Sailor Moon Portugal, A Navegante da Lua

Peep-Toe & All-Star

#201
Olá! 
Realmente a baka da Mag podia ter dado mais atenção à corrida, enfim...ainda não era a altura certa. Se ela realmente aceitar o pedido, estou com a Ana, é porque é mesmo estúpida. Em relação ao Pierre já não gostava dele e agora muito menos. 
Fiquei surpresa com a nova madrasta da Mag. Acho muito bem, o pai dela merece. Mas por outro lado continuar sem dizer a verdade sobre o David quando há evidentes condições económicas para que ambos se encontrem, está simplesmente a ser um mau pai. Caiu na minha consideração.
O David está a ter uma vida bem interessante. Tive imensa pena do Veloz. Mas foi excelente ser ele o herdeiro, quem diria que tinham tantos bens. E ele precisa mesmo de um canudo, lol, está na idade! Achei o David um idiota por chamar a Mag de fantasma que queria ter esquecido. 
Realmente a Mag e o David, longe da vista, longe do coração pois claro! 
Posso ser uma incurável romântica mas fiquei dececionada com ambos!
Cito a Ana: "Gostei da Myrellle, principalmente porque nao a irei voltar a ver ".

Gostei da cena do sonho do David, Lulu, apesar de achares que ficou estranha.  
Espero pelo próximo.

Bjo*
#202
Errr.... O meu computador foi para formatar e... Parabéns atrasados ANA! Very Happy cheers 
Mais não digo!!! Toma toma

Capitulo 43 – Cor-de-laranja
 


“A maioria das pessoas só aprende as lições da vida, depois da mão dura do destino lhes tocar no ombro.”

-Zurich? O que vais lá fazer?
Mrs. Paisen estava admirada com a revelação do filho.
-Mr. Denvers aconselhou-me! – David olhou para o seu relógio de pulso para ter a certeza que não se atrasava a apanhar o comboio. Se não tivesse visto a cabine telefónica provavelmente só ia dar a informação aos pais quando já estivesse na outra cidade – Zurique é o centro financeiro da Suiça, mãe… Já para não falar da bolsa de valores! Os melhores bancos do mundo estão lá e Mr. Denvers sugeriu-me gerir o meu dinheiro a partir de lá. É mais seguro e rentável!
-David, David! – Mr. Paisen mostrou-se inconformada – Isso é um absoluto exagero. Porque não te contentas com o banco da tua cidade?
O jovem revirou os olhos, entediado por ter de explicar aquilo à mãe. Sabia que ela, por muito que ele lhe tentasse explicar, não ia compreender, por isso nem sequer tentou.
-De qualquer modo é uma oportunidade de conhecer a cidade. Tenho duas semanas de férias e quero aproveitar!
Grace bufou, impaciente:
-Bom, de qualquer maneira já és independente! Tu é que sabes, filho!
David assentiu e voltou a olhar para o relógio:
-Como estão todos?
-O costume. Fiquei com o Neil enquanto a Vicky foi às compras e o teu pai saiu também ainda há pouco. Logo á noite anúncio-lhes que partiste para Zurique. – A mulher mostrou-se irritadiça - E ainda me hás-de dizer quando tencionas pelo menos vir visitar-nos!
David deu com a mão na cabeça, chateado por aquele assunto vir à baila:
-Mãe… Por favor!
-Isto não tem piada nenhuma, David! Já faz mais de um ano que saíste da Irlanda e ainda não tiveste a disponibilidade, ou melhor, a vontade de vires ter com a tua família  Bolas, filho, parece que não tens saudades!
-Não é nada disso, mãe! – David selou os punhos – Tenho assuntos importantes a tratar! Ainda há dois meses fui à Irlanda ver como estava a quinta e isso teve um custo alto. Além disso não posso deixar o trabalho de lado sem mais nem menos! Eu juro que vou aí em breve!
Mrs. Paisen grunhiu do outro lado da linha:
-Estou para ver! Daqui a nada lembras-te de ir a outro país qualquer e nós continuamos todos sem te ver. Gostava de compreender essas tuas decisões, de verdade, David!
O jovem olhou em redor e viu que a fila de passageiros estava a aumentar. Olhou o relógio pela última vez e suspirou:
-O dinheiro da cabine está a terminar e o meu comboio está prestes a chegar. Eu tenho de ir! Amanha vou tentar telefonar!
-Faz boa viagem! – Disse a mulher, amargamente – E tem juízo!
-Está bem, mãe! Adeus e um abraço para todos!
David levou o auscultador do telefone ao sítio. Pegou na sua mala que estava no chão e retirou o bilhete do bolso do casaco, dirigindo-se para a fila.
Não era que não tivesse saudades. Pelo contrário. Sentia imenso a falta dos pais, especialmente à noite. E queria muito conhecer Neil, o sobrinho. Apesar de ter estado com ele pessoalmente no seu primeiro mês de vida, ainda não tinha tido a oportunidade de interagir com ele cinco anos depois. No entanto, David não pôde permitir que isso afectasse as suas decisões pessoais em nenhum momento.
A mãe não compreendia. Não compreendia porque é que ele não tinha regressado para junto da família quando recebeu a herança e em vez disso tinha partido para a Suiça, sem saber nada do país. Não sabia falar nenhuma das línguas que se falavam lá, não conhecia ninguém, nem casa tinha. Mas David tinha bons motivos e não sabia como explica-los à mãe sem ser chamado de sonhador. Ele próprio não queria ser como Rosália, a leiteira*, mas tinha de arriscar ou não levava nada!
Mudou-se para o norte de Berna, capital da Suiça, onde alugou um quarto. Tratou logo de arranjar um emprego para poder ir controlando os seus custos e depois disso pediu sorte a Deus para conseguir aprender a falar o idioma. No início não foi fácil. Estava situado numa zona em que apanhava a língua francesa e a língua alemã, mas devido ao trabalho numa empresa de construção, o alemão começou a ser-lhe mais acessível. Haviam palavras que ele conseguiu perceber à primeira. Apesar de diferentes sonâncias, assemelhavam-se a algumas expressões em Inglês e como todos os colegas falavam aquela língua, ele não teve outro jeito a não ser aprender. Como andar de bicicleta, custou no princípio e só com rodinhas é que ele ia lá, apontando termos que escutava num bloco e procurando depois o significado no dicionário. Foi uma primeira fase complicada, todavia, as expressões começaram a soar mais naturalmente à medida que o tempo passava. Após isso foi só continuar a pedalar e a aprender. Pôs as rodinhas de lado, tentou equilibrar-se sem ajuda e começou a acelerar para ganhar velocidade.
-Ticket, bitte! – Pediu o revisor.
-Hier ist es! – David entregou o bilhete que o homem logo picou.
-Gute Reise!
-ich danke Ihnen!**
David sentou-se à janela e abriu o jornal que tinha comprado na rua.
Tinha feito um plano. O dinheiro que recebia mensalmente no emprego era separado em diferentes destinos. Algum para pagar o quarto e as suas despesas, outro para a alimentação e transportes. O que sobrava, punha de lado. Depois fazia os cálculos da quinta dos Bards que se dividia nos trabalhos agrícolas e pecuárias  conduzidos pelo casal Jason, os caseiros. Os cavalos tinham sido negociados com Mr. Denvers que os levou para as corridas, sobrando então as vacas e as ovelhas, de onde retirava lucro na carne que vendia, bem como no leite. Das ovelhas, vendia também a lã a empresas têxteis. Os porcos eram também fonte do lucro devido à carne e as galinhas davam os ovos que Mrs. Jason ia semanalmente vender ao mercado.
Feitas as contas, uma parte do lucro era para pagar ao casal, para as despesas dos animais e para a manutenção da fazenda e das terras cultivadas com produtos depois vendidos nos mercados. David não se podia queixar. Ainda lhe sobrava uma boa quantia.
Não lhe restavam dúvidas de que tinha feito uma óptima escolha ao viajar para a Suiça. Lá ganhava mais dinheiro do que na Irlanda e era mais fácil de o gerir.
David avançou uma folha do jornal, mas não lhe apeteceu ler. Olhou pela janela, pensativo. As paisagens que passavam por ele a alta velocidade eram belas. Tudo pintado em tons de verde e terra, com águas cristalinas em redor. Ele suspirou e voltou a encarar o jornal, como qualquer homem intelectual faria. Na verdade, era isso que ele estava a tentar tornar-se. Nutrir o pensamento tinha-se tornado a sua nova meta. Queria ter algo de que falar, queria saber das coisas e tinha tido um ano para repensar na proposta de Mr. Denvers. Contudo, ele ainda não sentia que era a hora. Havia mais coisas que queria ver e conhecer. Estava no auge da idade, livre, saudável ao nível que a sua bomba de asma diária lhe permitia e sobretudo tinha dinheiro para se apoiar em caso de algum imprevisto. O motivo de ir a Zurique não era somente para abrir uma conta no Credit Suisse. A verdadeira razão provinha de uma nova ideia que lhe tinha passado pela cabeça e ele precisava de ter consciência exacta dos investimentos em que se queria meter para poder avançar.
A viagem não foi muito longa. Chegou a Zurique ao entardecer e dirigiu-se à pensão mais próxima para passar a noite. Tinha tido uma especial atenção a tudo o que o espaço lhe oferecia. Avaliou a decoração, os preços e o serviço. Era uma curiosidade que ele tinha adquirido desde que se alojara num hotel pela primeira vez, em Londres, quando corria com Veloz. Claro que aquela pequena e modesta pensão não podia ser comparada a um hotel de cinco estrelas, mas ainda assim era bom conhecer os diferentes espaços.
Já no quarto, ele dirigiu-se à janela para avaliar a paisagem. Zurique era, sem sombra de dúvida, uma cidade muito mais evoluída do que aquelas em que havia estado anteriormente.
Ele abriu a mala e retirou as roupas. Depois, quando ela estava aparentemente vazia, ele olhou em redor e ao saber que era seguro, retirou um fundo falso. Tinha sido um risco viajar com tanto dinheiro, mas ele teve atenção no que fez. Retirou maços de notas e contou-os, para confirmar a quantia. Depois colocou-os num saco de papel para no dia seguinte ir depositar no banco.
Guardou tudo dentro de uma gaveta e deitou-se na cama. Antes de entrar em férias, o seu patrão anunciou que iriam viajar para Genebra, onde uma nova obra os esperava. No entanto, só alguns dos colegas iam para lá com ele. Tudo lhe pareceu bem até o chefe informar que eles teriam de se dedicar mais à língua francesa, pois a região assim o pedia. David já tinha aprendido algumas palavras em Biel, mas não tinha à vontade com aquilo. Para além de que aquela língua lhe despertava algumas obsessões do passado que ele queria esquecer.
Teria de fazer um esforço.
Ele virou-se de lado e fechou os olhos.
Adormeceu, cansado da viagem.
 
No dia seguinte levantou-se cedo. Vestiu a sua roupa mais apresentável e penteou-se com rigor. Abriu a gaveta em que guardara o saco de papel com dinheiro e pegou nele para o colocar na maleta de mão. Depois fez-se ao caminho.
O banco Credit Suisse ficava perto da pensão. Uns dez minutos a pé, mais ou menos. David aproveitou essa caminhada para admirar um pouco mais da cidade e apontar mentalmente os sítios que queria visitar antes de se ir embora.
O edifício ao qual se dirigiu tinha uma arquitectura neoclássica evidente. Era geométrico e bem medido. Bastante bonito, até.
David entrou e visualizou tudo com atenção. Enormes balcões encontravam-se dispostos em linha com filas de pessoas, na maioria com alto estatuto social, pôde apurar. Ele colocou-se numa fila e aguardou pela sua vez. Quando finalmente foi atendido, o homem encaminhou-o para uma outra zona do banco, onde ele devia abrir a conta.
Foi recebido pro um outro banqueiro. O homem fê-lo lembrar de Mr. Finkie, talvez pelo cargo em semelhança. Entraram os dois numa sala e sentaram-se frente a frente numa secretária. David explicou-lhe quais eram as suas intenções futuras de modo a que o banqueiro lhe indicasse o melhor plano para ele. David fez a sua decisão e foi a vez de fazer o depósito. Recebeu uma chave e um código, assinou os papéis e finalizou a sua acção. Após tudo regularizado, o banqueiro e David cumprimentaram-se depediram-se. Todo o procedimento tinha levado bastante tempo, mas valeu a pena. David sentiu-se seguro com a sua decisão.
Voltou às ruas da cidade com o mesmo entusiasmo com que acordara. Decidiu ir almoçar a um restaurante típico da região e durante a tarde procurou descobrir outros locais. Tinha comprado uma máquina fotográfica recentemente e a oportunidade de usá-la era explendida. Começou por fotografar as igrejas Fraumunster Kirche, St Peter Kirche e Grossmünster. Depois foi conhecer a famosa loja de chocolates Confiserie Sprüngli. Nasceu-lhe água na boca só pelo cheiro. Não resistiu e comprou três caixas de bomboms, uma para si e as outras duas para mandar à família.
Atravessou a avenida Bahnhofstrasse, a mais chique da cidade, que se prolongava com as lojas mais modernas e caras da cidade. Essa zona deu-lhe um vislumbre de Margarett. Ela havia de adorar, mas ele não queria pensar nisso. Azar o seu, que logo de seguida foi a Lindenhof, uma romântica praça no alto da colina. Alguns casais andavam por lá.
David não queria admitir, mas começava realmente a sentir-se só. Desde Myrelle que não tinha encontrado nenhuma outra mulher que lhe fizesse companhia. E não, prostitutas não contavam. Ele suspirou, quando o céu começou a ficar rosado. Estava a precisar de conhecer gente nova.
O passeio terminou com a ida ao parque Zürichhorn, onde David assistiu ao por do sol á beira do lago. Por fim, decidiu ir jantar ao restaurante Zeughauskeller, um dos mais conceituados da cidade. Pagou caro, mas valeu a pena. Era um dos pequenos luxos a que se estava a habituar.
***
 
