Sailor Moon Portugal, A Navegante da Lua

Peep-Toe & All-Star

#221
Olá, Olá! Bom, trago um novo capitulo! Desiludido Eu queria que ele fosse maior, no sentido de ter um pouco mais de avanços temporais, mas acabou por ficar assim. Tendo em conta que não me apeteceu dar-lhe mais voltas, fica assim! Matreiro Espero que gostem!
Boa leitura! Wink


Capitulo 48 – Simples
 
“As coisas mais simples da vida são as mais extraordinárias, e só os sábios conseguem vê-las.”
 
 
“Lili’s Diner, amanhã, às 3h. Para um Waffle em nome dos bons velhos tempos!”
A mensagem estava assinada apenas com o desenho de um rosto sorridente, mas aquela caligrafia era clara como a água.
Uma vez mais, Mag sentiu falta do tocar da sineta ao entrar no Lili’s Diner.
Isso, contudo, era apenas uma forma de a sua mente se focar noutro desconforto que não o constrangimento por ir ali ter com David. Indagou-se se estaria a ser tonta ou impulsiva. Era uma mulher adulta e não podia deixar-se cair no erro de agir como uma adolescente ingénua.
Por outro lado, aquela sensação era a mais estimulante que se lembrava de ter. Caroline não ia perdoá-la por não lhe ter dito onde ia, mas tinha garantido que voltava dentro de um curto espaço de tempo. Só não sabia quanto. Podia demorar um quarto de hora ou até três horas. Quem podia adivinhar?
Ela procurou em redor, mas não teve a sorte de encontra-lo. Conformada, dirigiu-se ao balcão para cumprimentar Ally mas, para sua surpresa, a nova gerente piscou-lhe o olho:
-Tens um lugar lá em cima à tua espera!
Margarett sorriu, ciente do quão corada tinha ficado. Atrapalhada, ela deixou que o sorriso de Ally a empurrasse na direcção das escadas para o patamar superior do Lili’s Diner.
Ela subiu com alguma pressa e quando chegou lá acima deu a volta ao espaço até dar com David, já sentado numa das mesas com bancos vermelhos de pele.
Ele estava distraído.
Tinha um caderno de capa preta, dura, cheio de notas e estava a riscar algumas, com um rosto sério e concentrado. Noutra altura imaginar aquela situação seria ridículo.
David nem sequer se tinha apercebido da chegada dela. Mag, então, inspirou fundo e aproximou-se mais:
-Estou feliz por saber que ainda reconheço a tua letra.
David levantou a cabeça, surpreendido:
-Margarett! Vieste! – Exclamou, aparentemente feliz.
Ela sorriu em tom de brincadeira:
-Não estavas à espera?
Ele não respondeu. Convidou-a a sentar-se e fechou o caderno.
-Deixaste a Giuliana sozinha em casa? – Perguntou a jovem, curiosa, buscando dentro de si o conforto suficiente para manter um diálogo coeso.
David negou com a cabeça:
-Não. Hoje ela foi morder lápis.
Margarett riu-se. Há anos que não ouvia aquela expressão. Mas durante toda a sua juventude, David e ela referiam-se a “morder lápis” à custosa tarefa de ir para as aulas de Mrs. Smith.
-Primeiro dia?
David afirmou e depois mostrou-se algo preocupado:
-Espero que ela se dê bem. Não quero que ela perca o ano.
Margarett retirou o seu casaco:
-Ela pareceu-se ser bastante esperta.
David confirmou:
-E é. – Sorriu – Então e tu? Também abandonaste a Marie e a Caroline?
Margarett riu-se:
-Vergonhosamente, sim, eu abandonei! Mas prometi à Caroline que voltava depressa. Não quero aborrecê-las deixando-as sempre no hotel. Viajar comigo foi um favor que me fizeram.
David humedeceu os lábios, não sabendo até que ponto a questão que ia fazer a seguir era íntima:
-Só vieram elas?
Mag acenou afirmativamente, provocando em David uma sensação aliviante, pela qual ele se julgou.
Depois daquilo, houve um silêncio desconfortável. O problema era algo que estava preso e precisava de ser solto. Dúvidas e conversas. Mas, tanto para ele como para ela, o assunto estava envolto num tabu.
Margarett olhou pela varanda ao seu lado que permitia ver a parte inferior do estabelecimento e depois olhou para cima da mesa, onde o caderno estava pousado de forma solitária:
-Trabalho? – Perguntou.
-Sim... A propósito – lembrou-se ele, para seu alívio – Vais à inauguração do Hotel? É no dia de Acção de Graças!
Margarett encolheu os ombros:
-Ainda vou estar lá hospedada, por isso é uma hipótese.
-Então eu insisto que vás! Mandei convites para toda a gente, incluindo o teu pai.
-A sério? – Margarett mostrou-se admirada.
Não esperava que depois daquela vaga conversa do dia anterior David tivesse vontade de ver Mr. Wilson. Mas enganara-se.
Ally interrompeu-os ao surgir do nada. Trazia o cardápio na mão:
-Cá estão vocês! – Exclamou, sorridente.
David retribuiu-lhe a simpatia:
-Ally, senta-te um pouco connosco! – Incentivou e depois olhou para o rés-do-chão para ver o movimento – Ainda é cedo e está calmo. As serventes desenrascam-se sem ti uns minutos, não?
Ally concordou e sentou-se ao lado de Margarett, empolgada. Aquilo que David planeara ser uma fuga para o desconforto, revelou-se o oposto com a indiscrição de Ally:
-Então, vocês os dois combinaram o regresso?
A gerente não foi capaz de perceber qual deles tinha ruborizado mais com aquela questão. E, de facto, apercebeu-se que tinha sido demasiado directa. Não obstante, a questão estava feita.
Margarett respondeu primeiro:
-Não. Eu não sabia que…
-Eu cheguei primeiro. – Interrompeu David, embaraçado – Eu não… - ele tossiu para perder a rouquidão. Não era capaz de dizer aquilo. Não era capaz de dizer que não sabia o que tinha acontecido a Margarett durante todos aqueles anos. Isso despertava-lhe todos os seus monstros interiores.
-Oh! – Felizmente, Ally interrompeu-o – Está bem. Sei que a Margarett esteve em França, mas e tu, David? Por onde andaste?
David encolheu os ombros e sorriu amavelmente:
-Republica da Irlanda, Suiça e Itália.
Margarett olhou-o, admirada. Sabia de Itália, mas não do resto, apesar de ele já ter mencionado os hotéis nesses países.
-Uau! Viajaste bastante, David. Porquê? E porque é que não voltaste antes?
-Por causa dos ares de lá. – Respondeu ele, rapidamente.
Margarett não interpretou aquela resposta da maneira correcta. Ficou na ignorância ao pensar que David tinha utilizado a expressão sem nenhum sentido sério e sim apenas porque os ambientes sociais daqueles países lhe eram agradáveis. Mal ela desconfiava das sequelas pulmonares que o incêndio tinha causado a David.
Ally foi mais compreensiva mas não disse nada a respeito.
-E então? O que estão a fazer da vida?
Margarett não soube dar uma resposta concreta:
-Uma pausa. – Disse e depois olhou para David e sorriu-lhe porque era a vez de ele dizer o que estava a fazer para se sustentar. Ele sorriu-lhe de volta, magneticamente. Margarett percebeu que o olhar dele ainda soltava faíscas como quando era adolescente.
-Eu tenho um negócio hoteleiro.
Ally ficou a olhar para ele à espera de mais pormenores, mas se havia coisa que David tinha melhorado durante aqueles anos, era a sua capacidade de ser enigmático.
-Não recebeste nenhum convite para o dia de Acção de Graças?
A gerente abriu a boca, recordada:
-Por acaso, até recebi. – Ela sorriu, incrédula – Geres aquele hotel?
David elucidou-a:
-É meu, por isso, tecnicamente, sim.
-Que luxo, David!
Margarett riu-se. Decerto que aquela reacção era comum a todas as pessoas que já conheciam David anteriormente. Uma vez mais sentiu-se orgulhosa, mesmo não tendo nada a ver com aquilo.
-Bom, espero que vás! Estava a dizer à Margarett que convidei toda a gente e faço mesmo questão da vossa presença.
-Ah, mas com certeza! Eu vou, David! Não perdia a oportunidade de conhecer o hotel por nada e tendo em conta que é teu, terei muito gosto.
-Vai ser uma excelente reunião de velhos amigos! – Comentou Margarett e depois virou-se para Ally – Oh, Ally! Ontem à tarde fui visitar o Eric e a Janice. As gémeas são tão travessas!
Ally completou o entusiasmo:
-Sim, e são tão idênticas ao Eric! Já estiveste com ele, David?
-Sim, estive! Infelizmente não conheci as crianças. São três não é?
Margarett assentiu:
-O mais novo é adorável, mas as meninas são o piorio.
David fez um ar suspeito:
-Sem dúvida que saem ao pai!
Ally riu-se, em discordância:
-Eu não apostava, David!
Os três riram-se.
Ally espreitou para ver se o movimento tinha aumentado e se era necessário o seu auxílio:
-O que é que vocês querem?
-Waffles. – Responderam os dois em uníssono.
Ally riu-se na defensiva:
-Pronto, está bem, está bem! Eu devia ter adivinhado. Volto já!
A mais madura ausentou-se. Margarett e David entreolharam-se e, sem querer, voltaram a sorrir.
-Tu continuas com o mesmo sorriso matreiro. – Mencionou Margarett, sorridente.
-Tu continuas com os mesmos lábios!
Ela corou:
-Felizmente! – Concordou, desajeitada – Posso fazer-te uma pergunta?
Ele assentiu, pronto para as consequências. Mag revelou-se um pouco constrangida:
-Aquilo que disseste ontem… É verdade? Tu tentaste falar com o meu pai?
De repente, toda a luz que iluminava o rosto de David perdeu-se. Ele afirmou.
-Eu não sei o que aconteceu Margarett… Mas de um momento para o outro, perdi o fio à meada de toda a gente. Foi como se todos deixassem de existir.
-Eu também… - Admitiu ela – Mas perdi sobretudo o teu. Quando me disseste que escreveste ao meu pai durante um ano, eu fiquei chocada. Ele nunca me mencionou.
David inspirou, pesaroso:
-Então ele sabia de ti?
-Sempre.
Margarett apoiou-se sobre os cotovelos e colocou as mãos frias no rosto. Aquilo doeu-lhe.
-Estavas bem? – Inquiriu ela – Quero dizer… Todo este tempo tu… estavas bem?
David desviou o olhar. Ally estava a subir as escadas com os waffles. Tinha sido muito rápida, mas era normal. Os Waffles tinham muita saída, por isso estavam sempre a ser confecionados:
-Margarett, eu não acho que este seja o sítio mais indicado para falar sobre isto.
Ela voltou á postura inicial:
-Desculpa. Tu tens razão. Além disso, já passou tanto tempo, não foi?
David mordeu o lábio, contido:
-Pois…
Ally pousou dois pratos de Waffles na mesa:
-Bom apetite!
-Obrigada! – Sorriu Margarett, incomodada pela entrada tão repentina de Ally em cena.
Quando se voltou a sentir sozinha com David, Margarett fingiu que o assunto tinha morrido ali:
-Como estão os teus pais?
David serviu-se do seu Waffle:
-Não podiam estar mais satisfeitos. A maior alegria da minha mãe foi regressar para poder acompanhar o crescimento do Neil!
-Neil? – Questionou Mag, alheia.
David relembrou-a:
-O meu sobrinho. O filho da Vicky!
Margarett abriu a boca:
-Oh, já nem me lembrava! – Admitiu. Lembrava-se de ver Vicky grávida, mas nunca chegou a saber do nascimento da criança - Mas os teus pais não moram cá, pois não?
David negou:
-Mudaram-se para perto da Vicky há seis anos. Não fazia sentido manterem-se comigo na Irlanda se eu praticamente já não tinha tempo para eles.
Mag parou de comer.
Voltou a ponderar sobre aquilo. Então os Paisen tinham regressado há tanto tempo e o seu pai não lhe tinha dito? E nem eles tinham referido nada sobre Mr. Wilson a David? Que pactos tinham sido feitos?
-Estás a pensar no mesmo que eu.
Não era uma suposição. Era uma certeza de David.
Margarett era transparente. Ele tinha compreendido a causa do seu silêncio e do seu rosto reflectivo enquanto mastigava o waffle.
-Talvez.
-Mag… - ele parou.
Colocou a sua mão sobre a dela ao verificar que ela estava a tremer. O olhar dela revelava revolta:
-Não, David. Desculpa! Eu sei que provavelmente estou a levar isto com mais mágoa do que tu e nem devia estar a tocar neste assuntos. Afinal, se já passou tanto tempo eu nem sequer devia pensar nestas coisas e devia seguir em frente mas… Eu sinto-me tão traída!
Ela fugiu da mão dele e esfregou as têmporas de olhos fechados, abalada:
-Eu… Eu pensei que tu tinhas morrido… - Confessou.
-O quê?
David franziu as sobrancelhas e Margarett, muito envergonhada explicou-se:
-Eu nunca mais soube nada de ti. Eu não sabia se estavas bem ou mal. Eu imaginei todos os desfechos possíveis, David. A última vez que te vi, tu…
Ela calou-se. Se não o tivesse feito desatava a chorar ali mesmo.
E, em sintonia com ela, David ficou aliviado por ela não acabar de falar. Ele sabia. A última vez que ela o tinha visto, ele estava envolto em fogo e fumo. Não precisava que ela lhe continuasse a explicar.
-Mag… - Introduziu-se ele - Aceitas jantar comigo?
Ela encarou-o, pouco compreensiva:
-Jantar?
-Eu conheço um restaurante agradável à entrada da cidade. Gostava de te levar lá!
-Porquê?
David abriu as algemas que o estavam a impedir de falar:
-Porque nós precisamos! – Respondeu – Ver-te, no outro dia, foi um abalo para mim. Por muito que eu tente manter uma postura descontraída, eu não sou capaz. Tu não és apenas uma velha amiga que eu revi 9 anos depois de abandonar a cidade. Tu és… - Ele modificou as palavras, por cautela – Aconteceram coisas, Mag. Nós mudamos, nós vivemos. Nós não sabemos o que aconteceu. Eu estava a fazer disto um dilema, porque eu não sou tão corajoso como achava que era há 3 dias atrás. Eu não estou a conseguir fazer-te as perguntas todas que tenho na cabeça, mas eu quero e preciso. E não quero que seja aqui, por muito ansioso que eu esteja por continuar a nossa conversa. Aqui há sempre gente a tomar conta de nós, a querer saber. Vamos jantar. Vamos jantar como duas pessoas que se estão a conhecer pela primeira vez. E vamos dizer tudo, para acabar com estas dúvidas que nos consomem. – Ele inspirou fundo - Aceitas, Margarett?
Ela sentiu o coração mais quente e mais forte. David não tinha mudado tanto como ela achava. Ele continuava a saber sempre o que dizer.
-Claro que aceito… - Afirmou – Desculpa se estou a ser demasiado…
-Não, tu não estás! – Interrompeu ele, voltando a segurar-lhe a mão – Não falemos mais disto hoje. Vamos descontrair. Vamos agir calmamente. Vai correr tudo bem, Rett.
Ela sorriu e olhou para as mãos dele:
-Não me lembrava de ouvir alguém a tratar-me por Rett.
Ele riu-se:
-É normal. Só eu é que dizia isso! Mas realmente, nunca fez muito sentido!
Eles sorriram levemente em conjunto. Depois David reparou que o Waffle de Margarett estava praticamente intacto:
-Margarett Wilson, que desperdício!
Ele pegou no waffle dela e, sem ela estar a contar, levou-o à boca e deu-lhe uma trinca.
Ela abriu a boca, estupefacta:
-Eu não terminei!
Ele riu-se, divertido com a reacção dela:
-Eu sei! – e a seguir deu-lhe o Waffle à boca de propósito para lhe sujar a cara.
Ela caiu no riso. Sentiu a cara toda besuntada de chocolate mas adorou que David tivesse feito aquilo. Foi o suficiente para ela sentir confiança para agir. Em resposta, passou o dedo no chantilly e depositou-o na ponta do nariz de David. Ele riu-se também. Tinha merecido.
-Nós já fizemos isto antes, lembras-te? Na primeira vez que comi um Waffle!
-Tenho uma vaga ideia de desfilares até ao balcão com uma risca de chocolate na bochecha!
-De qualquer modo – ela roubou-lhe o waffle – Este é meu!
David levantou as mãos em sinal de redenção. Depois olhou com mais atenção para a cara dela e sorriu:
-Eras capaz de sair daqui assim? – Perguntou.
Margarett olhou com atenção para a cara dele. A ponta do nariz em chantilly era uma beleza:
-Só se tu também!
-Combinado!
Margarett divertiu-se:
-A sério?
-Com certeza! – Confirmou o jovem - Acho que a reacção das pessoas vai ser mais engraçada do que as nossas próprias caras.
Margarett pegou num guardanapo para pegar no Waffle e levantou-se:
-Vamos, então! Quero ver quem é que aguenta mais tempo!
David riu-se daquele entusiasmo, mas seguiu-a.
Desceram as escadas a rir, sob olhares das pessoas. As serventes que se aperceberam das caras deles riram-se discretamente.
Quando chegaram à caixa, David puxou a carteira:
-Eu pago!
Margarett recusou-se:
-Nem penses, eu pago a minha parte, David!
-Não, eu insisto! Desculpe! – Chamou pela jovem que estava a limpar o balcão – Quero pagar!
A jovem aproximou-se da caixa registadora e ao levantar o olhar para perguntar o que tinham comido, travou-se ao perceber as manchas de chocolate e chantilly que lhe enfeitavam a cara:
-Ah… Desculpe senhor… Tem qualquer coisa na cara.
David fez um ar sério:
-Esta coisa estranha? É um sinal de nascença, menina! Quanto é?
A rapariga corou e prendeu o riso. Disse qual a quantia a pagar e David deu-lhe o dinheiro.
Depois arrastou Margarett consigo:
-Adeus Ally! – Disseram os dois acenando à velha amiga.
Ela viu-os de relance e estranhou a cara de ambos. Acenou de volta, sem perceber muito bem o que era aquilo.
Os dois compartilharam uma risada no exterior.
Margarett ousou engatar o seu braço no de David e acompanhou-o numa volta pela cidade. Apesar de ser Inverno, não chovia. O tempo estava suficientemente agradável para andar a pé. Eles passearam pela praça e pela avenida principal. As pessoas olhavam com alguma dúvida, contudo, eram os mais novos que menos disfarçavam o riso.
Afinal, eram dois adultos tontos a passear com a cara suja pela cidade.
E David tinha razão. Era mais cómica a cara que as pessoas faziam quando os viam do que a vergonha por estarem assim. Sentiram-se duas crianças a desafiar o humor dos outros. Eles passaram um bom bocado. David comprou um jornal e Margarett uma revista e sentaram-se num banco de jardim no parque a rabiscar as fotografias das publicações e a rir:
-Acho que somos verdadeiros artistas do Dada!
-Melhores do que Marcel Duchamp e a sua L.H.O.O.Q.! *
Margarett abriu a boca, admirada por David conhecer a obra.
Começou a rir-se daquilo.
Um cheiro a fumo doce despertou-lhe os sentidos. A jovem adulta buscou a origem daquele aroma e, quando o detectou, pegou no porta-moedas e puxou David consigo na direcção do homem que estava a assar castanhas. Ela comprou um cartucho delas e depois prosseguiram o passeio ao sabor do fruto assado. Com aquilo, até se esqueceram do que tinham na cara.
Eles caminharam um bom bocado, sem se aperceberem da distância que já tinham alcançado. Mas era bom. Não havia ninguém a dizer o caminho a seguir ou a fazer pressão. Em vez disso iam-se rindo de coisas tão simples como a própria calçada. Os assuntos cresciam naturalmente, sem eles sequer se esforçarem. E, o melhor, não havia nenhuma ansiedade por esclarecimentos constrangedores, afinal de contas, essa conversa estava destinada para outra ocasião.
-Oh! - Margarett travou-se de repente ao escutar as badaladas do sino. Contou-as e depois confirmou no seu relógio de pulso - Não acredito que já são estas horas! – Exclamou – Eu disse à Caroline que demorava no máximo uma hora e já passaram mais de três.
David começou-se a rir e confirmou:
-Acho que perdemos a noção do tempo.
Mag sorriu, feliz por ter conseguido passar a tarde com David sem pressões.
-Acho que a Giuliana também já deve estar a trepar paredes!
O homem concordou, rindo pouco preocupado:
-Não me tinha lembrado disso. Por acaso tinha-lhe prometido que estava em casa para a receber do primeiro dia de aulas…!
O ar desajeitado que David expressou levou Mag a gargalhar:
-Ela não te vai perdoar!
David suspirou:
-Pois não… Mulheres…!
Ele piscou-lhe o olho, divertido. Margarett ruborizou levemente, mas não se impediu de rir também. Depois ela olhou para o nome da rua, para se situar.
Tinham andado bastante pelo que estavam longe do centro.
-Acho melhor voltarmos para trás.
David concordou e juntos inverteram a rota.
-Acho que vou ter de arranjar uma bicicleta, se ficar muito tempo aqui!
-Uma bicicleta? – ele não percebeu.
-Sim, para me deslocar! – Confirmou ela – Há anos que não ando, mas dantes adorava e era uma boa forma de passear. Lembras-te das nossas corridas, quando eramos crianças?
David assentiu em silêncio, com um sorriso reflectivo no rosto.
-Pergunto-me se ainda sei andar… - comentou ela.
-Claro que sabes! – Exclamou ele – É algo que nunca se esquece.
Mag direccionou a sua visão para ele, que caminhava ao seu lado. O olhar de David estava posto no horizonte enquanto avançava, devagar.
-Não me lembro de andar de bicicleta. – Comentou, pensativo - Troquei as rodas por quatro patas.
-Quatro patas? – Indagou ela, desentendida.
David afirmou e explicou-se:
-Cavalos. De facto, ia dar muito jeito um agora, visto que estás atrasada!
Mag encolheu os ombros. Não se conseguia afligir. Não se importava de caminhar, caso isso lhe desse mais tempo para estar na companhia de David, mas seria incapaz de lhe dizer isso em voz alta.
-Cavalos… - murmurou, deslumbrada – O engraçado é que, apesar de eu não esperar isso de ti, faz muito sentido…
-Faz?
Ela confirmou:
-Um espírito livre, selvagem, mas muito rústico e natural. Uma criatura simples. – Concluiu, com os olhos postos no caminho – Acho que te consigo identificar perfeitamente nesse contexto. Simplicidade!
Ela levantou o olhar de novo até ele. David olhava-a e apesar de não revelar nenhuma observação, estava agradado em ouvi-la.
-Simples…
Ela sorriu, envergonhada por apanha-lo a olhar para ela, porem, isso só a ajudou a continuar:
-Sim, simples… Não no sentido aborrecido, mas… - ela ponderou a suas palavras – Tu não mudaste assim tanto. Continuas a agir naturalmente. A valorizar coisas simples como uma caminhada sem rumo, não importa em que condições.
David parou. Encarou Margarett uns instantes e depois desviou o olhar. Quando ela se travou para ver porque ele tinha parado, ele prosseguiu:
-Obrigado. – Murmurou.
-Porquê? – Perguntou ela, admirada.
-Eu não sei… Mas… Foste tão honesta que… Eu acho que realmente me tinha esquecido daquilo que sou. Às vezes esqueço-me mesmo, sabes? Por fora, as pessoas mudaram a forma de falar comigo. Acho que as intimido, por causa do que tenho.
-É provável. – Concordou Mag – Um fato e uma gravata podem mudar completamente a forma como as pessoas te vêem.
-Sim… Eu sei… - Ele sorriu – Mas fico feliz por me lembrarem que é só um fato. Isto é algo que eu, realmente, não quero que me rotule. Eu sou mais do que isto, não é? Simples.
Mag passou a mão pelas bochechas. Sentia-as quentes e provavelmente vermelhas. Tentou absorver-se disso e tomou coragem para voltar a olhá-lo:
-Há quanto tempo sabes montar? – Questionou.
David encolheu os ombros:
-Há bastante tempo, por acaso. Não tenho estado a contar, mas já lá vão uns anos, apesar de ter ficado muito tempo sem praticar, infelizmente.
-Porquê?
David suspirou, pesaroso. Mas não tinha motivos para esconder aquilo de Margarett:
-O meu cavalo morreu. E eu não quis outro.
Margarett calou-se. Não tinha experiência nesse campo. Não sabia até que ponto uma pessoa se podia afeiçoar a um cavalo para a sua perda ser grande.
-oh… Bem, eu lamento. Eu sempre tive um pouco de medo de cavalos…
-Medo? – David riu-se e olhou-a, incrédulo – porquê?
-Porque são grandes e… Eu não tive boas experiências com cavalos no passado, apesar de os admirar.
-Mas alguma vez lidaste com algum?
Margarett selou os lábios em linha recta. Não queria falar de Pierre e esforçar-se-ia para não mencionar o nome dele.
-Comanche… - sibilou – Foi um cavalo que conheci. Cada vez que me tentava aproximar dele, ele relinchava e saltava. Não sei. Talvez eu o assustasse.
-Comanche?... – David olhou para o céu, intrigado. Aquele nome era-lhe familiar. Mas de onde?
-Ganhei-lhe medo. Só conseguia imaginar aquele animal a dar-me um coice e a deixar-me em coma!
David não troçou dela. Se o cavalo era assim tão instável, era provável que fizesse algo assim.
-Acho que era uma questão de ele se habituar.
Margarett encolheu os ombros:
-Talvez, mas nunca tive grandes oportunidades para isso. E tu? Como é que aprendeste?
David sentiu uma gota de água a pingar-lhe a cara. Ia começar a chover a qualquer momento.
-Na Irlanda! – Respondeu rapidamente, dando a conversa por terminada – Acho que vamos ter de correr um pouco.
Margarett sentiu a humidade do ar. Gotas dispersas começaram a pintar o chão num tom mais escuro, quando eles ainda estavam distantes do destino. Entretanto, o céu também começava a escurecer.
A loira olhou para os pés e arqueou as sobrancelhas. Correr de salto alto ia ser um desafio, sobretudo se a chuva piorasse. Ainda assim não tinha outro jeito.
As gotas começaram a cair mais grossas e mais unidas. David segurou-lhe a mão e esperou que ela tomasse o fôlego.
Começaram a correr.
E, como Margarett previra, os saltos eram os seus maiores inimigos. Em menos de nada a sua roupa ficou ensopada e o cabelo encharcado. David arrastava-a a reboque com pressa e foi sorte ela não tropeçar ao primeiro passo. Infelizmente, atrasava-os.
Margarett, então, travou David repentinamente:
-Espera! – Disse – Não consigo continuar assim!
Ela baixou-se e descalçou as botas altas. Colocou os pés directamente no piso molhado e fez sinal a David para prosseguirem:
-Estás louca? – Inquiriu ele, perplexo – Não vais andar descalça!
-É mais rápido!
Mag preparou-se para arrastá-lo de novo para a corrida, mas ele impediu-a:
-Se há coisa que aprendi a fazer estes anos, foi a ser cavalheiro. – Declarou.
Ele retirou os seus próprios sapatos e colocou-os à frente dos pés de Mag:
-Calça-os!
Margarett corou, mas negou:
-David, não é preciso! Calça-os de novo!
O homem negou:
-Ou os calças tu ou não calça ninguém!
Ela soltou uma risada e piscou-lhe o olho:
-Está bem! Vamos, então!
Os pés femininos saltitaram pela calçada agilmente.
David não acreditou naquilo. Começou-se a rir dela e pegou nos seus sapatos para correr atrás dela, também descalço.Alcançou-a rapidamente e voltou a agarrar-lhe a mão para a puxar mais depressa.
Ela riu-se daquilo. Não se lembrava de fazer algo tão idiota e arrastar alguém consigo. E, pensando bem, só David entraria no jogo dela.
Os dois patetas que passaram a tarde com as caras sujas estavam a correr descalços em plena chuva. No entanto, eles já estavam molhados de qualquer forma. Mesmo calçados iam acabar com os pés molhados e sem duvida que correr à chuva era revigorante para os dois.
Era como uma limpeza espiritual.
Quando alcançaram o parque de estacionamento do Lili’s Diner, Margarett caiu no riso e encostou-se à parede para se esconder da chuva.
David, sem compreender do que ela se ria, não evitou a sua própria risada:
-O que foi? – Perguntou ele.
Margarett abriu a bolsa e retirou um lenço branco, encharcado. Riu-se ainda mais quando percebeu que pingava. Ainda assim, aproximou-se de David e encostou-lho ao nariz:
-Acho que empatamos! – Assumiu, limpando-lhe as manchas que tinha no nariz.
Ele sorriu e deixou que ela o limpasse. Margarett estava bastante próxima dele. A uma distância que lhe permitia ver com clareza todos os pormenores do seu rosto. Ela, aparentemente, nem se tinha apercebido disso. Continuava a rir-se, com as manchas de chocolate na cara a demonstrarem toda a infantilidade que ela já tinha ultrapassado, supostamente. O cabelo pingava-lhe pelos ombros abaixo.
-Estás a tremer… - murmurou ela.
David humedeceu os lábios e sorriu-lhe. Ao perceber que ela já lhe tinha limpado o nariz, tirou-lhe o lenço e passou-lho na bochecha:
-Sim… Está a arrefecer entretanto e estamos todos molhados. Espero que não fiques constipada.
Mag acenou afirmativamente, travando o riso, e deixou que David acabasse de a limpar. Não sabia se ele tinha mentido. Ela começou, também, a tremer ligeiramente, porem não tinha frio. Estava nervosa, apenas, porque ele estava ali só com ela, e cada toque seu era mais uma tremura no seu corpo.
-Eu levo-te ao hotel, ok? Não precisas de ir de táxi.
Mag sentiu um calafrio e sacudiu-se, arrepiada. David riu-se daquilo.
-Não quero que percas tempo, David… ainda ficas mesmo doente por estares tanto tempo com a roupa molhada.
Ele negou:
-Eu insisto. É uma viagem rápida de carro.
Ela abraçou-se a si própria:
-De certeza?
David assentiu. Colocou-lhe a mão nas costas e impulsionou-a à sua frente na direcção do automóvel. Entraram com pressa para que a chuva não os importunasse mais. David apressou-se a ligar o ar quente para aquecer o carro.
-Oh! Vou molhar os estofos!
O jovem homem gargalhou da preocupação dela:
-Tem calma! Não é importante.
-Desculpa. Lidei com pessoas que me obrigavam a tirar os sapatos no carro só para não sujar os tapetes!
-O quê? – David calçou-se com os sapatos molhados e ligou o carro, olhando-a, abismado – Isso não faz sentido!
Margarett tapou a cara a rir-se. Realmente, o que é que ela estava para ali a dizer? Era preciso mudar a perspectiva para compreender o grau de estupidez das coisas que Pierre às vezes a mandava fazer.
Com esse e outros assuntos, seguiram viagem e num instante chegaram ao hotel. David parou a viatura à entrada e olhou o relógio, antes de se despedir:
-Bem, pede desculpa à Caroline por mim. A culpa foi minha!
Margarett inclinou-se e depositou-lhe um beijo na bochecha sem ele estar à espera:
-A culpa foi nossa! – Corrigiu – Foi uma tarde divertida. Obrigada, David!
Ele sorriu timidamente e deixou-a sair do carro para voltar para casa.
Margarett saltitou para o interior do hotel. Parecia uma cascata de água quando chegou á recepção. Despachou-se a apanhar o elevador e no corredor correu ansiosa pro chegar ao quarto e tomar um banho quente. Nem precisou de abrir a porta do quarto. Caroline, como se tivesse presentido, abriu-a de rompante:
-Margarett! – Exclamou, estupefacta por causa do estado dela – o que te aconteceu?
Margarett riu-se:
-Desculpa, desculpa! Eu sei que prometi que não demorava muito, mas então o tempo passou e começou a chover e…!
-Margarett! – Interrompeu a francesa – Tem calma!
A amiga obedeceu e calou-se apenas por 10 segundos:
-Desculpa! – Repetiu, sentindo-se ofegante.
Caroline encolheu os ombros e depois fez pressão nos lábios:
-O teu pai veio cá há duas horas atrás. Esperou cerca de uma hora e foi-se embora. Queres ligar-lhe?
Margarett não escondeu o seu rosto magoado.
-O que é que ele queria?
-Não sei, diz-me tu!
Caroline acusou Margarett com o olhar. A loira corou e deslocou-se para a casa-de-banho, com Caroline atrás de si. Dirigiu-se á banheira, pegou nos sais que o hotel tinha de oferta e abriu a torneira para a encher até cima. Começou a retirar a roupa molhada:
-Não sejas misteriosa! – Pediu – O que é que ele te disse?
Caroline suspirou e fechou a porta da casa-de-banho depois de dizer a Marie que fizesse um desenho para se entreter:
-A coisa mais relevante que ele me disse foi que está arrependido e que quer falar contigo para que possas perdoá-lo. Infelizmente, não faço ideia ao que ele se refere em concreto.
Margarett travou a torneira e arrancou a roupa interior do corpo. Devagarinho, entrou na água cheia de espuma e afundou-se nela:
-Temos mesmo de falar sobre isso? Tive uma tarde demasiado agradável para me aborrecer agora!
Caroline cruzou os braços, irritada:
-Desde que chegamos que estás estranha! Sempre me contaste tudo, Margarett! Porque é que andas tão misteriosa?
Mag torceu o nariz. Caroline tinha razão. Não estava a trata-la bem e era injusto. Caroline não tinha nada a ver com tudo o que tinha acontecido.
-Ok, ganhaste! Pergunta-me o que quiseres que eu respondo a verdade!
Caroline baixou o tampo da sanita e sentou-se:
-Primeiro, conta-me onde foste e porque é que demoraste tanto?
Mag pegou no gel de banho e começou a espalhá-lo pelo corpo:
-Fui ao Lili’s diner com o David. Demorei porque nos distraímos a conversar. Tão simples quanto isto! E que mais?
Caroline franziu as sobrancelhas:
-Porque é que o teu pai anda desesperado para te falar e tu não lhe respondes?
Mag suspirou e parou os movimentos circulares que fazia na sua pele:
-Caroline… Eu gostava de ter forças para te contar, mas… A única coisa que eu te consigo dizer sem levantar um pranto é que o meu pai, durante todo o tempo que eu estive em França, ocultou-me cartas dirigidas a mim, que poderiam ter determinado toda a minha vida. Como nunca tive acesso a elas, tomei decisões que, graças a Deus, não me levaram pelo caminho errado. Entretanto, eu descobri o que ele fez e ele sabe-o. Quer-se desculpar, mas por muito que eu ame o meu pai, não sei se sou capaz, por enquanto.
-Oh, Margarett! – Praguejou Caroline, levantando-se, impaciente – Durante anos falaste em voltar para casa, para junto do teu pai e da sua família. Agora que estás finalmente aqui, dizes isso? Porquê isso agora? Era algo assim tão importante?
As lágrimas juntaram-se nas orbitas de Mag:
-Era! – Exclamou, irritada – E eu não vou discutir isso contigo, porque não estou preparada! A unica coisa que te posso dizer é que o meu pai conseguiu descer quase ao mesmo nível da minha mãe, e isso eu não posso aceitar!
A francesa corou, indignada. Nunca tinha visto Margarett tão revoltada.
-Ok, desculpa!
-Caroline tive um dia demasiado bom para acabar assim! Sai por favor!
Escandalizada com o tom de Mag, Caroline obedeceu.
Assim que ela bateu a porta da casa-de-banho, Margarett afundou a cabeça na água. Não podia. Não podia estragar a sua paz interior só por causa daquilo.
Tinha tido um dia maravilhoso e só queria pensar nisso sem o denegrir com problemas.
Deixou-se ficar uma hora no banho, a pensar, reflectir e sonhar. Tudo lhe passou pela cabeça. Sentia falta de David, mais do que nunca agora que o reencontrara. Sentia falta do cheiro dele, de lhe tocar o cabelo, de o…
Ela abriu os olhos, com o coração aos pulos. Não. Tinham passado demasiados anos. Era altura de ser realista.
Mas aquilo era realismo…
Ela sentia falta de o beijar.
Margarett saiu do banho corada e vestiu-se.
Foi jantar com Caroline e Marie no salão do hotel e depois foram assistir ao espétaculo diário no anfiteatro.
À noite deitaram-se sem nada proferir. Mag perguntou-se se estava a ser injusta com Caroline, no entanto, tinha a perfeita noção que só com o tempo ia conseguir falar sobre aquilo fosse com quem fosse. Sentiu falta de M. Tissou. Iria gostar de falar com ele sobre aquilo. Decerto que o bom homem teria um bom conselho a dar, mas ele já não estava mais naquele mundo.


