Sailor Moon Portugal, A Navegante da Lua

Peep-Toe & All-Star

#181
He, he, he... Com saudades, ehm?
Bem, peço desculpa por não ter actualizado mais cedo, mas as inspirações não andaram em alta!
Bom, este capitulo poderá ser um pouco cansativo, visto que é inteiramente dedicado ao David(ou seja tudo se passa em redor dele e não há ponta de Margarett ou outra pessoa qualquer). Tive dificuldade em escolher um nome, logo, se tiverem mais sugestões, aceito. Junto com o capitulo, publico também uma montagem no polyvore e uma musica (que todos conhecem) cuja letra associo muito ao David e foi a minha principal fonte de inspiração para o capitulo, apesar de ele não ter ficado nada como eu tinha imaginado.
Enfim, espero que gostem! Desfrutem!

Capitulo 40 – Metas a Traçar
Don't you worry child
Spoiler
Peep-Toe & All-Star - Página 4 Thejourneyf
“Se queres viver uma vida feliz, amarra-te a uma meta, não às pessoas nem às coisas.”
Albert Einstein

Tic, Tac
Tic, Tac
Tic, Tac
O som de uma mulher a tossir foi abafado por um lenço de mão amarelado. Era o primeiro som que se ouvia na sala de espera, logo a seguir ao tic-tac insurdesedor do relogio de madeira esculpida que ocupava a maior parte da parede. A mulher olhou o lenço e depressa o dobrou, com vergonha da mancha de sangue que havia cuspido ao tossir.
O homem que estava ao lado dela, discretamente, levantou-se e afastou-se, com medo de pegar alguma coisa da senhora.
O telefone tocou. A velha secretária atendeu-o, com o mesmo ar de mal-humorada com que havia estado a tarde toda.
-David Paisen! – Chamou com a pronúncia errada – Pode entrar!
O rapaz suspirou e levantou-se, finalmente. Não precisava mais de se entreter com a observação à mulher que cuspia sangue e ao homem com medo das infeções. Caminhou até ao consultório minúsculo e fechou a porta que o separava da sala de espera asfixiante.
-Olá, David! Como estás?
David revirou os olhos, revoltado. Dr. Lanson fazia-lhe sempre a mesma pergunta, o mais simpaticamente que podia, porém aquele sorriso optimista tinha-se tornado irritante. David não o podia culpar. Era um bom médico e ainda por cima era cuidadoso e atencioso. Preocupava-se ao ponto que fosse necessário.
-Como correu a tua semana? Tens tido ataques de tosse?
-Um na terça-feira e outro ontem de madrugada.
-Hum… - Dr. Lanson franziu os lábios e apontou aquela informação na ficha – E o medicamento que te receitei? Notaste alguma melhoria?
-Sinceramente? Não.
David voltou a suspirar. Ele não queria estar ali. Em todo o lado menos ali. Não compreendia o que as pessoas diziam, não gostava daquela monotonia e a falta de lugares citadinos para passear tornavam tudo mais claustrofóbico. As visitas regulares ao médico, pior ainda. Não havia coisa mais aborrecida. Mas ele fazia-o porque queria voltar para casa. Era uma necessidade.
-Bom, vamos lá ouvir-te!
O doutor aproximou-se de David, que retirou a camisola, e colocou o estetoscópio nos ouvidos. Encostou-o à pele do rapaz que gemeu pelo frio.
-Inspira… - Ordenou. David fez o que o médico lhe mandara – Agora expira.
David tossiu sem querer ao tentar respeitar a indicação. Tapou a boca com a mão e tentou impedir-se de continuar aquela tosse.
O médico não fez cara feliz. Não era uma reacção boa.
-Fizeste a caminhada que te mandei?
David acenou afirmativamente, sisudo.
-E então? Como reagiram as tuas vias respiratórias?
-Quanto mais subia, mais complicado era de respirar.
-Mas isso acontece com toda a gente, David… Quero saber se tossiste sangue ou se tiveste uma crise de asfixia, por muito pequena que tenha sido.
O rapaz olhou o médico, inquieto, mas depressa desviou a sua atenção dele. Tinha medo do que a sua resposta queria significar.
-Aconteceu alguma coisa, David?
O gaiato engoliu em seco e bufou, revoltado:
-asfixia… - murmurou.
-E quanto tempo durou, sabes-me dizer?
David negou.
O médico, percebendo a pouca vontade de David para falar, retornou à sua secretária e sentou-se a anotar as informações de que ele lhe havia dado. Analisou a ficha do rapaz e depois, com uma esferográfica preta, anotou o medicamento que queria que David experimentasse.
O rapaz olhou pela janela enquanto isso. A chuva caia levemente e sem pressa, tendo deixado a paisagem completamente escura. David ainda não se tinha acostumado àquea humidade e irritava-o saber que tinha de ficar ali por muito mais tempo.
Após a consulta, o jovem saiu para o exterior do velho consultório e aconchegou-se no seu casaco grosso. Ainda pensou em esperar que a chuva parasse todavia a sua pouca experiencia no país era suficiente para ele saber que tão cedo ela não havia de cessar. Colocou o capuz, então, e enrolou o pescoço e a boca num cachecol de lã, recém-adquirido numa loja regional. Apesar de não querer admitir, aquela peça tinha-se tornado o seu mehor amigo, na medida em que lhe protegia as vias respiratórias das correntes de ar frio vindas do norte.
Numa passada rápida, ele entranhou-se na chuva, sentindo os pés a enterrarem-se na lama escorregadia.
Tossiu levemente. Sentia-se arreliado com tudo aquilo. Não gostava nada de tanta chuva, odiava o sutaque das pessoas e cada dia que passava, menos compreenda os entreternimentos daquela gente. Não havia um Lili’s Diner nem coisa que se assemelhasse. No máximo existiam tabernas que se encontravam de longe a longe em caminhos de terra. Nelas, porém, só encontrava velhos bêbados com canecas de Guinesse nas mãos, a falarem das tradições, dos animais e da pesca para logo após se embebedarem mais. Os poucos jovens que encontrava eram estranhos. Pastavam, labravam e o resto do tempo divertiam-se de formas que David não sabia quais eram, se é que existiam.
Ele suspirou quando avistou ao longe a casa de pedra baixa, com a chaminé fumegante. Apressou a sua corrida e quando finalmente alcançou a porta de madeira oca, entrou, bateu-a com força, retirou o casaco e pendurou-o no bengaleiro.
O pequeno espaço cheirava a chocolate, canela e eucalipto. David olhou em redor curioso. A casa não era muito grande. Era minúscula, na verdade. Não havia um hall de entrada nem paredes que separassem a suposta cozinha da suposta sala. Um compartimento valia por vários ao mesmo tempo. Na parede de frente para a entrada havia uma lareira que servia simultaneamente para aquecer a casinha e também para cozinhar graças a um sistema que Mr. Paisen havia arquitetado. A mesa das refeições encontrava-se mais á direita. Era feia, de um castanho baço que fazia crer que ela estava meia podre. Tambem ela tinha inúmeras funções. Ora era para comer, ora era para cozinhar, ora era para ler, ora para escrever, ora era para fazer contas á vida, ora era para se divertirem a jogar ás cartas. Depois, a seguir a ela, havia um frigorífico pequeno para pôr alguma comida. Não muita. E umas prateleiras com a mesma utilidade. Mais á esquerda, surgia um sofá, envolvido por mantas com duas almofadas. Ali era onde David dormia. Os pais tinham um quarto para eles ao subir as escadinhas que se encontravam á esquerda da lareira. A Casa de banho, essa, era quase nula. Uma pipa para tomar banho, sem água corrente, e uma sanita, cujas funcionalidades não estavam na melhor das formas.
David não podia deixar de reparar como as condições de vida da sua família tinham caído. Em parte, sentia-se culpado. E isso revoltava-o.
-Como correu, querido? – Mrs. Paisen foi de encontro ao filho e ajudou-o a retirar a camisola molhada para a pôr a secar à lareira.
David limpou a garganta, de rosto sério:
-Tenho que tomar um novo medicamento. E a bomba de asma mantém-se.
Mrs. Paisen tentou não parecer desiludida e segurou as mãos do filho:
-Bom, vem lanchar. Estou a fazer um bolo de chocolate!
David protestou, amuado:
-Não é preciso fingir que hoje é um dia para celebrar…
Grace levou a mal com aquele comentário:
-Aqui ninguém finge, David! E vais fazer cara boa, quer queiras, quer não. O teu pai deve estar a chegar e assim que ele estiver em casa será como todos os outros anos!
David baixou a cabeça, sem responder. Tinha sido injusto com a sua mãe, que no meio de todo aquele caos tentava manter um sorriso na cara de toda a família.
O rapaz voltou costas e dirigiu-se ao sofá que lhe servia de cama nos últimos tempos. Sentou-se, calado, e ligou o rádio. O sutaque irlandês invadiu logo o espaço, fazendo-o desligar o aparelho tão depressa como o ligara. Ele não estava com paciência para aquilo.
A porta de casa abriu-se num estrondo, revelando Mr. Paisen com um ar alegre:
-Parabéns, filho! – Exclamou, animado, trazendo debaixo do braço um presente embrulhado com uma grande fita.
David revirou os olhos, sem empolgação, no entanto a sua mãe lançou-lhe um ar tão reprovador que ele se viu obrigado a forçar um sorriso de animação.
-18 anos! – Continuou o seu progenitor, dando um passa-bem ao filho – Já és maior de idade! Como te sentes, rapaz?
David, inconscientemente, deu uma espreitadela na ranhura do correio que havia na porta de entrada. Tinha criado um hábito tão forte de receber cartas de Parabéns de Mag que um pingo de esperança ainda o fazia esperar que a mensagem chegasse a qualquer momento naquele dia.
Ao perceber que não havia nenhum envelope pendurado na porta, olhou o pai com descontentamento:
-Muito mais velho do que isso! – Respondeu, aborrecido.
Mr. Paisen tentou esconder o seu olhar de compaixão, para não entristecer mais o filho. Sorriu, deu duas palmadinhas nas costas do mais novo e fê-lo pegar no grande embrulho que lhe havia trazido.
-Vá! Abre o teu presente! – Insistiu Grace - Não é nada de mais, mas algo que precisas com certeza!
David tossiu levemente e analisou a caixa.
Abanou-a, como se tinha acostumado a fazer, percebendo que era algo pesado.Puxou a fita que celava o embrulho, portanto, e depois levantou a tampa. No seu interior estavam umas botas castanhas, com cordões. Eram robustas e pesadas. Ideais para a chuva e para caminhar sobre a lama escorregadia. David pegou-as, para experimentá-las:
-Obrigado! – Agradeceu, constrangido ao imaginar quando os pais teriam gasto naquilo. Depois da despesa de viajar sobre um oceano para chegar a Dublin e procurarem uma casa económica, não se sentia bem que os pais gastassem mais dinheiro por causa dele. Já tinha destabilizado as economias da família que chegasse.
Ele levantou-se e deu um beijo á mãe e um abraço ao pai em sinal de agradecimento.
-Acho que o bolo está pronto! – Anunciou Grace - Conseguiste as velas, querido?
O seu cônjuge retirou-as do bolso, sorridente.
Mrs. Paisen pegou no pano de cozinha e dirigiu-se até ao forno de lenha. Abriu a porta, fazendo o cheiro a chocolate invadir o pequeno espaço, e retirou uma forma com um bolo fofo e alto. O seu marido lambeu os beiços, augado com o aroma apetitoso:
-Hum! – Gemeu, esfregando as mãos deliciado – Bolo de chocolate!
-Como sempre, o vosso preferido!
David assentiu.
Sentaram-se os três á mesa, em redor do bolo, e Grace espetou-lhe as velas. Com um fósforo, acendeu-a e logo a canção do aniversário começou a ser cantada. David sempre adorara aquela celebração e apesar de todas as suas maleitas recentes, o seu encanto por soprar velas mantinha-se. Ele foi o primeiro a servir-se e logo após o seu pai, faminto após um dia de trabalho.
-Hum! Sabe a nuvens do paraiso! O melhor do mundo como sempre, minha querida! – Elogiou Mr. Paisen
Grace apertou a bocheha do marido e um beijo rápido nos lábios, divertida com o elogio dele.
-É verdade, David… - Lembrou-se o homem - hoje, na vila, encontrei um senhor que está a precisar de ajuda no campo. Ele diz que paga bem e, bom, já és oficialmente um adulto. Acho que chegou a hora de começares a fazer-te à vida. Que te parece?
David pousou a sua fatia no prato, pensativo. Não poderia negar aquela oferta. Estavam num novo país por causa dele. Era altura de ele pôr as mãos ao trabalho e tornar-se um homem a sério, contribuindo para as despesas da família. Se ainda estivessem na sua terra o cenário provavelmente seria semelhante. Ele tinha de abandonar o ninho algum dia e para isso precisava do seu próprio dinheiro.
-Quando começo? – Indagou.
O mais velho mostrou-se admirado com a predisposição do filho. Não esperava uma resposta tão positiva da parte dele, mas isso era bom. Levantou-se e pegou no casaco que pendurara no bengaleiro. Do bolso, retirou um papel branco, dobrado:
-Tens aqui a morada. O homem disse que quanto mais depressa melhor, mas se quiseres vais depois do fim-de-semana…
-Não! – Interrompeu David – Posso ir amanhã. Não tenho nada a perder.
Grace acariciou as mãos do rapaz, orgulhosa:
-Vamos a ver, Querido! Quem sabe não te fará bem trabalhares ao ar livre no campo. Respiras ar puro, conheces as redondezas…! Pode ser bom!
David assentiu. Voltou a pegar na sua fatia e continuou a comê-la em silêncio.
A chuva parou umas horas depois. Era entardecer já, mas o jovem não se importou. Saiu de casa antes de a mãe começar a fazer o jantar para que voltasse a tempo de se sentar á mesa com a família. Foi em rumo ao mar, perto de uma arriba. Era um ponto alto e tenebroso que conseguia transmitir uma sensação de fim do mundo, ou, pelo contrário, começo dele. David sentou-se no chão de frente para o pôr-do-sol. Aquela falésia era vertiginosa, apesar de conter um certo encanto natural. Ouviam-se as ondas bater violentamente contra as rochas e o vento a soprar com fúria. Por um lado, não havia lugar mais semelhante á sua alma do que aquele. Já não pedia para voltar a casa. Bastava-lhe pelo menos saber de Margarett. Encontra-la e tomá-la como sendo sua até ao fim dos seus dias. Podia estar num esgoto, desde que estivesse com ela uns minutos que fossem. Sentia saudades das suas palavras e do seu cheiro. Dava tudo até para discutir com ela! Era da forma que lhe sentia os nervos e as emoções à flor da pele.
-David…!
O gaiato olhou para trás, reconhecendo a voz do seu pai.
-Porque vieste para aqui, filho?
David voltou a virar a cabeça de frente para o horizonte:
-Eu precisava de… Pensar.
Mr. Paisen sentou-se ao lado dele e olhou na mesma direcção:
-Não é um país assim tão mau. Tem belas paisagens, não achas? Lá na cidade nem sequer dava para ver o mar.
David tossiu e depois suspirou, desanimado. Mr. Paisen compreendeu que não havia nada que lhe pudesse dizer para que ele ficasse mais contente. Não era tolo nenhum. Sabia bem qual era a maior aflição do filho naquele momento e tinha a certeza que só havia de parar quando ele tivesse notícias da rapariga que lhe havia dado a volta á cabeça.
-Não te preocupes, David. É uma situação passageira. Não tarda mudamo-nos para uma casa melhor e, depois de melhorares, quem sabe…!
-Pai, pára… Não é preciso fazer isto.
Mr. Paisen suspirou. Tinha de ser honesto com o filho se quisesse fazê-lo sentir-me melhor.
-David, olha para mim. – Pediu, esperando que o seu rapaz lhe obedecesse à ordem – Tenho a certeza que a Margarett está bem. Mas não te prendas à esperança de revê-la. A tua vida continua, filho. Quem sabe não conheces outra rapariga por cá!
-Não há nenhuma que eu queira além dela! – David sentiu-se ofendido pela suposição do pai – Ninguem compreende, pai! Ela não era só a minha namorada. É a mulher que eu amo, é a minha melhor amiga. É o amor da minha vida e isso mais nenhuma vai conseguir ser.
-Eu compreendo-te, David! Mas tu não tens opção agora! Vê aquilo que podes fazer e agarra-te a isso, mas não desperdices a tua vida á espera que ela regresse!
Os olhos de David acumularam líquidos, mas ele jamais os verteria à frente do pai.
“Os homens não choram”, não era mesmo?
-Não te preocupes, filho. Olha este céu e este mar… Que maior prova queres? Deus está a reservar uma coisa melhor para ti!
David voltou a encarar a paisagem para tentar observar o mesmo que o pai. Uma vez mais aqueles tons tenebrosos deram-lhe arrepiros, como se o limite do oceano lhe fosse capaz de marcar um destino. Discretamente, sorriu. Talvez o seu pai tivesse razão. Talvez a vida quisesse uma coisa mais forte para si. No entanto, ele duvidava que Margarett não estivesse incluída nesse destino.

***
No dia seguinte, o despertador tocou cedo. David entreabriu os olhos ensonado e admirou-se ao perceber que a lareira já estava com o lume aceso. Levantou-se do sofá, bocejando, e caminhou até ela para se aquecer um pouco antes de se vestir.
O endereço que o seu pai lhe tinha dado era um pouco longe dali, mais perto da costa. Ao ver a chuva previsível, percebeu que teria de vestir algo prático que o protegesse e as suas novas botas não podiam ficar em desuso.
Saiu de casa depois de embrulhar uma fatia do bolo do dia anterior e tomar um copo de leite frio.
Não levou guarda-chuva, apesar de gotejar. Não tinha paciencia para andar com aquele objecto na mão e sem dúvida que prefiria correr.
Infelizmente, ou talvez por falta de atenção, ele esquecia-se que os seus problemas respiratórios não eram propriamente generosos com ele. Bastava-lhe correr uns 500 metros para uma crise de respiração lhe abrandar o ritmo e obriga-lo a recorrer á sua bomba asmática. Quisesse ou não, tinha que aprender a viver com aquele “monstrinho”.
Viu-se obrigado a andar a um passo normal. A sua sorte era que não era esperado ainda, se não já seria culpado por atraso.
David avistou a fazenda numa planície de campos labrados e questionou-se se todas aquelas terras pertenciam á mesma pessoa.
Sem perder mais tempo, acelerou o passo. Alcançou a entrada da quinta rapidamente e, antes que ficasse encharcado, puxou uma campainha manual, esperando que o som da sineta trouxesse alguém.
Por entre a chuva, David viu um homem surgir, com uma capa impermeável cinzenta e um guarda-chuva:
-Quem vem lá? – Questionou o vulto.
David retirou a boina para se apresentar:
-Paisen! – Exclamou - David Paisen, Senhor! O meu pai disse-me que precisava de um ajudante.
O homem olhou o rapaz de alto a baixo, desconfiado. Tinha cabelo grisalho e uma pele murcha, um pouco suja pela terra. David julgava que ia encontrar uma pessoa mais nova. Alguem na casa dos 50 anos, talvez. Em vez disso deparou-se com uma pessoa cuja idade já era mais avançada. Ainda não teria 70 anos, mas para lá caminhava.
Um trovão sonoro despertou o homem das suas dúvidas, impulsionando-o a voltar para dentro de casa:
-Não fiques aí à chuva, rapaz! Entra!
David seguiu o homem em passos acelerados, mas não rápidos o suficiente para que ele não pudesse espreitar o cenário.
O lugar não cheirava propriamente bem. Um coberto protegia fardos de palha e ervas, sementes e rações de animais. Avançando mais, havia um espigueiro antigo e logo de seguida uma vacaria, um galinheiro e outras casotas para animais.
Um cão grande começou a ladrar ao sentir a presença de David, mas isso não o parou. Continuou a seguir o homem até chegarem a uma casa de pedra com a porta aberta.
Entraram.
O chão da entrada estava sujo com pegadas, mas ali o cheiro não era notório. David reparou na cozinha com louça suja na banca e fruta na fruteira.
-Quem era? – David ouviu alguém perguntar.
-O rapaz para no ajudar! – Respondeu o homem, parando numa pequena sala – Senta-te, se quiseres.
-Estou bem de pé, senhor. Obrigado.
-Sutaque das américas?
David assentiu.
-Hum. Penso que já sei quem te enviou. Essa tua forma de falar não me foi estranha.
-Meu pai disse ter falado com o senhor ontem.
-Sim, sim. – Assentiu o homem, sentando-se no sofá individual – Diz-me lá, então… Tens alguma experiencia com trabalhos de campo?
O jovem negou, envergonhado.
-Sabes ordenhar uma vitela crescida? Matar um frango? Alimentar um porco? – O homem continuou a palpitar, frente às negações de David – Tusquiar ovelhas?
-Lamento, Senhor. De onde eu vim, nunca precisei de fazer tais trabalhos, mas se me der uma oportunidade, acho que aprendo depressa.
-Roland…!
David olhou para a sua direita, apanhado de surpresa pela pronúncia irlandesa. Deu de caras com uma mulher com alguma idade. O cabelo maioritariamente branco estava preso ao fundo da cabeça, evidenciando a sua cara com rugas.
-Minha senhora…! – David fez uma pequena vénia por respeito – Peço desculpa pela invasão.
A mulher sorriu amavelmente e voltou-se de novo para o homem:
-Parece bom rapaz, Roland. Deixa-o ficar!
O mais velho juntou as mãos em fente ao queixo:
-Não te precipites, minha querida Ethel.
David não disse nada, mas apesar do seu silêncio não foi capaz de travar uma tosse leve.
-Sentes-te bem, filho? Essa tosse não parece boa! – Reparou a mulher – estarás a chocar uma gripe?
David corou bastante. Tinha até vergonha da ideia errada que tinha dado á senhora:
-Não, não, madame. Eu…! – Ele travou-se. Não sabia até que ponto revelar os seus problemas respiratórios limitava a sua oportunidade de emprego. No entanto, não poderia mentir. Mais tarde ou mais cedo todos haviam de notar a sua dificuldade em manter uma respiração normal – De vez em quando, tenho uns leves ataques de tosse… ou asma. Mas não é caso de alarme, eu prometo!
-Tens problemas respiratórios? – Indagou o homem.
David afirmou, incomodado.
-E achas que isso pode influenciar o teu trabalho de forma negativa?
-Não, senhor! – Negou David, alarmado – Por favor dê-me uma oportunidade. Sou bastante ágil. Certamente poderei ajudar em algo.
-É claro que sim. – Concordou a mulher - Estás contratado!
-Ethel! – Resmungou o homem.
A senhora ignorou e aproximou-se de David:
-Chamo-me Ethel Bards e este homem complicado é o meu marido Roland. E nós adoraríamos que ficasses. – Prontificou a senhora - Já não caminhamos para novos e precisamos de umas pernas e uns braços rijos para nos ajudar. Aceitas um café ou um chã?
-Não precisa de se incomodar.
-Não é incómodo nenhum! Com esta chuva não dá para fazer grande coisa ainda. Vamos esperar que melhore para comerçarmos e entretanto o meu marido explica-te como funcionam as coisas por cá.
David fitou o homem. Estava com cara de poucos amigos face à imposição da esposa e isso perturbou o rapaz.
-Se não lhe agradar que eu fique…!
O homem levantou a mão, para calar David:
-Começamos todas as manhãs às sete horas. Primeiro vamos para as vacarias ordenhar as vacas para encher o deposito de leite. De seguida alimentámo-las. Depois, vamos dar de comer às galinhas, às ovelhas e aos coelhos. O porco come mais tarde. – Explicou – Levamos as vacas a pastar para o campo mais a sul e as ovelhas vão para o mais alto, perto dos estábulos dos cavalos. Aproveitamos a viagem e alimentámo-los também. E também convém escová-los. Depois de tratar dos animais vamos tratar dos cultivos nas estufas.
David engoliu em seco. A boa vida a que se havia acostumado tinha chegado ao fim. Perguntou-se como um casal daquela idade ainda realizava todas aquelas tarefas diariamente.
- Aqui tens um café, meu jovem. – Disse a mulher, surgindo da cozinha com uma chávena sobre um pires.
-Obrigado, minha senhora. – Agradeceu David e uma gota de água caiu-lhe na face fazendo-o a olhar para o tecto.
-Oh, maldita fenda no telhado que me pinga tudo! – Resmungou a senhora, envergonhada - Bom, o meu marido já te explicou tudo?
-Sim, senhora!
-A chuva está a cessar um pouco, podemos começar então. Oh, quase me esquecia! Nem sei o teu nome!
-David Paisen, madame.
-Pois bem, vamos lá, David. Roland, mostra-te mais simpático, querido!
David sorriu pela chamada de atenção da mulher. Sentiu um friozinho no estomago ao segui-la. Ia esforçar-se para ter uma boa prestação e ficar uns bons tempos por ali.
A descrição que o velho Roland fizera do trabalho tinha sido fiel à realidade. David seguiu toda aquela ordem que Mr. Bards havia sugerido. Pela primeira vez na sua vida viu-se a cumprir tarefas que nunca se tinha imaginado a fazer. Passou o dia num vai e vem apressado, ora para alimentar animais, ora para apanhar batatas na terra. Almoçou rapidamente uma sanduiche que a mãe lhe tinha posto numa marmita e depois voltou ao trabalho. Não eram situações fáceis. Conduzir as ovelhas para os seus pastos tinha sido a parte mais estranha e se não fosse a ajuda do cão pastor, David não tinha a certeza se teria conseguido. Mas a sua parte preferida foi precisamente a que se seguiu. Nunca tinha visto cavalos sem ser em jornais ou na Televisão. E ao contrário do que estava à espera, foi amor à primeira vista. Ao início estranhou aqueles animais. Pareciam desconfiados com a presença dele. David percebeu que um passo em falso e ele podia muito bem ser vitima de um coice. Então avançou lentamente. Colocou a comida na pia e depois ficou a ver, encantado com animais tão bonitos.
-Depois escova-os. E leva-os para fora dos estábulos.
David deu um salto, apanhado de surpresa por Mr. Bards. O homem riu-se pela distração do rapaz.
-Peço desculpa! – Envergonhou-se David.
-Não te demores. Eles são muito vaidosos! – Afirmou o homem, atirando-lhe uma escova.
-É seguro?! – ele não pode deixar de perguntar.
-Ainda não. Mas terás de arriscar para teres o respeito deles. Depois disso vamos para as estufas.
David assentiu. O homem saiu dos estábulos e o jovem encarou a escova, inquieto. O cavalo relinchou, chamando-o para a realidade.
-Muito bem, cavalinho. Fica quieto…!
O animal seguiu os movimentos de David, relinchando novamente. O rapaz fez-lhe duas caricias no pêlo, tentando acalmá-lo, porem o cavalo empinou, afastando-o. David desviou-se, no entanto, o receio não lhe levou a melhor. Ele deu duas palmadinhas no lombo do bicho e alisou-lhe o pêlo com as mãos, tentando que ele parasse quieto. O cavalo mostrou-se relutante em deixar David levar a melhor, mas lentamente lá se deixou ser escovado, mais calmo.
David sorriu, vitorioso. Escovou o pelo castanho do corcel, sem perceber que o seu patrão o observava, admirado com a insistência do rapaz.
Depois daquilo, já só lhe faltavam escovar mais 6 cavalos e levá-los para fora do estábulo para comerem alguma erva fresca e correrem um pouco.
-Como se chamam? – Indagou quando se aproximou do patrão.
-Veloz, Duquesa, Malandro, Coronel, Preguiçoso, Luna e por fim Lider.
David olhou para a cerca onde os cavalos estavam e reparou naquele que ele tinha escovado primeiro. Era o único que corria, enquanto todos os outros apenas comiam erva. Perguntou-se se aquele seria o Lider ou o Veloz, tendo em conta a atitude. O Preguiçoso, foi fácil de identificar, a Luna, provavelmente seria a égua preta e a Duqueza a égua branca. O Malandro provavelmente era o cavalo que estava situado entre as femeas e os outros dois David ainda não tinha a certeza de qual era qual.
-São realmente bonitos. – Elogiou.
O homem olhou-o desconfiado:
-Sabes montar?
-Não, senhor.
David olhou em frente e entrou nas estufas com os animais ainda em mente, desejando um dia saber cavalgar.

