A Guardiã dos Sonhos
Ai, o ansiado capitulo! Oh Ana, se soubesses as vezes que eu vinha ver se tinhas postado nestas ultimas semanas! Andava mesmo com saudades da fic! E, My god tu escreves que ta fartas rapariga! Eu ia a meio do capitulo e já pensava "Oh, deve estar a acabar", mas de repente, paw, mais meio metro de texto! 
A primeira parte é aquela base, o tempo a decorrer as coisas a "estabilizar" (No que diz respeito a uma vida de adolescente normal!
), alguns esclarecimentos, umas partes cómicas "(e talvez a pior noticia para algumas raparigas), Eiji estava agora fora do ‘mercado’" (adorei o termo) e a cena do flagrante pela professora de Inglês!
Já para não falar no picuinhas! 
Capitulo absolutamente esclarecedor e interessante.
Gostei da tua versão personalizada no Milénio prateado! Valeu a pena! Os poderes da Agnes/Linda nem sei se me deixam tranquila ou preocupada!
Gostei de saber o passado do Edward e da Coelhinha!
Só ainda estou em vias de entendimento daquilo que os deixou tão afastados. Já começo a ter uma luz, mas não vou deitar palpites ao ar (O que costuma resultar nas aulas de portugues, em que não faço praticamente nenhum, e mando bocas á toa e a professora acha que eu estudo muito! É louca
), Enfim, vou deixar que desvendes timtim por timtim antes de dar opinião!
Agora, cenas tipicamente adolescentes, que eu gosto
Casal preferido --» Sem duvida a Mari e o Kenji! Dá-me mesmo pica, apesar de não serem os protagonistas!
Achei muito fofa a forma como o Kenji disse que gostava dela!
Ainda bem que se resolveram! 
O Eiji e a Linda são um casal mais... Digamos... Casal! Calminhos aparentemente, mas depois, pumbas, apanhados atrás da escola nas "indecências"! kekeke!
Depois, A Cecy e o Setsu! Aquilo é que são verdadeiras vacinas! sempre a picarem-se um ao outro! E viva a Cecilia que pôs o ego do rapaz para baixo e outra coisa para cima (Ai cala-te Lulu!
') Grande voz, hein?!
Ora bem, mal posso esperar pela visita ao palácio, acho que é um momento muito esperado, mesmo! Estou ansiosa pelos reencontros de pais e filhos!
Podes não ter gostado do capitulo, mas a minha opinião não se altera em relação a esta fic! Vale muitíssimo a pena lê-la e esperar por cada capitulo, por muito tempo que demores! Espero que não sejas daquelas que desistem a meio! sei que ás vezes há vontade, mas não me faças isto! ;_; Eu quero saber mais sobre esta historia!
Acho que me vou colar ao PC só para ler outro capitulo!
Ah, agora um assunto há parte! O meu aniversário! Oh, Lol!
eu sou meia estranha no que toca a aniversários! Sou tipo Cecilia, apesar de não ter nenhum trauma, odeio esse dia! Quer dizer, tou a ficar mais velha!
' MAs o chocante é que quanto mais eu digo que não quero presentes (e não quero mesmo!), mais os meus amigos me dão! Há um ano foram chamar desconhecidos para ajudarem a comprar uma coisa que eu... Wow, achei uma loucura total! Anyway, cada um lá sabe, mas obrigada por me dedicares a atençãozinha especial, por acaso ninguém me desejou os anos no forum, mas eu não me importo! ;D
Se calhar, só para que saibas, vou publicar uma fic cá no forum que estou a escrever, mas primeiro vou andar com a historia para a frente antes de a postar. São capitulos pequenos (Sim, estou a reduzir, já disse que não gosto de fazer coisas grandes demais!
) e uma historia simples passada nos anos 50! O meu maior problema é arranjar sons da epoca, porque gostava de em cada capitulo adequar uma musica, mas depois logo vejo! Lembrei-me de falar desta fic porque os teus capitulos são gigantes e nestes momentos eu penso "OMFG, eu ando a escrever migalhinhas á beira desta rapariga!" o.O
Outra coisa (Eu hoje não me calo) também tenho muita curiosidade sobre o livro "E tudo o vento levou", ainda hoje usei essa expressão depois de a minha professora me dar um raspanete por eu afiar o lapis á janela, mas nem por isso conheço a obra ou sei do que trata!
'
Finalmente, não tenho mais nada a dizer para te massacrar, e espero ansiosamnete por outra capitulo! (Esta frase já é histórica! (E lá estou eu a falar!
) )
Fui!
Bjokas!

A primeira parte é aquela base, o tempo a decorrer as coisas a "estabilizar" (No que diz respeito a uma vida de adolescente normal!
), alguns esclarecimentos, umas partes cómicas "(e talvez a pior noticia para algumas raparigas), Eiji estava agora fora do ‘mercado’" (adorei o termo) e a cena do flagrante pela professora de Inglês!
Já para não falar no picuinhas! 
Capitulo absolutamente esclarecedor e interessante.
Gostei da tua versão personalizada no Milénio prateado! Valeu a pena! Os poderes da Agnes/Linda nem sei se me deixam tranquila ou preocupada!

Gostei de saber o passado do Edward e da Coelhinha!
Só ainda estou em vias de entendimento daquilo que os deixou tão afastados. Já começo a ter uma luz, mas não vou deitar palpites ao ar (O que costuma resultar nas aulas de portugues, em que não faço praticamente nenhum, e mando bocas á toa e a professora acha que eu estudo muito! É louca
), Enfim, vou deixar que desvendes timtim por timtim antes de dar opinião!Agora, cenas tipicamente adolescentes, que eu gosto

Casal preferido --» Sem duvida a Mari e o Kenji! Dá-me mesmo pica, apesar de não serem os protagonistas!
Achei muito fofa a forma como o Kenji disse que gostava dela!
Ainda bem que se resolveram! 
O Eiji e a Linda são um casal mais... Digamos... Casal! Calminhos aparentemente, mas depois, pumbas, apanhados atrás da escola nas "indecências"! kekeke!
Depois, A Cecy e o Setsu! Aquilo é que são verdadeiras vacinas! sempre a picarem-se um ao outro! E viva a Cecilia que pôs o ego do rapaz para baixo e outra coisa para cima (Ai cala-te Lulu!
') Grande voz, hein?!Ora bem, mal posso esperar pela visita ao palácio, acho que é um momento muito esperado, mesmo! Estou ansiosa pelos reencontros de pais e filhos!
Podes não ter gostado do capitulo, mas a minha opinião não se altera em relação a esta fic! Vale muitíssimo a pena lê-la e esperar por cada capitulo, por muito tempo que demores! Espero que não sejas daquelas que desistem a meio! sei que ás vezes há vontade, mas não me faças isto! ;_; Eu quero saber mais sobre esta historia!
Acho que me vou colar ao PC só para ler outro capitulo!
Ah, agora um assunto há parte! O meu aniversário! Oh, Lol!
eu sou meia estranha no que toca a aniversários! Sou tipo Cecilia, apesar de não ter nenhum trauma, odeio esse dia! Quer dizer, tou a ficar mais velha!
' MAs o chocante é que quanto mais eu digo que não quero presentes (e não quero mesmo!), mais os meus amigos me dão! Há um ano foram chamar desconhecidos para ajudarem a comprar uma coisa que eu... Wow, achei uma loucura total! Anyway, cada um lá sabe, mas obrigada por me dedicares a atençãozinha especial, por acaso ninguém me desejou os anos no forum, mas eu não me importo! ;DSe calhar, só para que saibas, vou publicar uma fic cá no forum que estou a escrever, mas primeiro vou andar com a historia para a frente antes de a postar. São capitulos pequenos (Sim, estou a reduzir, já disse que não gosto de fazer coisas grandes demais!
) e uma historia simples passada nos anos 50! O meu maior problema é arranjar sons da epoca, porque gostava de em cada capitulo adequar uma musica, mas depois logo vejo! Lembrei-me de falar desta fic porque os teus capitulos são gigantes e nestes momentos eu penso "OMFG, eu ando a escrever migalhinhas á beira desta rapariga!" o.OOutra coisa (Eu hoje não me calo) também tenho muita curiosidade sobre o livro "E tudo o vento levou", ainda hoje usei essa expressão depois de a minha professora me dar um raspanete por eu afiar o lapis á janela, mas nem por isso conheço a obra ou sei do que trata!
'Finalmente, não tenho mais nada a dizer para te massacrar, e espero ansiosamnete por outra capitulo! (Esta frase já é histórica! (E lá estou eu a falar!
) )Fui!
Bjokas!
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Olá Ana!
Ena pá, que capítulo! E ainda dizes que não gostas dele!
Tá incrível! Adorei!
Infelizmente não tenho tanto jeito para comments como a Lulumoon e ela claramente disse tudo!
O Eiji e a Linda são um casal mais... Digamos... Casal! Calminhos aparentemente, mas depois, pumbas, apanhados atrás da escola nas "indecências"! kekeke!
Lulumooon amei este comentário!
O meu casalinho preferido foi a Mari e o Kenji. Tá linda a cena na praia. Curiosamente parece o sonho que a Mari teve. Acho que aquilo era uma premonição.
Eu gostei de todo o capítulo. Foi muito engraçado ver as desventuras entre o Edward e a Coelha,loool. Que lhes aconteceu para ficarem tão diferentes....
Se a Cecily imaginasse de onde vem o nome,lool, o Kenji estava frito!
Fiquei com uma dúvida. Como sabia a Cecy que a Linda só entrava nos sonhos a dormir? E o que percebeu ela que está a esconder das amigas, perdi-me um pouco nessa parte...
Bem isto entre a Cecy e o Setsu já parece o Eddie e a Usagi! Hum...estes dois.....
E é verdade que escreves imenso, deve dar-te imenso trabalho, mas a mim dá-me imenso prazer ler e não há necessidade de paciência.
Outra vez aquela voz misteriosa do Kenji....
E a questão do tempo a esgotar-se, algo de mau prestes a acontecer...
O Kenji nunca deixaria a Mari e é péssimo se acontecer algo que provoque isso.
Sei que já decidiste o final e quase aposto que um dos meus casais preferidos, Linda e Eiji vão acabar separados. Mas tenho imensa pena, tendo em conta o que aconteceu à Linda na vida passada, desta vez as coisas deviam ser diferentes...
Bem deixaste-me a morrer de curiosidade pelo próximo e isso não se faz!!!
Ficarei à espera!
Já agora Lulumoon parabéns atrasados.
Bjo*
Ena pá, que capítulo! E ainda dizes que não gostas dele!
Tá incrível! Adorei!
Infelizmente não tenho tanto jeito para comments como a Lulumoon e ela claramente disse tudo!
O Eiji e a Linda são um casal mais... Digamos... Casal! Calminhos aparentemente, mas depois, pumbas, apanhados atrás da escola nas "indecências"! kekeke!
Lulumooon amei este comentário!
O meu casalinho preferido foi a Mari e o Kenji. Tá linda a cena na praia. Curiosamente parece o sonho que a Mari teve. Acho que aquilo era uma premonição.
Eu gostei de todo o capítulo. Foi muito engraçado ver as desventuras entre o Edward e a Coelha,loool. Que lhes aconteceu para ficarem tão diferentes....
Se a Cecily imaginasse de onde vem o nome,lool, o Kenji estava frito!
Fiquei com uma dúvida. Como sabia a Cecy que a Linda só entrava nos sonhos a dormir? E o que percebeu ela que está a esconder das amigas, perdi-me um pouco nessa parte...
Bem isto entre a Cecy e o Setsu já parece o Eddie e a Usagi! Hum...estes dois.....
E é verdade que escreves imenso, deve dar-te imenso trabalho, mas a mim dá-me imenso prazer ler e não há necessidade de paciência.

Outra vez aquela voz misteriosa do Kenji....
E a questão do tempo a esgotar-se, algo de mau prestes a acontecer...
O Kenji nunca deixaria a Mari e é péssimo se acontecer algo que provoque isso.
Sei que já decidiste o final e quase aposto que um dos meus casais preferidos, Linda e Eiji vão acabar separados. Mas tenho imensa pena, tendo em conta o que aconteceu à Linda na vida passada, desta vez as coisas deviam ser diferentes...
Bem deixaste-me a morrer de curiosidade pelo próximo e isso não se faz!!!
Ficarei à espera!
Já agora Lulumoon parabéns atrasados.

Bjo*
Ai Aninha
Como é que podes dizer que não gostas do capitulo? Tá tão lindo
E enorme... (São tão bons os capítulos enormes XD)
Bem eu não tenho jeito para comentários enormes e a lulumoon e a Bun já disseram tudo...
Adorei saber da história do Edward e da Coelhinha XD Mas agora ainda me deixas-te mais curiosa sobre o que se passou para eles tratarem assim a Linda...
Casal favorito... Mari e Kenji sem dúvida. A declaração dele foi tão fofa
A cena da Cecília e do Setsu está hilariante XD Agora é que ele já não a larga...
Se continuares a escrever assim os teus leitores começam a colar-se ao ecrã...
E agora, como diz a Lulumoon:
Beijinhos
PS- Parabéns atrasados lulumoon
Como é que podes dizer que não gostas do capitulo? Tá tão lindo
E enorme... (São tão bons os capítulos enormes XD)Bem eu não tenho jeito para comentários enormes e a lulumoon e a Bun já disseram tudo...
Adorei saber da história do Edward e da Coelhinha XD Mas agora ainda me deixas-te mais curiosa sobre o que se passou para eles tratarem assim a Linda...
Casal favorito... Mari e Kenji sem dúvida. A declaração dele foi tão fofa

A cena da Cecília e do Setsu está hilariante XD Agora é que ele já não a larga...
Se continuares a escrever assim os teus leitores começam a colar-se ao ecrã...
E agora, como diz a Lulumoon:
lulumoon escreveu:espero ansiosamnete por outra capitulo!
Beijinhos
PS- Parabéns atrasados lulumoon

Ui.. tão bons comentários
Assim sim, já me dá vontade de escrever mais um capítulo 
Lulumoon: Pois.. isso é um grande problema meu. Já nas composições de portugues sou daquelas que ultrapassa o limite de palavras bem depressa. Depois é chato, tenho que andar sempre a contar, a tirar palavras, a refazer frases, a contar outra vez...
Ya, eu tbm não gosto muito do meu aniversário. Fico sempre deprimida nesse dia, por isso prefiro passa-lo como um dia qualquer. Mas claro que certas pessoas (nomeadamente uma amiga que é louca por festas, uma mãe que nunca esqueçe o dia do parto e uma irmã que faz anos no dia anterior
) gostam de me lembrar disso constantemente. Sinto-me velha e cheia de responsabilidades para além de fazer anos no final de Agosto. A chegada o meu aniversário é o fim das férias (literalmente
).
Acerca do cap.. eheheh, baseiei-me estas ceninhas da Linda e do Eiji num casal que eu conheço na minha escola. São do género, super queridinhos e de repentes.. PASS, o vigilante da escola apanha-os e dá-lhes um raspanete
A Mari e o Kenji tbm são dos que eu mais gosto. E acho que sei porque gostas muito deles. Este tipo de relação é muito semelhante ao de Usagi e Mamoru (mel, mel, mel e mais mel), enquanto Linda já é outra história.
Acerca dos outros casais: garanto-te que nos próximos dois capítulos vais descobrir (em parte) o que tornou aqueles dois tão diferentes. Já a Cecília... bem, é para esperar pelo fim da fanfic (que eu vou acabar, está garantido. Só me faltam cinco capítulos, porque haveria de estar agora a vacilar...)
Ui, nova fanfic O_O já estou curiosa! avisa quando postares sff
quero mesmo ver aquilo que vai sair (e nos anos 50 ainda por cima. Tempo pós-guerra, e o aumento das classes sociais.. menos em Portugal que estava em censura
)
Também tenho uma nova ideia. E acredita que adoro-a. Tem dois protagonistas em vez de um, apesar de a história estar mais centrada em... esqueçe, estou a falar demais. Nunca hei-de escrever esta história, apesar se estar com mais vontade de escrever esta do que a "Onde estás Endymion?". Mas paciencia. Depois de acabar estas duas, não volto a escrever.
A curiosidade é muita mesmo. Fico um pouco desanimada ao ver o tamanho do livro (do género, mais páginas = maior probabilidade de conter palha = grande seca... já dá para ver que jamais lerei o Eragon xDD) mas ainda assim hei-de le-lo.
Bun: Obrigada
Era para neste capítulo a Linda chibar-se e a Cecy acabar por descobrir de onde vinha o nome, mas mudei de ideias. Ainda há mais capítulos para isso x)
Acerca da tua dúvida- Reli o paragrafo e por acaso não fui muito clara. A Cecília disse que a Linda entrava nos sonhos das pessoas quando ela estava a dormir porque era a coisa mais obvia. As pessoas só sonham quando dormem
Mas a Li percebeu pelos olhares dos dois que "a dormir" não é a expressão mais correcta. Se não percebeste desculpa, mas no proximo vais entender
O que te faz achar que a Linda e o Eiji vão acabar separados? ok, eu vou dizer um spoiler do final: Prometo que pelo menos um dos dois vai viver e ser feliz até ao fim dos seus dias, com filhinhos e netinhos a subir-lhe ao colo.
A Voz... ahaha, só teve uma frase neste capítulo mas ainda assim ficaste curiosa. Garanto-te que vai demorar um pouco até descobrirmos porque é que ela 'fala', mas acho que, quando descobrirem vão ficar: ai, que afinal...
Mais uma vez muito obrigada pelo comentário e assiduidade
Moonserenidade: Obrigada Moon. Ainda bem que gostaste da declaração do Kenji. Nem sabes as voltas que dei à cabeça para afazer, mas decidi no final por uma luta na areia
(OMFG que o meu comentário acabou por ficar do tamanho de um capítulo O_O)
Ok, só mesmo proque adoro por-vos a subir as paredes de curiosidade.
Próximo capítulo: No seu elemento
Neste capítulo, Linda vai ao palácio, mas coisas acontecem antes de ela sequer por os pés dentro do edificio.
Ela consegue finalmente controlar o seu poder, após uma ajuda preciosa e acaba por descobrir mais sobre a sua inimiga. Entretanto, reencontra os pais e estes têm muito para lhe dizer...
Assim sim, já me dá vontade de escrever mais um capítulo 
Lulumoon: Pois.. isso é um grande problema meu. Já nas composições de portugues sou daquelas que ultrapassa o limite de palavras bem depressa. Depois é chato, tenho que andar sempre a contar, a tirar palavras, a refazer frases, a contar outra vez...

Ya, eu tbm não gosto muito do meu aniversário. Fico sempre deprimida nesse dia, por isso prefiro passa-lo como um dia qualquer. Mas claro que certas pessoas (nomeadamente uma amiga que é louca por festas, uma mãe que nunca esqueçe o dia do parto e uma irmã que faz anos no dia anterior
) gostam de me lembrar disso constantemente. Sinto-me velha e cheia de responsabilidades para além de fazer anos no final de Agosto. A chegada o meu aniversário é o fim das férias (literalmente
).Acerca do cap.. eheheh, baseiei-me estas ceninhas da Linda e do Eiji num casal que eu conheço na minha escola. São do género, super queridinhos e de repentes.. PASS, o vigilante da escola apanha-os e dá-lhes um raspanete
A Mari e o Kenji tbm são dos que eu mais gosto. E acho que sei porque gostas muito deles. Este tipo de relação é muito semelhante ao de Usagi e Mamoru (mel, mel, mel e mais mel), enquanto Linda já é outra história.
Acerca dos outros casais: garanto-te que nos próximos dois capítulos vais descobrir (em parte) o que tornou aqueles dois tão diferentes. Já a Cecília... bem, é para esperar pelo fim da fanfic (que eu vou acabar, está garantido. Só me faltam cinco capítulos, porque haveria de estar agora a vacilar...)
Ui, nova fanfic O_O já estou curiosa! avisa quando postares sff
quero mesmo ver aquilo que vai sair (e nos anos 50 ainda por cima. Tempo pós-guerra, e o aumento das classes sociais.. menos em Portugal que estava em censura
)Também tenho uma nova ideia. E acredita que adoro-a. Tem dois protagonistas em vez de um, apesar de a história estar mais centrada em... esqueçe, estou a falar demais. Nunca hei-de escrever esta história, apesar se estar com mais vontade de escrever esta do que a "Onde estás Endymion?". Mas paciencia. Depois de acabar estas duas, não volto a escrever.
A curiosidade é muita mesmo. Fico um pouco desanimada ao ver o tamanho do livro (do género, mais páginas = maior probabilidade de conter palha = grande seca... já dá para ver que jamais lerei o Eragon xDD) mas ainda assim hei-de le-lo.
Bun: Obrigada

Era para neste capítulo a Linda chibar-se e a Cecy acabar por descobrir de onde vinha o nome, mas mudei de ideias. Ainda há mais capítulos para isso x)
Acerca da tua dúvida- Reli o paragrafo e por acaso não fui muito clara. A Cecília disse que a Linda entrava nos sonhos das pessoas quando ela estava a dormir porque era a coisa mais obvia. As pessoas só sonham quando dormem

Mas a Li percebeu pelos olhares dos dois que "a dormir" não é a expressão mais correcta. Se não percebeste desculpa, mas no proximo vais entender

O que te faz achar que a Linda e o Eiji vão acabar separados? ok, eu vou dizer um spoiler do final: Prometo que pelo menos um dos dois vai viver e ser feliz até ao fim dos seus dias, com filhinhos e netinhos a subir-lhe ao colo.
A Voz... ahaha, só teve uma frase neste capítulo mas ainda assim ficaste curiosa. Garanto-te que vai demorar um pouco até descobrirmos porque é que ela 'fala', mas acho que, quando descobrirem vão ficar: ai, que afinal...
Mais uma vez muito obrigada pelo comentário e assiduidade

Moonserenidade: Obrigada Moon. Ainda bem que gostaste da declaração do Kenji. Nem sabes as voltas que dei à cabeça para afazer, mas decidi no final por uma luta na areia

(OMFG que o meu comentário acabou por ficar do tamanho de um capítulo O_O)
Ok, só mesmo proque adoro por-vos a subir as paredes de curiosidade.
Próximo capítulo: No seu elemento
Neste capítulo, Linda vai ao palácio, mas coisas acontecem antes de ela sequer por os pés dentro do edificio.
Ela consegue finalmente controlar o seu poder, após uma ajuda preciosa e acaba por descobrir mais sobre a sua inimiga. Entretanto, reencontra os pais e estes têm muito para lhe dizer...
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
Ah!!! Mal posso esperar!agora que vem as ferias pode ser que consigas ser mais rapidinha! ^~
Obrigada pelos parabens a todas
' (este topico vai virar o local de me darem parabens!
)
Oh Ana, olha que eu quando acabei Angelical tambem dizia que nao ia escrever mais nada, e fui a ver, pronto!
se me permites a pergunta, em que escola andas?
Obrigada pelos parabens a todas
' (este topico vai virar o local de me darem parabens!
)Oh Ana, olha que eu quando acabei Angelical tambem dizia que nao ia escrever mais nada, e fui a ver, pronto!

se me permites a pergunta, em que escola andas?
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
(ás tantas ainda vai dar
)
Mas eu queria acabar o meu "tempo de escritora" antes de ir para a faculdade, porque aí deixarei de ter muito tempo para actualizar as fanfics e isso era uma pena para os leitores (detesto quando não acabam uma fanfic que eu adoro). Se conseguisse acabar estas duas bem depressa, vem que começava a outra, mas ás tantas não vai dar...
E quando é que vais postar a tua fanfic? Preciso de historinhas novas para ler
)Mas eu queria acabar o meu "tempo de escritora" antes de ir para a faculdade, porque aí deixarei de ter muito tempo para actualizar as fanfics e isso era uma pena para os leitores (detesto quando não acabam uma fanfic que eu adoro). Se conseguisse acabar estas duas bem depressa, vem que começava a outra, mas ás tantas não vai dar...
E quando é que vais postar a tua fanfic? Preciso de historinhas novas para ler

Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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Pois, eu tambem concordo, tambem nao queria estar envolvida noutra fic em tempo de aulas, mas enfim. Tipo eu ainda nao sei quando vou postar! Tenho ajustar umas coisas e adianta-la, porque se nao andar com ela para a frente nem sequer aqui a meto! XD
as minhas fic's:
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-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Olá people. Tiveram um bom Natal? Entraram bem em 2011? Espero que sim. Comigo correu tudo bem, recebi umas boas prendinhas e estou feliz (e com a barriga cheia de doçes
).
Ora bem, aqui está mais um capítulo. Desculpem a demora, mas eu sofro de uma doença crónica incúrável, chamada Preguicite Aguda e, infelizmente, deu-me um ataque durante as férias. Mas lá apanhei o ritmo e cá estou eu de novo. Tenho o prazer de anunciar que apenas faltam quatro capítulos e, se conseguir continuar com a proeza de postar um novo capítulo por mês (mais coisa menos coisa), acabar antes de Abril.
Este capítulo é centrado na Linda e nos pais dela, apesar de Dawson e Kenji serem também muito bem mencionados. Espero que gostem, pois finalmente aparecem umas luzinhas sobre o que aconteceu quando a Linda nasceu.
--------------------------------------
25-No seu elemento
Já dizia Einstein:Temos o destino que merecemos. O nosso destino está de acordo com os nossos méritos. Mas poderia homem tão racional pensar em detalhes tão subjectivos como o ‘acaso’? Um homem nasce sem saber nada, aprende e esquece, ganha ou perde méritos. Mas poderá um homem cheio de méritos ter um destino sorridente? Poderá uma rapariga que tem tudo para ser feliz… falhar só por causa do acaso?
Ninguém espera que, após uma vida condenada ao sofrimento, uma réstia de sol ilumine o rosto pálido de um homem, nem tampouco um homem brilhante espera que uma nuvem negra arraste todo o seu sucesso de anos em apenas escassos minutos. O destino é como uma teia de aranha frágil, que se pode quebrar apenas com um pequeno passo em falso.
O Homem não controla o destino, apenas vive. E, para uns, viver não é uma actividade tão interessante quanto parece. Uns procuram sair da monotonia, outros procurar aborrecer ainda mais a sua patética vida. Uns querem ser vulgares, outros não.
Talvez depois desta conclusão, as pessoas tendem a pensar “Mas afinal, controlamos o nosso destino, ou não?”. A resposta para esta pergunta é relativa, tal como a beleza de uma mulher ou de uma obra de arte. Uns dirão que ‘sim’, outros que ‘não’ e até dentro dessas respostas, encontraremos pequenas linhas que traçam diferentes opiniões do Homem.
Mas falamos do Homem vulgar, Homo sapiens, aquele que nasce, vive e morre. Não falamos de uma rapariga que, apesar de estar com os pés na Terra, a cabeça estava na Lua. Não porque estivesse distraída, mas porque pensava na Lua.
Para ela, o destino era uma rede de acasos que construía a linha da Vida, criando bifurcações, caminhos sem saída, rotundas e caminhos em linha recta, até que chega uma altura em que o caminho acaba, não se pode voltar atrás e vemo-nos perdidos. O destino acaba. A Vida acaba.
Os leves raios de sol entraram pela janela do seu quarto, iluminando a divisão. Ela estava sentada junto à secretária, as mãos a teclarem no seu computador portátil.
Finalmente, após uma leve reflexão, decidiu fechar as janelas abertas no computador e iniciar uma nova pesquisa. Havia começado a procurar mais informações acerca de Agnes, mas não tivera sorte nenhuma. Fora cantoras, actrizes e modelos, o máximo que encontrara fora uma santa mártir virgem, que morreu com treze anos por não querer casar.
Escreveu “Morfeu” no motor de busca. Milhões de resultados surgiram de imediato. Clicou no primeiro que viu.
“Morfeu é o deus grego dos sonhos. Tem a habilidade de assumir qualquer forma humana e aparecer nos sonhos das pessoas como se fosse a pessoa amada por aquele determinado indivíduo. Seu pai é o deus Hipnos, do sono. Os filhos de Hipnos, os Oneiroi, são personificações de sonhos, sendo eles Icelus (Phobetor), e Phantasos. Morfeu foi mencionado no Metamorphoses de Ovídio como um deus vivendo numa cama feita de ébano numa escura caverna decorada como flores.”
A rapariga suspirou. Caverna escura? Sim, verdade que ele uma vez a levara para uma caverna decorada com flores da Terra e uma cama de ébano, mas isso não provava que ele lá vivia. Morfeu sempre vivera em palácios, apesar de ser pessoa de passear pelos montes, vales, rios e campos. De que outro modo ele amaria tanto a Terra…
Perguntou-se aonde é que os gregos foram buscar aquelas informações, parte verdade, parte mito. Será que alguém escreveu aqueles relatos? Se sim, como teriam sabido? Aquela memória na caverna era… especial. Fora a primeira vez em que os dois se haviam tornado amantes e não havia forma de ninguém saber disso. Provavelmente adivinharam ou então juntaram alguns factos reais, criando uma história verosímil.
Linda abanou a cabeça, incomodada. Ainda era estranho ter memórias de uma vida anterior, completamente diferente da sua.
Releu as informações acerca de Morfeu. Logo a segunda frase chamou-lhe a atenção. Tem a habilidade de assumir qualquer forma humana e aparecer nos sonhos das pessoas como se fosse a pessoa amada por aquele determinado indivíduo. Essa era nova.
Tanto quanto Linda sabia, sempre que entrava nos sonhos das pessoas, era como um fantasma que pairava no ar. Poderia ela também tornar a forma de uma pessoa amada pelo indivíduo cujo sonho invadira? Ou teria ela já feito isso? Kenji com Mari, Hiroíto com Cecília e ela própria com Kenji.
Aquilo era muito confuso…
Linda desligou o computador e arrastou-se para fora do quarto. Na sala, as notícias do meio-dia informavam os espectadores dos acontecimentos mais marcantes das últimas vinte e quatro horas. Um acidente na auto-estrada ceifara a vida de dois homens e pusera uma criança em grave perigo de vida, uma mulher assassinara o marido a sangue frio só porque este insultara o seu chefe e o Governo da Áustria apresentava novas medidas para melhorar a taxa de desemprego, provocada pela soberania comercial da China no país.
Algumas notícias eram frescas, apanhavam o espectador de surpresa e este ficava mais interessado, curioso para saber o que acontecera. Outras eram consequências das decisões feitas em meses anteriores. No caso da Áustria, era isso mesmo. Linda lembrava-se de ver o primeiro-ministro da Áustria discursar para o Parlamento, a dezassete de Fevereiro, três dias depois da visita de Naomi e Seiji… faziam hoje quatro meses.
Ela dissera a Kenji e a Eiji que iria ao Palácio. Mas era mais fácil dizer do que fazer. Não por falta de coragem, mas por nervosismo, evitou avançar com a decisão o máximo possível. Passou Março e Abril, vieram as chuvas da Primavera e as temperaturas subiram um pouco, passando a ser possível passear pelas ruas sem cachecóis e camisolas de gola alta. Chegou Maio e Junho e com o último, veio o fim das aulas. Linda passara, assim como os outros. Mari quase que reprovara a matemática, mas logo no fim conseguiu uma boa nota no teste que garantiu a sua transição à disciplina. Os tempos livres foram passados normalmente. Não havia nada de errado. Dawson não atacara mais e não parecia haver mais nenhuma dificuldade na vida de Linda, a não ser a ida ao palácio. Namorara, passeara com os seus amigos…
Gozara uma perfeita vida normal.
Que irónico. Ela sempre sonhara com uma vida normal, sem ser princesa, tendo amigos, um namorado, tendo o irmão ao seu lado, podendo concentrar-se nos estudos. Agora tinha isso tudo. Não tinha oportunidades para ser navegante, nem princesa. Podia ser perfeitamente normal.
Que irónico. Uma pessoa apenas apercebe-se de quanto o vulgar é ridículo quando finalmente o invulgar desaparece das nossas vidas. Habituamo-nos a um rumo cheio de percalços, que nos sobem a adrenalina, a ira e a felicidade. Mas, num mundo vulgar e monótono, as coisas não eram assim. Ela agora pensava apenas no namorado, nos amigos e nos estudos. Pela primeira vez, tornou-se aborrecido estudar, tornou-se aborrecido estar sempre a sair aos fins-de-semana para ir ao cinema, discotecas ou outros sítios, tornou-se até chato poder passar o dia sem correr o risco de perder o temperamento.
Talvez porque agora tinha as coisas como garantidas. Não tinha que lutar para estudar, não tinha dificuldade nenhuma em coisa alguma. Estava tudo calmo. Demasiado calmo, pensou Linda, deitando uma olhadela à sua volta. Era domingo, Mari tinha saído com Kenji e Aiko estava a fazer o almoço, cantarolando uma música enquanto descascava batatas.
Suspirou, aborrecida.
-Aiko? – Chamou, dirigindo-se para a cozinha.
-Sim, querida? – Respondeu a senhora, sempre animada.
-Quando é que a Mari volta?
-Ela disse que hoje não vinha almoçar. Deve ir com o namorado a algum sítio.
Linda revirou os olhos. Então hoje não podia contar nem com a amiga, nem com o irmão. Logo naquele dia…
Sabia que Cecília tinha ido a Kyoto com o pai e que só voltava na Terça e que Setsu tinha ido… bem, ela não sabia aonde, mas sabia que ele tinha um encontro para o dia todo. Ou seja, restava-lhe a bomba.
A bomba. De que outra forma falaria do seu próprio namorado? Com uma série de temperamentos controláveis e olhos semi-cerrados, Linda podia ver que ele estava furioso com alguma coisa. E isso reflectia-se nas suas acções. Já não parecia mais carinhoso com ela. E, de certa forma, tinha toda a razão.
Sempre que estava com Eiji, falava para ele normalmente, mas aquilo que sucedera meses antes não lhe saía da cabeça e ele notava nisso. Ela estava a abusar da sorte. Desde que ele a ajudara a erguer-se depois da última batalha que lhe devia respostas e ela ainda não lhe tinha dado nenhumas. E o facto de todos menos ele e Setsu (que nem tinha vontade de saber) saberem de tudo, punha-lo ainda mais irritado.
E ela evitava-o. Evitava a ele e à ida ao palácio, feita cobarde.
-Raiva! – Disse ela, libertando fúria pelos poros da pele. Fúria hipócrita, de tão falsa que era. Ela não estava zangada com ele, mas sim consigo própria. Jamais conseguiria fazer as coisas direito. Haveria sempre algo a separá-la de Eiji, porque ela nunca lhe contava todos os detalhes. Seja o seu berço, seja um dom de nascença, seja a sua verdadeira personalidade. Escondia sempre algo dele e, no fundo, Linda entendia a situação do rapaz.
Fitou a parede da cozinha, enquanto Aiko deitava temperos no almoço. O tempo passava devagar. Linda viu-se de repente na rua, uma hora depois de ter almoçado com os neurónios a andar mil à uma. Percorria caminhos habituais, com as mãos nos bolsos do seu casaco de primavera e olhar preso ao chão. Estava tão distraída que passou pelo apartamento pretendido sem parar, seguindo caminho. Quando se apercebeu do seu erro deu meia-volta, desta vez mais atenta.
Cumprimentou o porteiro e subiu o elevador. Já no andar pretendido, pegou nas chaves. Estava tão familiarizada com aquela casa que o irmão achou importante dar-lhe as chaves, de modo a que ela entrasse sem interromper os rapazes caso eles estivessem a jogar playstation, a tomar banho ou até mesmo a estudar.
A casa estava silenciosa. Uma das janelas abertas deixava um pequeno burburinho do vento entrar na sala, ecoando um pequeno som semelhante ao soprar de uma garrafa. Estava tudo desarrumado (como devia ser, pensou Linda para os seus botões), com as roupas deixadas no sofá, no balcão da cozinha e nas cadeiras. Garrafas no chão, revistas espalhadas. Parecia quase a mesma casa que Linda visitara meses antes pela primeira vez.
Só havia uma diferença.
Por cima da televisão plasma, uma fotografia ocupava lugar de destaque, forçando o olhar de qualquer visitante a fitá-la. Era uma foto a preto e branco, do tamanho de duas folhas A3. Lá, mostravam-se os seis jovens que em poucos meses se haviam tornados nos melhores amigos. Fora tirada num parque em Osaka, cidade que visitaram nas férias da Páscoa. No fundo, via-se um coelho da Páscoa que distribuía ovos pelas crianças caído no chão. Kenji, Setsu e Eiji tentaram convencer o coelho a dar-lhe seis ovos, puxando todo o seu talento e charme para o persuadir. Mas o coelho era muito mais teimoso e acabou por empurrar Setsu. Este respondeu com outro empurrão e no final, acabaram por quatro por andar à pancada, acabando o coelho no chão. Aproveitando o momento, Eiji roubou a cesta e correu com o irmão e Kenji atrás para longe do felpudo. Setsu entregou os ovos às crianças no parque, que olhavam aflitas e ficou com a cesta, onde ainda estavam seis pequenos ovos de galinha com desenhos coloridos. Cecília ia filmando tudo, enquanto Linda e Mari riam-se feito perdidas.
Boas memórias, agora recordadas naquela moldura castanha pendurada na parede branca.
Linda sorriu e dirigiu-se para o quarto de Eiji. Nunca tinha lá entrado, devido aos olhares desconfiados do seu maninho e das bocas que tendia a ouvir das suas amigas e de Setsu.
A porta estava entreaberta. Linda bateu suavemente e entrou. Eiji devia ter acordado tarde, pois a sua cama estava desfeita e o seu cabelo dourado molhado. Estava vestido de cintura para baixo e procurava alguma coisa no seu quarto desarrumado. Linda entrou sorrateiramente, nunca tirando os olhos do namorado. Seis meses de namoro e ela ainda não tivera a oportunidade de admirar o torso de Eiji.
Ele era muito mais magro do que ela pensava e tinha uma pequena mancha roxa perto do umbigo, que estava longe de ser uma marca de nascença. Tinha ombros largos, mas não tão largos quanto os do irmão e os de Kenji e parecia ser daqueles rapazes que jamais teria um corpo exageradamente bem constituído. Linda conhecia Eiji suficientemente bem para saber que o metabolismo dele impedia-o de aumentar a massa do corpo. Mas a actividade física de Eiji dera-lhe massa muscular. Ele não era um deus, mas era bem agradável de ser ver.
Apesar de ter um namorado bem constituído à sua frente, Linda tinha um olho posto na mancha, que tinha proporções estranhas… mais parecia uma queimadura do que outra coisa. O outro estava fixado nos olhos de Eiji, que ainda não se tinham cruzado com os dela, apesar de ele saber que ela estava ali no quarto.
Ela tossiu dramaticamente, mas ele ignorou-a.
Está zangado comigo
Linda abanou a cabeça em tom de desaprovação. Tentou pensar em algumas formas de o chamar a atenção. Inúmeras lhe surgiram à cabeça, mas houve uma que a deliciou. Era ridícula, desnecessária… mas seria tão bom ver a cara dele… quem diria que brincar com as hormonas dos adolescentes seria tão divertido?
Ela avançou, sorrindo de uma forma sedutora. Ele olhou para ela de lado, mas não se mexeu. Linda aproveitou a deixa para desapertar dois botões da blusa devagarinho.
Se deres carne aos leões, eles irão devorá-la, pensou, não tirando os olhos do namorado.
Quando ele se virou, já sabia que o tinha na mão. De súbito ele agarrou-a e arrastou-a para a cama dele, beijando-a por cada canto que a sua boca conseguisse pousar. Linda tentou evitar a gargalhada que tanto queria sair. Deixou que ele tomasse a boca dela, de um modo furioso e animalesco, com profundo desejo expresso em cada golfada de ar que ele começava a evitar. Era como se beijá-la fosse mais prioritário do que respirar. Ela não se mexia, apenas sorria.
Finalmente, estando mais à vontade com o cenário da namorada deitada na sua cama com a blusa por desapertar, aproximou os dedos dos outros botões, a fim de os desapertar e…
Foi aí que ele parou.
-Demónio! – Amaldiçoou ele, saindo de cima dela. – Fazer isso a um homem devia levar a pena de prisão.
Linda teve que morder o lábio para evitar ter que se rir da cara do namorado, que mais parecia um miúdo de cinco anos a quem recusavam um brinquedo. Apertou a blusa, satisfeita pelo sucesso do seu plano:
-Podias ter continuado… - provocou ela.
Ele semicerrou os olhos.
-Pois devia… aí terias o que merecias. Não devias fazer isso. Tens sorte que eu parei. Se tentasses com outro…
-Mas não tentei com outro – cortou Linda, pondo-se de pé – mas sim contigo, porque sabia que jamais irias com esta adiante.
Ele fez uma careta.
-Sorte a tua que tenho maneiras – murmurou. De seguida, afastou-se dela e vestiu uma camisa. Ela ficou ali, a olhar para ele.
O quarto tinha um cheiro. Uma espécie de fusão entre perfume de homem e mofo. Era pintado de cores claras e, tal como qualquer quarto de rapaz, estava completamente desarrumado. Eiji apercebeu-se da bagunça e, um pouco embaraçado, arrumou as roupas espalhadas no armário e os livros da escola numa caixa junto à secretária. Mexeu tudo rapidamente, até que a secretária e a cadeira ficaram desocupadas e com um ar mais asseado.
Só quando ele mexeu nos estores da sua janela e a abriu, a fim de deixar o ar entrar, é que olhou para a namorada.
-Estás zangado comigo.
Não era uma pergunta.
-pois…
-Porquê?
Ele deu um passo em frente.
-Tu sabes porquê. Tens estado afastada de mim, a esconder-me coisas. Bem… - pôs a mão na cabeça. – É só isso. Mas já chega para me pôr com os nervos em franja. Pensei que confiasses em mim.
-E confio – disse Linda, calmamente.
-Então porque esse segredo todo? Até parece que só eu é que não sei as coisas.
-Achas que aguentas com a verdade? – Retorquiu ela, com profundo veneno nas palavras. – Ou será que já te esqueceste do que aconteceu da última vez que te contei um segredo meu?
Eiji congelou no sítio. Morde o lábio desconfortável. Sabia que ela tinha razão. Escondera-lhe um segredo importante e, quando lhe contara a verdade, afastara-se.
Andou um pouco pelo quarto, ponderando na situação. Linda seguia-o com o olhar, a íris dilatada de tal modo que os olhos dela mais pareciam roxos.
Minutos passaram-se, onde silêncio reinava no quarto. Ele sentia-se nervoso, ela confiante.
-Porque não me contas? – Perguntou ele finalmente, um pouco receoso.
-Porque não irias entender. Eiji, isto é bem mais sério do que eu ser princesa.
-Aí sim? Como?
Ela desviou o olhar.
-Não entenderias. – Repetiu, de vez mais calma.
Ele, vendo uma causa perdida, suspirou pesadamente, não tirando os olhos da namorada.
-O que vieste cá fazer?
-Dizer-te isto. – Respondeu ela secamente. – Não adianta estares zangado comigo por causa deste segredo, porque a melhor maneira de não saíres magoado é eu não te contar nada. Acredita, ficas melhor sem saber.
Linda não se atreveu a dizer que o principal motivo pelo qual não contava nada a Eiji era porque não se sentia muito ligada a ele. A sua avó não tivera escolha, pois o seu avô estava metido na alhada. Já a sua mãe deveria ter contado apenas após o casamento, quando não havia sombra de dúvidas acerca da confiança entre os dois.
Ouviu a porta da entrada abrir-se.
-Cheguei – soou a voz de Setsu. – A sério meu, aquela tipa não devia regular bem dos miolos. Mais um pouco e queria apresentar-me aos pais dela e casar. E olha que só estamos no segundo encontro. Eu nem sequer sei o nome dela.
Ele abriu a porta do quarto do irmão, para encontrar ele e a namorada a fitarem-se intensamente, como se nada mais houvesse naquele quarto. Claro que ele desconhecia que as causas eram tudo menos românticas. – Está tudo bem? Querem que feche a porta?
-Não – responderam os dois em uníssono.
-deixa estar – disse Eiji. Parecia ter pensado bastante naquilo que dissera a Linda nos últimos minutos, pois já não havia aquela raiva cega. O irmão encolheu os ombros e deixou-os a sós mais uma vez.
-Desculpa. – Disse ele, arrependido. – Não devia…
-Não peças. – Interrompeu ela, pondo um dedo nos lábios dele. – Tu tens razão para estar zangado. De certa forma, isto é falta de confiança. Mas isto não é um segredo vulgar e era apenas isso que te queria dizer. Para não ficares zangado ou inseguro, porque não é nada que tu gostarias de saber.
-E tu?
-O que é?
-Incomoda-te… esse segredo?
Linda não respondeu logo. Até porque nem ela sabia a resposta. Crescera sabendo que era uma navegante. Estava tão habituada à ideia que nunca lhe passara pela cabeça outra coisa. Ou melhor, passar passara, a ideia de que ela não era navegante por ter dezasseis e não ter demonstrado algum poder.
-Não – respondeu por fim. – Faz parte de mim. Incomodar-me era o mesmo que dizer que não gosto de mim.
-Vou sair
-Já? – Eiji desviou os olhos de Linda para o irmão. – Ainda agora chegaste!
-Sim, mas tenho que ir ao supermercado. A senhora Aiko convidou-nos para jantar na casa dela hoje e eu tenho que levar alguma coisa.
-Ela disse para levares?
-Não. Mas é regras de cortesia.
-Nem sabia que ele sabia ser cortês – sussurrou Linda, provocando uma gargalhada em Eiji.
De repente, lembrou-se de algo.
-Setsu espera! – Gritou, correndo atrás do moreno. – Podes levar-me á casa da Cecília?
-Claro, claro. Anda lá. – Disse ele, saindo em direcção à garagem.
Linda aproximou-se de Eiji e deu-lhe um suave beijo nos lábios antes de sair pela porta. Ele podia jurar que havia algo naquele beijo… estranho.
**
Dentro de uma luxuosa casa habitada, uma mulher lia passagens de um livro alheadamente. Não prestava atenção ao que estava lá escrito, pois a sua mente vagueava por memórias antigas que qualquer mulher nostálgica gostaria de recordar.
O mero som dos pássaros no exterior tranquilizava a mulher como se, após um dia cansativo, relaxasse perante uma energética aula de Ioga. As janelas estavam abertas, deixando a brisa do vento de Junho entrar pela divisão.
Piscou os olhos quando o som de sapatilhas rasas se aproximou. Ao virar o pescoço, Misaki viu a última pessoa que esperava ver na sua casa:
-Linda? – Perguntou, surpresa. – Que fazes aqui?
A adolescente hesitou, procurando as palavras certas, mas Misaki tomou a dianteira.
-Vieste ver a Cecília? Desculpa querida, mas ela saiu com o pai e…
-Não – cortou Linda. – Eu vim cá… para a ver. A empregada abriu-me a porta – acrescentou, como se achasse que houvesse necessidade.
Misaki não esperava tal resposta.
-Ver-me? Porquê? - Perguntou calmamente.
-Você… - Linda suspirou, tentando arranjar coragem para dizer aquilo que havia ensaiado minutos antes. – Vai amanhã a algum lado?
Misaki ergueu o sobrolho. Tinha agora uma ideia aonde iria o tópico de conversa.
-Vou ao palácio… ver a tua mãe – acrescentou, observando a reacção da morena atentamente. – Mas se quiseres eu…
-Leve-me consigo! – Disse Linda rapidamente, quase tropeçando nas palavras. Misaki fitou-a, sem saber o que dizer. – Isto é…
-Eu levo-te. Mas tenho que te perguntar Linda… porquê?
-Eu quero… vê-la antes de… e também preciso…
Não estava a ir a lado nenhum. Nem ela própria entendia o que estava a dizer. Era como se tivesse engolido um pedaço de cartão que a impedia de falar. As palavras, presas na garganta, acumulavam-se e um nó formou-se rapidamente, que se estendeu até ao estômago.
-Lembras-te quando te disse que não te conhecias?
Linda ergueu o olhar para a mulher, assentindo com a cabeça.
-Sim, depois da minha actuação. Eu achei que… - Por momento pensou que Misaki a fosse interromper, mas a mais velha abanou a cabeça para ela continuar. – Que tivesse a ver com o Eiji. Isto é, ele não sabia que eu era a princesa.
-Errado – murmurou Misaki, soletrando cada sílaba da palavra. – Não foi por isso que eu o disse.
Pousou o livro na mesa e aproximou-se de Linda, que a fitava paralisada. Talvez de medo ou apenas timidez, Misaki não sabia.
-Já notaste na mancha que o Eiji tem no tronco, presumo? – Perguntou calmamente, esperando resposta.
-Já. Não sei como é que ele a conseguiu.
-Não está em minhas mãos contar-te, mas digo-te que essa pequena mancha é o único ‘segredo’ que ele tem contigo. Não te conta, não porque confia em ti, mas porque perturba até os seus próprios pesadelos. – Os seus dedos tocaram na pele branca de Linda, rodando o queixo até que os olhos da rapariga ficaram frente a frente com os seus. – E tu tens um igual.
Não era uma pergunta. Misaki sabia do seu segredo e entendia porque ela o escondia.
-Mas quero que saibas… - continuou, afastando-se da jovem, querendo dar-lhe tempo para pensar. – Que não foste a única com esse problema.
Como sabe ela que eu…
-A Cecília passa pelo mesmo. Penso que contigo (que tens namorado) deva ser pior. – Respondeu Misaki, como que lendo os pensamentos da morena. – Fazes bem em escondê-lo. Admito que nem eu estava pronta para saber. Mas… era o melhor…
Linda sabia que ela se estava a recordar do momento em que ela e a sua mãe tinham visto Julianna pela primeira vez, o primeiro instante em que Misaki deu-se de caras com o mundo da fantasia que até à data apenas envolvera a família de Linda e da sua mãe.
-A minha filha precisava de mim. Contei ao meu marido mais tarde. – A voz de Misaki falhou, tomando uma pausa, onde mordeu a unha do dedo indicador. – Mas a tua mãe passou por um caso pior.
Linda abriu a boca para falar, mas fechou-a logo. Misaki não se apercebeu.
- Já dizia uma escritora brasileira, Clarice Lispector: É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Sabes o que isto quer dizer, Linda?
Esta abanou a cabeça.
-A tua mãe tinha as mesmas duvidas que tu. Aliás, é já uma fase comum a todo o ser humano. Quem sou eu? O que faço cá na Terra? Qual é a minha missão? Uns encontram a sua resposta, após anos de procura, outros preferem viver na ignorância, outros procuram… quando a resposta esteve sempre debaixo dos seus narizes. Era o caso da tua mãe. Os pais dela dera-lhe sempre muitas hipóteses para ela entender o mundo e a si própria, mas a chegada do teu pai fez com que novas perguntas surgissem. Eu própria vi-a a concentrar-se no desenho, em busca de uma resposta.
Linda lembrou-se do desenho que Kentaro lhe mostrara naquele dia no parque. Portas, chaves, corredores, dúvidas…
-Com esta busca, veio outro problema. Ela sempre esteve ciente da sua… herança… mas não sabia se a podia confiar aos amigos e namorado. A mim não teve hipóteses, mas o Edward revelou-se um problema. A tua avó nunca teve algo similar porque o teu avô já fazia parte da trama, mas o caso da Usagi era novo. Poderia contar segredo tão grande a um homem que ela não sabia se era o homem da vida dela. Digo isto quando eles ainda mal tinham começado a namorar. Mais tarde ela apercebeu-se de que o amava perdidamente, mas só lhe contou quando se casaram. Aí ela descobriu o que era. Aí ela… encontrou-se.
Misaki virou-se para Linda, que ouvira tudo atentamente e sem fazer o menor ruído.
-A diferença entre ti e a tua mãe é que ela nunca soube o que era. Mas tu sabes... Apenas ignoras esse pensamento. O teu subconsciente afasta essa ideia, levanto-te a afirmar outra. Acabas por te mentir a ti própria e aos outros. Espero que amanhã consigas encontrar algumas respostas para ti, Linda porque tu, mais do que ninguém, precisas de saber quem és. Não a navegante, mas a rapariga, a Linda que tem nome no cartão de cidadão. O resto… completas. Espero-te amanhã às 9h30.
).Ora bem, aqui está mais um capítulo. Desculpem a demora, mas eu sofro de uma doença crónica incúrável, chamada Preguicite Aguda e, infelizmente, deu-me um ataque durante as férias. Mas lá apanhei o ritmo e cá estou eu de novo. Tenho o prazer de anunciar que apenas faltam quatro capítulos e, se conseguir continuar com a proeza de postar um novo capítulo por mês (mais coisa menos coisa), acabar antes de Abril.
Este capítulo é centrado na Linda e nos pais dela, apesar de Dawson e Kenji serem também muito bem mencionados. Espero que gostem, pois finalmente aparecem umas luzinhas sobre o que aconteceu quando a Linda nasceu.
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25-No seu elemento
Já dizia Einstein:Temos o destino que merecemos. O nosso destino está de acordo com os nossos méritos. Mas poderia homem tão racional pensar em detalhes tão subjectivos como o ‘acaso’? Um homem nasce sem saber nada, aprende e esquece, ganha ou perde méritos. Mas poderá um homem cheio de méritos ter um destino sorridente? Poderá uma rapariga que tem tudo para ser feliz… falhar só por causa do acaso?
Ninguém espera que, após uma vida condenada ao sofrimento, uma réstia de sol ilumine o rosto pálido de um homem, nem tampouco um homem brilhante espera que uma nuvem negra arraste todo o seu sucesso de anos em apenas escassos minutos. O destino é como uma teia de aranha frágil, que se pode quebrar apenas com um pequeno passo em falso.
O Homem não controla o destino, apenas vive. E, para uns, viver não é uma actividade tão interessante quanto parece. Uns procuram sair da monotonia, outros procurar aborrecer ainda mais a sua patética vida. Uns querem ser vulgares, outros não.
Talvez depois desta conclusão, as pessoas tendem a pensar “Mas afinal, controlamos o nosso destino, ou não?”. A resposta para esta pergunta é relativa, tal como a beleza de uma mulher ou de uma obra de arte. Uns dirão que ‘sim’, outros que ‘não’ e até dentro dessas respostas, encontraremos pequenas linhas que traçam diferentes opiniões do Homem.
Mas falamos do Homem vulgar, Homo sapiens, aquele que nasce, vive e morre. Não falamos de uma rapariga que, apesar de estar com os pés na Terra, a cabeça estava na Lua. Não porque estivesse distraída, mas porque pensava na Lua.
Para ela, o destino era uma rede de acasos que construía a linha da Vida, criando bifurcações, caminhos sem saída, rotundas e caminhos em linha recta, até que chega uma altura em que o caminho acaba, não se pode voltar atrás e vemo-nos perdidos. O destino acaba. A Vida acaba.
Os leves raios de sol entraram pela janela do seu quarto, iluminando a divisão. Ela estava sentada junto à secretária, as mãos a teclarem no seu computador portátil.
Finalmente, após uma leve reflexão, decidiu fechar as janelas abertas no computador e iniciar uma nova pesquisa. Havia começado a procurar mais informações acerca de Agnes, mas não tivera sorte nenhuma. Fora cantoras, actrizes e modelos, o máximo que encontrara fora uma santa mártir virgem, que morreu com treze anos por não querer casar.
Escreveu “Morfeu” no motor de busca. Milhões de resultados surgiram de imediato. Clicou no primeiro que viu.
“Morfeu é o deus grego dos sonhos. Tem a habilidade de assumir qualquer forma humana e aparecer nos sonhos das pessoas como se fosse a pessoa amada por aquele determinado indivíduo. Seu pai é o deus Hipnos, do sono. Os filhos de Hipnos, os Oneiroi, são personificações de sonhos, sendo eles Icelus (Phobetor), e Phantasos. Morfeu foi mencionado no Metamorphoses de Ovídio como um deus vivendo numa cama feita de ébano numa escura caverna decorada como flores.”
A rapariga suspirou. Caverna escura? Sim, verdade que ele uma vez a levara para uma caverna decorada com flores da Terra e uma cama de ébano, mas isso não provava que ele lá vivia. Morfeu sempre vivera em palácios, apesar de ser pessoa de passear pelos montes, vales, rios e campos. De que outro modo ele amaria tanto a Terra…
Perguntou-se aonde é que os gregos foram buscar aquelas informações, parte verdade, parte mito. Será que alguém escreveu aqueles relatos? Se sim, como teriam sabido? Aquela memória na caverna era… especial. Fora a primeira vez em que os dois se haviam tornado amantes e não havia forma de ninguém saber disso. Provavelmente adivinharam ou então juntaram alguns factos reais, criando uma história verosímil.
Linda abanou a cabeça, incomodada. Ainda era estranho ter memórias de uma vida anterior, completamente diferente da sua.
Releu as informações acerca de Morfeu. Logo a segunda frase chamou-lhe a atenção. Tem a habilidade de assumir qualquer forma humana e aparecer nos sonhos das pessoas como se fosse a pessoa amada por aquele determinado indivíduo. Essa era nova.
Tanto quanto Linda sabia, sempre que entrava nos sonhos das pessoas, era como um fantasma que pairava no ar. Poderia ela também tornar a forma de uma pessoa amada pelo indivíduo cujo sonho invadira? Ou teria ela já feito isso? Kenji com Mari, Hiroíto com Cecília e ela própria com Kenji.
Aquilo era muito confuso…
Linda desligou o computador e arrastou-se para fora do quarto. Na sala, as notícias do meio-dia informavam os espectadores dos acontecimentos mais marcantes das últimas vinte e quatro horas. Um acidente na auto-estrada ceifara a vida de dois homens e pusera uma criança em grave perigo de vida, uma mulher assassinara o marido a sangue frio só porque este insultara o seu chefe e o Governo da Áustria apresentava novas medidas para melhorar a taxa de desemprego, provocada pela soberania comercial da China no país.
Algumas notícias eram frescas, apanhavam o espectador de surpresa e este ficava mais interessado, curioso para saber o que acontecera. Outras eram consequências das decisões feitas em meses anteriores. No caso da Áustria, era isso mesmo. Linda lembrava-se de ver o primeiro-ministro da Áustria discursar para o Parlamento, a dezassete de Fevereiro, três dias depois da visita de Naomi e Seiji… faziam hoje quatro meses.
Ela dissera a Kenji e a Eiji que iria ao Palácio. Mas era mais fácil dizer do que fazer. Não por falta de coragem, mas por nervosismo, evitou avançar com a decisão o máximo possível. Passou Março e Abril, vieram as chuvas da Primavera e as temperaturas subiram um pouco, passando a ser possível passear pelas ruas sem cachecóis e camisolas de gola alta. Chegou Maio e Junho e com o último, veio o fim das aulas. Linda passara, assim como os outros. Mari quase que reprovara a matemática, mas logo no fim conseguiu uma boa nota no teste que garantiu a sua transição à disciplina. Os tempos livres foram passados normalmente. Não havia nada de errado. Dawson não atacara mais e não parecia haver mais nenhuma dificuldade na vida de Linda, a não ser a ida ao palácio. Namorara, passeara com os seus amigos…
Gozara uma perfeita vida normal.
Que irónico. Ela sempre sonhara com uma vida normal, sem ser princesa, tendo amigos, um namorado, tendo o irmão ao seu lado, podendo concentrar-se nos estudos. Agora tinha isso tudo. Não tinha oportunidades para ser navegante, nem princesa. Podia ser perfeitamente normal.
Que irónico. Uma pessoa apenas apercebe-se de quanto o vulgar é ridículo quando finalmente o invulgar desaparece das nossas vidas. Habituamo-nos a um rumo cheio de percalços, que nos sobem a adrenalina, a ira e a felicidade. Mas, num mundo vulgar e monótono, as coisas não eram assim. Ela agora pensava apenas no namorado, nos amigos e nos estudos. Pela primeira vez, tornou-se aborrecido estudar, tornou-se aborrecido estar sempre a sair aos fins-de-semana para ir ao cinema, discotecas ou outros sítios, tornou-se até chato poder passar o dia sem correr o risco de perder o temperamento.
Talvez porque agora tinha as coisas como garantidas. Não tinha que lutar para estudar, não tinha dificuldade nenhuma em coisa alguma. Estava tudo calmo. Demasiado calmo, pensou Linda, deitando uma olhadela à sua volta. Era domingo, Mari tinha saído com Kenji e Aiko estava a fazer o almoço, cantarolando uma música enquanto descascava batatas.
Suspirou, aborrecida.
-Aiko? – Chamou, dirigindo-se para a cozinha.
-Sim, querida? – Respondeu a senhora, sempre animada.
-Quando é que a Mari volta?
-Ela disse que hoje não vinha almoçar. Deve ir com o namorado a algum sítio.
Linda revirou os olhos. Então hoje não podia contar nem com a amiga, nem com o irmão. Logo naquele dia…
Sabia que Cecília tinha ido a Kyoto com o pai e que só voltava na Terça e que Setsu tinha ido… bem, ela não sabia aonde, mas sabia que ele tinha um encontro para o dia todo. Ou seja, restava-lhe a bomba.
A bomba. De que outra forma falaria do seu próprio namorado? Com uma série de temperamentos controláveis e olhos semi-cerrados, Linda podia ver que ele estava furioso com alguma coisa. E isso reflectia-se nas suas acções. Já não parecia mais carinhoso com ela. E, de certa forma, tinha toda a razão.
Sempre que estava com Eiji, falava para ele normalmente, mas aquilo que sucedera meses antes não lhe saía da cabeça e ele notava nisso. Ela estava a abusar da sorte. Desde que ele a ajudara a erguer-se depois da última batalha que lhe devia respostas e ela ainda não lhe tinha dado nenhumas. E o facto de todos menos ele e Setsu (que nem tinha vontade de saber) saberem de tudo, punha-lo ainda mais irritado.
E ela evitava-o. Evitava a ele e à ida ao palácio, feita cobarde.
-Raiva! – Disse ela, libertando fúria pelos poros da pele. Fúria hipócrita, de tão falsa que era. Ela não estava zangada com ele, mas sim consigo própria. Jamais conseguiria fazer as coisas direito. Haveria sempre algo a separá-la de Eiji, porque ela nunca lhe contava todos os detalhes. Seja o seu berço, seja um dom de nascença, seja a sua verdadeira personalidade. Escondia sempre algo dele e, no fundo, Linda entendia a situação do rapaz.
Fitou a parede da cozinha, enquanto Aiko deitava temperos no almoço. O tempo passava devagar. Linda viu-se de repente na rua, uma hora depois de ter almoçado com os neurónios a andar mil à uma. Percorria caminhos habituais, com as mãos nos bolsos do seu casaco de primavera e olhar preso ao chão. Estava tão distraída que passou pelo apartamento pretendido sem parar, seguindo caminho. Quando se apercebeu do seu erro deu meia-volta, desta vez mais atenta.
Cumprimentou o porteiro e subiu o elevador. Já no andar pretendido, pegou nas chaves. Estava tão familiarizada com aquela casa que o irmão achou importante dar-lhe as chaves, de modo a que ela entrasse sem interromper os rapazes caso eles estivessem a jogar playstation, a tomar banho ou até mesmo a estudar.
A casa estava silenciosa. Uma das janelas abertas deixava um pequeno burburinho do vento entrar na sala, ecoando um pequeno som semelhante ao soprar de uma garrafa. Estava tudo desarrumado (como devia ser, pensou Linda para os seus botões), com as roupas deixadas no sofá, no balcão da cozinha e nas cadeiras. Garrafas no chão, revistas espalhadas. Parecia quase a mesma casa que Linda visitara meses antes pela primeira vez.
Só havia uma diferença.
Por cima da televisão plasma, uma fotografia ocupava lugar de destaque, forçando o olhar de qualquer visitante a fitá-la. Era uma foto a preto e branco, do tamanho de duas folhas A3. Lá, mostravam-se os seis jovens que em poucos meses se haviam tornados nos melhores amigos. Fora tirada num parque em Osaka, cidade que visitaram nas férias da Páscoa. No fundo, via-se um coelho da Páscoa que distribuía ovos pelas crianças caído no chão. Kenji, Setsu e Eiji tentaram convencer o coelho a dar-lhe seis ovos, puxando todo o seu talento e charme para o persuadir. Mas o coelho era muito mais teimoso e acabou por empurrar Setsu. Este respondeu com outro empurrão e no final, acabaram por quatro por andar à pancada, acabando o coelho no chão. Aproveitando o momento, Eiji roubou a cesta e correu com o irmão e Kenji atrás para longe do felpudo. Setsu entregou os ovos às crianças no parque, que olhavam aflitas e ficou com a cesta, onde ainda estavam seis pequenos ovos de galinha com desenhos coloridos. Cecília ia filmando tudo, enquanto Linda e Mari riam-se feito perdidas.
Boas memórias, agora recordadas naquela moldura castanha pendurada na parede branca.
Linda sorriu e dirigiu-se para o quarto de Eiji. Nunca tinha lá entrado, devido aos olhares desconfiados do seu maninho e das bocas que tendia a ouvir das suas amigas e de Setsu.
A porta estava entreaberta. Linda bateu suavemente e entrou. Eiji devia ter acordado tarde, pois a sua cama estava desfeita e o seu cabelo dourado molhado. Estava vestido de cintura para baixo e procurava alguma coisa no seu quarto desarrumado. Linda entrou sorrateiramente, nunca tirando os olhos do namorado. Seis meses de namoro e ela ainda não tivera a oportunidade de admirar o torso de Eiji.
Ele era muito mais magro do que ela pensava e tinha uma pequena mancha roxa perto do umbigo, que estava longe de ser uma marca de nascença. Tinha ombros largos, mas não tão largos quanto os do irmão e os de Kenji e parecia ser daqueles rapazes que jamais teria um corpo exageradamente bem constituído. Linda conhecia Eiji suficientemente bem para saber que o metabolismo dele impedia-o de aumentar a massa do corpo. Mas a actividade física de Eiji dera-lhe massa muscular. Ele não era um deus, mas era bem agradável de ser ver.
Apesar de ter um namorado bem constituído à sua frente, Linda tinha um olho posto na mancha, que tinha proporções estranhas… mais parecia uma queimadura do que outra coisa. O outro estava fixado nos olhos de Eiji, que ainda não se tinham cruzado com os dela, apesar de ele saber que ela estava ali no quarto.
Ela tossiu dramaticamente, mas ele ignorou-a.
Está zangado comigo
Linda abanou a cabeça em tom de desaprovação. Tentou pensar em algumas formas de o chamar a atenção. Inúmeras lhe surgiram à cabeça, mas houve uma que a deliciou. Era ridícula, desnecessária… mas seria tão bom ver a cara dele… quem diria que brincar com as hormonas dos adolescentes seria tão divertido?
Ela avançou, sorrindo de uma forma sedutora. Ele olhou para ela de lado, mas não se mexeu. Linda aproveitou a deixa para desapertar dois botões da blusa devagarinho.
Se deres carne aos leões, eles irão devorá-la, pensou, não tirando os olhos do namorado.
Quando ele se virou, já sabia que o tinha na mão. De súbito ele agarrou-a e arrastou-a para a cama dele, beijando-a por cada canto que a sua boca conseguisse pousar. Linda tentou evitar a gargalhada que tanto queria sair. Deixou que ele tomasse a boca dela, de um modo furioso e animalesco, com profundo desejo expresso em cada golfada de ar que ele começava a evitar. Era como se beijá-la fosse mais prioritário do que respirar. Ela não se mexia, apenas sorria.
Finalmente, estando mais à vontade com o cenário da namorada deitada na sua cama com a blusa por desapertar, aproximou os dedos dos outros botões, a fim de os desapertar e…
Foi aí que ele parou.
-Demónio! – Amaldiçoou ele, saindo de cima dela. – Fazer isso a um homem devia levar a pena de prisão.
Linda teve que morder o lábio para evitar ter que se rir da cara do namorado, que mais parecia um miúdo de cinco anos a quem recusavam um brinquedo. Apertou a blusa, satisfeita pelo sucesso do seu plano:
-Podias ter continuado… - provocou ela.
Ele semicerrou os olhos.
-Pois devia… aí terias o que merecias. Não devias fazer isso. Tens sorte que eu parei. Se tentasses com outro…
-Mas não tentei com outro – cortou Linda, pondo-se de pé – mas sim contigo, porque sabia que jamais irias com esta adiante.
Ele fez uma careta.
-Sorte a tua que tenho maneiras – murmurou. De seguida, afastou-se dela e vestiu uma camisa. Ela ficou ali, a olhar para ele.
O quarto tinha um cheiro. Uma espécie de fusão entre perfume de homem e mofo. Era pintado de cores claras e, tal como qualquer quarto de rapaz, estava completamente desarrumado. Eiji apercebeu-se da bagunça e, um pouco embaraçado, arrumou as roupas espalhadas no armário e os livros da escola numa caixa junto à secretária. Mexeu tudo rapidamente, até que a secretária e a cadeira ficaram desocupadas e com um ar mais asseado.
Só quando ele mexeu nos estores da sua janela e a abriu, a fim de deixar o ar entrar, é que olhou para a namorada.
-Estás zangado comigo.
Não era uma pergunta.
-pois…
-Porquê?
Ele deu um passo em frente.
-Tu sabes porquê. Tens estado afastada de mim, a esconder-me coisas. Bem… - pôs a mão na cabeça. – É só isso. Mas já chega para me pôr com os nervos em franja. Pensei que confiasses em mim.
-E confio – disse Linda, calmamente.
-Então porque esse segredo todo? Até parece que só eu é que não sei as coisas.
-Achas que aguentas com a verdade? – Retorquiu ela, com profundo veneno nas palavras. – Ou será que já te esqueceste do que aconteceu da última vez que te contei um segredo meu?
Eiji congelou no sítio. Morde o lábio desconfortável. Sabia que ela tinha razão. Escondera-lhe um segredo importante e, quando lhe contara a verdade, afastara-se.
Andou um pouco pelo quarto, ponderando na situação. Linda seguia-o com o olhar, a íris dilatada de tal modo que os olhos dela mais pareciam roxos.
Minutos passaram-se, onde silêncio reinava no quarto. Ele sentia-se nervoso, ela confiante.
-Porque não me contas? – Perguntou ele finalmente, um pouco receoso.
-Porque não irias entender. Eiji, isto é bem mais sério do que eu ser princesa.
-Aí sim? Como?
Ela desviou o olhar.
-Não entenderias. – Repetiu, de vez mais calma.
Ele, vendo uma causa perdida, suspirou pesadamente, não tirando os olhos da namorada.
-O que vieste cá fazer?
-Dizer-te isto. – Respondeu ela secamente. – Não adianta estares zangado comigo por causa deste segredo, porque a melhor maneira de não saíres magoado é eu não te contar nada. Acredita, ficas melhor sem saber.
Linda não se atreveu a dizer que o principal motivo pelo qual não contava nada a Eiji era porque não se sentia muito ligada a ele. A sua avó não tivera escolha, pois o seu avô estava metido na alhada. Já a sua mãe deveria ter contado apenas após o casamento, quando não havia sombra de dúvidas acerca da confiança entre os dois.
Ouviu a porta da entrada abrir-se.
-Cheguei – soou a voz de Setsu. – A sério meu, aquela tipa não devia regular bem dos miolos. Mais um pouco e queria apresentar-me aos pais dela e casar. E olha que só estamos no segundo encontro. Eu nem sequer sei o nome dela.
Ele abriu a porta do quarto do irmão, para encontrar ele e a namorada a fitarem-se intensamente, como se nada mais houvesse naquele quarto. Claro que ele desconhecia que as causas eram tudo menos românticas. – Está tudo bem? Querem que feche a porta?
-Não – responderam os dois em uníssono.
-deixa estar – disse Eiji. Parecia ter pensado bastante naquilo que dissera a Linda nos últimos minutos, pois já não havia aquela raiva cega. O irmão encolheu os ombros e deixou-os a sós mais uma vez.
-Desculpa. – Disse ele, arrependido. – Não devia…
-Não peças. – Interrompeu ela, pondo um dedo nos lábios dele. – Tu tens razão para estar zangado. De certa forma, isto é falta de confiança. Mas isto não é um segredo vulgar e era apenas isso que te queria dizer. Para não ficares zangado ou inseguro, porque não é nada que tu gostarias de saber.
-E tu?
-O que é?
-Incomoda-te… esse segredo?
Linda não respondeu logo. Até porque nem ela sabia a resposta. Crescera sabendo que era uma navegante. Estava tão habituada à ideia que nunca lhe passara pela cabeça outra coisa. Ou melhor, passar passara, a ideia de que ela não era navegante por ter dezasseis e não ter demonstrado algum poder.
-Não – respondeu por fim. – Faz parte de mim. Incomodar-me era o mesmo que dizer que não gosto de mim.
-Vou sair
-Já? – Eiji desviou os olhos de Linda para o irmão. – Ainda agora chegaste!
-Sim, mas tenho que ir ao supermercado. A senhora Aiko convidou-nos para jantar na casa dela hoje e eu tenho que levar alguma coisa.
-Ela disse para levares?
-Não. Mas é regras de cortesia.
-Nem sabia que ele sabia ser cortês – sussurrou Linda, provocando uma gargalhada em Eiji.
De repente, lembrou-se de algo.
-Setsu espera! – Gritou, correndo atrás do moreno. – Podes levar-me á casa da Cecília?
-Claro, claro. Anda lá. – Disse ele, saindo em direcção à garagem.
Linda aproximou-se de Eiji e deu-lhe um suave beijo nos lábios antes de sair pela porta. Ele podia jurar que havia algo naquele beijo… estranho.
**
Dentro de uma luxuosa casa habitada, uma mulher lia passagens de um livro alheadamente. Não prestava atenção ao que estava lá escrito, pois a sua mente vagueava por memórias antigas que qualquer mulher nostálgica gostaria de recordar.
O mero som dos pássaros no exterior tranquilizava a mulher como se, após um dia cansativo, relaxasse perante uma energética aula de Ioga. As janelas estavam abertas, deixando a brisa do vento de Junho entrar pela divisão.
Piscou os olhos quando o som de sapatilhas rasas se aproximou. Ao virar o pescoço, Misaki viu a última pessoa que esperava ver na sua casa:
-Linda? – Perguntou, surpresa. – Que fazes aqui?
A adolescente hesitou, procurando as palavras certas, mas Misaki tomou a dianteira.
-Vieste ver a Cecília? Desculpa querida, mas ela saiu com o pai e…
-Não – cortou Linda. – Eu vim cá… para a ver. A empregada abriu-me a porta – acrescentou, como se achasse que houvesse necessidade.
Misaki não esperava tal resposta.
-Ver-me? Porquê? - Perguntou calmamente.
-Você… - Linda suspirou, tentando arranjar coragem para dizer aquilo que havia ensaiado minutos antes. – Vai amanhã a algum lado?
Misaki ergueu o sobrolho. Tinha agora uma ideia aonde iria o tópico de conversa.
-Vou ao palácio… ver a tua mãe – acrescentou, observando a reacção da morena atentamente. – Mas se quiseres eu…
-Leve-me consigo! – Disse Linda rapidamente, quase tropeçando nas palavras. Misaki fitou-a, sem saber o que dizer. – Isto é…
-Eu levo-te. Mas tenho que te perguntar Linda… porquê?
-Eu quero… vê-la antes de… e também preciso…
Não estava a ir a lado nenhum. Nem ela própria entendia o que estava a dizer. Era como se tivesse engolido um pedaço de cartão que a impedia de falar. As palavras, presas na garganta, acumulavam-se e um nó formou-se rapidamente, que se estendeu até ao estômago.
-Lembras-te quando te disse que não te conhecias?
Linda ergueu o olhar para a mulher, assentindo com a cabeça.
-Sim, depois da minha actuação. Eu achei que… - Por momento pensou que Misaki a fosse interromper, mas a mais velha abanou a cabeça para ela continuar. – Que tivesse a ver com o Eiji. Isto é, ele não sabia que eu era a princesa.
-Errado – murmurou Misaki, soletrando cada sílaba da palavra. – Não foi por isso que eu o disse.
Pousou o livro na mesa e aproximou-se de Linda, que a fitava paralisada. Talvez de medo ou apenas timidez, Misaki não sabia.
-Já notaste na mancha que o Eiji tem no tronco, presumo? – Perguntou calmamente, esperando resposta.
-Já. Não sei como é que ele a conseguiu.
-Não está em minhas mãos contar-te, mas digo-te que essa pequena mancha é o único ‘segredo’ que ele tem contigo. Não te conta, não porque confia em ti, mas porque perturba até os seus próprios pesadelos. – Os seus dedos tocaram na pele branca de Linda, rodando o queixo até que os olhos da rapariga ficaram frente a frente com os seus. – E tu tens um igual.
Não era uma pergunta. Misaki sabia do seu segredo e entendia porque ela o escondia.
-Mas quero que saibas… - continuou, afastando-se da jovem, querendo dar-lhe tempo para pensar. – Que não foste a única com esse problema.
Como sabe ela que eu…
-A Cecília passa pelo mesmo. Penso que contigo (que tens namorado) deva ser pior. – Respondeu Misaki, como que lendo os pensamentos da morena. – Fazes bem em escondê-lo. Admito que nem eu estava pronta para saber. Mas… era o melhor…
Linda sabia que ela se estava a recordar do momento em que ela e a sua mãe tinham visto Julianna pela primeira vez, o primeiro instante em que Misaki deu-se de caras com o mundo da fantasia que até à data apenas envolvera a família de Linda e da sua mãe.
-A minha filha precisava de mim. Contei ao meu marido mais tarde. – A voz de Misaki falhou, tomando uma pausa, onde mordeu a unha do dedo indicador. – Mas a tua mãe passou por um caso pior.
Linda abriu a boca para falar, mas fechou-a logo. Misaki não se apercebeu.
- Já dizia uma escritora brasileira, Clarice Lispector: É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Sabes o que isto quer dizer, Linda?
Esta abanou a cabeça.
-A tua mãe tinha as mesmas duvidas que tu. Aliás, é já uma fase comum a todo o ser humano. Quem sou eu? O que faço cá na Terra? Qual é a minha missão? Uns encontram a sua resposta, após anos de procura, outros preferem viver na ignorância, outros procuram… quando a resposta esteve sempre debaixo dos seus narizes. Era o caso da tua mãe. Os pais dela dera-lhe sempre muitas hipóteses para ela entender o mundo e a si própria, mas a chegada do teu pai fez com que novas perguntas surgissem. Eu própria vi-a a concentrar-se no desenho, em busca de uma resposta.
Linda lembrou-se do desenho que Kentaro lhe mostrara naquele dia no parque. Portas, chaves, corredores, dúvidas…
-Com esta busca, veio outro problema. Ela sempre esteve ciente da sua… herança… mas não sabia se a podia confiar aos amigos e namorado. A mim não teve hipóteses, mas o Edward revelou-se um problema. A tua avó nunca teve algo similar porque o teu avô já fazia parte da trama, mas o caso da Usagi era novo. Poderia contar segredo tão grande a um homem que ela não sabia se era o homem da vida dela. Digo isto quando eles ainda mal tinham começado a namorar. Mais tarde ela apercebeu-se de que o amava perdidamente, mas só lhe contou quando se casaram. Aí ela descobriu o que era. Aí ela… encontrou-se.
Misaki virou-se para Linda, que ouvira tudo atentamente e sem fazer o menor ruído.
-A diferença entre ti e a tua mãe é que ela nunca soube o que era. Mas tu sabes... Apenas ignoras esse pensamento. O teu subconsciente afasta essa ideia, levanto-te a afirmar outra. Acabas por te mentir a ti própria e aos outros. Espero que amanhã consigas encontrar algumas respostas para ti, Linda porque tu, mais do que ninguém, precisas de saber quem és. Não a navegante, mas a rapariga, a Linda que tem nome no cartão de cidadão. O resto… completas. Espero-te amanhã às 9h30.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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O jantar passava a passo de tartaruga. Parecia que o esparguete no seu prato nunca mais desaparecia, ainda que ela desse uma garfada minuto a minuto. As conversas mudavam constantemente, desse desporto até planos de verão. Eles falavam de tudo e, no entanto, ela não os ouvia. Não conseguia parar de fitar o irmão, sentado à sua frente a conversar alegremente com Aiko e os irmãos Yamamoto, enquanto dava a mão por baixo da mesa a Mari, que mostrava um sorriso até às orelhas. Kenji estava no meio daquele assunto tanto quanto ela, no entanto… não era o mesmo. Ele devia sempre saber quem ele era desde pequeno, o que procurava, o que queria… A vida parecia sempre feita de confirmações e nunca de dúvidas. Oh, inveja…
A certa altura, Linda ouviu o seu nome.
-… não é Linda?
A morena fitou as caras, todas viradas para si. Ela não sabia quem tinha falado, nem qual era a pergunta, mas de momento era o que menos lhe importava.
-Está tudo bem querida? – Perguntou Aiko. Linda viu que os rostos de Eiji e Kenji estavam rígidos.
-Está. Apenas estou a pensar…
-No quê? Na morte da bezerra? – Perguntou Setsu, tentando quebrar a tensão instalada na mesa. Agora Mari juntara-se ao mar de caras preocupadas.
-No dia de amanhã. – Respondeu ela simplesmente.
-Amanhã? Oh, querida, o que tem o amanhã? Vais fazer algo de importante?
Linda assentiu com a cabeça, sem tirar os olhos do irmão. Este mantinha o rosto em branco, mas os olhos – idênticos aos da irmã – revelavam pensamentos e emoções remotas e sombrias. Devia estar a lembrar-se daquilo que Linda lhe dissera na praia.
-O quê? – Perguntou Mari devagar, olhando para Kenji e para Linda. Este soube a resposta ainda antes de a irmã abrir a boca.
-Vou ao palácio.
As pupilas dos olhos de Kenji dilataram-se e este ficou tenso. Abriu a boca para dizer algo, mas Mari foi mais rápida.