Havia sido um longo dia de trabalho. Mais longo do que podia ter imaginado. Tinha passado a tarde toda ansioso por regressar a casa e ouvir as boas novas que a sua esposa tinha para lhe dar e sentia um friozinho na barriga de cada vez que pensava nisso. Era um nervoso agradável e feliz, carregado de uma esperança meio idiota, mas que ele não podia controlar. O seu pai havia-lhe oferecido um charuto no dia do seu casamento e tinha-lhe dito expressamente que era para uma ocasião daquelas. O jovem homem sentiu as bochechas a arder de felicidade.
Quando bateram as 5 badaladas da tarde, ele levantou-se da sua secretária de rompante, vestiu o casaco, colocou o chapéu e abandonou o seu posto quase a correr. Despediu-se dos colegas com pressa e despachou-se a entrar no carro. Tentou dizer a si mesmo que não precisava de conduzir como um louco. Ela estaria em casa à sua espera, chegasse a que hora chegasse, mas a ansiedade era tanta que ele mal podia respirar. Só não tinha comentado com a mãe, porque sabia que ela não ia guardar o segredo e se as expectativas fossem falsas, seria vergonhoso para ele e para a sua mulher.
Deliciado com todas as suas sensações, parou o carro na praça principal e correu para a florista. Comprou um ramo de margaridas brancas, as preferidas da sua amada, e assobiou bem-disposto até regressar ao seu automóvel. Quando chegou à sua rua buzinou com folia e sorriu para os vizinhos que o saudaram. Estacionou o carro, saltou para fora e voltou a assobiar uma canção alegre. Parou em frente à porta de sua própria casa e benzeu-se, esperançoso. Colocou a chave na fechadura e entrou. A casa estava toda iluminada e fresca; cheirava a flores. A sua esposa era uma excelente dona de casa, asseada, higiénica e muito acolhedora. Sentia-se cada vez mais apaixonado pela mulher com quer dera o nó três anos antes. Só lamentava não ter percebido antes o quão compatíveis eram os dois. Pensar que a conhecia desde sempre e nunca tinha reparado nela até lhe darem um grande empurrão.
Ele respirou fundo e seguiu o corredor até à sala:
-Querida, cheguei! – Anunciou.
Ele entrou na sala e ela levantou-se de rompante, muito corada. Tinha um semblante algo assustadiço e nervoso.
Ele sorriu-lhe confortavelmente  Aproximou-se dela e deu-lhe um beijo apaixonado enquanto a abraçava com cuidado:
-Trouxe-te flores, meu amor!
Ela sorriu, ainda corada, mas mais confiante. Passou a mão pelo colarinho dele e ajeitou-o, desajeitada:
-Obrigada! – Disse – Como correu o trabalho?
-Demasiado devagar. Não consegui parar de pensar em ti a tarde toda! – Assumiu, ansioso - Então…?
Ele incentivou-a a falar, com uma sensação de dormência nas paredes do estômago.
Ela não falou logo. Soltou um leve risinho emocionado e atirou-se de novo para um beijo profundo com o marido. Ele não conseguiu evitar de se rir durante o beijo, o que ela imitou, obrigando-se a soltá-lo.
Os olhos dela encheram-se de água prestes a transbordar, mas pelo sorriso dela não havia nenhum motivo para lágrimas de tristeza. Ela afastou o corpo do dele, com as mãos dadas a ele e suspirou, feliz:
-As minhas suspeitas confirmaram-se… - Anunciou sorridente, colocando as mãos sobre o ventre discretamente arredondado – Vamos ter um bebé, William!
Uma gargalhada estonteante encheu o espaço. William caiu de joelhos no chão e abraçou a anca da companheira. Depositou-lhe beijos na barriga sem poder acreditar naquilo que tinha acabado de escutar, tal era a sua excitação:
-Vou ser pai! – Gritou extasiado – Oh, amo-te tanto! Obrigado por fazeres de mim o homem mais feliz deste mundo!
Ele levantou-se do chão e abraçou a esposa com todas as suas forças. Beijou-a como se fosse a primeira e a ultima vez que o fazia.
Ela não conseguia parar de sorrir, feliz. Se 5 anos antes lhe tivessem dito que ia esperar um filho de William Finkie, ela teria rido para não chorar de desgosto, completamente crente de que entre eles nunca haveria nada, nem um beijo sequer. No entanto, ao contrário do que acreditava, tudo isso e muito mais aconteceu.
Daisy Montero tinha nascido na Argentina, no seio de uma família humilde, o que ainda lhe dava menos esperanças de vir a casar com alguém de estatuto muito mais alto do que o dela. Ela e a família tinham saído do país quando ela tinha apenas 5 anos, pelo que ela tinha poucas recordações da infância anterior a essa mudança. Os irmãos mais novos ainda tinham menos, sendo que o mais novo nascera já no outro país. Ainda assim todos falavam espanhol fluentemente pois era a língua em que se dialogavam dentro do seio familiar. Quando Daisy foi para a escola destacou-se pelas boas notas e o empenho e assiduidade. Sempre teve um carácter reservado, devido à timidez. Era envergonhada, mas boa pessoa. Conforme foi crescendo, a sua personalidade amadureceu com o seu corpo e tornou-se uma irmã mais velha responsável e preocupada. Com os demais era simplesmente a doce e atenciosa Daisy. Mostrava sempre um sorriso honesto e paciente no rosto e isso levou-a a ser motivo de troça por parte de alguns rebeldes que achavam-na “ridiculamente certa”. Claro que isso não a fez mudar. Os poucos amigos que tinha gostavam dela assim.
Mas foi aos 15 anos que tudo começou. Apaixonou-se pela primeira vez. Foi a sensação mais maravilhosamente dolorosa que já alguma vez sentira. O amado? William Finkie.
Nunca havia de esquecer o momento em que o conheceu. Estava na sala do coro a ensaiar para a missa de Natal quando Mr. Rolf, o maestro, anunciou que teriam um pianista diferente na noite da consoada devido a uma indisposição do pianista habitual. William irrompera pela porta, sorridente e amável  Era resplandecente  Saudou todas as pessoas individualmente, incluindo ela própria. Foi amor à primeira vista e apesar de apenas ter lidado com ele algumas semanas antes do Natal, foi o suficiente para ficar cega de amores pelo filho do prestigiado banqueiro Mr. Finkie. Infelizmente, ele nunca olhara para ela assim. Daisy tentou superá-lo imensas vezes, inclusive teve encontros com colegas da escola, mas ele estava sempre na sua mente e era frustrante.
O pior aconteceu quando William se apaixonou pela primeira vez, mas por outra pessoa. Uma francesa qualquer. Daisy lembrava-se de ter chorado a noite toda quando eles anunciaram um namoro. A sua vida tornou-se cinzenta, daí nunca ter esperado que o destino revirasse em seu favor.
Às vezes perguntava-se o que tinha sido e uma grande parte de si acreditava ter-se tratado de um grande empurrão de David. A verdade é que depois de ele deixar a cidade, Will tinha-se aproximado. Ela sentiu algo diferente na forma como ele a olhava. Era mais atento. Mais intenso. Chegou a sentir-se desconfortável com a situação e grande parte do tempo não quis ter falsas esperanças. Mas aconteceu. Ele convidou-a para sair. Ela negou, achando que ele estava a brincar, mas ele insistiu e sem dar por si ele quis-la. Ele, de facto, quis Daisy para ele, tanto ou mais do que tinha querido a outra, que sumira. A única pessoa que não conseguiu levar aquela paixoneta a sério foi Kelly Finkie, que não se conformou que o seu filho estivesse a apaixonar-se por uma rapariga humilde da Argentina. Azar o seu, que ele não só se apaixonou como pediu-a em casamento após um ano e meio de namoro. Fora inexplicável para Daisy aquela súbita paixão, mas ela tomou-a de braços abertos. Amava-o há tempo suficiente para saber que não ia haver outro.
William beijou-lhe o pescoço, deliciado. Apaixonado.
O que acontecera aos olhos deles? Simples. A resposta foram as últimas palavras de David antes de partir.
Abre os olhos, idiota. Ela é tudo aquilo o que sempre desejaste e és o único que ainda não percebeu isso! Ela é doida por ti! Não desperdices isso!
William ficara chocado. Daisy estava lá, tão vulnerável como nunca estivera. Ele quis abraçá-la quando David partiu de vez e fez isso, compartilhando com ela uma sensação muito estranha que o levou a fazer o que David disse. Abrir os olhos!
Ela era, mesmo, tudo o que ele sempre desejou. Jovem, bonita, delicada, inteligente, sensível, honesta, sincera e comportada. Melhor ainda foi quando comeu pela primeira vez algo feito por ela. Era óptima cozinheira e óptima dona de casa. A mulher ideal para ele casar.
Sentiu-se tão idiota quando compreendeu aquilo. E desejou-a. Desejou-lhe a boca e, pela primeira vez, desejou-lhe o corpo dela quase sem controlo. Aquilo não tinha acontecido com Margarett. Ele amou Margarett, ao ponto de a respeitar e dar-lhe espaço. Com Daisy ele não conseguiu fazer isso. Ele amou-a e desejou-a, quis os lábios dela sem respeito. Quis tocá-la como se fosse parte dele. Quando saíram pela primeira vez ela acanhou-se tanto que ele teve receio de estar a ser um idiota, mas não resistiu. Beijou-a no primeiro encontro e ela entregou-se a ele como nenhuma outra tinha feito antes. Ele então percebeu que o sentimento era recíproco. Talvez tivesse sido desde que a conhecera, quando a achou tão bonita que nem soube como se aproximar. Tinha desistido dela depressa demais, reconhecera. Podiam estar juntos há mais tempo se ele tivesse percebido.
Mas isso já não importava.
Daisy arrancou-lhe a gravata do pescoço e desapertou-lhe os botões da camisa branca. Entregou-lhe a boca num gemido sugestivo, do qual William se riu, mas retribuiu.
Ele desapertou-lhe o vestido calmamente e libertou-a dele.Tinham um belo motivo para celebrar.
A pele dela tinha um encanto exótico. Morena e macia, diferente do branco cal que quase todas as jovens queriam alcançar na época. Tinha um cheiro doce e inebriante como incenso.
Era o oposto de William nesse aspecto. Ele era o puro Norte-americano. Ela a latina, que para surpresa dele fazia jus ao que se dizia do seu povo. O povo quente, apaixonado e intenso. Ele adorava quando ela, sem querer, resmungava em espanhol, palavras que se enrolavam na língua dela como uma serpente. Mesmo dentro daquele aspecto gentil e conservado, ela conseguia soltar pequenas faíscas de sensualidade que William às vezes se perguntava de onde surgiam. Mas ele adorava. Adorava ainda mais ter sido o primeiro dela que fora desflorada apenas na noite de núpcias, como mandava a tradição.
-Espero que seja um rapaz.
Will beijou o ombro da amada, inalando o doce aroma dela, enquanto sintonizava o seu corpo com o dela.
Daisy riu-se, por entre um vagido avivado:
-Mas não descartes a hipótese de ser uma menina! – Alarmou, num suspiro dormente.
William riu e beijou-lhe os lábios fervoroso.
Deitou-a no chão da sala e prosseguiu os movimentos apaixonados até alcançar aquilo a que chamava perfeição.
Daisy não conseguia parar de rir quando o marido caiu sobre o seu colo, satisfeito. Estava tão feliz que seria capaz de rebentar.
-Thomas… - Murmurou William, de olhos fechados – Eu gosto do nome Thomas.
Daisy penicou-o:
-Então e se eu quiser dar-lhe um nome argentino?
William levantou a cabeça e olhou-a nos olhos:
-Nem tu tens um nome argentino!
Daisy revirou os olhos:
-Eu ia chamar-me Gabriela como a minha madrinha. Mas ela achou que era mais interessante que eu tivesse um nome inglês e convenceu a minha mãe a chamar-se Daisy.
-Qualquer um te ficaria bem!
Daisy levantou-se e levou William consigo:
-Quando vamos anunciar? – Indagou, curiosa – Podíamos dar um jantar cá em casa para todos.
William gostou da ideia:
-A minha mãe convidou-nos para almoçar na casa dela no Domingo. Podemos aproveitar a ocasião.
Daisy torceu o nariz:
-É, mas eu também quero que saibam todos ao mesmo tempo, incluindo a minha família! Além disso, a tua mãe nunca fica muito feliz quando eu vou a casa dela. Ela não gosta de mim!
William bufou:
-Não digas isso. A minha mãe respeita-te e sabe que eu te adoro!
Daisy cruzou os braços e fez um ar sério quando se levantou:
-Não, ela não sabe. Na mente dela tu devias ter casado com outra… Como a Margarett!
-Oh, outra vez? Pensei que já tínhamos ultrapassado isso!
-Eu e tu ultrapassamos, mas sabes bem que a tua mãe nunca me quis como nora!
William encolheu os ombros:
-Não. A minha mãe gosta de ti e sabe que és boa pessoa. Eu amo-te e ela compreende. A única coisa que lhe dava prazer na minha relação com a Margarett era o facto de ter descontos e exclusividades nos vestidos! E por favor, não vamos falar desse assunto, é desagradável… - William deu ênfase à sua última palavra. Daisy engoliu em seco, compreendendo o que era verdadeiramente “desagradável” naquele assunto.
Ela sentou-se no colo do seu cônjuge e assentiu. Deu-lhe um beijo na bochecha:
-Desculpa, tu tens razão. Podemos então dar um jantar amanhã á noite, com todos. No Domingo almoçamos na casa dos teus pais na mesma! Pode ser?
William respondeu-lhe com um beijo rápido na boca.
Assentiu.
 
A notícia foi recebida com a maior folia. E Daisy teve de admitir que mesmo Kelly Finkie a surpreendeu. Não esperava que uma mulher como ela ficasse tão extasiada por saber que ia ser avó. Ela abraçou a esposa do filho como nunca antes tinha feito, tudo pela alegria de saber que ia ter um netinho. William acendeu o charuto que o pai lhe oferecera no dia do casamento e partilhou-o com todos os homens presentes, incluindo os irmãos mais novos de Daisy.
As questões rondaram o sexo e a saúde da criança. A avó de Daisy, a única que não falava inglês, trauteava em espanhol bons presságios para o fruto da criança.
A comida estava deliciosa. Daisy era uma óptima cozinheira e os bolos também eram dignos das melhores pastelarias da região. Sentaram-se todos na sala a tomar um café, quando, por entre sons de folia, Daisy escutou Mrs. Finkie a coscuvilhar algo com a sua mãe. O que ela disse despertou-lhe a atenção de tal modo que ela teve de se aproximar para ter a certeza que estava a ouvir correctamente.
-…Foi o meu marido que me disse e realmente já estava na hora – Tagarelou a sua sogra – Há anos que a casa estava ao abandono e parecia que a prefeitura da cidade não se interessava por ela. Depois do incêndio… - Kelly benzeu-se arrepiada – a casa começou a despertar mais atenções, mas mesmo assim ficou lá, toda chamuscada. Entretanto nasceram tantas ervas que já nem é possível para ver as paredes! Felizmente, parece que alguém fez queixa e o terreno vai ser leiloado!
-Por acaso reparei quando vínhamos para cá que havia uma placa á entrada, mas nem vi ao certo o que era! – Respondeu Mrs. Montero, admirada – E quando será o leilão?
Mrs. Finkie tomou um gole de café e encolheu os ombros:
-Não apurei, mas deve constar na placa. Nos jornais também já deve haver informações!
Daisy aproximou-se das comadres e sentou-se:
-Desculpe, Mrs. Finkie, mas refere-se àquela mansão que… - Ela não terminou a frase, arrepiada com a memória.
Como se tivesse lido os pensamentos da nora, Mrs. Finkie assentiu:
-Essa mesma. Provavelmente será destruída para construírem no terreno um edifício comercial. É uma boa opção, afinal aquilo não tem dono.
-Mas era uma casa tão bonita! – Argumentou Daisy – Será uma pena se não restar nada dela. Além disso, do que me lembro, a propriedade é muito basta e existe um lago natural lá.
-Bom, ela era bonita. Nos seus tempos de glória! – Completou a sua mãe - Agora está quase indecifrável, niña…
Daisy concordou, apesar de aquela informação lhe dar uma sensação nostálgica. Ela olhou por cima do ombro e procurou William com o olhar, mas não lhe disse nada.
 
No Domingo de manhã, depois da missa, Daisy pediu ao marido que fosse por um trajecto diferente para a casa dos sogros. Will, não compreendeu, mas agiu naturalmente. Daisy ia atenta ao caminho, quando de rompante, deu um grito:
-Will, pára o carro!
William travou, bruscamente, preocupado. Pensou que ela ia vomitar, ou algo do género, mas não foi nada disso. Ela saiu do carro e correu para o outro lado da estrada. Só aí William percebeu onde estava.
Daisy aproximou-se das grades enferrujadas onde uma placa se encontrada fixada.
Will seguiu-a e leu a informação que despertara a atenção de Daisy. Lá estava. O anúncio de um leilão dali a um mês.
A mulher suspirou:
-Às vezes não te sentes mal? – Indagou, vinda do nada.
Will olhou-a e como se tivesse lido os pensamentos dela, deu-lhe a mão.
-Não está nas nossas mãos, amor.
Daisy cerrou os dentes com raiva e fechou os olhos.
Não, de facto não estava.
 
***
 
-Che idiota, Antonio! Per la tua colpa quasi perso il treno! David, cerca di trovare un posto per sedersi! Presto! ***
-Em francês, por favor, Vicenzo!
David começou-se a rir sozinho após dizer aquilo. Nunca na sua vida pensaria que ia pedir que lhe falassem francês para ele compreender o que era dito. No entanto, lá estava ele, a correr. Atrás dele, corriam António e Vicenzo, colegas de trabalho. Era o último comboio do dia e eles tinham mesmo de partir.
-Arranja um banco para nós se chegares primeiro à carruagem! – Explicou Vicenzo em Francês, como David pedira.
O americano correu mais depressa e entrou no comboio, ofegante. Respirou fundo e olhou em redor. As carruagens estavam cheias e mal haviam lugares vagos. David entrou nos vagões e procurou três assentos disponíveis. Vicenzo e António entraram a seguir dele, também ofegantes. Percorreram os três a divisão em busca de um sítio livre. António  descabido, sentou-se ao pé de uma jovem que ia sozinha a ler junto à janela. Vicenzo e David reviraram os olhos perante aquilo, mas continuaram a procurar. Era típico que António  o conquistador italiano, escolhesse um lugar junto a uma rapariga bonita, a qual provavelmente ia tentar galar até levar um estalo ou, com sorte, levar a melhor.
-Posso-me sentar aqui? – David falou em francês o melhor que sabia, assim que encontrou um sitio livre..
O homem, que se encontrava acompanhado pela mulher e pela filha com cerca de 10 anos foi o único que percebeu e assentiu. David sentou-se ao lado dele, de frente para a criança que o olhou intimidada. Ele sorriu-lhe, desajeitado.
Vicenzo sentou-se num dos bancos que se encontravam na fila paralela à de David e bufou:
-Aquele tolo do António! Por causa dele e daquela rameira quase não podia passar o Natal com a minha família!
David retirou um livro do seu saco de viagem e riu-se:
-Acalma-te, Vicenzo! Ele é mulherengo, já sabes!
-E tanto queria galar a prostituta que nem se importou com as horas!
David repreendeu-o com o olhar e olhou para a miúda à sua frente. Ela não pareceu ter compreendido a linguagem do outro, felizmente.
-Esquece isso! – Pediu David – Quanto tempo vais ficar em Turim?
O comboio iniciou o seu deslizamento com um som ensurdecedor.
-Uma semana, apenas! E tu? Não vais mesmo atravessar o Atlântico?
David fez uma careta e negou, começando a folhear o volume:
-Não sei. Gostava de ir, mas não sei se posso dar-me ao luxo de viajar de avião neste momento!
Vicenzo abanou a cabeça repreensivamente e olhou pela janela:
-Seu burro, os teus pais nunca te hão-de perdoar! Vais passar outro Natal sem eles! O que vais fazer, sozinho?
Tentando não revelar a sua sensação de culpa, David sorriu:
-Vou conhecer Milão! Ouvi dizer que é uma bela cidade!
O homem que ia ao seu lado, intrometeu-se, entusiasmado:
-Oh, se é! – Declarou - Também vamos para lá, rapaz!
Vicenzo riu-se alto:
- Siete anche italiani?
-Sì, giovanotto! Io e la mia famiglia è venuto a sapere di Ginevra e tornare oggi!****
David ficou a olhar para os outros dois com um grande ponto de interrogação na testa. Vicenzo riu-se dele e apressou-se a traduzir para francês:
-São de Itália e foram conhecer Genebra no Inverno!
O homem, que aparentava ter uma idade média, enrolou o bigode:
-O meu nome é Matheu Fascini! Esta é a minha mulher, Geovana, e a minha querida Giuliana!
A esposa do homem sorriu, falando apenas algo em Italiano que Vicenzo respondeu. A menina acanhou-se e tornou a olhar David com vergonha.
-A minha mulher quer saber de onde és! – Disse Matheu, após escutar a parceira.
David sorriu e disse:
-Sou americano! Dos Estados Unidos da América!
-Tão longe! – Exclamou o homem, surpreendido – Vieste para a Suiça ganhar dinheiro?
-E comer chocolates! – David riu-se e prosseguiu – Vim do meu país para a Irlanda por causa de um problema de saúde, há já quase seis anos. Vivi lá bastante tempo. Trabalhava numa quinta, mas depois surgiram outras oportunidades que agarrei. Quando o dono da propriedade faleceu eu decidi viajar para a Suiça, até porque os meus pais se tinham ido embora um ano antes e eu já não tinha lá ninguém. Entretanto comecei a trabalhar por cá e com o dinheiro que faço estou a tentar um projecto com um sócio Inglês, daí ainda não ter regressado ao meu continente.
-Tens muita força de vontade! – Admirou o sujeito, sem esperar ter uma resposta tão longa à sua questão anterior.
-Vontade? – Indagou Vicenzo, ironicamente – Ele tem é uma boa cabeça! Em ano e meio já aprendeu a falar Alemão e Francês fluentemente!
David corou, mas sorriu. Ele olhou para o livro que levava na mão. Um romance francês que tinha comprado antes de partir, para desafiar os seus conhecimentos do idioma:
-A minha professora de espanhol ficaria espantada com isto! Ela sempre disse que eu não tinha qualquer capacidade para falar outra língua!
David sentiu o chão do comboio a tremer, mas não ligou.
-De qualquer modo, é admirável. Que idade tens?
-Já tenho 23! – Respondeu David e torceu o beiço, desagradado.
O homem riu-se com energia e disse algo em italiano à sua esposa que se riu também.
-“Já!”? Quem me dera com a tua idade já ter viajado tanto!
David sorriu e tentou explicar-se, desajeitadamente:
-Bom, não é que eu seja velho… É só que… O tempo está a passar por mim e não sei até que ponto estou a guiar correctamente a minha vida…
Matheu ajeitou-se no banco e esfregou as mãos:
-Eu não te conheço, jovem, mas do que me disseste, consegui perceber que estás a fazer uma boa jornada. Mas, claro, não deixes que os profissionalismos, o dinheiro ou mesmo a pressa te impeçam de cuidar do que realmente importa. Como a família por exemplo. Ouvi o teu amigo a dizer para estares com a tua família e concordo. Não tens saudades da tua verdadeira casa?
David encarou a menina à sua frente e suspirou:
-Nem sabe o quanto, mas…Existem fantasmas… - Deteve-se. Sem querer estava a falar de mais a um desconhecido e nem tinha a certeza se estava a dizer as palavras certas. Já sabia falar bem francês, mas às vezes tropeçava em algumas expressões.
-Deixa-me adivinhar… Mulheres? – Matheu riu-se, sem perceber o quão certo estava.
-São sempre mulheres! – Riu-se David em resposta, com um sabor amargo na língua e sobretudo um ardor no peito que ele insistia em limpar.
Matheu colocou-se com um semblante mais sério e olhou David com atenção:
-De qualquer modo, não sejas tolo. Vai ver a tua família. Quem sabe a dor que vai no coração deles por não passaram as festas contigo.
David assentiu:
-Obrigado. Eu, realmente, estou a pensar ir vê-los este ano, depois de Milão e, entretanto, estou a sentir uma grande curiosidade em aprender italiano!
-Ma sicuramente! – Respondeu o homem divertido.
As árvores passavam mais depressa pela janela. Vicenzo estranhou aquela velocidade, mas era normal que nos dias que corriam os transportes estavam mais rápidos e eficazes. Pelos seus cálculos chegaria a Turim mais depressa do que esperava.
-A sua filha parece estar intimidada por mim! – Observou David – É muito envergonhada, não?
-Envergonhada?! Ela está é a preparar alguma! A mia Giuliana é uma marota!
A menina riu-se, mostrando uns dentes perfeitos. Era uma criança bonita. Tinha cachos de caracóis tão apertados como saca-rolhas, de cor castanha clara. Os olhos eram verdes como as águas cristalinas de uma floresta. Tinha umas bochechas cheias e uns cílios longos, castanhos. Via-se que era bem tratada. Envergava um casaco de fazenda vermelha e sobre os caracóis tinha uma boina branca que lhe parecia dar mais cor às bochechas. Era muito parecida com a mãe, cujo cabelo, apesar de preso, mostrava os mesmos cachos em saca-rolha. Ainda assim os olhos e a boca eram totalmente do progenitor, que esfregava as mãos com frio por causa do ar gelado do Inverno.
-Papà, quando siamo arrivati​​?
-Perché non dormire un po '? Il viaggio è lunga!*****
A miúda cruzou os braços, impaciente.
David sorriu. Olhou pela janela, imaginando o que faria realmente naqueles dias. Ir a Milão era um plano que ele já havia feito antes, por causa de António  mas Matheu e Vicenzo tinham razão. Ele devia visitar a família. Os pais sentiam a falta dele e a irmã tinha um sobrinho para lhe apresentar. Era uma boa época para vê-los, para além de que nem sequer seria obrigado a ir à sua cidade Natal. Bastava ficar-se pela nova casa dos pais e evitava muitos conflitos internos.
O chão voltou a tremer-lhe debaixo dos pés, mas desta vez ele olhou-o. Algo estava errado. Andava demasiadas vezes de comboio para compreender que aquela velocidade era demasiada para os trajectos em questão.
E foi uma questão de segundos para saber que tinha razão.
Em menos de nada, só conseguiu ouvir gritos de espanto e um tremor geral no comboio. As pessoas começaram a cair dos seus bancos, umas por cima das outras em desespero. David só conseguiu ver e menina à sua frente, a gritar de medo, enquanto tentava agarrar a mãe sem sucesso. Ela escorregou com todos os outros, porém, antes que fosse tarde, David cobriu a pequena com o seu corpo para protege-la e envolveu-a nos seus braços, tapando-a com o seu próprio corpo. Depois, pessoas caíram por cima dele e no meio da algazarra ele sentiu calor e as suas vias respiratórias queixaram-se violentamente. Ele tentou piscar os olhos para perceber o que estava a acontecer, mas tudo o viu foi uma nuvem de fumo e uma cor que lhe dava medo. Cor-de-laranja.
Outra vez.