***

Do outro lado do oceano, pairava no ar um conflito interno.
Mr. Wilson estava sentado no Lili’s Diner, um cenário que nunca tinha imaginado.
À sua frente, um jovem casal olhava-o com dúvidas e incomodo a pairar nos seus olhares. Não compreendiam porque razão tinham sido chamados ali, muito menos pelo pai de Margarett.
-Aconteceu alguma coisa, Mr. Wilson? – Indagou Daisy, desconfortável por estar ali - A Margarett mandou notícias?
Mr. Wilson limpou a testa com o seu lenço de mão. Estava nitidamente nervoso.
William franziu as sobrancelhas, tentando ler-lhe o rosto.
-Más noticias? – Perguntou.
O homem encolheu os ombros, sem saber o que pensar. Do bolso do casaco, retirou dois envelopes dobrados e colocou-os lado a lado em cima da mesa, virados na direcção dos dois jovens.
Daisy verificou pelos selos que uma das cartas vinha de França, como ela já previa, contudo a outra era-lhe de um remetente desconhecido. Analisou melhor o selo e percebeu que era uma carta vinda da Irlanda.
-Não compreendo… - Assumiu Will.
O pai da jovem Mag juntou apontou para os envelopes e humedeceu os lábios:
-Esta é da Margarett. – Disse, apontando para a carta vinda de Paris.
-E a outra? – Daisy sentiu um arrepio no peito. Algo lhe interior lhe dizia a resposta.
-Do David. – Murmurou, desagradado – Podem lê-las.
Daisy encarou o homem, desconfiada com aquele nervosismo todo. Pegou na de David. Naquele momento estava mais curiosa quanto ao paradeiro dele do que ao de Mag. Assim sendo, Will pegou primeiro na da ex-namorada. Depois trocaram as cartas.
-O que é que eu faço? – Questionou-se Adolfe.
William olhou o mais velho com relutância. As palavras de David eram nítidas como as cores num quarto iluminado. Ele estava na Irlanda, a tratar-se. Mandava cumprimentos de saudade da sua cidade e das pessoas que o estimavam. E, como não podia deixar de ser, ele queria saber se já tinham tido noticias de Margarett. A aflição dele em vê-la era forte o suficiente que a sua própria grafia transmitisse ânsia. William olhou para a carta de Margarett, debaixo do olhar animado de Daisy. E percebeu que em ambas as cartas o desejo de terem noticias um do outro era comum.
-Isto é optimo, Mr. Wilson! – Afirmou Daisy, animada - Eles estão tão perto! Pelo menos, mais perto do que eu poderia imaginar!
O filho do banqueiro travou a empolgação da latina. O ar de mr. Wilson mantinha uma questão no ar e ele queria compreende-la:
-Qual é o problema, senhor?
-Eu não quero dizer-lhes.
Daisy abriu a boca para protestar, numa perplexidade tamanha, mas ninguém a deixou falar.
-Voces não compreendem! – Desabafou Mr. Wilson - Conheço a minha filha… Aliás, conheço-os aos dois. Sei bem que são os jovens mais inconstantes que existem e que fariam tudo para se verem. E quando digo “tudo”, refiro-me a tudo mesmo! Já estou a imaginar o David a parar os seus tratamentos, que vocês bem sabem como são necessários, para atravessar o mar a nado apenas para encontrar a minha filha. Já ela, cometeria uma loucura. Eu não quero que ela caia no erro de largar tudo para ir ter com ele. A Margarett está numa fase difícil, mas está conseguir estabilizar-me minimamente enquanto não vconsegue voltar. Não quero que ela se coloque em problemas numa fase tão delicada. Conhecendo-a como conheço, sei que ela era capaz de fugir à própria lei só para chegar ao David…
William pestanejou, indignado:
-Então não vai dizer-lhes?! Vai deixa-los a viverem na ignorância?!
Daisy levantou-se do banco que partilha-va com William, estupefacta:
-Isso não é justo! É uma insanidade! – Protestou fora de si – O destino está a dar-lhes uma oportunidade para…!
-Eu não lhes vou dizer! – Adolfe cortou a voz da rapariga de um modo quase implacável – Eu sinto muito… - Murmurou – Não devia ter-vos contado, mas isto estava a corroer-me.
-E vai corroe-lo pelo resto da sua vida se não lhes disser! – Reclamou a rapariga, irritada - Especialmente ao David! Não acha que ele precisa também de alguma esperança e motivação para se curar?!
As duas cartas voltaram para as mãos do marido de Dorianne. Ele guardou-as novamente, com uma expressão séria patente nos traços do seu rosto cansado:
-Dir-lhes-ei mais á frente, quando achar que eles já estão prontos.
-Isso significa que vai responder ao David, pelo menos? – Indagou William, incompreensível.
O silêncio tomou conta das expectativas dos mais novos durante uns momentos.
-Não sei.
Daisy pegou na sua carteira, revoltada, e saiu porta fora, deixando apenas os dois homens. William abanou a cabeça em sinal de repreensão e levantou-se também do banco e falou-lhe uma última vez antes de ir atrás de Daisy:
-Faça o que achar melhor, Mr. Wilson. Mas se eu fosse a sua filha nunca o havia de perdoar…
E dito aquilo, foi-se embora.

Mr. Wilson sabia que as suas decisões trariam consequências fossem elas quais fossem. No fundo, o destino do jovem casal estava nas suas mãos, no entanto, isso não lhe dava uma resposta pronta do que ele havia de fazer.
Então os dias foram passando e as semanas transformaram-se em meses. Quer dum lado do oceano, quer do outro o tempo não mostrou paciencia e os dois jovens aprenderam a viver com o acto de Mr. Adolde Wilson, desconhecendo-o por completo.

-Noticias? - Indagou M. Tissou ao ver Margarett atenta a uma carta do pai.
A rapariga abanou a cabeça na negativa, angustiada, mas suprimiu a sua falta de fé e voltou ao trabalho, ansiando o dia em que o pai lhe escrevesse com notícias de David.



Até à próxima Gente (seja ela quando for)! LOL
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#182
Olá Lulu!
Bem vinda de volta! Já fazia falta um capítulo teu. Wink
Dedicado totalmente ao querido David, é evidente que não poderia achar cansativo de ler, até fiquei bastante contente. Nunca me canso de ler sobre ele. Hehe Matreiro
Gostei muito do capítulo. E fiquei ansiosa por saber o que irá acontecer daqui para a frente com ele. Espero que aprenda a montar como deseja, e que o pai tenha razão, que a vida reserve algo de muito bom naquele país. Seria bom se ele recuperasse a saúde e deixasse de ter aqueles ataques de asma e asfixia, pobrezinho. Sad
Por acaso até concordo com o Mr. Wilson. Claro que quero vê-los juntos, mas há um tempo para tudo e agora acho que não é mesmo a melhor altura para nenhum deles. Neste momento estou mais interessada no desenvolvimento pessoal de cada um nos respetivos países.
E então a Daisy e o Will estão juntos? Usaste a expressão “jovem casal”, por isso questionei-me se aqueles dois já mostram algum progresso.
Vou continuar a acompanhar a fic, leve o tempo que levar, lol. Wink
Por isso, até daqui a uns meses? Razz
Beijinhos* Smile
#183
Ah sim, já estava com saudades mesmo. Só espero que o próximo não demore! x)
Acerca do capítulo em si, gostei imenso. Não o achei cansativo por ser todo em volta do David, até porque há comentários atrás sugeri-te que fizesses isso mesmo. Pode-se dizer que a experiência foi um sucesso. cheers Gostei do casal para quem o David vai trabalhar. Parecem boa gente e, se o Roland se mantiver rabugento, vou gostar ainda mais dele Matreiro
Devo dizer que, a principio, não acreditei que eles tivessem ido para tão longe. Li a descrição das paisagens, tabernas, o sotaque (escreve-se com "o") e a cerveja Guiness.... Já sabia que era a Irlanda antes de mo dizeres, mas ainda assim custou-me a acreditar. Tentei pensar que estavam apenas numa terriola num estado qualquer dos EUA, onde se bebia muita cerveja irlandesa. Pensar que os pais deles iriam a tal extremo a mudar de país. E a Vicky?
Duvido que o David recupere tão cedo. De certa forma, acredito que os seus pulmões já não voltem a serem os mesmos, visto que ele quase que os asfixiava com fumo. E acho também que ele tão cedo não vai querer sair da Irlanda. É apenas um bitaite, mas imagino o David como rapaz do campo e acho mesmo que ele acabará por gostar daquela vida e, se ele de facto não melhorar, não estou a vê-lo a sair dos campos de ar fresco tão cedo.
Estou a gostar do rumo da história. Agora estão separados no mesmo continente, mas a quilómetros de distância. Quero ver se (e como) se voltarão a reencontrar.
Bun escreveu: Por acaso até concordo com o Mr. Wilson. Claro que quero vê-los juntos, mas há um tempo para tudo e agora acho que não é mesmo a melhor altura para nenhum deles. Neste momento estou mais interessada no desenvolvimento pessoal de cada um nos respetivos países.
Partilho a opinião da Bun. Prefiro saber se o David aprende a andar a cavalo do que ter mais um capítulo com eles a choramingarem um pelo outro. Com a Bun disse, há tempo para eles se reencontrarem e adoraria vê-los a "seguirem" a vidinha deles mas sem nunca verdadeiramente esquecerem o outro x)
Só uma questão, porque é que o Sr. Adolfe não arranja forma da Maggie voltar para casa? Pode não ter condições, mas disseste no último paragrafo que passaram-se meses e até fiquei preocupada quando ele nem sequer mencionou ao Will e à Daisy que tencionava ajudar a filha. Deu-me a sensação de que estava à espera que a Maggie arranjasse o dinheiro ela mesma. Shocked

Vamos a ver como isto corre (:

P.S Acho que devias mudar o titulo mais uma vez. Passa a ser Peep-toe e Botas, já que o David encontra-se numa terra onde não convém usar as suas All-star Matreiro

P.S 2 - Acho mesmo irónico o David ainda virar um pastor, tipo o seu homónimo (o Rei David do Antigo Testamento, antes de governar Israel) Laughing
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
#184
FINALMENTE CONSEGUI VIR LER.... EIHHHHHH

Enfim, eu já sabia como ia decorrer mais ou menos esta história. Tenho pena q ainda não tenha sido a história da Caroline, mas estou confiante que seja a proxima Very Happy

Já sabes a minha opinião quanto ao David se estar a transformar num pastorzinho Mal disposto', não gosto, porque não gosto de quintinhas sujas e lameirentas, e nem gosto de campo (campo campo)

Odeio que tenhas transformado o pai da Margarett num mau da fita... ele devia contar pelo menos à filha onde o David está, para assim ela conseguir juntar dinheiro e ir ter com ele. Acho que ele faz bem em não contar nada ao David, pois ele está mau de saude, e visto como eles são, provavelmente iria ter com Margarett a França, mas pelo menos contava à filha, que não está doente, apenas pobre, e isso com emprego arranja-se aos poucos...
Enfim, fico à espera do próximo capítulo, porque tenho a certeza que vai ser sobre a Caroline Esperancoso

Bijus Bijus Very Happy
#185
JÁ AGORA... ADORO Q TENHAS SEGUIDO O MEU CONSELHO E METE-LOS NO IRLANDA
UHUHUH
#186
Alô!!!
Voltei gente! Muhahahaha!
Desculpem a demora, andei sem vontade (para variar)

Bom, o motivo que me fez vir postar hoje foi porque a minha mais recente leitora, Carolina Vaz, está de Parabéns! Assim sendo, resolvi dedicar-me o dia todo ao capitulo para conseguir postá-lo no dia de aniversario dela! Agradeçam-lhe (a sério, se nao fosse isto acho que tão cedo não pegada na fic! Matreiro ).
Enfim, não está muito grande, mas como o anterior também não estava, façamos de conta que são capítulos especiais! Twisted Evil
Para disfarçar um bocado o sabor a "pouco", complemento este capitulo com imagens de inspiração, a começar por uma capa do Polyvore! Embaracoso
Espero que gostem! Very Happy



Capitulo XLI – Je Suis Caroline!

Peep-Toe & All-Star - Página 4 17791754


A amizade mais sólida é a que existe entre iguais.
Cúrcio Rufo

Margarett acordou com raios de sol a baterem-lhe na face. Bocejou, enleada, e encarou o azulejo do chão, rente a si. Durante a noite tinha-se movido demais e provavelmente acabara por cair do colchão improvisado. Era feriado, por isso ela não estava com pressa de se levantar. M. Tissou não ia trabalhar o dia todo, logo ela estava livre para passear um pouco pela cidade.
A moça levantou-se com preguiça e embrulhou-se no cobertor para se proteger do frio antes de se vestir. Dirigiu-se até à porta da loja e por entre as persianas espreitou o exterior. Estavam imensas pessoas nas ruas, por ser dia 11 de Novembro, o dia do Armistício*. Ela também queria sair no entanto não tinha um vestido decente para usar num feriado. O único que tinha fora comprado com a ajuda de dinheiro que o pai lhe havia mandado e era de uma material reles e com uma silhueta indefinida. Tinha defeitos de confecção e nem sequer lhe assentava bem. Mag suspirou, desgostosa. Olhando em redor encontrava uma loja repleta de tecidos finos e caros, que nas suas mãos resultariam sem dúvida em belas peças de vestuário. Sentia-se deprimida por ver aquilo tão perto e ao mesmo tempo estar-lhe tão longe.
Os seus pensamentos foram interrompidos por batimentos aflitos na porta da retrosaria. Ela olhou o relógio, sabendo que M. Tissou estava atrasado e ponderou que era melhor atender quem quer que fosse. Sabendo que estava em preparos indecentes, vestiu um casado de malha e espreitou de novo pelas persianas para tentar ver quem era. No exterior, viu uma cliente familiar, cheia de pressa para que lhe abrissem a porta. Margarett lá a abriu, pronta para avisar que o seu patrão ainda não tinha chegado.
-Bom dia! – Exclamou a jovem mulher, educadamente, mas nitidamente ansiosa.
Margarett apertou o casaco contra o peito com as mãos, envergonhada por ver a jovem tão aprumada, tal como ela gostaria de estar se pudesse.
-Bom dia! Monsieur Tissou ainda não chegou! – Prontificou.
-Ele ainda demora muito? Estou muito aflita, preciso que ele me atenda!
Margarett olhou para dentro da loja, sem saber o que fazer. Ela não tinha permissão para atender clientes:
-eu lamento, mas não posso vender-lhe nada. Era para comprar algo em especial?
-Sim!... Bom, não especificamente. – Hesitou a mulher - Preciso de conselhos de M. Tissou antes de mais.
-Bom, se eu puder ajudar…
A loira sentiu-se observada pela outra, como se num olhar de cima a baixo tivesse sido avaliada. Margarett já conhecia aquela pessoa de vista. Aliás, havia troçado de Patrick por causa dela, afinal de contas ela era uma espécie de musa para ele. De facto, era difícil não chamar as atenções. Assemelhava-se a uma flor de cerejeira, pele clara e suave, quase como a neve. Estava particularmente agasalhada, com a boina branca pendurada sobre os cachos castanhos e um casaco de fazenda tão quentinho que dava inveja só de olhar.
Por momentos, Margarett reflectiu-se nela. Talvez em quem ela era antes de tudo o que se tinha passado. Elegância, graciosidade, educação e simpatia. Margarett fora assim. Vestia os mais belos vestidos, tinha o cabelo mais arranjado e usava os sapatos mais altos. Agora via-se com vergonha de se expor a pessoa com tal imagem. Perguntou-se se outras pessoas já se tinham sentido rebaixados ao seu lado, tanto como ela se estava a a sentir em relação àquela pessoa.
-Não sei… Talvez seja melhor esperar.
Perante tal insinuação, Margarett sentiu-se ainda mais constrangida. Decidida, abriu a porta na sua totalidade para que a jovem compreendesse que devia entrar. Ela própria ia provar a si mesma e àquela pessoa que ainda era capaz de ter noção de estilo. Então arriscou. Atravessou a fronteira imaginária que dividia o espaço do cliente, do espaço do patrão. Colocou-se atrás do balcão, pegou num metro e numa tesoura e colocou tudo sobre ele.
-Então diga-me, Mademoiselle…? – Margarett esperou que a outra lhe dissesse o nome.
-Caroline Chevalier! – Respondeu a rapariga com atitude, como se estivesse orgulhosa do seu nome.
-Pois bem, Mlle. Chevalier, Em que precisa de ajuda?
O olhar da cliente não foi o mais convencido:
-peço desculpa, mas duvido que me consiga ajudar! Afinal, é a rapariga das limpezas, não é? Acho que é melhor esperar por M. Tissou para ter uma opinião mais profissional!
Margarett sentiu-se levemente ofendida, mas não podia julga-la. A sua aparência e as suas funções naquela loja não transmitiam segurança e isso ela bem sabia. Afinal de contas, já havia estado do outro lado do balcão na mesma situação que aquela mulher.
-Bom, se prefere, então pode esperar aqui na loja. M. Tissou não deve tardar.
Ambas assentiram. Margarett manteve-se do lado de dentro do balcão por uma questão de segurança. Um clima estranho ficou no ar devido ao silêncio que se tornou constrangedor. Margarett voltou a analisar aquela sujeita. Devia ser pouco mais velha que ela. Talvez dois anos ou três, se tanto. As atenções dela estavam nas prateleiras dos tules e isso gerou a curiosidade de Margarett uma vez mais. Ela queria saber quais as ideias que iam na cabeça da cliente. Queria antecipar-se como costumava fazer com as clientes da sua mãe. Mas sem a oportunidade certa, ela não poderia fazê-lo. Suspirou, e voltou a olhar o relógio. M. Tissou estava a demorar-se e o bater do pé no chão foi inevitável. Mag pegou numa caneta que estava pousada no balcão e começou a brincar com ela num pedaço de papel rasgado e, distraidamente, começou a desenhar as silhuetas base que costumava desenhar antes de esboçar um vestido. Estava a pensar seriamente em comprar tecido a M. Tissou e a coser um vestido todo à mão, já que não tinha máquina de costura. Queria uma peça rodada, com mangas compridas por causa do inverno, decote redondo, cintura subida e…
-Desenhas bem!
Margarett deixou cair a caneta sobre o pequeno esboço, apanhada sem contar. Quase sem se aperceber tinha desenhado um vestido e a cliente tinha reparado. Mag amarrotou a folha e colocou-a no caixote do lixo, envergonhada.
O silêncio voltou a pairar no ambiente. No meio daquele desespero da espera, Mlle. Chevalier abriu a sua mala e retirou de lá um caderno e umas folhas soltas. Expôs tudo a Margarett e por fim cedeu:
-Eu preciso de uma opinião o quanto antes! Só para que saibas, trabalho na companhia de Ballet de Paris, e o que preciso hoje é de umas boas metragens de tecido para os fatos das jovens por causa do bailado de Natal. Tenho aqui as medidas de cada uma, no entanto ainda estou com sérias dúvidas em relação ao Design dos vestidos.
Margarett olhou para os apontamentos de Mlle. Chevalier. Parecia ser extremamente organizada. Não havia nada em falta e tudo estava dividido por cores. Especificava que o bailado de Natal era “O quebra-Nozes” e os papeis que cada menina, todas com idades entre os 12 e os 14, iam desempenhar. Um arrepio de empolgação atravessou o peito de Margarett.
-Então…? Não devemos esperar pelo M. Tissou?
A jovem negou e sorriu:
-Já vi que ele vai demorar. Bom, o que eu queria era algo em tons claros, visto que elas são jovens. Estava a pensar em fazer os fatos das fadas das flores com um tecido estampado em tons de cor de laranja e verde e os das fadas do gelo em azul e branco, mas não sei, acho que fica demasiado comum e óbvio!
Margarett deu um pulinho de entusiasmo. Não se queria exaltar, mas já estava com uma ideia em mente e tinha de partilha-la:
-Porque não em vez do tecido estampado, fazer aplicações? Podiam-se cozer flores, folhas ou pétalas artificiais à parte do tronco! – Mag começou a rabiscar outro papel, inspirada – E para as fadas do gelo, podia haver uma alternativa também, como lantejoulas azuis ou brancas…!
-Ou então pérolas ou rendas! – Completou a outra, seguindo o raciocínio com o mesmo entusiasmo – Sim, sim, e nos tutus podia também fazer uma bainha trabalhada a combinar com a parte de cima!
Os olhos de Mlle. Chavelier brilharam de satisfação e euforia. Ela arrancou a caneta da mão de Margarett e complementou o esboço rápido dela. Deu uma gargalhada divertida com a situação e olhou logo em redor em busca dos materiais que lhe haviam de servir para os figurinos:
-Oh, que bom. M. Tissou tem aplicações em bordado!
A sineta da porta tocou no preciso momento.
Margarett corou, apanhada desprevenida por M. Tissou que a olhou com ar de inquietação.
-Mademoiselle Caroline! – Saudou o homem com um beijo na mão da cliente, cortês como sempre. Margarett aproveitou a deixa para sair do lado de dentro do balcão – Que bons ventos a trazem cá no Dia do Armistício?
-Monsieur Tissou, que bom que chegou! Estava desesperada para falar consigo!
O homem olhou Margarett por cima dos óculos:
-A minha funcionária atrasou-a?
A jovem riu-se:
-Não, não! Pelo contrário! Não fazia ideia que tinha uma estilista dentro da loja!
Margarett corou, sem saber o que dizer. O seu patrão olhou-a, admirado e desconfiado:
-Tenho?
Margarett baixou a cabeça, sem saber classificar se sentia orgulho ou vergonha daquele elogio. Embrulhou-se melhor no casaco e tentou explicar-se:
-Peço desculpa, M.Tissou... Mlle. Chevalier estava com muita pressa e então eu deixei-a entrar para esperar por si. Sei que não devia ter invadido o seu espaço, mas fi-lo por uma questão de segurança.
-Serviste a cliente?
-Não, senhor!
Caroline Chevalier olhou indignada para a cabeça baixa de Margarett Wilson:
-Serviu, sim! M. Tissou, a menina… - A questão do nome ficou no ar.
-Margarett! – Prontificou o senhor.
-Pois bem, a Margarett ajudou-me no passo mais importante. Ela ajudou-me no Design dos fatos de ballet para as minhas alunas. Agora será mais fácil para comprar os materiais!
-Na verdade, as ideias já vinham quase formalizadas, M. Tissou! – Corrigiu Mag, insegura.
O homem riu-se pelo nervosismo da sua ajudante. Percorreu o caminho para o seu lugar habitual atrás do balcão, pegou no metro e bateu-o na palma da mão:
-Oh, minha cara Margarett… Não precisas de ficar tão preocupada! Confio em ti e já devias saber disso! Mostra-me lá então os teus famosos desenhos, que para minha admiração eu desconheço!
Mag franziu as sobrancelhas. Não tinha desenho algum que se orgulhasse em mostrar.
-Eu acho melhor vestir algo mais adequado. – Murmurou com um rubor inocente nas maçãs dos rosto.
M. Tissou não insistiu. Voltou-se para a cliente e sorriu amavelmente:
-Pois então, em que posso ajuda-la?
-Antes de ir ao que interessa, tenho de lhe perguntar se conhece alguma boa costureira por estas bandas?
-O que aconteceu com a Madame Muller? – O vendedor não pôde esconder a sua questão – Está doente?
-E velha! – Mlle. Chevalier riu-se pela triste verdade, mas logo retomou o ar educado - Peço desculpa! – Corou, depois de perceber a sua rudeza – A verdade é que Mme. Muller já estava cansada e resolveu aposentar-se. É perfeitamente compreensível na sua idade, mas deixou-me um grande problema em mãos. O bailado de Natal não tarda e não tenho ninguém para me ajudar a confeccionar os figurinos.
-Hum, de facto um problema!
-Se não encontrar ninguém terei de fazê-los eu, mas tendo em conta que preciso de organizar os ensaios, não sei se consigo gerir tudo sozinha.
-Tentarei ver se há alguma costureira disponível se bem que… - M. Tissou fitou a porta que dava para o quarto improvisado de Margarett. Coçou a barbicha, pensativo, e sorriu para si mesmo. – Acho que já sei, Mlle. Caroline.
-Deveras?
O homem acenou afirmativamente:
-Margarett! – Chamou.
A rapariga saiu apressada da outra divisória, enquanto prendia o cabelo num coque alto:
-Sim, senhor?
-Elucida-me, minha cara. De facto trabalhaste como costureira, não é verdade?
Margarett teve flashes da imagem da sua mãe ditadora. Sentiu um arrepio que lhe percorreu toda a espinha e restantes partes do corpo. Nem sabia se aquela pergunta devia ser respondida.
-Porquê? – Indagou antes de responder.
-Mademoiselle Caroline precisa de alguém experiente no ramo para a ajudar. Segundo me recordo, tu disseste que trabalhaste vários anos na costura! O que achas de ajudar Mlle. Chevalier até ao Natal?
-Oh sim, por favor! – Mlle. Chevalier não escondeu o seu contentamento. Num só dia ia conseguir uma estilista e uma costureira, tudo no mesmo pacote.
Margarett gaguejou, apanhada de surpresa pela proposta:
-E as minhas funções aqui na loja?
-Não preciso de ti durante todo o dia. Alem disso, será uma mais-valia para ti, decerto.
Mag hesitou:
-Bom… Eu não sei…
-Eu pago bem! – Prontificou Caroline.
Margarett não estava preocupada com o dinheiro, apesar de que ao ouvir aquilo a sua inclinação para aceitar fortaleceu-se. Ela precisava daquilo e M. Tissou tinha razão.
-E se eu não conseguir estar á altura?
A outra jovem encolheu os ombros, optimista:
-Vais estar! Por favor, eu preciso mesmo desta ajuda!
Mag mordeu o lábio, insegura, mas por fim sorriu e aceitou. A reacção de Mlle. Chevalier foi bater palmas de alegria e agarrar as mãos frias de Margarett:
-Então não percamos mais tempo. Quero que dês também a tua opinião em relação aos tecidos! E já agora, trata-me apenas por Caroline!
Monsieur Tissou riu-se. Caroline devia ter apenas mais dois anos do que Margarett, se tanto. Apesar disso, e também por vir de uma família de classe alta, ela tinha uma carreira já assegurada. M. Tissou sabia que ela praticava ballet desde a infância e depois de alcançar um bom estatuto na companhia, resolveu começar a dar aulas de ballet às dançarinas mais jovens. Não obstante, Caroline Chavelier era uma das suas melhores clientes, já que nutria um gosto pela moda em geral, o que era notório pela vaidade constantemente empregue no seu vestuário do dia-a-dia. O homem teve um pressentimento que as duas se iam dar bem e, sobretudo, tinha a boa fé de que Caroline ia ajudar Margarett a melhorar as suas condições de vida.
-Estás livre amanhã à tarde? – Indagou Caroline para Margarett.
Mag olhou o patrão e este assentiu.
-Quero que venhas comigo!
-Aonde? – Perguntou Margarett.
-Conhecer as bailarinas e também a Opera Nacional de Paris!
Margarett não soube até que ponto ia conseguir equilibrar-se no meio te toda aquela agitação. Parecia-lhe uma ascensão muito rápida e sabia que dessa maneira a queda seria mais alta e desastrosa, mas não teve como se prender. Estava num patamar demasiado baixo para ter alguma coisa a perder e tudo o que vinha a seguir era lucro. Tinha agendado na sua mente o que precisava de fazer assim que pudesse e entre as suas prioridades estava procurar os seus velhos amigos, Adeline e Olivier, e depois saber por onde andava a sua progenitora.
Esta ultima era uma necessidade de defesa. Precisava de lhe conhecer os passos, para não voltar a cair-lhe em posse.
Mantém os teus amigos próximos e os teus inimigos ainda mais próximos! Reflectira durante dias.

