A Guardiã dos Sonhos
Owh!
Eu arruscava-me a dizer que este foi o melhor capitulo de toda a fic (Sim, eu sou louca por romance e daí?!), mas estaria a retirar valor aos outros capitulos que eu tanto adoro!"
Entao, o que tenho a dizer é Ponhá-si di jóêlhos, istêndá seus braiços e gritxi "Aléluiá"!!
A sério, finalmente! finalmente conhecemos aquela caniche que engoliu um papagaio que namorava para o Kenji, finalmente que ele a pôs a andar de patins, Finalmente a MAri, pôs-se bonita, finalmente o Eiji e a Linda entenderam-se, e Finalmente o kenji e a Mari mudaram o disco! OMG! por momentos achei que ou o Eiji e a Linda, ou o Kenji e a Mari se iam enrolar enrolados (se é que me entendes!
)
Gosto muito da nossa relação Mari, Cecy e Linda! É um verdadeiro "um por todos e todos por um", e isso viu-se no que magicaram para a Mari! Agora o Kenji que arranje T*mates e se ponha fino com a rapariga!
Bem, eu tinha mais qualquer coisa para dizer, mas esqueçi-me! Isto é muito irritante, mesmo! estou a tentar lembrar-me e não sai nada! Grrr! Que raiva!
Enfim, fico ansiosamente á espera de mais! Bjokas
PS: Não entendo como é que esta fic tem tão poucos leitores! Deve ser das melhores, ou senão a melhor fic de Sailor moon! Enfim, anda tudo perdido!
Eu arruscava-me a dizer que este foi o melhor capitulo de toda a fic (Sim, eu sou louca por romance e daí?!), mas estaria a retirar valor aos outros capitulos que eu tanto adoro!"
Entao, o que tenho a dizer é Ponhá-si di jóêlhos, istêndá seus braiços e gritxi "Aléluiá"!!

A sério, finalmente! finalmente conhecemos aquela caniche que engoliu um papagaio que namorava para o Kenji, finalmente que ele a pôs a andar de patins, Finalmente a MAri, pôs-se bonita, finalmente o Eiji e a Linda entenderam-se, e Finalmente o kenji e a Mari mudaram o disco! OMG! por momentos achei que ou o Eiji e a Linda, ou o Kenji e a Mari se iam enrolar enrolados (se é que me entendes!
)Gosto muito da nossa relação Mari, Cecy e Linda! É um verdadeiro "um por todos e todos por um", e isso viu-se no que magicaram para a Mari! Agora o Kenji que arranje T*mates e se ponha fino com a rapariga!
Bem, eu tinha mais qualquer coisa para dizer, mas esqueçi-me! Isto é muito irritante, mesmo! estou a tentar lembrar-me e não sai nada! Grrr! Que raiva!
Enfim, fico ansiosamente á espera de mais! Bjokas
PS: Não entendo como é que esta fic tem tão poucos leitores! Deve ser das melhores, ou senão a melhor fic de Sailor moon! Enfim, anda tudo perdido!
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Olá Ana! 
Concordo com a Lulumoon. É pena que a fic tenha poucos comentários, é muito boa e merecia um pouco mais de atenção.
Amei o capítulo como de costume.
A amizade das três está mesmo muito querida.
Finalmente a Linda e o Eiji entenderam-se, já estava na altura.
E apesar de ter amado a reconciliação deles, a minha cena favorita de todo o capítulo foi a Mari com o Kenji.
Li-a ao som da música que colocaste, ficou perfeito.
Ano Novo, vida nova! Lool
Vamos lá ver o que vai trazer este ano novo...
Então a voz é como se fosse uma outra faceta do kenji, pois isso faz sentido, mas no entanto ela sabia o que andavam os outros a tramar pelas costas dele. Como é isso possivel? Que misteriosa!
Estou a gostar mesmo muito da fic.
Espero pelo próximo!
Bjo*

Concordo com a Lulumoon. É pena que a fic tenha poucos comentários, é muito boa e merecia um pouco mais de atenção.
Amei o capítulo como de costume.

A amizade das três está mesmo muito querida.
Finalmente a Linda e o Eiji entenderam-se, já estava na altura.
E apesar de ter amado a reconciliação deles, a minha cena favorita de todo o capítulo foi a Mari com o Kenji.
Li-a ao som da música que colocaste, ficou perfeito.
Ano Novo, vida nova! Lool
Vamos lá ver o que vai trazer este ano novo...
Então a voz é como se fosse uma outra faceta do kenji, pois isso faz sentido, mas no entanto ela sabia o que andavam os outros a tramar pelas costas dele. Como é isso possivel? Que misteriosa!

Estou a gostar mesmo muito da fic.
Espero pelo próximo!
Bjo*
Ah... eu... não sei o que dizer. Ou melhor, sei mas não quero. Digo, nem sequer reparei até agora. Tava com tanta pressa de postar que só me apercebi ontem.
Bem, como hei-de explicar... não é dificil, mas agora que vocês já comentaram...
tipo, eu posso ter-me esquecido de acrescentar uma parte ao capítulo. Eu posso ter acabado o capítulo onde não devia. Eu posso ter acabado de ocultar uma informação deveras importante para a história e que devia estar no capítulo. Mas não está.
Por isso vou adicioná-la aqui, porque não sei como inseri-la no novo capítulo (que vai demorar um pouquinho a aparecer...)
Depois respondo aos vossos comentários. Aproveitem este extra..
-------------------------------------------------
Longe dali, dentro de um reluzente palácio, a atmosfera não era tão festiva quanto a do exterior. Criados passavam de um lado para o outro atarefados, mas também preocupados com a saúde da sua soberana, que piorava a cada dia que passava.
Todos cochichavam os mais recentes problemas do reino, mas sem dúvida que a curta esperança de vida da Rainha era o tema de maior preocupação, pois esta era extremamente querida pelos seus súbditos. Sempre bondosa e atenciosa, revelara ser tão eficiente e bela quanto a mãe, enquanto o esposo fizera os seus deveres de rei de forma tão eficaz quanto a do sogro.
Mas naquele dia, os criados andavam atarefados por outro motivo. Não só o médico de sua majestade tinha feito uma outra visita para saber o estado de saúde da Rainha e se esta fizera melhoras, como também o rei tinha dispensado o serviço de todos até dia dois. Tal ordem estranhara a todos, mas aceitaram a ordem com motivo da saúde da esposa, para além de o próprio rei ser um homem extremamente compreensivo.
No meio daquilo, todos se perguntavam porque é que os príncipes não tinham boas relações com os pais. Talvez fossem extremamente mimados e fúteis para que não entendessem aquele mundo. Ou talvez fosse outro motivo. Enfim, que sabiam eles da vida dos seus soberanos? Nada, porque nada tinha a ver com o nariz deles. Tudo o que podiam fazer era encolher ombros e afastar-se para obedecer a novas ordens.
Naquele dia, o palácio ficou vazio. Ou melhor, vazio de empregados.
Na biblioteca, as navegantes encontravam-se dispersas pela sala, todas envolvidas nos seus próprios pensamentos.
Serenity observava o fogo-de-artificio da janela, enquanto o marido lhe punha a mão no ombro. Os seus olhos estavam secos de tantas lágrimas que ela derramara naquele dia, mas para ela ainda iriam vir muitas.
Ami não encontrara nada. Não havia cura. Tal doença era extremamente rara e sem cura conhecida. Tudo o que podiam fazer era esperar…
Os olhos da navegante de mercúrio saltavam de Endymion para Serenity, não antes de passar primeiro pela porta fechada.
Edward, ao saber que a esposa iria morrer em menos de um ano, dispensara todos os criados e fechara-se no quarto com ela. Ami calculava que ele estivesse a morrer também, só que em espírito. A mulher da vida dele tinha os dias contados. Tudo o que sobraria eram memórias de um amor longínquo e dois filhos com quem ele não se dava.
Sentia-se revoltada por não ter feito melhor. Custava-lhe ver os dois amigos a sofrerem pela tão próxima morte da sua única filha. Custava-lhe ver um homem que já perdera os pais, a felicidade e os filhos para agora perder a mulher.
Os seus pensamentos foram interrompidos pelo som de uma porta a abrir-se.
Uma mulher de cabelos curtos com reflexos violetas e olhos escuros entrou na divisão. Parecia preocupada.
-O que se passa Hotaru? – Perguntou Haruka, vendo que era a única com coragem para falar no meio daquele silêncio.
Esta tornou-se para os reis. Serenity e o esposo viraram-se para Hotaru, acenando com a cabeça para que prosseguisse.
-O Edward já está lá há horas. Mas não é isso que me preocupa. Porque é que ninguém me contou que o Edward vira a Linda e o Kenji a dançar num torneio de dança?
Algumas navegantes semicerraram os olhos. O que é que aquilo tinha de tão importante?
-Ah... Hotaru? – Começou Minako, mas foi interrompida pela morena.
-Não percebem? Eu estive fora apenas por uns dias, quando volto descubro que tanto o Edward como a Misaki contara à Small Lady acerca dos eventos daquela noite.
-Mas o que é que isso tem a ver com a minha filha? – Perguntou Serenity, rispidamente. Hotaru deu um passo atrás, apanhada de surpresa com a atitude da rainha, mas continuou.
-Nada, mas tem a ver com os planos da Dawson. Ela já deve saber…
-Sim, mas ela falhou. A Linda, a Mari e a Cecília conseguiram derrotá-la.
-Eu sei majestade. Mas eu falo daquilo que os dois disseram à Small Lady. – A última frase captou a curiosidade de todas, que se aproximaram da morena.
-Que queres dizer? – Sussurrou Michiru, ao ver que ninguém falava.
-Digo que o Edward e a Misaki falaram de uma pessoa à Small Lady. Uma pessoa que nós julgávamos ser outra.
-Como assim? – perguntou Endymion, confuso.
-Nós sempre achamos que a Yvonne tivera apenas um filho com Takeshi Yamamoto, visto este ter-se divorciado dela e casado com a outra esposa no mesmo ano em que o segundo filho nascera. Por isso sempre deitamos uma olhadela na Yvonne e no filho dela.
-Sim, mas ambos são fracos. Principalmente a Yvonne. No entanto os factos dizem…
-Era mentira! – Disse Hotaru, interrompendo Serenity. – O segundo filho do Yamamoto é também filho da Yvonne.
Serenity e Endymion ficaram pálidos.
-De certeza?
-Sim, a data de nascimento, as semelhanças. Segundo o Edward, o miúdo é a cara chapada da Yvonne.
Endymion pousou a mão na testa.
-Eu devia ter calculado. Eu sempre achei que ele me parecia familiar. Mas nós só conhecemos a Yvonne quanto o Eiji tinha três anos, para além de eu nunca ter visto a segunda esposa do Takeshi. Mas poderá ele…
-Não poderá. É. A filha da Misaki conhece o rapaz e a Misaki esteve a falar dele à Small Lady.
-Porque o faria? – Perguntou Rei, curiosa.
-Porque foi esse Eiji que dançou com a Linda e, ao que parece, são uma espécie de namorados.
Rei, Minako, Ami e Makoto ergueram o sobrolho. Com que então a Linda já tinha namorado…
-O que é que a Misaki disse dele? – Perguntou Serenity, agora terrivelmente pálida ao ver-se tão próxima da resposta ao dilema de Hotaru.
-Não importa. Eu sei que ele é. – Cortou Endymion. A frase pairou no ar, até que este decidiu prosseguir – eu conheço o Eiji. Ele tem todas as qualidades necessárias.
Todas as navegantes entreolharam-se, assustadas. Durante momentos, um silêncio pesado reinou a divisão, até que uma dela arranjou forma de falar:
-Estivemos a guardar a pessoa errada o tempo todo. – Sussurrou Makoto, com a voz fraca.
Serenity, ao ver a cara de aflição das suas companheiras e do seu esposo, tentou manter-se firme e afirmou:
-Vamos tomar como um sinal postivo o facto da Dawson ainda não ter feito nada acerca disto. Mas temos que tomar medidas e depressa. Temos que ter a certeza. – Virou-se para o esposo, que assentia com a cabeça. - Eiji Yamamoto pode ser o possuidor da Flor de Vénus.
Bem, como hei-de explicar... não é dificil, mas agora que vocês já comentaram...
tipo, eu posso ter-me esquecido de acrescentar uma parte ao capítulo. Eu posso ter acabado o capítulo onde não devia. Eu posso ter acabado de ocultar uma informação deveras importante para a história e que devia estar no capítulo. Mas não está.
Por isso vou adicioná-la aqui, porque não sei como inseri-la no novo capítulo (que vai demorar um pouquinho a aparecer...)
Depois respondo aos vossos comentários. Aproveitem este extra..
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Longe dali, dentro de um reluzente palácio, a atmosfera não era tão festiva quanto a do exterior. Criados passavam de um lado para o outro atarefados, mas também preocupados com a saúde da sua soberana, que piorava a cada dia que passava.
Todos cochichavam os mais recentes problemas do reino, mas sem dúvida que a curta esperança de vida da Rainha era o tema de maior preocupação, pois esta era extremamente querida pelos seus súbditos. Sempre bondosa e atenciosa, revelara ser tão eficiente e bela quanto a mãe, enquanto o esposo fizera os seus deveres de rei de forma tão eficaz quanto a do sogro.
Mas naquele dia, os criados andavam atarefados por outro motivo. Não só o médico de sua majestade tinha feito uma outra visita para saber o estado de saúde da Rainha e se esta fizera melhoras, como também o rei tinha dispensado o serviço de todos até dia dois. Tal ordem estranhara a todos, mas aceitaram a ordem com motivo da saúde da esposa, para além de o próprio rei ser um homem extremamente compreensivo.
No meio daquilo, todos se perguntavam porque é que os príncipes não tinham boas relações com os pais. Talvez fossem extremamente mimados e fúteis para que não entendessem aquele mundo. Ou talvez fosse outro motivo. Enfim, que sabiam eles da vida dos seus soberanos? Nada, porque nada tinha a ver com o nariz deles. Tudo o que podiam fazer era encolher ombros e afastar-se para obedecer a novas ordens.
Naquele dia, o palácio ficou vazio. Ou melhor, vazio de empregados.
Na biblioteca, as navegantes encontravam-se dispersas pela sala, todas envolvidas nos seus próprios pensamentos.
Serenity observava o fogo-de-artificio da janela, enquanto o marido lhe punha a mão no ombro. Os seus olhos estavam secos de tantas lágrimas que ela derramara naquele dia, mas para ela ainda iriam vir muitas.
Ami não encontrara nada. Não havia cura. Tal doença era extremamente rara e sem cura conhecida. Tudo o que podiam fazer era esperar…
Os olhos da navegante de mercúrio saltavam de Endymion para Serenity, não antes de passar primeiro pela porta fechada.
Edward, ao saber que a esposa iria morrer em menos de um ano, dispensara todos os criados e fechara-se no quarto com ela. Ami calculava que ele estivesse a morrer também, só que em espírito. A mulher da vida dele tinha os dias contados. Tudo o que sobraria eram memórias de um amor longínquo e dois filhos com quem ele não se dava.
Sentia-se revoltada por não ter feito melhor. Custava-lhe ver os dois amigos a sofrerem pela tão próxima morte da sua única filha. Custava-lhe ver um homem que já perdera os pais, a felicidade e os filhos para agora perder a mulher.
Os seus pensamentos foram interrompidos pelo som de uma porta a abrir-se.
Uma mulher de cabelos curtos com reflexos violetas e olhos escuros entrou na divisão. Parecia preocupada.
-O que se passa Hotaru? – Perguntou Haruka, vendo que era a única com coragem para falar no meio daquele silêncio.
Esta tornou-se para os reis. Serenity e o esposo viraram-se para Hotaru, acenando com a cabeça para que prosseguisse.
-O Edward já está lá há horas. Mas não é isso que me preocupa. Porque é que ninguém me contou que o Edward vira a Linda e o Kenji a dançar num torneio de dança?
Algumas navegantes semicerraram os olhos. O que é que aquilo tinha de tão importante?
-Ah... Hotaru? – Começou Minako, mas foi interrompida pela morena.
-Não percebem? Eu estive fora apenas por uns dias, quando volto descubro que tanto o Edward como a Misaki contara à Small Lady acerca dos eventos daquela noite.
-Mas o que é que isso tem a ver com a minha filha? – Perguntou Serenity, rispidamente. Hotaru deu um passo atrás, apanhada de surpresa com a atitude da rainha, mas continuou.
-Nada, mas tem a ver com os planos da Dawson. Ela já deve saber…
-Sim, mas ela falhou. A Linda, a Mari e a Cecília conseguiram derrotá-la.
-Eu sei majestade. Mas eu falo daquilo que os dois disseram à Small Lady. – A última frase captou a curiosidade de todas, que se aproximaram da morena.
-Que queres dizer? – Sussurrou Michiru, ao ver que ninguém falava.
-Digo que o Edward e a Misaki falaram de uma pessoa à Small Lady. Uma pessoa que nós julgávamos ser outra.
-Como assim? – perguntou Endymion, confuso.
-Nós sempre achamos que a Yvonne tivera apenas um filho com Takeshi Yamamoto, visto este ter-se divorciado dela e casado com a outra esposa no mesmo ano em que o segundo filho nascera. Por isso sempre deitamos uma olhadela na Yvonne e no filho dela.
-Sim, mas ambos são fracos. Principalmente a Yvonne. No entanto os factos dizem…
-Era mentira! – Disse Hotaru, interrompendo Serenity. – O segundo filho do Yamamoto é também filho da Yvonne.
Serenity e Endymion ficaram pálidos.
-De certeza?
-Sim, a data de nascimento, as semelhanças. Segundo o Edward, o miúdo é a cara chapada da Yvonne.
Endymion pousou a mão na testa.
-Eu devia ter calculado. Eu sempre achei que ele me parecia familiar. Mas nós só conhecemos a Yvonne quanto o Eiji tinha três anos, para além de eu nunca ter visto a segunda esposa do Takeshi. Mas poderá ele…
-Não poderá. É. A filha da Misaki conhece o rapaz e a Misaki esteve a falar dele à Small Lady.
-Porque o faria? – Perguntou Rei, curiosa.
-Porque foi esse Eiji que dançou com a Linda e, ao que parece, são uma espécie de namorados.
Rei, Minako, Ami e Makoto ergueram o sobrolho. Com que então a Linda já tinha namorado…
-O que é que a Misaki disse dele? – Perguntou Serenity, agora terrivelmente pálida ao ver-se tão próxima da resposta ao dilema de Hotaru.
-Não importa. Eu sei que ele é. – Cortou Endymion. A frase pairou no ar, até que este decidiu prosseguir – eu conheço o Eiji. Ele tem todas as qualidades necessárias.
Todas as navegantes entreolharam-se, assustadas. Durante momentos, um silêncio pesado reinou a divisão, até que uma dela arranjou forma de falar:
-Estivemos a guardar a pessoa errada o tempo todo. – Sussurrou Makoto, com a voz fraca.
Serenity, ao ver a cara de aflição das suas companheiras e do seu esposo, tentou manter-se firme e afirmou:
-Vamos tomar como um sinal postivo o facto da Dawson ainda não ter feito nada acerca disto. Mas temos que tomar medidas e depressa. Temos que ter a certeza. – Virou-se para o esposo, que assentia com a cabeça. - Eiji Yamamoto pode ser o possuidor da Flor de Vénus.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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Ola 
Confesso que ja devia ter vindo ler esta fic há mais tempo, mas depois com o inicio das aulas, todas as fics que ja iam avançadas ficaram para trás, pelo que só começei a le-la ontem
'
De qualquer forma, ja li até ao capítulo 12 (pelo que ja so me faltam 11 para ficar dentro do esquema) e do que ja li estou a adorar, tanto a trama, como as personagens. Quem diria que uma neta da Usagi fosse tao diferente dela
' (so nos sonhos XD)
Enfim...
Devo dizer tambem que evoluiste bastante na escrita, e isso notou-se de capítulo para capítulo(pelo menos dos que ja li) e (prendeu-me completamente).
Por isso, continua a escrever
Outra coisa, por muito poucos fãs que tenhas(o q e absurdo) nao desistas de escrever. Escrever ajuda sempre a descomprimir quando temos uma vida cheia de trabalho ou de coisas pra fazer, e ajuda a esquecer certos problemas, e que as vezes acabam inspiraçao de uma fic. Se gostas mesmo de escrever, nao desistas. Continua a publicar que vais ter sempre quem te venha ler, acredita
Beijocas, e quando ficar conforme com o nº de caps, volto cá
'

Confesso que ja devia ter vindo ler esta fic há mais tempo, mas depois com o inicio das aulas, todas as fics que ja iam avançadas ficaram para trás, pelo que só começei a le-la ontem
'De qualquer forma, ja li até ao capítulo 12 (pelo que ja so me faltam 11 para ficar dentro do esquema) e do que ja li estou a adorar, tanto a trama, como as personagens. Quem diria que uma neta da Usagi fosse tao diferente dela
' (so nos sonhos XD)Enfim...
Devo dizer tambem que evoluiste bastante na escrita, e isso notou-se de capítulo para capítulo(pelo menos dos que ja li) e (prendeu-me completamente).
Por isso, continua a escrever

Outra coisa, por muito poucos fãs que tenhas(o q e absurdo) nao desistas de escrever. Escrever ajuda sempre a descomprimir quando temos uma vida cheia de trabalho ou de coisas pra fazer, e ajuda a esquecer certos problemas, e que as vezes acabam inspiraçao de uma fic. Se gostas mesmo de escrever, nao desistas. Continua a publicar que vais ter sempre quem te venha ler, acredita

Beijocas, e quando ficar conforme com o nº de caps, volto cá
' 
さよならできずに, 立ち止まったままの僕と一緒に...
Ah Ana! Como te esqueçeste desta parte, carago?! Mas em contra partida ainda bem, porque assim tivemos uma especie de "novo capitulo" para ler enquanto nao chegava o proximo!
Agora... O Eiji tem a flor de Vénus?! Choquei! Choquei mesmo! Tenho vontade de estripar a Dawson, caraças! Enfim, Fico á espera de mais! Amo esta fic!
Agora... O Eiji tem a flor de Vénus?! Choquei! Choquei mesmo! Tenho vontade de estripar a Dawson, caraças! Enfim, Fico á espera de mais! Amo esta fic!

as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Tinoco: Muito obrigada pelo teu comentário. É sempre bom saber que tenho uma nova leitora x)
Escrevo mesmo para relaxar e também porque não gosto de deixar as coisas a meio. Conhecei estas duas fanfics, irei acabar...
Lulu: (rxp aos 2 comentários) Eu tbm sou adepta de romance mas ultimamente não tenho andado muito virada para o lamechas/mel a mais. Prefiro quando os sentimentos tão lá, apenas são expressados de outra forma. Infelizmente não posso usar essa estratégia com os meus dois casais. Tenho pena da Angel. Ela até k era boa pessoa. Mas nao era a tal para o Kenji
(tbm não digo que é a Mari, atenção!)
Agora o que o Kenji vai fazer daqui para adiante... bem... no worries, que no próximo já saberão (hihi).
Já te lembraste do que me querias dizer? Eu tbm detesto quadno isso me acontece. Quero dizer alguma coisa, mas acabo por me esquecer
Bun: (rxp aos dois)
Yup, a vozinha é misteriosa. Queres adivinhar porquê?
A parte da Mari e do Kenji ficou um pouco... sei lá... não ficou exactamente como imaginava. Nalgumas partes ficou melhor, noutras não. Mas enfim, se voces gostaram tanto, como vos posso contrariar?
Acabar mal? Em que sentido? O Eiji morrer? (ate que nem era má ideia...) Ou outra coisa?
E o que eu me ri quando li os vossos comentários acerca deste extra xDD Já sabia que voces iriam ficar do genero: O_O wft? Bem, o objectivo era esse xDD
Ahaha, agora têm de esperar pelo próximo capítulo para saber mais. Chamar-se-á As Guardiãs da Esperança e aí ficarão a saber de tudo acerca das novas navegantes, para além das tres meninas receberem duas visitas especiais, Linda recebe um choque (figurativo), Cecília descobre umas coisinhas e Mari... bem, esperem pelo capítulo para saber
Escrevo mesmo para relaxar e também porque não gosto de deixar as coisas a meio. Conhecei estas duas fanfics, irei acabar...
Lulu: (rxp aos 2 comentários) Eu tbm sou adepta de romance mas ultimamente não tenho andado muito virada para o lamechas/mel a mais. Prefiro quando os sentimentos tão lá, apenas são expressados de outra forma. Infelizmente não posso usar essa estratégia com os meus dois casais. Tenho pena da Angel. Ela até k era boa pessoa. Mas nao era a tal para o Kenji
(tbm não digo que é a Mari, atenção!)Agora o que o Kenji vai fazer daqui para adiante... bem... no worries, que no próximo já saberão (hihi).
Já te lembraste do que me querias dizer? Eu tbm detesto quadno isso me acontece. Quero dizer alguma coisa, mas acabo por me esquecer

Bun: (rxp aos dois)
Yup, a vozinha é misteriosa. Queres adivinhar porquê?

A parte da Mari e do Kenji ficou um pouco... sei lá... não ficou exactamente como imaginava. Nalgumas partes ficou melhor, noutras não. Mas enfim, se voces gostaram tanto, como vos posso contrariar?

Acabar mal? Em que sentido? O Eiji morrer? (ate que nem era má ideia...) Ou outra coisa?
E o que eu me ri quando li os vossos comentários acerca deste extra xDD Já sabia que voces iriam ficar do genero: O_O wft? Bem, o objectivo era esse xDD
Ahaha, agora têm de esperar pelo próximo capítulo para saber mais. Chamar-se-á As Guardiãs da Esperança e aí ficarão a saber de tudo acerca das novas navegantes, para além das tres meninas receberem duas visitas especiais, Linda recebe um choque (figurativo), Cecília descobre umas coisinhas e Mari... bem, esperem pelo capítulo para saber

Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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OMG
Lindo lindo lindo lindo lindo *-*
Fiquei agora completamente babada *-*
Taaaa lindo *-*
Apaixonada mesmo, rendi-me completamente à tua fic Ana-sama *-*
Sobretudo estes ultimos capítulos eu fiquei *-* Eu ja calculava que a Mari tivesse ficado babada pelo Kenji,e que fosse acabar assim aos beijinhos com ele. Mas na tava à espera que a relaçao entre a Linda e o Eiji fosse tao dificil. Quando finalmente deram ali umas beijocas valentes eu fiquei com as borboletas a passear no estômago(estas cenas fofas mexem comigo *--*)
E quanto a Eiji ter a Flor de Vénus, eu acho q algo na minha intuição ja mo dizia. Era fruta a mais, e andarem sempre a fazer comentarios acerca disso, e o sr Rei Endymion 2 AKA Edward ter ficado a olhar para o Eiji muito tempo la no concurso de dança, abriu-me a pestana. Suspeitei logo que ele pudesse ter algo a ver com a situaçao. Isto quer dizer que ele vai correr perigo *--* adoro coisas dessas *--*
Não tens de agradecer, eu ja andava a algum tempo a ver se lia a tua fic, mas nao me dava coragem para ler, como era grande e tals, mas depois peguei, e ja nao larguei
Espero ansiosamente pelo próximo capítulo. Beijocas
Lindo lindo lindo lindo lindo *-*
Fiquei agora completamente babada *-*
Taaaa lindo *-*
Apaixonada mesmo, rendi-me completamente à tua fic Ana-sama *-*
Sobretudo estes ultimos capítulos eu fiquei *-* Eu ja calculava que a Mari tivesse ficado babada pelo Kenji,e que fosse acabar assim aos beijinhos com ele. Mas na tava à espera que a relaçao entre a Linda e o Eiji fosse tao dificil. Quando finalmente deram ali umas beijocas valentes eu fiquei com as borboletas a passear no estômago(estas cenas fofas mexem comigo *--*)
E quanto a Eiji ter a Flor de Vénus, eu acho q algo na minha intuição ja mo dizia. Era fruta a mais, e andarem sempre a fazer comentarios acerca disso, e o sr Rei Endymion 2 AKA Edward ter ficado a olhar para o Eiji muito tempo la no concurso de dança, abriu-me a pestana. Suspeitei logo que ele pudesse ter algo a ver com a situaçao. Isto quer dizer que ele vai correr perigo *--* adoro coisas dessas *--*
Não tens de agradecer, eu ja andava a algum tempo a ver se lia a tua fic, mas nao me dava coragem para ler, como era grande e tals, mas depois peguei, e ja nao larguei

Espero ansiosamente pelo próximo capítulo. Beijocas


さよならできずに, 立ち止まったままの僕と一緒に...
Oi
Acabar mal no sentido de o Eiji ser atacado, quase de certeza né,lool. E se a Linda não conseguir protegê-lo, nem imagino o drama que vai ser.
"O Eiji morrer? (ate que nem era má ideia...)"
Aqui tenho de discordar óbvio!
Não mates o Eiji! Ele é tão sweet.
Fiquei com bastante curiosidade sobre o próximo.
Bjo*
Acabar mal no sentido de o Eiji ser atacado, quase de certeza né,lool. E se a Linda não conseguir protegê-lo, nem imagino o drama que vai ser.
"O Eiji morrer? (ate que nem era má ideia...)"
Aqui tenho de discordar óbvio!

Não mates o Eiji! Ele é tão sweet.
Fiquei com bastante curiosidade sobre o próximo.

Bjo*
Tinoco: Obrigada à mesma, eu costumo agradecer todos os comentários novos 
Ya, o objectivo do Edward ter notado no Eiji no torneio era para que os leitores começassema a abrir a pestana porque se há coisa que detesto em histórias são emplastros. Eu queria que o Eiji tivesse um bom papel nesta fanfic, como tal, dei-lhe este "peso".
Quanto à relação Linda-Eiji ser dificil. Acredita, há sempre qualquer coisa que separa estes dois. Por um lado, têm mto em comum, por outros são extremamente diferentes.
Bun: Eu posso matar o Eiji se me apetecer
A protagonista é a Linda e o destino dela é que é importante. Os outros bem quen posso matar que não há problema xDD
Sinceramente, não sei o que fazer com a Linda e o Eiji. Já tenho o final da fic quase todo pensado. Apenas o destino destes dois é que ainda não tá decidido. Posso matar um, ou os dois, ou deixá-los juntos ou deixá-los separados. Enfim, tanta possibilidade que eu ainda não interiorizei. Mas tenho tempo. Até lá, peço opiniões. Acreditem, tenho mais motivos para deixar estes dois separados do que juntos.

Ya, o objectivo do Edward ter notado no Eiji no torneio era para que os leitores começassema a abrir a pestana porque se há coisa que detesto em histórias são emplastros. Eu queria que o Eiji tivesse um bom papel nesta fanfic, como tal, dei-lhe este "peso".
Quanto à relação Linda-Eiji ser dificil. Acredita, há sempre qualquer coisa que separa estes dois. Por um lado, têm mto em comum, por outros são extremamente diferentes.
Bun: Eu posso matar o Eiji se me apetecer
A protagonista é a Linda e o destino dela é que é importante. Os outros bem quen posso matar que não há problema xDDSinceramente, não sei o que fazer com a Linda e o Eiji. Já tenho o final da fic quase todo pensado. Apenas o destino destes dois é que ainda não tá decidido. Posso matar um, ou os dois, ou deixá-los juntos ou deixá-los separados. Enfim, tanta possibilidade que eu ainda não interiorizei. Mas tenho tempo. Até lá, peço opiniões. Acreditem, tenho mais motivos para deixar estes dois separados do que juntos.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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AnA_Sant0s escreveu:Tinoco: Obrigada à mesma, eu costumo agradecer todos os comentários novos
Ya, o objectivo do Edward ter notado no Eiji no torneio era para que os leitores começassema a abrir a pestana porque se há coisa que detesto em histórias são emplastros. Eu queria que o Eiji tivesse um bom papel nesta fanfic, como tal, dei-lhe este "peso".
Quanto à relação Linda-Eiji ser dificil. Acredita, há sempre qualquer coisa que separa estes dois. Por um lado, têm mto em comum, por outros são extremamente diferentes.
sem problemas
Eu por acaso tambem sou assim, novos leitores, agradeço sempre *--*Mas por acaso foi. Eu achei muito estranho o Edward ter dado muita atençao ao Eiji, e entao começei a desconfiar. Quando li aquele bocado extra, as minhas desconfianças confirmaram-se.
Pois, ja reparei que ha sempre algo que os separa, mas tenho pena deles. Eles merecem ser felizes como a Bunny e o Gonçalo, a Chibiusa e o Edward(bah XD) Eles parecem fazer um casal tao fofinho *--*
AnA_Sant0s escreveu:Sinceramente, não sei o que fazer com a Linda e o Eiji. Já tenho o final da fic quase todo pensado. Apenas o destino destes dois é que ainda não tá decidido. Posso matar um, ou os dois, ou deixá-los juntos ou deixá-los separados. Enfim, tanta possibilidade que eu ainda não interiorizei. Mas tenho tempo. Até lá, peço opiniões. Acreditem, tenho mais motivos para deixar estes dois separados do que juntos.
'Se for para ficarem vivos, e tiveres razoes para eles estarem separados, que seja vivos e separados do q mortos e juntos
se bem que os queria juntinhos *--* (mente pervertida em acçao XD)
Nao, agora falando a sério.
Eu por norma nao gosto muito de me meter nessas decisoes, porque nem sempre vai de encontro ao que o autor ou o resto dos leitores querem, por isso, faz o que achares melhor, e que tanto tu e as leitoras querem. se bem que quanto a mim acho q ja sabes a minha opiniao
'Beijocas, e continua *--*

さよならできずに, 立ち止まったままの僕と一緒に...
Aiiii.... como é que eu fiquei sem ler isto...
Não acredito que já não lia a continuação da fic desde Dezembro de 2008...
*mim põe-se de joelhos a pedir misericórdia à Ana*
Estou completamente sem palavras para comentar todos estes capítulos!
Amei completamente a história, só acho que devias dar uma revisão quando passas a pc porque à partes em que trocas as personagens (por exemplo estavas-te a referir a uma rapariga e dizes ele).
De resto espero pela continuação e espero que seja tão boa ou ainda melhor do que o resto.
Não acredito que já não lia a continuação da fic desde Dezembro de 2008...
*mim põe-se de joelhos a pedir misericórdia à Ana*
Estou completamente sem palavras para comentar todos estes capítulos!
Amei completamente a história, só acho que devias dar uma revisão quando passas a pc porque à partes em que trocas as personagens (por exemplo estavas-te a referir a uma rapariga e dizes ele).
De resto espero pela continuação e espero que seja tão boa ou ainda melhor do que o resto.