-Porquê?
-Tenho que ir. – Respondeu Linda, desesperada. Kenji diz alguma coisa! – É lá que estão todas as respostas para aquilo que eu procuro.
-Mas não faz sentido – protestou Mari. – Foi desse sítio que fugiste, não entendo porque queres lá voltar.
-Eu não quero voltar, Mari. Mas tenho… - mais uma vez, Linda tinha uma grande dificuldade em se expressar. Como podia ser tão difícil dizer aquilo que pensava. Tinha que saber mais sobre si, sobre o que era. Tinha que entender. As palavras de Misaki passeavam pela sua cabeça, pondo-a louca pela ignorância em que vivia. Ela queria saber que mal tinha o seu nascimento. Só encontraria as respostas no palácio. No mesmo sitio de onde fugira. Não poderia a sua amiga ver o quanto isso lhe era importante…
-Porquê?
Era óbvio a que assunto Mari queria puxar. Todos os argumentos que a loira tinha para aquela discussão vinham dali. Era disso que ela estava à espera. Que ela dissesse o seu outro motivo para ir. Teria ela ouvido a conversa com Naomi?
-Para ver a mãe, como é óbvio! – Disse Aiko, furiosa, antecipando-se a Linda. – Que pergunta ridícula. É isso que uma filha sensata faz. Vai ver a mãe antes que seja tarde de mais e não tenha outras oportunidades.
Linda viu Kenji semicerrar os olhos, para depois estes se expandirem. Não pode ser…
Aiko não parecia ter terminado.
-Fazes muito bem em lá ir. Apesar de tudo o que aconteceu, ela ainda é tua mãe e deves vê-la pelo menos mais uma vez. Se não o fizeres, irás de arrepender até ao fim dos teus dias. Dizem que ela apenas tem alguns meses…
Aiko não pôde continuar, pois Kenji levantou-se da mesa bruscamente e saiu da cozinha a correr, deixando o som das portas a abrirem-se e a fecharem-se ecoarem pela divisão.
Apavorada, Linda não esperou que Mari o seguisse. Levantou-se e foi atrás do irmão.
Não era difícil saber onde ele fora. Pegou no casaco e subiu as escadas em direcção ao terraço, onde viu Kenji a admirar a vista, o seu rosto completamente escondido pela escuridão da noite. A única coisa que Linda tinha para iluminar o seu caminho era a fraca luz do terraço, junto à porta. O céu estava completamente negro, sem lua nem estrelas. A brisa da tarde transformara-se num suspiro ruidoso que fazia tremer os corpos dos dois irmãos.
-Kenji? – Chamou ela cuidadosamente, a voz a tremer de mágoa e solidariedade.
Este não respondeu. Os olhos estavam fixos no horizonte, onde o palácio brilhava como um verdadeiro cristal. Tinha as mãos nos bolsos e os lábios formavam um ténue linha recta.
Aproximou-se, não tirando os olhos do irmão. Este permaneceu quieto e nem quando Linda pegou na mão dele, que saia desajeitadamente do bolso das calças, deixou-se levar. No entanto, ela notou que este tremia.
Linda sentiu uma súbita vontade de chorar. Pela primeira vez, tinha a noção de que a sua mãe ia morrer e, acima de tudo, que Kenji sofria com isso.
Este deixou escapar um soluço. Estaria ele a chorar?
-Não sabias… - sussurrou ela, a tremer de frio e de vergonha.
-Não. – Respondeu ele, também num tom baixo. – Entre os estudos e... tu e a Mari, não tenho tido tempo para ver televisão nem ler jornais e revistas. Além disso, os rapazes nunca me disseram nada…
-A Cecília e a Mari também não falam disso. Por respeito, penso.
-Pois...
Havia tanta amargura na sua voz que Linda espantou-se que ele ainda conseguisse controlar as suas emoções.
Silêncio instalou-se entre os dois, onde ambos pensavam na vida passada. Pelo menos Linda pensava nisso. Os pais haviam-na ignorado o tempo todo e agora sabia que a mãe ia morrer e, apesar de tudo, sofria com isso. Seria assim tão coração de manteiga? Ou talvez isso tivesse a ver com o facto de ela saber que tudo isto acontecera por culpa dela. Era culpa dela que o irmão não tivera os pais, que ela própria sofresse com a sua ignorância e talvez Edward e Usagi sofressem de igual modo. Pelo menos, de acordo com as memórias que tinha, deveriam sofrer da mesma forma.
De repente, Kenji gritou um palavrão, com todo o desprezo e raiva que um rapaz da sua idade podia mostrar. Ela não o criticou.
-Estúpido plano – amaldiçoou ele. – Estúpida estratégia!
Falava como se Linda não estivesse ali. Involuntariamente, esta apertou a mão dele. Que queria ele dizer com aquilo?
Kenji sentiu o toque da irmã e olhou para ela, surpreso. Falara demais.
-Que queres dizer com isso? – Perguntou ela, elevando os seus pensamentos. Kenji não respondeu. Apenas limitou-se a fitar a irmã, os olhos muito brilhantes. Passou a mão livre pelo rosto dela, num gesto carinhoso. Linda não pôde deixar de se perguntar de ele estava a pensar nela ou na mãe.
-Quero que saibas Linda… que eu amo-te, não importa o que aconteça. – Falou tão baixo que Linda apenas ouviu parte da frase, felizmente a mais importante.
-Também te amo.
Todas as perguntas que ela lhe tinha para fazer sumiram-se como vapor, todas as coisas que poderia ter falado com o irmão acerca da mãe e dos seus sentimentos acerca da notícia da sua tão próxima morte, ficaram escondidas num canto. O irmão não queria falar disso e ela própria tinha que admitir que, naquele momento, isso era o que menos lhe interessava. Quanto mais olhava para o irmão, mais via que, não importa o que acontecesse, qual fosse a sua decisão, ele iria apoiá-la a cem por cento, iria sempre amá-la sem hesitar. Ele cometera erros no passado mas estava agora disposto e recompensar.
Abraçaram-se, unidos pelo amor e carinho que tantas pessoas invejavam. Linda não conseguiu deixar de sorrir. Kenji não precisava de a recompensar. Ele já o fizera, só por estar ali, quando parte dela queria sumir do Japão.
Amanhã seria um novo dia e ela tinha a certeza que, embora fosse ao palácio sem ele, no fundo não estava sozinha.
**
Música country soava pela rádio do Mercedes de Misaki. Hoje ia ela a conduzir, deitando um olhar de relance minuto a minuto para a passageira ao seu lado.
Linda olhava para a janela, distraída, perdida em pensamentos. Pouco Misaki sabia, era que ela tinha a plena noção de que era observada e que Misaki estava tão nervosa quanto ela.
Chegaram à entrada. Misaki identificou-se e o guarda deixou-a passar. Linda pensou ter visto o guarda a olhá-la desconfiado antes de abrir a cancela, mas Misaki acelerara, impedindo-a de aprofundar a ideia.
Estacionaram o carro e saíram, ainda que Linda se demorara mais do que o suposto.
Não pôde deixar de deitar um olhar em redor. Ainda meses passeara por aqueles jardins, no entanto, algo estava diferente. A fantasia que antes cercava aquele conjunto de verde, amarelo, castanho e vermelho era agora mais realista. Antes era um jardim falso, semelhante aos dos contos de fadas que Linda não queria pertencer. Agora, era apenas um jardim.
Misaki trancou o carro e aproximou-se, vendo a adolescente a olhar para o palácio. Nada mudou…
-Vou ver a tua mãe – anunciou devagar, esperando que Linda tivesse a sua tenção. – Podias ver o teu pai primeiro.
Linda semicerrou os olhos em resposta. Misaki tinha a ideia errada da sua visita. O objectivo era ver a mãe, não Edward.
Mas a mulher adulta já se dirigira para a entrada, perguntando a um empregado sobre o paradeiro do rei.
-Ele está a passear pelos jardins, senhora. – Respondeu o homem, saudando Misaki com uma vénia e desaparecendo com outra. Mais uma vez, o homem tardou a desaparecer quando viu Linda, que evitou olhá-lo nos olhos. Até mesmo os funcionários, ela evitava nas suas andanças pelo palácio. Sempre entre as aulas particulares, o irmão, as ‘tias’ e os avós, Linda não dava hipóteses nem aos que lá trabalhavam de ver a sua cara. Aliás, a última vez que algum empregado falara com ela, tinha nove ou dez. Muito tempo passara entretanto.
-Milagre. – Disse Misaki, acordando Linda dos seus pensamentos nostálgicos. – Há dias que o Eddie não saí do quarto da tua mãe, um passeio deve estar a fazer-lhe mesmo bem.
Se não fosse o sonho que tivera meses antes, Linda teria achado estranho ouvir Misaki chamar ‘Eddie’ ao seu pai. Misaki virou-se para Linda:
-Vai ter com ele. Penso que sabes o caminho.
E sem dar hipótese a Linda de responder, desapareceu pela porta. Por momentos, pensou em ir atrás dela. Afinal, não era obrigada a ver o pai. No entanto…
Se ela não detestasse tanto aquele sitio, talvez colocaria os jardins do palácio na sua lista de “Os mais belos lugares para dar um passeio”. Desde pequena que se lembrava de ir para ali, calcando pedaços de terra, atirando pedras para a fonte, brincando na relva. As memórias mais doces vinham todas dali. O irmão a correr atrás dela, ela a esconder-se atrás de uma árvore, rindo baixinho, enquanto Kenji tentava lembrar-se que número vinha a seguir ao cinquenta e nove. Ela a comer doces roubados da cozinha, a treinar dança, a ler passagens dos vários livros que possuía.
Claro que não era por todo o jardim. Mal o irmão ficou demasiado crescido para algumas brincadeiras, ela refugiou-se num lugar só seu, que mais ninguém conhecia. Isto é, ela e a mãe, mas ela nunca contara a ninguém, portanto ainda era o seu lugar secreto.
Era perto dos eucaliptos e dos canteiros de flores, coberto de lírios, rosmaninhos, petúnias, amores-perfeitos e violetas. Era um canteiro lindíssimo, o preferido da avó, enquanto a mãe preferia as flores de cerejeira, que cresciam do outro lado. Como estava tão perto do pequeno número de eucaliptos, tinha um cheiro interessante no ar.
Mas, ao andar por entre as árvores verdes cheirosas, outro cheiro invadiu as suas narinas. Jasmim e limões. Quando era pequena, plantara um limoeiro ali perto, junto a um pequeno canteiro de jasmins, mais discreto, mas que ela adorava. Aquele cheiro fresco, suave e afrodisíaco deixava Linda nas nuvens e, de repente, sentiu-se feliz por estar ali, no seu canto.
Mas não estava sozinha.
Quando se chegou perto da sua árvore preferida, o limoeiro que plantou, viu que estava lá mais alguém.
Um homem, desajeitadamente vestido, encontrava-se ali, saboreando aquele cheiro com os olhos fechados. Os cabelos estavam um pouco grisalhos, como se anos tivessem passado desde a última vez que ela o vira e tinha a barba por fazer. De certa forma, Linda teve um estranho vislumbre do irmão.
Ficou parada a observá-lo, incrédula por vê-lo ali, para além das incríveis semelhanças.
Ele estava preocupado. Os olhos fechados mostravam algumas rugas da idade, ainda que ele não tivesse muito mais do que quarenta. O torso estava contraído, como se ele evitasse respirar. Sem duvida que tinha um daqueles nós na garganta que nos impedia de agir quando devíamos.
Linda desviou o olhar para o chão, onde viu os jasmins ainda em flor. Jasminum polyanthum, Jasmim-dos-poetas. Uma flor branca e simples, mas que sempre deitava um leve sorriso em Linda pela sua simplicidade e beleza. Eles simbolizavam a beleza e a tentação das mulheres. O sorriso de Linda aumentou. De certa forma era verdade, pois o seu irmão nunca conseguira resistir a mulheres que usavam perfume de jasmim… tal como Mari.
Quando voltou a levantar a cabeça, viu Edward a olhar para ela, o seu rosto impossível de ler. Apenas os olhos, ainda naquele tom de brandy que deixara a mãe louca na juventude permaneciam iguais, com um certo brilho que Linda nunca vira. Ou melhor, vira, horas antes quando estava no telhado com Kenji.
Ele não perguntou o que ela fazia ali. Linda suspeitava que ele não acreditava naquilo que via, preferindo pensar que era tudo uma alucinação. O que era compreensível, dado o estado em que ele estava.
-Como as coisas mudam – comentou ele, a voz tão afónica que parecia não ter sido usada em semanas.
-Quanto tempo ela tem? – Perguntou ela, não sabendo o que dizer.
Falara tão baixo que duvidava que Edward a tivesse ouvido. No entanto, este respondeu:
-Quatro, cinco meses… não sabemos ao certo. – Agora ele observava as folhas do limoeiro, onde, por entre os ramos castanho-claros, generosos limões amarelos floresciam.
-Quando começou? – Perguntou ela, receosa. Lembrava-se de a mãe a ter chamado antes de sair do palácio. Ela recusara-se a ouvi-la. Será que ela lhe iria falar da doença? Se o fosse, então parte da culpa de isto ter acontecido talvez fosse dela.
-Por volta de Agosto.
Linda tremeu desconfortavelmente. Fora tudo nesse mês. No mês onde ela fizera anos, quando o irmão saiu de casa, semanas antes de ela ter saído de casa.
-Eu… não sabia.
Algo na sua voz soou mais humano para Edward, pois este virou-se, como se tivesse pela primeira vez notado que a sua filha mais nova estava ali. Os seus olhos expandiram-se de espanto e os seus lábios formaram uma linha recta, como se ele tentasse controlar as suas emoções.
Finalmente, ela podia ler o rosto dele. E não era difícil saber o que é que ele estava a pensar:
-Vim ver…a mãe. Apesar de tudo, não lhe desejo nenhum mal. – Evitou olhar para ele, apesar de Edward não tirar os olhos de cima dela, sem sequer pestanejar. – E preciso de… respostas.
-Para quê? – Perguntou ele automaticamente.
-Para… tudo. Eu sempre tive dúvidas… de quem eu era. Porque não me encaixava aqui.
Falava agora de coisas que nunca tinha falado antes. Coisas que sempre a incomodaram, desde pequena. Estava tão nervosa, que para ela, aquilo que dizia era apenas um despejo dos sentimentos retidos durante anos. Nem notou nas expressões de Edward quando falou:
-Por vezes perguntava-me porque é que vocês me odiavam. Porque não me queriam como filha. Até me passou a cabeça a ideia de não ser… sua filha. Não tinha nada igual a si. A cor dos cabelos, os olhos, a minha personalidade, não havia nada em mim que se assemelhasse consigo. Para mim, era a ideia mais plausível. O motivo pelo qual vocês sempre me odiaram. Era uma bastarda.
-NÃO.
Ele quebrou a distância entre eles e agarrou-lhe no braço. O toque das carnes fez despertá-lo para a realidade. Ele tinha agora a noção que Linda tinha mesmo dito aquilo. Não fora imaginação sua. Os seus olhos explodiram de raiva e tristeza, parecendo que iria deitar fogo ao limoeiro e aos eucaliptos.
-Nunca digas isso! – Disse ele, raiva expressa em cada palavra. – Eu e a tua mãe nunca te odiamos. Tu não sabes como as coisas são.
-Vocês não me contam… - disse ela, mas Edward cortou-lhe o discurso.
-É porque achamos que tu não precises de saber. Há coisas Linda, que uma pessoa ficaria feliz sem saber.
Linda ergueu o sobrolho. Estaria ele a falar do segredo das navegantes?
-Eu tenho os meus motivos, a tua mãe tem os seus motivos mas NUNCA digas essas coisas. Tu és minha filha. Nunca duvidei, nem nunca tive motivos para duvidar. Tu és minha filha!
A última frase dissera com tanta convicção que Linda nunca poderia duvidar dele. Arrependeu-se do que disse mas, quando tentou dizer isso a Edward, este voltou a calá-la. Ainda tinha mais para dizer.
-Dizes que fisicamente não tens nada comigo. Pois, discordo. Olho para ti e vejo-me a mim em tanta coisa. Eu sou teu pai, Linda, segurei-te quando nasceste e a primeira coisa que vi em ti fora que eras a cara da tua mãe, mas tinhas o cabelo escuro e os lábios… um dia talvez entendas, mas um pai procura sempre semelhanças em si no seu filho recém-nascido e eu vi que tinhas os meus lábios. Apenas isso, mas só isso deixa-me feliz. Saber que te passei, de certa forma, o meu legado. E depois cresceste. Podes ser igual à tua mãe mas, sempre que abres a boca és igual a mim. A tua inteligência, a forma de tu dançares, a tua calma em situações stressantes, onde a tua mãe e o teu irmão arrancavam os cabelos com os nervos, o tique dos lábios… sim, Linda, eu sei desse tique, porque a tua mãe sempre gozou comigo por causa dele. Era por isso que eu evitava sempre mentir. Não conseguia livrar-me deste vício. A tua frontalidade, a tua determinação… isso tudo vem de mim. E podes não acreditar mas sinto orgulho disso. Em saber que tu, sendo minha filha, tens algo meu. Que possa olhar para ti e lembrar-me de mim quando era mais novo ou até mesmo dos teus pais. Porque garanto-te que a única pessoa que conheço que tenha uma personalidade fora do vulgar é a tua avó materna. De resto, garanto-te que os meus pais e o teu avô tinham personalidades semelhantes. Nunca duvides disso Linda, mas tens o meu nome e o meu sangue. Não me importo que me odeies pela forma como agi contigo todos estes anos, mas não admito que tu penses que eu fiz isso porque te odiava ou que duvides que eu seja o teu pai. Isso… - fez uma pausa, a sua voz agora rouca. Sem duvida que fora muito pouco usada nos últimos dias. – Não admito.
Linda estava paralisada, sem saber o que fazer. Edward ainda agarrava o seu braço e podia ouvir a sua respiração ofegante, algo que apenas a incomodava mais. Sentiu uma lágrima cair pelos olhos, mas logo a impediu. Não conseguia pensar em nada a não ser naquilo que ele lhe dissera. Tantos anos e, pela primeira vez, Edward agira como um verdadeiro pai. Um pai que dá raspanetes quando o filho diz algo que ele não gosta e que diz que está orgulhoso dele. Tantos anos… e ele falara para ela como ela sempre sonhara que ele fizesse.
Apesar de Linda ter conseguido controlar as suas lágrimas, Edward não teve a mesma sorte. A pressão que devia estar a sentir foi libertada em vários longos suspiros, enquanto lágrimas salgadas molhavam o seu rosto envelhecido.
-Não é fácil ser um cubo de gelo. – Sussurrou ele, não tirando os olhos de cima dela. Hesitava em largá-la, apesar de Linda começar a sentir uma leve dor devido à forma como ele a estava a agarrar. – Não é fácil.
Largou a filha e virou-lhe costas. Era já a segunda vez que um homem olhava-a nos olhos e mostrava-se possuidor de mais emoções do que ela imaginava.
-Porquê, então? – Disse ela, sem conseguir evitar. Edward virou-se para ela. Pela primeira vez, Linda viu algo mais nos olhos do pai, para além da mágoa, tristeza e raiva. Arrependimento.
-O quadro da tua mãe… Adónis. – Respondeu ele simplesmente. O cérebro de Linda começou a funcionar logo. Havia no seu quarto um quadro, que ela agora que fora desenhado pela mãe, onde o jovem Adónis postava e, ao seu lado, as duas mulheres que o disputaram: Perséfone, a rainha dos Infernos e Afrodite, deusa do amor e beleza feminina.
De súbito ela entendeu. Não entendia por onde a história fora até o agora, mas sabia como tudo começara. Com uma disputa. E, de certa forma, isso tinha algo a ver com ela. E só a ideia aterrorizava-a.
Edward não a impediu de se ir embora, nem sequer disse nada quando Linda correu, ela própria sem fôlego.
As lágrimas queriam sair, mas ela puxava-as para dentro, teimosa. Não, não iria chorar… tinha que ser forte. Não devia estar muito tempo no palácio, no entanto, já se tinha arrependido de ter vindo.
Não parou de correr até que se viu dentro do palácio, onde empregados passavam atarefados de um lado para o outro, alguns atrevendo-se e deitar-lhe um segundo olhar, perguntando-se quem seria ela, outros ignorando-a, como se Linda fizesse parte da decoração. Ela ignorou-os a todos.
Estava agora perto dos quartos reais. Parou junto do seu. O da mãe era já no fundo do corredor e ela não sabia se tinha coragem para lá ir. Não depois do encontro que teve com o seu pai. Rodou a maçaneta e abriu a porta.
O quarto dela estava exactamente do mesmo jeito antes de ela sair, rumo a novos horizontes fora do palácio. A cama dossel, o armário – que agora só tinha os seus antigos vestidos – a mesa de estudo, o espelho, a janela…
Linda deitou um segundo olhar na janela. Engraçado como a única coisa que ela sentia falta naquele quarto, onde dormira grande parte da sua vida, era a janela. Ao aproximar-se, viu os jardins e os eucaliptos. Não dava para ver o seu esconderijo, mas sabia que estava lá. Aliás, agora que Linda pensava melhor, de certeza que no quarto dos pais teria uma melhor vista do seu sítio. Devia ter sido assim que ambos tinham descoberto onde ela se metia em determinadas ocasiões.
Lembrava-se perfeitamente das vezes que ficava junto á janela a observar o jardim, a ver o irmão a sair de casa na calada da noite, os pais e avós a virem de festas, a observar a lua… memórias tão simples, mas doces que apenas a faziam sentir-se normal, a ansiar por coisas normais.
Olhou para o seu relógio de pulso. Eram já dez e vinte. O tempo passara tão depressa…
Saiu do quarto apressadamente. Não olhou para trás. Não havia necessidade para tal.
Apesar de o sol atravessar as grandes janelas do corredor, para Linda estava escuro. No fim do corredor, estava o seu objectivo. Todo o corpo dela tremeu de ansiedade.
Estava alguém junto à porta do quarto dos pais. Reconheceu a silhueta de Misaki de costas. Mas esta não estava sozinha. Uma mulher alta, morena e de olhar sombrio mas dócil estava ao seu lado. A diferença de idades era reduzida, mas Linda sabia mais do que as aparências mostravam.
Aproximou-se das duas. A morena notou nela, parando imediatamente de falar. Misaki virou-se para Linda:
-Ah, estás aqui. A tua mãe está melhor, mas gostava que não a preocupasses muito. Tenta ser… - Misaki fez uma pausa, tentando dar ênfase a aquilo que ia dizer – simpática.
Linda ergueu o sobrolho, gesto imitado pela morena.
-Eu sei ser simpática. – Retorquiu, a voz a fraquejar devido aos nervos.
-Com esse tom de voz, bem que me enganavas – comentou a morena.
Linda fitou-a, constrangida.
-Olá Linda. Não me reconheces?
-Claro que sim. – Respondeu e sorriu ao ver que a sua voz saiu mais suave. – Hotaru.
-Estava a ver que não te lembravas de mim. Já se faz um tempo…
-Sim…
Misaki clareou a garganta, quebrando o silêncio instalado.
-Vais? – Perguntou à jovem, indicando a porta.
-Vocês avisaram-na?
As duas adultas entreolharam-se, antes de Hotaru responder:
-Não. Ela não acreditaria em nós.
De certa forma, o último comentário soou menos frio do que Linda julgava. As palavras pareciam estar carregadas de desprezo, mas Hotaru falara com tristeza. Sem duvida que o estado em que a melhor amiga se encontrava a incomodava.
Elas afastaram-se da porta, deixando-a livre. Tal como uma criança perante a sua primeira vacina, Linda paralisou perante a maçaneta da porta. Inspirou e expirou antes de rodá-la e entrar no quarto.
As cortinas bloqueavam a luz, tornando o quarto num escuro santuário. Na cama, postava uma figura adormecida. Caminhou cautelosamente, evitando fazer barulho, mas foi ouvida:
-Que fazes aqui? – Perguntou uma voz ríspida. Um calafrio percorreu o corpo de Linda. Não tinham Misaki e Hotaru dito que a mãe não sabia que ela estava ali? Como poderia ela saber quem ela era?
-Saí! – Ordenou a voz, um pouco cansada mas firme. – Não tenho paciência para te ouvir. Estou farta… dá-me paz… - aí a voz fraquejou, perdendo som e forças.
Linda semicerrou os olhos. Ela deveria estar a falar com outra pessoa. Avançou para junto da cama dossel, as cortinas impedindo de ver a pessoa lá deitada. Conseguia senti-la tensa na cama, talvez ganhando forças para gritar de novo com ela. Achou que devesse dizer algo.
-Mãe?
O jantar passava a passo de tartaruga. Parecia que o esparguete no seu prato nunca mais desaparecia, ainda que ela desse uma garfada minuto a minuto. As conversas mudavam constantemente, desse desporto até planos de verão. Eles falavam de tudo e, no entanto, ela não os ouvia. Não conseguia parar de fitar o irmão, sentado à sua frente a conversar alegremente com Aiko e os irmãos Yamamoto, enquanto dava a mão por baixo da mesa a Mari, que mostrava um sorriso até às orelhas. Kenji estava no meio daquele assunto tanto quanto ela, no entanto… não era o mesmo. Ele devia sempre saber quem ele era desde pequeno, o que procurava, o que queria… A vida parecia sempre feita de confirmações e nunca de dúvidas. Oh, inveja…
A certa altura, Linda ouviu o seu nome.
-… não é Linda?
A morena fitou as caras, todas viradas para si. Ela não sabia quem tinha falado, nem qual era a pergunta, mas de momento era o que menos lhe importava.
-Está tudo bem querida? – Perguntou Aiko. Linda viu que os rostos de Eiji e Kenji estavam rígidos.
-Está. Apenas estou a pensar…
-No quê? Na morte da bezerra? – Perguntou Setsu, tentando quebrar a tensão instalada na mesa. Agora Mari juntara-se ao mar de caras preocupadas.
-No dia de amanhã. – Respondeu ela simplesmente.
-Amanhã? Oh, querida, o que tem o amanhã? Vais fazer algo de importante?
Linda assentiu com a cabeça, sem tirar os olhos do irmão. Este mantinha o rosto em branco, mas os olhos – idênticos aos da irmã – revelavam pensamentos e emoções remotas e sombrias. Devia estar a lembrar-se daquilo que Linda lhe dissera na praia.
-O quê? – Perguntou Mari devagar, olhando para Kenji e para Linda. Este soube a resposta ainda antes de a irmã abrir a boca.
-Vou ao palácio.
As pupilas dos olhos de Kenji dilataram-se e este ficou tenso. Abriu a boca para dizer algo, mas Mari foi mais rápida.
-Porquê?
-Tenho que ir. – Respondeu Linda, desesperada. Kenji diz alguma coisa! – É lá que estão todas as respostas para aquilo que eu procuro.
-Mas não faz sentido – protestou Mari. – Foi desse sítio que fugiste, não entendo porque queres lá voltar.
-Eu não quero voltar, Mari. Mas tenho… - mais uma vez, Linda tinha uma grande dificuldade em se expressar. Como podia ser tão difícil dizer aquilo que pensava. Tinha que saber mais sobre si, sobre o que era. Tinha que entender. As palavras de Misaki passeavam pela sua cabeça, pondo-a louca pela ignorância em que vivia. Ela queria saber que mal tinha o seu nascimento. Só encontraria as respostas no palácio. No mesmo sitio de onde fugira. Não poderia a sua amiga ver o quanto isso lhe era importante…
-Porquê?
Era óbvio a que assunto Mari queria puxar. Todos os argumentos que a loira tinha para aquela discussão vinham dali. Era disso que ela estava à espera. Que ela dissesse o seu outro motivo para ir. Teria ela ouvido a conversa com Naomi?
-Para ver a mãe, como é óbvio! – Disse Aiko, furiosa, antecipando-se a Linda. – Que pergunta ridícula. É isso que uma filha sensata faz. Vai ver a mãe antes que seja tarde de mais e não tenha outras oportunidades.
Linda viu Kenji semicerrar os olhos, para depois estes se expandirem. Não pode ser…
Aiko não parecia ter terminado.
-Fazes muito bem em lá ir. Apesar de tudo o que aconteceu, ela ainda é tua mãe e deves vê-la pelo menos mais uma vez. Se não o fizeres, irás de arrepender até ao fim dos teus dias. Dizem que ela apenas tem alguns meses…
Aiko não pôde continuar, pois Kenji levantou-se da mesa bruscamente e saiu da cozinha a correr, deixando o som das portas a abrirem-se e a fecharem-se ecoarem pela divisão.
Apavorada, Linda não esperou que Mari o seguisse. Levantou-se e foi atrás do irmão.
Não era difícil saber onde ele fora. Pegou no casaco e subiu as escadas em direcção ao terraço, onde viu Kenji a admirar a vista, o seu rosto completamente escondido pela escuridão da noite. A única coisa que Linda tinha para iluminar o seu caminho era a fraca luz do terraço, junto à porta. O céu estava completamente negro, sem lua nem estrelas. A brisa da tarde transformara-se num suspiro ruidoso que fazia tremer os corpos dos dois irmãos.
-Kenji? – Chamou ela cuidadosamente, a voz a tremer de mágoa e solidariedade.
Este não respondeu. Os olhos estavam fixos no horizonte, onde o palácio brilhava como um verdadeiro cristal. Tinha as mãos nos bolsos e os lábios formavam um ténue linha recta.
Aproximou-se, não tirando os olhos do irmão. Este permaneceu quieto e nem quando Linda pegou na mão dele, que saia desajeitadamente do bolso das calças, deixou-se levar. No entanto, ela notou que este tremia.
Linda sentiu uma súbita vontade de chorar. Pela primeira vez, tinha a noção de que a sua mãe ia morrer e, acima de tudo, que Kenji sofria com isso.
Este deixou escapar um soluço. Estaria ele a chorar?
-Não sabias… - sussurrou ela, a tremer de frio e de vergonha.
-Não. – Respondeu ele, também num tom baixo. – Entre os estudos e... tu e a Mari, não tenho tido tempo para ver televisão nem ler jornais e revistas. Além disso, os rapazes nunca me disseram nada…
-A Cecília e a Mari também não falam disso. Por respeito, penso.
-Pois...
Havia tanta amargura na sua voz que Linda espantou-se que ele ainda conseguisse controlar as suas emoções.
Silêncio instalou-se entre os dois, onde ambos pensavam na vida passada. Pelo menos Linda pensava nisso. Os pais haviam-na ignorado o tempo todo e agora sabia que a mãe ia morrer e, apesar de tudo, sofria com isso. Seria assim tão coração de manteiga? Ou talvez isso tivesse a ver com o facto de ela saber que tudo isto acontecera por culpa dela. Era culpa dela que o irmão não tivera os pais, que ela própria sofresse com a sua ignorância e talvez Edward e Usagi sofressem de igual modo. Pelo menos, de acordo com as memórias que tinha, deveriam sofrer da mesma forma.
De repente, Kenji gritou um palavrão, com todo o desprezo e raiva que um rapaz da sua idade podia mostrar. Ela não o criticou.
-Estúpido plano – amaldiçoou ele. – Estúpida estratégia!
Falava como se Linda não estivesse ali. Involuntariamente, esta apertou a mão dele. Que queria ele dizer com aquilo?
Kenji sentiu o toque da irmã e olhou para ela, surpreso. Falara demais.
-Que queres dizer com isso? – Perguntou ela, elevando os seus pensamentos. Kenji não respondeu. Apenas limitou-se a fitar a irmã, os olhos muito brilhantes. Passou a mão livre pelo rosto dela, num gesto carinhoso. Linda não pôde deixar de se perguntar de ele estava a pensar nela ou na mãe.
-Quero que saibas Linda… que eu amo-te, não importa o que aconteça. – Falou tão baixo que Linda apenas ouviu parte da frase, felizmente a mais importante.
-Também te amo.
Todas as perguntas que ela lhe tinha para fazer sumiram-se como vapor, todas as coisas que poderia ter falado com o irmão acerca da mãe e dos seus sentimentos acerca da notícia da sua tão próxima morte, ficaram escondidas num canto. O irmão não queria falar disso e ela própria tinha que admitir que, naquele momento, isso era o que menos lhe interessava. Quanto mais olhava para o irmão, mais via que, não importa o que acontecesse, qual fosse a sua decisão, ele iria apoiá-la a cem por cento, iria sempre amá-la sem hesitar. Ele cometera erros no passado mas estava agora disposto e recompensar.
Abraçaram-se, unidos pelo amor e carinho que tantas pessoas invejavam. Linda não conseguiu deixar de sorrir. Kenji não precisava de a recompensar. Ele já o fizera, só por estar ali, quando parte dela queria sumir do Japão.
Amanhã seria um novo dia e ela tinha a certeza que, embora fosse ao palácio sem ele, no fundo não estava sozinha.
**
Música country soava pela rádio do Mercedes de Misaki. Hoje ia ela a conduzir, deitando um olhar de relance minuto a minuto para a passageira ao seu lado.
Linda olhava para a janela, distraída, perdida em pensamentos. Pouco Misaki sabia, era que ela tinha a plena noção de que era observada e que Misaki estava tão nervosa quanto ela.
Chegaram à entrada. Misaki identificou-se e o guarda deixou-a passar. Linda pensou ter visto o guarda a olhá-la desconfiado antes de abrir a cancela, mas Misaki acelerara, impedindo-a de aprofundar a ideia.
Estacionaram o carro e saíram, ainda que Linda se demorara mais do que o suposto.
Não pôde deixar de deitar um olhar em redor. Ainda meses passeara por aqueles jardins, no entanto, algo estava diferente. A fantasia que antes cercava aquele conjunto de verde, amarelo, castanho e vermelho era agora mais realista. Antes era um jardim falso, semelhante aos dos contos de fadas que Linda não queria pertencer. Agora, era apenas um jardim.
Misaki trancou o carro e aproximou-se, vendo a adolescente a olhar para o palácio. Nada mudou…
-Vou ver a tua mãe – anunciou devagar, esperando que Linda tivesse a sua tenção. – Podias ver o teu pai primeiro.
Linda semicerrou os olhos em resposta. Misaki tinha a ideia errada da sua visita. O objectivo era ver a mãe, não Edward.
Mas a mulher adulta já se dirigira para a entrada, perguntando a um empregado sobre o paradeiro do rei.
-Ele está a passear pelos jardins, senhora. – Respondeu o homem, saudando Misaki com uma vénia e desaparecendo com outra. Mais uma vez, o homem tardou a desaparecer quando viu Linda, que evitou olhá-lo nos olhos. Até mesmo os funcionários, ela evitava nas suas andanças pelo palácio. Sempre entre as aulas particulares, o irmão, as ‘tias’ e os avós, Linda não dava hipóteses nem aos que lá trabalhavam de ver a sua cara. Aliás, a última vez que algum empregado falara com ela, tinha nove ou dez. Muito tempo passara entretanto.
-Milagre. – Disse Misaki, acordando Linda dos seus pensamentos nostálgicos. – Há dias que o Eddie não saí do quarto da tua mãe, um passeio deve estar a fazer-lhe mesmo bem.
Se não fosse o sonho que tivera meses antes, Linda teria achado estranho ouvir Misaki chamar ‘Eddie’ ao seu pai. Misaki virou-se para Linda:
-Vai ter com ele. Penso que sabes o caminho.
E sem dar hipótese a Linda de responder, desapareceu pela porta. Por momentos, pensou em ir atrás dela. Afinal, não era obrigada a ver o pai. No entanto…
Se ela não detestasse tanto aquele sitio, talvez colocaria os jardins do palácio na sua lista de “Os mais belos lugares para dar um passeio”. Desde pequena que se lembrava de ir para ali, calcando pedaços de terra, atirando pedras para a fonte, brincando na relva. As memórias mais doces vinham todas dali. O irmão a correr atrás dela, ela a esconder-se atrás de uma árvore, rindo baixinho, enquanto Kenji tentava lembrar-se que número vinha a seguir ao cinquenta e nove. Ela a comer doces roubados da cozinha, a treinar dança, a ler passagens dos vários livros que possuía.
Claro que não era por todo o jardim. Mal o irmão ficou demasiado crescido para algumas brincadeiras, ela refugiou-se num lugar só seu, que mais ninguém conhecia. Isto é, ela e a mãe, mas ela nunca contara a ninguém, portanto ainda era o seu lugar secreto.
Era perto dos eucaliptos e dos canteiros de flores, coberto de lírios, rosmaninhos, petúnias, amores-perfeitos e violetas. Era um canteiro lindíssimo, o preferido da avó, enquanto a mãe preferia as flores de cerejeira, que cresciam do outro lado. Como estava tão perto do pequeno número de eucaliptos, tinha um cheiro interessante no ar.
Mas, ao andar por entre as árvores verdes cheirosas, outro cheiro invadiu as suas narinas. Jasmim e limões. Quando era pequena, plantara um limoeiro ali perto, junto a um pequeno canteiro de jasmins, mais discreto, mas que ela adorava. Aquele cheiro fresco, suave e afrodisíaco deixava Linda nas nuvens e, de repente, sentiu-se feliz por estar ali, no seu canto.
Mas não estava sozinha.
Quando se chegou perto da sua árvore preferida, o limoeiro que plantou, viu que estava lá mais alguém.
Um homem, desajeitadamente vestido, encontrava-se ali, saboreando aquele cheiro com os olhos fechados. Os cabelos estavam um pouco grisalhos, como se anos tivessem passado desde a última vez que ela o vira e tinha a barba por fazer. De certa forma, Linda teve um estranho vislumbre do irmão.
Ficou parada a observá-lo, incrédula por vê-lo ali, para além das incríveis semelhanças.
Ele estava preocupado. Os olhos fechados mostravam algumas rugas da idade, ainda que ele não tivesse muito mais do que quarenta. O torso estava contraído, como se ele evitasse respirar. Sem duvida que tinha um daqueles nós na garganta que nos impedia de agir quando devíamos.
Linda desviou o olhar para o chão, onde viu os jasmins ainda em flor. Jasminum polyanthum, Jasmim-dos-poetas. Uma flor branca e simples, mas que sempre deitava um leve sorriso em Linda pela sua simplicidade e beleza. Eles simbolizavam a beleza e a tentação das mulheres. O sorriso de Linda aumentou. De certa forma era verdade, pois o seu irmão nunca conseguira resistir a mulheres que usavam perfume de jasmim… tal como Mari.
Quando voltou a levantar a cabeça, viu Edward a olhar para ela, o seu rosto impossível de ler. Apenas os olhos, ainda naquele tom de brandy que deixara a mãe louca na juventude permaneciam iguais, com um certo brilho que Linda nunca vira. Ou melhor, vira, horas antes quando estava no telhado com Kenji.
Ele não perguntou o que ela fazia ali. Linda suspeitava que ele não acreditava naquilo que via, preferindo pensar que era tudo uma alucinação. O que era compreensível, dado o estado em que ele estava.
-Como as coisas mudam – comentou ele, a voz tão afónica que parecia não ter sido usada em semanas.
-Quanto tempo ela tem? – Perguntou ela, não sabendo o que dizer.
Falara tão baixo que duvidava que Edward a tivesse ouvido. No entanto, este respondeu:
-Quatro, cinco meses… não sabemos ao certo. – Agora ele observava as folhas do limoeiro, onde, por entre os ramos castanho-claros, generosos limões amarelos floresciam.
-Quando começou? – Perguntou ela, receosa. Lembrava-se de a mãe a ter chamado antes de sair do palácio. Ela recusara-se a ouvi-la. Será que ela lhe iria falar da doença? Se o fosse, então parte da culpa de isto ter acontecido talvez fosse dela.
-Por volta de Agosto.
Linda tremeu desconfortavelmente. Fora tudo nesse mês. No mês onde ela fizera anos, quando o irmão saiu de casa, semanas antes de ela ter saído de casa.
-Eu… não sabia.
Algo na sua voz soou mais humano para Edward, pois este virou-se, como se tivesse pela primeira vez notado que a sua filha mais nova estava ali. Os seus olhos expandiram-se de espanto e os seus lábios formaram uma linha recta, como se ele tentasse controlar as suas emoções.
Finalmente, ela podia ler o rosto dele. E não era difícil saber o que é que ele estava a pensar:
-Vim ver…a mãe. Apesar de tudo, não lhe desejo nenhum mal. – Evitou olhar para ele, apesar de Edward não tirar os olhos de cima dela, sem sequer pestanejar. – E preciso de… respostas.
-Para quê? – Perguntou ele automaticamente.
-Para… tudo. Eu sempre tive dúvidas… de quem eu era. Porque não me encaixava aqui.
Falava agora de coisas que nunca tinha falado antes. Coisas que sempre a incomodaram, desde pequena. Estava tão nervosa, que para ela, aquilo que dizia era apenas um despejo dos sentimentos retidos durante anos. Nem notou nas expressões de Edward quando falou:
-Por vezes perguntava-me porque é que vocês me odiavam. Porque não me queriam como filha. Até me passou a cabeça a ideia de não ser… sua filha. Não tinha nada igual a si. A cor dos cabelos, os olhos, a minha personalidade, não havia nada em mim que se assemelhasse consigo. Para mim, era a ideia mais plausível. O motivo pelo qual vocês sempre me odiaram. Era uma bastarda.
-NÃO.
Ele quebrou a distância entre eles e agarrou-lhe no braço. O toque das carnes fez despertá-lo para a realidade. Ele tinha agora a noção que Linda tinha mesmo dito aquilo. Não fora imaginação sua. Os seus olhos explodiram de raiva e tristeza, parecendo que iria deitar fogo ao limoeiro e aos eucaliptos.
-Nunca digas isso! – Disse ele, raiva expressa em cada palavra. – Eu e a tua mãe nunca te odiamos. Tu não sabes como as coisas são.
-Vocês não me contam… - disse ela, mas Edward cortou-lhe o discurso.
-É porque achamos que tu não precises de saber. Há coisas Linda, que uma pessoa ficaria feliz sem saber.
Linda ergueu o sobrolho. Estaria ele a falar do segredo das navegantes?
-Eu tenho os meus motivos, a tua mãe tem os seus motivos mas NUNCA digas essas coisas. Tu és minha filha. Nunca duvidei, nem nunca tive motivos para duvidar. Tu és minha filha!
A última frase dissera com tanta convicção que Linda nunca poderia duvidar dele. Arrependeu-se do que disse mas, quando tentou dizer isso a Edward, este voltou a calá-la. Ainda tinha mais para dizer.
-Dizes que fisicamente não tens nada comigo. Pois, discordo. Olho para ti e vejo-me a mim em tanta coisa. Eu sou teu pai, Linda, segurei-te quando nasceste e a primeira coisa que vi em ti fora que eras a cara da tua mãe, mas tinhas o cabelo escuro e os lábios… um dia talvez entendas, mas um pai procura sempre semelhanças em si no seu filho recém-nascido e eu vi que tinhas os meus lábios. Apenas isso, mas só isso deixa-me feliz. Saber que te passei, de certa forma, o meu legado. E depois cresceste. Podes ser igual à tua mãe mas, sempre que abres a boca és igual a mim. A tua inteligência, a forma de tu dançares, a tua calma em situações stressantes, onde a tua mãe e o teu irmão arrancavam os cabelos com os nervos, o tique dos lábios… sim, Linda, eu sei desse tique, porque a tua mãe sempre gozou comigo por causa dele. Era por isso que eu evitava sempre mentir. Não conseguia livrar-me deste vício. A tua frontalidade, a tua determinação… isso tudo vem de mim. E podes não acreditar mas sinto orgulho disso. Em saber que tu, sendo minha filha, tens algo meu. Que possa olhar para ti e lembrar-me de mim quando era mais novo ou até mesmo dos teus pais. Porque garanto-te que a única pessoa que conheço que tenha uma personalidade fora do vulgar é a tua avó materna. De resto, garanto-te que os meus pais e o teu avô tinham personalidades semelhantes. Nunca duvides disso Linda, mas tens o meu nome e o meu sangue. Não me importo que me odeies pela forma como agi contigo todos estes anos, mas não admito que tu penses que eu fiz isso porque te odiava ou que duvides que eu seja o teu pai. Isso… - fez uma pausa, a sua voz agora rouca. Sem duvida que fora muito pouco usada nos últimos dias. – Não admito.
Linda estava paralisada, sem saber o que fazer. Edward ainda agarrava o seu braço e podia ouvir a sua respiração ofegante, algo que apenas a incomodava mais. Sentiu uma lágrima cair pelos olhos, mas logo a impediu. Não conseguia pensar em nada a não ser naquilo que ele lhe dissera. Tantos anos e, pela primeira vez, Edward agira como um verdadeiro pai. Um pai que dá raspanetes quando o filho diz algo que ele não gosta e que diz que está orgulhoso dele. Tantos anos… e ele falara para ela como ela sempre sonhara que ele fizesse.
Apesar de Linda ter conseguido controlar as suas lágrimas, Edward não teve a mesma sorte. A pressão que devia estar a sentir foi libertada em vários longos suspiros, enquanto lágrimas salgadas molhavam o seu rosto envelhecido.
-Não é fácil ser um cubo de gelo. – Sussurrou ele, não tirando os olhos de cima dela. Hesitava em largá-la, apesar de Linda começar a sentir uma leve dor devido à forma como ele a estava a agarrar. – Não é fácil.
Largou a filha e virou-lhe costas. Era já a segunda vez que um homem olhava-a nos olhos e mostrava-se possuidor de mais emoções do que ela imaginava.
-Porquê, então? – Disse ela, sem conseguir evitar. Edward virou-se para ela. Pela primeira vez, Linda viu algo mais nos olhos do pai, para além da mágoa, tristeza e raiva. Arrependimento.
-O quadro da tua mãe… Adónis. – Respondeu ele simplesmente. O cérebro de Linda começou a funcionar logo. Havia no seu quarto um quadro, que ela agora que fora desenhado pela mãe, onde o jovem Adónis postava e, ao seu lado, as duas mulheres que o disputaram: Perséfone, a rainha dos Infernos e Afrodite, deusa do amor e beleza feminina.
De súbito ela entendeu. Não entendia por onde a história fora até o agora, mas sabia como tudo começara. Com uma disputa. E, de certa forma, isso tinha algo a ver com ela. E só a ideia aterrorizava-a.
Edward não a impediu de se ir embora, nem sequer disse nada quando Linda correu, ela própria sem fôlego.
As lágrimas queriam sair, mas ela puxava-as para dentro, teimosa. Não, não iria chorar… tinha que ser forte. Não devia estar muito tempo no palácio, no entanto, já se tinha arrependido de ter vindo.
Não parou de correr até que se viu dentro do palácio, onde empregados passavam atarefados de um lado para o outro, alguns atrevendo-se e deitar-lhe um segundo olhar, perguntando-se quem seria ela, outros ignorando-a, como se Linda fizesse parte da decoração. Ela ignorou-os a todos.
Estava agora perto dos quartos reais. Parou junto do seu. O da mãe era já no fundo do corredor e ela não sabia se tinha coragem para lá ir. Não depois do encontro que teve com o seu pai. Rodou a maçaneta e abriu a porta.
O quarto dela estava exactamente do mesmo jeito antes de ela sair, rumo a novos horizontes fora do palácio. A cama dossel, o armário – que agora só tinha os seus antigos vestidos – a mesa de estudo, o espelho, a janela…
Linda deitou um segundo olhar na janela. Engraçado como a única coisa que ela sentia falta naquele quarto, onde dormira grande parte da sua vida, era a janela. Ao aproximar-se, viu os jardins e os eucaliptos. Não dava para ver o seu esconderijo, mas sabia que estava lá. Aliás, agora que Linda pensava melhor, de certeza que no quarto dos pais teria uma melhor vista do seu sítio. Devia ter sido assim que ambos tinham descoberto onde ela se metia em determinadas ocasiões.
Lembrava-se perfeitamente das vezes que ficava junto á janela a observar o jardim, a ver o irmão a sair de casa na calada da noite, os pais e avós a virem de festas, a observar a lua… memórias tão simples, mas doces que apenas a faziam sentir-se normal, a ansiar por coisas normais.
Olhou para o seu relógio de pulso. Eram já dez e vinte. O tempo passara tão depressa…
Saiu do quarto apressadamente. Não olhou para trás. Não havia necessidade para tal.
Apesar de o sol atravessar as grandes janelas do corredor, para Linda estava escuro. No fim do corredor, estava o seu objectivo. Todo o corpo dela tremeu de ansiedade.
Estava alguém junto à porta do quarto dos pais. Reconheceu a silhueta de Misaki de costas. Mas esta não estava sozinha. Uma mulher alta, morena e de olhar sombrio mas dócil estava ao seu lado. A diferença de idades era reduzida, mas Linda sabia mais do que as aparências mostravam.
Aproximou-se das duas. A morena notou nela, parando imediatamente de falar. Misaki virou-se para Linda:
-Ah, estás aqui. A tua mãe está melhor, mas gostava que não a preocupasses muito. Tenta ser… - Misaki fez uma pausa, tentando dar ênfase a aquilo que ia dizer – simpática.
Linda ergueu o sobrolho, gesto imitado pela morena.
-Eu sei ser simpática. – Retorquiu, a voz a fraquejar devido aos nervos.
-Com esse tom de voz, bem que me enganavas – comentou a morena.
Linda fitou-a, constrangida.
-Olá Linda. Não me reconheces?
-Claro que sim. – Respondeu e sorriu ao ver que a sua voz saiu mais suave. – Hotaru.
-Estava a ver que não te lembravas de mim. Já se faz um tempo…
-Sim…
Misaki clareou a garganta, quebrando o silêncio instalado.
-Vais? – Perguntou à jovem, indicando a porta.
-Vocês avisaram-na?
As duas adultas entreolharam-se, antes de Hotaru responder:
-Não. Ela não acreditaria em nós.
De certa forma, o último comentário soou menos frio do que Linda julgava. As palavras pareciam estar carregadas de desprezo, mas Hotaru falara com tristeza. Sem duvida que o estado em que a melhor amiga se encontrava a incomodava.
Elas afastaram-se da porta, deixando-a livre. Tal como uma criança perante a sua primeira vacina, Linda paralisou perante a maçaneta da porta. Inspirou e expirou antes de rodá-la e entrar no quarto.
As cortinas bloqueavam a luz, tornando o quarto num escuro santuário. Na cama, postava uma figura adormecida. Caminhou cautelosamente, evitando fazer barulho, mas foi ouvida:
-Que fazes aqui? – Perguntou uma voz ríspida. Um calafrio percorreu o corpo de Linda. Não tinham Misaki e Hotaru dito que a mãe não sabia que ela estava ali? Como poderia ela saber quem ela era?
-Saí! – Ordenou a voz, um pouco cansada mas firme. – Não tenho paciência para te ouvir. Estou farta… dá-me paz… - aí a voz fraquejou, perdendo som e forças.
Linda semicerrou os olhos. Ela deveria estar a falar com outra pessoa. Avançou para junto da cama dossel, as cortinas impedindo de ver a pessoa lá deitada. Conseguia senti-la tensa na cama, talvez ganhando forças para gritar de novo com ela. Achou que devesse dizer algo.
-Mãe?
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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A sua voz ecoou pelo quarto e teve efeito imediato na outra ocupante. De súbito, o ar ficou menos tenso e Linda podia jurar que a mãe duvidava daquilo que ouvira. Mas o quarto só tinha duas ocupantes e era impossível imitar uma voz, tal como Small Lady começou a aperceber-se:
-Linda?
Esta aproximou-se e afastou a cortina.
Estava diferente. Muito daquilo que ela esperava. Antes de Linda abrir a porta rumo a um novo mundo, a sua mãe estava desleixada e com ar doente. Ironicamente, agora que estava realmente doente, parecia a jovem mulher que Linda vira nos seus sonhos. Claro que ainda tinha o ar doente. Pele terrivelmente pálida, ar de quem poderia cair a qualquer momento e cabelos todos despenteados. Mas havia algo nela, um ar aliviado, que impressionou a filha.
-Que fazes aqui? – Perguntou ela. Longe de ser rude, estava agradavelmente surpreendida. – Julguei que nunca mais cá voltasses.
-E era… mas você… tinha que a ver – acabou Linda, os olhos postos no chão. Quando os ergueu, viu a mãe a sorrir e a acenar-lhe para se sentar na beira da cama. Sentou-se, ainda que hesitante.
Suspirou, sentindo um estranho cheiro a alecrim entrar-lhe pelas narinas. A sua mãe olhava-a atentamente, tal como Edward fizera momentos antes. Também ela parecia duvidar da presença da filha mais nova. Sem dúvida que só ficaria convencida quando lhe tocar e sentir que ela era sólida, não um produto da sua imaginação ou alucinações de uma mulher doente.
Tal como Linda suspeitava, Small Lady pegou-lhe na mão cuidadosamente. Ao sentir a pele da filha na sua, um certo brilho percorreu o pálido rosto. Os seus olhos ficaram sem expressão por uns momentos, momentos esses passados em silêncio. Linda observava a mãe atentamente, receosa do seu próximo passo. Já Small Lady, sem largar a mão da filha, reflectia.
Pela primeira vez em anos, silêncio era a última coisa que Linda pedia. Pela primeira vez, estava farta dos pensamentos, das hesitações. Ela queria sair dali, mas aquilo atrasava-a.
-Eu julgava que eras outra pessoa – comentou a rainha, sem tirar os olhos do fundo da cama. – Pelo modo de caminhares.
-Sou assim tão sorrateira? – Perguntou Linda casualmente.
-Muito…
Algo naquele comentário não agradou à rapariga.
-Que quer dizer com isso?
Mas a mãe não parecia disposta a continuar aquela conversa.
-Viste o teu pai? – Perguntou, os olhos vermelhos cheios de preocupação. Linda assentiu.
-Como é que ele está?
Ela achou estranha aquela pergunta. Não estava Edward todos os dias junto da esposa? Como que lendo pensamentos, Small Lady respondeu:
-Mandei-o ir-se embora. Ele aqui está sempre deprimido e o que menos preciso é de o ver infeliz. Pedi-lhe que saísse e que respirasse ar puro. Aliás, tenho-lhe pedido isso há meses, ainda antes de lhe ter contado que estava doente. Foi por isso que ele foi ao torneio de dança. O torneio onde tu dançaste. – Acrescentou, com um sorriso. – Ele deu-me todos os detalhes da tua dança, apesar de eu não ter percebido metade daquilo que ele disse. Nunca o vi assim tão orgulhoso. – A sua face ficou sombria. – Mascaras de gelo são difíceis de conseguir, mas não impossíveis. – Disse, num sussurro. Linda ficou branca. Era a segunda vez que falavam daquilo. Apesar de Edward e Small Lady lhe terem tocado, havia algo nas expressões deles que ainda não estavam acordadas para a realidade. Uma realidade em que a filha deles estava ali a ouvi-los falar de algo que abalou a vida deles.
-Só duas vezes – continuou a rainha, completamente alheia ao choque de Linda – é que o vi mostrar as suas emoções para ti. E também foram duas vezes para o Kenji… – A primeira vez que o irmão era mencionado. Linda calculava que a mãe perguntasse como é que ele estava, mas enganou-se. Small Lady continuou o seu discurso. – Desde que nasceste – acrescentou, baixinho. Linda ouviu, mas tentou não mostrar emoções. - Quando o Kenji fez dez e conseguiu pregar uma partida ao duque da Holanda, um homem arrogante que o teu pai não gostava. O homem ficou todo verde, até no bigode. O teu pai não conseguiu controlar o riso e acabei por ser eu a castigar o teu irmão, apesar de não ter sido nada de grave. Nem eu gostava daquele homem. A segunda foi quando o teu pai vos levou a Inglaterra, lembras-te?
Linda lembrava-se perfeitamente. Tinha sete e divertira-se bastante a montar a cavalo e a passear pelos prados. Como os pais estavam muito ocupados com os seus deveres reais, os avós aproveitaram e levaram os netos numa viagem à Península Ibérica, onde visitaram Barcelona, Madrid e Santiago de Compostela em Espanha e Guimarães, Algarve, Porto e Coimbra em Portugal.
Assentiu com a cabeça. A mãe sorriu, os olhos ainda focados noutro ponto distante.
-O teu irmão fez umas maluquices quaisquer a tentar montar o cavalo dele. Não tinha sucesso nenhum. Aliás, nem eu e o Edward tínhamos jeito para os cavalos. Ele conseguia montar um por uns tempos, eu nem montar para cima de um conseguia. Tu foste a excepção é claro. Mas o teu irmão foi a coisa mais engraçada de se ver. Tínhamos que fazer aquela parada por Londres e o teu irmão não conseguia montar o cavalo. Eu e tu recebemos ajuda e o teu pai subiu ao seu, mas o teu irmão ainda estava em terra. Íamos chamar o instrutor quando o teu irmão disse para irmos indo que ele ia atrás. O meu pai ficou com ele. Depois estávamos na parada os três e chega o teu irmão atrás com o meu pai a montar o cavalo e o teu irmão num carrinho atrás, acenando a toda a gente.
Linda soltou uma gargalhada. Lembrava-se tão bem daquele dia. Os coches eram apenas para as mulheres, no entanto, apenas a avó e ela foram nesse coche, ela com a cara escondida dos fotógrafos. Já os homens tinham que ir a cavalo e Kenji não tinha hipótese nenhuma a não ser arranjar forma de subir para o seu cavalo. Mas teimoso como era, recusou toda a ajuda que lhe ofereciam. Linda lembrava-se de vê-lo a olhar para o cavalo e sussurrar: Diabo com quatro ferraduras, recusando-se a subir a um. Linda perguntara-se a si própria como é que o irmão conseguiria não subir ao cavalo. Por momentos pensara que o irmão iria suplicar ao pai para o deixar ir no coche, mas Kenji arranjou a sua própria maneira. Um simples carrinho de quatro rodas que era puxado pelo seu cavalo, que era montado pelo avô, que ria a altas gargalhadas. No coche, a sua avó também perdeu a compostura ao ver o neto a cumprimentar tudo e todos com um ar pomposo no seu carrinho e até a mãe tentara esconder as suas risadas. Na altura, Linda não prestara atenção ao pai, que ia à sua frente no cortejo.
-O teu pai quis matá-lo ai em frente a toda a gente e, ao mesmo tempo dar os parabéns por ter conseguido cumprir a sua promessa de não montar o cavalo e, ao mesmo tempo, ter cumprido o seu dever como príncipe… com originalidade, devo dizer. Os olhos do teu pai brilharam tanto naquele dia, apesar de mais tarde lhe ter dado um sermão valente.
Linda não conseguiu evitar um sorriso. Aquele tipo de atitudes era tão normal. Um pai orgulhoso da esperteza do filho mas, ao mesmo tempo, furioso pela sua irresponsabilidade.
-Contigo foi mais… fácil esconder. Mas também houve esses momentos. O da dança e o teu nascimento.
Falta um, pensou Linda. Quando o seu pai lhe tinha ensinado um truque para a dança. Ela vira-o sorrir quando ela lhe agradecera, os seus olhos a tilintarem de felicidade, ainda que na altura ela fosse cega a ponto de pensar que aquilo não era nada de mais.