 
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Notas:
*         “Rosália e o Balde de Leite” é um conto infantil que relata a história de uma menina que após encher um balde de leite da sua vitela crescida decide vendê-lo. Pelo caminho para o mercado começa a fazer grandes planos sobre o dinheiro que conseguiria com o leite e gaba-se até a outras pessoas. No final, ela tropeça e entorna todo o leite, estragando todos os seus planos. A moral da história é “Não conte hoje com o lucro de amanhã!”  
 
**-Bilhete por favor!
-Aqui está!
-Boa viagem!
-Obrigado!
 
*** Seu idiota, Antónia! Por tua culpa quase perdíamos o comboio! David,
 tenta encontrar um sitio para nos sentarmos! Depressa!
 
**** Você também é italiano?
-Sim, meu jovem! Eu e minha família viemos conhecer de Genebra e voltamos hoje!
 
*****Papá, quando chegamos?
-Porque não dormes um pouco? A viagem é longa!










Até à próxima e bom regresso às aulas! Matreiro

PS: Não sei se as outras linguas estão bem escritas porque... bom, o google tradutor não é muito confiável! Desiludido
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#203
Wow, só consigo dizer wow... O_o
Nem me passam palavras para descrever este capítulo. Adoro esta viagem de auto-descoberta do David, desde a aprendizagem de novas línguas e aos trabalhos que arranja e sítios que visita. De facto, como disse o italiano, ele está no bom caminho. Quase que tenho pena que a Margarett ainda esteja a ocupar-lhe espaço na cabeça (quase, eu sei que isto é um romance e que não podemos separar definitivamente estes dois...  Desdentado )

Ah... lembrei-me de certas palavras para descrever um determinado paragrafo... Aviso já que não são bonitas! Fizeste de propósito para nos pôr a roer as unhas até tê-las em carne viva não foi, Lulu?! Mad Por uns momentos acreditei mesmo que estávamos a falar da Maggie com o raio do francês (Já nem me lembro do nome dele... é Pierre, não é? Matreiro), até que li as linhas do casamento três anos antes e da descrição da "dona-de-casa". Não me pareceu uma descrição acurada da Maggie. Mas gostei do revês. Foi bom ouvir da Daisy e do William um pouco, já não os via há uns capítulos e deixaram saudades (mais a Daisy do que o Will, mas prontox...). Foi bom saber que vem um pequeno Finkie a caminho e mais sobre as origens da Daisy. Era fofo o bebé, em caso de ser menina, ter o nome de uma flor tal como a mãe Razz 
Hum... se o David voltar para os EUA, há-de comprar a mansão, de certeza absoluta. E é bom que o faça. Não tinha prometido à Maggie que iriam ali viver? Pode não ter a miúda, mas ao menos que tenha a casa Matreiro

Enfim, não posso dizer muito mais. Este capítulo foi muito David e pouco do resto, o que é do meu agrado. O David é daquelas personagens que nunca se deixam de gostar. Aceito este capítulo como prenda de aniversário bem atrasada. Valeu bem a pena a demora por isso, minha cara Lulu, estás livre de qualquer agressão física por minha parte (por agora...Twisted Evil ).

Espero pelo próximo capítulo Very Happy
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
#204
Olá! Smile
Bem primeiro, parabéns atrasados Ana! cheers 
Em relação ao capítulo honestamente a Ana já disse tudo, não posso acrescentar mais nada. Razz
Gostei imenso de lê-lo. Não me canso de ler sobre a vida do David, está muito interessante. Ele está a crescer imenso enquanto pessoa. Apesar da história ser um romance, estar longe da Mag proporcionou-lhe um grande desenvolvimento pessoal. Quando ambos finalmente se encontrarem estarão muito mais maduros, e tenho a certeza que aí será o final feliz que esperamos. Wink

Citando a Ana:
"Ah... lembrei-me de certas palavras para descrever um determinado paragrafo... Aviso já que não são bonitas! Fizeste de propósito para nos pôr a roer as unhas até tê-las em carne viva não foi, Lulu?! Mad Por uns momentos acreditei mesmo que estávamos a falar da Maggie com o raio do francês"

Ana muito obrigada pelo teu comentário. Li-o antes do capítulo o que foi bastante sensato, pois evitei roer as unhas. Razz
Amei a Daisy e o Will, tãoooo fofos, mesmo muito queridos. E o Will tão feliz porque vai ser pai, ohhhh, tão tão cute.Esperancoso 
Como pudeste parar ali Lulu? Isto pode ser considerado violência contra os teus leitores tão fieis.Lagrimas 
Mas que cliffhanger! 
Acho que isto vai trazer à tona muitas memórias dolorosas. E tenho um palpite que isso vai fazer o David regressar aquela mansão, que por acaso vai a leilão, hehe. Ele e a Maggie ainda hão-de viver lá.
Espero ansiosamente pelo próximo! Simpatico2 
Bom regresso às aulas meninas! 
Beijinho*
#205
Catarina... Só hoje é que pude vir ler o capítulo. Desculpa!

Como a Ana disse "WOW" :O
ADOREI! ADOREI! ADOREI!
É capaz de ser dos capitulos que mais gostei... Adorei teres metido a Daisy e o William. E agora vais ter q contar mais coisas sobre eles. Quero saber como vai a relação depois do anuncio de bebé a caminho! Razz

Adorei a maneira como acabas-te a história, e na minha cabeça, imaginei todos a morrerem, e o David a ficar com a pequena Italiana como filha. É isso que vai acontecer não é?! Esperancoso

Por amor de Deus, mete lá o David a ir visitar a familia no Natal, a ver a Daisy grávida, e a comprar a casa! Ele tem que ser o dono da mansão, ele prometeu à Margarret!

Enfim... fico agora à espera do novo capítulo. Como começaram agora as aulas, acho q a ainda vais demorar mais tempo a publicar no vovo capítulo, do que já tens demorado, mas por favor, tenta ser o mais rápida possível!

Beijinhos <3
#206
Yeih eih! Chegou a arrastona das fics com um novo capitulo da vossa História favorita (Sou tão modesta! Laughing )
E pronto, já não é novidade nenhuma que eu demoro sempre muito, mas pronto, desta vez a culpa não foi totalmente minha! Tinha sempre pessoas a interromperem-me os momentos de inspiração ou coisas mais importantes para fazer!
Mas bom, como nunca é tarde demais, trago, finalmente, o tão esperado capitulo! Pronto... se calhar este não era o tal tão esperado... Mad Os meus planos nao correram como eu esperava e ainda não é desta que há um reencontro mas, hey, vocês disseram que queriam mais do William e da Daisy, portanto, já ficam com um cheirinho! Embaracoso

Sem mais demoras,
Boa Leitura!

Capitulo 44 – Fantasmas do passado



“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente.”
 
As portas abriram-se com um estrondo. A pessoa que passou por elas parecia alucinada. Tinha o cabelo despenteado, o rosto suado e uma expressão de desespero. Não obstante, mantinha uma boa aparência. Um vestido pelos joelhos, recto, uns sapatos altos finos e uma mala de marca. O salto agulha batia no chão revelando histeria e pressa em cada passo. Talvez fosse pânico. A mulher da recepção levantou-se rapidamente da cadeira, mas não saiu de trás do balcão:
-Senhorita, não pode entrar aí sem autorização!
Os seguranças rapidamente agarraram a jovem com força, impedindo-a de entrar no corredor.
Ela levou as mãos trémulas à cabeça, em desespero:
-Por favor, deixem-me passar!
O choro foi perceptível. Abafado.
A recepcionista saiu do seu posto para se aproximar:
-Senhorita, tem de preencher uma ficha para fazer visitas! Venha comigo, por favor.
A ordem foi respeitada. A sujeita dirigiu-se ao balcão e retirou um cartão de identificação, enquanto as lágrimas lhe caiam pelo rosto cada vez mais grossas e rápidas.
-Procuro por Dorianne Wilson! Soube que ela deu entrada neste hospital ontem de manhã!
-Possui algum grau de parentesco com a paciente?
-Sim… - Admitiu - Sou a filha.
A secretária olhou por cima dos óculos para ela e entregou-lhe um cartão para a mão:
-A sua mãe encontra-se na sala 215. Vou avisar o médico de que a senhorita está aqui para ele a informar do estado da sua mãe. – A mulher estendeu uma caixa de lenços de papel a Margarett – Vá, acalme-se!
Margarett pegou em meia dúzia de lenços e assentiu. Enquanto limpava as lágrimas, o segurança abriu-lhe a porta e avisou-a para se dirigir à segunda porta à direita. Ela assim o fez.
O corpo trémulo era a única coisa que ela conseguia percepcionar direito. Sentia um gosto amargo na boca.
Sentou-se nas cadeiras de espera encostadas à parede, até que um médico de meia-idade foi ter com ela:
-Margarett Wilson? – Inquiriu o homem.
Ela levantou-se:
-Sim! – Respondeu rapidamente - Diga-me, doutor, o que aconteceu com a minha mãe?
O médico olhou para a ficha de relance e depois, com uma cara que não dava boas noticias, fez um sinal para que Margarett o seguisse.
-A senhora Dorianne Wilson sofreu um Acidente Vascular Cerebral grave. Talvez os danos não tivessem sido tão drásticos se ela tivesse recebido assistência antes, mas tal não aconteceu.
Margarett apertou a blusa contra o peito:
- O quão drástico, doutor?
O homem não parou de andar.
-Bom, a sua mãe sofreu uma hemiplegia ou seja, a lesão ocorrida na metade esquerda do cérebro dela paralisou-lhe o lado direito do corpo. Infelizmente, perdeu também a capacidade de falar. Neste momento a sua mãe precisa de muitos cuidados. É uma fase complexa.
Margarett travou-se com a mão a sufocar-lhe a boca. Não podia acreditar naquilo. Não podia acreditar que algo tão fatal tinha acontecido com a mulher que a dera à luz. A temível e malévola Dorianne Wilson.
-A senhorita terá de ser forte… - Acautelou o médico, abrindo a porta da sala 215.
Ele foi à frente, dirigido a uma paciente de cabelo grisalho sentada numa cadeira de rodas, de costas para eles.
Margarett procurou a mãe, incomodada, no entanto, só quando o doutor a chamou é que ela compreendeu. A mulher, de cabelos grisalhos sentada na cadeira de rodas era a sua progenitora.
O tempo tinha sido duro com Dorianne Wilson. A mulher rija, que parecia não envelhecer de modo algum, estava completamente acabada. Tinha rugas a cobrirem-lhe o rosto, a pele flácida. Estava gorda, mas ao mesmo tempo seca. Tinha roupas feias a cobrirem-lhe o corpo e parecia muito mais velha do que realmente era.
Margarett limpou o rosto corado, desgostosa. Ninguém merecia. Ninguém merecia aquilo, nem mesmo a sua mãe. E pela primeira vez em anos, ela arrependeu-se de nunca ter dado à progenitora uma hipótese de se redimir e de saber do seu paradeiro.
O médico fez um sinal para que Mag se aproximasse e falou à mais velha.
-Como está, Senhora Wilson? A sua filha veio visitá-la!
Um gesto duro surgiu inexplicavelmente. Dorianne Wilson apertou o tecido da bata como se fosse uma bola anti-stress. Notou-se, pela própria respiração, que ela não esperava aquilo e estava ansiosa.
Margarett não se demorou mais. Aproximou-se da mãe e colocou-se à frente dela. O olhar penetrante da mulher tocou-a como um balde de água gelada ao qual Margarett teve de escapar. O médico, compreendendo a dificuldade da situação, deu-lhe umas breves recomendações e afastou-se para lhes dar privacidade. Mal o fez, Margarett deixou as lágrimas caírem-lhe de novo pela cara a baixo. Ela deu uma volta sobre si mesma, baralhada e sem saber o que dizer ou fazer. Encarou o tecto em busca de força para falar, mas tudo o que conseguiu foi morder o punho em desespero. Por fim, tomou coragem e olhou a progenitora de cima. A mulher estava imóvel, excepto a mão que continuava a apertar e a deslargar a bata e o olhar que perseguia a rapariga.
-Porquê, mãe? – Conseguiu por fim dizer – Como é que acabou assim?
A jovem virou costas para limpar a cara molhada e encarou-a de novo, com um fôlego preso:
-Soube de si pela Adeline. Sempre soube. – Assumiu - No entanto você nunca me encontrou, por muito perto que eu estivesse. – Mag limpou os olhos – Nove anos sem me ver… - Reflectiu - Eu fugi de si, mas em alguns momentos perguntei-me se me tinha esquecido. Eu estava tão fácil de alcançar que se tornou ridículo que não me encontrasse... Perguntei-me se fez de propósito… – Ela olhou para a mão da mulher, em busca de resposta, mas não viu mais nada além do apertar incessante – Claro que não… - Respondeu-se sozinha – Então acho mesmo que foi obra do destino. Depois de tantas maldades, Deus não podia mesmo permitir que me apanhasse de novo… Céus… - Ela benzeu-se entre lágrimas – Passou tanto tempo… E eu sinto-me exactamento como no dia que me trouxe para este país. E ainda dói como se tivesse acabado de acontecer.
Margarett puxou uma cadeira para se sentar em frente á mãe e olhou-a nos olhos:
-Porque é que me fez aquilo? Podiamos ter vivido uma vida normal! Eu respeitava-a tanto, mãe. E amava-a, mesmo que você não merecesse! Agora cá estamos, as duas sem rumo… O que vou fazer consigo?
Dorianne gemeu, querendo dizer algo, mas nada saiu. Margarett aninhou-se sobre os seus braços e começou-se a rir, no meio do pranto:
-Sabe o que é mais triste? – Indagou de forma rectórica – Você fez tudo para que eu me afastasse do David. Para eu esquecê-lo. Acreditou tanto que eram apenas as hormonas adolescentes que nunca parou para reflectir em como as suas acções foram erradas… Você arruinou a vida de todos nós. – Completou – Não foi só a minha. Foi também a do papá, a sua, a do David…. – Lacrimejou, abalada – Oh, o David…
A loira colocou o cabelo atrás da orelha e olhou pela janela, ausente. O pôr-do-sol iluminava a sala de cor-de-laranja e, como em todos os anoiteceres da última década, um abalo engoliu-a. Ele deixou os fios de água correrem, em silêncio:
-Às vezes, coloco uma toalha enrolada na outra almofada da minha cama... Então, quando apago a luz, fica uma sombra que me faz companhia. – Gemeu - Parece que tem alguém deitado ao meu lado e eu adormeço melhor assim. - Mag soluçou com mais dor – E eu imagino-o, mãe… E nem sequer sei se ele está vivo ou morto. – O seu tom de voz elevou-se, com raiva - Eu nem sequer sei se ele sobreviveu aos ferimentos daquela noite! – Exclamou desesperada - A minha alma consome-me com esta dúvida… Oh, mãe… Não foi justo! – Ralhou, tentando conter o choro com o lenço ensopado. Depois engoliu em seco e com os lábios a tremer encarou a progenitora - Talvez se eu soubesse que ele está bem eu já o tivesse esquecido… Mas eu não sei! Graças ao seu excelente trabalho, eu nunca mais soube nada do David! O meu David… - A loira travou o choro com muito esforço e abanou a cabeça, desorientada. Depois deixou a testa pousar na sua mão - Eu apaguei-o da minha cabeça, mas às vezes… Eu simplesmente acordo com um sorriso porque sonhei com ele. E parece tão real que quando abro os olhos e apenas encontro uma toalha em cima da almofada começo a chorar como se me tivessem partido as costelas e retirado o coração de dentro. – Inspirando profundamente, a jovem olhou para os sapatos como se fossem um ponto de referência – E nunca ninguém percebeu de onde vinha a minha tristeza momentânea. Eu nunca partilhei isto com ninguém. Iam chamar-me louca e burra por continuar a pensar nisto… E, ironicamente, estou a contar-lhe logo a si. A pessoa que menos aceitou os meus sentimentos em toda a minha vida.
Margarett sentiu algo pesado tombar-lhe nos dedos. Olhou para cima.Era a mão pesada da mãe que a olhava com os olhos em água, imagem que Margarett não esperaria ver em momento algum da sua existência.
-Você é minha mãe, então, eu pergunto-me… Porque é que fez isto? Gostava de saber se você se arrepende, afinal de contas você retirou-me a minha família, os meus amigos e a pessoa que eu mais prezava. Tudo por ganância.
-Eh… - Dorianne conseguiu dizer.
Margarett cessou o seu choro por momentos, à espera de ouvir algo concreto, mas apenas sentiu os dedos a serem sacudidos freneticamente.
-O quê?
-Vah…
Dorianne apertou os dedos da filha com muita força. Queria dizer algo, mas tinha dificuldade.
Então começou a chorar. A chorar com verdadeira dor. Apenas se ouviam gemidos, como se ela estivesse a dizer algo enquanto largava todos os seus sentimentos em lágrimas tão grossas quanto as da filha.
Mag nunca tinha visto aquilo. A mãe a chorar como se alguém tivesse acabado de morrer. Chorou com ela. Deixou a cabeça cair-lhe no colo e sentiu o cheiro que caracterizou a infância com a mãe que ela tanto amara.
-Perdão, Mãe… Perdoe-me para que eu também possa perdoa-la!
-hu…
Dorianne Wilson mexeu-lhe no cabelo. Margarett não soube explicar, mas sentiu que um peso lhe saiu dos ombros. Ela levantou-se e retomou a postura rija. Já não chorava.
-O que faço agora?
-Vai…
Margarett não teve a certeza que aquilo tinha sido uma palavra, mas o gesto que a seguiu foi esclarecedor. A mãe estava a fazer um gesto óbvio. Estava a manda-la embora.
-Mas eu não posso deixa-la assim, mãe.
O gesto prosseguiu, mais rápido e aflito.
-Va-i!
-Para onde?
Dorianne apontou para a janela:
-Casa…
Mag olhou pela janela. Estava a ficar mais escuro, mas ela sabia que não estava a ser mandada para a sua casa em França. Estava a ser mandada para Casa. Para junto do pai e da nova família. E há anos que Margarett o queria fazer, mas sempre com medo de arriscar.
Pela primeira vez em anos, sentiu o impulso que precisava para retomar às origens.
Ela levantou-se e deu um abraço apertado na mãe. Um abraço de despedida.
-Eu vou, sim! Adeus mamã…
 