AnA_Sant0s escreveu:
Já te lembraste do que me querias dizer? Eu tbm detesto quadno isso me acontece. Quero dizer alguma coisa, mas acabo por me esquecer
Bem
eu já me lembrei, sim, mas agora acho que já nao faz muito sentido perguntar.... Eu vou dizer á mesma... 
Spoiler
O Setsu e a Cecilia vão acabar juntos não vão?! Oh pá, cresceu-me o apetite em relaçao áqueles dois, há ali qualquer coisa, uma implicancia assim meia coise! Claro que posso estar a imaginar coisas, mas até que davam um casal fofo, ele o mulherengo parvinho e ela a calma e intelijente!
E nao digo mais! XP
E nao digo mais! XP
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
MoonSerenidade: Obrigada, é bom saber que, apesar de não teres lido nos ultimos tempos, ainda não te tenhas esquecido da minha história 
Tinoco: Já tenho o final decidido. Obrigada pela sugestão
Lulu: Ah... não sei não. São demasiado diferentes para que haja alguma coisa entre eles. Sinceramente, ainda não pensei muito no final destes dois. Sei que tipo de final quero, mas promenores passam-me ao lado. Agora que noto, apenas a Mari, o Kenji, os Reis, as navegantes, a vilã e a Linda é que têm final definido (quando falo da Linda, falo do destino, não do casal... se bem que também já o decidi). Os resntantes têm-me passado ao lado. Pudera, o final da Linda é o mais importante e não posso desiludir os meus leitores nessa parte (apesar de provavelment eo fazer.. depende mesmo dos gostos...) xDD

Tinoco: Já tenho o final decidido. Obrigada pela sugestão

Lulu: Ah... não sei não. São demasiado diferentes para que haja alguma coisa entre eles. Sinceramente, ainda não pensei muito no final destes dois. Sei que tipo de final quero, mas promenores passam-me ao lado. Agora que noto, apenas a Mari, o Kenji, os Reis, as navegantes, a vilã e a Linda é que têm final definido (quando falo da Linda, falo do destino, não do casal... se bem que também já o decidi). Os resntantes têm-me passado ao lado. Pudera, o final da Linda é o mais importante e não posso desiludir os meus leitores nessa parte (apesar de provavelment eo fazer.. depende mesmo dos gostos...) xDD
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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A tua finc ta cada vez melhor.
Desculpa nao ter vindo comentar mais sedo, a gora as minhas vindas ao fórum são cada vez menos, pelo facto que agora trabalho e não da para vir ca.
A tua historia esta cada vez mais empolgante, agora é o enji que tem a flor de venus.
Desculpa nao ter vindo comentar mais sedo, a gora as minhas vindas ao fórum são cada vez menos, pelo facto que agora trabalho e não da para vir ca.
A tua historia esta cada vez mais empolgante, agora é o enji que tem a flor de venus.
a minha primeira fic "AS FILHAS DA LUA"passem na minha fic e comentem XD

Traços do destino
visitem o meu forum http://eterna-sailor-moon4.forumeiros.com/forum.htm

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Olá, obrigada pelo teu comentário Monica. Desculpa a demora, mas nao tenho vindo aqui para responder.
Pois bem, regresso agora com um novo capítulo (e bem grandinho, devo dizer).
Antes de mais, tenho umas coisinhas a dizer:
-Primeiro. Volto a dedicar um capítulo à lulumoon, peloa atenção e por eu ser uma cabeça no ar. Eu sabia que a lulu fazia anos entre setembro e novembro, mas não sabia quando. Um dia vim cá (finais de outubro) e vi que a lulu já tinha feito anos e não lhe tinha dito nada. Peço mil e umas desculpas por isso. Uma feliz aniversário (bem, bem, bem atrasado) Oxalá todo o romance que este capítulo ofereça possa compensar
-Segundo: Caso tenham duvidas acerca das origens dos nomes, basta dizer. Caso contrário, só descobrem no fim da fanfic.
-Terceiro: Há uma parte em que a Cecília canta, mas eu decidi não pôr musica. Todavia, para terem uma noção de como é a voz dela (como a imaginei) tem ali um link para voces ouvirem. Mas acredito que consigam ler sem ter que ouvir a música.
-Quarto: Realizei algumas pequenas alterções na história do Milénio Prateado, de modo a que ficasse um pouco de acordo com a minha história. Se hover algum detalhe que se sobressaia, avisem-me
-Quinto (e último): Não gosto deste capítulo. Primeiro, deu-me muiton trabalho, segundo... não sei, não consigo gostar
E com isto é tudo. obrigada pela vossa paciencia e boa leitura
--------------------------------------------
24. As Guardiãs da Esperança
Para quem não contava com grandes alterações com o inicio do Ano Novo, acabou por apanhar uma grande surpresa quando Linda, Mari e Cecília vieram juntas para as aulas, sorrindo e conversando alegremente. Todos olharam incrédulos para a nova amizade das três, apenas algumas semanas depois de Mari ter insultado Linda em frente a toda a escola. Mas o que mais surpreendeu todos foi o facto de Eiji ter chegado à sala de aula, ter-se chegado perto de Linda e tê-la cumprimentado com um leve beijo nos lábios.
Era oficial. O quer que Mari tivesse de errado contra Linda já lá não estava, o que permitia que toda a turma pudesse conversar com Linda sem problemas de vir a enfurecer a loira.
E também (e talvez a pior noticia para algumas raparigas), Eiji estava agora fora do ‘mercado’. Nas horas de almoço, almoçava com a namorada no sítio do costume, atrás da escola, para mais tarde Mari e Cecília lhes fazerem companhia.
Outras alterações vieram pelo caminho. Linda afirmava ter ido ao cabeleireiro cortar o cabelo até abaixo das orelhas, no entanto este parecia estar ainda mais comprido do que antes, chegando abaixo dos cotovelos.
Também Eiji por vezes mandava umas piadas com Cecília e Linda, que (para espanto de todos) incomodavam Mari, que virava a cabeça para o lado ou corava.
Todavia, no meio daquelas alterações, quase tudo se mantinha na mesma. Como tal, na aula de Química, ninguém esperava nenhuma alteração na rotina. Mas o professor, um homem grisalho com ar lunático, decidiu à última da hora mudar os pares:
-Menina Nakamura, fica com o Yamamoto. Menina Tamura, fica com a menina Yamada, Menina Tsukino com o Senhor Sato…
Mari juntou-se a Eiji nas bancadas brancas, com Cecília e Kiara ao seu lado, a uma pequena distância. Linda, por seu lado, dirigiu-se para a bancada de frente, com Ryo atrás dela. Ao ver que Eiji e Mari estavam atrás dela, sorriu e virou-se de frente para eles. Ryo revirou os olhos:
-Por favor, não me digas que vais ficar a fazer olhinhos ao teu namorado a aula toda?
Linda aumentou o sorriso.
-Não é por isso. Espera para veres. Observa o Eiji nas situações mais… cuidadosas… - disse ela, começando o trabalho proposto pelo professor. Pegou numa noz e abriu-a de modo a que esta agarrasse uma pipeta graduada. Colocou a noz no suporte universal e preparou a solução, pedindo a Ryo que se dirigisse à dispensa buscar os ingredientes.
A aula passou devagar, com Linda a rir-se em determinadas ocasiões, mas sem nunca se desconcentrar. Ryo, extremamente curioso, olhou para Eiji e para Linda, tentando perceber o que se passava. Mas sempre que Linda se ria, Eiji não olhava para ela. O que se é que se passava?
Linda agitou o tubo de ensaio onde tinha colocado a solução aquosa, cor violeta, com um depositado negro no fundo. A partir do momento em que agitou, tornou-se roxo, sinal de que estava tudo bem feito. Ela sorriu, satisfeita e apressou-se a anotar o procedimento no caderno diário. Ryo fez o mesmo, desta vez com uma substância ligeiramente diferente da de Linda. Agitou-a num pequeno goblé com uma vareta de vidro e viu a substância ganhar uma cor azulada.
-Estás a ver! – Disse Linda para o companheiro – e dizias tu que ias fazer o laboratório explodir.
-Mas eu nunca disse isso – retorquiu ele.
-Disseste-o na primeira aula.
-E lembras-te disso? – Perguntou ele, surpreendido. – Foi há tanto tempo!
Ela sorriu e, tendo acabado a experiência, pousou os olhos em Mari e Eiji. Ryo fez o mesmo e finalmente percebeu a razão de tanto riso por parte de Linda.
-Com mil raios… - murmurou ele, tentando controlar uma gargalhada.
-Já viste?
-Ya. Ele é sempre assim tão…
-Picuinhas? Sim – respondeu ela.
Eiji parecia que ganhava cabelos brancos em todas as aulas de Química. A atitude descontraída de Linda num laboratório punha os seus nervos em franja, visto ele querer sempre fazer tudo exactamente como o professor dizia… e devagarinho. Já Linda ignorava as regras e fazia tudo à sua maneira. Ou seja, rápida e pouco subtil. Claro que ela nunca falhara uma experiência por causa disso, mas Eiji nunca perdia vontade de a massacrar durante uma aula inteira só porque ela agitava o tubo de ensaio muito depressa.
Agora com Mari a história era outra. Mari não tinha jeito nenhum para Química e, se a descontracção de Linda dava a Eiji vontade de lhe tirar a solução da mão, a Mari dava vontade de a esganar.
A loira, irritada com o comportamento do amigo, lançava-lhe um olhar de morte de cada vez que ele interferia. Mas Linda e Ryo divertiram-se a admirar as caretas de Eiji sempre que Mari tinha o trabalho deles nas suas mãos pouco cuidadosas.
-MARI! Era suposto isso ficar azul! – Disse Eiji, num tom bem audível. Mari ficou vermelha. Eiji não ficou melhor.
-Senhor Yamamoto, Menina Nakamura, aconteceu alguma coisa? – Perguntou o professor, apesar deste já saber o que tinha acontecido.
-Ah… nada professor.
O toque da campainha salvou Eiji de dar uma boa explicação ao professor, que os obrigou a limpar a sala antes de saírem. A seguir era hora de almoço e Mari dirigiu-se para o refeitório, com Cecília a correr atrás. Normalmente comiam sozinhas, mas naquele dia alguém tinha que acalmar a loira.
Linda pegou na pasta e foi ter com o namorado, que já estava no corredor. Este olhou para ela, como se esperasse algo.
-Vai. Podes rir-te da figura de idiota que fiz.
-Mas tu já és um idiota. – Comentou ela, num tom natural.
-Tens problemas com isso? – Ele chegou-se perto dela, agarrando-a pela cintura. Ela sorriu e beijou-o nos lábios, colocando os braços em volta dos ombros dele. Prolongaram o momento até que ela se afastou:
-Não. Há sempre pior. Além disso, é assim que eu gosto de um homem. Com uma inteligência inferior à minha.
-Tu e todas as outras. Mas também, tu já tens uma inteligência maior que toda a escola
-Não exageres!
Juntos dirigiram-se para o seu canto atrás da escola. Como tinha chovido no dia anterior, Eiji encontrou à socapa no armário dos Perdidos e Achados e pegou numa manta laranja velha e estendeu-a no chão.
Sentaram-se e começaram a comer os seus almoços, trocando rebuçados de mentol e falando disto e daquilo. É normal nos casais haver sempre muitos tópicos de conversa, principalmente quando eles são amigos. Podem falar de cultura, desporto, escola, amigos, família sem que o outro se aborreça. Sabem aquilo que podem falar e até onde podem falar. Em Linda e Eiji as coisas não eram diferentes. Verdade que havia alturas em que agiam mais como amigos do que como namorados, mas isso era apenas o hábito. Afinal, ele fora o primeiro amigo dela no exterior e ela fora a primeira rapariga com quem ela tivera uma longa conversa em toda a sua vida.
Aquilo que os fazia distinguir da relação amizade da relação amorosa eram os olhares incessantes que trocavam um com o outro e os beijos dos quais, tal como a conversa, nunca se cansavam.
Faltavam vinte minutos para tocar e Linda lia “Gone with the wind” [1], que a professora de inglês obrigara a turma inteira a ler. A descontracção dela enquanto os seus olhos saltitavam por entre as linhas em inglês, emitindo um pequeno brilho por detrás dos óculos faziam-no sorrir. As pernas dela estavam de lado, a saia deixando parte das pernas desprotegidas. No entanto, ela não se mexia, nem de frio, nem de incómodo. Parecia tão absorvida no livro que ele deu-se por si a aproximar-se dela discretamente.
-Se fosse a ti afastava-me. – Disse ela, sem tirar os olhos do livro.
-Porquê? – Perguntou ele, inocentemente, sem tirar os olhos de cima dela.
-Sabes muito bem do que falo…
-Ilumina-me – desafiou ele, dando um pequeno salto para cima dela. Ela mal teve tempo para pôr o livro de lado e já estava por debaixo dele. Eiji tirou-lhe os óculos e tomou a boca dela, mal dando-lhe tempo para reagir. A boca dela ainda sabia a mentol. Mordeu o lábio inferior dela enquanto as suas mãos procuraram as suas ancas.
Ele pôs a mão no cabelo dela, habito que ganhara desde o primeiro beijo. Linda suspirou e deixou-se levar por aquela sensação quente e confortável que o namorado lhe dava.
-hum hum – ouviu-se o clarear de uma garganta. Eiji afastou-se de Linda à velocidade da luz para os dois fitarem a professora de inglês. Esta abanava a cabeça, como que se estivesse desapontada.
-Quem diria… quem diria… venham os dois comigo até ao gabinete da Directora JÁ! – Ordenou, apontando o dedo para a porta. Os dois jovens levantaram-se, ambos com as caras vermelhas e seguiram a professora até ao gabinete da professora que, infelizmente, se situava no outro lado da escola. O que queria dizer que Linda e Eiji tinham que suportar uma demorada caminhada silenciosa onde a professora de vez em quanto mandava olhares furiosos para os dois, querendo se certificar que eles a seguiam. Linda não se atreveu a olhar para o namorado de tão envergonhada que estava.
Entraram no gabinete da Directora, que estava sentada atrás da sua secretária remexendo nalguns papéis. Ergueu os olhos quando os viu entrar:
-Que aconteceu? – Perguntou à professora.
-Estes dois andaram a fazer indecências lá atrás.
A Directora mirou os dois jovens, tão vermelhos como tomates. Eiji olhava para o lado e Linda apreciava um grão de pó no chão.
-Ai sim? Que têm a dizer em vossa defesa? – Perguntou aos dois. Linda ergueu a cabeça e tentou falar:
-Não estávamos a fazer nada de mal.
-Ai não? – Interrompeu a professora, furiosa. – E então aquilo que eu vi? Se aquilo era indecências.
-Eu estava apenas a beijá-la! – Disse Eiji. – Penso que é isso que os namorados fazem. Além disso, nem estávamos num sítio público.
-Pior…
-Não! – Cortou a Directora, elevando o tom de voz. – Se eles estavam apenas a ’namorar’ num sítio discreto, não estou a ver o problema. Contando que eles não exagerem. – Aí a Directora semicerrou os olhos para os dois jovens, como quem dá um aviso. – Penso que a vergonha que passaram foi castigo suficiente. Mas atenção! Juizinho, que isto é um estabelecimento de ensino bem sério. Alguma falha e eu telefono aos vossos pais.
-Sim senhora Directora! – Disseram os dois em uníssono.
-Mas Directora…
-Podem sair. – Disse a Directora, dispensando os jovens, que não demoraram a abrir a porta e a sair, anda conseguindo ouvir a Directora dizer:
-Querida, não se preocupe com eles. Já sabe como são os jovens de hoje…
**
-Foi por pouco! – Murmurou o rapaz, suspirando de alívio.
Linda fitou-o com os olhos semicerrados.
-E de quem é a culpa?
-Oh vá lá. Não te queixaste quando eu te beijava.
-Não me deste hipóteses de fugir.
-E se te desse fugirias?
Ela reflectiu por uns momentos.
-Sim. – Respondeu num tom natural.
-Como? – Disse Eiji, surpreendido com a resposta da namorada.
-Até parece que não te conheço. Sei que tu gostas de fazer coisas ‘indecentes’.
-Bem... na escala de um a dez é apenas um oito. – Ao ver a cara furiosa da namorada, acrescentou. – Que queres? Sou homem!
-Um homem com uma fornalha nas calças. – Murmurou ela, ao mesmo tempo que soava o toque de entrada. Linda pegou nas suas coisas e dirigiu-se para a sala, deixando o namorado atrás. Eiji apenas teve tempo para sussurrar “mulheres…” antes de a seguir.
**
O telemóvel de Linda vibrou a meio da aula de Língua Japonesa. Aproveitando o momento em que a professora estava virada de costas para a turma, pegou no telemóvel e viu a mensagem. Era de um número desconhecido:
Olá, Li. Não sei se tas em aulas, por isso achei melhor mandar SMS. Eu e a Naomi vamos passar pela tua casa por volta do dia 27. Temos coisas para te dizer. Fica atenta. Seiji.
Esta é nova, pensou Linda. Fazia algum tempo desde que tivera notícias dos seus dois amigos do Palácio. Trocava alguns emails com Naomi, mas Seiji parecia ter desaparecido do mapa. Estranho, receber noticias assim de repente.
Mais estranho ainda era a mensagem. Porque motivo, iriam eles avisar que iriam passar por casa dela no dia 27? Mais ainda, o que teriam para lhe dizer?
A pergunta pairou na sua cabeça durante todo o mês, enquanto as aulas prosseguiam sem problemas. Kenji e Setsu entraram em época de exames, o que tornou difícil qualquer encontro. A neve começou a derreter, apesar de o céu continuar nublado e os bons ânimos do Carnaval chegaram a Tokyo. Dividindo o seu tempo entre os amigos e os estudos, Linda chegava a ter pouco tempo para pensar nos seus deveres de navegante. Infelizmente, Mari ia pelo mesmo caminho. Após o Ano Novo, parecia extremamente empenhada nos estudos e noutras coisas que a punham sempre ocupada, sem tempo para pensamentos extras. Apenas Cecília conseguia arranjar tempo para preparar um plano, enfim qualquer coisa para darem um passo em frente ao de Dawson. Mas sozinha não conseguia resultados. A única coisa que sabia era que algo estava a pô-la muito feliz. E não eram as Flores já conquistadas.
O dia vinte e sete chegou e passou e Linda começou a ficar preocupada. Não era hábito de Seiji faltar a um encontro marcado e muito menos de sem sequer avisar com antecedência. Tentou mandar SMS para o número dele e tentou falar com Naomi numa sala de conversação, mas não teve sorte. Tanto um como outro tinham desaparecido. Restava a ela esperar.
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[1] E tudo o Vento levou. Nunca o li, mas falam tão bem desta história…
Pois bem, regresso agora com um novo capítulo (e bem grandinho, devo dizer).
Antes de mais, tenho umas coisinhas a dizer:
-Primeiro. Volto a dedicar um capítulo à lulumoon, peloa atenção e por eu ser uma cabeça no ar. Eu sabia que a lulu fazia anos entre setembro e novembro, mas não sabia quando. Um dia vim cá (finais de outubro) e vi que a lulu já tinha feito anos e não lhe tinha dito nada. Peço mil e umas desculpas por isso. Uma feliz aniversário (bem, bem, bem atrasado) Oxalá todo o romance que este capítulo ofereça possa compensar

-Segundo: Caso tenham duvidas acerca das origens dos nomes, basta dizer. Caso contrário, só descobrem no fim da fanfic.
-Terceiro: Há uma parte em que a Cecília canta, mas eu decidi não pôr musica. Todavia, para terem uma noção de como é a voz dela (como a imaginei) tem ali um link para voces ouvirem. Mas acredito que consigam ler sem ter que ouvir a música.
-Quarto: Realizei algumas pequenas alterções na história do Milénio Prateado, de modo a que ficasse um pouco de acordo com a minha história. Se hover algum detalhe que se sobressaia, avisem-me

-Quinto (e último): Não gosto deste capítulo. Primeiro, deu-me muiton trabalho, segundo... não sei, não consigo gostar

