ficavam completamente encharcados, assim como toda a sua roupa e a sua pele. Não havia ninguém no parque, ninguém nas ruas. Eram apenas vozes. Eiji, Kenji, Edward, Mari, Misaki, , a mãe, a avó… derramou duas últimas lágrimas antes de inspirar fundo e empurrar as vozes para fora da sua mente, esquecendo-as.
Abriu os olhos. Já não sentia frio, mas também não sentia calor. Ainda chovia, mas perdera velocidade e força. Ela já não sentia nada, nem as gotas de água a caírem no seu casaco, não sentia os calafrios que o seu corpo dava, involuntariamente, não sentia a mágoa que ainda pairava no seu coração.
Pela primeira vez, pensou no seu futuro. No que faria quando acabasse a escola, na vida que teria sozinha e sem ninguém. Ou talvez com alguém. Mas ninguém importante. Talvez um cão ou uma companheira de conversas.
O quanto lhe custava pensar naquilo…
Bem, ela sabia quem era. Chamava-se Linda e as pessoas que escolhessem o seu apelido. Era determinada e não iria desistir até encontrar a sua felicidade. Não iria deixar que as pessoas voltassem a magoá-la.
Algo mudara dentro dela, mas nada tinha a ver com a dor. O verniz estalara e ela agora poderia ver-se a ela própria ao espelho.
Regressou a casa, com um meio sorriso nos lábios. Estava só, mas sabia quem era.
Finalmente, a máscara tinha caído.
---------------------
E com esta vocês devem querer matar-me. Mas pronto, não me arrependo do que escrevi, apenas a forma. Continuo a achar que não me expressei o suficiente.
E agora uns factos...
o- Linda O'Connell não existe. Eu ainda andei à procura no google e wikipedia, mas não ela não existe no mundo real, para meu alivio.
o-O nome veio do filme A Múmia, um dos meus preferidos. O protagonista é Rick O'Connell e decidi aproveitar o apelido. A personagem Andrea e o seu irmão George também me baseei nesse filme. A co-protagonista, Evelyn - futura esposa do Rick - tem todas as caracteristicas de Andrea, para além de ter um irmão que só se mete em sarilhos e, no final, acaba por ser ela e o Rick a salvá-lo dos sarilhos em que se mete.
o-O papel de Evelyn, nos primeiros dois filmes (no 3º trocaram-na
) foi representado por Rachel Weisz. Por coincidencia, baseei-me no aspecto dela para criar a Cecília e a Misako.Spoiler
o- O templo Meiji realmente existe. Andei na net à procura de templos e este atraiu-me por ser tão... templo, se é que me entendem
Também o escolhi porque, no meio da pesquisa, não encontrei dados que dissessem que fosse interdito ao publico.o- A principio a cena central deste capitulo era a zanga da Mari e da Linda, mas mudei de ideias.
E é tudo!... Espero comentários xDD
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
OMFG! O.O
E dizes tu que não te expressaste o suficiente?! Levas já um coice, carago!
Ai, agora a sério, este capitulo foi o mais emocionante de toda a fic! Adorei tudo, adorei o ódio da Mari, a repulsa e o ciume que ela exibiu. Amei simplesmente a cena com o professor universitário! absolutamente mágica, e a historia, own, tão bem contada e explicada, o sentido dos desenhos! oh céus, melhor impossível! A ultima parte então, ao som daquela musica linda, nem dá para descrever! eu é que sou seca que nem um deserto, senão acho que tinha chorado, porque o aperto no peito eu senti, não duvides! Ver dois irmãos separarem-se de repente é angustiante, e não o podias ter exemplificado de melhor forma, acredita!
Uma coisa que me inquieta é o porquê de a rainha estar a morrer. Pergunto-me se foi por causa do nascimento da Linda, que lhe trouxe problemas, se é alguma doença psicológica, se é armação do inimigo (por exemplo dessa tal Dawson) entre outras hipóteses!
Outra coisa que me continua a baralhar é o facto de a Mari e a Cecilia serem ou nao as sailors. Estou super curiosa!
Ainda dizes tu que eu vou dar escritora! À tua beira sou uma autentica labrega (O que não deixa de ser verdade já que eu sou uma menina da aldeia - leia-se "aurdeia"!
). Tenho de começar a interiorizar a forma como escreves, a ver se algum dia te alcanço!
Mal posso esperar pelo próximo capitulo!
Amei!
PS: a imagem que eu tenho da Misaki é mesmo parecida com essa!
O templo Meiji é lindo!
E dizes tu que não te expressaste o suficiente?! Levas já um coice, carago!

Ai, agora a sério, este capitulo foi o mais emocionante de toda a fic! Adorei tudo, adorei o ódio da Mari, a repulsa e o ciume que ela exibiu. Amei simplesmente a cena com o professor universitário! absolutamente mágica, e a historia, own, tão bem contada e explicada, o sentido dos desenhos! oh céus, melhor impossível! A ultima parte então, ao som daquela musica linda, nem dá para descrever! eu é que sou seca que nem um deserto, senão acho que tinha chorado, porque o aperto no peito eu senti, não duvides! Ver dois irmãos separarem-se de repente é angustiante, e não o podias ter exemplificado de melhor forma, acredita!
Uma coisa que me inquieta é o porquê de a rainha estar a morrer. Pergunto-me se foi por causa do nascimento da Linda, que lhe trouxe problemas, se é alguma doença psicológica, se é armação do inimigo (por exemplo dessa tal Dawson) entre outras hipóteses!
Outra coisa que me continua a baralhar é o facto de a Mari e a Cecilia serem ou nao as sailors. Estou super curiosa!

Ainda dizes tu que eu vou dar escritora! À tua beira sou uma autentica labrega (O que não deixa de ser verdade já que eu sou uma menina da aldeia - leia-se "aurdeia"!
). Tenho de começar a interiorizar a forma como escreves, a ver se algum dia te alcanço!Mal posso esperar pelo próximo capitulo!
Amei!

PS: a imagem que eu tenho da Misaki é mesmo parecida com essa!

O templo Meiji é lindo!

as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Eu acho mesmo que falta alguma coisa, mas se tu o dizes 
A cena não era mesmo para chorar, era apenas para que uma pessoa entrasse na cabeça da Linda e sentissem a afronta dela (eu senti... enquanto escrevia).
A zanga destes dois são dificil de escrever, mas no final não me arrependi. Kenji era um dos poucos laços que Linda tinha e tinha que o explorar. Pôr mais uma zanga com a Mari não fazia sentido.
Ainda tás baralhada com esse facto? Oh.. que eu julgava que já tinhas percebido.
A doença da rainha é fisica, mas ainda não lhe dei nome. Tenho que procurar na net uma determinada doença com determinados sintomas. A Dawson é uma inimiga conhecida apenas para as navegantes (velhas, claro...). A Rainha... bem, ainda faltam dois capítulos até chegar a essa parte.
O proximo capitulo vai ser monstruoso, até tenho medo de o escrever, mas quero faze-o antes de ir para as aulas, pois os outros são mais simples.
Obrigada pelo teu comentário lulu

A cena não era mesmo para chorar, era apenas para que uma pessoa entrasse na cabeça da Linda e sentissem a afronta dela (eu senti... enquanto escrevia).
A zanga destes dois são dificil de escrever, mas no final não me arrependi. Kenji era um dos poucos laços que Linda tinha e tinha que o explorar. Pôr mais uma zanga com a Mari não fazia sentido.
Ainda tás baralhada com esse facto? Oh.. que eu julgava que já tinhas percebido.
A doença da rainha é fisica, mas ainda não lhe dei nome. Tenho que procurar na net uma determinada doença com determinados sintomas. A Dawson é uma inimiga conhecida apenas para as navegantes (velhas, claro...). A Rainha... bem, ainda faltam dois capítulos até chegar a essa parte.
O proximo capitulo vai ser monstruoso, até tenho medo de o escrever, mas quero faze-o antes de ir para as aulas, pois os outros são mais simples.
Obrigada pelo teu comentário lulu

Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
Olá!
A Múmia também é dos meus filmes preferidos, e foi pena terem trocado a actriz no terceiro.
Bem primeiro são os tijolos, agora devemos querer matar-te? LOOOOL
Não é preciso tanto! Acho muito bem que não te arrependas do que escreveste. Escreves muito bem. Não sei o que achas que falta no capítulo.
Eu amei, TUDO!
A cena entre a Linda e a Mari na escola, brutal, nem tenho palavras, os sentimentos estão muito bem descritos.
E a Linda com o irmão, bem que triste. E ao som da música que colocaste inda torna mais dramático ( gostei da música
).
O templo Meiji é mesmo bonito.
Acho que está perfeito. Ainda bem que não demoraste a postar. Foi uma bela surpresa chegar aqui hoje e encontrar um capítulo novo para ler.
Realmente confirmares quando os nossos palpites estão certos tirava muito do mistério da história.
Pois eu tenho mais um. Havia outra flor na escola. Portanto como já te disse desconfio que a mãe da Cecilia tenha a de Vénus ou então e isto é nova teoria, loool, que o Eiji tenha a da Terra.
Fico à espera do próximo!
Bjo*
A Múmia também é dos meus filmes preferidos, e foi pena terem trocado a actriz no terceiro.
Bem primeiro são os tijolos, agora devemos querer matar-te? LOOOOL
Não é preciso tanto! Acho muito bem que não te arrependas do que escreveste. Escreves muito bem. Não sei o que achas que falta no capítulo.
Eu amei, TUDO!
A cena entre a Linda e a Mari na escola, brutal, nem tenho palavras, os sentimentos estão muito bem descritos.
E a Linda com o irmão, bem que triste. E ao som da música que colocaste inda torna mais dramático ( gostei da música
).O templo Meiji é mesmo bonito.
Acho que está perfeito. Ainda bem que não demoraste a postar. Foi uma bela surpresa chegar aqui hoje e encontrar um capítulo novo para ler.
Realmente confirmares quando os nossos palpites estão certos tirava muito do mistério da história.

Pois eu tenho mais um. Havia outra flor na escola. Portanto como já te disse desconfio que a mãe da Cecilia tenha a de Vénus ou então e isto é nova teoria, loool, que o Eiji tenha a da Terra.
Fico à espera do próximo!
Bjo*
Obrigada Bun 
Pois, fiquei desolada com a mudança da actriz no terceiro, perdeu logo metade da piada. Apenas gostei do Rick e do Jonathan que nunca irá mudar
Ainda que gostaste do capítulo. Sei lá eu se voces haverão de gostar da mistela de letras que eu crio? Sabe-se lá, voces ainda se zangam e acabam por deixar de ler a minha fanfic
Acerca desse palpite. É claro que não vou confirmar nada, mas vou-te dizer uma coisa: Um dos palpites está proximo, o outro não... alias, está bem longe... xDD

Pois, fiquei desolada com a mudança da actriz no terceiro, perdeu logo metade da piada. Apenas gostei do Rick e do Jonathan que nunca irá mudar

Ainda que gostaste do capítulo. Sei lá eu se voces haverão de gostar da mistela de letras que eu crio? Sabe-se lá, voces ainda se zangam e acabam por deixar de ler a minha fanfic

Acerca desse palpite. É claro que não vou confirmar nada, mas vou-te dizer uma coisa: Um dos palpites está proximo, o outro não... alias, está bem longe... xDD
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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Oláaa...
Aqui tenho uma novo capítulo fresquinho e penso que no fim de semana virá outro. Porquê? Eu explico... O capítulo era gigante e então tive que o dividir. Decidi dividir por "tempos", pois o capítulo original passava-se durante as férias de Natal (estranho, pois quando começei a escrever ainda era verão
). A parte que se desenrola no natal posto agora, a do ano novo no fim de semana. Era para postar mais cedo, mas fiquei sem net e não pude.
Espero que gostem...
------------------------
22. A melhor prenda
O tempo em Tokyo piorava a cada dia do mês. As férias de Natal tinham começado e já era possível ver famílias nas ruas a fazer as suas compras de Natal. O céu estava colorido em vários tons de cinzento e o vento soprava uma brisa bem fresca, que arrepiava a espinha de qualquer um. Nos noticiários, anunciavam neve para o dia de Natal.
Com as temperaturas a descerem e o vento forte a bater nos rostos, era natural passear pelas ruas de tarde e não ver quase vivalma nenhuma, a não ser carros e algumas pessoas agasalhadas sem medo do frio.
No meio dessas poucas pessoas com coragem para enfrentar o tempo feroz, encontravam-se os irmãos Natsumara, mais conhecidos como Tsukino e Chiba. Podiam ser vistos no exterior várias vezes, apesar de nunca se encontrarem no mesmo sítio ao mesmo tempo.
Kenji Chiba Natsumara podia ver visto em três locais durante todo o dia. Na faculdade, em casa e na Baia de Tokyo, onde ia apanhar ar fresco de vez em quando. A sensação de vazio que percorria o seu corpo de vinte anos obrigava-o a mexer-se constantemente, uma acção que o impedia de entrar em depressão. Na faculdade, os seus colegas notaram nas suas alterações de comportamento e por várias vezes abordaram-no com perguntas. Mas a sua resposta era sempre a mesma: um leve encolher de ombro, um sorriso forçado e as palavras ‘está tudo bem’. Claro que tal resposta não satisfazia a ninguém, principalmente alguns professores de Kenji, que perguntaram a Setsu se este se sentia bem. O amigo, respeitando o colega, apenas respondera que Kenji passava por problemas familiares, o que era verdade.
Os colegas deixavam-no estar e os professores encolhiam os ombros. Provavelmente era algo passageiro e também não tinham muito que se queixar pois Kenji era agora visto apenas a estudar, tendo as suas notas quase rebentado a escala.
Em casa, a situação era outra. Por várias vezes Eiji e Setsu tentavam ajudar o companheiro, chamando-o para ver televisão, jogar playstation ou falar de miúdas. Várias vezes o convidaram para sair mas de todas as vezes Kenji recusou. Afirmava estar bem, mas os irmãos Yamamoto tinham as suas dúvidas.
A verdade era que ele estava mal. Muito mal, mesmo. De um momento para o outro, Kenji perdeu a vontade de sorrir. Sentia-se como uma criança pequena que precisava da mãe, que precisava de afecto e carinho. E, infelizmente, ninguém lhe podia dar isso.
Ele ficava várias vezes no quarto a ler e a pensar. A pensar nele próprio.
No quanto fora estúpido, no quanto ela tinha razão…
Naquele momento, ele precisava de algo. Algo que apenas a Voz dentro da sua cabeça sabia o que era. Ele queria sentir o cheiro a jasmim da sua mãe, queria que a avó acariciasse o seu cabelo dourado, tal como fazia quando ele era pequeno, queria que a irmã lhe sorrisse e, acima de tudo….
Kenji abanava a cabeça sempre que lhe vinha aquele determinado pensamento à cabeça. Era estúpido imaginar o quanto naquele momento, a sua mãe, a sua irmã, a sua avó e Mari pudessem ser as únicas capazes de o fazer elevar-se do buraco em que se enfiara.
Os dias passavam e ele ficava cada vez mais imerso na escuridão do seu quarto. O ar parecia pesado demais para respirar e o seu corpo tornara-se tão mole como gelatina, dando-lhe pouca vontade de se levantar da cama. Claro que fazia o esforço, sempre para ir para a faculdade, onde se concentrava cada vez mais no seu futuro. Haveria de fazer algo direito. Desiludira aqueles que mais amava, até a si próprio, mas não iria falhar outra vez. Já lhe bastava ter afastado a mãe, ter provocado a ira no pai, a desilusão na irmã, não se iria condenar por muito mais tempo. Tinha que arranjar uma válvula de escape.
E essa necessidade de válvula de escape aumentou ainda mais quando Mari viera a casa dele, três dias depois da zanga dos dois irmãos. Ele vira Mari lamentar cerca de cinco vezes o sucedido para depois dar voltas pelo quarto, para em seguida voltar a pedir desculpas. Isso acordou Kenji do seu sono depressivo.
-A culpa é toda minha! – Dissera ela, com toda a sinceridade que o momento exigia. Kenji observou-a, um pouco admirado com a atitude da loira. Sem duvida que outra rapariga já teria perdido a sua postura séria devido a lágrimas. Mas Mari não chorava, apesar de todo o seu corpo tremer.
-Não é não. – Sussurrou ele, calmamente. A sua voz estava rouca, por não ter sido muito usada nos últimos dias. – A Linda chateou-se comigo por outros motivos. A culpa não é tua.
-Mas provoquei a ira dela. Ela não ficaria tão chateada se…
Kenji soltou uma gargalhada um tanto forçada.
-Estás a tentar arranjar desculpas para te culpares? Acredita Mari, a culpa não é tua. É minha – disse ele, olhando-a nos olhos – apenas minha.
-Porquê? – Perguntou ela, apesar de saber que provavelmente não teria resposta à pergunta.
Kenji soltou todo o ar preso nos pulmões, reflectindo.
-O que é que sabes?
Mari foi apanhada de surpresa com a pergunta.
-O que é que eu sei?
-Acerca das minhas origens… e as da Linda.
Mari desviou o olhar de Kenji. Devido ao nervosismo, rodou o brinco na sua orelha direita, involuntariamente.
-Sei que tu e ela… são irmãos…
Kenji ergueu o sobrolho.
-Tu não sabias?
Mari corou até à raiz dos cabelos e deu graças por se ter virado de costas, de modo que ele não visse o seu estado.
-Não – respondeu simplesmente. Suspirando fundo, afastou uma madeixa de cabelo da cara e prosseguiu – e sei que vocês são da realeza.
Ele assentiu.
-E sabes porque é que não o dizemos a ninguém?
Mari não respondeu. Preferia não saber. Mas ele continuou a falar:
-Nós não nos damos bem com os nossos pais. Eles fizeram com que nós detestássemos não só a eles, como também a aquele mundo de fantasia no qual todos querem pertencer. Vimos todos os contras daquele sítio, mas nunca vimos um pró. Nunca consegui dar valor a todo o dinheiro e a todas as roupas que me davam, porque não era isso que me fazia falta. E fui educado para ser uma pessoa honesta e humilde, não fútil e hipócrita. Jamais conseguiria preencher o vazio do meu coração com qualquer rapariga que desejasse estar com o príncipe, ser capa de revistas, que as pessoas se curvassem quando me vissem… - fez uma pausa, mirando o chão, pensativo. – A dança foi a única coisa que consegui gostar daquele mundo. O resto…
A frase incompleta pairou no ar, até que Kenji levantou-se a fitou a porta entreaberta.
-Sempre soube coisas que a Linda nunca soubera. Acerca dos meus pais, acerca dela… Sempre tive uma noção da realidade diferente da Linda. Isso fez com que, nalguns momentos, eu não fosse um bom irmão para a minha maninha e acabei… por cometer erros… ela não sabia e por isso perdoava-me sempre… mas desta vez…
-Ela sabe? – Perguntou Mari, com a voz fraca.
-Algumas coisas… mas sim… - suspirou - sabe.
Kenji colocou as mãos na cabeça, numa tentativa frustrada de relaxar, enquanto expirava todo o ar para fora. Os lábios contraíram-se e Mari soube então o que o pusera trancado no quarto nos últimos dias. Não era apenas Linda, mas sim ele próprio. Tal como ela, ele tinha segredos e frustrações, mas enquanto ela pagara pela sua raiva, ele pagara pelos segredos. Sabia que ele respirava culpa em cada golfada de ar. Afinal, ela sentia o mesmo…
Esqueceu-se de quem ele era e sucumbiu aos seus desejos interiores. Kenji fora a primeira pessoa a fazê-la sentir-se confortável, mas sem eliminar a culpa com palavras estúpidas. Kenji acalmara-a e agora ela sentira a obrigação de retribuir o favor.
Abriu os braços e cercou o tronco dele, puxando-o para si. Apanhado de surpresa, Kenji deixou-se levar pela sensação quente do corpo de Mari. Os seus braços ficaram inertes até que finalmente aceitaram o gesto e rodearam o corpo da rapariga. Um grande formigueiro percorreu o corpo dos dois jovens, que sentiam picadas só de tocar na pele um do outro. No entanto, não se largaram. Perduraram o gesto durante uns bons minutos, em que o nó no estômago de Kenji se começou a desfazer.
Mari sentia o seu coração como uma bomba relógio prestes a explodir e um denso arrepio fazia com que as suas pernas tremessem como varas. Mas nada disso impedia que ela desfrutasse daquele momento. Ela já tinha experimentado os braços dele antes, das duas vezes que ele a salvara de uma grande queda. Mas agora ela estava tão próxima que conseguia ouvir o seu coração a bater, tão descompassadamente quanto o seu. Conseguia sentir os músculos rígidos do abdómen dele que lhe provocavam uma sensação de protecção que nunca nenhum outro homem lhe dera.
Kenji pensava algo semelhante. Mari era alta, mas não alta o suficiente para que o topo da sua cabeça chegasse ao seu nariz, e era forte. Todavia, Kenji tinha a sensação que os seus braços tinham sido feitos para abraçar aquela adolescente magra e com algum músculo. Mari era frágil, apesar de não o parecer e só no exacto momento em que os braços dele envolviam-na toda contra si, é que viu o quanto estava enganado a respeito de Mari. Por baixo da sua concha de protecção de maria-rapaz e moça desconfiada, escondia-se uma rapariga de coração puro e extremamente frágil, que nunca sentira os braços carinhosos e fortes de um homem. Provavelmente do pai…
Ele suspirou. Afinal, tinha muito mais em comum com Mari do que imaginava.
Podiam ter ficado naquela posição durante semanas, tal era a vontade de Kenji, mas ela afastou-se, evitando olhá-lo nos olhos. Murmurara um pedido de desculpas e saíra, um pouco atrapalhada, deixando o rapaz de pé no seu quarto, a fitar a porta por onde ela tinha saído.
E fora assim que uma necessidade louca o percorrera nos restantes dias. A Voz permanecera calada todo o tempo em que Kenji falara com Mari, mas mal ela saíra, fora bombardeado de perguntas e comentários que pouco ou nada tinham a ver com o sentimento de vazio que ele sentia.
Com o tempo, aprendeu a bloquear a Voz, afastando-a dos seus pensamentos, mas sabia sempre quando Ela tinha algo a dizer. Apesar de dizer constantemente não ser a sua consciência, teimava que Kenji saísse de casa e fosse comer uma grande refeição e que levasse amigos. Enfim, que convivesse.
Mas ele ignorava-a. Até era fácil. Kenji sentiu que tinha feito aquilo toda a sua vida, até que a muralha que o separava da Voz quebrara-se após o encontro com Mari no pavilhão.
Num dia, dois dias depois de Mari ter ido a sua casa, vira a resposta. A sua válvula de escape.
Verdade que era uma tremenda hipocrisia usar alguém para escapar a aquela frustração que sentia. Mas não pensara noutra opção. Fora honesto toda a sua vida e era humano. Cometia erros. E no meio de tantos registados, quem iria notar naquele?
Uma bela rapariga olhava para ele, enquanto este saía da faculdade. Ela era a resposta. Uma cópia barata daquilo que ele realmente queria, mas que servia as suas necessidades. E como homem que era, tinha que as satisfazer…
**
Era dia vinte e um de Dezembro e várias famílias passeavam pelo shopping, a fim de realizar as suas compras de Natal. Mães davam as mãos aos seus filhos, que apontavam os seus pequenos dedos à várias montras que mostravam grandes e lindos brinquedos, prontos a satisfazer as vontades dos pequenos e a esvaziar as carteiras dos grandes.
Sentada numa mesa junto a um café, Linda observava a multidão, enquanto saboreava um sumo. À sua volta, via mães, pais, filhos e namorados a divertirem-se uns com os outros. E de algum modo, sentiu uma leve ponta de inveja.
Estava sozinha, como tinha sido nos últimos dias. Passara grande parte das férias a vaguear por Tokyo, tentando memorizar cada rua. Voltara algumas vezes ao parque onde conhecera Kentaro, mas nunca mais o vira. Isso não a entristecera. De facto, até se sentira aliviada por não reencontrar um amigo da mãe.
A outra parte do tempo passava-o em casa, lendo todos os livros que pudesse, fazendo algumas pesquisas no computador (finalmente conseguira o seu computador pessoal, que a avó mandara no fim das aulas) e a dormir.
Melhor dizendo, não passava muito tempo em casa.
Saía de manhã e voltava no final da tarde, por vezes à noite, passeando por Tokyo, vendo museus, shoppings, várias ruas, templos… visitara isso tudo sozinha.
Não tinha a mínima vontade de falar com ninguém. Nos últimos tempos, tinha falado para Aiko como se nada tivesse passado, mas ignorava a existência de Mari naquela casa, para além de não atender as chamadas de Eiji, Setsu e Cecília (vá-se lá saber como é que ela arranjou o numero de Linda). Ignorava o que o irmão fazia. E nem queria saber.
Linda tentava não pensar muito no assunto, pois sentia uma pontada no coração de cada vez que o fazia. Tentava puxar a imagem da cara do irmão quando exposto à verdade da sua cabeça, temendo quebrar-se em lágrimas outra vez. Mas não! Ela não iria chorar mais por causa daquela família que ela não pedira.
Suspirou, aborrecida, e bebiscou o seu sumo, vendo o liquido a chegar ao fim. Deitou uma olhadela à sua volta e viu um casal de namorados a comprar presentes um para o outro numa loja de bijutaria. Provavelmente alianças de compromisso.
De algum modo, os pensamentos de Linda saltaram para Eiji. O quanto gostaria ela de estar a passear com ele pelo centro comercial, de mão dada e a comprar qualquer coisa.
A escolha foi dele… pensou para si própria, levantando-se para sair.
Algo fê-la parar. Tinha visto alguma coisa no outro lado. Com um leve virar de cabeça viu Mari e Eiji carregando vários sacos com compras de Natal.
Linda ficou quieta, sem tirar os olhos dos dois amigos que tinham feito as pazes miraculosamente. Desconhecia as razões, mas pouco importava.
Ignorava ela que o seu corpo tremera de raiva cega, que os seus lábios se tinham contraído, formando uma linha recta e que os seus olhos, apesar de permanecerem azuis, deitavam um olhar de morte aos dois jovens.
A sua respiração acelerou e Linda sentia perder o controlo do seu corpo. Seriam aquilo…. Ciúmes?
Linda maldizeu-se de si própria e fechou os olhos com força. Quando os abriu, encontrou os olhos cor de avelã de Eiji.
**
Eiji passeava com a sua amiga, enquanto espreitava de vez em quando para uma montra ou duas. Não tinha o mínimo interesse por compras, no entanto, aquela era uma altura especial. Tinha no bolso esquerdo das calças de ganga, uma lista feita por si próprio com as prendas que teria que comprar. Já tinha a prenda de Mari, Cecília, Setsu, do seu pai, da sua madrasta, da sua irmãzinha e agora pensava no que daria aos irmãos Natsumara. Apesar de ser grande amigo de Kenji, não sabia o que lhe dar naquela altura. Provavelmente uma reconciliação com a irmã seria a melhor prenda, mas isso estava completamente fora de questão. Já a Linda, ele nem sequer sabia se era seguro mandar-lhe um postal. A forma como ela agira com Kenji dias antes apenas provara aquilo que Linda gritara a toda a escola. Ninguém a conhecia.
Mas também, quem é que a quer conhecer, perguntou uma vozinha na sua cabeça.
Ah... muita gente?
Não. Se prestares melhor atenção, vais ver que ela tem, mais uma vez, razão. Ninguém a quer conhecer. Pelo menos o seu verdadeiro eu.
Ele não sabia de onde vinha essa voz, mas dava graças pelo conselho. Sabia agora o que dar a Linda e a Kenji. Claro que precisaria da ajuda de Setsu para a prenda do jovem, mas no final iria ver resultados. Até lá, apenas esperava que Linda…
Não acabou os seus pensamentos quando sentiu um par de olhos em si. Mirou instintivamente para Mari, que olhava pensativa para uma montra de gravatas. Deus sabe o quanto ele discutira com ela por causa daquilo que dissera a Linda. Ele e Cecília ficaram dois dias sem falar com ela, até que esta viera a casa dele falar com Kenji. Apesar de ambos terem falado em tom moderado, Eiji pôde ouvir o pedido de desculpas de Mari do corredor. Depois ela saíra, o corpo sem dúvida a tentar a esmagar as lágrimas que tanto queriam sair. Aquilo é sério, pensara ele na altura. Apenas algo muito grave punha Mari Nakamura quase em estado de lágrimas. Ela nunca chorava. Não desde a morte da mãe.
Falara com ela calmamente e perdoara-a. Mari prometeu fazer todos os esforços possíveis para conseguir convencer Linda a falar com o irmão, mas não tivera um único resultado até a altura. Linda evitava-a como a água evita o azeite.
Agora ele perguntava-se no que Mari pensava. Mas, mais importante do que isso, perguntava-se quem estaria a observá-lo.
As suas entranhas estremeceram, dando-lhe a resposta à sua pergunta. Ao virar-se, viu Linda do outro lado do shopping, de pé e de olhos fechados. Quando ela os abriu, ele não conseguiu evitar dar um pequeno salto para trás. Se olhares matassem, Eiji Yamamoto estava mais que morto e enterrado.
Ela fitara-o atentamente durante uns instantes até que se dirigira para a saída. Para sua própria surpresa, Eiji nada fez para a impedir. Depois de tantas vezes tentar contactá-la via-a agora e nada fazia.
Mordeu o lábio, desconfortável. Mari desviou o olhar da montra para ele:
-O que foi? Parece que viste um fantasma!
Eiji quase que concordara com Mari. Seria possível Linda ficar ainda mais pálida do que já era? O que será que se passava com ela?
**
O facto de vaguear várias vezes sozinha durante a noite dava origem a alguns incidentes. Tal como fora no dia vinte e quatro de Dezembro. Quando a leve queda de neve cessara, Linda saíra de casa e só voltara à noite, quando Aiko tinha o jantar já na mesa e Mari estava a ver televisão. Um belo festim de frango, bolos e bebidas frescas encontrava-se espalhado na mesa da sala, libertando um cheiro de fazer água na boca. Linda mal tivera tempo de apreciar melhor a ceia quando Aiko a interceptou:
-Linda! O que raio te aconteceu, querida? – Perguntou, chocada. Linda tinha um leve corte no pescoço que sangrava um pouco, para além de as suas roupas não estarem em bom estado.
-Fui assaltada. – Respondeu simplesmente, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
-ASSALTADA! – Gritou Aiko, apavorada. Mari desviou a sua atenção da televisão, olhando para Linda chocada - Oh pelos deuses, como podes dizer isso com tanta calma? Eu tenho que…
-Aiko! – Interrompeu Linda, sem paciência. – Não aconteceu nada. Ele não me roubou nada. – Disse, tentando controlar o tom de voz. Não gostava nada de ser mal-educada para Aiko, que tanto a tinha ajudado.
-Mas podia ter-te magoado! – Aiko tocou no rosto de Linda, rodando-o para ver melhor o corte. – Oh querida, deixa-me…
-Não é preciso! – Insistiu Linda, afastando as mãos da mulher cuidadosamente. – Não aconteceu nada. O tipo fugiu quando ouviu barulho.
Aiko não pareceu convencida e muito menos Mari. Ela quase que podia adivinhar o verdadeiro motivo pelo qual Linda escapara com um único arranhão.
Mal sabia ela o quanto estava próxima da verdade. Linda não queria contar detalhes, receosa da reacção de Aiko, mas os factos aconteceram.
Só se fosse estúpida é que diria que não tinha ficado assustada quando um tipo a abordou no meio da rua deserta e a tentou assaltar, encostando uma navalha ao pescoço. Ao tirar-lhe a carteira, lançou-lhe um olhar que a deixara desconfortável. Com a lâmina encostada à pele, aproximou-a mais dele e começou a tocar-lhe no peito. Ela sentira vontade de vomitar.
Desesperada e temendo por si, Linda deu-lhe um pontapé por entre as pernas, fazendo o tipo gemer de dor. Com o movimento brusco, acabara com o leve corte no pescoço.
Ele tentara levantar-se e agredi-la, mas ela fora mais rápida. Dera-lhe um murro no nariz e um pontapé de lado, atingindo as costelas dele e fazendo-o cair no chão. Linda pegou na sua carteira e na navalha e fugiu, não pensando sequer em fazer nada ao assaltante. Deitou a navalha no lixo e seguiu o caminho para casa, tentando acalmar-se vezes sem conta.
Agora ali, estava mais calma, mas o sucedido ainda a inquietava. Conseguira defender-se, mas não conseguia imaginar o que lhe teria acontecido se não soubesse defesa pessoal. A sua respiração começava agora a perder velocidade, o seu corpo a relaxar. Estava segura…
-Eu trato do corte. – Pousou a mão direita sobre o ferimento – não é nada de grave. Um penso rápido trata disso.
Aiko mordeu os lábios, olhando-a um semblante duvidoso. Durante alguns segundos de silêncio, nenhuma das três disse nada.
A mais velha das três quebrou o silêncio, dizendo:
-Muito bem. Trata disso depressa e vem comer. Mari lava as mãos e vem também. No entanto… - acrescentou, ao ver Linda a dirigir-se para o corredor. Esta parara, ouvindo-a com atenção. – Quero que me prometas que não voltas a ficar na rua até às 18h. Linda, eu preocupo-me contigo e sou responsável por ti enquanto estás aqui, portanto não quero que corras riscos.
Linda nada disse, apenas assentiu, para depois se dirigir para a casa de banho.
Mari ficou parada no sofá, pensativa. Aquilo tinha sido a gota de água.
-Isto não pode continuar assim – murmurou ela, ecoando os pensamentos de Aiko
-Avó! – Chamou a loira, quebrando o silêncio instalado entre as duas. – Dá-me o número da avó da Linda.
Aqui tenho uma novo capítulo fresquinho e penso que no fim de semana virá outro. Porquê? Eu explico... O capítulo era gigante e então tive que o dividir. Decidi dividir por "tempos", pois o capítulo original passava-se durante as férias de Natal (estranho, pois quando começei a escrever ainda era verão
). A parte que se desenrola no natal posto agora, a do ano novo no fim de semana. Era para postar mais cedo, mas fiquei sem net e não pude.Espero que gostem...