Assim, no dia seguinte, após o almoço e deixar a retrosaria minimamente limpa, Margarett encontrou-se com Caroline Chevalier uns quarteirões á frente. Ela esperava-a dentro de um carro reluzente, cujo era conduzido por um homem elegantemente vestido de terno. Este abriu-lhe a porta traseira do automóvel para que ela se juntasse a Caroline.
-Boa Tarde! – Saudou Margarett, e uma vez mais sentiu-se intimidade pelo contraste das suas roupas modestas e sem graça ao lado da indumentária de Caroline Chevalier.
-Olá! – Cumprimentou a outra, calmamente.
Margarett olhou para os seus próprios sapatos. Faltavam-lhe graxa e já estavam gastos. Ainda eram os mesmos que ela tinha quando a sua mãe a sequestrara. Ao reflectir sobre o local para onde se dirigia, Margarett corou e encarou Caroline.
-Peço desculpa por não me apresentar com uma roupa melhor.
Caroline, que olhava pela janela descontraidamente, encarou-a sem expressão. Aconchegou o seu casaco de pêlo ao pescoço e olhou-a de cima a baixo.
-Com o tempo havemos de tratar disso. Não há nada mais revitalizante para mim do que uma tarde de compras!
A loira não compreendeu até que ponto aquilo lhe dizia respeito. Ajeitou-se melhor no banco traseiro e admirou as ruas parisienses até chegaram á Ópera Nacional de Paris. Era um monumento arrojado, com características Barrocas. Margarett recordava-se de passar por lá inúmeras várias vezes nos fins-de-semana com os pais, mas nunca se tinha dado ao luxo de entrar no edifício.
O chofer parou o carro á frente da porta principal e saiu do seu posto para abrir a porta às duas damas.
Caroline foi a ultima a sair da viatura. Pisou a calçada com uns sapatos de verniz azuis e colocou um chapéu a combinar. Pôs a sua carteira pendurada na dobra do braço e, para surpresa de Margarett, segurou-a pelo braço para que caminhassem juntas.
-Já alguma vez vieste á Ópera?
Margarett negou, adentrando no resplendoroso monumento. Ao contrário do que esperava ainda era mais belo por dentro do que por fora. Foi logo recebida por um hall em tons de dourados e umas escadarias trabalhadas, completadas com esculturas e candelabros altos.
Caroline seguiu até à recepção e assinou uma ficha. Depois, subiram as escadarias e passaram por baixo de um dos arcos de volta perfeita que dava acesso a um corredor amplo.
-Eu posso estar aqui? – Margarett teve de perguntar, sentindo-se demasiado pequena ali no meio.
-Estás comigo, portanto, sim!
Mlle. Chevalier riu-se com o espanto de Margarett e abriu-lhe uma porta esculpida que surgiu em frente:
-Apresento-te a Ópera Nacional de Paris!
Margarett abriu a boca, intimidada. Nenhum ser humano podia morrer sem ter direito a ver algo assim. O espaço era logo apresentado com inúmeros lugares sentados que corriam até ao palco. Olhando para cima, era visível uma pintura Barroca no tecto, após quatro andares de espaços Vip. Caroline voltou a rir-se com o espanto da nova ajudante:
-Vamos aos bastidores! – Propôs a mais velha.
-Sim! – Concordou Mag.
Ela seguiu Caroline ao fosso onde continha os instrumentos da orquestra e de seguida subiram ao palco. Margarett engoliu em seco com a visão ampla do espaço e continuou o seu percurso até aos bastidores.
Lá, para além de diversos adereços, havia um corredor com portas de camarins. Tudo era ostentoso e inacreditável. Caroline parou numa das portas e só para satisfazer a curiosidade de Margarett abriu-a e mostrou-lhe o interior de um camarim, onde havia um tocador com um espelho rodeado por luzes, um chariot com alguns figurinos e um baú, sem contar com um sofá de pele e uma mesa de devia servir para comer.
-Até dá vontade de dormir aqui, não? – Caroline suspirou e descalçou as luvas que levava nas mãos – Bom, vamos ao que interessa Margarett. Daqui a 15 minutos começa a aula da Madame Rosseau e vais poder conhecer as bailarinas que vão actuar no “Quebra-Nozes” deste Natal. Depois disso, vamos estar com cada uma para lhes conheceres a fisionomia.
Mag assentiu. Sentia-se um pouco muda com tudo aquilo. Não sabia o que dizer em relação ás ordens de Caroline, muito menos quando ela era simpática. Tinha um certo receio de decepciona-la e essa era a sua maior preocupação no momento.
Passados os quinze minutos de espera, Foram as duas para um salão de Ballet, onde uma mulher com cerca de 57 anos já estava com as jovens dos 12 aos 14 anos. O olhar da mulher era duro e severo e a sua bengala intimidava ainda mais.
Caroline cumprimentou a turma de bailarinas e aquela que devia ser Mme. Rosseau. Apresentou Margarett á mais velha, sendo a jovem recebida com um olhar acusatório e desconfiado. Não recebeu nenhuma saudação sequer. Sentiu-se injuriada, mas Carolina aproximou-se dela:
-Ela é assim com toda a gente… - Sussurrou, enquanto retirava o casaco de pele.
-Acho que não estou com o aspecto mais confiável. – Assumiu a loira.
Caroline reprovou aquela suposição:
-Senta-te ali e não faças barulho. A aula vai começar.
Margarett obedeceu.
Durante uma hora, manteve-se calada e observadora. As pequenas bailarinas começaram por fazer exercícios de aquecimento junto de uma barra de metal. Depois, uma a uma começaram a fazer passos graciosos conforme as ordens de Mme. Rosseau, que batia com a bengala no chão cada vez que alguma se enganava. Apesar de a mulher não gritar nem repreender ninguém verbalmente, a cara de pânico das aprendizes era sempre inevitável quando a bengala batia contra o soalho de madeira. Até Margarett começou a mecanizar aquele som e a fechar os olhos cada vez que o ouvia.
A aula terminou com a repetição de uma dança graciosa ao som de uma melodia viciante.
Como o próprio espaço, os movimentos rápidos e delicados das jovens pareciam vir de um mundo á parte. Margarett nem sequer sabia denominar aqueles movimentos, tal era a sua ignorância em relação àquela arte.
Depois de as alunas serem dispensadas, Caroline levou-a consigo até aos balneários das jovens e apresentou-as.
O resto daquela tarde foi passada a confirmar as medidas e a melhorar os esboços dos figurinos. Margarett divertiu-se com aquilo. Já faziam uns bons meses que não tinha o prazer que criar algo, nem que fosse por obrigação. Por outro lado, sentiu um “Dejá vù”. Tanto trabalho em tão pouco tempo recordou-lhe aquela altura negra em que costurara dias e noites vestidos para o baile de Mrs. Finkie. Uma recordação triste fê-la perder o sorriso, mas sobretudo foi a saudade de casa e a nostalgia que lhe deram mais dor. Olhando em redor, ela apensas se tentava convencer que se tinha de adaptar àquela nova realidade. Era como se tivesse ganho uma vida paralela. Tinha um novo pai, M. Tissou. Tinha um novo emprego, que se caracterizada pelas faxinas. Tinha um novo amigo, Patrick. Uma pastelaria francesa em vez do Lili’s Dinner. E com sorte, uma nova confidente, Caroline.
Margarett concordava que talvez tivesse a pedir demais. Uma rapariga que não tinha onde cair morta como ela podia não ter sequer a sorte de poder dirigir a palavra a uma pessoa da classe alta como Caroline. Mas ela tinha que ser positiva. Afinal de contas, assemelhava-se a ela. Sentia que, se se tivessem conhecido uns meses antes, antes da sua decadência, iam ser como irmãs. Iam ser com a ratinha Minnie e a patinha Margarida. As duas saltitando pelas ruas citadinas, a fazer compras de salto alto e bolsa na mão. Partilhar batons, chapéus e até, quem sabe, um alfinete de peito ou uns brincos. Sim, elas ter-se-iam dado bem. Mas na realidade em que Margarett estava, era muito difícil acreditar numa reviravolta. Não passava de uma empregada ao lado da outra.
Suspirou.
Nos dias que se seguiram, Margarett entrou numa rotina cansativa. Acordava, lavava-se,vestia a farda da retrosaria, limpava o pó das prateleiras, dobrava os tecidos que estavam tortos, ordenava-os por materiais nas prateleiras, afiava as tesouras, dispunhas os metros, varria o chão e passava-lhe um pano molhado com sabão. Depois preparava o almoço de M. Tissou e após isso vestia-se o melhor que podia, com os farrapos que lhe restavam. Penteava-se decentemente, passava um pó barato na cara, engraxava os sapatos sem sucesso, vestia um cardigan frio e saia para a rua. Ia até ao posto dos correios, via se o seu pai tinha mandado algum dinheiro, depositava uma carta (se a tivesse), e por fim andava 1,8 km em 20 minutos até chegar à Ópera. Em vez de entrar no edifício, dava-lhe a volta e metia-se numa rua estreita que ia dar a uma casa, onde os figurinistas, aderecistas e outros artesãos relacionados com o teatro trabalhavam. Havia já um quarto destinado a si, onde estavam as máquinas de costura, os manequins e os materiais necessários para a confecção das peças. Caroline costumava ir ter com ela duas horas depois, para ver os progressos e dar as suas críticas.
No meio desta rotina, Margarett quase nem deu pelo tempo passar e a semana anterior ao Natal chegou. O stress estava ao rubro por todos os colaboradores do bailado e Caroline, essa então, trepava paredes.
Margarett acabou por stressar-se também devido à convivência com ela. Deu por si também irritadiça e impaciente, tal como a jovem patroa.
-Onde puseste as bandoletes, Margarett?! Onde estão?! – Indagou Caroline, frustrada.
-Em cima da mesa, junto do Chariot!
-Ah! – Caroline pegou nelas e contou-as – Falta uma!
-Tenho a certeza que as pus todas aí!
-Aqui não está nada! Oh Meu Deus, ainda por cima eram as únicas! Não há nenhuma a mais!? E agora? Não podem dançar todas de bandolete e ficar alguém sem nada! Oh Céus, é melhor nenhuma usar! Se calhar fica excessivo!
Margarett bufou impacientemente:
-Tem calma! Olha! Lá está ela! Foi a pequena Anne que pegou nela!
-Anne! – Repreendeu Caroline á pequena bailarina – Tráz cá isso! Não é para brincar!
A miúdita lá retirou a bandolete da cabeça e entregou a Caroline.
Margarett começou a achar uma certa piada àquilo. Todo o alarido era contagiante mas apesar de deixar os nervos à flor da pele, dava uma certa folia e animação.
A véspera de Natal entretanto chegou.
Ninguem trabalhava até tarde naquele dia. M. Tissou fechou a retrosaria e Margarett recebeu uma encomenda enorme. Era um presente do seu amado pai.
Decidiu que só iria abrir após a ceia com M. Tissou.
Apesar de tudo foi uma noite feliz. Em vez de comerem em casa, M. Tissou decidiu pagar um jantar num restaurante Parisiense, visto serem só dois.
Margarett perguntou-se como tinham sidos os Natais anteriores de M. Tissou. Imaginava-o solitário, sentado no sofá, em casa, a ler um livro ou a contar as moedas da sua colecção. A jovem não pode deixar de se sentir feliz por estar ao lado daquele senhor. Era um bom homem e desde que ela tinha chegado, ele acolhera-a como a filha que nunca tinha tido.
-Tenho um presente para si! – Declarou Margarett, orgulhosa – Fruto do meu primeiro ordenado!
Monsieur Tissou limpou o bigode ao guardanapo de pano, admirado, e recebeu o envelope que Margarett lhe estendeu.
Retirou a fita que selava o envelope e abriu-o, curioso. De dentro dele, havia outro papel, mais fino e elegante.
M. Tissou arqueou a sobrancelha e sorriu:
-Um bilhete para o “O quebra-nozes”! – Riu-se o homem, feliz com a surpresa. – Muito obrigado, minha querida! Irei com muito gosto, mas então e tu?
-Eu estarei nos bastidores com Caroline, para preparar as bailarinas! – Margarett sorriu orgulhosa - Espero, sinceramente que goste dos figurinos!
Monsieur Tissou segurou-lhe as mãos e acariciou-as:
-Com certeza que irei gostar.- Assentiu o homem - Olha para ti, jovem! Quem te viu e quem te vê! O olhar tão iluminado, um sorriso tão contagioso. Estou muito feliz por me fazeres companhia nesta noite. Prevejo um belo futuro para ti, minha cara!
Margarett sorriu e beijou as mãos do homem em sinal de respeito.
O garçom veio levantar os pratos de louça suja e serviu as sobremesas.
-Também tenho uma presente para ti!
Margarett ficou admirada. A seu ver, aquele jantar requintado já era mais do que suficiente.
-M. Tissou. Não precisava!
-É uma recompensa pelo teu trabalho, pela tua companhia e sobretudo pela jóia de pessoa que tu és! Espero que os uses amanhã na estreia do bailado!
Margarett abriu a boca quando o homem lhe entregou uma caixinha de veludo, com o símbolo de uma das joalharias mais conhecidas de Paris. Não podia crer que M. Tissou lhe ia presentear com algo tão caro.
Margarett abriu a caixinha, em contradição. Aquilo era demasiado.
-M. Tissou… - Murmurou, espantada – São lindos! Eu não posso aceitar!
No interior da caixa estava um par de brincos de ouro. Eram do tamanho de uma unha do polegar e tinham uma pequena pérola incrustada.
-Nem pensar. Tu mereces, pequena! Quero que os exibas o quanto possas e espero que esses sejam os primeiros de muitos que ainda hás-de ter!
Margarett limpou o canto do olho, emocionada. Não podia imaginar passar por tudo aquilo sem a ajuda de M. Tissou. Desejava com todas as suas forças que um dia mais tarde lhe pudesse pagar por tudo.
Após a Ceia de Natal, os dois foram para o centro de Paris, onde havia algumas comemorações religiosas nas ruas iluminadas. Apesar de a maior parte das pessoas estarem nas casas dos familiares, eram raros os que faltavam á missa do galo na Notre Dame de Paris. Margarett e M. Tissou não foram excepção. Á meia-noites apresentaram-se na catedral gótica para a comemoração. Estava lá também Patrick Martin e os seus familiares que cumprimentaram monsieur Tissou após a Missa.
Mlle. Chevalier também prestou presença. Depois de sair da igreja e avistar os dois, fez questão de ir desejar um Feliz Natal pessoalmente.
-Um excelente Natal para si, M. Tissou! – Saudou, feliz.
O homem cumprimentou-a também, tal como Margarett.
-Estás nervosa por causa de amanhã? – Indagou.
Caroline encolheu os ombros e sorriu educadamente:
-Um pouco, eu admito! Hoje fiz a verificação final a tudo e finalmente posso afirmar que está tudo sob controlo! E em grande parte graças a ti, Margarett! Depois disto podemos ir tomar um chã juntas para aliviar o stress que acumulamos neste mês e meio!
-Será um gosto!
Margarett sorriu, feliz pela proposta.
Ao longe, avistou Patrick a aproximar-se para se despedir.
-Monsieru Tissou! – Exclamou o rapaz, apertando a mão ao homem – Margarett…! – Saudou com um beijo na mão!
-Já vais, Patrick? – Indagou a rapariga, com segundas intenções.
O rapaz olhou Caroline de relance e corou levemente, mas não o suficiente para que se notasse á noite.
-Sim, Mag. Eu e a minha família vamos a casa de uns amigos!
-Oh, então e amanhã, não queres vir á Opera ver o “Quebra-nozes”?
-O “Quebra-Nozes”?
Patrick não mostrou compreender o sentido daquilo. Margarett sorriu e estendeu o braço a Caroline:
-Nós as duas criamos os figurinos! Oh, a propósito, acho que não foram apresentados formalmente! Caroline, este é Patrick Martin, herdeiro das empresas Têxteis “Martin et fils”! Patrick, esta é Caroline Chevalier…!
Patrick nem deixou Margarett concluir a apresentação. Logo saudou Caroline com um beijo na mão e lhe sorriu:
-É um imenso gosto conhecê-la, Mademoiselle Chevalier!
Caroline tapou o sorriso envergonhado com a pochete, sem compreender as intenções de Mag.
-O gosto é meu! Teremos o gosto da sua presença no bailado?
-Temo que seja um pouco tarde para arranjar um bilhete.
-Não necessariamente. – Caroline abriu a pochete e vasculhou-a com graça. Retirou dois ingressos para o bailado e estendeu-os a Patrick – Um a mais para trazer alguém especial!
Patrick sorriu e aceitou os bilhetes:
-O meu pai não é apreciador das artes no geral, mas tenho a certeza que a minha mãe há-de gostar!
M. Tissou riu-se silenciosamente.
Margarett percebeu um tom rosado nas bochechas de Caroline perante aquela confirmação de estado civil solteiro.
Patrick voltou a cumprimentar cada um e foi embora.
Caroline seguiu-lhe o exemplo e despediu-se, tendo chegado a hora de M. Tissou e Mag fazerem o mesmo.
Depois de caminharem de volta para casa, foram ambos surpreendidos por dois presentes à porta da habitação. A início, cada um pensou que tinha sido outro a colocar lá aquilo, mas enganaram-se.
M. Tissou aproximou-se dos embrulhos e verificou que tinham respectivos bilhetes.
Tinha sido Mlle. Caroline quem lhes tinha enviado aquilo, e o mais surpreendente era ela não ter mencionado nada após a missa do galo.
M. Tissou apressou-se a abrir a prenda e sorriu ao contemplar uns sapatos de vela, negros e reluzentes.
Margarett por sua vez, recordou que também ainda tinha de abrir o presente do pai.
Colocou as duas caixas sobre uma mesa e primeiro desembrulhou o presente do progenitor. Eram uns belos sapatos em tom pérola, modelo peep-toe. Para complementar o presente, tinha também uma carta com um recado e, para euforia de Margarett, uma boa quantia em dinheiro. Mag não coube em si ao ver o dinheiro que o pai tinha arrecadado para lhe mandar.
Eufórica, ela calçou os sapatos de imediato e bateu palmas, fazendo o patrão rir-se.
-Abre o presente de Mlle. Chevalier agora!
Margarett não perdeu mais tempo. Rasgou o embrulho com toda a força.
Levantou a tampa da grande caixa rectangular e abriu a boca, apaixonada. Era um vestido de seda, esmeralda com uma silhueta ajustada á cintura e a saia em balão.
Junto, vinha um pequeno cartão que Margarett apressou-se a ler.
“Para amanhã não te queixares que não estás vestida à altura! Feliz Natal!
Caroline Chevalier”

Margarett não conseguiu esperar. Logo que M. Tissou foi para os seus aposentos, Margarett colocou sobre o seu corpo todos os presentes daquela noite, incluindo os brincos. Sentiu-se tão bonita e renovada que rodopiou sobre si mesma até ficar tonta e cair no colchão.
As suas emoções eram tantas que depois de tanto riso e alegria, a rapariga desatou a chorar contra a almofada.
Quem visse de fora diria que ela tinha enlouquecido. Que era bipolar. Que não se contentava com tudo o que já tinha.
Mas a mente de Maragrett era um lugar muito mais obscuro.
Ela chorou quanto pôde, tudo porque depois de tanto rodopiar, nuvens de pensamentos vieram-lhe à cabeça, incluindo a saudade de David…

***

No dia seguinte, ao entardecer, M. Tissou engravatou-se e escovou o casaco do terno. Margarett estava também a preparar-se. Depois da noite anterior, tinha sido obrigada a gastar um pouco mais de tempo a tapar as olheiras e a fazer um penteado mais apropriado. Sentiu-se finalmente preenchida quando pintou os lábios de um batom vermelho escarlate que tinha comprado há umas semanas atrás. Pela primeira vez em muitos meses teve motivos para dizer que se sentia bonita e poderosa.
Saiu da casa-de-banho e mostrou-se a M. Tissou, orgulhosa.
O homem não escondeu o seu agrado com a aparência da jovem:
-Estás muito bonita, Margarett!
-Obrigada, M. Tissou! Vamos?
O patrão assentiu. Os dois juntos apanharam um Táxi para a Ópera Nacional de Paris, onde se separaram. Enquanto M. Tissou foi para o seu respectivo lugar na plateia, Margarett foi aos bastidores, onde Caroline a esperava.
Esta, envergava um vestido vermelho de cetim, com um grande laço nas costas. Nos pés calçava uns sapatos dourados que faziam combinação com o colar de ouro. O cabelo estava arranjado com umas curvas bonitas, preso lateralmente.
Quando Mag finalmente entrou nos bastidores, Caroline quase não a reconheceu, contudo deu um salto de alívio e chamou-a, apressada:
-Margarett, não consigo fechar o vestido da Beatrice!
A loira aproximou-se para ajudar a pequena a correr o zipper encravado. Com a ajuda de Caroline conseguiram que a jovem fada das flores ficasse perfeita. Depois, trataram de preparar as restantes bailarinas, ajudando-as com os adereços e as roupas. No meio de toda a algazarra, a peça começou. Foi o momento de todos ficarem em silêncio e assistirem ao bailado. Margarett e Caroline colocaram-se estrategicamente atrás de uma cortina, de onde conseguiam ver tudo na perfeição.
As personagens entravam sintonizadas e leves, com todos os passos dados nos momentos certos em perfeita sintonia. Era o primeiro Bailado a que Margarett assistia e não podia negar a beleza daquilo e todo o orgulho que sentia ao ver os pequenos fatos a serem admirados pelo público.
-Acho que estamos de parabéns! – Caroline comentou – E a propósito, belos sapatos!
Margarett riu-se e olhou-a, agradecida:
-Obrigada, foi o meu pai que mos deu. E a propósito, obrigada pelo vestido. Gostei imenso!
Caroline sorriu orgulhosa:
-Nunca subestimes o meu gosto. Além disso, adoro receber e dar presentes! Já agora, onde arranjaste esses brincos? Adoro-os!
Margarett libertou uma pequena gargalhada:
-Foi o meu presente de Natal de M. Tissou!
Caroline acenou afirmativamente com a cabeça, admirada.
As duas jovens voltaram a centrar-se no bailado e em pouco tempo a encenação foi terminada com aplausos em pé.
Margarett sorriu, feliz com aquele desenlace e depois de todo o público abandonar o espaço e as bailarinas irem para casa com as suas famílias, subiu ao palco para apanhar as flores que tinham sido lançadas.
Caroline, ao ir-se embora, apercebeu-se da presença de Margarett e subiu ao palco:
-M. Tissou já foi embora!
-Sim, eu sei! – Margarett levantou-se com as rosas que apanhara nos braços – Já vais?
Caroline assentiu:
-Acho que é a hora ideal para o nosso chazinho! Vens?
Margarett sorriu e voltou a atirar as rosas para o chão.
Correu para ir ter com Caroline e engatou o seu braço no dela, pela primeira vez sentindo que finalmente já estavam à mesma altura.
E a partir dali, por fim, conseguiu acreditar numa amizade duradoura entre as duas.