E com isto é tudo. obrigada pela vossa paciencia e boa leitura

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24. As Guardiãs da Esperança
Para quem não contava com grandes alterações com o inicio do Ano Novo, acabou por apanhar uma grande surpresa quando Linda, Mari e Cecília vieram juntas para as aulas, sorrindo e conversando alegremente. Todos olharam incrédulos para a nova amizade das três, apenas algumas semanas depois de Mari ter insultado Linda em frente a toda a escola. Mas o que mais surpreendeu todos foi o facto de Eiji ter chegado à sala de aula, ter-se chegado perto de Linda e tê-la cumprimentado com um leve beijo nos lábios.
Era oficial. O quer que Mari tivesse de errado contra Linda já lá não estava, o que permitia que toda a turma pudesse conversar com Linda sem problemas de vir a enfurecer a loira.
E também (e talvez a pior noticia para algumas raparigas), Eiji estava agora fora do ‘mercado’. Nas horas de almoço, almoçava com a namorada no sítio do costume, atrás da escola, para mais tarde Mari e Cecília lhes fazerem companhia.
Outras alterações vieram pelo caminho. Linda afirmava ter ido ao cabeleireiro cortar o cabelo até abaixo das orelhas, no entanto este parecia estar ainda mais comprido do que antes, chegando abaixo dos cotovelos.
Também Eiji por vezes mandava umas piadas com Cecília e Linda, que (para espanto de todos) incomodavam Mari, que virava a cabeça para o lado ou corava.
Todavia, no meio daquelas alterações, quase tudo se mantinha na mesma. Como tal, na aula de Química, ninguém esperava nenhuma alteração na rotina. Mas o professor, um homem grisalho com ar lunático, decidiu à última da hora mudar os pares:
-Menina Nakamura, fica com o Yamamoto. Menina Tamura, fica com a menina Yamada, Menina Tsukino com o Senhor Sato…
Mari juntou-se a Eiji nas bancadas brancas, com Cecília e Kiara ao seu lado, a uma pequena distância. Linda, por seu lado, dirigiu-se para a bancada de frente, com Ryo atrás dela. Ao ver que Eiji e Mari estavam atrás dela, sorriu e virou-se de frente para eles. Ryo revirou os olhos:
-Por favor, não me digas que vais ficar a fazer olhinhos ao teu namorado a aula toda?
Linda aumentou o sorriso.
-Não é por isso. Espera para veres. Observa o Eiji nas situações mais… cuidadosas… - disse ela, começando o trabalho proposto pelo professor. Pegou numa noz e abriu-a de modo a que esta agarrasse uma pipeta graduada. Colocou a noz no suporte universal e preparou a solução, pedindo a Ryo que se dirigisse à dispensa buscar os ingredientes.
A aula passou devagar, com Linda a rir-se em determinadas ocasiões, mas sem nunca se desconcentrar. Ryo, extremamente curioso, olhou para Eiji e para Linda, tentando perceber o que se passava. Mas sempre que Linda se ria, Eiji não olhava para ela. O que se é que se passava?
Linda agitou o tubo de ensaio onde tinha colocado a solução aquosa, cor violeta, com um depositado negro no fundo. A partir do momento em que agitou, tornou-se roxo, sinal de que estava tudo bem feito. Ela sorriu, satisfeita e apressou-se a anotar o procedimento no caderno diário. Ryo fez o mesmo, desta vez com uma substância ligeiramente diferente da de Linda. Agitou-a num pequeno goblé com uma vareta de vidro e viu a substância ganhar uma cor azulada.
-Estás a ver! – Disse Linda para o companheiro – e dizias tu que ias fazer o laboratório explodir.
-Mas eu nunca disse isso – retorquiu ele.
-Disseste-o na primeira aula.
-E lembras-te disso? – Perguntou ele, surpreendido. – Foi há tanto tempo!
Ela sorriu e, tendo acabado a experiência, pousou os olhos em Mari e Eiji. Ryo fez o mesmo e finalmente percebeu a razão de tanto riso por parte de Linda.
-Com mil raios… - murmurou ele, tentando controlar uma gargalhada.
-Já viste?
-Ya. Ele é sempre assim tão…
-Picuinhas? Sim – respondeu ela.
Eiji parecia que ganhava cabelos brancos em todas as aulas de Química. A atitude descontraída de Linda num laboratório punha os seus nervos em franja, visto ele querer sempre fazer tudo exactamente como o professor dizia… e devagarinho. Já Linda ignorava as regras e fazia tudo à sua maneira. Ou seja, rápida e pouco subtil. Claro que ela nunca falhara uma experiência por causa disso, mas Eiji nunca perdia vontade de a massacrar durante uma aula inteira só porque ela agitava o tubo de ensaio muito depressa.
Agora com Mari a história era outra. Mari não tinha jeito nenhum para Química e, se a descontracção de Linda dava a Eiji vontade de lhe tirar a solução da mão, a Mari dava vontade de a esganar.
A loira, irritada com o comportamento do amigo, lançava-lhe um olhar de morte de cada vez que ele interferia. Mas Linda e Ryo divertiram-se a admirar as caretas de Eiji sempre que Mari tinha o trabalho deles nas suas mãos pouco cuidadosas.
-MARI! Era suposto isso ficar azul! – Disse Eiji, num tom bem audível. Mari ficou vermelha. Eiji não ficou melhor.
-Senhor Yamamoto, Menina Nakamura, aconteceu alguma coisa? – Perguntou o professor, apesar deste já saber o que tinha acontecido.
-Ah… nada professor.
O toque da campainha salvou Eiji de dar uma boa explicação ao professor, que os obrigou a limpar a sala antes de saírem. A seguir era hora de almoço e Mari dirigiu-se para o refeitório, com Cecília a correr atrás. Normalmente comiam sozinhas, mas naquele dia alguém tinha que acalmar a loira.
Linda pegou na pasta e foi ter com o namorado, que já estava no corredor. Este olhou para ela, como se esperasse algo.
-Vai. Podes rir-te da figura de idiota que fiz.
-Mas tu já és um idiota. – Comentou ela, num tom natural.
-Tens problemas com isso? – Ele chegou-se perto dela, agarrando-a pela cintura. Ela sorriu e beijou-o nos lábios, colocando os braços em volta dos ombros dele. Prolongaram o momento até que ela se afastou:
-Não. Há sempre pior. Além disso, é assim que eu gosto de um homem. Com uma inteligência inferior à minha.
-Tu e todas as outras. Mas também, tu já tens uma inteligência maior que toda a escola
-Não exageres!
Juntos dirigiram-se para o seu canto atrás da escola. Como tinha chovido no dia anterior, Eiji encontrou à socapa no armário dos Perdidos e Achados e pegou numa manta laranja velha e estendeu-a no chão.
Sentaram-se e começaram a comer os seus almoços, trocando rebuçados de mentol e falando disto e daquilo. É normal nos casais haver sempre muitos tópicos de conversa, principalmente quando eles são amigos. Podem falar de cultura, desporto, escola, amigos, família sem que o outro se aborreça. Sabem aquilo que podem falar e até onde podem falar. Em Linda e Eiji as coisas não eram diferentes. Verdade que havia alturas em que agiam mais como amigos do que como namorados, mas isso era apenas o hábito. Afinal, ele fora o primeiro amigo dela no exterior e ela fora a primeira rapariga com quem ela tivera uma longa conversa em toda a sua vida.
Aquilo que os fazia distinguir da relação amizade da relação amorosa eram os olhares incessantes que trocavam um com o outro e os beijos dos quais, tal como a conversa, nunca se cansavam.
Faltavam vinte minutos para tocar e Linda lia “Gone with the wind” [1], que a professora de inglês obrigara a turma inteira a ler. A descontracção dela enquanto os seus olhos saltitavam por entre as linhas em inglês, emitindo um pequeno brilho por detrás dos óculos faziam-no sorrir. As pernas dela estavam de lado, a saia deixando parte das pernas desprotegidas. No entanto, ela não se mexia, nem de frio, nem de incómodo. Parecia tão absorvida no livro que ele deu-se por si a aproximar-se dela discretamente.
-Se fosse a ti afastava-me. – Disse ela, sem tirar os olhos do livro.
-Porquê? – Perguntou ele, inocentemente, sem tirar os olhos de cima dela.
-Sabes muito bem do que falo…
-Ilumina-me – desafiou ele, dando um pequeno salto para cima dela. Ela mal teve tempo para pôr o livro de lado e já estava por debaixo dele. Eiji tirou-lhe os óculos e tomou a boca dela, mal dando-lhe tempo para reagir. A boca dela ainda sabia a mentol. Mordeu o lábio inferior dela enquanto as suas mãos procuraram as suas ancas.
Ele pôs a mão no cabelo dela, habito que ganhara desde o primeiro beijo. Linda suspirou e deixou-se levar por aquela sensação quente e confortável que o namorado lhe dava.
-hum hum – ouviu-se o clarear de uma garganta. Eiji afastou-se de Linda à velocidade da luz para os dois fitarem a professora de inglês. Esta abanava a cabeça, como que se estivesse desapontada.
-Quem diria… quem diria… venham os dois comigo até ao gabinete da Directora JÁ! – Ordenou, apontando o dedo para a porta. Os dois jovens levantaram-se, ambos com as caras vermelhas e seguiram a professora até ao gabinete da professora que, infelizmente, se situava no outro lado da escola. O que queria dizer que Linda e Eiji tinham que suportar uma demorada caminhada silenciosa onde a professora de vez em quanto mandava olhares furiosos para os dois, querendo se certificar que eles a seguiam. Linda não se atreveu a olhar para o namorado de tão envergonhada que estava.
Entraram no gabinete da Directora, que estava sentada atrás da sua secretária remexendo nalguns papéis. Ergueu os olhos quando os viu entrar:
-Que aconteceu? – Perguntou à professora.
-Estes dois andaram a fazer indecências lá atrás.
A Directora mirou os dois jovens, tão vermelhos como tomates. Eiji olhava para o lado e Linda apreciava um grão de pó no chão.
-Ai sim? Que têm a dizer em vossa defesa? – Perguntou aos dois. Linda ergueu a cabeça e tentou falar:
-Não estávamos a fazer nada de mal.
-Ai não? – Interrompeu a professora, furiosa. – E então aquilo que eu vi? Se aquilo era indecências.
-Eu estava apenas a beijá-la! – Disse Eiji. – Penso que é isso que os namorados fazem. Além disso, nem estávamos num sítio público.
-Pior…
-Não! – Cortou a Directora, elevando o tom de voz. – Se eles estavam apenas a ’namorar’ num sítio discreto, não estou a ver o problema. Contando que eles não exagerem. – Aí a Directora semicerrou os olhos para os dois jovens, como quem dá um aviso. – Penso que a vergonha que passaram foi castigo suficiente. Mas atenção! Juizinho, que isto é um estabelecimento de ensino bem sério. Alguma falha e eu telefono aos vossos pais.
-Sim senhora Directora! – Disseram os dois em uníssono.
-Mas Directora…
-Podem sair. – Disse a Directora, dispensando os jovens, que não demoraram a abrir a porta e a sair, anda conseguindo ouvir a Directora dizer:
-Querida, não se preocupe com eles. Já sabe como são os jovens de hoje…
**
-Foi por pouco! – Murmurou o rapaz, suspirando de alívio.
Linda fitou-o com os olhos semicerrados.
-E de quem é a culpa?
-Oh vá lá. Não te queixaste quando eu te beijava.
-Não me deste hipóteses de fugir.
-E se te desse fugirias?
Ela reflectiu por uns momentos.
-Sim. – Respondeu num tom natural.
-Como? – Disse Eiji, surpreendido com a resposta da namorada.
-Até parece que não te conheço. Sei que tu gostas de fazer coisas ‘indecentes’.
-Bem... na escala de um a dez é apenas um oito. – Ao ver a cara furiosa da namorada, acrescentou. – Que queres? Sou homem!
-Um homem com uma fornalha nas calças. – Murmurou ela, ao mesmo tempo que soava o toque de entrada. Linda pegou nas suas coisas e dirigiu-se para a sala, deixando o namorado atrás. Eiji apenas teve tempo para sussurrar “mulheres…” antes de a seguir.
**
O telemóvel de Linda vibrou a meio da aula de Língua Japonesa. Aproveitando o momento em que a professora estava virada de costas para a turma, pegou no telemóvel e viu a mensagem. Era de um número desconhecido:
Olá, Li. Não sei se tas em aulas, por isso achei melhor mandar SMS. Eu e a Naomi vamos passar pela tua casa por volta do dia 27. Temos coisas para te dizer. Fica atenta. Seiji.
Esta é nova, pensou Linda. Fazia algum tempo desde que tivera notícias dos seus dois amigos do Palácio. Trocava alguns emails com Naomi, mas Seiji parecia ter desaparecido do mapa. Estranho, receber noticias assim de repente.
Mais estranho ainda era a mensagem. Porque motivo, iriam eles avisar que iriam passar por casa dela no dia 27? Mais ainda, o que teriam para lhe dizer?
A pergunta pairou na sua cabeça durante todo o mês, enquanto as aulas prosseguiam sem problemas. Kenji e Setsu entraram em época de exames, o que tornou difícil qualquer encontro. A neve começou a derreter, apesar de o céu continuar nublado e os bons ânimos do Carnaval chegaram a Tokyo. Dividindo o seu tempo entre os amigos e os estudos, Linda chegava a ter pouco tempo para pensar nos seus deveres de navegante. Infelizmente, Mari ia pelo mesmo caminho. Após o Ano Novo, parecia extremamente empenhada nos estudos e noutras coisas que a punham sempre ocupada, sem tempo para pensamentos extras. Apenas Cecília conseguia arranjar tempo para preparar um plano, enfim qualquer coisa para darem um passo em frente ao de Dawson. Mas sozinha não conseguia resultados. A única coisa que sabia era que algo estava a pô-la muito feliz. E não eram as Flores já conquistadas.
O dia vinte e sete chegou e passou e Linda começou a ficar preocupada. Não era hábito de Seiji faltar a um encontro marcado e muito menos de sem sequer avisar com antecedência. Tentou mandar SMS para o número dele e tentou falar com Naomi numa sala de conversação, mas não teve sorte. Tanto um como outro tinham desaparecido. Restava a ela esperar.
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[1] E tudo o Vento levou. Nunca o li, mas falam tão bem desta história…
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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E chegou o dia catorze de Fevereiro, dia de S. Valentim, e todas as jovens esperavam ansiosamente pelos cartões, flores ou bombons dados pelos seus namorados ou amigos. Mas o dia catorze, apesar de apenas ser celebrado a partir do momento em que um adolescente se levanta da cama, pronto para começar um novo dia, começava a partir da meia-noite.
Duas horas depois de o soar dos relógios de Tokyo, o dia tinha começado para Linda Natsumara. Um dia que não era o dela…
**
Ela subiu as escadas de mármore apressadamente. Já estava atrasada. Amaldiçoou o trânsito que a impediu de chegar cedo, pouco antes de atravessar a porta central da faculdade. Um funcionário limpava o chão alheadamente com a esfregona, deixando-o brilhante e húmido. Ela, de tão apressada que estava, nem prestou atenção a esse detalhe, escorregando.
A queda foi forte. Mas mais forte ainda foi a queda do seu ego quando ouviu um familiar riso masculino à sua frente.
Oh não. Ele não!
-Grande queda, hã Chiba [2]? – Gozou o rapaz loiro que estava mesmo à sua frente, gozando o melhor momento da sua vida.
-Vai ver se eu estou na esquina! – Retorquiu ela, erguendo-se do chão duro e molhado.
-Porque é que achas que eu estou aqui? Vim saber por onde andavas.
-Que querido… - murmurou ela, com sarcasmo profundo. – Não devias estar nas aulas?
-Sabes muito bem como as aulas não funcionam bem sem ti, coelhinha!
-Não me chames coelhinha! – Reclamou ela, elevando o tom de voz. O rapaz parecia já estar à espera disso, pois o seu sorriso não diminuiu nem um pouco. Foi aí que ele notou em algo.
-Ora essa… foste ao corte!
-Vai bugiar.
-A sério… Que fizeste aos totós?
Ela desviou o rosto, incomodada. Foi aí que se lembrou que estava atrasada para a aula.
-Oh raios partam. Já estou atrasada.
-Para não variar. – Murmurou ele, e braços cruzados e um sorriso trocista. Ela ignorou-o e correu para a sala de aula, onde o professor circulava por volta das mesas, onde vários estudantes pintavam uma simples jarra vermelha.
-Peço desculpa pelo atraso, senhor Sagahara.
O professor sorriu e, com um leve aceno de cabeça, mandou-a entrar. Mal ela pôs os pés dento da sala de aula, o rapaz entrou a seguir.
-Desculpe o atraso, professor.
-Que não se volte a repetir, senhor Natsumara. – Reprimiu o professor, com os seus cabelos loiros já a mostrar algumas brancas.
Edward sorriu e sentou-se ao lado de um ruivo, mesmo atrás da rapariga, que estava a lado de uma morena.
A turma continuou a aula, desejando vários objectos inanimados com caras e outros detalhes que não se costuma ver na vida real. Detalhes da imaginação, que varia em cada um.
A certa altura, um papel voou para a carteira da rapariga. Foi a morena que o apanhou:
-Usagi, o Edward ‘tá-te a mandar papéis.
-Diz-lhe para ele os enfiar no…
-Vá lá responde-lhe! Olha que ele apenas tem boas intenções.
Usagi suspirou pesadamente, não tirando os olhos do seu desenho.
-Não tenho paciência. Ele tira-me do sério.
A morena sorriu amavelmente. Outro papel voou para a carteira das duas.
-Olha-me este… - reclamou Usagi.
-Ao menos vê os papéis. – Sugeriu a morena, voltando-se para o seu desenho.
Usagi, rendida, pegou no primeiro papel, enquanto a morena chegou-se perto dela para ver o desenho.
O papel de linhas mostrava um coelho cor-de-rosa a saltitar em campos verdes cheios de cenouras intocadas pelo animal. O coelho tinha olhos vermelhos e uma cara aterradora, com os bigodes transfigurados, os olhos tortos, o focinho laranja em vez de vermelho, as orelhas no ar, todas tortas e tinha uns dentes amarelos que mais lhe davam um ar de Frankenstein do que um coelho da Páscoa.
Por cima, uma ‘legenda’: É o que dá a Coelha [2] não comer verduras.
Usagi sentiu o sangue a subir-lhe à cabeça de tanta raiva que sentia. Já a morena não aguentou. O som das suas gargalhadas ecoou por toda a sala, atraindo a atenção de toda a turma e do professor:
-Passa-se alguma coisa, menina Andou? – Perguntou o professor Kentaro, aproximando-se da mesa das raparigas. Usagi escondeu o papel rapidamente, enquanto a morena ficou vermelha de vergonha.
-Ah... nada professor. Foi apenas um detalhe do desenho da Usagi que me fez rir.
Tentando parecer que a história da colega era verdadeira, Usagi pegou na borracha e apagou uma linha pouco importante do seu desenho.
Kentaro não pareceu acreditar na história da rapariga, pois os seus olhos saltaram de Usagi para Edward, que sorria descontraidamente na mesa de trás, como se nada daquilo tivesse a ver com ele. Sem provas do contrário, Kentaro desistiu:
-Não se descuidem. A arte é uma coisa séria! Desenhem linhas rectas em várias direcções, juntem isso aos círculos, formem um objecto por via abstracta. Pela vossa via abstracta.
E continuou a circular pela sala, enquanto Usagi deitava um olhar furioso no colega. Já a morena começava a perder o rubor na face:
-É bem-feita Misaki. Para a próxima, não gozas comigo – sussurrou Usagi.
-Que queres? Tem piada. Dá-lhe uma oportunidade.
-NUNCA! – Silvou furiosamente a outra, os olhos bem abertos. – Se quiseres fica tu com ele.
Misaki sorriu.
-Acredita que há muitas aqui que bem gostariam de ficar com ele. Mas o Eddie só tem olhos para ti.
-Eddie? Por favor, não me digas que já o tratas dessa forma.
-Eu não o trato dessa forma.
Usagi semicerrou os olhos. Misaki soltou uma silenciosa gargalhada.
-Ele pede para ser tratado assim, que quereres…
-Ele também pede a todos para me tratarem por ‘coelha’ e não me vais dizer que eu tenho que concordar com isso.
-Usa, mas tu és coelha. Tanto pelo nome como pelo penteado… por falar nisso. – Misaki olhou para o penteado da amiga, como se o visse pela primeira vez. – O que raio fizeste ao cabelo?
-Cortei-o.
-Novidade. Mas porquê? Tinhas um cabelo tão bonito.
Usagi mordeu o lábio, ponderando na resposta.
-Não sei porque te importas. Até parece que não cresce de novo. Aliás, na minha família os cabelos crescem bem depressa. Há alturas em que a minha mãe mais parece a Rapunzel do que outra coisa.
-E o teu cabelo está todo encaracolado porquê?
Usagi ergueu o sobrolho, como se lhe tivessem perguntado se dois mais dois eram igual a quatro.
-Porque é assim, ora essa. Se eu retirar os odangos, o meu cabelo é encaracolado. Nem sei onde fui buscar isso, os meus pais têm cabelos lisos.
-Ainda assim não estou a ver porquê é que o cortaste. – Comentou a morena, desenhando uns lábios grossos na sua jarra.
Usagi ia responder, mas Misaki foi mais rápida.
-Não queres é que o Eddie goze com o teu penteado, é isso?
-Hum hum… - confirmou ela, traçando umas linhas a negro no seu desenho, que começava a ter uma forma rectângula, apesar de a jarra ser circular. - Até queria pintar de ruivo, mas a minha mãe disse que me deserdava se o fizesse. Pedi ajuda ao meu pai e ele, não só concordou com a mãe, como disse que ele próprio me voltava a pintar o cabelo, desta vez com um rosa mais forte.
-Coitada. Os teus pais têm um grande amor ao teu cabelo…
-Não é amor. Apenas acham que eu não devia ir abaixo com bocas foleiras. E é verdade! Nunca fui.
-Até que conheceste o Eddie… – Murmurou Misaki, sem tirar os olhos do desenho. Pelo canto do olho, viu que a amiga voltara a semicerrar os olhos com força, sinal que ficou ‘ofendida’ com o comentário. No entanto, não respondeu à provocação.
-Pára quieta!
-Só tu para estares a desenhar a esta hora do dia. – Reclamou Misaki, mexendo as pernas estendidas na relva verde. Estavam as duas sentadas no pequeno parque em frente ao Pólo Universitário e Usagi desenhava a amiga a carvão, com o bloco por cima das suas pernas cruzadas. – E ainda por cima a mim.
-És uma boa modelo. – Respondeu a outra alheadamente, sem tirar os olhos do desenho – não mexas o queixo!
Misaki suspirou, enquanto observava a paisagem. O sol ia alto, sinal de que o meio-dia já tinha chegado. Tinham estado no parque cerca de duas horas.
-Amanhã queres sair? – Perguntou Usagi.
-Sair aonde?
-Ao shopping. A Hotaru vem connosco.
-Não achas estranho a tua melhor amiga ter quase o dobro da tua idade?
-Até podia. – Mudou de posição, ficando mais próxima da companheira. Ergueu o lápis, de modo a ter uma percepção da escala do queixo e prosseguiu o seu trabalho. – Mas já estou demasiado habituada para reclamar.
-Quem vai mais?
-O Benjamin, a Guinevere e o Edward.
Misaki ergueu o sobrolho, divertida.
-Três ingleses?
-Yup. O Benjamin é o namorado da Hotaru, o Edward o melhor amigo dele, a Guinevere…- Aí, Usagi hesitou, voltando a sua atenção para o desenho, fingindo que nada se passara.
-Que tem ela? – Perguntou Misaki, curiosa. Mexeu-se um pouco, querendo descansar os músculos.
Usagi parou de desenhar e fitou a amiga. Havia algo de sombrio nos seus olhos vermelhos:
-Ela é estranha. Tem qualquer coisa nela que…
-Que o quê?
Tal pergunta funcionou como estimulo para Usagi, que ‘acordou’ do seu transe.
-Nada. Não se passa nada.
-Não foi essa a minha pergunta. – Misaki levantou-se e sentou-se junto da colega. – O que é que ela tem?
Usagi olhou nos olhos da amiga e reflectiu. As suas suspeitas não eram daquelas que se contassem a qualquer um. Principalmente a Misaki, que nada tinha a ver com aquilo.
-Ela prefere que a tratemos pelo apelido. – Respondeu por fim. Misaki percebeu que estava tudo dito naquele momento e decidiu não insistir. Mas a curiosidade que sentia era demasiado forte para ser ignorada:
-Qual apelido?
-Dawson.
Ao longe, ouviu-se um assobio. Edward passava descontraidamente pelas ruas com um braço a segurar cadernos e um grande livro, o outro no bolso.
As duas raparigas olharam para ele curiosamente. Usagi bufou de impaciência e voltou ao seu desenho, mas estava tão desconcentrada que não conseguia acertar em nenhuma linha. Misaki viu Edward entrar na porta central da faculdade cujo nome ela não conseguia ler dali.
-O que está ele ali a fazer? – Perguntou à colega, sem tirar os olhos da entrada.
-A estudar. Não sei como, mas ele está a tirar Artes e Relações Públicas ao mesmo tempo.
Misaki piscou os olhos, surpreendida.
-Como é que é possível. Nós já nos vimos lixadas para lidar com um único curso e ele ainda consegue tirar dois?
-Pelo que ouvi dizer, ele não tem as cadeias todas nesse curso e no de Artes também. Explica como é que ele consegue comer e dormir.
-Uau, ele deve ser o Super-Homem ou algo do género.
-Nem uma coisa nem outra. – Usagi levantou os olhos do bloco para a entrada. Sorriu maliciosamente e depois levantou-se, sacudindo as roupas.
-Onde vais? – Perguntou Misaki, levantando-se também.
-O inglês deu-me cabo da aula, então eu também vou dar cabo da dele. – E correu para a entrada, seguida pela morena, que a chamava atrás.
Percorreu os corredores do instituto até encontrar uma porta aberta, que mostrava um auditório com, pelo menos, uma centena de estudantes, Edward incluído. O professor citava um livro e, de vez em quando, virava costas para escrever algumas frases no quadro. Usagi sorriu e entrou sorrateiramente, passando despercebida.
-Usa, que vais fazer? – Sussurrou Misaki da soleira da porta. Usagi pôs o dedo nos lábios e prosseguiu até às carteiras dianteiras, onde se encontrava o loiro inglês. Ninguém notou na jovem de cabelos cor-de-rosa a rastejar por entre mesas até que parou junto de um estudante que apontava tudo aquilo que o professor dizia, apesar de os seus olhos estarem vidrados do sermão cansativo do homem. Do outro lado, Misaki estava tão nervosa que começou a roer as unhas.
Ela estava agora junto à cadeira dele e ia anunciar a sua presença quando ele a viu. Os seus olhos castanhos brilhantes abriram-se em surpresa:
-Coelhinha! – Gritou ele, atraindo a atenção dos outros, incluindo o professor. Alguns alunos notaram na rapariga e começaram a sussurrar, sem no entanto a denunciar. No seu esconderijo, Usagi ficou vermelha que nem um tomate.
O professor ergueu o queixo, perguntando silenciosamente o que se passava. Edward fingiu-se atrapalhado e envergonhado e pediu ao professor que continuasse a lição. Este semicerrou os olhos, mas acabou por prosseguir a aula. A atenção da turma estava agora centrada tanto no professor, como em Edward que se sentara no chão, junto a Usagi. Esta fitava-o furiosa. Grande mentiroso, pensava. Ela nunca conseguira mentir daquela forma. O pai apanhava-a por mais que tentasse e isso fez com que ela deixasse eventualmente de mentir. Agora nem para salvar a vida conseguia enganar os outros. Mas claro que Edward não tinha problemas com isso.
-Parvo! Tens que chamar as atenções? – Sussurrou ela furiosamente. Ele esboçou um sorriso, que se estendeu até às orelhas.
-Oh Coelhinha. Vieste visitar-me? Que querida!
-Não gozes. Vim aqui humilhar-te.
Edward ergueu o sobrolho, ao mesmo tempo que se acomodava, cruzando uma perna junto ao tronco e deixando a outra esticada.
-Ai sim? E como isso está a correr? – Perguntou, o com o seu sorriso mais sedutor. Usagi perdeu a voz. De facto, era suposto ela estar a humilhá-lo, mas acabara por ser o contrário. É sempre o contrário, pensou para a sua consciência.
-Eu…
-Admite que vieste cá só para me ver.
Ela corou violentamente.
-Nunca!
-Shh. – Ordenou alguém nas carteiras de frente, provocando um pequeno salto nos dois, que bateram com as cabeças na mesa, apanhados de surpresa. Usaram todas as suas forças para não gritarem de dor. Os outros de trás riram-se silenciosamente. Ele passou a mão pelo sítio onde batera e, ignorando a dor, aproximou-se mais dela.
-Admite. – Ordenou ele, sussurrando na orelha dela.
-Para isso tens que parar de me chatear para o resto da tua vida.
-Lamento, mas não posso fazer isso.
Ela ergueu o sobrolho, irritada.
-Porquê? Divertes-te assim tanto?
Ele sorriu amavelmente, deixando-a desconfortável.
-Um pouco. Mas também não posso ignorar os meus desejos.
Ela sentiu um rubor nas bochechas e de repente desejou ter apanhado o cabelo, devido ao calor que sentia.
-Aí sim? E o que desejas neste momento?
Ele não respondeu logo. Invés disso fitou-a. Os olhos cor de brandy brilhavam como pequenos sois, destacando-os naquele rosto atraente. Usagi tinha que admitir, mas Edward Natsumara era um pedaço de mau caminho. Corpo esbelto, olhos expressivos, feições angelicais e voz sedutora, para além de se engraçado, esperto e bem fácil de conversar.
Agora que se recordava, ela não tinha nenhum motivo sério para vir, a não ser vê-lo. Tinha que admitir. Ela queria vê-lo.
-O que mais desejo neste momento… - sussurrou ele, tão baixo que ela mal ouviu. – É beijar esses lábios que nunca estão selados.
Ela não o impediu de se aproximar, os seus lábios prontos a roçar nos dela.
-E como eu estava a dizer… - A voz do professor aumentou o tom. Um aluno tinha-lhe posto uma dúvida e, após esclarecida, estava pronto para continuar a lição. Mas falara tão depressa que assustara os dois jovens debaixo da mesa, que se separaram antes que os lábios tivessem o prazer de se unirem. Ele, pela primeira vez, parecia embaraçado. Levantou-se e sentou-se na sua cadeira, tentando apontar aquilo que o professor dizia. Usagi, incapaz de dizer alguma coisa, afastou-se dele e saiu da sala tão sorrateiramente quanto entrara.
Ao chegar à porta, pensou naquilo que sentira. Estivera quase lá… quase lá. Raios partam o professor que o impedira de a beijar. Mas também… quereria ela que ele a beijasse? Talvez... ou melhor, sim. Ela queria que ele a beijasse. Podia não suportar estar ao lado dele, mas não podia negar a atracção que sentia.
Raios partam, amaldiçoou. Era mesmo pouca sorte. Estava tão perto. Oxalá mais nenhuma rapariga passasse por esta ansiedade de receber um beijo de um homem, para que depois este nunca se concretizasse. [4]
Procurou por Misaki, que não estava na porta e foi encontrá-la encostada à parede, com um homem a dar-lhe um sermão. Um professor da faculdade.
Aflita, Usagi correu em socorro da amiga.
-Peço desculpa, senhor, mas é que nós… - parou quando o homem se virou para ela. Conhecê-lo-ia em qualquer lado. – Hiróito?
O homem olhou-a desconfiado. Quando finalmente a reconheceu, sorriu.
-Olá Usagi. Penso que é esse o teu nome. – Acrescentou, um pouco confuso.
-E é. – Usagi soltou uma gargalhada, aliviada. Afinal não estavam em tantos sarilhos como imaginavam. Atrás do homem, Misaki fitava-a aterrorizada. – Misaki, este é um amigo do Benjamim, Hiróito Tamura.
-Ela é tua amiga? – Perguntou Hiróito, olhando para a morena com os seus olhos castanhos escondidos atrás de óculos rectangulares, que corava um pouco.
-Sim, chama-se Misaki Andou.
-Prazer. – Cumprimentou a morena. – Como o conheces?
-Como ouviste, é um amigo do Benjamin e foi assim que nos conhecemos. És professor cá?
-Não, mas tenho uma colega que o é. Vim cá deixar-lhe um recado. Eu trabalho o na faculdade de Arquitectura, como professor.
-O que dá? – Perguntou Misaki, sempre curiosa.
-História da Arquitectura Antiga. Não é a cadeia mais famosa, mas tenho sempre bons alunos. Mas estamos a mudar de assunto. Que fazem as duas aqui?
Usagi e Misaki entreolharam-se, atrapalhadas.
-Viemos… ver o Eddie. – Disse Misaki, apanhando a amiga de surpresa ao contar a verdade.
-O Edward? Mas ele não está em aula? – Hiróito deitou um olhar na sala por onde Usagi tinha saído, desconfiado. Esta corou e nada disse, não confiando em si própria para responder. – É melhor vocês irem. – Sugeriu ele, ao ver o modo como as duas estavam.
-Ah… nos vemos no sábado? Digo, nós vamos sair… – Perguntou Usagi.
-Eu sei, o Ben convidou-me. Mas não sei, tenho muito que fazer.
-Espero que vás. És sempre melhor companhia que outras pessoas… - Murmurou Usagi entre dentes. Misaki perguntou-se de quem ela falaria.
-Talvez. E vais só tu? Não ficas desconfortável?
-Porque ficaria?
-Porque és a única com dezanove ali no meio. [5]
-A Guinevere também vai. E a Misaki… - Usagi virou-se para a amiga. – Não me chegaste a dizer se vinhas ou não.
Os olhos dourados da morena saltaram da amiga para Hiróito, que a fitava atentamente. Suspirando levemente, respondeu:
-Vou sim. Penso que será divertido.
Usagi e Hiróito sorriam.
-Excelente! Sendo assim, Hiróito és o único que não vai e isso seria mau. Vê se te decides.
Ele suspirou.
-Vou ver o que posso fazer. É melhor vocês irem. Adeus e até à próxima. Espero não vos voltar a ver aqui – Despediu-se virando a esquina. As duas jovens seguiram a direcção contrária, para a porta central. Ao atravessarem o parque, foram falando dos detalhes da noite que viria aí, e do encontro de Edward com Usagi. Esta falara no ‘quase-beijo’, mas não se atreveu a revelar detalhes. Sabia que Misaki ainda não compreenderia o que se passava. Aliás, só a sua mãe e Hotaru é que a entendiam nestes assuntos.
Chegaram à sua faculdade, onde Misaki se lembrou de uma dúvida que tinha para falar com Kentaro. Aproximaram-se da sala onde sabiam que ele tivera aula cinco minutos antes e espreitaram pela porta. Dentro, Kentaro falava com um grupo de adolescentes, que não devia ter mais do que doze anos, apesar dos exagerados tamanhos dos rapazes. O mais alto, filho do professor falava com o pai alegremente, enquanto os amigos escutavam, alguns com interesse, outros a contar os minutos para sair dali. Por vezes Kentaro falava para os outros dois rapazes ou para as duas raparigas do grupo, que sorriam timidamente e respondiam em sussurros.
Ao ver as suas estudantes na entrada, Kentaro tratou-se de se despedir do filho e dos amigos dele. Estes abriram a porta e saíram, obrigando as mais velhas a afastarem-se para eles terem caminho. Iam elas a entrar quando, de súbito, uma corrente de electricidade percorreu o corpo das duas. Deixaram-se ficar no mesmo sítio, enquanto Usagi tentava identificar a fonte. Ao olhar para o grupo dos jovens, as energias aumentaram. A fonte vinha dali. Quando uma das raparigas parou e se virou para elas, elas sabiam que ela também sentira o mesmo. A rapariga, com os seus cabelos loiros soltos até aos cotovelos, olhava aterrorizada para elas, como se não conseguisse explicar o que acontecera. Misaki tinha um semblante parecido. Apenas Usagi tinha uma pequena ideia do que acontecera. Não pode ser, não é possível…
-Hei Ju! Vens ou não? – Perguntou o filho do professor Kentaro, chamando a amiga de longe. Esta acordou do transe e tratou de seguir os companheiros, deixando Usagi e Misaki a olhar para a porta por onde ela saíra, estáticas.
Que tinha acontecido. Porque raio tinham elas sentido aquela sensação de… conforto? Quem seria aquela rapariga?
-O que aconteceu? – Perguntou Misaki num sussurro, ecoando uma das outras perguntas de Usagi. Ao olhar para a amiga, percebeu que tinha muito que lhe explicar.
**
Linda sentiu o sono a desaparecer, mas não se deixou acordar. Com o controlo total da mente, tentou descansar a mente depois de tão exaustivo sonho. No entanto, ainda vinha mais. Não sabendo ela ignorar tais sonhos, a única coisa que pôde fazer era deixar-se levar…
**
No parque no centro de Tokyo, Hotaru suspira impacientemente, com as mãos nos bolsos. Ao seu lado, Usagi não desviava os olhos da pequena criança loira que brincava na caixa de areia do parque, divertido com o seu barquito vermelho.
-Quando é que a Misaki disse que vinha? – Perguntou Hotaru. Usagi encolheu os ombros.
-Ás três. – Respondeu.
-Já são três e meia.
Usagi sorriu.
-Já aturas os meus atrasos desde que eu nasci, mas ainda assim não toleras que a Misaki se demore.
-Não quando eu tenho coisas para fazer…
Usagi abanou a cabeça.
-És sempre a mesma. KENJI, NÃO COMAS ISSO! – Gritou para o menino, que deixou cair o pedaço que terra que ia pôr na boca. Ao ouvir o tom irritado da mãe, começou a soluçar. Esta apressou-se a pega-lo ao colo.
-Oh querido. Pronto, não chores.
-Decupa mama - disse o pequenino por entre pequenas lágrimas que caíam dos seus grandes olhos azuis-escuros brilhantes pelas suas bochechinhas rechonchudas. A mãe sorriu. Como poderia ela resistir a aquela linda criança?
-Pronto, pronto. Está tudo bem. Mas ficas a saber que não podes comer o que vem do chão. Faz-te mal e tu não queres ficar doente, pois não Kenji?
O pequeno abanou a cabeça em resposta. Vendo que a mãe já não estava zangada, tentou libertar-se, a fim de pegar no seu barquito. A mãe largou-o no chão e ele andou a curta distância até à caixa de areia, onde o seu barquito esperava por ele, semienterrado na areia.
-E pensar que crescem tão depressa. – Comentou Hotaru, ao ver o brilho nos olhos da amiga. Esta, automaticamente, pôs a mão no ventre, onde ela sabia que uma menina se formava. Tanto ela tinha insistido ao marido em descobrir o sexo desta criança. Mais porque ela não queria esperar os nove meses da gravidez, tal como fora com o primeiro filho. Dizia o seu pai “que a filha dera em louca de tanta curiosidade”. E agora ela sabia. Uma menina. A menina que ela sonhava ter desde pequenina, tal como a sua mãe. A sua pequena Linda.
Ao longe, surgiu uma mulher morena, a empurrar um carrinho de bebé. Ela sorriu ao ver as amigas:
-Bom dia.
Usagi abraçou a amiga, que retribuiu o gesto.
-Oh, Misaki, que saudades.
-O mesmo digo-te eu. – Soltaram-se e Misaki abraçou também Hotaru. Ao longo do tempo, tinham-se tornado grandes amigas, e mais devido ao facto de partilharem a mesma melhor amiga. – Que bom voltar a ver-te Hotaru.
-É. Já se fazem uns meses. – Hotaru lançou um olhar para o carrinho, onde uma recém-nascida repousava, as suas bochechas ainda cor-de-rosa. – É esta a tua filha?
-É. Esta é a Cecília. – Respondeu Misaki, orgulhosa. – E onde está o Kenji?
-Está ali. – Usagi aproximou-se do pequeno e, beijando-lhe a face, disse: - Anda ver a tia Misaki.
-Hu? – Disse Kenji, completamente alheio ao que a mãe disse.
-Eu disse, anda ver a tia Misaki. Ela vem com a filha, a pequena Cecília.
-Ce..sis.s.
-Cecília – repetiu a mãe, sorrindo para as tentativas do filho em dizer o nome da bebé. -Cessiliie. – Disse o pequeno e, acreditando ter falado correctamente, sorriu todo confiante para a mãe, que soltou uma gargalhada, que se espalhou pelas outras adultas.
-Cecily? Gosto do nome. – Comentou Misaki, deitando um olhar na filha, ainda adormecida no meio de cobertores cor-de-rosa.
-Não me digas que vais passar a chamar isso à miúda?
-Quanto apostas? Foi o Hiróito que escolheu o nome. Eu escolho a forma como ela é tratada.
Usagi, ignorando as pequenas birras do filho, pegou-lhe ao colo e levou-o para junto as amigas.
-Estás a ver? – Perguntou ao filho, olhando tanto para ele como para a pequena. – Esta é a Cecília. Pode vir a ser tua amiga e amiga da tua irmã.
-Mana? Mana Li! – Gritou o pequeno, contente por falarem de algo que ele já sabia. Afinal, os pais fartavam-se de falar na sua maninha que chegaria dentro de cinco meses.
-Mana Li? – Perguntou Misaki. – Como assim?
-Sabes como ela é maluca pelas histórias da Linda O’Connell. Quer dar o nome da escritora à filha. – Respondeu Hotaru, provocando uma careta na amiga.
-Mas que maluca mesmo! O Eddie deixa-te?
-Ele tem muito que reclamar. Sou eu que os carrego durante os nove meses, não tem nada de que queixar.
-Oxalá tivesse feito o mesmo. Mas como a Cecília nasceu com pouco do Hiróito, achei melhor dar-lhe alguma alegria.
-A miúda não tem nada dele?
-Não sei. Pode ter os olhos. Mas ainda estão azuis. Temos que esperar para ver. De resto, ela é a minha cara.
-Dá para ver. – Comentou Usagi, olhando para a pequenina, que agora bocejava, colocando o pequeno punho cor-de-rosa na boca e, em seguida, chuchou o dedo.
-É tão adorável.
-É. Posso segurar no teu menino? – Perguntou Misaki, abrindo os braços para o rapaz. Este olhou-a desconfiado e abanou a cabeça para a mãe.
-Não sejas tão desconfiado. A Misaki não te faz mal. – Usagi passou o filho para os braços da morena, que o recebeu um pouco mal.
-Caramba, está crescido. – Comentou, enquanto o segurava firmemente. – E está tão parecido com o Edward e com o teu pai.
-Como será isso possível? – Murmurou Hotaru.
-Pela mesma forma que os meus pais são loiros e morenos e eu tenha cabelos rosa.
-Que voltaste a cortar, pelo que estou a ver.
-Oh Misaki, só tu para notares nisso. Fora tu, apenas o Edward repara.
-Não é ele que adora o teu cabelo comprido?
-Sim, mas decidi variar. Quando estive grávida do Kenji, sabe-se lá como, o meu cabelo cresceu mais depressa do que devia, lembram-se?
-Claro, até chegava à porta do quarto. O Edward ficou parvo a olhar para tanto cabelo cor-de-rosa. Parecia que estava no paraíso. – Disse Hotaru, cruzando os braços.
-Acho que isso foi mais porque eu tinha acabado de dar à luz o filho dele.
-Ambos os motivos. – Disseram Misaki e Hotaru em uníssono.
As três riram-se, enquanto o pequeno Kenji olhava para Cecília, como se ela se tratasse de um brinquedo novo.
A certa altura, Misaki parou de rir. Olhava para trás de Usagi e Hotaru, chocada.
-Olhem! – Disse ela, os seus olhos bem abertos. As outras duas viraram-se, mas apenas Usagi entendeu. Ao olhar para a amiga, foi apenas necessário um aceno de cabeça para tomarem uma decisão.
-Hotaru tomas conta do Kenji e da Cecília, por favor? – Perguntou Usagi, pondo a mão de Hotaru no carrinho, enquanto Misaki entregava o rapazinho aos braços da mais velha, que o recebeu confusa.
-Mas o que vão fazer?
Mas as outras duas já não ouviam. Corriam atrás de um vulto que Misaki tinha visto no parque prestes a atravessar a passadeira. Estavam quase lá.