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22. A melhor prenda
O tempo em Tokyo piorava a cada dia do mês. As férias de Natal tinham começado e já era possível ver famílias nas ruas a fazer as suas compras de Natal. O céu estava colorido em vários tons de cinzento e o vento soprava uma brisa bem fresca, que arrepiava a espinha de qualquer um. Nos noticiários, anunciavam neve para o dia de Natal.
Com as temperaturas a descerem e o vento forte a bater nos rostos, era natural passear pelas ruas de tarde e não ver quase vivalma nenhuma, a não ser carros e algumas pessoas agasalhadas sem medo do frio.
No meio dessas poucas pessoas com coragem para enfrentar o tempo feroz, encontravam-se os irmãos Natsumara, mais conhecidos como Tsukino e Chiba. Podiam ser vistos no exterior várias vezes, apesar de nunca se encontrarem no mesmo sítio ao mesmo tempo.
Kenji Chiba Natsumara podia ver visto em três locais durante todo o dia. Na faculdade, em casa e na Baia de Tokyo, onde ia apanhar ar fresco de vez em quando. A sensação de vazio que percorria o seu corpo de vinte anos obrigava-o a mexer-se constantemente, uma acção que o impedia de entrar em depressão. Na faculdade, os seus colegas notaram nas suas alterações de comportamento e por várias vezes abordaram-no com perguntas. Mas a sua resposta era sempre a mesma: um leve encolher de ombro, um sorriso forçado e as palavras ‘está tudo bem’. Claro que tal resposta não satisfazia a ninguém, principalmente alguns professores de Kenji, que perguntaram a Setsu se este se sentia bem. O amigo, respeitando o colega, apenas respondera que Kenji passava por problemas familiares, o que era verdade.
Os colegas deixavam-no estar e os professores encolhiam os ombros. Provavelmente era algo passageiro e também não tinham muito que se queixar pois Kenji era agora visto apenas a estudar, tendo as suas notas quase rebentado a escala.
Em casa, a situação era outra. Por várias vezes Eiji e Setsu tentavam ajudar o companheiro, chamando-o para ver televisão, jogar playstation ou falar de miúdas. Várias vezes o convidaram para sair mas de todas as vezes Kenji recusou. Afirmava estar bem, mas os irmãos Yamamoto tinham as suas dúvidas.
A verdade era que ele estava mal. Muito mal, mesmo. De um momento para o outro, Kenji perdeu a vontade de sorrir. Sentia-se como uma criança pequena que precisava da mãe, que precisava de afecto e carinho. E, infelizmente, ninguém lhe podia dar isso.
Ele ficava várias vezes no quarto a ler e a pensar. A pensar nele próprio.
No quanto fora estúpido, no quanto ela tinha razão…
Naquele momento, ele precisava de algo. Algo que apenas a Voz dentro da sua cabeça sabia o que era. Ele queria sentir o cheiro a jasmim da sua mãe, queria que a avó acariciasse o seu cabelo dourado, tal como fazia quando ele era pequeno, queria que a irmã lhe sorrisse e, acima de tudo….
Kenji abanava a cabeça sempre que lhe vinha aquele determinado pensamento à cabeça. Era estúpido imaginar o quanto naquele momento, a sua mãe, a sua irmã, a sua avó e Mari pudessem ser as únicas capazes de o fazer elevar-se do buraco em que se enfiara.
Os dias passavam e ele ficava cada vez mais imerso na escuridão do seu quarto. O ar parecia pesado demais para respirar e o seu corpo tornara-se tão mole como gelatina, dando-lhe pouca vontade de se levantar da cama. Claro que fazia o esforço, sempre para ir para a faculdade, onde se concentrava cada vez mais no seu futuro. Haveria de fazer algo direito. Desiludira aqueles que mais amava, até a si próprio, mas não iria falhar outra vez. Já lhe bastava ter afastado a mãe, ter provocado a ira no pai, a desilusão na irmã, não se iria condenar por muito mais tempo. Tinha que arranjar uma válvula de escape.
E essa necessidade de válvula de escape aumentou ainda mais quando Mari viera a casa dele, três dias depois da zanga dos dois irmãos. Ele vira Mari lamentar cerca de cinco vezes o sucedido para depois dar voltas pelo quarto, para em seguida voltar a pedir desculpas. Isso acordou Kenji do seu sono depressivo.
-A culpa é toda minha! – Dissera ela, com toda a sinceridade que o momento exigia. Kenji observou-a, um pouco admirado com a atitude da loira. Sem duvida que outra rapariga já teria perdido a sua postura séria devido a lágrimas. Mas Mari não chorava, apesar de todo o seu corpo tremer.
-Não é não. – Sussurrou ele, calmamente. A sua voz estava rouca, por não ter sido muito usada nos últimos dias. – A Linda chateou-se comigo por outros motivos. A culpa não é tua.
-Mas provoquei a ira dela. Ela não ficaria tão chateada se…
Kenji soltou uma gargalhada um tanto forçada.
-Estás a tentar arranjar desculpas para te culpares? Acredita Mari, a culpa não é tua. É minha – disse ele, olhando-a nos olhos – apenas minha.
-Porquê? – Perguntou ela, apesar de saber que provavelmente não teria resposta à pergunta.
Kenji soltou todo o ar preso nos pulmões, reflectindo.
-O que é que sabes?
Mari foi apanhada de surpresa com a pergunta.
-O que é que eu sei?
-Acerca das minhas origens… e as da Linda.
Mari desviou o olhar de Kenji. Devido ao nervosismo, rodou o brinco na sua orelha direita, involuntariamente.
-Sei que tu e ela… são irmãos…
Kenji ergueu o sobrolho.
-Tu não sabias?
Mari corou até à raiz dos cabelos e deu graças por se ter virado de costas, de modo que ele não visse o seu estado.
-Não – respondeu simplesmente. Suspirando fundo, afastou uma madeixa de cabelo da cara e prosseguiu – e sei que vocês são da realeza.
Ele assentiu.
-E sabes porque é que não o dizemos a ninguém?
Mari não respondeu. Preferia não saber. Mas ele continuou a falar:
-Nós não nos damos bem com os nossos pais. Eles fizeram com que nós detestássemos não só a eles, como também a aquele mundo de fantasia no qual todos querem pertencer. Vimos todos os contras daquele sítio, mas nunca vimos um pró. Nunca consegui dar valor a todo o dinheiro e a todas as roupas que me davam, porque não era isso que me fazia falta. E fui educado para ser uma pessoa honesta e humilde, não fútil e hipócrita. Jamais conseguiria preencher o vazio do meu coração com qualquer rapariga que desejasse estar com o príncipe, ser capa de revistas, que as pessoas se curvassem quando me vissem… - fez uma pausa, mirando o chão, pensativo. – A dança foi a única coisa que consegui gostar daquele mundo. O resto…
A frase incompleta pairou no ar, até que Kenji levantou-se a fitou a porta entreaberta.
-Sempre soube coisas que a Linda nunca soubera. Acerca dos meus pais, acerca dela… Sempre tive uma noção da realidade diferente da Linda. Isso fez com que, nalguns momentos, eu não fosse um bom irmão para a minha maninha e acabei… por cometer erros… ela não sabia e por isso perdoava-me sempre… mas desta vez…
-Ela sabe? – Perguntou Mari, com a voz fraca.
-Algumas coisas… mas sim… - suspirou - sabe.
Kenji colocou as mãos na cabeça, numa tentativa frustrada de relaxar, enquanto expirava todo o ar para fora. Os lábios contraíram-se e Mari soube então o que o pusera trancado no quarto nos últimos dias. Não era apenas Linda, mas sim ele próprio. Tal como ela, ele tinha segredos e frustrações, mas enquanto ela pagara pela sua raiva, ele pagara pelos segredos. Sabia que ele respirava culpa em cada golfada de ar. Afinal, ela sentia o mesmo…
Esqueceu-se de quem ele era e sucumbiu aos seus desejos interiores. Kenji fora a primeira pessoa a fazê-la sentir-se confortável, mas sem eliminar a culpa com palavras estúpidas. Kenji acalmara-a e agora ela sentira a obrigação de retribuir o favor.
Abriu os braços e cercou o tronco dele, puxando-o para si. Apanhado de surpresa, Kenji deixou-se levar pela sensação quente do corpo de Mari. Os seus braços ficaram inertes até que finalmente aceitaram o gesto e rodearam o corpo da rapariga. Um grande formigueiro percorreu o corpo dos dois jovens, que sentiam picadas só de tocar na pele um do outro. No entanto, não se largaram. Perduraram o gesto durante uns bons minutos, em que o nó no estômago de Kenji se começou a desfazer.
Mari sentia o seu coração como uma bomba relógio prestes a explodir e um denso arrepio fazia com que as suas pernas tremessem como varas. Mas nada disso impedia que ela desfrutasse daquele momento. Ela já tinha experimentado os braços dele antes, das duas vezes que ele a salvara de uma grande queda. Mas agora ela estava tão próxima que conseguia ouvir o seu coração a bater, tão descompassadamente quanto o seu. Conseguia sentir os músculos rígidos do abdómen dele que lhe provocavam uma sensação de protecção que nunca nenhum outro homem lhe dera.
Kenji pensava algo semelhante. Mari era alta, mas não alta o suficiente para que o topo da sua cabeça chegasse ao seu nariz, e era forte. Todavia, Kenji tinha a sensação que os seus braços tinham sido feitos para abraçar aquela adolescente magra e com algum músculo. Mari era frágil, apesar de não o parecer e só no exacto momento em que os braços dele envolviam-na toda contra si, é que viu o quanto estava enganado a respeito de Mari. Por baixo da sua concha de protecção de maria-rapaz e moça desconfiada, escondia-se uma rapariga de coração puro e extremamente frágil, que nunca sentira os braços carinhosos e fortes de um homem. Provavelmente do pai…
Ele suspirou. Afinal, tinha muito mais em comum com Mari do que imaginava.
Podiam ter ficado naquela posição durante semanas, tal era a vontade de Kenji, mas ela afastou-se, evitando olhá-lo nos olhos. Murmurara um pedido de desculpas e saíra, um pouco atrapalhada, deixando o rapaz de pé no seu quarto, a fitar a porta por onde ela tinha saído.
E fora assim que uma necessidade louca o percorrera nos restantes dias. A Voz permanecera calada todo o tempo em que Kenji falara com Mari, mas mal ela saíra, fora bombardeado de perguntas e comentários que pouco ou nada tinham a ver com o sentimento de vazio que ele sentia.
Com o tempo, aprendeu a bloquear a Voz, afastando-a dos seus pensamentos, mas sabia sempre quando Ela tinha algo a dizer. Apesar de dizer constantemente não ser a sua consciência, teimava que Kenji saísse de casa e fosse comer uma grande refeição e que levasse amigos. Enfim, que convivesse.
Mas ele ignorava-a. Até era fácil. Kenji sentiu que tinha feito aquilo toda a sua vida, até que a muralha que o separava da Voz quebrara-se após o encontro com Mari no pavilhão.
Num dia, dois dias depois de Mari ter ido a sua casa, vira a resposta. A sua válvula de escape.
Verdade que era uma tremenda hipocrisia usar alguém para escapar a aquela frustração que sentia. Mas não pensara noutra opção. Fora honesto toda a sua vida e era humano. Cometia erros. E no meio de tantos registados, quem iria notar naquele?
Uma bela rapariga olhava para ele, enquanto este saía da faculdade. Ela era a resposta. Uma cópia barata daquilo que ele realmente queria, mas que servia as suas necessidades. E como homem que era, tinha que as satisfazer…
**
Era dia vinte e um de Dezembro e várias famílias passeavam pelo shopping, a fim de realizar as suas compras de Natal. Mães davam as mãos aos seus filhos, que apontavam os seus pequenos dedos à várias montras que mostravam grandes e lindos brinquedos, prontos a satisfazer as vontades dos pequenos e a esvaziar as carteiras dos grandes.
Sentada numa mesa junto a um café, Linda observava a multidão, enquanto saboreava um sumo. À sua volta, via mães, pais, filhos e namorados a divertirem-se uns com os outros. E de algum modo, sentiu uma leve ponta de inveja.
Estava sozinha, como tinha sido nos últimos dias. Passara grande parte das férias a vaguear por Tokyo, tentando memorizar cada rua. Voltara algumas vezes ao parque onde conhecera Kentaro, mas nunca mais o vira. Isso não a entristecera. De facto, até se sentira aliviada por não reencontrar um amigo da mãe.
A outra parte do tempo passava-o em casa, lendo todos os livros que pudesse, fazendo algumas pesquisas no computador (finalmente conseguira o seu computador pessoal, que a avó mandara no fim das aulas) e a dormir.
Melhor dizendo, não passava muito tempo em casa.
Saía de manhã e voltava no final da tarde, por vezes à noite, passeando por Tokyo, vendo museus, shoppings, várias ruas, templos… visitara isso tudo sozinha.
Não tinha a mínima vontade de falar com ninguém. Nos últimos tempos, tinha falado para Aiko como se nada tivesse passado, mas ignorava a existência de Mari naquela casa, para além de não atender as chamadas de Eiji, Setsu e Cecília (vá-se lá saber como é que ela arranjou o numero de Linda). Ignorava o que o irmão fazia. E nem queria saber.
Linda tentava não pensar muito no assunto, pois sentia uma pontada no coração de cada vez que o fazia. Tentava puxar a imagem da cara do irmão quando exposto à verdade da sua cabeça, temendo quebrar-se em lágrimas outra vez. Mas não! Ela não iria chorar mais por causa daquela família que ela não pedira.
Suspirou, aborrecida, e bebiscou o seu sumo, vendo o liquido a chegar ao fim. Deitou uma olhadela à sua volta e viu um casal de namorados a comprar presentes um para o outro numa loja de bijutaria. Provavelmente alianças de compromisso.
De algum modo, os pensamentos de Linda saltaram para Eiji. O quanto gostaria ela de estar a passear com ele pelo centro comercial, de mão dada e a comprar qualquer coisa.
A escolha foi dele… pensou para si própria, levantando-se para sair.
Algo fê-la parar. Tinha visto alguma coisa no outro lado. Com um leve virar de cabeça viu Mari e Eiji carregando vários sacos com compras de Natal.
Linda ficou quieta, sem tirar os olhos dos dois amigos que tinham feito as pazes miraculosamente. Desconhecia as razões, mas pouco importava.
Ignorava ela que o seu corpo tremera de raiva cega, que os seus lábios se tinham contraído, formando uma linha recta e que os seus olhos, apesar de permanecerem azuis, deitavam um olhar de morte aos dois jovens.
A sua respiração acelerou e Linda sentia perder o controlo do seu corpo. Seriam aquilo…. Ciúmes?
Linda maldizeu-se de si própria e fechou os olhos com força. Quando os abriu, encontrou os olhos cor de avelã de Eiji.
**
Eiji passeava com a sua amiga, enquanto espreitava de vez em quando para uma montra ou duas. Não tinha o mínimo interesse por compras, no entanto, aquela era uma altura especial. Tinha no bolso esquerdo das calças de ganga, uma lista feita por si próprio com as prendas que teria que comprar. Já tinha a prenda de Mari, Cecília, Setsu, do seu pai, da sua madrasta, da sua irmãzinha e agora pensava no que daria aos irmãos Natsumara. Apesar de ser grande amigo de Kenji, não sabia o que lhe dar naquela altura. Provavelmente uma reconciliação com a irmã seria a melhor prenda, mas isso estava completamente fora de questão. Já a Linda, ele nem sequer sabia se era seguro mandar-lhe um postal. A forma como ela agira com Kenji dias antes apenas provara aquilo que Linda gritara a toda a escola. Ninguém a conhecia.
Mas também, quem é que a quer conhecer, perguntou uma vozinha na sua cabeça.
Ah... muita gente?
Não. Se prestares melhor atenção, vais ver que ela tem, mais uma vez, razão. Ninguém a quer conhecer. Pelo menos o seu verdadeiro eu.
Ele não sabia de onde vinha essa voz, mas dava graças pelo conselho. Sabia agora o que dar a Linda e a Kenji. Claro que precisaria da ajuda de Setsu para a prenda do jovem, mas no final iria ver resultados. Até lá, apenas esperava que Linda…
Não acabou os seus pensamentos quando sentiu um par de olhos em si. Mirou instintivamente para Mari, que olhava pensativa para uma montra de gravatas. Deus sabe o quanto ele discutira com ela por causa daquilo que dissera a Linda. Ele e Cecília ficaram dois dias sem falar com ela, até que esta viera a casa dele falar com Kenji. Apesar de ambos terem falado em tom moderado, Eiji pôde ouvir o pedido de desculpas de Mari do corredor. Depois ela saíra, o corpo sem dúvida a tentar a esmagar as lágrimas que tanto queriam sair. Aquilo é sério, pensara ele na altura. Apenas algo muito grave punha Mari Nakamura quase em estado de lágrimas. Ela nunca chorava. Não desde a morte da mãe.
Falara com ela calmamente e perdoara-a. Mari prometeu fazer todos os esforços possíveis para conseguir convencer Linda a falar com o irmão, mas não tivera um único resultado até a altura. Linda evitava-a como a água evita o azeite.
Agora ele perguntava-se no que Mari pensava. Mas, mais importante do que isso, perguntava-se quem estaria a observá-lo.
As suas entranhas estremeceram, dando-lhe a resposta à sua pergunta. Ao virar-se, viu Linda do outro lado do shopping, de pé e de olhos fechados. Quando ela os abriu, ele não conseguiu evitar dar um pequeno salto para trás. Se olhares matassem, Eiji Yamamoto estava mais que morto e enterrado.
Ela fitara-o atentamente durante uns instantes até que se dirigira para a saída. Para sua própria surpresa, Eiji nada fez para a impedir. Depois de tantas vezes tentar contactá-la via-a agora e nada fazia.
Mordeu o lábio, desconfortável. Mari desviou o olhar da montra para ele:
-O que foi? Parece que viste um fantasma!
Eiji quase que concordara com Mari. Seria possível Linda ficar ainda mais pálida do que já era? O que será que se passava com ela?
**
O facto de vaguear várias vezes sozinha durante a noite dava origem a alguns incidentes. Tal como fora no dia vinte e quatro de Dezembro. Quando a leve queda de neve cessara, Linda saíra de casa e só voltara à noite, quando Aiko tinha o jantar já na mesa e Mari estava a ver televisão. Um belo festim de frango, bolos e bebidas frescas encontrava-se espalhado na mesa da sala, libertando um cheiro de fazer água na boca. Linda mal tivera tempo de apreciar melhor a ceia quando Aiko a interceptou:
-Linda! O que raio te aconteceu, querida? – Perguntou, chocada. Linda tinha um leve corte no pescoço que sangrava um pouco, para além de as suas roupas não estarem em bom estado.
-Fui assaltada. – Respondeu simplesmente, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
-ASSALTADA! – Gritou Aiko, apavorada. Mari desviou a sua atenção da televisão, olhando para Linda chocada - Oh pelos deuses, como podes dizer isso com tanta calma? Eu tenho que…
-Aiko! – Interrompeu Linda, sem paciência. – Não aconteceu nada. Ele não me roubou nada. – Disse, tentando controlar o tom de voz. Não gostava nada de ser mal-educada para Aiko, que tanto a tinha ajudado.
-Mas podia ter-te magoado! – Aiko tocou no rosto de Linda, rodando-o para ver melhor o corte. – Oh querida, deixa-me…
-Não é preciso! – Insistiu Linda, afastando as mãos da mulher cuidadosamente. – Não aconteceu nada. O tipo fugiu quando ouviu barulho.
Aiko não pareceu convencida e muito menos Mari. Ela quase que podia adivinhar o verdadeiro motivo pelo qual Linda escapara com um único arranhão.
Mal sabia ela o quanto estava próxima da verdade. Linda não queria contar detalhes, receosa da reacção de Aiko, mas os factos aconteceram.
Só se fosse estúpida é que diria que não tinha ficado assustada quando um tipo a abordou no meio da rua deserta e a tentou assaltar, encostando uma navalha ao pescoço. Ao tirar-lhe a carteira, lançou-lhe um olhar que a deixara desconfortável. Com a lâmina encostada à pele, aproximou-a mais dele e começou a tocar-lhe no peito. Ela sentira vontade de vomitar.
Desesperada e temendo por si, Linda deu-lhe um pontapé por entre as pernas, fazendo o tipo gemer de dor. Com o movimento brusco, acabara com o leve corte no pescoço.
Ele tentara levantar-se e agredi-la, mas ela fora mais rápida. Dera-lhe um murro no nariz e um pontapé de lado, atingindo as costelas dele e fazendo-o cair no chão. Linda pegou na sua carteira e na navalha e fugiu, não pensando sequer em fazer nada ao assaltante. Deitou a navalha no lixo e seguiu o caminho para casa, tentando acalmar-se vezes sem conta.
Agora ali, estava mais calma, mas o sucedido ainda a inquietava. Conseguira defender-se, mas não conseguia imaginar o que lhe teria acontecido se não soubesse defesa pessoal. A sua respiração começava agora a perder velocidade, o seu corpo a relaxar. Estava segura…
-Eu trato do corte. – Pousou a mão direita sobre o ferimento – não é nada de grave. Um penso rápido trata disso.
Aiko mordeu os lábios, olhando-a um semblante duvidoso. Durante alguns segundos de silêncio, nenhuma das três disse nada.
A mais velha das três quebrou o silêncio, dizendo:
-Muito bem. Trata disso depressa e vem comer. Mari lava as mãos e vem também. No entanto… - acrescentou, ao ver Linda a dirigir-se para o corredor. Esta parara, ouvindo-a com atenção. – Quero que me prometas que não voltas a ficar na rua até às 18h. Linda, eu preocupo-me contigo e sou responsável por ti enquanto estás aqui, portanto não quero que corras riscos.
Linda nada disse, apenas assentiu, para depois se dirigir para a casa de banho.
Mari ficou parada no sofá, pensativa. Aquilo tinha sido a gota de água.
-Isto não pode continuar assim – murmurou ela, ecoando os pensamentos de Aiko
-Avó! – Chamou a loira, quebrando o silêncio instalado entre as duas. – Dá-me o número da avó da Linda.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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Era 25 de Dezembro e não se via vivalma nas ruas. Famílias passavam o dia em casa com as suas famílias, comendo bolos, frango, bebendo champanhe e trocando presentes e carinhos entre todos. Algumas lareiras estavam acesas e nas casas mais modernas, famílias ligavam os aquecedores eléctricos, em busca de algum conforto face ao frio do exterior.
Olhando pela janela do seu quarto, Kenji viu iluminações nos prédios de frente. Os vizinhos haviam passado os dias anteriores a decorar as suas casas com luzes, bolas, fitas, anjos e até azevinho.
Suspirando, vestiu uma camisa verde por cima de uma t-shirt cinzenta e umas calças de ganga escuras. Dirigiu-se à casa de banho, onde lavou a cara e passou o pente pelo seu cabelo fino dourado. No final, ao deitar um olho no espelho, notou que parecia mais velho. Pequenos círculos negros em torno dos olhos eram visíveis, devido às noites de estudo que passara em claro. Apalpou a face e sentiu a barba por fazer. Fazendo uma careta ao seu reflexo, decidiu fazer a barba no dia seguinte, quando tivesse mais paciência.
Os rapazes já o esperavam na sala, onde um belo bolo de frutas era figura de destaque na mesa de vidro, pela primeira vez livre de qualquer objecto de desarrumação dos três jovens. Kenji não conseguiu deixar de soltar um sorriso:
-Cumprimentos para à vossa mãe pelo bolo. – Disse, anunciando a sua presença.
-Feliz Natal! – Disseram os dois irmãos ao mesmo tempo. Deitando um olhar na sala, via-se poucas decorações. Apenas uma árvore de Natal com algumas bolas azuis e uma fita branca prateada que envolvia a árvore toda e um pequeno pai natal junto à lareira decoravam aquela sala. Kenji sabia que o jantar de Natal seria na casa dos Yamamoto, onde seria recebido como um terceiro filho… ou melhor, quarto. Eram lá que estavam as suas prendas, pelo que a arvore parecia insossa, sem vida.
-Por acaso não foi a mãe que fez o bolo – respondeu Eiji, que tinha os olhos pousados numa pequena caixa turquesa na sua mão. – Foi a Takeo.
-E achas seguro comer algo cozinhado pela tua irmã?
O loiro sorriu, desviando os olhos do embrulho.
-Sim, até porque a mãe estava a supervisioná-la. Além disso, é mais provável nós morrermos por comermos umas tostas do Setsu do que por comermos um bolo de uma miúda de dez anos.
-Hei! – Reclamou Setsu, juntando-se à conversa. Kenji notou que ele tinha o telemóvel na mão, como se tivesse acabado de desligar uma chamada, mas nada disse. – Não cozinho assim tão mal!
-A questão é que tu, meu caro Setsu, não cozinhas. Apenas estragas comida. – Argumentou Kenji, com os braços cruzados.
-Pois pois… -querendo obviamente mudar de assunto, Setsu perguntou – A tua namoradinha não vem hoje?
-Não. – E ainda bem, disse a Voz, parecendo aliviada. Kenji abanou a cabeça. – Vai a Kyoto ter com os pais.
-Pena. Gostava mesmo de conversar com ela… para trocar umas ideias. – Virou-se para o irmão e juntos trocaram um sorriso trocista. Kenji não gostou.
-Vocês vejam lá como é que a tratam. Até parece que gostariam que eu fizesse o mesmo às vossas namoradas.
-O problema é que tu fazes o mesmo às minhas namoradas! E só não fazes o mesmo ás do Eiji porque ele não tem nenhuma. É maricas!
-Oi… é mentira!
-Ai é? Então porque não tens nenhuma namorada quando fontes próximas e seguras afirmam que tens metade das raparigas da tua turma aos teus pés?
Eiji ponderou a resposta.
-Talvez porque eu peço uma rapariga com personalidade para namorada, ao contrário de ti e do Ken que aceitam qualquer rabo de saia (- Olha o chavalo a esticar-se – murmurou Setsu, provocando um enrolar de olhos de Kenji). E naquela turma só há três. Uma é uma amiga minha, as outras… bem, uma não me interessa, a outra é como o vocabulário do Setsu antes do café da manhã… difícil de entender.
Kenji sentiu um nó na garganta. Tinha notado que Eiji também andava com um humor muito fraco e com pouca vontade de sair, apenas fazendo-o pelo amigo. Não tinha pensado que Linda também o estava a fazer sofrer. Sabia que o caso de Eiji era diferente. Havia solução. Bastava Linda acalmar-se e ter uma conversa séria com ele que tudo correria bem.
Oxalá ele tivesse a mesma hipótese.
E tens… basta contares os detalhes…
Kenji desviou os olhos para o chão, triste. Setsu havia notado na expressão dos dois loiros e, tentando levantar-lhes o astral, foi à cozinha buscar uma faca para cortar o bolo. Mas a meio do caminho parou.
Alguém tocara à porta.
Pensando ser um vizinho a desejarem-lhes um feliz natal, Setsu atendeu com um sorriso nos lábios. Sorriso que congelou assim que reconheceu a pessoa à sua frente.
-S.s… Sr. Chiba?
O homem acenou com a cabeça. Usava um sobretudo azul-escuro, que condizia com a cor dos seus olhos e que escondia um porte formoso típico de um homem alto e magro. Os seus cabelos negros não tinham nenhuma branca e os seus olhos ainda tinham toda a vida pela frente, apesar de umas pequenas rugas lhe aparecerem nas faces.
As semelhanças entre Mamoru Chiba e o neto eram incríveis. Naquele momento, ambos tinham uma aparência cansada, barba por fazer, a mesma altura e formosura. Apenas a idade e a cor dos cabelos de Kenji os distanciavam.
Mamoru, agora Endymion, tinha o rosto tranquilo, mas os olhos denunciavam os seus propósitos.
-Feliz Natal Setsu. Podes chamar o meu neto, por favor? – Perguntou ele, com a sua voz forte e nada envelhecida com o tempo.
-Ah… Kenji? – Chamou Setsu, num tom moderado pois o loiro estava mesmo atrás dele. – Não quer entrar, Majestade?
O rosto de Mamoru contraiu-se um pouco.
-Não é preciso tratares-me dessa forma, Setsu. Afinal, conheço-te desde pequeno. E o teu irmão…? - entre entrou, dando-se de dadas com as duas pessoas que procurava. – Olá Eiji! Cresceste. – Acrescentou, quando o mais jovem se levantou do sofá.
-Obrigada Sr. Chiba. Que bom voltar a vê-lo. – Sou tão parvo… Eu devia ter notado nas semelhanças.
A cor dos cabelos, a forma de como os olhos examinavam as pessoas, a voz quase sempre num tom moderado, a serenidade. Poderia ele pedir mais semelhanças entre Mamoru e Linda?
-Sim. É sempre bom. Faz bastante tempo desde a última vez que vos vi aos dois. O meu neto gosta de guardar segredos até da própria família.
Os três jovens da sala sabiam que a última frase tinha um duplo significado. E se fosse aquele que eles estavam a imaginar, Kenji não se safaria desta.
Tentando controlar a conversa e dar tempo a Kenji para pensar numa resposta Setsu ofereceu bolo a Mamoru. Este abanou a cabeça.
-Não, obrigado rapazes. Vim apenas para falar com o meu neto e dar-lhe o meu presente. Oh, isso faz-me lembrar. – Examinou os largos bolsos do seu casaco e tirou duas pequenas caixas. – Feliz Natal, mais uma vez. – E estendeu as pequenas caixas aos dois irmãos, que aceitaram com relutância. Já não bastava o homem pagar metade da renda, tinha também de lhes dar um presente?
-Não há problema. Afinal, o vosso pai ofereceu um jantar na sua casa e um quarto ao Kenji. O mínimo que posso fazer é dar uma prenda aos filhos. Já mandei uma boneca para a vossa irmã.
-Obrigada, senhor. – Disseram os dois irmãos, meio a gaguejar. Os olhos de Mamoru saltaram dos dois irmãos para o neto. – Vem comigo. – Disse, simplesmente. Não era um pedido.
Kenji apressou-se a vestir um casaco. Enquanto este se agasalhava, Eiji chegou-se perto de Mamoru, entendendo a sua ideia.
-Pode-lhe entregar isto? – Perguntou, estendendo a pequena caixa de embrulho turquesa. Não foram necessárias palavras, pois ambos sabiam para quem era o presente. Mamoru assentiu e guardou o pequeno embrulho no bolso do casaco, ao mesmo tempo que Kenji vestia um cachecol preto, a combinar com o casaco cinzento-escuro.
-Vamos! – E Mamoru Chiba saiu para fora do apartamento, seguido pelo neto.
Ao pararem à entrada, cumprimentaram o porteiro, que esbugalhara os olhos perante a visão de Mamoru, como que reconhecendo-o.
Lá fora, não havia carro nenhum estacionado por perto.
-Como é que o avô veio? – Perguntou o seu neto, curioso.
-A pé! Faz bem às pernas. E tu, onde guardas a tua ‘engenhoca’? – Perguntou, com um sorriso, que foi retribuído pelo neto. Engenhoca era o nome que o avô dava à sua mota, que lhe oferecera de prenda de anos cinco meses antes de o jovem sair de casa. Antes tinha-lhe dado um carro, mas a experiencia não fora um sucesso. Foi necessário muita graxa e muito bom comportamento para que Kenji convencesse o avô a emprestar-lhe a sua mota, onde por vezes dava voltas. Mas, ao fim de dois dias, Kenji recebeu a visita da avó, que lhe deu as chaves do seu próprio veículo, afirmando que o seu avô “chorou baba e ranho ao pensar em como tu estragarias a sua preciosa moto”.
-Aqui. – Afirmou o loiro, apontando para a entrada da garagem. – Mas para irmos para a garagem tínhamos que entrar por dentro.
Mamoru consultou o relógio. Ainda tinha tempo. Depois de muitos anos de casado, aprendeu a conhecer a sua mulher e a antecipar os seus movimentos. Se combinassem qualquer coisa para as dez, ela apareceria às onze menos um quarto.
Os dois entraram pela garagem e caminharam pelo pavimento frio e cinzento em silêncio. Kenji parou junto a uma moto azul e preta encostada a um canto iluminado, que mais parecia um pequeno monstro de longe. Mamoru examinou-a, tentando encontrar erros.
-Ainda anda bem?
Kenji tocou no assento negro da mota ao de leve e semicerrou os olhos, fingindo-se ofendido.
-Sim… ainda.
Mamoru sorriu.
-Usas a mota?
-Sim, mas não muitas vezes. A faculdade é aqui perto. – Respondeu o loiro, com as mãos nos bolsos das calças. Ele por vezes pegava na mota e ia até à Baia de Tokyo ou até à praia, onde podia relaxar e respirar ar marítimo.
-Tens levado a tua namorada em passeios?
Kenji fora apanhado de surpresa com a pergunta. Afastou-se da mota.
-Como é que o avô…
-Tu e a tua irmã subestimam-nos. – O sorriso do homem desvaneceu-se como vapor. - Vocês pensam que deixaríamos os nossos netos abandonados no mundo real, quando passaram uma vida inteira longe disto? Achas mesmo que eu não tentaria saber tudo o que tu fazes, só para ter a certeza de que tu estás bem?
Kenji encontrou interesse numa pequena pedra no chão.
-Então sabe que…
-Que tu e a Linda cortaram relações? – Ele suspirou pesadamente. – Sim, sei. O que me desilude é saber que nem te deste ao trabalho de falar comigo ou com a tua avó sobre isso.
O jovem virou costas ao avô. Amaldiçoou o destino. Até os avós ele desiludia. Haveria mais alguém na fila?
-Kenji?
Ele virou-se e viu Mamoru virado para a saída. – Vamos que se faz tarde.
-Mas aonde é que vamos, avô?
-Dar um passeio e ter uma conversa. Anda!
Ambos seguiram caminho para fora da garagem, onde constataram que nevava um pouco. Pequenos flocos de neve caiam sobre os ombros dos dois homens, que caminhavam a passos lentos e em nada para dizer um ao outro. De vez em quando, Mamoru deitava um olhar no relógio, suspirando de seguida.
Estamos quase lá…
**
(dia 25, ás 05h23 da manhã)
Ela nunca tivera sonhos daqueles. Raios, ela nem sequer pensava naquelas coisas! Como é que sonhos daqueles podiam aparecer na cabeça de uma pessoa como ela?
Ela tinha um vestido preto curto, com um ligeiro decote e que batia nos joelhos, favorecendo a silhueta e contrastando com a pele branca. Os cabelos estavam soltos e ela estava num sítio onde o vento batia-lhe na cara e fazia-lhe esvoaçar os cabelos. A lua estava em quarto minguante e banhava a água à sua frente com raios prateados, criando um pequeno e belo espectáculo de luz natural. O som do maré a bater nas rochas e na areia, deixando-a húmida, era tudo o que se ouvia.
Ela inspirou o ar fresco da brisa marítima e sentiu umas mãos fortes a tocarem-lhe nos ombros. Sem se virar, ela sorriu, sinal de que reconhecera a pessoa que lhe tocara. O que acontecera a seguir ela não conseguira controlar. Pudera, era um sonho.
Num segundo, ela beijava o homem com paixão, noutro estava deitada na areia com ele por cima dela, as mãos dele sobre o corpo dela.
Eles olharam nos olhos num do outro e sorriram, como cúmplices de um crime, amantes de um romance proibido.
Com a mão direita, ele acariciou a face dela e voltou a beijá-la, desta vez carinhosamente.
Perderam-se num do outro a noite toda e a rapariga só acordou quando um grito no quarto ao lado a fez despertar e limpar o suor que lhe escorria pela testa. Mas apenas a escuridão da divisão tapou o rubor que lhe aparecera nas bochechas e que ela não sabia explicar de onde vinha.
**
Raios… o que é isto?
Que sonho era aquele? Uma mulher e um homem. Ela conhecia a mulher e o homem… ainda pior… Eram os dois extremamente familiares. Mas não podia ser… e porque é que ela sonhava com aquilo?
A cabeça doía-lhe muito, acabando por despertar do seu sono. Mas continuava a ver as imagens do casal que se amavam junto ao mar. Tentou puxar aquele pensamento para fora da mente mas, em vez disso, deu-se de caras com a forma sonolenta da rapariga do quarto ao lado, como se a observasse por cima. Aquilo assustou-a e fê-la forçar ainda mais a mente.
A dor aumentou e ela não conseguiu controlar-se mais. Gritou com todas as suas forças.
-LINDA? LINDA, ESTÁ TUDO BEM? – Gritou Aiko, do outro lado da porta. A jovem estava sentada na cama, a ofegar como se tivesse corrido a maratona. Tinha os olhos muito abertos e todo o seu corpo tremia. Ao olhar para a porta, viu que Aiko tentava abri-la, batendo constantemente e puxando a maçaneta da porta, mas sem sucesso – Abre a porta!
Linda inspirou o ar e soltou-o todo de uma só vez, antes de abrir a porta do quarto a uma Aiko de robe e com o cabelo ruivo escuro pintado todo despenteado. Esta entrou logo, pondo a mão na testa da rapariga, obrigando-a a sentar-se na beira da cama.
-Oh minha nossa…! O que aconteceu?
-Tive… um pesadelo… - sussurrou ela.
-E berras daquela maneira? Oh, querida, o que é que sonhaste?
-Aconteceu alguma coisa? – Perguntou Mari, que aparecera junto à ombreira da porta. Parecia completamente normal, apenas um pouco ofegante. Também ela parecia ter corrido a maratona.
-Tive um pesadelo. – Respondeu a morena, olhando a loira curiosamente. A alteração da expressão da loira de preocupação para surpresa indicava que esta não se lembrava do sonho. Ainda bem, pensou Linda aliviada.
-Um pesadelo? E gritas dessa maneira? – Perguntou Mari. Linda entendeu então o motivo pelo qual Mari estava preocupada com ela. Mari tinha tido uma visão sobre o ataque a Cho, provavelmente Linda poderia ter tido o mesmo, visto serem ambas Guardiãs do mesmo Portal. Mas, de algum modo, Linda achava que o seu poder não consistia em ter visões. E a ideia que lhe passava pela cabeça era simplesmente assustadora.
-Foi mau… - Embaraçosamente mau…
O facto de ainda ser de noite fez com que ninguém notasse nas faces de Linda, que coraram violentamente ao lembrar-se do sonho.
-Oh Linda, acho melhor vires comigo tomar qualquer coisa.
-Mas Aiko não é preciso… - retorquiu a morena, pousando a mão discretamente na cabeça. Doía-lhe como diabos…
Mas a mulher não a deixou em paz até que Linda dissera, pela décima sétima vez que estava bem, bebera um copo de água com limão e voltara a dormir. Mari fizera o mesmo, não reparando na forma como Linda a olhara o tempo todo.
As duas jovens e Aiko voltaram a deitar-se, as três ainda cheias de sono. Mari adormecera de imediato, desta vez sonhando com um gato de fazia o pino só com uma mão, enquanto Setsu batia palmas que nem maluquinho e cantava ‘Um Dó Li Tá’, com um barrete de Natal púrpura enfiado na cabeça e um nariz vermelho semelhante ao da Rena Rodolfo.
Linda remexeu-se na cama durante muito tempo, com medo de adormecer, apesar de todo o seu corpo e mente pedir repouso. Tinha receio de voltar a ter um sonho daqueles. Era sem dúvida a coisa mais constrangedora que ela pudesse ter sonhado alguma vez na vida. Mas porque é que ela sonhara aquilo? É que nem sequer sonhara com ela na praia com um homem, mas sim com Mari e um outro homem… que ela também conhecia. No entanto, o mais estranho fora a visão de Mari a dormir. Parecia que Linda entrara na mente dela, invadido o seu sonho e, quando tentara sair, ficara presa no tecto do quarto.
Linda abanou a cabeça fortemente e obrigou-se a fechar os olhos e contar carneirinhos para adormecer. Era totalmente impossível para ela ver os sonhos das outras pessoas… certo?
**
Quando Linda acordou, já passava do meio-dia. O seu corpo estava extremamente mole. Ao sair da cama, os ossos estalaram um pouco e ela viu-se desconfortável só por estar sentada.
Levantou-se e aproximou-se do armário. Normalmente ela nem pensava duas vezes antes de pegar numa peça de roupa qualquer, mas a moleza do corpo deixara-a parada frente às portas do armário, como se ela estivesse a pensar no que iria vestir. Os olhos pesavam como chumbo e ela sentiu os seus joelhos dobrarem-se levemente, tentando encontrar equilíbrio no seu corpo.
Soltou todo o ar retido nos pulmões, como se tivesse esquecido de o fazer por uns tempos e passou a mão pelo cabelo despenteado desajeitadamente.
Pegou numa camisa dourada e num par de calças de ganga escura e vestiu-se lentamente, sentada na beira da cama.
No final, aproximou-se da janela, admirando a torre de Tokyo ao longe, que de destacava sobre um ténue manto branco que caía sobre a cidade. Vários pontos luminosos provinham das várias casas da vizinhança e poucos carros passavam na rua.
Tentando permanecer acordada, mexeu os pés e deitou um olhar pelo quarto, em busca de sapatos. Não conseguia dar dois passos sem se virar um pouco para o lado, como se fosse cair a qualquer momento.
Encontrou um par de sapatilhas e calçou-as desajeitadamente. Ao ver que apertara mal o nó, repetiu a acção. Mas voltou a errar. Irritada, praguejou.
Controla-te Linda, pensou para si própria.
Mas a tarefa parecia difícil. Quando finalmente apertou os cordões correctamente e se viu vestida de cima a baixo, levantou-se da cama e quase que tombou para o lado.
Ironia das ironias…
Ainda se lembrava de como sentira no dia em que dançara duas coreografias complicadas em frente a toda a escola, lutara fisicamente com um monstro e utilizara bastante poder contra a figura baixa. Fraca, exausta, mole, mente pesada…
Naquele momento, sentia-se assim, mas a duplicar. Apenas porque tivera um sonho que não era o dela.
Conseguindo manter-se de pé, apressou-se a ir à casa de banho lavar a cara e pentear-se. Farta do molhe de cabelos que caia sobre a cara, pensou em cortar o cabelo antes do fim do mês ou então fazer uma permanente. Enfim, qualquer coisa para que o seu cabelo deixasse de ser tão selvagem. Iria evitar usar elásticos o máximo possível.
Penteou o cabelo com a escova e colocou os óculos, temendo não ser capaz de ver o caminho. Ao observar o resultado final, mordeu o lábio. Nada de mais… era isso que ela queria.
Ao chegar à cozinha, teve um vislumbre dos bolos da noite anterior, que Linda mal tocara. Esfomeada, sentou-se na cadeira e apressou-se a cortar uma fatia de bolo de laranja. Podia jurar que tinha fome suficiente para comer um cavalo… literalmente.
Aiko sorriu ao vê-la comer e, ao mesmo tempo que lhe desejava um feliz natal, deu-lhe um beijo na face, gesto que foi retribuído.
-Querida, tens as tuas prendas na sala.
Linda parou de comer. Que prendas?
-Feliz Natal! – Anunciou Mari alegremente, entrando na divisão já vestida. Beijou a avó e sorriu para Linda. Esta ergueu a sobrancelha. Mari tinha tentado falar com Linda vezes sem conta, mas nunca agira daquela forma com ela. Não era normal Mari esquecer-se de todas as zangas e sorrir como se nada tivesse acontecido.
Aqui há gato…
**
-Toma! – Disse Mamoru, estendendo um pequeno embrulho a Kenji. Este ergueu a sobrancelha. Que mais o avô teria escondido naqueles bolsos? Pegou no embrulho (verde, com uma fita turquesa) e apressou-se a abri-lo. Dentro, ostentava um relógio de quartzo enumerado a ouro e corrente de couro. O rosto de Kenji permaneceu neutro ao olhar para o relógio. Reconhecê-lo-ia em qualquer lado:
-Foi ele que te pediu que me desses isto? – Perguntou friamente.
Mamoru olhou para o neto curiosamente.
-Não.
-Então porque é que…
-É tradição nos Natsumara dar um relógio ao seu primogénito quando este faz vinte e um anos. Sei que ainda falta alguns meses para a data, mas penso que precises dele.
-Para quê? E porque é que o avô me foi dar este relógio? Porque não comprou outro?
-O teu avô paterno quereria que tu o usasses, sendo tu o herdeiro Natsumara. O tio do teu pai, Rei de Inglaterra, encontrou este relógio no cofre da família. Supostamente o teu pai deveria ter ficado com ele depois da morte dos seus pais, mas não o quis. Ele enviou o relógio para o teu pai.
-E porque é que o relógio está agora nas minhas mãos? Não me diga que ele agora quer conversar? – Perguntou Kenji, agora irritado, não escondendo o sarcasmo.
-Kenji…
-Porque há-de ter muitas oportunidades, há…
-Kenji! – Ele elevou um pouco o tom de voz, fazendo com que o neto parasse de divagar. – Tu não sabes o que é perder um pai…
-NÃO SEI? – O rosto de Kenji ficou vermelho de raiva - E ENTÃO TODAS AQUELAS COISAS QUE ELE ME DISSE? ELE DESERDOU-ME AVÔ! DESERDOU-ME! AGORA NÃO SOU MAIS O FILHO DELE. NEM DELE, NEM DELA!
-…perder um pai da mesma forma que o Edward perdeu os seus. – Continuou Mamoru, sempre calmo. – O teu pai está vivo e apenas te chateaste com ele devido ao calor do momento.
-Calor do momento? – Disse Kenji entre dentes, mas isso não impediu o avô de prosseguir.
-Foi uma morte violenta e eu próprio sei o que isso é. Lembra-te que eu acordei no hospital depois de um acidente de carro sem qualquer memória… e sem pais. – Mamoru deixou o silêncio pairar no ar, enquanto os dois homens caminhavam lentamente. Kenji atrasou o passo, perdido em pensamentos. Tinha-se esquecido de como o pai e o avô tinham passado por momentos de perda semelhantes. A única diferença fora que Edward apenas perdera a memória das vinte e quatro horas antes do acidente.
-Eu sei que te dói pensares no teu pai. – Desta vez, Kenji nem abriu a boca – Mas garanto-te que dói mais ao Edward pensar na sua família.
-Não. – Disse o loiro bruscamente, fazendo o avô parar.
-Como?
-É pior aquilo que sinto. Perder para a morte é apenas o adiar de um novo encontro. Perder para a vida é… doloroso. Acredite avô, eu sei o que isso é e às vezes pergunto-me se faria diferença com a morte. Pelo que ouvi dizer, faz muita.
-Deveras?
-Sim – ele suspirou pesadamente antes de prosseguir. Ainda não tinha reparado que o avô é que o conduzia para um sítio qualquer – A mãe, o pai, a Linda…
Mamoru não pôde deixar de sorrir ao de leve. Era a primeira vez em anos que ouvia Kenji mencionar Edward como ‘pai’.
-Dói mais – disse ele num suspiro.
-Acredita que perder para a vida é mau, mas não é pior que perder para a morte. Se perderes alguém que amas, ficas com uma dor no peito que nunca mais sairá, para além de jamais poderás ouvir a sua voz, tocar na sua pele… tens as memórias, mas com o tempo elas desaparecem. Perder para a vida… bem, aí tu vês o quanto essa pessoa é especial para ti. Quanto mais dói, mais difícil é de passar e há sempre a esperança de tudo ficar bem.
-Não é bem assim.
-Tens razão. – Disse o mais velho dos dois, sorrindo – Isso só acontece quando o outro lado também sente a nossa falta. E nisso tenho a certeza que a dor que tens é partilhada pela Linda.
-Mas ela disse…
-Apesar de tudo aquilo que ela disse, ainda é a tua irmã e esquecer-te deve ser uma das coisas mais difíceis de se fazer. O único problema aqui é que ela é muito teimosa e tu perdes terreno por não te saberes explicar.
Kenji olhou para o avô, confuso.
-O que é que o avô quer dizer com isso?
-Falei com o Setsu. Ele disse-me tudo aquilo que tu e a Linda discutiram. E apercebi-me que determinados detalhes falharam nessa discussão. – Virou-se para o neto, que tinha parado. – Deves saber do que eu estou a falar.
O loiro mordeu o lábio, desconfortável. Sim, sabia do que ele falava.
-Ela não me perdoará só por causa disso.
-Pois não. Perdoar-te-á porque tu és o único irmão dela e vocês amam-se demasiado para estarem separados um do outro.
O jovem baixou a cabeça e seguiu todo o caminho em silêncio. Mamoru olhava para o neto pelo canto do olho, ao mesmo tempo que deitava mais uma olhadela nas horas. Estavam quase lá…
**
No apartamento das Nakamura, alguém tocou à campainha. Aiko levantou-se e foi atender. Linda notou que o sorriso de Mari tinha aumentado. Não era pura malícia, mas um sorriso quente, como nunca vira nela.
-Oh querida! – Gritou Aiko, apressando-se a abraçar alguém. – Que bom ver-te. Feliz Natal! Vieste ver a Linda, certo?
A morena em questão quase que se engasgou com a tosta que comia. Uma mulher entrou na cozinha. Agasalhada com um sobretudo verde-garrafa e carregando uma pequena saca dourada, Usagi Tsukino sorria amavelmente para as duas jovens na divisão. Os seus olhos azuis-escuros pousaram em Mari:
-Feliz Natal, querida. – Estendeu a saca para Mari – Eu ainda não a tinha enviado porque estava indecisa no que te dar, até que o meu marido teve uma excelente ideia que eu decidi aproveitar. Espero que gostes.
Mari aceitou a saca, agradecendo. Aiko voltou a entrar na divisão:
-Oh Usagi, queres tomar uma bebida quente? Vai-te fazer bem aos ossos.
-Obrigada Aiko, mas eu vim apenas para levar a minha neta a dar um passeio. – Usagi pousou os olhos na neta, cujos olhos saltavam da avó para Mari, desconfiados. – Vamos?
Apesar de ter falado num tom caloroso, Linda sabia que não devia protestar se não quisesse provocar a ira adormecida da avó. Levantou-se e vestiu um casaco negro, saindo atrás da avó.
Nenhuma das duas falou o caminho todo. Linda notou que a avó parecia estar com pressa para alguma coisa, mas absteve-se. Quase que podia adivinhar o verdadeiro motivo para a visita da avó:
-Suponho que não tenha vindo apenas para me desejar um feliz natal. – Declarou a mais nova secamente.
-Não. – Respondeu a avó, no mesmo tom, apanhando Linda de surpresa. A avó nunca lhe falava nesse tom. – Vim para te chamar a atenção.
-Atenção de quê?
Usagi não respondeu. Invés disso, mordeu o lábio inferior, como se estivesse nervosa e aquela fosse a sua forma de controlar uma resposta pouco simpática.
Chegaram a um parque. O mesmo onde Linda conhecera as outras navegantes. Ou melhor, Mari e Cecília.
A paisagem era fria, mas bela. O verde da relva estava coberto por um pequeno manto de branco, as árvores não tinham folhas e os seus ramos despidos balançavam ao som da leve brisa. O céu estava a ficar menos nublado, provavelmente a promessa de um dia de sol.
O parque estava deserto, com excepção de duas pessoas, que estavam de costas para elas. Aproximaram-se deles. Foi aí que Linda reconheceu os dois homens, que se viraram ao ouvi-las chegar.
Linda e Kenji fitaram os olhos azuis um do outro durante dois segundos, em pleno choque, antes de Linda virar as costas, pronta a ir-se embora. No entanto, foi travada pela avó:
-Ai não. Tu não vais a lado nenhum. Chegou a altura de te comportares como a rapariga responsável que tu costumavas ser.
Linda soltou ar quente e fez um careta, mas nada disso persuadiu Usagi que a obrigou a sentar-se no banco próximo. Depois, olhou para o esposo e o neto.
-Feliz Natal querido! – Disse, abraçando o neto carinhosamente. Mamoru aproximou-se da neta e beijou-a na testa. Linda não respondeu. Evitava olhar para o lado, sabendo que Kenji a mirava. No meio da ‘birra’, não notou que o avô colocara um pequeno embrulho no bolso do casaco dela.
-Kenji? – Chamou Mamoru, tornando-se para o neto. Acenou a cabeça para Linda, enquanto a esposa sorriu, encorajando-o.
-Linda, eu…
Esta nada disse, fitando o chão, com um olhar furioso. Sem saber o que fazer, Kenji colocou a mão no cabelo desajeitadamente.
-Desculpa.
Linda teve uma súbita vontade de se levantar de encher o irmão de porrada.
-Achas mesmo que um pedido de desculpas vai resolver tudo? – Perguntou, a voz fria como o gelo.
-Não. Mas… caramba Linda eu…
-Kenji, acho melhor tu começares do inicio – sugeriu Usagi.
-Porque raio é que vocês fazem isto? – Perguntou a morena, virando-se para os avós. – Como souberam?
-Como já disse ao teu irmão, achas mesmo que nós iríamos deixar uma adolescente de dezasseis anos e um jovem homem de vinte andar por ai pelas ruas de Tokyo sem as conhecer de todo? – Respondeu Mamoru.
-Ainda assim…
-Se tu achas mesmo que nós deixaríamos os nossos netos zangados por um motivo ridículo, então tu não nos conheces de todo, Linda. – Disse Usagi, antecedendo o comentário da neta.
-Vocês sabem o motivo. E acham-no ridículo…?
-Entendemos que estejas zangada, mas passares a raiva toda para o teu irmão não é solução. Sim! – Acrescentou quando viu o olhar da neta – a tua raiva. Já não é a primeira vez que deixas o teu temperamento levar a melhor Linda. A primeira foi neste parque que acabou por custar a vida de uma rapariga. A segunda foi com o teu irmão. Normalmente tu pensas racionalmente e, quando deixas que os nervos e a fúria ganhem a razão, acabas por fazer algo de que te arrendas depois até ao fim dos teus dias.
O comentário da Usagi pairou no ar frio, num silêncio desconfortável. Kenji e Linda olhavam um para o outro, sem raiva, mas com profunda mágoa expressa na íris ocular. Mamoru estava pensativo. Aquilo que a sua mulher lhe dissera fizera-o pensar. Nenhum deles até agora tinha pensado naquela questão até agora. Mamoru olhou para a neta de relance e semicerrou os olhos. Ele já tinha visto uma pessoa racional perder a cabeça e acabar por fazer algo imperdoável. Haveria solução para esse caso?
-Magoaste-me. – Sussurrou Linda, ao fim de alguns minutos, olhando para o irmão. Tentava controlar as lágrimas, que queiram sair.
-Lamento. – Ele baixou a cabeça. – Devia ter feito melhor.
-A culpa não é tua Kenji. – Disse a mulher mais velha. – Estavas indeciso e confuso. A culpa foi nossa por te termos contado tudo.
-Tudo o quê? – Perguntou Linda, curiosa.
-Acham que…
-Não Kenji. Ela ainda não está preparada – cortou Mamoru.
-Preparada para quê? Isso tem alguma coisa a ver com o meu nascimento?
Como nenhum deles respondeu, ela considerou isso, um ‘sim’.
-Linda… sabes porque é que o Kenji e o vosso pai se zangaram?
-Sim, por causa dos casamentos combinados. – Respondeu a morena, confusa. Para que é que tocaram naquele assunto?
-Por acaso não. – Disse Usagi. – Eu estava lá e sei perfeitamente que não foi isso que eles falaram. Bem, pelo menos no que toca ao casamento do Kenji.
-Então foi de quê?
Usagi e Mamoru viraram os seus rostos para Kenji, à espera que ele respondesse à pergunta da irmã. Este clareou a garganta:
-Não foi por mim… foi por ti.
A frase foi seguida por um fúnebre silêncio, em que Linda esperava por Kenji para acabar. O que é que ele quer dizer com ‘por ti’?
-É melhor contar tudo do inicio…
* Flashback *
Ele estava na sala principal, pegando nos livros ao acaso, ignorando os seus títulos e autores. Alguns tinham letras adornadas a dourado e capas de veludo, outros tinhas as suas folhas amareladas com o tempo e uma capa de papel fraca, que se estragaria no toque menos suave. À sua volta, sofás confortáveis e vários quadros, mobílias e tapeçarias decoravam a sala, dando-lhe o ar majestoso que merecia.
Ignorava o tempo a passar. Sabia que Linda devia estar numa aula de Matemática numa sala no fundo do corredor e isso só o pôs mais furioso. Supostamente, ela deveria ir para uma escola normal, não aquilo. Supostamente era Verão e ela devia estar lá fora a divertir-se com outras raparigas. Não a estudar…Ele lá que não se importara de ter aquelas aulas, mas a irmã era outra coisa.
Alguém abriu a porta. Ele virou-se e viu o seu pai a retribuir o olhar. Edward parecia surpreendido em ver o filho ali:
-Que queres? – Perguntou, aproximando-se da estante mais próxima, colocando lá uns livros.
-Falar consigo.
-Acerca de quê?
-Acerca dos casamentos combinados.
Edward permaneceu de costas para o filho, como se reflectisse no que iria dizer. Depois virou-se, os olhos sem qualquer emoção:
-Descansa que não planeio nada para ti. Já percebi que não posso ter uma opinião no que diz respeito à tua vida.
-Opinião? Você está prestes a casar a Linda com um homem que ela não conhece.
-Ela irá conhecê-lo antes do casamento.
Kenji sentiu a raiva subir-lhe à cabeça.
-Isso é alguma piada? – Perguntou num tom de voz mais elevado, aproximando-se do pai. Este permaneceu no sítio, o rosto como pedra. – Digo-lhe já que não tem graça nenhuma.
A porta abriu-se e Kenji viu a mãe e a avó a entrarem, seguidas de Minako. As três olharam para os dois homens no centro da sala com curiosidade.
-O que se passa? – Perguntou Serenity [1], dirigindo-se mais para o genro do que para o neto.
-Nada avó. Eu apenas vim lutar pelos direitos da minha irmã. Já não basta ela não poder frequentar uma escola normal, tem também de casar com um homem que não conhece?
-Que sabes tu sobre a vida da Linda? Que eu me lembre não estavas lá a semana passada, quando ela fez dezasseis anos. Onde estavas tu? Ah, sim. Com os teus amigos. Que irónico que queiras lutar pelos direitos da tua irmã, quando tu próprio a ignoras. – Retorquiu Edward, também ele com o rosto um pouco mais vermelho. Involuntariamente, ia lançando olhares desesperados à esposa, que os correspondia. No entanto, esta permaneceu calada, sem saber o que dizer.
-CHEGA! – Gritou Serenity, tentando parar com a discussão. Mas isso apenas atraiu a atenção de mais uma pessoa. Endymion entrou na sala, perguntando o que se passava.
-Nada querido. Não vamos ter esta discussão! – Declarou a loira, lançando um olhar ameaçador a pai e filho.
-Vamos sim! Não vou deixar que ele – apontou o dedo para o pai, num tom ameaçador – controle a vida da minha irmã, tal como fez com a minha.
-Eu não controlo a vida da Linda – gritou Edward. Ambos olhavam um para o outro com um olhar de morte tão semelhante que Minako e Small Lady se encolheram um pouco. Minako encostou-se à parede, sentindo-se impotente no meio daquela discussão familiar. Small Lady sentou-se num dos sofás e pôs as mãos sobre o rosto.
-Controla sim. Você devia olhar melhor à sua volta. Por acaso sabe que sumo a Linda mais gosta? Por acaso sabe o que é que ela gosta de fazer nos seus tempos livres? Que disciplinas ela mais gosta? – Perguntou Kenji.
Edward ficou congelado no seu sítio.
-Posso não saber nenhuma dessas coisas… - Desviou o rosto do olhar do filho. Apenas Endymion notou que ele mordera o lábio da mesma forma que Linda fazia quando mentia – Mas ao menos eu tento dar o melhor para ela.
-TRETAS! Se você quisesse o melhor para ela, você não a casava com um estranho. Se você gostasse o mínimo dela, não lhe faria o mesmo que fez a si próprio. Lá porque você se casou por interesse não quer dizer que a Linda terá o mesmo destino.
Aquilo fora a gota de água. Todos os presentes na sala sabiam que aquilo que Kenji dissera era mentira. Edward casara-se com a esposa por amor. Mas ele não sabia como os pais se tinham juntado. Se soubesse, talvez tivesse noção de que aquele comentário jamais seria aceite pelo rei de bom grado. Um homem que apenas aceitara ser rei para estar com a mulher que ele amava.
-Então é isso que pensas do teu pai? – Perguntou ele, com a voz calma e num tom magoado. Tom que passou despercebido a Kenji, a Serenity e a Minako.
-Há muito que você deixou de ser o meu pai. – Murmurou Kenji, quase sem consciência daquilo que dissera.
O rosto de Edward voltara a assumir a forma de pedra. Semicerrou os olhos e levantou o queixo, como se o seu ego tivesse sido atingido.
-Que o seja. – Disse ele, num tom feroz. – Não me queres como pai, então também não te quero como filho! Vou esquecer por completo que tu existes. Saí da minha casa.
A afirmação atingiu a sala como uma bomba. Fora dita com tanto veneno que ninguém podia duvidar da sua seriedade. A sala manteve-se em silêncio, enquanto pai e filho olhavam um para o outro com raiva, até que…
-NÃO ESTÁS A FALAR A SÉRIO? – Gritou Serenity, quase como se estivesse pronta a atacar o genro.
Endymion aproximou-se do neto, que se tentava controlar para não dar um murro no próprio pai. Agarrou-o pelos ombros, impedindo-o de atingir o alvo.
-Edward, foste longe demais – declarou ele ao genro, secamente. Este ficou parado na sala, os seus olhos virando-se tanto para Kenji como para a esposa. – Acalma-te Kenji!
-Eu estou calmo. – Sussurrou ele ao ouvido do avô. - Acredita que estou.
Dissera-o com tanta mágoa que Endymion teve uma vontade súbita de abraçar o neto como fazia quando ele era pequeno.
Kenji lançou um olhar de morte ao pai, antes de se virar para a mãe, que nada dizia:
-E tu? Que tens a dizer? Também não queres ser minha mãe?
-Acalma-te Kenji! De certeza que ela terá algo a dizer – Serenity virou-se para a filha, que ainda tinha os olhos fechados de onde saíam lágrimas. Permanecia calada e, ao fitar a mãe, não disse nada.
Kenji riu-se no meio de lágrimas que tentava controlar e gritou:
-Tenho pena da Linda. Ela não merece os pais que tem. Uns cobardes e… hipócritas que só pensam neles!
-Como te atreves a falar assim? Sai já daqui! – Ordenou o rei.
-Só sai daqui quando eu quiser… Nós quisermos – Endymion fitou Serenity. Esta tinha ódio nos olhos. Algo que, após muitos anos, nunca esperaria ver nela.
-Como queiram! Eu afastar-me-ei daqui. Nunca mais me porão a vista em cima. Adeus.
Kenji saiu, batendo com a porta.
* Fim de flashback *
Linda perdeu a pequena luz que brilhava nos seus olhos. Já tinha ouvido a história uma vez, mas nunca inteira. Minako não se dera ao trabalho de lhe explicar o motivo da zanga de Edward e de Kenji. Alias, agora que ela pensava nisso, Minako apenas lhe contara que Kenji fora deserdado e que a mãe nada fizera.
Não lhe dissera que aquela zanga toda fora por causa dela. Que Kenji perdera os pais por causa dela…
Linda engoliu a própria saliva, sem palavras. Poderia haver mais surpresas reservadas para ela? Bem, de acordo com os seus avós e o irmão havia, mas ela ainda não podia saber.
Usagi e Mamoru olhavam para os netos esperançosos, mas os dois irmãos pareciam dispostos a continuar a competir contra o primeiro lugar da pessoa que mais tempo ficava silencioso.
Nervosa, a loira tossiu, chamando a atenção dos dois irmãos. Kenji parecia atrapalhado e Linda não deixava o seu rosto mostrar o que sentia. Esta levantou-se e aproximou-se do loiro:
-Tu tens noção daquilo que passei por tua causa?
Kenji deixou a pergunta pairar no ar durante uns segundos antes de responder:
-Sei, porque também eu sofri isso. – Agarrou as mãos dela, isentas de luvas – Linda, eu amo-te. É uma das poucas coisas que eu tenho a certeza na minha vida. Apesar de ter cometido erros… bem, sou homem cometo-os porque sou humano! Eu nunca te quis magoar. É só que… - fez uma pausa, procurando palavras para se expressar. – Sempre foste diferente. Apenas isso me distanciava de ti. Não tem nada a ver com… - Kenji deitou um olhar nos avós. Estes assentiram, para raiva de Linda que muito queria saber do que é que falavam. – Enfim, coisas. Tu eras e és uma rapariga diferente. Muito inteligente, muito carinhosa… tornaste-te numa mulher quase perfeita mesmo com os pais que tiveste. E os poucos defeitos que encontrava em ti não desmanchavam a imagem perfeita que tu mostravas aos outros.
Ela baixou os olhos.
-Eu não sou perfeita – sussurrou. – E quanto mais vezes vocês mo dizem, mais me apercebo do contrário. Jamais serei perfeita Kenji!
-Mas estás lá perto. – Ele passou a mão pelo cabelo dela, cujas madeixas estavam cobertas de pequenos flocos de neve. – Sentia-me pequeno ao teu lado. Nunca tive grandes oportunidades em ser o teu irmão mais velho e quando comecei a dar mais valor ao cargo, apercebi-me de que já não precisavas de mim. Afastei-me para te dar espaço. Mas nunca deixei de me preocupar contigo. Aliás… apenas não saí do palácio mais cedo por tua causa.
-A sério?
Ele assentiu com a cabeça.
-Eu contava os dias para o meu décimo oitavo aniversário. De repente chega o dia e apercebo-me de que, se for, deixarei uma irmãzinha de catorze à mercê de dois pais que a ignoram. Eu não podia fazer-te isso. Tentei adiar o máximo a minha partida até que… bem, já sabes o que aconteceu.
-Porque não me contaste o que aconteceu? Eu gritei contigo e tu ficaste calado. – Ela cruzou os braços e virou o rosto para o lado, observando uma árvore completamente nua, onde alguns pássaros despediam-se da zona, prestes a partir em migração para zonas mais quentes.
Ele suspirou pesadamente.
-Talvez porque tu tinhas razão. Eles amavam-se e quando eu nasci, trataram-me como todos os pais tratariam uma criança amada. Mas Linda, eles também te desejaram. O problema surgiu a meio da gravidez.