***
A casa não estava silênciosa pela manhã. Ela não sabia o porquê. Normalmente, não era acordada com um riso tão feliz de David. Saiu da cama, curiosa, e vestiu um robe de seda. A luz matinal era tão branca que ela teve de semi-cerrar os olhos para conseguir habituar-se a ela e percorrer o caminho até à sala de estar, para encontrá-lo.
David estava com uma expressão feliz no rosto. Tão feliz que ela não era capaz de descrever. Tinha um envelope aberto na mão e uma fotografia.
-David! – Chamou com um sotaque arranhado – O que se passa?
David encarou-a. Parecia ter de novo 18 anos ou menos. Sentia-se como um miúdo a abrir o presente do pai Natal. Estava Feliz.
-Vem cá! – Disse ele, entusiasmado.
A jovem foi em bicos de pés porque tinha deixado as chinelas ao pé das escadas. Colocou-se atrás dele, apoiada no sofá em que ele se tinha sentado:
-O que é isso?
-A nossa casa! – Anunciou, observando a reacção dela com um sorriso largo - Está pronta!
 
***
 
No Aeroporto, a familia Paisen mantinha-se agitada. Era um dia feliz, tendo em conta que uma grande mudança estava a acontecer nas suas vidas.
Tinha passado quase uma década. Uma década fora do país e sem a família tinha sido tanto tempo que nem sequer era fácil saber como reagir àquilo.
Neil estava impaciente. Não sabia porque tinha de estar ali com os avós maternos e com os pais. Lá porque ia conhecer finalmente o seu tio, não era desculpa para ter sido obrigado a deixar a brincadeira com os amigos de lado. Não teria sido problema nenhum se tivesse conhecido o tio apenas quando ele chegasse a casa. Mas a sua mãe, mandona e chata como era, não deixou. E entretanto ali estava ele, a olhar para as portas de chegada, sem sequer saber como se parecia pessoalmente a pessoa que estava à espera.
A avó Grace chamou-o para o pé de si e ele aceitou. Gostava de avó. Dava-lhe caramelos sem que a mãe soubesse e tornava tudo menos cansativo. Ele empoleirou-se nas grades que o separavam da saída dos passageiros recém-chegados e esperou que elas se abrissem. Reparou que a avó estava nervosa e o avô também estava ansioso.
-Ainda falta muito? – Perguntou, aborrecido.
A avó nem precisou de responder. As portas abriram-se e ela saltou para tentar encontrar o filho. Vinham muitas pessoas, o que tornava difícil ver direito entre a multidão. Ela estava a ficar aflita.
-Mãe!
Grace Paisen deu um salto com a surpresa. As suas pernas já não eram tão fortes como na sua juventude, mas mesmo assim, teve forças para correr na direcção do chamamento.
De braços abertos, David recebeu-a com o tom amistoso que o caracterizava e apertou-a com força até a levantar do chão:
-Ai, meu filho! – Mrs.Paisen segurou a cara do filho e encheu-a de beijos, entre lágrimas.
David só se ria, mas nem por dois segundos soltou a mulher que o criara.
-Finalmente!
-Tive muitas saudades! – Declarou o rapaz, agora um homem feito.
-David! – Vicky acenou, eufórica. Tal com os restantes membros da família, esperava-o do lado de fora das grades.
Ele riu-se divertido e soltou a mãe para ir ter com os restantes. A sensação que ia no seu corpo era electrizante, como se tivesse voltado a ter 17 anos outra vez.
-Vicky, estás tão velha! – Afirmou na brincadeira.
Neil olhou para a mãe, a rir-se em tom de troça, porém, admirou-se quando Vicky abraçou aquele sujeito com um riso feliz.
-Cala-te seu parvo! – Protestou ela.
David deu-lhe um beijo na cara e depois abraçou o pai com alegria.
Por fim, cumprimentou o cunhado e olhou para o mais pequeno:
-Então, este é que é o Neil? – Indagou, risonho na direcção do miúdo.
O rapaz, eléctrico, pôs a língua de fora pronto para fugir dali, mas Vicky agarrou-o:
-Acho que ele saiu a ti. – Afirmou.
David baixou-se ao nível do rapaz e estendou a sua mão:
-Olá Neil! Sou o teu tio David. Estou feliz por te conhecer!
-A minha mãe disse-me que trazias chocolates caros. Só por isso á que eu vim!
David gargalhou com aquilo. Sim, o rapaz tinha semelhanças com ele próprio.
-Chegando a casa já tos dou! – Respondeu.
Num instante, voltou a sentir-se abraçado pela mãe:
-Estás tão magrinho, filho! Vou fazer o teu prato favorito para o jantar!
David revirou os olhos, mas sorriu:
-Obrigado, mãe!
Ele olhou por cima do ombro, finalmente.
A uns metros de distância dele, com uma mala na mão, estava uma silhueta feminina parada a olhá-los. As curvas delgadas estavam aligeiradas pelo vestido recto. Tinha o casaco de fazenda pendurado no braço e um chapeu de veludo em cima dos caracóis em saca-rolhas. Parecia constrangida por estar ali sem conhecer ninguém, o que divertiu David:
-Vem cá, pequena!
Ela corou ligeiramente, mas sorriu perante os olhares admirados dos anfitriões.
Em passinhos ligeiros, ela aproximou-se de David, que a recebeu com muito calor:
-Familia, finalmente posso ter o prazer de vos apresentar. Esta é a Giu!
Ela curvou a cabeça em tom de respeito e saudou toda a gente com um sorriso.
A rapariga era muito bonita. Tinha uns olhos claros que se destacavam graças ao cabelo castanho claro, que lhe emoldurava o rosto oval com caracóis perfeitos. A pele era nitidamente suave e hidratada. Por coincidência, fazia uma covinha discreta ao sorrir tal como David. Tinha os lábios finos, num tom de pêssego maduro. A estatura era baixa, mas muito formosa e delicada. Era bastante jovem, obviamente.
-É um prazer conhecer-te pessoalmente! – Mrs. Paisen apressou-se a dizer, abraçando a rapariga.
-Obrigada, Mr. Paisen. - O sotaque da jovem era carregado, mas tinha uma voz vivaça.
Todos cumprimentaram a rapariga de que tinham ouvido falar por tanto tempo e por fim, Mr. Paisen pronunciou-se:
-Bom, vamos para casa? – Sugeriu.
Todos assentiram e deslocaram-se pela área do aeroporto.
David foi ficando para trás sem que ninguém se apercebesse. Sentia-se um pouco nervoso.
Olhou para o céu quando chegou ao exterior e inspirou. Arrepiou-se de imediato.
Aquele ar… Todas as suas lembranças se despertavam a cada movimento e isso era quase aterrorizante. Fazia-o suar.
David limpou a expressão de incómodo e forçou um sorriso quando alcançou o automóvel que o levaria para a casa dos pais.
Foi como se regressasse no tempo. A comida da mãe, o riso histério da irmã e o controlo do pai. Sentiu-se mais miúdo do que o próprio sobrinho.
E riu-se. Muito.
Por horas esqueceu dos assuntos que tinha a tratar e do nervoso miúdo que tinha sentido durante toda a viagem. Giu inseriu-se bem na família. Não falava especialmente bem Inglês, mas com a sua ajuda desenrascou-se muito bem.
Ao fim da noite, foi a hora de irem embora. David tinha uma casa na sua cidade natal e por muito estranho que fosse, ele teria de lhe dar uso. Ele e Giu apanharam um táxi quando se sentiram demasiado cansados para continuarem na casa dos pais dele e fizeram-se à estrada.
-Estás muito tenso… - comentou a jovem, na sua língua materna - O que foi?
-Nada… - Respondeu ele automaticamente.
Giu encolheu os ombros e encostou a cabeça a ele, cansada.
David olhou pela janela, vendo as casas a passarem por ele e as paisagens a tornarem-se cada vez mais familiares. Sem querer, riu-se quando entrou na cidade em que tinha sido tão feliz. Riu-se pela saudade e pelas sensações que se despertaram dentro dele. Um misto de felicidade e horror. Ao mesmo tempo que o sorriso perdia a força, sentia os olhos marejados. Felizmente para si, a sua companhia já dormia e o taxista não lhe conseguia decifrar o rosto. Só Deus sabia o quando lhe estava a doer voltar ali, por muitas saudades que tivesse. Observou as mudanças que haviam ocorrido nas ruas, as novas lojas, os restaurantes, as pessoas, a moda, os jovens. Ele abriu a boca quando reconheceu o Lili’s Diner, agora maior e mais iluminado. Era incrível. Sentiu curiosidade em saber o que era feito dos amigos da adolescência, mas não aprofundou muito essa vontade.
Quando o táxi chegou ao destino, os grandes portões de ferro abriram-se e ele entrou na propriedade, fazendo David estremecer. Quando o carro finalmente parou, ele deu um toque no braço da companheira para que ela acordasse, pois já não conseguiria levá-la ao colo, mesmo que quisesse.
Ela vestiu o casaco grosso e abriu a porta para o exterior frio de Inverno. Do lado de fora, já havia um homem a esperá-los. David pagou ao taxista e saiu para junto dos outros dois:
-Boa noite, Augusto! – Disse.
-Boa noite, senhor! – Respondeu o homem com um porte que não deixava ninguém ter dúvidas de que ele era o mordomo da casa.
-Podes acompanhar a Giu para casa e mostrar-lhe o quarto dela, por favor. Eu levo as malas.
O homem assentiu e pegou apenas na mala da rapariga para levar para dentro ao mesmo tempo que a conduzia.
David pegou nas outras duas malas quando o táxi partiu e suspirou.
Olhou para a grande mansão. Ele próprio não podia acreditar naquilo. Não podia acreditar que estava de volta e que tinha conseguido fazer um trabalho tão bom mesmo à distância. Olhou para o jardim, bastante bem arranjado e depois subiu as escadas da entrada e hesitou antes de pôr o pé direito no chão do interior.
Já havia um cheiro característico lá dentro. Cheirava a novo. Ele achou que assim seria mais fácil, mas enganou-se. Quando entrou na casa, sentiu o tecto a cair-lhe em cima.
A estrutura estava idêntica ao contrário da decoração que não tinha nada a ver. Estava mais moderna.
-A menina Giuliana já se deitou.
David assustou-se com a presença de Augusto.
-Obrigado. Podes ir descansar.
O homem assentiu.
-Pois bem, boa noite, senhor!
-Boa noite, Augusto!
O homem aposentou-se dali.
O mordomo tinha sido contratado a preceito. Era italiano de raiz, que vivia na cidade desde jovem, pelo que falava fluentemente ambas as línguas. Seria uma grande ajuda para Giuliana ter alguém que falasse também a sua língua.
Quando David se viu sozinho, deixou as malas no corredor e dirigiu-se à sala de estar. Os móveis estavam dispostos da forma que ele havia indicado. Ele aproximou-se do armário e pegou na garrafa do Whisky e num copo onde colocou duas pedras de gelo. Encheu o copo até cima e sentou-se no sofá, de frente para a lareira. Não tinha intensões de beber, no entanto, era demasiado difícil estar sóbrio dentro daquela casa. A casa que quase lhe retirara a vida 9 anos antes, a casa onde partilhara bons momentos… Ele tomou um gole, amaldiçoando-se por se ter colocado numa situação tão masoquista, mas tinha de ser. Tinha perdido anos a tentar compor-se para voltar. E agora que tinha voltado, tinha de aprender a viver com aqueles fantasmas para poder esquecê-los de vez.
 