-Hei tu! – Chamou Misaki. O vulto – uma jovem – não se virou. – Como a chamo?
-Pelo nome, como é óbvio! – Respondeu a amiga, já ofegante com a corrida. Grávidas não podem fazer esforços daqueles. De repente, parou - Desisto! JULIANNA! – Berrou, a sua voz ecoando por todo o parque. Desta vez, a rapariga virou-se, surpreendida.
As duas mulheres chegaram-se perto dela, ainda a ofegar:
-E dizia a minha sogra que eu não precisava de ir ao ginásio! – Lamentou-se Misaki, pondo a mão na anca, a fim de se apoiar. Usagi inspirava e expirava lentamente, tentando recuperar o fôlego. Ambas faziam uma figura tão cómica que Julianna teve que fazer um tremendo esforço para não se rir.
-Oh, pelos deuses! – Misaki virou-se para a amiga, preocupada. – Não podes fazer esforços.
Usagi semicerrou os olhos.
-Obrigada por teres notado nisso… após eu já ter feito os esforços.
-Ainda não me acostumei à ideia de que…
-desculpem! – Interrompeu a jovem loira. – Mas quem são vocês? E como sabem o meu nome?
Misaki olhou instintivamente para Usagi, que aproveitou a deixa para falar:
-A minha mãe é a Usagi Tsukino. Sabes, a amiga da tua mãe? Aiko Nakamura?
-Oh sim! – Disse Julianna, recordando-se da estranha amiga da mãe – ela falou-me de ti. Usagi, não é?
-Hum hum. Esta é a Misaki Andou. De casamento, Tamura.
-Vamos poupar os detalhes Usagi! – Retorquiu Misaki, olhando por cima do ombro. Hotaru estava sentada num banco com Kenji num lado e o carrinho do outro. Virou-se e encontrou os olhos de Julianna. – Tu por acaso lembras-te de nós?
Julianna pareceu reflectir por uns momentos, até que disse:
-Sim. Há cinco anos. Lembro-me por causa do cabelo dela – apontou para Usagi, que revirou os olhos ao comentário.
De súbito a cara de Julianna assumiu uma expressão sombria. – Por acaso sabem…
-Sabemos. – Cortou Usagi, ciente do novo tema de conversa. – E queríamos falar disso contigo. – Suspirou e olhou para trás, para ter a certeza de que os três estavam bem – mas temos tempo. Vem connosco! – Ofereceu a sua mão, que foi recebida por Julianna. Esta sorriu e foi com elas para junto de Hotaru, que parecia impaciente.
No meio do caminho, Usagi não pôde deixar de notar na saliente barriga da rapariga. Segundo a sua mãe, Julianna estava grávida de oito meses e era solteira, apesar do namorado estar presente. Mãe aos dezassete, pensou Usagi para os seus botões. O que era uma pena, considerando que a rapariga era bem bonita.
-Bem, esta é a Hotaru. Hotaru, esta é a Julianna Nakamura. – Apresentou Misaki, vendo que a amiga estava de novo ‘perdida em pensamentos’. O seu sorriso cordial perdeu-se um pouco ao ver que Hotaru olha estupefacta para Julianna. Mordeu o lábio, incomodada e Usagi sabia que ela se lembrava do dia em que ela própria conhecera Hotaru. Esta fizera uma cara semelhante ao vê-la. E as razões eram extremamente óbvias.
-Prazer. – Cumprimentou Hotaru, com um leve abanão de cabeça. Um pesado silêncio instalou-se entre as quatro mulheres que foi apenas quebrado com o leve choro da pequenina. Misaki chegou-se perto do carrinho e pegou na filha com o máximo de cuidado, como quem pega numa peça de porcelana e abanou-a levemente. A bebé chorou um pouco até que começou a acalmar. Julianna sorriu perante tal visão:
-Tem uma filha lindíssima. – Comentou. – Como se chama?
-Cecília. Nasceu na semana passada, dia catorze.
-No São Valentim? Que pontaria!
-Mesmo... – Misaki viu que a bebé voltara a adormecer e voltou a pousá-la no carrinho, beijando as faces rosadas e as mãozinhas pequenininhas dela com ternura. Kenji olhava para dentro do carrinho, ainda maravilhado com o pequeno exemplar humano presente ali no meio. Inclinou-se um pouco mais, o seu nariz quase a tocar no da pequenina e aí a própria mãe o afastou:
-Este é o meu filho, o Kenji.
-É um lindo rapaz. – Disse Julianna, sinceramente.
-É. Faz quatro em Abril e vai dar muito trabalho às meninas no futuro, tal como o pai.
-És sempre a mesma. – Disse Hotaru, revirando os olhos. – Achas mal o miúdo estar mais ligado a ti do que ao pai, mas também achas que as únicas semelhanças que o pobre miúdo possa vir a ter do pai (com a tua influência chega a ser difícil o Edward sequer pegar na criança…; - Hei!) não devia ser o aspecto nem a personalidade.
-Dele apenas quero o bom humor e a inteligência. O resto pode ser tudo meu.
-Pobre criança que terá o teu temperamento…
Julianna riu-se, o seu riso natural espalhando-se pelo ar do parque já vazio em meados de Fevereiro. Sentou-se ao lado de Misaki e Hotaru no banco, ficando Usagi de pé, a segurar o filho traquina, que queria ir observar a bebé no carrinho. Farta dos empurrões, Usagi largou-o e deixou-o espreitar para o carrinho. Mas Kenji depressa encontrou outro novo interesse. Julianna olhara para Cecília sonhadora, a sua mão viajando involuntariamente para o ventre, massajando-o suavemente. O pequeno notou na grande barriga da rapariga e, curioso, aproximou-se ficando a olhar para a barriga atentamente, como que esperando que algo fosse acontecer. Julianna olhou para as outras, sem saber o que fazer. Usagi clareou a garganta:
-Kenji, que estás a fazer?
-Bebe?
-Sim, tem aí um bebé. Tal como a Cecília.
-Cessiliie bebe. Mana Li!
As quatro mulheres sorriram.
-Sim, um bebé como a Cecília e a tua maninha que ainda não nasceu. Mas vai ficar tão grande quando a Cecília e… - Aí, Usagi olhou para Julianna. – É um rapaz ou uma rapariga?
-Não sei. – Respondeu a loira, encolhendo os ombros – pedi à minha mãe para não me dizer.
-Mas o que achas que é? – Perguntou Misaki, apesar de tanto ela como Usagi e Hotaru saberem o que viria aí. Não podia ser coincidência Usagi estar grávida numa menina, na mesma altura em que Misaki dá à luz outra e Julianna também estava de esperanças. Não com o passado que as três partilhavam.
-munina bunita cmu a mama dela – respondeu Kenji, a sua mãozinha sobre o tecido negro que cobria o ventre de Julianna. Esta, meia estupefacta, meio sorridente, ficou sem palavras. Misaki e Hotaru entreolharam-se e Usagi passou a mão pelo cabelo.
-Tal pai, tal filho – sussurrou ela, tendo sido ouvida apenas por Hotaru. Em seguida, as quatro mulheres riram-se durante uns bons momentos. Momentos únicos que jamais se repetiriam. Momentos assombrados por uma nuvem negra que tirou o sorriso a Usagi, a vida a Julianna e a estabilidade a Misaki e prometia assombrar também a vida das duas meninas ainda por nascerem, a pequena recém-nascida e até o pequeno rapaz que sensibilizada as adultas pela sua forma de falar.
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[2] De acordo com o manga, o nome dela é Usagi Tsukino, como a mãe, mas tenho problemas com esse detalhe. Prefiro que ela tenha o nome do pai.
[3] Usagi = coelho xDD
[4] Mal sabia ela que o próprio filho seguiria as pisadas do pai
[5] Fica já dito para não terem dúvidas. A Hotaru tem trintas, assim como o namorado dela. O Hiróito também anda por aí. (é doze anos mais velho que Misaki). Já o Edward, a Dawson, a Usagi e a Misaki têm a mesma idade (apesar da Dawson ser a mais velha dos quatro).
Duas horas depois de o soar dos relógios de Tokyo, o dia tinha começado para Linda Natsumara. Um dia que não era o dela…
**
Ela subiu as escadas de mármore apressadamente. Já estava atrasada. Amaldiçoou o trânsito que a impediu de chegar cedo, pouco antes de atravessar a porta central da faculdade. Um funcionário limpava o chão alheadamente com a esfregona, deixando-o brilhante e húmido. Ela, de tão apressada que estava, nem prestou atenção a esse detalhe, escorregando.
A queda foi forte. Mas mais forte ainda foi a queda do seu ego quando ouviu um familiar riso masculino à sua frente.
Oh não. Ele não!
-Grande queda, hã Chiba [2]? – Gozou o rapaz loiro que estava mesmo à sua frente, gozando o melhor momento da sua vida.
-Vai ver se eu estou na esquina! – Retorquiu ela, erguendo-se do chão duro e molhado.
-Porque é que achas que eu estou aqui? Vim saber por onde andavas.
-Que querido… - murmurou ela, com sarcasmo profundo. – Não devias estar nas aulas?
-Sabes muito bem como as aulas não funcionam bem sem ti, coelhinha!
-Não me chames coelhinha! – Reclamou ela, elevando o tom de voz. O rapaz parecia já estar à espera disso, pois o seu sorriso não diminuiu nem um pouco. Foi aí que ele notou em algo.
-Ora essa… foste ao corte!
-Vai bugiar.
-A sério… Que fizeste aos totós?
Ela desviou o rosto, incomodada. Foi aí que se lembrou que estava atrasada para a aula.
-Oh raios partam. Já estou atrasada.
-Para não variar. – Murmurou ele, e braços cruzados e um sorriso trocista. Ela ignorou-o e correu para a sala de aula, onde o professor circulava por volta das mesas, onde vários estudantes pintavam uma simples jarra vermelha.
-Peço desculpa pelo atraso, senhor Sagahara.
O professor sorriu e, com um leve aceno de cabeça, mandou-a entrar. Mal ela pôs os pés dento da sala de aula, o rapaz entrou a seguir.
-Desculpe o atraso, professor.
-Que não se volte a repetir, senhor Natsumara. – Reprimiu o professor, com os seus cabelos loiros já a mostrar algumas brancas.
Edward sorriu e sentou-se ao lado de um ruivo, mesmo atrás da rapariga, que estava a lado de uma morena.
A turma continuou a aula, desejando vários objectos inanimados com caras e outros detalhes que não se costuma ver na vida real. Detalhes da imaginação, que varia em cada um.
A certa altura, um papel voou para a carteira da rapariga. Foi a morena que o apanhou:
-Usagi, o Edward ‘tá-te a mandar papéis.
-Diz-lhe para ele os enfiar no…
-Vá lá responde-lhe! Olha que ele apenas tem boas intenções.
Usagi suspirou pesadamente, não tirando os olhos do seu desenho.
-Não tenho paciência. Ele tira-me do sério.
A morena sorriu amavelmente. Outro papel voou para a carteira das duas.
-Olha-me este… - reclamou Usagi.
-Ao menos vê os papéis. – Sugeriu a morena, voltando-se para o seu desenho.
Usagi, rendida, pegou no primeiro papel, enquanto a morena chegou-se perto dela para ver o desenho.
O papel de linhas mostrava um coelho cor-de-rosa a saltitar em campos verdes cheios de cenouras intocadas pelo animal. O coelho tinha olhos vermelhos e uma cara aterradora, com os bigodes transfigurados, os olhos tortos, o focinho laranja em vez de vermelho, as orelhas no ar, todas tortas e tinha uns dentes amarelos que mais lhe davam um ar de Frankenstein do que um coelho da Páscoa.
Por cima, uma ‘legenda’: É o que dá a Coelha [2] não comer verduras.
Usagi sentiu o sangue a subir-lhe à cabeça de tanta raiva que sentia. Já a morena não aguentou. O som das suas gargalhadas ecoou por toda a sala, atraindo a atenção de toda a turma e do professor:
-Passa-se alguma coisa, menina Andou? – Perguntou o professor Kentaro, aproximando-se da mesa das raparigas. Usagi escondeu o papel rapidamente, enquanto a morena ficou vermelha de vergonha.
-Ah... nada professor. Foi apenas um detalhe do desenho da Usagi que me fez rir.
Tentando parecer que a história da colega era verdadeira, Usagi pegou na borracha e apagou uma linha pouco importante do seu desenho.
Kentaro não pareceu acreditar na história da rapariga, pois os seus olhos saltaram de Usagi para Edward, que sorria descontraidamente na mesa de trás, como se nada daquilo tivesse a ver com ele. Sem provas do contrário, Kentaro desistiu:
-Não se descuidem. A arte é uma coisa séria! Desenhem linhas rectas em várias direcções, juntem isso aos círculos, formem um objecto por via abstracta. Pela vossa via abstracta.
E continuou a circular pela sala, enquanto Usagi deitava um olhar furioso no colega. Já a morena começava a perder o rubor na face:
-É bem-feita Misaki. Para a próxima, não gozas comigo – sussurrou Usagi.
-Que queres? Tem piada. Dá-lhe uma oportunidade.
-NUNCA! – Silvou furiosamente a outra, os olhos bem abertos. – Se quiseres fica tu com ele.
Misaki sorriu.
-Acredita que há muitas aqui que bem gostariam de ficar com ele. Mas o Eddie só tem olhos para ti.
-Eddie? Por favor, não me digas que já o tratas dessa forma.
-Eu não o trato dessa forma.
Usagi semicerrou os olhos. Misaki soltou uma silenciosa gargalhada.
-Ele pede para ser tratado assim, que quereres…
-Ele também pede a todos para me tratarem por ‘coelha’ e não me vais dizer que eu tenho que concordar com isso.
-Usa, mas tu és coelha. Tanto pelo nome como pelo penteado… por falar nisso. – Misaki olhou para o penteado da amiga, como se o visse pela primeira vez. – O que raio fizeste ao cabelo?
-Cortei-o.
-Novidade. Mas porquê? Tinhas um cabelo tão bonito.
Usagi mordeu o lábio, ponderando na resposta.
-Não sei porque te importas. Até parece que não cresce de novo. Aliás, na minha família os cabelos crescem bem depressa. Há alturas em que a minha mãe mais parece a Rapunzel do que outra coisa.
-E o teu cabelo está todo encaracolado porquê?
Usagi ergueu o sobrolho, como se lhe tivessem perguntado se dois mais dois eram igual a quatro.
-Porque é assim, ora essa. Se eu retirar os odangos, o meu cabelo é encaracolado. Nem sei onde fui buscar isso, os meus pais têm cabelos lisos.
-Ainda assim não estou a ver porquê é que o cortaste. – Comentou a morena, desenhando uns lábios grossos na sua jarra.
Usagi ia responder, mas Misaki foi mais rápida.
-Não queres é que o Eddie goze com o teu penteado, é isso?
-Hum hum… - confirmou ela, traçando umas linhas a negro no seu desenho, que começava a ter uma forma rectângula, apesar de a jarra ser circular. - Até queria pintar de ruivo, mas a minha mãe disse que me deserdava se o fizesse. Pedi ajuda ao meu pai e ele, não só concordou com a mãe, como disse que ele próprio me voltava a pintar o cabelo, desta vez com um rosa mais forte.
-Coitada. Os teus pais têm um grande amor ao teu cabelo…
-Não é amor. Apenas acham que eu não devia ir abaixo com bocas foleiras. E é verdade! Nunca fui.
-Até que conheceste o Eddie… – Murmurou Misaki, sem tirar os olhos do desenho. Pelo canto do olho, viu que a amiga voltara a semicerrar os olhos com força, sinal que ficou ‘ofendida’ com o comentário. No entanto, não respondeu à provocação.
-Pára quieta!
-Só tu para estares a desenhar a esta hora do dia. – Reclamou Misaki, mexendo as pernas estendidas na relva verde. Estavam as duas sentadas no pequeno parque em frente ao Pólo Universitário e Usagi desenhava a amiga a carvão, com o bloco por cima das suas pernas cruzadas. – E ainda por cima a mim.
-És uma boa modelo. – Respondeu a outra alheadamente, sem tirar os olhos do desenho – não mexas o queixo!
Misaki suspirou, enquanto observava a paisagem. O sol ia alto, sinal de que o meio-dia já tinha chegado. Tinham estado no parque cerca de duas horas.
-Amanhã queres sair? – Perguntou Usagi.
-Sair aonde?
-Ao shopping. A Hotaru vem connosco.
-Não achas estranho a tua melhor amiga ter quase o dobro da tua idade?
-Até podia. – Mudou de posição, ficando mais próxima da companheira. Ergueu o lápis, de modo a ter uma percepção da escala do queixo e prosseguiu o seu trabalho. – Mas já estou demasiado habituada para reclamar.
-Quem vai mais?
-O Benjamin, a Guinevere e o Edward.
Misaki ergueu o sobrolho, divertida.
-Três ingleses?
-Yup. O Benjamin é o namorado da Hotaru, o Edward o melhor amigo dele, a Guinevere…- Aí, Usagi hesitou, voltando a sua atenção para o desenho, fingindo que nada se passara.
-Que tem ela? – Perguntou Misaki, curiosa. Mexeu-se um pouco, querendo descansar os músculos.
Usagi parou de desenhar e fitou a amiga. Havia algo de sombrio nos seus olhos vermelhos:
-Ela é estranha. Tem qualquer coisa nela que…
-Que o quê?
Tal pergunta funcionou como estimulo para Usagi, que ‘acordou’ do seu transe.
-Nada. Não se passa nada.
-Não foi essa a minha pergunta. – Misaki levantou-se e sentou-se junto da colega. – O que é que ela tem?
Usagi olhou nos olhos da amiga e reflectiu. As suas suspeitas não eram daquelas que se contassem a qualquer um. Principalmente a Misaki, que nada tinha a ver com aquilo.
-Ela prefere que a tratemos pelo apelido. – Respondeu por fim. Misaki percebeu que estava tudo dito naquele momento e decidiu não insistir. Mas a curiosidade que sentia era demasiado forte para ser ignorada:
-Qual apelido?
-Dawson.
Ao longe, ouviu-se um assobio. Edward passava descontraidamente pelas ruas com um braço a segurar cadernos e um grande livro, o outro no bolso.
As duas raparigas olharam para ele curiosamente. Usagi bufou de impaciência e voltou ao seu desenho, mas estava tão desconcentrada que não conseguia acertar em nenhuma linha. Misaki viu Edward entrar na porta central da faculdade cujo nome ela não conseguia ler dali.
-O que está ele ali a fazer? – Perguntou à colega, sem tirar os olhos da entrada.
-A estudar. Não sei como, mas ele está a tirar Artes e Relações Públicas ao mesmo tempo.
Misaki piscou os olhos, surpreendida.
-Como é que é possível. Nós já nos vimos lixadas para lidar com um único curso e ele ainda consegue tirar dois?
-Pelo que ouvi dizer, ele não tem as cadeias todas nesse curso e no de Artes também. Explica como é que ele consegue comer e dormir.
-Uau, ele deve ser o Super-Homem ou algo do género.
-Nem uma coisa nem outra. – Usagi levantou os olhos do bloco para a entrada. Sorriu maliciosamente e depois levantou-se, sacudindo as roupas.
-Onde vais? – Perguntou Misaki, levantando-se também.
-O inglês deu-me cabo da aula, então eu também vou dar cabo da dele. – E correu para a entrada, seguida pela morena, que a chamava atrás.
Percorreu os corredores do instituto até encontrar uma porta aberta, que mostrava um auditório com, pelo menos, uma centena de estudantes, Edward incluído. O professor citava um livro e, de vez em quando, virava costas para escrever algumas frases no quadro. Usagi sorriu e entrou sorrateiramente, passando despercebida.
-Usa, que vais fazer? – Sussurrou Misaki da soleira da porta. Usagi pôs o dedo nos lábios e prosseguiu até às carteiras dianteiras, onde se encontrava o loiro inglês. Ninguém notou na jovem de cabelos cor-de-rosa a rastejar por entre mesas até que parou junto de um estudante que apontava tudo aquilo que o professor dizia, apesar de os seus olhos estarem vidrados do sermão cansativo do homem. Do outro lado, Misaki estava tão nervosa que começou a roer as unhas.
Ela estava agora junto à cadeira dele e ia anunciar a sua presença quando ele a viu. Os seus olhos castanhos brilhantes abriram-se em surpresa:
-Coelhinha! – Gritou ele, atraindo a atenção dos outros, incluindo o professor. Alguns alunos notaram na rapariga e começaram a sussurrar, sem no entanto a denunciar. No seu esconderijo, Usagi ficou vermelha que nem um tomate.
O professor ergueu o queixo, perguntando silenciosamente o que se passava. Edward fingiu-se atrapalhado e envergonhado e pediu ao professor que continuasse a lição. Este semicerrou os olhos, mas acabou por prosseguir a aula. A atenção da turma estava agora centrada tanto no professor, como em Edward que se sentara no chão, junto a Usagi. Esta fitava-o furiosa. Grande mentiroso, pensava. Ela nunca conseguira mentir daquela forma. O pai apanhava-a por mais que tentasse e isso fez com que ela deixasse eventualmente de mentir. Agora nem para salvar a vida conseguia enganar os outros. Mas claro que Edward não tinha problemas com isso.
-Parvo! Tens que chamar as atenções? – Sussurrou ela furiosamente. Ele esboçou um sorriso, que se estendeu até às orelhas.
-Oh Coelhinha. Vieste visitar-me? Que querida!
-Não gozes. Vim aqui humilhar-te.
Edward ergueu o sobrolho, ao mesmo tempo que se acomodava, cruzando uma perna junto ao tronco e deixando a outra esticada.
-Ai sim? E como isso está a correr? – Perguntou, o com o seu sorriso mais sedutor. Usagi perdeu a voz. De facto, era suposto ela estar a humilhá-lo, mas acabara por ser o contrário. É sempre o contrário, pensou para a sua consciência.
-Eu…
-Admite que vieste cá só para me ver.
Ela corou violentamente.
-Nunca!
-Shh. – Ordenou alguém nas carteiras de frente, provocando um pequeno salto nos dois, que bateram com as cabeças na mesa, apanhados de surpresa. Usaram todas as suas forças para não gritarem de dor. Os outros de trás riram-se silenciosamente. Ele passou a mão pelo sítio onde batera e, ignorando a dor, aproximou-se mais dela.
-Admite. – Ordenou ele, sussurrando na orelha dela.
-Para isso tens que parar de me chatear para o resto da tua vida.
-Lamento, mas não posso fazer isso.
Ela ergueu o sobrolho, irritada.
-Porquê? Divertes-te assim tanto?
Ele sorriu amavelmente, deixando-a desconfortável.
-Um pouco. Mas também não posso ignorar os meus desejos.
Ela sentiu um rubor nas bochechas e de repente desejou ter apanhado o cabelo, devido ao calor que sentia.
-Aí sim? E o que desejas neste momento?
Ele não respondeu logo. Invés disso fitou-a. Os olhos cor de brandy brilhavam como pequenos sois, destacando-os naquele rosto atraente. Usagi tinha que admitir, mas Edward Natsumara era um pedaço de mau caminho. Corpo esbelto, olhos expressivos, feições angelicais e voz sedutora, para além de se engraçado, esperto e bem fácil de conversar.
Agora que se recordava, ela não tinha nenhum motivo sério para vir, a não ser vê-lo. Tinha que admitir. Ela queria vê-lo.
-O que mais desejo neste momento… - sussurrou ele, tão baixo que ela mal ouviu. – É beijar esses lábios que nunca estão selados.
Ela não o impediu de se aproximar, os seus lábios prontos a roçar nos dela.
-E como eu estava a dizer… - A voz do professor aumentou o tom. Um aluno tinha-lhe posto uma dúvida e, após esclarecida, estava pronto para continuar a lição. Mas falara tão depressa que assustara os dois jovens debaixo da mesa, que se separaram antes que os lábios tivessem o prazer de se unirem. Ele, pela primeira vez, parecia embaraçado. Levantou-se e sentou-se na sua cadeira, tentando apontar aquilo que o professor dizia. Usagi, incapaz de dizer alguma coisa, afastou-se dele e saiu da sala tão sorrateiramente quanto entrara.
Ao chegar à porta, pensou naquilo que sentira. Estivera quase lá… quase lá. Raios partam o professor que o impedira de a beijar. Mas também… quereria ela que ele a beijasse? Talvez... ou melhor, sim. Ela queria que ele a beijasse. Podia não suportar estar ao lado dele, mas não podia negar a atracção que sentia.
Raios partam, amaldiçoou. Era mesmo pouca sorte. Estava tão perto. Oxalá mais nenhuma rapariga passasse por esta ansiedade de receber um beijo de um homem, para que depois este nunca se concretizasse. [4]
Procurou por Misaki, que não estava na porta e foi encontrá-la encostada à parede, com um homem a dar-lhe um sermão. Um professor da faculdade.
Aflita, Usagi correu em socorro da amiga.
-Peço desculpa, senhor, mas é que nós… - parou quando o homem se virou para ela. Conhecê-lo-ia em qualquer lado. – Hiróito?
O homem olhou-a desconfiado. Quando finalmente a reconheceu, sorriu.
-Olá Usagi. Penso que é esse o teu nome. – Acrescentou, um pouco confuso.
-E é. – Usagi soltou uma gargalhada, aliviada. Afinal não estavam em tantos sarilhos como imaginavam. Atrás do homem, Misaki fitava-a aterrorizada. – Misaki, este é um amigo do Benjamim, Hiróito Tamura.
-Ela é tua amiga? – Perguntou Hiróito, olhando para a morena com os seus olhos castanhos escondidos atrás de óculos rectangulares, que corava um pouco.
-Sim, chama-se Misaki Andou.
-Prazer. – Cumprimentou a morena. – Como o conheces?
-Como ouviste, é um amigo do Benjamin e foi assim que nos conhecemos. És professor cá?
-Não, mas tenho uma colega que o é. Vim cá deixar-lhe um recado. Eu trabalho o na faculdade de Arquitectura, como professor.
-O que dá? – Perguntou Misaki, sempre curiosa.
-História da Arquitectura Antiga. Não é a cadeia mais famosa, mas tenho sempre bons alunos. Mas estamos a mudar de assunto. Que fazem as duas aqui?
Usagi e Misaki entreolharam-se, atrapalhadas.
-Viemos… ver o Eddie. – Disse Misaki, apanhando a amiga de surpresa ao contar a verdade.
-O Edward? Mas ele não está em aula? – Hiróito deitou um olhar na sala por onde Usagi tinha saído, desconfiado. Esta corou e nada disse, não confiando em si própria para responder. – É melhor vocês irem. – Sugeriu ele, ao ver o modo como as duas estavam.
-Ah… nos vemos no sábado? Digo, nós vamos sair… – Perguntou Usagi.
-Eu sei, o Ben convidou-me. Mas não sei, tenho muito que fazer.
-Espero que vás. És sempre melhor companhia que outras pessoas… - Murmurou Usagi entre dentes. Misaki perguntou-se de quem ela falaria.
-Talvez. E vais só tu? Não ficas desconfortável?
-Porque ficaria?
-Porque és a única com dezanove ali no meio. [5]
-A Guinevere também vai. E a Misaki… - Usagi virou-se para a amiga. – Não me chegaste a dizer se vinhas ou não.
Os olhos dourados da morena saltaram da amiga para Hiróito, que a fitava atentamente. Suspirando levemente, respondeu:
-Vou sim. Penso que será divertido.
Usagi e Hiróito sorriam.
-Excelente! Sendo assim, Hiróito és o único que não vai e isso seria mau. Vê se te decides.
Ele suspirou.
-Vou ver o que posso fazer. É melhor vocês irem. Adeus e até à próxima. Espero não vos voltar a ver aqui – Despediu-se virando a esquina. As duas jovens seguiram a direcção contrária, para a porta central. Ao atravessarem o parque, foram falando dos detalhes da noite que viria aí, e do encontro de Edward com Usagi. Esta falara no ‘quase-beijo’, mas não se atreveu a revelar detalhes. Sabia que Misaki ainda não compreenderia o que se passava. Aliás, só a sua mãe e Hotaru é que a entendiam nestes assuntos.
Chegaram à sua faculdade, onde Misaki se lembrou de uma dúvida que tinha para falar com Kentaro. Aproximaram-se da sala onde sabiam que ele tivera aula cinco minutos antes e espreitaram pela porta. Dentro, Kentaro falava com um grupo de adolescentes, que não devia ter mais do que doze anos, apesar dos exagerados tamanhos dos rapazes. O mais alto, filho do professor falava com o pai alegremente, enquanto os amigos escutavam, alguns com interesse, outros a contar os minutos para sair dali. Por vezes Kentaro falava para os outros dois rapazes ou para as duas raparigas do grupo, que sorriam timidamente e respondiam em sussurros.
Ao ver as suas estudantes na entrada, Kentaro tratou-se de se despedir do filho e dos amigos dele. Estes abriram a porta e saíram, obrigando as mais velhas a afastarem-se para eles terem caminho. Iam elas a entrar quando, de súbito, uma corrente de electricidade percorreu o corpo das duas. Deixaram-se ficar no mesmo sítio, enquanto Usagi tentava identificar a fonte. Ao olhar para o grupo dos jovens, as energias aumentaram. A fonte vinha dali. Quando uma das raparigas parou e se virou para elas, elas sabiam que ela também sentira o mesmo. A rapariga, com os seus cabelos loiros soltos até aos cotovelos, olhava aterrorizada para elas, como se não conseguisse explicar o que acontecera. Misaki tinha um semblante parecido. Apenas Usagi tinha uma pequena ideia do que acontecera. Não pode ser, não é possível…
-Hei Ju! Vens ou não? – Perguntou o filho do professor Kentaro, chamando a amiga de longe. Esta acordou do transe e tratou de seguir os companheiros, deixando Usagi e Misaki a olhar para a porta por onde ela saíra, estáticas.
Que tinha acontecido. Porque raio tinham elas sentido aquela sensação de… conforto? Quem seria aquela rapariga?
-O que aconteceu? – Perguntou Misaki num sussurro, ecoando uma das outras perguntas de Usagi. Ao olhar para a amiga, percebeu que tinha muito que lhe explicar.
**
Linda sentiu o sono a desaparecer, mas não se deixou acordar. Com o controlo total da mente, tentou descansar a mente depois de tão exaustivo sonho. No entanto, ainda vinha mais. Não sabendo ela ignorar tais sonhos, a única coisa que pôde fazer era deixar-se levar…
**
No parque no centro de Tokyo, Hotaru suspira impacientemente, com as mãos nos bolsos. Ao seu lado, Usagi não desviava os olhos da pequena criança loira que brincava na caixa de areia do parque, divertido com o seu barquito vermelho.
-Quando é que a Misaki disse que vinha? – Perguntou Hotaru. Usagi encolheu os ombros.
-Ás três. – Respondeu.
-Já são três e meia.
Usagi sorriu.
-Já aturas os meus atrasos desde que eu nasci, mas ainda assim não toleras que a Misaki se demore.
-Não quando eu tenho coisas para fazer…
Usagi abanou a cabeça.
-És sempre a mesma. KENJI, NÃO COMAS ISSO! – Gritou para o menino, que deixou cair o pedaço que terra que ia pôr na boca. Ao ouvir o tom irritado da mãe, começou a soluçar. Esta apressou-se a pega-lo ao colo.
-Oh querido. Pronto, não chores.
-Decupa mama - disse o pequenino por entre pequenas lágrimas que caíam dos seus grandes olhos azuis-escuros brilhantes pelas suas bochechinhas rechonchudas. A mãe sorriu. Como poderia ela resistir a aquela linda criança?
-Pronto, pronto. Está tudo bem. Mas ficas a saber que não podes comer o que vem do chão. Faz-te mal e tu não queres ficar doente, pois não Kenji?
O pequeno abanou a cabeça em resposta. Vendo que a mãe já não estava zangada, tentou libertar-se, a fim de pegar no seu barquito. A mãe largou-o no chão e ele andou a curta distância até à caixa de areia, onde o seu barquito esperava por ele, semienterrado na areia.
-E pensar que crescem tão depressa. – Comentou Hotaru, ao ver o brilho nos olhos da amiga. Esta, automaticamente, pôs a mão no ventre, onde ela sabia que uma menina se formava. Tanto ela tinha insistido ao marido em descobrir o sexo desta criança. Mais porque ela não queria esperar os nove meses da gravidez, tal como fora com o primeiro filho. Dizia o seu pai “que a filha dera em louca de tanta curiosidade”. E agora ela sabia. Uma menina. A menina que ela sonhava ter desde pequenina, tal como a sua mãe. A sua pequena Linda.
Ao longe, surgiu uma mulher morena, a empurrar um carrinho de bebé. Ela sorriu ao ver as amigas:
-Bom dia.
Usagi abraçou a amiga, que retribuiu o gesto.
-Oh, Misaki, que saudades.
-O mesmo digo-te eu. – Soltaram-se e Misaki abraçou também Hotaru. Ao longo do tempo, tinham-se tornado grandes amigas, e mais devido ao facto de partilharem a mesma melhor amiga. – Que bom voltar a ver-te Hotaru.
-É. Já se fazem uns meses. – Hotaru lançou um olhar para o carrinho, onde uma recém-nascida repousava, as suas bochechas ainda cor-de-rosa. – É esta a tua filha?
-É. Esta é a Cecília. – Respondeu Misaki, orgulhosa. – E onde está o Kenji?
-Está ali. – Usagi aproximou-se do pequeno e, beijando-lhe a face, disse: - Anda ver a tia Misaki.
-Hu? – Disse Kenji, completamente alheio ao que a mãe disse.
-Eu disse, anda ver a tia Misaki. Ela vem com a filha, a pequena Cecília.
-Ce..sis.s.
-Cecília – repetiu a mãe, sorrindo para as tentativas do filho em dizer o nome da bebé. -Cessiliie. – Disse o pequeno e, acreditando ter falado correctamente, sorriu todo confiante para a mãe, que soltou uma gargalhada, que se espalhou pelas outras adultas.
-Cecily? Gosto do nome. – Comentou Misaki, deitando um olhar na filha, ainda adormecida no meio de cobertores cor-de-rosa.
-Não me digas que vais passar a chamar isso à miúda?
-Quanto apostas? Foi o Hiróito que escolheu o nome. Eu escolho a forma como ela é tratada.
Usagi, ignorando as pequenas birras do filho, pegou-lhe ao colo e levou-o para junto as amigas.
-Estás a ver? – Perguntou ao filho, olhando tanto para ele como para a pequena. – Esta é a Cecília. Pode vir a ser tua amiga e amiga da tua irmã.
-Mana? Mana Li! – Gritou o pequeno, contente por falarem de algo que ele já sabia. Afinal, os pais fartavam-se de falar na sua maninha que chegaria dentro de cinco meses.
-Mana Li? – Perguntou Misaki. – Como assim?
-Sabes como ela é maluca pelas histórias da Linda O’Connell. Quer dar o nome da escritora à filha. – Respondeu Hotaru, provocando uma careta na amiga.
-Mas que maluca mesmo! O Eddie deixa-te?
-Ele tem muito que reclamar. Sou eu que os carrego durante os nove meses, não tem nada de que queixar.
-Oxalá tivesse feito o mesmo. Mas como a Cecília nasceu com pouco do Hiróito, achei melhor dar-lhe alguma alegria.
-A miúda não tem nada dele?
-Não sei. Pode ter os olhos. Mas ainda estão azuis. Temos que esperar para ver. De resto, ela é a minha cara.
-Dá para ver. – Comentou Usagi, olhando para a pequenina, que agora bocejava, colocando o pequeno punho cor-de-rosa na boca e, em seguida, chuchou o dedo.
-É tão adorável.
-É. Posso segurar no teu menino? – Perguntou Misaki, abrindo os braços para o rapaz. Este olhou-a desconfiado e abanou a cabeça para a mãe.
-Não sejas tão desconfiado. A Misaki não te faz mal. – Usagi passou o filho para os braços da morena, que o recebeu um pouco mal.
-Caramba, está crescido. – Comentou, enquanto o segurava firmemente. – E está tão parecido com o Edward e com o teu pai.
-Como será isso possível? – Murmurou Hotaru.
-Pela mesma forma que os meus pais são loiros e morenos e eu tenha cabelos rosa.
-Que voltaste a cortar, pelo que estou a ver.
-Oh Misaki, só tu para notares nisso. Fora tu, apenas o Edward repara.
-Não é ele que adora o teu cabelo comprido?
-Sim, mas decidi variar. Quando estive grávida do Kenji, sabe-se lá como, o meu cabelo cresceu mais depressa do que devia, lembram-se?
-Claro, até chegava à porta do quarto. O Edward ficou parvo a olhar para tanto cabelo cor-de-rosa. Parecia que estava no paraíso. – Disse Hotaru, cruzando os braços.
-Acho que isso foi mais porque eu tinha acabado de dar à luz o filho dele.
-Ambos os motivos. – Disseram Misaki e Hotaru em uníssono.
As três riram-se, enquanto o pequeno Kenji olhava para Cecília, como se ela se tratasse de um brinquedo novo.
A certa altura, Misaki parou de rir. Olhava para trás de Usagi e Hotaru, chocada.
-Olhem! – Disse ela, os seus olhos bem abertos. As outras duas viraram-se, mas apenas Usagi entendeu. Ao olhar para a amiga, foi apenas necessário um aceno de cabeça para tomarem uma decisão.
-Hotaru tomas conta do Kenji e da Cecília, por favor? – Perguntou Usagi, pondo a mão de Hotaru no carrinho, enquanto Misaki entregava o rapazinho aos braços da mais velha, que o recebeu confusa.
-Mas o que vão fazer?
Mas as outras duas já não ouviam. Corriam atrás de um vulto que Misaki tinha visto no parque prestes a atravessar a passadeira. Estavam quase lá.
-Hei tu! – Chamou Misaki. O vulto – uma jovem – não se virou. – Como a chamo?
-Pelo nome, como é óbvio! – Respondeu a amiga, já ofegante com a corrida. Grávidas não podem fazer esforços daqueles. De repente, parou - Desisto! JULIANNA! – Berrou, a sua voz ecoando por todo o parque. Desta vez, a rapariga virou-se, surpreendida.
As duas mulheres chegaram-se perto dela, ainda a ofegar:
-E dizia a minha sogra que eu não precisava de ir ao ginásio! – Lamentou-se Misaki, pondo a mão na anca, a fim de se apoiar. Usagi inspirava e expirava lentamente, tentando recuperar o fôlego. Ambas faziam uma figura tão cómica que Julianna teve que fazer um tremendo esforço para não se rir.
-Oh, pelos deuses! – Misaki virou-se para a amiga, preocupada. – Não podes fazer esforços.
Usagi semicerrou os olhos.
-Obrigada por teres notado nisso… após eu já ter feito os esforços.
-Ainda não me acostumei à ideia de que…
-desculpem! – Interrompeu a jovem loira. – Mas quem são vocês? E como sabem o meu nome?
Misaki olhou instintivamente para Usagi, que aproveitou a deixa para falar:
-A minha mãe é a Usagi Tsukino. Sabes, a amiga da tua mãe? Aiko Nakamura?
-Oh sim! – Disse Julianna, recordando-se da estranha amiga da mãe – ela falou-me de ti. Usagi, não é?
-Hum hum. Esta é a Misaki Andou. De casamento, Tamura.
-Vamos poupar os detalhes Usagi! – Retorquiu Misaki, olhando por cima do ombro. Hotaru estava sentada num banco com Kenji num lado e o carrinho do outro. Virou-se e encontrou os olhos de Julianna. – Tu por acaso lembras-te de nós?
Julianna pareceu reflectir por uns momentos, até que disse:
-Sim. Há cinco anos. Lembro-me por causa do cabelo dela – apontou para Usagi, que revirou os olhos ao comentário.
De súbito a cara de Julianna assumiu uma expressão sombria. – Por acaso sabem…
-Sabemos. – Cortou Usagi, ciente do novo tema de conversa. – E queríamos falar disso contigo. – Suspirou e olhou para trás, para ter a certeza de que os três estavam bem – mas temos tempo. Vem connosco! – Ofereceu a sua mão, que foi recebida por Julianna. Esta sorriu e foi com elas para junto de Hotaru, que parecia impaciente.
No meio do caminho, Usagi não pôde deixar de notar na saliente barriga da rapariga. Segundo a sua mãe, Julianna estava grávida de oito meses e era solteira, apesar do namorado estar presente. Mãe aos dezassete, pensou Usagi para os seus botões. O que era uma pena, considerando que a rapariga era bem bonita.
-Bem, esta é a Hotaru. Hotaru, esta é a Julianna Nakamura. – Apresentou Misaki, vendo que a amiga estava de novo ‘perdida em pensamentos’. O seu sorriso cordial perdeu-se um pouco ao ver que Hotaru olha estupefacta para Julianna. Mordeu o lábio, incomodada e Usagi sabia que ela se lembrava do dia em que ela própria conhecera Hotaru. Esta fizera uma cara semelhante ao vê-la. E as razões eram extremamente óbvias.
-Prazer. – Cumprimentou Hotaru, com um leve abanão de cabeça. Um pesado silêncio instalou-se entre as quatro mulheres que foi apenas quebrado com o leve choro da pequenina. Misaki chegou-se perto do carrinho e pegou na filha com o máximo de cuidado, como quem pega numa peça de porcelana e abanou-a levemente. A bebé chorou um pouco até que começou a acalmar. Julianna sorriu perante tal visão:
-Tem uma filha lindíssima. – Comentou. – Como se chama?
-Cecília. Nasceu na semana passada, dia catorze.
-No São Valentim? Que pontaria!
-Mesmo... – Misaki viu que a bebé voltara a adormecer e voltou a pousá-la no carrinho, beijando as faces rosadas e as mãozinhas pequenininhas dela com ternura. Kenji olhava para dentro do carrinho, ainda maravilhado com o pequeno exemplar humano presente ali no meio. Inclinou-se um pouco mais, o seu nariz quase a tocar no da pequenina e aí a própria mãe o afastou:
-Este é o meu filho, o Kenji.
-É um lindo rapaz. – Disse Julianna, sinceramente.
-É. Faz quatro em Abril e vai dar muito trabalho às meninas no futuro, tal como o pai.
-És sempre a mesma. – Disse Hotaru, revirando os olhos. – Achas mal o miúdo estar mais ligado a ti do que ao pai, mas também achas que as únicas semelhanças que o pobre miúdo possa vir a ter do pai (com a tua influência chega a ser difícil o Edward sequer pegar na criança…; - Hei!) não devia ser o aspecto nem a personalidade.
-Dele apenas quero o bom humor e a inteligência. O resto pode ser tudo meu.
-Pobre criança que terá o teu temperamento…
Julianna riu-se, o seu riso natural espalhando-se pelo ar do parque já vazio em meados de Fevereiro. Sentou-se ao lado de Misaki e Hotaru no banco, ficando Usagi de pé, a segurar o filho traquina, que queria ir observar a bebé no carrinho. Farta dos empurrões, Usagi largou-o e deixou-o espreitar para o carrinho. Mas Kenji depressa encontrou outro novo interesse. Julianna olhara para Cecília sonhadora, a sua mão viajando involuntariamente para o ventre, massajando-o suavemente. O pequeno notou na grande barriga da rapariga e, curioso, aproximou-se ficando a olhar para a barriga atentamente, como que esperando que algo fosse acontecer. Julianna olhou para as outras, sem saber o que fazer. Usagi clareou a garganta:
-Kenji, que estás a fazer?
-Bebe?
-Sim, tem aí um bebé. Tal como a Cecília.
-Cessiliie bebe. Mana Li!
As quatro mulheres sorriram.
-Sim, um bebé como a Cecília e a tua maninha que ainda não nasceu. Mas vai ficar tão grande quando a Cecília e… - Aí, Usagi olhou para Julianna. – É um rapaz ou uma rapariga?
-Não sei. – Respondeu a loira, encolhendo os ombros – pedi à minha mãe para não me dizer.
-Mas o que achas que é? – Perguntou Misaki, apesar de tanto ela como Usagi e Hotaru saberem o que viria aí. Não podia ser coincidência Usagi estar grávida numa menina, na mesma altura em que Misaki dá à luz outra e Julianna também estava de esperanças. Não com o passado que as três partilhavam.
-munina bunita cmu a mama dela – respondeu Kenji, a sua mãozinha sobre o tecido negro que cobria o ventre de Julianna. Esta, meia estupefacta, meio sorridente, ficou sem palavras. Misaki e Hotaru entreolharam-se e Usagi passou a mão pelo cabelo.
-Tal pai, tal filho – sussurrou ela, tendo sido ouvida apenas por Hotaru. Em seguida, as quatro mulheres riram-se durante uns bons momentos. Momentos únicos que jamais se repetiriam. Momentos assombrados por uma nuvem negra que tirou o sorriso a Usagi, a vida a Julianna e a estabilidade a Misaki e prometia assombrar também a vida das duas meninas ainda por nascerem, a pequena recém-nascida e até o pequeno rapaz que sensibilizada as adultas pela sua forma de falar.
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[2] De acordo com o manga, o nome dela é Usagi Tsukino, como a mãe, mas tenho problemas com esse detalhe. Prefiro que ela tenha o nome do pai.
[3] Usagi = coelho xDD
[4] Mal sabia ela que o próprio filho seguiria as pisadas do pai