Conformada, Mag fechou os olhos e dormiu.




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*L.H.O.O.Q., de Duchamp:
http://uploads6.wikipaintings.org/images/marcel-duchamp/l-h-o-o-q-mona-lisa-with-moustache-1919.jpg



"Entre os mais famosos Ready-mades está L.H.O.O.Q. que, em frânces quando lido, assemelha-se com Elle a chaud au cul que, traduzido fica: Ela tem fogo no cu, refere-se à Mona Lisa, obra de Leonardo da Vinci. Trata-se de um retrato da Mona Lisa ao qual Marcel Duchamp acrescentou bigode e cavanhaque."





Gente, oo forum não está lento? Ou é só a mim? É que já no ultimo post que fiz e neste tambem que ele está tão lento que demoro imenso a correr a página e a editar tudo. Mal disposto' Só me acontece neste site! Desiludido
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#222
A sério Catarina... Apetece-m bater-t.
Ler os teus capítulos é como ver uma série... Acaba e ficas revoltada porque queres ver mais. O bom das séries é que todas as semanas à um episodio novo, aqui tenho que esperar quase meses! :'(

Queria saber mais... QUERO MAIS! :'(
#223
Hahaha, Carolinea, ri-me com a tua comparação! Realmente comigo nunca se sabe quando veem o novo capitulo! Matreiro
É esperar! Matreiro
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#224
Melhor momento do capítulo:

 Ela calou-se. Se não o tivesse feito desatava a chorar ali mesmo.
E, em sintonia com ela, David ficou aliviado por ela não acabar de falar. Ele sabia. A última vez que ela o tinha visto, ele estava envolto em fogo e fumo. Não precisava que ela lhe continuasse a explicar.
-Mag… - Introduziu-se ele - Aceitas jantar comigo?

LOOOOOOL, mas que mudança de assunto tão discreta  Assobiar *leia-se o sarcasmo*
Ás tantas não tem assim tanta piada, mas grizei-me à mesma. Por vezes, são as partes mais hilariantes são as coisas mais pequenas. 

Uau, este capítulo foi bastante leve, sim senhora. Eu aqui a stressar-me por causa dos exames & Lda e felizmente caí-me do céu um capítulo novo. E um capítulo bem doce x)
Adorei Lulu. O momento à chuva foi tão romântico e natural, a mim deu-me a sensação que estava lá euzinha a sentir a natureza  Simpatico2 . Foram momentos engraçados, como as caras pintadas e o "roubo" de crepes. Faz lembrar um casal amigo meu que, quando se trata de comida, é uma luta autêntica Matreiro


Também me diverti com estes paragrafos:
 
-Não. Hoje ela foi morder lápis.
Margarett riu-se. Há anos que não ouvia aquela expressão. Mas durante toda a sua juventude, David e ela referiam-se a “morder lápis” à custosa tarefa de ir para as aulas de Mrs. Smith.

É mesmo engraçado ver os nossos personagens mencionar um detalhe relacionado à escola visto que, até agora, toda a acção entre eles tem-se desenrolado no Verão. Não sei porquê, mas acho engraçado imaginar o David literalmente a morder lápis, aborrecido numa aula e a dar cotoveladas na Maggie só para a chatear Matreiro

Sentiu falta de M. Tissou. Iria gostar de falar com ele sobre aquilo. Decerto que o bom homem teria um bom conselho a dar, mas ele já não estava mais naquele mundo.

Eu até achei que tinha saltado uma linha quando li o parágrafo, mas não me enganei afinal. A minha cabecinha afectada pôs se logo a imaginar cenários com a  Maggie a falar das suas emoções e desejos carnais a um composto M. Tissou. Até imagino ela a dar mais detalhes picantes na conversa e o homem todo vermelho e com os nós dos dedos brancos de ele tentar manter a postura. Matreiro


Em suma adorei e, tal como a Carolina, QUERO MAIS!! Por favor não te demores tanto a postar o próximo! Please!  Laughing 
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
#225
Ana começo a achar que tens um fetiche pelo M. Tissou! hahaha! É que já não é a primeira vez que imaginas coisas erradas entre ele e a Marfarett! Matreiro

Ahhahaha, agora, como adoro contrariar a vossa expectativa de que o próximo capitulo só chega no Verão e como adoro provar como sou uma pessoa imprevisível, trago o novo capitulo!

Sim, leram bem, já está escrito! Se estiver uma porcaria.... Bem, "depressa e bem, não há quem"! LOL

Bem, vão reparar que há falas aí a negrito. Isso deve-se ao simples facto de eu não ter paciencia para andar a brincar aos "avec's franceses" no google tradutor e por isso, como cheguei a fazer em "angelical" coloquei as falas em outro idioma a negrito. Pronto, assim ninguem se cansa (tanto)

Então, cá está ele!

Capitulo 49 – Perdoar
 
“O amor deveria perdoar todos os pecados, menos um pecado contra o amor.”
-E então?
-Nada…
Mr. Wilson sentou-se no sofá, cansado. Esfregou os cantos interiores dos olhos com um semblante tão agoniado quando o da esposa, que esperava ansiosamente uma evolução.
Inconformada, a mulher bateu o pé no chão:
-Basta, Adolfe! Eu vou falar com ela!
-Dorothy, não te martirizes! Não é problema teu!
A mulher bufou e sentou-se ao lado do conjugue.
-Que isto te sirva de lição no futuro, Adolfe. Só Deus pode controlar o destino. E também não era problema teu
Mr. Wilson não respondeu. A sua actual esposa tinha razão.
Já tinham passados vários dias desde que Margarett deixara de lhe responder às chamadas. Ela tinha descoberto… Era a única resposta para aquilo, mas ninguém a podia censurar. Tinha herdado a teimosia da mãe e a bondade do pai. Infelizmente, naquela situação, os dotes da progenitora estavam a prevalecer.
Não é que Adolfe Wilson quisesse levar aquele segredo para a cova. Mas não contava com tamanha coincidência. Depois de tantos anos, quem iria adivinhar que David Paisen ia regressar à cidade a apenas uma semana do regresso da sua filha? Se aquilo não era obra de algum ser superior, então não sabia o que seria.
A questão naquele momento era que precisava de esclarecer tudo e não só com Margarett. Devia um pedido de desculpas ao rapaz, que mesmo estando longe não se esqueceu dele. Tinha todas as cartas dele guardadas numa caixa, que por sua vez estava zelada dentro da velha caixa em que Margarett coleccionara as cartas que trocou com ele na juventude. Havia prometido a si mesma que lhas ia entregar todas, algum dia. A única coisa que não tinha planeado tinha sido a circunstância que, sem dúvida, não era a melhor.
Interrogou-se se David e Margarett tinham-se contactado naqueles dias. Questionou-se se eles tinham discutido sobre o assunto, se tinham reatado a amizade ou até mesmo a relação. Por enquanto ainda não tinha tido a sorte de o saber. Mag não atendia as chamadas do hotel e, quando ele lá foi, ela nem sequer estava. A situação estava um pouco parada para mr. Wilson.
-Liga ao rapaz… - Aconselhou Dorothy – Já que a tua filha não atende, talvez ele saiba de algo.
-Com que contacto?
Dorothy dirigiu-se ao telefone:
-Peço nas informações. Como é que ele se chama?
Mr. Wilson rendeu-se e suspirou:
-David… David Paisen.
 