-Espere aí… - disse ela de repente, confusa. – Disse, o meu nascimento?
Agora não entendia nada. Supostamente o seu nascimento fora motivo de depressão, não alegria... certo?
-Sim… - espondeu a rainha simplesmente, os seus finalmente postos na filha. Linda percebeu, para seu azar, que a mãe agora não se iria descuidar mais naquilo que dizia. Logo na parte que ela tinha mais curiosidade.
-Mas vocês… tudo isto começou comigo. Com o meu nascimento.
Os olhos da mãe fitaram-na, dando a Linda a sensação de estar a ser examinada a raio-X.
-Foi a meio da gravidez. – Murmurou ela, num tom pesaroso. – Todos temiam que eu fosse cometer uma loucura. Que eu… - desviou o olhar da filha, não conseguindo encará-la. – Sabotasse a gravidez.
Linda controlou a curiosidade de lhe perguntar “e tentou?”, pois não havia em Small Lady nada que mostrasse que ela não estava arrependida.
-Havia sempre alguém comigo dia e noite. Nem podia estar com o meu filho sem saber que uma navegante, os meus pais, uma empregada ou até mesmo o meu marido pudesse estar de olho em mim.
Linda ergueu o sobrolho. O seu pai queria que ela nascesse? Mais uma vez, a sua mãe respondeu-lhe aos seus pensamentos.
-O Edward já te amava ainda antes de tu nasceres. Eu achava que desejava uma filha muito mais do que toda a gente na minha família, mas estava enganada. O Edward queria-te e ti e ao Kenji muito mais do que eu alguma vez quis. Eu estava hesitante em ser mãe e fiquei em pânico nos primeiros meses de gravidez do Kenji. Já o teu pai ficou logo contente. Era-lhe natural. À segunda já não tinha medo nenhum. Estava preparada e desejava uma menina. Mas o Edward desejava mais. Vi isso logo após a ecografia, quando descobrimos que vinhas a caminho. Os sonhos que ele planeara. Nem mesmo quando… aquilo aconteceu… ele deixou de querer desistir do seu sonho de ser pai e ter uma família. Achávamos nós que haveria uma maneira… um outro caminho…
-Como assim outro caminho? O que aconteceu? – Interrompeu Linda, morta de curiosidade. Small Lady ignorou-a.
-O meu pai fizera anos no dia anterior e nós estávamos na nossa casa de verão. Os meus pais tinham várias reuniões de trabalho e não puderam estar comigo naquele dia. Estava tão aborrecida que o teu pai decidiu pedir à Minako que levasse o teu irmão ao parque de diversões do outro lado da cidade e que nos deixasse sozinhos. Mas meia hora depois o teu pai recebeu uma chamada. O meu pai precisava dele urgentemente. Eu ficaria sozinha. Então ele ligou para a Misaki, para a Hotaru, o Benjamim, o Hiroíto. Nenhum deles podia. Aliás, o teu pai perdeu quinze minutos a ligar para toda a gente. Durante esse tempo, eu dormia pacificamente. O teu pai lá conseguiu ligar para a Minako e pedir-lhe que viesse com o teu irmão. Saiu a pensar que eu estava a dormir.
-E não estava?
-Estava ele a pegar na mala quando me deu uma contracção. Depois ele saiu (ouvi o bater da porta) e veio outra. Não o consegui impedir de sair e ia a caminho do telefone quando a luz foi abaixo.
-Foi abaixo? Porquê?
-Por causa do tufão Mercury. Eu não queria nem o meu filho nem o teu pai na rua naquele tempo, mas não os pude impedir. Aliás, naquele momento só queria ligar para alguém, pois as dores eram insuportáveis.
«O meu telemóvel estava do outro lado da casa e era completamente impossível eu percorrer aquela distância. Acabei por ficar num canto da sala, virada para a porta a gemer de dores. A Minako tinha apanhado trânsito e tivera que fazer desvios por causa do tufão. Horas passaram-se e a certa altura via a tua cabeça. Eu entrei em pânico. Tinhas que nascer ou morrerias. Já não me lembro como fiz aquilo, a única coisa que me lembro são das dores que aumentava a cada segundo. Acho que me esqueci de tudo, apenas sabia que tinha que te ajudar a nascer ou morrerias. Fiz pressão na barriga, puxei… não me lembro do que fiz de errado, mas durante todo aquele tempo eu pensei que tinha feito tudo mal. Tu não gritavas. Peguei uma lima para as unhas e cortei o cordão umbilical e fiquei contigo nos meus braços. Tu não choravas, ou melhor, não respiravas. O teu irmão saiu de dentro de mim a gritar, não sabia o que fazer. Foi aí que me lembrei que, se te batesse, tu começarias a chorar. Foi o que fiz. Nem sabes o quando chorei quando te ouvi gritar, toda cor-de-rosa e pequenina. Mal cabias nos meus braços. Nasceras uma semana antes do esperado. Entrei em pânico. Tinha que te levar para o hospital. Mas estava tão fraca. Tinha uma grande poça de sangue à minha volta, que sujou toda a minha camisa de dormir. Tinha que chamar alguém. As luzes voltaram. Ao que parecia, o tufão mudara de direcção momentos antes. Nem sei quantas horas tivemos lá sozinhas. Penso que quatro ou cinco. Nunca ouvi falar de parto mais rápido. A Minako estava a ficar frustrada, o teu irmão estava assustado e não me conseguia ligar. Pelo caminho encontrou o teu pai, que voltava da reunião. Quando o teu pai viu a Minako com o Kenji, percebeu que eu estava sozinha. E sabes o que é que o parvalhão fez? Desatou a correr, deixando o carro no meio da auto-estrada. Correu até casa para quase arrombar a porta.»
Small Lady parou de falar, sem duvida que reflectindo sobre aquilo que dissera. Linda estava em silêncio. Não sabia o que dizer muito menos o que pensar daquilo que ouvira. Era tanto detalhe novo que ela não conseguia digerir aquilo com a mesma velocidade que digeria outros pensamentos. Parte dela ainda não estava recuperada do ‘quase-choro’ que passara momentos antes. Lágrimas queriam sair e desta vez Linda não as impedia.
A mãe observava-a, com um ar sonhador. Em seguida, pegou-lhe na mão e apertou-a à sua.
Várias imagens circularam por entre os olhos das duas.
**
Ele entrara dentro da casa a correr. Atrás de si, deixou a porta quase arrombada. Pânico subiu-lhe ao cérebro, ficou incapaz de se mexer. Gritou o nome da mulher, mas foi o som de uma criança a chorar que recebeu em troca.
Foi atrás do som, agora mais hesitante. Seria produto da sua imaginação aquele som tão natural de um bebé a chorar?
Encontrou a esposa sentada no chão no meio de uma poça de sangue. Estava terrivelmente pálida e os cabelos estavam todos despenteados e molhados. Toda ela estava molhada. A sua camisa de dormir estava toda manchada de sangue, mas ela chorava. De alegria. Segurava nos braços uma pequena bebé recém-nascida, toda cor-de-rosa, muito pequena, rosto um pouco amarelado e com um grande tufo de cabelo negro.
Ele não conseguiu controlar as lágrimas. Ficou ali parado, mesmo tendo consciência de que a mulher e a filha precisavam de cuidados médicos. Ficou imóvel, a olhar para a criança, que não parava de chorar.
Aproximou-se da mulher, que lhe estendeu a criança. Ele pegou nela cuidadosamente. Tinha tanto medo de a quebrar. Ela era tão pequena. Os seus braços pareciam os do King Kong ao segurá-la. Ao admirar a menina, só podia ver semelhanças com a mãe. Mas isso não importava.
Um pai fica sempre feliz quando segura o seu filho pela primeira vez. Sente-se capaz para o cargo em mãos. E isso acontecera com Usagi e Edward quando Kenji nascera. Uma mãe ama o filho incondicionalmente, principalmente depois daqueles meses todos com ele dentro de si. Mas para o pai, a história era outra. Ao segurar Kenji, ele sentiu-se um rei com o maior séquito da história, um vencedor da maratona, o homem mais feliz do Sistema Solar. Mas aquela menina era diferente. Era sempre diferente. Segurar uma filha não era a mesma coisa que segurar um filho. Os pais criam o rapaz para ser um vencedor, já as raparigas… era aquela sensação de que as iriam proteger até ao dia do Julgamento Final. Que aquela criancinha nunca iria crescer, seria sempre a menina do seu pai.
Ela estava coberta de sangue e sujou-lhe a camisa. Mas isso não lhe importava. Com um braço, segurou a pequena cautelosamente e com a outra mão pegou no telemóvel. Ligou para as urgências. Agora era só esperar.
Não conseguia tirar os olhos da filha, que começava a acalmar. A imagem estava um pouco desfocada, devido às lágrimas, mas ele não se atreveu a limpá-las. Não se atreveu a mexer-se. Era como se segurasse uma boneca de porcelana. Cuidado ou ela iria se partir.
Ela sabia que, quando os seus pais chegassem, nada voltaria a ser o mesmo. Uma aura negra cercava aquela menina tão inocente e inconsciente daquilo que lhe esperava. Usagi deixou cair uma lágrima, que se misturou com as outras. Mas aquela lágrima era diferente das outras. Aquela era a lágrima de uma mãe que não podia evitar o que aí vinha.
**
Linda deu um salto, quase caindo no chão.
-O que…
-Presumi que já soubesse até onde se estendiam os teus poderes. – Disse a sua mãe, num tom casual.
-Tinha… uma ideia… - Linda deu voltas pelo quarto, a sua mente semelhante a uma folha de papel em branco. Verdade que ela tinha suspeitas que ela podia ter acesso aos sonhos das pessoas acordada, mas não daquela maneira. – Como é que…
-Temos o mesmo sangue, poderes semelhantes. – Respondeu Small Lady calmamente. – Nada de anormal.
Só se for para si, pensou Linda para os seus botões. Ainda assim, tentou manter a mente em foco naquilo que acontecera e não naquilo que vira. Era bem mais fácil pensar num poder que tinha no que nas complicações que a sua vida levava.
-Aura negra… - ouviu-se dizer, sem conseguir evitar. – Aura negr…
-Pouco sei eu, pouco sabes tu.
Linda mirou a mãe, furiosa.
-O que raio é que vocês me escondem? Já pararam para pensar que isso ME DIZ RESPEITO? Se isso é sobre MIM, então eu não deveria ter o DIREITO de saber? Porque me escondem isto? E porque é que tudo o que se passa à minha tem a ver COMIGO? Porque é que o meu irmão perdeu os pais? Porque é que você e ele mostram provas de amor quando me IGNORARAM TODA A MINHA VIDA!?
-Linda…
-Você agora está doente e acabou por me fazer sentir-me culpada. Não é justo pensar mal de si TODA A MINHA VIDA para agora, quando VOCES ESTÁ A MORRER, me contar que sempre gostou de mim, que fora OBRIGADA a ser má para mim…
-LINDA!
A jovem parou de falar, apesar do seu temperamento ainda querer explodir mais um pouco. Small Lady estava de tronco erguido, a olhar para ela. Os seus olhos soltavam faíscas de ira, que Linda conseguia sentir esmo ao longe.
-Se deres uma volta à tua vida, vais ver que ALGUMA coisa nós te dissemos. Vais perceber que as coisas NUNCA foram o que pareceram. Não digas que eu e o teu pai fomos obrigados porque foi mentira. Foi voluntariamente. Mas tivemos os nossos motivos. Não te contamos nada porque… sinceramente Linda, qual seria a tua reacção? Tu nunca entenderias e, mesmo que entendesses, daria cabo de tudo. Era FUNDAMENTAL não saberes. Porque tu VIVERIAS MELHOR sem saber…
No que toca à minha doença… - fez uma pausa, a sua raiva a diminuir de intensidade. – Não pedi para ficar doente. Não pedi para ter este tumor inoperável. Não pedi nada disto. Não pedi uma sanguessuga sempre a infernizar a minha vida. Não pedi que o meu filho saísse de casa e não quisesse ter mais nada a ver comigo, nem que o meu marido sofresse tanto com isto. E, acima de tudo, não pedi para que viesses cá… mas estou feliz por teres vindo.
A última frase foi dita suavemente, apanhando a morena de surpresa. Esta olhou para a outra ocupante do quarto, chocada por vê-la a sorrir.
-A vida não é como queremos Linda. Mas espero que tenhas mais sorte do que eu. Eu não consegui evitar que uma sanguessuga se metesse na minha vida. E isso… custou-me tudo. – Acabou ela com um suspiro. Linda entendeu que era altura para sair, ainda que muitas perguntas tenham ficado sem resposta.
Não estava ninguém na entrada do quarto. Misaki e Hotaru deviam estar na sala. Percorreu os corredores, tentando evitar olhar para os quadros, janelas ou algo onde ela pudesse ver memórias distintas.
A certa altura parou. Aquela era a ala oeste do palácio. O mesmo sitio onde estava…
Hesitou perante aquela enorme porta. Poderia ela entrar? Afinal, ainda era uma herdeira ao fim de contas.
Abriu e entrou na sala. Teve que pôr a mão à frente dos olhos, devido à intensa luminosidade. A sala estava pintada de branco e aquilo que não era branco, era transparente como cristal. A única coisa que diferenciava-se um pouco do resto da decoração era uma almofada púrpura, que sustinha uma pedra cujo brilho dificultava a visão de Linda. O cristal Prateado.
A pedra mística que ela iria herdar mais tarde. Uma pedra que possuía uma enorme quantidade de poder. Jamais poderia cair nas mãos erradas. Claro que isso não impediu que tal não tivesse acontecido no passado.
Avançou até ao cristal, a sua vista já habituada à intensa luz. Estranhamente, sentia-se bem naquela sala. Como se estivesse no seu elemento. Uma sensação de paz e tranquilidade que ela nunca sentira em qualquer noutro lugar. Ali estava ela, princesa da Lua e da Terra, na sala onde estava a chave de toda a felicidade no Sistema Solar. Onde estava a chave para si própria. Era a única prova – para além de memórias – de que ela tivera uma vida anterior à sua. Uma vida que agora se cruzava com o presente. De repente, ela já não se podia contentar em olhar para o presente. Tinha o passado nas suas mãos e o futuro pendente das suas acções.
De repente, sentiu-se levemente sufocada. Alguém infiltrara-se no seu elemento, caminhando sorrateiramente. Não era preciso ter os poderes de Cecília para saber que era alguém com uma alma muito diferente da do cristal, que emitia uma luz pura.
Virou-se de imediato. À sua frente estava nada mais, nada menos do que Guinevere Dawson.
O efeito dos opostos manifestou-se logo. Linda jamais poderia imaginar que ela fosse semelhante, mas também o verdadeiro oposto de Dawson.
Dawson estava vestida com roupas escuras, enquanto Linda com roupas claras. Ambas tinham pele branca, e eram da mesma altura. No entanto a cor dos olhos de Dawson eram a cor dos cabelos de Linda e o azul que enfeitava os olhos da jovem, era o que mais chamava a atenção no cabelo de Dawson. Ambas eram magras e Linda ficou parva a ver que, ao fim de vários meses, conseguira finalmente ganhar curvas semelhantes a aquela mulher, considerada uma das mais belas e formosas. Ambas tinham traços delicados no rosto, mas os olhos de Linda brilhavam, os de Dawson não. Os lábios de ambas, pintado de um rosa murcho, formavam linhas curvas, mostrando o desprezo que sentiam uma pela outra.
Era a primeira vez em anos que via Dawson. E Linda estava muito contente com esse feito. Sempre detestara aquela mulher, arrogante, mesquinha, egoísta e egocêntrica.
O ar estava mais pesado. Linda pensou, estupidamente, que talvez a sala não tivesse oxigénio para as duas. Uma tinha que sair. Mas nem ela nem Dawson se mexeram. Ambas limitaram-se a fitar a outra. E poderiam ter ficado assim por muito tempo, não fosse a raiva que Linda sentia. Era aquela mulher que estava a ordenar aqueles ataques. Por causa dela, uma rapariga ficara em estado vegetativo, por causa dela outras pessoas haviam sido atacadas e retirado essência das suas vidas. Por causa dela…
Longe de querer tornar Guinevere o bode expiratório para todos os seus problemas. Linda sabia que ela era a causa daquilo tudo. E isso apenas a fez ficar com mais raiva. Parte dela queria correr dali para fora, a outra queria espancar aquela mulher e arrancar-lhe os cabelos pela raiz.
O chão tremeu um pouco, mas Linda não sentiu. Dawson deu um passo atrás, apanhada de surpresa.
-Estou a ver que cresceste. – Comentou, a voz ácida como limão. – Tens poder suficiente para provocar um tremor de terra.
-Sempre tive. – Retorquiu Linda, no mesmo tom. – E você sempre soube.
Os olhos de Dawson brilharam maliciosamente.
-Oh sim. É claro que soube. E foi por isso que achei melhor afastar-te do teu caminho.
-O quê? Que quer dizer com isso?
O sorriso de Dawson aumentou.
-Não sabes ainda? Que pena. E eu que julgava que eras esperta.
Acostumada aos comentários sarcásticos e arrogantes de Dawson, Linda nem pestanejou.
-O que faz aqui?
-Perguntava-te o mesmo.
-Você não é bem-vinda aqui. – Era verdade. Linda entendera de imediato quem era a ‘sanguessuga’ que a mãe falara.
-Se reparares melhor… - disse Dawson, dando um passo e frente, olhando Linda como um caçador olha a sua presa. – Tu também não és.
Mentira. Aquele era o seu lugar. Era o seu elemento.
Antes que tivesse noção daquilo que estava a fazer, Linda sentiu a sua cabeça a andar à roda. Aquilo que ela estava a ver não era pelos seus olhos, mas sim pelos da mulher que estava à sua frente.
**
Guinevere Dawson era filha de camponeses de Glastonbury, em Inglaterra. Bela desde pequena, arrogante desde nascença. Ansiava por uma vida melhor, onde não teria que trabalhar para ter que comer, tal como os seus pais fizeram toda a vida. Teve três irmãos, dois perderam-se para a gripe, o outro para a estrada, num acidente. Dawson chorou a morte de Daniel, seu irmão mais novo, morto pela gripe. Chorou, não por saudades ou tristeza, mas porque fora a morte mais desnecessária que ela alguma vez vira. Ao contrário do seu outro irmão, que não tinha salvação, Daniel podia ter sobrevivido se lhe tivessem dado medicamentos. Mas os pais não tinham dinheiro e nenhum hospital os aceitou. A partir daí, Guinevere prometeu a si própria que tudo faria para alcançar o topo. E durante anos fora isso que fizera. Quando fez dezasseis, conseguiu a confiança de um duque que se propôs a adoptá-la. Guinevere largou a sua humilde família num piscar de olhos e de repente viu-se num mundo maravilhoso de luxo e riqueza. Ele apresentou-a à nobreza como sua ‘filha adoptiva’, enchendo-a de jóias, vestidos, instrução. Em troca, dividia a cama com ele.
Guinevere queria, acima de tudo, ser superior às filhas dos nobres. Frequentou a escola e tentou fazer as ‘melhores’ amizades naquele campo. Fora aí que conhecera Edward, jovem príncipe, primo do Rei. Ele era tudo aquilo que ela sempre quis. Jovem, belo, inteligente e poderoso. Era o perfeito homem para ela. Aproximou-se da prima deste e do seu melhor amigo, Benjamim, ganhando assim um lugar no seu círculo de amizades. Mas Edward não tinha olhos para ela e, por muito que Dawson tentasse, a sua beleza não hipnotizava Edward como fazia com os outros homens.
Fora num workshop de Relações Publicas onde conheceu a sua competição. Edward conhecera a filha dos reis do Japão, Usagi, e apaixonara-se por ela. Guinevere viu que, para espanto de tudo e todos, nenhum deles tinha a noção dos seus títulos reais.
Apesar de Usagi ter-se revelado difícil, iniciando uma relação de ‘cão e gato’, era obvio que ela também gostava dele. Tentando evitar os seus avanços, aproximou-se da princesa e tentou arruinar a relação. Ela tinha agora dezanove e conseguira livrar-se do nobre. Agora os seus planos eram todos para Edward. Jamais quereria ela ficar junto de um homem que era dois anos mais velho que o seu próprio pai.
Por mais que tentasse afastá-los, ambos pareciam aproximar-se ainda mais. Guinevere persuadiu uma amiga da Rainha Small Lady a falar com a tal. No final, Usagi estava noiva com outro homem, tendo sido obrigada a pôr um ponto final na sua relação com Edward. Ela vira os dois pombinhos a despedirem-se. Edward achava que ela lhe escondia alguma coisa. Usagi nunca fora boa a mentir. Ver os dois a beijarem-se pela uúltima vez fez com que ela desse um salto de alegria.
O que ela não contava era que a Rainha-Velha fosse mais esperta do que ela pensava. Ao que parecia, Hotaru contava-lhe tudo, inclusive o namoro da filha com Edward. Guinevere não contava também que a ‘amiga’ da rainha era mais amiga dela do que ela pensava. Ainda hoje Rei Hino dava-lhe um sorriso de desprezo por onde ela passasse. As duas trataram do noivado de Usagi com o homem que ela queria. E assim estavam os dois casados.
Dawson viu-se agora com um problema em mãos. Não apenas Edward estava junto da outra, como também ela desenvolvera um profundo ódio a Usagi. Esta, Misaki e Hotaru não escondiam o desconforto de a ter por perto.
Tentou arranjar formas de superar Usagi. Soube que ela era herdeira do lendário cristal prateado. Isso indicava que ela tinha poderes. Mas como? Fosse como fosse, Dawson também queria ter esses poderes… e mais.
Pesquisou e pesquisou e entretanto nascera o primogénito. Ela vira a criança. Bonita e traquinas, fazia-lhe lembrar do pai. Sorria sempre que a criança estava por perto. Talvez o rapaz desses os seus usos no futuro.
Continuara a procura e pelo caminho descobrira a história do Milénio Prateado. E as Guardiãs da Esperança. Misaki descendia de uma e Usagi da outra, enquanto uma rapariga loira que começara a aparecer no palácio deveria ser a descendente da outra. Estavam as três grávidas de raparigas. Melhor dizendo, Usagi estava, pois a loira tinha dado à luz uma semana antes de a ter visto e a filha de Misaki tinha nascido em Fevereiro. Só faltava uma.
E quanto mais Guinevere pesquisava, mais descobria que aquela rapariga não podia nascer. Ou, se nascesse não poderia viver durante muito tempo.
Tinha que fazer alguma coisa. Tinha que impedir que a rapariga estragasse os seus planos.
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Linda sentiu talvez a dor mais forte que alguma vez sentira. Era como se um camião estivesse a despedaçar o seu crânio em pó. A dor continuava e aumentava de intensidade a cada segundo. Era tortura, aquela dor não devia ser sentida por ninguém. Todo o seu corpo estava petrificado, as pernas moles e os braços rígidos. Deixou-se cair no chão, as mãos a apoiarem a cabeça, pesada como chumbo.
Não tinha noção do que se passava à sua frente. De repente, todo o ar tranquilo da sala desaparecera e ela era a intrusa, não Dawson. O que teria acontecido? Nem conseguia pensar direito.
A sua cabeça iria explodir se aquela dor não parasse. Sentiu-se inchada incapaz de respirar, incapaz de falar. Lágrimas secas caíram-lhe pelo rosto, enquanto ela gritava. O seu grito ecoou pela sala, como se treze Linda gritassem a mesmo tempo. Ajoelhou-se e tocou com a cabeça no chão. Mas doía tanto.
Desesperada, arrancou um pedaço de couro cabeludo e arranhou-se a si própria. Alguém que me mate, suplicou. De facto, a morte era uma hipótese mais agradável a aquela dor tão atroz.
Alguém aproximara-se, mas Linda não tinha noção das coisas. Apenas sabia que esse alguém ficara tão chocado com aquilo que vira que parou junto de Dawson, que nada fazia.
Voltou a gritar, desta vez com mais intensidade. Se alguém lhe espetasse uma facada no crânio, ela não sentiria de tão forte era aquela dor. Sentiu uns braços fortes a agarrá-la.
-Estás a ver Edward? – Gritava Dawson. – Não podes fazer nada para a proteger. Nem a ela, nem à tua mulher. Eu disse-te que esta criança deveria ter morrido ainda antes de nascer.
Linda mal ouvira aquilo que ela dissera. Apenas agarrou-se aos braços que a seguravam, chorando no ombro do seu pai. Este estava rígido como uma tábua, sem saber o que fazer.
-Diz-lhe Edward, que ela não sabe. Diz-lhe que ela é amaldiçoada!
Os gritos de Dawson fundiram-se com os de Linda, antes de se ouvir uma porta a fechar-se num estrondo.
Linda não tinha agora forças nem para gritar nem para se segurar. Tudo o que pode fazer foi agarrar-se ao seu pai como se não houvesse amanhã, soluçando nos braços dele.
-Ajude-me pai… ajude-me…
Edward não podia fazer nada e só esse pensamento fazia-o sentir-se inútil. Tudo o que podia fazer era agarrar a filha, tal como fizera quando ela nascera e abraça-la, esperando que a dor passasse.
-Se eu pudesse filha, se eu pudesse…
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Acabou. E agora espero grandes comentário, ouviram? Porque escrever custa, sabem? Sem grandes comentários, não sinto vontade nenhuma em escrever...
Fique apena sum aparte dito.
-Não foi coincidencia eu colocar Glastonbury como sendo a cidade natal de Guinevere Dawson. Glastonbury é conhecida pelo mito de Avalon, a cidade do Rei Arthur, cuja esposa se chamava Guinevere.
-Linda?
Esta aproximou-se e afastou a cortina.
Estava diferente. Muito daquilo que ela esperava. Antes de Linda abrir a porta rumo a um novo mundo, a sua mãe estava desleixada e com ar doente. Ironicamente, agora que estava realmente doente, parecia a jovem mulher que Linda vira nos seus sonhos. Claro que ainda tinha o ar doente. Pele terrivelmente pálida, ar de quem poderia cair a qualquer momento e cabelos todos despenteados. Mas havia algo nela, um ar aliviado, que impressionou a filha.
-Que fazes aqui? – Perguntou ela. Longe de ser rude, estava agradavelmente surpreendida. – Julguei que nunca mais cá voltasses.
-E era… mas você… tinha que a ver – acabou Linda, os olhos postos no chão. Quando os ergueu, viu a mãe a sorrir e a acenar-lhe para se sentar na beira da cama. Sentou-se, ainda que hesitante.
Suspirou, sentindo um estranho cheiro a alecrim entrar-lhe pelas narinas. A sua mãe olhava-a atentamente, tal como Edward fizera momentos antes. Também ela parecia duvidar da presença da filha mais nova. Sem dúvida que só ficaria convencida quando lhe tocar e sentir que ela era sólida, não um produto da sua imaginação ou alucinações de uma mulher doente.
Tal como Linda suspeitava, Small Lady pegou-lhe na mão cuidadosamente. Ao sentir a pele da filha na sua, um certo brilho percorreu o pálido rosto. Os seus olhos ficaram sem expressão por uns momentos, momentos esses passados em silêncio. Linda observava a mãe atentamente, receosa do seu próximo passo. Já Small Lady, sem largar a mão da filha, reflectia.
Pela primeira vez em anos, silêncio era a última coisa que Linda pedia. Pela primeira vez, estava farta dos pensamentos, das hesitações. Ela queria sair dali, mas aquilo atrasava-a.
-Eu julgava que eras outra pessoa – comentou a rainha, sem tirar os olhos do fundo da cama. – Pelo modo de caminhares.
-Sou assim tão sorrateira? – Perguntou Linda casualmente.
-Muito…
Algo naquele comentário não agradou à rapariga.
-Que quer dizer com isso?
Mas a mãe não parecia disposta a continuar aquela conversa.
-Viste o teu pai? – Perguntou, os olhos vermelhos cheios de preocupação. Linda assentiu.
-Como é que ele está?
Ela achou estranha aquela pergunta. Não estava Edward todos os dias junto da esposa? Como que lendo pensamentos, Small Lady respondeu:
-Mandei-o ir-se embora. Ele aqui está sempre deprimido e o que menos preciso é de o ver infeliz. Pedi-lhe que saísse e que respirasse ar puro. Aliás, tenho-lhe pedido isso há meses, ainda antes de lhe ter contado que estava doente. Foi por isso que ele foi ao torneio de dança. O torneio onde tu dançaste. – Acrescentou, com um sorriso. – Ele deu-me todos os detalhes da tua dança, apesar de eu não ter percebido metade daquilo que ele disse. Nunca o vi assim tão orgulhoso. – A sua face ficou sombria. – Mascaras de gelo são difíceis de conseguir, mas não impossíveis. – Disse, num sussurro. Linda ficou branca. Era a segunda vez que falavam daquilo. Apesar de Edward e Small Lady lhe terem tocado, havia algo nas expressões deles que ainda não estavam acordadas para a realidade. Uma realidade em que a filha deles estava ali a ouvi-los falar de algo que abalou a vida deles.
-Só duas vezes – continuou a rainha, completamente alheia ao choque de Linda – é que o vi mostrar as suas emoções para ti. E também foram duas vezes para o Kenji… – A primeira vez que o irmão era mencionado. Linda calculava que a mãe perguntasse como é que ele estava, mas enganou-se. Small Lady continuou o seu discurso. – Desde que nasceste – acrescentou, baixinho. Linda ouviu, mas tentou não mostrar emoções. - Quando o Kenji fez dez e conseguiu pregar uma partida ao duque da Holanda, um homem arrogante que o teu pai não gostava. O homem ficou todo verde, até no bigode. O teu pai não conseguiu controlar o riso e acabei por ser eu a castigar o teu irmão, apesar de não ter sido nada de grave. Nem eu gostava daquele homem. A segunda foi quando o teu pai vos levou a Inglaterra, lembras-te?
Linda lembrava-se perfeitamente. Tinha sete e divertira-se bastante a montar a cavalo e a passear pelos prados. Como os pais estavam muito ocupados com os seus deveres reais, os avós aproveitaram e levaram os netos numa viagem à Península Ibérica, onde visitaram Barcelona, Madrid e Santiago de Compostela em Espanha e Guimarães, Algarve, Porto e Coimbra em Portugal.
Assentiu com a cabeça. A mãe sorriu, os olhos ainda focados noutro ponto distante.
-O teu irmão fez umas maluquices quaisquer a tentar montar o cavalo dele. Não tinha sucesso nenhum. Aliás, nem eu e o Edward tínhamos jeito para os cavalos. Ele conseguia montar um por uns tempos, eu nem montar para cima de um conseguia. Tu foste a excepção é claro. Mas o teu irmão foi a coisa mais engraçada de se ver. Tínhamos que fazer aquela parada por Londres e o teu irmão não conseguia montar o cavalo. Eu e tu recebemos ajuda e o teu pai subiu ao seu, mas o teu irmão ainda estava em terra. Íamos chamar o instrutor quando o teu irmão disse para irmos indo que ele ia atrás. O meu pai ficou com ele. Depois estávamos na parada os três e chega o teu irmão atrás com o meu pai a montar o cavalo e o teu irmão num carrinho atrás, acenando a toda a gente.
Linda soltou uma gargalhada. Lembrava-se tão bem daquele dia. Os coches eram apenas para as mulheres, no entanto, apenas a avó e ela foram nesse coche, ela com a cara escondida dos fotógrafos. Já os homens tinham que ir a cavalo e Kenji não tinha hipótese nenhuma a não ser arranjar forma de subir para o seu cavalo. Mas teimoso como era, recusou toda a ajuda que lhe ofereciam. Linda lembrava-se de vê-lo a olhar para o cavalo e sussurrar: Diabo com quatro ferraduras, recusando-se a subir a um. Linda perguntara-se a si própria como é que o irmão conseguiria não subir ao cavalo. Por momentos pensara que o irmão iria suplicar ao pai para o deixar ir no coche, mas Kenji arranjou a sua própria maneira. Um simples carrinho de quatro rodas que era puxado pelo seu cavalo, que era montado pelo avô, que ria a altas gargalhadas. No coche, a sua avó também perdeu a compostura ao ver o neto a cumprimentar tudo e todos com um ar pomposo no seu carrinho e até a mãe tentara esconder as suas risadas. Na altura, Linda não prestara atenção ao pai, que ia à sua frente no cortejo.
-O teu pai quis matá-lo ai em frente a toda a gente e, ao mesmo tempo dar os parabéns por ter conseguido cumprir a sua promessa de não montar o cavalo e, ao mesmo tempo, ter cumprido o seu dever como príncipe… com originalidade, devo dizer. Os olhos do teu pai brilharam tanto naquele dia, apesar de mais tarde lhe ter dado um sermão valente.
Linda não conseguiu evitar um sorriso. Aquele tipo de atitudes era tão normal. Um pai orgulhoso da esperteza do filho mas, ao mesmo tempo, furioso pela sua irresponsabilidade.
-Contigo foi mais… fácil esconder. Mas também houve esses momentos. O da dança e o teu nascimento.
Falta um, pensou Linda. Quando o seu pai lhe tinha ensinado um truque para a dança. Ela vira-o sorrir quando ela lhe agradecera, os seus olhos a tilintarem de felicidade, ainda que na altura ela fosse cega a ponto de pensar que aquilo não era nada de mais.
-Espere aí… - disse ela de repente, confusa. – Disse, o meu nascimento?
Agora não entendia nada. Supostamente o seu nascimento fora motivo de depressão, não alegria... certo?
-Sim… - espondeu a rainha simplesmente, os seus finalmente postos na filha. Linda percebeu, para seu azar, que a mãe agora não se iria descuidar mais naquilo que dizia. Logo na parte que ela tinha mais curiosidade.
-Mas vocês… tudo isto começou comigo. Com o meu nascimento.
Os olhos da mãe fitaram-na, dando a Linda a sensação de estar a ser examinada a raio-X.
-Foi a meio da gravidez. – Murmurou ela, num tom pesaroso. – Todos temiam que eu fosse cometer uma loucura. Que eu… - desviou o olhar da filha, não conseguindo encará-la. – Sabotasse a gravidez.
Linda controlou a curiosidade de lhe perguntar “e tentou?”, pois não havia em Small Lady nada que mostrasse que ela não estava arrependida.
-Havia sempre alguém comigo dia e noite. Nem podia estar com o meu filho sem saber que uma navegante, os meus pais, uma empregada ou até mesmo o meu marido pudesse estar de olho em mim.
Linda ergueu o sobrolho. O seu pai queria que ela nascesse? Mais uma vez, a sua mãe respondeu-lhe aos seus pensamentos.
-O Edward já te amava ainda antes de tu nasceres. Eu achava que desejava uma filha muito mais do que toda a gente na minha família, mas estava enganada. O Edward queria-te e ti e ao Kenji muito mais do que eu alguma vez quis. Eu estava hesitante em ser mãe e fiquei em pânico nos primeiros meses de gravidez do Kenji. Já o teu pai ficou logo contente. Era-lhe natural. À segunda já não tinha medo nenhum. Estava preparada e desejava uma menina. Mas o Edward desejava mais. Vi isso logo após a ecografia, quando descobrimos que vinhas a caminho. Os sonhos que ele planeara. Nem mesmo quando… aquilo aconteceu… ele deixou de querer desistir do seu sonho de ser pai e ter uma família. Achávamos nós que haveria uma maneira… um outro caminho…
-Como assim outro caminho? O que aconteceu? – Interrompeu Linda, morta de curiosidade. Small Lady ignorou-a.
-O meu pai fizera anos no dia anterior e nós estávamos na nossa casa de verão. Os meus pais tinham várias reuniões de trabalho e não puderam estar comigo naquele dia. Estava tão aborrecida que o teu pai decidiu pedir à Minako que levasse o teu irmão ao parque de diversões do outro lado da cidade e que nos deixasse sozinhos. Mas meia hora depois o teu pai recebeu uma chamada. O meu pai precisava dele urgentemente. Eu ficaria sozinha. Então ele ligou para a Misaki, para a Hotaru, o Benjamim, o Hiroíto. Nenhum deles podia. Aliás, o teu pai perdeu quinze minutos a ligar para toda a gente. Durante esse tempo, eu dormia pacificamente. O teu pai lá conseguiu ligar para a Minako e pedir-lhe que viesse com o teu irmão. Saiu a pensar que eu estava a dormir.
-E não estava?
-Estava ele a pegar na mala quando me deu uma contracção. Depois ele saiu (ouvi o bater da porta) e veio outra. Não o consegui impedir de sair e ia a caminho do telefone quando a luz foi abaixo.
-Foi abaixo? Porquê?
-Por causa do tufão Mercury. Eu não queria nem o meu filho nem o teu pai na rua naquele tempo, mas não os pude impedir. Aliás, naquele momento só queria ligar para alguém, pois as dores eram insuportáveis.
«O meu telemóvel estava do outro lado da casa e era completamente impossível eu percorrer aquela distância. Acabei por ficar num canto da sala, virada para a porta a gemer de dores. A Minako tinha apanhado trânsito e tivera que fazer desvios por causa do tufão. Horas passaram-se e a certa altura via a tua cabeça. Eu entrei em pânico. Tinhas que nascer ou morrerias. Já não me lembro como fiz aquilo, a única coisa que me lembro são das dores que aumentava a cada segundo. Acho que me esqueci de tudo, apenas sabia que tinha que te ajudar a nascer ou morrerias. Fiz pressão na barriga, puxei… não me lembro do que fiz de errado, mas durante todo aquele tempo eu pensei que tinha feito tudo mal. Tu não gritavas. Peguei uma lima para as unhas e cortei o cordão umbilical e fiquei contigo nos meus braços. Tu não choravas, ou melhor, não respiravas. O teu irmão saiu de dentro de mim a gritar, não sabia o que fazer. Foi aí que me lembrei que, se te batesse, tu começarias a chorar. Foi o que fiz. Nem sabes o quando chorei quando te ouvi gritar, toda cor-de-rosa e pequenina. Mal cabias nos meus braços. Nasceras uma semana antes do esperado. Entrei em pânico. Tinha que te levar para o hospital. Mas estava tão fraca. Tinha uma grande poça de sangue à minha volta, que sujou toda a minha camisa de dormir. Tinha que chamar alguém. As luzes voltaram. Ao que parecia, o tufão mudara de direcção momentos antes. Nem sei quantas horas tivemos lá sozinhas. Penso que quatro ou cinco. Nunca ouvi falar de parto mais rápido. A Minako estava a ficar frustrada, o teu irmão estava assustado e não me conseguia ligar. Pelo caminho encontrou o teu pai, que voltava da reunião. Quando o teu pai viu a Minako com o Kenji, percebeu que eu estava sozinha. E sabes o que é que o parvalhão fez? Desatou a correr, deixando o carro no meio da auto-estrada. Correu até casa para quase arrombar a porta.»
Small Lady parou de falar, sem duvida que reflectindo sobre aquilo que dissera. Linda estava em silêncio. Não sabia o que dizer muito menos o que pensar daquilo que ouvira. Era tanto detalhe novo que ela não conseguia digerir aquilo com a mesma velocidade que digeria outros pensamentos. Parte dela ainda não estava recuperada do ‘quase-choro’ que passara momentos antes. Lágrimas queriam sair e desta vez Linda não as impedia.
A mãe observava-a, com um ar sonhador. Em seguida, pegou-lhe na mão e apertou-a à sua.
Várias imagens circularam por entre os olhos das duas.
**
Ele entrara dentro da casa a correr. Atrás de si, deixou a porta quase arrombada. Pânico subiu-lhe ao cérebro, ficou incapaz de se mexer. Gritou o nome da mulher, mas foi o som de uma criança a chorar que recebeu em troca.
Foi atrás do som, agora mais hesitante. Seria produto da sua imaginação aquele som tão natural de um bebé a chorar?
Encontrou a esposa sentada no chão no meio de uma poça de sangue. Estava terrivelmente pálida e os cabelos estavam todos despenteados e molhados. Toda ela estava molhada. A sua camisa de dormir estava toda manchada de sangue, mas ela chorava. De alegria. Segurava nos braços uma pequena bebé recém-nascida, toda cor-de-rosa, muito pequena, rosto um pouco amarelado e com um grande tufo de cabelo negro.
Ele não conseguiu controlar as lágrimas. Ficou ali parado, mesmo tendo consciência de que a mulher e a filha precisavam de cuidados médicos. Ficou imóvel, a olhar para a criança, que não parava de chorar.
Aproximou-se da mulher, que lhe estendeu a criança. Ele pegou nela cuidadosamente. Tinha tanto medo de a quebrar. Ela era tão pequena. Os seus braços pareciam os do King Kong ao segurá-la. Ao admirar a menina, só podia ver semelhanças com a mãe. Mas isso não importava.
Um pai fica sempre feliz quando segura o seu filho pela primeira vez. Sente-se capaz para o cargo em mãos. E isso acontecera com Usagi e Edward quando Kenji nascera. Uma mãe ama o filho incondicionalmente, principalmente depois daqueles meses todos com ele dentro de si. Mas para o pai, a história era outra. Ao segurar Kenji, ele sentiu-se um rei com o maior séquito da história, um vencedor da maratona, o homem mais feliz do Sistema Solar. Mas aquela menina era diferente. Era sempre diferente. Segurar uma filha não era a mesma coisa que segurar um filho. Os pais criam o rapaz para ser um vencedor, já as raparigas… era aquela sensação de que as iriam proteger até ao dia do Julgamento Final. Que aquela criancinha nunca iria crescer, seria sempre a menina do seu pai.
Ela estava coberta de sangue e sujou-lhe a camisa. Mas isso não lhe importava. Com um braço, segurou a pequena cautelosamente e com a outra mão pegou no telemóvel. Ligou para as urgências. Agora era só esperar.
Não conseguia tirar os olhos da filha, que começava a acalmar. A imagem estava um pouco desfocada, devido às lágrimas, mas ele não se atreveu a limpá-las. Não se atreveu a mexer-se. Era como se segurasse uma boneca de porcelana. Cuidado ou ela iria se partir.
Ela sabia que, quando os seus pais chegassem, nada voltaria a ser o mesmo. Uma aura negra cercava aquela menina tão inocente e inconsciente daquilo que lhe esperava. Usagi deixou cair uma lágrima, que se misturou com as outras. Mas aquela lágrima era diferente das outras. Aquela era a lágrima de uma mãe que não podia evitar o que aí vinha.
**
Linda deu um salto, quase caindo no chão.
-O que…
-Presumi que já soubesse até onde se estendiam os teus poderes. – Disse a sua mãe, num tom casual.
-Tinha… uma ideia… - Linda deu voltas pelo quarto, a sua mente semelhante a uma folha de papel em branco. Verdade que ela tinha suspeitas que ela podia ter acesso aos sonhos das pessoas acordada, mas não daquela maneira. – Como é que…
-Temos o mesmo sangue, poderes semelhantes. – Respondeu Small Lady calmamente. – Nada de anormal.
Só se for para si, pensou Linda para os seus botões. Ainda assim, tentou manter a mente em foco naquilo que acontecera e não naquilo que vira. Era bem mais fácil pensar num poder que tinha no que nas complicações que a sua vida levava.
-Aura negra… - ouviu-se dizer, sem conseguir evitar. – Aura negr…
-Pouco sei eu, pouco sabes tu.
Linda mirou a mãe, furiosa.
-O que raio é que vocês me escondem? Já pararam para pensar que isso ME DIZ RESPEITO? Se isso é sobre MIM, então eu não deveria ter o DIREITO de saber? Porque me escondem isto? E porque é que tudo o que se passa à minha tem a ver COMIGO? Porque é que o meu irmão perdeu os pais? Porque é que você e ele mostram provas de amor quando me IGNORARAM TODA A MINHA VIDA!?
-Linda…
-Você agora está doente e acabou por me fazer sentir-me culpada. Não é justo pensar mal de si TODA A MINHA VIDA para agora, quando VOCES ESTÁ A MORRER, me contar que sempre gostou de mim, que fora OBRIGADA a ser má para mim…
-LINDA!
A jovem parou de falar, apesar do seu temperamento ainda querer explodir mais um pouco. Small Lady estava de tronco erguido, a olhar para ela. Os seus olhos soltavam faíscas de ira, que Linda conseguia sentir esmo ao longe.
-Se deres uma volta à tua vida, vais ver que ALGUMA coisa nós te dissemos. Vais perceber que as coisas NUNCA foram o que pareceram. Não digas que eu e o teu pai fomos obrigados porque foi mentira. Foi voluntariamente. Mas tivemos os nossos motivos. Não te contamos nada porque… sinceramente Linda, qual seria a tua reacção? Tu nunca entenderias e, mesmo que entendesses, daria cabo de tudo. Era FUNDAMENTAL não saberes. Porque tu VIVERIAS MELHOR sem saber…
No que toca à minha doença… - fez uma pausa, a sua raiva a diminuir de intensidade. – Não pedi para ficar doente. Não pedi para ter este tumor inoperável. Não pedi nada disto. Não pedi uma sanguessuga sempre a infernizar a minha vida. Não pedi que o meu filho saísse de casa e não quisesse ter mais nada a ver comigo, nem que o meu marido sofresse tanto com isto. E, acima de tudo, não pedi para que viesses cá… mas estou feliz por teres vindo.
A última frase foi dita suavemente, apanhando a morena de surpresa. Esta olhou para a outra ocupante do quarto, chocada por vê-la a sorrir.
-A vida não é como queremos Linda. Mas espero que tenhas mais sorte do que eu. Eu não consegui evitar que uma sanguessuga se metesse na minha vida. E isso… custou-me tudo. – Acabou ela com um suspiro. Linda entendeu que era altura para sair, ainda que muitas perguntas tenham ficado sem resposta.
Não estava ninguém na entrada do quarto. Misaki e Hotaru deviam estar na sala. Percorreu os corredores, tentando evitar olhar para os quadros, janelas ou algo onde ela pudesse ver memórias distintas.
A certa altura parou. Aquela era a ala oeste do palácio. O mesmo sitio onde estava…
Hesitou perante aquela enorme porta. Poderia ela entrar? Afinal, ainda era uma herdeira ao fim de contas.
Abriu e entrou na sala. Teve que pôr a mão à frente dos olhos, devido à intensa luminosidade. A sala estava pintada de branco e aquilo que não era branco, era transparente como cristal. A única coisa que diferenciava-se um pouco do resto da decoração era uma almofada púrpura, que sustinha uma pedra cujo brilho dificultava a visão de Linda. O cristal Prateado.
A pedra mística que ela iria herdar mais tarde. Uma pedra que possuía uma enorme quantidade de poder. Jamais poderia cair nas mãos erradas. Claro que isso não impediu que tal não tivesse acontecido no passado.
Avançou até ao cristal, a sua vista já habituada à intensa luz. Estranhamente, sentia-se bem naquela sala. Como se estivesse no seu elemento. Uma sensação de paz e tranquilidade que ela nunca sentira em qualquer noutro lugar. Ali estava ela, princesa da Lua e da Terra, na sala onde estava a chave de toda a felicidade no Sistema Solar. Onde estava a chave para si própria. Era a única prova – para além de memórias – de que ela tivera uma vida anterior à sua. Uma vida que agora se cruzava com o presente. De repente, ela já não se podia contentar em olhar para o presente. Tinha o passado nas suas mãos e o futuro pendente das suas acções.
De repente, sentiu-se levemente sufocada. Alguém infiltrara-se no seu elemento, caminhando sorrateiramente. Não era preciso ter os poderes de Cecília para saber que era alguém com uma alma muito diferente da do cristal, que emitia uma luz pura.
Virou-se de imediato. À sua frente estava nada mais, nada menos do que Guinevere Dawson.
O efeito dos opostos manifestou-se logo. Linda jamais poderia imaginar que ela fosse semelhante, mas também o verdadeiro oposto de Dawson.
Dawson estava vestida com roupas escuras, enquanto Linda com roupas claras. Ambas tinham pele branca, e eram da mesma altura. No entanto a cor dos olhos de Dawson eram a cor dos cabelos de Linda e o azul que enfeitava os olhos da jovem, era o que mais chamava a atenção no cabelo de Dawson. Ambas eram magras e Linda ficou parva a ver que, ao fim de vários meses, conseguira finalmente ganhar curvas semelhantes a aquela mulher, considerada uma das mais belas e formosas. Ambas tinham traços delicados no rosto, mas os olhos de Linda brilhavam, os de Dawson não. Os lábios de ambas, pintado de um rosa murcho, formavam linhas curvas, mostrando o desprezo que sentiam uma pela outra.
Era a primeira vez em anos que via Dawson. E Linda estava muito contente com esse feito. Sempre detestara aquela mulher, arrogante, mesquinha, egoísta e egocêntrica.
O ar estava mais pesado. Linda pensou, estupidamente, que talvez a sala não tivesse oxigénio para as duas. Uma tinha que sair. Mas nem ela nem Dawson se mexeram. Ambas limitaram-se a fitar a outra. E poderiam ter ficado assim por muito tempo, não fosse a raiva que Linda sentia. Era aquela mulher que estava a ordenar aqueles ataques. Por causa dela, uma rapariga ficara em estado vegetativo, por causa dela outras pessoas haviam sido atacadas e retirado essência das suas vidas. Por causa dela…
Longe de querer tornar Guinevere o bode expiratório para todos os seus problemas. Linda sabia que ela era a causa daquilo tudo. E isso apenas a fez ficar com mais raiva. Parte dela queria correr dali para fora, a outra queria espancar aquela mulher e arrancar-lhe os cabelos pela raiz.
O chão tremeu um pouco, mas Linda não sentiu. Dawson deu um passo atrás, apanhada de surpresa.
-Estou a ver que cresceste. – Comentou, a voz ácida como limão. – Tens poder suficiente para provocar um tremor de terra.
-Sempre tive. – Retorquiu Linda, no mesmo tom. – E você sempre soube.
Os olhos de Dawson brilharam maliciosamente.
-Oh sim. É claro que soube. E foi por isso que achei melhor afastar-te do teu caminho.
-O quê? Que quer dizer com isso?
O sorriso de Dawson aumentou.
-Não sabes ainda? Que pena. E eu que julgava que eras esperta.
Acostumada aos comentários sarcásticos e arrogantes de Dawson, Linda nem pestanejou.
-O que faz aqui?
-Perguntava-te o mesmo.
-Você não é bem-vinda aqui. – Era verdade. Linda entendera de imediato quem era a ‘sanguessuga’ que a mãe falara.
-Se reparares melhor… - disse Dawson, dando um passo e frente, olhando Linda como um caçador olha a sua presa. – Tu também não és.
Mentira. Aquele era o seu lugar. Era o seu elemento.
Antes que tivesse noção daquilo que estava a fazer, Linda sentiu a sua cabeça a andar à roda. Aquilo que ela estava a ver não era pelos seus olhos, mas sim pelos da mulher que estava à sua frente.
**
Guinevere Dawson era filha de camponeses de Glastonbury, em Inglaterra. Bela desde pequena, arrogante desde nascença. Ansiava por uma vida melhor, onde não teria que trabalhar para ter que comer, tal como os seus pais fizeram toda a vida. Teve três irmãos, dois perderam-se para a gripe, o outro para a estrada, num acidente. Dawson chorou a morte de Daniel, seu irmão mais novo, morto pela gripe. Chorou, não por saudades ou tristeza, mas porque fora a morte mais desnecessária que ela alguma vez vira. Ao contrário do seu outro irmão, que não tinha salvação, Daniel podia ter sobrevivido se lhe tivessem dado medicamentos. Mas os pais não tinham dinheiro e nenhum hospital os aceitou. A partir daí, Guinevere prometeu a si própria que tudo faria para alcançar o topo. E durante anos fora isso que fizera. Quando fez dezasseis, conseguiu a confiança de um duque que se propôs a adoptá-la. Guinevere largou a sua humilde família num piscar de olhos e de repente viu-se num mundo maravilhoso de luxo e riqueza. Ele apresentou-a à nobreza como sua ‘filha adoptiva’, enchendo-a de jóias, vestidos, instrução. Em troca, dividia a cama com ele.
Guinevere queria, acima de tudo, ser superior às filhas dos nobres. Frequentou a escola e tentou fazer as ‘melhores’ amizades naquele campo. Fora aí que conhecera Edward, jovem príncipe, primo do Rei. Ele era tudo aquilo que ela sempre quis. Jovem, belo, inteligente e poderoso. Era o perfeito homem para ela. Aproximou-se da prima deste e do seu melhor amigo, Benjamim, ganhando assim um lugar no seu círculo de amizades. Mas Edward não tinha olhos para ela e, por muito que Dawson tentasse, a sua beleza não hipnotizava Edward como fazia com os outros homens.
Fora num workshop de Relações Publicas onde conheceu a sua competição. Edward conhecera a filha dos reis do Japão, Usagi, e apaixonara-se por ela. Guinevere viu que, para espanto de tudo e todos, nenhum deles tinha a noção dos seus títulos reais.
Apesar de Usagi ter-se revelado difícil, iniciando uma relação de ‘cão e gato’, era obvio que ela também gostava dele. Tentando evitar os seus avanços, aproximou-se da princesa e tentou arruinar a relação. Ela tinha agora dezanove e conseguira livrar-se do nobre. Agora os seus planos eram todos para Edward. Jamais quereria ela ficar junto de um homem que era dois anos mais velho que o seu próprio pai.
Por mais que tentasse afastá-los, ambos pareciam aproximar-se ainda mais. Guinevere persuadiu uma amiga da Rainha Small Lady a falar com a tal. No final, Usagi estava noiva com outro homem, tendo sido obrigada a pôr um ponto final na sua relação com Edward. Ela vira os dois pombinhos a despedirem-se. Edward achava que ela lhe escondia alguma coisa. Usagi nunca fora boa a mentir. Ver os dois a beijarem-se pela uúltima vez fez com que ela desse um salto de alegria.
O que ela não contava era que a Rainha-Velha fosse mais esperta do que ela pensava. Ao que parecia, Hotaru contava-lhe tudo, inclusive o namoro da filha com Edward. Guinevere não contava também que a ‘amiga’ da rainha era mais amiga dela do que ela pensava. Ainda hoje Rei Hino dava-lhe um sorriso de desprezo por onde ela passasse. As duas trataram do noivado de Usagi com o homem que ela queria. E assim estavam os dois casados.
Dawson viu-se agora com um problema em mãos. Não apenas Edward estava junto da outra, como também ela desenvolvera um profundo ódio a Usagi. Esta, Misaki e Hotaru não escondiam o desconforto de a ter por perto.
Tentou arranjar formas de superar Usagi. Soube que ela era herdeira do lendário cristal prateado. Isso indicava que ela tinha poderes. Mas como? Fosse como fosse, Dawson também queria ter esses poderes… e mais.
Pesquisou e pesquisou e entretanto nascera o primogénito. Ela vira a criança. Bonita e traquinas, fazia-lhe lembrar do pai. Sorria sempre que a criança estava por perto. Talvez o rapaz desses os seus usos no futuro.
Continuara a procura e pelo caminho descobrira a história do Milénio Prateado. E as Guardiãs da Esperança. Misaki descendia de uma e Usagi da outra, enquanto uma rapariga loira que começara a aparecer no palácio deveria ser a descendente da outra. Estavam as três grávidas de raparigas. Melhor dizendo, Usagi estava, pois a loira tinha dado à luz uma semana antes de a ter visto e a filha de Misaki tinha nascido em Fevereiro. Só faltava uma.
E quanto mais Guinevere pesquisava, mais descobria que aquela rapariga não podia nascer. Ou, se nascesse não poderia viver durante muito tempo.
Tinha que fazer alguma coisa. Tinha que impedir que a rapariga estragasse os seus planos.
**
Linda sentiu talvez a dor mais forte que alguma vez sentira. Era como se um camião estivesse a despedaçar o seu crânio em pó. A dor continuava e aumentava de intensidade a cada segundo. Era tortura, aquela dor não devia ser sentida por ninguém. Todo o seu corpo estava petrificado, as pernas moles e os braços rígidos. Deixou-se cair no chão, as mãos a apoiarem a cabeça, pesada como chumbo.
Não tinha noção do que se passava à sua frente. De repente, todo o ar tranquilo da sala desaparecera e ela era a intrusa, não Dawson. O que teria acontecido? Nem conseguia pensar direito.
A sua cabeça iria explodir se aquela dor não parasse. Sentiu-se inchada incapaz de respirar, incapaz de falar. Lágrimas secas caíram-lhe pelo rosto, enquanto ela gritava. O seu grito ecoou pela sala, como se treze Linda gritassem a mesmo tempo. Ajoelhou-se e tocou com a cabeça no chão. Mas doía tanto.
Desesperada, arrancou um pedaço de couro cabeludo e arranhou-se a si própria. Alguém que me mate, suplicou. De facto, a morte era uma hipótese mais agradável a aquela dor tão atroz.
Alguém aproximara-se, mas Linda não tinha noção das coisas. Apenas sabia que esse alguém ficara tão chocado com aquilo que vira que parou junto de Dawson, que nada fazia.
Voltou a gritar, desta vez com mais intensidade. Se alguém lhe espetasse uma facada no crânio, ela não sentiria de tão forte era aquela dor. Sentiu uns braços fortes a agarrá-la.
-Estás a ver Edward? – Gritava Dawson. – Não podes fazer nada para a proteger. Nem a ela, nem à tua mulher. Eu disse-te que esta criança deveria ter morrido ainda antes de nascer.
Linda mal ouvira aquilo que ela dissera. Apenas agarrou-se aos braços que a seguravam, chorando no ombro do seu pai. Este estava rígido como uma tábua, sem saber o que fazer.
-Diz-lhe Edward, que ela não sabe. Diz-lhe que ela é amaldiçoada!
Os gritos de Dawson fundiram-se com os de Linda, antes de se ouvir uma porta a fechar-se num estrondo.
Linda não tinha agora forças nem para gritar nem para se segurar. Tudo o que pode fazer foi agarrar-se ao seu pai como se não houvesse amanhã, soluçando nos braços dele.
-Ajude-me pai… ajude-me…
Edward não podia fazer nada e só esse pensamento fazia-o sentir-se inútil. Tudo o que podia fazer era agarrar a filha, tal como fizera quando ela nascera e abraça-la, esperando que a dor passasse.
-Se eu pudesse filha, se eu pudesse…
------------------------
Acabou. E agora espero grandes comentário, ouviram? Porque escrever custa, sabem? Sem grandes comentários, não sinto vontade nenhuma em escrever...
Fique apena sum aparte dito.
-Não foi coincidencia eu colocar Glastonbury como sendo a cidade natal de Guinevere Dawson. Glastonbury é conhecida pelo mito de Avalon, a cidade do Rei Arthur, cuja esposa se chamava Guinevere.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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Xii, que aconteceu ao pessoal? Anda tudo desaparecido. 

Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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Olá.
Pois, na verdade vi o novo capítulo no próprio dia em que colocaste, mas só dei uma lida na diagonal. Do que vi gostei bastante e o final então...coitada da Linda.
Mas agora não tenho tempo para ler melhor. Sei que é importante teres comentários, é importante para qualquer escritor, mas não vou ter tempo durante este mês, estou em plena época de exames na fac...é uma seca.
Mas no mês que vem prometo comentário.
Beijinhos e até lá.
Pois, na verdade vi o novo capítulo no próprio dia em que colocaste, mas só dei uma lida na diagonal. Do que vi gostei bastante e o final então...coitada da Linda.
Mas agora não tenho tempo para ler melhor. Sei que é importante teres comentários, é importante para qualquer escritor, mas não vou ter tempo durante este mês, estou em plena época de exames na fac...é uma seca.
Mas no mês que vem prometo comentário.
Beijinhos e até lá.

Awhhhhh! O meu computador avariou! ;_; Só hoje é que pude vir ao fórum ler a fic!
Oh pá, gostei logo do inicio! Aquela introdução a falar do destino, do acaso, e a citação do Einstein, disseram logo "Capitulo Wonderfull. LER!" A partir daí foi sempre a desvundar!
Vê-se mesmo que és uma pessoa culta, Ana, eu leio os teus postes e em todos penso "esta rapariga percebe de ciência, de literatura e de Arte! Ah e dança!"
, porque nem toda a gente, por exemplo, se dá ao trabalho de ir buscar pormenores tão minuciosos como as relações entre deuses e os seus dons, e criar simultaneamente uma historia que se entrelasse com todos esses aspectos que muita gente nem conhece. Além disso a tua linguagem mostra mesmo que conheces um vasto vocabulário e utilizas expressões peculiares, mas que dão um certo gostinho a ti no texto, tornando-o diferente pela positiva, pois não existem os tipicos comentarios repetitivos que se encontram em tudo que é conto. Quem me dera a mim conseguir expandir-me tanto como tu nesse aspecto! 
Em relação ao capitulo em si, bem, como ja disse, gostei da intruduçao e fiquei admirada ao ver que o tempo passou de repente, assim como ao notar o tédio da Linda, coisa que nao esperava!
Gostei muito da visitinha ao quarto do Eiji (podes fazer mais cenas estas
), a Lindinha é uma marota e muito mázinha, por sinal! E o Eiji é um contido!... Errr... Vá, cavalheiro! 
Fiquei curiosa em relação á marca dele. Porque se Linda tem uma e enfim, aconteceu o que aconteceu no final, pergunto-me se ele tambem tem certos... problemas, digamos.
Felizmente, deu para eles ficarem melhorzinhos, q.b., no final daquela visita.
Uma cena que nao esperava ver era a fragilidade do Kenji, mas gostei muito, sim senhora, fiquei mesmo com pena do rapaz!
'
Em relação á conversa da Misaki com a Linda antes de irem ao palácio, achei muito misteriosa, assim como todos os acontecimentos seguintes, desde a conversa do Edward com a Linda nos fantásticos jardins do palácio, como as conversas com a Small Lady no quarto. Adoro estas memorias do passado que desvendam tanta coisa! Dão-me tanta pica de ler!
Quando li a parte do parto "home alone" que acabou em lágrimas porque uma aura negra envolvia a Linda, fiquei aparvalhada já que a rapariga até é porreira! xb
Mas eis que surge Dawson! A historia dela estava mesmo ao estilo da personagem, é mesmo à Bitch! Agora pergunto-me que raio é que ela fez à Linda antes dela nascer, sim, porque de certeza que foi tudo obra daquela criatura! --'
Por fim, O final do capitulo deixou, como era de esperar, agua na boca, rios e mares de saliva! Aqueles gritos agonizantes, aquela dor, a Dawson a dizer que a Linda era amaldiçoada, e o Edward a lamentar que não podia ajudar, mataram-me!
Costuma-se dizer "Cozinheiro de mão cheia", no teu caso, é "Escritora de livro inteiro!". Quando publicares um livro avisa aqui a Je, que terei muito gosto em lê-lo!
Mal posso esperar pelo próximo capitulo!
bjokas!
Oh pá, gostei logo do inicio! Aquela introdução a falar do destino, do acaso, e a citação do Einstein, disseram logo "Capitulo Wonderfull. LER!" A partir daí foi sempre a desvundar!
Vê-se mesmo que és uma pessoa culta, Ana, eu leio os teus postes e em todos penso "esta rapariga percebe de ciência, de literatura e de Arte! Ah e dança!"
, porque nem toda a gente, por exemplo, se dá ao trabalho de ir buscar pormenores tão minuciosos como as relações entre deuses e os seus dons, e criar simultaneamente uma historia que se entrelasse com todos esses aspectos que muita gente nem conhece. Além disso a tua linguagem mostra mesmo que conheces um vasto vocabulário e utilizas expressões peculiares, mas que dão um certo gostinho a ti no texto, tornando-o diferente pela positiva, pois não existem os tipicos comentarios repetitivos que se encontram em tudo que é conto. Quem me dera a mim conseguir expandir-me tanto como tu nesse aspecto! 
Em relação ao capitulo em si, bem, como ja disse, gostei da intruduçao e fiquei admirada ao ver que o tempo passou de repente, assim como ao notar o tédio da Linda, coisa que nao esperava!
Gostei muito da visitinha ao quarto do Eiji (podes fazer mais cenas estas
), a Lindinha é uma marota e muito mázinha, por sinal! E o Eiji é um contido!... Errr... Vá, cavalheiro! 
Fiquei curiosa em relação á marca dele. Porque se Linda tem uma e enfim, aconteceu o que aconteceu no final, pergunto-me se ele tambem tem certos... problemas, digamos.
Felizmente, deu para eles ficarem melhorzinhos, q.b., no final daquela visita.
Uma cena que nao esperava ver era a fragilidade do Kenji, mas gostei muito, sim senhora, fiquei mesmo com pena do rapaz!
'Em relação á conversa da Misaki com a Linda antes de irem ao palácio, achei muito misteriosa, assim como todos os acontecimentos seguintes, desde a conversa do Edward com a Linda nos fantásticos jardins do palácio, como as conversas com a Small Lady no quarto. Adoro estas memorias do passado que desvendam tanta coisa! Dão-me tanta pica de ler!
Quando li a parte do parto "home alone" que acabou em lágrimas porque uma aura negra envolvia a Linda, fiquei aparvalhada já que a rapariga até é porreira! xbMas eis que surge Dawson! A historia dela estava mesmo ao estilo da personagem, é mesmo à Bitch! Agora pergunto-me que raio é que ela fez à Linda antes dela nascer, sim, porque de certeza que foi tudo obra daquela criatura! --'
Por fim, O final do capitulo deixou, como era de esperar, agua na boca, rios e mares de saliva! Aqueles gritos agonizantes, aquela dor, a Dawson a dizer que a Linda era amaldiçoada, e o Edward a lamentar que não podia ajudar, mataram-me!
Costuma-se dizer "Cozinheiro de mão cheia", no teu caso, é "Escritora de livro inteiro!". Quando publicares um livro avisa aqui a Je, que terei muito gosto em lê-lo!
Mal posso esperar pelo próximo capitulo!