[5] Fica já dito para não terem dúvidas. A Hotaru tem trintas, assim como o namorado dela. O Hiróito também anda por aí. (é doze anos mais velho que Misaki). Já o Edward, a Dawson, a Usagi e a Misaki têm a mesma idade (apesar da Dawson ser a mais velha dos quatro).
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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Claro que Linda não conseguia identificar a nuvem negra. Se tal acontecesse, jamais haveria segredo para descobrir. E assim também seria muito fácil.
Quando se levantou da cama, não pôde deixar de pensar na mãe. Naquilo que ela e o pai tinham tido e sido e no que mais tarde de tinham tornado. O que teria acontecido que mudasse as personalidades de duas pessoas tão drasticamente? Linda começava a ter umas pistas: tinha algo a ver com o seu poder de navegante. Tanto que Julianna e Misaki também estavam metidas ao barulho, mas não directamente.
Fosse como fosse, estava agora mais perto de descobrir. O sonho tinha-lhe dado pistas. Provavelmente um pouco de pesquisa com Mari e Cecília e talvez descobrisse mais.
Ela queria saber mais. Era desconcentrante saber que todos à sua volta foram influenciados por algo provocado pelo seu nascimento, ou melhor, provocado por si e ela própria não saber de nada. Afirmavam que ela ainda não estava preparada. Mas quando é que ela estaria preparada? Quando fosse velha e tivesse bigode?
Foi com pensamentos positivos que Linda se levantou da cama, agora menos cansada do que o costume. A sua mente já descansava mais rapidamente do que da primeira vez e agora até já conseguia ter mais noção dos pensamentos e emoções da pessoa. Por isso conseguira ter uma percepção correcta do que realmente acontecera. Ou melhor quase correcta. Linda ainda não sabia até que ponto o seu poder se estendia e não tinha coragem de revelar às suas amigas que conseguia entrar nos sonhos delas e, pior, que já o tinha feito. Sentia que estava a entrar em território pessoal e o que ela menos queria era magoá-las.
Visto ser sábado, procurou vestimentas normais. No entanto, visto ser dia de celebrações, optou por uma túnica cinzenta com umas calças justas de ganga negra. Pegou em duas madeixas junto às orelhas e amarrou-as atrás, deixando o resto livre.
Quando saiu para tomar o pequeno-almoço, Mari já lá estava, sozinha:
-Onde está a Aiko? – Perguntou, servindo-se de leite quente.
Mari engoliu os pãezinhos com manteiga que devorara e, após se recompor, respondeu:
-Foi ao bingo. Uma amiga dela não pôde ir na segunda, por isso decidiram ir hoje. O que até não é problema nenhum para nós, pois não?
-É claro que não. – Sentou-se e comeu uma tosta com compota de morango. – A que horas vem a Cecília?
-Às horas que lhe apetecer. O padrasto ‘tá lá hoje e ela quer aproveitar.
-Ela parece gostar mesmo dele. – Comentou Linda, casualmente.
-Sim. Como ela era muito nova quando o pai dela morreu, o padrasto veio como um substituto que a levava à escola, ao teatro, a passeios... Ela adora-o.
-Entendo. Então como vais passar o dia? – Perguntou. A loira ergueu o sobrolho, do mesmo modo que Usagi (Linda notou) quando Misaki lhe fizera uma pergunta estúpida.
-Bem, hoje a Cecy faz anos. Que queres que faça?
-Podias ter... sei lá… um encontro!
Mari pareceu escandalizada com a hipótese:
-Nem penses. Detesto este dia, para além de ser o aniversário da minha melhor amiga. Não a troco por nada.
Linda sorriu, impressionada com a lealdade de Mari.
-Entendo-te. Eu planeio passar o dia com a Cecília, mas já sabes… como tenho namorado, não o posso deixar de parte.
-Não te preocupes! O Eiji também ignora este dia só mesmo por causa da Cecília.
A morena não pôde evitar suspirar de alívio.
-Ainda bem. Não queria passar por…. Enfim, um dia destes.
-Nunca tiveste namorados no São Valentim?
-Nunca tive namorado em ocasião alguma, queres tu dizer! Sei lá o que fazer no dia de São Valentim.
-Que exagero. Basta que deixes o rapaz fazer tudo… enfim, quase tudo. Mas lembra-te do conselho da Aiko Nakamura: Usar sempre preservativo.
Linda riu-se da recordação de quando ela saíra com Setsu e Mari acompanhou-a, desta vez evitando uma queda da cadeira.
O momento foi quebrado pelo toque de uma campainha:
-Quem será? – Perguntou Mari, olhando para Linda confusa.
-Quem esperamos?
-Bem… pode ser a minha avó, ou a Cecy… ou até o teu namoradinho.
-Que engraçada! Eu vou lá – ofereceu-se Linda, levantando-se, deixando Mari a controlar o fôlego.
Quando abriu a porta, encontrou não Cecília, Eiji ou Aiko, mas sim outras duas caras conhecidas.
**
Quando Cecília olhou-se ao espelho, uma jovem morena com uma blusa azul e saia negra cumprimentou-a, os cabelos todos despenteados e ela ainda com ar sonolento. Depressa tratou desses míseros detalhes e desceu para cumprimentar a mãe.
Misaki não estava na sala, nem na biblioteca. Cecília podia jurar que a mãe já se tinha levantado. Onde estaria ela?
Foi encontrá-la na sua sala especial, junto ao piano. Apesar de as suas mãos passearem pelo teclado graciosamente, Cecília tinha a leve impressão que ela apenas fazia aquilo para não ceder à tentação de pegar no retrato do falecido marido.
-Bom dia mãe! – Saudou, entrando na sala branca. Misaki sorriu.
-Parabéns filha. – Abriu os braços e cercou a filha, beijando o topo da cabeça dela. Eram naqueles momentos em que Cecília se esquecia da mulher que a mãe costumava ser no Palácio. Estranho como, por vezes, ela parecia ter duas personalidades. Ela afastou-se e olhou a filha nos olhos, os seus à beira de lágrimas – Dezassete anos. Parece que ainda foi ontem que tu…
-Vá lá mãe, não venha com lamechices.
-Quando fores mãe vais entender, Cecily.
-Talvez. – Cecília suspirou, evitando olhar para a foto em cima do piano – E não me chame Cecily. Onde é que foi buscar o raio do nome?
Misaki sorriu, mas nada disse. Desistindo, Cecília olhou em volta:
-O pai?
-Foi buscar a tua prenda.
Mal Misaki acabara de pronunciar a frase, um homem entrou na divisão sorrateiramente, como se entrasse num santuário.
-Parabéns Cecília! – Abraçou a enteada, que correspondeu o gesto. Quando se separaram, a rapariga reparou num pequeno embrulho que o padrasto segurava. – Aqui tens! – Disse, estendendo-o.
Cecília abriu-o, puxando a fita com cuidado para não rasgar o papel. Uma caixa azul metálica estava por debaixo do papel. Quando a abriu, uma pequena corrente com uma lua brilhava para Cecília:
-Pai…
-Sei que tens a mania das luas, por isso achei melhor dar-te algo do género.
-Eu… - não conseguindo encontrar palavras para agradecer ao seu ‘pai’, abraçou-o mais uma vez, desta vez apertando o homem com mais força. – Muito obrigada pai.
Era apenas uma prenda simples, mas Cecília não conseguia deixar de pensar que este ano era algo diferente. O ano passado ela não sabia da sua ligação à lua, não sabia o quanto era diferente. Bem, um ano passara, ela crescera e sentia-se mais adulta. Talvez seja por isso que tivesse ficado tão comovida ao receber um presente de alguém querido que mostrasse a sua ligação à lua, misturada com sentimentos e emoções que ela sentira quando era pequena. Tinha sido sempre a mãe a comprar-lhe luas ou estrelas para pulseiras, jóias, brincos. Porque nisso a mãe sabia como ela era.
Quando tocou à campainha das Nakamura, sentia-se leve como uma pena, sentimento raro nos seus aniversários. Ela nunca contara a ninguém, mesmo a Mari e a Linda, mas o seu aniversário tornara-se num dia negro após a morte do seu pai. Ela ainda se lembrava estar a festejar o seu quarto aniversário, a mãe a perguntar-se onde estaria o marido e um polícia a aparecer à porta, dizendo que o seu pai tinha morrido num acidente de carro provocado por um bêbado que conduzia a alta velocidade. Era pequena, mas esperta o suficiente para saber que as coisas nunca mais seriam o mesmo naquele dia. No seu aniversário.
Agora tinha dezassete, fazia treze que o pai tinha morrido, e conseguia passear pelas ruas sem o pesar no coração que ela sempre sentira. Agora estava bem.
-Entra. – Disse Mari, baixinho.
-O que se passa? – Perguntou Cecília, percebendo que algo se passava.
-Vê por ti própria.
Mal Cecília entrou dentro da casa, percebeu o que se passava. Duas almas desconhecidas estavam na cozinha a falar com uma outra bem familiar. A de Linda. Almas que, apesar de não serem puras, eram extremamente próximas e possuíam uma força fora do vulgar.
Linda saiu da cozinha. Atrás dela, vinha uma rapariga de cabelos negros compridos e um rapaz de cabelos turquesa e olhos brancos. Como… vi bem? Brancos?
-Cecília, esta é a Naomi e o Seiji.
-Prazer em conhecer-te Cecília Tamura – disse Naomi, com um sorriso caloroso.
-Ou melhor, Sailor Harmony – disse Seiji, estendendo a sua mão para apertar a da morena. Mais de perto, Cecília viu que os olhos de Seiji eram de um cinzento muito claro que facilmente se confundia com branco com a luz da sala. – Ouvi dizer que hoje é o teu aniversário
-Prazer em conhecer-vos. E sim, é o meu aniversário.
Linda e Mari entreolharam-se como se tivesse apercebido de alguma coisa.
-Que despistadas somos. PARABÉNS! – Cecília de repente viu-se com dificuldade em respirar, pois Mari e Linda abraçavam-na com muita força, talvez querendo competir uma contra a outra sob quem seria a que dava abraços mais fortes.
-Meninas, deixem-me respirar. – Pediu a morena, tentando soltar-se. Linda largou-a logo, mas Mari ainda hesitou um pouquinho antes de fazer o mesmo. Livre para respirar, Cecília tornou a sua atenção para os outros dois – O que fazem aqui?
-Era isso que eu lhes estava a perguntar quando tu chegaste. – Respondeu Linda, sentando-se no sofá – e também porque é que eles não vieram em Janeiro.
Seiji e Naomi entreolharam-se.
-Li podes ir buscar o diário que a Makoto te deu? – Pediu Seiji, de braços cruzados – e também a pedra que a Rei te deu.
-Vocês têm as vossas pedras? – Perguntou Naomi a Cecília e a Mari. Cecília assentiu com a cabeça, indicando para a pedra que estava na sua pulseira. Mari levantou-se para ir buscar as suas, juntamente com Linda. Os visitantes pegaram em bancos e sentaram-se em frente ao sofá, onde mais tarde se sentaram Linda e Mari.
-Para que é que servem as pedras? – Perguntou Cecília, antes que as outras duas pudessem falar.
-Para que achas que servem? – Respondeu Seiji. Linda revirou os olhos. Típico de Seiji responder a uma pergunta com outra pergunta.
-Bem…
-Provavelmente para ‘canalizar’ os nossos poderes. – Sugeriu Mari, um pouco alheia aquilo que dissera. Os outros olharam para ela, espantados. – O que foi?
-Estás certa. É mais para isso. – Seiji acomodou-se no banco e olhou para Naomi, como se pedissem autorização para prosseguir. A morena encolheu os ombros como resposta e Seiji prosseguiu – De certa forma é como as canetas das navegantes em fase Eterna ou Super. Evoluem conforme o estado. Com essas pedras, os nossos talismãs evoluem.
-Explica isso melhor… - pediu Linda, confusa. – Supostamente, só evoluímos por causa das pedras?
-Não. Evoluem devido a outros factores que nem as próprias navegantes os conseguem identificar com precisão. Pode depender da força de vontade de cada um ou de uma força exterior. No entanto, vocês não são navegantes comuns e isso tem algumas consequências. Esta é uma delas. Se vocês evoluem, terão muita energia e poder novo e isso tem que ir para algum lado, caso contrário gasta-se e acaba por ser mais uma desvantagem do que poder.
-Ou seja, ‘organiza’ os nossos poderes, de modo a que tenhamos maior controlo – concluiu Linda.
-Exactamente. Andem sempre com as pedras. Podem até mesmo colar com fita-cola só pelo caso. Quando chegar a altura, ela ligam-se sozinhas.
As três olharam para as suas pedras, entendendo o seu significo. Os visitantes fizeram uma pausa, esperando por mais uma pergunta. Foi Mari a primeira:
-Porque não vieram no dia em que disseram que vinham?
Naomi tomou a dianteira:
-Temos tido uns problemas no palácio. Como sabem… - aí lançou um olhar a Linda, um olhar cheio de pena. – A Rainha está a morrer.
-De quê? – Perguntou Linda, sem conseguir controlar as palavras que saíam da sua boca. Mari e Cecília olharam para a amiga, tristes por ela.
-Não sabemos. Os adultos não contam. Nem sequer sabemos como é que a Rainha apanhou a doença.
Naomi esperava mais perguntas por parte de Linda, mas esta não falou. Suspirando, prosseguiu:
-A Dawson já tem quase todas as Flores. Só lhe falta a de Mercúrio, que está bem protegida, a da Terra (que ela jamais apanhará) e a de Vénus. Umas pistas recentes levaram-nos a tomar umas acções para a despistar. Ela não pode saber quem tem a Flor de Vénus. Temos desaparecido mesmo por isso. Tornava-se suspeitos as navegantes procurarem por pistas da Flor da Terra ou provas da identidade da Flor de Vénus, por isso fomos nós. Nós éramos para ter tudo pronto nos finais de Janeiro, mas acabamos por ter uns problemas…
-Conseguiram? – Perguntou Linda, olhando os amigos nos olhos. – Encontrar essas duas Flores?
-Nós já sabíamos quem tinha o sangue da família, apenas tínhamos que saber qual membro de família tinha a Flor. Procuramos por provas e finalmente as encontramos. Já a da Terra… temos suspeitas e apenas isso.
-Quem tem a Flor de Vénus?
Naomi e Seiji trocaram um olhar algo desesperado. Linda tomou isso como más notícias.
-É alguém que conheçamos?
-É. – Confirmou Seiji. – Chama-se Eiji Yamamoto.
As três deram um pequeno salto do sofá, mas nenhum foi tão alto quanto o de Linda, que ficou pálida como um lençol.
-O Eiji? Como é possível?
-Durante todo este tempo pensamos que fosse Yvonne, a mãe dele, mas era apenas porque considerávamos o Eiji filho da segunda mulher do Yamamoto. Quando o teu pai te viu a dançar com ele, foi dizer à tua mãe, a Hotaru ouviu e foi aí que descobrimos que a Yvonne tinha tido um segundo filho, um filho com todas as qualidades para ser um receptáculo da Flor.
-Receptáculo? – Perguntou Mari, ainda chocada com a notícia de que o seu amigo estava em perigo.
-É mais fácil que dizer ‘pessoa que suporta a Flor’.
-Não. É menos humano. – Disse Linda. – Mas isso não interessa. A Dawson…
-Tentámos despistá-la e acho que conseguimos. Ela ainda está a vigiar a Yvonne e nós mantivemos as nossas defesas nela pelo sim pelo não. Já o Eiji… bem, vocês são as únicas que o podem proteger. Enquanto a Dawson não souber de nada, basta vocês afastarem o Eiji das batalhas, caso contrário o lacaio da Dawson ainda se apercebe do poder dele. De resto, nada muda.
Linda duvidava seriamente que as coisas não iriam mudar dali para adiante, mas se Dawson ainda não sabia de nada... para quê preocupar? Não seria também caso para ela começar a ver Eiji de modo diferente.
O diário no colo de Linda era no entanto um bom motivo para ela não puxar mais o assunto. Pela primeira vez, sentia uma força misteriosa a correr por entre as suas páginas amareladas. Uma força que ela queria sentir mais de perto.
-Como se abre o diário? E para que é que serve? – Perguntou, vendo Seiji sorrir. Ele tirou do bolso do casaco uma chavezinha e estendeu-a a Linda.
-Chegou a altura de vocês descobrirem o vosso passado. Este diário vai-vos mostrar as memórias das vossas vidas anteriores. Dêem as mãos umas às outras, pois só a Linda é que pode ‘ver’.
Confusas, as três deram as mãos umas às outras. Linda inseriu a chave no pequeno buraco e ouviu um pequeno clique, conseguindo virar a capa.
Num momento estavam ali, noutro não…
**
Estando no Milénio Prateado, tinham agora conhecimento de factos que antes não sabiam.
Eram irmãs de sangue. Elas e a herdeira do trono, Serenity. Havia diferenças, era óbvio. Serenity e Agnes eram filhas do Rei da Lua, Cariocecus e da Rainha Camilla. Já as outras duas, Belisa e Ignês eram filhas do Rei e de duas amantes que este tivera. Ambas nasceram no mesmo ano que Agnes, enquanto Serenity era quatro anos mais velha.
Cariocecus era um homem rude e poderoso, que defendia a guerra contra os planetas rivais. Graças a ele, as relações da Lua com a Terra tinham-se tornado difíceis, semelhantes à entrada num campo minado.
Sem maneiras, não escondia o ódio de não ter tido nenhum filho barão e o desprezo que sentia em ter que entregar o trono do reino a uma filha. O desprezo à filha mais velha era correspondido.
Serenity detestava o pai e, como tal, mostrava-o ao conquistar a amizade de todos os habitantes da Lua, as suas amantes inclusive. Calma e inteligente, prometia ser uma melhor rainha que o progenitor. Mas isso Cariocecus duvidava. Dizia várias vezes a Camilla e a Agnes que Serenity iria levar o Milénio Prateado à ruína.
A sua relação com as outras filhas era quase inexistente, preferindo sempre passar algum tempo com as suas amantes, a organizar planos de ataque e defesa do Reino e a preparar os casamentos das filhas. As mais novas geravam problemas. Não pela falta de beleza, mas pela protecção que Camilla e Serenity lhes davam. Ambas pareciam dispostas a impedir que ele as casasse com os seus guerreiros mais estimados. Conseguiu arranjar noivado entre um nobre da Lua e Serenity, mas para as restantes, a acção estava difícil de realizar.
No seu leito de morte, Camilla pediu a Cariocecus que deixasse as três mais novas escolherem os seus esposos e que deixasse de implicar com a mais velha. Após a morte da esposa, Cariocecus ficou dois anos de luto e concedeu o seu último desejo de deixar as mais novas escolherem os esposos. No que tocava à mais velha, nada mudara.
Mas tudo isso eram memórias. Memórias que surgiam na cabeça das três Guardiãs durante um baile de celebração do Reino. As três jovens estavam encostadas num canto menos iluminado do grande salão, observando as pessoas a dançarem e a conversarem umas com as outras. No meio da multidão, surgiu o Rei, acompanhado com uma rapariga com um penteado peculiar. Ambos tinham cabelos prateados, olhos azuis-escuros e um semblante firme como uma rocha. Os dois pareciam discutir, ainda que discretamente, até que a rapariga afastou-se do homem, aproximando-se das jovens:
-Como estão? – Perguntou cordialmente, com um sorriso pouco natural.
-O é que o pai te disse? – Perguntou Ignês, um olho na irmã, outro nos diferentes convidados que surgiam na grande porta branca.
A rapariga suspirou.
-Nada de importante. Não há necessidade de vos preocupar.
-Não somos crianças Serenity. Podes contar-nos. – Insistiu Belisa, um olho na irmã, outro no pai, que cumprimentava o Rei de Vénus e a sua esposa.
Serenity ergueu o queixo, levemente irritada:
-Trata-se de um assunto demasiado delicado para vocês. – Disse firmemente. – Não há necessidade de vos preocupar. – Repetiu, olhando Belisa e Ignês nos olhos. As três irmãs nada tinham em comum. Belisa e Ignês eram semelhantes às mães, tal como Agnes e Serenity. Mas Serenity herdara o cabelo do pai e ambas as filhas de Camilla haviam herdado os olhos azuis-escuros de Cariocecus.
-Não o deixes entrar. – Disse Ignês de repente, os seus olhos castanhos fixos numa figura de capa vermelha. – A sua alma é maligna.
Serenity virou-se para trás.
-Não o reconheço – disse, preocupada.
-Vou avisar o pai. – Disse Belisa, dirigindo-se até Cariocecus. Fez-lhe uma vénia, sendo o acto correspondido, e murmurou para o pai algumas palavras. Este virou-se para Ignês e assentiu.
Por muito pai desinteressado que este fosse, jamais ousaria a colocar os poderes das suas três filhas em jogo. O que elas diziam era lei. Azar de Serenity e dele que elas nunca diziam nada que indicasse qual dos reinos seria o melhor.
Aliviada, Serenity tornou a sua atenção nas irmãs, tentando esquecer a presença do seu pai naquela mesma festa. Belisa voltara, mais animada:
-Algo de bom acontecerá. – Disse, confiante.
-Algo o quê? – Perguntou Ignês.
-Se eu soubesse já teria dito. Sei que será algo bom, mas não sei se é para nós ou para o reino.
-O que acontece de bom a nós, também acontece ao reino – proferiu Agnes, falando pela primeira vez desde que Serenity chegara. As suas três irmãs olharam-na espantadas, querendo saber mais, mas esta não se submeteu à pressão e nada mais revelou.
-Serenity, quando será o dia do teu casamento? – Perguntou Belisa, passando a mão pelo seu cabelo loiro.
-Honestamente, ainda não sei. Nem estou muito interessada. Casar-me-ei com o nome que ele escolheu para mim, mas jamais me submeterei às suas ordens a partir do momento em que eu me tornar mulher de outro homem. Jamais! – Prometeu Serenity, erguendo um cálice de vinho aos lábios. Belisa e Ignês seguiram o exemplo, enquanto Agnes fitava um ponto fixo no horizonte. Parecia envolta em pensamentos e as suas irmãs sabiam que jamais conseguiriam falar com ela naquele estado.
Quando as três voltaram a encher os cálices, Agnes também encheu o seu e juntas, as quatro irmãs do Milénio Prateado brindaram à vida.
-Quem é aquele? – Perguntou Ignês, cujo olho nunca saíra da porta de entrada. Com a cabeça, apontou para um jovem de cabelos compridos que entrara. – Tem uma aura estranha.
-Maligna?
-Não. É pura, mas estranha.
Junto do jovem, vinha outro mais novo e um casal mais velho de braço dado. Serenity examinou-os, tentando os reconhecer:
-Não sei quem são, apesar do homem mais velho me parecer familiar.
Agnes olhou para os quatro atentamente, sem mexer as pestanas. Os seus olhos azuis tinham um certo brilho que não foi identificado pelas irmãs, nem quando o jovem de aura estranha encontrou os olhos dela. Ficaram em silêncio a olhar um para o outro, sem que nenhum pensasse sequer em dar um passo em frente. Ignês, Belisa e Serenity falavam, assim como o jovem mais novo, mas nenhum dos dois ouvia. E, sem mais nem menos, conheceram-se um ao outro, apesar de nunca se terem visto:
-Aquele é Morfeu, filho do Rei Hipnos e da Rainha Grácia. O outro é o seu irmão, Ícelo.
-Como sabes disso? – Perguntou Belisa. Agnes respondeu com um encolher de ombros.
-Acho que já descobri o cerne da tua premonição. – Disse Ignês, tentando dar um pouco de humor à situação – a Agnes conseguiu dizer mais do que uma frase numa conversa. Digam lá que isso não é uma coisa boa!
Serenity e Belisa riram-se, enquanto Agnes limitou-se a um sorriso. Um sorriso que do outro lado do salão, era partilhado por outro homem.
O tempo no Milénio Prateado era algo relativo. Para uns passa bem depressa, para outros extremamente devagar. A corrente do tempo tinha sempre falhas e Agnes era uma delas. Para os seus dezassete, era muito madura e forte. Ninguém esperava nada dela, a não ser que fosse uma princesa de bons costumes. No entanto, o povo gostava dela pela sua bondade e a sua sabedoria, que espantava todos os habitantes do Milénio Prateado.
Era do conhecimento geral que as princesas Agnes, Belisa e Ignês eram Guardiãs do místico portal da Esperança e tal dava-lhes poderes especiais. Belisa tinha premonições de acordo com os desejos das pessoas, Ignês pressentia a bondade das pessoas e se as suas intenções eram boas ou más. Era a única pessoa em todo o Sistema Solar capaz de distinguir o peso de uma alma a outra, tanto figurativamente como no mundo físico. Mas Agnes era um mistério. Sabia-se que era a Guardiã dos Sonhos, portanto o seu poder tinha algo a ver com o seu dever. Mas o poder dela era tão extenso que ninguém sabia se ela tinha um poder próprio ou se uma fusão dos poderes das suas irmãs. Ninguém sabia. E Agnes não contava a ninguém.
Todavia, tal não impedia que Serenity não fosse bastante protectora dela. Sempre que olhava para a irmã, conseguia ver os traços delicados da mãe misturados com a força do pai. E naquele dia, também os conseguia ver, por detrás de um pilar, junto aos jardins reais. Mas não era a única.
Um homem olhava-a à distância, enquanto Agnes passeava pelos jardins da Lua. O mesmo homem cuja aura estranha Ignês ainda não conseguira decifrar. O Rei Hipnos e a sua família haviam sido convidados a ficarem por alguns tempo no reino, a fim de descansarem até à sua viagem ao planeta Gliese, fora do Sistema solar.
Agnes sabia que ele a observava. Isso fê-la esquecer-se do que fazia e pegar numa flor qualquer e cheirá-la, apenas para o atrair. Ele deu um passo em frente, um pouco receoso, mas quando ela se virou para ele, os olhos azuis-escuros a brilharem como nunca tinham brilhado, ele perdeu todo o medo.
-Bom dia, princesa Agnes. – Cumprimentou, com um leve aceno de cabeça.
-Bom dia, príncipe Morfeu – respondeu ela, num sussurro provocador.
-Estais a dar um passeio?
Ela sorriu.
-Sim. Quereis fazer-me companhia? – Perguntou, estendendo o braço dela. Ele recebeu-o e juntos passearam pelos jardins, falando sobre as suas famílias e gostos pessoais. Ao longe, Serenity viu a irmã apaixonar-se por aquele príncipe exótico.
Morfeu ficou em Milénio Prateado, com a desculpa de representar o seu planeta, substituindo o seu pai e irmão nas burocracias habituais. De dia, acompanhava o rei Cariocecus nas suas tarefas, de à noite passeava com a princesa, plenamente consciente que as três irmãs dela observavam-nos de longe. Sussurros pouco maliciosos espalharam-se pelo palácio como fumo, afirmando que a princesa tinha um pretendente. Tais rumores agradaram ao Rei, que tinha agora um bom motivo para casar a filha, ao mesmo tempo que compunha uma ligação com um planeta Exo-solar [6]. Tal era deveras necessário, pois estava convencido de que a certa altura iria precisar do máximo de ajuda possível numa batalha.
Entretanto, Serenity casou-se e ficou grávida em menos de um ano. Belisa pressentiu morte e vida e tal foi dito, tal aconteceu. No exacto momento em que a Rainha Anfitrite, de Mercúrio, deu à luz a princesa do planeta azul, Cariocecus morreria, vítima de uma doença provocada por uma determinada planta na Lua. A sua cara ficara vermelha, assim como os olhos.
No seu leito de morte, proferiu, mais uma vez, a queda do Milénio Prateado às mãos da filha mais velha e a queda de Belisa e de Ignês por estarem a seu lado. Já a Agnes apenas pediu para que ela seguisse o seu coração, pois sabia que as decisões dela eram sempre sábias e correctas. Qualquer consequência trazida por uma decisão dela tinha um sentido.
Movida pelo pedido do pai, Agnes aceitou o pedido de casamento de Morfeu e ajudou as irmãs nos seus casamentos combinados. Serenity, ainda grávida, subira ao trono e logo remodelou as leis do reino. Procurou a paz com a Terra e, de modo a fortificar laços com o planeta do céu azul, pediu às suas irmãs para se casarem com membros da família real da Terra. As duas aceitaram e quando a pequena Serenity nasceu, já as tias estavam casadas. Uma com o homem que amava, as outras a pedido da irmã.
No reino, a felicidade era plena. Serenity crescia uma menina linda, com cabelos loiros e olhos azuis-escuros e brincava com as tias frequentemente, pois os pais estavam deveras ocupados com assuntos do reino. Morfeu participava nesses assuntos, representando o seu planeta e também a Lua (visto ser esposo de Agnes) nas suas visitas à Terra. Com ele, ia o Rei, esposo de Serenity.
Preocupada com o aviso do pai, Belisa teve uma nova premonição: Caos por todo o lado. Um menino seria o inicio.
As três irmãs ficaram grávidas e com essa notícia, preocupação ocupou os corações delas. Jamais uma mãe quereria que o seu filho herdasse uma responsabilidade tão grande quanto a de guardar um portal.
Das três, a mais preocupada era Agnes. O seu poder era extremamente perigoso e temia ser mal usado pelo seu filho, para não falar dos poderes que o próprio Morfeu possuía. Tal criança teria um poder inimaginável.
O marido tentou reconfortá-la, mas a sua viagem de semanas à Terra não facilitou as coisas. Preocupado, Morfeu procurou conselhos nos cunhados, que nada lhes podiam dizer, pois nem eles próprios entendiam as mulheres.
Fora, para grande surpresa dele, um rapazito que o acalmara. Um rapaz de cabelos negros e olhos azuis-escuros, que o lembrou de Agnes. O jovem Endymion, nas suas aventuras e travessuras pelo palácio, fez lembrar a Morfeu que cada criança era inocente à sua maneira. A educação que recebiam era o que as formavam e estava certo que ele e Agnes iriam acertar nesse papel.
Quando voltara à Terra, vinha com o coração leve e pronto a beijar a esposa que ele tanto sentia saudades. Mas não a encontrou em parte alguma. Fora necessário um gato branco, de nome Artemis, ter vindo em seu socorro, afirmar-lhe que Agnes tinha dado à luz.
Um rapaz… O seu filho. Morfeu nem sequer notou que estava a correr até que, dois segundos depois de Artemis lhe ter entregado a mensagem, ter chegado ao quarto onde a mulher repousava com um recém-nascido nos braços. Um tufo de cabelo negro podia ser visto do meio dos lençóis que o cobriam.
Tamanha felicidade jamais fora sentida pela Guardiã dos Sonhos que estava ali, a segurar o filho, enquanto o marido aproximava-se, cheio de medo e as irmãs no canto a sorrirem para ela. E ela sabia que a sobrinha estava no quarto a dormir, sem suspeitar que no dia seguinte já veria o primo.
Sim, não havia maior felicidade.
Belisa e Ignês deram à luz raparigas e, um ano depois, o esposo de Serenity morreu de doença. Nem uma única lágrima caiu pelo rosto da soberana, não por frieza, mas apenas porque nada sentira pelo homem e a tristeza que a sua morte lhe provocava não era o suficiente para a pôr a largar água como uma cascata
Anos passaram-se e a paz com a Terra parecia difícil. O povo queria o Cristal Prateado, que permitia a longevidade do reino e a sua eterna juventude, algo que Serenity não podia partilhar, ainda que quisesse. Tais actos trouxeram problemas.
-Quanto tempo demorarás? – Perguntou Agnes, a sua mão direita sobre a cabecinha do filho. Morfeu olhou para os dois com profunda mágoa. Como lhe custava deixá-los.
-Pouco tempo – pegou na mão livre da mulher e beijou-a e em seguida acariciou o rosto do filho. – Voltarei em breve.
-Papa posso ir contigo? – Perguntou o rapazinho, não escondendo a tristeza de ver o pai partir… outra vez.
-Não. É muito perigoso, filho. Ficas aqui com a mãe, que é mais seguro.
Agnes controlou a vontade de gritar para o marido que ele também devia ficar ali, junto dela e do filho, onde ele era mais seguro. Não conseguia explicar, mas tinha um mau pressentimento em relação a aquela viagem. Um pressentimento tão forte, que ela não o podia negar, mesmo que fosse Belisa a especialista em premonições.
-Até breve. – Aproximou-se do rosto da mulher e beijou-a ternamente nos lábios, tal como o primeiro beijo deles. Agnes sentiu uma súbita vontade de dizer algo. A sua frase ecoou no ar, enquanto Morfeu se despedia do filho e lançava um último olhar à mulher. As palavras dela haviam encravado na sua garganta e na dela também. Temeu por ela e pelo filho. Mas acima de tudo, temeu pela felicidade deles.
O rapazinho correu até ao portal por onde o pai desaparecia e os tios surgiam para o visitar. Após ter aprendido a ler, a primeira coisa que leu na biblioteca real fora como funcionavam os portais. O procedimento era simples e ele, antes de tomar a decisão final, pensou se estava a fazer o correcto. O seu pai iria zangar-se e ficar muito desiludido com ele, e pior seria a reacção da mãe quando esta se apercebesse da sua falta.
Mas também, que motivos tinha ele para fazer aquilo? Estar com o pai. Raramente ele estava com o progenitor, pois este trabalhava bastante nas negociações e outras burocracias. Desde a morte do Rei que ele assumira as suas responsabilidades, pois Serenity não acatava tudo sozinha e os seus outros cunhados eram da Terra. Tanto trabalho dava-lhe pouco tempo para estar com a mulher e com o filho e os três sofriam com isso. Por isso ele hoje iria passar o dia com o pai. E iria conhece-lo melhor, talvez. Com sorte, a mãe não ficaria zangada e ele safa-se de um valente castigo.
Tal não aconteceu. Um ataque de rebeldes causou a destruição nas terras por onde Morfeu passara. Agnes sentiu o ar a desaparecer quando notou pela falta do filho, mas já estava morta quando recebeu a pior notícia de todas: Morfeu estava morto e o seu filho tinha sido visto na Terra. Estava desaparecido.
De repente, foi como se toda a vida de Agnes tivesse sido sugada. Perdera o homem que amava e o seu filho no mesmo dia. Quanta injustiça haveria mais? Tirar a uma mãe um filho pequeno. Um filho que ela carregara dentro dela e que depois educara, amamentara e amara com toda o amor que lhe podia a dar, mais do que dava ao marido, às irmãs e às sobrinhas?
A luz tornou-se um fardo que Agnes não conseguia suportar. Devastada pelo sofrimento da irmã, Serenity pediu ao Rei da Terra para procurar o seu sobrinho. Mas as buscas não deram em nada. Agnes acreditava na morte do filho.
Anos poderiam passar-se e ela iria sempre culpar-se por não ter falado ao marido do seu mau pressentimento, por não ter vigiado o filho, já um rapazinho esperto que queria ver o pai. Ela devia ter imaginado que ele iria fazer algo do género. Mas não o fez e agora o seu filho estava morto. Por culpa dela.
Agnes fechou os olhos no dia em que as irmãs se despediram das filhas. Já não era seguro estar com elas, pois os parentes das meninas na Terra exigiam a permanência delas por lá. Belisa devia ter tomado aquilo como um presságio de que a Lua seria, um dia, palco de guerra.
Os olhos dela permaneceram fechados durante dias, semanas, meses. Agnes escondeu-se nas sombras do seu quarto, a sua sabedoria espelhada na dança. Um dia, dançava no seu quarto enquanto a sobrinha a observava ao longe. Foi aí que abriu os olhos pela primeira vez em muito tempo. A pequena deu um pequeno salto, não esperando que a tia fizesse tal coisa, após tantos meses na escuridão.
Os olhos de Agnes haviam perdido a cor e a visão. Estavam tão transparentes que Serenity viu o seu próprio reflexo neles. Nada incomodada pela falta de um dos seus sentidos, Agnes sorriu pela primeira vez em meses. Não era um sorriso verdadeiro – jamais daria um após tamanha perda – mas sempre era um sinal de que não se tinha perdido.
As relações Terra e Lua estavam agora mais tensas. Qualquer desacordo entre os reis dos respectivos planetas, provocava um recuo nos vários acordos que haviam selado. No meio disto tudo, Belisa e Ignês perderam contactos com as filhas e os maridos. De rastos, as duas desabafaram com Agnes, que as ouviu sem interromper, tal era o seu hábito. Quando as duas desapareceram, Agnes ouviu um suspiro:
-Sentes-te mal, Serenity? – Perguntou à sobrinha, que estava junto da janela. Tinha pouco mais de onze e já era uma rapariga muito bonita.
A menina assentiu com a cabeça mas depois, ao lembrar-se de que a tia não conseguia ver, disse - Sim.
-Porquê?
Serenity hesitou um pouco antes de responder:
-Eu gostava muito de conhecer a Terra. A tia sabe, o céu azul, os campos verdes… nunca vi tal coisa.
-Nem eu – admitiu Agnes, num tom baixo. Falar do Planeta Terra trazia-lhe más recordações. Fora nesse planeta que morrera o marido e o filho, afinal de contas.
-Podemos… ir? – Perguntou Serenity, receosa. Agnes notou que ela estava a respirar aceleradamente e tinha as mãos postas nalgum sítio, pois pressionavam com força essa base.
-É perigoso. – Disse Agnes, que já não possuía controlo na conversa. Sabia que a sobrinha queria muito lá ir e a sua felicidade era o que mais importava a Agnes. – Verei o que posso fazer.
Serenity preparava-se para sair. Mas claro que ninguém sabia. Nem mesmo as tias, em quem ela tanto confiava.
Desceu as escadas devagar, sob o risco de ser apanhada. Não notou numa sombra que a observava ao longe. Chegou-se perto do portal e activou-o, desaparecendo de seguida.
-Até que perguntávamos onde estiveste, mas é obvio aonde. – Disse Belisa num tom frio, após encontrar a sobrinha no quarto, horas mais tarde. - Sabes perfeitamente que estás proibida de ir à Terra.
-Eu sei… - murmurou a princesa, de cabeça baixa.
-Não, não sabes! – Retorquiu a tia, furiosa. – Se soubesses não irias lá. Não depois do que aconteceu…
Aí a voz de Belisa falhou. Um nó na garganta enrolou-se e impediu-a de falar. Ignês aproximou-se da irmã, caída em lágrimas:
-Acalma-te. – Disse calmamente, apesar de a sua voz também tremer um pouco. Virou-se para a sobrinha. – Porque fazes isto?
Serenity não respondeu. Os seus olhos estavam inundados de lágrimas, resultado da recordação do pior dia da vida dela. O dia em que convenceu a tia Agnes a levá-la à Terra.
As duas partiram para o portal juntas, sem que Agnes largasse a sobrinha um único segundo.
Haviam chegado ao destino. Apesar de não ver, Agnes tinha uma pequena percepção das maravilhas que a rodeavam. Os cursos de água a correr, borboletas de várias cores batiam as suas asas e voavam em várias direcções, montanhas, prados e árvores cheias de folha, flores e frutos da Primavera, Estação desconhecida na Lua. Mesmo para quem não visse, só os sons e os cheiros indicavam o quanto aquilo era lindo.
Avançaram por entre a vegetação, Agnes contando os passos e confiando no seu sentido de orientação para descobrir o caminho de volta. Serenity olhava para todo o lado, a sua cabeça girando 180º e até mais se fosse possível, de boca aberta e mãos a tremer. Agnes sentia o entusiasmo da sobrinha e tal fê-la sorrir. Um sorriso verdadeiro, ainda que fraco.
Apesar de cega, conseguia ouvir o som da água da nascente a correr, o leve vento a bater nas árvores e o calor do sol a bater na sua pele branca.
O som de passos captou a sua atenção. Sim, não estava enganada. Eram passos humanos… e estavam próximos.
-Serenity? – Sussurrou, tentando chamar a atenção da sobrinha. Ela não respondeu. Não estava por perto. – Serenity?
O som dos passos leves da sobrinha ouvia-se mais à frente… a caminho dos outros…
Foi então que ouviu. Homens a sussurrarem, um cheiro nauseabundo a infestar o ar puro e risos maliciosos. Não eram homens de bem.