Na manhã seguinte, David acordou com uma grande dor de cabeça. Tinha o corpo torto por ter dormido no sofá. Viu as horas no seu rolex e ao perceber que ainda era cedo, levantou-se para aproveitar bem a manhã. Dirigiu-se à cozinha, cuja estava equipada com os electrodomésticos mais modernos e fez um café para si. Depois, vestiu o casaco quente e dirigiu-se ao exterior. Ficou admirado ao observar como tinha crescido a pequena maceira, e sentiu pena por não haver nenhuma maçã. Sentiu saudade daquele sabor.
Pacientemente, ele deslocou-se às traseiras da casa e percorreu o trajecto que dava para o novo estábulo que mandou construir. Tinha comprado um cavalo a um fazendeiro e pelas suas contas ele já devia ter chegado uns dias antes. Quando entrou na cavalariça riu-se da doce vitória. Ali estava exactamente o que tinha pedido.
-Olá Veloz! – Saudou, dando duas palmadas no lombo do animal castanho de crina e cauda escuras que o estranhou no primeiro momento.
O animal relinchou, mas David apressou-se a acalma-lo. Apesar de estar frio, não resistiu a colocar-lhe uma cela e levá-lo para o exterior pelas rédeas.
Com atenção para não assustar o novo cavalo, montou-o lentamente. A propriedade que rodeava a mansão era grande. Mais larga do que antigamente, devido à compra da área vizinha. Assim, David aproveitou o espaço para cavalgar pela primeira vez no novo Veloz.
A sensação foi tão relaxante como ele se lembrava. Depois de se sentir satisfeito o suficiente, levou-o de volta para a cavalariça e retomou a casa. Foi reconhecer-lhe as diferentes áreas e quando chegou ao seu quarto novo, abriu os armários para se vestir decentemente. Antes, tomou um duche.
Augusto acordou quando ele já estava vestido, pronto para sair de casa. David deu-lhe algumas recomendações sobre Giuliana e depois saiu.
Tinha de ir ao banco cambiar o dinheiro e queria também desfrutar um pouco do que a cidade lhe tinha para oferecer.
Dirigiu-se à garagem, curioso. Tinha questionado o mordomo sobre o seu carro e ele havia dito que ele já tinha chegado.
David ia vê-lo pela segunda vez, apenas, sendo que a primeira tinha sido numa fotografia. Soltou um suspiro de admiração ao enfrentar a máquina.
Era um carro ostentoso, que só mesmo um acto de loucura é que o levaria a comprá-lo. Mr. Denvers foi quem o atiçou.
Aquele velho barrigudo!, pensou David, rindo para si mesmo. O negócio tinha sido feito por Mr. Denvers. David nem sequer se tinha envolvido muito. Apenas chegou o dinheiro à frente e deixou a decisão ao cargo do mais experiente em automóveis. Mr. Denvers tinha-lhe mandado uma fotografia do veículo umas semanas antes e David ia experimentá-lo pela primeira vez. Era vermelho, reluzente. Talvez fosse um pouco sumptuoso demais, mas ainda assim uma bela máquina.
David pegou na chave do carro e entrou dentro dele. Cheirava a novo tal como a casa, mas era um cheiro mais intenso. Observou que o depósito estava cheio e isso agradou-o. Ele rodou a chave, meteu a mudança e largou a embraiagem devagar. O motor soou como um bebé. Deslizou para fora da garagem como se estivesse a guiar-se sozinho, sem esforço. David relembrou-se que teria de ligar a Mr. Denvers para agradecer. Ele não faltou às suas expectativas, muito pelo contrário. David inquiriu-se se o valor que ele tinha oferecido tinha sido o suficiente para aquilo.
Ele olhou em redor à medida que ia pela estrada. Uma parte de si buscava encontrar alguém conhecido, mas não teve sorte.
Quando chegou ao centro da cidade, estacionou perto da praça principal e pegou na sua mala de mão, onde continha todos os seus documentos importantes e algum dinheiro. Ele saiu do veículo e trancou-o para fazer o restante trajecto a pé.
As pequenas modificações da cidade não eram o suficiente para ele se sentir deslocado. Continuava a conhecer todos os cantos, todas as pedras da calçada e algumas das personalidades que já faziam parte da paisagem, como a florista e o padeiro. Ele sorriu para si mesmo feliz com aquilo e, por fim, entrou no banco. O interior estava diferente do que se lembrava, e as caras também lhe eram desconhecidas. Perguntou-se se Mr. Finkie ainda era o banqueiro mais prestigiado da cidade, mas não teve tempo de se responder, pois depressa foi atendido por uma sujeita mais velha do que ele.
Ele explicou-lhe o que pretendia e ela deu-lhe a indicação para se dirigir à zona de câmbio.
David seguiu as indicações, alheio ao facto de estar a dirigir-se para perto de alguém conhecido. Quando chegou à secção de câmbio, analisou um conta que tinha feito num papel, para ter a certeza que não se enganava nos valores das diferentes moedas.
-Bom dia, qual é a quantia?
David levantou o olhar, apanhado de surpresa:
-William?!
Do outro lado do balcão, o homem que se mantivera atento a umas fichas, levantou também o olhar ao reconhecer aquela voz. Incrédulo com o que os seus olhos viam, levantou-se da cadeira sem reacção:
-David?! Tu voltaste!
David abriu a boca para se rir alto. Estendeu a mão para William e este apertou-a com entusiasmo:
-Seu sacana, pensei que nunca mais ia saber nada de ti!
-Continuas o mesmo, Finkie! – David gargalhou, divertido – O que raio fazes num banco? Sempre pensei que ias ser médico.
William mostrou-se desligado daquela observação. Estava atónico com a surpresa.
-O sangue não era para mim. Além disso, o meu pai só me tinha a mim como sucessor. Mas e tu? Bolas, passaram quantos anos? Sete, oito?
-Nove, na verdade.
-Bom, senta-te, por favor. – Convidou William sentando-se de novo na sua cadeira – Deus, o que tens feito todo este tempo? Nunca mais deste notícias!
-Oh, tantas coisas! Mal tive tempo para respirar… Literalmente. – David mostrou a sua bomba de asma irónicamente – E tu? Mantiveste-te por aqui?
-Sim, claro! Felizmente nunca precisei de deixar a cidade. – Assumiu, mais calmo - Mas bom, vamos ao que interessa antes que se acumule uma cambada de pessoas furiosas á nossa volta – Observou, enquanto apontava na direcção de de um velho homem que não tirava os olhos do relógio.
David assentiu, mas não deixou de falar.
-Quero cambiar liras Italianas para dólar, por favor!
-Italia, hein? – William riu-se, apontando o pedido.
-É verdade! – Concordou David, estendendo a sua mala a William.
Este, quando verificou a quantia do interior, empalideceu. Era muito dinheiro. Mais do que esperava encontrar naquele dia inteiro.
Com um ar profissional, ele fez de conta que não estranhava aquela verba e prosseguiu com a conversa:
-E que tal Italia? Em que cidades estiveste?
-Estive em Milão e Florença. Eu gostei muito de lá viver. – Afirmou - É tudo muito tradicional!
-E os Italianos pagam muito bem, presumo.
David riu-se e encolheu os ombros:
-Não me posso queixar.
-Estou ansioso por contar á minha esposa que tu estás cá!
-Esposa? – Perguntou David, admirado – Estás casado William?
Will riu-se, victorioso, sobretudo pela doce ironia que David desconhecia:
-Já lá vão quase cinco anos.
-Não acredito, Finkie! – Protestou o recém-chegado - E eu que sempre jurei que ias acabar só! Quem foi que te caiu da teia?
Com aquilo William riu-se mais alto. David ia trepar paredes quando descobrisse. Por conseguinte, achou que seria mais divertido fazer suspense:
-Porque não vens jantar lá a casa esta noite? É uma excelente forma de falarmos e aproveitas para conhecer a minha mulher e os meus filhos. Que me dizes?
-Filhos?! – David abriu a boca, incrédulo, mas deixou-se vencer – Muito bem, eu aceito. Mas podes guardar lugar para outra pessoa?
William semicerrou os olhos, desconfiado:
-Hum, estou a ver que não estás só. Sim, fica á vontade! Vou escrever-te a minha nova morada. – Disse, pegando numa folha em branco para apontar o endereço. Depois dobrou-a e entregou ao cliente.
Para não se demorar muito mais, William calculou os valores correspondentes entre as duas moedas e dirigiu-se a uma sala atrás de si, depois de colocar um código de acesso secreto.
David esperou, pacientemente, com a pulga atrás da orelha para saber qual tinha sido o destino do rapaz - agora homem de família – com quem tanto brigara na infância.
William voltou ao seu lugar e consigo trazia um envelope cheio. Colocou as notas numa máquina que as contou duas vezes para confirmar a quantia.
-Bom, podes confirmar. A seguir dirige-te á secretária e lá ela diz-te o resto. E até logo à noite! Não te esqueças!
-Obrigada, William! Vemo-nos mais tarde. Tem um bom dia!
David levantou-se e saiu dali. William, vendo-se sozinho, arregalou os olhos perante o seu choque que parecia ainda não ter terminado.
Ele atendeu os clientes seguintes e à hora de almoço, dirigiu que nem um louco para casa. Daisy não ia acreditar. Ou melhor, ele não lhe ia dizer. Já estava mesmo a imaginar ela a gritar coisas em espanhol, ainda mais chocada do que ele próprio. Isso seria mais divertido se ela fosse mesmo apanhada de surpresa. Ele gargalhou antes de entrar em casa, divertido com a sua ideia.
Entrou de rompante em casa. Cheirava a comida. Foi à cozinha e viu Daisy de costas, no meio das panelas. Ele agarrou-a de surpresa e deu-lhe um beijo intenso sem ela ter tempo de olhar para a cara dele.
-Logo á noite vamos ter visitas! – Disse, mal descolou os lábios dos dela.
Daisy respirou fundo, ofegante:
-O quê?! William, pareces um furacão! – Riu-se.
Ele riu-se também e voltou a dar-lhe um beijo, desta vez mais rápido:
-São dois convidados para jantar. Capricha, meu amor!
-Esta noite? William devias ter-me avisado com antecedência! Mas quem é que vem cá, afinal?
-Logo vês! – Respondeu saindo da cozinha para se deslocar à sala.
-Will, isso não é resposta. – Protestou ela, impaciente, antes de o seguir.
Foi até à sala, onde ele já estava os miúdos.
-William, estás muito misterioso!
-Daisy, não te aflijas! Só tens de preparar o jantar para mais dois.
-Para mais dois? Podes ao menos dizer-me se bem cá alguém importante? Eu não vou estar a inventar sem saber para quem é!
-Daisy, tudo o que tu cozinhas é delicioso. Qualquer coisa serve, a sério, amor! Não fiques preocupada.
A latina deixou-se vencer. Voltou para a cozinha e deixou o marido e os filhos na sala.
Daisy não podia imaginar o que ia na cabeça de William. A verdade é que a notícia lhe tinha causado um nervoso miúdo no estômago. Não era costume ficar assim, mas a sua intuição parecia querer avisá-la de algo importante e quando isso acontecia não era nada fácil.
Graças a isso, aproveitou a tarde para fazer uma limpeza geral á casa e arrumar os brinquedos das crianças num sítio mais apropriado. Depois, decidiu fazer uma receita de frango no forno que a sua abuela lhe ensinara e aproveitou de ter o forno ligado para fazer um bolo de chocolate para a sobremesa. Não havia nada melhor no Inverno do que comidas quentes.
Um pouco antes da hora de William chegar a casa, Daisy foi dar banho aos miúdos e vestiu-os com uma roupa mais apropriada. Nem demasiado formal, nem demasiado desleixada. As crianças, tal como ela, inquiriam-se o porquê daquilo.
(para os mais distraídos, o capitulo continua no próximo post!)
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#207
(A primeira parte do capitulo está em cima, no post anterior!)
Quando William chegou manteve o mistério. Deu um beijo na mulher e nos mais pequenos e foi tomar um duche. Foi o único que se mostrou à vontade na indumentária e ainda se riu da fúria que passava pelo olhar de Daisy.
-Hum, cheira deliciosamente bem!
-William, sinto que estás a gozar com a minha cara.
Ele fez um trejeito maroto. Mal conseguia imaginar como é que ela ia reagir.
Olhou para o seu relógio de pulso e fez um ar desprendido:
-Devem estar quase a chegar.
Daisy bufou, irritada:
-Ah, bolas, Will! Vou pôr a mesa!
William agarrou-lhe o pulso e puxou-a de volta até ele. Deu-lhe um beijo rápido e depois deixou-a ir, ainda irritada.
Conseguiu escutar o tilintar dos talheres a serem dispostos sobre a mesa da sala de jantar e depois os pratos. Lá de dentro, ouviu também as crianças a balbuciarem coisas sem nexo. Decidiu ir à cozinha para beber um copo de água e ao último gole, a campainha soou. Ele confirmou as horas e pousou o copo no balcão:
-Eu vou lá! – Avisou.
Sem esconder o tom trocista que pintava o seu rosto, William Finkie deslocou-se à porta para receber os convidados.
Quando abriu, deparou-se com um David impecavelmente vestido e, ao lado dele, uma jovem de cachos castanhos e olhos claros. Sorriu, animado, e convidou-os a entrarem.
-Trouxe um vinho para vocês. Directamente de Italia!
-Hum, parece-me bem. Obrigado!
David olhou o corredor, atento aos sons infantis que pareciam vir de crianças.
Ele inalou profundamente. Para além de cheirar a algo apetitoso, ele reconheceu uma fragancia familiar no ar. Todavia, não conseguiu dizer de onde conhecia o aroma.
-Vou chamar a minha mulher! - William não conseguiu evitar de soltar uma gargalhada impostora - Querida, vem cá! As visitas chegaram.
David estreitou as sobrancelhas. Escutou uma voz de criança no fundo e atentou no paradeiro dela.
Depois, só teve tempo de abrir a boca, ao ver trespassar pela porta uma mulher de pele morena, cabelo negro ondulado pelos ombros e curiosamente familiar com uma menina de aproximadamente um ano no colo.
-Não acredito! – Exclamou David olhando de William para Daisy, alternadamente.
Ela, demasiado distraída a tentar soltar o cabelo das mãos pequenas mas rijas da menina, levantou o olhar com curiosidade, mas sem grande expectativa.
Quando o fez, porém, deu um grito histérico que fez a criança soltar-lhe de imediato as madeixas escuras, assutada:
-Oh meu Deus! Oh meu Deus! – Exclamou, entregando a filha ao colo de William – Por Dios! – Ela tapou a boca e só conseguiu assimilar o riso estontente de David, com a mesma surpresa que ela – Oh, não acredito! – Ela olhou William, estupefacta. As lágrimas de alegria já se estavam a juntar nas suas orbitas – Não posso crer!
David abriu os braços para ela, risonho e receptível como ela o recordava. Daisy lançou-se num abraço apertado de saudade:
-David! – Proclamou finalmente. Depois soltou-o e analisou-o, ainda histérica – És mesmo tu!
-E és tu! – Respondeu ele apontando para William.
Daisy soltou David rapidamente e virou-se na direcção do marido:
-Seu safado, não acredito que não me disseste nada! – Praguejou, dando-lhe pequenos murros de raiva e felicidade. Depois desatou num choro inconsolado, agarrada ao braço dele.
No meio daquilo tudo, nem as crianças compreendiam o que se passava, nem a jovem acompanhante de David.
Este, por sua vez, tornou a soltar uma gargalhada, em cumplicidade com William que de um lado era agarrado por Daisy e do outro segurava a sua pequena.
-Daisy, esperava tudo, menos chorares!
Ela deu-lhe outro soco no braço e largou-o. Limpou a cara e controlou respiração com os olhos postos no tecto:
-Bastardo impostor, me engañó derecho! – Resmungou.
-Ui! – Murmurou a jovem que estava ao lado de David, apanhada desprevenida pelo palavreado.
-El Finkie siempre ha sido un tramposo. – Respondeu David.
Daisy estagnou:
-Desculpa?! David, acabaste de falar espanhol?
Ela tapou a boca de novo, surpreendida.
-Só um pouco. Não te habitues!
Daisy riu-se e voltou a abraçar o velho amigo:
-Oh meu Deus! Eu pensei que nunca mais te ia ver... Olha para ti! E quem é esta? – Questionou, encarando a jovem, confusa.
David separou-se de Daisy e apresentou-a:
-Esta é a Giuliana! Giu, estes são a Daisy e o William Finkie, meus velhos amigos. E a filha, presumo.
-Olá, Giuliana! – Daisy saudou-a com dois beijos amistosos no rosto – És muito bonita!
William franziu as sobrancelhas, intrigado. Aproximou-se um pouco mais de David, ainda com a filha nos braços e discretamente perguntou:
-Ouve lá, Paisen. Ela não é muito jovem para ti?
David olhou William com perplexidade. Corou, até.
-Desculpa?! – Indagou o forasteiro - Ela não é minha namorada!
-Que nojo! – Protestou a rapariga, que num instante se tinha mostrado reservada e de repente se saiu com aquela deixa tão indiscreta.
Daisy sentiu-se envergonhada:
-A mim também me pareceu demasiado nova, mas eu não ia dizer nada.
-Ela tem 13 anos! – Refutou David e de seguida suavizou o seu tom de voz para elucidar o casal – Ela é a minha família!
A latina, sempre amável como era, desculpou-se directamente à rapariga:
-Bom, mas já és uma mulher crescida e formosa! Eu diria que eras um pouco mais velha. Talvez 15 ou 16 anos!
-Não, mas eu cresci depressa. – Respondeu a jovem com um sorriso largo e um sotaque apertado.
-De onde vens com essa forma de falar tão diferente? – William quis saber.
-Itália! – Respondeu ela.
-Oh, Europa! – Daisy agarrou-lhe as mãos, compreensiva – Eu nasci em Espanha! Mas espera – deteve-se – Itália, David? Foi por lá que andaste todos estes anos?
-Bom e que tal falarmos disso à mesa? – Sugeriu Will – E já agora, vamos apresentar os nossos filhos! Esta é a nossa pequena flor, a Rose – A menina tapou o rosto no pescoço de William, envergonhada, e Daisy dirigiu-se a ela.
-Oh! Diz olá, Rosinha!
A menina riu-se sem mostrar a cara. David sorriu, maravilhado. A criança era a cara idêntica de Daisy, mas tinha um traço de William muito carregado: Os olhos verdes.
Daisy pegou nela ao colo e aproximou-se de David com ela:
-Olá Rose! – Saudou David, pegando na mão da rapariga. Ela riu-se, mostrando apenas 6 dentinhos pequeninos.
 Tinha um ar muito tímido, mas divertido. O cabelo era curto e muito escuro como o da mãe, bastante encaracolado. Tinha um laçarote azul no cabelo e um vestido do mesmo tom com flores brancas.
-Vai ao colo do David, querida! – Incentivou William.
David hesitou por momentos, mas depois aceitou a menina nos seus braços. Ela ficou a olhar para ele, observadora.
-Não acredito que concebeste uma coisa tão bonita, William! Ainda bem que ela saiu mais à mãe.
Giuliana riu-se e Daisy também. William fez ar de zangado, mas ignorou:
-Pois sim! Falta o Thomas… Onde está?
-Na sala! – Respondeu, Daisy – Venham!
Entraram todos na sala de jantar, onde já estava tudo a postos para a refeição. No chão, a brincar com um carrinho, estava um menino mais velho do que Rose:
-Thomas, cumprimenta os convidados! – Incentivou Daisy.
William pegou no rapaz que sem grande interesse disse um simples “olá!”. Ele, por sua vez, já era mais semelhante a William. Tal como a irmã, tinha o cabelo negro como o da mãe, mas os traços do queixo e do nariz eram completamente do William, tal como a cor dos olhos.
David achou a situação muito enternecedora. Por momentos sentiu-se com inveja da família que os velhos amigos tinham criado na sua ausência. Por momentos até se sentiu velho. Vinte e seis anos e ainda não tinha nada. Ok, talvez “Nada” não fosse a palavra certa. Tinha construído um pequeno império. Estava rico! Tinha o carro mais potente da actualidade, uma mansão com uma propriedade grande o suficiente para poder cavalgar, negócios noutros países e uma conta choruda no Credit Suisse, em Zurique. Mas, por muito que tivesse avançado financeiramente e culturalmente na sua vida, não tinha aquilo, ainda. Não tinha uma esposa que o recebesse ao fim do dia, não tinha filhos a importunarem-no a toda a hora por situações banais, mas bonitas. Raios! Se não fosse Giuliana, ele não teria mesmo nada. Era apenas um homem solteiro que apesar de ter muitos amigos, era um solitário.
David limpou esses pensamentos da sua cabeça e olhou para Rose, no seu colo. A menina estava entretida com a textura do seu casaco de inverno. David sorriu e deu-lhe um beijo na testa antes de a entregar a Daisy.
Giuliana Já se tinha sentado a convite dos anfitriões. O jantar ia ser servido.
Sentaram-se todos enquanto Daisy foi buscar a refeição do forno.
Ela voltou com um bonito e apetitoso assado.
Fez questão de servir os convidados primeiro e depois o marido e os mais pequenos.
-Bom, já estamos sentados. Conta-nos David! Onde andaste estes anos todos? – Incentivou William.
David provou a receita de Daisy. Era uma junção de sabores deliciosa.
-Começou tudo na Irlanda! – Disse ele – Estive lá a viver uns anos por causa da minha saúde. Trabalhei para uns fazendeiros até eles falecerem. – O cenho de David fechou-se ao dizer aquilo – Eram boas pessoas.
-Gostaste? – Daisy perguntou, curiosa – Quero dizer, tu nunca tinhas vivido no campo!
David assentiu:
-Sim, gostei. Mais do que esperava até. Consegui encontrar algum equilíbrio lá, amadurecer um pouco, esquecer os problemas… - Ele disse esta parte mais baixo, mas tanto Daisy como William perceberam a que problemas ele se referira. Porém, preferiram não dar asas ao assunto.
Daisy encheu uma colher de arroz para dar á boca de Rose e depois cortou a carne de Thomas para ele conseguir comer sozinho.
-Quanto tempo lá estiveste? Lembro-me de os teus pais voltarem para cá e irem viver para a cidade vizinha, sem ti.
-Bom, eu envolvi-me num… Projecto. Se é que lhe posso chamar assim.
William mostrou-se interessado. Embora não tivesse comentado nada,queria uma explicação para a grande quantia que David apresentara naquela manhã.
-Que tipo de projecto?
-Bem – David limpou a boca no guardanapo -, um empresário Inglês estava interessado nos cavalos de Mr. Bards, o meu patrão, e convenceu-o a inscrever o seu melhor cavalo a competir.
-E o que é que tu tens a ver com isso? – Daisy franziu as sobrancelhas.
-Eu tinha aprendido a cavalgar. E bastante bem, por acaso. Então eles chegaram ao acordo de que, se eu assentisse, seria o joquei do Veloz e iria para as competições de turfe com ele.
-E foste?
-Sim. – Afirmou - As apostas tinham duplicado naquele ano e Mr. Denvers, o milionário, queria-me vencedor. Se eu ganhasse, retirava uma grande fatia do lucro para mim. Fui treinado com o meu cavalo e depois disso, foi sorte. Competi até o meu cavalo morrer. No entanto, aquilo roubava-me muito tempo, e comecei a ver menos os meus pais. Então quando fui capaz de me desenrascar sozinho, eu próprio lhes comprei passagens de avião para voltarem. Não os quis prender mais, daí eles terem voltado e eu não. Gostei daquele desporto, honestamente, mas não consegui voltar a correr. Estava demasiado afeiçoado a Veloz para me voltar a pôr naquela situação depois de ele morrer.
William serviu-se de salada e depois olhou David com atenção:
-Então e depois? O que fizeste? Se paraste de competir…
-Viajei! – Interrompeu David – A minha patroa faleceu e eu fui quem restou da fazenda. Então fiquei com os bens em meu nome. Fiz negócio com Mr. Denvers, vendendo-lhe os cavalos, e arranjei dois caseiros para tomarem conta dos animais e da quinta. Enquanto isso, parti para a Suiça, onde decidi investir o dinheiro que tinha lucrado com a turfe e com a herança. Começei a trabalhar numa empresa de construção e aprendi a falar alemão e francês!
-Alemão e Francês? – Daisy abriu a boca – E um pouco de espanhol?
-E Italiano! – Anunciou Giuliana, entusiasmada.
-Falas 5 linguas? És um poliglota!
-Não, eu só falo 4! Não percebo muito de espanhol, só uma palavra ou duas que eram parecidas com o Italiano.
-E onde aprendeste a falar Italiano? – Quis saber Daisy, curiosa.
David apontou para Giuliana, enquanto bebia um gole de vinho.
-É complicado… - Disse, sem querer avançar muito mais na história. E, felizmente para si, ninguém insistiu muito em saber.
-Diz algo em Italiano! – Pediu William.
-O que queres que eu diga?
-Não sei, qualquer coisa!
David reflectiu um pouco enquanto mastigava. Depois engoliu e disse:
-Questo pasto è una delizia!
Giuliana afirmou com a cabeça:
-Anche pensare! Non ricordavo di mangiare così bene!
-O quê? – Daisy não percebeu bem.
William riu-se e não os deixou explicar:
-Agora diz isso em alemão!
-Diese Mahlzeit ist eine Genuss! – Respondeu David rapidamente.
-Agora em francês! – Continuou Will.
David prontificou-se a responder:
-Ce repas est un délice!
-Ui, chega! – Ordenou Daisy, antes que William continuasse - Traduz!
David levantou o copo em tom de saudação e disse:
-Esta refeição está uma delicía! Parabéns, Daisy, eu e a Giuliana adoramos!
Daisy corou, apanhada de surpresa por lhe dizerem aquilo.
William interveio:
-Ela adora cozinhar!
-E tem jeito! Nunca tinha provado nada feito por ti, acho! A propósito, passei perto do Lili’s Diner. Aquilo está enorme! Ainda frequentam?
-Oh, sim! – Daisy mostrou-se extasiada – A Ally está na gerência, sabias? Ela ajudou a explorar melhor o espaço e entretanto subiu no posto. Ela e o marido moram perto da rua 10!
-Ela sempre foi responsável. Não me admiro.
Daisy assentiu enquanto limpava a face de Rose.
-Temos de lá ir um dia destes, todos juntos. Em nome dos bons velhos tempos!
-Parece-me óptimo! A comida estava mesmo maravilhosa, Sy. – Lisonjeou novamente, encerrando por fim a sua refeição com os talheres paralelos sobre o prato vazio.
Ao ver que todos já tinham terminado, Daisy deu um último gole na bebida e arqueou as sobrancelhas entusiamada:
-Hei, vocês não gostavam de ver o nosso álbum de casamento? Oh e temos tantas fotografias de quando eramos solteiros! Tu também vais adorar Giuliana!
A rapariga assentiu, divertida.
-Will, querido, vai buscar os álbuns enquanto eu arrumo a mesa. E vocês sentem-se no sofá, estejam á vontade. Depois sirvo a sobremesa!
Will assentiu. Levantaram-se todos para dar espaço a Daisy e William convidou-os a experimentar o sofá. Abriu um dos armários da sala e retirou um álbum grosso e branco, com flores rendilhadas na capa. Pousou-o na mesa de café e depois pegou numa caixa com outros álbuns mais pequenos dentro.
Thomas sentou-se no chão como estivera a tarde toda. Pegou no seu carrinho de brincar e começou a imitar os sons do motor. David sorriu e depois viu Rose a gatinhar até ao irmão. Ela tentou roubar-lhe o carrinho das mãos, mas nao conseguiu. Começou a balbuciar coisas sem sentido, raugenta.
-Querida, não queres ver o álbum do casamento conosco? – Indagou William, antes de começar a folhear – Arrumas depois!
Daisy emergiu pela porta:
-Dá-me 5 minutos! – Pediu, pegando na travessa da salada para a levar para a cozinha.
Quando voltou, sentou-se entre William e David.
Começou a mostrar as fotografias com orgulho. O álbum era típico. David riu-se quando observou as fotos de William no quarto, todo tenso e emperuado, com o cabelo perfeitamente penteado. Até tinha menos gel do que era de se esperar. No entanto, apesar da tensão, via-se que estava feliz. Depois começaram a surgir as fotos de Daisy. David e Giuliana tiveram de assumir que ela estava lindíssima. Tinha o cabelo coberto por um longo véu branco. O vestido era longo com uma grande cauda e flores bordadas nas mangas em balão. Nas mãos, cobertas com luvas até aos cotovelos, tinha um grande buquê de margaridas, as mesmas que estavam colocadas no bolso do casaco de William. Surgiram então as fotos da cerimónia religiosa. No meio de tanta felicidade, o rosto de Kelly Finkie numa das fotos revelava alguma insatisfação, mas ninguém parecia importar-se. Depois começaram as fotos com os convidados e por fim do copo-de-água num salão requintado que pareceu familiar a David.
Daisy já estava emocionada no final do álbum. Ficava sempre que o via porque, provavelmente, tinha sido o dia mais feliz da sua vida:
-Adorava que tivesses estado lá, David! Foi lindíssimo.
-Pode ser que eu esteja presente nas vossas bodas de prata. – Gracejou, pegando na caixa com os outros álbuns.
Giuliana pegou num álbum e David noutro. Daisy e William iam legendando cada fotografia que viam.
A italiana, curiosa, vasculhou mais no fundo da caixa e começou a ver as datas de cada álbum. Decidiu pegar nos álbuns mais antigos, aqueles em que, provavelmente, David até poderia aparecer.
Agarrarrou num de 1957 e começou a folhea-lo, divertida. William, ao aperceber-se, puxou pela memória para reflectir a que vivências correspondiam esse álbum, no entanto, antes de se conseguir lembrar, a pequena fez um som de admiração:
-Oh, encontrei-te David! – Exclamou.
David riu-se mas ignorou, mais atento às fotos de família de William e Daisy com os filhos.
William levantou-se do sítio em que estava e colocou-se ao lado de Giuliana, com um pequeno receio dentro de si. Cada página que ela virava não revelava muito. Era um velho grupo de amigos. Algumas fotos de Tom, Rick e William no Lili’s Diner, e uma ou outra já com Ally, Janice e Daisy à mistura. E então começou a aparecer. Os olhos azuis, o cabelo louro e enrolado. Os vestidos mais bonitos.
William sentiu-se corar. Giuliana não conhecia nenhuma das pessoas que apareciam nas fotos, a não ser os três adultos presentes naquela sala. Por isso, a provabilidade de ela perguntar quem era aquela determinada pessoa era pouca. Mal ela terminasse de ver todas as fotos, William ia esconder aquele álbum antes que David o visse. Planeou isso pois não queria trazer o assunto à baila. Nem sequer sabia se ele reagiria bem com aquilo, apesar de já ter passado tanto tempo.
O tiro saiu-lhe pela colatra quando Giuliana abriu a boca escandalizada. Ele próprio se sentiu sem cor. Na fotografia em questão, David estava presente. Ainda com cara de rapazola, ele estava com a rapariga loira às suas cavalitas, a rir.
Ao contrário do que o anfitriãao da casa esperava, a italiana não disse nada a respeito. Mas virou a página.
-Oh, não acredito! – Exclamou surpreendida - Quem é esta David?!
Tarde demais! reflectiu William.
David encarou Giuliana com dúvida e espreitou a foto que ela apontara.
Daisy e William atentaram nele ao mesmo tempo. Nenhuma reacção lhe passou pelo rosto, o que, de certa forma, foi aliviante para o casal.
Não obstante, o rosto indiferente de David era simplesmente uma mácara bem construída. Na verdade, ele não esperava aquilo. Não esperava ver uma foto sua com Margarett nos braços, completamente envolvida nos lábios dele. Era no acampamento que tinham feito naquele verão longínquo.
As memórias começaram a tocá-lo como pequenos choques electrizantes, todos com o mesmo nome. Margarett, Margarett, Margarett…
Ele quis suspirar e roubar aquela fotografia das mãos de Giuliana para observar melhor, mas sabia que, se o fizesse, ia ser desconfrotavel para todos. Não obstante, deixou-se olhar a foto por mais uns segundos. Durante todos aqueles anos, a única foto de Margarett a que ele tinha tido acesso, tinha-se desgastado e numa das viagens a Zurique ele perdeu-a. Ficou com raiva na altura. Tinha perdido a única recordação palpável que tinha dela. Mas depois consciencializou-se. Tinha sido sorte. Perder uma foto que o fazia sofrer fora meio caminho andado para ele se habituar de vez à ausência dela. Foi a forma mais fácil para esquecê-la. No entanto, ver uma foto anos depois em que, não só aparecia ela, mas também ele próprio, tinha sido como levar com um balde de água fria e ressuscitar-lhe alguma mágoa.
David desatentou na foto que Giuliana mantinha erguida, por fim, e engoliu em seco. Disfarçadamente, encarou Daisy:
-Eu não sabia que vocês tinham fotografias. – Assumiu.
-Sim, o William tinha um rolo cheio que só revelamos mais tarde. – Respondeu a latina, com uma estranha sensação de culpa.
-Mas quem é ela? – Insistiu Giuliana, indiscretamente.
David sabia que tinha de ser ele a responder, por isso encolheu os ombros fingindo não se incomodar:
-Era a minha… - A voz falou-lhe mas ele prosseguiu com alguma insegurança – Namorada…
A pequena sorriu, admirada, e encarou a foto dela:
-Era bonita! – Giu analisou a foto seguinte em que eles também apareciam, mas não tão envolvidos - Nunca me tinhas falado dela! Como se chamava?
David corou. Sentiu um aperto dentro de si por ter de falar de um assunto que levara tanto tempo a esquecer. Felizmente, antes que tivesse de dizer o nome em voz alta, William e Daisy sobrepuseram-se em uníssono:
-Margarett! – Responderam, atrapalhados.
William desabotoou o primeiro botão da camisa. De repente o clima tinha ficado tenso.
-O que é que lhe aconteceu?
Pela primeira vez desde que se lembrava, David quis gritar com Giuliana pela sua curiosidade. Não queria falar daquilo, contudo, a rapariga não tinha culpa. Era alheia ao assunto.
-Não sei. – Respondeu simplesmente e por muito seca que a resposta tivesse sido, fora verdadeira.
-Então… Nunca mais soubeste nada dela? – Perguntou William.
David tentou não revelar muito:
-Não. – Respondeu, retomando a sua atenção para as fotos de família dos novos Finkie – e, honestamente, prefiro não entrar em suposições frustrantes. Além disso, – Ele olhou Giuliana e sorriu – conhecendo esta menina como conheço, vou ter um grande relato a fazer…
-Oh! Estou desolada por não me teres falado desta namorada! - Respondeu a miúda com as palavras arranhadas pelo sotaque italiano – Quem é que terminou? Tu ou ela? Aposto que foste tu que fizeste asneira! – Troçou com ingenuidade.
David não escondeu o seu desagrado com aquela suposição. Ruborizou de forma drástica e lançou um olhar impiedoso a Giuliana.
-Non parlare ciò che non si conosce, Giuliana! Fermare insistendo su questo argomento. Non voglio parlarne, tanto meno qui!*
A jovem corou. David nunca tinha falado assim com ela.
-Stavo scherzando! Perché sei così arrabbiato?**
Ele soltou uma lufada de ar e compreendeu que tinha agido mal:
-Mi dispiace... Lascia perdere, per favore.*** - Depois olhou William e Daisy – Desculpem! É falta de educação falar noutra língua à vossa frente!
Daisy sentiu-se atrapalhada e para disfarçar, pegou em Rose:
-Sabem que mais? Ainda não vos mostramos o resto da casa. Esqueçam as fotos e venham comigo.
David sentiu-se aliviado por Daisy lhe abrir uma porta de fuga. Ele engraçou com o pequeno Thomas e pegou nele ao colo para o levar consigo, ao invés de William.
Giuliana seguiu-os a todos, constrangida. Não tinha percebido o que tinha feito de mal. Por norma, era uma rapariga muito espertalhona e curiosa, daí fazer tantas perguntas e suposições. Mas não era por mal. Era o seu jeito. Apesar de todos os seus obstáculos, era divertida e bem-disposta. David tinha-lhe ensinado isso. A ver o bom das coisas. Não era capaz de compreender a atitude dele.
Depois de verem os cantos todos à casa e ficaram um pouco mais na conversa, foi a hora de David e ela se irem embora com a promessa de um encontro próximo.
Giuliana entrou no carro antes de David e encostou a cabeça ao vidro, chateada.
Ele iniciou a viagem em silêncio. Estava uma noite escura e silenciosa.
Giuliana não disse nada, o que era estranho. Ela tinha sempre algo a dizer. Então David deu o braço a torcer:
-Giu…? – Chamou. A rapariga apenas gemeu em resposta, mas nem o olhou – Desculpa aquilo…
Ela levantou a cabeça, irritada:
-Porque é que falaste assim? Eu não disse nada de mal, estava só a brincar! E a culpa foi tua que nunca me tinhas contado nada! Às vezes acho que és um mentiroso. Sabes tudo sobre mim, mas eu não posso dizer o mesmo! Porque é que ficaste tão chateado?
David selou os lábios. A miúda tinha razão. Ele contava-lhe muitas coisas, mas nunca as mais importantes.
-Eu… Eu não gosto de falar dela. Nem de pensar. – Assumiu.
-Porquê? – Indagou a mais nova, insatisfeita.
David olhou o céu por um segundo. Apesar do vento e do tempo húmido, ainda era possível decifrar algumas estrelas.
-Porque eu dava tudo para voltar a estar com ela nem que fosse por 60 segundos.
Giuliana calou-se perante as palavras de David. Nunca o tinha conhecido tão nostálgico e compreendeu que, para ele ficar assim, o assunto era, deveras, frágil.
Conformada, ela olhou para o céu em busca de uma distracção.
Viu uma estrela a piscar e sorriu:
-Olha! Uma estrela cadente. Rápido, pede um desejo!
David franziu as sobrancelhas e espreitou pelo vidro. Começou-se a rir, divertido. Giuliana era tão distraída às vezes:
-Tonta! Aquilo não é uma estrela cadente, é um avião prestes a aterrar.
-Oh! – A rapariga gargalhou admirada – Então o desejo não é válido?
-Acho que não, Giu.
-Hum… Acho que já pedi muitos desejos a aviões, pelos vistos.
O mais velho olhou para o céu de novo:
-E resultou?
-Alguns! – Concluiu ela.
Ele olhou-a com carinho:
-Então porque não experimentar? – Brincou.
Ambos fitaram o céu uma vez mais. No meio das nuvens e de estrelas solitárias, o avião piscava sem parar como se tivesse urgência em ser percebido. Um calafrio percorreu a coluna de David e o seu peito ficou estranhamente quente. Sentiu os pêlos da pele a levantarem-se, arrepiados, e um formigueiro nas bochechas. Ao sentir o coração a palpitar mais rápido ele sacudiu-se para se livrar daqueles sintomas estranhos e encarou de novo a estrada, céptico.
Não. Não ia ser um simples avião a concretizar os seus desejos.