*Dia do Armisticio

Imagens de inspiração!

Ópera National de Paris
(por fora)
Spoiler
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(por dentro)
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Peep-Toe & All-Star - Página 4 Garnier

Peep-Toe & All-Star - Página 4 10777-3

Peep-Toe & All-Star - Página 4 Palais%20garnier%202

[Esta imagem já não existe]
Vestido da Margarett
(um pouco mais curto)
Spoiler
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Vestido da Caroline
(oh pá, não sei, é vermelho! Matreiro)
Spoiler
Peep-Toe & All-Star - Página 4 Il_570xN.407798549_np3t

Peep-Toe & All-Star - Página 4 Il_570xN.422179644_b0wk
E agora, para finalizar, vou colocar aqui uns esboços, mas antes de mais deixem-me explicar.
Aqui há uns tempos, quando ainda mal tinha começado a escrever o capitulo, surgiu-me a ideia de fazer um teste. Tendo em conta que a personagem Caroline, como vocês já devem ter notado, foi inspirada na própria Carolina Vaz, decidi ver até que ponto as ideias dela e da Margarett coincidiam. Então, sem que a própria Carolina soubesse, pedi-lhe que imaginasse uns fatos de ballet para as fadas do gelo e das flores do bailado "o Quebra-Nozes" . Ela, sem perceber para que queria eu aquilo, lá fez dois esboços, sem saber que eu própria tinha feitos dois, após escrever a cena do capitulo em que a Margarett propões á Caroline um design dos figurinos.
Foi bom perceber, após ver os esboços da Carolina, que as ideias acabarm por coincidir, apesar de haver leves diferenças, como não podia deixar de ser.
Assim, decidi publicar aqui os esboços (meus e dela) feitos às cegas! Algo rapido e trabalhão, mas espero que gostem! Embaracoso

Esboços da Carolina!
Fada do gelo
Spoiler
Fada das flores
Spoiler
Ok, pronto, não consigo carregar os meus pk as imagens são pesadas. enfim, amanha ou assim eu tento meter, mas agora já estou com muito sono! LOL

Bom, espero que tenham gostado!
Beijinhos!

as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#187
Ahahahahaah ADOREI A MINHA PRENDINHA, QUE SÓ AGORA É QUE TIVE TEMPO DE LER! Esperancoso

Desde de já obrigado Catarina Macedo... Adorei mesmo. Estáva desejosa por este capitulo e que apercesse a tão esperada Caroline.

Adorei a personagem dela, e realmente está prefeitamente parecida comigo. Feitio, forma de vestir e de agir. Eu propria, se visse a Margarett a desenhar algo (que pelo que escreves-te me pareceu formidavél), tinha confiado nela.

Quanto ao capítulo, acho que sou suspeita, pois como já te disse, adoro os capitulos que escreves da Margarett, porque adoro a personagem, o lugar onde ela se situa, e todo o meio a que ela está rodeada. Eu adoro a Margarett, em relação ao David. Sou muito mais histórias de princesas Razz

Adorei também o facto de teres metido a Carolina de vestido vermelho, e o facto de gostar de Chá. Foi bestial.

Quanto à descrição da Opera, fizeste-me ir pesquisar muito mais imagens sobre essa tal opera, e partilho da mesma opinião que tu, que é um sitio a visitar-t antes de morrer! Smile

Opa acho que já disse tudo... ADOREI O CAPITULO

ADOREI TERES DEDICADO A MIM!

Obrigada, foi uma grande prenda! Esperancoso


"A amizade mais sólida é a que existe entre iguais.
Cúrcio Rufo"
A frase diz tudo... Smile
#188
Hello! Smile
Bem, acho que tenho de agradecer à Carolina por fazer anos, lol. Já agora, parabéns atrasados! Wink
Gostei muito, está muito giro o capítulo. Parece que finalmente as coisas se estão a compor para a Maggie. Com o talento que ela tem merece uma oportunidade para o demonstrar. Espero que a partir de agora seja sempre a melhorar. Ah, e adorei o facto da Maggie ter aproveitado para apresentar o Patrick à Caroline. Finalmente, pode ser que agora ele tenha uma oportunidade. E uma boa amiga é realmente algo que a Mag está a precisar. Tal como a Carolina.Vaz, eu também gosto muito do mundo das princesas, por isso adoro ler sobre todo o ambiente que envolve a Mag, com os vestidos, etc. Mas, também adoro os príncipes, e quero muito saber como anda o nosso príncipe. A Mag não é a única com saudades dele. Espero que num capítulo futuro nos tragas novidades sobre o David. Até à próxima. Beijinhos
#189
amo adoro tudo o que escreves.
Ainda bem que a Margarett já esta a dar a conhecer o seu talento e o que a realmente a faz feliz e realmente merece destas oportunidades.
Ainda bem que a Caroline apareceu na vida da Margarett e a amizade delas da a intender que pode ser uma amizade que dure muitos anos.
Fico a espera de mais um capitulo. bjx
a minha primeira fic "AS FILHAS DA LUA"passem na minha fic e comentem XD

Traços do destino

visitem o meu forum http://eterna-sailor-moon4.forumeiros.com/forum.htm
#190
E achava eu que nunca mais postavas um capítulo novo. Pensei em vir aqui pedinchar e não é que vejo que EU é que estou atrasada. Mil perdões, Lulu Desiludido
Gostei deste capítulo. Estou a adorar esta parte da história em que temos os dois pombinhos afastados um do outro, a viverem vidas distintas. Quando finalmente se encontrarem, quero ver. O David parece estar a habituar-se à Irlanda e a Maggie a reencontrar-se em Paris.
Adorei a Caroline. O que me custa a acreditar é que ela seja tão jovem. Não sei porquê, mesmo com a tua descrição imagino-a com uma moça que acabou de chegar aos trinta. Felizmente houve faiscas entre ela e o Patrick Wink
Sorry este comentário ser mesmo pequenino depois da minha grande ausência, mas acabarei por te recompensar no próximo. Só espero é que não demore muito (e que eu receba a mensagem de actualização Mal disposto).

P.S THE PHANTOM OF THE OPERA!!! Adoro tanto esse cenário ás custas do filme. Esperancoso
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
#191

Olá! Very Happy
Pronto, eu apareço aqui toda airosa, mas eu tenho é de fazer um pedido de desculpas por não ter vindo antes.
Não gosto de dizer que já tinha o capitulo escrito há algum tempo, mas… Bom, ele estava escrito… A questão é que eu não me sentia satisfeita e deixei arrastar isto durante muito tempo sem lhe mexer, á espera de ter uma gota de inspiração para melhorar o capitulo.
Entretanto, nada…
Pronto, então eu hoje resolvi vir publicar o que tinha e passo a explicar o 2º motivo pelo qual estava hesitante em postar. Acontece que este capitulo não é nada de especial, apesar de ter elementos fundamentais para prosseguir com a história. Eu andei muito tempo a matutar sobre a forma como devia expor os factos daqui para a frente e das duas uma: ou meto capítulos a detalhar tudo o que acontece e perco um pouco mais te tempo, latim e paciência  ou simplesmente dou um saltinho nesses acontecimentos e exponho-os em flashback ou simplesmente em relatos das personagens. A verdade é que ainda não sei o que fazer, e propostas em relação a isto são bem-vidas.
Entretanto, como disse, o capitulo não é nada de especial, mas sou franca, eu não tive paciência(nem tempo) para mudá-la. Só lamento terem esperado tanto por isto, mas enfim, eu não sabia mesmo o que fazer.


Enfim, é isto. Este capitulo não tem nem musica nem capa foleira. C'est la Vie!
Hoje não estou para muitas palavras, mas espero que se contentem com este fragmento! Mal disposto
 
Boa leitura
 
Capitulo XLIII – Foco
“Um lado meu diz que eu saí do foco… o outro diz que eu o ajustei.”
Jeziel Carvalho
 
David sorriu.
Os seus pais abraçaram-se, felizes, e arrastaram as malas atrás de si.
Estava um dia ensolarado. O Verão tinha finalmente chegado à Irlanda, apesar de as temperaturas não serem as mais altas.
Após meses de árduo trabalho, David finalmente tinha atingido a sua primeira meta: Devolver o conforto à vida dos seus pais.
Graças ao dinheiro que tinha juntado durante todo aquele tempo, a velha casa sem condições tinha sido deixada por uma melhor.
Grace estava radiante. Uma cozinha mais equipada, água corrente e uma casa de banho com credibilidade. David finalmente tinha um quarto só para si e espaço para as suas coisas que tinham ficado empacotadas durante todo aquele tempo. A localização da nova casa, mais perto da vila, era um pouco mais distanciada da quinta de Mr. Bards, mas em tudo valia a pena. Grace já tinha a possibilidade de fazer compras no mercado local com mais facilidade e o seu marido tinha mais acesso ao seu trabalho.
Para comemorar a mudança, naquela mesma noite iam dar um jantar com os patrões de David. Nada de muito ostentoso, mas o suficiente para agradecer o ordenado do jovem.
À noite, Ethel e Roland chegaram á nova casa dos Paisen. Levavam um borrego para oferecer em honra de boa sorte. Grace ficou animadíssima e recebeu os convidados com alegria. Sentia saudade de poder dar um jantar com amigos.
-Tem aqui uma bela casa! – Elogiou Mrs. Bards.
-Ainda estamos a fazer algumas mudanças! – Referiu Grace, acompanhando a senhora até à sala de estar - Quando viemos da América para aquela casa minúscula nem sequer tivemos possibilidade de desempacotar as nossas coisas por não haver espaço! O emprego do meu filho foi uma óptima ajuda!
-O David é um bom rapaz! – Respondeu a senhora – Logo na primeira semana que esteve na quinta, reparou de livre vontade umas fendas no telhado que deixavam entrar água. O meu marido estava sempre a dizer que ainda havia de consertar aquilo, mas eu sabia que as costas dele já não eram boas para estas brincadeiras. O David fez um bom trabalho!
Grace sorriu e sentou-se no sofá. Os homens estavam no exterior a preparar um churrasco, pelo que as mulheres estavam sozinhas na sala. Era um momento oportuno para Mrs. Paisen.
-Posso lhe fazer uma questão, Mrs. Bards?
A senhora assentiu, curiosa.
Era uma pequena inquietação que Grace carregava consigo diariamente, mas não sabia como lidar com ela. Ter Mrs. Bards ali era uma boa oportunidade para aliviar as duas dúvidas.
-Por acaso reparou se o David tem estado… - Ela hesitou, indecisa. Não tinha a certeza se Mrs. Bards era chegada o suficiente para lhe questionar aquilo, mas precisava de arriscar – Bom… se ele anda deprimido ou calado?
A mais velha sorriu e encolheu os ombros:
- É um rapaz calmo, Mrs. Paisen. Mas porquê a pergunta?
Grace suspirou:
-Como sabe, viemos para cá por causa da saúde dele. Nos primeiros tempos ele andava muito revoltado! O incêndio foi demasiado traumático para ele e depois… - Grace fez uma pausa para suspirar, perdida em pensamentos.
-E depois o quê?
-Não sei se alguma vez o David lhe mencionou a rapariga… - Introduziu Mrs. Paisen.
-A rapariga? – Ethel Bards pareceu surpresa com a situação- O David tem uma namorada? Realmente não fazia ideia, Mrs. Paisen!
A mãe do jovem negou com a cabeça:
-Bom, de facto não tem, pelo menos agora. Ela está desaparecida, aparentemente. Quando deixamos o país ele estava desesperado por saber dela, mas nada. Entretanto passaram-se todos estes meses e ninguém recebeu notícias. Por isso lhe perguntei se ele anda deprimido. Apesar de ele não mencionar a Margarett, eu sei que ele ainda deve andar a pensar muito sobre isso! – Grace tacteou sobre as pernas - Sabe, é que o David nunca foi calmo e admira-me que o veja assim. O meu filho é provavelmente a pessoa mais impulsiva e frenética que eu conheço. Mas desde que viemos para a Irlanda ele anda muito calado e isso deixa-me inquieta!
Ethel sorriu,compreensiva, mas tentou sossegar a outra mulher:
-Decerto que ele está a lidar bem com a situação. Não o vejo triste, pelo menos. Ele anda sempre para cá e para lá na quinta, e quando chega à hora de tratar dos cavalos não há quem o impeça! Ele adora montar, sabia? O meu marido ensinou-lhe o básico e entretanto ele já controla melhor os bichos do que o meu homem alguma vez o fez!
-Fico muito feliz por saber disso, Mrs. Bards! – Grace sorriu com honestidade e levantou-se - Bom, vamos para a mesa. O jantar está quase pronto!
A senhora de mais idade seguiu-a.
 A refeição foi servida na nova sala de jantar. A casa de pedra, estava formalmente decorada com madeiras claras e lustrosas. Nas paredes, havia pequenas fotos de família que Grace tinha guardado, incluindo uma foto que a filha enviara com o seu pequeno neto.
David havia parado uns momentos a olhar aquelas fotografias quando o pai as tinha pendurado. Fora-lhe árduo ter de fingir frieza. Rezava todos os dias para ficar bem de saúde e voltar para casa, mas quanto mais o fazia, pior era. A tosse tinha acalmado, mas a asma parecia crónica. Por muitas caminhadas à beira-mar que fizesse, não havia forma de melhorar. O seu consolo eram os cavalos. Tinha criado um grande apresso pelos potros de Mr. Bards e com muito custo, lá conseguiu convencer o patrão a deixá-lo aprender a montar.
Apesar da dificuldade respiratória com que ficava após uma simples corrida perto das falésias, David tinha criado uma dependência naquilo. Era um sopro de esperança que sentia cada vez que corria sem destino em cima do Veloz ou do Lider, os seus cavalos preferidos. No final ficava sempre ofegante e esperava que a respiração se controlasse com ajuda da bomba.
-David, acabaste de desempacotar todas as tuas caixas?
David retomara a atenção e assentiu.
Jantou com um sorriso forçado, tentando parecer bem com tudo o que vivia.
 
No dia seguinte, acordou cedo e partiu para mais um dia de trabalho.
Chegou à fazenda e, como fazia sempre, dirigiu-se às vacarias, onde normalmente Mr. Bards o esperava para ordenhar e alimentar as vacas.
Para sua admiração, não havia ninguém no espaço, a não ser os animais malhados. Desconfiado, dirigiu-se até à casa e bateu à porta.
Mrs. Ethel Bards abriu-a em sobressalto:
-David! – Exclamou – Pensei que fosse o Roland!
-Bom dia, Mrs. Bards! Aconteceu alguma coisa? – David olhou para os lados - Onde está o patrão?
A senhora agarrou o braço do gaiato e saiu com ele para o exterior:
-Aquele homem horrível voltou! – Afirmou zangada – Foi para os estábulos com o meu marido!
-Para os estábulos?
David olhou o horizonte, para o cimo do prado. Reparou que os cavalos já estavam soltos e estranhou.
Havia semanas que o dito cujo homem ia à quinta importunar. David ainda não tinha noção do que se tratava, o facto era que Mr. e Mrs. Bards ficavam imensamente aborrecidos e irritados com aquelas visitas.
O homem tinha um aspecto caro. Vinha sempre de charuto na boca, chapéu na cabeça e fato às riscas. Era gordo e barrigudo! Tinha o ar do típico milionário guloso.
David nunca se tinha metido no assunto, mas sabia que aquele homem era sinónimo de complicações para os Bards, contudo, por norma, Roland nunca lhe dava asas para ele conseguir o que queria. Mas naquela manhã, por algum motivo, a conversa não se tinha ficado pela sala de estar e tinha passado para os estábulos.
-Quer que eu vá verificar de está tudo bem, Senhora?
Mrs. Bards assentiu:
-Vai lá se não te importas, jovem! Os meus nervos estão á flor da pele e eu não tenho idade para isto!
David assentiu. Deu o primeiro sopro do dia na sua bomba e, com o fôlego ainda inteiro, correu o quanto pôde, prado acima.
A meio do trajecto  de repente, travou-se. Inspirou fundo para não cair em ataque de asfixia e arregalou os olhos quando viu o Veloz a relinchar e a saltar fora da cerca, nitidamente irritado, perto do homem barrigudo e de Mr. Bards. O patrão ficou logo aflito, mas o outro ignorou o aviso do cavalo e deu-lhe uma palmada no lombo. O cavalo arqueou, em descontrolo e soltou-se das rédeas, cavalgando prado abaixo descontrolado. Mr. Bards gritou em pânico e esbracejou. David observou o cavalo e ao vê-lo a fazer um trajecto próximo do seu, correu como se a sua vida dependesse disso para ir de encontro ao bicho. O cavalo castanho começou a estar mais perto do seu alcance e quando o caminho dos dois se ia cruzar, David deu um salto e agarrou as rédeas do animal, tentando puxá-las antes de ir arrasto. O cavalo, porém, era forte e não travou a sua corrida. David tentou apressar os passos para não cair e num momento em que os seus pulmões de encheram de ar, saltou para cima do cavalo. A criatura não parecia querer parar, nem com os puxões de David, por isso o rapaz deixou-se cavalgar por uns segundos até o animal parecer acalmar o suficiente para ser controlado. David puxou-lhe as rédeas com força até o bicho relinchar e arquear o corpo. O rapaz tentou acariciar-lhe o pescoço e o cavalo parou, por fim.
Uma tosse insuportável fez David debruçar-se sobre Veloz. Aflito, ele tentou recompor-se antes que caísse do cavalo. Inspirou profundamente e olhou em redor. Estava quase fora da propriedade.
-David! – Escutou chamar, do cimo do prado.
Mr. Bards acenava preocupado, pedindo-lhe que levasse o cavalo de volta.
David tentou respirar fundo e obedeceu.
Domando novamente o cavalo, ele galopou à máxima velocidade para levar o animal à cerca. Quando lá chegou, o barrigudo ria-se com o charuto pendurado nos lábios cobertos pelo bigode.
-Meu caro Roland, olha o que te digo! Iamos fazer um belo negócio!
-Nem pensar! – Protestou o homem com uma foice na mão.
David saltou do cavalo, tentando que os seus pulmões não o traíssem e aproximou-se do seu chefe:
-Está tudo bem, Mr. Bards? – Questionou ofegante, fitando o fumador pelo canto do olho - Precisa que eu tire este homem daqui?
O mais velho negou com a cabeça e bufou:
-Não te preocupes rapaz, já tratei disto… A minha resposta continua a ser não, Mr. Denvers! – Disse, dirigido ao homem.
-Oh, vá lá, Roland! Já nos conhecemos há tempo suficiente para me tratares por Carl!
O homem passou o braço por cima do ombro de Mr. Bards e apontou para a paisagem:
-Sabes tão bem quanto eu que ambos podemos lucrar, basta tu aceitares!
-Eu estou velho para isto, homem dos diabos! Além disso, eu não confio nem em ti, nem nos teus jóqueis inexperientes!
Mr. Denvers apagou o charuto contra o granito, irritado:
-Roland! – Praguejou o homem furioso – Julgas que eu colocaria a minha fortuna em risco se não tivesse certeza do que faço?! Vê bem o que te digo! Este cavalo é uma relíquia!
David apertou as rédeas de Veloz com mais força nas suas mãos. Não percebia o rumo que aquela conversa estava a tomar, mas sabia que era algo relacionado com os cavalos de Mr. Bards. A reacção deste, por outro lado, foi mais contida e séria:
-O Rei também era uma “relíquia” e tu sabes no que isso deu!
-O Rei teve um acidente e morreu! Mas e depois?! Queres manter os teus cavalos dentro destes estábulos até morreres?! Faz algo da tua vida, homem carrancudo! As apostas subiram este ano! Basta o Veloz ir às selectivas e logo se verá o que vem a seguir!
-E julgas que eu deixo o meu cavalo mais veloz correr ao comando de qualquer corredor idiota que encontres?! Sai daqui Carl! Eu não te quero a insistir mais neste assunto! – Concluiu, por fim - David, por favor leva este homem daqui!
David assentiu. Pegou nas rédeas do cavalo e atou-as á vedação com força para que ele não se soltasse.
-Venha comigo, senhor! - Ordenou, empurrando o homem á sua frente.
Ao reconhecer o sotaque americano na voz de David, o sujeito travou-se bruscamente e virou-se para Mr. Bards de novo:
-Uma ultima proposta, Roland! – Exclamou, entusiasmado – E se fores tu a escolher o cavaleiro?! Tenho a certeza que alguém da tua confiança conseguiria dar bem conta do recado, afinal de contas, o trabalho é mais do cavalo do que de quem o monta! Olha este americano! Domou o teu cavalo como um bom profissional faria!
David estreitou as sobrancelhas, apanhado de surpresa por ser mencionado na conversa. Encarou Mr. Bards em busca de uma explicação lógica, mas a única coisa que percepcionou foi um olhar sério e pensativo sobre si.
-Vai-te embora, Carl…
-Pensa nisso! – Sugeriu Mr. Denvers virando costas para se ir embora – Voltarei para saber se pensaste nesta nova proposta!
David abanou a cabeça e seguiu o homem para se certificar que ele realmente se ia. Reparou, à saída da quinta, no carro novo e lustroso que Carl Denvers dirigia e assobiou admirado.
Esperou que ele partisse de vez para retomar ao trabalho.
Admirou-se ao ver que lá dentro, Roland e Ethel já conversavam sobre o assunto. Quando o patrão percebeu a sua presença, calou-se e bufou. Mrs. Bards sorriu para o rapaz e chamou-o para se aproximar:
-David, querido, vem cá!
Obediente, o jovem seguiu na direcção da patroa até se ver frente a frente com ela e o marido.
-Não, Ethel! – Mr. Bards não escondia a sua relutância - Olha o que aconteceu ao Rei!
David sentiu-se na obrigação de se intrometer:
-Peço desculpa por me intrometer, mas quem era o Rei? E o que queria aquele homem, afinal?
Roland deu com a foice no chão e virou costas, agitado. Ethel cruzou as mãos e sorriu ao catraio.
-Era o cavalo preferido do Roland. Morreu há três anos, numa corrida de Turfe, na Bélgica.
-Turfe? – Indagou David, alheio ao tema.
-Sim, são corridas de competição de cavalos. – Elucidou-o a mulher - O Rei costumava participar todos os anos. Mr. Denvers era o seu maior apostador. Mas quando o animal faleceu, o Roland e eu não quisemos voltar a disponibilizar os nossos potros.
Roland Bards praguejou alto:
-Isto é um absurdo, já nem temos idade para estas coisas, mulher!
Ethel encolheu os ombros:
-Ao que parece este ano as apostas triplicaram, por isso Mr. Denvers regressou para nos tentar convencer a ceder o Veloz ou o Líder para a competição deste ano, mas o Roland não quer perder outro bom cavalo por causa de um capricho!
David olhou o homem. Notou que ele estava pensativo, mas não compreendia o porquê. Até uns minutos antes ele nem pestanejara, tal era a sua certeza em relação ao assunto, mas naquele momento parecia reflectir profundamente.
-Não compreendo, Senhor. Se já decidiu, porque ainda está tão incomodado? Posso impedir Mr. Denvers de cá entrar se o caso for esse!
O patrão não lhe respondeu.
A senhora deu o braço a David, sorrindo, e levou-o consigo para menos perto de Roland.
-Mr. Denvers propôs ao meu marido que tu fosses o Jóquei dos nossos cavalos!
-“Jóquei”?– Questionou o jovem, ligeiramente surpreendido por se ver envolvido num assunto que lhe era desconhecido - O que é isso?!
-O cavaleiro. – Respondeu a mulher - Sabes, o Lider e o Veloz são os cavalos mais jovens e aptos que temos neste momento para as competições de Turfe. Tendo em conta que ambos foram adestrados, se o meu marido aceitar, um deles será levado para uma cocheira em Dublin e lá será vigiado por um treinador e tratado por uma equipa composta por ferreiros, veterinários, escovadores e fornecedores de ração. Depois disso, o cavalo será montado pelo jóquei, com o qual vai treinar diariamente para a competição. Neste caso, Mr. Denvers propôs ao meu marido que tu te tornasses o jóquei de um deles.
David olhou para os lados, desconfiado. Atentou em Mr. Bards e franziu o cenho. Não compreendia de onde vinha aquela ideia louca.
-Mas é claro que não! – David declarou firmemente, considerando aquela sugestão impensável – Eu nem sequer tenho experiência a andar a cavalo. Eu nem sequer tenho preparação para isso! – Reclamou.
A senhora preparou-se para defender a sua opinião, no entanto, viu-se interrompida por uma voz rouca e grave que pronunciou algo que ninguém esperava ouvir.
-A preparação tu adquires…
Ethel ficou admirada com o murmúrio desafiante do marido:
-Roland?!
-Tu tens razão, mulher… - Continuou o homem rabugento, de costas - Mr. Denvers vai continuar a aborrecer-me até eu ceder. Conheço-o há anos suficientes para o saber. E se a forma mais fácil que eu tenho é escolhendo o jóquei, então que seja alguém em quem confio. Não aceito mais nenhum rapazinho de casa fina, que monta cavalos de ouro nas suas propriedades e julga que consegue lidar com corridas de obstáculos e provas de turfe! O David seria uma boa opção.
O mais novo calou-se. Não gostava de desafiar o seu chefe, apesar de aquela situação ser tudo menos credível. Se havia coisa que David sabia era que aquela loucura não ia dar certo. Ele tinha aprendido a montar há apenas uns meses, para além de que os seus problemas de respiração não o deixavam abusar nos esforços. Começar a praticar um desporto, podia não ser a melhor alternativa.
Por outro lado, Ethel Bards sorriu de alegria. Era uma novidade para ela o seu marido concordar com uma ideia tão repentina.
-E qual vai? O Líder ou o Veloz?
-Irá o Veloz! Provou ser o mais ágil. O Lider deixa-se repousar demasiado.
O americano mostrou-se apático e desconfiado:
-Mr. Bards, desculpe intrometer-me na sua decisão – disse - Mas está mesmo a pensar em mim para jóquei do Veloz?
Mr. Bards pegou na forquilha e começou a caminhar na direcção dos fardos de palha. David e Mrs. Bards seguiram-no.
-Sim! – Declarou simplesmente.
David travou-se:
-Mas Mr. Bards, eu não tenho qualquer experiência. Eu apenas sei o que me ensinou e pela vossa descrição não é suficiente. Tem a certeza que confia em mim para lidar com o Veloz numa corrida cheia de profissionais?!
-Lidaste com ele num momento de descontrolo, portanto hás-de conseguir lidar em qualquer tipo de situação. – Respondeu o homem, transportando a forquilha com palha para a zona dos animais.
-Então e o meu trabalho aqui!? Quer-me mandar para Dublin com um potro e ficar lá até sabe-se lá quando?! Qual será o beneficio, Mr. Bards?
-Dinheiro! – Ethel pronunciou-se – Muito dinheiro! Mr. Denvers é a prova disso. É um milionário apostador que está crente nos nossos animais. Caso ele vença as apostas, quarenta por cento do seu lucro vem para nós. 
Os homens calaram-se. Era muito dinheiro.
Ainda assim, David hesitou:
-Hum… Eu agradeço o voto de confiança e de facto parece ser uma proposta aliciante mas eu preciso de pensar sobre isso. É um assunto que também se trata da minha vida e eu preciso de mais tempo para pensar, bem como uma opinião do médico…
-Nesse caso a palavra final será tua! – Roland espetou novamente a forquilha na palha mostrando que não queria ouvir mais nada sobre o assunto - Vá! Vamos ao trabalho!
 