Sem dar por isso, estava a correr para junto da sobrinha, que ainda não tinha dado por nada.
-Vamos! – Ordenou, obrigando a menina a mexer-se.
-Aonde tia?
-Não discutas! Mexe-te.
As duas correram pelos prados, ambas guiando uma à outra até que o portal ficou à vista de Serenity. Os homens corriam atrás dela, sem pararem para respirar. A distância que as separava dos homens diminuía rapidamente. Agnes ouvia-os cada vez mais próximos.
Um dos homens agarrou o pé de Serenity, que caiu no chão, soltando um grito que provocou um calafrio em Agnes.
-Tia! – Gritou ela, em pânico. O homem segurava a perna dela e tentava puxá-la para si. Um raio de luz atingiu-o nos olhos, cegando-o por completo. Ele gritou de dor, colocando as mãos na vista inútil e caiu de joelhos, gemendo de dor. Os outros aproximavam-se e Serenity apenas podia ver a tia a tremer, os olhos completamente opacos. Correu para junto da sobrinha, a sua voz estranhamente calma:
-Vai. – Disse, apontando para o portal.
-Mas tia…
-VAI! – Gritou Agnes, ouvindo os outros homens a chegarem-se. – Eu distraio-os.
Serenity correu até ao portal, tropeçando algumas vezes nos ramos caídos. Sempre que caía, voltava a levantar-se. Estava mais próxima. Atrás dela, ouvia os homens a chegarem-se perto da tia, esta sem se mover.
Serenity estava agora no portal e esperava que este fosse activado. Olhou para a tia, tentando vê-la atrás de si. Mas Agnes estava parada e não tinha intenções de se mexer. E Serenity apercebeu-se disso tarde demais.
-TIA! – Gritou ela, os olhos azuis banhados de lágrimas.
Agnes sentiu os homens aproximarem-se. Lágrimas caíam dos seus olhos fechados. As mãos estavam húmidas e o seu coração batia extremamente depressa. Apesar de tudo não tremia e sentia-se leve, como nunca se sentira em anos. Chegara a hora. A hora de ela usar o poder com o qual nascera. A hora de finalmente poder salvar aqueles que ela amava. A hora de voltar a ver Morfeu e o seu filho.
Os seus lábios abriram-se e ela voltou a murmurar a mesma frase que dissera a Morfeu, desta vez jura eterna que nenhuma alma poderia quebrar.
Quando ela abriu os olhos, estes estavam azuis e a íris dilatada. Não piscou os olhos, não se moveu. Serenity deixou de respirar por uns escassos segundos.
Algo acontecera e Serenity jamais descobriria o quê. Metade dos homens haviam virado costas de repente, enquanto os outros caíam mortos no chão, o rosto envolvido em pânico.
A tia virara-se para ela. De tantas lágrimas que lhe caíam pelos olhos, não conseguiu ver mais do que a silhueta da tia ao longe. O portal iria partir em segundos. A única coisa que Serenity pôde ver antes de voltar para a Lua, foi a tia a cair no chão, o seu corpo misturados com os outros corpos em decomposição. Agnes não voltou a erguer-se.
Anos haviam se passado e Serenity jamais voltara a pôr os pés na Terra. Até que um dia decidira quebrar os seus medos, tal como a tia fizera anos antes ao visitar o planeta onde o marido e o filho tinham morrido. Para além disso, a beleza do Planeta Terra era impossível de resistir. Fora aí que conhecera Endymion, o homem dos seus sonhos e da sua vida.
-Promete-nos que não voltas lá! – Ordenou Belisa, a sua voz rouca, como que se estivesse prestes a desfalecer.
Serenity encontrou uma poeira no chão muito interessante. Ignês mordeu o lábio:
-Serenity, só o fazemos para o teu bem. Sabes como a tua mãe reage a estas coisas…
E se ela sabia. Ainda se lembrava da cara da mãe quando soubera da morte da irmã mais nova. Parte dela temera que ela descarregasse a raiva em si, que tinha culpa no cartório pela morte de Agnes. Mas tal não aconteceu. Ao invés, a mãe proibira contactos com a Terra, após o Rei ter enviado do corpo de Agnes, com condolências. Quando Serenity fora à Terra mais tarde, fora brevemente em negócios com a mãe e não pudera ir a lado nenhum sem as navegantes.
-Eu amo-o - sussurrou ela, com receio. Se tivesse erguido a cabeça, teria visto o rosto das tias a esmorecer.
-De certeza?
-Sim. Tal como tenho a certeza de que os astros giram à volta do Sol. E ele também sente o mesmo.
-Deveras? – Perguntou Belisa, desconfiada.
-Sim. – Serenity sentou-se, cruzando as pernas levemente. As tias seguiram-lhe exemplo – Foi disso que falamos hoje. Da tia Agnes. Ele conheceu Morfeu e disse que ele amava muito a tia.
-Verdade. – Confirmou Ignês, assentindo com a cabeça. – Nunca vi ninguém tão apaixonado por uma mulher quanto Morfeu por Agnes. E a nossa irmã amava-o muito, igualmente.
-Ás vezes nos perguntávamos como é que ela ainda conseguira viver depois de tamanha perda. – Murmurou Belisa, como se temesse as suas próprias palavras.
-Ele jurou-me… e eu jurei… queríamos tanto ter um amor tão forte quanto os dos meus tios.
Belisa abriu os olhos, aterrorizada.
-Não digas isso. Sabes muito bem como a história acabou.
-Será diferente comigo e com o Endymion.
-Não! – Cortou Ignês, a voz firme como rocha – Será pior. Morfeu não era habitante de um planeta em guerra com a Lua. O nosso pai - teu avô - não teve nenhum problema com o casamento de Agnes, enquanto a tua mãe tem mil e um motivos para o teu relacionamento com Endymion.
Serenity não encontrou argumentos contra a tia. Levantou-se e dirigiu-se para a porta, a cabeça sempre baixa.
-Prometo não voltar a sair às escondidas, nem voltar a ir à Terra sem vos avisar. Agora tenho que ir andando. Tenho que me preparar para o baile. – E desapareceu, deixando as duas adultas sozinhas.
Serenity cumprira a sua promessa, talvez porque ela já sabia que seria Endymion o único a quebrar as regras, para variar. Ninguém notou quando os dois desapareceram, durante o baile de máscaras. A única coisa que repararam, para além do alto festim, foi numa nuvem negra que surgiu no céu.
Cariocecus tinha razão. O seu governo preparara a Lua para a Guerra, estando esta preparada para ataque imprevistos. Serenity governara a Lua para a paz. Como tal, quando a nuvem negra surgira, poucos adivinharam o seu verdadeiro significado. O caos governou por toda a parte, enquanto o grandioso Milénio Prateado caía às mãos das trevas. Corpos tombavam por todos os lados, gritos ecoavam por entre as grandiosas paredes do edifício branco e raios de luz brilhavam no céu como auroras, apesar de os seus brilhos trazerem morte e dor, não alegria.
Ao fim e ao cabo, Belisa e Cariocecus haviam proferido o fim do Milénio Prateado. Um rapaz – filho de Agnes – fora a causa para os primeiros rastos de sangue derramados. A partir da morte do rapazinho e de seu pai, uma das estrelas que guardava o portal da Esperança perdera o seu brilho, enfraquecendo as suas defesas. Cariocecus afirmara que o reino cairia às mãos da filha mais velha… e tinha razão.
Estavam todos mortos. Todos… menos um mulher e dois gatos.
Esta ergueu os olhos cheios de lágrimas para a zona oeste do palácio. Um fragmento do Caos havia-se separado de Beryl e se arrastado até à zona, onde se encontravam Belisa e Ignês.
Conscientes das suas tão próximas mortes, as duas deram as mãos e murmuraram palavras na Língua Antiga, língua ancestral de todos os vocabulários no Sistema Solar. Se haviam de cair, cairiam a lutar.
Um raio de luz emergiu dos corpos das duas e iluminou toda a sala, cegando o Caos temporariamente. Quando este recuperara a visão, já Belisa e Agnes estavam mortas no chão. A luz ainda iluminava os seus corpos e, quando o espectro de ódio aproximou-se delas, cercou-o, sufocando-o até à morte. O que seria aquela luz? Esperança. Apenas esperança podia destruir o Caos, apenas aquele sentimento tão puro poderia impedir os avanços das trevas. E as Guardiãs haviam-se apercebido disso tarde de mais. Ou melhor, Belisa e Ignês aperceberam-se tarde de mais…
‘Protege-os’ pensou a monarca, cujo trono e vida estavam perdidos. Nas suas mãos, o ceptro lunar brilhava intensamente, emitindo uma luz ainda mais brilhante que o Sol. O alinhamento dos planetas passava despercebido perante tamanha beleza e poder que provinha de um simples cristal.
O resto da história ficou perdido, porque nenhuma das três respirava na altura em que Serenity sacrificara a sua própria vida para que as irmãs, a filha e os habitantes do Milénio Prateado tivessem uma segunda hipótese.
A única coisa que elas sabiam daqueles meros momentos que se passaram após a morte da última guardiã da Esperança, era que Serenity pedira a vida das irmãs, incluindo a de Agnes. Mas Agnes não morrera no Milénio Prateado.
Algo estava para dar errado…
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[6] Exo-solar: fora do sistema solar. Para quem não perceber.
Claro que Linda não conseguia identificar a nuvem negra. Se tal acontecesse, jamais haveria segredo para descobrir. E assim também seria muito fácil.
Quando se levantou da cama, não pôde deixar de pensar na mãe. Naquilo que ela e o pai tinham tido e sido e no que mais tarde de tinham tornado. O que teria acontecido que mudasse as personalidades de duas pessoas tão drasticamente? Linda começava a ter umas pistas: tinha algo a ver com o seu poder de navegante. Tanto que Julianna e Misaki também estavam metidas ao barulho, mas não directamente.
Fosse como fosse, estava agora mais perto de descobrir. O sonho tinha-lhe dado pistas. Provavelmente um pouco de pesquisa com Mari e Cecília e talvez descobrisse mais.
Ela queria saber mais. Era desconcentrante saber que todos à sua volta foram influenciados por algo provocado pelo seu nascimento, ou melhor, provocado por si e ela própria não saber de nada. Afirmavam que ela ainda não estava preparada. Mas quando é que ela estaria preparada? Quando fosse velha e tivesse bigode?
Foi com pensamentos positivos que Linda se levantou da cama, agora menos cansada do que o costume. A sua mente já descansava mais rapidamente do que da primeira vez e agora até já conseguia ter mais noção dos pensamentos e emoções da pessoa. Por isso conseguira ter uma percepção correcta do que realmente acontecera. Ou melhor quase correcta. Linda ainda não sabia até que ponto o seu poder se estendia e não tinha coragem de revelar às suas amigas que conseguia entrar nos sonhos delas e, pior, que já o tinha feito. Sentia que estava a entrar em território pessoal e o que ela menos queria era magoá-las.
Visto ser sábado, procurou vestimentas normais. No entanto, visto ser dia de celebrações, optou por uma túnica cinzenta com umas calças justas de ganga negra. Pegou em duas madeixas junto às orelhas e amarrou-as atrás, deixando o resto livre.
Quando saiu para tomar o pequeno-almoço, Mari já lá estava, sozinha:
-Onde está a Aiko? – Perguntou, servindo-se de leite quente.
Mari engoliu os pãezinhos com manteiga que devorara e, após se recompor, respondeu:
-Foi ao bingo. Uma amiga dela não pôde ir na segunda, por isso decidiram ir hoje. O que até não é problema nenhum para nós, pois não?
-É claro que não. – Sentou-se e comeu uma tosta com compota de morango. – A que horas vem a Cecília?
-Às horas que lhe apetecer. O padrasto ‘tá lá hoje e ela quer aproveitar.
-Ela parece gostar mesmo dele. – Comentou Linda, casualmente.
-Sim. Como ela era muito nova quando o pai dela morreu, o padrasto veio como um substituto que a levava à escola, ao teatro, a passeios... Ela adora-o.
-Entendo. Então como vais passar o dia? – Perguntou. A loira ergueu o sobrolho, do mesmo modo que Usagi (Linda notou) quando Misaki lhe fizera uma pergunta estúpida.
-Bem, hoje a Cecy faz anos. Que queres que faça?
-Podias ter... sei lá… um encontro!
Mari pareceu escandalizada com a hipótese:
-Nem penses. Detesto este dia, para além de ser o aniversário da minha melhor amiga. Não a troco por nada.
Linda sorriu, impressionada com a lealdade de Mari.
-Entendo-te. Eu planeio passar o dia com a Cecília, mas já sabes… como tenho namorado, não o posso deixar de parte.
-Não te preocupes! O Eiji também ignora este dia só mesmo por causa da Cecília.
A morena não pôde evitar suspirar de alívio.
-Ainda bem. Não queria passar por…. Enfim, um dia destes.
-Nunca tiveste namorados no São Valentim?
-Nunca tive namorado em ocasião alguma, queres tu dizer! Sei lá o que fazer no dia de São Valentim.
-Que exagero. Basta que deixes o rapaz fazer tudo… enfim, quase tudo. Mas lembra-te do conselho da Aiko Nakamura: Usar sempre preservativo.
Linda riu-se da recordação de quando ela saíra com Setsu e Mari acompanhou-a, desta vez evitando uma queda da cadeira.
O momento foi quebrado pelo toque de uma campainha:
-Quem será? – Perguntou Mari, olhando para Linda confusa.
-Quem esperamos?
-Bem… pode ser a minha avó, ou a Cecy… ou até o teu namoradinho.
-Que engraçada! Eu vou lá – ofereceu-se Linda, levantando-se, deixando Mari a controlar o fôlego.
Quando abriu a porta, encontrou não Cecília, Eiji ou Aiko, mas sim outras duas caras conhecidas.
**
Quando Cecília olhou-se ao espelho, uma jovem morena com uma blusa azul e saia negra cumprimentou-a, os cabelos todos despenteados e ela ainda com ar sonolento. Depressa tratou desses míseros detalhes e desceu para cumprimentar a mãe.
Misaki não estava na sala, nem na biblioteca. Cecília podia jurar que a mãe já se tinha levantado. Onde estaria ela?
Foi encontrá-la na sua sala especial, junto ao piano. Apesar de as suas mãos passearem pelo teclado graciosamente, Cecília tinha a leve impressão que ela apenas fazia aquilo para não ceder à tentação de pegar no retrato do falecido marido.
-Bom dia mãe! – Saudou, entrando na sala branca. Misaki sorriu.
-Parabéns filha. – Abriu os braços e cercou a filha, beijando o topo da cabeça dela. Eram naqueles momentos em que Cecília se esquecia da mulher que a mãe costumava ser no Palácio. Estranho como, por vezes, ela parecia ter duas personalidades. Ela afastou-se e olhou a filha nos olhos, os seus à beira de lágrimas – Dezassete anos. Parece que ainda foi ontem que tu…
-Vá lá mãe, não venha com lamechices.
-Quando fores mãe vais entender, Cecily.
-Talvez. – Cecília suspirou, evitando olhar para a foto em cima do piano – E não me chame Cecily. Onde é que foi buscar o raio do nome?
Misaki sorriu, mas nada disse. Desistindo, Cecília olhou em volta:
-O pai?
-Foi buscar a tua prenda.
Mal Misaki acabara de pronunciar a frase, um homem entrou na divisão sorrateiramente, como se entrasse num santuário.
-Parabéns Cecília! – Abraçou a enteada, que correspondeu o gesto. Quando se separaram, a rapariga reparou num pequeno embrulho que o padrasto segurava. – Aqui tens! – Disse, estendendo-o.
Cecília abriu-o, puxando a fita com cuidado para não rasgar o papel. Uma caixa azul metálica estava por debaixo do papel. Quando a abriu, uma pequena corrente com uma lua brilhava para Cecília:
-Pai…
-Sei que tens a mania das luas, por isso achei melhor dar-te algo do género.
-Eu… - não conseguindo encontrar palavras para agradecer ao seu ‘pai’, abraçou-o mais uma vez, desta vez apertando o homem com mais força. – Muito obrigada pai.
Era apenas uma prenda simples, mas Cecília não conseguia deixar de pensar que este ano era algo diferente. O ano passado ela não sabia da sua ligação à lua, não sabia o quanto era diferente. Bem, um ano passara, ela crescera e sentia-se mais adulta. Talvez seja por isso que tivesse ficado tão comovida ao receber um presente de alguém querido que mostrasse a sua ligação à lua, misturada com sentimentos e emoções que ela sentira quando era pequena. Tinha sido sempre a mãe a comprar-lhe luas ou estrelas para pulseiras, jóias, brincos. Porque nisso a mãe sabia como ela era.
Quando tocou à campainha das Nakamura, sentia-se leve como uma pena, sentimento raro nos seus aniversários. Ela nunca contara a ninguém, mesmo a Mari e a Linda, mas o seu aniversário tornara-se num dia negro após a morte do seu pai. Ela ainda se lembrava estar a festejar o seu quarto aniversário, a mãe a perguntar-se onde estaria o marido e um polícia a aparecer à porta, dizendo que o seu pai tinha morrido num acidente de carro provocado por um bêbado que conduzia a alta velocidade. Era pequena, mas esperta o suficiente para saber que as coisas nunca mais seriam o mesmo naquele dia. No seu aniversário.
Agora tinha dezassete, fazia treze que o pai tinha morrido, e conseguia passear pelas ruas sem o pesar no coração que ela sempre sentira. Agora estava bem.
-Entra. – Disse Mari, baixinho.
-O que se passa? – Perguntou Cecília, percebendo que algo se passava.
-Vê por ti própria.
Mal Cecília entrou dentro da casa, percebeu o que se passava. Duas almas desconhecidas estavam na cozinha a falar com uma outra bem familiar. A de Linda. Almas que, apesar de não serem puras, eram extremamente próximas e possuíam uma força fora do vulgar.
Linda saiu da cozinha. Atrás dela, vinha uma rapariga de cabelos negros compridos e um rapaz de cabelos turquesa e olhos brancos. Como… vi bem? Brancos?
-Cecília, esta é a Naomi e o Seiji.
-Prazer em conhecer-te Cecília Tamura – disse Naomi, com um sorriso caloroso.
-Ou melhor, Sailor Harmony – disse Seiji, estendendo a sua mão para apertar a da morena. Mais de perto, Cecília viu que os olhos de Seiji eram de um cinzento muito claro que facilmente se confundia com branco com a luz da sala. – Ouvi dizer que hoje é o teu aniversário
-Prazer em conhecer-vos. E sim, é o meu aniversário.
Linda e Mari entreolharam-se como se tivesse apercebido de alguma coisa.
-Que despistadas somos. PARABÉNS! – Cecília de repente viu-se com dificuldade em respirar, pois Mari e Linda abraçavam-na com muita força, talvez querendo competir uma contra a outra sob quem seria a que dava abraços mais fortes.
-Meninas, deixem-me respirar. – Pediu a morena, tentando soltar-se. Linda largou-a logo, mas Mari ainda hesitou um pouquinho antes de fazer o mesmo. Livre para respirar, Cecília tornou a sua atenção para os outros dois – O que fazem aqui?
-Era isso que eu lhes estava a perguntar quando tu chegaste. – Respondeu Linda, sentando-se no sofá – e também porque é que eles não vieram em Janeiro.
Seiji e Naomi entreolharam-se.
-Li podes ir buscar o diário que a Makoto te deu? – Pediu Seiji, de braços cruzados – e também a pedra que a Rei te deu.
-Vocês têm as vossas pedras? – Perguntou Naomi a Cecília e a Mari. Cecília assentiu com a cabeça, indicando para a pedra que estava na sua pulseira. Mari levantou-se para ir buscar as suas, juntamente com Linda. Os visitantes pegaram em bancos e sentaram-se em frente ao sofá, onde mais tarde se sentaram Linda e Mari.
-Para que é que servem as pedras? – Perguntou Cecília, antes que as outras duas pudessem falar.
-Para que achas que servem? – Respondeu Seiji. Linda revirou os olhos. Típico de Seiji responder a uma pergunta com outra pergunta.
-Bem…
-Provavelmente para ‘canalizar’ os nossos poderes. – Sugeriu Mari, um pouco alheia aquilo que dissera. Os outros olharam para ela, espantados. – O que foi?
-Estás certa. É mais para isso. – Seiji acomodou-se no banco e olhou para Naomi, como se pedissem autorização para prosseguir. A morena encolheu os ombros como resposta e Seiji prosseguiu – De certa forma é como as canetas das navegantes em fase Eterna ou Super. Evoluem conforme o estado. Com essas pedras, os nossos talismãs evoluem.
-Explica isso melhor… - pediu Linda, confusa. – Supostamente, só evoluímos por causa das pedras?
-Não. Evoluem devido a outros factores que nem as próprias navegantes os conseguem identificar com precisão. Pode depender da força de vontade de cada um ou de uma força exterior. No entanto, vocês não são navegantes comuns e isso tem algumas consequências. Esta é uma delas. Se vocês evoluem, terão muita energia e poder novo e isso tem que ir para algum lado, caso contrário gasta-se e acaba por ser mais uma desvantagem do que poder.
-Ou seja, ‘organiza’ os nossos poderes, de modo a que tenhamos maior controlo – concluiu Linda.
-Exactamente. Andem sempre com as pedras. Podem até mesmo colar com fita-cola só pelo caso. Quando chegar a altura, ela ligam-se sozinhas.
As três olharam para as suas pedras, entendendo o seu significo. Os visitantes fizeram uma pausa, esperando por mais uma pergunta. Foi Mari a primeira:
-Porque não vieram no dia em que disseram que vinham?
Naomi tomou a dianteira:
-Temos tido uns problemas no palácio. Como sabem… - aí lançou um olhar a Linda, um olhar cheio de pena. – A Rainha está a morrer.
-De quê? – Perguntou Linda, sem conseguir controlar as palavras que saíam da sua boca. Mari e Cecília olharam para a amiga, tristes por ela.
-Não sabemos. Os adultos não contam. Nem sequer sabemos como é que a Rainha apanhou a doença.
Naomi esperava mais perguntas por parte de Linda, mas esta não falou. Suspirando, prosseguiu:
-A Dawson já tem quase todas as Flores. Só lhe falta a de Mercúrio, que está bem protegida, a da Terra (que ela jamais apanhará) e a de Vénus. Umas pistas recentes levaram-nos a tomar umas acções para a despistar. Ela não pode saber quem tem a Flor de Vénus. Temos desaparecido mesmo por isso. Tornava-se suspeitos as navegantes procurarem por pistas da Flor da Terra ou provas da identidade da Flor de Vénus, por isso fomos nós. Nós éramos para ter tudo pronto nos finais de Janeiro, mas acabamos por ter uns problemas…
-Conseguiram? – Perguntou Linda, olhando os amigos nos olhos. – Encontrar essas duas Flores?
-Nós já sabíamos quem tinha o sangue da família, apenas tínhamos que saber qual membro de família tinha a Flor. Procuramos por provas e finalmente as encontramos. Já a da Terra… temos suspeitas e apenas isso.
-Quem tem a Flor de Vénus?
Naomi e Seiji trocaram um olhar algo desesperado. Linda tomou isso como más notícias.
-É alguém que conheçamos?
-É. – Confirmou Seiji. – Chama-se Eiji Yamamoto.
As três deram um pequeno salto do sofá, mas nenhum foi tão alto quanto o de Linda, que ficou pálida como um lençol.
-O Eiji? Como é possível?
-Durante todo este tempo pensamos que fosse Yvonne, a mãe dele, mas era apenas porque considerávamos o Eiji filho da segunda mulher do Yamamoto. Quando o teu pai te viu a dançar com ele, foi dizer à tua mãe, a Hotaru ouviu e foi aí que descobrimos que a Yvonne tinha tido um segundo filho, um filho com todas as qualidades para ser um receptáculo da Flor.
-Receptáculo? – Perguntou Mari, ainda chocada com a notícia de que o seu amigo estava em perigo.
-É mais fácil que dizer ‘pessoa que suporta a Flor’.
-Não. É menos humano. – Disse Linda. – Mas isso não interessa. A Dawson…
-Tentámos despistá-la e acho que conseguimos. Ela ainda está a vigiar a Yvonne e nós mantivemos as nossas defesas nela pelo sim pelo não. Já o Eiji… bem, vocês são as únicas que o podem proteger. Enquanto a Dawson não souber de nada, basta vocês afastarem o Eiji das batalhas, caso contrário o lacaio da Dawson ainda se apercebe do poder dele. De resto, nada muda.
Linda duvidava seriamente que as coisas não iriam mudar dali para adiante, mas se Dawson ainda não sabia de nada... para quê preocupar? Não seria também caso para ela começar a ver Eiji de modo diferente.
O diário no colo de Linda era no entanto um bom motivo para ela não puxar mais o assunto. Pela primeira vez, sentia uma força misteriosa a correr por entre as suas páginas amareladas. Uma força que ela queria sentir mais de perto.
-Como se abre o diário? E para que é que serve? – Perguntou, vendo Seiji sorrir. Ele tirou do bolso do casaco uma chavezinha e estendeu-a a Linda.
-Chegou a altura de vocês descobrirem o vosso passado. Este diário vai-vos mostrar as memórias das vossas vidas anteriores. Dêem as mãos umas às outras, pois só a Linda é que pode ‘ver’.
Confusas, as três deram as mãos umas às outras. Linda inseriu a chave no pequeno buraco e ouviu um pequeno clique, conseguindo virar a capa.
Num momento estavam ali, noutro não…
**
Estando no Milénio Prateado, tinham agora conhecimento de factos que antes não sabiam.
Eram irmãs de sangue. Elas e a herdeira do trono, Serenity. Havia diferenças, era óbvio. Serenity e Agnes eram filhas do Rei da Lua, Cariocecus e da Rainha Camilla. Já as outras duas, Belisa e Ignês eram filhas do Rei e de duas amantes que este tivera. Ambas nasceram no mesmo ano que Agnes, enquanto Serenity era quatro anos mais velha.
Cariocecus era um homem rude e poderoso, que defendia a guerra contra os planetas rivais. Graças a ele, as relações da Lua com a Terra tinham-se tornado difíceis, semelhantes à entrada num campo minado.
Sem maneiras, não escondia o ódio de não ter tido nenhum filho barão e o desprezo que sentia em ter que entregar o trono do reino a uma filha. O desprezo à filha mais velha era correspondido.
Serenity detestava o pai e, como tal, mostrava-o ao conquistar a amizade de todos os habitantes da Lua, as suas amantes inclusive. Calma e inteligente, prometia ser uma melhor rainha que o progenitor. Mas isso Cariocecus duvidava. Dizia várias vezes a Camilla e a Agnes que Serenity iria levar o Milénio Prateado à ruína.
A sua relação com as outras filhas era quase inexistente, preferindo sempre passar algum tempo com as suas amantes, a organizar planos de ataque e defesa do Reino e a preparar os casamentos das filhas. As mais novas geravam problemas. Não pela falta de beleza, mas pela protecção que Camilla e Serenity lhes davam. Ambas pareciam dispostas a impedir que ele as casasse com os seus guerreiros mais estimados. Conseguiu arranjar noivado entre um nobre da Lua e Serenity, mas para as restantes, a acção estava difícil de realizar.
No seu leito de morte, Camilla pediu a Cariocecus que deixasse as três mais novas escolherem os seus esposos e que deixasse de implicar com a mais velha. Após a morte da esposa, Cariocecus ficou dois anos de luto e concedeu o seu último desejo de deixar as mais novas escolherem os esposos. No que tocava à mais velha, nada mudara.
Mas tudo isso eram memórias. Memórias que surgiam na cabeça das três Guardiãs durante um baile de celebração do Reino. As três jovens estavam encostadas num canto menos iluminado do grande salão, observando as pessoas a dançarem e a conversarem umas com as outras. No meio da multidão, surgiu o Rei, acompanhado com uma rapariga com um penteado peculiar. Ambos tinham cabelos prateados, olhos azuis-escuros e um semblante firme como uma rocha. Os dois pareciam discutir, ainda que discretamente, até que a rapariga afastou-se do homem, aproximando-se das jovens:
-Como estão? – Perguntou cordialmente, com um sorriso pouco natural.
-O é que o pai te disse? – Perguntou Ignês, um olho na irmã, outro nos diferentes convidados que surgiam na grande porta branca.
A rapariga suspirou.
-Nada de importante. Não há necessidade de vos preocupar.
-Não somos crianças Serenity. Podes contar-nos. – Insistiu Belisa, um olho na irmã, outro no pai, que cumprimentava o Rei de Vénus e a sua esposa.
Serenity ergueu o queixo, levemente irritada:
-Trata-se de um assunto demasiado delicado para vocês. – Disse firmemente. – Não há necessidade de vos preocupar. – Repetiu, olhando Belisa e Ignês nos olhos. As três irmãs nada tinham em comum. Belisa e Ignês eram semelhantes às mães, tal como Agnes e Serenity. Mas Serenity herdara o cabelo do pai e ambas as filhas de Camilla haviam herdado os olhos azuis-escuros de Cariocecus.
-Não o deixes entrar. – Disse Ignês de repente, os seus olhos castanhos fixos numa figura de capa vermelha. – A sua alma é maligna.
Serenity virou-se para trás.
-Não o reconheço – disse, preocupada.
-Vou avisar o pai. – Disse Belisa, dirigindo-se até Cariocecus. Fez-lhe uma vénia, sendo o acto correspondido, e murmurou para o pai algumas palavras. Este virou-se para Ignês e assentiu.
Por muito pai desinteressado que este fosse, jamais ousaria a colocar os poderes das suas três filhas em jogo. O que elas diziam era lei. Azar de Serenity e dele que elas nunca diziam nada que indicasse qual dos reinos seria o melhor.
Aliviada, Serenity tornou a sua atenção nas irmãs, tentando esquecer a presença do seu pai naquela mesma festa. Belisa voltara, mais animada:
-Algo de bom acontecerá. – Disse, confiante.
-Algo o quê? – Perguntou Ignês.
-Se eu soubesse já teria dito. Sei que será algo bom, mas não sei se é para nós ou para o reino.
-O que acontece de bom a nós, também acontece ao reino – proferiu Agnes, falando pela primeira vez desde que Serenity chegara. As suas três irmãs olharam-na espantadas, querendo saber mais, mas esta não se submeteu à pressão e nada mais revelou.
-Serenity, quando será o dia do teu casamento? – Perguntou Belisa, passando a mão pelo seu cabelo loiro.
-Honestamente, ainda não sei. Nem estou muito interessada. Casar-me-ei com o nome que ele escolheu para mim, mas jamais me submeterei às suas ordens a partir do momento em que eu me tornar mulher de outro homem. Jamais! – Prometeu Serenity, erguendo um cálice de vinho aos lábios. Belisa e Ignês seguiram o exemplo, enquanto Agnes fitava um ponto fixo no horizonte. Parecia envolta em pensamentos e as suas irmãs sabiam que jamais conseguiriam falar com ela naquele estado.
Quando as três voltaram a encher os cálices, Agnes também encheu o seu e juntas, as quatro irmãs do Milénio Prateado brindaram à vida.
-Quem é aquele? – Perguntou Ignês, cujo olho nunca saíra da porta de entrada. Com a cabeça, apontou para um jovem de cabelos compridos que entrara. – Tem uma aura estranha.
-Maligna?
-Não. É pura, mas estranha.
Junto do jovem, vinha outro mais novo e um casal mais velho de braço dado. Serenity examinou-os, tentando os reconhecer:
-Não sei quem são, apesar do homem mais velho me parecer familiar.
Agnes olhou para os quatro atentamente, sem mexer as pestanas. Os seus olhos azuis tinham um certo brilho que não foi identificado pelas irmãs, nem quando o jovem de aura estranha encontrou os olhos dela. Ficaram em silêncio a olhar um para o outro, sem que nenhum pensasse sequer em dar um passo em frente. Ignês, Belisa e Serenity falavam, assim como o jovem mais novo, mas nenhum dos dois ouvia. E, sem mais nem menos, conheceram-se um ao outro, apesar de nunca se terem visto:
-Aquele é Morfeu, filho do Rei Hipnos e da Rainha Grácia. O outro é o seu irmão, Ícelo.
-Como sabes disso? – Perguntou Belisa. Agnes respondeu com um encolher de ombros.
-Acho que já descobri o cerne da tua premonição. – Disse Ignês, tentando dar um pouco de humor à situação – a Agnes conseguiu dizer mais do que uma frase numa conversa. Digam lá que isso não é uma coisa boa!
Serenity e Belisa riram-se, enquanto Agnes limitou-se a um sorriso. Um sorriso que do outro lado do salão, era partilhado por outro homem.
O tempo no Milénio Prateado era algo relativo. Para uns passa bem depressa, para outros extremamente devagar. A corrente do tempo tinha sempre falhas e Agnes era uma delas. Para os seus dezassete, era muito madura e forte. Ninguém esperava nada dela, a não ser que fosse uma princesa de bons costumes. No entanto, o povo gostava dela pela sua bondade e a sua sabedoria, que espantava todos os habitantes do Milénio Prateado.
Era do conhecimento geral que as princesas Agnes, Belisa e Ignês eram Guardiãs do místico portal da Esperança e tal dava-lhes poderes especiais. Belisa tinha premonições de acordo com os desejos das pessoas, Ignês pressentia a bondade das pessoas e se as suas intenções eram boas ou más. Era a única pessoa em todo o Sistema Solar capaz de distinguir o peso de uma alma a outra, tanto figurativamente como no mundo físico. Mas Agnes era um mistério. Sabia-se que era a Guardiã dos Sonhos, portanto o seu poder tinha algo a ver com o seu dever. Mas o poder dela era tão extenso que ninguém sabia se ela tinha um poder próprio ou se uma fusão dos poderes das suas irmãs. Ninguém sabia. E Agnes não contava a ninguém.
Todavia, tal não impedia que Serenity não fosse bastante protectora dela. Sempre que olhava para a irmã, conseguia ver os traços delicados da mãe misturados com a força do pai. E naquele dia, também os conseguia ver, por detrás de um pilar, junto aos jardins reais. Mas não era a única.
Um homem olhava-a à distância, enquanto Agnes passeava pelos jardins da Lua. O mesmo homem cuja aura estranha Ignês ainda não conseguira decifrar. O Rei Hipnos e a sua família haviam sido convidados a ficarem por alguns tempo no reino, a fim de descansarem até à sua viagem ao planeta Gliese, fora do Sistema solar.
Agnes sabia que ele a observava. Isso fê-la esquecer-se do que fazia e pegar numa flor qualquer e cheirá-la, apenas para o atrair. Ele deu um passo em frente, um pouco receoso, mas quando ela se virou para ele, os olhos azuis-escuros a brilharem como nunca tinham brilhado, ele perdeu todo o medo.
-Bom dia, princesa Agnes. – Cumprimentou, com um leve aceno de cabeça.
-Bom dia, príncipe Morfeu – respondeu ela, num sussurro provocador.
-Estais a dar um passeio?
Ela sorriu.
-Sim. Quereis fazer-me companhia? – Perguntou, estendendo o braço dela. Ele recebeu-o e juntos passearam pelos jardins, falando sobre as suas famílias e gostos pessoais. Ao longe, Serenity viu a irmã apaixonar-se por aquele príncipe exótico.
Morfeu ficou em Milénio Prateado, com a desculpa de representar o seu planeta, substituindo o seu pai e irmão nas burocracias habituais. De dia, acompanhava o rei Cariocecus nas suas tarefas, de à noite passeava com a princesa, plenamente consciente que as três irmãs dela observavam-nos de longe. Sussurros pouco maliciosos espalharam-se pelo palácio como fumo, afirmando que a princesa tinha um pretendente. Tais rumores agradaram ao Rei, que tinha agora um bom motivo para casar a filha, ao mesmo tempo que compunha uma ligação com um planeta Exo-solar [6]. Tal era deveras necessário, pois estava convencido de que a certa altura iria precisar do máximo de ajuda possível numa batalha.
Entretanto, Serenity casou-se e ficou grávida em menos de um ano. Belisa pressentiu morte e vida e tal foi dito, tal aconteceu. No exacto momento em que a Rainha Anfitrite, de Mercúrio, deu à luz a princesa do planeta azul, Cariocecus morreria, vítima de uma doença provocada por uma determinada planta na Lua. A sua cara ficara vermelha, assim como os olhos.
No seu leito de morte, proferiu, mais uma vez, a queda do Milénio Prateado às mãos da filha mais velha e a queda de Belisa e de Ignês por estarem a seu lado. Já a Agnes apenas pediu para que ela seguisse o seu coração, pois sabia que as decisões dela eram sempre sábias e correctas. Qualquer consequência trazida por uma decisão dela tinha um sentido.
Movida pelo pedido do pai, Agnes aceitou o pedido de casamento de Morfeu e ajudou as irmãs nos seus casamentos combinados. Serenity, ainda grávida, subira ao trono e logo remodelou as leis do reino. Procurou a paz com a Terra e, de modo a fortificar laços com o planeta do céu azul, pediu às suas irmãs para se casarem com membros da família real da Terra. As duas aceitaram e quando a pequena Serenity nasceu, já as tias estavam casadas. Uma com o homem que amava, as outras a pedido da irmã.
No reino, a felicidade era plena. Serenity crescia uma menina linda, com cabelos loiros e olhos azuis-escuros e brincava com as tias frequentemente, pois os pais estavam deveras ocupados com assuntos do reino. Morfeu participava nesses assuntos, representando o seu planeta e também a Lua (visto ser esposo de Agnes) nas suas visitas à Terra. Com ele, ia o Rei, esposo de Serenity.
Preocupada com o aviso do pai, Belisa teve uma nova premonição: Caos por todo o lado. Um menino seria o inicio.
As três irmãs ficaram grávidas e com essa notícia, preocupação ocupou os corações delas. Jamais uma mãe quereria que o seu filho herdasse uma responsabilidade tão grande quanto a de guardar um portal.
Das três, a mais preocupada era Agnes. O seu poder era extremamente perigoso e temia ser mal usado pelo seu filho, para não falar dos poderes que o próprio Morfeu possuía. Tal criança teria um poder inimaginável.
O marido tentou reconfortá-la, mas a sua viagem de semanas à Terra não facilitou as coisas. Preocupado, Morfeu procurou conselhos nos cunhados, que nada lhes podiam dizer, pois nem eles próprios entendiam as mulheres.
Fora, para grande surpresa dele, um rapazito que o acalmara. Um rapaz de cabelos negros e olhos azuis-escuros, que o lembrou de Agnes. O jovem Endymion, nas suas aventuras e travessuras pelo palácio, fez lembrar a Morfeu que cada criança era inocente à sua maneira. A educação que recebiam era o que as formavam e estava certo que ele e Agnes iriam acertar nesse papel.
Quando voltara à Terra, vinha com o coração leve e pronto a beijar a esposa que ele tanto sentia saudades. Mas não a encontrou em parte alguma. Fora necessário um gato branco, de nome Artemis, ter vindo em seu socorro, afirmar-lhe que Agnes tinha dado à luz.
Um rapaz… O seu filho. Morfeu nem sequer notou que estava a correr até que, dois segundos depois de Artemis lhe ter entregado a mensagem, ter chegado ao quarto onde a mulher repousava com um recém-nascido nos braços. Um tufo de cabelo negro podia ser visto do meio dos lençóis que o cobriam.
Tamanha felicidade jamais fora sentida pela Guardiã dos Sonhos que estava ali, a segurar o filho, enquanto o marido aproximava-se, cheio de medo e as irmãs no canto a sorrirem para ela. E ela sabia que a sobrinha estava no quarto a dormir, sem suspeitar que no dia seguinte já veria o primo.
Sim, não havia maior felicidade.
Belisa e Ignês deram à luz raparigas e, um ano depois, o esposo de Serenity morreu de doença. Nem uma única lágrima caiu pelo rosto da soberana, não por frieza, mas apenas porque nada sentira pelo homem e a tristeza que a sua morte lhe provocava não era o suficiente para a pôr a largar água como uma cascata
Anos passaram-se e a paz com a Terra parecia difícil. O povo queria o Cristal Prateado, que permitia a longevidade do reino e a sua eterna juventude, algo que Serenity não podia partilhar, ainda que quisesse. Tais actos trouxeram problemas.