***
 
David entrou no hotel com passos firmes. Cumprimentou os funcionários pelos quais passou e prossegiu sem mais comentários. Deslocou-a até Mr. Mabb na recepção, que se encontrava acompanhado por um outro funcionário a tratar de algo. Ele parou em frente ao balcão e dirigiu-se unicamente ao gerente:
-Bom dia, mr. Mabb! – Saudou, rapidamente.
O homem entregou a papelada ao colega e cumprimentou o patrão, ordenando ao outro que entregasse tudo no salão de refeições:
-Bom dia, Mr, Paisen! O que o trás cá hoje?
David bateu com os dedos no balcão, algo impaciente, e inspirou.
-Preciso de falar com a senhorita Margarett Wilson. É capaz de me dizer se ela está?
Mr. Mabb franziu o sobrolho:
-Bom, não a vi sair hoje ainda. Deixe-me ligar para o quarto, por favor.
David assentiu. Mr. Mabb apercebeu-se que ele estava ligeiramente inquieto. Pegou no telefone e entrou em contacto com o quarto da zona Oeste. Ninguem atendeu.
-Vou tentar de novo. – Adiantou, voltando a marcar os dígitos.
David especulou durante o silêncio de mr. Mabb. Quando o homem pousou o auscultador, ele bufou.
-Não está ninguém no quarto. Talvez esteja na piscina interior ou no SPA!
O mais jovem mordeu o lábio. Era contra as regras do hotel aceder a esses locais sem trajes adequados e ele não estava disposto a fazê-lo.
-Quer que deixe recado? – Perguntou o gerente.
-Não, obrigado, mr. Mabb. Eu realmente vou ter de encontra-la agora.
E, como um sinal de sorte, David viu uma criança a correr desde a zona da piscina para o elevador. Reconheceu-a.
-Marie! – Exclamou.
A miúda olhou-o admirada e ele sorriu:
-Salut! Où est votre tante Margarett?
Marie não respondeu, intimidada, mas felizmente Caroline apareceu logo de seguida, vinda da mesma direcção. Ele sorriu aliviado quando a viu:
-Bonjour, madame Caroline! Savoir me dire où je peux trouver Margarett?
Caroline abriu a boca, surpreendida com a questão:
-Oh, oui! Elle est dans la piscine. - Informou
-J'ai besoin de lui parler de toute urgence. Appelez ça?
-Oui, bien sûr, mais elle a dit qu'elle était déjà, cependant. Je vais juste prendre Marie dans la chambre et si elle n'a pas retourné mais je l'appelle!
-Merci, madame!*
Caroline sorriu e entrou no elevador com Marie. David virou costas e bufou de novo, irrequieto. Olhou para o relógio de pulso e depois para Mr. Mabb. Ao verificar que ele estava ao telefone a apontar algo, escapou-se.
Discretamente, entrou na porta que dava acesso à piscina interior. Seguiu o corredor, sabendo que era contra as regras de higiene usar calçado de rua ali. Constrangido, parou nos balneários Masculinos e descalçou-se. Pegou numas chinelas que lá estavam pousadas e continuou o caminho.
Aquela área era sobretudo ampla. Tinha grandes vidraças de vidro com vista para o jardim e para a piscina exterior. Ao redor da piscina, que não era tão grande quanto a de fora, estavam espreguiçadeiras dispostas. Só lá estavam três pessoas àquela hora, e uma delas era precisamente quem ele queria: Margarett!
Ela estava de olhos fechados, muito relaxada, aparentemente. Estava em fato de banho azul-escuro que lhe destacava ainda mais o tom de pele claro. David corou quando se aproximou mais, ainda que vê-la naqueles trajes devesse ser algo banal para ele.
-Margarett! - Chamou.
Ela abriu os olhos quase em sobressalto. Provavelmente porque aquela era a ultima pessoa que esperava ver ali:
-David! – Ela sentou-se na espreguiçadeira rapidamente e sorriu – Vieste usufruir da piscina?
Ele negou, desconfortável:
-Não, eu precisava de falar contigo. – Disse, em tom sério.
-Aconteceu alguma coisa?
Ele não respondeu verbalmente. Fez um sinal para que fossem para um local mais calmo.
Margarett, entendendo aquele olhar, levantou-se e procurou o seu robe de seda.
David olhou-a de cima a baixo quando ela lhe virou costas. Envergonhou-se de seguida por tê-lo feito, pois teve a certeza que a sua cara ficou da cor do seu sangue. Começou a desapertar o casaco, incomodado:
-Está bastante calor aqui… Acho que devia mandar reduzir a temperatura.
Mag sorriu e vestiu o robe de cor de creme:
-Na verdade acho que está bom. Só dizes isso porque estás cheio de roupa.
Ele encolheu os ombros, rendido.
-Deves ter razão.
Ele limpou a testa, suado. A verdade é que estava ansioso por sair daquela situação. Ainda por cima, ao invés de o robe cobrir Margarett para ele se sentir confortável ao lado dela, aquela peça fê-lo sentir-se ainda mais esquisito. Ela ficava demasiado bem com aquilo vestido. David não queria pensar naquela palavra. Não era uma palavra decente para se pensar naquele momento. Ele tentou, tentou, mas…! A palavra veio-lhe à cabeça. Sensual
Idiota! – Reclamou de si para si.
-Diz-me, David, o que te trouxe aqui? Pareces preocupado.
David confirmou:
-Não preferes vestir-te? Eu posso esperar por ti lá fora.
Mag olhou-o por cima do ombro:
-Está bem. Encontramo-nos no salão de chã?
-Sim. Vejo-te daqui a nada.
Ela sorriu-lhe e deslocou-se até ao balneário feminino.
David suspirou e olhou para os pés. Quase se ia esquecendo de devolver as chinelas. Dirigiu-se ao balneário e voltou a trocar o calçado. Saiu com a mesma discrição com que entrou e foi ter ao salão de chã como combinara com Margarett.
Esperou cerca de 15 minutos até ela aparecer. Vinha vestida com muita simplicidade. Apenas um vestido recto com uma gola Peter Pan, verde, e uns sapatos baixos. Trazia o cabelo ainda molhado e não tinha uma única gota de maquilhagem. Em suma, para David estava lindíssima.
Ela sentou-se no sofázinho ao lado do de David e cruzou as pernas:
-Então...?
-O teu pai ligou-me, Margarett…
Ela petrificou. Esperava tudo menos aquilo.
-O que é que ele queria?
David mudou a sua postura:
-Queria saber se eu sabia de ti. Disse-me que há dias que te tenta contactar e não tem qualquer sinal teu.
Margarett cruzou os braços:
-E ele ligou-te, simplesmente, como se não tivesse acontecido nada? Disse apenas “Olá David, por acaso não viste a minha filha? A propósito, Eu mantive o contacto com ela durante todos estes anos, mas esqueci-me de te dizer! “?
David compreendeu o grau de ironia que Margarett depositou nas suas palavras. Mesmo assim, considerou que ela estava a ser demasiado teimosa.
-Não foi bem isso, mas… Ele está mesmo preocupado contigo.
Mag encolheu-se na poltrona, intimidada pelo olhar indulgente de David. Não se sentia bem com a reacção tão benevolente que ele mostrava perante a situação. Fazia-a sentir-se estupidamente errada, como se só ela quisesse saber daquilo.
E, de facto, era um assunto do passado. Ela devia ultrapassar.
-Desculpa… - murmurou, envergonhada.
-Porque é que me estás a pedir desculpa a mim? Eu sou só um mensageiro.
Ela riu-se do termo e depois revelou-se magoada:
-Eu não me sinto confortável para vê-lo… Eu acho que vou explodir.
-Talvez acompanhada não te sintas tão furibunda.
-Ah… Não me apetece levar a Caroline para a confusão. – Admitiu, apertando a parte superior do cano do nariz de olhos fechados - Já me irritei que chegasse com ela por causa disto.
-Eu não falei da Caroline…
Mag abriu os olhos, aturdida, e fitou David, assustada. Ele tossiu para aclarar a voz:
-O teu pai quer ver-nos aos dois…
A reacção dela foi o silêncio. No interior, em contraste, gritou histérica! Ainda ia ser pior! Se sozinha com o pai ia chorar baba e ranho com raiva, com David presente sabia lá o que seria capaz de fazer.
Com a cabeça gesticulou uma negação:
-Não... Tu não precisas de fazer isso, David!|
Ele, contrariamente ao que ela desejava, disse:
-Mas eu quero. Se o teu pai tem algo para me dizer, eu quero ouvir. E tu também devias querer.
Margarett riu-se, nervosa, e tapou a cara com as mãos. Depois encarou David:
-Não costumavas ser tu o impulsivo e eu a racional?
David gargalhou. Achou piada à questão de Margarett até porque era uma questão oportuna. Realmente, os papéis estavam invertidos, mas isso não era incómodo nenhum.
-Pelos menos invertemos os dois! – Exclamou - Era pior se agora fossemos iguais. Já não teríamos equilíbrio e ia ser um caos!
Ela esboçou um sorriso tímido e amedrontado e deu-se por vencida:
-Quando?
-Quando estiveres pronta. Mas, por mim, quanto mais depressa, melhor!
Ela não escondeu o seu tormento. Colocou os cotovelos sobre as pernas e apoiou o rosto nas mãos, apreensiva:
-Tens razão… - Concordou - Almoça cá, então. Vamos esta tarde. – Anunciou.
David não esperava aquilo, mas assentiu. Estava feliz por Giuliana estar na escola e poder fazer isso.
-Vou pedir a mr. Mabb para dizer à Caroline e à Marie para descerem. Assim almoçamos todos e pode ser que relaxes um pouco.
Mag sentiu-se grata pela intenção dele:
-Obrigada…
-Anda! – David levantou-se e estendeu-lhe a mão.
Ela segurou-lha, escondendo o constrangimento e arrepios que aquilo lhe causou, e levantou-se para o acompanhar até à recepção.
David deu o recado a mr. Mabb e depois adiantou-se com Margarett para o salão de Refeições.
Estavam bastantes pessoas lá dentro, o que surpreendeu David. Não esperava que já tivesse mais hóspedes no hotel. Tinha de analisar os registos com mr. Mabb.
Levou Margarett para a mesa mais ensolarada do salão e sentou-se ao lado dela. Tentou encontrar um assunto minimamente comum para a fazer pensar noutra coisa e retirar o semblante inquieto que lhe pintava o rosto:
-No outro dia não ficaste constipada?
Ela negou:
-Tu ficaste?
-Dei uns quantos espirros mas passou rápido.
Ela humedeceu os lábios:
-Desculpa, a culpa foi minha!
-Não, a culpa foi nossa!
Mag abriu um sorriso largo para David:
-Mesmo assim. Não te terias descalçado se eu não tivesse feito o mesmo, e tinhas mudado de roupa mais depressa se não me tivesses trazido ao hotel.
-Ia ficar encharcado estando calçado ou não e o hotel não ficava longe!
Margarett agradeceu-lhe mentalmente pela simpatia e voltou a fugir o olhar dele. Caroline surgiu com Marie no colo, sorridente, e sentou-se:
-Afinal a Margarett saiu da piscina antes de eu regressar.
-Na verdade eu fui ter com ela! Foi a opção mais rápida!
Caroline riu-se:
-M. Tissou já dizia que ela tanto era pontual como se perdia completamente nos horários.
-M. Tissou? – David perguntou, curioso.
Margarett fez um trejeito ainda mais melancólico, o qual David estranhou.
Ele não teve tempo de perceber o porquê pois o garçom aproximou-se com a ementa. Cada um pediu uma bebida e ele ausentou-se um pouco para que escolhessem em silêncio. Quando voltou, fizeram o pedido.
-Tia Margarett, estás triste? – Perguntou Marie, séria.
David e Caroline olharam para a evidente cara da loira.
Ela tentou sorrir para Marie:
-Só preocupada, meu anjo. Isto já passa!
Caroline olhou de Mag para David que assumiu uma postura tão desconfortável quanto a da sua amiga.
-O que se passa?
Margarett não respondeu, por isso David decidiu intervir:
-Vamos ver o pai dela esta tarde.
Caroline descolou os lábios:
-Ah… Bom, finalmente.
David apercebeu-se que Margarett não gostou do tom de Caroline e tentou amenizar a situação:
-Então, quem é M. Tissou?
Caroline foi mais cuidadosa com as palavras:
-era… O… - ela arranjou um termo especifico – Patrão-pai da Margarett.
-Patrão-pai?
Mag serviu-se da água que o garçom trouxe. Tinha a boca seca.
-Foi o homem que me deu tecto e emprego durante muitos anos, até falecer. Também nunca me faltou em sinceridade e carinho paternal.
De um segundo para o outro David quis fazer mais questões mas sabia que o tema era delicado para uma hora daquelas. Aceitou aquela resposta carregada de indirectas ao verdadeiro progenitor e calou-se.
O Garçom regressou com os pratos. Quase todos pediram o mesmo. Salmão ao molho de maracujá. Para quebrar o gelo, David conversou com Caroline e Marie, esperando que Margarett conseguisse abstrair-se.
-Então Madame Caroline? Está de férias?
Ela sorriu:
-Mais ou menos. Tirei um tempo para relaxar antes de Dezembro, que por norma costuma ser terrível!
-Terrível? Porquê?
-A época alta dos recitais de Ballet é no Inverno. No dia de Natal há sempre uma estreia e por norma é onde apresentamos novos bailarinos, novo guarda-roupa, entre outros!
-Hum… Ballet. – Ponderou - Nunca tive a oportunidade de ir a nenhum espectáculo. É bailarina?
-Fui. – Esclareceu a francesa - Agora só dou aulas aos mais jovens.
David voltou-se para Margarett e puxou por ela:
-Margarett, também sabes dançar?
Ela olhou para ele e fez uma careta:
-Eu? Não, de modo nenhum. Isso requereria muito tempo e muita prática!
-E muito sofrimento! – Acrescentou Caroline.
Margarett sorriu.
Começou a falar mais abertamente sobre o que já tinha tentado fazer com Caroline no Ballet, sem sucesso. De seguida falou de como as meninas sofriam e sobre o primeiro bailado a que assistiu.
David sentiu-se mais leve ao perceber que ela estava a descontrair e, juntamente com Caroline deu-lhe conversa até ao final de almoço.
 
***
 
Em casa só estavam Dorothy e Adolfe. David tinha sido a última esperança de mr. Wilson.
Não estava nervoso. Sabia defender os seus argumentos, apenas necessitava de uma oportunidade. Infelizmente, receava a atitude de Margarett. Tinha bastante medo que ela não o perdoasse e se fosse embora de vez. Quando falara com David, por outro lado, ele não se mostrou admirado, muito menos rancoroso. Isso espantou Adolfe Wilson que esperava ser espingardeado pelos dois.
O relógio da sala fazia questão em relembrar a passagem do tempo através do tic-tac e das badaladas hora a hora. Apesar de não ter nenhuma confirmação de que a sua filha ia aparecer naquela tarde, algo lhe dizia para continuar esperançoso.
-Fiz-te um chã, querido… - Disse Dorothy, surgindo com a bandeja no compartimento.
-Obrigada. Achas que eles vêm?
Três batidas na porta deram-lhe a resposta.
Dorothy fez um ar de entusiasmo e correu para a entrada. Ajeitou-se antes ver quem era e cruzou os dedos com boa fé.
Quando abriu a porta, a sua alegria foi maior. Lá estava Margarett acompanhada de um sujeito bem-parecido que ela não conhecia, mas acreditava ser David Paisen:
-Boa tarde! – Disse ele, educadamente.
-Olá! Entrem, entrem!
Margarett não foi capaz de colocar um semblante feliz ou sequer pronunciar algo.
David soube no preciso momento que aquilo não ia ser bonito. Ousadamente, deu-lhe a mão, surpreendendo-a:
-Estamos juntos nisto, ok?
Ela lançou-lhe um olhar apreensivo e acenou afirmativamente. Seguiram Dorothy na direcção da sala:
-Adolfe, querido! – Chamou a mulher – Eles vieram!
Angustiada, Margarett ruborizou e largou a mão de David.
O seu pai saiu da sala para recebê-los:
-Margarett, minha querida! – Exclamou, feliz por vê-la.
Por não obter mais do que um cruzar de braços aborrecido da filha, Adolfe dirigiu-se a David e deu-lhe um aperto de mão:
-David, olha para ti! Um homem feito! Há quanto tempo!
-É um gosto revê-lo, mr. Wilson! Vejo que está bem tratado!
O homem admitiu e voltou a olhar para Margarett, que não alterou a sua postura.
-Bem… Vamos para a sala. Está mais agradável lá.
David aceitou o convite e seguiu o homem:
-Anda, Margarett! – Insistiu, baixinho.
Ela ficou um pouco para trás mas deu passos lentos, inconformada.
Percebendo o receio da pequena, Dorothy abordou-a discretamente:
-Margarett, escuta o teu pai… - Aconselhou - Vais ver que tudo corre bem, querida…
A mais jovem inspirou. Sentiu os olhos marejados. Dorothy não era sua mãe, mas sem dúvida que tinha uma capacidade maternal maior do que a da sua progenitora.
Acenou afirmativamente e entrou na sala.
Dorothy fechou a porta do lado de fora, para lhes dar privacidade.
-Senta-te, filha! – Incentivou mr. Wilson.
-Eu não vou ficar aqui muito tempo… - Informou, enquanto se dirigia para o sofá onde David já se tinha sentado. Colocou-se ao lado dele e cruzou as pernas, de olhos postos somente no chão.
Seguiu-se um silêncio incómodo. Quem seria o primeiro a falar?
David, abafado pela situação, olhou para Margarett, que nem lhe dirigiu um pestanejar. De seguida atentou em Mr. Wilson, incentivando-o com o olhar a começar.
O homem puxou uma cadeira e sentou-se:
-Margarett, olha para mim.
Ela não o fez e manteve o silêncio. David compreendeu ao grau a que ela tinha chegado. Se abrisse a boca apenas para respirar ia explodir imediatamente.
-Mr. Wilson acho que sabemos perfeitamente porque estamos aqui, por isso deve ser melhor dizer algo.
O mais velho escutou as palavras sapientes do rapaz:
-Bom… A verdade é que nunca imaginei este dia. – Admitiu - Esperava, de todo o meu coração, ter a oportunidade de falar com cada um de vocês calmamente e sem conflitos. Infelizmente, dado que o destino nos pregou uma partida aos três, sei que isso não vai ser possível…
-Uma partida? – Mag indagou, importunada com aquele termo.
Mr. Wilson percebeu que não devia ter dito aquilo. Soava a algo que ele não queria que tivesse acontecido.
Paciente, voltou a introduzir-se, ignorando aquele comentário:
-O que eu realmente vos quero dizer é que lamento… Lamento não vos ter dito nada um sobre o outro todos estes anos e ter-vos ocultado tudo o que se passou. Mas em minha defesa, eu tive os meus motivos para o fazer.
-Isto vai ser bom! - Cochichou a jovem para si mesma, em tom arrogante.
David fez de conta que não a ouviu:
-E quais foram? – Perguntou a mr. Wilson – Eu escrevi-lhe durante muito tempo sem resposta, mr. Wilson. Cheguei a pensar que lhe tinha acontecido alguma coisa… Não entendo. Podia simplesmente ter-me dito que estava tudo bem. Eu sossegava!
-Não, tu não sossegavas, David!
Margarett levantou o olhar finalmente, chocada com aquela acusação. Esperou uma resposta mais clara.
-O estado em que tu ficaste, rapaz… Aquilo não foi brincadeira. Eu avaliava-te diariamente pela janela. Tão frustrado e tão fraco ao mesmo tempo. A raiva que tinhas estampada no rosto… Eu soube, no preciso momento em que recebi a primeira carta da Margarett, exactamente um dia depois de partires, que eu não te podia dizer. Estavas demasiado obcecado. Bastava eu dizer uma palavra que tu perdias a cabeça e cometias uma loucura.
David não disse nada. Em parte, sabia que aquilo era verdade. Passou meses frustrado e à espera de sinais. Se mr. Wilson lhe tivesse dito o paradeiro de Margarett ele teria ido a nado ter com ela. E morrido pelo caminho, provavelmente.
-Eu preferi aguardar. – Continuou o homem - Decidi que era melhor esperar que recuperasses e seguisses em frente para te dizer. O mais provável, no entanto, foi que esperei tempo demais.
-Tempo demais? – Margarett ofendeu-se com aquela suposição e levantou-se. Sentia-se trémula – E qual é a justificação para mim, pai?
Mr. Wilson levantou-se também:
-Margarett, mantém-se calma, por favor! - Pediu, percebendo a fragilidade em que ela estava - Eu sei que isto te custa, mas tens de ver a minha posição enquanto pai! Não sabes o que é ver a tua própria filha em aflição e sem rumo. Não sabes como foi para mim saber que me foste levada pela tua mãe! – Exclamou, agoniado - Eu só te queria recomposta e bem! Mas tu terias feito como o David. Terias perdido a cabeça, Céus! – Adolfe respirou fundo e sentou-se - Nos meus piores pesadelos – comentou, intimidado - imaginava que te dizia que o David estava na Irlanda e que tu, em insanidade, recorrias a Montmartre** para arranjar dinheiro para ir ter com ele…
-Eu nunca faria isso! – Defendeu-se ela, ofendida.
-Eu não sei, Margarett! – Bradou, mr. Wilson, desesperado, levantando-se de novo – Tu não tinhas para onde ir, não tinhas dinheiro, não tinhas nada! A única coisa que eu te podia fazer era mandar uma pequena ajuda para conseguires alimentar-te. A tua mãe levou-me tudo o que eu tinha. Nem um bilhete de avião eu te podia comprar, filha! – Gritou - Como é que querias que eu te dissesse onde estava o David sem que entrasses em loucura?
Margarett sentiu os lábios a tremer. A água pendente nas suas órbitas soltou-se por fim e brotou-lhe pelos olhos como torneiras abertas:
-Eu ter-me-ia aguentado se ao menos tivesse uma certeza de que ele estava vivo! - Berrou - Eu podia ter passado mais fome e mais frio, eu só precisava de o saber para ficar em paz!
Depois das lágrimas, começaram os soluços. Margarett colocou a mão na barriga como se buscasse uma forma de se manter equilibrada. Com desgosto, encarou o homem que lhe tinha dado vida:
-O primeiro tostão que eu ganhei usei para mandar duas cartas… Uma para si e outra para ele! – Disse, apontando para David - O mínimo que podia ter feito era entregar-lhe a dele! Você foi egoísta! – Acusou - Mas deixe-me que lhe diga, que isso foi uma arma contra si! Eu podia ter voltado muito antes pai! Eu podia ter regressado para casa um ano depois de ir embora, apenas se me dissesse que estava tudo bem com ele! Eu não voltei antes porque eu tive medo. – Justificou martirizada - Eu tive medo de enfrentar as pessoas com pena de mim, de enfrentar uma perda maior do que aquilo que eu podia suportar! Eu preferi ficar na ignorância do que dar de caras com uma cidade fantasma. Uma cidade em que eu olhasse para onde olhasse só conseguisse ver o passado. Ver fogo, ver casas abandonadas… Eu não podia suportar isso.
Mr. Wilson cerrou os punhos, arrependido. As lágrimas abundantes da filha davam-he vontade de a acompanhar num choro interminável. Ele esfregou a cara, afligido, e negou com a cabeça:
-Perdoa-me filha! – Implorou, tentando aproximar-se dela, em vão.
Margarett afastou-se dele e tentou limpar a cara. Os olhos já começavam a dar vestígios de um grande inchaço:
-Eu teria suportado se tivesse sabido que ele estava bem! – Chorou – Pai, você desceu ao nível da mãe e eu nunca esperei algo tão maldoso de si! Deus! – Ela olhou para o tecto e cruzou as mãos como se fosse rezar - Eu quase me casei com o Pierre, pai!
 Se David até ali evitara olhar para a cara de Margarett, aquele foi o momento que o levou a levantou o olhar, chocado. Margarett estava noiva?
Ele não foi capaz de perguntar, apenas continuou a escutar o discurso dela.
-Consegue imaginar, se eu tivesse levado isto adiante, com que cara é que eu me ia cruzar com o David?! Não, claro que não imagina! – Respondeu-se - Você não estava lá! Eu deitei-me noites e noites sem fim a chorar, aterrorizada com a ideia que o tinha perdido para sempre. Porque eu o amava! – Declarou, desalentada – E, sinceramente, eu acho que se não fosse M. Tissou, Caroline, Patrick, Adeline, Olivier… Eu teria entrado numa grande depressão e destruído a minha própria vida! Afinal, o que é que eu andava a fazer? Eu estava a caminhar só para não cair. Consegue imaginar isso? Eu fugi da minha mãe, a minha mãe que deixei doente num lar! Se eu não a tivesse visto, provavelmente eu nunca teria voltado. Porque ao contrário do que eu alguma vez esperei, foi ela que me deu força para voltar. Ela teve a decência de me ceder a liberdade para me vir embora!
Um respirar ofegante foi o que restou a Margarett. Ela andou de recua, com as pernas bambas como se tivesse feito a maior corrida da sua vida. Deixou-se cair no sofá, ao lado de David e debruçou-se sobre o apoio do braço para esconder a face com o cabelo a servir-lhe de cortina. Sentiu-se como um foguete. Ergueu-se, explodiu e quando já não podia rebentar mais, caiu.
David sentiu-se solitário naquela sala. Não conseguia estabelecer nenhuma conexão.
Ao seu lado via Margarett de costas a tremer, entre soluços. À sua frente, de pé, mr. Wilson, arrependido de todas as formas possíveis.
O rapaz tentou sair do transe. Voltou-se na direcção de Margarett e pousou a mão no ombro dela. Ela não se moveu.
-Rett… - chamou.
Ela gemeu, sem querer olhá-lo. Tinha vergonha.
David puxou-lhe o cabelo para trás da orelha, mas ela tapou o rosto com as mãos. Não ia encara-lo.
Então ele recompôs-se. Encarou Mr. Wilson com mágoa e preparou-se para dizer algo, contudo foi interrompido pela entrada de Dorothy na sala. Ela trazia uma caixa nas mãos e apresentou-se misericordiosa junto do marido. Margarett nem sequer levantou a cabeça para ver o que ela trazia.
-Querido, achei que lhes quisesses dar isto agora…
Mr. Wilson olhou a caixa e agradeceu. Dorothy, ao verificar o estado de Margarett, aproximou-se dela e aninhou-se ao seu lado:
-Vá lá, querida… Recompõe-te. Vou-te trazer um chãzinho para te acalmares, pode ser?
Mag negou com um movimento de cabeça:
-Não quero…
-Vai fazer-te bem. Vá, minha menina. – Dorothy retirou um lenço do bolso e tentou limpar as lágrimas da enteada - Limpa essa cara bonita e põe um sorriso no rosto. O mais importante é que estão todos aqui, bem de saúde, não é verdade?
Mag espreitou o rosto da madrasta. Era uma senhora tão doce e carinhosa que lhe custava trata-la mal. Encolheu os ombros em resposta à mulher.
-Bem, acho que vais querer ver o que o teu pai tem para te dar. É importante! Depois, se não te sentires bem, podes ir embora e voltas quando estiveres mais calma. Afinal, não podemos deixar que os mal-entendidos controlem a nossa vida, não é verdade? Tenho a certeza que já tomaste decisões erradas e que farias tudo para as remediar, não? A maior dádiva que Deus nos deu foi a capacidade de perdoar e tenho a certeza que esse coração gentil e magoado não é excepção!
Margarett engoliu em seco. As palavras eram tão meigas. Não se lembrava de alguém lhe falar daquela forma.
-Vou trazer umas bolachinhas que eu própria fiz junto com o chã. E para ti também, jovem. – Disse a David - Estás pálido… - Comentou, colocando-lhe a mão na testa – Ora, estas coisas tiram a saúde a qualquer um… Eu volto já.
Dorothy aproximou-se do marido e deu-lhe um beijo na cara:
-Força, meu amor! Tu és capaz!
Mr. Wilson agradeceu o conforto da esposa. Ela saiu para ir buscar o chã e o clima voltou a tombar no fundo.
Aquilo que David ia dizer antes de ela entrar ficou esquecido.
A caixa tornou-se o centro das atenções. Margarett olhou-a ainda com menos forças, reconhecendo-a. Não podia acreditar. Queria perguntar ao pai se aquilo era o que ela pensava, mas não foi capaz. Aguardou, uma vez mais, uma explicação.
Adolfe Wilson olhou para as suas mãos ocupadas, ainda receoso. Todavia, sabia que aquilo era o correcto a se fazer. Aproximou-se das duas visitas e antes de entregar a caixa a David, retirou-lhe a tampa. Dentro dela estavam 2 maços de cartas. Todas elas abertas. E no fundo da caixa haviam outras tantas espalhadas e mais antigas.
Margarett sentiu o coração aos pulos quando o seu progenitor pegou num dos maços e leu o remetente.
-Estas são do David. – Disse, estendendo o maço a Mag.
A jovem hesitou ao pegar nelas. Era um maço relativamente mais pequeno do que o outro. Não obstante, ela entendeu porquê. A certa altura, David devia ter desistido de gastar papel e envelopes sem obter resposta, daí não serem muitas.
-Estas são da Margarett. – Apresentou, entregando o maço maior a David - As que estão seladas eram só dirigidas a ti, David. Eu não as abri. As outras eram para mim, mas caso queiras perceber melhor onde andou Margarett estes anos todos, podes lê-las. Eu sei que isto não vai trazer o passado de volta, mas é o máximo que posso fazer agora…
David aceitou o maço completo de bom grado e analisou as moradas do remetente.
Paris, Paris, Paris…
Sentiu-se idiota por nunca ter perdido mais tempo a explorar a cidade francesa para encontrar Margarett. Provavelmente, com mais esforço, teria-a encontrado.
Mas, subitamente, esse desejo abriu-lhe os olhos para tudo o que Mr. Wilson lhe tinha acabado de dizer. Conseguiu perceber a lógica do homem.
E, no meio de tanto alarido, afinal ele tinha razão.
-Obrigado, Mr. Wilson… - disse, baixinho, surpreendendo pai e, sobretudo, filha - Eu acho que isto foi realmente importante. Detesto o que fez, mas… Eu agradeço-lhe. – Margarett fitou-o, chocada. - Você teve razão no que fez… Obrigado.
A rapariga não foi capaz de dizer nada. A sua perplexidade era tanta que não encontrava palavras ou gestos que a expressassem. Talvez só mesmo ela é que não tinha superado aquilo. Talvez para David fosse uma situação mais do que enterrada. Em todo o caso sentiu-se humilhada, até David se justificar:
- Se eu… Se eu tivesse tido uma resposta sua, provavelmente eu ia viver em função dessa resposta. Eu ia perder-me… - Admitiu e olhou Margarett para que ela o tentasse perceber - Foi difícil. E saber que foi por uma omissão é ainda pior. – Esclareceu olhando Mr. Wilson novamente - Mas eu agradeço-lhe porque… Se você tão tivesse tomado essa decisão, eu não teria chegado tão longe. Provavelmente, como mrs. Wilson… Ou melhor… - Corrigiu-se ao ver Dorothy regressar com o chã para Margarett que agradeceu com um simples olhar. - Como a sua ex-mulher me disse uma vez… Eu não teria onde cair morto, muito menos uma vida estável para construir uma família. Por muito difíceis que tenham sido aqueles anos de ignorância, eles não foram em vão. Eu cresci. Eu… Eu segui um rumo sério e conquistei coisas que ninguém me pode tirar agora. Cultura… Experiências… Segurança.
Dorothy não escondeu a sua surpresa pelas palavras do rapaz. Sorriu para Adolfe e depois aproximou-se do rapaz com a caneca do chã e entregou-lhe. David gratulou, inibido. A sua visão deslizou instantaneamente para Margarett como se soubesse exactamente o que ela estava a pensar:
-Não, eu não estou a dizer que se tivesse ficado contigo a minha vida ia ser uma miséria…
Ela desviou o olhar e tomou um pouco de chã. Afinal estava a precisar.
-Eu não disse nada…
-Mas eu sei que dei a entender isso. Só que não é a realidade. Se calhar, se eu tivesse de escolher um rumo, eu nunca me teria separado do teu caminho. Só que isso não aconteceu. E no meio de tantas desgraças, eu fico feliz por retirar algo bom disto tudo. Tu não?
Mag desejou gritar. O “bom” que ela tinha retirado daquilo era “péssimo” quando comparado com a felicidade que ela deixou de viver por ser distanciada de David. Para ser honesta, não conseguia ser optimista.
-Eu acho que por hoje chega…
Ela levantou-se do sofá e devolveu a xícara à madrasta. A única coisa para que olhou depois foi para a sua carteira e as para as cartas.
Dali em diante foi como se tivesse colocado a cabeça dentro de água. Deixou de ouvir, de sentir, de ver. Ligou uma espécie de piloto automático que a conduziu para a porta de entrada, rumo ao exterior. Tinha sido o limite para ela. Tinha suportado ainda mais do que esperava.
Guiou-se na direcção do que lhe pareceu ser o caminho certo. Não tinha noção do tempo que cada passo que deu demorou, apenas sabia que aquela rua parecia infinita.
Ela parou, atordoada. Meteu a mão na cabeça para tentar focar-se. Depois percebeu. Tinha os olhos demasiados baços para conseguir ver fosse o que fosse. Tentou limpá-lo através da fricção dos seus dedos nas pálpebras, porem, ao contrário disso, só pressentiu a sua visão mais desfocada e inundada.
Soluçou sem contar.
Não queria chorar mais. Já sentia vergonha que chegasse por tê-lo feito antes mas duas lágrimas foram teimosas. Ela tentou limpá-las com pressa.
Sentia os lábios tão trémulos quanto as pernas.
Voltou a limpar o choro silencioso. Queria pará-lo para se ir embora, mas não conseguia. Tapou a cara com as mãos para o abafar, mas isso só lhe provocou mais soluços.
Ela precisava de se apoiar em alguém.
Como se estivesse a sair de dentro de água, os seus sentidos começaram a reactivar-se
Abraçou-se e esfregou os braços com frio por causa dos nervos.
-Margarett…! Margarett! – Começou a percepcionar.
Não percebeu há quanto tempo estava a ser chamada. Estava tão absorvida por si mesma que aquilo era como se estivesse a aumentar o volume da televisão inicialmente sem som.
A sua visão focou-se nas cartas quando ficou minimamente lúcida.
Ela levantou o olhar e tentou perceber de onde vinha o chamamento.
-Rett…
Ela esboçou um trejeito triste e virou a cara ao lado, acanhada:
-desculpa… - murmurou.
David não disse nada. Apenas se revelou um pouco desajeitado.
-Eu sabia que não devias ter-me acompanhado… - finalizou ela - Embaracei-te.
Ele negou com a cabeça. No mesmo momento puxou-a para mais perto de si e cobriu-a com os seus braços.
Margarett sentiu-se pequenina. De lágrimas pendentes, enterrou a cara na camisa dele. Fungou um pouco e, com alguma coragem, rodeou-lhe o dorso também com os membros superiores:
-Estou assim tão errada por ficar magoada com isto? – Vociferou.
David pousou o queixo na cabeça dela e negou. Apertou-a com mais força e fechou os olhos. Não estava calor nenhum na rua.
-Claro que não… Mas agora o rancor já não nos vai levar a lado nenhum.
Margarett lacrimejou. Entendia a perspectiva de David. Ele tinha ultrapassado. Tinha tantas coisas boas a fazê-lo esquecer daquilo que não sentia tanta mágoa quanto ela. Talvez o problema fosse simplesmente ela própria. A ingénua adolescente, agora mulher, que acreditava no amor para sempre.
-Desculpa. Deves estar a achar que eu sou muito infantil.
David abriu os olhos:
-Talvez. – Respondeu – Mas cada um é como é.
Ela sorriu no meio da amargura. Sentir o cheiro de David tão perto do seu nariz distraiu-a por segundos. Era o mesmo que se lembrava.
-Em todo o caso, ainda nos vamos rir disto daqui a uns anos!
Margarett encolheu os ombros. Não tinha tanta certeza.
-Queres falar? – Perguntou ele, incomodado.
Mag sentiu algum custo em dizer aquilo, mas a sua resposta era não:
-Desculpa, David… Eu só quero regressar ao hotel. Não me sinto suficientemente equilibrada para falar mais nada.
David assentiu, sem outro remédio. Não podia fazer nada:
-Seja como for, temos um jantar de pé, certo?
Mag escondeu a cara. Devia estar tão lastimável que nem podia imaginar. Ainda bem que não se tinha maquilhado.
-David… - Vozeou – Desculpa… Eu não estou pronta. Daqui a uns…
David interrompeu-a ao dar-lhe um beijo na testa:
-Não digas nada, ainda. – Pediu ele – Vamos embora. Vamos ler estas cartas com calma e quando estivermos prontos vamos saber. Entras em contacto comigo, pode ser…?
Aquela pergunta estava carregada de ânsia. Mas David não podia julgar Margarett. Também não se sentia confortável em tratar aqueles assuntos a correr. Precisava de reflectir. Precisava de ler aquelas cartas para compreender o contexto em que estava envolvido, apesar de, pelas queixas de Margarett, ele ter estado muito presente na cabeça dela, o que para ele não era algo assim tão mau.
Ela deu um passo de recua e humedeceu os lábios.