***
-Como está ela?
-Tem trabalhado pouco. Reparei que o negócio já não é o mesmo de antigamente…
Margarett levou a xícara de chá aos lábios em silêncio. Uma marca de batom vermelho ficou estampada na porcelana branca.
-Têm-me mencionado? – Indagou à jovem em frente a si.
A outra tocou o cabelo negro e encaracolado, com um corte curto, e negou.
-No outro dia perguntou se alguém tinha tido noticias tuas. Mas desde os cartazes não houve mais nenhuma tentativa brusca de te encontrar.
-Obrigada por me ajudares, Adeline. – Margarett segurou a mão da velha amiga - Serás sempre a minha escudeira!
-Acho que podes andar mais descansada agora, Maggie. Já passou bastante tempo…
Margarett voltou a tragar um pouco do seu chã. Olhou o vazio.
Quase um ano.
Ela tinha estado a contar.Tantas coisas aconteceram de repente que uma parte de si não sabia se a sua vida estava a melhorar ou a piorar.
Desde que se juntara a Caroline boas oportunidades não lhe tinham faltado. Após criar imensos figurinos para os bailados, choveram novas ofertas de trabalho, algumas mais aliciantes e no meio de tanto alarido mal tinha tempo para respirar. Seis meses antes tinham surgido panfletos na rua com um esboço da sua cara. Dorianne tinha-a procurado incessantemente durante uns bons tempos, mas graças à ajuda de Adeline estava sempre um passo à frente.
-Bom, e como está Pierre Chevalier? – Indagou Adeline, entusiasmada - A Caroline contou-me que ele te convidou para sair!
Margarett revirou os olhos, entediada:
-Não lhe ligues! Ela gosta de me arranjar pares a todo o custo!
Adeline gargalhou:
-Ele é tão bem parecido! E rico!
Margarett negou com a cabeça:
-É uma boa pessoa… - Suspirou – Mas não tenho tempo para lhe dar atenção.
-Tempo ou vontade?
Adeline sorriu e piscou-lhe o olho.
Margarett humedeceu os lábios, incomodada, e franziu as sobrancelhas:
-Vou proibir-te de falares com a Caroline! Ela passa-te ideias erradas a meu respeito!
Adeline pegou na sua carteira de mão e levantou-se, seguida por Margarett:
-Eu acho que ela tem alguma razão no que diz! – Disse, impedindo Margarett de chegar até ao balcão da pastelaria - Deixa, eu pago!
Adeline pagou a conta e engatou o seu braço com o de Margarett para saírem para a rua.
Estava um Domingo solarengo. Tinham combinado ir encontrar Caroline, Patrick, Olivier e Pierre no jardim público, mas antes Margarett tinha ligado a Adeline para receber informações da progenitora.
As duas foram caminhando pelas ruas agitadas de Paris, vestidas com roupa bonita e cheirosa, típica do fim-de-semana. Margarett tinha de facto dado um grande salto, especialmente no que tocava ao vestuário. Finalmente tinha deixado de lado os vestidos manhosos que usava no trabalho e tinha recuperado a sua vaidade.
Naquele dia, ela tinha almoçado com M. Tissou e o senhor foi-se encontrar com alguns conhecidos da sua idade.
Não havia nada que pudesse stressar Margarett naquela tarde. Era o seu descanso merecido.
Chegaram ao local marcado em cima da hora. Já estavam lá todos excepto Pierre.
-Bom dia! – Exclamou Adeline.
Todos lhe acenaram de volta, mas ela apenas correu para Olivier.
Margarett olhou aquilo e suspirou. Não havia forma de ficar admirada com o relacionamento dos dois amigos com quem passou cinco anos da sua vida. Afinal, ela era a prova viva daquela situação. Melhores amigos nunca seriam apenas melhores amigos. Havia sempre algo mais.
Por dentro, Margarett invejava-os com todas as suas forças. Quando os dois iniciaram o relacionamento  ambas as famílias e amigos ficaram felizes. Deprimia-a questionar-se o porquê de nunca ter tido aquela sorte, mas não gostava de pensar naquilo à frente deles. Era egoísmo.
-Margarett, lá vem o Pierre!
Caroline deu um abanão a Margarett para ela sair dos seus devaneios.
Ao longe, vestido elegantemente, Pierre Chevalier aproximava-se.
Pierre era primo afastado de Caroline. Era um homem mais velho e estudado, criado no seio de uma família muito conservadora. O seu tio era padre e ele tinha uma educação religiosa bastante rigorosa.
-Bom dia, senhoritas! – Cumprimentou, com um beijo na mão de cada uma – Cavalheiros! – Concluiu apertando as mãos de cada um.
-Que bom que apareceste! – Referiu Caroline – Foi a única forma de a Margarett não servir de vela!
Patrick corou perante as palavras de Caroline. Ainda que pudesse sentir-se seguro no que dizia respeito aos seus sentimentos em relação a ela, não tinha ainda a confiança suficiente para dizer algo assim. Tinha-a convidado para sair e incrivelmente ela aceitou, mas ele não tinha a certeza se ela o tinha feito por vontade própria ou se alguém a tinha persuadido com a desculpa de uma saída em grupo.
A verdade é que Margarett lhe tinha aberto uma porta para conquistar Caroline e pelos últimos tempos ele tinha lutado bastante para manter essa porta aberta. Recentemente Caroline parecia mais próxima mas ainda não o suficiente para declarar que ela era sua namorada. Faltava o pedido e, sobretudo, a certeza do que ela queria.
-Seria uma pena ver uma jovem tão bela e formosa sozinha num grupo de casais!
Pierre sorriu para Margarett mas ela não retribuiu. Caroline lançou-lhe um olhar reprovador. Margarett nunca retribuía o sorriso a Pierre. Aliás, nunca tinha sido simpática para o rapaz. Nem percebia como ele se mantinha simpático.
-Bom, vamos à feira popular? – Olivier tentou amenizar o ambiente.
Margarett cruzou os braços, impedindo logo que Pierre lhe oferecesse a mão. Ainda assim aceitou caminhar ao lado dele. Não conseguia chegar a um nível de maldade tão alto que a fizesse não comunicar com aquele sujeito, apenas não queria dar-lhe falsas esperanças.
Chegaram ao parque de diversões rapidamente. Havia um fila interminável na bilheteira, mas depois de passarem as vedações de metal, não ouve lei que aprisionasse os jovens. As primeiras distracções foram as barracas de jogos.
Olivier foi o primeiro a tentar a sua sorte. Adeline sabia que ele tinha pontaria e exigiu-lhe um peluche. O jogo consistiu em derrubar uma pirâmide de latas com bolas de ténis. Olivier precisou de duas jogadas para conseguir dar o prémio à namorada que lhe saltou em cima logo após recebê-lo.
Num acto de cavalheirismo, Patrick resolveu tentar também a sua sorte num jogo diferente. Com dardos, tentou rebentar 3 balões seguidos para poder oferecer à parceira uma pequena caixa de musica com uma bailarina dentro. Felizmente, o tempo que perdia a jogar dardos com os amigos tinha-lhe sido útil e logo na primeira jogada adquiriu o prémio que ofereceu a Caroline Chavelier. Ela agradeceu, contentíssima com a perfeição da bailarina esculpida dentro da caixinha de música.
-Queres que te ganhe algum prémio? – Perguntou Pierre a Margarett.
Ela olhou-o, surpreendida com o pedido, contudo negou:
-Não é preciso, obrigada. Se eu quiser, eu própria ganho!
Caroline deu uma cotovelada em Margarett por ela ter sido tão pouco romântica.
Pierre, por outro lado, riu-se da certeza da loira.
-Eu não apostaria. Estes jogos não são tão fáceis como parecem!
Margarett olhou-o escandalizada com o desafio. Sentiu o seu ego pisado e não podia permitir que algum homem fizesse dela fraca.
-Pois bem, na próxima barraca eu confirmo!
Pierre não a levou a sério. No entanto, foi ingénuo ao pensar que Margarett estava a brincar com o seu orgulho. Mal surgiu outra barraca de jogos, ela abriu a sua carteira e retirou o dinheiro para pagar uma partida, negando a oferenda de Pierre.
O comerciante entregou cinco bolas a Margarett e apontou para três imagens de palhaços:
-É só derruba-los!
Margarett compreendeu e fez mira, sobre a expectativa de todos.
Mandou a primeira bola e falhou.
-Tens a certeza que não queres que seja eu a jogar? – Indagou Pierre.
Ela olhou-o por cima do ombro com um sorriso calmo, mas um olhar matador:
-Estava só a testar a dureza das placas.
Desta vez ela concentrou-se. Sabia que só Adeline e Olivier acreditavam na sua capacidade, pois eram os únicos que a conheciam há tempo suficiente.
Inspirou fundo, fez mira e depositou a força suficiente no braço. O primeiro palhaço caiu sem hesitar. A terceira bola derrubou o segundo palhaço com mais força ainda e a quarta rachou a tábua.
Pierre ficou incomodado por ver uma vitória tão certeira de uma rapariga. Uma parte de si arrependeu-se profundamente de a ter provocado.
-Pode escolher o prémio! – Declarou o dono da barraca.
Margaret olhou para cima entediada. Não havia nada de original. Apenas peluches e alguns porta-chaves. Apontou para um porta-chaves com um pássaro azul e contentou-se com aquilo.
-Pronto, podemos continuar!
Pierre acompanhou-lhe os passos, embaraçado:
-Parece que errei! Lamento!
Margarett encolheu os ombros e prosseguiu como se nada fosse.
Caroline chutou uma pedra na direcção dela para chamar a atenção e quando a loira a encarou ela fuzilou-a com o olhar. Para tentar quebrar o gelo, aproximou-se do primo e segurou-lhe o braço, entusiasmada:
-Pierre, conta-lhes! – Insistiu a dançarina, olhando por cima do ombro de Patrick.
O primo da francesa sorriu orgulhoso e todos esperaram uma resposta, incluindo a americana, apesar de não o demonstrar.
-Oh, não é nada de mais. Fui seleccionado pela escola de equitação para ir competir em provas de turfe.
-Turfe?
Margarett parou de andar por meio segundo. Sentiu a morte a passar-lhe ao lado, num calafrio inconstante.
Os demais olharam-na, preocupados com aquela súbita paragem, mas ela logo esfregou os braços para se livrar da pele de galinha e continuou como se nada tivesse acontecido.
 
***
-Vê se me compreendes, David… Se praticares um desporto diariamente, o teu corpo vai-se habituar à carga de exercício e assim passas a utilizar melhor o oxigénio, logo respiras com mais facilidade porque os músculos responsáveis pela respiração estão fortalecidos!
Dr. Lanson sentou-se no seu cadeirão giratório e retirou os óculos.
-Como vês, David, essa é uma excelente proposta para ti. Não perdes absolutamente nada, muito pelo contrário, talvez ainda ganhes!
 
David deu com uma vara na erva, irritado.
Porque razão ele era o único a não achar uma boa ideia àquilo? Até os pais se alegraram com aquela proposta e o incentivaram. Dr. Lanson, para finalizar, concordou com a ideia.
David sabia que Mr. Denvers ia aparecer na fazenda naquela tarde. Já por isso, havia estado durante dias a matutar no assunto e finalmente tinha decidido consultar o seu médico para uma opinião final.
Mr. Roland Bards tinha passado aqueles dias a incentivar David a cavalgar com Veloz, mas nada de muito intensivo. Apenas para criar uma relação entre os dois, apesar de saber que David precisava de frequentar aulas de equitação antes das corridas.
Carl Denvers chegou à propriedade à hora combinada. David ainda não tinha dado um resposta definitiva aos patrões, pelo que aquela hora era o único momento em que todos tomariam conhecimento da sua decisão.
O homem chegou num Ferrari 250 Testa Rossa vermelho reluzente* e acenou com divertimento. Os Bards e David esperavam-no à entrada.
-Roland! – Exclamou o homem, saltando do carro contente – Meu velho! Como passaste a semana!
-Bastante bem! – Respondeu,  apertando a mão do visitante – Vejo que foste pontual!
-Não brinco em negócios  – Confirmou, dirigindo-se à mulher – Mrs. Bards, deixe-me que lhe diga que a idade não passa pelos seus belos olhos!
Ethel mostrou-se amistosa.
Depois o milionário olhou para David que permanecia sério e calado, sem se mover um milímetro sequer.
-Diz-me lá então, Roland! A que decisão chegaste?
O velho tossiu para limpar a garganta e deu um passo em frente:
-A decisão não está nas minhas mãos. Pensei no que disseste e realmente concordo. Quero alguém em quem confio e não há mais ninguém neste momento a não ser o meu ajudante, David Paisen. No entanto ele não tem experiência alguma em turfe ou sequer em equitação. Se queres realmente levar o Veloz às competições terás de o convencer a ele e não a mim!
Carl Denvers riu-se, divertido. Retirou um charuto do bolso da camisa e aproximou-se de David:
-Que idade tens, rapaz?!
-19 anos, senhor.
-O que preciso de fazer para te convencer a vir comigo para Dublin?
David não respondeu. Mr. Denvers então olhou o anfitrião:
-Roland, podes arranjar-nos um sítio para conversar em particular?
Roland assentiu, mesmo após reparar no ar desconfiado de David.
Levou-os para a sala de estar e deixou-os lá a sós.
Carl preparou-se para acender o charuto e começar a fumá-lo, sentado frente-a-frente com David. Contudo, o rapaz, ousado, agarrou o charuto do homem e pousou-o em cima da mesa:
-Não pode fumar ao pé de mim! – Advertiu.
Denvers encostou-se à cadeira de braços cruzados e sorriu:
-Pois bem, como queiras! Falemos do que interessa: Quanto queres para aceitares competir?
O jovem abanou a cabeça, repreensivo:
-Não se trata de dinheiro. Não sei até que ponto isto me interessa!
-Não sabes?! – Carl Denvers riu-se alto, incrédulo - 1500 Shillings por corrida, no mínimo, não te interessa?! Por favor, rapaz!
David baixou a cabeça, apanhado de surpresa com o valor, mas não se quis mostrar interessado:
-Como disse, não se trata de dinheiro!
-Então que seja por satisfação pessoal! – Insistiu o milionário - O que te faz hesitar afinal? Eu próprio te financiarei as aulas de equitação! Não tens nada a perder. Muitos rapazes haviam de se esfolar por ter uma proposta destas!
David cerrou o cenho. Precisava de um motivo muito mais forte para se render.
-Isso não me diz nada, Mr. Denvers. Sinto-me satisfeito com coisas simples. É verdade que gosto imenso de cavalos, mas não é isso que me fará entrar em corridas de competição.
-Então que raio queres tu?! – O barrigudo levantou-se da mesa, frustrado – Ofereço-te 2000 Shillings!
David bufou:
-Eu não me importo como o valor! – Repetiu, já a ficar aborrecido com aquela insistência monetária.
O milionário bateu na mesa, chocado com uma resistência tão alta:
-2500 e não se fala mais disto! E não digas que não importa! O dinheiro importa sim! Pensa bem em todos os luxos que podias ter! Bons carros, uma óptima casa… Vá lá! Deve haver algo que precises e que só o dinheiro te ajude a conseguir!
David transmitiu um ar pensativo, mas na realidade não tinha qualquer motivação sólida para querer todo aquele dinheiro. O seu emprego com Mr. Bards era o suficiente para gerir os custos da família e da sua saúde.
-Eu não sou uma pessoa gananciosa  Mr. Denvers. Para dizer a verdade, nem sei o que faria com tanto dinheiro. Estou numa fase da minha vida em que preciso mais de apoio psicológico do que financeiro. Eu preciso de sossego e foco, acima de tudo. Ainda assim, faria-o por Mr. Bards, se ele estivesse mesmo desesperado, o que não é o caso.
Carl Denvers virou costas, incrédulo e zangado por uma oferta tão alta ter sido renegada. Sem se importar com a reacção de David acendeu um cigarro, mantendo o charuto castanho dentro do bolso do colete:
-Todos temos algo pelo qual colocaríamos o nosso próprio corpo no fogo… - Murmurou, mórbido.
David arrastou o seu olhar ao longo do homem, sentindo uma leve ardência nas costas que o fez arrepiar-se. Levou a sua mão esquerda ao local em que tal sensação se manifestou e sentiu a pele queimada que lhe cobria pelo menos metade das costas.
O foco…
David tinha acabado de explicar a Mr. Denvers que precisava de sossego e de foco. Mas tinha-se esquecido de mencionar qual era a sua luz. Com toda a algazarra pela qual tinha passado naqueles últimos meses, tudo lhe tinha passado ao lado.
-Margarett… - sussurrou para si mesmo.
O barrigudo caminhou dentro do espaço, espalhando uma nuvem de fumo imensa. O homem nem sequer tinha escutado o que o rapaz havia dito. Continuava em busca de um argumento que o convertesse.
-Um dia hás-de querer conquistar uma mulher, mas não te vai bastar um piscar de olho e um ramo de rosas para que ela seja tua. – Mr. Denvers inalou - Elas precisam de segurança, segurança essa que só o estatuto na sociedade e o dinheiro ajudam a transmitir. E para além do mais, há sempre aqueles que te vão pisar por não teres uma fortuna. Sem dinheiro, todos te podem humilhar. Não terás educação, estatuto, ou sequer…
David olhou a antiga cicatriz na sua mão. Tinha parado de escutar Mr. Denvers momentos antes. O ricaço tinha tocado na ferida. Um golpe de sorte que deu sem saber, mas que era tudo o que David precisava de ouvir para se atirar de cabeça. Podia não querer o dinheiro, apesar de não ser propriamente rico, mas havia algo que tinha prometido e tinha de cumprir. Um bom estatuto. Ser alguém. Ter credibilidade. Encontrar Margarett…
 -Eu aceito! – David interrompeu o homem.
Céptico, o milionário fitou o rapaz que, por motivo desconhecido, encarava as palmas das mãos, nostálgico. Percebeu que provavelmente ele nem tinha escutado tudo o que lhe dissera, mas houve algo que lhe despertara a atenção e Mr. Denvers não tinha chegado a perceber o que tinha sido.
No entanto, bateu palmas, apagou o pequeno cigarro e acendeu o charuto de comemoração. David levantou-se atarantado e recebeu um aperto de mão.
Veloz tinha um novo jóquei.








*O dito cujo carro do ricaço

Hahaha, pronto foi isto. Mais 4 meses para o novo capitulo. No Natal já deve estar pronto(ou não)! Matreiro
Já agora, uma curiosidade, imagino Mr. Denvers bué gordo, algo como pai da Charlotte em A princesa e o sapo! Matreiro
Spoiler
Peep-Toe & All-Star - Página 4 Big+Daddy
Peep-Toe & All-Star - Página 4 Tumblr_mezbvppRbh1rdvztso1_500_large
Ai desculpem, não resisti quando vi este gif! Matreiro Só consigo pensar em Mr. Denvers a tentar enfiar dinheiro á força na boca do David! Matreiro




Pronto, por hoje é tudo! Até para o ano! Matreiro
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#192
Opa odeio o facto de tu demorares tanto tempo a publicar os capítulos só porque achas q não estão bons.... POR AMOR DE DEUS!
Eu gostei bastante!

Disses-te para dar-mos a opinão, aqui vai a minha...
Como isto da preparação pr a corrida vai demorar bastante, isto é, quase 1 ano, a minha opinião é pores a Margarett a dar-se melhor com o Pierre e casa-los.
Meteres o David a Conhecer mais pessoas na nova terra dele, inclusive conhecer mais amigos e criar uma melhor amiga rapariga.

Na Corrida, a Margarett e o David encontram-se mais já está tudo alterado devido ao tempo, o David descobre q ela é casada com um dos adversários dele, e a Margarett vê David com a nova amiga e pensa q é mulher dele.

O David ganha a corrida, mas depois disso eles voltam a separaram-se e deixam de s falar até s encontrarem em mais corridas onde começam a falar e a ter um "caso"... Numa corrida qualquer matas o Pierre num grave acidente de cavalo, a Margarett fica super rica, e depois arranjas uma maneira bonita de acabarem o David e a Margarett na casa de sonho deles!

FIMMMMMMMMMM Smile

P.S- Diz o q achas!
#193
Hahaha, LOL Carolina! xDde tudo o que disseste só uma das ideias é que eu ja tinha imaginado, mas tirando isso não vou seguir a tua opinião e, não, eu não vou dizer qual das tuas teorias está certa! Toma toma
A história já está toda pensada. A única coisa que eu estava mesmo indecisa era se relatava tudo, ou se avançava no tempo. Na quarta-feira começei a escrever o capitulo e já decidi que vão haver avanços! Wink
Mas obrigada pela opinião! Matreiro
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#194
Olá Lulu! Smile

Em relação ao capítulo que não é nada de especial, lamento mas não o encontrei. No entanto, passei um bom bocado a ler um capítulo bastante giro. Wink
Lulu que andas tu a conspirar? Fiquei um bocado preocupada com algumas frases que colocaste. Parece que estão a anunciar uma desgraça eminente. 

"-Turfe?
Margarett parou de andar por meio segundo. Sentiu a morte a passar-lhe ao lado, num calafrio inconstante."
"David deu com uma vara na erva, irritado.
Porque razão ele era o único a não achar uma boa ideia àquilo? Até os pais se alegraram com aquela proposta e o incentivaram. Dr. Lanson, para finalizar, concordou com a ideia."

A estranha sensação da Mag, a resistência do David, tudo aponta para algo nada bom. pale 

Bem, mudando para assuntos mais alegres, eu adorei a Maggie a dar uma bela lição ao menino Pierre, haha. Assim é que é, a Mag é uma mulher forte e não precisa de ninguém. Não gostei nada da Carol a empurrar o primo para cima da amiga. O Pierre até pode ser uma excelente pessoa, mas a Mag é do David. 