No entanto, ele não conseguiu evitar de olhar novamente para o céu e imaginar que sim.


---


Legendas (LOL)
*Não fales sobre o que não sabes, Giuliana! Pára de insistir sobre este assunto. Eu não quero falar disso, muito menos aqui!
**Eu estava a brincar! Porque estás tão zangado?
***Desculpa! Esquece isso, por favor!
---

E pronto!
Espero que tenham gostado! Smile
Beijinhos e até à próxima!

PS: Olhem eu já com ideias!
Um possivel carro do David
Outro
E mais um! Matreiro

ah e já agora, uma curiosidade. Adoro esta Moda masculina anos 60Esperancoso

Pronto, vou-me embora!
Tchau!!
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#208
Paaaaaaaaah, como começo a comentar este capítulo, hum? Deste-me tanto por onde escolher... Este capítulo foi mesmo maravilhoso e tenho mesmo que respeitar e escrever grande comentário. Ora vejamos, comecemos pelo inicio:
-Honestamente, não tenho grande pena da Dorianne. Más coisas acontecem às boas pessoas, e talvez por isso fique um pouco cínica quando más pessoas sofrem essas mesmas consequências. No fundo, Dorianne sofreu do Karma e não posso sentir compaixão por alguém que eu, há capítulos atrás, desejava que tivesse um grande castigo pelas suas acções. Contudo, dá sempre gosto em ver o remorso naquela mulher. Tenho pena que tivesse perdido a fala, ao menos podia acabar a história com um adeus/pedido de perdão decente à filha. 
-Quando a Maggie apresentou-se como Margarett Wilson, fiquei em pulgas. Passaram-se anos e ela ainda mantém o mesmo nome. Ou seja, ela não casou. Mas como isso aconteceu? Da última vez que ouvimos falar da Maggie, o Pierre tinha-a pedido em casamento. A recusa agora é óbvia mas.... e depois? Oxalá haja mais esclarecimentos no próximo capítulo, porque fiquei mesmo curiosa. 
-Adorei o reencontro do David com a família. Bem me parecia que a mãe ia ter dificuldades em largá-lo depois de tanto tempo. mas vejamos as coisas pelo lado positivos, o David agora chegou para ficar Very Happy
Ah, e agora já sabemos o nome do sobrinho do David. Sim senhora, dá para ver como o tempo nesta fanfic passa. Ele nasce na mesma altura em que o David e a Maggie são separados e eles só se voltam a ver quando o puto tem 9 anos... Não posso dizer que seja pouco tempo. Achei que fosses ficar por seis anos de afastamento. 
-Porque é que todos os mordomos têm nomes finórios? Augusto.... hum... *inspiração* (Augusto, apetecia-me algo... Tomei a liberdade, Sr. David... Oh, Augusto, lês-me sempre o pensamento. Tramar alguma )
Cheira-me que querias dar-lhe o nome de Ambrósio mas depois mudaste de ideias (motivos explícitos acima). Olha que eu não teria nada contra Matreiro
-E..... mais Will e Daisy!! Não consigo deixar de gostar da nossa latina. Ela é tão fofa. E a reacção dela ao David foi esperada, mas sempre uma delicia. Já o Will enfim, há coisas que nunca mudarão. Anos depois e ainda existe aquela pequena rivalidade entre os dois Toma toma. Ao menos é esperto para perceber que ele está de facto no lado vitorioso (desta vez). 
-Aquele momento awkward quando o David vê a foto da Maggie depois de alguns anos... Ele a passear pela cidade e a lembrar-se (indirectamente) dela. Enfim, David ainda não percebeu mas se ele quer esquecer a Maggie não pode ficar na sua cidade (E já agora, qual é o nome da cidade onde eles moram? Shocked Agora que vejo, nunca disseste o nome! Matreiro Ei, moça inventa agora um nome muito coquete que tenha a ver com esta história - tipo Vampire Diares com a sua Mystic Falls ou OUATime com a sua Storybrooke)
-Hum... gostei da Giu, se bem que esperava mesmo que ela fosse namorada do David. Mas pelos vistos estás quase a terminar a história e o drama extra é completamente desnecessário. Bem, mal posso esperar para saber o que aconteceu aos pais da mocinha e como ela foi parar aos cargos do David. Sabemos agora que o nosso jovem das All-Stars andou um pouco por todo o lado e que expandiu o seu vocabulário muito bem (e falar quatro línguas já é considerado um poliglota, para informação do nosso jovem jóquei Matreiro). Ficou óbvio que faltam detalhes nesta história, mas ainda faltam um, se não dois capítulos para compensares. E de qualquer maneira, há coisas que não é preciso serem ditas. 
-A Maggie está naquele avião. Não há discussões!!!!