-Quanto tempo demorarás? – Perguntou Agnes, a sua mão direita sobre a cabecinha do filho. Morfeu olhou para os dois com profunda mágoa. Como lhe custava deixá-los.
-Pouco tempo – pegou na mão livre da mulher e beijou-a e em seguida acariciou o rosto do filho. – Voltarei em breve.
-Papa posso ir contigo? – Perguntou o rapazinho, não escondendo a tristeza de ver o pai partir… outra vez.
-Não. É muito perigoso, filho. Ficas aqui com a mãe, que é mais seguro.
Agnes controlou a vontade de gritar para o marido que ele também devia ficar ali, junto dela e do filho, onde ele era mais seguro. Não conseguia explicar, mas tinha um mau pressentimento em relação a aquela viagem. Um pressentimento tão forte, que ela não o podia negar, mesmo que fosse Belisa a especialista em premonições.
-Até breve. – Aproximou-se do rosto da mulher e beijou-a ternamente nos lábios, tal como o primeiro beijo deles. Agnes sentiu uma súbita vontade de dizer algo. A sua frase ecoou no ar, enquanto Morfeu se despedia do filho e lançava um último olhar à mulher. As palavras dela haviam encravado na sua garganta e na dela também. Temeu por ela e pelo filho. Mas acima de tudo, temeu pela felicidade deles.
O rapazinho correu até ao portal por onde o pai desaparecia e os tios surgiam para o visitar. Após ter aprendido a ler, a primeira coisa que leu na biblioteca real fora como funcionavam os portais. O procedimento era simples e ele, antes de tomar a decisão final, pensou se estava a fazer o correcto. O seu pai iria zangar-se e ficar muito desiludido com ele, e pior seria a reacção da mãe quando esta se apercebesse da sua falta.
Mas também, que motivos tinha ele para fazer aquilo? Estar com o pai. Raramente ele estava com o progenitor, pois este trabalhava bastante nas negociações e outras burocracias. Desde a morte do Rei que ele assumira as suas responsabilidades, pois Serenity não acatava tudo sozinha e os seus outros cunhados eram da Terra. Tanto trabalho dava-lhe pouco tempo para estar com a mulher e com o filho e os três sofriam com isso. Por isso ele hoje iria passar o dia com o pai. E iria conhece-lo melhor, talvez. Com sorte, a mãe não ficaria zangada e ele safa-se de um valente castigo.
Tal não aconteceu. Um ataque de rebeldes causou a destruição nas terras por onde Morfeu passara. Agnes sentiu o ar a desaparecer quando notou pela falta do filho, mas já estava morta quando recebeu a pior notícia de todas: Morfeu estava morto e o seu filho tinha sido visto na Terra. Estava desaparecido.
De repente, foi como se toda a vida de Agnes tivesse sido sugada. Perdera o homem que amava e o seu filho no mesmo dia. Quanta injustiça haveria mais? Tirar a uma mãe um filho pequeno. Um filho que ela carregara dentro dela e que depois educara, amamentara e amara com toda o amor que lhe podia a dar, mais do que dava ao marido, às irmãs e às sobrinhas?
A luz tornou-se um fardo que Agnes não conseguia suportar. Devastada pelo sofrimento da irmã, Serenity pediu ao Rei da Terra para procurar o seu sobrinho. Mas as buscas não deram em nada. Agnes acreditava na morte do filho.
Anos poderiam passar-se e ela iria sempre culpar-se por não ter falado ao marido do seu mau pressentimento, por não ter vigiado o filho, já um rapazinho esperto que queria ver o pai. Ela devia ter imaginado que ele iria fazer algo do género. Mas não o fez e agora o seu filho estava morto. Por culpa dela.
Agnes fechou os olhos no dia em que as irmãs se despediram das filhas. Já não era seguro estar com elas, pois os parentes das meninas na Terra exigiam a permanência delas por lá. Belisa devia ter tomado aquilo como um presságio de que a Lua seria, um dia, palco de guerra.
Os olhos dela permaneceram fechados durante dias, semanas, meses. Agnes escondeu-se nas sombras do seu quarto, a sua sabedoria espelhada na dança. Um dia, dançava no seu quarto enquanto a sobrinha a observava ao longe. Foi aí que abriu os olhos pela primeira vez em muito tempo. A pequena deu um pequeno salto, não esperando que a tia fizesse tal coisa, após tantos meses na escuridão.
Os olhos de Agnes haviam perdido a cor e a visão. Estavam tão transparentes que Serenity viu o seu próprio reflexo neles. Nada incomodada pela falta de um dos seus sentidos, Agnes sorriu pela primeira vez em meses. Não era um sorriso verdadeiro – jamais daria um após tamanha perda – mas sempre era um sinal de que não se tinha perdido.
As relações Terra e Lua estavam agora mais tensas. Qualquer desacordo entre os reis dos respectivos planetas, provocava um recuo nos vários acordos que haviam selado. No meio disto tudo, Belisa e Ignês perderam contactos com as filhas e os maridos. De rastos, as duas desabafaram com Agnes, que as ouviu sem interromper, tal era o seu hábito. Quando as duas desapareceram, Agnes ouviu um suspiro:
-Sentes-te mal, Serenity? – Perguntou à sobrinha, que estava junto da janela. Tinha pouco mais de onze e já era uma rapariga muito bonita.
A menina assentiu com a cabeça mas depois, ao lembrar-se de que a tia não conseguia ver, disse - Sim.
-Porquê?
Serenity hesitou um pouco antes de responder:
-Eu gostava muito de conhecer a Terra. A tia sabe, o céu azul, os campos verdes… nunca vi tal coisa.
-Nem eu – admitiu Agnes, num tom baixo. Falar do Planeta Terra trazia-lhe más recordações. Fora nesse planeta que morrera o marido e o filho, afinal de contas.
-Podemos… ir? – Perguntou Serenity, receosa. Agnes notou que ela estava a respirar aceleradamente e tinha as mãos postas nalgum sítio, pois pressionavam com força essa base.
-É perigoso. – Disse Agnes, que já não possuía controlo na conversa. Sabia que a sobrinha queria muito lá ir e a sua felicidade era o que mais importava a Agnes. – Verei o que posso fazer.
Serenity preparava-se para sair. Mas claro que ninguém sabia. Nem mesmo as tias, em quem ela tanto confiava.
Desceu as escadas devagar, sob o risco de ser apanhada. Não notou numa sombra que a observava ao longe. Chegou-se perto do portal e activou-o, desaparecendo de seguida.
-Até que perguntávamos onde estiveste, mas é obvio aonde. – Disse Belisa num tom frio, após encontrar a sobrinha no quarto, horas mais tarde. - Sabes perfeitamente que estás proibida de ir à Terra.
-Eu sei… - murmurou a princesa, de cabeça baixa.
-Não, não sabes! – Retorquiu a tia, furiosa. – Se soubesses não irias lá. Não depois do que aconteceu…
Aí a voz de Belisa falhou. Um nó na garganta enrolou-se e impediu-a de falar. Ignês aproximou-se da irmã, caída em lágrimas:
-Acalma-te. – Disse calmamente, apesar de a sua voz também tremer um pouco. Virou-se para a sobrinha. – Porque fazes isto?
Serenity não respondeu. Os seus olhos estavam inundados de lágrimas, resultado da recordação do pior dia da vida dela. O dia em que convenceu a tia Agnes a levá-la à Terra.
As duas partiram para o portal juntas, sem que Agnes largasse a sobrinha um único segundo.
Haviam chegado ao destino. Apesar de não ver, Agnes tinha uma pequena percepção das maravilhas que a rodeavam. Os cursos de água a correr, borboletas de várias cores batiam as suas asas e voavam em várias direcções, montanhas, prados e árvores cheias de folha, flores e frutos da Primavera, Estação desconhecida na Lua. Mesmo para quem não visse, só os sons e os cheiros indicavam o quanto aquilo era lindo.
Avançaram por entre a vegetação, Agnes contando os passos e confiando no seu sentido de orientação para descobrir o caminho de volta. Serenity olhava para todo o lado, a sua cabeça girando 180º e até mais se fosse possível, de boca aberta e mãos a tremer. Agnes sentia o entusiasmo da sobrinha e tal fê-la sorrir. Um sorriso verdadeiro, ainda que fraco.
Apesar de cega, conseguia ouvir o som da água da nascente a correr, o leve vento a bater nas árvores e o calor do sol a bater na sua pele branca.
O som de passos captou a sua atenção. Sim, não estava enganada. Eram passos humanos… e estavam próximos.
-Serenity? – Sussurrou, tentando chamar a atenção da sobrinha. Ela não respondeu. Não estava por perto. – Serenity?
O som dos passos leves da sobrinha ouvia-se mais à frente… a caminho dos outros…
Foi então que ouviu. Homens a sussurrarem, um cheiro nauseabundo a infestar o ar puro e risos maliciosos. Não eram homens de bem.
Sem dar por isso, estava a correr para junto da sobrinha, que ainda não tinha dado por nada.
-Vamos! – Ordenou, obrigando a menina a mexer-se.
-Aonde tia?
-Não discutas! Mexe-te.
As duas correram pelos prados, ambas guiando uma à outra até que o portal ficou à vista de Serenity. Os homens corriam atrás dela, sem pararem para respirar. A distância que as separava dos homens diminuía rapidamente. Agnes ouvia-os cada vez mais próximos.
Um dos homens agarrou o pé de Serenity, que caiu no chão, soltando um grito que provocou um calafrio em Agnes.
-Tia! – Gritou ela, em pânico. O homem segurava a perna dela e tentava puxá-la para si. Um raio de luz atingiu-o nos olhos, cegando-o por completo. Ele gritou de dor, colocando as mãos na vista inútil e caiu de joelhos, gemendo de dor. Os outros aproximavam-se e Serenity apenas podia ver a tia a tremer, os olhos completamente opacos. Correu para junto da sobrinha, a sua voz estranhamente calma:
-Vai. – Disse, apontando para o portal.
-Mas tia…
-VAI! – Gritou Agnes, ouvindo os outros homens a chegarem-se. – Eu distraio-os.
Serenity correu até ao portal, tropeçando algumas vezes nos ramos caídos. Sempre que caía, voltava a levantar-se. Estava mais próxima. Atrás dela, ouvia os homens a chegarem-se perto da tia, esta sem se mover.
Serenity estava agora no portal e esperava que este fosse activado. Olhou para a tia, tentando vê-la atrás de si. Mas Agnes estava parada e não tinha intenções de se mexer. E Serenity apercebeu-se disso tarde demais.
-TIA! – Gritou ela, os olhos azuis banhados de lágrimas.
Agnes sentiu os homens aproximarem-se. Lágrimas caíam dos seus olhos fechados. As mãos estavam húmidas e o seu coração batia extremamente depressa. Apesar de tudo não tremia e sentia-se leve, como nunca se sentira em anos. Chegara a hora. A hora de ela usar o poder com o qual nascera. A hora de finalmente poder salvar aqueles que ela amava. A hora de voltar a ver Morfeu e o seu filho.
Os seus lábios abriram-se e ela voltou a murmurar a mesma frase que dissera a Morfeu, desta vez jura eterna que nenhuma alma poderia quebrar.
Quando ela abriu os olhos, estes estavam azuis e a íris dilatada. Não piscou os olhos, não se moveu. Serenity deixou de respirar por uns escassos segundos.
Algo acontecera e Serenity jamais descobriria o quê. Metade dos homens haviam virado costas de repente, enquanto os outros caíam mortos no chão, o rosto envolvido em pânico.
A tia virara-se para ela. De tantas lágrimas que lhe caíam pelos olhos, não conseguiu ver mais do que a silhueta da tia ao longe. O portal iria partir em segundos. A única coisa que Serenity pôde ver antes de voltar para a Lua, foi a tia a cair no chão, o seu corpo misturados com os outros corpos em decomposição. Agnes não voltou a erguer-se.
Anos haviam se passado e Serenity jamais voltara a pôr os pés na Terra. Até que um dia decidira quebrar os seus medos, tal como a tia fizera anos antes ao visitar o planeta onde o marido e o filho tinham morrido. Para além disso, a beleza do Planeta Terra era impossível de resistir. Fora aí que conhecera Endymion, o homem dos seus sonhos e da sua vida.
-Promete-nos que não voltas lá! – Ordenou Belisa, a sua voz rouca, como que se estivesse prestes a desfalecer.
Serenity encontrou uma poeira no chão muito interessante. Ignês mordeu o lábio:
-Serenity, só o fazemos para o teu bem. Sabes como a tua mãe reage a estas coisas…
E se ela sabia. Ainda se lembrava da cara da mãe quando soubera da morte da irmã mais nova. Parte dela temera que ela descarregasse a raiva em si, que tinha culpa no cartório pela morte de Agnes. Mas tal não aconteceu. Ao invés, a mãe proibira contactos com a Terra, após o Rei ter enviado do corpo de Agnes, com condolências. Quando Serenity fora à Terra mais tarde, fora brevemente em negócios com a mãe e não pudera ir a lado nenhum sem as navegantes.
-Eu amo-o - sussurrou ela, com receio. Se tivesse erguido a cabeça, teria visto o rosto das tias a esmorecer.
-De certeza?
-Sim. Tal como tenho a certeza de que os astros giram à volta do Sol. E ele também sente o mesmo.
-Deveras? – Perguntou Belisa, desconfiada.
-Sim. – Serenity sentou-se, cruzando as pernas levemente. As tias seguiram-lhe exemplo – Foi disso que falamos hoje. Da tia Agnes. Ele conheceu Morfeu e disse que ele amava muito a tia.
-Verdade. – Confirmou Ignês, assentindo com a cabeça. – Nunca vi ninguém tão apaixonado por uma mulher quanto Morfeu por Agnes. E a nossa irmã amava-o muito, igualmente.
-Ás vezes nos perguntávamos como é que ela ainda conseguira viver depois de tamanha perda. – Murmurou Belisa, como se temesse as suas próprias palavras.
-Ele jurou-me… e eu jurei… queríamos tanto ter um amor tão forte quanto os dos meus tios.
Belisa abriu os olhos, aterrorizada.
-Não digas isso. Sabes muito bem como a história acabou.
-Será diferente comigo e com o Endymion.
-Não! – Cortou Ignês, a voz firme como rocha – Será pior. Morfeu não era habitante de um planeta em guerra com a Lua. O nosso pai - teu avô - não teve nenhum problema com o casamento de Agnes, enquanto a tua mãe tem mil e um motivos para o teu relacionamento com Endymion.
Serenity não encontrou argumentos contra a tia. Levantou-se e dirigiu-se para a porta, a cabeça sempre baixa.
-Prometo não voltar a sair às escondidas, nem voltar a ir à Terra sem vos avisar. Agora tenho que ir andando. Tenho que me preparar para o baile. – E desapareceu, deixando as duas adultas sozinhas.
Serenity cumprira a sua promessa, talvez porque ela já sabia que seria Endymion o único a quebrar as regras, para variar. Ninguém notou quando os dois desapareceram, durante o baile de máscaras. A única coisa que repararam, para além do alto festim, foi numa nuvem negra que surgiu no céu.
Cariocecus tinha razão. O seu governo preparara a Lua para a Guerra, estando esta preparada para ataque imprevistos. Serenity governara a Lua para a paz. Como tal, quando a nuvem negra surgira, poucos adivinharam o seu verdadeiro significado. O caos governou por toda a parte, enquanto o grandioso Milénio Prateado caía às mãos das trevas. Corpos tombavam por todos os lados, gritos ecoavam por entre as grandiosas paredes do edifício branco e raios de luz brilhavam no céu como auroras, apesar de os seus brilhos trazerem morte e dor, não alegria.
Ao fim e ao cabo, Belisa e Cariocecus haviam proferido o fim do Milénio Prateado. Um rapaz – filho de Agnes – fora a causa para os primeiros rastos de sangue derramados. A partir da morte do rapazinho e de seu pai, uma das estrelas que guardava o portal da Esperança perdera o seu brilho, enfraquecendo as suas defesas. Cariocecus afirmara que o reino cairia às mãos da filha mais velha… e tinha razão.
Estavam todos mortos. Todos… menos um mulher e dois gatos.
Esta ergueu os olhos cheios de lágrimas para a zona oeste do palácio. Um fragmento do Caos havia-se separado de Beryl e se arrastado até à zona, onde se encontravam Belisa e Ignês.
Conscientes das suas tão próximas mortes, as duas deram as mãos e murmuraram palavras na Língua Antiga, língua ancestral de todos os vocabulários no Sistema Solar. Se haviam de cair, cairiam a lutar.
Um raio de luz emergiu dos corpos das duas e iluminou toda a sala, cegando o Caos temporariamente. Quando este recuperara a visão, já Belisa e Agnes estavam mortas no chão. A luz ainda iluminava os seus corpos e, quando o espectro de ódio aproximou-se delas, cercou-o, sufocando-o até à morte. O que seria aquela luz? Esperança. Apenas esperança podia destruir o Caos, apenas aquele sentimento tão puro poderia impedir os avanços das trevas. E as Guardiãs haviam-se apercebido disso tarde de mais. Ou melhor, Belisa e Ignês aperceberam-se tarde de mais…
‘Protege-os’ pensou a monarca, cujo trono e vida estavam perdidos. Nas suas mãos, o ceptro lunar brilhava intensamente, emitindo uma luz ainda mais brilhante que o Sol. O alinhamento dos planetas passava despercebido perante tamanha beleza e poder que provinha de um simples cristal.
O resto da história ficou perdido, porque nenhuma das três respirava na altura em que Serenity sacrificara a sua própria vida para que as irmãs, a filha e os habitantes do Milénio Prateado tivessem uma segunda hipótese.
A única coisa que elas sabiam daqueles meros momentos que se passaram após a morte da última guardiã da Esperança, era que Serenity pedira a vida das irmãs, incluindo a de Agnes. Mas Agnes não morrera no Milénio Prateado.
Algo estava para dar errado…
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[6] Exo-solar: fora do sistema solar. Para quem não perceber.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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As três jovens fitaram o diário, assombradas. Uma vida passada passava-lhes pela mente, fazendo contraste com os momentos da vida presente. Cecília mirou Mari, que também se sentia sem ar. As duas ergueram as cabeças, olhando para Seiji e Naomi, que sorriam para elas.
-Então? – Perguntou a morena. – Como correu?
-Estranho… - comentou Mari, num sussurro.
-Bem, ao menos sabemos porque só nascemos agora. – Disse Cecília, pensativa.
-Como assim?
-A Agnes não morreu durante a queda do Milénio Prateado, como tal houve uma espécie de “desencontro” com as reencarnações dos outros. É por isso que a Linda é ‘tia’ da sua avó.
-Estranho… - repetiu Mari, provocando um riso nas raparigas e no rapaz. Este parou de rir ao ver que Linda não reagia à conversa. Mari, Cecília e Naomi seguiram o exemplo. Linda estava pálida e fitava o diário com os olhos baços, o rosto numa expressão de puro choque.
-Linda? – Perguntou Cecília, tocando no braço na amiga com cuidado – estás bem?
Esta, ao ouvir as palavras da amiga, ergueu a cabeça devagarinho, sem nenhum olhar surpreendido. Ao que parecia, esta havia ouvido cada palavra dos amigos.
-Estou – respondeu, apesar de a voz estar um pouco trémula. – Apenas…
-Ficaste preocupada – acabou Seiji. – É normal. Mas não te preocupes, tu não vais ficar cega.
Linda fitou o amigo de olhos semicerrados. Seiji não disseram tudo aquilo que ela queria ouvir.
Ao ver que ele não iria continuar, Linda decidiu fazer uma pergunta:
-Que poder era o de Agnes?
Naomi e Seiji entreolharam-se, preocupados:
-Terás que descobrir isso sozinha.
-Mas... eu tenho esse poder?
-Não sabemos – respondeu Naomi, tomando a dianteira. – Vocês as três são diferentes das vossas antepassadas pela simples razão de, por exemplo, a Linda ser filha de duas guerreiras, enquanto a Agnes não tinha nada disso no sangue.
-Isso era outra coisa que queria perguntar. – Interrompeu Mari – nós éramos irmãs… irmãs com poderes… podem explicar isso melhor?
-As memórias não foram esclarecedoras?
-Não quando os poderem eram inatos e nós já sabíamos usá-los desde crianças, não precisando sequer de interrogar os seus efeitos. – Retorquiu Cecília. O seu argumento convenceu Seiji, que se acomodou numa cadeira da mesa de jantar.
-Cecília, sendo tu a Guardiã da Harmonia, consegues ver a ‘harmonia’ nos outros. Por outras palavras, ver se estas são felizes e se têm boas intenções ou más. Por consequência, consegues ver as suas almas, malignas, puras ou semi-puras. A Mari consegue captar a ‘fé’ das pessoas, através de premonições. Uma pessoa que coloca a sua fé no prato pesado da balança, provoca-te visões acerca dos seus objectivos. Sempre que alguém se sente mais feliz, mais triste, mais… diferente, tu saberás.
-Mas e se uma pessoa tiver maus objectivos. Como no pavilhão… - perguntou Mari, confusa.
-Não podes ver os maus objectivos. Mas podes ver os bons. Não querias tu e a Cecília encontrar o máximo de Flores possíveis? Como tal, a vossa fé na missão fez com que tu soubesses em antemão quando alguém iria ser atacado.
-Entendi. – Mari olhou para Linda que, apesar de ouvir tudo aquilo que Seiji dia, ainda conservava a palidez do rosto. – E a Linda?
-A Li tem o poder mais obvio. Entra nos sonhos das pessoas.
Cecília e Mari ficaram de boca aberta, enquanto Linda ficou um pouco corada.
-Mas… eu já vejo as almas desde pequena, a Mari começou a ter premonições…
-Isso foi porque os poderes das três estão acordados. A partir do momento em que começam a ‘entregar-se’ aos poderes que herdaram, começam a receber os vossos ‘dons’. – Cortou Seiji.
-… Ou seja – continuou Cecília, agora olhando para Linda desconfiada – Tu já entraste nos sonhos das pessoas? Nas suas memórias privadas?
-Não consigo evitar… - murmurou Linda, baixando a cabeça.
-ESPERA AÍ! Tu confirmas isto? – Berrou Mari, fazendo com que a amiga ganhasse mais vermelho na cara. Esta assentiu com a cabeça. – De quem?
Linda estava pálida não faziam cinco minutos e agora estava mais vermelha do que um tomate cherry.
-As vossas e as do Kenji – sussurrou ela, temendo olhar nos olhos de Mari.
Esta ergueu-se do sofá, indecisa de haveria de ficar furiosa ou preocupada. Como sempre, foi Cecília que acalmou as águas:
-Ela não consegue evitar, Mari. Não adianta lhe pormos as culpas todas. O que podemos fazer agora é ajudá-la a controlar o seu poder, de modo a que não entre na cabeça das pessoas quando está a dormir.
Mari rodou o sofá vermelho, pensativa. Quase todos os olhos da divisão estavam postos nela. Apenas Linda olhava para os dois amigos de lado. Tinha sido ela a única a notar os olhares deles quando Cecília dissera “quando está a dormir.”?
-Então foi por isso que berraste naquela noite? – Perguntou a Linda de repente. – Porque tinhas entrado num sonho… no meu sonho.
-Sim. – Confirmou a morena, já mais calma ao ver que Mari não ia explodir. – Tu é que não te lembras.
-O que é que viste?
-Queres mesmo que te conte? – Perguntou Linda, num tom provocante. Mari engoliu em seco. Para Linda falar naquele modo, era porque se tratava de um sonho deveras embaraçante.
-Não… prefiro não saber. – Respondeu por fim. Linda suspirou de alívio. – Mas podes controlar isso?
-Pode – respondeu Naomi, com um sorriso – Depende mesmo da vontade dela.
-Acreditem que eu tenho vontade – murmurou Linda, mexendo a cabeça.
-Sendo assim…. Mais alguma dúvida? – Perguntou Seiji, animado.
-Uma… porque é que elas se sacrificaram? A Belisa e a Ignês? – Perguntou Cecília. – O que fizeram elas?
-Salvaguardaram o portal. Deste modo, o Caos jamais poderá fechar o portal. Ou melhor pode…
-Como? – Perguntou Mari.
-A Caixa de Pandora – respondeu Linda. – Vocês conhecem a lenda. Pandora abriu uma caixa que continha todos os males do mundo – ou melhor, o Caos – e a Esperança. Sem Esperança, não há Caos. Sem Caos, não há Esperança. Ao sacrificaram-se garantiram o balanço entre o bem e o mal. Jamais um poderá governar sem o outro.
-Exacto, Li. Foi por isso que elas morreram. E não foi uma morte em vão.
-Foi sim. O pai tinha razão. Nós morremos por acreditarmos na Serenity – comentou Mari, num tom ácido.
-Não adianta culparmos a Serenity. – Respondeu Linda, calmamente – Ela acreditava na paz entre os dois planetas, enquanto o pai não. Não podemos julgar uma pessoa pelas suas crenças.
-Mas sim pelas suas escolhas – retorquiu Mari.
-Sim… por isso não critiques a Serenity. Ela não te obrigou a segui-la, tu e a Ignês fizeram-no porque acreditavam nela. Criticares a Serenity, é o mesmo que te criticares a ti própria.
Mari bufou em resposta, cruzando os braços. Cecília sorriu, enquanto Naomi tossiu, chamando a atenção das três:
-Linda, posso falar contigo?
A morena assentiu e seguiu-a até á cozinha.
-Deves estar confusa.
-Porquê?
-Primeiro descobres que o teu namorado pode ser a próxima vítima da Dawson, depois… acerca de Agnes e agora sabes que…
-Sei o quê?
-Não te faças de parva que eu sei que tu percebeste – respondeu Naomi, irritada. Linda desviou o olhar, incomodada.
-Sim percebi. Mas que queres que eu faça? Não há nada que impeça que eu tenha este poder sobrenatural…
-Não contes às tuas amigas.
-Também não planeava faze-lo. Acabaria por perder a sua amizade.
-Olha, Linda. Só quero que tenhas cuidado. Se perdes o controlo…
-O que acontece? – Perguntou Linda, chegando perto da amiga – eu morro ou algo do género?
Naomi ficou pálida como um lençol.
-Não digas isso. Não tem nada a ver.
-Então o que é.
-Não sei – respondeu Naomi, sinceramente. – Só os teus avós e a tua mãe é que sabem. E também era disso que te queria falar.
-Disso o quê? – Perguntou Linda, apesar de já saber do que Naomi falava. Esta ficou de frente para a amiga, olhando-a nos olhos. Apesar de alta, era quase do tamanho de Linda, apenas uns dois centímetros mais baixa.
-Eu conheço-te Linda. Sei que a ideia de perderes a tua mãe nunca te passou pela cabeça. O facto de ela estar a morrer incomoda-te. Não adianta esconderes isso.
-Sim, incomoda – confessou Linda. - Mas apenas porque tenho descobrido muitas coisas acerca dela e… queria muito conhecer a mulher que foi minha mãe antes de eu nascer.
-Ainda vais a tempo.
-Como?
-Vai vê-la. – Sugeriu Naomi. Ao ver o olhar da amiga, acrescentou. – Não te estou a obrigar, mas era melhor ires. Vais te arrepender de não te despedires da tua mãe antes de esta morrer.
-E porque faria isso, se ela nunca fez nada por mim?
-Sabes muito bem que isso é mentira. Pode não ter sido a melhor mãe do mundo, mas não deixou de ser tua mãe. Nunca o mostrou, é claro, mas acredita que é difícil uma mulher ignorar duas crianças que ela dera à luz.
-Disfarça bem... – comentou Linda, secamente.
-Ainda assim… - Naomi quase que deitava fogo pelos olhos perante tamanha teimosia da amiga – vais descer ao nível deles? Se queres provar aos teus pais que te tornaste numa boa pessoa sem eles e que não nada igual a eles, vai vê-la. Mostra-lhe isso.
-Estás a provocar-me!
Naomi sorriu.
-Talvez assim vejas a razão. Não te peço para convenceres o Kenji. O caso dele é mais complicado. Mas vai… vais-te sentir melhor no fim.
-Será? – Sussurrou Linda, vendo a amiga sair da cozinha sem dizer mais nada.
**
O dia passara a correr. Cecília juntara-se às duas amigas, a Eiji, a Setsu e a Kenji à praia onde celebraram os anos da rapariga. No meio de danças, risotas, lutas e muitas outras coisas, o dia passou depressa e a lua irrompeu no céu, apanhando os jovens desprevenidos.
-Ora-me esta. Já está escuro! – Murmurou Eiji ao ouvido de Linda, que estava com a cabeça pousada no tronco dele. Os seis jovens estavam junto a uma fogueira acesa na praia, cada um com os seus tópicos de conversa.
-A lua está linda – comentou Linda, ao olhar para a lua, tão cheia que chegava a iluminar mais que a fogueira.
-Pois está. – Concordou ele, dando-lhe um beijo no topo da cabeça. Ela acomodou-se mais nos braços dele, deixando-se levar por aquela sensação de conforto.
Ao seu lado, Kenji punha mais madeira na fogueira, as chamas saltitando como pequenos tiros de pistola e ouvia, e conversa com Setsu, Mari e Cecília acerca de namoros. Mas quanto mais a conversa avançava, mais Mari e Kenji se sentiam de fora.
Agora só Setsu e Cecília falavam. Por entre palavras em tom de gozo, ironias e provocações, haveria de chegar a altura em que Setsu dissesse algo errado:
-Tanta preocupação para as mulheres, quando elas são tão diabólicas quanto os homens. – Comentou ele, sem perder o seu ar descontraído. Já Cecília, parecia perder a paciência a cada minuto.
-Ou seja, eu sou diabólica… - disse ela, secamente.
-Tu? Não. – Ele riu-se, mexendo na fogueira com um pau. – Tu nem sexy consegues ser.
Fora longe de mais. Em conversas normais, Cecília nem ligaria ao comentário mas, ao ouvir disparates vindos da boca do moreno constantemente e um acerca de sua pessoa, qualquer rapariga perderia os nervos.
-Desculpa? – Ela ergueu-se, assim como ele. Os outros quatro nem abriam a boca.
-Ouviste o que disse. Tu não és sexy. Não basta vestires um vestido bonitinho, tens que agir como tal… e isso tu não fazes.
-Queres que eu aja que nem uma pega, é isso? – Perguntou ela, elevando o tom de voz. Setsu não se mexeu. Kenji e Eiji tinham que admirar a sua coragem.
-Não. Ser pega é ser demasiado provocante. Não há mal nenhum em ser sexy. Claro deve ser difícil para ti… vê-se pela tua cara que és menina de colégios.
-Eu NÃO ando num colégio!
-Mas já andaste!
Cecília mordeu o lábio, irritada. Suspirando fundo mirou-o, os olhos a largarem faíscas verdes.
-Que o seja. Vou-te provar que eu consigo ser provocante e sexy… mas sem ser uma pega. – Aproximou-se dele, baixando o tom de voz de modo a que apenas ele ouvisse – vou-te provar que te consigo excitar tanto quanto as ‘mamalhudas’ que falaste há pouco.
Setsu poderia ter se encolhido de medo, não fosse aquele desafio tão apelativo.
-Como? – Perguntou ele, provocante.
Cecília olhou em volta. Ao ver que as luzes do café mais adiante ainda estavam acesas, sorriu:
-Ali, no café.
E sem esperar por resposta, dirigiu-se para o café, pegando nas sandálias. Setsu foi atrás dela. Kenji, Mari, Eiji e Linda entreolharam-se.
-O que acham que vai sair aqui? – Perguntou Eiji, pegando nos seus sapatos.
-Sinceramente, não sei. – Respondeu Mari, pegando no seu calçado. Kenji fez o mesmo e, quando os dois se abaixaram, os dedos deles tocaram-se levemente. Mari afastou-se de imediato, evitando o olhar do loiro, correndo para o café. Kenji ficou parado, sem saber o que fazer. Linda, ao ver o embrulho em que o irmão se metera, olhou para o namorado. Este entendeu o pedido e foi atrás da loira, deixando os dois irmãos sozinhos.
Linda pegou nas sandálias e sorriu para o irmão, que passava a mão pela leve barba. Tanto tempo de estudo fizera com que ele se desleixasse na aparência:
-Parece que estamos no mesmo barco. – Disse, animada. Kenji virou-se para ela, confuso
-Como assim?
-Eu tenho algo que quero fazer… mas não arranjo coragem.
-O quê? – Perguntou o irmão, curioso. Linda não respondeu, os seus olhos fixos na areia húmida nos seus pés.
A brisa marítima fazia os cabelos soltos dela esvoaçarem levemente, o seu olhar nostálgico rendido a sensações que ela já considerava perdidas. Linda suspirou e sorriu:
-Se tu o fizeres… eu farei.
-Fazer o quê? – Kenji não estava a perceber onde Linda queria chegar.
-Seguires o teu coração. – Murmurou ela, sem dar tempo para o irmão responder. Dirigiu-se para o café, a cabeça sempre virada para o chão, os movimentos quase automáticos. Parecia que ela reflectia algo…
**
-Não estou a ver como me vais convencer… - comentou Setsu, observando Cecília dar uma volta ao café, já vazio. A sua pequena pista de dança era grande o suficiente para ela, mas esta parecia insatisfeita. – Já está?
-Cala-te! – Ordenou ela, furiosa – A paciência é uma virtude.
-Olha que minha não é de certeza… - sussurrou Setsu, de braços cruzados, perna apoiada na parede. Eiji olhava para Mari preocupado. Desde o inicio do encontro que ela se mantivera estranha. Aliás, as três haviam estado estranhas com ele desde o inicio e, a partir do momento em que chamaram Kenji para falar à parte, este também começou a agir estranhamente. Mas a atitude de Linda e Mari eram as mais estranhas. Linda estava agora sempre perdida em pensamentos. Apanhara-a várias vezes a olhar para ele, o seu rosto impossível de identificar e os olhos meio baços. Como a atitude dela melhorara ao longo da tarde, deixou o assunto passar, apesar de ainda lhe deitar um olho quando ela não estava a ver. Via-a sempre com a cabeça na Lua (quão irónico…).
Mas Mari era outra história. Apenas Setsu e Cecília pareciam não ter notado na estranha tensão entre Kenji e Mari. Aliás, havia sido assim todo o tempo. Mari não falava para Kenji e este fazia o mesmo, o seu olhar perdido na rapariga de cabelos dourados.
Linda entrou. Olhou em volta e viu Cecília a andar em roda pela pista de dança:
-O que estás a fazer? – Perguntou.
-Preciso de… - quando Cecília focou o olhar nela, o seu rosto iluminou-se. – Linda, vem comigo à casa de banho!
Puxada por Cecília, Linda não teve outra opção se não ir para a casa de banho, Mari atrás das duas amigas.
-Empresta-me a tua túnica!
-Como?
-Empresta-me a tua túnica! – Repetiu Cecília.
-Eu ouvi. Mas para quê?
-Para ganhar o desafio. Para isso preciso de algo mais… sexy. E a tua túnica vem que dá para uma minissaia.
-Mas…
-A culpa é tua de andarem com túnicas compridas – comentou Mari, sombria.
Linda rosnou e tirou a sua túnica, substituindo-a pela blusa de Cecília. Esta, olhou-se ao espelho.
-Perfeito. – Disse, contente. – Agora ele vai ver. – E saiu, sem esperar por Mari e Linda. Estas entreolharam-se e encolheram os ombros às acções da amiga.
-Prepara-te Yamamoto! – Disse ela, ao chegar-se perto dos outros. Kenji já estava á beira dos irmãos, distraído.
-Quem, eu? – Perguntou Eiji, inocentemente.
-Parvo… - reprimiu ela, suprimindo um sorriso - o teu maninho.
-Ui, põe-me à prova. – Desafiou Setsu. – Prova-me que tu és ‘mulher’.
Cecília ignorou a provocação. Ligou a aparelhagem (com a permissão do barman) e uma música de rock começou a tocar.
[7]
Como Cecília havia arranjado a música sem voz, nenhum deles sabia, mas todos puseram-se a ouvir a morena a mexer-se no centro da pista, a túnica de Linda a abater-lhe nas coxas. Sendo ela dançarina, não lhe foi difícil inventar uma coreografia na hora. Principalmente se o objectivo era ser sexy.
Ela começou a cantar. Se havia alguma coisa que aquela música era, era provocante. E a voz dela, grossa e sedutora, prometia abanar o palco... isto é, se houvesse palco.
Ela foi ter com Setsu, que a olhava abismado e puxou-o para a pista de dança. Rodeou-o, com o seu olhar mais provocante. Cantou a música, dançando como nunca ninguém a tinha visto dançar. Era fácil abanar a cabeça e deixar os cabelos espalharem de um lado para o outro e ou até de encolher um pouco os joelhos e subir devagarinho, o corpo colado ao dele.
Não havia duvidas que ela tinha ganho o desafio mas Cecília, querendo levar o ego de Setsu ‘para a lama’ continuou a dançar, não deixando o moreno sair do centro (mesmo que ele pudesse…).
Do outro lado, Kenji não tirava os olhos de Mari. Esta sabia que era observada e tentava ignorar os olhares o máximo possível. Mas chega uma altura em que as pessoas já não aguentam mais. Virou-se para ele, pronta a mandar-lhe uma boca mas ele foi mais rápido.
-Vem comigo. – Não era um pedido. Pegou no braço dela e arrastou-a para fora.
A brisa diminuíra e a fogueira ainda estava acesa, iluminando a praia. A lua estava um pouco encoberta por pequenas nuvens negras e não se viam estrelas no céu negro. Kenji levou-a até junto da fogueira e só aí a largou:
-O que raio se passa contigo? – Perguntou ele, ríspido.
-Eu?
-Sim. Estás farta de me ignorar!
Mari piscou os olhos várias vezes, incrédula.
-E o que isso tem de importante?
-Andas a evitar-me desde o dia em que nos beijamos. – Disse ele, cuspindo cada palavra.
As feições do rosto dela contraíram-se.
-Achas que não tenho razão? Beijei aquele que não queria beijar. – Disse, tão brusca quanto ele. Havia algo nos seus tons de voz e discursos que estranhavam aos próprios. Que raiva era aquela que nenhum deles sentia?
A resposta era óbvia. Era a primeira vez que estava tão próximos um do outro desde o beijo no Ano Novo e o desejo que sentiam um pelo outro estava cada vez mais forte. E Kenji estava a ter dificuldade em ignorá-lo.
-Aí sim?
-Sim.
-Esta conversa não leva a lado nenhum, Mari. Qual é o teu problema comigo? – Ele não queria dizer aquilo. Mas estava demasiado nervoso para ter controlo nas suas acções.
-Tu... és igual aos outros… - Ela não queria dizer aquilo. Mas também ela perdia o controlo de si própria. Agora era tudo automático. No fundo ela queria dizer-lhe aquilo, porque era a desculpa que ela dava a si própria para não insistir naquele romance não correspondido.
-Igual? Que queres dizer?
-Não te faças de estúpido! Não procuras uma namorada séria, nem nada disso. Brincaste com os sentimentos da Angelique, apesar de esta gostar de ti.
-Olha-me esta… - murmurou ele, desviando os olhos dela. – Achas que eu sou assim? Que eu fui o vilão daquela relação? Pois bem, admito. Eu agi errado com a Angel. Não devia ter começado a namorar com ela porque nunca gostei dela.
-Oh pois, só servia para a cama.
-Para tua informação, eu não brinco com os sentimentos das raparigas – Agora ele estava furioso. Quem era ela para lhe atirar acusações tão fortes? – Só me aproximava delas quando sabia que as intenções delas eram as mesmas que as minhas.
-E então a Angel? Também gostavas dela?
-Não… - confessou ele, de cabeça baixa. Mari abanou a cabeça.
-Ela era apenas um brinquedo para ir para a cama contigo. É assim que as coisas são. Foi assim com… - aí ela parou, arrependida do que dissera antes. Mas Kenji já sabia do que ela ia falar.
-Como a tua mãe – completou ele, serenamente.
-Elas contaram-te – murmurou Mari, furiosa. – Traidoras.
-Não, elas não me contaram. Eu é que sei.
-Aí sim… como?
-Eu lembro-me da tua mãe. E lembro-me da minha avó me ter falado dela.
Mari semicerrou os olhos:
-Como a conheceste?
-Ainda estavas na barriga dela. Era pequeno, mas ainda me lembro dessas coisas. Acho que a minha mãe até correu pelo parque adentro só para a alcançar. E a minha avó disse-me que a tua mãe não era casada com o teu pai, nem que ele alguma vez tivera intenção para tal. Sendo homem, foi fácil descobrir o resto…
Mari não respondeu. Sentia o sangue a subir-lhe à cabeça de tanta raiva e vergonha que sentia.
-É por isso que te vestes à rapaz. É por isso que és desconfiada e tens um temperamento… enfim, difícil.