-E vocês não me contam…
-Linda! – Disse Mamoru, num tom sério. – Não puxes mais o assunto.
-É sobre mim e vocês não me contam… ridículo.
-Um dia vais saber, querida. Até lá… o tempo dirá tudo.
Kenji lançou um olhar involuntário ao relógio no seu pulso. O tempo dirá tudo. Que queria aquilo dizer? Que o tempo se está a esgotar?
-Kenji?
Este engoliu em seco, ao aperceber-se que era observado pelos avós e por Linda. Lançou um olhar assustado para os avós, procurando uma negação das suas suspeitas. Mas eles não negaram. Ele apenas pôde esperar que eles não tivessem entendido.
-Ah…? – Respondeu ele. Tal como previra, Linda sorrira.
-Lá estás tu com esse vocabulário reduzido. E eu que pensava que eras inteligente.
-Infelizmente herdei a parte fraca da família. – Kenji abanou a cabeça na direcção da avó, que lhe fez uma careta ameaçadora, obrigando-o a corrigir a frase. – Digo, a melhor parte da família.
Linda e Mamoru soltaram uma leve gargalhada que contagiou Kenji e Usagi. A neve caía suavemente sobre os ombros dos quatro, mas nenhum deles se incomodava com esse detalhe. A tensão que houvera quando se tinham encontrado já lá não estava e agora podiam sorrir um para o outro sem medos de represálias.
Mamoru puxou levemente o braço da mulher:
-Vem comigo. – Ela assentiu e juntos afastaram-se dos irmãos, que ficaram no mesmo sítio, de pé a olhar um para o outro.
Linda examinava o rosto de Kenji. Ele parecia um trintão com a barba por fazer, olhos cansados e cabelo loiro despenteado, mas o que mais a assustara fora a imagem que lhe viera à cabeça. Naquele exacto momento, ela podia jurar estar a olhar para Edward Natsumara com as suas feições belas, mas cansadas sem, no entanto, um único vestígio de rugas.
De nada adiantava ignorar o sangue e ambos perceberam isso da pior forma. Linda seria sempre uma bela cópia da mãe e da avó e Kenji do pai e do avô. Na personalidade, Linda tinha características semelhantes ao avô e ao pai e Kenji à mãe e à avó.
Mas eram irmãos. Apesar dos pais e avós que tinham, das semelhanças que se podia encontrar nos seus rostos, era o amor que sentiam um pelo outro que os juntava, mesmo com todas as diferenças. Quando Linda era pequenina e chorava, Kenji era sempre o melhor a confortá-la.
Quando Kenji se sentia irritado com os pais, a sua pequena irmãzinha chegava-se perto dele e só por se deitar no seu colo, já o punha mais calmo.
Eram a força um do outro no palácio e, com a mudança de ares, a relação estagnou, correndo o risco de se corromper. Cada um descobriu uma nova vida, onde o outro pouco tinha importância.
De repente, um simples erro tornou as coisas insuportáveis e Linda descarrega o seu temperamento na última pessoa que desejaria fazer no mundo: o irmão mais velho. E este, magoado, perde a força de que era constituído no palácio, quando enfrentava os pais a favor de Linda.
Naquele silêncio, sorriram um para o outro. Não era necessário nenhum deles pedir desculpas nem muito menos explicar mais nada. Os laços que os uniam trabalhavam por si. Sabiam o que o outro pensava e tinham a noção de que, mais um esticão e jamais haveria retorno para eles.
Ele aproximou-se dela e envolveu-a nos seus braços. A sensação de vazio desapareceu e ele suspirou de alívio. Ela fez o mesmo sentindo-se, pela primeira vez em dias, amada.
-Feliz Natal, Linda.
Ela sorriu, com a cabeça encostada ao seu ombro e com ele a massajar os seus cabelos.
-Feliz Natal, meu irmão.
**
-Achas possível?
-Não sei. Mas é uma teoria. Sabes muito bem como ele e a Linda são parecidos.
Usagi assentiu.
-Mas o caso é diferente.
-Pois não. É mais sério. E não começa naquele dia, começa quatro meses antes da Linda nascer.
-Eu sei. No fundo, acredito que eles arrependem-se da decisão que tomaram.
-E arrependeram-se. Dá para ver nos olhos deles. Nas acções deles. O Edward anda abatido e a nossa filha… - Mamoru não terminou a frase, controlando um soluço. O seu coração de pai ainda não aguentava a notícia de que a sua única filha iria morrer.
Usagi soltou uma única lágrima, antes de abraçar o marido:
-Vamos arranjar uma solução. A Ami está à procura de uma cura. Ela consegue sempre. Ela vai conseguir… eu sei que sim… a minha pequenina… a nossa Chibiusa… - lágrimas caíram pelo rosto maduro de Usagi, que encostara a cabeça ao ombro do marido, da mesma forma que Linda. Ele baixou a cabeça para beijar o couro cabeludo da mulher, passando a mão pelos cabelos dela, tal como Kenji fizera com a irmã.
Mas os dois irmãos abraçaram-se unidos pelo amor. Usagi e Mamoru estavam abraçados unidos pela dor.
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[1] É Usagi quando ela está vestida normalmente e fora do palácio. Quando tem algum vestidinho ou está no palácio – depende da ocasião – é Serenity.
Era 25 de Dezembro e não se via vivalma nas ruas. Famílias passavam o dia em casa com as suas famílias, comendo bolos, frango, bebendo champanhe e trocando presentes e carinhos entre todos. Algumas lareiras estavam acesas e nas casas mais modernas, famílias ligavam os aquecedores eléctricos, em busca de algum conforto face ao frio do exterior.
Olhando pela janela do seu quarto, Kenji viu iluminações nos prédios de frente. Os vizinhos haviam passado os dias anteriores a decorar as suas casas com luzes, bolas, fitas, anjos e até azevinho.
Suspirando, vestiu uma camisa verde por cima de uma t-shirt cinzenta e umas calças de ganga escuras. Dirigiu-se à casa de banho, onde lavou a cara e passou o pente pelo seu cabelo fino dourado. No final, ao deitar um olho no espelho, notou que parecia mais velho. Pequenos círculos negros em torno dos olhos eram visíveis, devido às noites de estudo que passara em claro. Apalpou a face e sentiu a barba por fazer. Fazendo uma careta ao seu reflexo, decidiu fazer a barba no dia seguinte, quando tivesse mais paciência.
Os rapazes já o esperavam na sala, onde um belo bolo de frutas era figura de destaque na mesa de vidro, pela primeira vez livre de qualquer objecto de desarrumação dos três jovens. Kenji não conseguiu deixar de soltar um sorriso:
-Cumprimentos para à vossa mãe pelo bolo. – Disse, anunciando a sua presença.
-Feliz Natal! – Disseram os dois irmãos ao mesmo tempo. Deitando um olhar na sala, via-se poucas decorações. Apenas uma árvore de Natal com algumas bolas azuis e uma fita branca prateada que envolvia a árvore toda e um pequeno pai natal junto à lareira decoravam aquela sala. Kenji sabia que o jantar de Natal seria na casa dos Yamamoto, onde seria recebido como um terceiro filho… ou melhor, quarto. Eram lá que estavam as suas prendas, pelo que a arvore parecia insossa, sem vida.
-Por acaso não foi a mãe que fez o bolo – respondeu Eiji, que tinha os olhos pousados numa pequena caixa turquesa na sua mão. – Foi a Takeo.
-E achas seguro comer algo cozinhado pela tua irmã?
O loiro sorriu, desviando os olhos do embrulho.
-Sim, até porque a mãe estava a supervisioná-la. Além disso, é mais provável nós morrermos por comermos umas tostas do Setsu do que por comermos um bolo de uma miúda de dez anos.
-Hei! – Reclamou Setsu, juntando-se à conversa. Kenji notou que ele tinha o telemóvel na mão, como se tivesse acabado de desligar uma chamada, mas nada disse. – Não cozinho assim tão mal!
-A questão é que tu, meu caro Setsu, não cozinhas. Apenas estragas comida. – Argumentou Kenji, com os braços cruzados.
-Pois pois… -querendo obviamente mudar de assunto, Setsu perguntou – A tua namoradinha não vem hoje?
-Não. – E ainda bem, disse a Voz, parecendo aliviada. Kenji abanou a cabeça. – Vai a Kyoto ter com os pais.
-Pena. Gostava mesmo de conversar com ela… para trocar umas ideias. – Virou-se para o irmão e juntos trocaram um sorriso trocista. Kenji não gostou.
-Vocês vejam lá como é que a tratam. Até parece que gostariam que eu fizesse o mesmo às vossas namoradas.
-O problema é que tu fazes o mesmo às minhas namoradas! E só não fazes o mesmo ás do Eiji porque ele não tem nenhuma. É maricas!
-Oi… é mentira!
-Ai é? Então porque não tens nenhuma namorada quando fontes próximas e seguras afirmam que tens metade das raparigas da tua turma aos teus pés?
Eiji ponderou a resposta.
-Talvez porque eu peço uma rapariga com personalidade para namorada, ao contrário de ti e do Ken que aceitam qualquer rabo de saia (- Olha o chavalo a esticar-se – murmurou Setsu, provocando um enrolar de olhos de Kenji). E naquela turma só há três. Uma é uma amiga minha, as outras… bem, uma não me interessa, a outra é como o vocabulário do Setsu antes do café da manhã… difícil de entender.
Kenji sentiu um nó na garganta. Tinha notado que Eiji também andava com um humor muito fraco e com pouca vontade de sair, apenas fazendo-o pelo amigo. Não tinha pensado que Linda também o estava a fazer sofrer. Sabia que o caso de Eiji era diferente. Havia solução. Bastava Linda acalmar-se e ter uma conversa séria com ele que tudo correria bem.
Oxalá ele tivesse a mesma hipótese.
E tens… basta contares os detalhes…
Kenji desviou os olhos para o chão, triste. Setsu havia notado na expressão dos dois loiros e, tentando levantar-lhes o astral, foi à cozinha buscar uma faca para cortar o bolo. Mas a meio do caminho parou.
Alguém tocara à porta.
Pensando ser um vizinho a desejarem-lhes um feliz natal, Setsu atendeu com um sorriso nos lábios. Sorriso que congelou assim que reconheceu a pessoa à sua frente.
-S.s… Sr. Chiba?
O homem acenou com a cabeça. Usava um sobretudo azul-escuro, que condizia com a cor dos seus olhos e que escondia um porte formoso típico de um homem alto e magro. Os seus cabelos negros não tinham nenhuma branca e os seus olhos ainda tinham toda a vida pela frente, apesar de umas pequenas rugas lhe aparecerem nas faces.
As semelhanças entre Mamoru Chiba e o neto eram incríveis. Naquele momento, ambos tinham uma aparência cansada, barba por fazer, a mesma altura e formosura. Apenas a idade e a cor dos cabelos de Kenji os distanciavam.
Mamoru, agora Endymion, tinha o rosto tranquilo, mas os olhos denunciavam os seus propósitos.
-Feliz Natal Setsu. Podes chamar o meu neto, por favor? – Perguntou ele, com a sua voz forte e nada envelhecida com o tempo.
-Ah… Kenji? – Chamou Setsu, num tom moderado pois o loiro estava mesmo atrás dele. – Não quer entrar, Majestade?
O rosto de Mamoru contraiu-se um pouco.
-Não é preciso tratares-me dessa forma, Setsu. Afinal, conheço-te desde pequeno. E o teu irmão…? - entre entrou, dando-se de dadas com as duas pessoas que procurava. – Olá Eiji! Cresceste. – Acrescentou, quando o mais jovem se levantou do sofá.
-Obrigada Sr. Chiba. Que bom voltar a vê-lo. – Sou tão parvo… Eu devia ter notado nas semelhanças.
A cor dos cabelos, a forma de como os olhos examinavam as pessoas, a voz quase sempre num tom moderado, a serenidade. Poderia ele pedir mais semelhanças entre Mamoru e Linda?
-Sim. É sempre bom. Faz bastante tempo desde a última vez que vos vi aos dois. O meu neto gosta de guardar segredos até da própria família.
Os três jovens da sala sabiam que a última frase tinha um duplo significado. E se fosse aquele que eles estavam a imaginar, Kenji não se safaria desta.
Tentando controlar a conversa e dar tempo a Kenji para pensar numa resposta Setsu ofereceu bolo a Mamoru. Este abanou a cabeça.
-Não, obrigado rapazes. Vim apenas para falar com o meu neto e dar-lhe o meu presente. Oh, isso faz-me lembrar. – Examinou os largos bolsos do seu casaco e tirou duas pequenas caixas. – Feliz Natal, mais uma vez. – E estendeu as pequenas caixas aos dois irmãos, que aceitaram com relutância. Já não bastava o homem pagar metade da renda, tinha também de lhes dar um presente?
-Não há problema. Afinal, o vosso pai ofereceu um jantar na sua casa e um quarto ao Kenji. O mínimo que posso fazer é dar uma prenda aos filhos. Já mandei uma boneca para a vossa irmã.
-Obrigada, senhor. – Disseram os dois irmãos, meio a gaguejar. Os olhos de Mamoru saltaram dos dois irmãos para o neto. – Vem comigo. – Disse, simplesmente. Não era um pedido.
Kenji apressou-se a vestir um casaco. Enquanto este se agasalhava, Eiji chegou-se perto de Mamoru, entendendo a sua ideia.
-Pode-lhe entregar isto? – Perguntou, estendendo a pequena caixa de embrulho turquesa. Não foram necessárias palavras, pois ambos sabiam para quem era o presente. Mamoru assentiu e guardou o pequeno embrulho no bolso do casaco, ao mesmo tempo que Kenji vestia um cachecol preto, a combinar com o casaco cinzento-escuro.
-Vamos! – E Mamoru Chiba saiu para fora do apartamento, seguido pelo neto.
Ao pararem à entrada, cumprimentaram o porteiro, que esbugalhara os olhos perante a visão de Mamoru, como que reconhecendo-o.
Lá fora, não havia carro nenhum estacionado por perto.
-Como é que o avô veio? – Perguntou o seu neto, curioso.
-A pé! Faz bem às pernas. E tu, onde guardas a tua ‘engenhoca’? – Perguntou, com um sorriso, que foi retribuído pelo neto. Engenhoca era o nome que o avô dava à sua mota, que lhe oferecera de prenda de anos cinco meses antes de o jovem sair de casa. Antes tinha-lhe dado um carro, mas a experiencia não fora um sucesso. Foi necessário muita graxa e muito bom comportamento para que Kenji convencesse o avô a emprestar-lhe a sua mota, onde por vezes dava voltas. Mas, ao fim de dois dias, Kenji recebeu a visita da avó, que lhe deu as chaves do seu próprio veículo, afirmando que o seu avô “chorou baba e ranho ao pensar em como tu estragarias a sua preciosa moto”.
-Aqui. – Afirmou o loiro, apontando para a entrada da garagem. – Mas para irmos para a garagem tínhamos que entrar por dentro.
Mamoru consultou o relógio. Ainda tinha tempo. Depois de muitos anos de casado, aprendeu a conhecer a sua mulher e a antecipar os seus movimentos. Se combinassem qualquer coisa para as dez, ela apareceria às onze menos um quarto.
Os dois entraram pela garagem e caminharam pelo pavimento frio e cinzento em silêncio. Kenji parou junto a uma moto azul e preta encostada a um canto iluminado, que mais parecia um pequeno monstro de longe. Mamoru examinou-a, tentando encontrar erros.
-Ainda anda bem?
Kenji tocou no assento negro da mota ao de leve e semicerrou os olhos, fingindo-se ofendido.
-Sim… ainda.
Mamoru sorriu.
-Usas a mota?
-Sim, mas não muitas vezes. A faculdade é aqui perto. – Respondeu o loiro, com as mãos nos bolsos das calças. Ele por vezes pegava na mota e ia até à Baia de Tokyo ou até à praia, onde podia relaxar e respirar ar marítimo.
-Tens levado a tua namorada em passeios?
Kenji fora apanhado de surpresa com a pergunta. Afastou-se da mota.
-Como é que o avô…
-Tu e a tua irmã subestimam-nos. – O sorriso do homem desvaneceu-se como vapor. - Vocês pensam que deixaríamos os nossos netos abandonados no mundo real, quando passaram uma vida inteira longe disto? Achas mesmo que eu não tentaria saber tudo o que tu fazes, só para ter a certeza de que tu estás bem?
Kenji encontrou interesse numa pequena pedra no chão.
-Então sabe que…
-Que tu e a Linda cortaram relações? – Ele suspirou pesadamente. – Sim, sei. O que me desilude é saber que nem te deste ao trabalho de falar comigo ou com a tua avó sobre isso.
O jovem virou costas ao avô. Amaldiçoou o destino. Até os avós ele desiludia. Haveria mais alguém na fila?
-Kenji?
Ele virou-se e viu Mamoru virado para a saída. – Vamos que se faz tarde.
-Mas aonde é que vamos, avô?
-Dar um passeio e ter uma conversa. Anda!
Ambos seguiram caminho para fora da garagem, onde constataram que nevava um pouco. Pequenos flocos de neve caiam sobre os ombros dos dois homens, que caminhavam a passos lentos e em nada para dizer um ao outro. De vez em quando, Mamoru deitava um olhar no relógio, suspirando de seguida.
Estamos quase lá…
**
(dia 25, ás 05h23 da manhã)
Ela nunca tivera sonhos daqueles. Raios, ela nem sequer pensava naquelas coisas! Como é que sonhos daqueles podiam aparecer na cabeça de uma pessoa como ela?
Ela tinha um vestido preto curto, com um ligeiro decote e que batia nos joelhos, favorecendo a silhueta e contrastando com a pele branca. Os cabelos estavam soltos e ela estava num sítio onde o vento batia-lhe na cara e fazia-lhe esvoaçar os cabelos. A lua estava em quarto minguante e banhava a água à sua frente com raios prateados, criando um pequeno e belo espectáculo de luz natural. O som do maré a bater nas rochas e na areia, deixando-a húmida, era tudo o que se ouvia.
Ela inspirou o ar fresco da brisa marítima e sentiu umas mãos fortes a tocarem-lhe nos ombros. Sem se virar, ela sorriu, sinal de que reconhecera a pessoa que lhe tocara. O que acontecera a seguir ela não conseguira controlar. Pudera, era um sonho.
Num segundo, ela beijava o homem com paixão, noutro estava deitada na areia com ele por cima dela, as mãos dele sobre o corpo dela.
Eles olharam nos olhos num do outro e sorriram, como cúmplices de um crime, amantes de um romance proibido.
Com a mão direita, ele acariciou a face dela e voltou a beijá-la, desta vez carinhosamente.
Perderam-se num do outro a noite toda e a rapariga só acordou quando um grito no quarto ao lado a fez despertar e limpar o suor que lhe escorria pela testa. Mas apenas a escuridão da divisão tapou o rubor que lhe aparecera nas bochechas e que ela não sabia explicar de onde vinha.
**
Raios… o que é isto?
Que sonho era aquele? Uma mulher e um homem. Ela conhecia a mulher e o homem… ainda pior… Eram os dois extremamente familiares. Mas não podia ser… e porque é que ela sonhava com aquilo?
A cabeça doía-lhe muito, acabando por despertar do seu sono. Mas continuava a ver as imagens do casal que se amavam junto ao mar. Tentou puxar aquele pensamento para fora da mente mas, em vez disso, deu-se de caras com a forma sonolenta da rapariga do quarto ao lado, como se a observasse por cima. Aquilo assustou-a e fê-la forçar ainda mais a mente.
A dor aumentou e ela não conseguiu controlar-se mais. Gritou com todas as suas forças.
-LINDA? LINDA, ESTÁ TUDO BEM? – Gritou Aiko, do outro lado da porta. A jovem estava sentada na cama, a ofegar como se tivesse corrido a maratona. Tinha os olhos muito abertos e todo o seu corpo tremia. Ao olhar para a porta, viu que Aiko tentava abri-la, batendo constantemente e puxando a maçaneta da porta, mas sem sucesso – Abre a porta!
Linda inspirou o ar e soltou-o todo de uma só vez, antes de abrir a porta do quarto a uma Aiko de robe e com o cabelo ruivo escuro pintado todo despenteado. Esta entrou logo, pondo a mão na testa da rapariga, obrigando-a a sentar-se na beira da cama.
-Oh minha nossa…! O que aconteceu?
-Tive… um pesadelo… - sussurrou ela.
-E berras daquela maneira? Oh, querida, o que é que sonhaste?
-Aconteceu alguma coisa? – Perguntou Mari, que aparecera junto à ombreira da porta. Parecia completamente normal, apenas um pouco ofegante. Também ela parecia ter corrido a maratona.
-Tive um pesadelo. – Respondeu a morena, olhando a loira curiosamente. A alteração da expressão da loira de preocupação para surpresa indicava que esta não se lembrava do sonho. Ainda bem, pensou Linda aliviada.
-Um pesadelo? E gritas dessa maneira? – Perguntou Mari. Linda entendeu então o motivo pelo qual Mari estava preocupada com ela. Mari tinha tido uma visão sobre o ataque a Cho, provavelmente Linda poderia ter tido o mesmo, visto serem ambas Guardiãs do mesmo Portal. Mas, de algum modo, Linda achava que o seu poder não consistia em ter visões. E a ideia que lhe passava pela cabeça era simplesmente assustadora.
-Foi mau… - Embaraçosamente mau…
O facto de ainda ser de noite fez com que ninguém notasse nas faces de Linda, que coraram violentamente ao lembrar-se do sonho.
-Oh Linda, acho melhor vires comigo tomar qualquer coisa.
-Mas Aiko não é preciso… - retorquiu a morena, pousando a mão discretamente na cabeça. Doía-lhe como diabos…
Mas a mulher não a deixou em paz até que Linda dissera, pela décima sétima vez que estava bem, bebera um copo de água com limão e voltara a dormir. Mari fizera o mesmo, não reparando na forma como Linda a olhara o tempo todo.
As duas jovens e Aiko voltaram a deitar-se, as três ainda cheias de sono. Mari adormecera de imediato, desta vez sonhando com um gato de fazia o pino só com uma mão, enquanto Setsu batia palmas que nem maluquinho e cantava ‘Um Dó Li Tá’, com um barrete de Natal púrpura enfiado na cabeça e um nariz vermelho semelhante ao da Rena Rodolfo.
Linda remexeu-se na cama durante muito tempo, com medo de adormecer, apesar de todo o seu corpo e mente pedir repouso. Tinha receio de voltar a ter um sonho daqueles. Era sem dúvida a coisa mais constrangedora que ela pudesse ter sonhado alguma vez na vida. Mas porque é que ela sonhara aquilo? É que nem sequer sonhara com ela na praia com um homem, mas sim com Mari e um outro homem… que ela também conhecia. No entanto, o mais estranho fora a visão de Mari a dormir. Parecia que Linda entrara na mente dela, invadido o seu sonho e, quando tentara sair, ficara presa no tecto do quarto.
Linda abanou a cabeça fortemente e obrigou-se a fechar os olhos e contar carneirinhos para adormecer. Era totalmente impossível para ela ver os sonhos das outras pessoas… certo?
**
Quando Linda acordou, já passava do meio-dia. O seu corpo estava extremamente mole. Ao sair da cama, os ossos estalaram um pouco e ela viu-se desconfortável só por estar sentada.
Levantou-se e aproximou-se do armário. Normalmente ela nem pensava duas vezes antes de pegar numa peça de roupa qualquer, mas a moleza do corpo deixara-a parada frente às portas do armário, como se ela estivesse a pensar no que iria vestir. Os olhos pesavam como chumbo e ela sentiu os seus joelhos dobrarem-se levemente, tentando encontrar equilíbrio no seu corpo.
Soltou todo o ar retido nos pulmões, como se tivesse esquecido de o fazer por uns tempos e passou a mão pelo cabelo despenteado desajeitadamente.
Pegou numa camisa dourada e num par de calças de ganga escura e vestiu-se lentamente, sentada na beira da cama.
No final, aproximou-se da janela, admirando a torre de Tokyo ao longe, que de destacava sobre um ténue manto branco que caía sobre a cidade. Vários pontos luminosos provinham das várias casas da vizinhança e poucos carros passavam na rua.
Tentando permanecer acordada, mexeu os pés e deitou um olhar pelo quarto, em busca de sapatos. Não conseguia dar dois passos sem se virar um pouco para o lado, como se fosse cair a qualquer momento.
Encontrou um par de sapatilhas e calçou-as desajeitadamente. Ao ver que apertara mal o nó, repetiu a acção. Mas voltou a errar. Irritada, praguejou.
Controla-te Linda, pensou para si própria.
Mas a tarefa parecia difícil. Quando finalmente apertou os cordões correctamente e se viu vestida de cima a baixo, levantou-se da cama e quase que tombou para o lado.
Ironia das ironias…
Ainda se lembrava de como sentira no dia em que dançara duas coreografias complicadas em frente a toda a escola, lutara fisicamente com um monstro e utilizara bastante poder contra a figura baixa. Fraca, exausta, mole, mente pesada…
Naquele momento, sentia-se assim, mas a duplicar. Apenas porque tivera um sonho que não era o dela.
Conseguindo manter-se de pé, apressou-se a ir à casa de banho lavar a cara e pentear-se. Farta do molhe de cabelos que caia sobre a cara, pensou em cortar o cabelo antes do fim do mês ou então fazer uma permanente. Enfim, qualquer coisa para que o seu cabelo deixasse de ser tão selvagem. Iria evitar usar elásticos o máximo possível.
Penteou o cabelo com a escova e colocou os óculos, temendo não ser capaz de ver o caminho. Ao observar o resultado final, mordeu o lábio. Nada de mais… era isso que ela queria.
Ao chegar à cozinha, teve um vislumbre dos bolos da noite anterior, que Linda mal tocara. Esfomeada, sentou-se na cadeira e apressou-se a cortar uma fatia de bolo de laranja. Podia jurar que tinha fome suficiente para comer um cavalo… literalmente.
Aiko sorriu ao vê-la comer e, ao mesmo tempo que lhe desejava um feliz natal, deu-lhe um beijo na face, gesto que foi retribuído.
-Querida, tens as tuas prendas na sala.
Linda parou de comer. Que prendas?
-Feliz Natal! – Anunciou Mari alegremente, entrando na divisão já vestida. Beijou a avó e sorriu para Linda. Esta ergueu a sobrancelha. Mari tinha tentado falar com Linda vezes sem conta, mas nunca agira daquela forma com ela. Não era normal Mari esquecer-se de todas as zangas e sorrir como se nada tivesse acontecido.
Aqui há gato…
**
-Toma! – Disse Mamoru, estendendo um pequeno embrulho a Kenji. Este ergueu a sobrancelha. Que mais o avô teria escondido naqueles bolsos? Pegou no embrulho (verde, com uma fita turquesa) e apressou-se a abri-lo. Dentro, ostentava um relógio de quartzo enumerado a ouro e corrente de couro. O rosto de Kenji permaneceu neutro ao olhar para o relógio. Reconhecê-lo-ia em qualquer lado:
-Foi ele que te pediu que me desses isto? – Perguntou friamente.
Mamoru olhou para o neto curiosamente.
-Não.
-Então porque é que…
-É tradição nos Natsumara dar um relógio ao seu primogénito quando este faz vinte e um anos. Sei que ainda falta alguns meses para a data, mas penso que precises dele.
-Para quê? E porque é que o avô me foi dar este relógio? Porque não comprou outro?
-O teu avô paterno quereria que tu o usasses, sendo tu o herdeiro Natsumara. O tio do teu pai, Rei de Inglaterra, encontrou este relógio no cofre da família. Supostamente o teu pai deveria ter ficado com ele depois da morte dos seus pais, mas não o quis. Ele enviou o relógio para o teu pai.
-E porque é que o relógio está agora nas minhas mãos? Não me diga que ele agora quer conversar? – Perguntou Kenji, agora irritado, não escondendo o sarcasmo.
-Kenji…
-Porque há-de ter muitas oportunidades, há…
-Kenji! – Ele elevou um pouco o tom de voz, fazendo com que o neto parasse de divagar. – Tu não sabes o que é perder um pai…
-NÃO SEI? – O rosto de Kenji ficou vermelho de raiva - E ENTÃO TODAS AQUELAS COISAS QUE ELE ME DISSE? ELE DESERDOU-ME AVÔ! DESERDOU-ME! AGORA NÃO SOU MAIS O FILHO DELE. NEM DELE, NEM DELA!
-…perder um pai da mesma forma que o Edward perdeu os seus. – Continuou Mamoru, sempre calmo. – O teu pai está vivo e apenas te chateaste com ele devido ao calor do momento.
-Calor do momento? – Disse Kenji entre dentes, mas isso não impediu o avô de prosseguir.
-Foi uma morte violenta e eu próprio sei o que isso é. Lembra-te que eu acordei no hospital depois de um acidente de carro sem qualquer memória… e sem pais. – Mamoru deixou o silêncio pairar no ar, enquanto os dois homens caminhavam lentamente. Kenji atrasou o passo, perdido em pensamentos. Tinha-se esquecido de como o pai e o avô tinham passado por momentos de perda semelhantes. A única diferença fora que Edward apenas perdera a memória das vinte e quatro horas antes do acidente.
-Eu sei que te dói pensares no teu pai. – Desta vez, Kenji nem abriu a boca – Mas garanto-te que dói mais ao Edward pensar na sua família.
-Não. – Disse o loiro bruscamente, fazendo o avô parar.
-Como?
-É pior aquilo que sinto. Perder para a morte é apenas o adiar de um novo encontro. Perder para a vida é… doloroso. Acredite avô, eu sei o que isso é e às vezes pergunto-me se faria diferença com a morte. Pelo que ouvi dizer, faz muita.
-Deveras?
-Sim – ele suspirou pesadamente antes de prosseguir. Ainda não tinha reparado que o avô é que o conduzia para um sítio qualquer – A mãe, o pai, a Linda…
Mamoru não pôde deixar de sorrir ao de leve. Era a primeira vez em anos que ouvia Kenji mencionar Edward como ‘pai’.
-Dói mais – disse ele num suspiro.
-Acredita que perder para a vida é mau, mas não é pior que perder para a morte. Se perderes alguém que amas, ficas com uma dor no peito que nunca mais sairá, para além de jamais poderás ouvir a sua voz, tocar na sua pele… tens as memórias, mas com o tempo elas desaparecem. Perder para a vida… bem, aí tu vês o quanto essa pessoa é especial para ti. Quanto mais dói, mais difícil é de passar e há sempre a esperança de tudo ficar bem.
-Não é bem assim.
-Tens razão. – Disse o mais velho dos dois, sorrindo – Isso só acontece quando o outro lado também sente a nossa falta. E nisso tenho a certeza que a dor que tens é partilhada pela Linda.
-Mas ela disse…
-Apesar de tudo aquilo que ela disse, ainda é a tua irmã e esquecer-te deve ser uma das coisas mais difíceis de se fazer. O único problema aqui é que ela é muito teimosa e tu perdes terreno por não te saberes explicar.
Kenji olhou para o avô, confuso.
-O que é que o avô quer dizer com isso?
-Falei com o Setsu. Ele disse-me tudo aquilo que tu e a Linda discutiram. E apercebi-me que determinados detalhes falharam nessa discussão. – Virou-se para o neto, que tinha parado. – Deves saber do que eu estou a falar.
O loiro mordeu o lábio, desconfortável. Sim, sabia do que ele falava.
-Ela não me perdoará só por causa disso.
-Pois não. Perdoar-te-á porque tu és o único irmão dela e vocês amam-se demasiado para estarem separados um do outro.
O jovem baixou a cabeça e seguiu todo o caminho em silêncio. Mamoru olhava para o neto pelo canto do olho, ao mesmo tempo que deitava mais uma olhadela nas horas. Estavam quase lá…
**
No apartamento das Nakamura, alguém tocou à campainha. Aiko levantou-se e foi atender. Linda notou que o sorriso de Mari tinha aumentado. Não era pura malícia, mas um sorriso quente, como nunca vira nela.
-Oh querida! – Gritou Aiko, apressando-se a abraçar alguém. – Que bom ver-te. Feliz Natal! Vieste ver a Linda, certo?
A morena em questão quase que se engasgou com a tosta que comia. Uma mulher entrou na cozinha. Agasalhada com um sobretudo verde-garrafa e carregando uma pequena saca dourada, Usagi Tsukino sorria amavelmente para as duas jovens na divisão. Os seus olhos azuis-escuros pousaram em Mari:
-Feliz Natal, querida. – Estendeu a saca para Mari – Eu ainda não a tinha enviado porque estava indecisa no que te dar, até que o meu marido teve uma excelente ideia que eu decidi aproveitar. Espero que gostes.
Mari aceitou a saca, agradecendo. Aiko voltou a entrar na divisão:
-Oh Usagi, queres tomar uma bebida quente? Vai-te fazer bem aos ossos.
-Obrigada Aiko, mas eu vim apenas para levar a minha neta a dar um passeio. – Usagi pousou os olhos na neta, cujos olhos saltavam da avó para Mari, desconfiados. – Vamos?
Apesar de ter falado num tom caloroso, Linda sabia que não devia protestar se não quisesse provocar a ira adormecida da avó. Levantou-se e vestiu um casaco negro, saindo atrás da avó.
Nenhuma das duas falou o caminho todo. Linda notou que a avó parecia estar com pressa para alguma coisa, mas absteve-se. Quase que podia adivinhar o verdadeiro motivo para a visita da avó:
-Suponho que não tenha vindo apenas para me desejar um feliz natal. – Declarou a mais nova secamente.
-Não. – Respondeu a avó, no mesmo tom, apanhando Linda de surpresa. A avó nunca lhe falava nesse tom. – Vim para te chamar a atenção.
-Atenção de quê?
Usagi não respondeu. Invés disso, mordeu o lábio inferior, como se estivesse nervosa e aquela fosse a sua forma de controlar uma resposta pouco simpática.
Chegaram a um parque. O mesmo onde Linda conhecera as outras navegantes. Ou melhor, Mari e Cecília.
A paisagem era fria, mas bela. O verde da relva estava coberto por um pequeno manto de branco, as árvores não tinham folhas e os seus ramos despidos balançavam ao som da leve brisa. O céu estava a ficar menos nublado, provavelmente a promessa de um dia de sol.
O parque estava deserto, com excepção de duas pessoas, que estavam de costas para elas. Aproximaram-se deles. Foi aí que Linda reconheceu os dois homens, que se viraram ao ouvi-las chegar.
Linda e Kenji fitaram os olhos azuis um do outro durante dois segundos, em pleno choque, antes de Linda virar as costas, pronta a ir-se embora. No entanto, foi travada pela avó:
-Ai não. Tu não vais a lado nenhum. Chegou a altura de te comportares como a rapariga responsável que tu costumavas ser.
Linda soltou ar quente e fez um careta, mas nada disso persuadiu Usagi que a obrigou a sentar-se no banco próximo. Depois, olhou para o esposo e o neto.
-Feliz Natal querido! – Disse, abraçando o neto carinhosamente. Mamoru aproximou-se da neta e beijou-a na testa. Linda não respondeu. Evitava olhar para o lado, sabendo que Kenji a mirava. No meio da ‘birra’, não notou que o avô colocara um pequeno embrulho no bolso do casaco dela.
-Kenji? – Chamou Mamoru, tornando-se para o neto. Acenou a cabeça para Linda, enquanto a esposa sorriu, encorajando-o.
-Linda, eu…
Esta nada disse, fitando o chão, com um olhar furioso. Sem saber o que fazer, Kenji colocou a mão no cabelo desajeitadamente.
-Desculpa.
Linda teve uma súbita vontade de se levantar de encher o irmão de porrada.
-Achas mesmo que um pedido de desculpas vai resolver tudo? – Perguntou, a voz fria como o gelo.
-Não. Mas… caramba Linda eu…
-Kenji, acho melhor tu começares do inicio – sugeriu Usagi.
-Porque raio é que vocês fazem isto? – Perguntou a morena, virando-se para os avós. – Como souberam?
-Como já disse ao teu irmão, achas mesmo que nós iríamos deixar uma adolescente de dezasseis anos e um jovem homem de vinte andar por ai pelas ruas de Tokyo sem as conhecer de todo? – Respondeu Mamoru.
-Ainda assim…
-Se tu achas mesmo que nós deixaríamos os nossos netos zangados por um motivo ridículo, então tu não nos conheces de todo, Linda. – Disse Usagi, antecedendo o comentário da neta.
-Vocês sabem o motivo. E acham-no ridículo…?
-Entendemos que estejas zangada, mas passares a raiva toda para o teu irmão não é solução. Sim! – Acrescentou quando viu o olhar da neta – a tua raiva. Já não é a primeira vez que deixas o teu temperamento levar a melhor Linda. A primeira foi neste parque que acabou por custar a vida de uma rapariga. A segunda foi com o teu irmão. Normalmente tu pensas racionalmente e, quando deixas que os nervos e a fúria ganhem a razão, acabas por fazer algo de que te arrendas depois até ao fim dos teus dias.
O comentário da Usagi pairou no ar frio, num silêncio desconfortável. Kenji e Linda olhavam um para o outro, sem raiva, mas com profunda mágoa expressa na íris ocular. Mamoru estava pensativo. Aquilo que a sua mulher lhe dissera fizera-o pensar. Nenhum deles até agora tinha pensado naquela questão até agora. Mamoru olhou para a neta de relance e semicerrou os olhos. Ele já tinha visto uma pessoa racional perder a cabeça e acabar por fazer algo imperdoável. Haveria solução para esse caso?
-Magoaste-me. – Sussurrou Linda, ao fim de alguns minutos, olhando para o irmão. Tentava controlar as lágrimas, que queiram sair.
-Lamento. – Ele baixou a cabeça. – Devia ter feito melhor.
-A culpa não é tua Kenji. – Disse a mulher mais velha. – Estavas indeciso e confuso. A culpa foi nossa por te termos contado tudo.
-Tudo o quê? – Perguntou Linda, curiosa.
-Acham que…
-Não Kenji. Ela ainda não está preparada – cortou Mamoru.
-Preparada para quê? Isso tem alguma coisa a ver com o meu nascimento?
Como nenhum deles respondeu, ela considerou isso, um ‘sim’.
-Linda… sabes porque é que o Kenji e o vosso pai se zangaram?
-Sim, por causa dos casamentos combinados. – Respondeu a morena, confusa. Para que é que tocaram naquele assunto?
-Por acaso não. – Disse Usagi. – Eu estava lá e sei perfeitamente que não foi isso que eles falaram. Bem, pelo menos no que toca ao casamento do Kenji.
-Então foi de quê?
Usagi e Mamoru viraram os seus rostos para Kenji, à espera que ele respondesse à pergunta da irmã. Este clareou a garganta:
-Não foi por mim… foi por ti.
A frase foi seguida por um fúnebre silêncio, em que Linda esperava por Kenji para acabar. O que é que ele quer dizer com ‘por ti’?
-É melhor contar tudo do inicio…
* Flashback *
Ele estava na sala principal, pegando nos livros ao acaso, ignorando os seus títulos e autores. Alguns tinham letras adornadas a dourado e capas de veludo, outros tinhas as suas folhas amareladas com o tempo e uma capa de papel fraca, que se estragaria no toque menos suave. À sua volta, sofás confortáveis e vários quadros, mobílias e tapeçarias decoravam a sala, dando-lhe o ar majestoso que merecia.
Ignorava o tempo a passar. Sabia que Linda devia estar numa aula de Matemática numa sala no fundo do corredor e isso só o pôs mais furioso. Supostamente, ela deveria ir para uma escola normal, não aquilo. Supostamente era Verão e ela devia estar lá fora a divertir-se com outras raparigas. Não a estudar…Ele lá que não se importara de ter aquelas aulas, mas a irmã era outra coisa.
Alguém abriu a porta. Ele virou-se e viu o seu pai a retribuir o olhar. Edward parecia surpreendido em ver o filho ali:
-Que queres? – Perguntou, aproximando-se da estante mais próxima, colocando lá uns livros.
-Falar consigo.
-Acerca de quê?
-Acerca dos casamentos combinados.
Edward permaneceu de costas para o filho, como se reflectisse no que iria dizer. Depois virou-se, os olhos sem qualquer emoção:
-Descansa que não planeio nada para ti. Já percebi que não posso ter uma opinião no que diz respeito à tua vida.
-Opinião? Você está prestes a casar a Linda com um homem que ela não conhece.
-Ela irá conhecê-lo antes do casamento.
Kenji sentiu a raiva subir-lhe à cabeça.
-Isso é alguma piada? – Perguntou num tom de voz mais elevado, aproximando-se do pai. Este permaneceu no sítio, o rosto como pedra. – Digo-lhe já que não tem graça nenhuma.
A porta abriu-se e Kenji viu a mãe e a avó a entrarem, seguidas de Minako. As três olharam para os dois homens no centro da sala com curiosidade.
-O que se passa? – Perguntou Serenity [1], dirigindo-se mais para o genro do que para o neto.
-Nada avó. Eu apenas vim lutar pelos direitos da minha irmã. Já não basta ela não poder frequentar uma escola normal, tem também de casar com um homem que não conhece?
-Que sabes tu sobre a vida da Linda? Que eu me lembre não estavas lá a semana passada, quando ela fez dezasseis anos. Onde estavas tu? Ah, sim. Com os teus amigos. Que irónico que queiras lutar pelos direitos da tua irmã, quando tu próprio a ignoras. – Retorquiu Edward, também ele com o rosto um pouco mais vermelho. Involuntariamente, ia lançando olhares desesperados à esposa, que os correspondia. No entanto, esta permaneceu calada, sem saber o que dizer.
-CHEGA! – Gritou Serenity, tentando parar com a discussão. Mas isso apenas atraiu a atenção de mais uma pessoa. Endymion entrou na sala, perguntando o que se passava.
-Nada querido. Não vamos ter esta discussão! – Declarou a loira, lançando um olhar ameaçador a pai e filho.
-Vamos sim! Não vou deixar que ele – apontou o dedo para o pai, num tom ameaçador – controle a vida da minha irmã, tal como fez com a minha.
-Eu não controlo a vida da Linda – gritou Edward. Ambos olhavam um para o outro com um olhar de morte tão semelhante que Minako e Small Lady se encolheram um pouco. Minako encostou-se à parede, sentindo-se impotente no meio daquela discussão familiar. Small Lady sentou-se num dos sofás e pôs as mãos sobre o rosto.
-Controla sim. Você devia olhar melhor à sua volta. Por acaso sabe que sumo a Linda mais gosta? Por acaso sabe o que é que ela gosta de fazer nos seus tempos livres? Que disciplinas ela mais gosta? – Perguntou Kenji.
Edward ficou congelado no seu sítio.
-Posso não saber nenhuma dessas coisas… - Desviou o rosto do olhar do filho. Apenas Endymion notou que ele mordera o lábio da mesma forma que Linda fazia quando mentia – Mas ao menos eu tento dar o melhor para ela.
-TRETAS! Se você quisesse o melhor para ela, você não a casava com um estranho. Se você gostasse o mínimo dela, não lhe faria o mesmo que fez a si próprio. Lá porque você se casou por interesse não quer dizer que a Linda terá o mesmo destino.
Aquilo fora a gota de água. Todos os presentes na sala sabiam que aquilo que Kenji dissera era mentira. Edward casara-se com a esposa por amor. Mas ele não sabia como os pais se tinham juntado. Se soubesse, talvez tivesse noção de que aquele comentário jamais seria aceite pelo rei de bom grado. Um homem que apenas aceitara ser rei para estar com a mulher que ele amava.
-Então é isso que pensas do teu pai? – Perguntou ele, com a voz calma e num tom magoado. Tom que passou despercebido a Kenji, a Serenity e a Minako.
-Há muito que você deixou de ser o meu pai. – Murmurou Kenji, quase sem consciência daquilo que dissera.
O rosto de Edward voltara a assumir a forma de pedra. Semicerrou os olhos e levantou o queixo, como se o seu ego tivesse sido atingido.
-Que o seja. – Disse ele, num tom feroz. – Não me queres como pai, então também não te quero como filho! Vou esquecer por completo que tu existes. Saí da minha casa.
A afirmação atingiu a sala como uma bomba. Fora dita com tanto veneno que ninguém podia duvidar da sua seriedade. A sala manteve-se em silêncio, enquanto pai e filho olhavam um para o outro com raiva, até que…
-NÃO ESTÁS A FALAR A SÉRIO? – Gritou Serenity, quase como se estivesse pronta a atacar o genro.
Endymion aproximou-se do neto, que se tentava controlar para não dar um murro no próprio pai. Agarrou-o pelos ombros, impedindo-o de atingir o alvo.
-Edward, foste longe demais – declarou ele ao genro, secamente. Este ficou parado na sala, os seus olhos virando-se tanto para Kenji como para a esposa. – Acalma-te Kenji!
-Eu estou calmo. – Sussurrou ele ao ouvido do avô. - Acredita que estou.
Dissera-o com tanta mágoa que Endymion teve uma vontade súbita de abraçar o neto como fazia quando ele era pequeno.
Kenji lançou um olhar de morte ao pai, antes de se virar para a mãe, que nada dizia:
-E tu? Que tens a dizer? Também não queres ser minha mãe?
-Acalma-te Kenji! De certeza que ela terá algo a dizer – Serenity virou-se para a filha, que ainda tinha os olhos fechados de onde saíam lágrimas. Permanecia calada e, ao fitar a mãe, não disse nada.
Kenji riu-se no meio de lágrimas que tentava controlar e gritou:
-Tenho pena da Linda. Ela não merece os pais que tem. Uns cobardes e… hipócritas que só pensam neles!
-Como te atreves a falar assim? Sai já daqui! – Ordenou o rei.
-Só sai daqui quando eu quiser… Nós quisermos – Endymion fitou Serenity. Esta tinha ódio nos olhos. Algo que, após muitos anos, nunca esperaria ver nela.
-Como queiram! Eu afastar-me-ei daqui. Nunca mais me porão a vista em cima. Adeus.
Kenji saiu, batendo com a porta.
* Fim de flashback *
Linda perdeu a pequena luz que brilhava nos seus olhos. Já tinha ouvido a história uma vez, mas nunca inteira. Minako não se dera ao trabalho de lhe explicar o motivo da zanga de Edward e de Kenji. Alias, agora que ela pensava nisso, Minako apenas lhe contara que Kenji fora deserdado e que a mãe nada fizera.
Não lhe dissera que aquela zanga toda fora por causa dela. Que Kenji perdera os pais por causa dela…
Linda engoliu a própria saliva, sem palavras. Poderia haver mais surpresas reservadas para ela? Bem, de acordo com os seus avós e o irmão havia, mas ela ainda não podia saber.
Usagi e Mamoru olhavam para os netos esperançosos, mas os dois irmãos pareciam dispostos a continuar a competir contra o primeiro lugar da pessoa que mais tempo ficava silencioso.
Nervosa, a loira tossiu, chamando a atenção dos dois irmãos. Kenji parecia atrapalhado e Linda não deixava o seu rosto mostrar o que sentia. Esta levantou-se e aproximou-se do loiro:
-Tu tens noção daquilo que passei por tua causa?
Kenji deixou a pergunta pairar no ar durante uns segundos antes de responder:
-Sei, porque também eu sofri isso. – Agarrou as mãos dela, isentas de luvas – Linda, eu amo-te. É uma das poucas coisas que eu tenho a certeza na minha vida. Apesar de ter cometido erros… bem, sou homem cometo-os porque sou humano! Eu nunca te quis magoar. É só que… - fez uma pausa, procurando palavras para se expressar. – Sempre foste diferente. Apenas isso me distanciava de ti. Não tem nada a ver com… - Kenji deitou um olhar nos avós. Estes assentiram, para raiva de Linda que muito queria saber do que é que falavam. – Enfim, coisas. Tu eras e és uma rapariga diferente. Muito inteligente, muito carinhosa… tornaste-te numa mulher quase perfeita mesmo com os pais que tiveste. E os poucos defeitos que encontrava em ti não desmanchavam a imagem perfeita que tu mostravas aos outros.
Ela baixou os olhos.
-Eu não sou perfeita – sussurrou. – E quanto mais vezes vocês mo dizem, mais me apercebo do contrário. Jamais serei perfeita Kenji!
-Mas estás lá perto. – Ele passou a mão pelo cabelo dela, cujas madeixas estavam cobertas de pequenos flocos de neve. – Sentia-me pequeno ao teu lado. Nunca tive grandes oportunidades em ser o teu irmão mais velho e quando comecei a dar mais valor ao cargo, apercebi-me de que já não precisavas de mim. Afastei-me para te dar espaço. Mas nunca deixei de me preocupar contigo. Aliás… apenas não saí do palácio mais cedo por tua causa.
-A sério?
Ele assentiu com a cabeça.
-Eu contava os dias para o meu décimo oitavo aniversário. De repente chega o dia e apercebo-me de que, se for, deixarei uma irmãzinha de catorze à mercê de dois pais que a ignoram. Eu não podia fazer-te isso. Tentei adiar o máximo a minha partida até que… bem, já sabes o que aconteceu.
-Porque não me contaste o que aconteceu? Eu gritei contigo e tu ficaste calado. – Ela cruzou os braços e virou o rosto para o lado, observando uma árvore completamente nua, onde alguns pássaros despediam-se da zona, prestes a partir em migração para zonas mais quentes.
Ele suspirou pesadamente.
-Talvez porque tu tinhas razão. Eles amavam-se e quando eu nasci, trataram-me como todos os pais tratariam uma criança amada. Mas Linda, eles também te desejaram. O problema surgiu a meio da gravidez.
-E vocês não me contam…
-Linda! – Disse Mamoru, num tom sério. – Não puxes mais o assunto.
-É sobre mim e vocês não me contam… ridículo.
-Um dia vais saber, querida. Até lá… o tempo dirá tudo.
Kenji lançou um olhar involuntário ao relógio no seu pulso. O tempo dirá tudo. Que queria aquilo dizer? Que o tempo se está a esgotar?
-Kenji?
Este engoliu em seco, ao aperceber-se que era observado pelos avós e por Linda. Lançou um olhar assustado para os avós, procurando uma negação das suas suspeitas. Mas eles não negaram. Ele apenas pôde esperar que eles não tivessem entendido.
-Ah…? – Respondeu ele. Tal como previra, Linda sorrira.
-Lá estás tu com esse vocabulário reduzido. E eu que pensava que eras inteligente.
-Infelizmente herdei a parte fraca da família. – Kenji abanou a cabeça na direcção da avó, que lhe fez uma careta ameaçadora, obrigando-o a corrigir a frase. – Digo, a melhor parte da família.
Linda e Mamoru soltaram uma leve gargalhada que contagiou Kenji e Usagi. A neve caía suavemente sobre os ombros dos quatro, mas nenhum deles se incomodava com esse detalhe. A tensão que houvera quando se tinham encontrado já lá não estava e agora podiam sorrir um para o outro sem medos de represálias.
Mamoru puxou levemente o braço da mulher:
-Vem comigo. – Ela assentiu e juntos afastaram-se dos irmãos, que ficaram no mesmo sítio, de pé a olhar um para o outro.
Linda examinava o rosto de Kenji. Ele parecia um trintão com a barba por fazer, olhos cansados e cabelo loiro despenteado, mas o que mais a assustara fora a imagem que lhe viera à cabeça. Naquele exacto momento, ela podia jurar estar a olhar para Edward Natsumara com as suas feições belas, mas cansadas sem, no entanto, um único vestígio de rugas.
De nada adiantava ignorar o sangue e ambos perceberam isso da pior forma. Linda seria sempre uma bela cópia da mãe e da avó e Kenji do pai e do avô. Na personalidade, Linda tinha características semelhantes ao avô e ao pai e Kenji à mãe e à avó.
Mas eram irmãos. Apesar dos pais e avós que tinham, das semelhanças que se podia encontrar nos seus rostos, era o amor que sentiam um pelo outro que os juntava, mesmo com todas as diferenças. Quando Linda era pequenina e chorava, Kenji era sempre o melhor a confortá-la.
Quando Kenji se sentia irritado com os pais, a sua pequena irmãzinha chegava-se perto dele e só por se deitar no seu colo, já o punha mais calmo.
Eram a força um do outro no palácio e, com a mudança de ares, a relação estagnou, correndo o risco de se corromper. Cada um descobriu uma nova vida, onde o outro pouco tinha importância.
De repente, um simples erro tornou as coisas insuportáveis e Linda descarrega o seu temperamento na última pessoa que desejaria fazer no mundo: o irmão mais velho. E este, magoado, perde a força de que era constituído no palácio, quando enfrentava os pais a favor de Linda.
Naquele silêncio, sorriram um para o outro. Não era necessário nenhum deles pedir desculpas nem muito menos explicar mais nada. Os laços que os uniam trabalhavam por si. Sabiam o que o outro pensava e tinham a noção de que, mais um esticão e jamais haveria retorno para eles.
Ele aproximou-se dela e envolveu-a nos seus braços. A sensação de vazio desapareceu e ele suspirou de alívio. Ela fez o mesmo sentindo-se, pela primeira vez em dias, amada.
-Feliz Natal, Linda.
Ela sorriu, com a cabeça encostada ao seu ombro e com ele a massajar os seus cabelos.
-Feliz Natal, meu irmão.
**
-Achas possível?
-Não sei. Mas é uma teoria. Sabes muito bem como ele e a Linda são parecidos.
Usagi assentiu.
-Mas o caso é diferente.
-Pois não. É mais sério. E não começa naquele dia, começa quatro meses antes da Linda nascer.
-Eu sei. No fundo, acredito que eles arrependem-se da decisão que tomaram.
-E arrependeram-se. Dá para ver nos olhos deles. Nas acções deles. O Edward anda abatido e a nossa filha… - Mamoru não terminou a frase, controlando um soluço. O seu coração de pai ainda não aguentava a notícia de que a sua única filha iria morrer.
Usagi soltou uma única lágrima, antes de abraçar o marido:
-Vamos arranjar uma solução. A Ami está à procura de uma cura. Ela consegue sempre. Ela vai conseguir… eu sei que sim… a minha pequenina… a nossa Chibiusa… - lágrimas caíram pelo rosto maduro de Usagi, que encostara a cabeça ao ombro do marido, da mesma forma que Linda. Ele baixou a cabeça para beijar o couro cabeludo da mulher, passando a mão pelos cabelos dela, tal como Kenji fizera com a irmã.
Mas os dois irmãos abraçaram-se unidos pelo amor. Usagi e Mamoru estavam abraçados unidos pela dor.
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[1] É Usagi quando ela está vestida normalmente e fora do palácio. Quando tem algum vestidinho ou está no palácio – depende da ocasião – é Serenity.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
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Quando Linda voltara a casa, as diferenças notaram-se de imediato. Já não parecia tão carrancuda e toda a moleza da manhã tinha desaparecido. Tinha o casaco cheio de neve e despachou-se a sacudi-lo, enquanto via Mari a pôr a mesa do almoço:
-Correu bem? – Perguntou, com um sorriso, não desviando os olhos dos talheres.
Linda não respondeu de imediato.
-Foste tu que a avisaste, não foste?
O sorriso de Mari evaporou-se, assumindo um ar sério.
-Sim, e não me arrependo. – Largou os pratos e talheres e aproximou-se da morena com um ar decidido. – Não te queria ver naquele estado, principalmente porque fui eu a primeira a pôr-te assim. Desculpa-me por ter sido uma idiota para ti, mas eu tenho motivos para ser tão desconfiada. Eu vi logo quando chegaste à minha casa no inicio de Setembro que eras daquelas pessoas que conquistam a nossa confiança em pouco tempo. E eu não queria arriscar isso contigo. Não quando sabia que tinhas segredos. Foi estúpido. – Ela desviou o olhar, colocando as mãos nas ancas. – Mas foi a minha maneira de te mostrar que escondendo-te não chegarias a lado nenhum.
Linda não alterou a sua expressão facial, olhando para Mari, curiosa.
-Quem foi? – Perguntou, de repente.
Mari ergueu a cabeça.
-Como?
-Quem te traiu? Para tu desconfiares das pessoas desta maneira?
A loira mordeu o lábio, receosa e Linda quase esperava uma reacção da típica Mari, a dizer para ela se meter na sua vida. Mas para sua surpresa, Mari respondeu, num sussurro:
-O meu pai.
-Meninas, p’ra a mesa! – Anunciou Aiko, animada, vindo da cozinha carregando uma travessa de vidro com um apetitoso peru recheado com batatas assadas. – Depois vamos abrir os nossos presentes.
Sentindo-se aliviada pela intervenção da avó, Mari despachou-se a sentar-se à mesa, servindo-se de batatas douradas. Linda suspirou levemente e arrumou o casaco no cabide. Foi aí que reparou num pequeno embrulho turquesa no seu bolso. Há quanto tempo isto ‘tá aqui?
Desembrulhou o pequeno embrulho com cuidado até se dar de caras com uma corrente. Um pequeno colar de prata encontrava-se dentro da caixa, junto a um cartão. Linda reconheceu-o como sendo o colar que estava na montra no mesmo dia em que vira Minako e Naomi. Sem nada a não ser uma corrente, Linda percebeu o objectivo da prenda. Tirou o seu colar e separou o pingente da corrente já gasta do colar improvisado. Ao colocar o pingente junto da corrente de prata, viu que assentava como uma luva. O pingente reluzia dez vezes mais na companhia de uma corrente feito do mesmo metal.
Pegou no cartão, querendo saber quem lhe tinha dado a prenda. O cartão tinha apenas uma frase.
Linda reconhecia a letra. Quantas vezes o vira a rabiscar daquela forma na mesa ao lado? Quantas vezes ela lhe pedia apontamentos do ano anterior, apenas para meter conversa?
Guardou a caixa e dirigiu-se para a mesa, onde Aiko e Mari elogiaram o seu colar, apesar de Mari manter-se calada a maior parte do tempo. Linda sabia que lhe devia uma conversa e não pretendia adiá-la por muito tempo.
Após o almoço, despacharam-se a abrir presentes. Linda recebeu de Aiko uns sapatos novos, perfeitos para a dança:
-Obrigada Aiko! – Agradeceu ela, chegando-se perto da mulher para lhe dar um beijo nas bochechas.
A sua outra prenda era um conjunto de várias. As navegantes haviam se juntado para dar-lhe uma prenda cada uma, todas organizadas numa caixa decorada a papel azul-escuro da cor dos olhos de Linda. Minako dera-lhe uma caixa de acessórios que estava bem recheada, com várias cores e formatos de pulseiras, anéis e acessórios para o cabelo. Ami um livro cujo titulo fora uma grande surpresa:
Lei e Estilo, por Linda O’Connell
Linda O’Connell, escritora amada em vários países desde a Europa, Estados Unidos até à China e ao Japão, edita agora o seu mais recente romance protagonizado pela sua nova personagem fíctida, Andrea Sullivan.
Sullivan trabalha na empresa Cork Industry – uma empresa de advocacia em Londres - como secretária adjunta do Director, Nigel Cork.
Quando o seu patrão é raptado, Andrea descobre um bilhete na sua secretária com pistas para achar o seu paradeiro e um enigma que revela a identidade do seu raptor. Percebendo que a policia não está do seu lado, nem no lado de Nigel, Andrea parte em busca do seu patrão, usando a sua peripécia e curiosidade como ferramentas para achar a chave que falta no enigma. Aventura e muita acção neste novo romance que irá deixar o leitor deliciado e a suspirar pelo próximo.
Linda sorriu e procurou o cartão, onde a letra organizada de Ami dizia:
Feliz Natal, querida.
Achei que quisesses saber mais sobre as origens do teu nome. Já li todos, e acho que este não é dos melhores. Mas, sendo o primeiro, tens que o ler, para além de que eu acredito que vais gostar. Até te mandava o meu livro preferido, mas sei que não quererás saber qual é até o leres por conta própria. É que… era também o livro preferido da tua mãe.
Com amor, Ami
Entendia as razões de Ami e no fundo agradecia a preocupação. Desde que Kentaro lhe falara dos livros que tivera curiosidade em lê-los, mas faltava-lhe vontade em procurá-los. Talvez ela não estivesse preparada para fazer algo que a mãe também tinha feito noutros tempos.
E agora estava ali o primeiro livro da saga. Havia mais e Linda, ao dar uma olhadela na última página, com uma lista dos próximos romances (havia uma, visto o livro ser de uma edição mais recente) pôde ver os seus nomes:
-Areias do tempo
-As asas de Ícaro
-Vício Japonês
-Fita de prata
Linda calculava que fosse Vicio Japonês o preferido de Ami e da mãe, sem dúvida o livro onde o irmão da protagonista enfiava-se em problemas no Japão. O livro onde o nome do irmão vinha mencionado.
Mas, por algum motivo, o primeiro e o quarto livro eram os únicos que não tinham títulos muito atractivos. Eram os únicos onde Linda não sentia lá grande curiosidade em ler. Os restantes atraiam pelos seus títulos enigmáticos e que prometiam muitas aventuras e romances. Isso fez lembrar Linda Será que Andrea tem algum namorado nesta saga, perguntou-se, divertida.
Pousou o livro de Ami de lado e virou-se para as restantes prendas. Makoto mandara-lhe, para além de um grande tupperwear cheio de bolos deliciosos, um caderno vermelho escuro onde postava a insígnia da lua. Parecia um diário. Linda tentou abri-lo, mas viu que se encontrava fechado. Pegou no bilhete da navegante de Júpiter, que lhe dizia que tinha que esperar por um determinado momento para o abrir.
Era só o que me faltava…
Por fim, o presente de Rei. Linda procurou-o por todo o lado dentro da caixa, até que ouviu a voz de Aiko, sentada ao seu lado:
-Linda, não é isto aqui? – Disse, apontando para uma pequena caixa, abandonada num canto escuro da caixa. Linda perguntou-se como é que não dera por ela antes.
-Sim. – Lançou a mão em direcção do embrulho. A caixa era um quadrado perfeito prateado, com uma leve tira dourada nas bordas. Mari arregalou os olhos. Ao ver a reacção da loira, Linda deitou-lhe um olho e ela própria ficou chocada. Mari tinha uma caixa igualzinha na mão.
Ambas entreolharam-se, tentando chegar a um acordo silencioso sobre se era melhor abrir a caixa ou não. Como Linda sabia que Rei jamais lhe faria mal, acenou a cabeça levemente, dizendo a Mari que era seguro.
Abriram as suas respectivas caixas ao mesmo tempo.
Dentro da sua caixa, Linda viu uma pequeníssima pedra cor de fumo branco, que brilhava como diamantes. Era tão pequena que quase se assemelhava a um grão de areia. Ainda assim, era brilhante e tinha algo escrito na pedra.
Apesar de estar a usar óculos, Linda não conseguiu ler o que estava lá escrito. Deitou um olhar em Mari e notou que esta tinha um ar perplexo. Aproximando-se dela, copiou a sua expressão.
Mari recebera também uma pequena pedra. A diferença era que a pedra de Mari era maior e mais brilhante, para além de vir com outra pedra, mas esta era muito menos brilhante e ainda mais pequena que a de Linda.
-Quem te deu isto?
-A tua avó! – Respondeu a loira.
Mari tentou fazer contacto visual com Linda, mas esta evitou os olhos verdes da outra.
Voltou a sentar-se no sofá, onde abriu a prenda dos avós, que viera dentro da caixa. Era uma caixa rectangular grande o suficiente para suportar três manuais de matemática [2]. Ao abri-la, deparou-se com uma grande quantidade de tecido branco em seda. Temendo saber o que se tratava, Linda procurou um cartão. Ao encontrá-lo, apressou-se a lê-lo, reconhecendo a caligrafia do avô:
Podíamos dar-te isto no teu aniversário, mas até lá vai muito tempo e infelizmente, devido às circunstâncias, não iremos poder estar muito tempo contigo e com o Kenji, a não ser para emergências.
Trata-se de um vestido semelhante ao das rainhas, com a única diferença de tu não seres rainha. Mas és filha de uma e neta de outra. Como tal, mereces a prenda.
Linda, quer queiras, quer não, o reino faz parte do teu legado e mesmo que nunca venhas a ser rainha, serás sempre a guardiã do cristal prateado. Usa este vestido quando achares que seja a altura. Pode ser no teu décimo sétimo aniversário, pode ser no teu casamento, ou na coroação do novo rei (quer sejas tu ou o teu irmão). Escolhe tu o melhor momento. O teu coração o dirá. Poderia explicar-te o motivo para que tu o uses, mas tu própria tens que o descobrir. Trata-se de algo que eu e a tua avó temos tentado ver em ti desde que tu nasceste, mas chegou a altura de tu própria o mostrares, sem a ajuda de ninguém. Cresceste e aprendeste a ser responsável. Acredito em ti, minha querida. Sei que hás-de entender o seu significado e abraçar a responsabilidade que te ele obriga a ter.
Considera o vestido prenda da tua avó, enquanto a minha é algo que eu te daria, quer eu fosse rei, quer eu fosse um simples operário sem dinheiro para pôr comida na mesa. Não tem nada a ver com o legado, nem com responsabilidades. Tem a ver com a alma pura que tu possuis. Por muito que penses o contrário, tens um dos corações mais puros que eu alguma vez vi. Apenas não o mostras devido ao universo onde cresceste.
Com o tempo irás te aperceber de tudo. De quem és, do que fazes aqui, de tudo. Apenas tens que ter paciência (acredito que deve ser difícil, mas aguenta). O tempo tudo dirá…
Com amor
Dos teus avós
Quando acabou, não pôde deixar de sorrir, ao mesmo tempo que acariciava o tecido suave. Um vestido branco como o da mãe e o da avó. Ela bem que se lembrava de, numa idade mais inocente, sonhar em ter um, em ser uma senhora respeitada como a mãe e a avó. Talvez fosse esse o significado do vestido.
Não, não me parece…
Releu a carta e os seus olhos pararam no último parágrafo.
Com o tempo irás te aperceber de tudo. De quem és, do que fazes aqui, de tudo. Apenas tens que ter paciência (acredito que deve ser difícil, mas aguenta). O tempo tudo dirá…
Que quereria dizer com aquilo? Teria algo a ver com o facto de ser uma navegante? Bem, era a resposta mais lógica. Mas algo dizia a Linda que, por entre aquelas linhas, escondia-se a verdadeira razão do seu nascimento. O porquê da estranha reacção dos pais, o porquê do irmão ter ficado assustado com tudo. Voltou a ler o parágrafo e parou na última frase. Ela tinha ouvido o avô dizer a mesma frase pouco tempo antes. O tempo tudo dirá…
-Então? Gostas da prenda da tua avó? – Perguntou Aiko, interrompendo os pensamentos de Linda.