Lulu, esmeraste-te. Espero que no próximo o tão aguardado reencontro aconteça. Não sei como planeias acabar a história pois neste momentos a história não está em muito bom pé para juntar os dois pombinhos logo no primeiro reencontro. Não sei o que farás, mas sei que não me irás desiludir. Espero pelo próximo ansiosamente Very Happy
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
#209
Esperancoso
Como diria a louca da minha professora de português do secundário: "Ana, o teu comentário preencheu-me a alma!" Matreiro
Agora a sério, quando abri e vi um comentário tão grande até fiquei burra! Não estava nada à espera de um comentário desses a este capitulo, que na minha opinião não avança nada de importante na história.
Mas para esclarecer, há tópicos que quero mesmo explicar em capítulos posteriores, como a razão pela qual o David ficou com a Giuliana, qual é o negócio dele concretamente, o que é que aconteceu à Margarett(sobretudo porque lhe meti uma grande pausa e ninguém sabe o que é que ela tem feito da vida, mas achei melhor que a vida dela fosse contada em dialogo e não tim-tim, por tim-tim!) e, claro, também quero falar das tramas amorosas que os entretiveram durante 9 anos.
Estou super ansiosa para começar a escrever o reencontro. Ainda não tenho a ideia completamente definida, mas já estou com uns vislumbres! Smile
Ahhh e quanto à cidade! Eu ainda tinha esperança que nunca ninguem se apercebesse. É que eu nunca tive memso cidade definida, por isso é que dizia sempre que o David era americano, ou seja, uma noção muito básica. 
Nunca criei um nome porque, sei lá, tinha medo de tirar a "veracidade"da história e torná-la sem nexo ao inventar nomes estupidos! Matreiro 
Mas obrigada mais uma vez pela opinião! Gostei muito de ler! Smile

PS: Ri-me tanto com a do mordomo! hahaha! Matreiro Para a proxima chamo-lhe Zé Manel! Deve ficar interessante! hahaha! Matreiro
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#210
Olá Lulu!
Apesar de achares que não avança muito na história, foi um capítulo bastante agradável de ler. Para variar a Ana disse tudo, haha. Também achei imensa piada ao comentário dela sobre o mordomo. 
Lá está karma, realmente não senti pena da Dorianne, ela mereceu. E foi importante para a Mag, de certa forma pode fechar aquele capítulo da vida dela. Senão seria sempre algo mal resolvido, e agora finalmente entenderam-se e ela pode seguir em frente. 
Estou curiosa em saber o que passou com o Mag depois do pedido de casamento e tb com a amiga dela. 
O Will e a Daisy são um casal mesmo fofo, não me canso de ler sobre eles. Smile
Então a Giu ficou com o David. Afinal onde estão os pais dela? Aconteceu o pior naquele acidente?
O momento em que a Giu perguntou quem era a miúda da foto, haha, pobre David. Pronto ela não sabia, mas era como estar num campo minado....
E claro que a Maggie está naquele avião certo? Wink
Estou ansiosa para ver o reencontro destes dois!
Amei o capítulo, fico à espera de mais.
Beijinho*
#211
Adorei ter saltado a primeira parte do capitulo, porque já a tinha lido! Esperancoso
Mas nunca imeginei que a segunda parte fosse aquela, pensei mesmo q irias contar a história da Margarett e não do David! Razz

Só tenho uma coisa a dizer
A-D-O-R-E-I Esperancoso

Acaba lá a história q eu cá estou em pulgas pr saber o que vai acontecer a seguir! Very Happy
#212
Hello People! Ora bem, venho publicar.

Não é o meu capitulo favorito, mas enfim... Desfrutem!


Capitulo 46 - Doces Reencontros


“A dor da saudade não se compara à felicidade do reencontro”
 
-Como te sentes?
A questão surgiu com um sorriso reconfortante.
A menina que dormia serenamente com a cabeça sobre as pernas dela nem se movia.
-Tão bem que nem posso acreditar…
O sorriso largo era genuíno.
Margarett olhou pela janela do táxi, maravilhada. Estava tão feliz por ver de novo as “suas” ruas, que era capaz de chorar de alegria. Mal podia esperar para ver o pai e os novos membros da família Wilson. No entanto, isso teria de esperar pelo dia seguinte devido ao horário tardio.
-Na verdade, eu estava à espera de mais drama da tua parte. Foste tão impulsiva quando decidiste vir e estavas tão chorosa… Estou mesmo admirada, Margarett!
Mag não escondeu a sua emoção, mas manteve o sorriso sincero.
-Fico feliz por teres vindo comigo, Caroline! Precisava de um alicerce caso algo corresse mal. Além disso, vou ter muito prazer em apresentar-te a toda a gente.
A francesa sorriu e acariciou o cabelo arruivado da menina que mantinha o sono profundo nas suas pernas:
-Tenho pena que o Patrick não tenha vindo.
-Trabalho é trabalho. Também gostava de ter a companhia dele… - Admitiu - Na verdade, se pudesse, tinha trazido todos comigo. Tu, a Adeline e o Olivier, e ele. Mas fico feliz por termos cá a nossa pequena Marie.
Caroline assentiu.
A pequenina remexeu-se no seu colo.
Fruto do casamento de Caroline e Patrick, Marie, de apenas três anos, tinha traços muitos fortes vindos do pai, nomeadamente o cabelo alaranjado e as leves sardas dele. Não obstante, era também muito semelhante a Caroline. Tinha cachos enrolados e o rosto redondinho. Os olhos também vinham dela. Por norma, vestia-se sempre tão bem quanto a mãe o que, com a ajuda de Margarett, era quase impossível não fazer.
Margarett e Pierre eram os padrinhos da menina. Na altura a escolha fora óbvia e, apesar de tudo, Mag não se arrependia nem um pouco de ter aceitado. A afilhada era o reflexo daquilo que um dia gostaria de conquistar enquanto mulher. Lembrava-se do dia em que Caroline e Patrick anunciaram a gravidez como se tivesse sido cinco minutos antes. Na altura ficou tão chocada com a notícia que teve de se ausentar mais cedo. Foi a pé para o seu apartamento e sentiu-se como um zombie, sem forças nas pernas. Estava muito feliz pela notícia, no entanto, assombrou-se com uma inveja que ela não sabia explicar. Quando se encontrou sozinha colocou a mão no ventre e percebeu. Desatou a chorar com raiva do seu destino. Também queria um filho e só lhe vinham à cabeça imagens da mãe a gritar com ela muitos anos antes, por ela se ter entregado a um homem sem tomar nenhuma precaução.
O táxi começou a abrandar quando se aproximava de um hotel iluminado. O olhar de Mag estava demasiado distraído para se aperceber da paragem do veículo à entrada do grande hotel e foi preciso Caroline lhe dar um toque para ela retomar à realidade.
-É aqui? – Questionou Mag, admirando o quão chamativo era o edifício.
Caroline assentiu.
Tinha sido Patrick a tratar da reserva numa agência de viagens em Paris. Os seus critérios, aparentemente, tinham sido muito altos.
O taxista cobrou a quantia da viagem e depois retirou as malas para o exterior.
Caroline pegou em Marie ao colo e saiu do carro em último lugar. Um homem de uniforme aproximou-se como sendo o bagageiro e pegou nas malas para ajudar as senhoras.
Margarett olhou uma última vez para o edifício. Não conseguia saber se ele já estava lá 9 anos antes ou não. A verdade é que era bastante agradável; Tinha uma entrada chamativa e por fora aparentava ter muitos quartos.
Quando entrou, dirigiu-se à recepção junto com Caroline para fazer o check-in. Teve de ser ela a falar pois a francesa não tinha tanta fluência em inglês.
-Pois bem… Um quarto duplo no 2º andar na zona Oeste. Aqui têm!
Margarett estranhou que o hotel tivesse dividido em zonas, mas agradeceu e dirigiu-se ao elevador com Caroline atrás de si.
À sua frente, surgiram duas entradas, uma que dava para a zona Este e outra para a Oeste. Mag estranhou uma vez mais que houvesse aquela distinção, mesmo na porta do elevador, mas seguiu o que o recepcionista havia indicado.
Dirigiu-se ao quarto e colocou a chave para o abrir.
As malas já tinham sido lá colocadas. Tinham sido rápidos.
-Nossa! – Disse Caroline, surpreendida com o requinte do quarto – o Patrick escolheu bem.
A decoração, em tons creme, era clássica mas suave. Haviam duas camas, uma mesa com biscoitos e um cartão-de-visita, uma grande poltrona e uma porta que dava acesso a uma casa de banho privada.
Caroline deitou Marie na sua cama e cobriu-a com os lençóis. Depois analisou mais a fundo o quarto e a casa de banho:
-Oh, adoro esta banheira! – Referiu – Vou já experimentá-la.
Margarett riu-se e sentou-se na cadeira ao lado da mesinha com o cartão-de-visita. Aproveitou que Caroline foi tomar banho para ler os cartões e os panfletos perfumados.
A cadeia de hotéis Union nasceu em 1963 com o objectivo de criar a possibilidade de uma estadia feliz a todo e qualquer individuo independentemente da sua classe social ou poder monetário. Assim, com o intuito de receber nos nossos hotéis todos aqueles que necessitem de um lugar para ficar, com direito a todas as regalias básicas de bem-estar, a cadeia de Hoteis “Union” distingue-se dos demais graças à sua abrangência e preços acessíveis, sendo o único que oferece aos nossos clientes a oportunidade de escolher a categoria do seu quarto de acordo com o valor, mas sem nunca retirar as melhores condições possíveis.
Deste modo, todos os Hoteis “Union” estão divididos em zona Este e zona Oeste para uma melhor disposição do espaço e dos nossos clientes.
A Zona Este destina-se, portanto, àqueles que necessitam de uma estadia calma e com condições suficientes para passarem tempo de qualidade, com os preços mais acessíveis, sem se desprenderem do conforto. Já a Zona Oeste, destina-se àqueles que, para além das condições mínimas, queiram também usufruir das nossas luxuosas suites, dos entretenimentos, da comida gourmet, das nossas áreas com piscina ou ginásio e dos serviços de massagens e terapias.
As áreas comuns visam, assim, permitir o convívio dos diferentes clientes e desta forma unir os diferentes grupos sociais no prazer da estadia nos Hoteis “Union”.
Margarett virou o panfleto e verificou as imagens dos hotéis espalhados pela Europa. Depois, pegou noutro panfleto com uma foto do Hotel em que ela estava e analisou:
Já espalhados pela Europa, temos o prazer de apresentar o nosso primeiro hotel no continente Americano, o Union Palace Hotel! Venha descobrir a nossa piscina exterior e o salão de festas!
Não perca a inauguração oficial no dia 24 de Novembro e desfrute do dia de acção de graças com as performances musicais e de dança, com refeição incluída!
Traga a família e os amigos!”
-Oh que maravilhoso! – Exclamou Caroline saindo da casa de banho com a cabeça enrolada numa toalha branca e corpo envolto num robe do mesmo material.
Margarett pousou o panfleto, apanhada de surpresa por a amiga ter sido tão rápida.
-Olha, já percebi porque ficamos na zona Oeste, Caroline! O Patrick escolheu de propósito para termos acesso às regalias de luxo do hotel! A zona Este é mais modesta, mas boa na mesma!
Caroline enxugou o cabelo na toalha e voltou a admirar o quarto:
-Pergunto-me quantos quartos terá o hotel ao todo. É monumental! – Declarou e, de seguida, bocejou - Mas bom, estou tão cansada que vou aterrar na cama!
Mag concordou e levantou-se da cadeira. Espreguiçou-se e, também ensonada, dirigiu-se ela própria à casa de banho para se lavar antes de deitar.
 