Por fim, assentiu.


___
* Olá! Onde está a sua tia Margarett?

-Bom dia, Madame Caroline! Sabe dizer-me onde posso encontrar a Margarett?
-Ah, sim! Ela está na piscina.
-Eu preciso falar com ela urgentemente. Pode chamá-la?
-Sim, claro, mas ela disse que já vinha, entretanto. Eu vou levar a Marie para o quarto e se ela não voltar, eu chamo-a!
-Obrigada, Madame!

**Montmartre- é um dos bairros mais boémios de Paris. Apesar de ser uma zona muito dada às artes e ao espectáculo(Era um ponto de encontro importante de artistas e intelectuais, famoso pela sua animada vida nocturna. Modelos, bailarinas e pintores como Degas,CézanneMonetVan GoghRenoir e Toulouse-Lautrec frequentavam o lugar, contribuindo para criar um clima libertário.), era também onde havia mais prostituição e menos segurança.


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Gostava imenso de conseguir dar uma revisão maior antes de publicar, mas isto tornou-se impossivel devido à lentidão que me acontece apenas neste site! Desiludido Enfim, se houver muitos detalhes que ficaram  mal expressados, podem avisar-me para eu tentar melhorar.

Até breve! Wink
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#226
Oh Catarina, opa apetece-me ler mais e mais! Sad

Quando li o capitulo só pensei "Porra, esta Macedo é mesmo boa a escrever e a imaginar coisas!"
Eu nunca iria conseguir ter imaginação para escrever coisas como isto
"Bem, acho que vais querer ver o que o teu pai tem para te dar. É importante! Depois, se não te sentires bem, podes ir embora e voltas quando estiveres mais calma. Afinal, não podemos deixar que os mal-entendidos controlem a nossa vida, não é verdade? Tenho a certeza que já tomaste decisões erradas e que farias tudo para as remediar, não? A maior dádiva que Deus nos deu foi a capacidade de perdoar e tenho a certeza que esse coração gentil e magoado não é excepção!"

Esta frase é mesmo tipica daqueles anos, onde falam e têm fé em Deus, e que tudo estava destinado por ele! Smile

Podes achar que não está nada de mais, mas eu achei que estava mesmo bem escrito e pensado, neste pormenores assim.

Agora estou curiosa com o próximo capitulo, e como vais descrever as cartas... é que agora estou curiosa por saber o que é que elas diziam!

Fico à espera com ansiedade! Very Happy
#227
Oh não....

Peço mil e uma desculpas pela demora de comentário, minha cara Lulu. Acredita que foi sem intenção. Desiludido
Mas falando do capítulo em si, gostei bastante. Ainda bem que não tive que esperar muito por mais. A conversa foi bem-vinda e não me desagradou nem um pouco. A nova Srª Wilson é uma fofa e gostei muito das atitudes do David. Quem o viu e quem o vê, não é? Matreiro

Mas deu para entender o os dois lados. Já na altura em que Sr. Wilson fez a sua decisão de não comentar as cartas, tínhamos dito que isso ia dar bronca.... mas que era para o melhor. Agora temos dois indivíduos adultos que progrediram na vida e encontraram-se. O meu lado lógico é igual ao David, mas entendo também a angustia da Margarett. Estou mesmo curiosa até onde isto vai dar. A história está imprevisível e eu não tenho bem a certeza se eles acabarem juntos será a melhor decisão. Até agora, o único lado romântico que eles demonstraram um pelo outro parece-me mais a nostalgia daquilo que sentiram e não o que ainda sentem. Fazes muito bem em não acelerar a relação deles. Neste momento, qualquer coisa é uma verdadeira surpresa.

Excelente trabalho, Lulu. Espero ansiosamente pelo próximo capítulo Smile
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
#228
Olá boas pessoas!
Desta vez demorei mais do que esperava, porem tenho uma justificação. Acontece que comecei por escrever um capítulo que não me deixava feliz. Então perdi tempo a editar, a apagar, a reescrever… Enfim, ficava sempre uma valente m*rda! Resolvi, sabiamente, partir para o capítulo seguinte e fingir que a desgraça anterior nunca tinha acontecido. O capítulo que eu escrevi a seguir revelou-se maior do que era suposto, logo, demorei mais tempo a escrevê-lo. Cheguei ao ponto de já nem ter paciência para o rever, por isso perdoem-me mas não me apetece chatear-me mais com ele! Mal disposto
Espero não demorar tanto a publicar o próximo mas por este andar não prometo nada (Lá para as férias de Verão! Mad)
Dito isto, resolvi colocar o capítulo m*rdoso em spoiler. Assim, quem quiser espreitar, lê, quem não quiser também não perde nada de muito importante!
Boa leitura!


Capitulo 50/51 - O Jantar
"Se eu estiver a ser sincero hoje, que importa que tenha de arrepender-me amanhã?".


“Wicklow, 15 de Março, de 1960
 
Caro Mr. Wilson,
Faz já dois meses que lhe enviei a minha última carta. E, como tem vindo a acontecer, a sua resposta não me chegou. O meu lado optimista faz-me acreditar que houve um extravio nos correios ou algum engano na morada. Infelizmente, acho que ambos sabemos que esse não é o problema... De qualquer modo, escrevo-lhe para dizer que esta será a minha ultima carta, caso não seja correspondido. Espero, de verdade, que não lhe tenha acontecido nada de grave que o impeça de me escrever.
É com gosto que lhe dou a notícia de que partirei para Londres esta semana. Veloz e eu treinamos arduamente em Dublin e depois da nosso apuramento para a final, é hora de ir a Inglaterra tentar a nossa sorte. Mr. Denvers fez as suas apostas mais altas, o que a mim me causa algum desconforto. É uma grande responsabilidade, mas sinto-me confiante.
Como sempre, não posso deixar de lhe perguntar como vão as coisas por aí?
Anseio por novidades a toda a hora e o meu maior descanso seria saber se houve alguma noticia de Margarett. Custa-me perguntar-lhe o mesmo em todas as minhas cartas, até porque, para além de ser maçante e doloroso para si estar sempre a ler o mesmo, é difícil pra mim tocar num assunto que se torna mais delicado a cada dia de passa.
Ainda assim, a minha mente não sossega. Já passou tanto tempo e ainda continuamos na mesma ignorância. Gostava de ter a sorte de lhe poder escrever a dizer que a encontrei, algures em Londres, quem sabe, mas infelizmente as minhas esperanças desvanecem-se diariamente.
Sendo esta a minha ultima carta, deixo claro que os meus sentimentos por Margarett não se dissiparam tanto quanto a minha esperança.
A vida continua, certamente, mas ela será sempre a mulher que eu realmente amo e nada me faria mais feliz do que voltar a vê-la. Por favor, mr.Wilson, se tiver alguma notícia, não hesite em dizer-me.
Uma vez mais me despeço com o desejo de uma resposta feliz.
 
Um abraço,
David Paisen”
 
Spoiler

A última carta…
Margarett não sabia o que dizer ou pensar. A última carta de David já tinha sido recebida há tantos anos, que não lhe era possível deduzir se os sentimentos que ele descrevia se mantinham.
Tinha passado a semana toda a reflectir sobre isso. Não conseguia deixar de imaginar como seria o tal jantar, se viesse mesmo a acontecer. Sentia-se tão constrangida com a situação que se deixou ficar dentro do quarto durante aqueles dias. Saia somente para as refeições.
Por fim, tinha contado tudo a Caroline. A desgraçada tanto puxou pela cabeça para compreender o estado de Margarett, que a rapariga lá acabou por ceder e contar tudo à amiga. Ao contrário do que alguma vez ponderou, a reacção de Caroline foi o oposto do que imaginara. Esperava que ela mencionasse Pierre e falasse em como ela devia acordar para a realidade, porem, em vez disso, deu de caras com uma faceta mais compreensiva dela.
Caroline podia não acompanhar todos os movimentos de Margarett, mas foi capaz de perceber o obvio. Só existia um motivo para Margarett ficar tão magoada com o pai mesmo tendo passado quase uma década e, depois de Margarett lhe dar autorização para ler aquela carta, foi ainda mais perceptível. Não sabia até que ponto o sentimento que ela tinha estampado nos seus olhos era correspondido, mas a sua intuição fazia-a crer que ela não era a única a guardar aquele fantasma dentro de si.
-Quando vais marcar o jantar?
Margarett olhou a francesa, surpreendida com a questão colocada logo pela manhã.
Corada, colocou os brincos em frente ao espelho:
-Quero visitar um casal amigo meu. – Disse, ignorando a questão - Sinto-me culpada por ainda não lhes ter feito uma visita!
-Então vais sair do hotel finalmente?
Mag revirou os olhos. Pensar nisso causava-lhe calafrios. Se desse de caras com David ou com o seu pai, jurava que fazia uma cova no chão e atirava-se lá para dentro.
-Acho que vais gostar de conhecer o meu primeiro namorado… errado… - murmurou para si mesma, recordando a insanidade que aquele namoro tinha sido.
-O teu primeiro…? – Caroline riu-se – A sério? Como se chamava?
Margarett sorriu e piscou-lhe o olho:
-William! William Finkie.
 
Ver William e Daisy ia ser uma experiência totalmente nova em relação a todos os reencontros anteriores. Tudo se devia ao facto de aquele ser, provavelmente, o casal mais interessante de todos. O filho do banqueiro prestigiado e a espanhola imigrada! Margarett perguntava-se até que ponto Mrs. Finkie tinha aprovado aquela relação, mas não podia deixar de estar feliz por eles.
Os endereços que Ally lhe tinha dado haviam sido a melhor oferenda que tinha recebido.
Ficou surpreendida quando chegou à rua onde moravam os velhos amigos. Apesar de a casa ser bem ao estilo Finkie, tinha uma característica tão caseira que remetia logo para Daisy. A beleza material estava perfeitamente conjugada com uma beleza rustica e familiar que Daisy trazia da sua família.
Margarett achou aquilo estimulante para o seu espirito dormente. O seu entusiasmo foi tanto, que bateu à porta com tanta força como se fosse um fiscal.
Daisy tinha acabado de pousar Rose no sofá quando ouviu aquilo. William baixou o livro que estava a ler e olhou-a, espantado.
A latina estranhou. Quem seria? Ela fez sinal a William para que se deixasse estar e deslocou-se até à entrada. Thomas seguiu-a, curioso.
Quando Daisy abriu a porta a sua reacção foi como se levasse um soco no estomâgo e ficasse sem ar:
-Oh meu Deus! – Exclamou, espantada - Não acredito!
Margarett riu-se e abriu os braços para um abraço! A latina riu-se daquela surpresa e abraçou a loira com todas as suas forças. Não estava crente naquilo. Parecia-lhe uma partida.
-Daisy! – Exclamou Mag - É tão bom ver-te!
Daisy começou a rir, admirada:
-Tu voltaste! – Exclamou feliz e ao mesmo tempo emocionada – Meu Deus! Como estás?
Ao aperceber-se da presença de Caroline, a anfitriã sorriu e fez sinal para que entrassem:
-Peço desculpa pela rudeza! Por favor, não fiquem á porta!
-Obrigada, Daisy! Esta é a minha amiga Caroline.
Daisy cumprimentou-a, apercebendo-se de seguida da nacionalidade da outra. Logo olhou Marie, surpreendida:
-E quem é esta pequenina?
-É a minha afilhada Marie. – Respondeu Margarett .
Daisy cumprimentou a pequena com muita alegria:
-Olha, Thomas! Está aqui uma menina para vocês brincarem!
Margarett abriu a boca ao notar as incríveis semelhanças do menino com William. Riu-se quando Marie, desinibidamente, se juntou ao rapaz e ele a levou dali. As crianças pareciam ter uma linguagem universal.
William, ainda na sala, fechou o livro e pousou-o na mesinha do café quando viu a criança ruiva a entrar com o seu filho. Só conseguia ouvir Daisy e rir-se de uma forma incrédula e isso suscitou-lhe alguma curiosidade:
-Daisy, quem é? – Perguntou alto.
A sua esposa, ainda à entrada, riu-se e tapou a boca:
-Ele não vai acreditar! – Murmurou às duas mulheres – Vem, Mag! Vamos surpreendê-lo!
Margarett sentiu-se divertida com o entusiasmo de Daisy. Esta, fez-lhe um sinal para ser seguida e quando Mag e Caroline deram po isso, ela entrou na porta à esquerda como um relâmpago:
-Temos visitas, William!
Ele riu-se e apontou para a menina que se tinha juntado a Thomas e Rose:
-Já tinha percebido!
Daisy saltou para o colo dele e beijou-o rapidamente. Levantou-se num ápice e sem ele estar à espera, tapou-lhe os olhos:
-Quero que adivinhes! – Disse.
William riu-se. Daisy não era muito boa com surpresas, mas conseguia ser engraçada.
-Podes dar-me uma pista?
Margarett mostrou-se radiante quando espreitou para o interior da sala e o viu. Ele tinha crescido, mas parecia-lhe tão igual que nem era preciso descrever.
-Hum… É alguém que não vemos há algum tempo! – Respondeu Daisy.
-Tom? – Tentou adivinhar.
Daisy riu-se:
-Não!
William estranhou. Não se lembrava de ninguém:
-Amor, estou a ficar mesmo ansioso! – Disse, a rir-se - Outra dica, por favor?
-Está bem… Dou-te duas… - murmurou, piscando o olho a Mag e fazendo-lhe sinal para ela se aproximar – Está relacionado com a surpresa que me fizeste há umas semanas atrás…
Com aquilo William calou-se. A surpresa que lhe tinha feito há semanas atrás fora a visita de David. Esse primeiro vislumbre pareceu-lhe improvável:
-E a outra pista?
Daisy deu-lhe um beijo na cara:
-Foi a tua ultima namorada antes de mim…
Margarett corou e tapou a boca para se rir.
William calou-se, estático. Qualdo voltou a respirar, pôs as mãos sobre as mãos da esposa:
-Estás a brincar! – Disse, destapando os olhos.
-Surpresa!
Daisy deu-lhe outro beijo e desimpediu-o de ver Margarett.
-Will! - A loira riu-se e correu na direcção do velho amigo.
Ele levantou-se, espantado. Olhou Margarett de cima a baixo, boquiaberto:
-Margarett Wilson! – Exclamou recebendo-a num abraço apertado – Não acredito! – Gargalhou.
Voltou a separar-se dela:
-Mas que volta foi esta?! Estás igual!
Margarett riu-se:
-Tu também! Estou tão feliz por finalmente vos encontrar aos dois!
William agarrou Daisy e deu-lhe um beijo na cara:
-Querida, com esta eu não contava!
Daisy abraçou-se a William, radiante:
-Nem eu!
William olhou de Daisy para Margarett:
-Espera! Combinaste o regresso com o David?
Caroline riu-se. Toda a gente parecia perguntar isso a Margarett. Margarett corou e negou.
Aproveitou o riso de Caroline para introduzi-la a William:
-Esta é a minha amiga Caroline! – Apresentou – Trabalhavamos juntas em Paris!
William apresentou-se, enérgico.
Depois esperou uma resposta mais convincente de Mag:
-Ele também está cá, sabias?
Mag clareou a voz:
-Sim, eu já estive com ele…
William agarrou as mãos de Margarett e olhou para os dedos dela, sem qualquer indiscrição:
-És solteira! – Exclamou, admirado, mas feliz.
Margarett sentiu-se envergonhada e afastou as mãos dele:
-Não sou velha! – Defendeu-se.
William atrapalhou-se:
-Não era isso que eu queria dizer! É que… Ele também é!
Margarett não escondeu o choque por ouvir alguém, especialmente William, a dizer algo assim. Talvez ele tivesse sido o primeiro a revelar o seu pensamento sem qualquer vergonha. Apesar de ser constrangedor para Margarett, ela teve de se rir. William não parou por ali:
-Vocês falaram? Oh, viste o carro dele? Aquilo é que é uma máquina!
Margarett voltou a ficar constrangida. Porque é que William estava a falar no carro?
-Sim, vi. – Depois corou – Tambem já andei nele.
Daisy prendeu um sorriso matreiro e entreolhou William cumplicemente. O homem riu-se:
-Então já meteste a conversa em dia com ele, pelo que vejo!
Margarett tossiu, atrapalhada:
-Não propriamente… - admitiu.
Daisy e William olharam-se, surpreendidos. Então não deviam comentar aquilo como se fosse algo óbvio.
-Bom… O destino é mesmo implacável. Parece que fez de propósito para vocês voltarem na mesma altura… O que disse o teu pai?
Margarett perdeu o riso:
-O meu pai?
William, pela primeira vez, revelou-se incomodado e arrependido por ter falado. Daisy percebeu e sentiu-se culpada com ele.
-Bem, já falaste com ele, cálculo…
Margarett olhou para Caroline em busca de um auxilio que ela não lhe podia dar. Tornou a encarar Will e engoliu em seco:
-O que queres dizer, William?
Daisy colocou-se à frente do marido:
-O William foi indiscreto. Não temos nada a ver com isso…
Margarett afastou-se deles:
-Vocês sabiam… - murmurou, incrédula. Não era preciso dizer do que estavam a falar. As expressões eram claras. - Eu cortei as falas com o meu pai. – Esclareceu a loira – Eu e o David estivemos com ele há dias atrás e não foi bonito. Agora questiono-me como é que vocês sabiam que eu tinha de falar com ele…
William rendeu-se:
-Desculpa tocar no assunto. Quando percebi que o David tinha regressado sabia que o teu pai ia dizer-lhe das cartas. Calculei que, se também regressaste entretanto, era porque o teu pai também tinha falado contigo.
-Não, ele não falou. De facto, o cobarde só falou connosco porque nós os dois nos apercebemos que tínhamos sido enganados.
-Não digas isso do teu pai! – Exclamou Daisy, ofendida – É um senhor exemplar e bondoso.
Margarett sentiu um buraco no peito. Não estava a crer naquilo.
-Vocês compactuaram com ele?
William negou:
-Margarett, ninguém compactuou nada com o teu pai. Aliás, nada foi planeado. Sabiamos da omissão das cartas, realmente. Eu, a Daisy, o teu pai e mais tarde os pais do David. Em minha defesa, digo já que nunca concordei totalmente com isto.
-Muito menos eu! – Exclamou Daisy – Mas nós não eramos da vossa família. Não tínhamos o direito de nos intrometer.
Margarett abanou a cabeça.
-Não eram da família, mas eram amigos…! Eu estou mesmo chocada convosco!
Daisy ruborizou. Admitia que não tinha orgulho em dizer que não fez nada por eles.
William, por outro lado, não deixou palavras por dizer:
-Margarett, mantém a cabeça fria, por favor. Gostamos tanto deste assunto quanto tu, mas não íamos intrometer-nos nos assuntos dos outros. Muitas vezes pensei em mandar-te uma carta a dizer tudo. Mas que adiantava? O destino ia falar por si!
Mag não disse nada. Esperava tudo, excepto aquilo vindo de William e Daisy.
-Se ainda não falaste com o David, sugiro-te que o faças. Mas não culpes os vossos pais, ou nós. O teu pai teve todo o fundamento para fazer o que fez. E sabendo que era errado, eu dei-lhe razão porque o contexto assim o pediu!
Aquela tinha sido a resposta mais dura que Margarett tinha recebido. Em contrapartida, tinha sido a primeira que compreendeu.
Ela calou-se. Não ia fazer um escândalo com eles. Apenas não conseguia alcançar o mesmo raciocínio que todos pareciam seguir, excepto ela.
-Eu desisto… - suspirou, sentando-se de forma pesada no sofá – Sinto que perdi metade da minha vida no escuro e todos sabiam onde estava a porcaria do interruptor, mas não me disseram!
-Talvez porque sabíamos que se ligassesmos a luz tu ias ficar tonta como uma traça!
Não era suposto ser uma piada, mas a forma como William disse aquilo fez Margarett rir-se amargamente:
-William, ainda ninguém me tinha mostrado essa justificação de uma forma tão inteligente!
Ele sorriu, orgulhoso. De um modo mais calmo, mostrou-se compreensivo em relação àquele assunto:
-Estou feliz que vocês tenham voltado, sabes? Quem sabe, podem acabar os vossos assuntos de uma boa forma…
-Passaram muitos anos…! – Interrompeu Margarett.
A tentativa de Margarett impedir qualquer comentário que lhe causasses esperanças sem sentido, perdeu-se por causa de Will:
-E daí? Também passaram para mim e no entanto cá estou eu, feliz por te ver!
Margarett encarou-o, admirada. Ele era mesmo boa pessoa e não tinha mudado nada. Ouvi-lo dizer aquilo tinha sido como uma injecção de confiança. Porque é que ainda ninguém lhe tinha dado aquela resposta?
-Tens a certeza? – Aquela questão tinha tantos sentidos.
Willam assentiu:
-Acho que sempre foste um pouco pessimista, Margarett. Vês o fim mesmo antes de começares!
Daisy sorriu e envolveu William carinhosamente:
-Confia em mim, Margarett. Não caias nesse erro.
William riu-se:
-Ouve-a! Passou anos apaixonada por mim, mas tinha tanta certeza que eu não queria nada com ela que nem sequer tentou! Felizmente, eu apercebi-me a tempo, com a ajuda de um empurrãozinho, e juro-te, foi a melhor coisa que fiz na minha vida!
Daisy sorriu e deu-lhe um beijo na boca:
-Eu amo este tonto!
Margarett sorriu. Daisy e William pareciam mesmo felizes e anos antes nem ela diria. Talvez tivessem alguma razão, mas pensar em David deixava-a nervosa.
Não era que estivesse pessimista em relação a tudo mas ler aquelas cartas causara-lhe algum desconforto. E tinham sido poucas. David por outro lado, podia ainda nem ter acabado de ler as dele. Eram tantas.
-Está bem, desculpem. Por momentos tentei arrastar-vos para um problema que se calhar já só existe na minha cabeça…
-Na tua cabeça? – Daisy sorriu docilmente – Querida Margarett, podes não ter noção disso, mas acho que ambos partilhamos esse mesmo problema durante muito tempo. Foi um peso na consciência constante…
Mag compreendeu a resposta de Daisy. Imaginava como ela se tinha sentido quando soube que a sua medalha é que tinha causado aquela reviravolta toda. Mas não podia julga-la. As coisas já estavam frágeis muito antes do incêndio. Era uma questão de tempo até que algo a separasse de David.
-A verdade é que nós acreditamos em vocês… - Referiu William - Se calhar isto está a soar como algo infantil de se dizer, mas mesmo tendo passado tanto tempo, se calhar não és só tu quem ainda se lembra. O que eu vejo, agora que olho para ti e também quando vi o David… É que regressar foi algo que não vos agradou, apesar da saudade. E eu tenho a certeza que isso só aconteceu porque vocês não se esqueceram de nada do que aconteceu. Não é verdade?
-É como uma cidade assombrada… - murmurou Margarett.
-Claro que é. Mas pessoalmente, gostava de saber até onde este regresso vos vai levar. Tu és solteira, ele também… Vocês tem uma história em comum, o que não significa que vocês vivem em função dela, claro. Mas o que eu sei, é que por detrás dessas história, existia um grande sentimento. Só resta saber se ele se manteve em ambas as partes… - William sorriu e piscou o olho a Margarett – Só que, infelizmente, não está nas minhas mãos descobrir isso e sim nas vossas.
A loira sentiu-se vermelha como há muito tempo não sentia. Perguntou-se onde estava o tento na língua de William. Ele não costumava ser tão frontal, nem indiscreto. Sentiu ainda mais vergonha por ele dizer aquilo em frente a Caroline, a Daisy e das crianças. Quis-lhe dar uma resposta que negasse o que ele estava a dizer. Queria debater a opinião dele pela negativa, mas depois compreendeu. Estava a ser idiota. Estava a arranjar pretextos para não acreditar que algo assim era possível. Mas o que é que ela sabia em concreto? Sabia que a presença de David ainda lhe causava borboletas no estômago. Sabia que durante nove anos, desejou a Deus que ele ainda estivesse vivo e de saúde. Sabia que ele a tinha convidado para jantar e ela ainda não tinha aceitado.
Idiota…
Ela soltou uma gargalhada para descomprimir aquelas emoções. Precisava de rir ou de chorar e sem sombra de dúvida que preferia dar uma ideia de louca do que ficar deprimida.
Daisy foi a primeira a partilhar daquela risada, talvez por se sentir também demasiado presa. Depois riu-se Caroline, que apesar de só ter percebido metade da conversa, compreendeu que aquilo tocou Margarett. William foi o último.
Ele levantou-se, dirigiu-se às crianças, cumprimentou Marie e Caroline e depois voltou a dirigir-se a Margarett:
-Quero-te fora desta casa, imediatamente.
Margarett calou-se, espantada com aquela expulsão.
-William, ofendi-te? Desculpa! – Disse, atrapalhada.
Ele riu-se da cara dela e empurrou-a em direcção à saída:
-Pelo contrário, Margarett! Mantinha-te aqui mais tempo, mas sinceramente não estás aqui a fazer nada. Quero-te fora desta casa e só permito que voltes quando tiveres uma boa notícia para me dar, se é que me faço entender! Não percas mais tempo, Wilson! Tenho a certeza que em questão de minutos arranjas um plano melhor do que aturar velhos amigos, não? Eu sugeria uma passagem rápida ou um telefonema para a casa de David Paisen… Que te parece?
 