-A Aiko sabe o que eles me deram?
-É claro que sei. Achas mesmo que eu não conheço a minha amiga?
-Esperem lá! – Mari levantou-se do sofá – quer dizer que avó sempre soube que ela era…
-A mãe da Rainha de Crystal Tokyo? É claro que sabia. Tal como sei de vocês as duas…
-Como? – Perguntou Linda, trocando um olhar com Mari. – De que é a Aiko está a falar?
Aiko não respondeu logo. Em vez disso, levantou-se e circulou pela sala, suspirando pesadamente. Parou junto do quadro da filha.
-Como é que vocês acham que eu conheci a Usagi? Apesar de termos muita coisa em comum, nunca frequentávamos os mesmos sítios. Foi através de… uma pessoa… que nos conhecemos. E ela teve um enorme fascínio pela Julianna.
Mari ficou pálida, Linda confusa:
-Desculpem, mas quem é a Julianna?
-É a minha mãe – sussurrou Mari. – Julianna Nakamura.
Linda arrependeu-se logo de ter feito a pergunta, mas o mal já estava feito. Aiko continuou, os seus olhos fixos no quadro de Julianna.
-Ela percebeu que havia algo de diferente nela. Dizia que ela a fazia lembrar alguém. Quando a Julianna engravidou, a Usagi contou-me as suas suspeitas.
-Que suspeitas? – Perguntaram as duas adolescentes ao mesmo tempo.
-De que a criança que a Julianna carregava no ventre era uma menina. Uma navegante. – Declarou ela, não notando na palidez das duas jovens, que estavam tão brancas quanto lençóis – na altura não sabia o que isso era, até que ela me esclareceu. De repente lembrei-me das navegantes e das suas histórias que ouvia na minha juventude e até de uma vez onde eu própria fora atacada por um monstro e tinha sido ela a salvar-me.
-A avó foi atacada?
-Eu e mais vinte pessoas. Foi um grande ataque. Pouco tempo depois de a Usagi descobrir que era uma navegante. Eu era pequena, para aí uns seis anos…
Linda ergueu o sobrolho à última parte. Seis anos? Mas a Aiko não tem a idade da minha avó? Apesar de Aiko aparentar uns quarentas, perto dos cinquentas, sempre tivera a impressão de que elas partilhavam a idade. No entanto, havia um factor a considerar. Serenity tinha o cristal prateado para a rejuvenescer.
Mas Usagi fora avó de Kenji antes de fazer quarenta e cinco, então isso queria dizer que…
-Quando a Mari nasceu, todas as suspeitas foram confirmadas. E depois o teu nascimento, Linda, também clareou muito as coisas.
-Então a avó sabe…
-Sim, Mari. – Aiko virou-se para a neta com um sorriso quente. – Sei. E a tua mãe também sabia. E isso era ainda mais um motivo para ela te amar. És especial!
As duas jovens fitaram o chão, ambas perdidas em pensamentos. Aiko lançou um olhar ao quadro da filha e voltou a abrir os presentes dos seus amigos, dando a conversa por terminada.
-Vê a prenda do teu avô! – Disse Aiko, falando como se a conversa momentos antes não tivesse acontecido. – Eu não sei o que é que ele te deu.
Linda pousou os olhos na caixa, com os dedos ainda por cima do tecido branco. Não vendo mais nada, julgou a prenda do avô escondida no meio daquele mar de seda branca. Remexeu cuidadosamente, para não estragar e os seus dedos tocaram em metal leve.
Ergueu as mãos e as três ocupantes soltaram um ‘oh!’.
Linda tinha nas suas mãos uma reluzente tiara de platina, pequena o suficiente para não se parecer uma coroa, mas grande ao ponto de se distinguir de uma bandelete. A tiara era feita de linhas simples e cravejada com pequenas pedras brilhantes em forma de estrelas de três pontas que se dispersavam pela coroa uniformemente. No centro da tiara, havia uma pedra maior, que brilhava ainda mais do que as outras, apesar do seu aspecto se assemelhar mais a uma pedra cheia de gás branco do que outra coisa.
Ao admirar a prenda do avô, tinha a certeza de uma coisa. Que as pedras cravejadas na tiara, com excepção da pedra central, conseguiam riscar o vidro.
-Oh, mas que prenda maravilhosa! Digna de uma princesa – acrescentou Aiko, rindo-se do ar de Linda. – Que foi? O que eu disse é nada mais do que a verdade.
Linda forçou um sorriso, assim como Mari, que não tirava os olhos da pedra central.
-Sabes que pedra é essa?
-Uma moonstone, certo?
-Hum hum… - murmurou Mari, não desviando os olhos da pedra - não tem valor algum em comparação aos brilhantes. Pergunto-me porque é que o teu avô ta deu.
Linda fitou a loira, não respondendo às suas dúvidas. Pousou a tiara de lado, dando a conversa por terminada.
O resto do tempo foi passado em silêncio, ocasionalmente quebrado por uma das três mulheres ou pelo som da televisão. Passaram a tarde na conversa e em jogos de família. Linda não se lembrava de algum Natal assim. Havia sempre alguma coisa diferente, mais majestosa. Mas nunca um Natal simples num lar acolhedor sem a pressão de ter os pais junto à porta, prestes a interromper o bom ambiente.
Mari e Linda falavam uma para a outra, o gelo entre as duas já derretido. Aiko não pôde deixar de sorrir ao ver a neta falar para Linda do mesmo modo que uma amiga fala para a outra. Havia ainda alguma tensão, como se ambas temessem a reacção da outra a cada gesto ou frase, mas já era um grande passo. Ela nunca tivera dúvidas que aquelas duas seriam um dia amigas. Afinal, tinham tanto em comum…
Sem darem por isso, eram já 20h55.
-Oh, pelos deuses! Tenho que fazer o jantar. – Aiko levantou-se do sofá, um pouco aflita.
-Avó! Não sobrou nada do almoço? – Perguntou Mari, que estava sentada no chão, com Linda ao seu lado.
-Sobrou, mas não sei se vocês querem comer o mesmo.
-Por mim tudo bem. – Disse Linda. – Alias, eu até nem tenho muita fome de tanto doce que comi.
-Pois bem, vou aquecer a comida. É melhor irem as duas tomar banho.
-Ok – dissera as duas em uníssono, dirigindo-se cada uma para o seu quarto.
Linda foi rápida no duche e vestiu o seu pijama à velocidade de um comboio. Amarrou o cabelo e saiu do quarto. Avançou em direcção ao quarto de Mari e bateu à porta. Não houve resposta.
Linda abriu a porta e admirou o quarto de Mari. Se Linda era adepta de preto, Mari era de cinzento. Perguntou-se de Cecília era de branco.
O som de água a correr indicava que Mari estava no duche. Deitando uma olhadela no quarto, esperou que a loira saísse da casa de banho.
Mari saiu da divisão, com o corpo enrolado numa toalha de banho e o cabelo preso. O seu rosto mudou de um semblante descontraído para um surpreendido:
-O que fazes aqui?
-Vim falar contigo! – Linda sentou-se na beira da cama, sorrindo levemente, como que encorajando a loira. Esta ficou de pé, sem saber o que fazer.
-Sabes, somos as duas mulheres, podes trocar-te à minha frente.
-Ah? Oh, eu sei. É só que… não sei o que queres falar comigo.
-Sabes sim. – Disse a morena calmamente.
Mari pousou os seus olhos em Linda. Verde e azul, cores diferentes, mas um brilho semelhante.
Desistindo do joguinho de olhares, Mari desenrolou a toalha e mudou-se para o seu pijama. Linda esperou pacientemente até que a loira tivesse o seu pijama vestido, cabelo amarrado e sentada ao lado dela na cama.
-Quantos anos tinha a tua mãe quando nasceste?
Mari esperava várias perguntas, menos essa. Ponderou na resposta:
-Dezassete. Dezasseis quando engravidou. – Murmurou, esperando no fundo que Linda não ouvisse. Mas esta tinha uma boa audição.
-Bem me parecia. Sei que a Aiko e a minha avó tiveram as nossas mães quase na mesma idade, mas se a tua avó é mais nova… bem, bastou fazer as contas.
-Incomoda-te?
-A mim? Porque me incomodaria?
-Eu sou filha de uma adolescente. Se a minha mãe fosse viva, teria trinta e três.
-A minha está viva e tem quarenta e um, com um filho de vinte lá pelo meio.
-Não é a mesma coisa.
-Mas é parecido – Mari soltou uma lufada de ar, enquanto admirava os nós entre os dedos. – Mari? – Sentiu a atenção da loira em si. – O que aconteceu ao teu pai?
-Ele… - Mari desviou o olhar de Linda, fitando a televisão do quarto. – Bem, a minha mãe sempre foi uma rapariga certinha e ela… - sorriu – era quase sempre associada a um anjo. E ela até o era, tão doce, querida, sempre a sorrir…
«De repente, tudo isso mudou. O meu avô morreu e a minha mãe ficou devastada. Já deves ter visto que a minha mãe nada tinha a ver com a minha avó. Bem, ela era parecida com o meu avô em todos os aspectos. Ambos eram sonhadores…Ela estava muito triste e deixou que o namorado – meu pai – a consolasse. Foi aí que engravidou.
-E depois?
-A minha avó obrigou o meu pai a assumir-me. Eu nasci e tudo era lindo. A minha mãe adorava-me, nunca tive dúvidas de que, apesar de eu ter sido um choque e um ‘erro’, ela depressa de afeiçoou a mim. A avó costuma dizer que isso acontece quase sempre que uma mãe segura o seu filho recém-nascido pela primeira vez nos braços. Foi assim com a minha mãe – Mari suspirou de novo, deitando um olhar na morena. Esta fitava o chão, pensativa. – Quando eu fiz quatro, a minha mãe descobriu ter leucemia. Acreditas? Uma rapariga de vinte e dois e saudável com leucemia?
Linda assentiu pesarosamente. Mari continuou, tentando controlar ao máximo as suas emoções:
-Ela lutou, mas a doença levou a melhor. Morreu pouco antes de eu fazer sete anos. Depois… a minha avó ficou comigo. O meu pai usava a Marinha como desculpa para não me visitar. Mas a avó era teimosa. Obrigava-o a pagar a minha educação, a estar presente nos dias especiais, mandava cartas aos meus avós paternos a avisar de tudo o que se passava comigo… ela queria que eu nunca sentisse o vazio deixado pela mãe. – O seu sorriso aumentou – a avó foi muito corajosa. Tinha acabado de perder a filha, mas ignorou a dor para tratar de mim. Acredito que foi porque eu era igualzinha à minha mãe e isso fazia-a sentir... talvez, quem sabe… que a minha mãe nunca tivesse partido.
-Oh Mari…
-Ele vinha cada vez menos. A avó deixou de se importar. Parecia que ele tinha destorcido a história toda aos pais dele e afirmado que eu era filha de outro. Como ele era rico, achavam que era o golpe no baú. E o facto de eu não ter quase nada a ver com ele não ajudou…
-Filho da…
-Acredita que também pensei nisso. Mas apenas mais tarde. Até essa altura, eu sempre achei que ele haveria de voltar. Ele prometera-me, ele sorrira para mim, dera-me presentes lindos e prometera-me que me levaria ao zoo, à escola, a dar um passeio. Mas, por detrás daquele sorriso e daqueles olhos… ele mentia. A partir do momento em que me apercebi que ele jamais voltaria, deixei de confiar logo nas pessoas. Apercebi-me que muita coisa está escondida nos olhos das pessoas. Vi isso quando chegaste. – Virou-se para a morena, que a escutava atentamente sem interromper – Os teus olhos brilhavam do mesmo modo que os dele. Via-se mesmo que escondias algo. O sorriso era igual... pelos céus, até a cor dos olhos era a mesma.
-Lamento Mari. disse Linda, sinceramente.
-Não lamentes! Eu é que me devia ter apercebido que nem todos os segredos são maus. Apenas limitam a pessoa, nada mais. O teu segredo era daqueles que ninguém devia saber... devia permanecer segredo. E eu não entendi isso, mesmo com a Cecília a dizer-me para esquecer… que eram apenas problemas familiares.
-Olha que até está correcto – murmurou Linda calmamente. – Mari cometeste um erro. Todos cometem.
-Desculpa.
-Tens noção das vezes que já ouvi isso hoje?
Sorriram as duas.
-Faço uma pequena ideia. Acredito que o Kenji se tenha fartado de te pedir desculpas.
-Se ele tivesse o palavreado todo que tem em dias normais, acredita que sim. Mas ele até gaguejou e tudo.
-A sério? – Mari ajeitou-se no seu lugar, procurando uma posição confortável. – E eu que sempre achei que ele era um desinibido.
Linda olhou para Mari de lado.
-Pois…
-o que foi?
-Nada, nada…
A atmosfera pesarosa que seguia as duas adolescentes desde Setembro desaparecera. Não parecia haver mais vestígios das antigas rivalidades das duas e ambas estavam contentes com isso. No fundo, tinham que admitir que até esperavam por aquilo fazia algum tempo.
-Amigas? – Sussurrou Linda. Mari assentiu.
-Espero estar à sua altura, majestade.
Ao ver a cara de Linda, Mari soltou uma gargalhada.
-Estava a brincar.
-Não brinques que eu não gosto disso.
-Vais ter que te habituar. Faz parte de ti, não podes ignorar isso.
Linda brincou com uma madeixa de cabelo. Também Mari achava que ela não devia ignorar as suas raízes. Mas ela não queria saber de onde vinha! Ela não queria ter nada com aquele mundo? Tinha pedido ela para nascer de berço de ouro?
-Eu sei… - respondeu ela, num tom aborrecido. Na mesa-de-cabeceira, o telemóvel de Mari anunciou a chegada de uma SMS. Esta apressou-se a ver.
-De quem é?
-Da Cecília? Está a perguntar se eu faço alguma ideia do significado da pedra dela?
-O quê? Ela também recebeu?
Mari assentiu e marcou o número da amiga. Esperou um pouco até que Cecília atendeu ao segundo toque. Mari pôs o telemóvel em alta voz:
-Cecy!
Do outro lado, apenas estática.
-Cecy?
Desta vez, teve resposta. A voz um pouso grave de Cecília ouviu-se em todo o quarto:
-Voltas a chamar-me ‘Cecy’ que eu te enfio o telemóvel por um sítio que eu cá sei.
Aquela era nova. Cecília Tamura a praguejar? Linda abriu a boca num ‘oh’ e fechou-a, prestando atenção à conversa das duas amigas:
-Pois, pois… quem te mandou a prenda?
-A Rainha Serenity. A minha mãe chegou a casa com o embrulho e deu-me. Não tinha cartão nem nada. E a ti?
-Também. Ela veio cá falar com a Linda e deu-me. Por acaso imaginas o seu significado?
-Podes não acreditar, mas sei. Tem algo a ver com a pulseira e os brincos. Acho que as pedras encaixam aí.
Linda reflectiu sobre aquilo que ouvira. Fazia sentido. A pedra que ela recebera era do mesmo tamanho que os pequenos pontos negros do seu pingente. E as pedras de Mari tinham tamanho suficiente para fazerem de brincos. Provavelmente a de Cecília era maior, para caber numa pulseira.
-Sim, faz sentido. Mas temos que…
-Falamos disto mais tarde Mari. Isto é um assunto que temos que falar pessoalmente. Olha, disseste que a Rainha fora aí falar com a Linda. Como é que ela está?
Mari olhou para a rapariga em questão. Esta pôs o dedo nos lábios, que mostravam um sorriso.
-Na mesma.
-Raios! Porque é que ela tem que ser tão teimosa?
As duas raparigas no quarto tentaram controlar uma gargalhada.
-Sei lá. Ela é assim.
-Pois… eu começo a perder a paciência com isto. Se ela amanhã não melhorar, eu vou aí à vossa casa e chamo-a à razão.
Mari e Linda entreolharam-se, desconfiadas.
-E o que é que vais fazer? – Perguntou a loira, num tom brincalhão.
- O costume. Um escândalo, algumas galhetas, um puxão de cabelos…
-Xii, mas que simpática. – Comentou Linda, sarcasticamente. Do outro lado, seguiu-se silêncio.
-Ah... Mari? A Linda está aí?
-Desde o início da chamada! – Respondeu Mari, como se fosse a coisa mais inocente do mundo.
-E NÃO ME DIZES NADA!?
As duas raparigas riram-se a alto e bom som, acabando Mari por cair da cama. Linda sentou-se no chão e tinha que fazer um grande esforço para não rebolar.
O riso acabou por contagiar Cecília, que se riu do outro lado da linha.
-Então está tudo bem? Digo… já não são inimigas?
-Está! – Respondeu Linda, apoiando-se na beira da cama. – Está tudo bem entre nós. Feliz Natal Cecy.
-Oh… não venhas tu com essa também!
Enquanto as três jovens riam-se da nova amizade conquistada e desavenças desaparecidas, a lua deixava que metade dos seus raios iluminassem a terra, enquanto a outra metade estava envolvida em sombras. Ninguém notou em três pequenos raios, semelhantes a chuvas de estrelas que caíram do céu por entre a fase escondida da lua. Ninguém notou que, nessa exacta altura, três flores brilharam com todo o seu esplendor e poder.
**
(25 de Dezembro ás 19h45)
-Feliz Natal Takeo!
A menina respondeu com um abraço caloroso. Kenji passou a mão pelos cabelos da rapariga, tão escuros quanto os de Setsu. Aliás, ela e Setsu eram muito parecidos, com a única diferença de que Takeo tinha os olhos violetas da mãe. Olhos que, naquele momento, encontravam-se escondidos atrás de óculos redondos com armações cor-de-rosa e um pequeno coelho desenhado na ponta.
-Bem vindo Kenji – respondeu Kim Yamamoto. Era uma belíssima mulher de cabelos lisos azuis-claros até aos cotovelos e olhos violeta. Tinha um vestido cai-cai de um azul levemente mais escuro que os olhos e os únicos acessórios que a decoravam eram uma simples pulseira de ouro e a aliança. – Feliz Natal.
-Feliz Natal, Kim. – Desejou Kenji sinceramente. Havia bastante tempo que ele e Kim habituaram-se a tratarem-se pelo primeiro nome.
Estavam os três na entrada, enquanto Eiji e Setsu estavam na sala de estar.
-O meu marido deve estar a vir. Anda sentar-te – sugeriu Kim. Kenji sorriu às qualidades de anfitriã da madrasta de Eiji e Setsu.
Na sala, as decorações atingiam o auge. Uma grande árvore de natal, decorada com bolas e anjos de papel, encontrava-se junto à lareira acesa, decorada por meias vermelhas. A mesa de Natal estava recheada de iguarias que só de ver já davam a Kenji água na boca.
-Estão a discutir acerca do melhor jogador do campeonato. – Disse Takeo ao sei lado, obviamente aborrecida pelo tema discutido pelos irmãos mais velhos.
-O Soda é o melhor! – Afirmava Setsu teimosamente.
-Até a Takeo consegue marcar mais golos que o Soda. – Discordou Eiji. - O Finnigan é o melhor. Tem técnica e já marcou mais golos que toda a sua equipa junta.
-Esse nem japonês! – Berrou Setsu, ansioso.
-Mãe japonesa, pai anglo-japonês.
-Eiji, Setsu! – Chamou Kenji calmamente.
-Mesmo assim. Não é um japonês a 100%. Já o Soda tem todos os seus ancestrais nascidos no Japão.
-Até parece que agora no futebol isso importa. Até temos o Santos, que é mexicano e joga por uma equipa japonesa.
-MENINAS! – Gritou Kenji, atraindo a atenção dos dois irmãos, que de imediato pararam de discutir. Kenji virou-se para Takeo. – Olha-me esta. Chamo-os pelos nomes e não ligam. Digo que são fêmeas e eles lá respondem.
Takeo soltou uma sonora gargalhada. Setsu e Eiji semicerraram os olhos.
-Estávamos a ter uma conversa muito interessante. – Argumentou Setsu.
-Sim, estávamos a confirmar que o Finnigan é o melhor jogador do campeonato japonês.
-Não é não! É o…
-Vá lá meninas, paremos com o histerismo! Para o caso de não terem reparado a vossa irmã é sensível a essas conversas de chacha.
Takeo voltou a rir-se, para embaraço dos dois irmãos.
-Então como correu? – Perguntou Eiji, querendo mudar de assunto.
Kenji sorriu.
-Muitíssimo bem.
-Ela perdoou-te?
Setsu e Eiji não se pouparam a disfarçar o espanto, que se iluminou nos seus rostos.
-Sim. Está tudo bem entre nós. Resolvemos as nossas coisas.
-Estiveste com ela até esta hora?
-Não – Kenji colocou a mão no cabelo. – Estive com a Angelique. Ela queria despedir-se de mim.
-Ela não tinha ido já para Kyoto?
-Não me perguntes porquê, mas a partida foi adiada por algum motivo.
-Hum…Sendo assim, já deve ser seguro para…
-Feliz Natal, família! – Anunciou uma voz grossa, vinda do corredor ao mesmo tempo que se ouviu uma porta a fechar.
-Feliz Natal, querido! – Respondeu Kim, vinda da cozinha. Aproximou-se do marido e beijou-o carinhosamente.
Takeshi Yamamoto apareceu à entrada da sala. Trazia um fato cinzento-escuro e uma mala negra, que pousou no chão. O seu cabelo era de um castanho-escuro, que passara ao mais velho e à mais nova, enquanto os olhos eram cor de avelã como os do filho do meio.
-Boa noite rapazes. Olá, querida. – Beijou a face da pequena e abraços os filhos. Quando se aproximou de Kenji, este estendeu a mão, mas Takeshi recusou-a, evolvendo o rapaz num abraço afectuoso.
-Que tolice. És quase como da família.
-Obrigada Sr. Yamamoto.
-Quantas vezes tenho que te dizer para me trarares por Takeshi?
-Muitas, senhor. – Para Kenji havia uma grande diferença em chamar uma mulher que ele via como uma amiga pelo nome, do que fazer o mesmo a um homem que considerava um pai. – Bastantes.
-Como está a tua irmã?
-Está boa.
Takeo voltou a rir-se, desta vez mais alto, chamando a atenção dos dois.
-O que foi? – Perguntou o patriarca da família Yamamoto.
-O Setsu…
-Cala-te Takeo! – Ordenou Eiji, vermelho como um tomate. Setsu exibia um sorriso trocista.
-Setsu, o que é que disseste ao teu irmão?
Setsu abriu a boca para falar mas, ao ver a atenção de Kenji posta em si, hesitou.
-Deixa p’ra lá pai. O Eiji já está embaraçado o suficiente.
-Mas eu quero saber. – Disse Takeshi, firmemente.
-Bem…
-O Kenji disse que a irmã dele estava boa e o Setsu disse baixinho: “O Eiji que o diga!”.
Kenji ergueu o sobrolho furiosamente para Setsu, Eiji corou ainda mais e Takeshi tentou aguentar uma gargalhada.
-Pede desculpas ao teu irmão, Setsu.
-Porquê?
-Porque o embaraçaste.
-E para isso também tens que me embaraçar? Além disso, já não somos putos.
-A sério? Eu nem tinha reparado nisso – disse Takeshi.
-Oh pai, esqueça o sarcasmo. O Setsu não o entende – disse Eiji.
-O que é sarcasmo? – Perguntou Takeo.
-É dizer o contrário daquilo que dizem ou pensam... Ou outra coisa qualquer… - respondeu Setsu. O seu pai e irmão abanaram a cabeça e Kenji e Takeo entreolharam-se, o mais velho enrolando os olhos ao semblante confuso da miúda. [3] – Como estava a dizer. – Pegou em dois pedaços de papel cor de laranja. – Aqui está – disse, estendendo-os a Kenji. Este manteve a sua expressão inalterada.
-O que é isto?
-Bilhetes VIP para a festa de fim de ano no Hotel Millenium [4].
Kenji arregalou os olhos.
-Como os arranjaste?
-A prenda é minha! – Disse Eiji, chegando-se perto – Achei que tu e a tua namorada quisessem estar na melhor zona na melhor festa do ano.
-Fogo… obrigada Eiji!
-E esta é a minha! – Disse Setsu, estendendo vários bilhetes verde alface. – Para me convidares a mim, à tua irmã e algumas amigas. Para além do Eiji, claro.
-Com mil raios! Tu sabias que eu queria dar este presente ao Kenji. Imitaste-me, bronco!
-Eiji!
-Desculpe pai, mas tenho razão. – Murmurou o loiro.
-Por acaso já tinha esta prenda pronta. E também tive a ideia dos bilhetes VIP, mas não consegui arranjar vários e era mau, nós irmos e os outros ficarem em baixo. Mas faz sentido ele e a namorada querem ter um “tempo a sós”.
Os três rapazes riram-se entre si.
-Obrigada aos dois. Hoje tive as melhores prendas de todas. – Excepto uma, sussurrou a Voz. Desta vez, Kenji não a afastou. Perguntou-se do que seria. Tu sabes muito bem o que é, apenas continuas a negá-lo. Mas a negar o quê?
-Meninos, para a mesa! – Anunciou Kim, que carregava uma enorme travessa cheia de frango, junto da governanta que trazia batatas e saladas frescas.
Todos sentaram-se à mesa e desfrutaram de um bom Natal. No final da refeição, todos trocaram presentes e Kenji não pôde deixar de admirar a família Yamamoto. Unida, amada. Takeshi, Kim, Setsu, Takeo…
Eiji…
De todos, era o mais diferente de todos. Era o único loiro e, apesar de ter os olhos do pai, as suas feições eram muito distintas daquela família. Era o único que tinha semelhanças com Yvonne, primeira esposa de Takeshi e mãe de Setsu e Eiji.
Mas, naquele momento, Eiji estava junto dos irmãos e dos pais – porque ele considerava Kim como a sua verdadeira mãe – e ria-se como ele nunca tinha visto naquelas férias.
Pouco a pouco, o tempo passou e todos dirigiram-se para as suas camas. Kenji sonhou com a irmã sentada no alpendre de uma casa à beira mar, com roupas azul-claras e um leve tom bronzeado a colorir a sua pele. Tentou falar com ela, mas a voz que lhe respondeu não era a de Linda, mas sim a da Voz:
-Se fosse a ti, tinha cuidado! – Linda aproximou-se dele, caminhando sobre o chão de madeira lentamente – o tempo está a escassear.
-A escassear? – Ouviu-se a dizer. – Como assim?
-Tem cuidado! Ou perderás… tudo…
O sonho terminou tão depressa como acabou e Kenji estava depressa no meio de outro sonho, onde carros de Rali e flores amarelas reinavam o cenário. Mas o primeiro sonho não foi esquecido, nem por ele, nem pela rapariga que dormia na casa das Nakamura que, pela segunda vez, entrara no sonho de uma pessoa. Desta vez não gritou. Limitou-se a observar um ponto claro no tecto, sem se mexer. Várias perguntas surgiam na cabeça dessa rapariga, mas nenhuma resposta surgia.
Demorou uma hora até voltar a adormecer. As palavras que vieram do seu corpo, mas que não eram dela, ecoavam na sua cabeça, impedindo-a de cair no sono.
Se fosse a ti, tinha cuidado!
O tempo está a escassear.
Tem cuidado! Ou perderás… tudo…
Mas… tudo o quê?
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[2]: Quanto a vocês não sei, mas os meus manuais de matemática A são gigantescos. O peso que aquilo faz na mochila…
[3]: Do género wtf? ou gotas!S
[4]: Ok, eu acredito que deva haver duzentos hotéis com este nome, alguns em Portugal. Mas não tinha ideias nenhumas para um nome melhor, e como estou com a Net limitada, não posso fazer pesquisa acerca dos hotéis em Tokyo.
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E pronto, com isto temos um novo capítulo. Devo dizer que fiquei um pouco parva com isto tudo, pois aconteceu muita coisa só nestes dois capítulos. Ou seja, estou a avançar a historia um pouco à pressa. É verdade, mas tenho bons motivos. A fanfic já tem quase dois anos (ou três.. não me lembro) e nunca mais acabo isto. Ainda há muita cena para tratar, não podia perder tempo com palha.
Espero por comentário porque se domingo chgar aqui e não vir nada, não há capítulo para ninguém
Quando Linda voltara a casa, as diferenças notaram-se de imediato. Já não parecia tão carrancuda e toda a moleza da manhã tinha desaparecido. Tinha o casaco cheio de neve e despachou-se a sacudi-lo, enquanto via Mari a pôr a mesa do almoço:
-Correu bem? – Perguntou, com um sorriso, não desviando os olhos dos talheres.
Linda não respondeu de imediato.
-Foste tu que a avisaste, não foste?
O sorriso de Mari evaporou-se, assumindo um ar sério.
-Sim, e não me arrependo. – Largou os pratos e talheres e aproximou-se da morena com um ar decidido. – Não te queria ver naquele estado, principalmente porque fui eu a primeira a pôr-te assim. Desculpa-me por ter sido uma idiota para ti, mas eu tenho motivos para ser tão desconfiada. Eu vi logo quando chegaste à minha casa no inicio de Setembro que eras daquelas pessoas que conquistam a nossa confiança em pouco tempo. E eu não queria arriscar isso contigo. Não quando sabia que tinhas segredos. Foi estúpido. – Ela desviou o olhar, colocando as mãos nas ancas. – Mas foi a minha maneira de te mostrar que escondendo-te não chegarias a lado nenhum.
Linda não alterou a sua expressão facial, olhando para Mari, curiosa.
-Quem foi? – Perguntou, de repente.
Mari ergueu a cabeça.
-Como?
-Quem te traiu? Para tu desconfiares das pessoas desta maneira?
A loira mordeu o lábio, receosa e Linda quase esperava uma reacção da típica Mari, a dizer para ela se meter na sua vida. Mas para sua surpresa, Mari respondeu, num sussurro:
-O meu pai.
-Meninas, p’ra a mesa! – Anunciou Aiko, animada, vindo da cozinha carregando uma travessa de vidro com um apetitoso peru recheado com batatas assadas. – Depois vamos abrir os nossos presentes.
Sentindo-se aliviada pela intervenção da avó, Mari despachou-se a sentar-se à mesa, servindo-se de batatas douradas. Linda suspirou levemente e arrumou o casaco no cabide. Foi aí que reparou num pequeno embrulho turquesa no seu bolso. Há quanto tempo isto ‘tá aqui?
Desembrulhou o pequeno embrulho com cuidado até se dar de caras com uma corrente. Um pequeno colar de prata encontrava-se dentro da caixa, junto a um cartão. Linda reconheceu-o como sendo o colar que estava na montra no mesmo dia em que vira Minako e Naomi. Sem nada a não ser uma corrente, Linda percebeu o objectivo da prenda. Tirou o seu colar e separou o pingente da corrente já gasta do colar improvisado. Ao colocar o pingente junto da corrente de prata, viu que assentava como uma luva. O pingente reluzia dez vezes mais na companhia de uma corrente feito do mesmo metal.
Pegou no cartão, querendo saber quem lhe tinha dado a prenda. O cartão tinha apenas uma frase.
Tinhas razão.
Linda reconhecia a letra. Quantas vezes o vira a rabiscar daquela forma na mesa ao lado? Quantas vezes ela lhe pedia apontamentos do ano anterior, apenas para meter conversa?
Guardou a caixa e dirigiu-se para a mesa, onde Aiko e Mari elogiaram o seu colar, apesar de Mari manter-se calada a maior parte do tempo. Linda sabia que lhe devia uma conversa e não pretendia adiá-la por muito tempo.
Após o almoço, despacharam-se a abrir presentes. Linda recebeu de Aiko uns sapatos novos, perfeitos para a dança:
-Obrigada Aiko! – Agradeceu ela, chegando-se perto da mulher para lhe dar um beijo nas bochechas.
A sua outra prenda era um conjunto de várias. As navegantes haviam se juntado para dar-lhe uma prenda cada uma, todas organizadas numa caixa decorada a papel azul-escuro da cor dos olhos de Linda. Minako dera-lhe uma caixa de acessórios que estava bem recheada, com várias cores e formatos de pulseiras, anéis e acessórios para o cabelo. Ami um livro cujo titulo fora uma grande surpresa:
Lei e Estilo, por Linda O’Connell
Linda O’Connell, escritora amada em vários países desde a Europa, Estados Unidos até à China e ao Japão, edita agora o seu mais recente romance protagonizado pela sua nova personagem fíctida, Andrea Sullivan.
Sullivan trabalha na empresa Cork Industry – uma empresa de advocacia em Londres - como secretária adjunta do Director, Nigel Cork.
Quando o seu patrão é raptado, Andrea descobre um bilhete na sua secretária com pistas para achar o seu paradeiro e um enigma que revela a identidade do seu raptor. Percebendo que a policia não está do seu lado, nem no lado de Nigel, Andrea parte em busca do seu patrão, usando a sua peripécia e curiosidade como ferramentas para achar a chave que falta no enigma. Aventura e muita acção neste novo romance que irá deixar o leitor deliciado e a suspirar pelo próximo.
Linda sorriu e procurou o cartão, onde a letra organizada de Ami dizia:
Feliz Natal, querida.
Achei que quisesses saber mais sobre as origens do teu nome. Já li todos, e acho que este não é dos melhores. Mas, sendo o primeiro, tens que o ler, para além de que eu acredito que vais gostar. Até te mandava o meu livro preferido, mas sei que não quererás saber qual é até o leres por conta própria. É que… era também o livro preferido da tua mãe.
Com amor, Ami
Entendia as razões de Ami e no fundo agradecia a preocupação. Desde que Kentaro lhe falara dos livros que tivera curiosidade em lê-los, mas faltava-lhe vontade em procurá-los. Talvez ela não estivesse preparada para fazer algo que a mãe também tinha feito noutros tempos.
E agora estava ali o primeiro livro da saga. Havia mais e Linda, ao dar uma olhadela na última página, com uma lista dos próximos romances (havia uma, visto o livro ser de uma edição mais recente) pôde ver os seus nomes:
-Areias do tempo
-As asas de Ícaro
-Vício Japonês
-Fita de prata
Linda calculava que fosse Vicio Japonês o preferido de Ami e da mãe, sem dúvida o livro onde o irmão da protagonista enfiava-se em problemas no Japão. O livro onde o nome do irmão vinha mencionado.
Mas, por algum motivo, o primeiro e o quarto livro eram os únicos que não tinham títulos muito atractivos. Eram os únicos onde Linda não sentia lá grande curiosidade em ler. Os restantes atraiam pelos seus títulos enigmáticos e que prometiam muitas aventuras e romances. Isso fez lembrar Linda Será que Andrea tem algum namorado nesta saga, perguntou-se, divertida.
Pousou o livro de Ami de lado e virou-se para as restantes prendas. Makoto mandara-lhe, para além de um grande tupperwear cheio de bolos deliciosos, um caderno vermelho escuro onde postava a insígnia da lua. Parecia um diário. Linda tentou abri-lo, mas viu que se encontrava fechado. Pegou no bilhete da navegante de Júpiter, que lhe dizia que tinha que esperar por um determinado momento para o abrir.
Era só o que me faltava…
Por fim, o presente de Rei. Linda procurou-o por todo o lado dentro da caixa, até que ouviu a voz de Aiko, sentada ao seu lado:
-Linda, não é isto aqui? – Disse, apontando para uma pequena caixa, abandonada num canto escuro da caixa. Linda perguntou-se como é que não dera por ela antes.
-Sim. – Lançou a mão em direcção do embrulho. A caixa era um quadrado perfeito prateado, com uma leve tira dourada nas bordas. Mari arregalou os olhos. Ao ver a reacção da loira, Linda deitou-lhe um olho e ela própria ficou chocada. Mari tinha uma caixa igualzinha na mão.
Ambas entreolharam-se, tentando chegar a um acordo silencioso sobre se era melhor abrir a caixa ou não. Como Linda sabia que Rei jamais lhe faria mal, acenou a cabeça levemente, dizendo a Mari que era seguro.
Abriram as suas respectivas caixas ao mesmo tempo.
Dentro da sua caixa, Linda viu uma pequeníssima pedra cor de fumo branco, que brilhava como diamantes. Era tão pequena que quase se assemelhava a um grão de areia. Ainda assim, era brilhante e tinha algo escrito na pedra.
Apesar de estar a usar óculos, Linda não conseguiu ler o que estava lá escrito. Deitou um olhar em Mari e notou que esta tinha um ar perplexo. Aproximando-se dela, copiou a sua expressão.
Mari recebera também uma pequena pedra. A diferença era que a pedra de Mari era maior e mais brilhante, para além de vir com outra pedra, mas esta era muito menos brilhante e ainda mais pequena que a de Linda.
-Quem te deu isto?
-A tua avó! – Respondeu a loira.
Mari tentou fazer contacto visual com Linda, mas esta evitou os olhos verdes da outra.
Voltou a sentar-se no sofá, onde abriu a prenda dos avós, que viera dentro da caixa. Era uma caixa rectangular grande o suficiente para suportar três manuais de matemática [2]. Ao abri-la, deparou-se com uma grande quantidade de tecido branco em seda. Temendo saber o que se tratava, Linda procurou um cartão. Ao encontrá-lo, apressou-se a lê-lo, reconhecendo a caligrafia do avô:
Podíamos dar-te isto no teu aniversário, mas até lá vai muito tempo e infelizmente, devido às circunstâncias, não iremos poder estar muito tempo contigo e com o Kenji, a não ser para emergências.
Trata-se de um vestido semelhante ao das rainhas, com a única diferença de tu não seres rainha. Mas és filha de uma e neta de outra. Como tal, mereces a prenda.
Linda, quer queiras, quer não, o reino faz parte do teu legado e mesmo que nunca venhas a ser rainha, serás sempre a guardiã do cristal prateado. Usa este vestido quando achares que seja a altura. Pode ser no teu décimo sétimo aniversário, pode ser no teu casamento, ou na coroação do novo rei (quer sejas tu ou o teu irmão). Escolhe tu o melhor momento. O teu coração o dirá. Poderia explicar-te o motivo para que tu o uses, mas tu própria tens que o descobrir. Trata-se de algo que eu e a tua avó temos tentado ver em ti desde que tu nasceste, mas chegou a altura de tu própria o mostrares, sem a ajuda de ninguém. Cresceste e aprendeste a ser responsável. Acredito em ti, minha querida. Sei que hás-de entender o seu significado e abraçar a responsabilidade que te ele obriga a ter.
Considera o vestido prenda da tua avó, enquanto a minha é algo que eu te daria, quer eu fosse rei, quer eu fosse um simples operário sem dinheiro para pôr comida na mesa. Não tem nada a ver com o legado, nem com responsabilidades. Tem a ver com a alma pura que tu possuis. Por muito que penses o contrário, tens um dos corações mais puros que eu alguma vez vi. Apenas não o mostras devido ao universo onde cresceste.
Com o tempo irás te aperceber de tudo. De quem és, do que fazes aqui, de tudo. Apenas tens que ter paciência (acredito que deve ser difícil, mas aguenta). O tempo tudo dirá…
Com amor
Dos teus avós
Quando acabou, não pôde deixar de sorrir, ao mesmo tempo que acariciava o tecido suave. Um vestido branco como o da mãe e o da avó. Ela bem que se lembrava de, numa idade mais inocente, sonhar em ter um, em ser uma senhora respeitada como a mãe e a avó. Talvez fosse esse o significado do vestido.
Não, não me parece…
Releu a carta e os seus olhos pararam no último parágrafo.
Com o tempo irás te aperceber de tudo. De quem és, do que fazes aqui, de tudo. Apenas tens que ter paciência (acredito que deve ser difícil, mas aguenta). O tempo tudo dirá…
Que quereria dizer com aquilo? Teria algo a ver com o facto de ser uma navegante? Bem, era a resposta mais lógica. Mas algo dizia a Linda que, por entre aquelas linhas, escondia-se a verdadeira razão do seu nascimento. O porquê da estranha reacção dos pais, o porquê do irmão ter ficado assustado com tudo. Voltou a ler o parágrafo e parou na última frase. Ela tinha ouvido o avô dizer a mesma frase pouco tempo antes. O tempo tudo dirá…
-Então? Gostas da prenda da tua avó? – Perguntou Aiko, interrompendo os pensamentos de Linda.
-A Aiko sabe o que eles me deram?
-É claro que sei. Achas mesmo que eu não conheço a minha amiga?
-Esperem lá! – Mari levantou-se do sofá – quer dizer que avó sempre soube que ela era…
-A mãe da Rainha de Crystal Tokyo? É claro que sabia. Tal como sei de vocês as duas…
-Como? – Perguntou Linda, trocando um olhar com Mari. – De que é a Aiko está a falar?
Aiko não respondeu logo. Em vez disso, levantou-se e circulou pela sala, suspirando pesadamente. Parou junto do quadro da filha.
-Como é que vocês acham que eu conheci a Usagi? Apesar de termos muita coisa em comum, nunca frequentávamos os mesmos sítios. Foi através de… uma pessoa… que nos conhecemos. E ela teve um enorme fascínio pela Julianna.
Mari ficou pálida, Linda confusa:
-Desculpem, mas quem é a Julianna?
-É a minha mãe – sussurrou Mari. – Julianna Nakamura.
Linda arrependeu-se logo de ter feito a pergunta, mas o mal já estava feito. Aiko continuou, os seus olhos fixos no quadro de Julianna.
-Ela percebeu que havia algo de diferente nela. Dizia que ela a fazia lembrar alguém. Quando a Julianna engravidou, a Usagi contou-me as suas suspeitas.
-Que suspeitas? – Perguntaram as duas adolescentes ao mesmo tempo.
-De que a criança que a Julianna carregava no ventre era uma menina. Uma navegante. – Declarou ela, não notando na palidez das duas jovens, que estavam tão brancas quanto lençóis – na altura não sabia o que isso era, até que ela me esclareceu. De repente lembrei-me das navegantes e das suas histórias que ouvia na minha juventude e até de uma vez onde eu própria fora atacada por um monstro e tinha sido ela a salvar-me.
-A avó foi atacada?
-Eu e mais vinte pessoas. Foi um grande ataque. Pouco tempo depois de a Usagi descobrir que era uma navegante. Eu era pequena, para aí uns seis anos…
Linda ergueu o sobrolho à última parte. Seis anos? Mas a Aiko não tem a idade da minha avó? Apesar de Aiko aparentar uns quarentas, perto dos cinquentas, sempre tivera a impressão de que elas partilhavam a idade. No entanto, havia um factor a considerar. Serenity tinha o cristal prateado para a rejuvenescer.
Mas Usagi fora avó de Kenji antes de fazer quarenta e cinco, então isso queria dizer que…
-Quando a Mari nasceu, todas as suspeitas foram confirmadas. E depois o teu nascimento, Linda, também clareou muito as coisas.
-Então a avó sabe…
-Sim, Mari. – Aiko virou-se para a neta com um sorriso quente. – Sei. E a tua mãe também sabia. E isso era ainda mais um motivo para ela te amar. És especial!
As duas jovens fitaram o chão, ambas perdidas em pensamentos. Aiko lançou um olhar ao quadro da filha e voltou a abrir os presentes dos seus amigos, dando a conversa por terminada.
-Vê a prenda do teu avô! – Disse Aiko, falando como se a conversa momentos antes não tivesse acontecido. – Eu não sei o que é que ele te deu.
Linda pousou os olhos na caixa, com os dedos ainda por cima do tecido branco. Não vendo mais nada, julgou a prenda do avô escondida no meio daquele mar de seda branca. Remexeu cuidadosamente, para não estragar e os seus dedos tocaram em metal leve.
Ergueu as mãos e as três ocupantes soltaram um ‘oh!’.
Linda tinha nas suas mãos uma reluzente tiara de platina, pequena o suficiente para não se parecer uma coroa, mas grande ao ponto de se distinguir de uma bandelete. A tiara era feita de linhas simples e cravejada com pequenas pedras brilhantes em forma de estrelas de três pontas que se dispersavam pela coroa uniformemente. No centro da tiara, havia uma pedra maior, que brilhava ainda mais do que as outras, apesar do seu aspecto se assemelhar mais a uma pedra cheia de gás branco do que outra coisa.
Ao admirar a prenda do avô, tinha a certeza de uma coisa. Que as pedras cravejadas na tiara, com excepção da pedra central, conseguiam riscar o vidro.
-Oh, mas que prenda maravilhosa! Digna de uma princesa – acrescentou Aiko, rindo-se do ar de Linda. – Que foi? O que eu disse é nada mais do que a verdade.
Linda forçou um sorriso, assim como Mari, que não tirava os olhos da pedra central.
-Sabes que pedra é essa?
-Uma moonstone, certo?
-Hum hum… - murmurou Mari, não desviando os olhos da pedra - não tem valor algum em comparação aos brilhantes. Pergunto-me porque é que o teu avô ta deu.
Linda fitou a loira, não respondendo às suas dúvidas. Pousou a tiara de lado, dando a conversa por terminada.
O resto do tempo foi passado em silêncio, ocasionalmente quebrado por uma das três mulheres ou pelo som da televisão. Passaram a tarde na conversa e em jogos de família. Linda não se lembrava de algum Natal assim. Havia sempre alguma coisa diferente, mais majestosa. Mas nunca um Natal simples num lar acolhedor sem a pressão de ter os pais junto à porta, prestes a interromper o bom ambiente.
Mari e Linda falavam uma para a outra, o gelo entre as duas já derretido. Aiko não pôde deixar de sorrir ao ver a neta falar para Linda do mesmo modo que uma amiga fala para a outra. Havia ainda alguma tensão, como se ambas temessem a reacção da outra a cada gesto ou frase, mas já era um grande passo. Ela nunca tivera dúvidas que aquelas duas seriam um dia amigas. Afinal, tinham tanto em comum…
Sem darem por isso, eram já 20h55.
-Oh, pelos deuses! Tenho que fazer o jantar. – Aiko levantou-se do sofá, um pouco aflita.
-Avó! Não sobrou nada do almoço? – Perguntou Mari, que estava sentada no chão, com Linda ao seu lado.
-Sobrou, mas não sei se vocês querem comer o mesmo.
-Por mim tudo bem. – Disse Linda. – Alias, eu até nem tenho muita fome de tanto doce que comi.
-Pois bem, vou aquecer a comida. É melhor irem as duas tomar banho.
-Ok – dissera as duas em uníssono, dirigindo-se cada uma para o seu quarto.
Linda foi rápida no duche e vestiu o seu pijama à velocidade de um comboio. Amarrou o cabelo e saiu do quarto. Avançou em direcção ao quarto de Mari e bateu à porta. Não houve resposta.
Linda abriu a porta e admirou o quarto de Mari. Se Linda era adepta de preto, Mari era de cinzento. Perguntou-se de Cecília era de branco.
O som de água a correr indicava que Mari estava no duche. Deitando uma olhadela no quarto, esperou que a loira saísse da casa de banho.
Mari saiu da divisão, com o corpo enrolado numa toalha de banho e o cabelo preso. O seu rosto mudou de um semblante descontraído para um surpreendido:
-O que fazes aqui?
-Vim falar contigo! – Linda sentou-se na beira da cama, sorrindo levemente, como que encorajando a loira. Esta ficou de pé, sem saber o que fazer.
-Sabes, somos as duas mulheres, podes trocar-te à minha frente.
-Ah? Oh, eu sei. É só que… não sei o que queres falar comigo.
-Sabes sim. – Disse a morena calmamente.
Mari pousou os seus olhos em Linda. Verde e azul, cores diferentes, mas um brilho semelhante.
Desistindo do joguinho de olhares, Mari desenrolou a toalha e mudou-se para o seu pijama. Linda esperou pacientemente até que a loira tivesse o seu pijama vestido, cabelo amarrado e sentada ao lado dela na cama.
-Quantos anos tinha a tua mãe quando nasceste?
Mari esperava várias perguntas, menos essa. Ponderou na resposta:
-Dezassete. Dezasseis quando engravidou. – Murmurou, esperando no fundo que Linda não ouvisse. Mas esta tinha uma boa audição.
-Bem me parecia. Sei que a Aiko e a minha avó tiveram as nossas mães quase na mesma idade, mas se a tua avó é mais nova… bem, bastou fazer as contas.
-Incomoda-te?
-A mim? Porque me incomodaria?
-Eu sou filha de uma adolescente. Se a minha mãe fosse viva, teria trinta e três.
-A minha está viva e tem quarenta e um, com um filho de vinte lá pelo meio.
-Não é a mesma coisa.
-Mas é parecido – Mari soltou uma lufada de ar, enquanto admirava os nós entre os dedos. – Mari? – Sentiu a atenção da loira em si. – O que aconteceu ao teu pai?
-Ele… - Mari desviou o olhar de Linda, fitando a televisão do quarto. – Bem, a minha mãe sempre foi uma rapariga certinha e ela… - sorriu – era quase sempre associada a um anjo. E ela até o era, tão doce, querida, sempre a sorrir…
«De repente, tudo isso mudou. O meu avô morreu e a minha mãe ficou devastada. Já deves ter visto que a minha mãe nada tinha a ver com a minha avó. Bem, ela era parecida com o meu avô em todos os aspectos. Ambos eram sonhadores…Ela estava muito triste e deixou que o namorado – meu pai – a consolasse. Foi aí que engravidou.
-E depois?
-A minha avó obrigou o meu pai a assumir-me. Eu nasci e tudo era lindo. A minha mãe adorava-me, nunca tive dúvidas de que, apesar de eu ter sido um choque e um ‘erro’, ela depressa de afeiçoou a mim. A avó costuma dizer que isso acontece quase sempre que uma mãe segura o seu filho recém-nascido pela primeira vez nos braços. Foi assim com a minha mãe – Mari suspirou de novo, deitando um olhar na morena. Esta fitava o chão, pensativa. – Quando eu fiz quatro, a minha mãe descobriu ter leucemia. Acreditas? Uma rapariga de vinte e dois e saudável com leucemia?
Linda assentiu pesarosamente. Mari continuou, tentando controlar ao máximo as suas emoções:
-Ela lutou, mas a doença levou a melhor. Morreu pouco antes de eu fazer sete anos. Depois… a minha avó ficou comigo. O meu pai usava a Marinha como desculpa para não me visitar. Mas a avó era teimosa. Obrigava-o a pagar a minha educação, a estar presente nos dias especiais, mandava cartas aos meus avós paternos a avisar de tudo o que se passava comigo… ela queria que eu nunca sentisse o vazio deixado pela mãe. – O seu sorriso aumentou – a avó foi muito corajosa. Tinha acabado de perder a filha, mas ignorou a dor para tratar de mim. Acredito que foi porque eu era igualzinha à minha mãe e isso fazia-a sentir... talvez, quem sabe… que a minha mãe nunca tivesse partido.
-Oh Mari…
-Ele vinha cada vez menos. A avó deixou de se importar. Parecia que ele tinha destorcido a história toda aos pais dele e afirmado que eu era filha de outro. Como ele era rico, achavam que era o golpe no baú. E o facto de eu não ter quase nada a ver com ele não ajudou…
-Filho da…
-Acredita que também pensei nisso. Mas apenas mais tarde. Até essa altura, eu sempre achei que ele haveria de voltar. Ele prometera-me, ele sorrira para mim, dera-me presentes lindos e prometera-me que me levaria ao zoo, à escola, a dar um passeio. Mas, por detrás daquele sorriso e daqueles olhos… ele mentia. A partir do momento em que me apercebi que ele jamais voltaria, deixei de confiar logo nas pessoas. Apercebi-me que muita coisa está escondida nos olhos das pessoas. Vi isso quando chegaste. – Virou-se para a morena, que a escutava atentamente sem interromper – Os teus olhos brilhavam do mesmo modo que os dele. Via-se mesmo que escondias algo. O sorriso era igual... pelos céus, até a cor dos olhos era a mesma.
-Lamento Mari. disse Linda, sinceramente.
-Não lamentes! Eu é que me devia ter apercebido que nem todos os segredos são maus. Apenas limitam a pessoa, nada mais. O teu segredo era daqueles que ninguém devia saber... devia permanecer segredo. E eu não entendi isso, mesmo com a Cecília a dizer-me para esquecer… que eram apenas problemas familiares.
-Olha que até está correcto – murmurou Linda calmamente. – Mari cometeste um erro. Todos cometem.
-Desculpa.
-Tens noção das vezes que já ouvi isso hoje?
Sorriram as duas.
-Faço uma pequena ideia. Acredito que o Kenji se tenha fartado de te pedir desculpas.
-Se ele tivesse o palavreado todo que tem em dias normais, acredita que sim. Mas ele até gaguejou e tudo.
-A sério? – Mari ajeitou-se no seu lugar, procurando uma posição confortável. – E eu que sempre achei que ele era um desinibido.
Linda olhou para Mari de lado.
-Pois…
-o que foi?
-Nada, nada…
A atmosfera pesarosa que seguia as duas adolescentes desde Setembro desaparecera. Não parecia haver mais vestígios das antigas rivalidades das duas e ambas estavam contentes com isso. No fundo, tinham que admitir que até esperavam por aquilo fazia algum tempo.
-Amigas? – Sussurrou Linda. Mari assentiu.
-Espero estar à sua altura, majestade.
Ao ver a cara de Linda, Mari soltou uma gargalhada.
-Estava a brincar.
-Não brinques que eu não gosto disso.
-Vais ter que te habituar. Faz parte de ti, não podes ignorar isso.
Linda brincou com uma madeixa de cabelo. Também Mari achava que ela não devia ignorar as suas raízes. Mas ela não queria saber de onde vinha! Ela não queria ter nada com aquele mundo? Tinha pedido ela para nascer de berço de ouro?
-Eu sei… - respondeu ela, num tom aborrecido. Na mesa-de-cabeceira, o telemóvel de Mari anunciou a chegada de uma SMS. Esta apressou-se a ver.
-De quem é?
-Da Cecília? Está a perguntar se eu faço alguma ideia do significado da pedra dela?
-O quê? Ela também recebeu?
Mari assentiu e marcou o número da amiga. Esperou um pouco até que Cecília atendeu ao segundo toque. Mari pôs o telemóvel em alta voz:
-Cecy!
Do outro lado, apenas estática.
-Cecy?
Desta vez, teve resposta. A voz um pouso grave de Cecília ouviu-se em todo o quarto:
-Voltas a chamar-me ‘Cecy’ que eu te enfio o telemóvel por um sítio que eu cá sei.
Aquela era nova. Cecília Tamura a praguejar? Linda abriu a boca num ‘oh’ e fechou-a, prestando atenção à conversa das duas amigas:
-Pois, pois… quem te mandou a prenda?
-A Rainha Serenity. A minha mãe chegou a casa com o embrulho e deu-me. Não tinha cartão nem nada. E a ti?
-Também. Ela veio cá falar com a Linda e deu-me. Por acaso imaginas o seu significado?
-Podes não acreditar, mas sei. Tem algo a ver com a pulseira e os brincos. Acho que as pedras encaixam aí.
Linda reflectiu sobre aquilo que ouvira. Fazia sentido. A pedra que ela recebera era do mesmo tamanho que os pequenos pontos negros do seu pingente. E as pedras de Mari tinham tamanho suficiente para fazerem de brincos. Provavelmente a de Cecília era maior, para caber numa pulseira.
-Sim, faz sentido. Mas temos que…
-Falamos disto mais tarde Mari. Isto é um assunto que temos que falar pessoalmente. Olha, disseste que a Rainha fora aí falar com a Linda. Como é que ela está?
Mari olhou para a rapariga em questão. Esta pôs o dedo nos lábios, que mostravam um sorriso.
-Na mesma.
-Raios! Porque é que ela tem que ser tão teimosa?
As duas raparigas no quarto tentaram controlar uma gargalhada.
-Sei lá. Ela é assim.
-Pois… eu começo a perder a paciência com isto. Se ela amanhã não melhorar, eu vou aí à vossa casa e chamo-a à razão.
Mari e Linda entreolharam-se, desconfiadas.
-E o que é que vais fazer? – Perguntou a loira, num tom brincalhão.
- O costume. Um escândalo, algumas galhetas, um puxão de cabelos…
-Xii, mas que simpática. – Comentou Linda, sarcasticamente. Do outro lado, seguiu-se silêncio.
-Ah... Mari? A Linda está aí?
-Desde o início da chamada! – Respondeu Mari, como se fosse a coisa mais inocente do mundo.
-E NÃO ME DIZES NADA!?
As duas raparigas riram-se a alto e bom som, acabando Mari por cair da cama. Linda sentou-se no chão e tinha que fazer um grande esforço para não rebolar.
O riso acabou por contagiar Cecília, que se riu do outro lado da linha.
-Então está tudo bem? Digo… já não são inimigas?
-Está! – Respondeu Linda, apoiando-se na beira da cama. – Está tudo bem entre nós. Feliz Natal Cecy.
-Oh… não venhas tu com essa também!
Enquanto as três jovens riam-se da nova amizade conquistada e desavenças desaparecidas, a lua deixava que metade dos seus raios iluminassem a terra, enquanto a outra metade estava envolvida em sombras. Ninguém notou em três pequenos raios, semelhantes a chuvas de estrelas que caíram do céu por entre a fase escondida da lua. Ninguém notou que, nessa exacta altura, três flores brilharam com todo o seu esplendor e poder.
**
(25 de Dezembro ás 19h45)
-Feliz Natal Takeo!
A menina respondeu com um abraço caloroso. Kenji passou a mão pelos cabelos da rapariga, tão escuros quanto os de Setsu. Aliás, ela e Setsu eram muito parecidos, com a única diferença de que Takeo tinha os olhos violetas da mãe. Olhos que, naquele momento, encontravam-se escondidos atrás de óculos redondos com armações cor-de-rosa e um pequeno coelho desenhado na ponta.
-Bem vindo Kenji – respondeu Kim Yamamoto. Era uma belíssima mulher de cabelos lisos azuis-claros até aos cotovelos e olhos violeta. Tinha um vestido cai-cai de um azul levemente mais escuro que os olhos e os únicos acessórios que a decoravam eram uma simples pulseira de ouro e a aliança. – Feliz Natal.
-Feliz Natal, Kim. – Desejou Kenji sinceramente. Havia bastante tempo que ele e Kim habituaram-se a tratarem-se pelo primeiro nome.
Estavam os três na entrada, enquanto Eiji e Setsu estavam na sala de estar.
-O meu marido deve estar a vir. Anda sentar-te – sugeriu Kim. Kenji sorriu às qualidades de anfitriã da madrasta de Eiji e Setsu.
Na sala, as decorações atingiam o auge. Uma grande árvore de natal, decorada com bolas e anjos de papel, encontrava-se junto à lareira acesa, decorada por meias vermelhas. A mesa de Natal estava recheada de iguarias que só de ver já davam a Kenji água na boca.
-Estão a discutir acerca do melhor jogador do campeonato. – Disse Takeo ao sei lado, obviamente aborrecida pelo tema discutido pelos irmãos mais velhos.
-O Soda é o melhor! – Afirmava Setsu teimosamente.
-Até a Takeo consegue marcar mais golos que o Soda. – Discordou Eiji. - O Finnigan é o melhor. Tem técnica e já marcou mais golos que toda a sua equipa junta.
-Esse nem japonês! – Berrou Setsu, ansioso.
-Mãe japonesa, pai anglo-japonês.
-Eiji, Setsu! – Chamou Kenji calmamente.
-Mesmo assim. Não é um japonês a 100%. Já o Soda tem todos os seus ancestrais nascidos no Japão.
-Até parece que agora no futebol isso importa. Até temos o Santos, que é mexicano e joga por uma equipa japonesa.
-MENINAS! – Gritou Kenji, atraindo a atenção dos dois irmãos, que de imediato pararam de discutir. Kenji virou-se para Takeo. – Olha-me esta. Chamo-os pelos nomes e não ligam. Digo que são fêmeas e eles lá respondem.
Takeo soltou uma sonora gargalhada. Setsu e Eiji semicerraram os olhos.
-Estávamos a ter uma conversa muito interessante. – Argumentou Setsu.
-Sim, estávamos a confirmar que o Finnigan é o melhor jogador do campeonato japonês.
-Não é não! É o…
-Vá lá meninas, paremos com o histerismo! Para o caso de não terem reparado a vossa irmã é sensível a essas conversas de chacha.
Takeo voltou a rir-se, para embaraço dos dois irmãos.
-Então como correu? – Perguntou Eiji, querendo mudar de assunto.
Kenji sorriu.
-Muitíssimo bem.
-Ela perdoou-te?
Setsu e Eiji não se pouparam a disfarçar o espanto, que se iluminou nos seus rostos.
-Sim. Está tudo bem entre nós. Resolvemos as nossas coisas.
-Estiveste com ela até esta hora?
-Não – Kenji colocou a mão no cabelo. – Estive com a Angelique. Ela queria despedir-se de mim.
-Ela não tinha ido já para Kyoto?
-Não me perguntes porquê, mas a partida foi adiada por algum motivo.
-Hum…Sendo assim, já deve ser seguro para…
-Feliz Natal, família! – Anunciou uma voz grossa, vinda do corredor ao mesmo tempo que se ouviu uma porta a fechar.
-Feliz Natal, querido! – Respondeu Kim, vinda da cozinha. Aproximou-se do marido e beijou-o carinhosamente.
Takeshi Yamamoto apareceu à entrada da sala. Trazia um fato cinzento-escuro e uma mala negra, que pousou no chão. O seu cabelo era de um castanho-escuro, que passara ao mais velho e à mais nova, enquanto os olhos eram cor de avelã como os do filho do meio.
-Boa noite rapazes. Olá, querida. – Beijou a face da pequena e abraços os filhos. Quando se aproximou de Kenji, este estendeu a mão, mas Takeshi recusou-a, evolvendo o rapaz num abraço afectuoso.
-Que tolice. És quase como da família.
-Obrigada Sr. Yamamoto.
-Quantas vezes tenho que te dizer para me trarares por Takeshi?
-Muitas, senhor. – Para Kenji havia uma grande diferença em chamar uma mulher que ele via como uma amiga pelo nome, do que fazer o mesmo a um homem que considerava um pai. – Bastantes.
-Como está a tua irmã?
-Está boa.
Takeo voltou a rir-se, desta vez mais alto, chamando a atenção dos dois.
-O que foi? – Perguntou o patriarca da família Yamamoto.
-O Setsu…
-Cala-te Takeo! – Ordenou Eiji, vermelho como um tomate. Setsu exibia um sorriso trocista.
-Setsu, o que é que disseste ao teu irmão?
Setsu abriu a boca para falar mas, ao ver a atenção de Kenji posta em si, hesitou.
-Deixa p’ra lá pai. O Eiji já está embaraçado o suficiente.
-Mas eu quero saber. – Disse Takeshi, firmemente.
-Bem…
-O Kenji disse que a irmã dele estava boa e o Setsu disse baixinho: “O Eiji que o diga!”.
Kenji ergueu o sobrolho furiosamente para Setsu, Eiji corou ainda mais e Takeshi tentou aguentar uma gargalhada.
-Pede desculpas ao teu irmão, Setsu.
-Porquê?
-Porque o embaraçaste.
-E para isso também tens que me embaraçar? Além disso, já não somos putos.
-A sério? Eu nem tinha reparado nisso – disse Takeshi.
-Oh pai, esqueça o sarcasmo. O Setsu não o entende – disse Eiji.
-O que é sarcasmo? – Perguntou Takeo.
-É dizer o contrário daquilo que dizem ou pensam... Ou outra coisa qualquer… - respondeu Setsu. O seu pai e irmão abanaram a cabeça e Kenji e Takeo entreolharam-se, o mais velho enrolando os olhos ao semblante confuso da miúda. [3] – Como estava a dizer. – Pegou em dois pedaços de papel cor de laranja. – Aqui está – disse, estendendo-os a Kenji. Este manteve a sua expressão inalterada.
-O que é isto?
-Bilhetes VIP para a festa de fim de ano no Hotel Millenium [4].
Kenji arregalou os olhos.
-Como os arranjaste?
-A prenda é minha! – Disse Eiji, chegando-se perto – Achei que tu e a tua namorada quisessem estar na melhor zona na melhor festa do ano.
-Fogo… obrigada Eiji!
-E esta é a minha! – Disse Setsu, estendendo vários bilhetes verde alface. – Para me convidares a mim, à tua irmã e algumas amigas. Para além do Eiji, claro.
-Com mil raios! Tu sabias que eu queria dar este presente ao Kenji. Imitaste-me, bronco!
-Eiji!
-Desculpe pai, mas tenho razão. – Murmurou o loiro.
-Por acaso já tinha esta prenda pronta. E também tive a ideia dos bilhetes VIP, mas não consegui arranjar vários e era mau, nós irmos e os outros ficarem em baixo. Mas faz sentido ele e a namorada querem ter um “tempo a sós”.
Os três rapazes riram-se entre si.
-Obrigada aos dois. Hoje tive as melhores prendas de todas. – Excepto uma, sussurrou a Voz. Desta vez, Kenji não a afastou. Perguntou-se do que seria. Tu sabes muito bem o que é, apenas continuas a negá-lo. Mas a negar o quê?
-Meninos, para a mesa! – Anunciou Kim, que carregava uma enorme travessa cheia de frango, junto da governanta que trazia batatas e saladas frescas.
Todos sentaram-se à mesa e desfrutaram de um bom Natal. No final da refeição, todos trocaram presentes e Kenji não pôde deixar de admirar a família Yamamoto. Unida, amada. Takeshi, Kim, Setsu, Takeo…
Eiji…
De todos, era o mais diferente de todos. Era o único loiro e, apesar de ter os olhos do pai, as suas feições eram muito distintas daquela família. Era o único que tinha semelhanças com Yvonne, primeira esposa de Takeshi e mãe de Setsu e Eiji.
Mas, naquele momento, Eiji estava junto dos irmãos e dos pais – porque ele considerava Kim como a sua verdadeira mãe – e ria-se como ele nunca tinha visto naquelas férias.
Pouco a pouco, o tempo passou e todos dirigiram-se para as suas camas. Kenji sonhou com a irmã sentada no alpendre de uma casa à beira mar, com roupas azul-claras e um leve tom bronzeado a colorir a sua pele. Tentou falar com ela, mas a voz que lhe respondeu não era a de Linda, mas sim a da Voz:
-Se fosse a ti, tinha cuidado! – Linda aproximou-se dele, caminhando sobre o chão de madeira lentamente – o tempo está a escassear.
-A escassear? – Ouviu-se a dizer. – Como assim?
-Tem cuidado! Ou perderás… tudo…
O sonho terminou tão depressa como acabou e Kenji estava depressa no meio de outro sonho, onde carros de Rali e flores amarelas reinavam o cenário. Mas o primeiro sonho não foi esquecido, nem por ele, nem pela rapariga que dormia na casa das Nakamura que, pela segunda vez, entrara no sonho de uma pessoa. Desta vez não gritou. Limitou-se a observar um ponto claro no tecto, sem se mexer. Várias perguntas surgiam na cabeça dessa rapariga, mas nenhuma resposta surgia.
Demorou uma hora até voltar a adormecer. As palavras que vieram do seu corpo, mas que não eram dela, ecoavam na sua cabeça, impedindo-a de cair no sono.
Se fosse a ti, tinha cuidado!
O tempo está a escassear.
Tem cuidado! Ou perderás… tudo…
Mas… tudo o quê?
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[2]: Quanto a vocês não sei, mas os meus manuais de matemática A são gigantescos. O peso que aquilo faz na mochila…
[3]: Do género wtf? ou gotas!S
[4]: Ok, eu acredito que deva haver duzentos hotéis com este nome, alguns em Portugal. Mas não tinha ideias nenhumas para um nome melhor, e como estou com a Net limitada, não posso fazer pesquisa acerca dos hotéis em Tokyo.
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E pronto, com isto temos um novo capítulo. Devo dizer que fiquei um pouco parva com isto tudo, pois aconteceu muita coisa só nestes dois capítulos. Ou seja, estou a avançar a historia um pouco à pressa. É verdade, mas tenho bons motivos. A fanfic já tem quase dois anos (ou três.. não me lembro) e nunca mais acabo isto. Ainda há muita cena para tratar, não podia perder tempo com palha.
Espero por comentário porque se domingo chgar aqui e não vir nada, não há capítulo para ninguém

Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
Ana, antes de mais, tens de alterar a data de actualização da fic, porque senão as pessoas não sabem que já postaste!
Eu por acaso entrei na fic, senão nem desconfiava! 
Agora, indo ao que interessa, este capitulo foi soberbo!
Sim, ok, andas depressa, mas eu não me importo, porque as descrições estão lá e a magia também! Este capitulo foi completamente esclarecedor, não só pelo facto de teres mostrado o que realmente aconteceu com o Kenji e com os pais, mas tambem pelo novo "dom" da Linda, em entrar nos sonhos das pessoas. O nome da fic ganhou muito mais mais sentido!
Amei simplesmente a intervenção dos nossos queridos Mamoru e Usagi! Estava com muitas saudades daquele jeito inteligente e calmo do Mamoru!
E estou tããooo feliz pelas pazes dos maninhos!
Hehehe!
Vê lá se juntas o Kenji e a Mari, é que esses sonhos e aquela ideia idiota de o Kenji arranjar uma "Substituta" para a rapariga são deprimentes!
' Mim querer vê-los, juntos, especialmente depois do abraço tão fofinho que eles deram! 
Agora pode-se dizer que a Linda e a Mari vão ser umas cunhadas muito chegadas!
Até que enfim que se entenderam, a Linda estava a precisar disso, pode ser que agora seja tudo mais fácil de lidar! 
Fiquei também empolgada com a historia da Mari, e surpreendi-me com o facto de a Aiko saber tudo desde o inicio!
Por ultimo, e não menos importante, o Eiji! Amei todo o mistério que envolveu o presente que ele deu á Linda!
"Tinhas razão" diz tudo, e soa tão bem! Realmente não eram precisas mais palavras!
Estou ansiosa pelo ano novo, até porque as descrições do Natal foram deliciosas!
Fico á espera de mais! Bjokas
PS: O tempo está a esgotar-se?! Estou a ficar preocupada!
Eu por acaso entrei na fic, senão nem desconfiava! 
Agora, indo ao que interessa, este capitulo foi soberbo!
Sim, ok, andas depressa, mas eu não me importo, porque as descrições estão lá e a magia também! Este capitulo foi completamente esclarecedor, não só pelo facto de teres mostrado o que realmente aconteceu com o Kenji e com os pais, mas tambem pelo novo "dom" da Linda, em entrar nos sonhos das pessoas. O nome da fic ganhou muito mais mais sentido!
Amei simplesmente a intervenção dos nossos queridos Mamoru e Usagi! Estava com muitas saudades daquele jeito inteligente e calmo do Mamoru!
E estou tããooo feliz pelas pazes dos maninhos!
Hehehe!Vê lá se juntas o Kenji e a Mari, é que esses sonhos e aquela ideia idiota de o Kenji arranjar uma "Substituta" para a rapariga são deprimentes!
' Mim querer vê-los, juntos, especialmente depois do abraço tão fofinho que eles deram! 
Agora pode-se dizer que a Linda e a Mari vão ser umas cunhadas muito chegadas!
Até que enfim que se entenderam, a Linda estava a precisar disso, pode ser que agora seja tudo mais fácil de lidar! 
Fiquei também empolgada com a historia da Mari, e surpreendi-me com o facto de a Aiko saber tudo desde o inicio!
Por ultimo, e não menos importante, o Eiji! Amei todo o mistério que envolveu o presente que ele deu á Linda!
"Tinhas razão" diz tudo, e soa tão bem! Realmente não eram precisas mais palavras! Estou ansiosa pelo ano novo, até porque as descrições do Natal foram deliciosas!
Fico á espera de mais! Bjokas
PS: O tempo está a esgotar-se?! Estou a ficar preocupada!