Mas foi uma surpresa o David tornar-se jóquei. Não esperava nada. Grande reviravolta na história. 
Aposto que a Mag e o David ainda se irão encontrar numa competição, quando ela acompanhar a Carol para ver o primo.
Gostei muito, fico à espera de mais!
Até para o ano! lool
Beijinho*
#195
Mal vi o mensagem no face, vim logo ao hotmail em busca do link. Infelizmente, essa foi também a altura em que o pc estragou-se. Fiquei uma semana sem pc. Mas agora ele voltou e pude ler o capítulo em sossego.
Quem espera sempre alcança e neste caso valeu bem a pena a espera. Adorei imenso este capítulo. Cada vez mais adoro o David e de facto esta é a oportunidade dele de se fazer alguém. Eu cá achava que ele só iria aceitar a proposta se o Mr. Denvers lhe dissesse que uma das provas seria em França Matreiro Mas gostei de tudo na parte da Irlanda. Ver a hesitação do David, a sua humildade perante uma proposta tentadora como aquela, a sua faceta calma quando no fundo ele deve estar a arder de frustração... Não tenho razões de queixa para o nosso protagonista. 
Eu achava mesmo que o Denvers fora à quinta para tentar comprar propriedades e que acabaria por causar muitos sarilhos ao David, mas afinal enganei-me. Tal como a Bun disse, foi uma grande reviravolta o David tornar-se um jóquei. Agora só faltam umas provas vencidas e ele estará no caminho para os braços cruzados da Maggie cheers 
Já a Maggie não faço a menor ideia do que achar. Bem acredito que ela será teimosa durante muito tempo e eu estou do lado da Bun em que o encontro entre o David e a Maggie será numa pista, quando ela for acompanhar a Caroline. Mas a Carolina deixou-me a pensar.... Haverá de passar alguns meses até eles se encontrarem, não? Entretanto, a Maggie pode ceder. Vou ser honesta. O meu lado romântico ficará com vontade de decapitar aquela cabeça loira se tal aconteceu. Mas o meu lado racional irá encolher os ombros porque temos que ser realistas. Ela está há quase um ano sem noticias do David. Nada a impede de namorar outra pessoa. Principalmente se esse Pierre continuar a insistir. 

Estive agora a ler a parte dos indícios trágicos do comentário da Bun e.... bem, eu não reparei nisso. Deverei ficar com medo Desiludido Não me digas que vais matar o David logo após ele encontrar a Maggie? Fogo, se tiveres que matar um dos dois, mata a Maggie que eu fico deprimida se algo mais acontece ao David :/ 

E pronto, é isto. Gostei imenso do capítulo. Agora vou passar o resto do ano a fazer birra pelos cantos. Tu bem que gostas de nos fazer sofrer Mal disposto 

Enfim, ficarei à espera Smile
 
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
#196
Bun, é pá! Embaracoso' Antes de mais vou-te esclarecer a ti e à Ana. Só agora me apercebi que não devo ter utilizado a melhor expressão nessa parte que citaste. Eu não planeei nada de mau por enquanto.  Acho que o termo "arrepio de morte" foi demais mas nem me apercebi quando o escrevi. Futuramente vou mudar isso para algo como "Arrepio caloroso" ou "Arrepio de qualquer coisa como esperança ou calor". A verdade é que aquele calafrio era tudo menos mau. Era como um pressentimento de esperança, mas não aprofundei muito as sensações da Mag. Garanto que não é nada de mau, mas também posso já adiantar que ela e o David não se vão encontrar assim tão facilmente! Wink

Ana, o David...I love you  O David, será sempre o David... Um pouco mais maduro e ponderado, sem duvida, mas sempre teimoso! Ele vai subir na vida, é um facto, mas não se deixem enganar por este capitulo. Não vai ser sempre assim tão facil... E mais não digo!
Em relação à Mag, ele ainda está em contradição. Acho que no fundo ela está menos convencida do que o próprio David de que não vai voltar a vê-lo. Então, tens razão, claro. Ele não pode ficar a vida toda à espera dele, por isso há-de tomar outros rumos. A ver vamos! Matreiro

PS: Não tenciono Matar ninguém (importante)! Descansem!
Pode ser que eu me despache no proximo capitulo (que já está em andamento!)
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
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#197
Oi Gentxi! Embaracoso
É impressão minha ou desta vez vim mais depressa do que se esperava? 
Bom, novo capitulo, blá, blá, blá! A verdade é que supostamente ele ainda não estaria terminado. Existiam mais acontecimentos que eu queria escrever, mas comecei a sentir que estava a ficar tudo no mesmo capitulo e preferi parar por aqui e começar a escrever outro... Enfim, para não por a vitela crescida toda no tacho!   
De qualquer modo, tentei avançar no tempo. Não sei se ficou explicito, mas na parte da Mag passa-se em 1960 e a parte do David já é quase um ano depois!
Em relação ao que escrevi, tem ali umas partes que eu não gosto muito, sobre uma nova personagem, mas sinceramente olhei tanto para aquilo que desisti e deixar ficar como está! Vá, não vou falar demais agora! Desfrutem! 
 
 
Capitulo 44 – Escolhas

 

 “Destino não é uma questão de sorte, mas uma questão de escolha; não é uma coisa que se espera, mas que se busca.”

 
Senhoras e Senhores, bem-vindos à 39ª competição europeia de Turfe. Hoje, 25 de Março de 1960, será um dia especial na história do turfe. A competição está renhida e os concorrentes finalistas estão prontos para mostrar o que valem.
 
-Margarett, vem ver a corrida! Está a começar!
Caroline sentou-se no sofá em frente à televisão. Directamente de Londres, o canal estava a emitir uma prova do campeonato europeu de turfe, na qual Pierre estava a competir.
Margarett ignorou.
-Caroline, agora não! – Exclamou a loira, agarrada ao auricular do telefone – Continua, pai!
Margarett riu-se logo de seguida por algo que o progenitor disse.
-Como estão a Dorothy e os rapazes? – Indagou.
Mr. Wilson, do outro lado da linha, riu-se, feliz:
-Os rapazes saíram. A Dorothy está aqui comigo! Ela mandou-te um beijo!
-Um beijo também para ela!
Margarett enrolou o dedo na fita do telefone, sorridente.
Dois anos antes, uma mulher viúva com três filhos mudou-se para a casa que outrora fora dos Paisen. A senhora, Dorothy Jones, mostrou-se uma vizinha tão impecável como a anterior sempre fora. Ao conhecer Mr. Wilson e saber das maldades que a sua esposa tinha feito, ela tornou-se uma boa amiga. Oferecia-lhe bolos caseiros feitos por ela, convidava-o para jantar em sua casa quando o via a chegar tarde do trabalho e a ser recebido por uma casa escura e vazia e, em contrapartida, Adolfe Wilson ajudava-a com trabalhos mais pesados quando os filhos dela não estavam presentes. Os rapazes, Mickael de 16 anos, Tyler de 13 e Paul de 12 mal paravam em casa, sempre envolvidos em aventuras. Mr. Wilson achava-lhes imensa graça porque lhe faziam lembrar de Margarett quando ela era mais jovem. Devido a isso, Dorothy Jones também passava imenso tempo sozinha em casa a passar pilhas de roupas a ferro. Ela era engomadeira e ganhava a vida a tirar nódoas e a engomar as roupas das clientes. Depois da morte do marido, tinha-se mudado para uma casa mais barata e humilde para ter mais controlo sobre as contas e poder dar algum conforto aos filhos. Era uma boa pessoa, dedicada e amável  e isso deixou Mr. Wilson muito enternecido. Então, um ano depois, Margarett veio a saber que o pai tinha juntado os trapos com a vizinha. No início ela não sabia se devia ficar feliz ou não. Tinha ganho uma madrasta sem saber, porém, com as chamadas telefónicas diárias ela começou a perceber o quão feliz o seu pai se tinha tornado e isso bastou-lhe.
A máxima relação que tinha com os novos irmãos e com a mulher era por telefone e graças às fotografias que lhe enviavam. Conseguiu gostar da mulher assim. Tinha uma voz simpática e um tom amistoso. Estava sempre muito preocupada com o bem-estar de todos, incluindo o de Margarett, apesar de ela estar longe e apenas se falarem por telefone.
-Quando tencionas voltar, filha?
Margarett suspirou. Há já muito tempo que o regresso a casa tinha deixado de ser um impedimento a nível financeiro. Margarett estava bem monetariamente graças ao novo emprego numa casa de alta-costura francesa e era só querer que podia voltar para junto do pai. O problema agora estava aí. Era só querer. Ela já não sabia qual era a decisão certa a tomar. Tinha duas grandes forças a puxá-la para dois lados. Uma para casa e outra para casa.
-Não sei, pai… tenho tido muito trabalho…
 
...na pista 4, Trophy montado por Axel Poulsen, representando a Dinamarca. Na pista 5, Veloz, vindo directamente da Irlanda, e o seu Jóquei  David Paisen. Na pista 6, Comanche conduzido por Pierre Chevalier, França…!
 
- O que é que ele disse?! – Margarett olhou para a televisão, ignorando de repente o que o pai dizia.
Caroline levantou-se num pulo para aumentar o volume da TV, alegre:
-É o Pierre, olha!
Margarett olhou o ecrã e apenas viu o primo da amiga. Ela abanou a cabeça e virou costas novamente. Tinha sido apenas a sua imaginação.
-… e por isso seria um imenso gosto que regressasses. Estamos todos à tua espera, Mag.
Margarett mordeu o lábio, incomodada por não ter escutado o que o pai lhe tinha dito. Não conseguiu, todavia, responder-lhe logo. A sua atenção voltou a fugir para a televisão onde os cavalos iniciaram a corrida.
-Papá, eu tenho de pensar no assunto. Como está a vizinhança? Tens visto os Finkie?
-Oh, é o costume, filha. Mrs. Finkie tornou o baile de máscaras um acontecimento anual e já andou a espalhar cartazes pela cidade toda! No outro dia vi o filho dela, o William! Ele estava com os amigos dele!
-Gostava de lhe telefonar algum dia. Podes-lhe dizer que eu mandei um abraço? A ele e aos outros, por favor! Tenho imensa vontade de estar eles…
Margarett baixou o olhar, nostálgica. Mesmo do outro lado do oceano o seu pai conseguiu compreender a sombra que se atravessou sobre a sua filha. Queria dizer-lhe algo que a reconfortasse mas não sabia o quê. Sabia qual a pergunta que ela queria fazer a seguir e prontificou-se a responder-lhe, mesmo antes de ela suspirar:
-Não, Maggie. O David não voltou
Mr. Wilson prensou os lábios. Ele não estava a mentir. David não tinha regressado, apesar de a família dele ter dado noticias.
O homem tentava constantemente dizer a si próprio que não estava a enganar a filha. Ele sabia onde David estava. Mas ele não tinha regressado, era um facto.
Margarett abriu a boca e fitou Caroline.
-Pai, eu não ia… - Ela revirou os olhos – Tenho de desligar. Amanhã telefonas-me?
-Claro que sim! Vai lá então. Um beijo muito grande, minha querida, e volta rápido!
-Adeus, pai! Beijos para todos!
Mag pousou o auscultador no telefone. Encostou-se lateralmente à parede e suspirou. Não podia continuar com aquelas ilusões.
Ela passou a mão no cabelo, que lhe dava pela primeira vez em anos pelos ombros e retomou à sala onde Caroline assistia televisão concentrada.
-Como está a corrida?
Caroline olhou-a por um segundo e voltou a encarar o televisor:
-Não compreendo como consegues estar tão desligada disto. É o teu homem que está nesta corrida, tens consciência?
Margarett fixou o televisor e fez de conta que não ouviu aquilo.
-Como se chama o jóquei da Irlanda?
Margarett cerrou os punhos, irritada consigo mesma por perguntar aquilo a Caroline, mas não conseguiu evitar. Tinha de tirar a sua dúvida.
Caroline franziu o sobrolho e encolheu os ombros:
-Não estava atenta. Qualquer coisa Maisen, mas não tenho a certeza.
Margarett inspirou profundamente e sentou-se num tombo ao lado de Caroline:
-E só para que conste… Pierre é meu namorado, mas eu não sou obrigada a estar interessada em tudo o que ele faz…
Caroline abriu a boca, zangada:
-Margarett, é algo importante para ele e tu simplesmente estavas ali no corredor a falar ao telefone!
-Era o meu pai! – Protestou Margarett – É óbvio que eu lhe dou mais atenção.
Caroline bufou e cruzou os braços:
-E o Pierre é o teu companheiro, que está na final do campeonato… - murmurou, sisuda.
Margarett corou e voltou a olhar a TV. Tentou prestar atenção no programa, mas custava-lhe.
Ela nunca tinha escondido. Não era louca por Pierre e ele sabia-o, mas isso não o impediu de se aproximar.
Nunca perdi um desafio, Margarett, havia-lhe dito na altura.
E em pouco tempo os sentimentos dela começaram a ceder ao ponto de se permitir iniciar um relacionamento. Pierre nunca lhe havia tocado. Nem beijos lhe dava em sinal de respeito e isso ela estranhava porém, secretamente, agradecia. Mas, mesmo assim, ele dizia-se apaixonado e passo a passo ganhou um lugar importante no seu coração, ainda que não fosse o 1º lugar. No entanto, era de salientar que todos os sentimentos que Margarett conseguiu nutrir por ele se deveram ao facto de Pierre ter sido o primeiro homem a fazê-la esquecer de David.
Ele tinha esse talento: Distrair. Margarett não lhe tinha dado grande confiança quando Caroline os apresentara, mas Pierre era insistente. Convidava-a diariamente para um lanche, o qual ela sempre recusava. Uma parte de si tinha medo que a história de William se repetisse e isso não queria, de todo! Não estava disposta a enganar-se a si mesma e a outro homem que ela provavelmente iria fazer sofrer. Então foi preciso muito esforço do rapaz para que ela finalmente cedesse. E que bom que o fez. Foram almoçar juntos num Domingo e não podia ter sido mais divertido. Pierre fê-la rir e esquecer os problemas durante duas horas. Tinha sido um recorde e, sem dúvida, que esse recorde foi o melhor aliado de Pierre Chevalier. Margarett começou a aceitar os jantares, os almoços e os lanches. Depois veio o cinema e o teatro e por fim, começaram a sair à noite, mais intimamente. Então houve o dia. O dia em que Pierre a pediu em namoro. Ela aceitou, envergonhada, mas ao contrário do que tinha esperado, tudo o que recebeu foi um abraço e eu beijo na testa.
 
Veloz ultrapassa Trophy e parece estar com energia! Comanche está a fazer uma investida e talvez consiga alcançar o 2º lugar. A Meta aproxima-se!
 
-Vá lá, Pierre! – Caroline fez figas, entusiasmada, despertando Mag dos seus devaneios.
Margarett atentou na emissão. O cavalo negro de Pierre ia paralelo ao cavalo malhado que ocupava o 2º lugar. À frente deles ia um cavalo castanho que parecia deslocar-se apenas com o vento. O animal não mostrava qualquer esforço. Era, sem dúvida, Veloz.
Margarett sentiu uma emoção estranha a trespassar-lhe o peito e inclinou-se para a frente. Caroline estranhou a súbita atenção da colega, mas gostou daquilo.
-Oh! – Caroline levantou-se – Não acredito!
Margarett não se moveu.
Viu o cavalo castanho a passar a meta e Pierre logo de seguida, em 2º lugar. Não esperava aquilo.
-Deus, ele vai ficar possesso… - Comentou a loira.
Caroline sentou-se de novo:
-Foi por tão pouco!
As duas calaram-se e prestaram atenção às imagens seguintes. Os cavalos terminaram com uma volta a trote e logo após os três primeiros dirigiram-se às cavalarias  As câmaras apontaram para a plateia dos apostadores e Margarett verificou que todos estavam escandalizados e tentavam discutir com um homem barrigudo que lá se encontrava, vitorioso.
O alarido era grande e no meio da confusão e dos flashes dos fotógrafos, Margarett reparou que o jóquei vencedor se tentava retirar para fora da confusão, buscando algo desesperadamente.
As atenções imediatamente se voltaram para Pierre e foi possível ver o seu descontentamento estampado nos traços faciais. Ele, todavia, sorriu para os jornalistas cordialmente, como fazia sempre.
Margarett suspirou perante aquilo. Era tão típico que Pierre fosse cortez mesmo quando estava com mau perder. Aborrecida, ela levantou-se e saiu da sala para se dirigir à cozinha.
Caroline, por outro lado, manteve-se fixa no que acontecia. O jóquei vencedor voltou a ser as atenções dos repórteres curiosos, no entanto, ao contrário de Pierre, ele não teve paciência para sorrir para as câmaras  Caroline viu-o a colocar uma bomba de asma na boca e a aspirar o seu vapor, e só depois disso ele começou a dar respostas aos entrevistadores.
-Oh, dane-se!
Ela desligou a TV, aborrecida, e foi ter com Margarett à cozinha:
-Que desilusão! – Comentou.
Margarett sorriu:
-O segundo lugar é um posto igualmente honrado! Estou orgulhosa de Pierre!
Caroline encolheu os ombros e roubou um biscoito a Margarett:
-Quando vais visitar M. Tissou?
Margarett mostrou-se deprimida:
-Amanhã de manhã vou vê-lo. Parece-me que não anda melhor.
A mais velha calou-se. Sabia que Margarett ficava triste quando se tocava no assunto.
M. Tissou estava internado no hospital há cerca de um mês. Era um problema no estômago que lhe estava a roubar muita saúde. A sua retrosaria estava agora ao cargo de Margarett, enquanto ele não recuperava, mas todos sabiam que o veredicto dos médicos não era muito positivo.
-Bom, queres ir passear hoje? O Pierre só vem daqui a três dias e o Patrick tem trabalho.
-Onde queres ir?
-Conheço um restaurante no centro que servem pratos deliciosos! Vamos lá jantar?
Com um aceno de cabeça, Margarett aceitou a proposta. Foi trocar de roupa e mais tarde ela e Caroline saíram de casa.
 
M. Tissou tinha muitas visitas. Ora surgiam amigos, ora vinham clientes amigos. A verdade é que ele gostava muito daquelas visitas, apesar de não se sentir confortável em receber ninguém naquele estado. Ligado a si, tinha três máquinas, cujo som era irritantemente agudo.
Naquela manhã, Margarett foi visitá-lo e levou-lhe um livro novo para ele ler. Trazia também um novo pijama para ele trocar e algumas flores para alegrar o ambiente hostil. M. Tissou sentia-se muito confortável quando a jovem o ia ver. Ela era a filha que ele sempre desejara e nunca tivera. Ficava feliz quando a ouvia a contar sobre o novo emprego e também quando lhe contava coisas sobre os amigos. Interiormente, M. Tissou tinha muitos ciúmes do progenitor de Margarett, ao qual ela telefonava todos os dias. Sabia que apesar de tudo, ele não podia substituir o homem que a criara, e sentia um aperto no peito de cada vez que imaginava o dia em que Margarett ia regressar para junto da sua verdadeira família. O pensamento de voltar a ficar sozinho deixava-o, deveras, abalado, apesar de a rapariga garantir que não ia a lado nenhum enquanto M. Tissou não ficasse bem. Tinha andado a pensar muito sobre o assunto e, estando no hospital, pôde com mais precisão deduzir quem era a sua verdadeira família. Não havia nenhum sobrinho afastado, nem nenhum primo distante, muito menos pessoas da família da sua falecida esposa que o tivesse ido visitar. Então, ele apenas podia contar Margarett como família. Reflectir sobre isso, fê-lo decidir que havia de escrever um testamento enquanto fosse tempo. Ele tanto podia recuperar, como não. Mas não suportava a ideia de todos os seus bens serem entregues a pessoas que nunca se tinham importado com ele, nem nos bons momentos. Margarett merecia todos os seus tostões e mais alguns pois era esforçada, trabalhadora e uma boa “filha”. A rapariga tinha chegado até ele de uma forma tão miserável, que seria impossível não compreender que mesmo depois da sua escalada, ela precisava de apoios, tanto financeiros como parentais. Margarett, num dia em que o foi visitar, tinha ficado até mais tarde junto do homem. Então começou-lhe a contar coisas que M. Tissou não suspeitava. Contou-lhe que o motivo de a mãe a ter trazido para França tinha sido o facto de descobrir que ela tinha perdido a virtude com o namorado que a mulher renegava devido ao estatuto social. Contou-lhe que tinha traído o primeiro namorado com esse mesmo rapaz e que era a coisa que mais se arrependia de ter feito. Contou-lhe ainda que tinha muito medo de fazer o mesmo a Pierre Chevalier, daí ter hesitado tanto em sair com o rapaz. Por fim, contou-lhe que todas as noites colocava uma almofada a mais na cama para se abraçar e que sonhava quase sempre com uma casa grande, com um grande jardim e uma decoração elegante e moderna, com uma cama de dossel no quarto principal. Não importava como, mas ela sabia que havia de ter uma. M. Tissou acabou por sentir a jovem a adormecer na cadeira,encostada à sua cama de hospital e foi aí que tomou aquela decisão.
Margarett seria a sua herdeira.
 