Margarett riu-se. Tinha estado 20 minutos na casa de William e tinha saído de lá como se tivesse 17 anos outra vez. Explicou a Caroline o que se tinha passado e regressou ao hotel com ela.
Mal se viu sozinha, dirigiu-se à recepção e esperou que Mr. Mabb a servisse. Pediu-lhe o contacto particular de David porque queria falar com ele. O homem cedeu-o, sabendo que Mr. Paisen era chegado à jovem. Margarett dirigiu-se à cabine telefónica do hotel e depois de ganhar coragem, digitou os números.
Do outro lado, David atendeu, alheio a quem seria. Quando ela falou, ele simplesmente sorriu.
Finalmente…

 
Caroline bocejou, aborrecida, e olhou para as horas. Já estava ali há mais de uma hora e não tinha encontrado nenhum progresso.
-Como estou? – Perguntou Margarett após inspirar profundamente.
A francesa revirou os olhos:
-Fantástica! Tal como estiveste com os outros seis modelos!
Margarett encarou-se ao espelho.
Um vestido em tom pérola, um casaco preto e uma carteira a combinar com os sapatos. Sim, ela estava bastante bem. Talvez as olheiras destoassem um bocado da sua imagem, mas nada que uma maquilhagem leve não escondesse. A verdade é que não tinha dormido bem. Acordou várias vezes durante a noite por sonhar que tinha adormecido e tinha falhado o jantar. Essa ideia causara-lhe insónias durante todos os dias desde que tinha ligado a David para oficializar o jantar. Na altura, ele contactou-a no mesmo dia a marcar a hora e a data em que ia buscá-la ao hotel para irem juntos ao restaurante. Tinha conseguido detectar alguma ânsia alegre no tom dele. Isso fê-la rir-se. Só Deus sabia como queria vê-lo rapidamente, independentemente do stress que sentia só de pensar nisso.
Uma vez mais rodou sobre si mesma, para ter a certeza que não estava nem demasiado bem vestida, nem demasiado desleixada:
-Tens razão! Vou com este. Ajudas-me com o cabelo?
Caroline, até então estendida sobre a poltrona, levantou-se, mais animada:
-Óptimo, alguma acção! Solto ou preso?
Margarett sorriu, timidamente:
-Surpreende-me!
Marie riu-se. Estava em cima da cama a admirar a mãe e a madrinha. Tinha achado tão divertido ver Margarett a mudar constantemente de roupa, que não resistiu a brincar de adulta e tentar andar com os saltos altos dela:
-E eu? Como estou, mamã?
Margarett riu-se. A pequenina parecia ter-se enrolado um lençol cor de vinho, que na verdade era um vestido seu preso com ganchos do cabelo. Tinha os óculos de sol enormes na cara e um chapéu. Quando saltou para o chão pôs-se em cima dos saltos altos e tentou caminhar sem sorte.
-Marie, olha que ainda estragas as coisas da madrinha!
-Eu acho que estás lindíssima, Marie! – Exclamou Margarett.
Marie desistiu dos sapatos e correu para junto de Margarett que a mando de Caroline se sentou em frente ao espelho:
-Onde vais, tia?
Margarett sentiu um arrepio na espinha pela pergunta da pequena. Sorriu-lhe docemente:
-Vou jantar fora, mas prometo que para a próxima te levo comigo.
Caroline pegou no pente e laca. Começou esticar o cabelo de Margarett e ondula-lo nas pontas. Depois, com o pente, desfiou algum cabelo no topo e com laca fixou-o. Por fim lançou-o para trás e prendeu apenas um pouco:
-Que achas?
Margarett gostou.
-Perfeito! – Exclamou - És a minha melhor cabeleireira.
-A seguir sou eu, mamã!
Caroline sorriu e deu os últimos retoques no cabelo loiro.
-Queres que te maquilhe?
Margarett hesitou:
-Não sei… Só quero esconder estas olheiras… Acho que prefiro ir o mais natural possível… Acho que ele também prefere…
A pequena Marie não escondeu a sua curiosidade:
-Ele quem? – Indagou.
Caroline ignorou a questão da filha e continuou a falar com Margarett:
-Ah, mas é um restaurante caro. Vá, mete um pouco de eyeliner e rimel. E belisca as bochechas se não queres passar blush. Pelo menos ficas com mais cor!
Marie corou de irritação. Queria respostas!
-Ele quem? – Repetiu.
-Marie! – Urrou Caroline - Porta-te bem!
A miúda franziu as sobrancelhas e saiu da beira delas. Foi sentar-se ao pé da janela.
Margarett repreendeu Caroline, mas admitiu que também não lhe apetecia responder à criança e entrar em pormenores. Olhou para as horas e respirou fundo. Estava quase na hora e o seu organismo parecia lembrá-la disso em todos os instantes.
Mal acabou de se preparar, esguichou duas gotas de perfume atrás das orelhas e e certificou-se que tinha tudo na carteira de mão.
Em silêncio, aproximou-se de Marie, ao pé da janela e deu-lhe um beijo no topo da cabeça. Desejou que ela fosse a sua estrelinha da sorte por uma noite.
 
***
-Como estou?
Giuliana espreitou por cima das costas do sofá onde estava deitava. Não se lembrava de ver David tão nervoso.
-Bem… - respondeu e voltou a olhar para o programa de televisão que estava a ser emitido.
Ele olhou para si mesmo, desiludido:
-Só isso?
A italiana estranhou e voltou a olhar:
-David, estás muito elegante. Não sabia que eras tão vaidoso!
Ele ruborizou, desajeitado. Olhou para o relógio de pulso e depois andou de um lado para o outro impaciente.
-Achas que devo ir mais cedo?
A mais nova encolheu os ombros:
-Sei lá! Já estás totalmente pronto? Puseste colónia? Escovaste os dentes? – Relembrou, conforme David ia assentindo. Depois ela arqueou a sobrancelha – Levas dinheiro e chave de casa?
Ele não respondeu e saiu da sala. Giuliana soltou uma risada. Tanta preocupação e ia-se esquecendo do mais importante.
Ele voltou num ápice e sem força para mais, pegou na chave do carro e aproximou-se de Giuliana:
-Deseja-me sorte, pestinha! – Despediu-se, deixando-lhe um beijo na testa como adeus – Mrs. Belnini chega entretanto e vai jantar contigo. Não abras a porta a estranhos e deita-te cedo!
-Sim, senhor! – Brincou ela – Boa sorte!
David piscou-lhe o olho e despediu-se da casa.
Ansioso, deslocou-se à garagem.
Entrou no carro com alguma pressa e respirou fundo antes de arrancar para o hotel. Entretanto estava a anoitecer. Mesmo ainda sendo cedo para apanhar Margarett, ele teve de ir. Precisava de encontrar alguma fonte de distracção para se acalmar e fazer tempo na estrada pareceu-lhe uma boa forma. Além disso, os olhares acusatórios de Giuliana eram óbvios e desconfortáveis. Apesar de ela não ter dito grande coisa, David já a conhecia há tempo suficiente para lhe saber ler as expressões.
Ela tinha-o apanhado.
Tais pensamentos faziam-no sentir-se tonto, mas teve de rir da situação. Não tinha nada a esconder. Sim, estava nervoso. Sim, estava nervoso só por ser Margarett. Sim, talvez o motivo de ela o deixar nervoso ser demasiado óbvio para ele próprio conseguir admitir.
Quando chegou ao hotel, parou em frente à entrada. Inspirou fundo e após desligar o motor, saiu do carro.
-Quer que estacione, Mr. Paisen? – Perguntou o arrumador de carros.
David olhou para trás de si e hesitou:
-Ah… Não. Eu volto rápido, acho eu… Qualquer coisa eu estou na zona da recepção!
-Sim, senhor! – Assentiu o funcionário.
David apertou as mãos e voltou a soltá-las. Estavam suadas.
Adentrou no hotel com o estômago às voltas. Cumprimentou as serviçais que estavam a terminar o seu turno e depois Mr. Mabb e os jovens colegas dele que estavam a cumprir as suas ordens. Cumprimentou-os num tom tão desprendido que todos estranharam.
Mr. Mabb, deduzindo que David estava ali para a sua vistoria semanal das coisas do hotel, pegou nos dossiers para lhe entregar:
-Aqui está Mr. Paisen.
David olhou aquilo com indiferença:
-Para que é isso?
Os colegas de Mr. Mabb olharam-no, admirados. David logo se apercebeu:
-Oh, eu não… Eu não vim buscar isso. Amanhã passo cá com mais calma!
O gerente compreendeu e entregou as pastas ao colega para ele ir guardá-las:
-Algum motivo especial, Mr. Paisen?
David sorriu desajeitado:
-Pode dizer-se que sim… - Respondeu e depois sentiu-se corar como há muito não sentia.
Mr. Mabb reparou mas não se intrometeu. Observou que o patrão olhou para as horas e suspirou pesadamente e no preciso momento em que o fez, um som peculiar fez-se notar.
Pareciam solas finas a bater no chão. Mr. Mabb afirmaria que eram passos de alguma mulher de salto alto, mas o ritmo do som deixara-lhe duvidas. Era como se fosse alguma criança a saltar os degraus de dois em dois. David, ao contrário do gerente, não se mostrou curioso. Mr. Mabb olhou para as escadas com especulação para saber quem as descia naquele ritmo estranho.
Perguntou-se se seria uma criança a tentar andar de saltos altos, ou se seria uma adulta e caminhar infantilmente.
Para sua surpresa, a segunda opção foi a que se revelou verdadeira.
Margarett tinha o rosto algo constrangido e, apesar de estar vestida elegantemente, tinha sido ela a descer os degraus de dois em dois. Quando se apercebeu que já estava num patamar visível para quem estava na recepção travou-se para se recompor antes que se apercebessem dela. A sua caixa toracica alargou-se e voltou a encolher num respirar fundo intenso que ela não pôde evitar ao perceber que David já tinha chegado.
Ele, por sua vez, levantou o rosto devagar, convencido que era cedo demais para Margarett já estar ali. Quando o seu olhar cruzou-se com o dela, travou a respiração, apanhado de surpresa.
Era mesmo ela.
Ela tinha a mão pousada sobre o corrimão dourado e estava tão bonita como ele sempre a conhecera. O seu rosto revelava uma delicadeza inocente que logo capturou David.
Atrapalhado pelo adianto dela, David voltou a respirar. Esperou que nenhum dos seus trabalhadores se tivesse apercebido e, cordialmente, dirigiu-se ao início das escadas:
-Adiantaste-te! – Exclamou, revelando uma falta de imaginação medonha.
Margarett encolheu os ombros e sorriu:
-Tu também!
Ele sorriu-lhe e estendeu-lhe a mão para que ela a segurasse:
-Nesse caso, podemos ir andando.
Margarett desceu os últimos três degraus com o apoio da mão de David e escondeu um trejeito tímido:
-Acho que não há problema algum…
David posicionou o seu braço para que ela engatasse o seu e, de um modo cortês, despediu-se do pessoal da recepção.
Mr. Mabb sorriu para Margarett quando ela os cumprimentou. Sentiu-se feliz por compreender facilmente uma química natural a pairar sobre os dois adultos. Mesmo não conhecendo a relação dos dois, aquilo pareceu-lhe demasiado certo para não sorrir.
 