Ela mirou-o, o seu olhar capaz de fuzilar um batalhão.
-Não tens o direito o mencionar o meu pai e justificar as minhas acções. Não tens nada a ver com isso.
-Tenho sim – Ele aproximou-se dela. Conseguia sentir o seu cheiro a jasmim. Queria ela pô-lo louco? – Principalmente quando eu quero quebrar essa barreira que tu me impões.
Ela deu um passo para trás, atordoada. Ele deu um em frente, confiante:
-Eu não sou o teu pai. Eu não te quero mal. Apenas quero…
-Não quero saber! – Gritou ela. – Eu não quero…
-Eu ouvi-te no ano novo. – Gritou ele em retornou, esperando o silêncio dela – em vez de ficar com a minha namorada, fui atrás de ti e ouvi-te. E sei que é por isso que me tens andado a evitar.
-Então porque raio me andas a chatear, a saber porque motivo eu te ignoro?
-Eu não achava que me irias tratar como se eu fosse lixo. Não depois do que aconteceu.
-Não aconteceu nada.
-Continua a negar, Mari, mas nós beijamo-nos e tu gostaste, admite.
-Para quê? – Perguntou ela, a raiva a sair pelos poros da pele – Para aumentar o teu ego. Esquece, não serei uma das tuas brincadeiras. Eu achava que não terias coragem de te aproximares de mim depois daquela noite, mas estava enganada. Se pensas que eu sou daquelas ‘difíceis’ que constituem um desafio e que no final valem a pena, estás enganado. Vais precisar de muito mais do que isso.
Ela foi-se embora e ele ficou parado, sem saber o que fazer. Sentindo-se impotente, lembrou-se do beijo que lhe dera no Ano Novo, na declaração que ela fizera ao luar nesse mesmo dia, no abraço que ela lhe dera e todos os outros momentos que partilhara com ela.
Não, ele não a iria deixar fugir.
Correu atrás dela, até que a agarrou no braço. Não estava era preparado era que ela desse luta. Tentando libertar-se, Mari empurrou-o, mas Kenji era mais pesado do que ela e acabou por se desequilibrar, caindo no chão com Mari. No chão, continuaram a lutar, até que Kenji conseguiu dar a volta e ficar por cima dela.
-Raios, eu amo-te. – Gritou, frustrado.
Ela parou de lutar e ele próprio perdeu alguma da força do qual era feito. Ele não queria dizer aquilo. Ou queria? Naquela altura ele já nem sabia o que queria mais, que ela ficasse quieta ou dizer-lhe tudo aquilo que tinha para lhe dizer.
Mas agora ali, com ela debaixo dele, o som da respiração dela a acelerar, em compasso com o seu próprio pulsar, o intenso cheiro dela e aqueles olhos tão verdes que ele nunca vira em nenhum outra rapariga… excepto em Angel, mas ela devia ser alguma parente. E ainda assim o brilho dos olhos de Mari hipnotizava-o. Agora ali, não sabia o que fazer. Dizer aquilo que ele queria dizer ou…
-Deixa-te de tretas. – Disse a Voz na sua cabeça.
Deixou-se ficar a olhar para ela, seus punhos a agarrarem os braços dela e as suas pernas entrelaçadas nas dela. Soltou os braços dela, mas não saiu de cima dela, temendo que esta fugisse.
-Namorei com a Angel porque estava passar uma fase má na minha vida e tu eras a única coisa que me fazia sentir melhor. Mas, infelizmente, eu não te podia ter e isso deixou-se frustrado. Daí que me tenha virado para a Angel. Mas nunca lhe quis mal e juro no que te digo. Eu nunca aproveitei-me das raparigas. Se elas queriam coisas serias, eu nem sequer me aproximava. Mas contigo…. Raios, tu és diferente. Fazes o meu coração quase saltar da minha caixa torácica, sinto-me a tremer que nem varas perto de ti, fico louco com o teu cheiro e a tua boca… nossa, nem sabes o quanto desejei a tua boca naquele dia no telhado. Não te beijei porque te respeitava e jamais de aproveitaria de ti.
Eu… eu quero-te. Eu desejo-te, muito mais do que alguma vez desejei uma mulher. Eu… - inspirou, tentando arranjar coragem para repetir o feito anterior – eu amo-te, Mari. Tenho tanta certeza como tenho a certeza que tu sentes o mesmo por mim.
Ela tremeu, talvez de frio, talvez de receio. Evitava olhar para ele, mas o mar de azul era impossível de evitar e ela dava por si a olha-lo como um caçador à beira da sua presa. Também ela o desejava. E ele estava agora ali, tão perto dela que o cheiro do seu perfume chegava a ser intoxicante.
Mais, ele dissera que a amava. Poderia confiar nele? Algo nos olhos dele dizia que sim. Algo dentro dela lhe dizia para acreditar naquelas palavras tão sinceras.
Tomou a dianteira e aproximou os seus lábios dos dele. A partir do momento em que o beijo foi selado, foi como se duas bestas tivessem sido libertadas das suas jaulas. Ele cobriu o corpo dele sobre o dela, passando as suas mãos pelas suas ancas e tronco. Beijou-lhe o pescoço, fazendo-a suspirar e voltou a tomar a boca dela. Mari sentiu um choque de electricidade a percorrer pelo corpo dela. Não se conseguia mexer, mas também não tinha intenções para tal. Ele pareceu ter-se esquecido dos pudores e não hesitou em tocar em cada zona do corpo dela ao seu alcance. Conseguiu estabelecer limites a si próprio, fazendo questão que nenhum dos dois tomasse o próximo passo. Ele esperaria, tal como tinha esperado tanto tempo por aquele momento. Esperaria por ela, para quando o momento fosse mais adequado. Nessa altura, ele iria se esquecer de todas as mulheres com quem se tinha deitado e seria apenas dele. Só dela.
As ondas do mar começavam a acalmar e a fogueira começava a perder lume, tal como o desejo dos dois jovens que, apesar de separarem as bocas, ainda estavam juntos. Mari fechou os olhos:
-Tenho medo – sussurrou ela.
-Medo de quê?
-De te perder…
Kenji fitou-a, confuso.
-Perder-me? Mari. – Ao ver que a loira evitava o olhar dele, elevou-a o suficiente para a sentar junto a uma rocha, ele junto dela. – Tu não me vais perder. Eu não te vou abandonar.
Mari desviou o rosto e ergueu-se, olhando para o luar. Ele levantou-se também, sem saber o que fazer:
-Mari… - não conseguiu dizer mais nada. Não sabia que dizer. Quem diria que era tão difícil falar com as mulheres. O homem que criasse o livro “Como entender as mulheres” devia ser galardoado com o prémio Nobel da Paz durante um século inteirinho.
De repente, ela virou-se para ele, o rosto firme como rocha. Aproximou-se e depositou um suave beijo nos lábios dele.
-Eu sei que não me abandonarás… pelo menos voluntariamente.
Havia algo nas últimas palavras que chamou a atenção de Kenji, mas Mari parecia ainda mais aflita com a ideia do que ele próprio, por isso não insistiu, abraçando-a com ternura. Mas o seu sonho, o tempo a escassear, Mari… ela tinha premonições… estaria aquilo tudo a indicar a morte dele? Ou algo mais?
**
-Estás a esconder-me qualquer coisa.
Linda sabia que era uma afirmação, não uma pergunta. Por isso, não conseguiu evitar morder o lábio. Oxalá pudesse perder esse tique…
Eiji suspirou pesadamente. Daria todo o dinheiro do mundo para saber o que Linda pensava.
-Tenho algo a fazer. – Confessou ela, num tom baixo.
-O quê?
Linda não respondeu, perdida em pensamentos. Nas últimas horas, tomara consciência de muitos factos até agora desconhecidos. E mais de metade assombravam os seus pensamentos… e a sua vida.
**
Mari e Kenji calçavam-se quando Cecília e Setsu apareceram, vindos do café, com Eiji e Linda atrás.
-Admite! – Gritou a morena, eufórica.
-Pronto, eu admito. És sexy! – Disse Setsu, num tom derrotado. Cecília deu um pequeno salto de alegria, fazendo uma pequena dança de vitória.
Foi a primeira a entrar no carro de Setsu, enquanto os irmãos Yamamoto seguiram-na. Eiji, antes de entrar no carro, tornou a olhar para a namorada. Ainda mantinha o seu olhar nostálgico. Um dia… um dia…
Mari e Kenji entreolharam-se. Ele sorriu, gesto correspondido. Ela tocou na mão dele e depois, hesitante, afastou-a, dirigindo-se para a mota de Kenji, estacionada ao lado do carro vermelho do moreno. Ainda sorria quando colocou o capacete.
Kenji ia segui-la quando o olhar dele cruzou-se com o da irmã.
Nenhum deles eram profetas, mas ambos sabiam que algo errado estava prestes a acontecer. Ele fazia uma ideia... uma ideia que o aterrorizava. Mas Linda não. Ela apenas podia especular.
Não havia forma. Se queria saber mais, tinha que fazer aquilo que ela mais temia. Voltar ao mesmo sítio que ela fugira meses antes.
Estava decidido. Iria voltar ao Palácio.
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[7] https://www.youtube.com/watch?v=dYeGw-bo430 para o caso…
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Pois bem, aqui está. Não se esqueçam de deixar comentário. Podem até dizer qual foi o casalinho que mais gostaram neste capítulo.
As três jovens fitaram o diário, assombradas. Uma vida passada passava-lhes pela mente, fazendo contraste com os momentos da vida presente. Cecília mirou Mari, que também se sentia sem ar. As duas ergueram as cabeças, olhando para Seiji e Naomi, que sorriam para elas.
-Então? – Perguntou a morena. – Como correu?
-Estranho… - comentou Mari, num sussurro.
-Bem, ao menos sabemos porque só nascemos agora. – Disse Cecília, pensativa.
-Como assim?
-A Agnes não morreu durante a queda do Milénio Prateado, como tal houve uma espécie de “desencontro” com as reencarnações dos outros. É por isso que a Linda é ‘tia’ da sua avó.
-Estranho… - repetiu Mari, provocando um riso nas raparigas e no rapaz. Este parou de rir ao ver que Linda não reagia à conversa. Mari, Cecília e Naomi seguiram o exemplo. Linda estava pálida e fitava o diário com os olhos baços, o rosto numa expressão de puro choque.
-Linda? – Perguntou Cecília, tocando no braço na amiga com cuidado – estás bem?
Esta, ao ouvir as palavras da amiga, ergueu a cabeça devagarinho, sem nenhum olhar surpreendido. Ao que parecia, esta havia ouvido cada palavra dos amigos.
-Estou – respondeu, apesar de a voz estar um pouco trémula. – Apenas…
-Ficaste preocupada – acabou Seiji. – É normal. Mas não te preocupes, tu não vais ficar cega.
Linda fitou o amigo de olhos semicerrados. Seiji não disseram tudo aquilo que ela queria ouvir.
Ao ver que ele não iria continuar, Linda decidiu fazer uma pergunta:
-Que poder era o de Agnes?
Naomi e Seiji entreolharam-se, preocupados:
-Terás que descobrir isso sozinha.
-Mas... eu tenho esse poder?
-Não sabemos – respondeu Naomi, tomando a dianteira. – Vocês as três são diferentes das vossas antepassadas pela simples razão de, por exemplo, a Linda ser filha de duas guerreiras, enquanto a Agnes não tinha nada disso no sangue.
-Isso era outra coisa que queria perguntar. – Interrompeu Mari – nós éramos irmãs… irmãs com poderes… podem explicar isso melhor?
-As memórias não foram esclarecedoras?
-Não quando os poderem eram inatos e nós já sabíamos usá-los desde crianças, não precisando sequer de interrogar os seus efeitos. – Retorquiu Cecília. O seu argumento convenceu Seiji, que se acomodou numa cadeira da mesa de jantar.
-Cecília, sendo tu a Guardiã da Harmonia, consegues ver a ‘harmonia’ nos outros. Por outras palavras, ver se estas são felizes e se têm boas intenções ou más. Por consequência, consegues ver as suas almas, malignas, puras ou semi-puras. A Mari consegue captar a ‘fé’ das pessoas, através de premonições. Uma pessoa que coloca a sua fé no prato pesado da balança, provoca-te visões acerca dos seus objectivos. Sempre que alguém se sente mais feliz, mais triste, mais… diferente, tu saberás.
-Mas e se uma pessoa tiver maus objectivos. Como no pavilhão… - perguntou Mari, confusa.
-Não podes ver os maus objectivos. Mas podes ver os bons. Não querias tu e a Cecília encontrar o máximo de Flores possíveis? Como tal, a vossa fé na missão fez com que tu soubesses em antemão quando alguém iria ser atacado.
-Entendi. – Mari olhou para Linda que, apesar de ouvir tudo aquilo que Seiji dia, ainda conservava a palidez do rosto. – E a Linda?
-A Li tem o poder mais obvio. Entra nos sonhos das pessoas.
Cecília e Mari ficaram de boca aberta, enquanto Linda ficou um pouco corada.
-Mas… eu já vejo as almas desde pequena, a Mari começou a ter premonições…
-Isso foi porque os poderes das três estão acordados. A partir do momento em que começam a ‘entregar-se’ aos poderes que herdaram, começam a receber os vossos ‘dons’. – Cortou Seiji.
-… Ou seja – continuou Cecília, agora olhando para Linda desconfiada – Tu já entraste nos sonhos das pessoas? Nas suas memórias privadas?
-Não consigo evitar… - murmurou Linda, baixando a cabeça.
-ESPERA AÍ! Tu confirmas isto? – Berrou Mari, fazendo com que a amiga ganhasse mais vermelho na cara. Esta assentiu com a cabeça. – De quem?
Linda estava pálida não faziam cinco minutos e agora estava mais vermelha do que um tomate cherry.
-As vossas e as do Kenji – sussurrou ela, temendo olhar nos olhos de Mari.
Esta ergueu-se do sofá, indecisa de haveria de ficar furiosa ou preocupada. Como sempre, foi Cecília que acalmou as águas:
-Ela não consegue evitar, Mari. Não adianta lhe pormos as culpas todas. O que podemos fazer agora é ajudá-la a controlar o seu poder, de modo a que não entre na cabeça das pessoas quando está a dormir.
Mari rodou o sofá vermelho, pensativa. Quase todos os olhos da divisão estavam postos nela. Apenas Linda olhava para os dois amigos de lado. Tinha sido ela a única a notar os olhares deles quando Cecília dissera “quando está a dormir.”?
-Então foi por isso que berraste naquela noite? – Perguntou a Linda de repente. – Porque tinhas entrado num sonho… no meu sonho.
-Sim. – Confirmou a morena, já mais calma ao ver que Mari não ia explodir. – Tu é que não te lembras.
-O que é que viste?
-Queres mesmo que te conte? – Perguntou Linda, num tom provocante. Mari engoliu em seco. Para Linda falar naquele modo, era porque se tratava de um sonho deveras embaraçante.
-Não… prefiro não saber. – Respondeu por fim. Linda suspirou de alívio. – Mas podes controlar isso?
-Pode – respondeu Naomi, com um sorriso – Depende mesmo da vontade dela.
-Acreditem que eu tenho vontade – murmurou Linda, mexendo a cabeça.
-Sendo assim…. Mais alguma dúvida? – Perguntou Seiji, animado.
-Uma… porque é que elas se sacrificaram? A Belisa e a Ignês? – Perguntou Cecília. – O que fizeram elas?
-Salvaguardaram o portal. Deste modo, o Caos jamais poderá fechar o portal. Ou melhor pode…
-Como? – Perguntou Mari.
-A Caixa de Pandora – respondeu Linda. – Vocês conhecem a lenda. Pandora abriu uma caixa que continha todos os males do mundo – ou melhor, o Caos – e a Esperança. Sem Esperança, não há Caos. Sem Caos, não há Esperança. Ao sacrificaram-se garantiram o balanço entre o bem e o mal. Jamais um poderá governar sem o outro.
-Exacto, Li. Foi por isso que elas morreram. E não foi uma morte em vão.
-Foi sim. O pai tinha razão. Nós morremos por acreditarmos na Serenity – comentou Mari, num tom ácido.
-Não adianta culparmos a Serenity. – Respondeu Linda, calmamente – Ela acreditava na paz entre os dois planetas, enquanto o pai não. Não podemos julgar uma pessoa pelas suas crenças.
-Mas sim pelas suas escolhas – retorquiu Mari.
-Sim… por isso não critiques a Serenity. Ela não te obrigou a segui-la, tu e a Ignês fizeram-no porque acreditavam nela. Criticares a Serenity, é o mesmo que te criticares a ti própria.
Mari bufou em resposta, cruzando os braços. Cecília sorriu, enquanto Naomi tossiu, chamando a atenção das três:
-Linda, posso falar contigo?
A morena assentiu e seguiu-a até á cozinha.
-Deves estar confusa.
-Porquê?
-Primeiro descobres que o teu namorado pode ser a próxima vítima da Dawson, depois… acerca de Agnes e agora sabes que…
-Sei o quê?
-Não te faças de parva que eu sei que tu percebeste – respondeu Naomi, irritada. Linda desviou o olhar, incomodada.
-Sim percebi. Mas que queres que eu faça? Não há nada que impeça que eu tenha este poder sobrenatural…
-Não contes às tuas amigas.
-Também não planeava faze-lo. Acabaria por perder a sua amizade.
-Olha, Linda. Só quero que tenhas cuidado. Se perdes o controlo…
-O que acontece? – Perguntou Linda, chegando perto da amiga – eu morro ou algo do género?
Naomi ficou pálida como um lençol.
-Não digas isso. Não tem nada a ver.
-Então o que é.
-Não sei – respondeu Naomi, sinceramente. – Só os teus avós e a tua mãe é que sabem. E também era disso que te queria falar.
-Disso o quê? – Perguntou Linda, apesar de já saber do que Naomi falava. Esta ficou de frente para a amiga, olhando-a nos olhos. Apesar de alta, era quase do tamanho de Linda, apenas uns dois centímetros mais baixa.
-Eu conheço-te Linda. Sei que a ideia de perderes a tua mãe nunca te passou pela cabeça. O facto de ela estar a morrer incomoda-te. Não adianta esconderes isso.
-Sim, incomoda – confessou Linda. - Mas apenas porque tenho descobrido muitas coisas acerca dela e… queria muito conhecer a mulher que foi minha mãe antes de eu nascer.
-Ainda vais a tempo.
-Como?
-Vai vê-la. – Sugeriu Naomi. Ao ver o olhar da amiga, acrescentou. – Não te estou a obrigar, mas era melhor ires. Vais te arrepender de não te despedires da tua mãe antes de esta morrer.
-E porque faria isso, se ela nunca fez nada por mim?
-Sabes muito bem que isso é mentira. Pode não ter sido a melhor mãe do mundo, mas não deixou de ser tua mãe. Nunca o mostrou, é claro, mas acredita que é difícil uma mulher ignorar duas crianças que ela dera à luz.
-Disfarça bem... – comentou Linda, secamente.
-Ainda assim… - Naomi quase que deitava fogo pelos olhos perante tamanha teimosia da amiga – vais descer ao nível deles? Se queres provar aos teus pais que te tornaste numa boa pessoa sem eles e que não nada igual a eles, vai vê-la. Mostra-lhe isso.
-Estás a provocar-me!
Naomi sorriu.
-Talvez assim vejas a razão. Não te peço para convenceres o Kenji. O caso dele é mais complicado. Mas vai… vais-te sentir melhor no fim.
-Será? – Sussurrou Linda, vendo a amiga sair da cozinha sem dizer mais nada.
**
O dia passara a correr. Cecília juntara-se às duas amigas, a Eiji, a Setsu e a Kenji à praia onde celebraram os anos da rapariga. No meio de danças, risotas, lutas e muitas outras coisas, o dia passou depressa e a lua irrompeu no céu, apanhando os jovens desprevenidos.
-Ora-me esta. Já está escuro! – Murmurou Eiji ao ouvido de Linda, que estava com a cabeça pousada no tronco dele. Os seis jovens estavam junto a uma fogueira acesa na praia, cada um com os seus tópicos de conversa.
-A lua está linda – comentou Linda, ao olhar para a lua, tão cheia que chegava a iluminar mais que a fogueira.
-Pois está. – Concordou ele, dando-lhe um beijo no topo da cabeça. Ela acomodou-se mais nos braços dele, deixando-se levar por aquela sensação de conforto.
Ao seu lado, Kenji punha mais madeira na fogueira, as chamas saltitando como pequenos tiros de pistola e ouvia, e conversa com Setsu, Mari e Cecília acerca de namoros. Mas quanto mais a conversa avançava, mais Mari e Kenji se sentiam de fora.
Agora só Setsu e Cecília falavam. Por entre palavras em tom de gozo, ironias e provocações, haveria de chegar a altura em que Setsu dissesse algo errado:
-Tanta preocupação para as mulheres, quando elas são tão diabólicas quanto os homens. – Comentou ele, sem perder o seu ar descontraído. Já Cecília, parecia perder a paciência a cada minuto.
-Ou seja, eu sou diabólica… - disse ela, secamente.
-Tu? Não. – Ele riu-se, mexendo na fogueira com um pau. – Tu nem sexy consegues ser.
Fora longe de mais. Em conversas normais, Cecília nem ligaria ao comentário mas, ao ouvir disparates vindos da boca do moreno constantemente e um acerca de sua pessoa, qualquer rapariga perderia os nervos.
-Desculpa? – Ela ergueu-se, assim como ele. Os outros quatro nem abriam a boca.
-Ouviste o que disse. Tu não és sexy. Não basta vestires um vestido bonitinho, tens que agir como tal… e isso tu não fazes.
-Queres que eu aja que nem uma pega, é isso? – Perguntou ela, elevando o tom de voz. Setsu não se mexeu. Kenji e Eiji tinham que admirar a sua coragem.
-Não. Ser pega é ser demasiado provocante. Não há mal nenhum em ser sexy. Claro deve ser difícil para ti… vê-se pela tua cara que és menina de colégios.
-Eu NÃO ando num colégio!
-Mas já andaste!
Cecília mordeu o lábio, irritada. Suspirando fundo mirou-o, os olhos a largarem faíscas verdes.
-Que o seja. Vou-te provar que eu consigo ser provocante e sexy… mas sem ser uma pega. – Aproximou-se dele, baixando o tom de voz de modo a que apenas ele ouvisse – vou-te provar que te consigo excitar tanto quanto as ‘mamalhudas’ que falaste há pouco.
Setsu poderia ter se encolhido de medo, não fosse aquele desafio tão apelativo.
-Como? – Perguntou ele, provocante.
Cecília olhou em volta. Ao ver que as luzes do café mais adiante ainda estavam acesas, sorriu:
-Ali, no café.
E sem esperar por resposta, dirigiu-se para o café, pegando nas sandálias. Setsu foi atrás dela. Kenji, Mari, Eiji e Linda entreolharam-se.
-O que acham que vai sair aqui? – Perguntou Eiji, pegando nos seus sapatos.
-Sinceramente, não sei. – Respondeu Mari, pegando no seu calçado. Kenji fez o mesmo e, quando os dois se abaixaram, os dedos deles tocaram-se levemente. Mari afastou-se de imediato, evitando o olhar do loiro, correndo para o café. Kenji ficou parado, sem saber o que fazer. Linda, ao ver o embrulho em que o irmão se metera, olhou para o namorado. Este entendeu o pedido e foi atrás da loira, deixando os dois irmãos sozinhos.
Linda pegou nas sandálias e sorriu para o irmão, que passava a mão pela leve barba. Tanto tempo de estudo fizera com que ele se desleixasse na aparência:
-Parece que estamos no mesmo barco. – Disse, animada. Kenji virou-se para ela, confuso
-Como assim?
-Eu tenho algo que quero fazer… mas não arranjo coragem.
-O quê? – Perguntou o irmão, curioso. Linda não respondeu, os seus olhos fixos na areia húmida nos seus pés.
A brisa marítima fazia os cabelos soltos dela esvoaçarem levemente, o seu olhar nostálgico rendido a sensações que ela já considerava perdidas. Linda suspirou e sorriu:
-Se tu o fizeres… eu farei.
-Fazer o quê? – Kenji não estava a perceber onde Linda queria chegar.
-Seguires o teu coração. – Murmurou ela, sem dar tempo para o irmão responder. Dirigiu-se para o café, a cabeça sempre virada para o chão, os movimentos quase automáticos. Parecia que ela reflectia algo…
**
-Não estou a ver como me vais convencer… - comentou Setsu, observando Cecília dar uma volta ao café, já vazio. A sua pequena pista de dança era grande o suficiente para ela, mas esta parecia insatisfeita. – Já está?
-Cala-te! – Ordenou ela, furiosa – A paciência é uma virtude.
-Olha que minha não é de certeza… - sussurrou Setsu, de braços cruzados, perna apoiada na parede. Eiji olhava para Mari preocupado. Desde o inicio do encontro que ela se mantivera estranha. Aliás, as três haviam estado estranhas com ele desde o inicio e, a partir do momento em que chamaram Kenji para falar à parte, este também começou a agir estranhamente. Mas a atitude de Linda e Mari eram as mais estranhas. Linda estava agora sempre perdida em pensamentos. Apanhara-a várias vezes a olhar para ele, o seu rosto impossível de identificar e os olhos meio baços. Como a atitude dela melhorara ao longo da tarde, deixou o assunto passar, apesar de ainda lhe deitar um olho quando ela não estava a ver. Via-a sempre com a cabeça na Lua (quão irónico…).
Mas Mari era outra história. Apenas Setsu e Cecília pareciam não ter notado na estranha tensão entre Kenji e Mari. Aliás, havia sido assim todo o tempo. Mari não falava para Kenji e este fazia o mesmo, o seu olhar perdido na rapariga de cabelos dourados.
Linda entrou. Olhou em volta e viu Cecília a andar em roda pela pista de dança:
-O que estás a fazer? – Perguntou.
-Preciso de… - quando Cecília focou o olhar nela, o seu rosto iluminou-se. – Linda, vem comigo à casa de banho!
Puxada por Cecília, Linda não teve outra opção se não ir para a casa de banho, Mari atrás das duas amigas.
-Empresta-me a tua túnica!
-Como?
-Empresta-me a tua túnica! – Repetiu Cecília.
-Eu ouvi. Mas para quê?
-Para ganhar o desafio. Para isso preciso de algo mais… sexy. E a tua túnica vem que dá para uma minissaia.
-Mas…
-A culpa é tua de andarem com túnicas compridas – comentou Mari, sombria.
Linda rosnou e tirou a sua túnica, substituindo-a pela blusa de Cecília. Esta, olhou-se ao espelho.
-Perfeito. – Disse, contente. – Agora ele vai ver. – E saiu, sem esperar por Mari e Linda. Estas entreolharam-se e encolheram os ombros às acções da amiga.
-Prepara-te Yamamoto! – Disse ela, ao chegar-se perto dos outros. Kenji já estava á beira dos irmãos, distraído.
-Quem, eu? – Perguntou Eiji, inocentemente.
-Parvo… - reprimiu ela, suprimindo um sorriso - o teu maninho.
-Ui, põe-me à prova. – Desafiou Setsu. – Prova-me que tu és ‘mulher’.
Cecília ignorou a provocação. Ligou a aparelhagem (com a permissão do barman) e uma música de rock começou a tocar.
[7]
Como Cecília havia arranjado a música sem voz, nenhum deles sabia, mas todos puseram-se a ouvir a morena a mexer-se no centro da pista, a túnica de Linda a abater-lhe nas coxas. Sendo ela dançarina, não lhe foi difícil inventar uma coreografia na hora. Principalmente se o objectivo era ser sexy.
Ela começou a cantar. Se havia alguma coisa que aquela música era, era provocante. E a voz dela, grossa e sedutora, prometia abanar o palco... isto é, se houvesse palco.
Ela foi ter com Setsu, que a olhava abismado e puxou-o para a pista de dança. Rodeou-o, com o seu olhar mais provocante. Cantou a música, dançando como nunca ninguém a tinha visto dançar. Era fácil abanar a cabeça e deixar os cabelos espalharem de um lado para o outro e ou até de encolher um pouco os joelhos e subir devagarinho, o corpo colado ao dele.
Não havia duvidas que ela tinha ganho o desafio mas Cecília, querendo levar o ego de Setsu ‘para a lama’ continuou a dançar, não deixando o moreno sair do centro (mesmo que ele pudesse…).
Do outro lado, Kenji não tirava os olhos de Mari. Esta sabia que era observada e tentava ignorar os olhares o máximo possível. Mas chega uma altura em que as pessoas já não aguentam mais. Virou-se para ele, pronta a mandar-lhe uma boca mas ele foi mais rápido.
-Vem comigo. – Não era um pedido. Pegou no braço dela e arrastou-a para fora.
A brisa diminuíra e a fogueira ainda estava acesa, iluminando a praia. A lua estava um pouco encoberta por pequenas nuvens negras e não se viam estrelas no céu negro. Kenji levou-a até junto da fogueira e só aí a largou:
-O que raio se passa contigo? – Perguntou ele, ríspido.
-Eu?
-Sim. Estás farta de me ignorar!
Mari piscou os olhos várias vezes, incrédula.
-E o que isso tem de importante?
-Andas a evitar-me desde o dia em que nos beijamos. – Disse ele, cuspindo cada palavra.
As feições do rosto dela contraíram-se.
-Achas que não tenho razão? Beijei aquele que não queria beijar. – Disse, tão brusca quanto ele. Havia algo nos seus tons de voz e discursos que estranhavam aos próprios. Que raiva era aquela que nenhum deles sentia?
A resposta era óbvia. Era a primeira vez que estava tão próximos um do outro desde o beijo no Ano Novo e o desejo que sentiam um pelo outro estava cada vez mais forte. E Kenji estava a ter dificuldade em ignorá-lo.
-Aí sim?
-Sim.
-Esta conversa não leva a lado nenhum, Mari. Qual é o teu problema comigo? – Ele não queria dizer aquilo. Mas estava demasiado nervoso para ter controlo nas suas acções.
-Tu... és igual aos outros… - Ela não queria dizer aquilo. Mas também ela perdia o controlo de si própria. Agora era tudo automático. No fundo ela queria dizer-lhe aquilo, porque era a desculpa que ela dava a si própria para não insistir naquele romance não correspondido.
-Igual? Que queres dizer?
-Não te faças de estúpido! Não procuras uma namorada séria, nem nada disso. Brincaste com os sentimentos da Angelique, apesar de esta gostar de ti.
-Olha-me esta… - murmurou ele, desviando os olhos dela. – Achas que eu sou assim? Que eu fui o vilão daquela relação? Pois bem, admito. Eu agi errado com a Angel. Não devia ter começado a namorar com ela porque nunca gostei dela.
-Oh pois, só servia para a cama.
-Para tua informação, eu não brinco com os sentimentos das raparigas – Agora ele estava furioso. Quem era ela para lhe atirar acusações tão fortes? – Só me aproximava delas quando sabia que as intenções delas eram as mesmas que as minhas.
-E então a Angel? Também gostavas dela?
-Não… - confessou ele, de cabeça baixa. Mari abanou a cabeça.
-Ela era apenas um brinquedo para ir para a cama contigo. É assim que as coisas são. Foi assim com… - aí ela parou, arrependida do que dissera antes. Mas Kenji já sabia do que ela ia falar.
-Como a tua mãe – completou ele, serenamente.
-Elas contaram-te – murmurou Mari, furiosa. – Traidoras.
-Não, elas não me contaram. Eu é que sei.
-Aí sim… como?
-Eu lembro-me da tua mãe. E lembro-me da minha avó me ter falado dela.
Mari semicerrou os olhos:
-Como a conheceste?
-Ainda estavas na barriga dela. Era pequeno, mas ainda me lembro dessas coisas. Acho que a minha mãe até correu pelo parque adentro só para a alcançar. E a minha avó disse-me que a tua mãe não era casada com o teu pai, nem que ele alguma vez tivera intenção para tal. Sendo homem, foi fácil descobrir o resto…
Mari não respondeu. Sentia o sangue a subir-lhe à cabeça de tanta raiva e vergonha que sentia.
-É por isso que te vestes à rapaz. É por isso que és desconfiada e tens um temperamento… enfim, difícil.
Ela mirou-o, o seu olhar capaz de fuzilar um batalhão.
-Não tens o direito o mencionar o meu pai e justificar as minhas acções. Não tens nada a ver com isso.
-Tenho sim – Ele aproximou-se dela. Conseguia sentir o seu cheiro a jasmim. Queria ela pô-lo louco? – Principalmente quando eu quero quebrar essa barreira que tu me impões.
Ela deu um passo para trás, atordoada. Ele deu um em frente, confiante:
-Eu não sou o teu pai. Eu não te quero mal. Apenas quero…
-Não quero saber! – Gritou ela. – Eu não quero…
-Eu ouvi-te no ano novo. – Gritou ele em retornou, esperando o silêncio dela – em vez de ficar com a minha namorada, fui atrás de ti e ouvi-te. E sei que é por isso que me tens andado a evitar.
-Então porque raio me andas a chatear, a saber porque motivo eu te ignoro?
-Eu não achava que me irias tratar como se eu fosse lixo. Não depois do que aconteceu.
-Não aconteceu nada.
-Continua a negar, Mari, mas nós beijamo-nos e tu gostaste, admite.
-Para quê? – Perguntou ela, a raiva a sair pelos poros da pele – Para aumentar o teu ego. Esquece, não serei uma das tuas brincadeiras. Eu achava que não terias coragem de te aproximares de mim depois daquela noite, mas estava enganada. Se pensas que eu sou daquelas ‘difíceis’ que constituem um desafio e que no final valem a pena, estás enganado. Vais precisar de muito mais do que isso.
Ela foi-se embora e ele ficou parado, sem saber o que fazer. Sentindo-se impotente, lembrou-se do beijo que lhe dera no Ano Novo, na declaração que ela fizera ao luar nesse mesmo dia, no abraço que ela lhe dera e todos os outros momentos que partilhara com ela.
Não, ele não a iria deixar fugir.
Correu atrás dela, até que a agarrou no braço. Não estava era preparado era que ela desse luta. Tentando libertar-se, Mari empurrou-o, mas Kenji era mais pesado do que ela e acabou por se desequilibrar, caindo no chão com Mari. No chão, continuaram a lutar, até que Kenji conseguiu dar a volta e ficar por cima dela.
-Raios, eu amo-te. – Gritou, frustrado.
Ela parou de lutar e ele próprio perdeu alguma da força do qual era feito. Ele não queria dizer aquilo. Ou queria? Naquela altura ele já nem sabia o que queria mais, que ela ficasse quieta ou dizer-lhe tudo aquilo que tinha para lhe dizer.
Mas agora ali, com ela debaixo dele, o som da respiração dela a acelerar, em compasso com o seu próprio pulsar, o intenso cheiro dela e aqueles olhos tão verdes que ele nunca vira em nenhum outra rapariga… excepto em Angel, mas ela devia ser alguma parente. E ainda assim o brilho dos olhos de Mari hipnotizava-o. Agora ali, não sabia o que fazer. Dizer aquilo que ele queria dizer ou…
-Deixa-te de tretas. – Disse a Voz na sua cabeça.
Deixou-se ficar a olhar para ela, seus punhos a agarrarem os braços dela e as suas pernas entrelaçadas nas dela. Soltou os braços dela, mas não saiu de cima dela, temendo que esta fugisse.
-Namorei com a Angel porque estava passar uma fase má na minha vida e tu eras a única coisa que me fazia sentir melhor. Mas, infelizmente, eu não te podia ter e isso deixou-se frustrado. Daí que me tenha virado para a Angel. Mas nunca lhe quis mal e juro no que te digo. Eu nunca aproveitei-me das raparigas. Se elas queriam coisas serias, eu nem sequer me aproximava. Mas contigo…. Raios, tu és diferente. Fazes o meu coração quase saltar da minha caixa torácica, sinto-me a tremer que nem varas perto de ti, fico louco com o teu cheiro e a tua boca… nossa, nem sabes o quanto desejei a tua boca naquele dia no telhado. Não te beijei porque te respeitava e jamais de aproveitaria de ti.
Eu… eu quero-te. Eu desejo-te, muito mais do que alguma vez desejei uma mulher. Eu… - inspirou, tentando arranjar coragem para repetir o feito anterior – eu amo-te, Mari. Tenho tanta certeza como tenho a certeza que tu sentes o mesmo por mim.
Ela tremeu, talvez de frio, talvez de receio. Evitava olhar para ele, mas o mar de azul era impossível de evitar e ela dava por si a olha-lo como um caçador à beira da sua presa. Também ela o desejava. E ele estava agora ali, tão perto dela que o cheiro do seu perfume chegava a ser intoxicante.
Mais, ele dissera que a amava. Poderia confiar nele? Algo nos olhos dele dizia que sim. Algo dentro dela lhe dizia para acreditar naquelas palavras tão sinceras.
Tomou a dianteira e aproximou os seus lábios dos dele. A partir do momento em que o beijo foi selado, foi como se duas bestas tivessem sido libertadas das suas jaulas. Ele cobriu o corpo dele sobre o dela, passando as suas mãos pelas suas ancas e tronco. Beijou-lhe o pescoço, fazendo-a suspirar e voltou a tomar a boca dela. Mari sentiu um choque de electricidade a percorrer pelo corpo dela. Não se conseguia mexer, mas também não tinha intenções para tal. Ele pareceu ter-se esquecido dos pudores e não hesitou em tocar em cada zona do corpo dela ao seu alcance. Conseguiu estabelecer limites a si próprio, fazendo questão que nenhum dos dois tomasse o próximo passo. Ele esperaria, tal como tinha esperado tanto tempo por aquele momento. Esperaria por ela, para quando o momento fosse mais adequado. Nessa altura, ele iria se esquecer de todas as mulheres com quem se tinha deitado e seria apenas dele. Só dela.
As ondas do mar começavam a acalmar e a fogueira começava a perder lume, tal como o desejo dos dois jovens que, apesar de separarem as bocas, ainda estavam juntos. Mari fechou os olhos:
-Tenho medo – sussurrou ela.
-Medo de quê?
-De te perder…
Kenji fitou-a, confuso.
-Perder-me? Mari. – Ao ver que a loira evitava o olhar dele, elevou-a o suficiente para a sentar junto a uma rocha, ele junto dela. – Tu não me vais perder. Eu não te vou abandonar.
Mari desviou o rosto e ergueu-se, olhando para o luar. Ele levantou-se também, sem saber o que fazer:
-Mari… - não conseguiu dizer mais nada. Não sabia que dizer. Quem diria que era tão difícil falar com as mulheres. O homem que criasse o livro “Como entender as mulheres” devia ser galardoado com o prémio Nobel da Paz durante um século inteirinho.
De repente, ela virou-se para ele, o rosto firme como rocha. Aproximou-se e depositou um suave beijo nos lábios dele.
-Eu sei que não me abandonarás… pelo menos voluntariamente.
Havia algo nas últimas palavras que chamou a atenção de Kenji, mas Mari parecia ainda mais aflita com a ideia do que ele próprio, por isso não insistiu, abraçando-a com ternura. Mas o seu sonho, o tempo a escassear, Mari… ela tinha premonições… estaria aquilo tudo a indicar a morte dele? Ou algo mais?
**
-Estás a esconder-me qualquer coisa.
Linda sabia que era uma afirmação, não uma pergunta. Por isso, não conseguiu evitar morder o lábio. Oxalá pudesse perder esse tique…
Eiji suspirou pesadamente. Daria todo o dinheiro do mundo para saber o que Linda pensava.
-Tenho algo a fazer. – Confessou ela, num tom baixo.
-O quê?
Linda não respondeu, perdida em pensamentos. Nas últimas horas, tomara consciência de muitos factos até agora desconhecidos. E mais de metade assombravam os seus pensamentos… e a sua vida.
**
Mari e Kenji calçavam-se quando Cecília e Setsu apareceram, vindos do café, com Eiji e Linda atrás.
-Admite! – Gritou a morena, eufórica.
-Pronto, eu admito. És sexy! – Disse Setsu, num tom derrotado. Cecília deu um pequeno salto de alegria, fazendo uma pequena dança de vitória.
Foi a primeira a entrar no carro de Setsu, enquanto os irmãos Yamamoto seguiram-na. Eiji, antes de entrar no carro, tornou a olhar para a namorada. Ainda mantinha o seu olhar nostálgico. Um dia… um dia…
Mari e Kenji entreolharam-se. Ele sorriu, gesto correspondido. Ela tocou na mão dele e depois, hesitante, afastou-a, dirigindo-se para a mota de Kenji, estacionada ao lado do carro vermelho do moreno. Ainda sorria quando colocou o capacete.
Kenji ia segui-la quando o olhar dele cruzou-se com o da irmã.
Nenhum deles eram profetas, mas ambos sabiam que algo errado estava prestes a acontecer. Ele fazia uma ideia... uma ideia que o aterrorizava. Mas Linda não. Ela apenas podia especular.
Não havia forma. Se queria saber mais, tinha que fazer aquilo que ela mais temia. Voltar ao mesmo sítio que ela fugira meses antes.
Estava decidido. Iria voltar ao Palácio.
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[7] https://www.youtube.com/watch?v=dYeGw-bo430 para o caso…
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Pois bem, aqui está. Não se esqueçam de deixar comentário. Podem até dizer qual foi o casalinho que mais gostaram neste capítulo.

Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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