as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Olá!
Bem faço minhas as palavras da Lulumoon. Ela disse tudo!
Está fantástico!
Gostei imenso da forma como a Usagi e o Mamoru os conseguiram reconciliar. Mas afinal que escondem eles da Linda? Até o irmão sabe de tudo mas não pode dizer...
Foi óptimo a Linda e a Mari finalmente terem feito as pazes, ficou muito divertida a conversa entre elas e a Cecy, lool.
Aquele sonho que a Linda teve foi com o irmão e Mari certo? Bem que constrangedor,loool!
Este novo poder da Linda é muito interessante. Que uso ela lhe irá dar, hum....
Mas o que continuo a achar muito misterioso é aquela voz na cabeça do Kenji. Então afinal aquilo já vem desde pequeno. Mas que voz é aquela? Quem é?
E não me importo nada que avances rápido. Este capítulo já esclareceu muita coisa.
O tempo está a esgotar-se, vão perder tudo...porquê? Está a acabar o tempo para quê?
Espero pelo próximo!
Bjo*
Bem faço minhas as palavras da Lulumoon. Ela disse tudo!
Está fantástico!
Gostei imenso da forma como a Usagi e o Mamoru os conseguiram reconciliar. Mas afinal que escondem eles da Linda? Até o irmão sabe de tudo mas não pode dizer...
Foi óptimo a Linda e a Mari finalmente terem feito as pazes, ficou muito divertida a conversa entre elas e a Cecy, lool.
Aquele sonho que a Linda teve foi com o irmão e Mari certo? Bem que constrangedor,loool!
Este novo poder da Linda é muito interessante. Que uso ela lhe irá dar, hum....
Mas o que continuo a achar muito misterioso é aquela voz na cabeça do Kenji. Então afinal aquilo já vem desde pequeno. Mas que voz é aquela? Quem é?
E não me importo nada que avances rápido. Este capítulo já esclareceu muita coisa.
O tempo está a esgotar-se, vão perder tudo...porquê? Está a acabar o tempo para quê?
Espero pelo próximo!
Bjo*
Olá! sorry pelo atraso, mas tive alguns problemas que me atrasaram na escrita que estava quase pronta 
Lulumoon: Muito obrigada. Ya, o dom da Linda é para isso mesmo, para a ligar mais ao seu papel de Guardiã. Os poderes das outras também o fazem, mas só no próximo capítulo irei explicar como. Eu queria tanto ^pôr o Mamoru nesta fanfic e finalmente encontrei um bom sitio. A principio era para eles se encontrarem 'casualmente', com os maninhos já reconciliados, mas mudei de ideias.
Bun: Muitissimo obrigada pelo comentário Bun. Tipo, o que escondem da Linda é a chave de muitas coisas aqui na fanfic. Pelas minhas contas ainda faltam dois capítulos (sem contar com este) para se ficar a descobrir do que se trata. Estou aqui a pôr muito drama mas no final ainda vão achar que não se trata de nada de mais.
Ahaha... vocês vao-se aperceber de quem é a Voz uns capítulos mais para a frente.
Tecnicamente, faz parte do Kenji. Não é um ser à parte. As diferenças são que a Voz não ignora nada na vida de Kenji. Ódio, amor, culpa, compreensão, esperança, inteligencia. É mais facil imaginarem um Kenji que esconde sentimentos e outro que os mostra
Acerca do 'tempo está a esgotar-se'. Sorry, mas tem a ver com o segredo acerca da Linda, nada mais posso dizer...
Deixemos de paleio, posto agora o novo capítulo. Espero que gostem
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23. Vida Nova
Dias passaram-se e a neve nas ruas começava a derreter, apesar do frio e do tempo nublado. Alguns jovens eram vistos nas ruas, passeando com amigos ou namorados. No meio dessas pessoas, podiam-se ver três jovens homens e, noutro grupo separado, três jovens raparigas.
Mari, Cecília e Linda tinham iniciado uma nova amizade tão forte quanto a de três irmãs. A única resposta que tinham para isso era a ligação que elas tinham: eram as três navegantes, para além de serem muito semelhantes.
Cecília explicou tudo o que sabia a Linda. Contara-lhe que Dawson, uma amiga de Small Lady e de Misaki, era a pessoa por detrás de todos os esquemas e que percebera isso pelas atitudes dela ao seu lado e pela sua aura extremamente negra. A isso, Linda ergueu o sobrolho. Não por causa de Dawson, aliás, sempre a considerara a pior de todas as amigas da mãe. Misaki e Hotaru eram compreensíveis e nada cruéis, Yvonne era fácil de ignorar, mas Dawson não. Linda lembrava-se de uma vez ela ter falado mal de si à sua mãe e esta, cega de raiva, batera em Linda pela primeira e única vez. Doera bastante, não pelo estalo, mas pela reacção da mãe em si.
Outra coisa que a incomodava em Dawson – e esse sentimento era mútuo entre Linda e Cecília – era o facto de Dawson caminhar pelo palácio como se este fosse seu. Mandava nos criados como se ela é que fosse a Rainha e, acima de tudo (Esta parte Linda não a dissera em voz alta. Tinha acabado de se lembrar e não queria contar ás suas novas amigas) Dawson sempre olhara para Kenji e Edward de um modo estranho. Como um caçador a olhar para a sua presa.
Não. O que espantava Linda era o dom de Cecília em entender as almas à sua volta. Já tinha esse dom desde pequenina, mas ele aumentara a partir do momento em que se tornara navegante. Fora assim que percebera que Linda era de confiança.
Isso fazia Linda reflectir. Mari conseguia ter premonições dos acontecimentos à sua volta, Cecília conseguia ler as almas e ela… entrava nos sonhos das pessoas? Mas que lógica era aquela?
Cecília sabia também que Dawson tinha conhecimento da sua identidade como navegante, assim como a da Mari, pois fora ela que dera a pulseira e os brincos às duas. Elas tinham conseguido encontrar a Flor de Júpiter, mas foi no encontro com o homem que Cecília percebera de uma coisa:
-Nesse dia, pedi à Mari para chegar cedo porque queria contar-lhe as minhas suspeitas – Cecília olhou para a loira de lado – mas como já sabes, ela chegou atrasada.
Mari soltou um longo suspiro, virando-se para Linda.
-A Cecília tem um grande problema com a tecnologia. Custa-lhe muito falar destas coisas ao telemóvel.
-Não tenho nada! – Retorquiu a morena, firmemente – Apenas acho que assuntos deste tamanho devam ser discutidos pessoalmente. Mas telemóvel?
-Adiante…
-O que estava a dizer? Ah, eu acho que a Dawson queria que nós nos tornássemos navegantes para assim ter mais gente à procura das Flores. Mal descobrimos uma, ela está lá no dia seguinte?.. muito suspeito!
-Sim, mas eu não acho que isso seja a verdadeira razão. Nós só despertamos os nossos poderes a sério com a Linda ao nosso lado. Supostamente ela devia saber disso, pois deu-nos os ‘objectos’ – contra-argumentou Mari – Com a Linda foi fácil descobrir a Flor de Mercúrio e também tivemos mais facilidade em encontrar a de Júpiter quando nós estávamos noutro sitio.
-Bem, pelo menos eu. Tu estavas atrás da Linda. Mas a Dawson, ou não sabe da Linda ou não a quer transformada. Tipo, ela cresceu rodeada de navegantes, sabe muito mais do que nós (- Cecília…; – Desculpa, Linda, mas eu concordo com a Cecília…). Tem espírito de líder. A Dawson apenas nos queria para achar as Flores, não derrotá-la!
-Ainda assim, não acredito muito nessa história da Dawson saber da Linda.
-Estou-te a dizer que sabe.
-Como queiras…
Linda facilmente percebeu que Cecília ganhava todas as conversas, não porque era a que tinha mais argumentos, mas porque Mari desistia depressa. Mari detestava discordar com Cecília e, quando isso acontecia, tinha sempre o máximo de cuidado com as palavras, de modo a não a ofender. Linda ficou boquiaberta com as acções de Mari perto da amiga. Não havia desconfiança, nem arrogância. No máximo, um pouco de temperamento mas sempre que isso acontecia, Cecília acalmava a loira com uma rapidez que espantou a morena.
Aos olhos de Linda, Cecília não mudara nada, ao contrário de Mari. Continuava a ser a rapariga calma, firme, confiante e inteligente que Linda conhecera nos primeiros dias de escola. Tudo em Cecília indicava equilíbrio, auto-suficiência, confiança, auto-estima e… artes.
-Tens cara de artista, sabias? – Dissera Linda uma vez, por conversa de circunstância. Mari semicerrou os olhos. Cecília manteve a sua expressão do rosto inalterada.
-Ai tenho?
-Hum hum… Tocas algum instrumento?
Cecília abriu a boca, mas Mari cortou o seu discurso:
-Sim. Toca piano e violino. É uma excelente cantora, como é calma, mente facilmente, tem um grande jeito para desenho e já sabes como ela é na dança…
-Mari!
-O que foi? Só digo a verdade. Eu já te tinha dito que devias ser artista.
-E isso levava-me longe? Olha que não me parece.
-E vais seguir outra área só por isso? – Perguntou Linda, calmamente. – Tens medo de arriscar?
-Não… quero dizer… - Cecília reflectiu por uns momentos, estes seguidos por silêncio entre as três. – Acho que tenho. E se eu falhar? E se não for boa o suficiente?
-Acho que os vários professores de artes que já tiveste discordam com cada dúvida que tenhas, Cecília. – Argumentou Mari, conseguindo um sorriso da morena em troca. Retribuindo o gesto, virou-se para Linda – e tu, que planeias fazer?
Linda podia jurar que elas estavam à espera que ela dissesse: Ser Rainha, mas agradeceu nenhum sinal evidente.
-Não sei ainda. Há pouco tempo que estou aqui.
-Mas… - Cecília baixou o tom de voz - lá... tu nunca sonhaste com o teu futuro?
-Não. – Abanou a cabeça. – Sou uma rapariga que se preocupa com o presente e apenas o presente. Foi sempre adiando essa questão mas agora… vem que me dava jeito ter uma pequena ideia.
-O que gostas de fazer?
Linda não demorou a responder:
-Tudo.
Soltou uma gargalhada ao ver as caras das outras duas.
-Estou a gozar. Ainda não sei bem.
-És boa em tudo, lá isso é verdade. – Disse Mari. – Mas tens que gostar de alguma coisa em que sejas boa…
Linda pensou um pouco. No final, viu uma pequena luz no túnel.
-Moléculas!
-Ah?! – Exclamaram as duas ao mesmo tempo.
-Moléculas, DNA, átomos, compostos químicos, células, núcleo, membranas…
-Bioquímica?
-Sim! – Disse ela, entusiasmada.
-é a coisa mais chata à face da Terra. – Comentou Mari, num tom aborrecido.
-Eu gosto.
-Como? – Perguntou Cecília, curiosa.
-A Ami ensinou-me alguns conceitos, depois aprendi o resto na escola e… eu adoro trabalhar num laboratório, adoro saber como funcionam as células, adoro química… é juntar o útil ao agradável.
-E tens notas para isso. – Murmurou a loira. – De certeza que vais conseguir.
-Olha, e tu? O que queres fazer no futuro? – Perguntou Linda.
Mari nem sequer pensou.
-Não sei bem ainda, mas sei a área. Relações Públicas.
Se Mari tivesse dito aquilo a Linda umas semanas antes, ela acharia a loira completamente louca, mas agora a coisa era diferente. Agora Linda sabia como Mari era com pessoas que confiava e, tinha que admitir, Mari tinha muito mais jeito para falar com as pessoas do que ela e Cecília. Porque outro motivo Linda tivera toda a turma contra ela no inicio do ano? Apenas nunca reparara nisso, porque Mari nunca gostara dela, acabando por deixar o seu temperamento levar a melhor e porque Mari nunca usava os seus “dotes” com a avó. Ou talvez usasse. Talvez não responder às provocações da avó e não lhe dar falinhas mansas fosse a forma dela de tratar a avó. Era esperto e explicava o motivo porque Aiko dissera que Mari tinha bom coração. Ela nunca mente. Nunca manipula.
-Acho que ficarias muito bem nessa área. É perfeita para ti.
Mari sorriu.
-Obrigada.
Elas tinham sempre algo para falar e várias vezes Cecília jantava na casa das Nakamura, para espanto de Aiko que ainda não se acostumara às boas atitudes de Linda e Mari entre si. Com o tempo, passaram a conhecerem-se umas às outras e não havia um único segredo uma da outra que elas não soubessem. Ou melhor, quase nenhum…
Linda voltara a visitar o irmão, conversando com ele normalmente e várias vezes levava as meninas consigo. Cecília e Kenji arranjavam excelentes tópicos de conversa e Setsu, Linda, Mari e Eiji eram excelentes a prolongá-la. Os seis conseguiam então passar um excelente serão todos juntos.
Apenas três coisas continuavam diferentes. Kenji tinha uma namorada que nunca trouxera aos serões, mas que estava sempre a ligar-lhe, pedindo sempre para falar com Linda. E todos notavam em como Kenji despachava a conversa mais depressa que o Speedy Gonzalez [5].
Por outro lado, Mari e Kenji quase nunca falavam um com o outro, acabando mesmo por fingirem que o outro não estava na sala. Mas, por várias vezes, Linda apanhou Kenji a mirar Mari atentamente, sempre que esta ria mais alto ou passava a mão pelo cabelo. Ela e Cecília já tinham as suas suspeitas, mas a cada dia que passava estas aumentavam.
De resto, Linda tomara as palavras de Eiji a sério. Ele queria afastar-se e agora ela afastava-se. Falavam normalmente, ela chegara a agradecer pelo colar e discutiam determinados assuntos como nos tempos em que eram apenas amigos. Mas sempre que Eiji tentava desviar o assunto ou falar sozinho com Linda, esta esquivava-se e ou simplesmente ignorava-o.
Era difícil, mas Linda tentava não pensar nisso. Ela, como qualquer outra rapariga, tinha medo de sofrer às custas de um rapaz e Eiji parecia o tipo ideal de rapaz quebra-corações. Aliás, ele já partira o coração dela, quando se afastara ao saber do seu segredo. Mas Linda conseguira colar os pedaços e tentava agora não os desfazer de novo. Para isso, tinha que ter um tempo, tal como ele pedira.
Dois dias antes do ano novo, Setsu mencionou a festa de fim de ano no hotel e convidou as três raparigas para irem com eles. Elas aceitaram e estavam prestes a irem-se embora, quando Kenji voltou, vindo do quarto.
-Não te importas de amanhã vires cá ter com a Angelique? – Perguntou, dirigindo-se para a irmã.
-Porquê? – Perguntou Linda, ignorando os olhares de riso de Setsu e Eiji.
-Ela quer conhecer-te e assim iam as duas comprar vestidos para a festa. Oh, Setsu, disseste às miúdas que era uma festa de máscaras?
O moreno bateu com a palma da mão na testa.
-Bem me parecia que me tinha esquecido de alguma coisa. Pois bem, tragam máscaras meninas para taparem os rostos. Mas… tragam algo curto. Olhem que temos que poupar tecido.
Mari e Linda riram-se. Cecília ergueu o sobrolho:
-Obrigada pelo conselho. – Disse ela, ríspida, saindo pela porta, seguida por Mari. Linda conseguiu ouvir a morena murmurar algo semelhante a “idiota”.
-Vens cá amanhã ou não?
-Venho! – Assegurou Linda, apesar de não ter um bom pressentimento acerca do encontro com a namorada do irmão. E o facto de Eiji e Setsu estarem a controlar o riso não ajudava em nada.
-O que foi? – Murmurou ela, quando o irmão estava fora de vista. – Ela é assim tão má?
-Vais ver… - sussurrou Eiji, por entre gargalhadas silenciosas.
Linda foi-se embora, perguntando-se qual seria o mal de Angelique.
**
No dia seguinte, percebeu.
-Olá Linda. Prazer em conhecer-te! – E foi abraçada fortemente pela namorada do irmão, com toda a simpatia que esta podia oferecer. Linda quase que podia jurar que algumas das suas costelas tinham-se fracturado com a força de Angelique.
Esta era filha de mãe francesa e pai japonês e o primeiro nome era a única ligação que tinha à França, sendo o resto, aparência, língua, cultura e maneiras, todas vindas do Japão. Até o perfume que ela usava era japonês. (Há mesmo um perfume japonês, perguntou Linda para os seus botões). Estudava enfermagem e fora a partir de conhecidos que conhecera Kenji. O namoro durava umas semanas, mas ela já achava que iria durar para sempre. Tinha o sonho de ser Miss Japão, mas tinha como prioridade tirar o curso de enfermagem. Só depois é que se iria concentrar numa rotina diária de proteínas e hidratos de carbono e muito exercício a fim de conquistar o tão desejado corpo de modelo que ela perdera durante a faculdade.
Adorava sorrir, ver rapazes a jogar futebol e falar com as amigas o máximo que o seu saldo de telemóvel permitisse.
Linda descobrira isso tudo sobre Angelique em menos de cinco minutos, onde todo esse tempo Angelique apenas falara de si e de como elas haveriam de ser grandes amigas, o que Linda duvidava.
Alias, Linda perguntava-se o que é que teria feito Kenji juntar-se a esta rapariga, visto serem tão incompatíveis.
O aspecto…
Assim que vira Angelique, não conseguiu evitar abrir a boca num perfeito ‘oh’ que apenas fizera com que Eiji e Setsu se rissem atrás da namorada do irmão. Linda sabia agora porque é que eles achavam tanta piada a Angelique e tinham ansiado tanto para que Linda a conhecesse.
Não era porque Angelique fosse feia – pelo contrário, era lindíssima – mas ela era estranhamente parecida com Mari. Não apenas os cabelos dourados e os olhos verdes, mas também algumas feições. Linda quase que julgava que era Mari que estava à frente dela, até que Angelique falou numa voz mais aguda que Mari e abraçara-a, acordando-a para a realidade.
Angelique fora ao quarto do irmão e foi aí que os irmãos Yamamoto explodiram, soltando altas gargalhadas à cara de parva de Linda:
-Como é que…
-Já telefonamos à Aiko…. Ela disse que pode ser uma prima… O marido dela cortara relações com os irmãos e… sabes que a Mari é parecida com a mãe que, por sua vez… era parecia com o pai. – Respondera Eiji, entre gargalhadas.
-Com mil raios…
-Também pensamos nisso… quando ele nos apresentou-a. – Disse Setsu, tentando recuperar o fôlego de tanto rir.
-Será que ele começou a namorar com ela por causa…
-Não sei, mas é bem capaz. É que ele não suporta as conversas com a Angel (ela prefere que a tratemos assim). Ou ignora-a ou beija-a para ela se calar.
-Mas que… - Linda não pôde terminar a frase, pois Angel voltara, arrastando o irmão pelo braço. Este parecia extremamente aliviado por ver Linda.
-Obrigada por teres vindo. A Angel queria tanto conhecer-te…
-Não tens de quê! – Sorriu, mas lançou um olhar ao irmão que indicava claramente “Deves-me uma!”. Kenji sorriu.
-Muito bem, divirtam-se. – Beijou Angel rapidamente e regressou para o quarto.
-Oh, como ele é tão estudioso! Está sempre tão preocupado com os exames…
Linda ergueu o sobrolho e teve a confirmação das suas suspeitas ao olhar para Setsu, que lhe sorria em retorno. Os exames eram apenas em meses… Sendo Angel uma universitária, não devia ela saber disso?
-Pois… mas sabes como é o curso de medicina… exigente. – Respondeu Setsu, como se tivesse lido a mente de Linda.
Ah, então era essa a desculpa dele.
Angel palrou o caminho todo em direcção ao shopping, dentro do carro dela. Temendo perder a paciência e a boa educação antes de lá chegarem, pegou no telemóvel e marcou o número de Cecília. Se ia ter que aturar uma loira fala-barata, sósia de Mari e ainda fazer compras com ela, não o iria fazer sozinha…
**
-Com mil raios…
-Foi essa a minha reacção – sussurrou Linda ao ouvido da morena. Estavam na loja de vestidos no andar inferior, onde todos os vestidos estavam organizados por cores. Angel fora falar com a funcionara, afirmando ter um vestido reservado e Cecília aproveitara essa altura para dizer em voz alta os pensamentos que ecoavam na cabeça.
-A Mari sabe que…
-Não! E também não a ia convidar sabendo que a namorada do meu irmão é uma cópia dela.
-Achas que isso significa…
-Não acho, tenho a certeza. É que ele nem consegue ouvi-la falar.
-Isso são boas noti… - mas Cecília teve o seu discurso, mais uma vez interrompido, pois Angel aparecera, com um enorme sorriso nos lábios:
-Então, já escolheram os vestidos? A ti – apontou para Cecília – como tens um tom de pele mais escuro que o meu e o da Linda, aconselho-te um vestido de cor escura ou forte. Ou ambos. Mas nunca amarelo ou dourado ou verde ou…
-Eu entendi… - respondeu Cecília, com um sorriso amarelo. Começou a mexer nos vestidos, em busca de algo inconcreto. Linda seguiu-a, evitando Angel, que fora para outra secção. – Que chata!
-Concordo contigo.
Cecília parou de repente.
-O que foi?
-Eu tenho este vestido em casa – disse. Segurava a bainha de um vestido vermelho vivo que iria levemente até abaixo do joelho. Tinha um corte rectangular e as alças eram grossas, semelhantes a pequenos pedaços de pano colados ao tecido. Era um vestido simples, mas bonito. Linda imaginava que ficaria perfeito no corpo elegante de Cecília.
-Aí tens? Porque não o usas. De certeza que te iria ficar bem…
Cecília lambeu os lábios secos.
-A minha mãe costuma dar-me vestidos destes. Acredita, tenho quase toda a loja no armário. Eu adoro vestidos, mas nunca uso porque…
-Era o mesmo que afirmares à tua mãe que gostas daquele mundo – completou Linda, compreensiva. – Eu também sei o que isso é. A diferença é que nunca gostei dos vestidos que os meus pais me davam. Cheios de rendas e cores ridículas, como o rosa. Eu detesto rosa!
-Também eu.
-Oh, meninas. Vejam este vestido cor-de-rosa! – Gritou Angel, segurando um vestido curtíssimo de um rosa choque muito vivo. Cecília e Linda entreolharam-se, abafando o riso.
-É lindo Angel!
-Oh, como eu adoro cor-de-rosa! – Respondeu Linda num tom 100% sarcástico, enrolando os olhos. Angel não o decifrou.
-Oh, desculpe – chamou a empregada – onde está o meu vestido?
-Está a caminho, menina, espere só um momento.
Linda suspirou pesadamente.
-Nunca mais saímos daqui…
-Vá lá, aguenta! Ainda falta o teu vestido – encorajou Cecília, procurando mais escolhas.
-Já decidiste o teu?
-Levo o vermelho. Não me apetece procurar mais. Agora… - deitou um olhar a Linda, como que examinando-a a raio X – quando olho para ti só penso numa cor… azul.
-Que tipo de azul?
-Hum... ainda não sei… - Cecília dirigiu-se à secção de vestidos azuis, onde vasculhou a pente fino cada amostra de tecido. A certa altura parou, sorrido vitoriosamente:
-Olha este! – Tirou a cruzeta e mostrou a Linda.
Era de um azul claro, como céu num dia límpido sem nuvens. Era feito de seda pura e descia desde até aos tornozelos. A parte de cima era uma mistura de corpete com trajes medievais, com um corte em V que se alastrava até aos ombros, para os deixar semi-nus. [6] Não tinha mangas, apesar de Linda imaginar o vestido com umas. O corte da saia tinha grandes ondulações que sem dúvida dariam à rapariga que o vestisse uma silhueta invejável.
-Perfeito para ti! – Disse Cecília, sem tirar os olhos do vestido.
-E muito caro! – Retorquiu Linda, examinando o preço. – Custa uma fortuna.
-Eu tenho-o no meu armário. E como nós vestimos o mesmo, não precisas de fazer compras.
Linda não conseguiu deixar de sorrir. Ela queria mesmo usar aquele vestido.
-A sério? O mesmo modelo?
-Sim, exactamente igual. Por acaso eu andava à procura de um melhor, mas encontrei este e penso que te assenta como uma luva. Queres experimentar?
-Agora não… não quero perder mais tempo aqui. – Linda pegou no vestido e guardou-o no sítio. Procurou Angel com os olhos e viu-a com a empregada, assinando uns papéis.
-Por acaso sabes porque é que ela reservou o vestido? – Perguntou Cecília, que dava uma olhadela nos vestidos na secção dos laranjas e dourados.
Linda semicerrou os olhos.
-Ela diz “reservar”, mas é mais “consertar”. Não gostou de um determinado corte no vestido. Prefere ter as costas nuas do que ter fios lá espalhados. Mandou retirá-los, mas parece que hoje em dia, uma pequena alteração num vestido dá muito trabalho.
-Olha este vestido! – Exclamou Cecília, maravilhada.
-Também o tens no armário?
-Tenho… e a Mari adora-o. Claro que ela não o admite, mas eu sei que sim. Fica-lhe mesmo bem.
Linda olhou para o vestido nas mãos de Cecília. Era de facto muito bonito. Talvez ainda mais do que o de Linda. Era de seda laranja com alças finas e fios pelas costas. O decote era discreto, mas era bom o bastante para um peito menos ‘chamativo’ como o de Mari. O vestido era curvilíneo nas ancas, a fim de ‘colar’ as curvas da rapariga ao vestido. Depois, descia num molhe de tecido até aos tornozelos. Pequenas dobras na zona frontal facilitavam os movimentos e até davam um ar sensual para quem usasse sapatos de salto-alto.
-A Mari tem que o vestir!
-Pois tem! – Concordou Cecília, sorrindo de orelha e orelha. – Vou emprestar-lhe. De certeza que ela ainda não arranjou roupa. E contigo ao meu lado, de certeza que ela não vai nos deixar mal.
-Espero bem que não.
O bom ambiente das raparigas foi interrompido por Angel, que trazia o vestido numa caixa nos seus braços.
-Vamos meninas, já estou pronta! Arranjaram os vossos vestidos?
-Não é preciso – respondeu Linda, cordialmente – Nós já os temos em casa.
-Ainda vem – Angel notou no vestido laranja nas mãos de Cecília e sorriu – Gostam? É o meu vestido! Não gostei dos fios atrás e mandei tira-los. Ficou uma beleza, querem ver?
-Não. – Responderam as duas ao mesmo tempo.
-Menina! – Chamou a empregada do balcão – Esqueceu-se de assinar aqui!
-Oh, pelos deuses… nunca mais faço encomendas aqui. Tanta papelada! – Prometeu Angel, enquanto virava costas às jovens e dirigia-se à empregada.
O sorriso de Cecília desapareceu e pousou o vestido tristemente.
-Bem... parece que a Mari já não pode usar o vestido.
Linda não respondeu logo. Na sua cabeça, fervilhava uma ideia.
-Ou talvez possa. – Sussurrou, com um sorriso malicioso.
Cecília entendeu o plano dela e retribuiu o sorriso.
As duas trataram dos detalhes do seu plano, enquanto Angel despachava-se nas outras compras. Fizeram questão de estar com Angel quando esta comprara uma máscara laranja a combinar com o vestido. Linda distraiu a namorada de Kenji, enquanto Cecília pediu silêncio ao homem da caixa, enquanto pagava uma mascara igual.
Deram conselhos a Angel para não comprar jóias vistosas, mas coisas simples, para que não chamasse mais a atenção do que o vestido (ou que não fossem notadas pelo namorado em plena festa nocturna).
No final, Linda e Cecília voltaram para casa com um enorme sorriso nos lábios. Cecília foi ao seu armário e separou os vestidos vermelho, azul e laranja para levar, assim como a sua máscara e a de Mari. Pegou nalgumas jóias (provavelmente teria que torturar Mari para que esta usasse alguma) e em maquilhagem, pois sabia que nem Linda nem Mari usavam. Depois de tudo preparado, tomou banho e deitou-se, adormecendo em seguida.
Já Linda foi bombardeada de perguntas por Aiko, que queria saber como era a namorada de Kenji. Ela respondeu, mas fazendo questão que fosse na cozinha, longe de Mari. Linda sabia que a loira sentir-se-ia torturada se tivesse que ouvir acerca de uma rapariga que namorava com o rapaz que ela gostava.
Aiko perguntou se ela era tão parecida com Mari quantos os rapazes sugeriram. Linda sorriu:
-É, mas eu acho a Mari e a Julianna mais bonitas – disse, sem se aperceber do que dissera. – Desculpa Aiko.
-Porquê? Tu não insultaste a minha filha. Elogiaste-a até! – Aiko pegou nas mãos de Linda, apertando-as – Ainda dói, mas já não tanto. A Mari cresce todos os dias mais parecida com ela e… penso que nunca a perdi. – Uma lágrima saia pelo canto do olho – A Mari é tudo para mim. Eu só quero que ela seja feliz. Achas que o Kenji é capaz de lhe fazer isso?
Linda ficou sem palavras.
-Não sei… eu acho que eles gostam um do outro…
Aiko riu-se.
-É isso que achas? Se prestasses mais atenção, verias neles umas semelhanças com um casal que conheces. Foi isso que eu estive a falar com a tua avó quando ela veio cá.
Linda não perguntou quem. Ela já sabia. Mas não conseguia encontrar as tão fáceis semelhanças entre Kenji e Mari e Usagi e Mamoru.
Naquela noite, voltara a acontecer. Desta vez, apareceu uma menina de cabelos castanhos e olhos da mesma cor a brincar no baloiço. Um homem empurrava-a e a menina gritava de alegria sempre que chegava ao ponto mais alto.
-Mais alto papá! Mais alto! – Gritava a menina. O homem sorriu e deu um empurrão mais forte, fazendo a menina elevar-se um pouco mais alto. Esta gritou de alegria.
À sua volta não havia mais ninguém no parque. Ninguém com excepção de uma mulher, tão bela quanto a rapariga e que sorria para o esposo, enquanto este empurrava a filha mais alto.
A mulher aproximou-se e o marido beijou a testa dela e abraçou-a, enquanto a pequenina elevava-se sozinha no ar, tendo apanhado o jeito.
A imagem da família feliz foi então distorcida e de repente nuvens azuis escuras, púrpuras e negras tiraram a cor ao cenário e afastaram os três elementos da família. O homem perdeu-se num buraco negro, e mulher ficou próxima da filha, mas não o suficiente para a alcançar. A pequenina estava agora sentada no baloiço a chorar, com a mãe longe e o pai morto. Estava sozinha.
A imagem da menina alterou-se e ela começou a mudar para uma adolescente tão bela quanto a mãe, mas com um semblante muito triste e diferente do de outrora.
Linda contraiu os músculos do cérebro e saiu do sonho. Agora pairava sobre o quarto de Cecília e ela pôde ver, com pesar, que uma lágrima caía pelo rosto da amiga.
Tentou regressar à sua mente, desejosa de ter aquela noite por terminado, fazendo inúmeros esforços.
Ao fim de alguns minutos, conseguiu. Desta vez, não chegou sequer a abrir os olhos. Apenas fez algo que ela nunca fizera na vida: rezou.
Rezou para que aquele dom que tinha parasse e que ela não tivesse que entrar nos sonhos das pessoas e muito menos nos seus pesadelos. Rezou para que ela, para além de ter as suas desgraças, não tivesse que ver as desgraças dos outros, principalmente as dos seus amigos. E finalmente, rezou para que todos eles encontrassem paz interior. Se tal acontecesse, ela deixaria de entrar nos sonhos deles. Linda percebera isso agora mesmo com Cecília.
Mari sentia-se atraída por um homem que julgava impossível de ter, mas por quem ela se deixava perder… tal como a mãe.
Kenji temia por algo. Algo que tinha a ver com ela, a pessoa que ele mais amava no mundo.
Cecília… tinha saudades dos pais. Pelo menos da alegria da mãe, da sua verdadeira presença.
As lutas constantes das almas deles atordoavam Linda, que precisou de toda a sua força para conseguir dormir, tal era a sua vontade de chorar.
Lá fora, a lua estava escondida por detrás de nuvens negras. Não era um presságio para maus acontecimentos, mas também não era presságio para bons.
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[1]:
Eu acredito que vocês devam saber quem é o Speedy, mas para quem não sabe, o Speedy Gonzalez é um ratinho mexicano super rápido, protagonista de desenhos animados como os Looney Tunes.
[2]: Hum... para terem uma ideia melhor de como é o vestido, vejam o vestido azul da Aurora d’A Bela Adormecida. Não é exactamente igual, mas o estilo da parte de cima é semelhante.