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#229
(Há outro post acima com o inicio do capitulo!)
-Estás muito bonita! – Elogiou David, quando lhe abriu a porta para entrar no carro.
Ela sorriu lisonjeada e esperou que ele entrasse no lugar do condutor. Uma vez mais o carro tinha o cheiro de David bem marcado.
-Obrigada… Acho que não ficas nada atrás.
David sorriu e inclinou-se na direcção dela. O coração de Margarett acelerou quando ele lhe depositou um beijo na bochecha. Ela não esperava aquilo, mas gostou.
-Bem, já foste ao “Moonlight Diner”?
Margarett negou quando David arrancou. O seu friozinho na barriga estava a acalmar.
-E tu? Vais lá muito?
Ele negou.
-Não! É a primeira vez. Vai ser uma surpresa para os dois, portanto, se a comida for fraca não temos quem culpar!
A jovem riu-se. Desde que não encontrasse lá insectos para comer, estava tudo bem.
-Porque vieste mais cedo? – Perguntou ela.
A resposta foi rápida:
-Não tinha nada para fazer em casa! – Não era mentira - E tu? Porque é que te adiantaste?
Margarett corou e sorriu-lhe:
-Acho que adivinhei que ias chegar mais cedo… apesar de ter sido apanhada de surpresa.
Ele olhou-a de soslaio e assentiu, escondendo um sorriso divertido.
Conduziu lentamente na direcção do restaurante, mantendo uma conversa tão casual como o próprio tempo, de modo a que não chegassem cedo de mais ao restaurante.
-A Giuliana ficou sozinha?
David negou:
-Mrs. Belnini, a senhora que nos faz limpezas e cozinha foi jantar com ela. Quando ela se for deitar a senhora vai-se embora e tranca tudo.
Margarett inspirou. David tinha uma mulher para fazer limpezas e a comida e um mordomo para gerenciar as coisas dele e a manutenção da casa e do jardim.
-Bom, desde que não fique só… Deve ser aborrecido para ela…
-Ela dá-se bem de qualquer modo. – Informou David - É-lhe indiferente estar numa sala cheia de gente ou sozinha, desde que tenha ocupação. Hoje deixei-a a ler um livro em inglês. Ela precisa de treinar!
Mag sorriu. Não fazia de David uma pessoa tão responsável na matéria escolar.
-Pobrezinha! Aposto que mal viraste costas largou o livro.
A gargalhada de David foi inevitável:
-Obviamente! Já estava com a televisão ligada e tudo! Mas eu não me preocupo – Disse, olhando-a – Ela é esperta!
-Já fez amigos?
-Parece-me que sim. Já levou duas colegas lá a casa mas espero que não me apareça já com nenhum rapaz!
Foi a vez de Margarett se rir:
-Pareces o pai dela!
David não se mostrou incomodado com aquela comparação. Talvez fosse um pouco assim, mas tinha de ser. Em sossego sorriu:
-Eu tento não ser muito rígido!
Margarett não o contrariou. Se David não tivesse mudado muito, rigidez realmente não era uma palavra que combinava com ele. Ela olhou para o horizonte e viu o tal restaurante a surgir lentamente.
Pela apresentação impecável, devia ser um restaurante caro. Tinha uma porta giratória de vidro e janelas com cortinas brancas de linho. Com o escurecer da noite, as luzes delineavam-no.
David estacionou no outro lado da rua e saiu do carro para abrir a porta a Margarett.
As atenções de ambos caíram sobre a exuberância das pessoas que estavam lá dentro. Uma vez mais perceberam que era algo realmente caro, mas pelo menos era algo que David tinha possibilidades de pagar.
Ele estendeu o braço a Margarett e ela engatou o dela. Fazer isso deixava-a envergonhada como uma adolescente, mas admitia que não tinha vontade nenhuma de largá-lo.
Foram recebidos por um recepcionista engravatado que os dirigiu para a mesa reservada ao pé da janela. O espaço era preenchido por uma melodia de violino ambiente.
Por algum motivo, David não teve um bom pressentimento em relação àquele restaurante.
O garçon dirigiu-se a eles rapidamente:
-Boa noite! O meu nome é Olaf e serei o vosso garçon – Apresentou-se entregando o cardápio - Para começar recomendo a entrada especial do chefe e um vinho da casa!
Margarett encolheu-se perante o tom sugestivo do jovem. David, por outro lado, teve curiosidade:
-Muito bem, pode trazer!
Mal o jovem virou costas, Margarett riu-se:
-Nunca fiz um pedido tão depressa!
David completou:
-Eu nunca fui persuadido com tanta facilidade! Espero não me arrepender, mas o rapaz parecia mesmo convicto!
Ela olhou em redor:
-A única vez que fui a um restaurante com um aspecto semelhante a este, não fui capaz de escolher a comida. Metade dos nomes eram esquisitos!
David riu-se e abriu o cardápio:
-Bem, acho que é melhor tentarmos perceber isto. Hum… Carne ou peixe?
-Carne! – Prontificou ela.
-Hum… Estou tentado a optar pelo Filet mignon… Achas que é bom?
Margarett assustou-se com o preço:
-David, isto é um pouco exorbitante!
-Não faças cerimónias! Eu convidei-te!
Ela corou, não por vergonha, e sim porque aqueles preços a tinham intimidado:
-Muito bem! Como o mesmo que tu!
Ele sorriu:
-Então será!
David chamou pelo garçon para fazer o pedido. Este trazia consigo a tal entrada sugerida pelo chefe. Pousou-a em cima da mesa agilmente e retirou a tampa de prata que cobria o prato.
A cara de Margarett foi inexpressiva perante o que viu. Teve vontade de soltar uma gargalhada estúpida, mas não ia ser tão tola junto a David. O garçon serviu cada um com o vinho escarlate e depois anotou o pedido de David. Deixou-os a sós tão rapidamente quanto um relâmpago.
David olhou para a entrada e fez uma careta:
-Hum… Já alguma vez comeste… - ele hesitou, desiludido – Caviar?
Margarett admirou-se pelo ar de desagrado dele:
-Tu já?
Ele assentiu sem retirar o olhar das ovas escuras em cima do queijo fresco:
-Uma vez, num hotel em Londres… - murmurou – E tu?
-Uma vez, num restaurante em Paris… - Ela sorriu para evitar fazer um esgar como o dele.
David inspirou fundo e apontou para o caviar:
-Bom… As senhoras primeiro.
Margarett riu-se e pegou no garfo das entradas:
-Tenho de admitir uma coisa, David… - Disse, humedecendo os lábios com algum receio - A primeira e última vez que comi caviar correu mal. Detestei aquilo com todas as minhas forças…!
David sorriu, aliviado:
-Oh, ainda bem! – Exclamou – Eu também detestei! Foi como meter água do mar na boca!
Margarett riu-se, admirada pela confissão. Estava a sentir remorsos por ter sido tão sincera, mas preferiu prevenir uma cuspidela involuntária:
-A sério, David? Comecei a pensar que era só eu! Toda a gente que conheço que já provou isto, gostou!
David negou com a cabeça:
-Não, eu acho que gostam do nome e do conceito. Falar em caviar é falar em riqueza e luxo… Cá para mim, só é bonito o nome!
Mag encolheu os ombros e olhou de novo para aquilo:
-Bem, tendo em conta que já foi há muito tempo e como agora sei que não sabe a doce de amoras, talvez já consiga apreciar… Vá, prova comigo! Pode ser que nos saiba melhor agora!
David não se mostrou muito convencido mas resolveu fazer o teste. Aguardou que Margarett colocasse um pouco de caviar na boca para meter também. A sua reacção foi contida. Mastigou durante dois longos segundos, ansioso por conseguir engolir aquilo. Quando percebeu que não ia conseguir, pegou no copo de vinho e deu um gole para empurrar as ovas pela garganta abaixo.
De seguida observou Margarett. Ela ainda tinha aquilo na boca e estava corada.
Mais determinada do que ele, engoliu aquilo em seco e instintivamente pôs a língua de fora antes de pegar no vinho:
-Desculpa! Continuo a não gostar!
-Vou tomar nota. – Disse ele - Da próxima vez que for a um restaurante e me sugerirem a entrada do chefe, vou perguntar se leva caviar! Em todo o caso, estou feliz por termos queijo! Com a fome que estou tenho de enganar o estômago.
-Não lanchaste nada?
Ele negou e desviou o caviar para o canto do prato para saborear o resto dos condimentos. Margarett fez o mesmo, sorrindo pela situação.
-Quem te deu a provar o caviar? – Indagou, receando cair no silencio.
David riu-se:
-Foi por causa de Mr. Denvers, um apostador inglês. Ele adora dar sugestões, mas correu mal! Então e tu?
Margarett corou. Não tinha vontade de dizer aquilo, mas já que estavam ali para falar, teve de assumir:
-Pierre… - murmurou.
David fingiu que aquilo não o importunou:
-O teu…?
-O primo da Caroline! – Interrompeu. Ela não queria pensar em Pierre como o seu “ex-noivo”.
Tragando um pouco mais de vinho, David pousou os talheres sobre o prato das entradas, selando o seu apetite por mais.
-“Noivo”! – Concluiu David – Não era?
Margarett soltou uma lufada de ar:
-Era! – Admitiu, enfatizando o tempo passado.
-Não precisas de corar! Eu li muitas cartas.
Mag encolheu os ombros:
-Gostava de dizer o mesmo em relação a ti, mas só descobri dois anos… O resto continua uma incógnita para mim.
David sorriu sem graça:
-Bom, por isso é que estamos aqui hoje. Pergunta-me o que quiseres!
Mag esfregou as mãos e mordeu o lábio:
-Não é assim tão fácil…
Ele concordou. Então pegou na garrafa do vinho e serviu-a:
-Um pouco de coragem arranja-se, não?
Ela riu-se e baixou o olhar ao beber um pouco do suco de uva, antes de fazer a derradeira questão:
-Como sobreviveste?
David olhou-a em silêncio. Não era a pergunta que esperava, mas fazia sentido ser a primeira:
-Com força de vontade. Para te poder procurar.
Ela sentiu-se arrepiada. Percebeu que David não estava para rodeios e ia ser tão directo como sempre.
Ela voltou a beber:
-Se calhar, se tivesses ficado na cidade, eu teria voltado mais depressa…
David negou. Serviu-se ele próprio de vinho e tomou alguns goles até deixar o copo quase vazio:
-Eu tive de ir embora, Rett… Procurar uma cidade mais limpa para melhorar a minha respiração…
-Sim, eu percebi isso, mas porque foste para tão longe? Porque não ficaste no continente?
Aquela resposta era intimidante, mas David disse-a mesmo assim:
-Foram os meus pais… Eles queriam-me longe de tudo o que me fizesse lembrar de ti… Sabiam que eu não ia sossegar.
-E adiantou-lhes? – Margarett olhou pela janela, ligeiramente constrangida – Tu esqueceste-te assim tão facilmente só porque estavas mais longe?
David abanou a cabeça em negação:
-Claro que não… Mas fez-me bem noutros aspectos.
Mag assentiu:
-Conta-me, então… As tuas cartas foram muito vagas. O que fizeste na Irlanda? E para onde foste depois?
David olhou para o prato vazio e regressou anos no tempo. Voltou à Irlanda, onde tudo começou:
-É uma história comprida… - admitiu, mas não se importava de a contar a Mag. Em troca iria receber uma história dela - Eu e os meus pais fomos morar numa casinha pequena, com poucas condições. – Introduziu-se, dobrando o guardanapo no colo - Ficava numa aldeia muito campestre. A minha mãe conseguiu adaptar-se bem àquilo, mas eu não. Detestei a monotonia e só queria regressar mas sem saúde não podia fazê-lo. Fui acompanhado por um médico da cidade mas no princípio não vi qualquer remedeio. Entretanto, a família precisava de mais dinheiro e o meu pai encontrou um sítio para eu trabalhar. Era uma grande quinta perto de casa. Fui conhecer o dono e ele aceitou-me por eu ser jovem. Os Bards já não tinham força para aquilo. – Acrescentou - Tinham a casa a verter água pelo telhado, a precisar de alguns ajustes. Consertei-lhes algumas coisas e pode-se dizer que foi uma ajuda mútua. Comecei a dar-me bem naquele trabalho e descobri um entretenimento no caminho.
Margarett sorriu e bebeu um pouco mais de vinho:
-Os cavalos – Deduziu.
David assentiu. Essa parte ainda estava explicada nas cartas que havia enviado a Mr. Wilson.
-E como deves ter lido, um dia apareceu um homem que insistiu com Mr. Bards para levar os cavalos dele. Mas o meu patrão era teimoso e não deixava. A verdade é que por um acaso do destino fui arrastado para aquilo…
-Porquê? O que é que fizeste?
David bebeu:
-Consegui controlar o Veloz num momento de tensão e isso despertou a atenção de Mr. Denvers, o tal milionário que queria os cavalos. Ele conversou comigo e com o meu patrão para que eu ingressasse no mundo das corridas. Eu não aceitei, mas começaram a haver muitas forças a arrastar-me para aquilo, incluindo o meu médico. – David decifrou o olhar confuso de Margarett e riu-se – Eu acabei por dar o braço a torcer. Comecei a ir para Dublin semanalmente, tinha aulas e treinos como jóquei. Fomos treinados um com o outro desde o início. Eu gostei bastante daquele cavalo e dia após dia conseguiam mais progressos. À parte daquilo, Mr. Denvers obrigou-me a seguir os estudos mínimos e acho que me revelei mais inteligente do que achava
Mag revirou os olhos:
-Ora, tu nunca foste incapaz, David. Só eras preguiçoso.
Ele sorriu. Margarett sempre foi a única que nunca duvidou da sua inteligência.
-Sim, eu sei. – Concordou - Mas pelo menos ali eu tive alguma força de vontade maior. Então começaram as provas de apuramento. Mr. Denvers estava certo. Eu consegui destacar-me e finalmente fui competir em Londres. Foi aí que tive a minha primeira vitória. Graças a isso, continuei o lucrei muito. O suficiente para que os meus pais pudessem regressar…
-E então eles souberam de mim e não te disseram…
David anuiu.Antes da sua resposta o Garçom Olaf regressou com os pedidos. Colocou os pratos à frente de cada um e descobriu-os.
Se David estava com fome antes daquilo, depois de olhar para a apresentação do prato sentiu um buraco negro no estômago. Mal Olaf virou costas ele olhou para o prato de Margarett, escandalizado:
-Onde está o teu filé mignon? Eu preciso de uma lupa…
Margarett controlou-se para não soltar uma gargalhada. O prato largo evidenciava a pouca quantidade de comida que pintava a porcelana. Apenas um bife no centro do prato, com uns vegetais enroladinhos ao lado e um molho a sarapintar a base.
-Tem bom aspecto e cheira bem! – Argumentou ela.
David esboçou um esgar e nisso teve de concordar:
-Mesmo assim podia ser mais. Dá-me vontade de rir!
Levantou o copo sugestivamente:
-Bom apetite! – Disse, pegando nos talheres de seguida.
Ela cortou a carne lentamente; era tenra e perfumada. Molhou-a no molho escasso e colocou na boca. Após mastigar, teve de murmurar um gemido de agrado e sorriu para David:
-Garanto-te que nunca comi nada tão saboroso na vida! Prova!
David confiou na palavra dela. Teve de concordar que o seu paladar ficou satisfeito com aquilo. A explosão da mistura do sabor da carne com o molho era estimulante:
-Dou-te uma opinião melhor no final!
Ela sorriu, sabendo que ele tinha gostado:
-Podes continuar a falar, por favor! O que fizeste quando os teus pais regressaram?
David encolheu os ombros:
-Continuei as minhas rotinas, mas quando os Bards faleceram e Veloz também, senti-me desorientado. Tinha voltado a ficar sozinho. No entanto, em vez de voltar, eu preferi ficar na Europa. Com o dinheiro que tinha lucrado nas corridas, arranjei caseiros para a quinta dos Bards e parti para a Suiça. Sabia que precisava de arranjar algo mais definitivo para fazer do que competir, então comecei a juntar dinheiro para criar um negócio, só não sabia qual.
Margarett riu-se, enquanto mastigava. Estava a sentir-se corada. Talvez o vinho estivesse a subir-lhe à cabeça.
David riu-se também e provou os legumes, sem interromper o seu relato:
-Da Suiça fui para Itália e foi lá que me surgiu a ideia de abrir um hotel.
-Lá? Porquê?
-Na verdade eu já tinha pensado nisso noutras ocasiões, mas só em Itália é que decidi avançar. Porque quando precisei de um lugar para ficar,só encontrei hotéis de luxo ou quartos com ratos e baratas. – Explicou, limpando a boca ao guardanapo, antes de tragar um pouco mais do líquido escarlate - Os quartos com melhores condições mesmo assim não ofereciam o conforto necessário para passar muito tempo lá. Então, eu perguntei-me porque é que não havia um hotel com boas condições e acessível. Não era preciso caviar e almofadas com penas de ganso para ter conforto. Bastava um local com uma cama e uma coberta, um quarto de banho e pão com leite de manhã. Não era como se esta diferença fosse impossível de concretizar. Então eu lembrei-me que Mr. Bards, quando morreu, deixou-me um prédio em Dublin. A partir dessa luz foi só arriscar. Mr. Denvers associou-se a mim e ajudou-me a restaurar o prédio e legalizar o negócio. Com isso tudo, procurei os produtos mais acessíveis e imprescindíveis para uma estadia. No início foi difícil. O lucro era pouco porque os valores que eu pedia não eram muito mais altos do que as despesas. Mas começou a dar resultado. Especialmente em famílias.
Margarett olhava-o pensativa e com um trejeito simples e risonho no rosto:
-Compreendo… - Disse, ajeitando a sua postura - Hospedar uma família inteira é bem mais caro do que hospedar uma pessoa individualmente. Daí o teu sucesso, não foi?
David assentiu. Já estava quase a acabar de comer, mas ainda sentia alguma fome, apesar de estar a gostar imenso da refeição:
-Depois disso foi só pensar em grande para conseguir atrair o mercado mais alto. Eu pensei, porque não juntá-los, dividindo apenas as regalias?
Margarett arqueou as sobrancelhas:
-Oh David, admiro imenso que o tenhas conseguido. Infelizmente, tenho uma lista de pessoas que se recusariam a ficar no mesmo hotel de gente menos rica…
Ele concordou e finalizou a refeição com um gole de vinho antes de continuar:
-Claro que alguns snobs não iriam querer partilhar o espaço com pessoas mais humildes e isso foi um risco que corri. Felizmente, deu certo…
David começou-se a rir. Apesar do tom divertido, lançou a Margarett um olhar cúmplice e malandro.
Ela riu-se também:
-Do que te estás a rir?
David debruçou-se um pouco sobre a mesa:
-Queres saber porque é que este negócio resulta?
Margarett pousou os talheres paralelos sobre o prato vazio e debruçou-se também, curiosa.
-Sem saberem, os hóspedes da zona Oeste conseguem cobrir o valor da sua própria estadia, mas também o valor dos gastos dos hospedes da zona Este. – David riu-se e piscou-lhe o olho - Mas isto é o segredo do negócio e fica só entre nós!
Margarett riu-se e deu a sua palavra.
-Isso é desonesto! – Acusou.
-Gosto mais de pensar que sou uma espécie de Robin dos Bosques. Tiro dos ricos para dar aos pobres!
Margarett voltou a encostar-se à cadeira e terminou com o vinho do seu copo:
-Não deixa de ser honrável, de certa forma!
David mostrou-se agradado por ela concordar e terminou também o seu vinho:
-Sentes-te satisfeita? – Perguntou.
Ela olhou para o seu próprio prato. Tão limpo como se não tivesse sido posto nada lá. A refeição estava óptima, era um facto. Mas se lhe aparecesse outro filé mignon à frente ela comia-o todo de novo. Em contrapartida, não se sentia à vontade para dizer isso a David em pleno restaurante. Ficava muito mal numa senhora.
Talvez tivesse disfarçado mal. Talvez o seu próprio rosto, o seu próprio respirar ou a sua porpria postura a tivessem denunciado. Talvez fosse transparente sobre o olhar de David. O facto foi que ele se riu. O silêncio dela tinha sido em vão.
-Espera um minuto! – Disse ele, levantando-se da mesa.
Ela não percebeu onde ele foi, até o ver junto de Olaf que o levou até ao recepcionista.
Voltou num ápice e pegou no casaco de Margarett:
-Vamos embora, Mag…!
Ela corou, surpreendida, mas levantou-se e deixou que David a ajudasse a vestir o casaco:
-Aonde vamos?
Teve vontade de perguntar pela sobremesa, mas foi outra questão que não se atreveu a colocar.
David vestiu o seu próprio casaco e deu o braço a Margarett, para que ela o acompanhasse. Mal chegaram à rua, ele explicou-se enquanto a conduzia até ao carro:
-Se há coisa que aprendi nas minhas viagens, foi que os melhores lugares para se comer são as tabernas e tascos com pior aspecto.
Aquilo não teve sentido nenhum para Margarett . David ia levá-la a um tasco depois de sair de um restaurante de luxo? Riu-se de novo, mas deixou-se ser guiada por ele.
David entrou no carro e tomou um rumo que ele próprio desconhecia. Foi uma condução lenta até encontrar um sítio suficientemente feio, para se sentir atraído.
A taberna seleccionada ficava numa rua bem iluminada. Encontravam-se especialmente adolescentes na rua a beber cerveja e a fumar coisas que David tinha a certeza  que não eram apenas tabaco.
Havia música no ar a sair dos pubs, musica divertida e não musica monótona como a que se ouvia no restaurante anterior.
David saiu do carro e Margarett fez o mesmo antes de ele ter tempo de lhe abrir a porta.
-Apetece-me um hambúrguer cheio de cebola frita e ketchup! – Exclamou ele – Tenho um buraco no estômago maior do que aquele que tinha antes de jantarmos!
-Hum! – Concordou Margarett - Acabei de ganhar água na boca! Obrigadinha, David!
Ele piscou-lhe o olho e sorriu:
-Nada melhor do que um impulso idiota para ficarmos bem servidos!
Mag teve de concordar:
-No entanto estou a sentir-me demasiado bem vestida para este ambiente.
David riu-se e, sem ela estar à espera, deu-lhe um beijo na cara:
-Tens piada! – Disse.
Ela encolheu os ombros, envergonhada, e ficou ainda mais quando ele, sem dizer nada, lhe deu a mão para a arrastar a reboque.
-Pelo que vejo já estão todos demasiado alegres para repararem na nossa roupa.
Margarett riu-se, atrapalhada. Sentiu as pernas bambas por David estar a segurar-lhe a mão.
Sem duvidar dele, deixou-se levar para a taberna barulhenta e mal apresentada.
Ao balcão estavam homens a beber cerveja e a cantar. Eram mais velhos do que os jovens que estavam nas ruas, mas pareciam ainda mais alegres do que eles. O casal que estava do outro lado do balcão corria em azáfama. Enquanto a mulher preparava as merendas e os petiscos, o homem servia cervejas e canecas de vinho. Havia ainda uma rapariga jovem a correr de um lado para o outro com bandejas de copos e pratos sujos.
Margarett e David tiveram de se esquivar para não chocarem contra ninguém. Procuraram uma mesa vazia, mas os únicos lugares vagos eram ao lado de um grupo de jovens casais.
Entreolharam-se os dois cumplicemente. Margarett não quis acreditar na ideia que leu no rosto de David, mas ele foi rápido a pô-la em prática. Aproximou-se dos jovens casais que se riam histericamente enquanto bebiam e comiam tremoços e debruçou-se sobre eles:
-Hei, podemos sentar-nos aqui?
Os mais novos olharam-nos admirados. Era estranho dois adultos bem vestidos quererem sentar-se num sítio daqueles.
Inexplicavelmente, eles apertaram-se mais uns contra os outros:
-Força! – Respondeu um deles, mostrando o espaço vago.
Margarett olhou David para ter a certeza que podia confiar nele.
-Foi fácil! – Exclamou ele, sentando-se sem qualquer inibição.
Margarett olhou para os lados e fez o mesmo, divertida:
-Não me lembro de vir a um sítio assim! – Admitiu, agradada.
David olhou para os jovens ao seu lado:
-Qual é a especialidade daqui?
O rapaz teve de falar alto para ser compreendido no meio do barulho:
-os hot dogs e os hambúrguers!
-Prefiro hambúrguer! – Disse Margarett sem esperar – Deste-me apetite lá fora!
David riu-se e levantou a mão para a servente. A rapariga despachou-se até eles. Estava suada e com pressa.
-Dois hambúrguers! – Pediu David - Os melhores da casa, por favor!
A rapariga assentiu:
E para beber?
-Cerveja! – Exclamou Margarett, excitada com tudo aquilo.
David olhou-a, admirado. Não esperava que ela quisesse.
-O que foi? – Questionou ela - Tenho sede!
David retirou o casaco enquanto se ria:
-Eu não teria pedido melhor!
Margarett retirou o casaco dela também. O ambiente da taberna era quente. Ela olhou para os jovens ao seu lado e observou que estavam a recolher o baralho de cartas:
-O que estão a jogar?
A rapariga ao seu lado respondeu-lhe:
-À sueca! Conhecem?
Margarett assentiu e David também.
-Podemos jogar convosco enquanto esperamos?
Ninguém se opôs. A rapariga começou a baralhar as cartas e passou a outro para cortar o baralhado. Margarett encarregou-se de as distribuir.
As cervejas chegaram rapidamente.
Todos criaram um leque com as suas cartas.
A primeira a jogar foi Margarett. Nunca tinha sido uma grande jogadora, mas sabia o básico para manter um jogo aceso.
Deu um grande gole de cerveja e as jogadas começaram.
-Não são um pouco elegantes de mais para um sítio destes? – Questionou uma das raparigas.
Margarett e David olharam-se, admirados com a pergunta. A resposta deles foi uma risada em conjunto:
-Há quem diga que sim… – Respondeu Margarett, recolhendo as cartas da ultima jogada, cuja tinha vencido.
-Por outro lado, as aparências iludem! – Comentou David.
O rapaz ao lado dele olhou-o de cima a baixo:
-Pois! Mas você não parece habituado a estes sítios…
Margarett encarou o rapaz e riu-se dele. David não controlou o seu próprio riso e bebeu a cerveja dele de uma só vez:
-“Você”! – Citou para Margarett.
Ela fez um brinde, desgostosa:
-Estamos velhos, David!
Os mais novos entreolharam-se até um deles perguntar:
-Que idade têm?
-26. – Respondeu David – E vocês?
-17.- Respondeu uma das raparigas.
-Eu já tenho 19! – Respondeu o rapaz entre elas.
Margarett bebeu um pouco mais de cerveja e fez uma careta.
-Quem me dera ter 17 outra vez!
David desenhou um esgar de lamento:
-Meus doces 17 anos… – Comentou.
A rapariga da outra ponta observou-os com curiosidade:
-Vocês têm filhos?
Margarett negou:
-Somos solteiros. – Informou.
As raparigas fizeram um olhar piedoso. 26 anos e ainda solteiros?
-Eu gostava de casar aos 23! – Exclamou uma delas, piscando o olho ao namorado.
Ele tossiu, atrapalhado com a incitação dela.
Mag encolheu os ombros, compreensiva:
-Eu com a tua idade também já queria casar, mas cá estou!
Desta vez quem tossiu foi David. Aquele comentário fora inesperado e fê-lo ruborizar.
Mag riu-se da reacção dele. Sabia porque tinha dito aquilo. A cerveja era uma aliada da coragem.
A servente voltou. Trazia os dois hambúrguers e um prato de batatas fritas com saquinhos de ketchup, maionese e mostarda.
-Traga mais duas cervejas! – Pediu David.
Margarett deitou a última jogada de cartas. Ela e David perderam, mas não se importaram. Quando ela tomou atenção no hambúrguer, humedeceu os lábios:
-Que delicia!
Pegou em dois guardanapos e agarrou nele. Rapidamente, abriu a boca com vontade e mordeu-o.
O molho do interior escolheu-lhe pelos lábios abaixo e se David não reparasse a tempo, o vestido teria ficado todo borrado.
Margarett riu-se por ele lhe ter limpado a boca com um guardanapo. Sentiu-se mesmo aluada.
-Come David! Está mesmo bom.
Ele não se mostrou constrangido. Tal como ela, abriu bem a boca para dar uma grande dentada.
-Vocês estão num encontro? – Perguntou uma das jovens, curiosa.
David mastigou calmamente e engoliu antes de responder. Margarett preferiu esperar pela resposta dele:
-Pode dizer-se que sim. Um reencontro de velhos amigos.
-E namorados! – Relembrou ela, alegremente.
David soltou uma risada divertida. Definitivamente, Margarett já estava bastante animada pela junção do vinho do restaurante e da primeira cerveja.
-Ah, estou a perceber… - murmurou a outra - Vocês terminaram e estão a tentar voltar.
Margarett molhou uma batata em ketchup e olhou para David com as sobrancelhas franzidas:
-Na verdade, nós nunca chegamos a acabar.
David calou-se, admirado pela observação. Nunca tinha pensado nisso.
As duas raparigas esperaram uma resposta dele, interessadas no assunto.
-Na verdade, não… - Concordou, reflectivo.
Margarett riu-se do espanto dele e voltou a beber cerveja. Aquilo estava a diverti-la imenso.
-Então vocês estão juntos? – Tentou perceber o rapaz do lado.
-Não! – Esclareceu Margarett, comendo outra batata, furiosa – a gananciosa da minha mãe fez-me uma espécie de rapto e levou-me para a França quando ele estava às portas da morte. Não nos vimos desde então, até agora! Nove anos sem nunca terminarmos, verdadeiramente!
David olhou Margarett mais calado. Mastigou devagar sem desviar a sua atenção dela e bebeu da nova cerveja que a rapariga lhe pousou à frente.
-Ninguém gostava de nós, Rett… - Deduziu, insatisfeito pela sua conclusão.
Ela olhou-o nos olhos. Sentiu-se momentaneamente perdida:
-Porquê, David? Eu achava que éramos perfeitos um para o outro.
Ele suspirou:
-Pela lógica não. Éramos só dois adolescentes estúpidos sem noção do que era o “amor”. Pelo raciocínio dos outros íamos acabar separados de qualquer forma!
Margarett pousou o hambúrguer no prato:
-Eu nunca pensei nisso… - admitiu – Achas que era verdade? Achas que se tivesse tudo decorrido normalmente como os outros casais, íamos nos separar de qualquer forma? Talvez no período de um ano, ou menos?
-Estás a brincar? – David nem ponderou aquela hipótese – Se tudo tivesse corrido bem, por esta altura teríamos 4 filhos…
Margarett deleitou-se com aquela opinião. Sorriu levianamente para David e comeu uma batata. Quatro filhos cheios de amor.
David voltou a beber e afrontou os jovens:
-Um conselho, crianças: nunca liguem à opinião dos mais velhos sobre os vossos relacionamentos!
Os mais novos fitaram-se. Por enquanto não passavam por isso.
-Porque é que vocês não se contactaram?
David não quis falar desse pormenor:
-É complicado…
Margarett bufou, impaciente. Continuou a comer o hambúrguer como se nada tivesse acontecido, já que, tinha noção, que as coisas que estava a dizer eram filosofias causadas pelo álcool.
-David, o Filé mignon estava delicioso, mas acho que nunca um hambúrguer me soube tão bem!
Ele concordou:
-A próxima vez que formos a um restaurante assim, lembra-me de comer antes!
Ela riu-se e continuou a partilhar a batatas com ele.
-Vocês conhecem o Lili’s diner? – Perguntou ela.
-Sim. Vamos lá às vezes!
-No nosso tempo enfiávamos-nos lá quase todos os dias com os nossos amigos! – Informou David.
-Lá tem bons lanches! – Concordaram os mais novos.
-Para onde é que vocês vão a seguir? – Perguntou Mag.
O rapaz ao lado de David olhou para o relógio de pulso:
-Há um bar aqui perto. Costumamos ir lá beber e dançar.
Após a informação, Mag manteve um mastigar lento e poupado. Lançou um olhar suspeito e aliciante a David e sorriu, com um leve tom de provocação.
Ele riu-se para ela:
-Vamos?
Ela acenou. Ficava feliz por saber que David ainda era perfeitamente capaz de lhe ler os pensamentos e acompanhar-lhe o raciocínio.
Após a confirmação visual da vontade dos dois, despacharam-se a terminar o hambúrguer e a beber a cerveja. Margarett, sendo a primeira a terminar de comer, levantou-se num ápice, cambaleando discretamente:
-O primeiro a terminar, paga!
David recusou-se:
-Nem pensar. Margarett, eu convidei-te!
Ela não lhe deu ouvidos:
-Tu pagaste o mais caro! Isto é o mínimo!
Ele preparou-se para a agarrar, mas ela escapou-se por entre os seus dedos. Quando David se levantou, ela já estava junto do balcão a abrir a carteira.
-Ela é boa! – Murmurou o rapaz ao lado dele, observando Mag de cima a baixo.
David franziu o sobrolho:
-O que é que disseste?
Felizmente a namorada do rapaz não tinha ouvido. Ele encolheu os ombros:
-Se eu fosse a si, não a deixava ir de novo…
David olhou Margarett e abanou a cabeça e riu-se:
-Já não temos 17 anos!
-Têm 26! – Intrometeu-se a rapariga em frente a ele – Acho que já era altura de assentarem…
David voltou a rir-se daquela opinião.
Miúdos…
Margarett regressou. O andar dela entre os loucos clientes da taberna era divertido. Ela tinha de se desviar para não apanhar com cerveja na cara mas tendo em conta os seus balanços causados pelo álcool, parecia um insecto despistado.
-Vamos? – Perguntou quando finalmente chegou à mesa.
Sentia-se suada.
David foi o primeiro a levantar-se para a acompanhar e os mais novos seguiram-nos até ao exterior.
Vestiram todos os seus casacos por causa do ar húmido de Inverno e os mais velhos esperaram para seguir os jovens rumo ao bar.
Mag engatou o seu braço no de David, arrepiada pelo vento:
-Arrefeceu! – Comentou.
David encostou-se mais a ela e sorriu-lhe:
-Há quanto tempo não saías assim?
Sorrindo, ela encostou a cabeça ao braço dele:
-Nunca me lembro de o ter feito… Mas admito que adorei a reviravolta que demos a esta noite! Já não me sinto nervosa! Estou divertida!
Ela mostrou seu sorriso mais branco para lhe provar que não estava a mentir. Todo o seu espírito aplaudia de alegria. Bom, talvez fosse mais álcool do que espírito, mas o importante era que se sentia bem assim.
David deu-lhe a mão. Também se sentia feliz.
-Aonde é o bar? – Perguntou aos mais novos, aconchegando os dedos frios dela nos seus.
-É no próximo quarteirão! – Respondeu um deles.
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#230
(Há mais capitulo nos 2 posts anteriores)
David olhou para trás para não se esquecer onde tinha deixado o carro. Não havia necessidade de o levar.
Apertou mais a mão de Mag e seguiram-nos.
-Rett, não terminamos a nossa conversa. Ainda tenho perguntas para te fazer…
-Prometo que não terminamos esta noite sem tudo esclarecido, mas acho que ainda temos tempo para um pequeno divertimento, não?
David travou-a. Fê-la virar-se de frente para si e com calma, passou-lhe os dedos pelo cabelo:
-Temos muitas oportunidades para ir a boates.
Margarett olhou para o grupo de adolescentes e depois atentou e David. Sentiu borboletas no estômago pelo simples facto de ele lhe estar a mexer no cabelo:
-Tens um plano melhor?
Um tom rosado pintou as bochechas dele. Como dizer aquilo sem parecer que estava com segundas intenções? Rendido, soltou-a:
-Está bem, vamos com eles, mas apenas uma hora, no máximo, combinado?
A alegria do tom dela deixou David sem escapatória.
Ele riu-se e deixou-se ser rebocado por ela, atrás dos jovens cujos nomes nem sequer sabia.
Entraram numa discoteca repleta de adolescentes.
Margarett despiu o casaco e ajudou David a tirar o dele para o pousarem. A música estava alta e animada. No meio daquilo tudo, David nem teve tempo de pensar no que fazia. Foi arrastado para a pista de dança onde, guiados pelos ritmos musicais, dançaram e cantaram como os miúdos que tinham deixado de ser há 9 anos atrás.
Apesar de não ter a noção correcta do tempo, Margarett podia jurar que o tempo que passou naquela pista foram só cinco minutos.
Ainda assim, sabia que tinha dançado tanto com David que já mal podia com as pernas. A única percepção que ainda tinha era de estar constantemente presa a ele com o corpo mais rente do que se lembrava. E isso deixava-a quente e ansiosa por sair dali com ele.
Não sabia que horas eram quando voltaram para o exterior fresco.
Estava despenteada, tonta, suada e sobretudo, menos sóbria do que era suposto.
Teve a noção de David chamar um táxi por não se sentir em estado de conduzir. No veículo, encostou a cabeça ao ombro dele e quase adormeceu pelo caminho, sem saber ao certo se estava a regressar ao hotel.
A sua atenção despertou quando se viu em frente à casa que um dia vira em chamas.
David saiu primeiro e abriu-lhe a porta.
Ela deu-lhe a mão e balançou um pouco até se encostar a ele e caminhar pelo passeio até à porta principal. David vasculhou o bolso do casaco e para seu alívio tinha trazido as chaves consigo em vez de as deixar no carro, como suspeitava. Abriu a porta e tentou ser cauteloso com o barulho.
-Não podemos acordar a Giuliana! – Advertiu, arrastando Margarett com ele para a sala.
Quanto mais depressa o disse, mais depressa Mag bateu com o pé no móvel da entrada e guinchou de dor.
David prendeu o riso e fechou a porta da sala. Ela saltitou até chegar ao sofá e descalçou-se para esfregar o pé.
-Desculpa! – Exclamou.
Ele ajudou-a a tirar o outro sapato e descalçou-se também. Pegou em acendalhas e colocou paus na lareira para acendê-la.
O fogo estabeleceu-se em poucos minutos. David sentou-se junto de Mag e suspirou:
-Foi divertido.
Rindo, Margarett encostou a cabeça ao ombro dele:
-Sim, foi… Desculpa se não conversamos tanto como era suposto.
David olhou-a e desviou-lhe o cabelo da cara:
-Acho que te disse o essencial… Além disso, as tuas cartas foram bastante esclarecedoras.
Ela corou:
-Leste-as todas?
Ele acenou em afirmação.
-Fiquei feliz por saber que depois de tudo, conseguiste um bom lar.
Margarett concordou e estendeu a manta do sofá para a dividir com ele:
-M. Tissou foi um verdadeiro pai… Gostava que ele te tivesse conhecido. Foi a única pessoa, durante todos estes anos, com quem falei abertamente sobre ti.
-“Abertamente”?
Mag sorriu, envergonhada e encolheu os ombros:
-Ele soube coisas que mais ninguém soube… Nunca ousei contar nada a Caroline nem a Adeline, apesar de serem óptimas amigas… A Adeline ajudou-me a manter-me livre da minha mãe. Ia-me contando por onde ela andava e como estava, sabendo apenas que ela me tinha levado para França sem eu querer. A Caroline, por outro lado, só conheceu a minha nova vida. A minha ascensão, desde a fome até à possibilidade de alugar um apartamento nos arredores de Paris. Ela ajudou-me muito a ganhar estabilidade…
-Tenho a certeza que foram boas companhias para ti… - Disse ele, libertando-lhe um beijo na testa – Imaginei imensos desfechos para ti, mas nunca iria adivinhar que estavas no lugar mais óbvio do mundo. Paris… - Ele sorriu com mágoa – Se eu tivesse sabido… Era só atravessar um pouco de mar e estaria lá.
Margarett baixou o olhar, entristecida:
-Nunca hei-de perdoar o meu pai…
David negou:
-Não digas isso, Rett… - Pediu.
Ela desencostou-se dele e afastou-se um pouco. Lentamente, dobrou os joelhos à frente da cara e abraçou-os com os braços:
-Gostava de ter a tua capacidade de perdoar – Admitiu, com os olhos postos nas chamas -, mas não consigo deixar de pensar em como a minha vida teria sido diferente se eu soubesse de tudo.
-Não podes pensar assim. – Advertiu David – Quem te garante que não teria sido o mesmo? E se o teu pai nos tivesse dito? Como sabes que não íamos preferir ficar exactamente onde estávamos e seguir as nossas vidas?
Margarett calou-se. Não porque ficou sem resposta, mas porque tinha a certeza do que teria feito. O ponto de vista de David deixava-a triste, no entanto ela não iria revelar isso.
Pesarosa, olhou para ele, sentindo a nostalgia do passado a regressar ao seu espírito.
- A última carta que mandaste foi há tanto tempo… - vociferou - Tu…?
Ela calou-se, arrependida de sequer se ter introduzido.
-O quê?
-Esquece… Era uma pergunta desnecessária.
David insistiu:
-Eu gostava de ouvi-la, mesmo assim.
Margarett espreitou-o de soslaio e humedeceu os lábios:
-Estava a perguntar-me se tu pensaste em mim… Mesmo depois da última carta…! Eu… quero dizer – Tentou explicar-se, atrapalhada – Passaram muitos anos. Viajaste muito, cresceste e ambos sabemos que quando ficamos muito tempo sem ver uma pessoa, a imagem dela começa a desvanecer-se lentamente… Então, eu pergunto-me se tu me esqueceste com tudo isso. Se pensaste em mim?– Ela aguardou alguns segundos em silêncio, mas a falta de resposta de David intimidou-a - Podes dizer a verdade! É algo natural…
Ele encarou-a, com uma respiração leve e controlada. Não tinha intenção de nada mais do que a verdade, porém hesitou.
-Não houve um dia que eu não me tenha lembrado de ti… - Ela levantou o olhar para ele, verdadeiramente surpreendida. - De facto, em todos os sítios a que fui, todos os cheiros que senti, todas as comidas que provei… Havia sempre alguma coisa que me fazia pensar em ti.
-A sério?
David assentiu.
Ela soltou os joelhos e voltou a uma posição mais confortável:
-Eu senti a tua falta, David… Mas a forma como defendes o meu pai e como me explicas que podia ter dado errado entre nós… Fazes-me acreditar que talvez eu tenha sentido mais a tua falta do que tu a minha… E isso, mesmo tendo passado tanto tempo e eu já ser adulta o suficiente para o esquecer, deixa-me vulnerável. Faz-me sentir que ultrapassaste tudo tão bem e eu continuo aqui, algo perdida…
-Isso não é verdade. – Desmentiu ele – Eu senti muito a tua falta… Mas acho que arranjei sempre forma de me distrair. Tu, por outro lado, tinhas ocupações que te deixavam muito tempo para pensar… Eu não vou mentir e dizer que me prendi a isto. Primeiro tive de me pôr saudável… Depois arranjei sempre empregos que me ocupavam muito. Ainda assim, houve sempre um pedaço do dia em que eu pensei em ti nem que fosse por segundos… Depois houve toda a questão da Giuliana que me ocupou ainda mais…
-A Giuliana…? - murmurou ela – Não me chegaste a dizer como é que ela entrou na tua vida.
David levantou-se do sofá e dirigiu-se ao armário das bebidas. Pegou em dois copos e colocou um pouco de uma bebida de um tom mel em cada um com alguns cubos de gelo. Entregou um a Margarett e voltou a sentar-se ao lado dela:
-Não gosto de falar disso à frente dela. Sei como fica triste.
-O que aconteceu?
-Digamos que o incêndio não foi a única vez a que escapei à morte por um triz…
Margarett sentiu um calafrio na espinha. Um temor fê-la encolher-se em si mesma, assustada com aquela revelação.
-David…?
-Ela é uma menina forte. – Assegurou ele, molhando os lábios no licor.
-Há quanto tempo…?
-Conheci-a há três anos, numa viagem de comboio de Genebra a Turim… Não chegamos ao destino da melhor forma…
Margarett empalideceu. Lembrou-se da notícia que tantos jornais franceses ilustrou. Um descarrilamento causado por um excesso de velocidade incontrolável. As lágrimas banharam-lhe os olhos azuis:
-79 mortes?
-E outros tantos feridos… - David mirou-a - Os pais dela não sobreviveram…
-Tu já os conhecias?
David negou:
-Não. Troquei uma breve conversa com o pai dela durante a viagem porque estava sentado ao pé dele. Eram de Milão e estavam de férias. Era o único da família que falava francês. Na altura só reparei em Giuliana porque ela estava muito atenta a mim. Coitada… Parecia que adivinhava. Quando o comboio descarrilou as pessoas caíram umas por cima das outras e… - David voltou a beber – Perdi amigos. O António e o Vicenzo estavam comigo e não sobreviveram. A única pessoa que consegui alcançar no meio da algazarra foi a miúda. Depois só me lembro de ver a carruagem a incendiar-se... Juro que a vida me passou toda de novo à frente dos olhos. Pensei mesmo que àquilo eu não ia sobreviver e acabei por perder a consciência por causa do fumo.
David colocou as suas atenções em Margarett. Ela estava tão encolhida como se estivesse a cair neve em cima dela:
-Sobreviveste… - disse, soltando uma lufada de ar aliviada – outra vez.
Ele desenhou um sorriso irónico:
-Dizem que à terceira é de vez!
Irritada, ela pegou na almofada e deu-lhe com ela na cabeça:
-Cala-te! – Exclamou, corando de seguida - Não brinques com essas coisas, David…
Ele reparou que ela levou o copo à boca com um semblante inquieto. Sorriu. Ficava feliz por saber que Margarett ainda se preocupava com ele.
-Como é que ficaste com ela?
-Acordei três dia depois de um estado de coma. Estava a receber oxigénio e tinha fracturado um braço. Perguntei por toda a gente: os meus colegas, aquela família... Disseram-me que só tinha sobrevivido a menina. - David engoliu em seco - Na altura fiquei com tanta raiva que chorei. Chorei porque ao contrário dos meus companheiros, eu não ia a lado nenhum. Eu estava só a viajar para passar o tempo. Já eles estavam todos felizes. Iam ter com as famílias para celebrar o Natal e o ano novo aos seus países. Não mereciam…E saber que a miúda tinha perdido os pais foi um abalo. Ela era demasiado nova. Soube que ela ainda estava no hospital e que ainda nenhum parente tinha aparecido por ela.
-Ela não tinha mais ninguém?
David abanou a cabeça:
-Tem… Agora sei que tem… Mas na altura ninguém apareceu. Eu tive alta do hospital, mas não me fui embora. Passei lá todos os dias para saber se a criança já tinha regressado a casa. E ela estava sempre lá, na ala pediatra com outras crianças. Fiquei a saber que dali a uma semana, ela seria enviada para um orfanato da região. Fiquei tão revoltado que me senti na obrigação de fazer algo. Viajei novamente até Zurique, onde eu conhecia um sujeito que tratava de papeis…
-Papeis?
David olhou-a serio:
-Cartões falsos…
-Oh! – Margarett chegou-se mais a ele, curiosa – O que fizeste?
-Tirei-a de lá…
-David…!
Ele mordeu o lábio:
-Eu sei que não foi o mais correcto, mas eu não podia deixar a miúda ali…
-E já sabias falar italiano?
-Não… Aprendi com ela. Comprei um dicionário e levei-a comigo. Eu só queria ir a Milão para encontrar a família dela, mas para isso precisava que ela me dissesse de onde era. Comecei a aprender, devagarinho, a língua. E sem eu estar à espera, ela também começou a aprender inglês comigo. Tornou-se a minha irmã mais nova. Desenvolvemos uma relação muito familiar. Viajamos juntos por Itália e na necessidade de arranjar sítios para passar as noites, surgiu a ideia do hotel, como já te tinha falado. Entrei em contacto com Mr. Denvers e com o apoio dele meti mãos à obra paralelamente à procura da família da Giuliana.
-E apareceu alguém?
-Uma tia. Uma tia que, infelizmente, trabalhava numa mansão e não podia acolher ninguém. Perante aquela negação, decidi que eu ia ficar com a Giuliana. Recusava-me a manda-la para um orfanato ou, pior, deixa-la com aquela tia que a qualquer momento podia ser obrigada a mandá-la embora.
Margarett bebeu, revoltada:
-E uma vez mais chego à conclusão que a família por vezes nos deixa mais desamparados do que os desconhecidos…
David mostrou-se rendido:
-No entanto, se um dia a Giuliana quiser ir embora eu terei de deixa-la. Ela não me pertence…
-Mas tenho a certeza que te preza como um irmão.
A afirmação de Margarett fê-lo sorrir:
-Espero que sim. Durante os últimos anos foi a minha maior companhia.
Margarett riu-se:
-Já é quase a tua filha!
David negou, assustado:
-Só se eu tivesse sido pai aos 13 anos! – Sorriu e seguidamente calou-se pensativo – Naquela altura cheguei a perguntar-me mesmo se, no caso de eu ter uma namorada ou uma esposa, a Giuliana teria sido recebida tão bem… Foi uma grande mudança.
Margarett, ainda que não se sentisse no direito de se colocar naquele papel, indagou-se do que teria feito. Não seria uma tarefa fácil acolher uma criança que não fosse sua com apenas 23 anos. Mas teria aceitado.
-Devemos fazer pelos outros aquilo que gostaríamos que fizessem por nós. M. Tissou acolheu-me do mesmo modo que tu acolhes-te a Giuliana. E não te julgo por teres utilizado bilhetes falsos. Eu também tive o meu próprio bilhete de identidade falso.
David encarou-a, à espera de esclarecimentos.
-Eu não queria ser encontrada pela minha mãe, mas precisava de trabalho… - murmurou – Durante algum tempo fui Margarett Wilson-Tissou… Só me legalizei por causa do noivado…
-Noivado… - David riu-se, escondendo com todas as suas forças o ciúme que sentiu a correr-lhe nas veias – para quem diz que não ultrapassou bem a situação, acho que tiveste um bom avanço!
Margarett corou. Não esperava uma abordagem tão brusca à situação.
-O Pierre não foi um avanço…- Esclareceu.
-Não?!
-Foi um regredir de mim mesma. Foi outro erro estúpido e precipitado que tomei em busca de uma saída.
-Outro William?
Ela riu-se:
-Pior! O Pierre foi 100 vezes mais errado. Eu tive pena do Will, na altura. O Pierre, por outro lado, não me deixa qualquer remorso.
David mostrou-se divertido e satisfeito pela revelação:
-Deve ter sido péssimo. – Concordou - Então, como é que te meteste nisso?
-Pelo mesmo motivo de tudo o resto – disse, naturalmente - tu.
David encarou-a:
-eu? – Não evitou de esboçar um sorriso discreto.
A jovem colocou o cabelo atrás da orelha e encostou a cabeça ao sofá, virada para ele:
-Eu precisava de te ultrapassar. – Justificou-se - E o pobre Pierre já andava a tentar há tanto tempo que eu me vi na obrigação de lhe dar uma hipótese. Quem sabia o que o futuro nos podia reservar, não é?
-Um noivado! – Relembrou David.
-Um erro. – Corrigiu ela.
David levantou-se para colocar mais lenha na lareira. Antes de se sentar, deixou cair os braços:
-Porque é que terminaram?
Ela humedeceu os lábios, ruborizada, e deu um gole da bebida:
-Digamos apenas que ele não me aceitou por completo. Para um homem se casar com uma mulher ele deve conhecer os seus defeitos para além das qualidades. Ele não aceitou os meus.
David calou-se. Não viu qualquer justificação para o rompimento naquela resposta:
-Não vejo que defeito teu poderia ser tão mau ao ponto de vocês romperem.
Ela voltou a sorrir, envergonhada:
-Claro que não. Especialmente tu…
Confuso pela resposta, David olhou para os lados e depois para si mesmo:
-O que queres dizer com isso?
Ela embrulhou-se na manta. Já devia ter parado de beber à muito. Para além de se sentir tonta e cansada, já estava a revelar mais do que devia:
-O Pierre foi criado no seio de uma família muito religiosa. – Explicou, cheirando o que continha no copo. Whisky. - Há coisas que ele não admite e… bem, talvez eu tenha quebrado alguma dessas regras e ele não tolerou.
-Espera… - David hesitou - Foi ele quem rompeu? Eu pensei que tinhas sido tu…
-Não, eu ia levar aquilo até ao fim! – Respondeu ela, convicta.
Ele franziu as sobrancelhas e voltou a sentar-se ao lado dela. Puxou a manta para que a partilhassem e pôs-se de frente para ela:
-agora estou mesmo curioso. – Admitiu - O que raio fizeste de tão errado para ele romper?
Ela mexeu no cabelo e baixou o olhar, para evitar um confronto visual tão directo. Esboçou um trejeito malicioso que depressa apagou, conscientemente:
-Eu não vou dizer, David! Nunca contei isso a ninguém, nem mesmo à Caroline que é prima dele!
-É assim tão mau?
Ela voltou a virar a cara ao lado, sem evitar de sorrir:
-É um assunto delicado…
-Estás-te a rir! – Acusou David, revelando-se um bocado animado demais. Ao ver que ela fez um ar mais sério, calou-se. Não ia obriga-la a falar. – Ok, desculpa…
Margarett soltou uma risada e enterrou a cabeça no pescoço dele. Estava a sentir-se envergonhada ao ponto de não conseguir encará-lo.
-Prometes-me que não contas a ninguém?
David serviu-se de mais Whisky e entornou um pouco nos seus dedos sem querer. Antes de se limpar, porem, sorriu. Olhou Margarett e sem ela contar deu-lhe a mão:
-Prometo!
Quando Mag sentiu a mão molhada, sentiu um arrepio na espinha e voltou a desviar o olhar. David podia saber a verdade.
-Ele descobriu que eu não era virgem… - Revelou, de repente.
David ficou pálido e logo após vermelho.
Olhou Margarett com surpresa e choque sem palavras na boca.
Devagar, olhou para o cabelo dela a esconder-lhe o rosto junto ao seu ombro.
-A sério? – Vozeou, sem esconder o impacto daquela revelação.
Margarett desencostou a cabeça, devagar e sem olhar David nos olhos, atentou no fogo da lareira:
-Ele nunca me tocava num fio de cabelo. Raramente me dava um beijo… - sorriu amargamente - Ainda assim eu ia-me casar com ele. Um dia perguntei-lhe porque é que ele não o fazia e a justificação dele foi que queria esperar pelo casamento. Naquele momento, percebi que ele achava que eu… - Ela travou-se, constrangida.
-Ele nunca tentou…? – David calou-se. Nem queria perguntar aquilo.
Mag encolheu os ombros, rindo:
-Não…
David estranhou. Contemplou Margarett de cima a baixo e, sem moderação, bebeu:
-Que grande força de vontade! – Exclamou - Nem um apalpão?!
-David! – Ela riu-se.
Se Margarett sentia os efeitos do álcool a subirem-lhe à cabeça, David provavelmente também padecia dos mesmos sintomas.
-Desculpa, mas homem que é homem não diz “não” quando é a rapariga a incitar-se…
-Como eu disse, ele é muito religioso.
-mesmo assim…
David acabou o seu licor e pousou-o no chão. Olhou na direcção do lume, pensativo e depois fitou a parceira:
-A culpa foi minha… - Deduziu em tom de questão.
Ele curvou os lábios num sorriso feliz:
-Pois foi… - concordou e para surpresa de David agradeceu – Obrigada. Salvaste-me de uma vida infeliz uma vez mais… Mas admito que algumas vezes desejei que ele se soltasse comigo. – Riu-se - Senti falta de alguma intimidade…!
-Intimidade…? – Ele rosou.
-Sexo.
Firme e directa.
David tentou disfarçar o embaraço que a resposta dela lhe causou. Observou as pernas dela, estendidas ao seu lado e teve vontade de tocá-las.
-Há quanto tempo…? – Calou-se antes de colocar a questão e virou a cara ao lado, a sorrir. Não lhe podia perguntar aquilo.
Ela percebeu perfeitamente a questão que ele ia colocar e riu-se, sem vergonha:
-9 anos, 2 meses e 7 dias… - Respondeu.
O primeiro reflexo de David perante a resposta foi lento.
9 anos, 2 meses e 7 dias…
9 anos, 2 meses e 7 dias…
9 anos, 2…
-O quê?
Ela riu-se e cambaleou no sofá:
-A última vez foi um fogo que nem imaginas! – Gracejou - Vê lá tu que até a casa incendiou.
David ficou sem palavras.
9 anos, 2 meses e 7 dias?
Fitou-a com a dúvida se aquilo seria verdade ou não. Em todo o caso, custava-lhe a crer, por muito agradável que se sentisse por saber que ela não tinha estado com ninguém.
-Estás a falar a sério?
Ela levantou-se de rompante:
-Não tens mais disto? – Perguntou enquanto apontava para o copo, fingindo que a pergunta não lhe interessava minimamente.
O jovem homem não reagiu. Ainda a olhava, perplexo. Margarett dirigiu-se entre tropeços à garrafeira para se servir de outro licor qualquer que lhe chamasse a atenção.
-Nem um caso rápido? – Insistiu ele.
Ela sentiu-se mal e acanhada com a pergunta.
-Não… - murmurou ainda de costas – E pela tua reacção estou a ver que te tens divertido imenso!
David calou-se, encavacado, e coçou a cabeça.
-Amaretto! – Apontou, numa fuga rápida ao comentário dela – Tem um leve sabor a amêndoas.
Margarett pegou na garrafa que ele sugeriu e tentou ler o rótulo sem sucesso. Abriu a garrafa e serviu-se com um pouco do liquido. Cheirou-o e provou-o antes de confrontar David.
-Tiveste alguma namorada de longa data? - Quis saber, pronta para qualquer resposta.
David não foi capaz de lhe mentir:
-Myrelle… - disse, baixo.
Margarett virou-se de frente para ele e regressou ao sofá:
-Quem era ela?
-Uma amiga…
Margarett franziu o sobrolho:
-E?
David ajeitou a sua postura. Não queria contar aquilo a Margarett:
-Felizmente, já casou!
Margarett bebeu tudo o que tinha colocado no copo e estendeu-se no sofá:
-Conta!
David tirou-lhe o copo:
-Era filha da mulher que ajudava Mrs. Bards nos últimos tempos. Era uma óptima actriz. – Afirmou, servindo-se ele próprio do Amaretto que tinha trazido de Itália - Todos achavam que ela era muito inocente mas foi provavelmente a rapariga mais assanhada que já conheci!
Margarett riu-se e tentou roubar o copo a David em vão:
-Então vocês…?
David impediu-a de acabar a pergunta e debruçou-se sobre ela depois de tragar um pouco do líquido dourado:
-Não te vou mentir, sabes disso…
Margarett acenou afirmativamente. Ergueu um pouco o tronco para se aproximar o seu rosto:
-Eu não vos julgo. – Garantiu - Aliás, invejo-vos. Enquanto eu me esfolava para receber uma caricia do meu noivo, vocês divertiam-se!
-Diversão? – David sorriu amargamente e voltou a beber. Sentiu-se capaz de dizer qualquer coisa – Eu só pensava em ti! - Revelou e curvou-se mais na direcção dela - Quando ela me beijava ou tentava ir mais longe eu só pensava em ti e no desejo louco que sentia em trocar a presença dela pela tua… - Margarett sentiu a mão dele pousada no sofá, perto da sua coxa e inspirou - Claro que nunca lhe disse isso… - Assumiu, retomando o sue porte inicial mais afastado dela - E também não me imaginava a dizer-to…
Margarett bufou. Não soube se devia sorrir ou dar-lhe um estalo por dizer que dormiu com outra a pensar nela. Irritada, afastou-o de si e levantou-se. Sem o copo, pegou na garrafa e bebeu directamente dali.
-e depois dela? – Perguntou, deitando mais bebida no copo de David.
-Só casos nocturnos com mulheres da vida… - Declarou, suado.
Margarett puxou a zona inferior do vestido para cima enquanto David engolia o que ela lhe tinha servido.
-O que estás a fazer? – Perguntou ele, assarapantado.
Ela não respondeu. Retirou os collants e atirou-os para a lareira deixando David vê-los a decomporem-se com o calor.
Sem esperar muito, desapertou o fecho lateral do vestido e retirou-o sem qualquer pudor.
David levantou-se atordoado e apanhou-lhe o vestido do chão para que ela o vestisse novamente:
-Acho que bebeste demasiado! - Acautelou
-Estou perfeitamente consciente, David…
Ele sentiu-a a tirar-lhe o vestido das mãos e a atira-lo uma vez mais para o chão.
-Acabaste de admitir que pensaste em mim quando estiveste com outra… - Disse ela, desapertando-lhe os botões da camisa devagar.
-Isso não quer dizer que devas tirar a roupa…
Margarett encostou o nariz ao peito de David e tirou-lhe a camisa.
Parou por instantes, a escutar a respiração dele. Estava pesada e inconstante:
-Se conseguiste passar noites com mulheres desconhecidas, porque não podes passar uma comigo?
David ferveu por dentro, apanhado desprevenido.Se ele se sentia ébrio, Margarett estava três vezes pior.
-Tu não sabes o que estás a dizer. É só o álcool a falar mais alto…
-A única coisa que o álcool está a dizer neste momento é aquilo que eu não tenho coragem para dizer quando bebo apenas água!
David conteve-se e afastou-se dela.
-Tu não estás sóbria, Mag…
Ela parou e deixou-o desviar-se o quanto ele quis. As lágrimas vieram-lhe aos olhos:
-Eu senti mesmo a tua falta…!
As lágrimas começaram a cair constantemente pelo seu rosto e lavaram-lhe a cara mais depressa do que David foi capaz de controlar. Ela limpou-as o mais rápido que pôde, em silêncio.
-Rett…! - Ele tentou aproximar-se – Eu não te queria pôr a chorar…
Ela soluçou:
-O que são só mais umas pequenas lágrimas depois de ter passado 9 anos a chorar antes de adormecer por não saber de ti? Admite, David! Tu esqueceste-me mal conheceste essa Myrelle. E passaste os anos a enriquecer e a dormir com mulheres sem te lembrares de mim!
Ele segurou-a antes que ela tropeçasse:
-Já te disse que isso é mentira…!
-Não é nada, David. Eu perguntei ao meu pai por ti até regressar. Mesmo estando noiva do Pierre eu perguntei por ti. Tu desististe logo. Dois anos a escrever e nunca mais lhe disseste nada… - Ela afastou-se dele e esfregou o cabelo, desengonçando-o - Mas não te sintas mal! O tempo passou e tu não podias viver preso a mim. Eu não passava de uma pequena mancha na tua memória. Um amor de Verão!
David abanou a cabeça:
-Não é verdade. – Repetiu, voltando a agarra-la.
Margarett nem sequer o ouviu e soltou-se dele:
-Quem me dera que também fosses uma nódoa, mas eu sei lá! Tonta como sou eu ainda te amo…! 
Antes que ela pudesse continuar a tagarelar, David puxou-a de volta pelo braço.
Inesperadamente, selou-lhe os lábios com a sua boca num beijo súbito mas intenso.
Sentiu o gosto das amêndoas na boca dela e apertou-a mais contra si. Ele não o tinha planeado, contudo foi uma forma revigorante de cala-la e saciar o instinto que permanecera toda a noite ansioso por se soltar.
Houve silêncio, por fim.
Margarett saltou para o colo dele e beijou-o até a sua respiração falhar. E surpresa ou não, sentiu os mesmos foguetes a explodirem dentro de si como sentia quando era uma jovem correspondida. Não teve coragem de o soltar nem por um segundo. Não queria perdê-lo de novo.
Ele, em contrapartida, utilizou o que lhe restava de sobriedade para tentar chamá-la à razão:
-Mag…! Margarett…! –  Ele desviou a boca da cara dela – Tu estás bêbada! – Repetiu.
Ela olhou-o com atenção, calma. Já não tinha qualquer tipo de choro estampado no rosto.
-Eu sei… - Sussurrou.
Sem lhe dar tempo de responder, voltou a beijá-lo como se não o fizesse há anos, o que era verdade. 9 anos, 2 meses e 7 dias…
David cambaleou para trás com ela no colo e deixou-se cair no sofá:
-Vais te arrepender! – Preveniu.
Ela não lhe deu ouvidos:
-Tarde de mais!
Ela beijou-lhe o pescoço e o peito nu com luxúria. Sabia que David tinha de escolher entre a decisão da sua consciência e a decisão do seu corpo e a embriaguez de Mag estava a lutar por despertar-lhe os sentidos físicos ao máximo.
David podia tê-la deitado no sofá facilmente, mas de repente o chão tornou-se muito mais prático.
Encostou-lhe as costas frias no tapete e agarrou-lhe a cintura com as mãos. Ela tinha a pele arrepiada e fria. Voltou a tomar-lhe os lábios com desejo e deu permissão às suas mãos para agirem. Tinha noção que ela se podia arrepender daquilo na manhã seguinte, mas David não era resistente o suficiente para se afastar. Uma ultima vez, viu-se na obrigação de chama-la à atenção do seu estado, esperançoso que ela quisesse interromper o momento:
-Tu estás bêbada…!
Ela soltou uma risada divertida:
-Tu também! – Exclamou, impaciente.
Ele olhou-a debaixo de si e riu-se também, voltando a beija-la com fervor.
Dane-se!
 