bjokas!

as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
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Bun: Espero que os teus exames te corram bem. Eu tbm estou em fase de testes e já tou a dar comigo em doida. Não tenho tido cabeça para a escrita nem nada. Pois bem, mais uma vez, boa sorte 
Lulumoon: Hum... enganaste-te um bocadinho.. Eu não danço. O unico desporto que já pratiquei foi o ténis de mesa (cinco ou seis anos) e sempre adorei o basquetebol e a dança. Gosto muito do desporto e sempre que posso ligo a aparelhagem (ou vou ao YT no pc) e ponho-me a dançar em plena sala. Tenho é uma grande paixão pelas danças de salão. Tinha uma colega de turma que dançava e ficava maravilhada com os movimentos dela.
A melhor parte de escrever uma história é criarmos uma personagem (igual a nós ou que nos agrade) e pô-la num cenário que nós gostariamos de viver ou então simplesmente representar algumas vivencias do nosso dia-a-dia. No meu caso, decidi por a Linda a dançar, pois sempre gostei de aprender isso e, infelizmente, nunca tive professores nem ninguem para me ensinar.
Em relação ao vocabulário... não é nada de mais. Apenas ponho algumas expressões que vejo nos (muitos) livros que leio
E as partes filosoficas... bem, eu gosto de ler um livro onde aprendemos sempre algo, desde conhecimentos morais (daí as lições morais) até aos conhecimentos "gerais". os meus livros preferidos são os de Dan Brown, Katherine Neville (conhecimentos "gerais") e Torey Hayden (conhecimentos morais). Na minha escrita, gosto de passar um pouco disso, principalmente porque a minha história não tem nada "de novo". O mundo já foi criado por outro escritor (ou melhor, artista) e o máximo que posso fazer é criar personagem humanas que aprendem lições valiosas dentro do mundo já criado. (Não sei se me fiz entender...)
Em relação ao capítulo, ainda bem que gostaste. A marca do Eiji não é nenhum mistério sobrenatural, alias, é do mais humano possivel. Já a Linda não tem nenhuma marca fisica. Não vou conseguir comentar todos os pontos que mencionaste, mas gostie d esaber que a história da Dawson foi do teu agrado. Eu propria estava a ficar incomodada pela ausencia dela e, ao escrever a sua história, tudo fluiu facilmente. Vilãs deste genero são faceis de criar
O próximo capítulo vai demorar (again, tou em fase de testes
) mas prometo um antes das férias de Carnaval (e, para dar cabos das vossas esperanças, relembro que as ferias de carnaval este ano são em Março).
No próximo capítulo: O tempo está a acabar, Linda é colocada entre a espada e a parede e Dawson consegue mais uma Flor.

Lulumoon: Hum... enganaste-te um bocadinho.. Eu não danço. O unico desporto que já pratiquei foi o ténis de mesa (cinco ou seis anos) e sempre adorei o basquetebol e a dança. Gosto muito do desporto e sempre que posso ligo a aparelhagem (ou vou ao YT no pc) e ponho-me a dançar em plena sala. Tenho é uma grande paixão pelas danças de salão. Tinha uma colega de turma que dançava e ficava maravilhada com os movimentos dela.
A melhor parte de escrever uma história é criarmos uma personagem (igual a nós ou que nos agrade) e pô-la num cenário que nós gostariamos de viver ou então simplesmente representar algumas vivencias do nosso dia-a-dia. No meu caso, decidi por a Linda a dançar, pois sempre gostei de aprender isso e, infelizmente, nunca tive professores nem ninguem para me ensinar.
Em relação ao vocabulário... não é nada de mais. Apenas ponho algumas expressões que vejo nos (muitos) livros que leio
E as partes filosoficas... bem, eu gosto de ler um livro onde aprendemos sempre algo, desde conhecimentos morais (daí as lições morais) até aos conhecimentos "gerais". os meus livros preferidos são os de Dan Brown, Katherine Neville (conhecimentos "gerais") e Torey Hayden (conhecimentos morais). Na minha escrita, gosto de passar um pouco disso, principalmente porque a minha história não tem nada "de novo". O mundo já foi criado por outro escritor (ou melhor, artista) e o máximo que posso fazer é criar personagem humanas que aprendem lições valiosas dentro do mundo já criado. (Não sei se me fiz entender...)Em relação ao capítulo, ainda bem que gostaste. A marca do Eiji não é nenhum mistério sobrenatural, alias, é do mais humano possivel. Já a Linda não tem nenhuma marca fisica. Não vou conseguir comentar todos os pontos que mencionaste, mas gostie d esaber que a história da Dawson foi do teu agrado. Eu propria estava a ficar incomodada pela ausencia dela e, ao escrever a sua história, tudo fluiu facilmente. Vilãs deste genero são faceis de criar

O próximo capítulo vai demorar (again, tou em fase de testes
) mas prometo um antes das férias de Carnaval (e, para dar cabos das vossas esperanças, relembro que as ferias de carnaval este ano são em Março).No próximo capítulo: O tempo está a acabar, Linda é colocada entre a espada e a parede e Dawson consegue mais uma Flor.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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Fazes-me lembrar uma amiga minha. Ela tambem adorava aprender a dançar e sempre que pode procura por danças novas no youtube e tenta aprende-las. Ela não pára quieta! já eu, sou muito pacata. Dançar, definitivamente, nao é para mim, o que me entristece pois é algo que eu adoraria saber fazer bem.
Ao contrario de ti, eu pouco leio. Normalmente os meus pais não têm a boa vontade de me oferecer/pagar livros, portanto o maximo que leio sao fanfics, e infelizmente, quase todas em português do Brasil, já que não é fácil encontrar uma no nosso idioma que me satisfaça. Também tenho uma amiga como tu. Acho que és a junção destas duas amigas minhas: uma que adora ver dança e tentar fazer os passos, e outra que adora ler sobre cultura geral e também moral, e nao vive sem ler um bom livro de autores cultos que forneçam teorias e filosofias morais.
Infelizmente eu tenho muito pouca cultura no aspecto literarico, e a foma como eu escrevo é do mais simples que há pela minha falta de hábitos de leitura. Deves ter-te apercebido quando leste a minha primeira fic que aquilo era gafanhoto atras de gafanhoto, e em "Angelical" tentei melhorar, mas da maneira como eu escrevo, para a maneira como tu escreves, vai um grande passo. Espero um dia vir a conseguir ser tão pormenorizada como tu!
Ao contrario de ti, eu pouco leio. Normalmente os meus pais não têm a boa vontade de me oferecer/pagar livros, portanto o maximo que leio sao fanfics, e infelizmente, quase todas em português do Brasil, já que não é fácil encontrar uma no nosso idioma que me satisfaça. Também tenho uma amiga como tu. Acho que és a junção destas duas amigas minhas: uma que adora ver dança e tentar fazer os passos, e outra que adora ler sobre cultura geral e também moral, e nao vive sem ler um bom livro de autores cultos que forneçam teorias e filosofias morais.

Infelizmente eu tenho muito pouca cultura no aspecto literarico, e a foma como eu escrevo é do mais simples que há pela minha falta de hábitos de leitura. Deves ter-te apercebido quando leste a minha primeira fic que aquilo era gafanhoto atras de gafanhoto, e em "Angelical" tentei melhorar, mas da maneira como eu escrevo, para a maneira como tu escreves, vai um grande passo. Espero um dia vir a conseguir ser tão pormenorizada como tu!

as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Olá Ana! 
Espero que os testes tenham corrido bem.
Devo dizer que quando leio os teus capítulos esqueço-me que estou num fórum, e para mim estou a ler uma fic escrita por escritores profissionais. Concordo com a Lulumoon, quando publicares um livro, avisa! Escreves mesmo bem.
Amo os teus capítulos. Lamento que só faltem 4, no entanto pra variar,
, fiquei a morrer de curiosidade pra ver como isto continua, por isso, inda bem que já falta pouquinho pra desvendar todo este mistério! 
E para variar amei este capítulo!
Nem sabes quanto adorei a introdução, muito filosófica, fez-me pensar.
Aquela cena no quarto do Eiji, loool, bem a Linda é msm mazinha.
E o Eiji um cavalheiro.
O que aconteceu ao Eiji para ter aquela marca? Porque o atormenta nos pesadelos?
A cena no telhado entre os dois irmãos está lindíssima.Mostra bem os sentimentos que os unem.
No palácio, nem sei o que dizer da cena com o Edward, está perfeita, era como se estivesse a ver tudo na minha frente enquanto li, a intensidade de sentimentos, gostei imenso.
Com a mãe da Linda, diverti-me imenso com a história do Kenji e do cavalo,loool. E o nascimento da Linda está absolutamente maravilhoso. A imagem do Edward a arrombar a porta e a correr pra Usagi, uau....
Realmente a história da Dawson veio deslindar algo sobre aquela mulher, e é pena que o irmão tenha morrido por falta de assistência, no entanto como dizem, os fins não justificam os meios, e o que ela fez não tem justificação possível.
Agora a grande questão é: porque é que das três raparigas só a Linda não poderia nascer, porque só a Linda lhe pode arruinar os planos? E porque tiveram medo que a Usagi sabotasse a gravidez? Afinal a Linda tem poderes pra destruir a Dawson, porque quereriam que não nascesse?
A cena final, horrível, pobre Linda. Mas a intrusa ali é a Dawson! Era ela que devia sentir aquilo! O que aconteceu à Linda pra ter dores tão lancinantes?
Antes do Carnaval postas, a sério? Que bom!!
Ficarei à espera!
Bjo**

Espero que os testes tenham corrido bem.
Devo dizer que quando leio os teus capítulos esqueço-me que estou num fórum, e para mim estou a ler uma fic escrita por escritores profissionais. Concordo com a Lulumoon, quando publicares um livro, avisa! Escreves mesmo bem.
Amo os teus capítulos. Lamento que só faltem 4, no entanto pra variar,
, fiquei a morrer de curiosidade pra ver como isto continua, por isso, inda bem que já falta pouquinho pra desvendar todo este mistério! 
E para variar amei este capítulo!
Nem sabes quanto adorei a introdução, muito filosófica, fez-me pensar.
Aquela cena no quarto do Eiji, loool, bem a Linda é msm mazinha.

E o Eiji um cavalheiro.
O que aconteceu ao Eiji para ter aquela marca? Porque o atormenta nos pesadelos?
A cena no telhado entre os dois irmãos está lindíssima.Mostra bem os sentimentos que os unem.
No palácio, nem sei o que dizer da cena com o Edward, está perfeita, era como se estivesse a ver tudo na minha frente enquanto li, a intensidade de sentimentos, gostei imenso.
Com a mãe da Linda, diverti-me imenso com a história do Kenji e do cavalo,loool. E o nascimento da Linda está absolutamente maravilhoso. A imagem do Edward a arrombar a porta e a correr pra Usagi, uau....
Realmente a história da Dawson veio deslindar algo sobre aquela mulher, e é pena que o irmão tenha morrido por falta de assistência, no entanto como dizem, os fins não justificam os meios, e o que ela fez não tem justificação possível.
Agora a grande questão é: porque é que das três raparigas só a Linda não poderia nascer, porque só a Linda lhe pode arruinar os planos? E porque tiveram medo que a Usagi sabotasse a gravidez? Afinal a Linda tem poderes pra destruir a Dawson, porque quereriam que não nascesse?
A cena final, horrível, pobre Linda. Mas a intrusa ali é a Dawson! Era ela que devia sentir aquilo! O que aconteceu à Linda pra ter dores tão lancinantes?
Antes do Carnaval postas, a sério? Que bom!!
Ficarei à espera!
Bjo**

Bun: Obrigad apelo comentário. Fico muito contente que tenhas gostado.
Ok, parece que hoje estou com um pouco de azar. Acabei o capitulo, escrevi tudo aqui... e lá se foi tudo. Ou seja, os motivos pelo qual me demorei a postar.. foram-se, assim como os motivos de inspiração para este capítulo.
Enfim, conto-vos tudo amanhã, que agora estou cansada
[1] O vestido de Linda (http://www.modalogia.com/wp-content/uploads/2010/05/calvinklein-beauty1.jpg)
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26-Carpe Diem
- «Não vale a pena
Fazer um gesto
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre»
- «Colhe o dia
Porque és ele»
Ricardo Reis
O som de um violino pairava no ar, alastrando-se pelo espaço indistinto como uma pandemia fatal. O som de corações partidos e hesitações forçadas pesavam na mente de Linda. Esta abriu os olhos, perguntando-se onde estava.
Ao erguer o tronco com dificuldade, viu que ainda tinha as suas roupas, mas já não parecia estar no mesmo sítio onde sentira aquelas dores.
Pousou a mão na cabeça ao lembrar-se. Jamais tinha sentido tamanha dor e agora estava profundamente aliviada por esta ter cessado.
Tentou levantar-se e sentiu-se satisfeita ao ver que os seus músculos estavam relaxados o suficiente para realizar tal esforço. Tudo que sentira quando se viu de pé, foi uma leve dor de cabeça, que logo passou.
Olhou em volta.
Nada parecia estar ali, excepto uma enorme sala pintada de branco cintilante. Não havia portas, nem janelas, nada. Excepto uma sombra.
Linda caminhou uma dúzia de passos até poder visualizar a sombra sem problemas, esta sentada num sofá redondo. O que viu surpreendeu-a:
-Que bom ver-te, Linda. – Disse Agnes, com uma leve ponta de sarcasmo. Linda forçou corpo e mente para se controlarem. Olhar para Agnes era quase como olhar para um espelho. Mesmo cabelo, mesmo olhos, mesmo sorriso… as semelhanças ainda continuavam, mas Linda desviou os olhos da sua sósia, tentando manter-se calma. Ver Agnes não era bom sinal.
-Estou… - forçou-se a si própria a dizer a palavra, mas Agnes foi mais rápida.
-…morta? Não. – Respondeu ela, com um sorriso.
-Então porque estás aqui?
-Eu não estou aqui.
Linda ergueu o rosto para a princesa da Lua.
-Não brinques. Estou a ver-te.
-Eu não sou a Agnes.
-Mas…
-Eu pareço a Agnes – disse a outra, ignorando a interrupção de Linda. – Porque neste momento, sou a coisa mais próxima daquilo que tu queres ver.
-Mais próxima? O que é que eu quero ver?
Agnes encolheu os ombros.
-Tu é que sabes.
Seguiu-se um incómodo silêncio. O som do violino cessara e Linda começou a entrar em pânico.
-O que aconteceu? – Perguntou, de repente.
-Esforçaste-te demasiado. Não estavas preparada para abusar do teu poder.
-Poder? Que poder?
Agnes ergueu o sobrolho.
-Nem te apercebeste do que fizeste? – Ao ver o rosto confuso de Linda, suspirou – não me admira, tu nem sabes o que podes fazer…
Fitou o rosto da sua sósia. Ao observar melhor, Linda notou que ela não era tão semelhante a Agnes quanto julgava. Agnes era demasiado… perfeita. Um rosto de boneca, branco imaculado, com franca juventude e sem puberdade expressa e olhos brilhantes como safiras preciosas. Mais parecia uma máscara.
-Um iene pelos teus pensamentos – comentou ela, no seu tom provocante.
-Não pareces a mesma – sussurrou Linda, não tirando os olhos de cima da outra pessoa. – Que… a Agnes nas minhas memórias…
Agnes sorriu e ajeitou-se no sofá branco onde estava sentada.
-Como já te disse – explicou, calmamente. – Eu não sou mesmo a Agnes, mas sou aquilo que te liga a ela, portanto ajo como ela. Agora, porque sou assim… - aí, ela suspirou, com um olhar nostálgico e voz sonhadora. – Talvez… sempre fora assim. Mas apenas usei uma máscara para me proteger.
-De quê? E qual era a máscara?
-A resposta à segunda pergunta, é a resposta à primeira. Eu precisava de uma máscara a fim de me defender do mundo exterior. Só me libertei quando conheci o homem que completava a minha alma.
-Morfeu – sussurrou Linda. O rosto de Agnes ficou rígido por uns momentos até que ela retomou o seu discurso.
-Ele completou-me. Fez-me sentir eu mesma e consegui sair da carapaça em que eu me escondia. Ele sempre fora tudo aquilo que eu queria. Aquilo que me protegia. Aquilo que me… mascarava de todos. Com ele, não se tornou difícil ser eu própria com os outros. Após a nossa morte… - Agnes fez uma pausa. Linda julgou ter visto uma lágrima prestes a cair no rosto branco da sósia, mas esta desviara o rosto, podendo ter sido apenas um jogo de luz. – Os papéis inverteram-se. Eu tinha tanto para me esconder que ele, em vez de me ajudar a mostrar-me, ajudou-me a esconder de todos.
A mente de Linda corria à velocidade da luz. Aquilo explicava porque motivo ninguém na mitologia greco-romana conhecia Agnes como a deusa dos sonhos, mas sim Morfeu.
Aí, surgiu-lhe uma ideia. Uma ideia aterradora. Agnes parecia saber até onde o raciocínio de Linda chegara, pois sorria para ela.
Morfeu tinha um poder. Entrar na mente das pessoas e… manipulá-las.
-Eu tentei… manipular a Dawson? – Perguntou a Linda, com a voz a tremer.
-Sim. Inconscientemente, quiseste impedi-la de realizar os seus planos, apesar de isso ser impossível de momento.
-Porquê?
Agnes cerrou as pálpebras, abrindo-as com um suspiro.
-Porque ainda não estás pronta. Foi como… perder a virgindade, percebes? Não sabes bem o que fazer na primeira vez e… até pode doer.
Linda sentiu-se a ficar vermelha.
-Doeu para caraças – sussurrou. Agnes olhou-a num ar compreensivo.
-Também foi assim comigo. Quero dizer, não doeu quase nada. Foi como uma leve dor de cabeça. E isso foi apenas porque cresci a lidar com o meu poder. Apenas não conhecia os seus limites.
-Quem me dera ter tido a tua vantagem.
-A questão é, Linda… Mais ninguém sabe deste poder. A tua avó pode ter uma pequena ideia, mas fora isso… só tu sabes. E, no meu tempo, eu e Morfeu. Quando o conheci deixei-me entrar na mente dele, vasculhando os seus sonhos, em busca de algo que pudesse identificá-lo. Se uma alma pura ou alguém que usava máscaras, pois o poder das minhas irmãs nem sempre era eficaz. Principalmente naquela idade. Claro que, quando cresceram, ficaram imparáveis, mas isso agora não importa.
Agnes focou os seus olhos em Linda.
-A questão é que ele detectou-me. Nunca ninguém o conseguiu fazer, nem nenhuma outra pessoa o fará. Mas ele conseguiu. E deixou-me ler a mente dele.
-Ler a mente? – Perguntou Linda, aterrorizada.
-Depende tudo da importância que o nosso inconsciente tem no nosso cérebro. O nosso inconsciente é o que provoca os nossos sonhos. Nalguns casos, os sonhos são factos que acontecem na vida real ou são baseados nela. É o inconsciente que os cria. Uma pessoa com grande tendência a sonhar, tem um enorme dicionário de símbolos para entender. E nós podemos aproveitarmo-nos disso, enquanto aqueles que sonham pouco têm o inconsciente relaxado e, por norma, impossível de penetrar. E agora a melhor parte de tudo, Linda… - Agnes sorriu maliciosamente, provocando um calafrio na outra. – Nós não sonhamos.
-Isso não é verdade. Todos sonham. Apenas não se lembram.
-Pois… nós não somos normais. – Agnes levantou-se e deu um passeio pela sala, que tinha agora forma circular. – Somos as Guardiãs dos Sonhos das pessoas. O nosso inconsciente pode ter acesso a esses sonhos, mas nada mais. Uma Guardiã não sonha.
Linda sentiu o sangue a ferver de raiva.
-Isso não é o mesmo de tu dizeres que a Mari jamais terá fé nalguma coisa? Ou que a Cecília…
-Nada disso. – Cortou Agnes, erguendo a mão. – Verdade que a tua amiga jamais será uma mensageira da Paz, mas também não quer dizer que não possa ajudar os outros. Acho que te esqueces que eu e as minhas irmãs éramos… diferentes. Porque não consigo arranjar palavra melhor para nos descrever. Tu, a Mari e a Cecília, pelo contrário, têm tudo aquilo que nos faltava. Vocês são humanas.
-Humanas? Mas…
Agnes bufou, claramente aborrecida.
-Lembra-te que os Humanos habitam a Terra. Pelo menos os humanos inteiros. Aqueles que se ajoelham perante os perigos da caixa de Pandora. Os que têm esperança, raiva, ódio, felicidade, honestidade… Todos esses sentimentos habitam nos humanos. Os Habitantes da Lua eram também humanos, mas não tanto quanto os da Terra. Nós não tínhamos defeitos.
-Bem que me enganavas. – Sussurrou Linda obscuramente, lembrando-se de Cariocecus e das várias atitudes de Serenity e das três Guardiãs, principalmente a que estava naquele momento à sua frente. Agnes pareceu ter ouvido alguma coisa, pois olhou para ela desconfiada. O rosto dela era tão óbvio que Linda finalmente lembrou-se. Agnes podia ser assim, em parte, porque ela usava máscara, mas a outra parte era dela, de Linda. Afinal, aquela não era a verdadeira Agnes.
-Adiante. – Suspirou Agnes, não tirando os olhos de Linda. - Nós podíamos ter defeitos mas, entre nós, não havia defeito algum. A nossa definição de defeito era outra. Pessoas falsas ou vingativas, por exemplo. Fora isso, não havia muito na Lua ou nos outros Planetas e o que havia não chocava ninguém. Mas os Humanos tinham uma vista de valores morais mais vasta que a nossa, mais defeitos, mais qualidades. Era por isso que muitos tinham uma obsessão pela Terra. Lá era tudo belo e as pessoas eram maravilhosas. Até mesmo as horríveis. Imagina isso como… um programa de TV. Os vilões são malvados, sarcásticos e fúteis, por vezes. Mas os espectadores adoram-nos e desejam que o protagonista tenha uma grande vitoriosa luta com ele, pois é isso que o vilão merece. Estás a ver, ele cativa pelos defeitos, tal como o protagonista cativa pelas qualidades. Nós, sendo Guardiãs, tínhamos o nosso leque de defeitos e qualidades, mas não éramos abertas a aquilo que protegíamos. Porque nós o fazíamos para os humanos, principalmente. Desde quando havia alguém na Lua com problemas de Fé ou de Harmonia? E, principalmente, quem é que se importava em sonhar? Havia gente, como é obvio, mas não tanto quando as do planeta Terra. Era para elas que servíamos. Elas e as excepções do sistema Solar. Neste momento, só me lembro da minha sobrinha Serenity. Ela era uma excelente excepção. – Agnes sorriu nostalgicamente. Sentindo-se cansada, Linda sentou-se no sofá mas, ao ver-se com um enorme espaço à sua volta, deixou-se cair de costas, mirando o mar de branco acima da sua cabeça. Agnes ficou a observá-las por uns momentos e depois prosseguiu
-Belisa não tinha fé em nada. E Harmony podia ser tão fria quanto um cubo de gelo. E eu… não sonhava. Mas amava. E isso fora o suficiente para eu ter-me sentido feliz parte da minha vida. – Explicou, um estranho brilho a percorrer os seus olhos.
«Mas tu e as tuas amigas são filhas de humanos, Vocês podem acreditar em algo superior. Nós não podíamos porque… era irracional e até porque nós éramos – de certa forma – algo superior. Vocês não têm nada disso. Vocês foram criadas mediante os valores das vossas famílias e até mesmo o vosso inconsciente foi influenciado por esses mesmos valores. Tu apenas não sonhas Linda, porque não queres.»
Ela podia responder, mas não tinha vontade nenhuma. Era como se já soubesse que argumentar levaria a outra discussão onde ela sairia de mãos vazias. E também, ela sabia porque não queria sonhar. Era o mesmo motivo pelo qual nem ela nem Agnes estavam contentes por estarem as duas a falarem uma com a outra. O mesmo motivo pelo qual Linda quase que desejava estar morta. Porque só assim é que ela poderia…
-Linda?
Esta ergueu o tronco ao ouvir o seu nome. Agnes estava sentada ao seu lado, à espera de perguntas. Linda havia pensado nelas por momentos e tomava agora coragem para as fazer:
-A Dawson tem alguma ideia do que aconteceu? – Perguntou Linda.
-Tem, mas isso é porque ela sabe dos teus poderes, não porque sentiu. Como já te disse, não há ninguém que te possa detectar na cabeça deles. Foi por isso que ninguém notou em ti de todas as vezes que entraste nos sonhos deles.
Linda assentiu, entendendo. Em seguida, fez a sua outra pergunta, talvez a mais temida.
-Eles têm medo de mim, não têm?
Agnes deitou-se, esperando que Linda fizesse o mesmo. Quando as duas semelhantes estavam deitadas, lado a lado, entreolharam-se. Linda perguntava-se no que ia na cabeça de Agnes, pois ela olhava-a de uma forma estranha.
-Não terias tu medo? – Perguntou Agnes, ao fim de alguns minutos de silêncio. – Se soubesses desse poder de manipular mentes?
-Talvez – admitiu Linda, fitando o tecto, agora num azul bem claro. Se súbito, era como se estivesse no campo. Conseguia ouvir o som dos animais rurais a pastarem e o som do vento na bater nas árvores. – Há mais qualquer coisa.
Era uma afirmação, mas Agnes assentiu na mesma, também ela olhando o céu. No entanto, ao contrário de Linda, mal pestanejava, olhando-o de uma forma obsessiva.
-Ela fez qualquer coisa… a Dawson… a maldição…
-Tu sabes o que é uma maldição, não sabes? – Perguntou Agnes, não desviando os olhos do céu.
-Sei. E sei que pragas não caem do céu de repente. É preciso uma pessoa que amaldiçoa e o amaldiçoado. A Dawson fez-me isso. Amaldiçoou-me. Mas com o quê? -Ora pensa, o que é que ela quer tanto?
-As Flores. – Respondeu Linda de imediato. Ao seu lado, quase podia sentir Agnes a enrolar os olhos.
-Na altura em que nasceste, ela ainda não tinha ouvido falar delas.
-Então ela quer… - aí a revelação atingiu-a com ácido no estômago. As suas pupilas dilataram-se e podia jurar que estava a tremer – A minha morte. – Sussurrou, pálida como um lençol. Agnes finalmente desviou os olhos do céu para a fitar. Linda tinha agora a certeza. Havia emoção naqueles olhos cor do céu nocturno.
-Sim.
Linda ergueu-se, as mãos a apoiarem a cabeça. Andou em voltas pela sala, agora novamente branca, com a sua sósia a olhar para ela curiosamente.
Então era isso que a Dawson queria. Mas porque raio estava a demorar tanto tempo? Para quando é que ela iria… morrer?
Linda virou-se para Agnes, fazendo-lhe essas mesmas perguntas com o olhar, esperando que Agnes tomasse a dica. Felizmente, a princesa da Lua tomou-a.
-Lembra-te que tinhas família disposta a ajudar-te. Eles tentaram salvar-te e acabaram por te dar mais tempo de vida, apesar de acreditarem que nada fizeram.
Linda fitou a sua sósia.
-Porquê?
Agnes suspirou.
-Pensa Linda. O que é que tu achas que uma pessoa, ao descobrir o dom que uma determinada criança teria e uma determinada maldição, o que é que elas pensariam?
-Para isso a maldição não podia ser muito explícita.
-Claro. O objectivo era contar uma história, mas fazê-los acreditar noutra. Eu não sei as palavras exactas. Ninguém as registou. Mas sei que morrerás nos ‘tempos murchos da Rainha’ e que ‘um mau interior te perseguirá até te tomar por inteiro, em festas alegres’.
Linda congelou. A primeira não fazia muito sentido, mas a segunda era bem clara. Os dois sentidos aliás.
Um, ela morreria nos tempos murchos da Rainha… fosse esse o tempo que fosse…
Dois, o Caos iria persegui-la a ela e ao seu dom até ela ceder e tornar-se sua seguidora. E Linda sabia o quanto esse assunto era delicado na sua família. A sua avó e ‘tias’ haviam lutado contra o Caos inúmeras vezes quando eram navegantes activas. Metálica havia sido uma parte do Caos e provocara a destruição no Milénio Prateado, e quase que repetia a façanha não fosse a sua avó. Pensar que a neta fosse tomada pelo Caos…
Todas as lições de moral, toda a atenção tinham agora sentido. E a desatenção dos seus pais também. Ainda que fosse difícil para Linda entender a ideia dos pais, todas as peças do puzzle começavam a encaixar. Apenas não fazia sentido que ninguém – principalmente pessoas como a Ami e o seu avô – não tivessem sequer pensado na outra hipótese. Que ela iria morrer.
Talvez fosse a opção óbvia. E também a mais provável. Como adivinhariam eles a importância de um poder daqueles a ponto de uma mulher fazer uma maldição? Era mais óbvio o receio de que o Caos – que estava em todo o lado – tomasse aquela criancinha, a herdeira do Cristal Prateado.
Agora tudo fazia sentido.
Os avós ensinaram-lhe tudo para sobreviver a batalhas, fossem elas quais forem.
As ‘tias’ ensinaram-lhe vários truques, para que não tivesse problemas de consciência.
Juntos, ensinaram-lhe a ser humilde.
Os pais… ensinaram-na a odiar o poder.
E isso era a chave de tudo. O Cristal nunca lhe fora nada importante porque a mulher que o guardava não queria saber dela. Se fosse o contrário, quem sabe, talvez fosse mais difícil para ela resistir a aquela tentação.
Explicava porque a tão tardia explicação de ela ser navegante. Quanto mais tarde descobrisse o seu poder, melhor.
E acima de tudo, tudo aquilo deu-lhe tempo de vida, de alguma forma. ‘Festas alegres’ explicava tudo. Quanto mais feliz ou completa se sentisse, mais vulnerável estava. Mais fácil era de morrer, fosse qual forma fosse.
E a ultima peça finalmente se encaixou. ‘Tempos murchos da Rainha’ tinham um significado bem específico. Juntamente com ‘Festas alegres’. Tudo se resumia a uma data. Ou, pelo menos, um ano. O ano presente.
O seu décimo sétimo aniversário.
À sua volta, Linda quase que conseguia ouvir o relógio a tocar, o tempo a passar lentamente, tempo precioso que ela tinha em falta. Linda acreditava que se havia passado dias desde o acontecimento com Dawson. Quase que podia jurar que passara um mês. Ou seja, a sua mãe e avó já deviam ter feito anos.
Mas ela não tinha a certeza. Apesar de ouvir as badaladas do relógio e os seus tiques incessantes, não tinha ideias das horas e dos dias. Ainda dormia pacificamente na cama de algum quarto, em algum lugar.
Ainda tinha Agnes a seu lado, ainda tinha a necessidade de acordar. Mas agora, tinha algo novo. Uma marca de morte.
-O que é que eu faço? – Perguntou-se, desesperada. Se ela fosse outra pessoa, provavelmente choraria com a certeza de que iria morrer em breve, mas nenhuma lágrima caiu-lhe pelo rosto. Apenas desespero. Não pensou em si, mas naqueles que iria deixar. E nas coisas que tinha que mudar.
De certa forma, entendia agora as pessoas que só começavam a aproveitar a vida quando a sentem a fugir ou quando quase perdem algo. Bem, ela estava prestes a perder aqueles que amava. Tinha que fazer alguma coisa quanto a isso. Por Kenji, pelos seus pais, pelos seus avós, pelas suas ‘tias’, por Mari, Cecília, Eiji…
-Não te preocupes. Ela não os vai magoar. Irás voltar. – Assegurou Agnes, com um sorriso fraco.
-Voltar. Ou seja, morrerei e voltarei só para impedir a Dawson de ganhar.
-Não. Não podes evitar uma batalha com a Dawson. Mas, se morreres antes de a conseguires derrotar, voltarás… como um desejo final.
-O que me trará aqui? – Perguntou Linda, desconfiada.
-O mesmo que trouxe a tua avó forças para derrotar os seus inimigos…. E eu.
Agnes ergueu-se e aproximou-se de Linda, pousando a mão no ombro dela solidariamente.
-Não temas Linda. É para isso que nós Guerreiras, existimos. Para proteger aqueles que amamos. É a nossa sina. Pensa nas vantagens disto tudo.
Linda ergueu o sobrolho. Como poderia ela encontrar vantagens na sua própria morte? Agnes riu-se ao ver a expressão da sósia.
-Oh Linda. Tu sabes do que falo. Sou parte de ti. Sei que farás de tudo para deixar tudo de pratos limpos antes de partir e depois de partires sentirás paz… garanto-te que isso são inúmeras vantagens. – Agnes sorriu, os olhos a brilharem intensamente. Linda não conseguiu evitar um sorriso sonhador.
O silêncio devorou o resto do diálogo, com Linda a pensar naquilo que faria quando acordasse e Agnes a fitá-la. À volta delas, surgiam portas de madeira escura, junto às paredes circulares da sala. A certa altura, Linda fez a sua última pergunta:
-Quem és tu?
Agnes sorriu misteriosamente.
-Eu sou o que te liga à Agnes. Sou parte ela, parte tu. Sei tudo o que pensas, sei tudo o que queres e o mesmo no que toca à Agnes. Sou parte da tua consciência, parte do teu poder. Sou um anjo da guarda. Um observador. Alguém que te guia, quando te abres para mim. Mas quando fechas uma parede, eu continuo lá. Faço parte de ti. Linda, sou a tua Voz.
Linda deixou de sentir Agnes no seu corpo. Começou a sentir um leve arrepio na espinha e uma súbita curiosidade em abrir as portas. De todas, uma dava-lhe maior curiosidade. Estava silenciosa, enquanto as outras tinham pequenos burburinhos do outro lado.
Chegou-se perto dessa porta, Agnes já tinha desaparecido. Rodou a maçaneta e entrou.
Era um hospital. Linda olhou em volta e viu cerca de meia dúzia de camas, onde seis jovens dormiam. Mas não pacificamente. Um a um, começaram a perder sinais vitais e enfermeiras e médicos apareceram de todos os lados a tentar socorrê-los. Mas todos eles morriam, todos eles desapareciam. Ao longe, ainda sobrava um. O único dos seis que ainda resistia. Começava a falhar. O coração não aguentava.
De súbito, Linda deu por si a correr. Aquele rapaz não podia morrer.
-Não… não… não te atrevas. NÃO TE ATREVAS A MORRER! – Gritou ela, sem conseguir evitar, mesmo sabendo que ninguém a ouvia.
De repente, abriu os olhos, erguendo-se violentamente. Ainda estava a ofegar e, pelo som que ouvia em volta, não estava sozinha no quarto.
Uma empregada olhava para ela assustada. Linda reconheceu-a como uma das empregadas do palácio. E, ao olhar em volta, teve a confirmação das suas suspeitas. Estava no seu quarto, no palácio. As cortinas estavam abertas, deixando os raios luminosos entrarem por entre a divisão. Linda tentou sair da cama, mas a empregada conseguiu arranjar coragem para se mexer, impedindo-a:
-Sua alteza tem que ficar na cama. É preciso que o médico…
-Sua alteza? – Cortou Linda, ao ter noção daquilo que a mulher estava a dizer. Olhou nos olhos da mulher. Esta pareceu vacilar, mas depois pestanejou os olhos violentamente, desviando-os da princesa:
-Sim. Sua alteza. E é melhor repousar, esteve muito tempo doente. O rei mandou que…
-O rei! – Exclamou Linda, ao lembrar-se do que acontecera. Edward estava com ela na sala. Fora ele que a abraçara e ficara com ela até que a dor passasse. E era ele que Linda queria ver naquele momento. – Que dia é hoje?
-Dois de Julho, menina.
Linda sentiu-lhe o ar faltar. Ficara cerca de duas semanas de cama.
-Onde está o rei? – Perguntou, sem dar conta do seu tom de voz.
-Eu…
Linda não esperou que a empregada acabasse. Saiu da cama e correu para fora do quarto, com a mulher atrás de si.
-Sua alteza espere! – Implorou a mulher, arrastando os pés atrás da rapariga, muito mais jovem e ágil do que ela. Linda ignorou-a, caminhando em passo rápido rumo ao escritório, onde saberia poder vir a encontrar o seu pai.
Foi só quando deu a volta a dois corredores que se apercebeu dos seus trajes. Tinha vestido uma camisa de dormir azul-marinho e estava descalça. Ao passar junto a um espelho, viu que estava pálida e com os cabelos todos desalinhados, caindo em cachos até os cotovelos. A única coisa que Linda gostou do seu reflexo foi do olhar determinado que lhe correspondia. Havia muito para fazer e muito pouco tempo.
O chão começou a ficar frio nos seus pés descalços, mas ela não abrandou até chegar à entrada. Aí, olhou para todos os lados, em esperança de ter um vislumbre do pai. No entanto, viu algo melhor.
A mota do Kenji.
A engenhoca do seu irmão mais velho estava ali, novinha em folha, estacionada junto do carro de alguém, que Linda só podia supor ser de Yvonne ou Hotaru.
O irmão estava ali. Aquilo não podia ficar melhor. Linda sorriu e voltou para dentro, ignorando os olhares que recebia. Por várias vezes, um empregado tentava impedi-la, mas bastava ela abanar o braço para eles se afastarem. Linda deu graças por ninguém que a pudesse contrariar se tivesse atravessado no seu caminho.
Foi então que o viu. Edward vinha do corredor contrário quando quase chocou com a filha.
-Linda? Com mil raios, o que fazes aqui? Devias estar na cama e…
-É bom saber que se preocupa. – Interrompeu ela, docemente. Edward suspirou profundamente, embaraçado.
-É claro que me preocupo. Eu…
-Já sei o que me fez. Qual era a sua estratégia. – Disse ela, querendo despachar o assunto. – Mas tenho que lhe dizer que foi uma jogada perigosa. Podia ter-vos saído o tiro pela culatra.
Edward não respondeu. Limitou-se a olhar para Linda, pensativo. Após um breve silêncio, que ela prolongara de propósito, ele pousou as mãos nos ombros dela:
-De certeza que estás bem? Não te dói nada?
Linda sorriu à atitude afectuosa, assentindo ao mesmo tempo.
-Estive duas semanas de cama, penso que é tempo suficiente para recuperar.
Edward parecia hesitante. Isso fez lembrar a Linda nas alturas em que ela estava doente ou quando tinha pesadelos. Lembrava-se de que, no dia em que a avó lhe contara sobre a Guardiã dos Sonhos, que alguém estava no fundo do quarto. Agora que todas as peças se encaixavam, tinha a certeza que os seus pais a tinham observado a vida toda. Ela, como vitima, tinha razão para estar magoada, mas eles também haviam saído magoados, obrigados a observar os filhos de longe, sem que pudessem fazer nada que estragasse os seus planos.
Mas hoje tudo aquilo iria terminar. Não para sempre. Linda não sabia se algum dia as coisas seriam normais ou se perdoaria os seus pais por irem por tais caminhos para a salvar. Mas isso não queria dizer que não pudesse deixar esses assuntos de lado temporariamente…
-Pai. – Linda notou num certo brilho nos olhos de Edward ao ser chamado por tal nome antes de continuar. – Eu quero que fale com o Kenji.
Edward afastou-se dela, incomodado:
-Porque me pedes isso?
-Porque não é altura para nos afastarmos. – Respondeu ela, zangada. – Além disso você disse que eu era igual a si. – Edward continuava de costas para ela, mas Linda sabia que ouvia cada palavra que ela dizia. – Por volta do Natal, eu zanguei-me com o Kenji. Agi que nem uma idiota, disse-lhe coisas que eu não queria dizer, mas que a raiva do momento me obrigou. Disse-lhe que não tinha irmão. – Linda esperou que Edward se virasse para ela, o rosto impossível de ler. – Eu não queria, mas disse. E isso faz-me pensar… você queria dizer-lhe isso? Queria expulsá-lo de casa e deserdá-lo? O seu próprio filho?
Edward lançou-lhe um olhar penetrante, mas Linda nem pestanejou. Pelo contrário, sorriu. Quantas vezes Kenji, Eiji e Setsu se haviam queixado daquele olhar que ela lhes lançava frequentemente?
Ele suspirou, derrotado.
-Manipuladora… - murmurou. – Ele nunca me vai perdoar.
-Devia conhecer o Kenji melhor.
-Não é não o conhecer. – Interveio ele, elevando o tom de voz. – É orgulho. Vais-me dizer que nunca hesitaste em perdoar, porque punhas o orgulho por cima do bom senso? Ele fará o mesmo.
Linda assentiu, os olhos postos no pai.
-Sim. Mas lembre-se de que eu passei pelo mesmo. E não o perdoei sozinha. – Linda suspirou, triste pelas memórias que começava a recordar. – Foi necessário o avô e a avó me obrigarem a estar com ele e a deixá-lo falar para que eu engolisse o orgulho e o perdoasse. E ele a mim. Ele perdoou-me. – Acrescentou ela, vendo o rosto do pai endurecer. Como Edward não disse nada, Linda sentiu-se a tremer:
-Peço-lhe – implorou ela, tentando manter um tom de voz digno. Edward olhou para a filha, estupefacto. Ela estava prestes a chorar, mas tentava conter as lágrimas. Mal sabia ele no que ela pensava.
Aproximou-se dela e envolveu-a num abraço. Era como abraçar uma pedra. Ela não se mexia, sem saber o que fazer. Era a primeira vez que o pai a abraçava. Um abraço verdadeiro.
Deixou a lágrima salgada cair, molhando o rosto pálido dela. Agarrou-se a ele, sentindo o perfume da sua camisa lavada.
Ela não disse mais nada, pois sabia que Edward tentava arranjar coragem para falar com o filho. Linda esperava que ele se decidisse.
Eu e a mãe não aguentaremos muito. Vocês não podem ficar separados.
Prolongaram o momento durante dez minutos, tempo esse onde ninguém passou pelos corredores. Nas janelas, o sol ia alto e o frio que Linda sentia nos pés há pouco cessara. Edward beijou o topo da cabeça da filha, mais baixa do que ele, sentindo-se decidido. Falaria com Kenji. Mesmo que este não o perdoasse, ao menos ficaria com a consciência limpa de que tentou emendar as coisas. No fundo, ele queria que o filho não o perdoasse. Desde que tomara uma decisão ao entregar a recém-nascida Linda aos braços dos avós que a culpa se acumulara na sua mente, jamais saindo, mesmo vendo os filhos a crescerem fortes, saudáveis, inteligentes e com carácter.
Já Linda vagueava pelos corredores, em busca de algo. Procurava um sonho, um único sonho. Algo que pudesse identificar o irmão no meio do aglomerado de gente que percorria o palácio de uma ponta à outra. Na sua mente, viu um sonho ridículo do cozinheiro, que passeava pelos pastos vestido de pastorinha e o da jovem criada da mãe, que sonhara no dia anterior que tinha filhos gémeos com o rei, mas era virgem. Vira também o sonho de uma empregada em ser bailarina, outro do jovem jardineiro que pretendia pagar os estudos para ir pagar a faculdade e ser arquitecto. Até que encontrou. Um sonho.
Estranhamente, parecia-lhe familiar. Cecília tinha o vestido branco da Marilyn Monroe e decidiu dá-lo a Setsu, para este cumprir uma aposta. Ele vestiu o vestido e pôs uma peruca loira e salto alto. No entanto, ninguém avisara Setsu que este tinha que ir ao mercado comprar moedas de chocolate para dar a Eiji, que estava na rua a pedir dinheiro. Então Setsu fora, vestido de Marilyn Monroe, até que chegou à baía de Tokyo e Linda (que aparecera vinda do nada) correu atrás de uma gaivota e obrigou-a a pôr um ovo. Depois, deu o ovo a Mari (que estava ali com umas calças púrpuras ridículas), que decidiu fazer uma omeleta com queijo para Kenji, que estava mascarado de urso. O sonho continuava, mas Linda forçou-se a não investigar mais, pois havia o risco de rebolar às gargalhadas nos braços do pai.
O irmão estava na sala. Na mesma onde ele e o pai tiveram uma discussão quase um ano antes.
Afastou-se, agarrando a mão do pai e puxando-o consigo em direcção à sala onde o irmão estava. Quando chegou-se perto da porta, podia jurar que ouvira vozes:
-Ela… - não precisava de dizer o nome. Edward sabia de quem ela falava.
-A Guinevere foi expulsa. Os guardas não a deixam entrar.
Até parece que isso alguma vez a parou, pensou Linda amargamente.
-Não te preocupes. – Disse Edward, ao ver a cara da filha. – Ela não te vai voltar a incomodar.
Se fosse assim tão simples…
Linda abriu a porta da sala. Um raio de luz incidiu nos seus olhos e quando cessou, Linda pôde ver Kenji e Mari no centro da sala a olharem um para o outro. Os olhos de Kenji iluminaram-se quando viu a irmã e deu um passo em frente rumo a ela, mas parou quando Edward entrou atrás de Linda.
Seguiu-se um silêncio de cortar à faca, onde Mari sentiu-se ligeiramente fora do lugar e Linda aborrecida. Mari tentou alcançar a porta, mas Linda travou-a:
-Fica aqui. – Ordenou.
Mari ergueu o sobrolho.
-Porquê?
-Porque és família. – Respondeu Linda, simplesmente.
-Só porque namoro com o teu irmão, não quer dizer…
-Mari – Linda quebrou contacto visual com o pai e o irmão para se virar para a amiga. – Ainda antes de namorares o Kenji, já eras da minha família.
O olhar penetrante que Linda lançou à loira, fê-la entender. Desde as vidas passadas até à forte amizade que as duas tinham construído, Mari, Linda e Cecília podiam ser consideradas irmãs, devido aos vários problemas familiares que as cercavam.
Mari suspirou e acenou afirmativamente para Linda. Esta sorriu e voltou a fitar Edward e Kenji, que não se haviam mexido.
-Por favor, digam alguma coisa! – Disse Linda, um pouco aborrecida. Os dois homens olharam para ela, os rostos sem qualquer expressão. Linda engoliu em seco. – Não me façam isto. – Pediu, um pouco nervosa.
Kenji abriu a boca para falar, mas voltou a fechá-la. Pareceu ponderar por uns minutos, até que finalmente quebrou o silêncio:
-Porque fazes isto? – Perguntou, mais para Linda, do que para Edward.
Pai e filha abriram a boca para responderem ao mesmo tempo:
-Kenji, eu… - entreolharam-se, surpreendidos. Edward deu um passo atrás, sinal para Linda continuar. Esta suspirou pesadamente:
-Kenji… - fez uma pausa, pensando em cada palavra que ia dizer. – Pensei muito enquanto estive… inconsciente. A vida é curta e nós podemos não nos aguentar por muito tempo. Temos que aproveitar cada momento. Carpe diem, sabes?
Kenji não respondeu. Os seus olhos saltaram da irmã para Mari e depois Edward para voltarem a pousar na irmã.
-Eu quero que o perdoes. Aliás, nem eu sei se algum dia o perdoarei por ter usado a pior estratégia. Sim – acrescentou Linda ao ver a cara do irmão e do pai – eu sei de tudo. Da maldição, do motivo pelo qual a nossa família se separou… e isso deixa-me frustrada. Um pequeno detalhe deu cabo da nossa família. Os nossos pais não tentaram o suficiente para me salvar. Acharam que o plano deles era o suficiente e... – Linda respirou fundo, tentando desfazer o nó que se começara a formar no estômago – de certa forma… funcionou. O ódio que tenho a este sítio é o suficiente para eu não ser malvada, mas também não desejar poder, mas sim amor.
«Não sei se o perdoo – virou para Edward, imóvel no meio da sala. – Mas sei que não vou continuar a agir como uma criança. A mãe está doente, ele está o sozinho e, no fundo, tu sabes que o que mais queres é estar com eles. Comigo. Com o teu pai. Ficaste magoado com aquilo que ele te disse mas vira os papéis. E aquilo que tu lhe disseste? Já paraste para te perguntar se não foste um pouco bruto com ele? Kenji… não peço uma família feliz, porque isso jamais teremos. Só peço que refaçam a conversa do ano passado e tentem dar-se bem. Pela mãe. Por mim.
Vocês em breve ficarão sozinhos, têm que estar juntos, acrescentou Linda para si própria.
Kenji suspirou, interessado na carpete da sala. Edward olha apara a janela, pensativo. Parecia que nenhum dos dois iria falar brevemente. Linda, sentindo-se fraca, apoiou-se na parede, com Mari a segurar-lhe no braço.
-O que te fez mudar de ideias. – Sussurrou ela ao ouvido de Linda. Esta sorriu.
-Já disse porquê.
-Mas não é apenas por isso. Eu conheço-te Linda, há mais algum motivo.
Linda fixou os olhos num ponto longínquo na sala, reflectindo por uns momentos.
-Carpe diem. – Sussurrou ela em resposta. E já dissera tudo. Dissera a verdade, mas também ocultara-a em apenas duas simples palavras. Mari ainda lhe segurava no braço e parecia hesitar por uns momentos ao ouvir aquelas palavras.
Finalmente, largou a amiga, em movimentos robóticos. A mão esquerda dela tremia e Linda apertou-a, sorridente:
-Não te preocupes. – Sussurrou ela, sem deixar de sorrir. Mari olhou para ela, os olhos vidrados de pânico.
-Será verdade aquilo que vejo?
-Talvez. – Foi tudo o que Linda respondeu, deixando a amiga apoiar a cabeça levemente no seu ombro. Ambas observavam os homens, que tinham dado um pequeno passo em frente cada um. A voz de Edward foi a primeira a ser ouvida:
-Eu não queria dizer aquilo. – Disse, a voz rouca como se ele tivesse gritado durante horas – fiquei irritado com aquilo que disseste e… perdi a cabeça. Acabei por dizer aquilo que a minha máscara tanto te queria dizer. Mas que eu não queria. Se quisesse, garanto-te que te teria expulsado do palácio quando fizeste os dezoito anos. Custou-me ouvir aquilo que disseste, porque eu e a vossa mãe fizemos um pacto. Evitar-vos, porque nós não conseguíamos ser maus pais. Ignorar era a forma mais fácil. Mas no meio disto tudo, com vocês a crescerem tão depressa e do modo que nós queríamos e criados por outras pessoas, acabamos por quebrar as nossas promessas. Começamos a observar-vos de longe, nas coisas que vocês gostavam. Ajudei a tua irmã na dança porque não conseguia ficar parado quando ela fazia algo que eu amava. Vi-te a apanhares varicela ou a teres pesadelos. Nós não fizemos nada, mas estávamos lá.
Edward parou de falar, sentindo-se como se tivesse acabado de correr a maratona. Kenji mordeu o lábio suavemente.
-Porque é que as coisas nunca são porque nós queremos? – Murmurou, triste.
A pergunta pairou no ar, os restantes ocupantes incertos do seu destinatário. Para surpresa de todos, fora Mari que respondera:
-Porque isso tiraria a vontade de viver. Quem é aquele mortal que quer viver num mundo completamente feliz?
-Ying yang – disse Linda, sorrindo para a amiga – há que haver equilíbrio em tudo. Uma vida com altos e baixos ou uma vida equilibrada. Felicidade e tristeza. Todas fazem parte de nós, não nos conseguimos ver livres delas. O máximo é viver em equilíbrio com cada uma. Mas nunca com uma vida cheia de felicidade ou de tristeza. Há excepções, mas essas são as vidas dos pessimistas e dos idiotas.
Os dois homens sorriram, ambos fitando o chão. Linda aproximou-se do pai, pegando-se na mão. Este segurou a mão da filha como se segurasse um tesouro, enquanto Linda pegava na mão do irmão e unia as mãos dos dois. Pai e filho apertaram as mãos maquinalmente, mas fora um gesto do coração quando Kenji cortou a distância que o separava de Edward e abraçou o pai, pequenas lágrimas caindo-lhe nos olhos. Linda sentiu uma lágrima correr o seu rosto, mas só a sentiu quando ela própria fora arrastada para o abraço dos dois homens. Pai e filhos abraçaram-se pela primeira vez juntos, em parte compensando tempo, noutra compensando os laços de afecto que lhe faltaram durante a vida.
Linda voltou para o quarto mais tarde. Mas não voltara sozinha. Apesar de tanto o pai como Kenji insistirem em acompanhá-la, Linda recusou a ajuda. Em vez disso, preferiu que Mari a acompanhasse, deixando os dois sozinhos na sala, fitando um o outro ansiosamente.
Mari deu-lhe o braço o caminho todo. Não porque Linda estava fraca. Não, era um motivo maior. Talvez, pela primeira vez, Linda estivesse a ver Belisa a segurar a irmã, guiando-a na escuridão que a cegava.
As mãos de Mari estavam frias, provocando a Linda um arrepio na espinha.
-Estás preocupada. – Afirmou Linda, quebrando o pesado silêncio que a perseguia pelos corredores.
-Essa história do Carpe diem… - murmurou Mari, sem se virar para a amiga. – Quem ta contou?
-Ninguém. Fui eu que tomei a decisão.
-Sozinha? – Mari ergueu o sobrolho. Linda teve a sensação de ver um flash verde nos olhos de Mari. Um verde diferente, mais perfeito… como o de uma deusa. – Duvido.
Linda mordeu o lábio involuntariamente. Sentia o olhar de Mari em cima dela, apesar de esta ainda se centrar nos corredores.
-Foi a Agnes, não foi?
Linda parou. Aquela não era a voz de Mari.
-Belisa?
Mari suspirou, os olhos verdes brilhantes focados na morena. Não pestanejava, não vacilava.
-Não. Ainda sou a Mari. – Disse, tentando sorrir para Linda. A sua voz tinha agora o mesmo timbre que a voz de Mari. Linda sentiu-se corar.
-Desculpa, eu achei que…
-Acabaste de confirmar a minha pergunta. – Retorquiu Mari, cruzando os braços. Linda podia jurar que a amiga ficara incomodada quando ela lhe chamara de Belisa.
Linda abriu a boca para responder, mas fechou um ápice. Lembrara-se de um ponto importante no assunto: como Mari sabia?
-Há quanto tempo sabes da nossa ligação às Guardiãs? – Perguntou, tentando dar outro nome à Voz que lhe falara antes. Mari fez uma careta, obviamente incomodada.
-Desde aquele dia na praia. – Respondeu, num sussurro. – Quando o Kenji me disse que… - Mari corou levemente e abanou a cabeça, ignorando aquela parte do momento. – Senti-me diferente. Como se já fosse mais que uma pessoa a pensar por mim. Essa Voz sabia sempre aquilo que eu queria e, por alguma razão… sentia-a mais forte quando estava perto do Kenji. Julgava que nunca me tinha acontecido antes mas depois, lembrei-me… num aperto do coração quando… - Mari parou de repente, tentando formular as palavras na sua cabeça. Linda não quebrou o silêncio, deixando espaço para a amiga ganhar coragem por si só. – No funeral da minha mãe, senti um aperto, como se mais alguém sentisse aquela dor comigo dentro do meu corpo, alguém que sabia o que eu passava e que me queria ajudar. Mas se havia coisa que eu estava farta era de pessoas a ajudarem-me, com pena da menina órfã de mãe. – Mari tremia, mas não parecia que ia chorar em qualquer momento. Linda sabia que Mari não era do tipo de raparigas que chorava facilmente e sentiu dor pela amiga. Chorar era um dos modos de expulsar a raiva e a dor. Mari acumulara dor durante anos, felizmente nenhuma tão grave quanto a morte da mãe.
-Chorei o dia todo e… quando mais chorava, mais sentia o aperto. Então parei de chorar, tentei expulsar aquela dor. E consegui… até agora.
Linda aproximou-se da amiga e abraçou-a. Mari aceitou o gesto de bom grado. Apesar de não chorar, era fácil de ver que o assunto ainda lhe era doloroso.
-Ela tem-te incomodado? – Perguntou Linda calmamente.
-Não. Sinto-a quando estou com o Kenji mas nada mais. Ou melhor… - Mari parou para reflectir um pouco. Afastou-se de Linda, as mãos nos ombros da morena, levemente mais baixa que a loira. – Às vezes… tenho pesadelos. Um homem da Terra a trazer o teu corpo. Eu sei que é a Agnes, mas sinto uma pontada tão forte quando vejo o teu corpo imóvel… parece que… que tu também vais desaparecer.
Linda engoliu em seco, evitando olhar nos olhos da amiga. Pela primeira vez, Mari tivera uma premonição adiantada. Uma que, se ela soubesse, conseguiria evitar.
-Tenho medo que seja real – se os corredores do palácio não estivessem vazios e fizessem eco, Linda não teria ouvido aquilo que Mari dissera.
Não lhe queria mentir. Melhor, ela não sabia mentir. Que fazer?
-Não pensemos nisso. Não adianta viver uma vida à espera da morte. Mais vale aproveitar cada momento como se ele fosse o último.
-Carpe diem – disse Mari, sorrindo.
-Sim, Carpe diem.
Ok, parece que hoje estou com um pouco de azar. Acabei o capitulo, escrevi tudo aqui... e lá se foi tudo. Ou seja, os motivos pelo qual me demorei a postar.. foram-se, assim como os motivos de inspiração para este capítulo.
Enfim, conto-vos tudo amanhã, que agora estou cansada