Lulumoon: Muito obrigada. Ya, o dom da Linda é para isso mesmo, para a ligar mais ao seu papel de Guardiã. Os poderes das outras também o fazem, mas só no próximo capítulo irei explicar como. Eu queria tanto ^pôr o Mamoru nesta fanfic e finalmente encontrei um bom sitio. A principio era para eles se encontrarem 'casualmente', com os maninhos já reconciliados, mas mudei de ideias.

Bun: Muitissimo obrigada pelo comentário Bun. Tipo, o que escondem da Linda é a chave de muitas coisas aqui na fanfic. Pelas minhas contas ainda faltam dois capítulos (sem contar com este) para se ficar a descobrir do que se trata. Estou aqui a pôr muito drama mas no final ainda vão achar que não se trata de nada de mais.
Ahaha... vocês vao-se aperceber de quem é a Voz uns capítulos mais para a frente.
Tecnicamente, faz parte do Kenji. Não é um ser à parte. As diferenças são que a Voz não ignora nada na vida de Kenji. Ódio, amor, culpa, compreensão, esperança, inteligencia. É mais facil imaginarem um Kenji que esconde sentimentos e outro que os mostra

Acerca do 'tempo está a esgotar-se'. Sorry, mas tem a ver com o segredo acerca da Linda, nada mais posso dizer...