***
Pierre Chevalier desembarcou numa sexta-feira ao anoitecer. Tinha marcado um jantar num dos Restaurantes mais caros da cidade e fazia questão que Margarett compartilhasse aquele espaço com ele. No bolso direito, trazia uma caixa embrulhada com um laço Lilás.
Tinha sido uma semana lenta. Entre fazer a competição e chegar à conclusão do que queria, houve grandes momentos de stress.
A corrida tinha sido um fiasco  Ele estranhou quando Mr. Denvers, o apostador mais rico, pela primeira vez apostou noutro cavalo que não Comanche. Não conhecia o seu concorrente e nunca pensou ser derrotado por tão pouco. Nem sequer podia imaginar o lucro que o sujeito teve, mas a cara dele nada revelava. Era um individuo sério e calado, ao que Pierre pôde apurar quando se cruzou com ele no hotel em que todos tinham ficado alojados. Pela forma como agia, Pierre soube que ele não podia vir de uma família abonada, ou os seus modos seriam mais cautelosos. O rapaz, que devia ser uns anos mais novo do que ele, não conhecia a ordem dos talheres e teve de questionar Mr. Denvers para que este o elucidasse. Pierre achou-o estranho, como se não pertencesse àquele mundo e isso levava-o a imaginar de que forma o rapaz tinha entrado nele. Mas apenas na corrida é que deu para perceber. Tão firme como se tivesse nascido para aquilo. Parecia domar o cavalo como se fosse uma mera bicicleta, facilmente conduzida, travada ou acelerada.
Pierre compreendeu então que tinha errado.
Ele pertencia àquela vida.
Mas, acima de tudo, Pierre não gostava de perder tempo a pensar no que tinha falhado. No dia seguinte à corrida, preocupou-se em visitar todas a ourivesarias de Londres para encontrar o presente perfeito para Margarett. E foi então que o viu. Reluzente e precioso. Comprou-o e nessa mesma noite telefonou para Mag a combinar o jantar.
O Restaurante “La tour d'argent” era um dos restaurantes mais antigos e luxuosos de Paris. Estava aberto desde 1582 e por lá já tinham passado imensas figuras importantes, incluindo o Rei Henri IV. A fachada exterior, apresentava-se elegante e majestosa, mas era no interior que tudo ganhava outra importância. Toda a decoração remetia para o luxo e a ostentação. O dourado era a cor predominante que iluminava o salão de uma forma tão romântica que qualquer mulher desejaria ficar lá para sempre. Era o restaurante mais conceituado dos casais, especialmente em datas importantes. Para completar o ambiente magnificente as grandes janelas permitiam uma vista panorâmica sobre o Rio Sena e a Notre Dame.
Margarett compareceu no exterior do restaurante às oito horas da noite. Ao ver onde tinha ido parar com o endereço que Pierre lhe deu, um nó formou-se na sua garganta. Conhecia bem a fama daquele restaurante.
O seu namorado apareceu cinco minutos depois dela. Trazia um grande ramo de rosas encarnadas que logo lhe ofereceu.
-Minha pequena Margarett! – Saudou, com um beijo na testa.
Margarett sorriu:
-É lindíssimo, Pierre. Obrigada! – Agradeceu.
O Ramo era deveras bem-feito. Não havia um verde a mais nem nenhuma pétala melada. Toda a composição floral era harmoniosa e delicada.
-Já vieste a este restaurante? – Indagou o homem.
Mag negou, corando de seguida.
Foi conduzida para dentro do museu gastronómico no rés-do-chão e depois ela e Pierre entraram no elevador que dava para o restaurante. A decoração Renascentista ofuscava a visão pela perfeição das formas.
-Uau…! – Murmurou Margarett, encantada.
Pierre deu-lhe a mão e os dois avançaram ao comando do garçom.
-A decoração é ainda a original! – Informou o primo de Caroline.
O garçom puxou a cadeira de Mag para ela se sentar e ausentou-se para dar privacidade ao casal.
-Que vista magnífica! Como arranjaste um lugar à janela num restaurante destes?
-Tenho os meus contactos!
A garrafa de vinho maduro chegou à mesa. Margarett e Pierre foram servidos do líquido escarlate.
-Estás maravilhosa!
Margarett sentiu um Dejá vù. Teve um flash de William lhe dizer exactamente o mesmo uns anos antes, no primeiro encontro, num ambiente bem menos elegante, mas igualmente caprichoso.
-Obrigada… - Disse ela, ruborizada. Tomou um gole do vinho e limpou os lábios no guardanapo – Então, como foi a viagem?
Pierre calou-se quando o servente colocou um prato com tostas e caviar na mesa.
-Normal. Assististe à competição?
Margarett teve de ser honesta:
-Mais ou menos… O meu pai telefonou-me na hora em que ela estava prestes a começar… - Disse, olhando o caviar com alguma dúvida. Ao perceber que Pierre não gostou de ouvir aquilo, tossiu para limpar a garganta - Bem, mas assisti à parte mais importante! Recuperaste muito bem ao ultrapassar o cavalo da Dinamarca!
Pierre torceu o nariz e provou as tostas:
-É, mas só fiquei em segundo lugar!
Margarett revirou os olhos discretamente e tornou a beber:
-Eu acho que o teu segundo lugar foi um posto admirável. Eu não teria pedido mais!
Pierre forçou um sorriso e pegou no cardápio:
-Sugiro o Canard à la presse! É a especialidade!
-Parece-me bem – Concordou Margarett.
Pierre fez o pedido e voltou a ter Margarett em atenção.
-Conhecias o vencedor? – Indagou a jovem.
-Não. Nem tive grande oportunidade para o conhecer. Além disso, ele não parecia muito acostumado com tudo aquilo!
-Que queres dizer? – Mag não pôde esconder o seu interesse.
-Ele devia ter a tua idade, mais ou menos. Mas pareceu-me que nunca tinha estado num hotel, por exemplo. Bom, mas falemos de outra coisa, por favor! Fico aborrecido em matutar na corrida!
-Claro, Deculpa!
Ela pegou na tosta com ovas vermelhas e cheirou-as discretamente. Nunca tinha comido aquilo, mas sabia que era caro e conceituado. O cheiro fazia-lhe lembrar a maresia. Levou a entrada à boca e mordeu a tosta com cuidado.
Sentiu-se a ficar vermelha.
Era horrível! Parecia que estava a meter à boca bolinhas com sabor a água do mar. Olhou em redor para perceber se seria a única naquele lugar a não gostar nada de caviar. Quis cuspir de imediato, mas não podia fazê-lo ou provavelmente seria expulsa. Com muito custo mastigou e deu um gole no vinho para tentar empurrar. Felizmente, Pierre nem se apercebeu. Ele comia as tostas com caviar como se fosse apenas um bombom doce e cremoso. 
Interiormente, a rapariga rezou para que o Canard à la Presse não fosse mau para ela como o caviar tinha sido.
-A Notre Dame fica lindíssima com a luz do anoitecer! – Mencionou o jovem.
Margarett olhou pela janela e sorriu:
-A primeira vez que fui lá fiquei escandalizada com o tamanho. Gosto imenso da arquitectura gótica!
O Garçom aproximou-se com dois pratos largos e pousou-os sobre a mesa.
Margarett gostou do aspecto daquele prato. Todo ele estava tão bem decorado e apresentável como o próprio restaurante. E, acima de tudo, não cheirava a água do mar!
-Hum! Acho que fizemos uma boa escolha! – Comentou, pegando nos talheres, pronta para provar.
Pierre tossiu para lhe chamar a atenção:
-Não comeces já! – Interrompeu – Coloca o guardanapo sobre o vestido, ou vais sujar-te.
Margarett sentiu-se envergonhada pela sua falta de elegância e fez o que Pierre lhe mandou. Depois esperou que ele desse a primeira garfada para poder começar a comer também.
Esforçou-se para não comer vulgarmente. Pegou nos talheres com as pontas dos dedos e manteve levantados os dedos mindinhos. Cortou a carne em pedaços pequenos, para não encher a boca e provou a especialidade. Era uma delícia. Se ela pudesse colocava tudo à boca de uma vez, mas ali não era algo bonito de se ver. Pierre crucificaria-a.
Ele era um pouco exigente, às vezes.
-Bom, continuando. Já alguma vez assististe a um casamento na Notre Dame?
-Na Notre Dame? – Margarett estreitou as sobrancelhas – Não sabia que faziam casamentos lá. Aquilo é um ponto turístico hoje em dia!
Pierre riu-se:
-Tudo depende se puderes pagar. Só alguns milionários e pessoas de famílias importantes é que se casaram lá. É um espectáculo maravilhoso!
-Nossa, nem consigo imaginar! – Margarett não deu grande ênfase à questão. Um casamento em Notre Dame não era para pessoas do seu nível.
-Seria um festa estupenda, acredito. Para além de bela, seria abençoada convenientemente por um bispo!
-Eu não acho que algo tão majestoso fosse necessário para um casamento. Uma pequena capela e um simples padre bastariam, desde que fosse com a pessoa certa!
Pierre riu-se:
-Concordo, minha querida! E Deus prefere humildade à ostentação!
Margarett olhou Pierre de esguelha. Não estava a compreender o rumo daquela conversa. Teve vontade de responder, mas não o fez.
-Este pato está uma delícia! – Mencionou – Nem posso imaginar como conseguiste trazer-me a um sítio destes! Além disso deves estar cansado da viagem!
Pierre pousou a faca e o garfo no prato, sinalizando que havia terminado.
-Por ti faço tudo, minha querida…
Margarett sorriu e continuou a comer.
-Guarda algum espaço para a sobremesa. A gula é um dos sete pecados mortais!
Aquele comentário voltou a deixar Margarett sem jeito.
-Não gosto de desperdiçar. – Mencionou. Era óbvio que Pierre nunca tinha passado fome.
Ainda assim, ela deu a sua refeição por concluída.
-Com certeza que não. Mas temos de ter limites. Eu, por exemplo, luto diariamente contra a inveja!
Margarett riu-se:
-Inveja de quem, Pierre? Tu tens tudo o que podes querer da vida! Acredito que esse não seja o teu maior problema!
Pierre bebeu um pouco.
-Tens razão, não é o meu maior problema!
-Então qual admites ser? – Indagou a loira.
-A luxuria…
Margarett desta vez riu-se mais. Ridículo! Se havia pessoa que não conhecia a luxuria era Pierre.
-De que te ris?
-Acho que não se adequa. Ou então, és um valente guerreiro, sem dúvida!
-Porquê?
Margarett corou. Não queria ser indelicada.
-A verdade é que tu não és muito físico, no que respeita a relações.
Pierre fez um trejeito amistoso:
-Bom, fui educado desta forma. A minha mãe sempre me disse que “Depois do beijo, vem o desejo”!
A americana demonstrou alguma timidez em relação àquilo. Talvez ele tivesse razão.
-Imaginas um mundo em que qualquer homem beijasse qualquer mulher, apenas nutrindo desejo? Sem haver um pingo de sentimento entre os dois? Qual seria a finalidade? (ele que esperasse até ao século XXI que já via! Matreiro)
Margarett concordou.
-Acho que é necessário respeito entre o homem e a mulher. – Prosseguiu o rapaz - Só assim poderão haver casamentos felizes!
-Sim, de facto… - Uma imagem de Dorianne Wilson veio à memória de Margarett. Ela não queria ser assim.
Um violinista começou a tocar no restaurante. Pierre olhou Margarett, expectante:
-Sou um homem de grandes convicções. Quero casar e ter sucessores. Tenciono dar uma grande vida à minha família.
Margarett sentiu uma mordida de tubarão no estômago. Deitou mais vinho no seu copo e bebeu-o todo. Estava a ficar tonta.
-Sei que sim, Pierre!
O sujeito colocou a mão dentro de um bolso e sorriu. Levantou-se da sua cadeira e aproximou-se mais de Margarett. Ela não compreendeu o que ele estava a fazer, mas seguiu-o com o olhar.
Ele parou em frente às pernas dela e colocou-se de joelhos no chão. Margarett tapou a boca com a mão, escandalizada. O Violino parou de tocar e todas as atenções se dirigiram para eles.
-Margarett Wilson. Desde que te conheci que soube o quão feliz me havias de fazer. A tua beleza consome-me a mente todos os segundos e a tua presença é o meu melhor presente. Assim, não quero passar mais nenhum momento sem a ti a meu lado! – Ele mostrou a caixa branca com o laço lilás e puxou-o. Abriu a caixa, exibindo um anel com um diamante puro no topo – Por isso, Maggie, humildemente te pergunto: Aceitas casar comigo?
 
***
 
-Como está ele, Doutor?
O homem não fez uma cara agradável. As moscas zumbiam em volta deles como um presságio de algo mau. O ambiente estava com um cheiro denso. Talvez fosse do feno, ou então era o cheiro da própria doença.
-Vamos ter de abater…!
David arregalou os olhos, apanhado de surpresa.
No chão, Veloz jazia deitado e quieto, com as mãos do Veterinário sobre o seu lombo.
-Não acredito… - murmurou o rapaz sem se deixar crer naquilo - Não há mais nada que possamos fazer?!
O veterinário negou.
Uma terrível sensação de culpa apoderou-se de David, apesar de ele não ter nada a ver com aquilo. O mal de Veloz surgiu na pata traseira esquerda um mês antes. Uma inofensiva picada de insecto começou a inflamar e o veneno do bichinho propagou-se rapidamente por todo o cavalo. Os tratamentos pareciam ser os mais simples, mas quanto mais tentavam tratar o animal, menos resultados viam. Ele já não se conseguia pôr em pé e isso mostrou-se preocupante.
David acariciou o seu companheiro, relutante, e olhou o homem:
-Como vai fazer? – Indagou.
O Veterinário pegou na sua maleta:
-Não se preocupe, ele não há-de sofrer. Vou-lhe dar uma injecção e ele simplesmente adormecerá.
O jovem suspirou e o veterinário afastou-se um pouco:
-Quer-se despedir?
David encolheu os ombros, desolado, mas acenou afirmativamente com a cabeça.
Quando se viu a sós com Veloz, sentou-se ao lado dele e alisou-lhe a crina:
-Bolas, Veloz… - Resmungou apaticamente.
O animal relinchou, como se tivesse compreendido David.
-Tem calma… A dor já vai passar, amigo… - David inspirou fundo. Não conseguia acreditar que o seu cavalo ia ser abatido. - Pensei que estávamos nisto juntos, sabes? Tu ajudaste-me com o meu problema de saúde e agora era a minha vez… Não é justo!
David sentiu as orbitas aguadas, mas não queria que o animal sentisse o seu stress, ou ficaria agitado. Deu-lhe duas palmadinhas no lombo e sorriu:
-Foste um bom companheiro, garanhão! Obrigado por tudo.
Uma lágrima teimosa rolou pelo rosto abaixo de David. Ele limpou-a e com pressa chamou pelo doutor, mantendo-se sentado ao lado de Veloz.
O sujeito veio e pousou a maleta, abrindo-a. Retirou uma seringa esterilizada e preparou o produto, agitando-o.
-Vai querer assistir? – Perguntou a David, esguichando um pouco de líquido para o ar com a seringa.
Não! Pensou ele em resposta. 
Mas depois ele olhou para o cavalo em que tantas vezes cavalgou e não teve coragem de lhe fazer isso. Ele estava assustado, como se soubesse o que se ia passar. David então deixou-se ficar junto de Veloz, acariciando-lhe o pêlo. Deu um sinal afirmativo ao veterinário e manteve o olhar apenas no rosto do animal. Não queria ver injecção alguma.
-Pronto... Já está.
David observou o rosto comprido de Veloz, até que o animal fechou os olhos.
Adormeceu.
O jovem jóquei levantou-se, incomodado, e acompanhou o médico para o exterior dos estábulos:
-Lamento imenso, David. Mas era a única solução!
-Muito obrigado, Doutor.
David acompanhou-o pelo prado a baixo. Pagou-lhe a quantia e depois deixou que o homem fosse embora, para voltar para dentro da propriedade.
Em passos lentos e acabados, dirigiu-se à casa de pedra, onde Mrs. Bards devia estar.
Entrou na sala de estar e encarou a mulher que lá estava, reflectindo más noticias.
-Foi abatido. – Informou.
Ethel baixou o olhar, triste. As suas vestes negras acrescentavam ainda mais dor à situação.
Mrs. Bards era agora uma mulher viúva.
Roland Bards havia falecido meio ano antes, devido a uma pneumonia. A dor da sua perda tinha sido muito grande para Ethel, tanto que a senhora tinha deixado de fazer as suas tarefas habituais. David sabia que ela tinha entrado numa grande depressão depois daquilo. Passava os dias sentada no sofá, de frente para a poltrona do marido, com o olhar vazio. Devido a isso, toda a responsabilidade de cuidar da quinta tinha ficado ao cargo de David. Mesmo que já não lucrasse muito com aquilo, ele não era capaz de deixar a fazenda morrer, simplesmente. Tinha contratado uma mulher para vir cuidar de Mrs. Bards enquanto ele tratava dos animais e das plantações sozinhos. Tinha-se tornado uma vida cansativa. Cuidar de tudo e ainda competir com Veloz. Mas Veloz, em questão de minutos, tinha deixado de ser um problema.
-O meu marido teria ficado orgulhoso de ti, de qualquer das formas. Fizeste tudo o que podias…
David baixou-se até à senhora e segurou-lhe as mãos:
-Mr. Bards era um homem teimoso e tal como eu ia ficar muito infeliz com tudo isto. Mas o cavalo estava a sofrer. Ele viveu uma grande vida, ainda assim.
Ethel não respondeu. Voltou a esvaziar o olhar.
-A minha mãe telefonou e perguntou por si. Não gostava de lhe ligar de volta? – Perguntou David, tentando animar a patroa.
-As chamadas são caras para a América. E decerto que a tua mãe está ocupada com o netinho…
Com compaixão, o jovem mordeu o lábio.
Era verdade. Grace estava longe e ocupada.
Mr. Denvers havia sido sincero quando referiu os lucros que David teria nas competições de Turfe. Em menos de três meses, fez mais dinheiro do que os pais juntos faziam num ano. Isso tinha sido uma grande dádiva para os Paisen. Os gastos tinham-se tornado menos complicados e já havia dinheiro a sobrar para caprichos. Mas havia algo em que não compensava. Os esforços de David tinham-no roubado de casa. Ele passava dois meses seguidos em Dublin, aparecendo apenas aos fins-de-semana em casa, tempo esse em que ia a consultas de rotina, visitava os Bards e dava uma mão no que fosse necessário. Depois partia para as competições e ficava fora durante outra semana. Com tudo isso sobrava muito pouco tempo para dar atenção aos pais, que se mantinham na pequena aldeia. A princípio, David não percebia a importância disso. Porem, aos poucos, começou a perceber a frustração que ia na mente da mãe. Sempre em casa, sozinha. À noite estava com o marido, ligava a David e depois a Vicky. E no dia seguinte o mesmo. Tornou-se uma vida rotineira e sem sentido. Afinal, para que estavam os Paisen ali? O filho já não estava diariamente com eles, já ganhava o seu próprio dinheiro e os problemas de saúde já não eram tão graves para serem vigiados. Grace estava a perder os primeiros anos de vida do pequeno neto e chegou a um ponto em que isso lhe doía.
Foi então que o seu marido alertou David, numa caminhada perto da falésia. Falou-lhe de como a mãe andava triste. E então David percebeu. Já era um homem independente. Estava a prender os pais a nada, num país que não era o deles. Isso levou-o a tomar a grande decisão da sua vida. Deixá-los ir.
Com o dinheiro que tinha ganho, cumpriu a promessa que fizera a si mesmo. Comprou dois bilhetes de avião para casa, em segredo. No fim-de-semana, durante o jantar, fez o anúncio. Ele ficaria na Irlanda. Tinha as competições e para além disso os Bards ainda precisavam dele, eventualmente. A princípio Grace não quis aceitar. Não sabia se conseguia deixar o filho sozinho naquele país. Com Vicky era diferente, porque ela já era casada. Mas David era mais novo. Não tinha outra família além dos pais. O jovem insistiu na mesma. Disse-lhes que a sua principal missão naqueles três anos em que tinham estado na Irlanda era conseguir alcançar possibilidades para poder devolver o conforto aos pais. Tinha conseguido alugar uma casa maior em vez do casebre em que viviam no princípio e isso tinha sido a sua primeira vitória, mas não era a conclusão. Queria que eles voltassem. Aliás, teve uma melhor ideia. Grace precisava de estar com Vicky. Então, a melhor opção era eles se mudarem para a cidade dela. Seria a maior felicidade para os pais, com certeza.
E eles foram. Os Paisen regressaram ao seu continente sem o filho mais novo. O facto de se mudarem para a cidade de Vicky foi uma alegria geral, para além de que a casa em que viviam antes de ir para a Irlanda tinha sido ocupada. Aquela nova mudança poupou-os de memórias trágicas e era sem dúvida o início de uma nova vida, mais estável e unida.
David estranhou no princípio. Ficou ao seu comando, mas era uma questão de se habituar. Apenas não contava que Mr. Bards Falecesse quase um ano depois daquilo. Isso causou-lhe muitos transtornos.
Agora, olhava para Mrs. Bards sem saber o que lhe dizer.
A sineta do exterior tocou, alertando-o.
-Deve ser Mrs. Cohen…
Ele dirigiu-se á entrada para confirmar a sua intuição.
De facto, era Mrs. Cohen, a mulher que cuidava de Mrs. Bards, e consigo vinha Myrelle, a filha.
-Bom dia, David!
-Bons olhos a vejam Mrs. Cohen! E a ti também, Myrelle!
-Igualmente, Mr. Paisen!
David abanou a cabeça, incomodado por ser tratado tão formalmente pela jovem:
-Podes simplesmente tratar-me por David, Myrelle… – disse – Entrem, por favor.
Myrelle olhou David nos olhos e sorriu. David corou. A jovem era muito frontal no que tocava a olhares e sorrisos.
-Como está Mrs. Bards hoje? – Questionou Mrs. Cohen acompanhando David com uma cesta de frutas no braço.
David travou-se e encarou a mulher com um ar penoso:
-Não muito bem… O Veloz foi abatido ainda há pouco. Foi um acontecimento muito triste para nós e Mrs. Bards presava-o muito em nome do marido.
-Oh, eu lamento imenso, David. Também deve ser muito difícil para ti, afinal era o teu cavalo.
David não respondeu. Não gostava de pensar nisso, especialmente porque ainda não tinha conseguido acreditar que Veloz estava morto. Na sua mente, ele estava apenas a descansar.
-Bom, tenho de contactar Mr. Denvers. – Mencionou, prosseguindo caminho com as duas mulheres – Ele vai ficar preocupado.
Mrs. Cohen acenou afirmativamente, concordando, e David abriu a porta para que ela entrasse primeiro.
A mulher espreitou para dentro da casa e ao ver Mrs. Bards tão apática tratou logo de fazer um ar animado:
-Bom dia, Mrs. Bards! Trouxe fruta e compotas caseiras! – Disse, mal entrou.
David inspirou profundamente e fez sinal para que Myrelle entrasse antes dele, mas ela não o fez. Em vez disso olhou o cimo do prado com tristeza:
-Embora não admitas, deves estar a sofrer muito. Tu e o Veloz eram óptimos companheiros…
-Eu fico bem, Myrelle, Obrigado.
A rapariga colocou o cabelo atrás da orelha e fitou David timidamente:
-Podes levar-me aos estábulos? Gostava de vê-lo uma última vez.
David engoliu em seco, desanimado com a ideia:
-Não me parece boa ideia… - Ele fechou a porta, percebendo que Myrelle não ia entrar. Não queria que Mrs. Bards escutasse a conversa sobre Veloz.
-Oh, desculpa… - A jovem encostou-se à ombreira – E as tuas competições? Vais arranjar outro cavalo?
David abriu a boca sem saber o que dizer. Ainda não tinha pensado naquilo. Era um assunto muito delicado e demasiado fresco para ele ter tido tempo de reflectir.
Virou o olhar para baixo, abalado. Não havia substituto para Veloz.
Sentiu umas mãos frias pousarem sobre a sua face e levantou a visão, surpreendido. Myrelle olhava-o com compreensão.
-Se precisares de alguma coisa, estarei aqui para o que for preciso.
O americano assentiu sob o olhar azul da jovem.
Myrelle tinha 18 anos. Menos três do que ele. Era formosa e delicada. A sua pele parecia ter sido fruto da gota mais límpida de uma nascente de água doce. Tinha olhos azuis, de um tom anormalmente claro que nem o céu conseguia igualar. Os lábios eram também muito claros. Um rosa pálido que mal se destacava da pele. Mas o cabelo brilhava. Era da cor das laranjas. Um tom tão resplandecente como o próprio fogo.
Se ela era bonita? Sem dúvida.
-Obrigado, Myrelle.
Ela sorriu-lhe e afastou-se dele. Aproveitou e virou-lhe costas, não para entrar na casa, mas para subir o prado.
O rapaz franziu as sobrancelhas:
-Aonde vais? – Inquiriu.
Myrelle olhou por cima do ombro:
-Ver os cavalos. Não te preocupes, posso ir sozinha!
David não pôde permitir. Seguiu-a no preciso momento e ela, ao aperceber-se começou a correr para não ser alcançada. David inspirou fundo e correu atrás dela. Não percebia as ideias de Myrelle. Era uma rapariga muito doce, mas os seus actos aparentemente inocentes traziam sempre uma pitada de sensualidade difícil de explicar.
-Espera!
David tentou concentrar-se nela. Sabia que ela não ia fazer nada de mal, porem os momentos em que ela agia sem pensar nunca eram os melhores.
Myrelle correu e chegou aos estábulos primeiro. Encostou-se à parede, ofegante e, propositadamente, esperou que David chegasse até ela:
-Não faças isso! – Pediu o rapaz quando a viu parada à entrada do abrigo – Ouve, eu não quero que vejas o Veloz nesse estado. Não tarda vêm buscar o corpo dele. Não é algo bonito para uma rapariga ver.
Myrelle mostrou-se compreensiva. Talvez tivesse abusado um pouco ao dirigir-se aos estábulos, mas ela precisou.
-Peço desculpa, David. Tu tens razão e deve ser muito difícil para ti ver isto. Eu só… - Ela fez uma pausa. - Eu queria estar contigo…
-Myrelle…
David apertou os lábios numa linha firme. Aproximou-se dela devagar:
-Fui muito rude. – Acusou-se a rapariga.
-Ahm… Não… - David desfez um nó na garganta – Não precisas de te sentir culpada. Acredito que não tinhas más intenções.
-Mr. Paisen, eu…
O jovem encarou-a, surpreendido por ela o tratar de novo por Mr. Paisen.
-É David… - Corrigiu o rapaz uma vez mais.
Myrelle negou com a cabeça:
-Não. David é demasiado íntimo. Faz-me sentir demasiado à vontade e não tenho esse direito.
David escondeu um sorriso:
-Isso é um absurdo. Já me conheces há tempo suficiente para ter confiança comigo.
Myrelle sorriu levemente, fingindo-se envergonhada. Mas David sabia bem o que ela estava a fazer. Em parte tinha compactuado com ela.
-Mas a minha mãe sempre me disse que homens e mulheres não podem ser tão íntimos, a menos que…
Ela calou-se, corada. David já tinha ouvido aquela lengalenga antes.
Ele aproximou-se mais dela e ficou rente ao seu corpo:
-A menos que…?
-Mr. Paisen…
Ela deu uma risadinha e puxou-lhe a gola da camisa, retomando o tom normal:
-Agora a sério, David… Lamento o que aconteceu com Veloz…
David desviou-lhe uma madeixa ruiva do rosto e não escondeu a apatia.
-Eu sei My… Mas não quero mesmo que o vejas. É custoso.
-Eu não vou. Só queria afastar-me do ângulo de visão da minha mãe.
David sorriu, carinhoso como sempre era.
Myrelle esticou o rosto para o jovem e esperou.
Ele logo a envolveu num beijo profundo e insaciável.
Mrs. Cohen não poderia saber. Ela havia colocado a pureza da filha num pedestal e isso era falado por toda a cidade. Não havia homem que não desejasse Myrelle e a sua virtude. Mas ela era uma jovem de respeito. Havia de esperar pelo casamento para ser desflorada.
Ou, pelo menos, era isso que Mrs. Cohen acreditava.
Myrelle rodou para cima de David no chão, ofegante. A blusa dela já estava desabotoada e ele também não estava composto. Ela levantou a saia, fogosa, e encaixou-se com o americano, ansiosa por delirar uma vez mais nos braços dele.
[
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#198



 Ela deitou-se sobre ele depois do desejo consumado. Fechou os olhos, calma, e começou a fazer-lhe pequenos desenhos no peito com os dedos.
-Eu gostava dele… - Insinuou - Não estava a brincar quando disse que gostava de o ver uma última vez…
-Não… - David recusou novamente. O seu olhar estava a arder por estar focado no céu, cuja claridade lhe provocada dificuldade em manter as pálpebras abertas – É melhor voltarmos, My… Tenho coisas a fazer…
-Não… Vamos ficar mais um bocado aqui.
Myrelle fechou os olhos e David fez o mesmo para parar de forçar a vista. Ele estava bem ali. Confortável e incrivelmente menos abatido com a morte de Veloz. Myrelle era como o vento. Ora uma leve brisa, ora um furacão. Isso fazia-o esquecer dos problemas e concentrar-se mais nela. Era preciso muita atenção para tentar adivinhar o que ela ia fazer a seguir e isso distraia qualquer pessoa do que se passava em redor. No entanto, ela estava num dia pacífico. Alem de que a morte do cavalo não lhe permitiu perder a cabeça por respeito a David. No dia anterior, por exemplo, David nem se apercebeu da meiguice dela. Myrelle abordou-o como uma rajada e atirou-se para o colo dele com uma força descomunal. E ele não era capaz de fugir a isso. Aquela emoção era demasiado forte para ser rejeitada.
-Menino David!!!
David ergueu o tronco, acordando do estado relaxado. Era Mrs. Cohen. Myrelle abriu a boca, assustada, e começou a apertar a blusa apressada coma ajuda do parceiro. Ajeitou a saia à pressa e entrançou o cabelo o melhor que pôde. David compôs-se menos meticulosamente.
-Menino David, onde está?
A gravidade no tom de Mrs. Cohen foi alarmante. David encarou Myrelle:
-Eu vou primeiro! Espera aqui um pouco!
Myrelle assentiu.
David apressou-se a descer o prado para se tornar visível a Mrs. Cohen. Ela, quando o viu, esbracejou aflita e continuou a gritar:
-Menino David, venha depressa!
David correu, percebendo que algo estava deveras mal:
-O que se passa Mr. Cohen?
-Foi a senhora! Mrs. Bards caiu no chão desmaiada e não reage! Venha vê-la depressa, por favor!
David travou-se, congelado.
O tempo parou para ele.
Sentiu Mrs. Cohen a puxá-lo, viu Myrelle a aproximar-se e a sacudi-lo, mas nada o fez ter noção do tempo.
Ele sentiu que já não ia no momento certo. Que ia em vão. Por muito que Mrs. Cohen lhe implorasse apoio, ele simplesmente soube.
Veloz morrera… e Mrs. Bards tinha partido com ele.
 