[1] O vestido de Linda (http://www.modalogia.com/wp-content/uploads/2010/05/calvinklein-beauty1.jpg)
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26-Carpe Diem
- «Não vale a pena
Fazer um gesto
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre»
- «Colhe o dia
Porque és ele»
Ricardo Reis
O som de um violino pairava no ar, alastrando-se pelo espaço indistinto como uma pandemia fatal. O som de corações partidos e hesitações forçadas pesavam na mente de Linda. Esta abriu os olhos, perguntando-se onde estava.
Ao erguer o tronco com dificuldade, viu que ainda tinha as suas roupas, mas já não parecia estar no mesmo sítio onde sentira aquelas dores.
Pousou a mão na cabeça ao lembrar-se. Jamais tinha sentido tamanha dor e agora estava profundamente aliviada por esta ter cessado.
Tentou levantar-se e sentiu-se satisfeita ao ver que os seus músculos estavam relaxados o suficiente para realizar tal esforço. Tudo que sentira quando se viu de pé, foi uma leve dor de cabeça, que logo passou.
Olhou em volta.
Nada parecia estar ali, excepto uma enorme sala pintada de branco cintilante. Não havia portas, nem janelas, nada. Excepto uma sombra.
Linda caminhou uma dúzia de passos até poder visualizar a sombra sem problemas, esta sentada num sofá redondo. O que viu surpreendeu-a:
-Que bom ver-te, Linda. – Disse Agnes, com uma leve ponta de sarcasmo. Linda forçou corpo e mente para se controlarem. Olhar para Agnes era quase como olhar para um espelho. Mesmo cabelo, mesmo olhos, mesmo sorriso… as semelhanças ainda continuavam, mas Linda desviou os olhos da sua sósia, tentando manter-se calma. Ver Agnes não era bom sinal.
-Estou… - forçou-se a si própria a dizer a palavra, mas Agnes foi mais rápida.
-…morta? Não. – Respondeu ela, com um sorriso.
-Então porque estás aqui?
-Eu não estou aqui.
Linda ergueu o rosto para a princesa da Lua.
-Não brinques. Estou a ver-te.
-Eu não sou a Agnes.
-Mas…
-Eu pareço a Agnes – disse a outra, ignorando a interrupção de Linda. – Porque neste momento, sou a coisa mais próxima daquilo que tu queres ver.
-Mais próxima? O que é que eu quero ver?
Agnes encolheu os ombros.
-Tu é que sabes.
Seguiu-se um incómodo silêncio. O som do violino cessara e Linda começou a entrar em pânico.
-O que aconteceu? – Perguntou, de repente.
-Esforçaste-te demasiado. Não estavas preparada para abusar do teu poder.
-Poder? Que poder?
Agnes ergueu o sobrolho.
-Nem te apercebeste do que fizeste? – Ao ver o rosto confuso de Linda, suspirou – não me admira, tu nem sabes o que podes fazer…
Fitou o rosto da sua sósia. Ao observar melhor, Linda notou que ela não era tão semelhante a Agnes quanto julgava. Agnes era demasiado… perfeita. Um rosto de boneca, branco imaculado, com franca juventude e sem puberdade expressa e olhos brilhantes como safiras preciosas. Mais parecia uma máscara.
-Um iene pelos teus pensamentos – comentou ela, no seu tom provocante.
-Não pareces a mesma – sussurrou Linda, não tirando os olhos de cima da outra pessoa. – Que… a Agnes nas minhas memórias…
Agnes sorriu e ajeitou-se no sofá branco onde estava sentada.
-Como já te disse – explicou, calmamente. – Eu não sou mesmo a Agnes, mas sou aquilo que te liga a ela, portanto ajo como ela. Agora, porque sou assim… - aí, ela suspirou, com um olhar nostálgico e voz sonhadora. – Talvez… sempre fora assim. Mas apenas usei uma máscara para me proteger.
-De quê? E qual era a máscara?
-A resposta à segunda pergunta, é a resposta à primeira. Eu precisava de uma máscara a fim de me defender do mundo exterior. Só me libertei quando conheci o homem que completava a minha alma.
-Morfeu – sussurrou Linda. O rosto de Agnes ficou rígido por uns momentos até que ela retomou o seu discurso.
-Ele completou-me. Fez-me sentir eu mesma e consegui sair da carapaça em que eu me escondia. Ele sempre fora tudo aquilo que eu queria. Aquilo que me protegia. Aquilo que me… mascarava de todos. Com ele, não se tornou difícil ser eu própria com os outros. Após a nossa morte… - Agnes fez uma pausa. Linda julgou ter visto uma lágrima prestes a cair no rosto branco da sósia, mas esta desviara o rosto, podendo ter sido apenas um jogo de luz. – Os papéis inverteram-se. Eu tinha tanto para me esconder que ele, em vez de me ajudar a mostrar-me, ajudou-me a esconder de todos.
A mente de Linda corria à velocidade da luz. Aquilo explicava porque motivo ninguém na mitologia greco-romana conhecia Agnes como a deusa dos sonhos, mas sim Morfeu.
Aí, surgiu-lhe uma ideia. Uma ideia aterradora. Agnes parecia saber até onde o raciocínio de Linda chegara, pois sorria para ela.
Morfeu tinha um poder. Entrar na mente das pessoas e… manipulá-las.
-Eu tentei… manipular a Dawson? – Perguntou a Linda, com a voz a tremer.
-Sim. Inconscientemente, quiseste impedi-la de realizar os seus planos, apesar de isso ser impossível de momento.
-Porquê?
Agnes cerrou as pálpebras, abrindo-as com um suspiro.
-Porque ainda não estás pronta. Foi como… perder a virgindade, percebes? Não sabes bem o que fazer na primeira vez e… até pode doer.
Linda sentiu-se a ficar vermelha.
-Doeu para caraças – sussurrou. Agnes olhou-a num ar compreensivo.
-Também foi assim comigo. Quero dizer, não doeu quase nada. Foi como uma leve dor de cabeça. E isso foi apenas porque cresci a lidar com o meu poder. Apenas não conhecia os seus limites.
-Quem me dera ter tido a tua vantagem.
-A questão é, Linda… Mais ninguém sabe deste poder. A tua avó pode ter uma pequena ideia, mas fora isso… só tu sabes. E, no meu tempo, eu e Morfeu. Quando o conheci deixei-me entrar na mente dele, vasculhando os seus sonhos, em busca de algo que pudesse identificá-lo. Se uma alma pura ou alguém que usava máscaras, pois o poder das minhas irmãs nem sempre era eficaz. Principalmente naquela idade. Claro que, quando cresceram, ficaram imparáveis, mas isso agora não importa.
Agnes focou os seus olhos em Linda.
-A questão é que ele detectou-me. Nunca ninguém o conseguiu fazer, nem nenhuma outra pessoa o fará. Mas ele conseguiu. E deixou-me ler a mente dele.
-Ler a mente? – Perguntou Linda, aterrorizada.
-Depende tudo da importância que o nosso inconsciente tem no nosso cérebro. O nosso inconsciente é o que provoca os nossos sonhos. Nalguns casos, os sonhos são factos que acontecem na vida real ou são baseados nela. É o inconsciente que os cria. Uma pessoa com grande tendência a sonhar, tem um enorme dicionário de símbolos para entender. E nós podemos aproveitarmo-nos disso, enquanto aqueles que sonham pouco têm o inconsciente relaxado e, por norma, impossível de penetrar. E agora a melhor parte de tudo, Linda… - Agnes sorriu maliciosamente, provocando um calafrio na outra. – Nós não sonhamos.
-Isso não é verdade. Todos sonham. Apenas não se lembram.
-Pois… nós não somos normais. – Agnes levantou-se e deu um passeio pela sala, que tinha agora forma circular. – Somos as Guardiãs dos Sonhos das pessoas. O nosso inconsciente pode ter acesso a esses sonhos, mas nada mais. Uma Guardiã não sonha.
Linda sentiu o sangue a ferver de raiva.
-Isso não é o mesmo de tu dizeres que a Mari jamais terá fé nalguma coisa? Ou que a Cecília…
-Nada disso. – Cortou Agnes, erguendo a mão. – Verdade que a tua amiga jamais será uma mensageira da Paz, mas também não quer dizer que não possa ajudar os outros. Acho que te esqueces que eu e as minhas irmãs éramos… diferentes. Porque não consigo arranjar palavra melhor para nos descrever. Tu, a Mari e a Cecília, pelo contrário, têm tudo aquilo que nos faltava. Vocês são humanas.
-Humanas? Mas…
Agnes bufou, claramente aborrecida.
-Lembra-te que os Humanos habitam a Terra. Pelo menos os humanos inteiros. Aqueles que se ajoelham perante os perigos da caixa de Pandora. Os que têm esperança, raiva, ódio, felicidade, honestidade… Todos esses sentimentos habitam nos humanos. Os Habitantes da Lua eram também humanos, mas não tanto quanto os da Terra. Nós não tínhamos defeitos.
-Bem que me enganavas. – Sussurrou Linda obscuramente, lembrando-se de Cariocecus e das várias atitudes de Serenity e das três Guardiãs, principalmente a que estava naquele momento à sua frente. Agnes pareceu ter ouvido alguma coisa, pois olhou para ela desconfiada. O rosto dela era tão óbvio que Linda finalmente lembrou-se. Agnes podia ser assim, em parte, porque ela usava máscara, mas a outra parte era dela, de Linda. Afinal, aquela não era a verdadeira Agnes.
-Adiante. – Suspirou Agnes, não tirando os olhos de Linda. - Nós podíamos ter defeitos mas, entre nós, não havia defeito algum. A nossa definição de defeito era outra. Pessoas falsas ou vingativas, por exemplo. Fora isso, não havia muito na Lua ou nos outros Planetas e o que havia não chocava ninguém. Mas os Humanos tinham uma vista de valores morais mais vasta que a nossa, mais defeitos, mais qualidades. Era por isso que muitos tinham uma obsessão pela Terra. Lá era tudo belo e as pessoas eram maravilhosas. Até mesmo as horríveis. Imagina isso como… um programa de TV. Os vilões são malvados, sarcásticos e fúteis, por vezes. Mas os espectadores adoram-nos e desejam que o protagonista tenha uma grande vitoriosa luta com ele, pois é isso que o vilão merece. Estás a ver, ele cativa pelos defeitos, tal como o protagonista cativa pelas qualidades. Nós, sendo Guardiãs, tínhamos o nosso leque de defeitos e qualidades, mas não éramos abertas a aquilo que protegíamos. Porque nós o fazíamos para os humanos, principalmente. Desde quando havia alguém na Lua com problemas de Fé ou de Harmonia? E, principalmente, quem é que se importava em sonhar? Havia gente, como é obvio, mas não tanto quando as do planeta Terra. Era para elas que servíamos. Elas e as excepções do sistema Solar. Neste momento, só me lembro da minha sobrinha Serenity. Ela era uma excelente excepção. – Agnes sorriu nostalgicamente. Sentindo-se cansada, Linda sentou-se no sofá mas, ao ver-se com um enorme espaço à sua volta, deixou-se cair de costas, mirando o mar de branco acima da sua cabeça. Agnes ficou a observá-las por uns momentos e depois prosseguiu
-Belisa não tinha fé em nada. E Harmony podia ser tão fria quanto um cubo de gelo. E eu… não sonhava. Mas amava. E isso fora o suficiente para eu ter-me sentido feliz parte da minha vida. – Explicou, um estranho brilho a percorrer os seus olhos.
«Mas tu e as tuas amigas são filhas de humanos, Vocês podem acreditar em algo superior. Nós não podíamos porque… era irracional e até porque nós éramos – de certa forma – algo superior. Vocês não têm nada disso. Vocês foram criadas mediante os valores das vossas famílias e até mesmo o vosso inconsciente foi influenciado por esses mesmos valores. Tu apenas não sonhas Linda, porque não queres.»
Ela podia responder, mas não tinha vontade nenhuma. Era como se já soubesse que argumentar levaria a outra discussão onde ela sairia de mãos vazias. E também, ela sabia porque não queria sonhar. Era o mesmo motivo pelo qual nem ela nem Agnes estavam contentes por estarem as duas a falarem uma com a outra. O mesmo motivo pelo qual Linda quase que desejava estar morta. Porque só assim é que ela poderia…
-Linda?
Esta ergueu o tronco ao ouvir o seu nome. Agnes estava sentada ao seu lado, à espera de perguntas. Linda havia pensado nelas por momentos e tomava agora coragem para as fazer:
-A Dawson tem alguma ideia do que aconteceu? – Perguntou Linda.
-Tem, mas isso é porque ela sabe dos teus poderes, não porque sentiu. Como já te disse, não há ninguém que te possa detectar na cabeça deles. Foi por isso que ninguém notou em ti de todas as vezes que entraste nos sonhos deles.
Linda assentiu, entendendo. Em seguida, fez a sua outra pergunta, talvez a mais temida.
-Eles têm medo de mim, não têm?
Agnes deitou-se, esperando que Linda fizesse o mesmo. Quando as duas semelhantes estavam deitadas, lado a lado, entreolharam-se. Linda perguntava-se no que ia na cabeça de Agnes, pois ela olhava-a de uma forma estranha.
-Não terias tu medo? – Perguntou Agnes, ao fim de alguns minutos de silêncio. – Se soubesses desse poder de manipular mentes?
-Talvez – admitiu Linda, fitando o tecto, agora num azul bem claro. Se súbito, era como se estivesse no campo. Conseguia ouvir o som dos animais rurais a pastarem e o som do vento na bater nas árvores. – Há mais qualquer coisa.
Era uma afirmação, mas Agnes assentiu na mesma, também ela olhando o céu. No entanto, ao contrário de Linda, mal pestanejava, olhando-o de uma forma obsessiva.
-Ela fez qualquer coisa… a Dawson… a maldição…
-Tu sabes o que é uma maldição, não sabes? – Perguntou Agnes, não desviando os olhos do céu.
-Sei. E sei que pragas não caem do céu de repente. É preciso uma pessoa que amaldiçoa e o amaldiçoado. A Dawson fez-me isso. Amaldiçoou-me. Mas com o quê? -Ora pensa, o que é que ela quer tanto?
-As Flores. – Respondeu Linda de imediato. Ao seu lado, quase podia sentir Agnes a enrolar os olhos.
-Na altura em que nasceste, ela ainda não tinha ouvido falar delas.
-Então ela quer… - aí a revelação atingiu-a com ácido no estômago. As suas pupilas dilataram-se e podia jurar que estava a tremer – A minha morte. – Sussurrou, pálida como um lençol. Agnes finalmente desviou os olhos do céu para a fitar. Linda tinha agora a certeza. Havia emoção naqueles olhos cor do céu nocturno.
-Sim.
Linda ergueu-se, as mãos a apoiarem a cabeça. Andou em voltas pela sala, agora novamente branca, com a sua sósia a olhar para ela curiosamente.
Então era isso que a Dawson queria. Mas porque raio estava a demorar tanto tempo? Para quando é que ela iria… morrer?
Linda virou-se para Agnes, fazendo-lhe essas mesmas perguntas com o olhar, esperando que Agnes tomasse a dica. Felizmente, a princesa da Lua tomou-a.
-Lembra-te que tinhas família disposta a ajudar-te. Eles tentaram salvar-te e acabaram por te dar mais tempo de vida, apesar de acreditarem que nada fizeram.
Linda fitou a sua sósia.
-Porquê?
Agnes suspirou.
-Pensa Linda. O que é que tu achas que uma pessoa, ao descobrir o dom que uma determinada criança teria e uma determinada maldição, o que é que elas pensariam?
-Para isso a maldição não podia ser muito explícita.
-Claro. O objectivo era contar uma história, mas fazê-los acreditar noutra. Eu não sei as palavras exactas. Ninguém as registou. Mas sei que morrerás nos ‘tempos murchos da Rainha’ e que ‘um mau interior te perseguirá até te tomar por inteiro, em festas alegres’.
Linda congelou. A primeira não fazia muito sentido, mas a segunda era bem clara. Os dois sentidos aliás.
Um, ela morreria nos tempos murchos da Rainha… fosse esse o tempo que fosse…
Dois, o Caos iria persegui-la a ela e ao seu dom até ela ceder e tornar-se sua seguidora. E Linda sabia o quanto esse assunto era delicado na sua família. A sua avó e ‘tias’ haviam lutado contra o Caos inúmeras vezes quando eram navegantes activas. Metálica havia sido uma parte do Caos e provocara a destruição no Milénio Prateado, e quase que repetia a façanha não fosse a sua avó. Pensar que a neta fosse tomada pelo Caos…
Todas as lições de moral, toda a atenção tinham agora sentido. E a desatenção dos seus pais também. Ainda que fosse difícil para Linda entender a ideia dos pais, todas as peças do puzzle começavam a encaixar. Apenas não fazia sentido que ninguém – principalmente pessoas como a Ami e o seu avô – não tivessem sequer pensado na outra hipótese. Que ela iria morrer.
Talvez fosse a opção óbvia. E também a mais provável. Como adivinhariam eles a importância de um poder daqueles a ponto de uma mulher fazer uma maldição? Era mais óbvio o receio de que o Caos – que estava em todo o lado – tomasse aquela criancinha, a herdeira do Cristal Prateado.
Agora tudo fazia sentido.
Os avós ensinaram-lhe tudo para sobreviver a batalhas, fossem elas quais forem.
As ‘tias’ ensinaram-lhe vários truques, para que não tivesse problemas de consciência.
Juntos, ensinaram-lhe a ser humilde.
Os pais… ensinaram-na a odiar o poder.
E isso era a chave de tudo. O Cristal nunca lhe fora nada importante porque a mulher que o guardava não queria saber dela. Se fosse o contrário, quem sabe, talvez fosse mais difícil para ela resistir a aquela tentação.
Explicava porque a tão tardia explicação de ela ser navegante. Quanto mais tarde descobrisse o seu poder, melhor.
E acima de tudo, tudo aquilo deu-lhe tempo de vida, de alguma forma. ‘Festas alegres’ explicava tudo. Quanto mais feliz ou completa se sentisse, mais vulnerável estava. Mais fácil era de morrer, fosse qual forma fosse.
E a ultima peça finalmente se encaixou. ‘Tempos murchos da Rainha’ tinham um significado bem específico. Juntamente com ‘Festas alegres’. Tudo se resumia a uma data. Ou, pelo menos, um ano. O ano presente.
O seu décimo sétimo aniversário.
À sua volta, Linda quase que conseguia ouvir o relógio a tocar, o tempo a passar lentamente, tempo precioso que ela tinha em falta. Linda acreditava que se havia passado dias desde o acontecimento com Dawson. Quase que podia jurar que passara um mês. Ou seja, a sua mãe e avó já deviam ter feito anos.
Mas ela não tinha a certeza. Apesar de ouvir as badaladas do relógio e os seus tiques incessantes, não tinha ideias das horas e dos dias. Ainda dormia pacificamente na cama de algum quarto, em algum lugar.
Ainda tinha Agnes a seu lado, ainda tinha a necessidade de acordar. Mas agora, tinha algo novo. Uma marca de morte.
-O que é que eu faço? – Perguntou-se, desesperada. Se ela fosse outra pessoa, provavelmente choraria com a certeza de que iria morrer em breve, mas nenhuma lágrima caiu-lhe pelo rosto. Apenas desespero. Não pensou em si, mas naqueles que iria deixar. E nas coisas que tinha que mudar.
De certa forma, entendia agora as pessoas que só começavam a aproveitar a vida quando a sentem a fugir ou quando quase perdem algo. Bem, ela estava prestes a perder aqueles que amava. Tinha que fazer alguma coisa quanto a isso. Por Kenji, pelos seus pais, pelos seus avós, pelas suas ‘tias’, por Mari, Cecília, Eiji…
-Não te preocupes. Ela não os vai magoar. Irás voltar. – Assegurou Agnes, com um sorriso fraco.
-Voltar. Ou seja, morrerei e voltarei só para impedir a Dawson de ganhar.
-Não. Não podes evitar uma batalha com a Dawson. Mas, se morreres antes de a conseguires derrotar, voltarás… como um desejo final.
-O que me trará aqui? – Perguntou Linda, desconfiada.
-O mesmo que trouxe a tua avó forças para derrotar os seus inimigos…. E eu.
Agnes ergueu-se e aproximou-se de Linda, pousando a mão no ombro dela solidariamente.
-Não temas Linda. É para isso que nós Guerreiras, existimos. Para proteger aqueles que amamos. É a nossa sina. Pensa nas vantagens disto tudo.
Linda ergueu o sobrolho. Como poderia ela encontrar vantagens na sua própria morte? Agnes riu-se ao ver a expressão da sósia.
-Oh Linda. Tu sabes do que falo. Sou parte de ti. Sei que farás de tudo para deixar tudo de pratos limpos antes de partir e depois de partires sentirás paz… garanto-te que isso são inúmeras vantagens. – Agnes sorriu, os olhos a brilharem intensamente. Linda não conseguiu evitar um sorriso sonhador.
O silêncio devorou o resto do diálogo, com Linda a pensar naquilo que faria quando acordasse e Agnes a fitá-la. À volta delas, surgiam portas de madeira escura, junto às paredes circulares da sala. A certa altura, Linda fez a sua última pergunta:
-Quem és tu?
Agnes sorriu misteriosamente.
-Eu sou o que te liga à Agnes. Sou parte ela, parte tu. Sei tudo o que pensas, sei tudo o que queres e o mesmo no que toca à Agnes. Sou parte da tua consciência, parte do teu poder. Sou um anjo da guarda. Um observador. Alguém que te guia, quando te abres para mim. Mas quando fechas uma parede, eu continuo lá. Faço parte de ti. Linda, sou a tua Voz.
Linda deixou de sentir Agnes no seu corpo. Começou a sentir um leve arrepio na espinha e uma súbita curiosidade em abrir as portas. De todas, uma dava-lhe maior curiosidade. Estava silenciosa, enquanto as outras tinham pequenos burburinhos do outro lado.
Chegou-se perto dessa porta, Agnes já tinha desaparecido. Rodou a maçaneta e entrou.
Era um hospital. Linda olhou em volta e viu cerca de meia dúzia de camas, onde seis jovens dormiam. Mas não pacificamente. Um a um, começaram a perder sinais vitais e enfermeiras e médicos apareceram de todos os lados a tentar socorrê-los. Mas todos eles morriam, todos eles desapareciam. Ao longe, ainda sobrava um. O único dos seis que ainda resistia. Começava a falhar. O coração não aguentava.
De súbito, Linda deu por si a correr. Aquele rapaz não podia morrer.
-Não… não… não te atrevas. NÃO TE ATREVAS A MORRER! – Gritou ela, sem conseguir evitar, mesmo sabendo que ninguém a ouvia.
De repente, abriu os olhos, erguendo-se violentamente. Ainda estava a ofegar e, pelo som que ouvia em volta, não estava sozinha no quarto.
Uma empregada olhava para ela assustada. Linda reconheceu-a como uma das empregadas do palácio. E, ao olhar em volta, teve a confirmação das suas suspeitas. Estava no seu quarto, no palácio. As cortinas estavam abertas, deixando os raios luminosos entrarem por entre a divisão. Linda tentou sair da cama, mas a empregada conseguiu arranjar coragem para se mexer, impedindo-a:
-Sua alteza tem que ficar na cama. É preciso que o médico…
-Sua alteza? – Cortou Linda, ao ter noção daquilo que a mulher estava a dizer. Olhou nos olhos da mulher. Esta pareceu vacilar, mas depois pestanejou os olhos violentamente, desviando-os da princesa:
-Sim. Sua alteza. E é melhor repousar, esteve muito tempo doente. O rei mandou que…
-O rei! – Exclamou Linda, ao lembrar-se do que acontecera. Edward estava com ela na sala. Fora ele que a abraçara e ficara com ela até que a dor passasse. E era ele que Linda queria ver naquele momento. – Que dia é hoje?
-Dois de Julho, menina.
Linda sentiu-lhe o ar faltar. Ficara cerca de duas semanas de cama.
-Onde está o rei? – Perguntou, sem dar conta do seu tom de voz.
-Eu…
Linda não esperou que a empregada acabasse. Saiu da cama e correu para fora do quarto, com a mulher atrás de si.
-Sua alteza espere! – Implorou a mulher, arrastando os pés atrás da rapariga, muito mais jovem e ágil do que ela. Linda ignorou-a, caminhando em passo rápido rumo ao escritório, onde saberia poder vir a encontrar o seu pai.
Foi só quando deu a volta a dois corredores que se apercebeu dos seus trajes. Tinha vestido uma camisa de dormir azul-marinho e estava descalça. Ao passar junto a um espelho, viu que estava pálida e com os cabelos todos desalinhados, caindo em cachos até os cotovelos. A única coisa que Linda gostou do seu reflexo foi do olhar determinado que lhe correspondia. Havia muito para fazer e muito pouco tempo.
O chão começou a ficar frio nos seus pés descalços, mas ela não abrandou até chegar à entrada. Aí, olhou para todos os lados, em esperança de ter um vislumbre do pai. No entanto, viu algo melhor.
A mota do Kenji.
A engenhoca do seu irmão mais velho estava ali, novinha em folha, estacionada junto do carro de alguém, que Linda só podia supor ser de Yvonne ou Hotaru.
O irmão estava ali. Aquilo não podia ficar melhor. Linda sorriu e voltou para dentro, ignorando os olhares que recebia. Por várias vezes, um empregado tentava impedi-la, mas bastava ela abanar o braço para eles se afastarem. Linda deu graças por ninguém que a pudesse contrariar se tivesse atravessado no seu caminho.
Foi então que o viu. Edward vinha do corredor contrário quando quase chocou com a filha.
-Linda? Com mil raios, o que fazes aqui? Devias estar na cama e…
-É bom saber que se preocupa. – Interrompeu ela, docemente. Edward suspirou profundamente, embaraçado.
-É claro que me preocupo. Eu…
-Já sei o que me fez. Qual era a sua estratégia. – Disse ela, querendo despachar o assunto. – Mas tenho que lhe dizer que foi uma jogada perigosa. Podia ter-vos saído o tiro pela culatra.
Edward não respondeu. Limitou-se a olhar para Linda, pensativo. Após um breve silêncio, que ela prolongara de propósito, ele pousou as mãos nos ombros dela:
-De certeza que estás bem? Não te dói nada?
Linda sorriu à atitude afectuosa, assentindo ao mesmo tempo.
-Estive duas semanas de cama, penso que é tempo suficiente para recuperar.
Edward parecia hesitante. Isso fez lembrar a Linda nas alturas em que ela estava doente ou quando tinha pesadelos. Lembrava-se de que, no dia em que a avó lhe contara sobre a Guardiã dos Sonhos, que alguém estava no fundo do quarto. Agora que todas as peças se encaixavam, tinha a certeza que os seus pais a tinham observado a vida toda. Ela, como vitima, tinha razão para estar magoada, mas eles também haviam saído magoados, obrigados a observar os filhos de longe, sem que pudessem fazer nada que estragasse os seus planos.
Mas hoje tudo aquilo iria terminar. Não para sempre. Linda não sabia se algum dia as coisas seriam normais ou se perdoaria os seus pais por irem por tais caminhos para a salvar. Mas isso não queria dizer que não pudesse deixar esses assuntos de lado temporariamente…
-Pai. – Linda notou num certo brilho nos olhos de Edward ao ser chamado por tal nome antes de continuar. – Eu quero que fale com o Kenji.
Edward afastou-se dela, incomodado:
-Porque me pedes isso?
-Porque não é altura para nos afastarmos. – Respondeu ela, zangada. – Além disso você disse que eu era igual a si. – Edward continuava de costas para ela, mas Linda sabia que ouvia cada palavra que ela dizia. – Por volta do Natal, eu zanguei-me com o Kenji. Agi que nem uma idiota, disse-lhe coisas que eu não queria dizer, mas que a raiva do momento me obrigou. Disse-lhe que não tinha irmão. – Linda esperou que Edward se virasse para ela, o rosto impossível de ler. – Eu não queria, mas disse. E isso faz-me pensar… você queria dizer-lhe isso? Queria expulsá-lo de casa e deserdá-lo? O seu próprio filho?
Edward lançou-lhe um olhar penetrante, mas Linda nem pestanejou. Pelo contrário, sorriu. Quantas vezes Kenji, Eiji e Setsu se haviam queixado daquele olhar que ela lhes lançava frequentemente?
Ele suspirou, derrotado.
-Manipuladora… - murmurou. – Ele nunca me vai perdoar.
-Devia conhecer o Kenji melhor.
-Não é não o conhecer. – Interveio ele, elevando o tom de voz. – É orgulho. Vais-me dizer que nunca hesitaste em perdoar, porque punhas o orgulho por cima do bom senso? Ele fará o mesmo.
Linda assentiu, os olhos postos no pai.
-Sim. Mas lembre-se de que eu passei pelo mesmo. E não o perdoei sozinha. – Linda suspirou, triste pelas memórias que começava a recordar. – Foi necessário o avô e a avó me obrigarem a estar com ele e a deixá-lo falar para que eu engolisse o orgulho e o perdoasse. E ele a mim. Ele perdoou-me. – Acrescentou ela, vendo o rosto do pai endurecer. Como Edward não disse nada, Linda sentiu-se a tremer:
-Peço-lhe – implorou ela, tentando manter um tom de voz digno. Edward olhou para a filha, estupefacto. Ela estava prestes a chorar, mas tentava conter as lágrimas. Mal sabia ele no que ela pensava.
Aproximou-se dela e envolveu-a num abraço. Era como abraçar uma pedra. Ela não se mexia, sem saber o que fazer. Era a primeira vez que o pai a abraçava. Um abraço verdadeiro.
Deixou a lágrima salgada cair, molhando o rosto pálido dela. Agarrou-se a ele, sentindo o perfume da sua camisa lavada.
Ela não disse mais nada, pois sabia que Edward tentava arranjar coragem para falar com o filho. Linda esperava que ele se decidisse.
Eu e a mãe não aguentaremos muito. Vocês não podem ficar separados.
Prolongaram o momento durante dez minutos, tempo esse onde ninguém passou pelos corredores. Nas janelas, o sol ia alto e o frio que Linda sentia nos pés há pouco cessara. Edward beijou o topo da cabeça da filha, mais baixa do que ele, sentindo-se decidido. Falaria com Kenji. Mesmo que este não o perdoasse, ao menos ficaria com a consciência limpa de que tentou emendar as coisas. No fundo, ele queria que o filho não o perdoasse. Desde que tomara uma decisão ao entregar a recém-nascida Linda aos braços dos avós que a culpa se acumulara na sua mente, jamais saindo, mesmo vendo os filhos a crescerem fortes, saudáveis, inteligentes e com carácter.
Já Linda vagueava pelos corredores, em busca de algo. Procurava um sonho, um único sonho. Algo que pudesse identificar o irmão no meio do aglomerado de gente que percorria o palácio de uma ponta à outra. Na sua mente, viu um sonho ridículo do cozinheiro, que passeava pelos pastos vestido de pastorinha e o da jovem criada da mãe, que sonhara no dia anterior que tinha filhos gémeos com o rei, mas era virgem. Vira também o sonho de uma empregada em ser bailarina, outro do jovem jardineiro que pretendia pagar os estudos para ir pagar a faculdade e ser arquitecto. Até que encontrou. Um sonho.
Estranhamente, parecia-lhe familiar. Cecília tinha o vestido branco da Marilyn Monroe e decidiu dá-lo a Setsu, para este cumprir uma aposta. Ele vestiu o vestido e pôs uma peruca loira e salto alto. No entanto, ninguém avisara Setsu que este tinha que ir ao mercado comprar moedas de chocolate para dar a Eiji, que estava na rua a pedir dinheiro. Então Setsu fora, vestido de Marilyn Monroe, até que chegou à baía de Tokyo e Linda (que aparecera vinda do nada) correu atrás de uma gaivota e obrigou-a a pôr um ovo. Depois, deu o ovo a Mari (que estava ali com umas calças púrpuras ridículas), que decidiu fazer uma omeleta com queijo para Kenji, que estava mascarado de urso. O sonho continuava, mas Linda forçou-se a não investigar mais, pois havia o risco de rebolar às gargalhadas nos braços do pai.
O irmão estava na sala. Na mesma onde ele e o pai tiveram uma discussão quase um ano antes.
Afastou-se, agarrando a mão do pai e puxando-o consigo em direcção à sala onde o irmão estava. Quando chegou-se perto da porta, podia jurar que ouvira vozes:
-Ela… - não precisava de dizer o nome. Edward sabia de quem ela falava.
-A Guinevere foi expulsa. Os guardas não a deixam entrar.
Até parece que isso alguma vez a parou, pensou Linda amargamente.
-Não te preocupes. – Disse Edward, ao ver a cara da filha. – Ela não te vai voltar a incomodar.
Se fosse assim tão simples…
Linda abriu a porta da sala. Um raio de luz incidiu nos seus olhos e quando cessou, Linda pôde ver Kenji e Mari no centro da sala a olharem um para o outro. Os olhos de Kenji iluminaram-se quando viu a irmã e deu um passo em frente rumo a ela, mas parou quando Edward entrou atrás de Linda.
Seguiu-se um silêncio de cortar à faca, onde Mari sentiu-se ligeiramente fora do lugar e Linda aborrecida. Mari tentou alcançar a porta, mas Linda travou-a:
-Fica aqui. – Ordenou.
Mari ergueu o sobrolho.
-Porquê?
-Porque és família. – Respondeu Linda, simplesmente.
-Só porque namoro com o teu irmão, não quer dizer…
-Mari – Linda quebrou contacto visual com o pai e o irmão para se virar para a amiga. – Ainda antes de namorares o Kenji, já eras da minha família.
O olhar penetrante que Linda lançou à loira, fê-la entender. Desde as vidas passadas até à forte amizade que as duas tinham construído, Mari, Linda e Cecília podiam ser consideradas irmãs, devido aos vários problemas familiares que as cercavam.
Mari suspirou e acenou afirmativamente para Linda. Esta sorriu e voltou a fitar Edward e Kenji, que não se haviam mexido.
-Por favor, digam alguma coisa! – Disse Linda, um pouco aborrecida. Os dois homens olharam para ela, os rostos sem qualquer expressão. Linda engoliu em seco. – Não me façam isto. – Pediu, um pouco nervosa.
Kenji abriu a boca para falar, mas voltou a fechá-la. Pareceu ponderar por uns minutos, até que finalmente quebrou o silêncio:
-Porque fazes isto? – Perguntou, mais para Linda, do que para Edward.
Pai e filha abriram a boca para responderem ao mesmo tempo:
-Kenji, eu… - entreolharam-se, surpreendidos. Edward deu um passo atrás, sinal para Linda continuar. Esta suspirou pesadamente:
-Kenji… - fez uma pausa, pensando em cada palavra que ia dizer. – Pensei muito enquanto estive… inconsciente. A vida é curta e nós podemos não nos aguentar por muito tempo. Temos que aproveitar cada momento. Carpe diem, sabes?
Kenji não respondeu. Os seus olhos saltaram da irmã para Mari e depois Edward para voltarem a pousar na irmã.
-Eu quero que o perdoes. Aliás, nem eu sei se algum dia o perdoarei por ter usado a pior estratégia. Sim – acrescentou Linda ao ver a cara do irmão e do pai – eu sei de tudo. Da maldição, do motivo pelo qual a nossa família se separou… e isso deixa-me frustrada. Um pequeno detalhe deu cabo da nossa família. Os nossos pais não tentaram o suficiente para me salvar. Acharam que o plano deles era o suficiente e... – Linda respirou fundo, tentando desfazer o nó que se começara a formar no estômago – de certa forma… funcionou. O ódio que tenho a este sítio é o suficiente para eu não ser malvada, mas também não desejar poder, mas sim amor.
«Não sei se o perdoo – virou para Edward, imóvel no meio da sala. – Mas sei que não vou continuar a agir como uma criança. A mãe está doente, ele está o sozinho e, no fundo, tu sabes que o que mais queres é estar com eles. Comigo. Com o teu pai. Ficaste magoado com aquilo que ele te disse mas vira os papéis. E aquilo que tu lhe disseste? Já paraste para te perguntar se não foste um pouco bruto com ele? Kenji… não peço uma família feliz, porque isso jamais teremos. Só peço que refaçam a conversa do ano passado e tentem dar-se bem. Pela mãe. Por mim.
Vocês em breve ficarão sozinhos, têm que estar juntos, acrescentou Linda para si própria.
Kenji suspirou, interessado na carpete da sala. Edward olha apara a janela, pensativo. Parecia que nenhum dos dois iria falar brevemente. Linda, sentindo-se fraca, apoiou-se na parede, com Mari a segurar-lhe no braço.
-O que te fez mudar de ideias. – Sussurrou ela ao ouvido de Linda. Esta sorriu.
-Já disse porquê.
-Mas não é apenas por isso. Eu conheço-te Linda, há mais algum motivo.
Linda fixou os olhos num ponto longínquo na sala, reflectindo por uns momentos.
-Carpe diem. – Sussurrou ela em resposta. E já dissera tudo. Dissera a verdade, mas também ocultara-a em apenas duas simples palavras. Mari ainda lhe segurava no braço e parecia hesitar por uns momentos ao ouvir aquelas palavras.
Finalmente, largou a amiga, em movimentos robóticos. A mão esquerda dela tremia e Linda apertou-a, sorridente:
-Não te preocupes. – Sussurrou ela, sem deixar de sorrir. Mari olhou para ela, os olhos vidrados de pânico.
-Será verdade aquilo que vejo?
-Talvez. – Foi tudo o que Linda respondeu, deixando a amiga apoiar a cabeça levemente no seu ombro. Ambas observavam os homens, que tinham dado um pequeno passo em frente cada um. A voz de Edward foi a primeira a ser ouvida:
-Eu não queria dizer aquilo. – Disse, a voz rouca como se ele tivesse gritado durante horas – fiquei irritado com aquilo que disseste e… perdi a cabeça. Acabei por dizer aquilo que a minha máscara tanto te queria dizer. Mas que eu não queria. Se quisesse, garanto-te que te teria expulsado do palácio quando fizeste os dezoito anos. Custou-me ouvir aquilo que disseste, porque eu e a vossa mãe fizemos um pacto. Evitar-vos, porque nós não conseguíamos ser maus pais. Ignorar era a forma mais fácil. Mas no meio disto tudo, com vocês a crescerem tão depressa e do modo que nós queríamos e criados por outras pessoas, acabamos por quebrar as nossas promessas. Começamos a observar-vos de longe, nas coisas que vocês gostavam. Ajudei a tua irmã na dança porque não conseguia ficar parado quando ela fazia algo que eu amava. Vi-te a apanhares varicela ou a teres pesadelos. Nós não fizemos nada, mas estávamos lá.
Edward parou de falar, sentindo-se como se tivesse acabado de correr a maratona. Kenji mordeu o lábio suavemente.
-Porque é que as coisas nunca são porque nós queremos? – Murmurou, triste.
A pergunta pairou no ar, os restantes ocupantes incertos do seu destinatário. Para surpresa de todos, fora Mari que respondera:
-Porque isso tiraria a vontade de viver. Quem é aquele mortal que quer viver num mundo completamente feliz?
-Ying yang – disse Linda, sorrindo para a amiga – há que haver equilíbrio em tudo. Uma vida com altos e baixos ou uma vida equilibrada. Felicidade e tristeza. Todas fazem parte de nós, não nos conseguimos ver livres delas. O máximo é viver em equilíbrio com cada uma. Mas nunca com uma vida cheia de felicidade ou de tristeza. Há excepções, mas essas são as vidas dos pessimistas e dos idiotas.
Os dois homens sorriram, ambos fitando o chão. Linda aproximou-se do pai, pegando-se na mão. Este segurou a mão da filha como se segurasse um tesouro, enquanto Linda pegava na mão do irmão e unia as mãos dos dois. Pai e filho apertaram as mãos maquinalmente, mas fora um gesto do coração quando Kenji cortou a distância que o separava de Edward e abraçou o pai, pequenas lágrimas caindo-lhe nos olhos. Linda sentiu uma lágrima correr o seu rosto, mas só a sentiu quando ela própria fora arrastada para o abraço dos dois homens. Pai e filhos abraçaram-se pela primeira vez juntos, em parte compensando tempo, noutra compensando os laços de afecto que lhe faltaram durante a vida.
Linda voltou para o quarto mais tarde. Mas não voltara sozinha. Apesar de tanto o pai como Kenji insistirem em acompanhá-la, Linda recusou a ajuda. Em vez disso, preferiu que Mari a acompanhasse, deixando os dois sozinhos na sala, fitando um o outro ansiosamente.
Mari deu-lhe o braço o caminho todo. Não porque Linda estava fraca. Não, era um motivo maior. Talvez, pela primeira vez, Linda estivesse a ver Belisa a segurar a irmã, guiando-a na escuridão que a cegava.
As mãos de Mari estavam frias, provocando a Linda um arrepio na espinha.
-Estás preocupada. – Afirmou Linda, quebrando o pesado silêncio que a perseguia pelos corredores.
-Essa história do Carpe diem… - murmurou Mari, sem se virar para a amiga. – Quem ta contou?
-Ninguém. Fui eu que tomei a decisão.
-Sozinha? – Mari ergueu o sobrolho. Linda teve a sensação de ver um flash verde nos olhos de Mari. Um verde diferente, mais perfeito… como o de uma deusa. – Duvido.
Linda mordeu o lábio involuntariamente. Sentia o olhar de Mari em cima dela, apesar de esta ainda se centrar nos corredores.
-Foi a Agnes, não foi?
Linda parou. Aquela não era a voz de Mari.
-Belisa?
Mari suspirou, os olhos verdes brilhantes focados na morena. Não pestanejava, não vacilava.
-Não. Ainda sou a Mari. – Disse, tentando sorrir para Linda. A sua voz tinha agora o mesmo timbre que a voz de Mari. Linda sentiu-se corar.
-Desculpa, eu achei que…
-Acabaste de confirmar a minha pergunta. – Retorquiu Mari, cruzando os braços. Linda podia jurar que a amiga ficara incomodada quando ela lhe chamara de Belisa.
Linda abriu a boca para responder, mas fechou um ápice. Lembrara-se de um ponto importante no assunto: como Mari sabia?
-Há quanto tempo sabes da nossa ligação às Guardiãs? – Perguntou, tentando dar outro nome à Voz que lhe falara antes. Mari fez uma careta, obviamente incomodada.
-Desde aquele dia na praia. – Respondeu, num sussurro. – Quando o Kenji me disse que… - Mari corou levemente e abanou a cabeça, ignorando aquela parte do momento. – Senti-me diferente. Como se já fosse mais que uma pessoa a pensar por mim. Essa Voz sabia sempre aquilo que eu queria e, por alguma razão… sentia-a mais forte quando estava perto do Kenji. Julgava que nunca me tinha acontecido antes mas depois, lembrei-me… num aperto do coração quando… - Mari parou de repente, tentando formular as palavras na sua cabeça. Linda não quebrou o silêncio, deixando espaço para a amiga ganhar coragem por si só. – No funeral da minha mãe, senti um aperto, como se mais alguém sentisse aquela dor comigo dentro do meu corpo, alguém que sabia o que eu passava e que me queria ajudar. Mas se havia coisa que eu estava farta era de pessoas a ajudarem-me, com pena da menina órfã de mãe. – Mari tremia, mas não parecia que ia chorar em qualquer momento. Linda sabia que Mari não era do tipo de raparigas que chorava facilmente e sentiu dor pela amiga. Chorar era um dos modos de expulsar a raiva e a dor. Mari acumulara dor durante anos, felizmente nenhuma tão grave quanto a morte da mãe.
-Chorei o dia todo e… quando mais chorava, mais sentia o aperto. Então parei de chorar, tentei expulsar aquela dor. E consegui… até agora.
Linda aproximou-se da amiga e abraçou-a. Mari aceitou o gesto de bom grado. Apesar de não chorar, era fácil de ver que o assunto ainda lhe era doloroso.
-Ela tem-te incomodado? – Perguntou Linda calmamente.
-Não. Sinto-a quando estou com o Kenji mas nada mais. Ou melhor… - Mari parou para reflectir um pouco. Afastou-se de Linda, as mãos nos ombros da morena, levemente mais baixa que a loira. – Às vezes… tenho pesadelos. Um homem da Terra a trazer o teu corpo. Eu sei que é a Agnes, mas sinto uma pontada tão forte quando vejo o teu corpo imóvel… parece que… que tu também vais desaparecer.
Linda engoliu em seco, evitando olhar nos olhos da amiga. Pela primeira vez, Mari tivera uma premonição adiantada. Uma que, se ela soubesse, conseguiria evitar.
-Tenho medo que seja real – se os corredores do palácio não estivessem vazios e fizessem eco, Linda não teria ouvido aquilo que Mari dissera.
Não lhe queria mentir. Melhor, ela não sabia mentir. Que fazer?
-Não pensemos nisso. Não adianta viver uma vida à espera da morte. Mais vale aproveitar cada momento como se ele fosse o último.
-Carpe diem – disse Mari, sorrindo.
-Sim, Carpe diem.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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(https://www.youtube.com/watch?v=-opi1Qre8Cc)
Linda podia ter esperado os momentos finais junto à janela do seu quarto, mas algo lhe dizia que era a pior ideia que ela pudesse ter. Talvez fosse a Voz, Linda não sabia, mas seguiu esse conselho.
Nos dias seguintes, fora ter com os avós e as tias. Após abraços e conversas postas em dia, Linda pedira para ficar a sós com os avós, explicando aquilo que sabia. Não lhes contara acerca da sua própria conclusão acerca da maldição. Parte dela temia que os avós soubessem, apenas não quisessem acreditar e, no final, se fossem culpar pelo sucedido.
Só quando Kenji a levara para casa é que Linda sentiu-se a imaginar outra vida que ela poderia ter tido. Com os seus cabelos a esvoaçarem ao vento, desprotegidos pelo capacete, Linda agarrou-se ao irmão enquanto este a levava a passear de mota de volta ao palácio. Tanta coisa se sucedera para ela fugir daquele sítio. Do seu destino. Mas no final, voltara ao inicio. Seguira sempre um círculo sem fim. Porquê? Porque aquele era o seu lugar. Porquê?
Porque era uma navegante.
Não princesa, mas navegante. Linda tentara fugir do seu título real e provara isso ser possível. Mas voltara, porque não podia fugir às responsabilidades que a avó e a mãe lhe passaram.
Se tudo aquilo lhe estava a acontecer era porque era uma navegante. Porque Dawson temera os poderes de Linda. Porque era a reencarnação da princesa da Lua. Linda tentara ser normal, não ser princesa. Quando na verdade, ela devia era ter tentado fugir ao destino de ser guerreira navegante. Mas seriam esforços inúteis. A avó tentara fugir várias vezes da sua responsabilidade de navegante mas, no final, apercebera-se que não podia continuar a fugir. Era isso que ela era. Era a sua essência da vida.
Linda estava presa a aquela vida. Correntes invisíveis a impediam de ter a vida normal que ela sempre imaginara. Se ela não conseguia ser normal, era porque não o podia ser. Não porque não tentasse.
Que vida teria ela tido se controlasse o seu destino? Teria ela tido uma vida feliz com os pais e o irmão? Teria ido à escola, aprendido a ser princesa mas, ao mesmo tempo, ser normal como todas as outras raparigas?
Ela não sabia, nem nunca saberia. Ninguém pode fugir de um legado de família. E fora isso que os dois irmãos aperceberam-se na sua ida à casa dos avós.
Quando voltaram, os dois mais leves depois a viagem de mota, deixaram de lutar. Naquele dia, Edward sentou-se à mesa, onde costumava jantar sozinho desde que a mulher ficara de cama. Após uns quinze minutos depois de a sopa chegar, a porta abriu-se e Linda e Kenji sentaram-se em cada lado do pai, e pediram aos empregados que trouxessem comida para os dois. Edward ficara estupefacto, mas não conseguiu evitar um sorriso quando os dois começaram a falar das suas vidas fora do palácio. Falaram de Eiji, Mari, Cecília e Setsu e de todas as aventuras que passaram juntos. E daquelas que ainda viriam…
Porque era Verão e nada impediam jovens fortes e saudáveis de ficarem fechados em casa, fosse essa casa um palácio ou um apartamento. Se aqueles fossem os últimos dias de Linda, era estava grata. Os dias passavam-se rapidamente, com Linda e Kenji a almoçarem com o pai, visitarem a mãe e depois saírem o dia todo até à praia e outros lugares. Setsu pegara no seu carro e Kenji na mota e os seis passaram pelos vários sítios interessantes em Crystal Tokyo. Cecília conseguiu convencer os rapazes e Mari e irem ao Templo de Asakusa durante uma tarde e fazerem um piquenique num jardim lá perto. As idas à praia eram sempre no fim da tarde, quando as praias estavam quase vazias e onde eles podiam ver o pôr-do-sol em paz, indo depois até ao bar local jogar cartas na esplanada.
Os rapazes convenceram as raparigas a praticar desportos radicais. Se Linda se imaginasse um ano antes, nunca pensaria sequer em saltar de um ponte ou até pegar numa arma e encher Eiji e Setsu de bolas amarelas e vermelhas.
Mas talvez os melhores momentos foram as festas realizadas na casa dos rapazes. Cecília e os rapazes faziam karaoke de várias músicas e, no caso dos rapazes arruinavam as musicas e faziam as raparigas rir. Tudo isso, a somar as dormidas de Cecília e Mari no palácio ou na casa de Cecília e os passeios com o namorado, Linda deu-se feliz pela vida que tinha.
Mas os encontros da mãe faziam-na acordar para a realidade. E, de certa forma, a sua mãe também sabia. Sempre que a via, ficava pálida dos primeiros cinco minutos e receosa do que dizer.
Chegou a altura de Linda dizer a verdade à sua mãe. Esta não reagiu bem:
-Tudo aquilo que nós passamos… foi em vão? – Perguntou, os olhos a encherem-se de lágrimas.
-Nem tudo. Eu não me rendi ao Caos. – Disse Linda, tentando consolar a mãe. Mas não resultou.
-Antes uma filha má e viva do que uma morta. – Retorquiu Small Lady, pondo as mãos no rosto. Linda controlou uma inspiração, sentindo uma dor no abdómen.
-Mãe. – Disse, sentando-se na beira da cama. – Eu não me importo. Ou melhor, já deixei de me importar. Porque haveria a mãe de o fazer? Não diga nada! – Acrescentou, quando viu que a mãe ia protestar. – Eu sei o que estou a fazer. Garanto-lhe que vai ficar tudo bem. Só lhe peço… - Linda parou, sentindo ela própria cair em lágrimas. – Que não me lembre do que vem aí. Deixe-me viver.
As duas abraçaram-se, perdidas no destino incontrolável, rendidas a gotas de cloreto de sódio.
Fora assim que Edward e Kenji as encontraram mais tarde. A dormir pacificamente abraçadas.
A imagem que as duas faziam provocou sorrisos nos dois homens, que sentiram certa inveja daquela amostra de afecto. Entreolharam-se como que a pedir permissão um ao outro. Não foi necessária resposta.
Ambos aproximaram-se da cama e deitaram ao lado de Small Lady e de Linda. Kenji abraçou-se à mãe e Edward a Linda. Esta, ainda adormecida, ao sentir o calor do pai, abraçou-se a ele, tal como Small Lady aproximou o filho de si.
Os quatro ficaram ali adormecidos, pela primeira vez, unidos como uma verdadeira família.
Linda via tudo aquilo. Num sonho. Um sonho que, pela primeira vez, não era dos pais, nem do irmão, nem de outra pessoa. Era seu. Só seu. O seu sonho.
Se Linda pudesse subornar Plutão para a deixar voltar atrás no tempo… não o faria. Por muito curta que fosse a vida, se fosse bem aproveitada, valeria sempre a pena.
E para Linda, assim foi.
**
Estava tudo preparado. Não havia nada de errado no seu plano. Também era coisa bastante simples. Ela só precisava de fazer um ou dois encantamentos com os poderes do seu lacaio e então seria capaz de extrair os poderes das Flores do Universo que possuía. E uns outros encantamentos dar-lhe-iam os poderes das restantes.
Mercúrio, Vénus e Terra.
Os três primeiros planetas do Sistema Solar eram as únicas Flores que persistiam fora do seu poder. Mas não por muito tempo. Ela sabia onde estavam as três. Todas elas…
O encantamento que iria usar só dava para extrair uma das Flores à distância. Usaria na de Mercúrio. Já Vénus e Terra… Ela sabia onde podia encontrá-las a todas no mesmo sítio, na altura ideal. Quando ela concretizar a maldição premeditada anos antes.
Sorriu maliciosamente, contente com o rumo dos seus planos. Em breve seria a Rainha de Tokyo. Da família real, só um restaria. E a esse, daria mil e uma hipóteses de felicidade junto dela. No que tocava aos outros… Uma, a sua maior rival, morreria de desgosto. Porque ela faria questão de que ela visse o resultado dos seus planos. Tinha pena pelo príncipe, mas os seus planos vinham primeiro. Tal como Dawson havia afirmado anos antes, ele de facto daria os seus usos.
Vénus e Terra.
Ridículo como ambas estavam tão perto de si e ela nunca as pudera ver. Mas agora nada a iria parar.
Nada.
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A noite de três de Agosto prometia ser atribulada. Os preparativos para o aniversário do Rei Endymion haviam se dispersado por toda a semana. Small Lady, temendo entrar em depressão, ameaçou os pais a deixarem-na planear a festa, caso contrário obrigaria Hotaru e Misaki a assaltarem a cozinha e roubarem todos os doces para a festa. Serenity teimosamente cedeu, receosa pelos seus chocolates. A estas atitudes, Rei, Endymion, Edward e Makoto reviraram os olhos e Ami, Minako, Misaki, Hotaru, Linda e Kenji soltaram altas gargalhadas, que ecoaram pela sala.
Small Lady perguntou aos filhos se eles queriam ajudá-la. Kenji fugiu como o diabo, deixando Linda sozinha para explicar à mãe que ela era uma rapariga das ciências, destinada a ficar num laboratório e não num salão a planear festas.
Espalhara-se pela corte que os Reis estavam muito animados por causa das festas. Que a Rainha mostrava melhorias devido aos ambientes festivos. Mas todos aqueles que moravam no palácio ou visitavam frequentemente sabiam que aquilo que os punham felizes eram as conversas constantes com os filhos. Kenji e Linda haviam conversado acerca das responsabilidades que tinham, sendo os únicos filhos dos reis. Um deles teria que reinar. E a resposta era óbvia.
Kenji nascera para ser Rei. Todo o treino que tivera em criança e os seus próprios valores morais e qualidades de expressão tornavam-no no melhor candidato. Linda não tinha nenhuma aptidão para tal cargo. O máximo que sabia era ser cordial e tratar de alguns negócios reais. Mas pouco mais.
Fora difícil, mas Kenji tomou uma decisão. Acabaria a faculdade e exerceria o curso por uns anos, depois tornar-se-ia rei de Tokyo.
Ao olhar o irmão, Linda viu que este não estava tão desiludido com a ideia quanto ela pensava. Ele nunca soubera o que era e se haveria de fazer alguma coisa de jeito. Ser médico fora o seu sonho. Mas eram junto de um parlamento a seguir as pisadas do pai que ele tinha jeito.
A decisão foi reconsiderada várias vezes. Linda queria ter a certeza que Kenji não iria desistir depois de anunciar a sua decisão aos pais.
Finalmente, apresentaram as suas ideias. Kenji como rei, mas Linda ajudá-lo-ia nos negócios e nos eventos reais, para além de ser guardiã do cristal prateado.
A reacção dos pais fora hilariante e, se o assunto não fosse tão sério, Linda teria perdido a compostura e desatado a rir na cara chocada que os pais fizeram:
-Pensei que vocês não quisessem nada com isto? – Perguntou Edward, ao conseguir arranjar cordas vocais para falar. Olhava para a mulher várias vezes, o que fez Linda questionar-se se ele não estaria com algum torcicolo.
Linda e Kenji inspiraram e expiraram ao mesmo tempo, como se estivessem a realizar um exercício de relaxamento.
-Querer eu não quero, mas não posso deixar o Kenji a reinar este grande reino sozinho. – Comentou Linda. – Ele anda o leva à ruína.
-Tens cá uma graça. – Retorquiu o irmão, perante as gargalhadas dos pais e da irmã. – Eu… acho que consigo. Acho que sou capaz.
A sua mãe sorriu para ele.
-Não queremos que te sintas forçado, Kenji. – Disse.
-Eu sei. Mas eu… há já muito tempo que pus a ideia de parte… mas não quer dizer que a ideia em si não me agrade.
Edward não dizia nada, limitando-se a olhar para Kenji atentamente. Este fitou o pai, na expectativa. Linda perguntou-se se Kenji estaria mais à espera de uma bênção do pai do que de todo o reino.
-Sempre soube que darias um bom rei. És teimoso e segues as tuas ideias. Não deixas que ninguém te manipule e formulas as tuas próprias opiniões. Apenas julgava que nunca quisesses… que ser médico fosse mais importante para ti.
-Eu gosto de ajudar as pessoas. Em ambos os cargos faço isso. Mas um é de sangue, o outro… é algo que posso ser, mas cuja ideia ainda é fresca. Ainda não me habituei o suficiente.
Edward largou um sorriso que se estendeu até às orelhas.
-Fico muito contente, filho. – Estendeu a mão, que Kenji aceitou.
Os preparativos eram cada vez mais ruidosos com o passar das horas.
Tic tac
Empregados de um lado para o outro.
Tic tac
Costureiros que a queriam vestir...
Tic tac
-não preciso. – Disse Linda ao alfaiate real. – Já tenho um vestido.
O homem foi-se embora indignado e Linda conseguiu finalmente fechar a porta.
Observou o relógio.
19h25
Tic tac
Tic tac
Tinha cerca de duas horas até o baile de celebração do aniversário do seu avô. E cerca de quatro horas e trinta e cinco minutos para o seu aniversário.
Linda foi até ao armário, onde pegou na caixa que recebera no Natal.
Linda despejou o conteúdo da caixa em cima da cama. Viu a tiara guardada numa caixa. Pousou-a ao lado, vasculhando o resto dos seus pertences. Viu os livros de Linda O’Connell. Havia passado grande parte do seu tempo de aulas a ler os livros, mas ainda não acabara o último. Por algum motivo, não conseguira ainda acabar esse livro. E as poucas linhas que conseguia ler, faziam-na parar para reflectir. Mas depois demorava a voltar a pegar no livro.
Leu a contracapa:
Fita de prata, por Linda O’Connell
Linda O’Connell, após uma entusiasmante saga acerca da sua personagem fíctida Andrea Sullivan, chega-nos com o último livro da saga que encantou leitores nos cinco continentes.
Neste último livro, Andrea está prestes a passar o Ano Novo com o seu irmão George, a sua mãe Julie e o seu noivo Andrew, quando alguém toca à porta ao soar das doze badaladas. É Michael Burrows, filho de um amigo do seu falecido pai e seu mais antigo amor. Este afirma que o seu pai, Philip Burrows, fora encontrado morto na casa de banho com uma fita prateada junto à porta. A mesma fita que o pai de Andrea lhe dera anos antes. Quando de repente vê a polícia no seu pé, Andrea trata procurar a verdade, querendo saber como é que a sua fita fora parar junto de um corpo, ao mesmo tempo que começa a recordar antigos sentimentos por Michael.
É neste último livro da saga que se conhece finalmente a verdadeira Andrea Sullivan. Leia a história de O’Connell que, pela primeira vez, explora o lado mais íntimo da sua personagem e dos motivos pelo qual esta resolve mistérios. Mas, acima de tudo, escolherá Andrea o amor do passado, ou o do presente?
Linda pousou o livro, subitamente deprimida. Quanto mais avançava no livro, mais temia as respostas que encontraria. De certa forma, Andrea envolvia-se em encruzilhadas semelhantes às dela. Tudo começara com problemas que o seu pai tivera com Philip Burrows, tal como Small Lady e Dawson e esses problemas determinaram grandes focos nas vidas das duas raparigas, um fíctida, outra real. Mas era a decisão de Andrea que deixava Linda a prender o fôlego. Qual escolheria ela? O passado ou o presente?
Alguém bateu à porta. Era a sua avó.
-Estás pronta Linda? Hum… vim muito cedo. – Acrescentou ao ver a neta ainda de jeans e com as coisas todas espalhadas na cama.
-Essa é nova. – Comentou Linda, tentando arrumar as coisas. Pegou na caixa que sabia estar o seu vestido e dirigiu-se para a casa de banho. – A avó espera por mim?
-Claro, querida. – Disse Serenity, com um sorriso.
Linda não se demorou muito a vestir. Era um vestido simples de seda com decote em V, cujas alças enrolavam-se à volta do pescoço. Mais semelhava-se a uma camisa de dormir do que a um vestido.
Quando saiu, viu a avó a admirar a tiara, com um ar longínquo. Esta virou-se para a neta e sorriu ao vê-la:
-Estás linda, querida.
Linda sentiu-se corar.
-Obrigada avó.
Serenity aproximou-se da neta e, agarrando na mão dela, levou-a até ao espelho, sentando-a num pequeno banco.
Pegou nuns ganchos e pegou em madeixas do cabelo de Linda e começou a trabalhar.
Esta não conseguia tirar os olhos do seu reflexo. A rapariga que lhe sorria em retorno era completamente distinta de Agnes. Bela sim, parecida com ela também. Mas Agnes não tinha o brilho calmo de Linda nem os lábios que tão facilmente se espalhavam em sorrisos e que foram tantas vezes mordidos pelos dentes brancos dela.
O cabelo dela estava extremamente comprido. Serenity fazia um ponche atrás, deixando grandes madeixas encaracoladas caírem pelas costas da rapariga. Pela primeira vez, os cabelos negros de Linda estavam controlados e até lhe ficavam bem.
Linda pôs um pouco de maquilhagem, enquanto a avó fora buscar a tiara. Pousou a mão no seu colar, onde o pendente brilhava com a luz do quarto, pendurada na corrente de prata que Eiji lhe dera no Natal. Dez pontos brilhantes, um ainda mais do que os outros. Pôs uns brincos de prata e calçou os sapatos. Levantou-se do banco onde se tinha sentado e olhou-se. Estava bem.
-Espera! – Disse a sua avó, pegando na tiara bem polida. – Ainda falta um detalhe. Talvez o mais importante.
A tiara de diamantes brilhava como mil sois e, quando pousou na cabeça de Linda, esta podia jurar sentir um brilho ainda mais forte.
Agora estava completa. Agora sabia quem era. Tal como Misaki dissera, ela sempre soubera quem era, apenas fugira da resposta.
Finalmente, encontrou-se.
**
Tic tac
Tic tac
-Estás a gostar da festa, Eiji? – Perguntou Cecília, bebendo um pouco de sumo. O rapaz deu um pequeno salto ao ouvir a morena.
-Ccomo?
Cecília controlou o riso.
-Já pareces a Linda com a cabeça na lua.
Eiji lançou-lhe um olhar penetrante.
-Estava a pensar.
-Em quê?
-Nisto tudo. – Respondeu ele, olhando em volta. O salão de bailes estava cheio de pessoas de todas as idades e classes da nobreza, cobertas por vestidos brilhantes e coloridos ou fatos negros e sapatos perfeitamente engraxados. Para qualquer lado que Eiji olhasse, apenas via riqueza e luxúria. – Não tem nada a ver com a Linda e o Kenji. Como podem eles viver neste mundo?
-Da mesma forma que nós não vivemos neste mundo, mas pertencemos. – Respondeu Cecília. Eiji olhou para ela fixamente, suspirando.
-Já a viste? – Perguntou ela, um pouco hesitante. Eiji encolheu os ombros.
-Eu não ando à procura dela no meio desta multidão, sabes? Há pessoas muito mais interessantes para se ver. – Disse ele, com profundo veneno nas suas palavras.