Deixemos de paleio, posto agora o novo capítulo. Espero que gostem

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23. Vida Nova
Dias passaram-se e a neve nas ruas começava a derreter, apesar do frio e do tempo nublado. Alguns jovens eram vistos nas ruas, passeando com amigos ou namorados. No meio dessas pessoas, podiam-se ver três jovens homens e, noutro grupo separado, três jovens raparigas.
Mari, Cecília e Linda tinham iniciado uma nova amizade tão forte quanto a de três irmãs. A única resposta que tinham para isso era a ligação que elas tinham: eram as três navegantes, para além de serem muito semelhantes.
Cecília explicou tudo o que sabia a Linda. Contara-lhe que Dawson, uma amiga de Small Lady e de Misaki, era a pessoa por detrás de todos os esquemas e que percebera isso pelas atitudes dela ao seu lado e pela sua aura extremamente negra. A isso, Linda ergueu o sobrolho. Não por causa de Dawson, aliás, sempre a considerara a pior de todas as amigas da mãe. Misaki e Hotaru eram compreensíveis e nada cruéis, Yvonne era fácil de ignorar, mas Dawson não. Linda lembrava-se de uma vez ela ter falado mal de si à sua mãe e esta, cega de raiva, batera em Linda pela primeira e única vez. Doera bastante, não pelo estalo, mas pela reacção da mãe em si.
Outra coisa que a incomodava em Dawson – e esse sentimento era mútuo entre Linda e Cecília – era o facto de Dawson caminhar pelo palácio como se este fosse seu. Mandava nos criados como se ela é que fosse a Rainha e, acima de tudo (Esta parte Linda não a dissera em voz alta. Tinha acabado de se lembrar e não queria contar ás suas novas amigas) Dawson sempre olhara para Kenji e Edward de um modo estranho. Como um caçador a olhar para a sua presa.
Não. O que espantava Linda era o dom de Cecília em entender as almas à sua volta. Já tinha esse dom desde pequenina, mas ele aumentara a partir do momento em que se tornara navegante. Fora assim que percebera que Linda era de confiança.
Isso fazia Linda reflectir. Mari conseguia ter premonições dos acontecimentos à sua volta, Cecília conseguia ler as almas e ela… entrava nos sonhos das pessoas? Mas que lógica era aquela?
Cecília sabia também que Dawson tinha conhecimento da sua identidade como navegante, assim como a da Mari, pois fora ela que dera a pulseira e os brincos às duas. Elas tinham conseguido encontrar a Flor de Júpiter, mas foi no encontro com o homem que Cecília percebera de uma coisa:
-Nesse dia, pedi à Mari para chegar cedo porque queria contar-lhe as minhas suspeitas – Cecília olhou para a loira de lado – mas como já sabes, ela chegou atrasada.
Mari soltou um longo suspiro, virando-se para Linda.
-A Cecília tem um grande problema com a tecnologia. Custa-lhe muito falar destas coisas ao telemóvel.
-Não tenho nada! – Retorquiu a morena, firmemente – Apenas acho que assuntos deste tamanho devam ser discutidos pessoalmente. Mas telemóvel?
-Adiante…
-O que estava a dizer? Ah, eu acho que a Dawson queria que nós nos tornássemos navegantes para assim ter mais gente à procura das Flores. Mal descobrimos uma, ela está lá no dia seguinte?.. muito suspeito!
-Sim, mas eu não acho que isso seja a verdadeira razão. Nós só despertamos os nossos poderes a sério com a Linda ao nosso lado. Supostamente ela devia saber disso, pois deu-nos os ‘objectos’ – contra-argumentou Mari – Com a Linda foi fácil descobrir a Flor de Mercúrio e também tivemos mais facilidade em encontrar a de Júpiter quando nós estávamos noutro sitio.
-Bem, pelo menos eu. Tu estavas atrás da Linda. Mas a Dawson, ou não sabe da Linda ou não a quer transformada. Tipo, ela cresceu rodeada de navegantes, sabe muito mais do que nós (- Cecília…; – Desculpa, Linda, mas eu concordo com a Cecília…). Tem espírito de líder. A Dawson apenas nos queria para achar as Flores, não derrotá-la!
-Ainda assim, não acredito muito nessa história da Dawson saber da Linda.
-Estou-te a dizer que sabe.
-Como queiras…
Linda facilmente percebeu que Cecília ganhava todas as conversas, não porque era a que tinha mais argumentos, mas porque Mari desistia depressa. Mari detestava discordar com Cecília e, quando isso acontecia, tinha sempre o máximo de cuidado com as palavras, de modo a não a ofender. Linda ficou boquiaberta com as acções de Mari perto da amiga. Não havia desconfiança, nem arrogância. No máximo, um pouco de temperamento mas sempre que isso acontecia, Cecília acalmava a loira com uma rapidez que espantou a morena.
Aos olhos de Linda, Cecília não mudara nada, ao contrário de Mari. Continuava a ser a rapariga calma, firme, confiante e inteligente que Linda conhecera nos primeiros dias de escola. Tudo em Cecília indicava equilíbrio, auto-suficiência, confiança, auto-estima e… artes.
-Tens cara de artista, sabias? – Dissera Linda uma vez, por conversa de circunstância. Mari semicerrou os olhos. Cecília manteve a sua expressão do rosto inalterada.
-Ai tenho?
-Hum hum… Tocas algum instrumento?
Cecília abriu a boca, mas Mari cortou o seu discurso:
-Sim. Toca piano e violino. É uma excelente cantora, como é calma, mente facilmente, tem um grande jeito para desenho e já sabes como ela é na dança…
-Mari!
-O que foi? Só digo a verdade. Eu já te tinha dito que devias ser artista.
-E isso levava-me longe? Olha que não me parece.
-E vais seguir outra área só por isso? – Perguntou Linda, calmamente. – Tens medo de arriscar?
-Não… quero dizer… - Cecília reflectiu por uns momentos, estes seguidos por silêncio entre as três. – Acho que tenho. E se eu falhar? E se não for boa o suficiente?
-Acho que os vários professores de artes que já tiveste discordam com cada dúvida que tenhas, Cecília. – Argumentou Mari, conseguindo um sorriso da morena em troca. Retribuindo o gesto, virou-se para Linda – e tu, que planeias fazer?
Linda podia jurar que elas estavam à espera que ela dissesse: Ser Rainha, mas agradeceu nenhum sinal evidente.
-Não sei ainda. Há pouco tempo que estou aqui.
-Mas… - Cecília baixou o tom de voz - lá... tu nunca sonhaste com o teu futuro?
-Não. – Abanou a cabeça. – Sou uma rapariga que se preocupa com o presente e apenas o presente. Foi sempre adiando essa questão mas agora… vem que me dava jeito ter uma pequena ideia.
-O que gostas de fazer?
Linda não demorou a responder:
-Tudo.
Soltou uma gargalhada ao ver as caras das outras duas.
-Estou a gozar. Ainda não sei bem.
-És boa em tudo, lá isso é verdade. – Disse Mari. – Mas tens que gostar de alguma coisa em que sejas boa…
Linda pensou um pouco. No final, viu uma pequena luz no túnel.
-Moléculas!
-Ah?! – Exclamaram as duas ao mesmo tempo.
-Moléculas, DNA, átomos, compostos químicos, células, núcleo, membranas…
-Bioquímica?
-Sim! – Disse ela, entusiasmada.
-é a coisa mais chata à face da Terra. – Comentou Mari, num tom aborrecido.
-Eu gosto.
-Como? – Perguntou Cecília, curiosa.
-A Ami ensinou-me alguns conceitos, depois aprendi o resto na escola e… eu adoro trabalhar num laboratório, adoro saber como funcionam as células, adoro química… é juntar o útil ao agradável.
-E tens notas para isso. – Murmurou a loira. – De certeza que vais conseguir.
-Olha, e tu? O que queres fazer no futuro? – Perguntou Linda.
Mari nem sequer pensou.
-Não sei bem ainda, mas sei a área. Relações Públicas.
Se Mari tivesse dito aquilo a Linda umas semanas antes, ela acharia a loira completamente louca, mas agora a coisa era diferente. Agora Linda sabia como Mari era com pessoas que confiava e, tinha que admitir, Mari tinha muito mais jeito para falar com as pessoas do que ela e Cecília. Porque outro motivo Linda tivera toda a turma contra ela no inicio do ano? Apenas nunca reparara nisso, porque Mari nunca gostara dela, acabando por deixar o seu temperamento levar a melhor e porque Mari nunca usava os seus “dotes” com a avó. Ou talvez usasse. Talvez não responder às provocações da avó e não lhe dar falinhas mansas fosse a forma dela de tratar a avó. Era esperto e explicava o motivo porque Aiko dissera que Mari tinha bom coração. Ela nunca mente. Nunca manipula.
-Acho que ficarias muito bem nessa área. É perfeita para ti.
Mari sorriu.
-Obrigada.
Elas tinham sempre algo para falar e várias vezes Cecília jantava na casa das Nakamura, para espanto de Aiko que ainda não se acostumara às boas atitudes de Linda e Mari entre si. Com o tempo, passaram a conhecerem-se umas às outras e não havia um único segredo uma da outra que elas não soubessem. Ou melhor, quase nenhum…
Linda voltara a visitar o irmão, conversando com ele normalmente e várias vezes levava as meninas consigo. Cecília e Kenji arranjavam excelentes tópicos de conversa e Setsu, Linda, Mari e Eiji eram excelentes a prolongá-la. Os seis conseguiam então passar um excelente serão todos juntos.
Apenas três coisas continuavam diferentes. Kenji tinha uma namorada que nunca trouxera aos serões, mas que estava sempre a ligar-lhe, pedindo sempre para falar com Linda. E todos notavam em como Kenji despachava a conversa mais depressa que o Speedy Gonzalez [5].
Por outro lado, Mari e Kenji quase nunca falavam um com o outro, acabando mesmo por fingirem que o outro não estava na sala. Mas, por várias vezes, Linda apanhou Kenji a mirar Mari atentamente, sempre que esta ria mais alto ou passava a mão pelo cabelo. Ela e Cecília já tinham as suas suspeitas, mas a cada dia que passava estas aumentavam.
De resto, Linda tomara as palavras de Eiji a sério. Ele queria afastar-se e agora ela afastava-se. Falavam normalmente, ela chegara a agradecer pelo colar e discutiam determinados assuntos como nos tempos em que eram apenas amigos. Mas sempre que Eiji tentava desviar o assunto ou falar sozinho com Linda, esta esquivava-se e ou simplesmente ignorava-o.
Era difícil, mas Linda tentava não pensar nisso. Ela, como qualquer outra rapariga, tinha medo de sofrer às custas de um rapaz e Eiji parecia o tipo ideal de rapaz quebra-corações. Aliás, ele já partira o coração dela, quando se afastara ao saber do seu segredo. Mas Linda conseguira colar os pedaços e tentava agora não os desfazer de novo. Para isso, tinha que ter um tempo, tal como ele pedira.
Dois dias antes do ano novo, Setsu mencionou a festa de fim de ano no hotel e convidou as três raparigas para irem com eles. Elas aceitaram e estavam prestes a irem-se embora, quando Kenji voltou, vindo do quarto.
-Não te importas de amanhã vires cá ter com a Angelique? – Perguntou, dirigindo-se para a irmã.
-Porquê? – Perguntou Linda, ignorando os olhares de riso de Setsu e Eiji.
-Ela quer conhecer-te e assim iam as duas comprar vestidos para a festa. Oh, Setsu, disseste às miúdas que era uma festa de máscaras?
O moreno bateu com a palma da mão na testa.
-Bem me parecia que me tinha esquecido de alguma coisa. Pois bem, tragam máscaras meninas para taparem os rostos. Mas… tragam algo curto. Olhem que temos que poupar tecido.
Mari e Linda riram-se. Cecília ergueu o sobrolho:
-Obrigada pelo conselho. – Disse ela, ríspida, saindo pela porta, seguida por Mari. Linda conseguiu ouvir a morena murmurar algo semelhante a “idiota”.
-Vens cá amanhã ou não?
-Venho! – Assegurou Linda, apesar de não ter um bom pressentimento acerca do encontro com a namorada do irmão. E o facto de Eiji e Setsu estarem a controlar o riso não ajudava em nada.
-O que foi? – Murmurou ela, quando o irmão estava fora de vista. – Ela é assim tão má?
-Vais ver… - sussurrou Eiji, por entre gargalhadas silenciosas.
Linda foi-se embora, perguntando-se qual seria o mal de Angelique.
**
No dia seguinte, percebeu.
-Olá Linda. Prazer em conhecer-te! – E foi abraçada fortemente pela namorada do irmão, com toda a simpatia que esta podia oferecer. Linda quase que podia jurar que algumas das suas costelas tinham-se fracturado com a força de Angelique.
Esta era filha de mãe francesa e pai japonês e o primeiro nome era a única ligação que tinha à França, sendo o resto, aparência, língua, cultura e maneiras, todas vindas do Japão. Até o perfume que ela usava era japonês. (Há mesmo um perfume japonês, perguntou Linda para os seus botões). Estudava enfermagem e fora a partir de conhecidos que conhecera Kenji. O namoro durava umas semanas, mas ela já achava que iria durar para sempre. Tinha o sonho de ser Miss Japão, mas tinha como prioridade tirar o curso de enfermagem. Só depois é que se iria concentrar numa rotina diária de proteínas e hidratos de carbono e muito exercício a fim de conquistar o tão desejado corpo de modelo que ela perdera durante a faculdade.
Adorava sorrir, ver rapazes a jogar futebol e falar com as amigas o máximo que o seu saldo de telemóvel permitisse.
Linda descobrira isso tudo sobre Angelique em menos de cinco minutos, onde todo esse tempo Angelique apenas falara de si e de como elas haveriam de ser grandes amigas, o que Linda duvidava.
Alias, Linda perguntava-se o que é que teria feito Kenji juntar-se a esta rapariga, visto serem tão incompatíveis.
O aspecto…
Assim que vira Angelique, não conseguiu evitar abrir a boca num perfeito ‘oh’ que apenas fizera com que Eiji e Setsu se rissem atrás da namorada do irmão. Linda sabia agora porque é que eles achavam tanta piada a Angelique e tinham ansiado tanto para que Linda a conhecesse.
Não era porque Angelique fosse feia – pelo contrário, era lindíssima – mas ela era estranhamente parecida com Mari. Não apenas os cabelos dourados e os olhos verdes, mas também algumas feições. Linda quase que julgava que era Mari que estava à frente dela, até que Angelique falou numa voz mais aguda que Mari e abraçara-a, acordando-a para a realidade.
Angelique fora ao quarto do irmão e foi aí que os irmãos Yamamoto explodiram, soltando altas gargalhadas à cara de parva de Linda:
-Como é que…
-Já telefonamos à Aiko…. Ela disse que pode ser uma prima… O marido dela cortara relações com os irmãos e… sabes que a Mari é parecida com a mãe que, por sua vez… era parecia com o pai. – Respondera Eiji, entre gargalhadas.
-Com mil raios…
-Também pensamos nisso… quando ele nos apresentou-a. – Disse Setsu, tentando recuperar o fôlego de tanto rir.
-Será que ele começou a namorar com ela por causa…
-Não sei, mas é bem capaz. É que ele não suporta as conversas com a Angel (ela prefere que a tratemos assim). Ou ignora-a ou beija-a para ela se calar.
-Mas que… - Linda não pôde terminar a frase, pois Angel voltara, arrastando o irmão pelo braço. Este parecia extremamente aliviado por ver Linda.
-Obrigada por teres vindo. A Angel queria tanto conhecer-te…
-Não tens de quê! – Sorriu, mas lançou um olhar ao irmão que indicava claramente “Deves-me uma!”. Kenji sorriu.
-Muito bem, divirtam-se. – Beijou Angel rapidamente e regressou para o quarto.
-Oh, como ele é tão estudioso! Está sempre tão preocupado com os exames…
Linda ergueu o sobrolho e teve a confirmação das suas suspeitas ao olhar para Setsu, que lhe sorria em retorno. Os exames eram apenas em meses… Sendo Angel uma universitária, não devia ela saber disso?
-Pois… mas sabes como é o curso de medicina… exigente. – Respondeu Setsu, como se tivesse lido a mente de Linda.
Ah, então era essa a desculpa dele.
Angel palrou o caminho todo em direcção ao shopping, dentro do carro dela. Temendo perder a paciência e a boa educação antes de lá chegarem, pegou no telemóvel e marcou o número de Cecília. Se ia ter que aturar uma loira fala-barata, sósia de Mari e ainda fazer compras com ela, não o iria fazer sozinha…
**
-Com mil raios…
-Foi essa a minha reacção – sussurrou Linda ao ouvido da morena. Estavam na loja de vestidos no andar inferior, onde todos os vestidos estavam organizados por cores. Angel fora falar com a funcionara, afirmando ter um vestido reservado e Cecília aproveitara essa altura para dizer em voz alta os pensamentos que ecoavam na cabeça.
-A Mari sabe que…
-Não! E também não a ia convidar sabendo que a namorada do meu irmão é uma cópia dela.
-Achas que isso significa…
-Não acho, tenho a certeza. É que ele nem consegue ouvi-la falar.
-Isso são boas noti… - mas Cecília teve o seu discurso, mais uma vez interrompido, pois Angel aparecera, com um enorme sorriso nos lábios:
-Então, já escolheram os vestidos? A ti – apontou para Cecília – como tens um tom de pele mais escuro que o meu e o da Linda, aconselho-te um vestido de cor escura ou forte. Ou ambos. Mas nunca amarelo ou dourado ou verde ou…
-Eu entendi… - respondeu Cecília, com um sorriso amarelo. Começou a mexer nos vestidos, em busca de algo inconcreto. Linda seguiu-a, evitando Angel, que fora para outra secção. – Que chata!
-Concordo contigo.
Cecília parou de repente.
-O que foi?
-Eu tenho este vestido em casa – disse. Segurava a bainha de um vestido vermelho vivo que iria levemente até abaixo do joelho. Tinha um corte rectangular e as alças eram grossas, semelhantes a pequenos pedaços de pano colados ao tecido. Era um vestido simples, mas bonito. Linda imaginava que ficaria perfeito no corpo elegante de Cecília.
-Aí tens? Porque não o usas. De certeza que te iria ficar bem…
Cecília lambeu os lábios secos.
-A minha mãe costuma dar-me vestidos destes. Acredita, tenho quase toda a loja no armário. Eu adoro vestidos, mas nunca uso porque…
-Era o mesmo que afirmares à tua mãe que gostas daquele mundo – completou Linda, compreensiva. – Eu também sei o que isso é. A diferença é que nunca gostei dos vestidos que os meus pais me davam. Cheios de rendas e cores ridículas, como o rosa. Eu detesto rosa!
-Também eu.
-Oh, meninas. Vejam este vestido cor-de-rosa! – Gritou Angel, segurando um vestido curtíssimo de um rosa choque muito vivo. Cecília e Linda entreolharam-se, abafando o riso.
-É lindo Angel!
-Oh, como eu adoro cor-de-rosa! – Respondeu Linda num tom 100% sarcástico, enrolando os olhos. Angel não o decifrou.
-Oh, desculpe – chamou a empregada – onde está o meu vestido?
-Está a caminho, menina, espere só um momento.
Linda suspirou pesadamente.
-Nunca mais saímos daqui…
-Vá lá, aguenta! Ainda falta o teu vestido – encorajou Cecília, procurando mais escolhas.
-Já decidiste o teu?
-Levo o vermelho. Não me apetece procurar mais. Agora… - deitou um olhar a Linda, como que examinando-a a raio X – quando olho para ti só penso numa cor… azul.
-Que tipo de azul?
-Hum... ainda não sei… - Cecília dirigiu-se à secção de vestidos azuis, onde vasculhou a pente fino cada amostra de tecido. A certa altura parou, sorrido vitoriosamente:
-Olha este! – Tirou a cruzeta e mostrou a Linda.
Era de um azul claro, como céu num dia límpido sem nuvens. Era feito de seda pura e descia desde até aos tornozelos. A parte de cima era uma mistura de corpete com trajes medievais, com um corte em V que se alastrava até aos ombros, para os deixar semi-nus. [6] Não tinha mangas, apesar de Linda imaginar o vestido com umas. O corte da saia tinha grandes ondulações que sem dúvida dariam à rapariga que o vestisse uma silhueta invejável.
-Perfeito para ti! – Disse Cecília, sem tirar os olhos do vestido.
-E muito caro! – Retorquiu Linda, examinando o preço. – Custa uma fortuna.
-Eu tenho-o no meu armário. E como nós vestimos o mesmo, não precisas de fazer compras.
Linda não conseguiu deixar de sorrir. Ela queria mesmo usar aquele vestido.
-A sério? O mesmo modelo?
-Sim, exactamente igual. Por acaso eu andava à procura de um melhor, mas encontrei este e penso que te assenta como uma luva. Queres experimentar?
-Agora não… não quero perder mais tempo aqui. – Linda pegou no vestido e guardou-o no sítio. Procurou Angel com os olhos e viu-a com a empregada, assinando uns papéis.
-Por acaso sabes porque é que ela reservou o vestido? – Perguntou Cecília, que dava uma olhadela nos vestidos na secção dos laranjas e dourados.
Linda semicerrou os olhos.
-Ela diz “reservar”, mas é mais “consertar”. Não gostou de um determinado corte no vestido. Prefere ter as costas nuas do que ter fios lá espalhados. Mandou retirá-los, mas parece que hoje em dia, uma pequena alteração num vestido dá muito trabalho.
-Olha este vestido! – Exclamou Cecília, maravilhada.
-Também o tens no armário?
-Tenho… e a Mari adora-o. Claro que ela não o admite, mas eu sei que sim. Fica-lhe mesmo bem.
Linda olhou para o vestido nas mãos de Cecília. Era de facto muito bonito. Talvez ainda mais do que o de Linda. Era de seda laranja com alças finas e fios pelas costas. O decote era discreto, mas era bom o bastante para um peito menos ‘chamativo’ como o de Mari. O vestido era curvilíneo nas ancas, a fim de ‘colar’ as curvas da rapariga ao vestido. Depois, descia num molhe de tecido até aos tornozelos. Pequenas dobras na zona frontal facilitavam os movimentos e até davam um ar sensual para quem usasse sapatos de salto-alto.
-A Mari tem que o vestir!
-Pois tem! – Concordou Cecília, sorrindo de orelha e orelha. – Vou emprestar-lhe. De certeza que ela ainda não arranjou roupa. E contigo ao meu lado, de certeza que ela não vai nos deixar mal.
-Espero bem que não.
O bom ambiente das raparigas foi interrompido por Angel, que trazia o vestido numa caixa nos seus braços.
-Vamos meninas, já estou pronta! Arranjaram os vossos vestidos?
-Não é preciso – respondeu Linda, cordialmente – Nós já os temos em casa.
-Ainda vem – Angel notou no vestido laranja nas mãos de Cecília e sorriu – Gostam? É o meu vestido! Não gostei dos fios atrás e mandei tira-los. Ficou uma beleza, querem ver?
-Não. – Responderam as duas ao mesmo tempo.
-Menina! – Chamou a empregada do balcão – Esqueceu-se de assinar aqui!
-Oh, pelos deuses… nunca mais faço encomendas aqui. Tanta papelada! – Prometeu Angel, enquanto virava costas às jovens e dirigia-se à empregada.
O sorriso de Cecília desapareceu e pousou o vestido tristemente.
-Bem... parece que a Mari já não pode usar o vestido.
Linda não respondeu logo. Na sua cabeça, fervilhava uma ideia.
-Ou talvez possa. – Sussurrou, com um sorriso malicioso.
Cecília entendeu o plano dela e retribuiu o sorriso.
As duas trataram dos detalhes do seu plano, enquanto Angel despachava-se nas outras compras. Fizeram questão de estar com Angel quando esta comprara uma máscara laranja a combinar com o vestido. Linda distraiu a namorada de Kenji, enquanto Cecília pediu silêncio ao homem da caixa, enquanto pagava uma mascara igual.
Deram conselhos a Angel para não comprar jóias vistosas, mas coisas simples, para que não chamasse mais a atenção do que o vestido (ou que não fossem notadas pelo namorado em plena festa nocturna).
No final, Linda e Cecília voltaram para casa com um enorme sorriso nos lábios. Cecília foi ao seu armário e separou os vestidos vermelho, azul e laranja para levar, assim como a sua máscara e a de Mari. Pegou nalgumas jóias (provavelmente teria que torturar Mari para que esta usasse alguma) e em maquilhagem, pois sabia que nem Linda nem Mari usavam. Depois de tudo preparado, tomou banho e deitou-se, adormecendo em seguida.
Já Linda foi bombardeada de perguntas por Aiko, que queria saber como era a namorada de Kenji. Ela respondeu, mas fazendo questão que fosse na cozinha, longe de Mari. Linda sabia que a loira sentir-se-ia torturada se tivesse que ouvir acerca de uma rapariga que namorava com o rapaz que ela gostava.
Aiko perguntou se ela era tão parecida com Mari quantos os rapazes sugeriram. Linda sorriu:
-É, mas eu acho a Mari e a Julianna mais bonitas – disse, sem se aperceber do que dissera. – Desculpa Aiko.
-Porquê? Tu não insultaste a minha filha. Elogiaste-a até! – Aiko pegou nas mãos de Linda, apertando-as – Ainda dói, mas já não tanto. A Mari cresce todos os dias mais parecida com ela e… penso que nunca a perdi. – Uma lágrima saia pelo canto do olho – A Mari é tudo para mim. Eu só quero que ela seja feliz. Achas que o Kenji é capaz de lhe fazer isso?
Linda ficou sem palavras.
-Não sei… eu acho que eles gostam um do outro…
Aiko riu-se.
-É isso que achas? Se prestasses mais atenção, verias neles umas semelhanças com um casal que conheces. Foi isso que eu estive a falar com a tua avó quando ela veio cá.
Linda não perguntou quem. Ela já sabia. Mas não conseguia encontrar as tão fáceis semelhanças entre Kenji e Mari e Usagi e Mamoru.
Naquela noite, voltara a acontecer. Desta vez, apareceu uma menina de cabelos castanhos e olhos da mesma cor a brincar no baloiço. Um homem empurrava-a e a menina gritava de alegria sempre que chegava ao ponto mais alto.
-Mais alto papá! Mais alto! – Gritava a menina. O homem sorriu e deu um empurrão mais forte, fazendo a menina elevar-se um pouco mais alto. Esta gritou de alegria.
À sua volta não havia mais ninguém no parque. Ninguém com excepção de uma mulher, tão bela quanto a rapariga e que sorria para o esposo, enquanto este empurrava a filha mais alto.
A mulher aproximou-se e o marido beijou a testa dela e abraçou-a, enquanto a pequenina elevava-se sozinha no ar, tendo apanhado o jeito.
A imagem da família feliz foi então distorcida e de repente nuvens azuis escuras, púrpuras e negras tiraram a cor ao cenário e afastaram os três elementos da família. O homem perdeu-se num buraco negro, e mulher ficou próxima da filha, mas não o suficiente para a alcançar. A pequenina estava agora sentada no baloiço a chorar, com a mãe longe e o pai morto. Estava sozinha.
A imagem da menina alterou-se e ela começou a mudar para uma adolescente tão bela quanto a mãe, mas com um semblante muito triste e diferente do de outrora.
Linda contraiu os músculos do cérebro e saiu do sonho. Agora pairava sobre o quarto de Cecília e ela pôde ver, com pesar, que uma lágrima caía pelo rosto da amiga.
Tentou regressar à sua mente, desejosa de ter aquela noite por terminado, fazendo inúmeros esforços.
Ao fim de alguns minutos, conseguiu. Desta vez, não chegou sequer a abrir os olhos. Apenas fez algo que ela nunca fizera na vida: rezou.
Rezou para que aquele dom que tinha parasse e que ela não tivesse que entrar nos sonhos das pessoas e muito menos nos seus pesadelos. Rezou para que ela, para além de ter as suas desgraças, não tivesse que ver as desgraças dos outros, principalmente as dos seus amigos. E finalmente, rezou para que todos eles encontrassem paz interior. Se tal acontecesse, ela deixaria de entrar nos sonhos deles. Linda percebera isso agora mesmo com Cecília.
Mari sentia-se atraída por um homem que julgava impossível de ter, mas por quem ela se deixava perder… tal como a mãe.
Kenji temia por algo. Algo que tinha a ver com ela, a pessoa que ele mais amava no mundo.
Cecília… tinha saudades dos pais. Pelo menos da alegria da mãe, da sua verdadeira presença.
As lutas constantes das almas deles atordoavam Linda, que precisou de toda a sua força para conseguir dormir, tal era a sua vontade de chorar.
Lá fora, a lua estava escondida por detrás de nuvens negras. Não era um presságio para maus acontecimentos, mas também não era presságio para bons.
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[1]:
Eu acredito que vocês devam saber quem é o Speedy, mas para quem não sabe, o Speedy Gonzalez é um ratinho mexicano super rápido, protagonista de desenhos animados como os Looney Tunes.[2]: Hum... para terem uma ideia melhor de como é o vestido, vejam o vestido azul da Aurora d’A Bela Adormecida. Não é exactamente igual, mas o estilo da parte de cima é semelhante.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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-Acham mesmo que isto me vai ficar bem? – Perguntou Mari, ansiosa.
-Claro que vai. Tu própria adoraste o vestido quando o experimentaste.
-Não tenho a certeza…
-Acabemos com isto! – Linda pegou no vestido laranja e estendeu-o a Mari – Veste-o que só temos umas horas.
-E então? É tempo suficiente para eu me preparar para três festas.
Cecília enrolou os olhos.
-Se queres ficar perfeita, tens que fazer montes de coisas… e tudo calmamente.
Mari olhou para Linda, em busca de apoio. Esta sentiu-se entre a espada e a parede. Por um lado, ela entendia Cecília e o número de horas que uma rapariga demorava a preparar-se para estar bela. Mas também estava com Mari. Todo aquele tempo era desnecessário.
-Mari – disse por fim – Veste o vestido já. Não vamos discutir mais.
A bufar, Mari lá cedeu. As três jovens, que se encontravam no quarto de Mari, vestiram-se e pentearam-se rapidamente. Linda pegou no conjunto de acessórios que Minako lhe dera. Pegou num enfeite para o cabelo, que se assemelhava a uma estrela dourada.
-Toma – estendeu-o a Cecília, que já tinha o vestido colado ao corpo e se maquilhava ligeiramente. Esta aceitou e penteou o cabelo com o enfeite. Linda pegou numa pulseira dourada e deu-a a Mari, que a aceitou relutantemente. Para si, seleccionou um par de brincos cor de safira redondos.
Apesar de todo o discurso de uma rapariga precisar de muito tempo para se preparar, Cecília foi a primeira a acabar de se arranjar. Ao observar as outras, constatou que estas pareciam as mesmas… apenas mudava os vestidos.
-Vocês as duas cansam-me.
-Que queres? Estamos vestidas. – Mari pegou num elástico que estava na caixa de Linda, que fazia o mesmo.
-Oh Mari, é que tu nem penses em amarrar esse cabelo! E tu Linda, que estás a fazer?
-O meu cabelo é demasiado selvagem para estar solto.
-Esqueçam! Mari, vais de cabelo solto. Linda chega aqui que vou fazer aquilo que não acabei no torneio.
As duas não protestaram, temendo enfurecer Cecília. E enfurecer uma rapariga calma por natureza não era boa escolha.
Ao todo, demoraram três horas e meia e tanto Linda como Mari juraram nunca mais passar por experiencias daquelas.
Aiko estava na sala, com os jantares prontos.
-Vocês estão tão bonitas – disse para Cecília e Linda, que sorriram em retorno. – Parecem umas princesas.
O sorriso de Linda desapareceu. Aiko e Cecília riram-se. Só pararam quando Mari surgiu na sala.
Os cabelos loiros dela estavam soltos e iam até aos cotovelos, com leves ondulações perto das pontas. O vestido cor de laranja, tal como as morenas previram, ficava perfeito em Mari, realçando a sua silhueta e as suas curvas. Mari usava uma pequena corrente de ouro e a pulseira dourada que Linda lhe dera. Na sua orelha esquerda ostentavam dois brincos: um dourado, que condizia com o da outra orelha e um pequeno em forma de estrela. O objecto de transformação de Mari.
Mas a maior transformação era a própria rapariga. A única maquilhagem em si era um leve batom nos lábios e um pouco de pó de arroz nas bochechas. No meio de tanta beleza e sensualidade, o que mais se destacava em Mari eram os seus olhos verdes, que brilhavam como esmeraldas.
Aiko ficou estática a olhar para a neta. Tanto Linda como Cecília sabiam no que ela pensava. Naquele momento, Mari era mais parecida com Julianna do que alguma vez fora.
-Estou bem? – Perguntou, com os olhares fixos na avó, temendo a sua reacção. Aiko não respondeu. Em vez disso, lágrimas caíram pelo seu rosto, obrigando a mulher a limpá-las à manga. Não se conseguindo controlar, aproximou-se da neta e abraçou-a com força:
-Estás linda, minha Mari. Está linda.
Mari retribuiu o abraço à avó, com um sorriso que se estendia até à orelha.
As quatro sentaram-se para comer umas refeições leves calmamente, receando sujar os vestidos. Quando chegou a hora, saíram para a rua. Setsu devia estar em baixo com o seu novo carro.
Quando este viu as três, assobiou.
-Vocês estão lindas. Quero dizer… - virou-se para Linda – tu já és linda.
-ahaha, que graça.
-Ela hoje está cá com um humor… - comentou Cecília.
-Também estarias se estivesse quase uma hora a esticar a porcaria do cabelo e o resto do tempo a maquilhar-te e a vestir-te.
-Por acaso até estive. Pior, fui eu que te estiquei o cabelo, por isso não te queixes.
Linda bufou em resposta. As três entraram no carro até que Linda e Cecília repararam que Setsu tinha os olhos postos em Mari, chocado. Em pânico, Linda fez sinais a Setsu para ele se calar e este, confuso, sentou-se ao volante e levou-as sem palavras até ao hotel Millenium, situado a sul da torre de Tokyo.
**
Ele tinha que admitir que ela estava linda. O vestido cor de laranja assentava-lhe como uma luva. Mais um pouco e ele podia dizer que tinha o par mais atraente da festa.
Luzes azuis, vermelhas e verdes iluminavam a sala escura, situada no terceiro andar do hotel, ao som de músicas estilo house. Já várias pessoas se encontravam lá, a divertirem-se e a conversarem nos sofás cor de vinho tinto ou na pista de dança a abanar o esqueleto.
Kenji estava com Eiji junto a uns sofás quando Angelique chegara, reluzente como o pôr-do-sol. O cabelo estava solto e extremamente ondulado e trazia a sua máscara laranja com pequenas missangas brilhantes a tapar os olhos. Tudo o que ele podia ver eram os seus belos olhos verdes.
Angelique falou a maior parte do tempo em que os três ficaram nos sofás, até que o telemóvel de Eiji vibrou:
-Eles chegaram. – Levantou-se e dirigiu-se à entrada, seguido por Kenji e Angel. Pouco antes de lá chegar, reparou que, ao mesmo tempo que Setsu lhe dera um toque, mandara-lhe também uma SMS, que onde fazia um pedido um tanto estranho:
Distrai o Ken e a Angel. Não os deixes ver a Mari, nem ela a eles.
Estranho, pensou.
-Está tudo bem? – Perguntou Kenji, de braço dado à namorada.
-Está – respondeu o loiro, guardando o telemóvel. – Esperem aqui.
-Porquê? Eu quero ver como a minha irmã está!
-E vais ver… mas por enquanto… aproveita para estar com a tua namorada antes que a Linda vos interrompa – mentiu rapidamente, antes de fugir não dando tempo a Kenji de responder.
Na entrada, viu Cecília a fazer-lhe sinais. O seu vestido vermelho era curto e mostrava as suas belas pernas morenas, para além de lhe dar um toque clássico e muito elegante. O cabelo estava preso num alto na cabeça, que deixava cair algumas madeixas. Junto ao alto, ostentava um enfeite em forma de estrela cadente. Ao vê-lo, colocou a sua máscara vermelha a tapar os olhos e apontou para Mari, que saia do carro. E aí Eiji viu o motivo.
Mari e Angel estavam iguaizinhas, sendo as suas diferenças quase indistinguíveis no escuro da noite. Mas havia uma diferença notável. Era habitual era Angel com roupas femininas e penteados e maquilhagem que lhe faziam sobressair a beleza. Mas Mari não. Ao ver a sua amiga vestida como uma deusa, Eiji quase que acreditou que Angel tinha dado a volta e estava agora ali à sua frente. Mas não era ela. Era Mari. Esta tinha a mascara (também igual à de Angel) posta, mas quando o viu, tirou-a. Eiji sorriu. Mari era sem dúvida uma rapariga muito bela.
-Mari põe a máscara que já chegamos – ordenou Cecília, tentando parecer calma. Eiji trocou um olhar com o irmão, que parecia tão confuso quanto ele. No entanto, ao notarem que Mari parecia alheia ao que se passava, chegaram a uma conclusão: Ela não sabia que estava vestida exactamente igual à namorada de Kenji. Linda e Cecília tinham preparado aquele plano para… para quê?
Como que adivinhando os seus pensamentos, Cecília apontou para o seu bilhete. Os bilhetes VIP! pensaram os dois irmãos ao mesmo tempo, finalmente entendendo o plano das duas. Ambos riram-se, até que Setsu abriu a porta para Linda sair.
Eiji perdeu toda a vontade de falar, toda a vontade de respirar.
O cabelo dela estava completamente liso, caindo-lhe um pouco abaixo dos ombros. Graças ao Deus Secador, pensou Eiji, maravilhado. O vestido favorecia cada parte do corpo dela, fazendo-o parecer-se com o de uma deusa. A pele dela já não estava tão pálida como ele vira noutros dias e os seus olhos brilhavam como safiras. Sobre o seu generoso decote em V, a corrente de prata que Eiji lhe dera baloiçava a cada movimento que ela fazia. A corrente era tão comprida para que o seu pingente repousasse por entre os seios.
Quando avançou em direcção a ele, viu que ela usava sapato alto, mas não estava minimamente incomodada. Pudera, ela usa-os na dança.
Linda não estava linda… estava belíssima. Já não parecia a rapariga que ele conhecera no inicio de Setembro. A rapariga de óculos, cabelos encaracolados presos num elástico e roupas discretas. Não. Aquela era a princesa de Tokyo, filha dos soberanos, herdeira de um trono e de uma grande beleza.
-Tudo bem? – Cumprimentou, nervoso, sem conseguir tirar os olhos dela.
-Sim – respondeu ela calmamente. Desviou o olhar de Eiji e virou-se para Mari. – Vamos Mari?
-Vamos – respondeu a loira, aborrecida. Eiji perguntou-se se ela desconfiava de alguma coisa. Conhecendo Mari, sim…
As três entraram, seguidas pelos irmãos Yamamoto. Eiji ajeitou o cabelo, enquanto procurava Kenji com o olhar. Ele e Setsu estavam vestidos de smoking, apesar do de Setsu ser castanho e o de Eiji azul-escuro, que facilmente se confundia com o preto naquela escuridão.
Puseram os quatro as máscaras, enquanto subiam as escadas liderados por Cecília. Entregaram os bilhetes ao segurança e atravessaram a multidão da pista de dança, em busca dos sofás onde Angel e Kenji se encontravam. Quando Linda e Cecília tiveram um vislumbre do casal, olharam uma para a outra em pânico.
-Mari vem comigo à casa de banho.
-Mas já não foste antes de sairmos?
-Sim, mas tenho vontade outra vez. Desculpa se eu não consigo controlar a minha bexiga. – Retorquiu Cecília, num tom ansioso.
Mari suspirou e seguiu a amiga na direcção contrária. Linda, Setsu e Eiji entreolharam-se e partilharam um sorriso malicioso.
Era verdade que o plano iria ser difícil, pois Mari e Kenji tinham que estar longe um do outro a noite toda. Por um lado não seria difícil, pois Mari e Kenji ignoravam a existência um do outro. Por outro não seria, pois estavam ambos inseridos no mesmo grupo. Como tal, seria extremamente difícil manter Mari num lado e Kenji no outro sem levantar suspeitas.
Mas estavam todos dispostos a arriscar.
Linda avançou até ao irmão e Angel. Cumprimentou a loira com dois beijos na face, sorrindo com as semelhanças entre a sua amiga e Angel e aproximou-se do irmão. Este olhava para ela como se esta fosse desaparecer a qualquer momento.
-Tu estás…
-Obrigada. – Agradeceu ela, sorridente.
-Obrigada o caraças! Linda estás… linda. – Disse ele, quase sem palavras.
-E tu também… Mascarado?
Kenji riu-se. Tinha vestido um smoking exactamente igual ao do Mascarado, com uma mascara branca que tapava apenas os olhos. As únicas diferenças do original eram a cor dos cabelos.
-Pois… sabes muito bem como o avô sempre foi o meu modelo de inspiração.
-Querias tu ser como ele! – Gozou a irmã.
-Quem é o Mascarado? – Perguntou Angel, querendo entrar na conversa. Nenhum dos dois irmãos lhe respondeu.
Sentaram-se e começaram a conversar sobre vários temas, nomeadamente desporto. Linda tentava entrar ao máximo no tema acerca de futebol, pois não lhe apetecia iniciar outro tema de conversa com Angel. De algum modo, acabaria por falar da vida dela e dos lindos filhos que ela teria com Kenji.
Se depender de mim, não será com ela com quem ele terá filhos…
Cecília tentou demorar-se o máximo possível, mas acabou por ter que voltar para os sofás, onde estavam todos sentados. Linda avistou-a ao longe e levantou-se de rajada.
-Vou buscar bebidas. – Disse, avançando para Mari – Vem comigo.
-Aonde?
-Buscar bebidas! -repetiu ela.
-Fixe, eu vou para ali – e Cecília já estava junto dos outros. Mari tentou ver o grupo ao longe, mas Linda tapou-lhe o campo de visão. A isto, a loira ergueu o sobrolho:
-O que se passa?
-Ah?
-Tenho cara de idiota? Sei que tu e a Cecília estão a planear alguma coisa.
Linda mordeu o lábio. Não havia escapatória. Tinha que mentir.
-Bem… não queremos que vás para ali… - hesitou, pensando no que iria dizer. – Porque nós estamos a pregar uma partida à Angel.
-E o que é que eu tenho a ver com isso?
-Ah…
-Esquece Linda, não sabes mentir. O que é que se passa? – Perguntou Mari, com as mãos nas ancas e já com um ar irritado.
-Olha... confia em mim. Vem comigo buscar bebidas. – Linda pegou no braço de Mari e arrastou-a até ao bar, onde pediu algumas bebidas. Quando o empregado lhe perguntou quais, Linda fez uma careta. Tivera tanta pressa em sair dali com Mari que se esquecera de perguntar aos outros que bebidas queriam.
-O que achar melhor. – Respondeu.
O empregado olhou-a de cima a baixo e depois pegou numa garrafa com um líquido vermelho alaranjado que distribuiu por sete pequenos copos. Linda e Mari pegaram nas bebidas e foram para junto dos outros. Pelo caminho, Linda tentou pensar numa forma de evitar que Mari chegasse ao destino.
Eiji foi a sua tábua de salvação. Aproveitando a mudança de música, arrastou Mari para a pista de dança, deixando os copos que ela trazia nas mãos de Cecília, que os aceitou de bom grado.
Horas passaram-se e os quatro jovens estavam fartos de tanto distrair os outros três. Até à altura, Kenji e Angel não tinham desconfiado de nada, para além de nem sequer terem perguntado por Mari. Linda sabia que Kenji a procurara várias vezes com os olhos, mas que desistia sempre que Angel se encostava mais a ele. Já Mari aceitava que todos a levassem para qualquer sítio. Era obvio que tentava perceber o que se passava, mas nenhum dos quatro davam-lhe hipóteses seguras.
Eram 23h50, dez minutos para o ano novo e Mari já tinha feito várias danças com Eiji, Setsu e bebido algumas bebidas com Linda e Cecília, para além de ter falado de várias coisas que ela nem sabia falar.
-Estou farta! – Reclamou Cecília a Linda e Setsu, enquanto olhavam para Kenji e Angel, mantendo Mari debaixo de olho. Eiji tinha ido à casa de banho faziam quinze minutos e ainda não tinha voltado – Acho melhor apressarmos isto. Os meus pés já não se aguentam e a Mari está a ficar impaciente.
-Como tu – murmurou Linda, mas Cecília não conseguiu ouvir com a música a altos berros.
-Setsu – berrou para o moreno ao seu lado – convence o Kenji a ir para a sala VIP.
-Agora? – Respondeu ele em retorno, também num tom elevado.
-Sim, antes da meia-noite. – Linda procurou o irmão. Viu Angel a afastar-se na direcção da casa de banho – Aproveita agora que a Angel foi-se.
Setsu assentiu e foi ter com o amigo. Linda sorriu e virou-se para Cecília. Abriu a boca para falar, mas Cecília cortou o discurso:
-Não precisas de dizer... vou buscar a Mari.
-Faz figas – sussurrou ela, esquecendo-se de que a morena não a podia ouvir. No entendo, Cecília pareceu ter entendido pois assentiu com um sorriso.
Agora ela apenas tinha que manter Angel longe dos outros dois.
Avançou em direcção da casa de banho quando esbarrou contra alguém.
-Desculpe – berrou, tentando contornar a alta figura à sua frente. Quando esta – um jovem homem forte – colocou as mãos nos seus ombros, Linda congelou. Levantou a cabeça e relaxou ao ver que era apenas Eiji. Este olhava-a fixamente, como se quisesse ver por dentro dela, sem afastar as mãos dos ombros semi-nus dela.
-Vem comigo – murmuram os seus lábios, sem no entanto sair qualquer som. Linda olhou para a porta da casa de banho, mas Eiji já a puxava para uma outra porta, mais distante da pista de dança.
A grande porta cor de vinho tinto estava trancada com um dispositivo electrónico, mas Eiji pegou num pequeno cartão no bolso e passou pela frecha, abrindo a porta com um clique. Rapidamente, sem que ninguém visse, deslizou para dentro da divisão com ela pelo braço.
Parecia ser uma das suites VIP’s onde o irmão estava naquele momento, a diferença era que aquela tinha mais cara de ser particular do que exclusiva para bilhetes VIP.
-Como é que arranjaste forma de entrar aqui? – Linda esfregou as mãos nervosamente, enquanto dava um passo em frente. Eiji permaneceu no sítio onde estava, dois metros à sua frente.
-O dono disto vinha a entrar com umas raparigas, até que sentiu-se mal e começou a vomitar em cima delas – sorriu, virando-se para ela – Foi para o hospital e, pelo caminho deixou cair a chave. Só se fosse estúpido é que não aproveitava.
-Porque viemos para aqui?
-Porque fazes muitas perguntas? – Respondeu ele em retorno, contente por vê-la nervosa. – Principalmente quando já sabes as respostas?
-Prefiro pensar que estou errada.
-Conheces-me demasiado bem para te iludires dessa forma, Lindinha.
Lá estava ele. O Eiji sedutor, engraçado e bem-parecido que ela conhecia. Ele tirara a máscara e já não escondia o seu maravilhoso sorriso. Linda sentiu o chão a fugir-lhe dos pés.
-Tens cá uma lata. – Murmurou ela, com a voz fraca. Ele ergueu o sobrolho.
-Porquê?
-Porque pedes tempo para pensar e agora andas atrás de mim!
-Mas Linda… - Ele quebrou a pequena distancia que havia ente os dois. Estava agora tão próximo dela que podia ouvir o som da sua respiração. - Há quanto tempo é que eu te pedi um tempo?
-Bem…
-Há umas semanas. – Cortou ele, respondendo à sua própria pergunta – E entretanto muita coisa aconteceu. Apercebi-me de muitas coisas. – Fez uma pausa, sorrindo para ela maliciosamente – Tinhas razão.
-Foi isso que disseste no cartão. – Disse ela, virando a cabeça de lado. Ele não tardou a pegar-lhe no queixo e rodá-lo para que ela fizesse contacto visual com ele de novo.
-Pois foi. E sabes porque o disse?
Ela semicerrou os olhos.
-Ilumina-me. – Desafiou.
-Bem… - Ele deu-lhe espaço, como que sabendo que a estava a sufocar. Aproximou-se de uma das janelas de vidro, com vista para a torre de Tokyo e observou o horizonte. – Eu não te conhecia. Aliás… não te conheço. – Virou-se para ela, pedindo-lhe com o olhar para que se aproximasse. Linda não se mexeu. - Eu achei que o facto de seres princesa mudava tudo, mas estava enganado. Nada muda, excepto o facto de eu agora ter fantasias contigo com uma coroa. – Ele riu-se, mas ela continuou séria. – Ou melhor... muita coisa muda. Por não saberes se podias confiar em mim ou nas outras pessoas, não te mostraste verdadeiramente, escondeste-te atrás de uma máscara para te protegeres das reacções dos outros. Tentaste fazer com que os outros gostassem de ti pelo lado que mais… gostas, não aquele que tem mais a ver contigo. Falo pelo menos no temperamento e auto-estima.
Linda respirou fundo. Eiji não lhe dizia novidade nenhuma.
-Achavas que as pessoas não iriam desconfiar de ti se tu mostrasses ser uma rapariga fora do comum. E é verdade. Só que… - ele aumentou o seu sorriso, pondo-a desconfortável – escolheste o lado errado da máscara. Se tivesses usado este, ninguém alguma vez iria desconfiar de ti… pelo menos a Mari. Mas tu escolheste logo o lado menos ‘normal’. Uma rapariga muito calma, inteligente, educada, sensível e carinhosa.
Ele voltou a chegar-se perto dela e, desta vez, pegou nas mãos dela.
-Mas estou contente por o teres feito. Se não, eu jamais notaria em ti. Jamais sentiria que havia algo em ti parecido comigo. Que eras especial. Que eras tu mesma, apenas um pouco reservada em termos de sentimentos.
Ela sorriu, sentindo as suas faces mudarem de cor. Porque é que Eiji ainda tinha esse efeito sobre ela?
Ambos ficaram em silêncio. Durante esse tempo, notaram na balada que tocava lá do outro lado, onde casais dançavam juntos e grupos de amigos juntavam-se, a fim de festejar o ano novo.
Ele baixou o rosto, tocando a sua testa na dela. Fecharam os olhos, enquanto várias pessoas começavam a gritar.
-10…
-9…
-8…
-7…
-6…
-5…
-Pede um desejo, Linda. – Sussurrou ele, abrindo os olhos. Ela abriu também os dela, sorrindo.
-4…
-3…
-2…
-Não preciso. Já se realizou. – Sussurrou ela de volta, aproximando os seus lábios dos dele.
-1…
As badaladas do relógio do hotel começaram a tocar e vários uivos, sons de garrafas de champanhe a estoirar e buzinas de carros do exterior encheram a divisão. O fogo-de-artifício encheu o ar, rodeando a torre de Tokyo, assinalando a entrada no ano novo.
Mas dentro daquela sala apenas o som do toque de lábios dos dois se podia ouvir. Ambos viam um arco-íris de cores à sua volta, enquanto um forte formigueiro atingia os corpos de ambos. Linda sentiu-se atordoada e deixou-se cair no sofá atrás de si. Ele veio com ela, as suas mãos cercando o corpo dela, como que temendo que ela fugisse.
Ela tentou erguer-se e ficou de tronco levantado a fitá-lo. Aquela sensação era muito estranha. Ela podia jurar que ouvira vozes dentro da cabeça dele.
Só havia uma resposta para isso.
Os sonhos dele…
Determinada a impedir que o seu poder estragasse o momento, tentou falar:
-Porquê o colar? – Perguntou devagar, enquanto ele se afastava lentamente.
-Para que tu sejas a princesa e a Linda Tsukino ao mesmo tempo. Para que nunca tenhas que abdicar de nenhum lado da tua personalidade em nenhum momento. – Respondeu ele, beijando o pescoço dela. Ela suspirou e deixou que ele pegasse nos seus cabelos e a manobrasse como uma marioneta.
-Vem comigo – sussurrou ele, puxando-a do sofá lentamente. Ela ergueu-se e foi atrás dele para perto da janela. Ele apressou-se a abri-la, mostrando a varanda com a maravilhosa vista da Torre e do fogo. Um incrível espectáculo de luz explodia no ar como tiros de pistola.
Ele deitou-lhe um olhar antes de voltar a puxá-la para si e tomar a boca dela de novo. Ela deixou-se levar, talvez porque tenha ficado viciada nos lábios dele. Sempre que tocava nela, sentia uma explosão de sabores que a deixavam com ainda mais vontade de prolongar o beijo.
Eiji parecia determinado a dominá-la, pois acabou o beijo tão depressa como o começou. Envolveu-as nos braços, impedindo-a de fazer alguma coisa e obrigou-a a virar-se para o panorama de fundo.
-Sabes qual foi o meu desejo? – Sussurrou ao ouvido dela.
-Se disseres não se concretiza!
Ele pareceu reflectir. Depois assentiu, encolhendo os ombros.
-Que o seja. Eu quero mesmo que este desejo se realize.
Linda sentiu uma súbita curiosidade em saber o que é que ele desejara, mas nada disse.
Mais fogo explodiu no céu nocturno. Uma chuva de luz dourada, vermelha, verde, amarela e azul iluminou o cenário, dando por leves segundos a sensação de que ainda era dia.
Ele sussurrou algo no ouvido dela mas, com o barulho ensurdecedor do fogo, ela não entendeu direito. Quando virou a cabeça para lhe perguntar o que é que ele tinha dito, ele sorriu misteriosamente.
Juntos, observaram o fogo a aparecer e a desaparecer, sempre uma chuva de luz como a de estrelas cadentes até que o céu ficou apenas iluminado pelas luzes vindas das casas e da Torre de Tokyo.
Linda virou-se para Eiji:
-Disseste aquilo que eu estou a pensar?
Ele não respondeu. Invés disso, dirigiu-se para a porta.
-Vamos. Os outros devem estar à nossa procura.
-Eiji! – Chamou ela. Este virou-se para ela. Ambos ficaram em silêncio. Apenas o som das celebrações nas ruas e no hotel se podiam ouvir.
Ela queria dizer algo. E ele temia aquilo que ela queria dizer.
-Estás errado.
Ele ergueu o sobrolho.
-Em que sentido?
Ela não respondeu. Mordeu o lábio inferior, desta vez sinal de nervosismo e baixou os olhos para o chão de mármore.
-Vamos! – Disse ela finalmente, abrindo caminho na porta. Ele veio atrás dela, a cara exposta a uma expressão confusa.
Abriram a porta e saíram sorrateiramente, temendo serem vistos pelos seguranças. Quando a porta foi fechada e eles viram-se no meio da espessa multidão, que festejava alegremente, conseguiram relaxar. Sorriram um para o outro e avançaram para os sofás onde deveriam estar os outros de mão dada, ainda que o toque fosse apenas pela ponta dos dedos. Mas só esse toque já selava muitos sentimentos e emoções.
Quando chegaram aos sofás, viam-nos ocupados por outras pessoas e não havia sinais de Kenji, Angel, Mari, Cecília e Setsu. Preocupados, olharam em volta em busca de alguém. Mas onde é que eles estariam?
**
(paralelamente. Quando Setsu vai buscar Kenji)
-Hei meu! – Chamou, obtendo a atenção do loiro – Está na hora da prenda. – Berrou, sorrindo.
Kenji retribuiu o gesto.
-Ok, espera apenas pela Angel.
-Não é preciso. Ela já lá vai ter. Dá-me o bilhete dela!
Kenji estendeu-lhe o bilhete laranja e foi devagar para a zona VIP. O segurança verificou o seu bilhete e deixou-o entrar, fechando a porta atrás de si.
Kenji viu-se numa sala rodeada de sofás da cor do vinho, com uma mesa média de vidro no centro e um bar no canto mais escuro da sala. Desejando uma bebida, ele aproximou-se do bar e vasculhou o stock. Sorriu ao ver uma garrafa de Vodka e sumo. Pegou em dois copos e encheu-os.
Agora só tens de esperar, disse a Voz, num tom alegre.
Kenji congelou. Para além de não ter conseguido bloquear a Voz naquele preciso momento, também ela parecia feliz. E isso era deveras estranho, pois a Voz não gostava nada de Angel, como se tivesse personalidade própria.
Porque é que tenho um mau pressentimento acerca disto, perguntou-se. E Kenji quase que podia jurar que ouvira uma gargalhada de fundo dentro da sua cabeça.
**
(paralelamente, quando Kenji dá o bilhete a Setsu)
Cecília observou Setsu pegar no bilhete laranja, ao mesmo tempo que deitava uma olhadela em Mari. Esta estava agora deveras irritada com todo o mistério.
-Quando é que vocês me vão contar o que estão a planear?
-Em breve. – Respondeu Cecília, sem tirar os olhos de Setsu, que encontraram os seus. Ele sorriu, sendo o gesto correspondido.
-Espera aqui. – Ordenou a morena, deixando a loira e aproximando-se do rapaz.
-Toma, o Kenji já foi.
-Fixe. Espero que a Linda mantenha a Angel sobre controlo. – Cecília pegou no bilhete e apressou-se a correr para junto de Mari.
-Olha! – Gritou, tentando chamar a atenção a amiga. – Vai para a zona VIP que eu e a Linda vamos já ter contigo.
Mari pegou no bilhete, desconfiada.
-Vai Mari, não percas tempo! – Cecília pegou no braço da amiga e arrastou-a até à porta da zona VIP, onde o segurança pediu o seu bilhete. Mari entregou o seu. Antes de entrar pela porta, deitou um último olhar a Cecília, que sorria ansiosamente.
O que é que elas estarão a tramar?
Mari entrou e o homem fechou a porta atrás de si.
A sala estava pintada em tons de azul metálico claro e escuro e decorada por sofás bordo. Havia tons de verde-garrafa nas paredes, a misturar com os tons de azuis. Mari avançou, olhando em seu redor. Os seus olhos pararam numa fugira de costas para ela no bar.
A figura virou-se e sorriu para ela, provocando um formigueiro no corpo dela. Aquele formigueiro particular que ela só sentia com uma pessoa.
Kenji…
-Estava a ver que ias demorar. – Disse ele, aproximando-se dela com duas bebidas na mão. Entregou-lhe uma. – Mas estou a ver que hoje decidiste ser pontual.
Mari não respondeu, nervosa. Ergueu o copo à boca e deu um gole na bebida. A sua garganta ardeu como se tivesse ingerido ácido, mas um ácido com um aroma adocicado a melão. Voltou a deitar um olhar na sala, completamente confusa sobre o que se estava a passar.
-Gostas? – Perguntou ele, sem tirar o seu charmoso sorriso. – Bem me parecia estranho estares tanto tempo calada. Bem, esta é a minha prenda de Natal. O Eiji deu-ma para que te trazer aqui.
Trazer aqui? Oh, não... ele pensa que eu sou a namorada dele.
Mari entendeu logo o plano. O motivo de ela ter passado a noite toda a fugir de um lado para o outro. Sempre para um sitio onde Kenji e a sua namorada não estavam. Entendeu o plano das suas ‘amigas’.
Desgraçadas… vão-se arrepender…
-Que foi? – Perguntou ele, obviamente incomodado com o silêncio dela. – Está tudo bem?
Mari pensou em responder e assim arruinar todo o plano de Cecília e Linda. Mas algo a impediu.
Uma música – uma balada – começou a sair pelas colunas, postas nos cantos da sala, vinda do outro lado. Uma música que a fez arrepiar-se.
(https://www.youtube.com/watch?v=rzM4qh84n94)
Ele puxou a sua mão, parecendo maravilhado pelo seu silêncio e envolveu-a numa dança lenta e carinhosa. Ela automaticamente colocou os braços nos ombros deles e juntos deslizaram pela sala suavemente.
A música envolveu os dois num mundo à parte, apesar de eles já estarem longe dos outros. Os seus olhos só focavam o outro, os corpos obedecendo automaticamente a qualquer ordem dada pelo cérebro.
Mari por várias vezes abriu a boca para falar. Ele tinha que saber. Tinha que saber que não estava a dançar com a namorada, mas com ela. Que tudo aquilo era uma partida da sua irmã e da melhor amiga dela.
Mas nunca conseguia dizer nada. Por detrás da máscara branca, os olhos azuis de Kenji brilhavam como safiras preciosas, cheias de desejo. Que não é por mim…
Já Kenji pensava noutra coisa. Aquelas mãos não eram tão suaves como as de Angel, mas o seu toque fazia-o arder por dentro. De repente, um enorme fogo consumiu-o, uma fonte de desejo havia algum tempo adormecida.
Olhou-lhe nos olhos, tentando ver o que estava errado. Mas os olhos verdes esmeralda dela brilhavam ansiosamente, como que temendo o próximo passo dele. Olhos que, apesar de serem da mesma cor que os de Angel, não eram os mesmos. Não eram os olhos bonitos que um homem gosta de admirar. Eram os olhos de um anjo que ele queria beijar.
Aproximou os seus lábios dos dela. Ela afastou o rosto um pouco, hesitante, mas ele insistiu. O som da respiração dela, o hálito dela com sabor à bebida que ele lhe dera há pouco, o cheiro do perfume dela… jasmim, pensou ele, abrindo bem os olhos, incrédulo. Aquele não era o perfume de Angel.
Aquela não era a sua namorada.
Mas, mesmo sabendo que aquela não era a namorada, mas uma rapariga de cabelos loiros, olhos verdes com a mesma roupa e máscara, poderia ele resistir a aquele desejo? Poderia ele, um homem vulgar, abdicar daquela mulher cujo cheiro e som da respiração já o deixava louco?
Ele tinha que saber. Tinha que saber como sabiam os lábios dela. Tinha que explorar aquela mulher que lhe provocava arrepios quentes por todo o corpo.
Parou a dança e aproximou os lábios ainda mais. A curta distancia entre os dois desapareceu e ele beijou-a suavemente, mordendo levemente o lábio inferior dela.
Não sentiu apenas um sabor, mas vários. Um enorme calor explodiu dentro do corpo dele e dela, como se ambos tivessem desejado aquele beijo havia muito tempo. As mãos dela procuraram-no às cegas e percorreram o rosto dele, aproximando-o dela. Ambos amaldiçoaram as borboletas no estômago, que agora mais pareciam abelhas assassinas, fazendo os corpos deles fraquejarem ao toque.
As mãos dele percorriam as ancas dela, obrigando-a a colar o seu corpo ao dele. O toque de lábios cessou um pouco e ele afastou o seu rosto do dela. Ela estava ofegante, mas tentava controlar a sua ânsia de retirar a máscara. Era tarde de mais para recuar. Ela também tinha desejado aquilo.
Ele aproximou o seu rosto do dela, tentando descobrir quem ela era. Os olhos verdes de Mari estavam agora embaciados e ela apenas conseguia ver o brilho dos olhos dele. Ele tirou a máscara e pegou na dela. Começou a puxar a máscara para cima, quando ela o travou, aterrorizada.
-Kenji – sussurrou ela, com medo. Lá fora, todos faziam a contagem para o ano novo, mas eles não ouviam. A música continuava a tocar lá dentro e eles continuam no seu próprio mundo, onde eles já estavam.
Algo no tom de voz dela lhe soou familiar, mas qualquer hipótese de reconhecê-la desvaneceu-se como fumo quando ela disse o seu nome.
O poder que aquelas palavras tinham sobre ele era inimaginável. Ele perdeu o poder que tinha, a força de que era feito e sentiu ela a assumir o controlo sobre ele. Quem quer que ela fosse, era agora a dona dele.
Ela voltou a puxar a máscara para tapar os olhos. Temendo não conseguir resistir por muito mais, aproximou-se dela, tocando os seus lábios com os dela. Toque suave, delicado e cheio de paixão. A boca dela era o Paraíso ou o Éden, onde toda a perfeição se juntava num sítio só. Kenji sentiu finalmente que beijava os lábios de um anjo. [3]
A sua mão esquerda tocou no rosto dela e a direita deslizou pelo corpo dela, traçando as curvas dela. Separou os lábios colados e beijou o pescoço dela, descendo até os ombros nus. Tocar na pele dela era como transportar uma boneca de porcelana. O medo de quebrar era constante e ele temia que aquele momento fosse estragado, ou que ela se fartasse de repente. Ele gemeu, o seu corpo tremendo com o toque dele nela.
Ergueu o rosto para ela e voltou a tomar a boca dela, desta vez com mais vontade. Ele esquecera-se de Angel, ela esquecera-se do esquema das amigas.
Separaram-se lentamente, o som dos corpos a um ritmo constante. Ele não precisou de pedir. Ele desejava saber quem ela era, e ela queria que ele soubesse. Kenji pegou na máscara dela e tirou-a devagar.
Mas já sabia quem ela era antes mesmo de a máscara chegar aos olhos dela, mostrando o seu verdadeiro rosto a ele. Ele já sabia porque a sensação que ele sentia junto dela era a mesma que das outras vezes. Quando a abraçara, quando a impediu de cair várias vezes, quando a vira na enfermaria desmaiada, quando a conheceu na casa de Aiko e quanto juntos cozinharam o jantar. A sensação, o medo e o desejo era igual. Só não se apercebera antes porque já não havia medo.
Mari…
O nome dela ecoou na sua mente, enquanto a máscara ficava na sua mão, deixando o rosto dela livre. Ela estava tão linda com o cabelo solto e um leve toque de maquilhagem…
Olharam um para o outro, ambos receando a reacção do outro. Mari mordeu o lábio, esperando que Kenji desse o próximo passo. Já este não sabia o que fazer.
-KENJI! – Ouviu alguém berrar do outro lado. Kenji e Mari viraram-se para a porta, onde uma furibunda Angel os mirava de alto a baixo. Os olhos de Angel pousaram em Mari com profunda raiva. Kenji não conseguiu deixar de notar na profunda ironia da situação. Normalmente era Mari a rapariga de temperamento e ar demoníaco, enquanto Angel era a rapariga de ar angelical. Naquele momento, os papéis tinham-se invertido.
Mari corou até à raiz dos cabelos e correu para fora da sala sem que Angel ou Kenji pudessem fazer alguma coisa para a impedir.
Correu até se encontrar fora do hotel, longe da festa. Havia um espectáculo de fogo-de-artifício, mas não encontrou nenhum interesse nele. Só pensava no beijo. Ainda se lembrava de quando Kenji quase que a tinha beijado no telhado da sua casa e de quanto ela desejara que ele o tivesse feito. Agora tal tinha acontecido e ela estava arrependida.
Ela não queria gostar dele. Ela não queria entregar a chave do seu coração a nenhum homem, tal como a mãe fizera. Mari queria apenas divertir-se, nada mais… Mas depois vira Kenji e tudo mudara.
Céus, como é que ele pode ter este efeito em mim, perguntou-se a si própria, sentando-se na soleira da estrada. Os braços rodearam as pernas dobradas e ela deixou escapar um suspiro triste.
Mesmo que algum dia ela pudesse abrir o seu coração para alguém, esse ‘alguém’ jamais seria Kenji. Ele era demasiado perfeito para ela, demasiado impossível. Não apenas por ele ser o príncipe herdeiro, mas também porque… ela sentia que algo os afastava. Algo que ela não conseguia visualizar no cantos obscuros da sua mente.
Fechou os olhos com força, querendo obrigar-se a si própria a acordar para a realidade. Era verdade, talvez nunca teria uma hipótese com Kenji, mas isso não quereria dizer que iria ignorar os seus sentimentos por ele até ao resto da eternidade. Era mais fácil aceitá-los, para depois combatê-los. Pois bem, agora que era um novo ano, era isso que iria fazer.
-Eu estou apaixonada pelo Kenji – murmurou para os seus botões, finalmente admitindo aquilo que lhe ia na alma. – Mas sei que jamais terei algo com ele. Portando, fica aqui o meu desejo. Desejo que ele seja feliz com qualquer mulher que ele escolha e desejo que o meu sofrimento seja poupado. Que eu possa ver uma luz no túnel, mesmo depois de ter entregado o meu coração a um homem que jamais o poderá receber. Ano novo, vida nova, isso é tudo o que desejo.
Ficou sentada ali durante uns bons minutos, ignorando que alguém a tinha ouvido a murmurar o seu desejo. Alguém que, naquele momento, tinha tomado uma escolha. Um escolha que se tornou num desejo de ano novo. Uma escolha que seria a luz do túnel para Mari.
**
Cecília mexia as mãos nervosamente, tentando acalmar-se. Não encontrara Linda e Eiji em lado nenhum, portanto ela e Setsu tiveram que distrair Angel durante um bom bocado. Ele oferecera-se para dançar com ela várias vezes, mas Angel começou a ficar irritada e a exigir saber onde estava Kenji. Setsu ofereceu-se para procurá-la e foi com ela até à recepção. Entretanto, Cecília procurou Linda, não conseguindo obter nenhum resultado.
Chegara o ano novo e Setsu, vendo que Cecília estava agora ainda mais nervosa, pagou uma garrafa de champanhe e aproximou-se dela, ignorando uma loira furiosa.
-Feliz Ano Novo – desejou ele, oferecendo-lhe uma taça. Cecília sorriu, agradecida pelo gesto de amizade por parte dele. Junto brindaram ao sucesso do plano, pois Kenji e Mari estavam lá dentro faziam dez minutos e ainda não tinham saído. Tudo parecia crer que correra lindamente.
Nenhum deles reparou que Angel vira a sala VIP e fora perguntar aos seguranças se tinham visto Kenji, descrevendo-o minuciosamente. Os seguranças, que podiam jurar que a tinham deixado entrar, responderam que o tinham visto e que ele estava lá dentro. Angel exigiu que eles lhe abrissem a porta, pelo menos para ver se o seu namorado estava ali.
Eles aceitaram e iam bater à porta, quando Angel decidiu apressar o processo. Pegou no cartão magnético e passou pela ranhura, abrindo a porta rapidamente. Os seguranças viram a cara de Angel, que retirara a máscara, virar de um branco para um vermelho de raiva. Depois viram uma rapariga vestida da mesma forma que a outra sair sem que fosse impedida por nenhum dos outros dois.
O segurança achou melhor fechar a porta para que o casal de namorados discutissem em privacidade, mas o loiro saíra da sala apressadamente, correndo atrás da outra loira. A namorada ficou dentro da sala, chocada.
Mais tarde, ele voltara e pedira completa privacidade por uns minutos. Após a porta ter sido fechada, não se ouviu nenhum barulho vindo de lá de dentro.
**
-Hei! – Chamou Eiji, ao ver o irmão e Cecília. Estes contraíram os rostos ao ver Linda e Eiji.
-Onde raio é que vocês estiveram? – Perguntou Setsu, furioso. – Tivemos que fazer tudo sozinhos!
-Feliz Ano Novo para vocês também – comentou Eiji, ironicamente.
-Desculpem – disse Linda, com sinceridade. – É só que…
Não precisou de acabar o discurso, pois os dois morenos aperceberam-se de que Linda e Eiji estavam de mãos dadas. Cecília sorriu, abraçando a amiga:
-Parabéns.
-Calma Cecy, isto não é noivado nenhum. – Retorquiu Linda, tentando libertar-se da amiga.
-Não me chames Cecy! E, apesar de não ser noivado nenhum, é bom na mesma.
Ambas sorriram uma para a outra. Já Setsu tentou manter um ar sério, enquanto o irmão mais novo o fitava, à esperava que este dissesse alguma coisa.
-Ah… parabéns! Como já te disse, a Linda aqui vale ouro. Sinceramente, acho que ela é muita areia para a tua camioneta, mas se ela te quer…
-Obrigadinha pela honestidade. – Respondeu Eiji, desdenhoso.
-Sempre às ordens.
-Como correu? – Perguntou Linda.
-Não sabemos. Nós… - foi aí que Cecília e Setsu notaram na falta de Angel. Procuraram-na com o olhar, mas o máximo que viram foi Kenji a falar com os seguranças da sala VIP.
-Tenho um mau pressentimento. – Disse Cecília.
-Onde está a Mari? – Perguntou Eiji.
-Vamos procurá-la lá fora – sugeriu Setsu.
Os quatro abriram caminho por entre a multidão em festa até à entrada do hotel, onde encontraram Mari sentada na beira da estrada.
-Mari! – Gritaram Cecília e Linda ao mesmo tempo. A loira virou-se e, para surpresa delas, sorriu. – Estás bem?
-Estou. – Respondeu a loira num tom natural – Só acho que o Kenji está em maus lençóis. A Angel ficou mesmo furiosa com ele.
Os quatro entreolharam-se entre si, com semblantes de culpas nos seus rostos.
-Mari… – começou Linda.
-Ano novo, Vida nova, certo? – Ela levantou-se, sacudindo o vestido levemente - O quer que tenha acontecido antes, não importa agora. Por isso, considerem um golpe de sorte não me querer vingar de vocês. Aquele… momento… fez-me pensar nalgumas coisas e cheguei à conclusão que vos posso perdoar pelo que fizeram.
-A sério? – Perguntou Eiji, desconfiado - O que é que aconteceu lá dentro para teres ficado assim?
Mari ignorou-o e virou-se para o sítio onde o carro de Setsu estava estacionado.
-Vamos? – Perguntou.
Linda olhou para os irmãos Yamamoto.
-Então e o Kenji?
-Estou aqui – comentou alguém por trás. Kenji tinha o casaco do smoking ao ombro e a máscara na mão e fitava os amigos com um semblante descontraído. – vamos ou não?
-E a Angel? – perguntou a irmã, olhando para trás de Kenji como se Angel estivesse escondida atrás dele.
-Ela não vem – disse ele simplesmente, encolhendo os ombros. – Apercebi-me que afinal, não temos assim tanta coisa em comum. – Ele pousou os olhos em Mari, mirando-a atentamente. Esta virou o rosto e dirigiu-se para o carro, seguida por Cecília e Setsu.
Eiji e Linda ficaram para trás, não desviando os olhos de Kenji. Este sorriu:
-O que se passa com vocês os dois? – Perguntou num tom demasiado alegre para Linda e Eiji.
-Estás bem? – Perguntou a irmã.
-Estou. Não custou nada, acredita.
-Bom… - disse Eiji, tentando mudar o assunto para aquele que mais lhe interessava – Ano novo, Vida nova. Acaba um romance, começa outro.
-Começa outro? – Perguntou Kenji, confuso. Foi só quando viu Linda virar-se para Eiji, furiosa, com o rosto completamente vermelho é que entendeu. – VOCÊS OS DOIS?
Eiji sorriu, assentindo com a cabeça. Linda escondeu o rosto dos dois rapazes, embaraçada. Eiji aproveitou o momento para apertar a mão dela e chegá-la mais para si. Kenji observou o gesto do amigo de boca aberta, surpreendido e, ao mesmo tempo, entusiasmado.
-Bem… - colocou a mão livre na cabeça. – Ah… Parabéns?
-Vocês exageram… - murmurou Linda. – Até parece que nos vamos casar.
-Se fosse o Eiji e outra rapariga sim, estaríamos a exagerar… mas és tu!
-E?
-Tu sabes bem o que ele quer dizer, Lindinha. – Comentou Eiji, os três aproximando-se do carro.
-Cala-te!
-Ah… então não gostas que te chamem Lindinha! – Provocou Cecília, com um sorriso malicioso – Agora é que vais ver quantas eu valho.
Linda pôde apenas morder o lábio, enquanto os seis se enfiavam no carro feito para cinco. Eiji ficou atrás com as raparigas, com Linda no seu colo.
Durante todo o caminho, Setsu e Cecília dançaram ao som da música de rádio, Eiji sussurrou palavras ao ouvido de Linda, que apenas a punham ainda mais embaraçada, sendo observados curiosamente por Mari e Kenji. Ocasionalmente, Kenji mirava Mari pelo espelho retrovisor, olhar por vezes correspondido.
Ele sorriu, perguntando-se se era verdade se os desejos de novo ano de concretizavam. Alguns diziam que sim, outros acreditavam que apenas se realizavam se as pessoas se esforçassem.
Ele iria esforçar-se. Ou o seu nome não seria Kenji Chiba Natsumara. Ele iria ter o seu desejo concretizado nem que fosse a última coisa que fizesse. A oportunidade era única e ele não a iria desperdiçar.
Ano Novo, Vida Nova, cantarolou a Voz e, desta vez, Kenji nada fez para a silenciar.
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[3]: Ok, esta frase tem um duplo sentido. Lips of an angel – Lábios de um anjo; Anjo – Angel. Eu tinha que pôr este duplo sentido…
-Acham mesmo que isto me vai ficar bem? – Perguntou Mari, ansiosa.
-Claro que vai. Tu própria adoraste o vestido quando o experimentaste.
-Não tenho a certeza…
-Acabemos com isto! – Linda pegou no vestido laranja e estendeu-o a Mari – Veste-o que só temos umas horas.
-E então? É tempo suficiente para eu me preparar para três festas.
Cecília enrolou os olhos.
-Se queres ficar perfeita, tens que fazer montes de coisas… e tudo calmamente.
Mari olhou para Linda, em busca de apoio. Esta sentiu-se entre a espada e a parede. Por um lado, ela entendia Cecília e o número de horas que uma rapariga demorava a preparar-se para estar bela. Mas também estava com Mari. Todo aquele tempo era desnecessário.
-Mari – disse por fim – Veste o vestido já. Não vamos discutir mais.
A bufar, Mari lá cedeu. As três jovens, que se encontravam no quarto de Mari, vestiram-se e pentearam-se rapidamente. Linda pegou no conjunto de acessórios que Minako lhe dera. Pegou num enfeite para o cabelo, que se assemelhava a uma estrela dourada.
-Toma – estendeu-o a Cecília, que já tinha o vestido colado ao corpo e se maquilhava ligeiramente. Esta aceitou e penteou o cabelo com o enfeite. Linda pegou numa pulseira dourada e deu-a a Mari, que a aceitou relutantemente. Para si, seleccionou um par de brincos cor de safira redondos.
Apesar de todo o discurso de uma rapariga precisar de muito tempo para se preparar, Cecília foi a primeira a acabar de se arranjar. Ao observar as outras, constatou que estas pareciam as mesmas… apenas mudava os vestidos.
-Vocês as duas cansam-me.
-Que queres? Estamos vestidas. – Mari pegou num elástico que estava na caixa de Linda, que fazia o mesmo.
-Oh Mari, é que tu nem penses em amarrar esse cabelo! E tu Linda, que estás a fazer?
-O meu cabelo é demasiado selvagem para estar solto.
-Esqueçam! Mari, vais de cabelo solto. Linda chega aqui que vou fazer aquilo que não acabei no torneio.
As duas não protestaram, temendo enfurecer Cecília. E enfurecer uma rapariga calma por natureza não era boa escolha.
Ao todo, demoraram três horas e meia e tanto Linda como Mari juraram nunca mais passar por experiencias daquelas.
Aiko estava na sala, com os jantares prontos.
-Vocês estão tão bonitas – disse para Cecília e Linda, que sorriram em retorno. – Parecem umas princesas.
O sorriso de Linda desapareceu. Aiko e Cecília riram-se. Só pararam quando Mari surgiu na sala.
Os cabelos loiros dela estavam soltos e iam até aos cotovelos, com leves ondulações perto das pontas. O vestido cor de laranja, tal como as morenas previram, ficava perfeito em Mari, realçando a sua silhueta e as suas curvas. Mari usava uma pequena corrente de ouro e a pulseira dourada que Linda lhe dera. Na sua orelha esquerda ostentavam dois brincos: um dourado, que condizia com o da outra orelha e um pequeno em forma de estrela. O objecto de transformação de Mari.
Mas a maior transformação era a própria rapariga. A única maquilhagem em si era um leve batom nos lábios e um pouco de pó de arroz nas bochechas. No meio de tanta beleza e sensualidade, o que mais se destacava em Mari eram os seus olhos verdes, que brilhavam como esmeraldas.
Aiko ficou estática a olhar para a neta. Tanto Linda como Cecília sabiam no que ela pensava. Naquele momento, Mari era mais parecida com Julianna do que alguma vez fora.
-Estou bem? – Perguntou, com os olhares fixos na avó, temendo a sua reacção. Aiko não respondeu. Em vez disso, lágrimas caíram pelo seu rosto, obrigando a mulher a limpá-las à manga. Não se conseguindo controlar, aproximou-se da neta e abraçou-a com força:
-Estás linda, minha Mari. Está linda.
Mari retribuiu o abraço à avó, com um sorriso que se estendia até à orelha.
As quatro sentaram-se para comer umas refeições leves calmamente, receando sujar os vestidos. Quando chegou a hora, saíram para a rua. Setsu devia estar em baixo com o seu novo carro.
Quando este viu as três, assobiou.
-Vocês estão lindas. Quero dizer… - virou-se para Linda – tu já és linda.
-ahaha, que graça.
-Ela hoje está cá com um humor… - comentou Cecília.
-Também estarias se estivesse quase uma hora a esticar a porcaria do cabelo e o resto do tempo a maquilhar-te e a vestir-te.
-Por acaso até estive. Pior, fui eu que te estiquei o cabelo, por isso não te queixes.
Linda bufou em resposta. As três entraram no carro até que Linda e Cecília repararam que Setsu tinha os olhos postos em Mari, chocado. Em pânico, Linda fez sinais a Setsu para ele se calar e este, confuso, sentou-se ao volante e levou-as sem palavras até ao hotel Millenium, situado a sul da torre de Tokyo.
**
Ele tinha que admitir que ela estava linda. O vestido cor de laranja assentava-lhe como uma luva. Mais um pouco e ele podia dizer que tinha o par mais atraente da festa.
Luzes azuis, vermelhas e verdes iluminavam a sala escura, situada no terceiro andar do hotel, ao som de músicas estilo house. Já várias pessoas se encontravam lá, a divertirem-se e a conversarem nos sofás cor de vinho tinto ou na pista de dança a abanar o esqueleto.
Kenji estava com Eiji junto a uns sofás quando Angelique chegara, reluzente como o pôr-do-sol. O cabelo estava solto e extremamente ondulado e trazia a sua máscara laranja com pequenas missangas brilhantes a tapar os olhos. Tudo o que ele podia ver eram os seus belos olhos verdes.
Angelique falou a maior parte do tempo em que os três ficaram nos sofás, até que o telemóvel de Eiji vibrou:
-Eles chegaram. – Levantou-se e dirigiu-se à entrada, seguido por Kenji e Angel. Pouco antes de lá chegar, reparou que, ao mesmo tempo que Setsu lhe dera um toque, mandara-lhe também uma SMS, que onde fazia um pedido um tanto estranho:
Distrai o Ken e a Angel. Não os deixes ver a Mari, nem ela a eles.
Estranho, pensou.
-Está tudo bem? – Perguntou Kenji, de braço dado à namorada.
-Está – respondeu o loiro, guardando o telemóvel. – Esperem aqui.
-Porquê? Eu quero ver como a minha irmã está!
-E vais ver… mas por enquanto… aproveita para estar com a tua namorada antes que a Linda vos interrompa – mentiu rapidamente, antes de fugir não dando tempo a Kenji de responder.
Na entrada, viu Cecília a fazer-lhe sinais. O seu vestido vermelho era curto e mostrava as suas belas pernas morenas, para além de lhe dar um toque clássico e muito elegante. O cabelo estava preso num alto na cabeça, que deixava cair algumas madeixas. Junto ao alto, ostentava um enfeite em forma de estrela cadente. Ao vê-lo, colocou a sua máscara vermelha a tapar os olhos e apontou para Mari, que saia do carro. E aí Eiji viu o motivo.
Mari e Angel estavam iguaizinhas, sendo as suas diferenças quase indistinguíveis no escuro da noite. Mas havia uma diferença notável. Era habitual era Angel com roupas femininas e penteados e maquilhagem que lhe faziam sobressair a beleza. Mas Mari não. Ao ver a sua amiga vestida como uma deusa, Eiji quase que acreditou que Angel tinha dado a volta e estava agora ali à sua frente. Mas não era ela. Era Mari. Esta tinha a mascara (também igual à de Angel) posta, mas quando o viu, tirou-a. Eiji sorriu. Mari era sem dúvida uma rapariga muito bela.
-Mari põe a máscara que já chegamos – ordenou Cecília, tentando parecer calma. Eiji trocou um olhar com o irmão, que parecia tão confuso quanto ele. No entanto, ao notarem que Mari parecia alheia ao que se passava, chegaram a uma conclusão: Ela não sabia que estava vestida exactamente igual à namorada de Kenji. Linda e Cecília tinham preparado aquele plano para… para quê?
Como que adivinhando os seus pensamentos, Cecília apontou para o seu bilhete. Os bilhetes VIP! pensaram os dois irmãos ao mesmo tempo, finalmente entendendo o plano das duas. Ambos riram-se, até que Setsu abriu a porta para Linda sair.
Eiji perdeu toda a vontade de falar, toda a vontade de respirar.
O cabelo dela estava completamente liso, caindo-lhe um pouco abaixo dos ombros. Graças ao Deus Secador, pensou Eiji, maravilhado. O vestido favorecia cada parte do corpo dela, fazendo-o parecer-se com o de uma deusa. A pele dela já não estava tão pálida como ele vira noutros dias e os seus olhos brilhavam como safiras. Sobre o seu generoso decote em V, a corrente de prata que Eiji lhe dera baloiçava a cada movimento que ela fazia. A corrente era tão comprida para que o seu pingente repousasse por entre os seios.
Quando avançou em direcção a ele, viu que ela usava sapato alto, mas não estava minimamente incomodada. Pudera, ela usa-os na dança.
Linda não estava linda… estava belíssima. Já não parecia a rapariga que ele conhecera no inicio de Setembro. A rapariga de óculos, cabelos encaracolados presos num elástico e roupas discretas. Não. Aquela era a princesa de Tokyo, filha dos soberanos, herdeira de um trono e de uma grande beleza.
-Tudo bem? – Cumprimentou, nervoso, sem conseguir tirar os olhos dela.
-Sim – respondeu ela calmamente. Desviou o olhar de Eiji e virou-se para Mari. – Vamos Mari?
-Vamos – respondeu a loira, aborrecida. Eiji perguntou-se se ela desconfiava de alguma coisa. Conhecendo Mari, sim…
As três entraram, seguidas pelos irmãos Yamamoto. Eiji ajeitou o cabelo, enquanto procurava Kenji com o olhar. Ele e Setsu estavam vestidos de smoking, apesar do de Setsu ser castanho e o de Eiji azul-escuro, que facilmente se confundia com o preto naquela escuridão.
Puseram os quatro as máscaras, enquanto subiam as escadas liderados por Cecília. Entregaram os bilhetes ao segurança e atravessaram a multidão da pista de dança, em busca dos sofás onde Angel e Kenji se encontravam. Quando Linda e Cecília tiveram um vislumbre do casal, olharam uma para a outra em pânico.
-Mari vem comigo à casa de banho.
-Mas já não foste antes de sairmos?
-Sim, mas tenho vontade outra vez. Desculpa se eu não consigo controlar a minha bexiga. – Retorquiu Cecília, num tom ansioso.
Mari suspirou e seguiu a amiga na direcção contrária. Linda, Setsu e Eiji entreolharam-se e partilharam um sorriso malicioso.
Era verdade que o plano iria ser difícil, pois Mari e Kenji tinham que estar longe um do outro a noite toda. Por um lado não seria difícil, pois Mari e Kenji ignoravam a existência um do outro. Por outro não seria, pois estavam ambos inseridos no mesmo grupo. Como tal, seria extremamente difícil manter Mari num lado e Kenji no outro sem levantar suspeitas.
Mas estavam todos dispostos a arriscar.
Linda avançou até ao irmão e Angel. Cumprimentou a loira com dois beijos na face, sorrindo com as semelhanças entre a sua amiga e Angel e aproximou-se do irmão. Este olhava para ela como se esta fosse desaparecer a qualquer momento.
-Tu estás…
-Obrigada. – Agradeceu ela, sorridente.
-Obrigada o caraças! Linda estás… linda. – Disse ele, quase sem palavras.
-E tu também… Mascarado?
Kenji riu-se. Tinha vestido um smoking exactamente igual ao do Mascarado, com uma mascara branca que tapava apenas os olhos. As únicas diferenças do original eram a cor dos cabelos.
-Pois… sabes muito bem como o avô sempre foi o meu modelo de inspiração.
-Querias tu ser como ele! – Gozou a irmã.
-Quem é o Mascarado? – Perguntou Angel, querendo entrar na conversa. Nenhum dos dois irmãos lhe respondeu.
Sentaram-se e começaram a conversar sobre vários temas, nomeadamente desporto. Linda tentava entrar ao máximo no tema acerca de futebol, pois não lhe apetecia iniciar outro tema de conversa com Angel. De algum modo, acabaria por falar da vida dela e dos lindos filhos que ela teria com Kenji.
Se depender de mim, não será com ela com quem ele terá filhos…
Cecília tentou demorar-se o máximo possível, mas acabou por ter que voltar para os sofás, onde estavam todos sentados. Linda avistou-a ao longe e levantou-se de rajada.
-Vou buscar bebidas. – Disse, avançando para Mari – Vem comigo.
-Aonde?
-Buscar bebidas! -repetiu ela.
-Fixe, eu vou para ali – e Cecília já estava junto dos outros. Mari tentou ver o grupo ao longe, mas Linda tapou-lhe o campo de visão. A isto, a loira ergueu o sobrolho:
-O que se passa?
-Ah?
-Tenho cara de idiota? Sei que tu e a Cecília estão a planear alguma coisa.
Linda mordeu o lábio. Não havia escapatória. Tinha que mentir.
-Bem… não queremos que vás para ali… - hesitou, pensando no que iria dizer. – Porque nós estamos a pregar uma partida à Angel.
-E o que é que eu tenho a ver com isso?
-Ah…
-Esquece Linda, não sabes mentir. O que é que se passa? – Perguntou Mari, com as mãos nas ancas e já com um ar irritado.
-Olha... confia em mim. Vem comigo buscar bebidas. – Linda pegou no braço de Mari e arrastou-a até ao bar, onde pediu algumas bebidas. Quando o empregado lhe perguntou quais, Linda fez uma careta. Tivera tanta pressa em sair dali com Mari que se esquecera de perguntar aos outros que bebidas queriam.
-O que achar melhor. – Respondeu.
O empregado olhou-a de cima a baixo e depois pegou numa garrafa com um líquido vermelho alaranjado que distribuiu por sete pequenos copos. Linda e Mari pegaram nas bebidas e foram para junto dos outros. Pelo caminho, Linda tentou pensar numa forma de evitar que Mari chegasse ao destino.
Eiji foi a sua tábua de salvação. Aproveitando a mudança de música, arrastou Mari para a pista de dança, deixando os copos que ela trazia nas mãos de Cecília, que os aceitou de bom grado.
Horas passaram-se e os quatro jovens estavam fartos de tanto distrair os outros três. Até à altura, Kenji e Angel não tinham desconfiado de nada, para além de nem sequer terem perguntado por Mari. Linda sabia que Kenji a procurara várias vezes com os olhos, mas que desistia sempre que Angel se encostava mais a ele. Já Mari aceitava que todos a levassem para qualquer sítio. Era obvio que tentava perceber o que se passava, mas nenhum dos quatro davam-lhe hipóteses seguras.
Eram 23h50, dez minutos para o ano novo e Mari já tinha feito várias danças com Eiji, Setsu e bebido algumas bebidas com Linda e Cecília, para além de ter falado de várias coisas que ela nem sabia falar.
-Estou farta! – Reclamou Cecília a Linda e Setsu, enquanto olhavam para Kenji e Angel, mantendo Mari debaixo de olho. Eiji tinha ido à casa de banho faziam quinze minutos e ainda não tinha voltado – Acho melhor apressarmos isto. Os meus pés já não se aguentam e a Mari está a ficar impaciente.
-Como tu – murmurou Linda, mas Cecília não conseguiu ouvir com a música a altos berros.
-Setsu – berrou para o moreno ao seu lado – convence o Kenji a ir para a sala VIP.
-Agora? – Respondeu ele em retorno, também num tom elevado.
-Sim, antes da meia-noite. – Linda procurou o irmão. Viu Angel a afastar-se na direcção da casa de banho – Aproveita agora que a Angel foi-se.
Setsu assentiu e foi ter com o amigo. Linda sorriu e virou-se para Cecília. Abriu a boca para falar, mas Cecília cortou o discurso:
-Não precisas de dizer... vou buscar a Mari.
-Faz figas – sussurrou ela, esquecendo-se de que a morena não a podia ouvir. No entendo, Cecília pareceu ter entendido pois assentiu com um sorriso.
Agora ela apenas tinha que manter Angel longe dos outros dois.
Avançou em direcção da casa de banho quando esbarrou contra alguém.
-Desculpe – berrou, tentando contornar a alta figura à sua frente. Quando esta – um jovem homem forte – colocou as mãos nos seus ombros, Linda congelou. Levantou a cabeça e relaxou ao ver que era apenas Eiji. Este olhava-a fixamente, como se quisesse ver por dentro dela, sem afastar as mãos dos ombros semi-nus dela.
-Vem comigo – murmuram os seus lábios, sem no entanto sair qualquer som. Linda olhou para a porta da casa de banho, mas Eiji já a puxava para uma outra porta, mais distante da pista de dança.
A grande porta cor de vinho tinto estava trancada com um dispositivo electrónico, mas Eiji pegou num pequeno cartão no bolso e passou pela frecha, abrindo a porta com um clique. Rapidamente, sem que ninguém visse, deslizou para dentro da divisão com ela pelo braço.
Parecia ser uma das suites VIP’s onde o irmão estava naquele momento, a diferença era que aquela tinha mais cara de ser particular do que exclusiva para bilhetes VIP.
-Como é que arranjaste forma de entrar aqui? – Linda esfregou as mãos nervosamente, enquanto dava um passo em frente. Eiji permaneceu no sítio onde estava, dois metros à sua frente.
-O dono disto vinha a entrar com umas raparigas, até que sentiu-se mal e começou a vomitar em cima delas – sorriu, virando-se para ela – Foi para o hospital e, pelo caminho deixou cair a chave. Só se fosse estúpido é que não aproveitava.
-Porque viemos para aqui?
-Porque fazes muitas perguntas? – Respondeu ele em retorno, contente por vê-la nervosa. – Principalmente quando já sabes as respostas?
-Prefiro pensar que estou errada.
-Conheces-me demasiado bem para te iludires dessa forma, Lindinha.
Lá estava ele. O Eiji sedutor, engraçado e bem-parecido que ela conhecia. Ele tirara a máscara e já não escondia o seu maravilhoso sorriso. Linda sentiu o chão a fugir-lhe dos pés.
-Tens cá uma lata. – Murmurou ela, com a voz fraca. Ele ergueu o sobrolho.
-Porquê?
-Porque pedes tempo para pensar e agora andas atrás de mim!
-Mas Linda… - Ele quebrou a pequena distancia que havia ente os dois. Estava agora tão próximo dela que podia ouvir o som da sua respiração. - Há quanto tempo é que eu te pedi um tempo?
-Bem…
-Há umas semanas. – Cortou ele, respondendo à sua própria pergunta – E entretanto muita coisa aconteceu. Apercebi-me de muitas coisas. – Fez uma pausa, sorrindo para ela maliciosamente – Tinhas razão.
-Foi isso que disseste no cartão. – Disse ela, virando a cabeça de lado. Ele não tardou a pegar-lhe no queixo e rodá-lo para que ela fizesse contacto visual com ele de novo.
-Pois foi. E sabes porque o disse?
Ela semicerrou os olhos.
-Ilumina-me. – Desafiou.
-Bem… - Ele deu-lhe espaço, como que sabendo que a estava a sufocar. Aproximou-se de uma das janelas de vidro, com vista para a torre de Tokyo e observou o horizonte. – Eu não te conhecia. Aliás… não te conheço. – Virou-se para ela, pedindo-lhe com o olhar para que se aproximasse. Linda não se mexeu. - Eu achei que o facto de seres princesa mudava tudo, mas estava enganado. Nada muda, excepto o facto de eu agora ter fantasias contigo com uma coroa. – Ele riu-se, mas ela continuou séria. – Ou melhor... muita coisa muda. Por não saberes se podias confiar em mim ou nas outras pessoas, não te mostraste verdadeiramente, escondeste-te atrás de uma máscara para te protegeres das reacções dos outros. Tentaste fazer com que os outros gostassem de ti pelo lado que mais… gostas, não aquele que tem mais a ver contigo. Falo pelo menos no temperamento e auto-estima.
Linda respirou fundo. Eiji não lhe dizia novidade nenhuma.
-Achavas que as pessoas não iriam desconfiar de ti se tu mostrasses ser uma rapariga fora do comum. E é verdade. Só que… - ele aumentou o seu sorriso, pondo-a desconfortável – escolheste o lado errado da máscara. Se tivesses usado este, ninguém alguma vez iria desconfiar de ti… pelo menos a Mari. Mas tu escolheste logo o lado menos ‘normal’. Uma rapariga muito calma, inteligente, educada, sensível e carinhosa.
Ele voltou a chegar-se perto dela e, desta vez, pegou nas mãos dela.
-Mas estou contente por o teres feito. Se não, eu jamais notaria em ti. Jamais sentiria que havia algo em ti parecido comigo. Que eras especial. Que eras tu mesma, apenas um pouco reservada em termos de sentimentos.
Ela sorriu, sentindo as suas faces mudarem de cor. Porque é que Eiji ainda tinha esse efeito sobre ela?
Ambos ficaram em silêncio. Durante esse tempo, notaram na balada que tocava lá do outro lado, onde casais dançavam juntos e grupos de amigos juntavam-se, a fim de festejar o ano novo.
Ele baixou o rosto, tocando a sua testa na dela. Fecharam os olhos, enquanto várias pessoas começavam a gritar.
-10…
-9…
-8…
-7…
-6…
-5…
-Pede um desejo, Linda. – Sussurrou ele, abrindo os olhos. Ela abriu também os dela, sorrindo.
-4…
-3…
-2…
-Não preciso. Já se realizou. – Sussurrou ela de volta, aproximando os seus lábios dos dele.
-1…
As badaladas do relógio do hotel começaram a tocar e vários uivos, sons de garrafas de champanhe a estoirar e buzinas de carros do exterior encheram a divisão. O fogo-de-artifício encheu o ar, rodeando a torre de Tokyo, assinalando a entrada no ano novo.
Mas dentro daquela sala apenas o som do toque de lábios dos dois se podia ouvir. Ambos viam um arco-íris de cores à sua volta, enquanto um forte formigueiro atingia os corpos de ambos. Linda sentiu-se atordoada e deixou-se cair no sofá atrás de si. Ele veio com ela, as suas mãos cercando o corpo dela, como que temendo que ela fugisse.
Ela tentou erguer-se e ficou de tronco levantado a fitá-lo. Aquela sensação era muito estranha. Ela podia jurar que ouvira vozes dentro da cabeça dele.
Só havia uma resposta para isso.
Os sonhos dele…
Determinada a impedir que o seu poder estragasse o momento, tentou falar:
-Porquê o colar? – Perguntou devagar, enquanto ele se afastava lentamente.
-Para que tu sejas a princesa e a Linda Tsukino ao mesmo tempo. Para que nunca tenhas que abdicar de nenhum lado da tua personalidade em nenhum momento. – Respondeu ele, beijando o pescoço dela. Ela suspirou e deixou que ele pegasse nos seus cabelos e a manobrasse como uma marioneta.
-Vem comigo – sussurrou ele, puxando-a do sofá lentamente. Ela ergueu-se e foi atrás dele para perto da janela. Ele apressou-se a abri-la, mostrando a varanda com a maravilhosa vista da Torre e do fogo. Um incrível espectáculo de luz explodia no ar como tiros de pistola.
Ele deitou-lhe um olhar antes de voltar a puxá-la para si e tomar a boca dela de novo. Ela deixou-se levar, talvez porque tenha ficado viciada nos lábios dele. Sempre que tocava nela, sentia uma explosão de sabores que a deixavam com ainda mais vontade de prolongar o beijo.
Eiji parecia determinado a dominá-la, pois acabou o beijo tão depressa como o começou. Envolveu-as nos braços, impedindo-a de fazer alguma coisa e obrigou-a a virar-se para o panorama de fundo.
-Sabes qual foi o meu desejo? – Sussurrou ao ouvido dela.
-Se disseres não se concretiza!
Ele pareceu reflectir. Depois assentiu, encolhendo os ombros.
-Que o seja. Eu quero mesmo que este desejo se realize.
Linda sentiu uma súbita curiosidade em saber o que é que ele desejara, mas nada disse.
Mais fogo explodiu no céu nocturno. Uma chuva de luz dourada, vermelha, verde, amarela e azul iluminou o cenário, dando por leves segundos a sensação de que ainda era dia.
Ele sussurrou algo no ouvido dela mas, com o barulho ensurdecedor do fogo, ela não entendeu direito. Quando virou a cabeça para lhe perguntar o que é que ele tinha dito, ele sorriu misteriosamente.
Juntos, observaram o fogo a aparecer e a desaparecer, sempre uma chuva de luz como a de estrelas cadentes até que o céu ficou apenas iluminado pelas luzes vindas das casas e da Torre de Tokyo.
Linda virou-se para Eiji:
-Disseste aquilo que eu estou a pensar?
Ele não respondeu. Invés disso, dirigiu-se para a porta.
-Vamos. Os outros devem estar à nossa procura.
-Eiji! – Chamou ela. Este virou-se para ela. Ambos ficaram em silêncio. Apenas o som das celebrações nas ruas e no hotel se podiam ouvir.
Ela queria dizer algo. E ele temia aquilo que ela queria dizer.
-Estás errado.
Ele ergueu o sobrolho.
-Em que sentido?
Ela não respondeu. Mordeu o lábio inferior, desta vez sinal de nervosismo e baixou os olhos para o chão de mármore.
-Vamos! – Disse ela finalmente, abrindo caminho na porta. Ele veio atrás dela, a cara exposta a uma expressão confusa.
Abriram a porta e saíram sorrateiramente, temendo serem vistos pelos seguranças. Quando a porta foi fechada e eles viram-se no meio da espessa multidão, que festejava alegremente, conseguiram relaxar. Sorriram um para o outro e avançaram para os sofás onde deveriam estar os outros de mão dada, ainda que o toque fosse apenas pela ponta dos dedos. Mas só esse toque já selava muitos sentimentos e emoções.
Quando chegaram aos sofás, viam-nos ocupados por outras pessoas e não havia sinais de Kenji, Angel, Mari, Cecília e Setsu. Preocupados, olharam em volta em busca de alguém. Mas onde é que eles estariam?
**
(paralelamente. Quando Setsu vai buscar Kenji)
-Hei meu! – Chamou, obtendo a atenção do loiro – Está na hora da prenda. – Berrou, sorrindo.
Kenji retribuiu o gesto.
-Ok, espera apenas pela Angel.
-Não é preciso. Ela já lá vai ter. Dá-me o bilhete dela!
Kenji estendeu-lhe o bilhete laranja e foi devagar para a zona VIP. O segurança verificou o seu bilhete e deixou-o entrar, fechando a porta atrás de si.
Kenji viu-se numa sala rodeada de sofás da cor do vinho, com uma mesa média de vidro no centro e um bar no canto mais escuro da sala. Desejando uma bebida, ele aproximou-se do bar e vasculhou o stock. Sorriu ao ver uma garrafa de Vodka e sumo. Pegou em dois copos e encheu-os.
Agora só tens de esperar, disse a Voz, num tom alegre.
Kenji congelou. Para além de não ter conseguido bloquear a Voz naquele preciso momento, também ela parecia feliz. E isso era deveras estranho, pois a Voz não gostava nada de Angel, como se tivesse personalidade própria.
Porque é que tenho um mau pressentimento acerca disto, perguntou-se. E Kenji quase que podia jurar que ouvira uma gargalhada de fundo dentro da sua cabeça.
**
(paralelamente, quando Kenji dá o bilhete a Setsu)
Cecília observou Setsu pegar no bilhete laranja, ao mesmo tempo que deitava uma olhadela em Mari. Esta estava agora deveras irritada com todo o mistério.
-Quando é que vocês me vão contar o que estão a planear?
-Em breve. – Respondeu Cecília, sem tirar os olhos de Setsu, que encontraram os seus. Ele sorriu, sendo o gesto correspondido.
-Espera aqui. – Ordenou a morena, deixando a loira e aproximando-se do rapaz.
-Toma, o Kenji já foi.
-Fixe. Espero que a Linda mantenha a Angel sobre controlo. – Cecília pegou no bilhete e apressou-se a correr para junto de Mari.
-Olha! – Gritou, tentando chamar a atenção a amiga. – Vai para a zona VIP que eu e a Linda vamos já ter contigo.
Mari pegou no bilhete, desconfiada.
-Vai Mari, não percas tempo! – Cecília pegou no braço da amiga e arrastou-a até à porta da zona VIP, onde o segurança pediu o seu bilhete. Mari entregou o seu. Antes de entrar pela porta, deitou um último olhar a Cecília, que sorria ansiosamente.
O que é que elas estarão a tramar?
Mari entrou e o homem fechou a porta atrás de si.
A sala estava pintada em tons de azul metálico claro e escuro e decorada por sofás bordo. Havia tons de verde-garrafa nas paredes, a misturar com os tons de azuis. Mari avançou, olhando em seu redor. Os seus olhos pararam numa fugira de costas para ela no bar.
A figura virou-se e sorriu para ela, provocando um formigueiro no corpo dela. Aquele formigueiro particular que ela só sentia com uma pessoa.
Kenji…
-Estava a ver que ias demorar. – Disse ele, aproximando-se dela com duas bebidas na mão. Entregou-lhe uma. – Mas estou a ver que hoje decidiste ser pontual.
Mari não respondeu, nervosa. Ergueu o copo à boca e deu um gole na bebida. A sua garganta ardeu como se tivesse ingerido ácido, mas um ácido com um aroma adocicado a melão. Voltou a deitar um olhar na sala, completamente confusa sobre o que se estava a passar.
-Gostas? – Perguntou ele, sem tirar o seu charmoso sorriso. – Bem me parecia estranho estares tanto tempo calada. Bem, esta é a minha prenda de Natal. O Eiji deu-ma para que te trazer aqui.
Trazer aqui? Oh, não... ele pensa que eu sou a namorada dele.
Mari entendeu logo o plano. O motivo de ela ter passado a noite toda a fugir de um lado para o outro. Sempre para um sitio onde Kenji e a sua namorada não estavam. Entendeu o plano das suas ‘amigas’.
Desgraçadas… vão-se arrepender…
-Que foi? – Perguntou ele, obviamente incomodado com o silêncio dela. – Está tudo bem?
Mari pensou em responder e assim arruinar todo o plano de Cecília e Linda. Mas algo a impediu.
Uma música – uma balada – começou a sair pelas colunas, postas nos cantos da sala, vinda do outro lado. Uma música que a fez arrepiar-se.
(https://www.youtube.com/watch?v=rzM4qh84n94)
Ele puxou a sua mão, parecendo maravilhado pelo seu silêncio e envolveu-a numa dança lenta e carinhosa. Ela automaticamente colocou os braços nos ombros deles e juntos deslizaram pela sala suavemente.
A música envolveu os dois num mundo à parte, apesar de eles já estarem longe dos outros. Os seus olhos só focavam o outro, os corpos obedecendo automaticamente a qualquer ordem dada pelo cérebro.
Mari por várias vezes abriu a boca para falar. Ele tinha que saber. Tinha que saber que não estava a dançar com a namorada, mas com ela. Que tudo aquilo era uma partida da sua irmã e da melhor amiga dela.
Mas nunca conseguia dizer nada. Por detrás da máscara branca, os olhos azuis de Kenji brilhavam como safiras preciosas, cheias de desejo. Que não é por mim…
Já Kenji pensava noutra coisa. Aquelas mãos não eram tão suaves como as de Angel, mas o seu toque fazia-o arder por dentro. De repente, um enorme fogo consumiu-o, uma fonte de desejo havia algum tempo adormecida.
Olhou-lhe nos olhos, tentando ver o que estava errado. Mas os olhos verdes esmeralda dela brilhavam ansiosamente, como que temendo o próximo passo dele. Olhos que, apesar de serem da mesma cor que os de Angel, não eram os mesmos. Não eram os olhos bonitos que um homem gosta de admirar. Eram os olhos de um anjo que ele queria beijar.
Aproximou os seus lábios dos dela. Ela afastou o rosto um pouco, hesitante, mas ele insistiu. O som da respiração dela, o hálito dela com sabor à bebida que ele lhe dera há pouco, o cheiro do perfume dela… jasmim, pensou ele, abrindo bem os olhos, incrédulo. Aquele não era o perfume de Angel.
Aquela não era a sua namorada.
Mas, mesmo sabendo que aquela não era a namorada, mas uma rapariga de cabelos loiros, olhos verdes com a mesma roupa e máscara, poderia ele resistir a aquele desejo? Poderia ele, um homem vulgar, abdicar daquela mulher cujo cheiro e som da respiração já o deixava louco?
Ele tinha que saber. Tinha que saber como sabiam os lábios dela. Tinha que explorar aquela mulher que lhe provocava arrepios quentes por todo o corpo.
Parou a dança e aproximou os lábios ainda mais. A curta distancia entre os dois desapareceu e ele beijou-a suavemente, mordendo levemente o lábio inferior dela.
Não sentiu apenas um sabor, mas vários. Um enorme calor explodiu dentro do corpo dele e dela, como se ambos tivessem desejado aquele beijo havia muito tempo. As mãos dela procuraram-no às cegas e percorreram o rosto dele, aproximando-o dela. Ambos amaldiçoaram as borboletas no estômago, que agora mais pareciam abelhas assassinas, fazendo os corpos deles fraquejarem ao toque.
As mãos dele percorriam as ancas dela, obrigando-a a colar o seu corpo ao dele. O toque de lábios cessou um pouco e ele afastou o seu rosto do dela. Ela estava ofegante, mas tentava controlar a sua ânsia de retirar a máscara. Era tarde de mais para recuar. Ela também tinha desejado aquilo.
Ele aproximou o seu rosto do dela, tentando descobrir quem ela era. Os olhos verdes de Mari estavam agora embaciados e ela apenas conseguia ver o brilho dos olhos dele. Ele tirou a máscara e pegou na dela. Começou a puxar a máscara para cima, quando ela o travou, aterrorizada.
-Kenji – sussurrou ela, com medo. Lá fora, todos faziam a contagem para o ano novo, mas eles não ouviam. A música continuava a tocar lá dentro e eles continuam no seu próprio mundo, onde eles já estavam.
Algo no tom de voz dela lhe soou familiar, mas qualquer hipótese de reconhecê-la desvaneceu-se como fumo quando ela disse o seu nome.
O poder que aquelas palavras tinham sobre ele era inimaginável. Ele perdeu o poder que tinha, a força de que era feito e sentiu ela a assumir o controlo sobre ele. Quem quer que ela fosse, era agora a dona dele.
Ela voltou a puxar a máscara para tapar os olhos. Temendo não conseguir resistir por muito mais, aproximou-se dela, tocando os seus lábios com os dela. Toque suave, delicado e cheio de paixão. A boca dela era o Paraíso ou o Éden, onde toda a perfeição se juntava num sítio só. Kenji sentiu finalmente que beijava os lábios de um anjo. [3]
A sua mão esquerda tocou no rosto dela e a direita deslizou pelo corpo dela, traçando as curvas dela. Separou os lábios colados e beijou o pescoço dela, descendo até os ombros nus. Tocar na pele dela era como transportar uma boneca de porcelana. O medo de quebrar era constante e ele temia que aquele momento fosse estragado, ou que ela se fartasse de repente. Ele gemeu, o seu corpo tremendo com o toque dele nela.
Ergueu o rosto para ela e voltou a tomar a boca dela, desta vez com mais vontade. Ele esquecera-se de Angel, ela esquecera-se do esquema das amigas.
Separaram-se lentamente, o som dos corpos a um ritmo constante. Ele não precisou de pedir. Ele desejava saber quem ela era, e ela queria que ele soubesse. Kenji pegou na máscara dela e tirou-a devagar.
Mas já sabia quem ela era antes mesmo de a máscara chegar aos olhos dela, mostrando o seu verdadeiro rosto a ele. Ele já sabia porque a sensação que ele sentia junto dela era a mesma que das outras vezes. Quando a abraçara, quando a impediu de cair várias vezes, quando a vira na enfermaria desmaiada, quando a conheceu na casa de Aiko e quanto juntos cozinharam o jantar. A sensação, o medo e o desejo era igual. Só não se apercebera antes porque já não havia medo.
Mari…
O nome dela ecoou na sua mente, enquanto a máscara ficava na sua mão, deixando o rosto dela livre. Ela estava tão linda com o cabelo solto e um leve toque de maquilhagem…
Olharam um para o outro, ambos receando a reacção do outro. Mari mordeu o lábio, esperando que Kenji desse o próximo passo. Já este não sabia o que fazer.
-KENJI! – Ouviu alguém berrar do outro lado. Kenji e Mari viraram-se para a porta, onde uma furibunda Angel os mirava de alto a baixo. Os olhos de Angel pousaram em Mari com profunda raiva. Kenji não conseguiu deixar de notar na profunda ironia da situação. Normalmente era Mari a rapariga de temperamento e ar demoníaco, enquanto Angel era a rapariga de ar angelical. Naquele momento, os papéis tinham-se invertido.
Mari corou até à raiz dos cabelos e correu para fora da sala sem que Angel ou Kenji pudessem fazer alguma coisa para a impedir.
Correu até se encontrar fora do hotel, longe da festa. Havia um espectáculo de fogo-de-artifício, mas não encontrou nenhum interesse nele. Só pensava no beijo. Ainda se lembrava de quando Kenji quase que a tinha beijado no telhado da sua casa e de quanto ela desejara que ele o tivesse feito. Agora tal tinha acontecido e ela estava arrependida.
Ela não queria gostar dele. Ela não queria entregar a chave do seu coração a nenhum homem, tal como a mãe fizera. Mari queria apenas divertir-se, nada mais… Mas depois vira Kenji e tudo mudara.
Céus, como é que ele pode ter este efeito em mim, perguntou-se a si própria, sentando-se na soleira da estrada. Os braços rodearam as pernas dobradas e ela deixou escapar um suspiro triste.
Mesmo que algum dia ela pudesse abrir o seu coração para alguém, esse ‘alguém’ jamais seria Kenji. Ele era demasiado perfeito para ela, demasiado impossível. Não apenas por ele ser o príncipe herdeiro, mas também porque… ela sentia que algo os afastava. Algo que ela não conseguia visualizar no cantos obscuros da sua mente.
Fechou os olhos com força, querendo obrigar-se a si própria a acordar para a realidade. Era verdade, talvez nunca teria uma hipótese com Kenji, mas isso não quereria dizer que iria ignorar os seus sentimentos por ele até ao resto da eternidade. Era mais fácil aceitá-los, para depois combatê-los. Pois bem, agora que era um novo ano, era isso que iria fazer.
-Eu estou apaixonada pelo Kenji – murmurou para os seus botões, finalmente admitindo aquilo que lhe ia na alma. – Mas sei que jamais terei algo com ele. Portando, fica aqui o meu desejo. Desejo que ele seja feliz com qualquer mulher que ele escolha e desejo que o meu sofrimento seja poupado. Que eu possa ver uma luz no túnel, mesmo depois de ter entregado o meu coração a um homem que jamais o poderá receber. Ano novo, vida nova, isso é tudo o que desejo.
Ficou sentada ali durante uns bons minutos, ignorando que alguém a tinha ouvido a murmurar o seu desejo. Alguém que, naquele momento, tinha tomado uma escolha. Um escolha que se tornou num desejo de ano novo. Uma escolha que seria a luz do túnel para Mari.
**
Cecília mexia as mãos nervosamente, tentando acalmar-se. Não encontrara Linda e Eiji em lado nenhum, portanto ela e Setsu tiveram que distrair Angel durante um bom bocado. Ele oferecera-se para dançar com ela várias vezes, mas Angel começou a ficar irritada e a exigir saber onde estava Kenji. Setsu ofereceu-se para procurá-la e foi com ela até à recepção. Entretanto, Cecília procurou Linda, não conseguindo obter nenhum resultado.
Chegara o ano novo e Setsu, vendo que Cecília estava agora ainda mais nervosa, pagou uma garrafa de champanhe e aproximou-se dela, ignorando uma loira furiosa.
-Feliz Ano Novo – desejou ele, oferecendo-lhe uma taça. Cecília sorriu, agradecida pelo gesto de amizade por parte dele. Junto brindaram ao sucesso do plano, pois Kenji e Mari estavam lá dentro faziam dez minutos e ainda não tinham saído. Tudo parecia crer que correra lindamente.
Nenhum deles reparou que Angel vira a sala VIP e fora perguntar aos seguranças se tinham visto Kenji, descrevendo-o minuciosamente. Os seguranças, que podiam jurar que a tinham deixado entrar, responderam que o tinham visto e que ele estava lá dentro. Angel exigiu que eles lhe abrissem a porta, pelo menos para ver se o seu namorado estava ali.
Eles aceitaram e iam bater à porta, quando Angel decidiu apressar o processo. Pegou no cartão magnético e passou pela ranhura, abrindo a porta rapidamente. Os seguranças viram a cara de Angel, que retirara a máscara, virar de um branco para um vermelho de raiva. Depois viram uma rapariga vestida da mesma forma que a outra sair sem que fosse impedida por nenhum dos outros dois.
O segurança achou melhor fechar a porta para que o casal de namorados discutissem em privacidade, mas o loiro saíra da sala apressadamente, correndo atrás da outra loira. A namorada ficou dentro da sala, chocada.
Mais tarde, ele voltara e pedira completa privacidade por uns minutos. Após a porta ter sido fechada, não se ouviu nenhum barulho vindo de lá de dentro.
**
-Hei! – Chamou Eiji, ao ver o irmão e Cecília. Estes contraíram os rostos ao ver Linda e Eiji.
-Onde raio é que vocês estiveram? – Perguntou Setsu, furioso. – Tivemos que fazer tudo sozinhos!
-Feliz Ano Novo para vocês também – comentou Eiji, ironicamente.
-Desculpem – disse Linda, com sinceridade. – É só que…
Não precisou de acabar o discurso, pois os dois morenos aperceberam-se de que Linda e Eiji estavam de mãos dadas. Cecília sorriu, abraçando a amiga:
-Parabéns.
-Calma Cecy, isto não é noivado nenhum. – Retorquiu Linda, tentando libertar-se da amiga.
-Não me chames Cecy! E, apesar de não ser noivado nenhum, é bom na mesma.
Ambas sorriram uma para a outra. Já Setsu tentou manter um ar sério, enquanto o irmão mais novo o fitava, à esperava que este dissesse alguma coisa.
-Ah… parabéns! Como já te disse, a Linda aqui vale ouro. Sinceramente, acho que ela é muita areia para a tua camioneta, mas se ela te quer…
-Obrigadinha pela honestidade. – Respondeu Eiji, desdenhoso.
-Sempre às ordens.
-Como correu? – Perguntou Linda.
-Não sabemos. Nós… - foi aí que Cecília e Setsu notaram na falta de Angel. Procuraram-na com o olhar, mas o máximo que viram foi Kenji a falar com os seguranças da sala VIP.
-Tenho um mau pressentimento. – Disse Cecília.
-Onde está a Mari? – Perguntou Eiji.
-Vamos procurá-la lá fora – sugeriu Setsu.
Os quatro abriram caminho por entre a multidão em festa até à entrada do hotel, onde encontraram Mari sentada na beira da estrada.
-Mari! – Gritaram Cecília e Linda ao mesmo tempo. A loira virou-se e, para surpresa delas, sorriu. – Estás bem?
-Estou. – Respondeu a loira num tom natural – Só acho que o Kenji está em maus lençóis. A Angel ficou mesmo furiosa com ele.
Os quatro entreolharam-se entre si, com semblantes de culpas nos seus rostos.
-Mari… – começou Linda.
-Ano novo, Vida nova, certo? – Ela levantou-se, sacudindo o vestido levemente - O quer que tenha acontecido antes, não importa agora. Por isso, considerem um golpe de sorte não me querer vingar de vocês. Aquele… momento… fez-me pensar nalgumas coisas e cheguei à conclusão que vos posso perdoar pelo que fizeram.
-A sério? – Perguntou Eiji, desconfiado - O que é que aconteceu lá dentro para teres ficado assim?
Mari ignorou-o e virou-se para o sítio onde o carro de Setsu estava estacionado.
-Vamos? – Perguntou.
Linda olhou para os irmãos Yamamoto.
-Então e o Kenji?
-Estou aqui – comentou alguém por trás. Kenji tinha o casaco do smoking ao ombro e a máscara na mão e fitava os amigos com um semblante descontraído. – vamos ou não?
-E a Angel? – perguntou a irmã, olhando para trás de Kenji como se Angel estivesse escondida atrás dele.
-Ela não vem – disse ele simplesmente, encolhendo os ombros. – Apercebi-me que afinal, não temos assim tanta coisa em comum. – Ele pousou os olhos em Mari, mirando-a atentamente. Esta virou o rosto e dirigiu-se para o carro, seguida por Cecília e Setsu.
Eiji e Linda ficaram para trás, não desviando os olhos de Kenji. Este sorriu:
-O que se passa com vocês os dois? – Perguntou num tom demasiado alegre para Linda e Eiji.
-Estás bem? – Perguntou a irmã.
-Estou. Não custou nada, acredita.
-Bom… - disse Eiji, tentando mudar o assunto para aquele que mais lhe interessava – Ano novo, Vida nova. Acaba um romance, começa outro.
-Começa outro? – Perguntou Kenji, confuso. Foi só quando viu Linda virar-se para Eiji, furiosa, com o rosto completamente vermelho é que entendeu. – VOCÊS OS DOIS?
Eiji sorriu, assentindo com a cabeça. Linda escondeu o rosto dos dois rapazes, embaraçada. Eiji aproveitou o momento para apertar a mão dela e chegá-la mais para si. Kenji observou o gesto do amigo de boca aberta, surpreendido e, ao mesmo tempo, entusiasmado.
-Bem… - colocou a mão livre na cabeça. – Ah… Parabéns?
-Vocês exageram… - murmurou Linda. – Até parece que nos vamos casar.
-Se fosse o Eiji e outra rapariga sim, estaríamos a exagerar… mas és tu!
-E?
-Tu sabes bem o que ele quer dizer, Lindinha. – Comentou Eiji, os três aproximando-se do carro.
-Cala-te!
-Ah… então não gostas que te chamem Lindinha! – Provocou Cecília, com um sorriso malicioso – Agora é que vais ver quantas eu valho.
Linda pôde apenas morder o lábio, enquanto os seis se enfiavam no carro feito para cinco. Eiji ficou atrás com as raparigas, com Linda no seu colo.
Durante todo o caminho, Setsu e Cecília dançaram ao som da música de rádio, Eiji sussurrou palavras ao ouvido de Linda, que apenas a punham ainda mais embaraçada, sendo observados curiosamente por Mari e Kenji. Ocasionalmente, Kenji mirava Mari pelo espelho retrovisor, olhar por vezes correspondido.
Ele sorriu, perguntando-se se era verdade se os desejos de novo ano de concretizavam. Alguns diziam que sim, outros acreditavam que apenas se realizavam se as pessoas se esforçassem.
Ele iria esforçar-se. Ou o seu nome não seria Kenji Chiba Natsumara. Ele iria ter o seu desejo concretizado nem que fosse a última coisa que fizesse. A oportunidade era única e ele não a iria desperdiçar.
Ano Novo, Vida Nova, cantarolou a Voz e, desta vez, Kenji nada fez para a silenciar.
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[3]: Ok, esta frase tem um duplo sentido. Lips of an angel – Lábios de um anjo; Anjo – Angel. Eu tinha que pôr este duplo sentido…

Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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