Tudo tinha sido tão rápido. À sua volta as pessoas corriam em vez de andar. Ele movia-se em câmara lenta em relação a todos os outros. Recebeu tartes dos vizinhos com condolências a acompanhar e em menos de um piscar de olhos só conseguia ver vultos pretos em redor de uma cova. Havia quem chorasse e todos o apoiavam como se ele fosse da família de Mrs. Bards.
Só conseguia retirar uma justificação para aquela partida. Era o destino. Era o cansaço. Era uma vida que tinha cumprido uma missão e finalmente havia chegado ao fim. Mrs. Bards resistiu à morte do esposo por saber que ele tinha deixado assuntos pendentes para ela tratar. Então, cuidar da quinta tinha sido algo sem importância comparando com as corridas de Veloz e David. Só que isso tinha chegado ao fim e, no bom ou no mau sentido, Mrs. Bards pôde finalmente descansar em paz.
David sentou-se no sofá da sala dos Bards após se servir do Whisky velho que Mr. Bards tinha no armário. Doía lhe a cabeça e estava aborrecido. Primeiro tinha sido Veloz, depois a patroa. Demasiadas perdas num só dia. Ele deu um gole no whisky e bufou.
Alguém entrou na sala em silêncio e dirigiu-se ao armário para pegar num copo. Sentou-se ao lado dele e fez um sinal para que o copo fosse enchido. David virou o líquido cor de âmbar no cristal, calado.
-Foi um dia triste… - Mencionou a companhia.
-Foi a hora dela, Mr. Denvers… Por muito que custe.
David tragou um pouco mais.
-E quanto ao cavalo?
-Parece que o nosso acordo terminou.
Mr. Denvers não concordou:
-Não necessariamente! Há mais cavalos, David!
O jovem olhou o homem, chateado:
-Mr. Denvers, eu aceitei correr com o Veloz. Sempre senti confiança nele.
Foi a vez de Mr. Denvers beber um pouco. Ele encarou o copo e encolheu os ombros:
-Acho que devias ter mais confiança em ti. És um bom jóquei, fosse com o Veloz ou com outro qualquer. Sabes que se quiseres, eu próprio te arranjo um cavalo, apesar de ainda haver muitos nesta propriedade.
-Eu peço desculpa Mr. Denvers, mas será que podemos falar disto noutra altura? Foram demasiadas situações em muitos poucos dias!
O homem não respondeu. Alguém bateu à porta naquele momento. David levantou-se do sofá e pousou o Whisky na mesa de café.
Dirigiu-se à entrada e abriu a porta; Um homem engravatado com uma mala nas mãos olhou-o de cima a baixo com os óculos apoiados na ponta do nariz:
-David Paisen? – Perguntou, desconfiado.
David franziu as sobrancelhas, mostrando a mesma desconfiança que o homem depositara nele:
-Sim?
-Ferdinand Daniels, Notário! – Apresentou-se a visita inesperada - Será que tem um momento para falarmos em particular?
David estranhou aquele pedido. Convidou o homem a entrar na casa e pediu a Mr. Denvers que voltasse noutro dia. O milionário concordou ao perceber que aquele homem trazia água no bico, apesar de David ainda não ter compreendido o que ele estava ali a fazer.
Quando Mr. Denvers partiu, David convidou o homem a sentar-se no sofá:
-Quer tomar alguma coisa?
-Não, obrigado Mr. Paisen!
David encolheu os ombros e recuperou o seu copo com whisky. Sentou-se de frente para o homem e esperou que ele lhe dissesse o que estava ali a fazer.
-Bom, Mr. Paisen, eu vim ter consigo pois sabia que o senhor não tinha conhecimento deste documento.
-Que documento?! – David não deu tempo de o homem terminar, admirado.
-Bom, normalmente os familiares mais próximos dos defuntos vão ao Cartório Notarial para resolver a questão da herança e das partilhas, mas pelo que pude comprovar o senhor não tinha nenhum grau de parentesco com os Bards, estou correto?
David afirmou, ainda sem compreender do que se tratava aquela visita.
O homem prosseguiu:
-Mr. Roland Bards, antes de morrer, registou todos os seus bens num testamento, no qual declarou que enquanto a sua mulher fosse viva ela teria tudo em seu nome. No entanto, Mrs. Ethel Bards, quando tomou conhecimento da herança, resolveu escrever o seu próprio testamento de modo a evitar que os bens que ela e o marido acumularam ao longo da vida fossem leiloados. No documento – Mr. Daniels retirou o papel da mala e entregou-o a David, que escutava tudo surpreendido -, como pode ver, Mrs. Bards exige que todos os bens conjugais e pessoais fossem entregues a uma pessoa da sua total confiança.  Declarou, portanto, que o ajudante, David Paisen, ficaria com a totalidade dos seus bens.
David ficou a olhar o homem com cara de retardado. Não tinha a certeza se tinha percebido correctamente o que o homem tinha anunciado:
-Mrs. Bards deixou-me… tudo?!
O homem assentiu:
-Sim, Mr. Paisen. Mrs. Bards declarou legalmente que você seria o proprietário dos bens. – ele pegou num cartão de contacto e entregou-o a David -  Deverá dirigir-se em breve ao meu gabinete para tomar conhecimentos dos bens e para assinar os papéis.
David abanou a cabeça, incrédulo:
-Mas…? Isto não está certo! A minha ligação com os Bards não era assim tão forte!
-Não foi essa a opinião da senhora. Ela considerou-o a pessoa mais próxima e da sua total confiança que merecia ser herdeira. De qualquer modo se não assinar os papéis, declarando tomar posse dos bens, recorreremos a um leilão. Tudo depende de si!
O americano tomou Whisky. Sentiu o peso daquelas palavras nos ombros e não soube o que pensar ou fazer. Precisava de dormir sobre o assunto e tentar jogar com todos os factos. Eram tantas revelações que a qualquer momento ela podia jurar que o seu mundo tinha virado do avesso e o pior de tudo era que não sabia a quem recorrer para respirar daquele assunto. À noite deitou-se no sofá e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu uma angústia profunda dentro de si. Tinha acabado de desligar uma chamada da mãe, com quem tinha conversado sobre o assunto. Para variar ela achou que ele não devia negar a herança. Era o último desejo da patroa e ele não devia brincar com ele. Sabia também que se pedisse uma opinião a Mr. Denvers ou a Myrelle a opinião deles seria igual.
Sentiu um formigueiro na orelha e uma respiração suave contra ela. Manteve-se quieto, agradado com a sensação e sorriu.
-Não te preocupes, amor… - Disse ela.
Ele respirou fundo:
-O que é que tu achas? – Perguntou.
-Mrs. Bards sabia o que estava a fazer. – Respondeu - Não precisas de te sentir culpado com medo de não o mereceres…
David olhou para cima. Uma luz por trás fazia com que a voz viesse apenas de um vulto indefinido, mas ainda assim, ele estava relaxado com a presença:
-Não achas que é injusto para os familiares afastados? Eu era apenas o ajudante…
-Eras o apoio deles… - combateu a voz doce, enquanto fazia caricias nas mãos dele - O filho ou neto que nunca tiveram. Eles sabiam que tu merecias. És uma pessoa de honra e confiança…
A mão suave deslizou para o rosto dele. Aproximou de novo a boca da cabeça de David ao que este reagiu, abatido:
-Eu não te esqueci…
Olhou para cima, triste, e recebeu um sorriso de volta. Os caracóis loiros caiam em cascata sobre os ombros e o olhar era azul como a Hortênsia mais fresca. Revelava um sentimento reciproco.
David abriu os olhos. Olhou em redor, atarantado. Tinha-se deixado adormecer no sofá.
Não tinha passado de um sonho, no entanto, tinha os pêlos dos braços arrepiados e sentia ainda o formigueiro na orelha. Ele sentou-se e olhou em redor. Nada. Um copo de Whisky vazio e uma noite escura lá fora. Levou as mãos à cabeça, angustiado.
Tinha passado tanto tempo. Três anos, quase quatro. Pensava que aquele fantasma estava quase apagado, mas enganou-se. Teve vontade de gritar e chorar com raiva. Ele não a tinha esquecido… Talvez ainda estivesse demasiado ensonado, mas o seu desejo desumano por vê-la naquele preciso momento dava-lhe vontade de se matar ali mesmo por não ter meios para a encontrar.
David serviu-se da garrafa de Whisky e bebeu um copo cheio de uma só vez. Fez uma careta e depois encheu de novo o copo. Repetiu a acção todas as vezes que conseguiu até não se aguentar em pé e adormecer.
 
Foi ao gabinete de Ferdinand Daniels naqueles dias, convicto de que a herança não passava da quinta e suas obrigações. O seu choque ocorreu quando soube que havia muito mais. Propriedades no norte da Irlanda, um prédio em Dublin e uma rica quantia em dinheiro. Os Bards podiam levar a vida mais luxuosa da cidade se tivessem querido e David nem podia acreditar que aquilo tinha ficado tudo para ele. Era de loucos.
De qualquer modo não sabia o que ia fazer com tudo aquilo. Tinha de cuidar dos animais e das plantações, mas não tinha a certeza se ia conseguir dar conta do recado sozinho, muito menos se ia conseguir ficar preso ao campo toda a vida. Era novo e ainda tinha tanto por explorar e tanto para descobrir sobre si mesmo que não conseguia imaginar-se naquela aldeia por muito mais tempo.
Desesperado com esses pensamentos, dirigiu-se à grande cidade. Queria falar com Mr. Denvers que estava hospedado num hotel no centro. Nunca imaginaria ir perdir-lhe conselhos, mas se havia pessoa que sabia gerir fortunas era ele.
O homem aceitou de bom grado ir caminhar pela cidade com David. Era uma boa forma para falarem de negócios, no entanto era o mais novo que o estava a conduzir, com um papel na mão.
-Pensaste no que te disse? Estive a pensar e o Líder sempre teve potencial…!
-Mr. Denvers, eu não sei se vou conseguir meter-me de novo nas corridas. Pelo menos por agora.
Mr. Denvers parou:
-Como?! – Perguntou indignado – Vais desistir? Foi por causa de Mrs. Bards? Eu estou disposto a comprar os cavalos em leilão para que ninguém me impeça de pô-los a competir, não precisas de te preocupar!
David olhou o papel onde estava rabiscada uma morada e negou com a cabeça, fitando Mr. Denvers novamente:
-Não será necessário, Mr. Denvers. Os bens dos Bards já foram entregues ao herdeiro…
O barrigudo parou de novo, nervoso. Acendeu um cigarro, irritado:
-Um herdeiro?! – Questionou, perplexo - Mas quem? Os Bards não tinham muitos parentes!
David corou e retomou a caminhada:
-Eu… - Elucidou constrangido - Mr. Bards deixou-me tudo, sabe-se lá como!
O fumador deu uma gargalhada animada:
-Mas isso são óptimas noticias, rapaz! Não teremos problemas com os cavalos!
Zangado, David arrancou o cigarro da boca de Mr. Denvers e pisou-o no chão:
-Você não está a compreender! Eu não tenho mais tempo para as corridas. As responsabilidades da quinta ficaram todas para mim! Foi por isso que aqui vim. – David acalmou-se - Eu precisava de um conselho de alguém que sabe gerir dinheiro e propriedades. Eu não sei o que fazer com tudo! Mr. Bards tinha mais bens do que eu algumas vez imaginei. – David encarou o papel que tinha nas mãos mais uma vez e olhou em redor à procura de algo. Quando encontrou, parou e apontou – Este edifício pertence-me… - informou.
Mr. Denvers olhou para trás de si, curioso. Um prédio pequeno com cerca de cinco andares sem contar com o rés-do-chão. Estava aparentemente abandonado e degradado. As janelas estavam todas tapadas com tábuas  as paredes gastas e a tinta descascada. Os canos que se viam no exterior estavam enferrujados e demasiado frágeis  Não obstante, David retirou uma chave do bolso e atravessou a rua para se aproximar. Mr. Denvers seguiu-o.
-Vais entrar? Deve ser perigoso!
-Tenho de ver o que é isto, Mr. Denvers. Fazia parte dos bens.
David abriu a porta principal com cuidado. A ferrugem entranhada na fechadura não era uma boa ajuda. Ainda assim, ele entrou cautelosamente.
O rés-do-chão era amplo. Tinha uma recepção velha e dois compartimentos grandes ao lado. Tinha um elevador inutilizável e umas grandes escadarias. David achou que não devia subi-las, mas queria saber qual a constituição pelo menos do primeiro andar. Subiu, portanto, o primeiro lance com Mr. Denvers sempre atrás dele. Apresentou-se um corredor largo rodeado de portas. David abriu apenas uma. Estava vazio, mas era um espaço em que não cabia um apartamento. Ele voltou para trás e desceu de novo as escadas.
-Não compreendo porque motivo os Bards tinham este edifício sem utilização e nem sequer o quiseram vender.
Mr. Denvers saiu para o exterior e David seguiu-o.
-Eu compreendo – Referiu o mais velho – Está bem localizado e vale muito dinheiro. Com um restauro podia tornar-se algo realmente lucrativo.
-Hum? – David encarou-o, admirado. Depois voltou a olhar o prédio e pôde visualizar o que Mr. Denvers havia dito. Luz, decoração, comida, criados, musica… tantas possibilidades. David sorriu.
Mr. Denvers caminhou de novo para o outro lado da estrada. Aproximou-se das grades que protegiam do rio e acendeu outro cigarro:
-Ainda por cima está de frente para o rio! – Comentou.
David concordou:
-Acha que devo investir?
-Sem dúvida, mas apenas quando estiveres pronto! Não te podes atirar de cabeça sem saberes o que estás a fazer.
David levou as mãos á cabeça e debruçou-se sobre a corrente de água.
-Como é que eu vou controlar tudo? A fazenda já dá tanto trabalho. O que faria você, Mr. Denvers?
O homem apertou as pontas do bigode e enrolou-as para fora, pensativo. Não sabia até que ponto David podia arriscar. Não conhecia todo o historial dele.
-Se fosse eu, procuraria o caminho mais empreendedor. Para começar, eu não parava com as corridas… - David revirou os olhos logo a considerar que o homem estava a tentar dar-lhe a volta – Não me interpretes mal! – Advertiu Mr. Denvers ao aperceber-se disso – As corridas são a tua principal fonte de rendimento neste momento. Eu acho que não devias desistir porque o dinheiro que recebesses por elas podia contribuir para um salário de um caseiro…
-Um caseiro? – David mostrou-se repentinamente mais interessado - Para quê?
Mr. Denvers prosseguiu:
-Reflecte comigo, David. Tu não podes estar em dois lugares ao mesmo tempo, muito menos cuidar de uma propriedade tão grande como a fazenda dos Bards, já para não falar dos custos de alimentação dos animais, das plantações, água e afins. Devias contratar dois caseiros! Um casal, mais precisamente! Pagavas-lhes mensalmente um ordenado e eles tratavam de toda a manutenção da quinta! Para isso precisas de dinheiro, claro, e neste momento acredito que a melhor opção são as corridas! Depois, também terás lucros com a venda de leite, lã, de carne e outros provenientes. É só uma opinião, jovem!
David encostou-se a um poste, pensativo. Mr. Denvers tinha razão. Ele precisava de um auxílio para cuidar dos animais e das plantações. Provavelmente dois caseiros seriam uma excelente ideia. Mas quanto às corridas ele já não tinha tanta certeza.
-Eu posso correr… Numa primeira fase. – Concluiu – Mas a todo o tempo gostava de fazer algo mais. Não vou envelhecer a competir. A qualquer momento vai acabar e eu preciso de algo que seja uma segunda via para o caso de algo dar errado…
Mr. Denvers terminou o seu cigarro e apagou-o contra o muro:
-Que idade tens, mesmo?
Intrigado, o mais novo franziu o sobrolho:
-21 Anos, porquê?
- Porque eu sei exactamente o que tu precisas! – David desencostou-se do poste, pronto para perguntar o que era, mas Mr. Denvers interrompeu-o mesmo antes de ele se poder expressar - Gosto de ti, David. Gosto da tua personalidade forte. E é por causa disso que estou disposto a ajudar-te, desde que faças um acordo comigo…
O rapaz hesitou, suspeitoso:
-Isso depende. De que é que eu preciso?
Mr. Denvers riu-se, como se fosse óbvio e deu-lhe uma palmada nas costas:
-Um canudo!
 
***
Myrelle sentou-se no colo de David, calma. Deu-lhe um beijo rápido na boca e depois mexeu-lhe no cabelo:
-Como estás? – Inquiriu ela.
A rapariga tinha reparado que David mantinha um ar pensativo. O luto já não era tão carregado, mas do mesmo modo havia algo a incomodá-lo. David olhou-a seriamente:
-Vou-me embora…
Myrelle levantou-se de rompante, sobressaltada. Tinha o cabelo ruivo preso num coque no alto da cabeça e envergava um vestido preto recto que fazia destacar a sua pele alva. Tinha colocado aquela peça por causa de Mrs. Bards, mas sobretudo porque se sentia sensual com ela e queria que David percebesse isso. No entanto, em questão de segundos ele arruinou-lhe o entusiasmo todo:
-Tu o quê?!
David juntou as duas mãos com os dedos cruzados em frente à boca. Fora uma longa meditação:
-Os meus pais foram para casa. Os Bards já não estão entre nós… O meu cavalo morreu. – Enumerou – Estou medicamente autorizado a respirar outros ares. Talvez tenha chegado a minha hora!
A ruiva rangeu os dentes, irritada:
-E eu?! Vais-me deixar, assim?
O americano franziu a testa:
-Myrelle… Tu ainda és nova. – Assumiu - Tens uma vida pela frente e muita gente para conhecer. Eu não tenho nada a prender-me aqui…!
-Tens-me a mim! – Bufou ela, irritada – Eu não quero que te vás embora, David!
-My…
A irlandesa interrompeu-o:
-Nunca pensei que me fosses pôr de lado tão facilmente… - Declarou, desapontada – Pensei que eu significava algo para ti!
David levantou-se do sofá e aproximou-se dela. Segurou-lhe as mãos para tentar acalmar o furacão que ele próprio estava a fazer crescer e tentou ser brando:
-Myrelle, tu és uma pessoa muito especial… Eu não te estou a pôr de lado. Simplesmente, acho que tu te dás bem sem mim!
Myrelle esticou a mão e esbofeteou-o:
-Seu idiota! – Gritou, quase a chorar – Eu amo-te! Tu não me podes fazer isso!
David corou violentamente, constrangido por ela dizer aquilo. Deu um passo de recua e virou a cara ao lado:
-Como eu disse… Tu és jovem e linda. Existem imensos rapazes que davam tudo para ter uma oportunidade contigo. Não desperdices isso comigo, My…
Myrelle deixou-se cair na poltrona velha de Mr. Bards. Não conseguia acreditar que estava a ouvir aquilo. Tapou o rosto com as mãos e debruçou-se sobre as coxas. Calou-se um pouco e depois levantou-se de novo e encarou David com muita raiva:
-Então eu não passei de um passatempo para ti?
David inspirou fundo e revirou os olhos:
-Não é nada disso… - Ele sentou-se no sofá em que estava anteriormente – Vamos conversar com calma… - pediu – Eu preciso de sair daqui por uns tempos, Myrelle. Apenas não quero que fiques a vida toda à espera que eu regresse.
A jovem não se contentou com aquilo
-O que vais fazer? Voltar para junto dos teus pais e arranjar um emprego medíocre numa bomba de gasolina? Tu estás melhor aqui, assume! Ainda por cima recebeste a herança!
David olhou para os seus dedos, incomodado com aquela questão. Com isso, nem sequer teve tempo de se aperceber de Myrelle voltar a atirar-se para o colo dele e a beijá-lo com uma vontade desmedida. Ele tentou interrompe-la:
-Myrelle, pára! – Ordenou, sem paciência.
Ela não parou. Continuou a beijar-lhe os cantos todos da pele:
-Tornaste-te o melhor partido da cidade! Os meus pais adorariam ter-te como genro! A minha mãe não poderia imaginar ninguém melhor para passar a noite de núpcias comigo e eu também não!
David sentiu-se vermelho e agarrou-lhe os braços com força para travá-la de vez. Ela olhou para ele, séria e tentou soltar-se:
-Estás-me a magoar!
Ele largou-a:
-Myrelle, isso não vai acontecer! – Prontificou - Eu tenho outros planos! Eu falei com Mr. Denvers e cheguei a uma conclusão…
Myrelle calou-se à espera para ouvir do que se tratava.
David massajou-lhe os braços que em questão de segundos ficaram num tom arroxeado por causa da força que ele fez:
-Eu quero viajar. Quero conhecer outras coisas, outros sítios, outras comidas, outras culturas! Quero ver arte, ouvir musica, aprender… Mr. Denvers deu-me um conselho, ontem, em Dublin…
Myrelle alarmou-se:
-Que conselho?
-Bom, se eu quero ser alguém… - David depositou um beijo na testa de Myrelle – Eu tenho de saber o que faço. Eu tenho de aprender. – Concluiu – e o que Mr. Denvers me aconselhou foi a formar-me. Ele disse que apoiava os meus custos desde que eu continuasse a correr, mas eu não aceitei…
-Não? – Myrelle mostrou-se tão surpreendida quanto qualquer um ficaria – Então…?
-Eu vou embora, Myrelle. Eu vou conhecer outros países. Eu vou trabalhar no que eu puder. Vou montar a minha vida e depois disso, sim, eu vou estudar. Pode ser aqui, ou pode ser noutro sitio qualquer do mundo. Mas primeiro eu quero descobrir a minha vocação. E nada mais me vai ajudar a não ser sair daqui e alargar os meus horizontes…
-David… - Myrelle foi interrompida pelo dedo indicador de David à frente da boca dela.
Ele fez-me uma caricia no lábio inferior, pacifico:
-Eu sinto que há algo mais para mim, lá fora. Eu não vou voltar para junto dos meus pais, não por agora. Não estou pronto.
-E não vais voltar mesmo a correr?
David encolheu os ombros:
-Quem sabe? Talvez eu ainda faça outro acordo com Mr. Denvers ao final de um ano, se não estiver a gostar do meu rumo. Sei que ele tem as portas abertas para mim. Tudo o que eu puder fazer, eu farei. Quero aprender outra língua, estudar, trabalhar, empreender e correr. Deixarei esta propriedade ao cargo de dois caseiros e vou mandando ordens para eles. Mesmo à distância quero tratar de tudo. Eu sei, se calhar estou a sonhar alto de mais, mas eu quero e preciso!
Os olhos azuis da rapariga encheram-se de água. David deu-lhe um leve beijo nos lábios para sossegá-la e tentou limpar-lhe as órbitas.
-Já tens destino? – Perguntou ela.
David acenou afirmativamente, mas Myrelle não quis saber qual era. Segurou-lhe a face e beijou-o com saudade. Ia doer muito, mas ela precisava de se despedir.
 
 
 
 
 
 
 
 
Pronto, está feito! A parte que acho que não ficou no seu melhor foi a cena de Myrelle quando chega com a mãe e também a cena em que o David sonha com a Mag. Não sei, ficou esquisito!
Finalmente, resta-me decidir se o próximo capitulo vai ser mesmo a continuação que eu queria ou se vou optar por um avanço no tempo. A ver vamos! 
Beijinhos!


PS: Porra, custou a postar! Já estava a tentar postar desde ontem, mas não estava a conseguir e era redireccionada para outra pagina! Mal disposto' Até que eu tive a feliz ideia de dividir o capitulo em duas mensagens e finalmente deu! Mal disposto'
 



 
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#199
Queres-t rir?! Eu comecei a ler o capitulo no teu segundo poste, e nao estava a perceber muito bem a história. Só depois de tudo lido e do teu comentário sobre a nova personagem e a sua mãe, é que cheguei a conclusão q não tinha lido tudo, entao puxei pr cima e vi q havia um poste anterior!

QUE CROMA QUE SOU!

Gostei muito do capítulo e nao tenho muito pr comentar, a não ser o facto que ODEIO a parte de não teres metido a Margarett a ver o nome dele na corrida.
E ADORO a descrição da Myrelle, do desfloramento e tal... Muito bem descrito! Smile

E pronto, está tudo.
#200
Wow, nem tenho palavras. Bem me parecia que a Maggie ia dar uma hipotese ao Pierre, mas para ficar assim? Fiquei de boca aberta com o pedido. Não é um pouco cedo. Basicamente apenas namoraram um ano, não? Enfim, veremos então como a Maggie reagirá ao pedido. Irá recusar? Ou ficará eternamente estupida e irá dizer sim?
Mas pronto, a parte da Maggie nao puxou muito. Já era de esperar.... O David contudo.... Raios, ele tem tido uma vida mesmo interessante, devo dizer. Não vu comentr tudo ao promenor, mas digo que adorei e mal posso esperar pelo próximo capítulo. Espero que o próximo destino do David seja Portugal xd
Engraçado como a Myrelle e o Pierre sáo o oposto um do outro, mas são exactamente o que a Maggie e o David precisam. Ela quer um que não a pressione, o David precisa de uma pecadora da luxúria para o distrair dos problemas. Gostei desta antitese das duas personagens. Gostei da Myrellle, principalmente porque nao a irei voltar a ver xp

Bem Lulu, adorei. Quero o próximo antes dos meus anos, entendido? Prometo um comentário gigantesco em retorno, ainda que não seja fácil, pois tou sem pc e não é fácil escrever no teclado de um tablet (tou velha para estas novas tecnologias Mal disposto).
Pretty please? Esperancoso
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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