Cecília pousou o copo em cima da mesa. Pensou em pousar a mão no ombro de Eiji, mas hesitou. Sabia o quanto era difícil estar ali, mas ela tinha que admitir que era fácil evitar aqueles olhares mesquinhos com os amigos por perto. Talvez fosse por isso que os dois irmãos tivessem insistido para que os amigos viessem. Lá por viverem neste mundo, havia sempre algo nele que eles detestavam e tinham sempre que arranjar maneiras de ‘sobreviver’ até ao próximo dia. Cecília até nem estava mal, mas a partir do momento em que Setsu e Mari desapareceram no meio da multidão, sem dizerem para onde iam, deixaram os dois jovens completamente incomodados. Cecília detestava aquele mundo e Eiji também. Principalmente porque determinada pessoa estava ali, no meio daquelas pessoas todas. A sua mãe.
Os olhos de Cecília procuraram automaticamente Setsu. Viu-se no outro lado do salão a falar com uma mulher loira. Reconheceu-a de imediato.
Yvonne.
Rezando silenciosamente para que o amigo não a visse, Cecília observou a mãe dos irmãos Yamamoto.
Era magra e bela, mas baixa e com ar de quem tinha engolido um limão. Sorria para o filho mais velho, mas mais parecia um sorriso cordial do que um sorriso maternal. Cecília ficou espantada quando viu Setsu a agir de uma forma semelhante. Mais parecia que este estava a despachar conversa com a mãe do que a conversar com ela de bom grado.
Os olhos de Setsu cruzaram-se com os de Cecília. Agora tinha a certeza. Setsu estava apenas a pôr conversa cordial. Lançando mais um sorriso cínico à mãe, afastou-se, aproximando-se da amiga e do irmão:
-Então, tudo bem?
-Tudo – respondeu Eiji aborrecido. Cecília e Setsu entreolharam-se, concordando silenciosamente em distrair Eiji até os irmãos Natsumara chegarem.
-Queres ir apanhar ar? – Sugeriu o irmão mais velho. Eiji encolheu os ombros.
-O Rei não está a chegar?
-Sim, mas…
-Sabes onde está a Mari? – Perguntou Cecília de repente. – Achei que ela estivesse contigo.
-Não, ela foi com a avó ter com a Rainha Serenity e… olha, ali está ela – disse Setsu, apontando para a loira, que os procurava na outra ponta do salão. Quando os viu, correu o máximo que o seu vestido comprido lhe permitia. Quando chegou perto deles, Cecília notou que Mari estava um pouco ansiosa.
-Vem comigo – disse para Cecília, ignorando os outros dois.
-Aonde? Porquê?
-Elas querem ver-nos… - murmurou Mari. Eiji e Setsu entreolharam-se confusos. Cecília não estava em melhor estado.
-Quem?
-Elas!
Foi então que a morena percebeu. Almas estranhas encontravam-se junto à porta do salão, observando curiosamente. As navegantes, ‘tias’ de Linda.
Cecília assentiu e seguiu Mari para fora do salão.
Eiji bufou de aborrecimento, consultando o seu relógio.
20h56 Estava quase.
Tic tac
Tic tac
**
-Achas que estamos a fazer o correcto? – Perguntou Minako, não tirando os olhos das adolescentes que procuravam furar a multidão, rumo à porta do salão.
-Sim. – Respondeu Rei. – É o melhor a fazer.
-Não devíamos sequer avisá-las? – Perguntou Makoto.
-Não. – Respondeu Michiru. – Deixemos a Hotaru e a ChibiUsa fora disto. Já a Setsuna… ela deve saber, mas sabe que não nos pode impedir.
-E a Serenity e o Endymion?
-A Serenity conhece-nos. – Respondeu Ami, de braços cruzados olhar cabisbaixo. – Sabes que não podemos ficar quietas. Temos que as ajudar.
-Ainda assim…
-É o melhor, Minako. Elas vão precisar de todo o poder necessário para ajudar a Linda. Além disso… queres mesmo que os teus filhos fiquem com as tuas responsabilidades?
Minako abanou a cabeça.
-Elas vêm aí. Preparem-se, não temos muito tempo. – Disse Haruka, consultando o seu relógio.
Está na hora…
Tic tac
Tic tac
**
Linda sentiu uma súbita vontade a gritar com todo o mundo. Estava sozinha, junto à porta do salão, onde ela iria entrar, pela primeira vez, com um membro da família Real. Esperava o pai e o irmão, que se atrasavam.
-Tinha logo eu se ser a única da família que gosta de ser pontual – murmurou ela, aborrecida. No fundo, estava com medo do que viria aí. Depois disto já não haveria volta a dar. Seria para sempre a princesa de Crystal Tokyo.
Inspirou e expirou, tentando acalmar-se. Não era o fim do mundo.
Não, mas até pode ser o fim da minha vida, pensou com desprezo.
-Linda? – Chamou-lhe uma voz por trás. Esta virou-se, olhando o pai e o irmão. Estes fitavam-na de boca aberta.
-Uau. – Comentou Kenji, á falta de palavras.
-Estás maravilhosa – disse Edward, tentando formular algumas frases coerentes. Linda sorriu.
-Obrigada, pai.
-Majestade! – Chamou um empregado. – Está na hora.
Kenji olhou para o seu relógio de pulso dourado, que pertencera outrora ao seu avô paterno. Sim, estava na hora.
Tic tac
Que som é este? Perguntou-se Kenji.
-Kenji? – Chamou Edward. – Vens atrás de mim! – E entrou, ao ouvir o seu nome ser anunciado à multidão.
Kenji respirou fundo antes de prosseguir. Linda sentiu uma súbita vontade de desaparecer do mapa, mas já não havia volta a dar.
-Vossa majestade, a princesa Linda. – Alguém anunciou e Linda entrou dentro do salão.
A reacção que Kenji provocara ainda não tinha assentado de tal modo que as pessoas nem se deram ao trabalho de fechar as bocas para a princesa de Tokyo. A primeira vez que alguém via a cara dela desde que ela nascera. O príncipe surpreendera pela positiva e a princesa…
-É mesmo bonita… - comentou alguém.
-E diziam eles que ela se escondia por ser feia!
-Se é tão bonita quanto sua majestade, porque se escondia?
Linda ignorou os comentários e traçou um objectivo. Chegar ao fim do salão, onde o pai e o irmão cumprimentavam os seus avós, principalmente Endymion, o aniversariante do dia. Ao olhar em volta, Linda viu Setsu e Eiji a olharem para ela, estupefactos. Setsu exibia um enorme sorriso e Eiji olhava para ela maravilhado. Só por vê-lo a olhar para ela, Linda sentiu um pequeno rubor no rosto.
-Parabéns avô! – Disse, abraçando o homem mais velho quando chegou perto dele, este correspondendo o acto ternamente.
-Obrigada querida. Daqui a umas horas, dir-te-ei o mesmo. – Respondeu Endymion, com um sorriso e um piscar de olhos. Linda virou-se para a sua avó, que lhe sorriu e abraçou-a. Apesar de já a ter visto, actos carinhosos nunca eram em demasia.
A música começou e pares aproximaram-se da pista de dança, exibindo os seus dotes na arte.
Linda olhou para o irmão e viu que este procurara alguém. Foi aí que Linda notou na ausência das suas amigas.
Onde estão elas?
Soou uma valsa e Endymion estendeu a mão para a neta:
-Dás-me o prazer, querida?
Linda sorriu abertamente.
-Claro avô. – Respondeu, pegando na mão dele.
Juntos, foram para a pista de dança e começaram a movimentar-se em roda, com Linda a guiar o homem. Endymion sabia dançar, mas não era um profissional como o genro e os netos. Aliás, as suas técnicas de danças limitavam-se às mais simples valsas que dançava com a mulher desde os tempos de juventude.
Um passo para a frente, dois para trás.
Linda viu Serenity aceitar a mão do neto e, de repente, Linda viu-se obrigada a dividir a pista com a avó e o irmão. Este parecia querer procurar Mari, ao mesmo tempo que procurava salvar os seus pés dos desastrados da avó. Serenity sabia dançar valsa, mas já não conseguia dançar do mesmo modo que Linda e Kenji faziam. Apenas conseguia rodar com o marido lentamente, ao sabor da música. Kenji quase que pretendia fazer uma maratona na pista de dança.
Finalmente, a música acabou e Linda viu as suas amigas num canto. Mari de cinzento, Cecília de preto.
Kenji afastou-se para junto da namorada, mas Linda decidiu ‘brincar’ com ele:
-Kenji? - Foi ter com ele, junto às suas amigas. – Queres competição?
Pela cara que fez, Linda podia apostar que não, mas ele assentiu.
-Agarra na melhor dançarina que conheceres. – Disse, afastando-se dos amigos. Aproximou-se do pai:
-Quer dançar comigo?
Linda faria em horas dezassete anos e nunca antes se pudera rejubilar de ter tido uma dança com seu pai. O dom que ambos partilhavam. Ela sabia que Edward também pensava no mesmo, pois os seus olhos brilharam quando ela lhe fizera o pedido.
-Claro.
-Vens? – Disse Kenji a Cecília. Esta ficou sem palavras.
-Eu?
-Sim, tu danças muito bem. Mereces dançar comigo nesta ‘competição’.
Mari riu-se da cara da amiga, mas isso não acalmou os nervos de Cecília. Era uma honra dançar na mesma pista que o Rei, quanto mais competir contra ele.
-Sim… - aceitou ela, com voz fraca.
Os dois pares começaram a dançar. Kenji e Cecília tomaram a idade como vantagem, fazendo passos rápidos e precisos. Como as coreografias eram improvisadas, não lhes dava muito espaço para acrobacias, mas sempre conseguiam fazer uma dança extremamente agradável. Já Linda e Edward dançavam calmamente. Kenji apercebeu-se de que eles estavam a tentar ‘conhecer-se’, a conseguir coordenar as respirações, de modo a conseguirem ‘adivinhar’ os passos um do outro.
Edward e Linda não paravam de sorrir. Eles dançavam mais pela experiencia do que pela competição e estavam a divertir-se como nunca. Tanto que Edward fazia Linda rodar como se ela fosse uma bailaria.
A música chegou ao seu ponto mais alto e, enquanto os dois jovens estavam um pouco exaustos, Linda rodou os sapatos de salto alto e, tanto ela como Edward dançaram ao ritmo da música, cada passo, cada batida, um indo para um lado, o outro para o outro. A certa altura, já ninguém conseguia distinguir o par jovem do Rei.
A música parou e todos bateram palmas. Quem ganhara a competição, ninguém sabia, mas os dançarinos também não queriam saber. Cecília afastou-se para ir ter com os pais e Kenji aproximou-se do pai e da irmã:
-Dançaram bem, os dois. – Comentou.
-Tu também dançaste bem. – Respondeu Edward, sorrindo abertamente.
Os três ficaram ali, no centro da pista, completamente alheios a aquilo que se passava à volta. Excepto uma coisa…
Tic tac
Tic tac
Kenji olhou em volta. Outra vez aquele som…
Que significaria?
**
Estava tudo pronto.
Ela agarrou a mão que ele ofereceu voluntariamente. Sentiu o poder dele entrar nas suas veias, enchendo-a de prazer. Ela soltou um gemido, sentindo-se, pela primeira vez, completa. Invencível.
E agora... o primeiro encantamento.
Concentrou a sua mente naquilo que procurava. Numa cabana, uma rapariga de cabelos castanhos-claros escrevia à luz do candeeiro de mesa. Alheia a aquilo que lhe ia acontecer.
Ela murmurou umas palavras na língua Mística, a língua mais antiga de todas. Falada em todo o Sistema Solar e na Lua, caíra em desuso depois da queda do Milénio Prateado.
Longe, a rapariga caiu da cadeira, imóvel. Uma flor azul saiu do seu corpo e iniciou a viagem rumo ao corpo da mulher, que de bom grado a esperou para a absorver. Não demorou muito a viagem, pois a Flor era mais luz do que corpo sólido.
E agora, tinha a Flor de Mercúrio.
Só faltava o encantamento final. Se usasse a quantidade de poder certa, teria aquilo que sempre desejara.
Correntes de luz controlaram a sua silhueta, iluminando-a como um farol. Ela sentiu um aperto, por causa do seu corpo mortal, inapto para receber tal poder. Precisava de sangue. Sangue não humano.
Sorte a dela que agarrava a mão de alguém que possuía esse sangue. Ele não precisaria de saber. Ela tentara ter poder anos antes e o máximo que conseguira fora a ajuda deste ‘homem’ que viera de outra galáxia, em busca de algo. Esse ‘algo’ fora encontrado na América e o seu lacaio logo o eliminou. Mas ficara encantando pela beleza dela e, desde então, tem feito tudo aquilo que ela pedira.
E agora, daria a sua vida por ela.
Ele gritou, dores incontroláveis perfurando o seu corpo. Ela ignorou os sons, concentrando-se no encantamento. Ele tentou largar a mão dela, mas ela apertou-a ainda com mais força, sentindo-se perto do seu objectivo.
Finalmente, atingiu o limite. E uma forte luz saiu da figura baixa, deixando para trás o seu corpo reduzido a pó.
E ela poderosa, com sete novas luzes a iluminá-la. Sete almas. Sete Flores.
Jamais se sentira assim. E sabia que a sua rival jamais fora assim. A batalha estava quase ganha.
Agora, só faltava a princesa.
**
Linda suspirou, o seu rosto encostado ao tronco de Eiji, enquanto os dois dançavam uma lenta valsa. Este olhou para a namorada com um sorriso e, ao vê-la a olhar para o outro lado, virou-se. Linda mirava Kenji e Mari que dançavam não muito longe dos avós de Linda.
-Que pensas? – Perguntou, apesar de ter uma pequena ideia.
-Ficam muito bem juntos. – Respondeu ela, sorridente. Atrás de si, o relógio anunciava dez minutos para a meia-noite e, consequentemente, para o seu aniversário.
-Pois ficam - concordou ele, beijando o topo da cabeça dela.
De facto, Linda não podia deixar de invejar o irmão por ter nos braços uma rapariga que ele sabia ser o seu amor eterno. A forma como eles se olhavam era semelhante à dos seus avós, e todos sabiam que aqueles dois só seriam separados pela morte.
Já ela, não tinha certeza. A sua vida amorosa corria às mil maravilhas e, por culpa da maldição, Linda não pensava em nenhum ‘depois’ de Eiji. Mas era naquelas alturas em que ela se perdia a pensar…
-Vem comigo. – Disse ela, agarrando as mãos do namorado arrastando-o para fora do salão. Percorreram corredores desertos, Eiji perguntando-se onde ela o levava, até chegarem aos jardins. Linda caminhou calmamente, o seu vestido a rastejar na relva verde húmida, sem largar a mão de Eiji.
-Cheira a eucalipto – comentou Eiji, esperando parar ali. Em vez disso, viu a namorada sorrir e levá-lo mais para dentro das árvores.
Quando pararam, a primeira coisa que Eiji viu foram jasmins no chão, junto a uma árvore, que não era um eucalipto.
-Este é o meu lugar secreto… bem, não tão secreto. Os meus pais sabem dele – acrescentou ela, ao ver o olhar duvidoso dele. – Mas isso é porque eles vêm-no pela janela do quarto.
-Porque me trouxeste aqui? – Perguntou ele, com o seu sorriso sedutor.
-Este é o meu lugar preferido aqui. Queria mostrá-lo a alguém especial.
Ela aproximou os seus lábios dos deles, deixando o toque provocar um tremor nos dois corpos, que rapidamente fluíram um no outro. Ele agarrou nas ancas delas, chegando-a mais perto de si e ela pôs a mão esquerda nos cabelos deles, como já era hábito, enquanto a direita tocava no rosto dele, movendo o maxilar dele uns meros graus, a fim de aprofundar o beijo.
Quando se separaram, estavam um pouco ofegantes, mas ansiosos por mais.
-És muito especial, Linda. – Sussurrou ele. Ela sobressaltou-se, lembrando-se daquilo que ele lhe dissera no ano novo. As mesmas palavras, o mesmo efeito.
-Estás enganado. – A mesma resposta.
-Porquê? Sabes lá tu os meus sentimentos.
-É claro que sei. – Disse ela, constrangida. – Tu gostas de mim e eu gosto de ti.
Eiji controlou uma gargalhada.
-Linda, já estou contigo há tempo suficiente para saber que não apenas gosto de ti. Eu…
-não digas. – Cortou ela, incomodada.
Ele ergueu o sobrolho.
-Porque te faz tanto dilema que eu to diga, Linda. Não sentes o mesmo?
Ela perdeu o ritmo respiratório. Como lhe dizer… como lhe dizer que ela só estava destinada a amar um homem? Um homem que não era ele…
-Eu…
-Mas que lindo! – Disse alguém sarcasticamente, vindo por entre as árvores escuras. – Que romântico.
Linda virou-se, sobressaltada. Ali, tão perto dela e de Eiji, estava nada mais, nada menos do que Dawson.
**
-Amo-te. – Disse Kenji ao ouvido de Mari. Ela corou. – Já te disse isto?
-Já. – Ela ganhou um novo pigmento de vermelho. – Algumas vezes esta noite.
-Não me canso de repetir. – Disse ele, beijando a bochecha corada dela. – Até porque ficas com uma cara.
-Não é costume os homens dizerem que me amam. – Retorquiu ela.
-Habitua-te. Não digo isto a todas. Aliás. – Acrescentou ele, deitando um olhar nos avós, que falavam com o pai. – Sou como a minha avó nestas coisas. Quando amo, é único e forte.
Mari sorriu.
-Eu também. Mas somos tão novos…
-O amor não tem idade.
-Verdade – concordou ela. – Mas nem sempre é amor maduro. Inconsciente é o que é.
-Não comigo… - sussurrou ele, beijando-a ternamente. Ela sorriu, aceitando o gesto, deixando que ele possuísse a sua boca. A sensação de fogo-de-artifício explodiu na cabeça dela, quando ele afastou-se. Parecia preocupado.
-O que foi?
-Onde está a Linda?
Mari olhou em volta. Nem a amiga nem Eiji podiam ser visto no meio daquela multidão.
-Devem estar nos jardins. Porquê?
Kenji demorou a responder.
-Tenho um mau pressentimento. – Voltou a consultar o seu relógio. Era quase meia-noite. E, talvez por ironia ridícula do destino, Kenji apercebeu-se de onde vinha o som que o incomodara desde o inicio da noite. Do seu relógio.
Tic tac
Tic tac
Kenji deixou-se ficar parado, a olhar para os ponteiros do seu relógio a avançarem a cada segundo. As palavras que Linda lhe dissera no seu sonho ecoavam na sua cabeça.
O tempo está a acabar…
Qual tempo? O que é que o avô queria dizer com aquilo? E Linda?
-Kenji? – Chamou Mari, abanando-o no ombro. Mas Kenji não respondeu. Entendera finalmente a mensagem.
Eles sempre souberam. Ela sabia. O tempo…
E, de certa forma, Kenji sentiu que era tarde de mais.
**
-Linda, quem é ela? – Perguntou Eiji, agarrando o braço de Linda instintivamente.
-Tu. – Cuspiu Linda, furiosa, ignorando o namorado confuso. – Como entraste aqui?
-Achas mesmo que essa é a pergunta mais importante Linda? – Respondeu ela, sorrindo venenosamente. – Sabes muito bem quais são as minhas intenções para ti. Devias estar mais preocupada com o que eu vim cá fazer…
Linda ficou pálida, ao aperceber-se da sua situação. Não só estava ali, sozinha contra Dawson, como também tinha que se preocupar com Eiji, de modo a que este não saísse magoado. Mas Dawson parecia ter pensado adiante. Fechou o punho e deixou que uma luz dourada se libertasse da mão, ofuscando os olhos de Linda. Quando esta ganhou o poder da visão, viu que Dawson sorria. E, atrás de Linda, Eiji não fazia um único som.
Nervosa, Linda deu meia-volta e fitou, horrorizada, os olhos de Eiji transformarem-se negros como os de Dawson. Sem hesitar, ele agarrou-a e prendeu-a à árvore, forçando o seu corpo contra o dela. Sendo ele mais forte, Linda não podia fazer nada a não ser submeter-se à força que ele exercia sobre ela.
-Eiji…
-É inútil, ele não te consegue ouvir.
-O que lhe fizeste? – Gritou Linda, tentando libertar-se mais uma vez. Mas os braços fortes de Eiji impediam-na de se mexer. Para piorar, Eiji agarrou-a de modo a que a sua mão direita estivesse livre e o resto do corpo forçava Linda contra o tronco da árvore. – Deixa-o em paz!
-Usei o poder das Flores para o controlar. Sabes, querida. As Flores são poderes da alma, ligam-se à nossa mente e fazem aquilo que nós queremos. E não, não o deixo em paz. Preciso dele.
Linda sentiu raiva subir-lhe à cabeça, contrastando com a fraqueza que começava a sentir no corpo devido à luta que dava a Eiji.
-Vim cá para… cumprir o destino. Mas vi vocês os dois juntos e pensei… e que tal uma história romântica? Como Romeu e Julieta? Um mata o outro.
Uniu as mãos e, a partir de uma bola de luz, surgiu uma adaga de prata. Linda ficou branca quando Dawson deu a adaga a Eiji.
-Sua…
-É pena Linda, mas os meus esforços tinham que conseguir frutos algum dia não achas? Eu, que vendi o meu corpo para ser rica, que mudei de país e aprendi a falar uma língua que não era a minha só para poder ter hipóteses com o Edward e poder acabar com a tua mãe. Ela roubou-mo e tinha que pagar. Sorte a minha que ela ficou doente. A única coisa que precisava de fazer era acabar com a família dela. Matar a filha, os pais, roubar-lhe o marido e…
-E…? O que vais fazer ao meu irmão, sua louca? – Gritou Linda, sentindo cada vez mais dificuldade em respirar. Um dos seus olhos estava posto em Dawson, o outro na adaga, cuja ponta estava virada para ela.
A mulher fez uma cara pensativa, que durou apenas uns segundos.
-A principio pensei em mantê-lo vivo mas, descobri recentemente que ele me dará outros usos. – Olhou Linda nos olhos, um brilho vitorioso emitindo no mar escuro que vinha na íris.
Linda lançou-lhe um olhar sombrio.
-Vais-mas pagar Dawson. Prometo-te. Anos antes, amaldiçoaste-me e agora faço-te o mesmo. Garanto-te, eu vou voltar e vou acabar com a tua vida TAL COMO ACABASTE COM A MINHA!
As palavras de Linda ecoaram no jardim, ouvidas apenas pelas três pessoas que ali estavam. Dawson ficou imóvel por um segundo, antes de lançar um olhar penetrante e vitorioso a Linda.
Ao longe, soou a meia-noite do quatro de Agosto.
-Happy Birthday, Linda. – Sussurrou a sua inimiga, virando as costas aos dois jovens.
E depois, tudo aconteceu depressa. Num segundo Linda olhava Dawson com profundo desprezo, noutro sentia Eiji a espetar-lhe a adaga direita no seu coração, enchendo o seu vestido de sangue. Linda só teve tempo para olhar nos olhos daquele que a esfaqueara, antes de cair na escuridão, imóvel, sem vida.
Ao longe, o relógio de Kenji parou.
(https://www.youtube.com/watch?v=-opi1Qre8Cc)
Linda podia ter esperado os momentos finais junto à janela do seu quarto, mas algo lhe dizia que era a pior ideia que ela pudesse ter. Talvez fosse a Voz, Linda não sabia, mas seguiu esse conselho.
Nos dias seguintes, fora ter com os avós e as tias. Após abraços e conversas postas em dia, Linda pedira para ficar a sós com os avós, explicando aquilo que sabia. Não lhes contara acerca da sua própria conclusão acerca da maldição. Parte dela temia que os avós soubessem, apenas não quisessem acreditar e, no final, se fossem culpar pelo sucedido.
Só quando Kenji a levara para casa é que Linda sentiu-se a imaginar outra vida que ela poderia ter tido. Com os seus cabelos a esvoaçarem ao vento, desprotegidos pelo capacete, Linda agarrou-se ao irmão enquanto este a levava a passear de mota de volta ao palácio. Tanta coisa se sucedera para ela fugir daquele sítio. Do seu destino. Mas no final, voltara ao inicio. Seguira sempre um círculo sem fim. Porquê? Porque aquele era o seu lugar. Porquê?
Porque era uma navegante.
Não princesa, mas navegante. Linda tentara fugir do seu título real e provara isso ser possível. Mas voltara, porque não podia fugir às responsabilidades que a avó e a mãe lhe passaram.
Se tudo aquilo lhe estava a acontecer era porque era uma navegante. Porque Dawson temera os poderes de Linda. Porque era a reencarnação da princesa da Lua. Linda tentara ser normal, não ser princesa. Quando na verdade, ela devia era ter tentado fugir ao destino de ser guerreira navegante. Mas seriam esforços inúteis. A avó tentara fugir várias vezes da sua responsabilidade de navegante mas, no final, apercebera-se que não podia continuar a fugir. Era isso que ela era. Era a sua essência da vida.
Linda estava presa a aquela vida. Correntes invisíveis a impediam de ter a vida normal que ela sempre imaginara. Se ela não conseguia ser normal, era porque não o podia ser. Não porque não tentasse.
Que vida teria ela tido se controlasse o seu destino? Teria ela tido uma vida feliz com os pais e o irmão? Teria ido à escola, aprendido a ser princesa mas, ao mesmo tempo, ser normal como todas as outras raparigas?
Ela não sabia, nem nunca saberia. Ninguém pode fugir de um legado de família. E fora isso que os dois irmãos aperceberam-se na sua ida à casa dos avós.
Quando voltaram, os dois mais leves depois a viagem de mota, deixaram de lutar. Naquele dia, Edward sentou-se à mesa, onde costumava jantar sozinho desde que a mulher ficara de cama. Após uns quinze minutos depois de a sopa chegar, a porta abriu-se e Linda e Kenji sentaram-se em cada lado do pai, e pediram aos empregados que trouxessem comida para os dois. Edward ficara estupefacto, mas não conseguiu evitar um sorriso quando os dois começaram a falar das suas vidas fora do palácio. Falaram de Eiji, Mari, Cecília e Setsu e de todas as aventuras que passaram juntos. E daquelas que ainda viriam…
Porque era Verão e nada impediam jovens fortes e saudáveis de ficarem fechados em casa, fosse essa casa um palácio ou um apartamento. Se aqueles fossem os últimos dias de Linda, era estava grata. Os dias passavam-se rapidamente, com Linda e Kenji a almoçarem com o pai, visitarem a mãe e depois saírem o dia todo até à praia e outros lugares. Setsu pegara no seu carro e Kenji na mota e os seis passaram pelos vários sítios interessantes em Crystal Tokyo. Cecília conseguiu convencer os rapazes e Mari e irem ao Templo de Asakusa durante uma tarde e fazerem um piquenique num jardim lá perto. As idas à praia eram sempre no fim da tarde, quando as praias estavam quase vazias e onde eles podiam ver o pôr-do-sol em paz, indo depois até ao bar local jogar cartas na esplanada.
Os rapazes convenceram as raparigas a praticar desportos radicais. Se Linda se imaginasse um ano antes, nunca pensaria sequer em saltar de um ponte ou até pegar numa arma e encher Eiji e Setsu de bolas amarelas e vermelhas.
Mas talvez os melhores momentos foram as festas realizadas na casa dos rapazes. Cecília e os rapazes faziam karaoke de várias músicas e, no caso dos rapazes arruinavam as musicas e faziam as raparigas rir. Tudo isso, a somar as dormidas de Cecília e Mari no palácio ou na casa de Cecília e os passeios com o namorado, Linda deu-se feliz pela vida que tinha.
Mas os encontros da mãe faziam-na acordar para a realidade. E, de certa forma, a sua mãe também sabia. Sempre que a via, ficava pálida dos primeiros cinco minutos e receosa do que dizer.
Chegou a altura de Linda dizer a verdade à sua mãe. Esta não reagiu bem:
-Tudo aquilo que nós passamos… foi em vão? – Perguntou, os olhos a encherem-se de lágrimas.
-Nem tudo. Eu não me rendi ao Caos. – Disse Linda, tentando consolar a mãe. Mas não resultou.
-Antes uma filha má e viva do que uma morta. – Retorquiu Small Lady, pondo as mãos no rosto. Linda controlou uma inspiração, sentindo uma dor no abdómen.
-Mãe. – Disse, sentando-se na beira da cama. – Eu não me importo. Ou melhor, já deixei de me importar. Porque haveria a mãe de o fazer? Não diga nada! – Acrescentou, quando viu que a mãe ia protestar. – Eu sei o que estou a fazer. Garanto-lhe que vai ficar tudo bem. Só lhe peço… - Linda parou, sentindo ela própria cair em lágrimas. – Que não me lembre do que vem aí. Deixe-me viver.
As duas abraçaram-se, perdidas no destino incontrolável, rendidas a gotas de cloreto de sódio.
Fora assim que Edward e Kenji as encontraram mais tarde. A dormir pacificamente abraçadas.
A imagem que as duas faziam provocou sorrisos nos dois homens, que sentiram certa inveja daquela amostra de afecto. Entreolharam-se como que a pedir permissão um ao outro. Não foi necessária resposta.
Ambos aproximaram-se da cama e deitaram ao lado de Small Lady e de Linda. Kenji abraçou-se à mãe e Edward a Linda. Esta, ainda adormecida, ao sentir o calor do pai, abraçou-se a ele, tal como Small Lady aproximou o filho de si.
Os quatro ficaram ali adormecidos, pela primeira vez, unidos como uma verdadeira família.
Linda via tudo aquilo. Num sonho. Um sonho que, pela primeira vez, não era dos pais, nem do irmão, nem de outra pessoa. Era seu. Só seu. O seu sonho.
Se Linda pudesse subornar Plutão para a deixar voltar atrás no tempo… não o faria. Por muito curta que fosse a vida, se fosse bem aproveitada, valeria sempre a pena.
E para Linda, assim foi.
**
Estava tudo preparado. Não havia nada de errado no seu plano. Também era coisa bastante simples. Ela só precisava de fazer um ou dois encantamentos com os poderes do seu lacaio e então seria capaz de extrair os poderes das Flores do Universo que possuía. E uns outros encantamentos dar-lhe-iam os poderes das restantes.
Mercúrio, Vénus e Terra.
Os três primeiros planetas do Sistema Solar eram as únicas Flores que persistiam fora do seu poder. Mas não por muito tempo. Ela sabia onde estavam as três. Todas elas…
O encantamento que iria usar só dava para extrair uma das Flores à distância. Usaria na de Mercúrio. Já Vénus e Terra… Ela sabia onde podia encontrá-las a todas no mesmo sítio, na altura ideal. Quando ela concretizar a maldição premeditada anos antes.
Sorriu maliciosamente, contente com o rumo dos seus planos. Em breve seria a Rainha de Tokyo. Da família real, só um restaria. E a esse, daria mil e uma hipóteses de felicidade junto dela. No que tocava aos outros… Uma, a sua maior rival, morreria de desgosto. Porque ela faria questão de que ela visse o resultado dos seus planos. Tinha pena pelo príncipe, mas os seus planos vinham primeiro. Tal como Dawson havia afirmado anos antes, ele de facto daria os seus usos.
Vénus e Terra.
Ridículo como ambas estavam tão perto de si e ela nunca as pudera ver. Mas agora nada a iria parar.
Nada.
**
A noite de três de Agosto prometia ser atribulada. Os preparativos para o aniversário do Rei Endymion haviam se dispersado por toda a semana. Small Lady, temendo entrar em depressão, ameaçou os pais a deixarem-na planear a festa, caso contrário obrigaria Hotaru e Misaki a assaltarem a cozinha e roubarem todos os doces para a festa. Serenity teimosamente cedeu, receosa pelos seus chocolates. A estas atitudes, Rei, Endymion, Edward e Makoto reviraram os olhos e Ami, Minako, Misaki, Hotaru, Linda e Kenji soltaram altas gargalhadas, que ecoaram pela sala.
Small Lady perguntou aos filhos se eles queriam ajudá-la. Kenji fugiu como o diabo, deixando Linda sozinha para explicar à mãe que ela era uma rapariga das ciências, destinada a ficar num laboratório e não num salão a planear festas.
Espalhara-se pela corte que os Reis estavam muito animados por causa das festas. Que a Rainha mostrava melhorias devido aos ambientes festivos. Mas todos aqueles que moravam no palácio ou visitavam frequentemente sabiam que aquilo que os punham felizes eram as conversas constantes com os filhos. Kenji e Linda haviam conversado acerca das responsabilidades que tinham, sendo os únicos filhos dos reis. Um deles teria que reinar. E a resposta era óbvia.
Kenji nascera para ser Rei. Todo o treino que tivera em criança e os seus próprios valores morais e qualidades de expressão tornavam-no no melhor candidato. Linda não tinha nenhuma aptidão para tal cargo. O máximo que sabia era ser cordial e tratar de alguns negócios reais. Mas pouco mais.
Fora difícil, mas Kenji tomou uma decisão. Acabaria a faculdade e exerceria o curso por uns anos, depois tornar-se-ia rei de Tokyo.
Ao olhar o irmão, Linda viu que este não estava tão desiludido com a ideia quanto ela pensava. Ele nunca soubera o que era e se haveria de fazer alguma coisa de jeito. Ser médico fora o seu sonho. Mas eram junto de um parlamento a seguir as pisadas do pai que ele tinha jeito.
A decisão foi reconsiderada várias vezes. Linda queria ter a certeza que Kenji não iria desistir depois de anunciar a sua decisão aos pais.
Finalmente, apresentaram as suas ideias. Kenji como rei, mas Linda ajudá-lo-ia nos negócios e nos eventos reais, para além de ser guardiã do cristal prateado.
A reacção dos pais fora hilariante e, se o assunto não fosse tão sério, Linda teria perdido a compostura e desatado a rir na cara chocada que os pais fizeram:
-Pensei que vocês não quisessem nada com isto? – Perguntou Edward, ao conseguir arranjar cordas vocais para falar. Olhava para a mulher várias vezes, o que fez Linda questionar-se se ele não estaria com algum torcicolo.
Linda e Kenji inspiraram e expiraram ao mesmo tempo, como se estivessem a realizar um exercício de relaxamento.
-Querer eu não quero, mas não posso deixar o Kenji a reinar este grande reino sozinho. – Comentou Linda. – Ele anda o leva à ruína.
-Tens cá uma graça. – Retorquiu o irmão, perante as gargalhadas dos pais e da irmã. – Eu… acho que consigo. Acho que sou capaz.
A sua mãe sorriu para ele.
-Não queremos que te sintas forçado, Kenji. – Disse.
-Eu sei. Mas eu… há já muito tempo que pus a ideia de parte… mas não quer dizer que a ideia em si não me agrade.
Edward não dizia nada, limitando-se a olhar para Kenji atentamente. Este fitou o pai, na expectativa. Linda perguntou-se se Kenji estaria mais à espera de uma bênção do pai do que de todo o reino.
-Sempre soube que darias um bom rei. És teimoso e segues as tuas ideias. Não deixas que ninguém te manipule e formulas as tuas próprias opiniões. Apenas julgava que nunca quisesses… que ser médico fosse mais importante para ti.
-Eu gosto de ajudar as pessoas. Em ambos os cargos faço isso. Mas um é de sangue, o outro… é algo que posso ser, mas cuja ideia ainda é fresca. Ainda não me habituei o suficiente.
Edward largou um sorriso que se estendeu até às orelhas.
-Fico muito contente, filho. – Estendeu a mão, que Kenji aceitou.
Os preparativos eram cada vez mais ruidosos com o passar das horas.
Tic tac
Empregados de um lado para o outro.
Tic tac
Costureiros que a queriam vestir...
Tic tac
-não preciso. – Disse Linda ao alfaiate real. – Já tenho um vestido.
O homem foi-se embora indignado e Linda conseguiu finalmente fechar a porta.
Observou o relógio.
19h25
Tic tac
Tic tac
Tinha cerca de duas horas até o baile de celebração do aniversário do seu avô. E cerca de quatro horas e trinta e cinco minutos para o seu aniversário.
Linda foi até ao armário, onde pegou na caixa que recebera no Natal.
Linda despejou o conteúdo da caixa em cima da cama. Viu a tiara guardada numa caixa. Pousou-a ao lado, vasculhando o resto dos seus pertences. Viu os livros de Linda O’Connell. Havia passado grande parte do seu tempo de aulas a ler os livros, mas ainda não acabara o último. Por algum motivo, não conseguira ainda acabar esse livro. E as poucas linhas que conseguia ler, faziam-na parar para reflectir. Mas depois demorava a voltar a pegar no livro.
Leu a contracapa:
Fita de prata, por Linda O’Connell
Linda O’Connell, após uma entusiasmante saga acerca da sua personagem fíctida Andrea Sullivan, chega-nos com o último livro da saga que encantou leitores nos cinco continentes.
Neste último livro, Andrea está prestes a passar o Ano Novo com o seu irmão George, a sua mãe Julie e o seu noivo Andrew, quando alguém toca à porta ao soar das doze badaladas. É Michael Burrows, filho de um amigo do seu falecido pai e seu mais antigo amor. Este afirma que o seu pai, Philip Burrows, fora encontrado morto na casa de banho com uma fita prateada junto à porta. A mesma fita que o pai de Andrea lhe dera anos antes. Quando de repente vê a polícia no seu pé, Andrea trata procurar a verdade, querendo saber como é que a sua fita fora parar junto de um corpo, ao mesmo tempo que começa a recordar antigos sentimentos por Michael.
É neste último livro da saga que se conhece finalmente a verdadeira Andrea Sullivan. Leia a história de O’Connell que, pela primeira vez, explora o lado mais íntimo da sua personagem e dos motivos pelo qual esta resolve mistérios. Mas, acima de tudo, escolherá Andrea o amor do passado, ou o do presente?
Linda pousou o livro, subitamente deprimida. Quanto mais avançava no livro, mais temia as respostas que encontraria. De certa forma, Andrea envolvia-se em encruzilhadas semelhantes às dela. Tudo começara com problemas que o seu pai tivera com Philip Burrows, tal como Small Lady e Dawson e esses problemas determinaram grandes focos nas vidas das duas raparigas, um fíctida, outra real. Mas era a decisão de Andrea que deixava Linda a prender o fôlego. Qual escolheria ela? O passado ou o presente?
Alguém bateu à porta. Era a sua avó.
-Estás pronta Linda? Hum… vim muito cedo. – Acrescentou ao ver a neta ainda de jeans e com as coisas todas espalhadas na cama.
-Essa é nova. – Comentou Linda, tentando arrumar as coisas. Pegou na caixa que sabia estar o seu vestido e dirigiu-se para a casa de banho. – A avó espera por mim?
-Claro, querida. – Disse Serenity, com um sorriso.
Linda não se demorou muito a vestir. Era um vestido simples de seda com decote em V, cujas alças enrolavam-se à volta do pescoço. Mais semelhava-se a uma camisa de dormir do que a um vestido.
Quando saiu, viu a avó a admirar a tiara, com um ar longínquo. Esta virou-se para a neta e sorriu ao vê-la:
-Estás linda, querida.
Linda sentiu-se corar.
-Obrigada avó.
Serenity aproximou-se da neta e, agarrando na mão dela, levou-a até ao espelho, sentando-a num pequeno banco.
Pegou nuns ganchos e pegou em madeixas do cabelo de Linda e começou a trabalhar.
Esta não conseguia tirar os olhos do seu reflexo. A rapariga que lhe sorria em retorno era completamente distinta de Agnes. Bela sim, parecida com ela também. Mas Agnes não tinha o brilho calmo de Linda nem os lábios que tão facilmente se espalhavam em sorrisos e que foram tantas vezes mordidos pelos dentes brancos dela.
O cabelo dela estava extremamente comprido. Serenity fazia um ponche atrás, deixando grandes madeixas encaracoladas caírem pelas costas da rapariga. Pela primeira vez, os cabelos negros de Linda estavam controlados e até lhe ficavam bem.
Linda pôs um pouco de maquilhagem, enquanto a avó fora buscar a tiara. Pousou a mão no seu colar, onde o pendente brilhava com a luz do quarto, pendurada na corrente de prata que Eiji lhe dera no Natal. Dez pontos brilhantes, um ainda mais do que os outros. Pôs uns brincos de prata e calçou os sapatos. Levantou-se do banco onde se tinha sentado e olhou-se. Estava bem.
-Espera! – Disse a sua avó, pegando na tiara bem polida. – Ainda falta um detalhe. Talvez o mais importante.
A tiara de diamantes brilhava como mil sois e, quando pousou na cabeça de Linda, esta podia jurar sentir um brilho ainda mais forte.
Agora estava completa. Agora sabia quem era. Tal como Misaki dissera, ela sempre soubera quem era, apenas fugira da resposta.
Finalmente, encontrou-se.
**
Tic tac
Tic tac
-Estás a gostar da festa, Eiji? – Perguntou Cecília, bebendo um pouco de sumo. O rapaz deu um pequeno salto ao ouvir a morena.
-Ccomo?
Cecília controlou o riso.
-Já pareces a Linda com a cabeça na lua.
Eiji lançou-lhe um olhar penetrante.
-Estava a pensar.
-Em quê?
-Nisto tudo. – Respondeu ele, olhando em volta. O salão de bailes estava cheio de pessoas de todas as idades e classes da nobreza, cobertas por vestidos brilhantes e coloridos ou fatos negros e sapatos perfeitamente engraxados. Para qualquer lado que Eiji olhasse, apenas via riqueza e luxúria. – Não tem nada a ver com a Linda e o Kenji. Como podem eles viver neste mundo?
-Da mesma forma que nós não vivemos neste mundo, mas pertencemos. – Respondeu Cecília. Eiji olhou para ela fixamente, suspirando.
-Já a viste? – Perguntou ela, um pouco hesitante. Eiji encolheu os ombros.
-Eu não ando à procura dela no meio desta multidão, sabes? Há pessoas muito mais interessantes para se ver. – Disse ele, com profundo veneno nas suas palavras.
Cecília pousou o copo em cima da mesa. Pensou em pousar a mão no ombro de Eiji, mas hesitou. Sabia o quanto era difícil estar ali, mas ela tinha que admitir que era fácil evitar aqueles olhares mesquinhos com os amigos por perto. Talvez fosse por isso que os dois irmãos tivessem insistido para que os amigos viessem. Lá por viverem neste mundo, havia sempre algo nele que eles detestavam e tinham sempre que arranjar maneiras de ‘sobreviver’ até ao próximo dia. Cecília até nem estava mal, mas a partir do momento em que Setsu e Mari desapareceram no meio da multidão, sem dizerem para onde iam, deixaram os dois jovens completamente incomodados. Cecília detestava aquele mundo e Eiji também. Principalmente porque determinada pessoa estava ali, no meio daquelas pessoas todas. A sua mãe.
Os olhos de Cecília procuraram automaticamente Setsu. Viu-se no outro lado do salão a falar com uma mulher loira. Reconheceu-a de imediato.
Yvonne.
Rezando silenciosamente para que o amigo não a visse, Cecília observou a mãe dos irmãos Yamamoto.
Era magra e bela, mas baixa e com ar de quem tinha engolido um limão. Sorria para o filho mais velho, mas mais parecia um sorriso cordial do que um sorriso maternal. Cecília ficou espantada quando viu Setsu a agir de uma forma semelhante. Mais parecia que este estava a despachar conversa com a mãe do que a conversar com ela de bom grado.
Os olhos de Setsu cruzaram-se com os de Cecília. Agora tinha a certeza. Setsu estava apenas a pôr conversa cordial. Lançando mais um sorriso cínico à mãe, afastou-se, aproximando-se da amiga e do irmão:
-Então, tudo bem?
-Tudo – respondeu Eiji aborrecido. Cecília e Setsu entreolharam-se, concordando silenciosamente em distrair Eiji até os irmãos Natsumara chegarem.
-Queres ir apanhar ar? – Sugeriu o irmão mais velho. Eiji encolheu os ombros.
-O Rei não está a chegar?
-Sim, mas…
-Sabes onde está a Mari? – Perguntou Cecília de repente. – Achei que ela estivesse contigo.
-Não, ela foi com a avó ter com a Rainha Serenity e… olha, ali está ela – disse Setsu, apontando para a loira, que os procurava na outra ponta do salão. Quando os viu, correu o máximo que o seu vestido comprido lhe permitia. Quando chegou perto deles, Cecília notou que Mari estava um pouco ansiosa.
-Vem comigo – disse para Cecília, ignorando os outros dois.
-Aonde? Porquê?
-Elas querem ver-nos… - murmurou Mari. Eiji e Setsu entreolharam-se confusos. Cecília não estava em melhor estado.
-Quem?
-Elas!
Foi então que a morena percebeu. Almas estranhas encontravam-se junto à porta do salão, observando curiosamente. As navegantes, ‘tias’ de Linda.
Cecília assentiu e seguiu Mari para fora do salão.
Eiji bufou de aborrecimento, consultando o seu relógio.
20h56 Estava quase.
Tic tac
Tic tac
**
-Achas que estamos a fazer o correcto? – Perguntou Minako, não tirando os olhos das adolescentes que procuravam furar a multidão, rumo à porta do salão.
-Sim. – Respondeu Rei. – É o melhor a fazer.
-Não devíamos sequer avisá-las? – Perguntou Makoto.
-Não. – Respondeu Michiru. – Deixemos a Hotaru e a ChibiUsa fora disto. Já a Setsuna… ela deve saber, mas sabe que não nos pode impedir.
-E a Serenity e o Endymion?
-A Serenity conhece-nos. – Respondeu Ami, de braços cruzados olhar cabisbaixo. – Sabes que não podemos ficar quietas. Temos que as ajudar.
-Ainda assim…
-É o melhor, Minako. Elas vão precisar de todo o poder necessário para ajudar a Linda. Além disso… queres mesmo que os teus filhos fiquem com as tuas responsabilidades?
Minako abanou a cabeça.
-Elas vêm aí. Preparem-se, não temos muito tempo. – Disse Haruka, consultando o seu relógio.
Está na hora…
Tic tac
Tic tac
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Linda sentiu uma súbita vontade a gritar com todo o mundo. Estava sozinha, junto à porta do salão, onde ela iria entrar, pela primeira vez, com um membro da família Real. Esperava o pai e o irmão, que se atrasavam.
-Tinha logo eu se ser a única da família que gosta de ser pontual – murmurou ela, aborrecida. No fundo, estava com medo do que viria aí. Depois disto já não haveria volta a dar. Seria para sempre a princesa de Crystal Tokyo.
Inspirou e expirou, tentando acalmar-se. Não era o fim do mundo.
Não, mas até pode ser o fim da minha vida, pensou com desprezo.
-Linda? – Chamou-lhe uma voz por trás. Esta virou-se, olhando o pai e o irmão. Estes fitavam-na de boca aberta.
-Uau. – Comentou Kenji, á falta de palavras.
-Estás maravilhosa – disse Edward, tentando formular algumas frases coerentes. Linda sorriu.
-Obrigada, pai.
-Majestade! – Chamou um empregado. – Está na hora.
Kenji olhou para o seu relógio de pulso dourado, que pertencera outrora ao seu avô paterno. Sim, estava na hora.
Tic tac
Que som é este? Perguntou-se Kenji.
-Kenji? – Chamou Edward. – Vens atrás de mim! – E entrou, ao ouvir o seu nome ser anunciado à multidão.
Kenji respirou fundo antes de prosseguir. Linda sentiu uma súbita vontade de desaparecer do mapa, mas já não havia volta a dar.
-Vossa majestade, a princesa Linda. – Alguém anunciou e Linda entrou dentro do salão.
A reacção que Kenji provocara ainda não tinha assentado de tal modo que as pessoas nem se deram ao trabalho de fechar as bocas para a princesa de Tokyo. A primeira vez que alguém via a cara dela desde que ela nascera. O príncipe surpreendera pela positiva e a princesa…
-É mesmo bonita… - comentou alguém.
-E diziam eles que ela se escondia por ser feia!
-Se é tão bonita quanto sua majestade, porque se escondia?
Linda ignorou os comentários e traçou um objectivo. Chegar ao fim do salão, onde o pai e o irmão cumprimentavam os seus avós, principalmente Endymion, o aniversariante do dia. Ao olhar em volta, Linda viu Setsu e Eiji a olharem para ela, estupefactos. Setsu exibia um enorme sorriso e Eiji olhava para ela maravilhado. Só por vê-lo a olhar para ela, Linda sentiu um pequeno rubor no rosto.
-Parabéns avô! – Disse, abraçando o homem mais velho quando chegou perto dele, este correspondendo o acto ternamente.
-Obrigada querida. Daqui a umas horas, dir-te-ei o mesmo. – Respondeu Endymion, com um sorriso e um piscar de olhos. Linda virou-se para a sua avó, que lhe sorriu e abraçou-a. Apesar de já a ter visto, actos carinhosos nunca eram em demasia.
A música começou e pares aproximaram-se da pista de dança, exibindo os seus dotes na arte.
Linda olhou para o irmão e viu que este procurara alguém. Foi aí que Linda notou na ausência das suas amigas.
Onde estão elas?
Soou uma valsa e Endymion estendeu a mão para a neta:
-Dás-me o prazer, querida?
Linda sorriu abertamente.
-Claro avô. – Respondeu, pegando na mão dele.
Juntos, foram para a pista de dança e começaram a movimentar-se em roda, com Linda a guiar o homem. Endymion sabia dançar, mas não era um profissional como o genro e os netos. Aliás, as suas técnicas de danças limitavam-se às mais simples valsas que dançava com a mulher desde os tempos de juventude.
Um passo para a frente, dois para trás.
Linda viu Serenity aceitar a mão do neto e, de repente, Linda viu-se obrigada a dividir a pista com a avó e o irmão. Este parecia querer procurar Mari, ao mesmo tempo que procurava salvar os seus pés dos desastrados da avó. Serenity sabia dançar valsa, mas já não conseguia dançar do mesmo modo que Linda e Kenji faziam. Apenas conseguia rodar com o marido lentamente, ao sabor da música. Kenji quase que pretendia fazer uma maratona na pista de dança.
Finalmente, a música acabou e Linda viu as suas amigas num canto. Mari de cinzento, Cecília de preto.
Kenji afastou-se para junto da namorada, mas Linda decidiu ‘brincar’ com ele:
-Kenji? - Foi ter com ele, junto às suas amigas. – Queres competição?
Pela cara que fez, Linda podia apostar que não, mas ele assentiu.
-Agarra na melhor dançarina que conheceres. – Disse, afastando-se dos amigos. Aproximou-se do pai:
-Quer dançar comigo?
Linda faria em horas dezassete anos e nunca antes se pudera rejubilar de ter tido uma dança com seu pai. O dom que ambos partilhavam. Ela sabia que Edward também pensava no mesmo, pois os seus olhos brilharam quando ela lhe fizera o pedido.
-Claro.
-Vens? – Disse Kenji a Cecília. Esta ficou sem palavras.
-Eu?
-Sim, tu danças muito bem. Mereces dançar comigo nesta ‘competição’.
Mari riu-se da cara da amiga, mas isso não acalmou os nervos de Cecília. Era uma honra dançar na mesma pista que o Rei, quanto mais competir contra ele.
-Sim… - aceitou ela, com voz fraca.
Os dois pares começaram a dançar. Kenji e Cecília tomaram a idade como vantagem, fazendo passos rápidos e precisos. Como as coreografias eram improvisadas, não lhes dava muito espaço para acrobacias, mas sempre conseguiam fazer uma dança extremamente agradável. Já Linda e Edward dançavam calmamente. Kenji apercebeu-se de que eles estavam a tentar ‘conhecer-se’, a conseguir coordenar as respirações, de modo a conseguirem ‘adivinhar’ os passos um do outro.
Edward e Linda não paravam de sorrir. Eles dançavam mais pela experiencia do que pela competição e estavam a divertir-se como nunca. Tanto que Edward fazia Linda rodar como se ela fosse uma bailaria.
A música chegou ao seu ponto mais alto e, enquanto os dois jovens estavam um pouco exaustos, Linda rodou os sapatos de salto alto e, tanto ela como Edward dançaram ao ritmo da música, cada passo, cada batida, um indo para um lado, o outro para o outro. A certa altura, já ninguém conseguia distinguir o par jovem do Rei.
A música parou e todos bateram palmas. Quem ganhara a competição, ninguém sabia, mas os dançarinos também não queriam saber. Cecília afastou-se para ir ter com os pais e Kenji aproximou-se do pai e da irmã:
-Dançaram bem, os dois. – Comentou.
-Tu também dançaste bem. – Respondeu Edward, sorrindo abertamente.
Os três ficaram ali, no centro da pista, completamente alheios a aquilo que se passava à volta. Excepto uma coisa…
Tic tac
Tic tac
Kenji olhou em volta. Outra vez aquele som…
Que significaria?
**
Estava tudo pronto.
Ela agarrou a mão que ele ofereceu voluntariamente. Sentiu o poder dele entrar nas suas veias, enchendo-a de prazer. Ela soltou um gemido, sentindo-se, pela primeira vez, completa. Invencível.
E agora... o primeiro encantamento.
Concentrou a sua mente naquilo que procurava. Numa cabana, uma rapariga de cabelos castanhos-claros escrevia à luz do candeeiro de mesa. Alheia a aquilo que lhe ia acontecer.
Ela murmurou umas palavras na língua Mística, a língua mais antiga de todas. Falada em todo o Sistema Solar e na Lua, caíra em desuso depois da queda do Milénio Prateado.
Longe, a rapariga caiu da cadeira, imóvel. Uma flor azul saiu do seu corpo e iniciou a viagem rumo ao corpo da mulher, que de bom grado a esperou para a absorver. Não demorou muito a viagem, pois a Flor era mais luz do que corpo sólido.
E agora, tinha a Flor de Mercúrio.
Só faltava o encantamento final. Se usasse a quantidade de poder certa, teria aquilo que sempre desejara.
Correntes de luz controlaram a sua silhueta, iluminando-a como um farol. Ela sentiu um aperto, por causa do seu corpo mortal, inapto para receber tal poder. Precisava de sangue. Sangue não humano.
Sorte a dela que agarrava a mão de alguém que possuía esse sangue. Ele não precisaria de saber. Ela tentara ter poder anos antes e o máximo que conseguira fora a ajuda deste ‘homem’ que viera de outra galáxia, em busca de algo. Esse ‘algo’ fora encontrado na América e o seu lacaio logo o eliminou. Mas ficara encantando pela beleza dela e, desde então, tem feito tudo aquilo que ela pedira.
E agora, daria a sua vida por ela.
Ele gritou, dores incontroláveis perfurando o seu corpo. Ela ignorou os sons, concentrando-se no encantamento. Ele tentou largar a mão dela, mas ela apertou-a ainda com mais força, sentindo-se perto do seu objectivo.
Finalmente, atingiu o limite. E uma forte luz saiu da figura baixa, deixando para trás o seu corpo reduzido a pó.
E ela poderosa, com sete novas luzes a iluminá-la. Sete almas. Sete Flores.
Jamais se sentira assim. E sabia que a sua rival jamais fora assim. A batalha estava quase ganha.
Agora, só faltava a princesa.
**
Linda suspirou, o seu rosto encostado ao tronco de Eiji, enquanto os dois dançavam uma lenta valsa. Este olhou para a namorada com um sorriso e, ao vê-la a olhar para o outro lado, virou-se. Linda mirava Kenji e Mari que dançavam não muito longe dos avós de Linda.
-Que pensas? – Perguntou, apesar de ter uma pequena ideia.
-Ficam muito bem juntos. – Respondeu ela, sorridente. Atrás de si, o relógio anunciava dez minutos para a meia-noite e, consequentemente, para o seu aniversário.
-Pois ficam - concordou ele, beijando o topo da cabeça dela.
De facto, Linda não podia deixar de invejar o irmão por ter nos braços uma rapariga que ele sabia ser o seu amor eterno. A forma como eles se olhavam era semelhante à dos seus avós, e todos sabiam que aqueles dois só seriam separados pela morte.
Já ela, não tinha certeza. A sua vida amorosa corria às mil maravilhas e, por culpa da maldição, Linda não pensava em nenhum ‘depois’ de Eiji. Mas era naquelas alturas em que ela se perdia a pensar…
-Vem comigo. – Disse ela, agarrando as mãos do namorado arrastando-o para fora do salão. Percorreram corredores desertos, Eiji perguntando-se onde ela o levava, até chegarem aos jardins. Linda caminhou calmamente, o seu vestido a rastejar na relva verde húmida, sem largar a mão de Eiji.
-Cheira a eucalipto – comentou Eiji, esperando parar ali. Em vez disso, viu a namorada sorrir e levá-lo mais para dentro das árvores.
Quando pararam, a primeira coisa que Eiji viu foram jasmins no chão, junto a uma árvore, que não era um eucalipto.
-Este é o meu lugar secreto… bem, não tão secreto. Os meus pais sabem dele – acrescentou ela, ao ver o olhar duvidoso dele. – Mas isso é porque eles vêm-no pela janela do quarto.
-Porque me trouxeste aqui? – Perguntou ele, com o seu sorriso sedutor.
-Este é o meu lugar preferido aqui. Queria mostrá-lo a alguém especial.
Ela aproximou os seus lábios dos deles, deixando o toque provocar um tremor nos dois corpos, que rapidamente fluíram um no outro. Ele agarrou nas ancas delas, chegando-a mais perto de si e ela pôs a mão esquerda nos cabelos deles, como já era hábito, enquanto a direita tocava no rosto dele, movendo o maxilar dele uns meros graus, a fim de aprofundar o beijo.
Quando se separaram, estavam um pouco ofegantes, mas ansiosos por mais.
-És muito especial, Linda. – Sussurrou ele. Ela sobressaltou-se, lembrando-se daquilo que ele lhe dissera no ano novo. As mesmas palavras, o mesmo efeito.
-Estás enganado. – A mesma resposta.
-Porquê? Sabes lá tu os meus sentimentos.
-É claro que sei. – Disse ela, constrangida. – Tu gostas de mim e eu gosto de ti.
Eiji controlou uma gargalhada.
-Linda, já estou contigo há tempo suficiente para saber que não apenas gosto de ti. Eu…
-não digas. – Cortou ela, incomodada.
Ele ergueu o sobrolho.
-Porque te faz tanto dilema que eu to diga, Linda. Não sentes o mesmo?
Ela perdeu o ritmo respiratório. Como lhe dizer… como lhe dizer que ela só estava destinada a amar um homem? Um homem que não era ele…
-Eu…
-Mas que lindo! – Disse alguém sarcasticamente, vindo por entre as árvores escuras. – Que romântico.
Linda virou-se, sobressaltada. Ali, tão perto dela e de Eiji, estava nada mais, nada menos do que Dawson.
**
-Amo-te. – Disse Kenji ao ouvido de Mari. Ela corou. – Já te disse isto?
-Já. – Ela ganhou um novo pigmento de vermelho. – Algumas vezes esta noite.
-Não me canso de repetir. – Disse ele, beijando a bochecha corada dela. – Até porque ficas com uma cara.
-Não é costume os homens dizerem que me amam. – Retorquiu ela.
-Habitua-te. Não digo isto a todas. Aliás. – Acrescentou ele, deitando um olhar nos avós, que falavam com o pai. – Sou como a minha avó nestas coisas. Quando amo, é único e forte.
Mari sorriu.
-Eu também. Mas somos tão novos…
-O amor não tem idade.
-Verdade – concordou ela. – Mas nem sempre é amor maduro. Inconsciente é o que é.
-Não comigo… - sussurrou ele, beijando-a ternamente. Ela sorriu, aceitando o gesto, deixando que ele possuísse a sua boca. A sensação de fogo-de-artifício explodiu na cabeça dela, quando ele afastou-se. Parecia preocupado.
-O que foi?
-Onde está a Linda?
Mari olhou em volta. Nem a amiga nem Eiji podiam ser visto no meio daquela multidão.
-Devem estar nos jardins. Porquê?
Kenji demorou a responder.
-Tenho um mau pressentimento. – Voltou a consultar o seu relógio. Era quase meia-noite. E, talvez por ironia ridícula do destino, Kenji apercebeu-se de onde vinha o som que o incomodara desde o inicio da noite. Do seu relógio.
Tic tac
Tic tac
Kenji deixou-se ficar parado, a olhar para os ponteiros do seu relógio a avançarem a cada segundo. As palavras que Linda lhe dissera no seu sonho ecoavam na sua cabeça.
O tempo está a acabar…
Qual tempo? O que é que o avô queria dizer com aquilo? E Linda?
-Kenji? – Chamou Mari, abanando-o no ombro. Mas Kenji não respondeu. Entendera finalmente a mensagem.
Eles sempre souberam. Ela sabia. O tempo…
E, de certa forma, Kenji sentiu que era tarde de mais.
**
-Linda, quem é ela? – Perguntou Eiji, agarrando o braço de Linda instintivamente.
-Tu. – Cuspiu Linda, furiosa, ignorando o namorado confuso. – Como entraste aqui?
-Achas mesmo que essa é a pergunta mais importante Linda? – Respondeu ela, sorrindo venenosamente. – Sabes muito bem quais são as minhas intenções para ti. Devias estar mais preocupada com o que eu vim cá fazer…
Linda ficou pálida, ao aperceber-se da sua situação. Não só estava ali, sozinha contra Dawson, como também tinha que se preocupar com Eiji, de modo a que este não saísse magoado. Mas Dawson parecia ter pensado adiante. Fechou o punho e deixou que uma luz dourada se libertasse da mão, ofuscando os olhos de Linda. Quando esta ganhou o poder da visão, viu que Dawson sorria. E, atrás de Linda, Eiji não fazia um único som.
Nervosa, Linda deu meia-volta e fitou, horrorizada, os olhos de Eiji transformarem-se negros como os de Dawson. Sem hesitar, ele agarrou-a e prendeu-a à árvore, forçando o seu corpo contra o dela. Sendo ele mais forte, Linda não podia fazer nada a não ser submeter-se à força que ele exercia sobre ela.
-Eiji…
-É inútil, ele não te consegue ouvir.
-O que lhe fizeste? – Gritou Linda, tentando libertar-se mais uma vez. Mas os braços fortes de Eiji impediam-na de se mexer. Para piorar, Eiji agarrou-a de modo a que a sua mão direita estivesse livre e o resto do corpo forçava Linda contra o tronco da árvore. – Deixa-o em paz!
-Usei o poder das Flores para o controlar. Sabes, querida. As Flores são poderes da alma, ligam-se à nossa mente e fazem aquilo que nós queremos. E não, não o deixo em paz. Preciso dele.
Linda sentiu raiva subir-lhe à cabeça, contrastando com a fraqueza que começava a sentir no corpo devido à luta que dava a Eiji.
-Vim cá para… cumprir o destino. Mas vi vocês os dois juntos e pensei… e que tal uma história romântica? Como Romeu e Julieta? Um mata o outro.
Uniu as mãos e, a partir de uma bola de luz, surgiu uma adaga de prata. Linda ficou branca quando Dawson deu a adaga a Eiji.
-Sua…
-É pena Linda, mas os meus esforços tinham que conseguir frutos algum dia não achas? Eu, que vendi o meu corpo para ser rica, que mudei de país e aprendi a falar uma língua que não era a minha só para poder ter hipóteses com o Edward e poder acabar com a tua mãe. Ela roubou-mo e tinha que pagar. Sorte a minha que ela ficou doente. A única coisa que precisava de fazer era acabar com a família dela. Matar a filha, os pais, roubar-lhe o marido e…
-E…? O que vais fazer ao meu irmão, sua louca? – Gritou Linda, sentindo cada vez mais dificuldade em respirar. Um dos seus olhos estava posto em Dawson, o outro na adaga, cuja ponta estava virada para ela.
A mulher fez uma cara pensativa, que durou apenas uns segundos.
-A principio pensei em mantê-lo vivo mas, descobri recentemente que ele me dará outros usos. – Olhou Linda nos olhos, um brilho vitorioso emitindo no mar escuro que vinha na íris.
Linda lançou-lhe um olhar sombrio.
-Vais-mas pagar Dawson. Prometo-te. Anos antes, amaldiçoaste-me e agora faço-te o mesmo. Garanto-te, eu vou voltar e vou acabar com a tua vida TAL COMO ACABASTE COM A MINHA!
As palavras de Linda ecoaram no jardim, ouvidas apenas pelas três pessoas que ali estavam. Dawson ficou imóvel por um segundo, antes de lançar um olhar penetrante e vitorioso a Linda.
Ao longe, soou a meia-noite do quatro de Agosto.
-Happy Birthday, Linda. – Sussurrou a sua inimiga, virando as costas aos dois jovens.
E depois, tudo aconteceu depressa. Num segundo Linda olhava Dawson com profundo desprezo, noutro sentia Eiji a espetar-lhe a adaga direita no seu coração, enchendo o seu vestido de sangue. Linda só teve tempo para olhar nos olhos daquele que a esfaqueara, antes de cair na escuridão, imóvel, sem vida.
Ao longe, o relógio de Kenji parou.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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