Tinha sido a sua última tentativa.


--


Ok, três posts.
sinto-me na obrigação de dizer que qualquer estranheza na sequência dos acontecimentos deve-se ao facto de eu ter escrito este capitulo durante muitos dias. Ou seja, num dia sentia-me agitada, noutro melancólica, noutro animada, etc.


Espero que tenham desfrutado! Até à próxima! Smile
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#231
Lulu, isso não se faz! Uma bom autora não acaba um capítulo desta forma e depois espera que os seus ávidos leitores roam a carne das unhas de tanto esperar.... Não, espera. É mesmo isso que se faz. Mas isso não quer dizer que eu tenha que gostar disto  Mad 

Entendi o que querias dizer com o capítulo em spoiler. É apenas uma parte perdida do último capítulo e entendo que estejas farta deste tema. Francamente, também estou, mas é um ponto vital e não me arrependo de ter lido o encontro entre  Maggie e os Finkie. 
Ah, e por falar em Finkie...

William agarrou as mãos de Margarett e olhou para os dedos dela, sem qualquer indiscrição:
-És solteira! – Exclamou, admirado, mas feliz.
Margarett sentiu-se envergonhada e afastou as mãos dele:
-Não sou velha! – Defendeu-se.
William atrapalhou-se:
-Não era isso que eu queria dizer! É que… Ele também é!
Margarett não escondeu o choque por ouvir alguém, especialmente William, a dizer algo assim. Talvez ele tivesse sido o primeiro a revelar o seu pensamento sem qualquer vergonha. Apesar de ser constrangedor para Margarett, ela teve de se rir. William não parou por ali:
-Vocês falaram? Oh, viste o carro dele? Aquilo é que é uma máquina!
Margarett voltou a ficar constrangida. Porque é que William estava a falar no carro?
-Sim, vi. – Depois corou – Tambem já andei nele.
Daisy prendeu um sorriso matreiro e entreolhou William cumplicemente. O homem riu-se:
-Então já meteste a conversa em dia com ele, pelo que vejo!

ESTÁS REDIMIDO, WILLIAM FINKIE!! O Will-tonhó deixou de existir há bastante tempo, mas agora as dúvidas foram-se xDD
Parti-me às risadas com a conversa do Will. Finalmente, alguém aponta a Maggie aquilo que nós, caras leitoras super interessadas, gostaríamos de ouvir!

Mas a melhor parte foi mesmo o resto do capítulo. Fiquei bem entretida e fiquei triste que, por uma vez na vida, não te inspiraste em mim e escreveste um capítulo super-hiper-mega gigante, com 5 posts no mínimo. Oh, o quanto eu ficaria feliz com um capítulo assim  Simpatico2 
E obrigada por me relembrares do motivo de eu não ir a restaurantes gourmet. Comida saborosa, mas que não compensa o buraco no estômago e o da carteira. E as tascas. Pah, até fiquei com água na boca só de imaginar o ambiente alegre, a cerveja e os hambúrgueres apetitosos. 
Finalmente sei o que aconteceu com a Maggie e o Pierre e o David com a Guilianna. Para ser franca, já suspeitava a história do David, mas a da Maggie até apanhou-me um pouco desprevenida. Achei que tivesse sido a Maggie a terminar, ou então o Pierre mas por motivos diferentes do original. Apesar disso, não fiquei desiludida (de longe!). Aquela conversa só deu para uma das melhores partes do capítulo. 

Agora pergunto-me. E o amanhã? Quando acordares, como vai ser? Super embaraçoso ou talvez não.... ? 

Como tua fã nº1, peço-te para não demorares assim tanto com o novo capítulo. Mim chora só de pensar na demora. Please!!  Sad  Sad  Sad 

Ficarei à espera do próximo!
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
#232
Olá lulumoon,

Apesar de a fic ser velhinha resolvi ler a história que criaste pois o seu tema suscitou interesse e por isso resolvi ler primeiro o prólogo. Após à sua leitura, pensei do género: “Ok, é uma história de dois melhores amigos que irão viver muitas situações futuras marcantes… Ou Mais uma história de paixão”. Pode ter tudo isso mas, quando li os capítulos seguintes até chegar ao actual… Tenho a dizer que, miúda tens uma história enriquecedora e deveras interessante. Cada palavra lida soava mais uma das muitas histórias da minha autora norte americana favorita, Nora Roberts. Exceptuando erros ortográficos alertados em demasia, Vê-se que tens talento para a escrita. Eu pensei: “ Será que é escritora? Se for, cadê o nobel da literatura?”. Os meus parabéns por esta história que encantou os leitores que se mantêm fiéis ao seu seguimento e também pela conquista de mais uma: Eu! Podes crer que irei acompanhar esta história até ao fim. Esperei o que for preciso para ler. Só não concordo com a classificação ser "Livre" ( Isto por causa das partes escaldantes que acontecem na acção. É por causa do publico com menores de idade, percebes? Acho que hoje em dia o mundo está muito sensível. Não se pode dizer, ler ou mostrar algo a menores que pensam logo em algo mal.Na minha fanfic tem algumas dessas partes "Perigosas" e por isso classifiquei para [+13] mas isto é só a minha opinião)

Outra coisa para que quero comentar e que para mim foi importante foi o que li sobre a caraterização das personagens. Vi-me em certos aspectos no comportamento da Maggie. Quando li atentamente esta parte no capítulo 26 e que agora cito:

“Só fazes asneiras, Rett. – Acusou o gaiato. Ela sentiu-se envergonhada – mas quem sou eu para te julgar? – Margarett encarou David com dúvida e surpresa - Sou pior que tu. Fingi que não te conhecia, mesmo adorando-te, só porque tive vergonha. Ao contrário de ti não foi sem querer, nem por um motivo de bondade. Foi propositado e por um motivo idiota. Fiz asneira, mas isso não quer dizer que não goste de ti. Senti-me lixo durante algum tempo por te ter feito isso e pior ainda, por saber que me passaste a odiar. Mas o ódio é efémero, Margarett. Façamos o que fizermos, acabamos por magoar sempre as pessoas. Provavelmente as melhores pessoas são as que mais sofrem. E vão-nos odiar. Há sempre alguém que nos odeia pelas nossas acções, tanto quando são boas como quando são más. Se tivesses dito ao Henry que não podias comer aquele queque ele ia pensar que era uma desculpa e teria ficado triste contigo. Mas poupaste-o a isso e acabaste por te enterrar mais. Ele passou a odiar-te porque lhe sujaste os calções e também porque vomitaste o presente dele. Em suma, Rett, és má porque tentas ser boa…”

A parte que está a negrito sublinhada fez lembrar o meu comportamento actual. Não quero com isto dizer que estou apaixonada mas é mais a propriamente com a relação que tenho com os outros. Eles dizem que sou uma pessoa boa de mais embora faça asneiras não do modo de crer mal (embora pareça mas isso quando estou de cabela quente ou entenda as coisas noutro sentido e que mais tarde compreendo e tento procurar a calma para isso) mas do modo de as querer ajudar e quando li a fala do David (A negrito sublinhada) deixou - me surpreendida. Além disso, certas fragilidades da personagem lembram as minhas em relação a situações no dia – a – dia entre o meu EU com os Outros. Não concordei quando os leitores afirmaram que Mag era uma mimada quando namorada do William. Eu acho que aquilo não era mimice. Achei que a rapariga estava confusa com os seus sentimentos. E mais. Pela descoberta do seu lado mais feminino do que a maria-rapaz de outrora. Que dizer, regressou de França para seu país natal já como uma senhora mas não como uma mulher completa que actualmente é. Ela não queria magoar o namorado. Acho que queria resolver aquilo de outra maneira mas não encontrou outra via senão namorar com ele para evitar que este sofresse e quando teve a coragem disse com todas as palavras na boca que afinal a ligação amorosa dela não encaixa nele. Felizmente que o jovem banqueiro tem um coração do tamanho do mundo e conseguiu entender os sentimentos da jovem em relação ao David. Quanto a mãe da Maggie … Épá. É assim. Compreendo que a senhora, era uma figura preocupada com os costumes e a sua posição social … (Apesar do seu esposo revelar à Maggie o passado de ser uma mulher frívola e cruel mas que acabou de perder a virtude com ele antes do casamento em vez do seu apaixonado). Ela não queria o mesmo para a filha. Naquele tempo é compreensível … mas fazer o que fez à sua filha! O que a fez passar!? Quando li aquilo designei como “Bruxa” como aquelas que têm mal no coração e que desejam espalhar esse mal encima de tudo aquilo que  lhe é visto como mal mas que era bom para a Maggie … Pobre David. Essa mulher desgraçou-lhe quase a vida, não só com a separação mas também pela cumplicidade com jack, esse malvado. Não sei em que bandas anda mas espero que não compareça mais no enredo. Conclui duas opções à senhora: Ou acabava a lucrar com algo e nunca mais seria vista na história sendo feliz rodeada de dinheiro tal como desejara ou morria. Mas o destino que lhe deste foi o mais adequado. Senti pena quando li na parte de estar no hospital e quando o David a encontrou e deu-lhe uma nota por ser uma sem-abrigo. Mas no fim a pobre senhora lá surpreendeu –me quando incentivou de modo frágil à Margarrett regressar à sua terra natal. Aposto que o fim da história será a senhora  reconhecer David como futuro genro e finalmente poderá entender o verdadeiro significado da vida. Quanto ao resto das personagens; adorei a parte da Daisy e William como casados. Realmente ficam bem um com o outro e o acto mostra bem a funcionalidade do amor de ambos. Quanto ao David. Quando promete consegue. Assim é que é! Desde o início e apesar da fase da rebeldia quando estava com o grupo oriundo da Califórnia … fizeste-o um rapaz notável. Conseguiu tornar-se uma pessoa importante e sobretudo conquistar a casa dos seus “sonhos”. Fiquei contente. A mãe da rett devia ficar embasbacada se soubesse ao certo que o rapaz que achava o “pecado” para a sua filha tinha subido e bem na vida. Ela devia merecer isso na fronha em vez de cometer aqueles actos horrendos à filha… Peste.

Para finalizar este testamento (Gomen, Ana Santos) Quero confessar – te algo muito importante. Pode não ser assim algo surpreendente, mas para mim é sério. Há pouco fiz uma fanfic de Sailor moon que já se encontra finalizada. Mas o importante que vou comentar e caso leias ou estejas interessada: Após postar o epílogo e já a escrever  fic de sailor moon que ainda está em desenvolvimento... Isto é pura coincidência. Acreditas que escolhi o nome da minha personagem principal como Margarret? Mas depois estive a pensar melhor e alterei para um nome mais religioso Magdaléne … Tudo isto antes de ler a tua história. Depois quando lia, fiquei um pouco receosa porque há partes que faziam lembrar o que escrevi na minha primeira e "suposta" segunda fic. E por isso, se algum dia leres é para teres conhecimento antecipado que jamais fiz plágio ou “roubar” ideias. Credo. Nem quero.

Bom. aguardo o seguimento desta fascinante história que me prendeu frente ao ecrã do portátil por ser tão cativante, interessante e até viciante. Vemo-nos no verão Very Happy .

P.S. Podes dar o link com a fanfic "Angelical"? Sei que todos os teus leitores a referiam por ser semelhante a esta história o que deve ser brutal. E por isso, peço esse favor. Eu  também vou procurar no forúm. Obrigada Surprised.

hunter literatures







A minha Segunda Fanfic de Sailor Moon: Nêmesis, A Deusa da Vingança. [17/07/2014]

A minha primeira Fanfic de Sailor Moon: Sailor Moon: Uma Alternativa à sua história de Origem


[+13] [Epílogo 14/04/14]

                                                                                                                             

#233
Olá Hunter Literatures!
Fico muito feliz por ter uma nova leitora no forum!
O teu comentário foi realmente grande mas foi bom lê-lo!
A personagem Margarett é provavelmente uma das mais criticadas da fic, mas para mim continua a ter atitudes, por vezes, bastante realistas e insensatas durante a juventude. Ela agora está numa fase mais magoada, mas também mais madura. Ainda assim posso já adiantar que ela vai cometer outra atitude que vai fazer quase todos os leitores quererem bater-lhe (e mais não digo!  Tramar alguma  Tramar alguma  Tramar alguma  )
Ultimamente não ando com muito tempo para escrever/ler, mas se tive rum tempinho vou espreitar na tua fanfic. E claro que eu não consideraria plágio! Inspiramos-nos em pessoas para escrever portanto é normal que hajam pontos em comum entre determinados personagens! Wink

Está aqui o link da outra fanfic que escrevi. Ela estava na secção das fanfics acabadas e é muito menos realista. Espero que gostes!

https://sm-portugal.forumeiros.com/t5049-angelical
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#234
Olá lulumoon,

Opá foi grande porque queria comentar o que achava cada capítulo lido. Só faço isto quando a história vai a metros de distância. Eu percebo mais ou menos o que Margarett está a passar. Tal como comentei anteriormente também faço atitudes que não lembra ninguém quando sinto-me magoada com os outros. Assim como ela estava com a mãe. Mas vais por essa jovem de novo a cometê-los? Tu queres mesmo que toda a gente queria “Bater-lhe”. Eu não vou fazer. Logo vejo a minha reacção para aquilo que lhe irás destinar. Fico contente por ficares satisfeita de teres ganho mais uma leitora das tuas histórias que são interessantes. Já li alguns capítulos de Angelical e rendi ao enredo. Gosto da atitude do Gustavo com lana apesar de ser um rapaz com mistério à volta. Foi o que pensei quando li a sua maneira de ser com a jovem. Sei que a inspiração é adquirida através dos nossos sentidos: Ver, ler, ouvir sentir, e até tocar. Mas pronto, sou assim. Sou justa e para parar com as paranoias alertei para ficar mais aliviada. Assim que puderes e quiseres aguardarei o teu comentário em relação ao meu projecto e outros caso sejam lançados.
lulumoon escreveu:Olá Hunter Literatures!
Fico muito feliz por ter uma nova leitora no forum!
O teu comentário foi realmente grande mas foi bom lê-lo!
A personagem Margarett é provavelmente uma das mais criticadas da fic, mas para mim continua a ter atitudes, por vezes, bastante realistas e insensatas durante a juventude. Ela agora está numa fase mais magoada, mas também mais madura. Ainda assim posso já adiantar que ela vai cometer outra atitude que vai fazer quase todos os leitores quererem bater-lhe (e mais não digo!  Tramar alguma  Tramar alguma  Tramar alguma  )
Ultimamente não ando com muito tempo para escrever/ler, mas se tive rum tempinho vou espreitar na tua fanfic. E claro que eu não consideraria plágio! Inspiramos-nos em pessoas para escrever portanto é normal que hajam pontos em comum entre determinados personagens! Wink

Está aqui o link da outra fanfic que escrevi. Ela estava na secção das fanfics acabadas e é muito menos realista. Espero que gostes!

https://sm-portugal.forumeiros.com/t5049-angelical







A minha Segunda Fanfic de Sailor Moon: Nêmesis, A Deusa da Vingança. [17/07/2014]

A minha primeira Fanfic de Sailor Moon: Sailor Moon: Uma Alternativa à sua história de Origem


[+13] [Epílogo 14/04/14]

                                                                                                                             

#235
Finalmente consegui encontrar a minha senha, e fazer Login!
Desculpa Catarina, só vir comentar agora...

Já li o Capitulo à algum tempo...
Já estou como a Ana, odeio que acabes os capítulos assim... fico toda ansiosa para ler o próximo, o problema, é que tu demoras imenso a publicar os capítulos....

Adorei o Capitulo, e sim também concordo que o capitulo em spoiler é desnecessário, no entanto eu li e achei interessante. Ainda bem que o publicas-te à mesma.

Sei  que estamos com imenso trabalho pr fazer, mas por favor, não demores muito a publicar a próximo capitulo!

Tens de entrar para responderes neste tópico.