Na manhã seguinte, Margarett acordou com facilidade. Quando o despertador tocou ela pestanejou e, ao ver onde estava, não conseguiu evitar de rir. Saltou da cama e dirigiu-se à janela para correr as cortinas de veludo. A luz da manhã conseguiu enganá-la por pouco. O dia estava húmido em vez de solarengo, no entanto, a percepção de Margarett continuava luminosa. A cidade já tinha acordado. Passavam carros e pessoas na rua, todos com ares suficientemente familiares para se sentir em casa. Não que conhecesse as personagens, pelo contrário, mas os traços eram os das suas raízes.
Ela bateu palmas para acordar Caroline e a pequena Marie que descansava encostada ao peito da mãe.
-Que horas são? – Perguntou a mamã.
-Hora de levantar! – Respondeu Mag, entusiasmada - Vamos ver o meu pai e a esposa dele. Estou ansiosa por conhecê-los a todos!
Caroline fez cócegas na barriga da pequenina para ela despertar. A menina riu-se, ensonada:
-Pára, mamã!
-Vamos tomar o pequeno-almoço, pequenina! A tia Margarett quer ir passear.
Margarett aproximou-se da menina e fez-lhe cocegas mais fortes na barriga. A pequena começou a rir sem parar de se contorcer, até ser obrigada a saltar da cama. Não satisfeita, Margarett pegou nela ao colo e deu-lhe um beijo apertado na bochecha:
-Quero o meu beijo de bom dia!
Marie sorriu e retribuiu com um beijo repicado na bochecha da madrinha.
-Onde vamos hoje? – Perguntou.
-Ver o meu pai! Vá, vai com a tua mãe preparar-te para tomarmos o pequeno-almoço.
Caroline, que entretanto se tinha levantado, pegou na filha e levou-a para a casa de banho:
-Vamos tomar uma banhoca!
Margarett riu-se e dirigiu-se às suas malas. Retirou a roupa que ia vestir, um frasco de laca, outro de perfume e um necessaire com maquilhagens. Depois foi para o espelho arranjar-se.
Seria crueldade dizer que ela tinha envelhecido. O seu rosto pouco ou nada se diferenciava daquilo que era dantes. Talvez lhe tivesse aparecido uma ruga ou outra, mas nada que a fizesse sentir-se mal. Tinha mudado de estilo, mas isso era quase obrigatório devido à mudança das modas. Abandonara os seus amados vestidos rodados para os trocar por algo mais simples e solto. Os vestidos rectos, mais curtos, predominavam agora o seu guarda-roupa. Tinha aderido também às botas com cano mais alto para o inverno. O cabelo, esse, havia sido cortado pelos ombros, mas entretanto já tinha crescido um pouco, ainda que não estivesse tão longo como havia sido na sua adolescência longínqua.
Assim, arranjou-o com laca para fazer volume no cimo da cabeça e depois carregou no eyeliner liquido para lhe rasgar mais os olhos azuis.
Caroline e Marie saíram da casa-de-banho entretanto, com a menina enrolada numa toalha branca. Caroline começou por lhe vestir as roupas e depois penteou-lhe o cabelo ruivo. Por coincidência ou não, a roupa de mãe e filha era do mesmo tom, pelo que, se algumas delas se perdesse, seria fácil encontrar através da semelhança da vestimenta.
Cada uma pegou na sua bolsa e na chave do quarto para se encaminharem até ao salão do pequeno-almoço.
O salão era tão sublime quanto tudo o que já tinham explorado no hotel. Tinha mesas redondas cobertas com toalhas vermelhas e arranjos florais em cada uma. Ao redor, haviam balcões com comida à escolha. E era tanta comida! Desde coisas regionais aos petiscos mais exóticos. Algumas das coisas nem seriam vistas como pequeno-almoço mas sim como banquetes. Caroline não resistiu a provar os croissants da região para os comparar com os franceses. Margarett, mais atrás, deu um salto de entusiasmo:
-Waffles! – Exclamou maravilhada.
Apressou-se a pegar num prato para se servir e os seus olhos até brilharam quando percebeu que também tinha direito às coberturas de chocolate, morango ou caramelo. Não se lembrava da última vez que tinha comido um Waffle quentinho.
Sentaram-se as três numa mesa e dois garçons aproximaram-se com chaleiras distintas:
-Desejam café, chã ou leite?
Caroline foi rápida:
-Eu quero chã, Margarett! – Disse, para que a amiga lhe traduzisse o pedido – Para a Marie é leite.
Margarett assentiu e transmitiu o pedido aos garçons. Um deles serviu logo a pequena Marie com leite branco e o outro apresentou o cardápio do chã a Caroline. Margarett preferiu café.
Tomaram o pequeno-almoço com calma e depois de terminarem despediram-se do hotel.
Apanharam um táxi e Margarett deu ao taxista a nova morada do seu pai.
Era um alívio para ela não ter de voltar ao bairro em que morava na infância. Isso poupava-lhe muitas mágoas.
O seu olhar percorreu a estrada com emoção. Ia mostrando a Caroline e a Marie os sítios que conhecia e explicando a história de cada um. Passou pela igreja que frequentara enquanto ali viveu e depois mostrou os restaurantes que conhecia. Estava ansiosa por pisar a calçada com os seus próprios pés.
Depois, o caminho prolongou-se um pouco mais para a zona mais remota da cidade. Margarett arrepiou-se pelas recordações que aquelas ruas lhes proporcionavam e mostrou-se um pouco mais silenciosa ao lá passar.
A sua atenção tornou-se mais concentrada naquilo que ela esperava ver.
Caroline reparou que o rosto de Mag tinha ficado mais sério e questionou-se o porquê daquilo. A loira ia com os olhos tão virados para a rua que parecia que ninguém lhe iria chamar a atenção de modo nenhum.
Porém, Marie conseguiu-o, ao apontar entusiasmada para a janela do seu lado:
-Olha mamã! Que casa tão grande! Parece um castelo.
Margarett olhou para o que a menina apontara e abriu a boca:
-Abrande o carro, por favor! – Pediu ao taxista, corada.
Empoleirou-se por cima de Caroline e Marie e espreitou pela janela:
-Não é possível!
-O quê? – Inquiriu Caroline.
A francesa olhou na mesma direcção que as outras duas. Para trás ia ficando uma mansão rodeada por grandes grades esculpidas, que envolviam árvores altas e muita vegetação. A propriedade era grande o suficiente para que pudessem mantê-la no ângulo de visão por mais tempo.
-Esta casa… Está nova!
A loira engoliu em seco e recuperou a sua postura. Olhou para as suas pernas e a pele de galinha saltava à vista, obrigando-a a esfregar as coxas para se recuperar daquilo. Não estava à espera de encontrar uma mansão no lugar de ruínas. E muito menos estava à espera de reagir tão bem com aquilo. Durante anos imaginara como seria voltar ali e a única opção que lhe vinha á cabeça seria chorar até inundar a cidade.
Ao contrário disso, foi uma sensação tão arrepiante e ao mesmo tempo de alívio que nem soube explicar. Olhou para trás para ter a certeza que estava no sítio certo e acabou por se confirmar.
No entanto, manteve os pés assentes na terra e desfrutou da restante viagem.
Quando o taxista parou, ela foi a primeira a sair do carro. Caroline pagou e saiu atrás dela.
-Oh meu Deus! Sinto-me nervosa! – Disse Margarett.
Ela bateu á porta, ansiosa.
A casa estava muito bem situada. O bairro parecia ser bem frequentado e a casa era maior e mais arranjada. Tinha canteiros com flores lilás e cor-de-rosa nas janelas o que por si só já dava um ar acolhedor.
Escutou passos no interior da casa e a porta, por fim, abriu-se.
Uma mulher recebeu-a. Era rechonchuda, mas dotada de umas curvas bonitas. Tinha o cabelo ondulado, num tom bronze e os olhos azuis. Quando viu as duas mulheres e a criança, abriu um largo sorriso e abriu os braços:
-Margarett! – Exclamou.
Margarett sorriu de volta e abraçou a mulher que a acalorou com dois beijos na face:
-Querido, vem cá depressa! – Exclamou.
Depois segurou as mãos da enteada:
-É um prazer conhecer-te pessoalmente, finalmente!
-Igualmente, Senhora… - Mag hesitou. Não sabia por que nome tratar a madrasta. Mrs. Wilson? Dorothy? Mrs. Jones-Wilson? Madrasta? Mãe?
Felizmente não teve de pensar muito mais nisso.
Mr. Wilson apareceu atrás da mulher com as lágrimas pendentes nos olhos.
Sem dizer nada abraçou a filha com toda a sua força:
-Oh! A minha menina voltou… A minha Margarett!
Margarett inalou o perfume do pai, feliz:
-Oh papá! Que saudades!
As lágrimas começaram a escorrer pela cara de Margarett. Ela afundou a cara no ombro do progenitor.
Não imaginara duas vezes que se ia sentir assim quando o abraçasse. Tão vulnerável. Sentiu-se de novo como a menina de 12 anos que abraçara o pai porque não queria ir embora dali.
Mr. Wilson afastou a cara da filha do seu ombro e limpou-lhe as lágrimas. Tinha as mãos tão quentes que Mag deixou que ele lhe aquecesse as bochechas com elas enquanto o enfrentava pela primeira vez em anos, olhos nos olhos.
O homem estava bonito. Estava com umas rugas mais vincadas e o cabelo mais grisalho. Também um pouco mais gordo. Mas todo ele irradiava saúde. Sobretudo, alegria.
Margarett não pode negar que o motivo daquele aspecto era devido á nova esposa. Tinha ar de boa cozinheira. Dorianne nunca o fora e talvez por isso Mr. Wilson tenha sido sempre magro. E a mulher também transmitia muita doçura. Algo que, decerto, preenchia o coração do velho Adolfe Wilson. Ele estava bem vestido. Envergava roupa cheirosa e sapatos lustrosos. Apesar de sempre ter tido o mínimo cuidado com a aparência, Mr. Wilson nunca estivera com um ar tão asseado como Margarett agora o via.
-Estás tão bonita, minha princesa! Olha para ti! – Ele fê-la rodar sobre si mesma com o auxílio do seu braço – Tão crescida!
Margarett ia responder, mas distraiu-se com mais três presenças atrás da nova mulher do pai. Mais precisamente três jovens adultos.
-É ela? – Perguntou aquele que aparentava ser mais novo, apesar de todos estarem desenvolvidos mais ou menos ao mesmo nível.
Dorothy assentiu e aconchegou o seu filho no braço. Era parecido com ela.
-Olá! – Margarett cumprimentou, surpreendida.
-Olá! Sou o Paul. Prazer em conhecer-te, irmãzinha!
Margarett riu-se alto. Irmãzinha era sem dúvida o nome mais inesperado que lhe podiam chamar.
-Fico muito feliz por te conhecer. – Disse ela - Que idade tens? És tão alto!
-Tenho 18 anos! Sou o mais novo da família!
-Então vocês devem ser o Tyler e o Mickael. Alguém bebeu muito leite para crescer!
Mickael saudou-a primeiro. Era o mais velho e notava-se bem. Pelas suas contas, o homem já devia ter 22 anos. Tinha apenas quatro anos de diferença de Margarett. Pelo que sabia dele, já trabalhava independentemente e faltava muito pouco para abandonar o ninho e casar.
-Ouvimos falar muito de ti. – Disse ele.
-E esta deve ser a Caroline! – Surpreendeu Mr. Wilson, apresentando-se à jovem que se mantivera calada até ao momento – Enchanté, madame! Ma fille m'a dit beaucoup de choses sur vous! J'ai entendu dire que c'était une grande aide pour elle toutes ces années! Et pardonnez-moi l'accent. Pas plus exercer mon français longtemps!
-C'est un plaisir, M. Wilson! Margarett et moi sommes de grands amis et ont entendu fortement de vous!
-La dame est très jolie! Et c'est Marie?
-Oui, monsieur! Ma fille! Mon mari ne pouvait pas venir à cause du travail mais il a envoyé des salutations!
-Oh, je suis très heureux de votre présence! S'il vous plaît!
-Merci, M. Wilson!*
Margarett engatou o braço no cotovelo do pai e entrou com ele na casa.
Dorothy apresentou a casa com muito orgulho. Era grande, espaçosa e bem asseada. Cheirava a fruta e a detergente da roupa, como era de esperar, visto que a mulher era engomadeira. Tinha um bolo de maçã acabadinho de sair do forno em cima da mesa e serviu todos com um chá de camomila quente.
Margarett não sabia o que a deixava mais feliz. Se era voltar ou se era ver uma família tão feliz. Por momentos sentiu-se um pouco desencaixada, mas a união de todos era tal que não se podia sentir mal por aquilo.
Ela e Caroline passaram a tarde com a nova família Wilson e ao anoitecer dispensaram o táxi pois Mr. Wilson se disponibilizou para as levar ao hotel.
As ruas nocturnas tornavam-se mais fantasmagóricas para Margarett.
Ela encostou a cabeça ao vidro, no lugar do passageiro, e fechou os olhos:
-Eu adorei a Dorothy, papá… Estou tão feliz por ti.
Mr. Wilson sorriu:
-É uma excelente mulher. Gosto muito dela, de verdade!
Margarett abriu os olhos:
-Encontraste um amor mais verdadeiro do que com a mamã… - murmurou, atenta às casas do exterior.
No banco de trás, Caroline tentava compreender algumas palavras que Margarett trocava com o pai.
Mr. Wilson não pôde responder à insinuação da filha. Era comprometedor.
-Os filhos dela também são bons rapazes. Tenho orgulho que eles me tratem por pai sem constrangimento.
-São irmãos esplêndidos. Todos muito acolhedores, pai! É uma vitória que os vossos destinos se tenham cruzado.
Mr. Wilson concordou:
-Não tarda também te habituarás a todos nós! – O homem sorriu – Quem diria! Estou com a família toda unida, finalmente…
Margarett calou-se. Tal como tinha feito naquela manhã ao passar naquele bairro, as suas atenções concentraram-se na mansão que se aproximava. Ainda parecia mais esplendorosa à noite do que de manhã. Parecia estar iluminada por holofotes pois brilhava tanto quanto um castelo de diamante.
Margarett evitou, com todas as suas forças, não mencionar aquilo. Mas não era capaz. Sentia que estava no direito de fazer uma simples pergunta.
-Porque não me disseste?
Adolfe Wilson enrijeceu. Aquela pergunta podia referir-se a tantas coisas.
-O quê?- inquiriu, fazendo-se de desentendido.
-Que a casa foi reconstruída. Que é uma mansão, aparentemente, de luxo. Porque é que não me contaste?
O homem suspirou profundamente, omitindo as verdadeiras razões:
-Não achei que fosse relevante. E não te queria pôr a pensar nisto…
Margarett olhou o pai com alguma inquietação:
-Eu gostava de ter sabido, em vez de ter sido apanhada de surpresa por isto. Esperava ainda ver uma casa em ruínas, chamuscada e cheia de heras e silvas em redor.
Depois de dizer aquilo, Margarett engoliu em seco. Nem queria pensar naquela recordação.
-Sabes quem mora lá? – Perguntou ela.
-Não tenho a certeza. Mudaram-se recentemente, pelo que soube. Um homem e uma jovem.
-Hum…
O caminho prolongou-se por mais alguns minutos. Margarett avistou o hotel ao longe e olhou pelo retrovisor para Caroline e Marie. A pequena já dormia.
Voltou a ter atenção ao caminho e colocou o cabelo atrás da orelha, antes de humedecer os lábios e dizer:
-Amanhã vou lá, papá. Vou ver quem mora lá e ver se posso conhecer o interior.
-O quê? - Mr. Wilson mostrou-se inconformado - Isso é desnecessário, Margarett!
-É um capricho que tenciono satisfazer! Que mal poderá acontecer?
O mais velho não refutou. Estacionou o carro à frente da entrada do hotel e despediu-se da filha e de Caroline.
Depois partiu, incomodado com a decisão da filha.
 
Margarett estava convicta daquilo. Não ia dizer nada a Caroline.
Sairia de manhã, ia tomar o pequeno-almoço ao Lili’s Diner e depois visitava a casa. Não era masoquismo. Era apenas um pressentimento de que ela se queria livrar. Talvez fosse bom.
Na manhã seguinte escreveu um recado à amiga e saiu cedo sem a acordar.
Era mais estranho pensar que ia rever o Lili’s Diner do que propriamente a casa. Talvez porque o Lili’s Diner era um sítio mais generalizado. Todos passaram por lá e por muitas modificações que tivesse sofrido, continuava com a mesma essência. Já a casa, era uma memória mais desvanecida. A forma como ela se transformara conseguia separar o presente do passado. E isso era bom, pois não custava tanto olhar para ela, como aconteceria se ela não tivesse mudado nada.
O táxi parou junto do grande estabelecimento.
O Lili’s Diner tinha agora dois andares, uma placa mais vistosa e portas de vidro mais largas. Margarett sentiu falta da campainha quando passou pela porta. Era um pormenor que lhe dava saudade.
Ela olhou em redor e admirou. O chão estava coberto com tijoleira preta e branca, imitando um tabuleiro de Damas. As mesas e as cadeiras continuavam vermelhas. E admirou-se, ao verificar que numa das extremidades do novo e melhorado café, haviam sofás brancos em redor de mesas quadradas. O balcão tinha-se tornado mais comprido e ao lado dele encontravam-se umas escadas em caracol largas que davam para o piso superior. Este, era visível do rés-do-chão pois era limitado por uma varanda de metal que facilitava a visão para as mesas de cima.
Ainda assim, o lugar continuava acolhedor.
Margarett aproximou-se do balcão que lhe era conhecido e sentou-se. Pegou no cardápio, agora com um novo Design, e os seus olhos brilharam ao ver que os waffles se mantinham na lista.
Ela olhou em redor, animada, e buscou saber se as suas antigas companheiras ainda frequentavam o local.
Gargalhou quanto pôde quando Ally passou pela porta da cozinha com um prato cheio de panquecas.
O riso despertou a atenção da outra que abriu a boca, chocada, quando reconheceu Margarett Wilson.
Atarantada, a mais velha entregou o pedido rapidamente a uma servente e aproximou-se de Margarett:
-Oh meu Deus! És mesmo tu, Margarett Wilson!
Mag riu-se e levantou-se do banco para cumprimentar Ally com dois beijos na face.
-Não mudaste nada, Ally!
E era verdade. Margarett analisou as mudanças de Ally e pouco viu. Tinha cortado o cabelo mais curto, a anca estava mais larga, mas de resto estava igual. O mesmo rosto, a mesma expressão e, sem dúvida, a mesma personalidade.
-Pensei mesmo que nunca mais te ia ver, estou muito feliz, Margarett! O que tens feito? Por onde andaste? – A última questão foi lançada com mais receio, mas com a mesma curiosidade.
-Em França! – Prontificou a mais jovem – E tu? Mantiveste-te por aqui? O que fazes?
Ally apontou para a chapa de metal que tinha presa ao pólo azul-marinho.
-Gerente? – Mag abriu a boca – Bom, então terás de me fazer um desconto nos Waffles!
Ally concordou e tocou a sineta para que o cozinheiro assentasse o pedido.
-Estou muito admirada, Mag! Diz-me, vocês combinaram?
Margarett não percebeu a questão:
-Combinar o quê?
-Regressar agora!
Margarett riu-se, confusa, mas encolheu os ombros e explicou:
-Adiei o meu regresso por muito tempo. Já lá vão nove anos, sabes? Honestamente não esperava voltar mais, mas esta é a minha casa. Tenho cá a minha família. Tudo o que esperei estes anos foi um impulso. E tive-o!
Ally ia-se preparar para mencionar David, mas travou-se. David havia estado no Lili’s Diner na tarde do dia anterior, com uma rapariga. Tinha regressado à cidade dias antes e veio para ficar. Seria loucura da sua parte achar que nem David, nem Margarett teriam seguido as vidas em frente e, pelo jeito como as coisas tinham terminado anos antes, era preferível não mexer no assunto.
De forma inteligente, Ally buscou outro assunto rapidamente:
-A tua mãe veio contigo?
Mag empalideceu e negou com a cabeça:
-Não, ela não veio. De facto, ela foi, estranhamente, o impulso que me fez voltar… - Mag corou. Tinha a perfeita noção daquilo que as pessoas deviam pensar da mãe e com razão -  Ela era uma pessoa má, Ally. Eu assumo. – Os olhos dela focaram-se no seu reflexo no balcão – Mas trouxe-me à vida. Ela teve um AVC e eu deixei-a numa clínica em Paris. Foi o melhor para ela. Eu não a via há tanto tempo quanto não te via a ti, mas a despedida oficial foi mesmo quando deixei França para voltar. Ela encorajou-me.
-Nossa…! Eu lamento, Margarett…
Mag sorriu amavelmente:
-Não te preocupes. Estou muito feliz por estar de volta. Podes preparar-me um galão, por favor?
-Claro que sim!
-E como estão todos? Ainda estás com o Rick?
-Rick?! Por deus, não! – Respondeu ela, bruscamente – separamo-nos um ano depois de tu desapareceres… - Ally tapou a boca por ter utilizado aquele termo. Margarett fez de conta que não percebeu para encorajá-la a continuar – Éramos jovens e tontos. Com o passar do tempo percebemos que já não havia assim tanta paixão e terminamos. Entretanto conheci o Liam e estou casada com ele até hoje. Tenho de to apresentar. Reestruturamos o Lili’s Diner juntos! Foi um bom negócio!
-Estou admirada, Ally! Mas fico muito feliz por ti! Tens filhos?
-Um rapaz de sete anos! – Exclamou a outra, orgulhosa – E tu? – Ally reparou de seguida que Margarett não tinha nenhuma aliança, nem tampouco um anel de noivado.
-Estive num relacionamento durante algum tempo, mas… o noivado não foi forte o suficiente para suportar algumas verdades.
Margarett recebeu o galão das mãos de Ally e deu um gole. Só ela, Pierre e Deus é que sabiam qual o motivo do rompimento. Nem Caroline, nem Adeline, nem mais ninguém sabiam o que tinha acontecido para que um rompimento tão repentino tivesse acontecido a um mês do seu casamento.
A sineta da cozinha tocou e Ally foi buscar os waffles de Margarett.
-E a Jannice e o Eric? Continuam?
-Oh sim! Esses dois foi tiro e queda. Casaram e têm três filhos. A Janice teve dois gémeos e mais tarde outro bebé!
-Gémeos? – Mag abriu a boca. Sentiu inveja – Estou estupefacta!
-Sim, foi uma surpresa. Quem também não se separou mais foram o William e a Daisy.
-O William e a Daisy? Eu nem soube que eles namoraram!– Margarett não conseguia fechar a boca – Há quanto tempo?
-Há cerca de 5 anos, mais coisa, menos coisa! Têm um menino e uma menina. – Informou entusiasmada - Quem diria, não é? O filho do banqueiro casou com a humilde latina emigrante!
Margarett provou o Waffle, pensativa. Uma onda de sabores explodiu-lhe na boca.
-Gostava de vos ver a todos juntos, em nome dos velhos tempos!
-É uma óptima ideia! E se marcássemos um jantar?
-Seria fantástico! Hum, - gemeu ela - deixa-me dizer-te que os waffles não perderam qualidade! Vou engordar com isto, ainda ontem comi no hotel.
-Em que hotel estás?
-No Union Palace Hotel.
-Oh! Parece ser deslumbrante. Ele abriu mesmo recentemente e acho que ainda nem inauguraram.
-Pois não, vai ser no dia de acção de graças. A entrada é gratuita.
A sineta da cozinha tocou novamente.
Ally olhou para trás e fez um sinal a uma das empregadas para que levassem o pedido por ela.
-Vou-te dar os contactos dos outros, caso os queiras ver.
-Oh, muito obrigada! Na verdade eu já tinha planos para esta manhã, mas acho que vou preferir ir visitá-los. Vou fazer uma surpresa!
-Eles vão adorar, de certeza! Mas se já tinhas planos não os adies.
-Não tenho, propriamente. Ia visitar o novo palácio da cidade.
-Palácio? – Ally arqueou a sobrancelha.
Margarett limpou os lábios ao guardanapo e revirou os olhos:
-A velha casa que ardeu e renasceu das cinzas como uma Fenix! Gostava de vê-la por dentro.
Ally, uma vez mais, indagou-se se Margarett tinha conhecimento da presença de David da cidade.
-Bom, também é um bom plano, calculo… De qualquer modo a decisão é tua. Sabes quem é o proprietário? – Perguntou, por via das dúvidas.
Mag negou com a cabeça e abriu a carteira para retirar o dinheiro e pagar:
-Não, mas espero que não se importe de me receber. O meu pai acha que estou a fazer algo estúpido porque, bem, é uma ideia um bocado masoquista tendo em conta tudo o que aconteceu.
A reacção de Ally foi um misto de hesitação e vontade. Queria dizer a Margarett que David morava naquela casa mas, apesar de tudo, isso não lhe dizia respeito. Ela levantou a mão para que Margarett não lhe entregasse o dinheiro:
-É por conta da casa!
Mag insistiu:
-Que disparate, eu pago, Ally!
-Não, não, eu insisto. Tenho de voltar ao trabalho, mas foi excelente voltar a ver-te. Passa cá amanhã ou quando poderes. Aliás, se fores visitar a Daisy e a Janice convida-as a virem também!
-Sim, eu vou fazer isso, obrigada.
-Espero que corra tudo bem! Depois diz-me como é a casa por dentro.
Margarett riu-se:
-Claro que sim!
Ally entregou um papel com endereços a Margarett e despediu-se.
A recém-chegada levantou-se e abandonou o estabelecimento com um sorriso.
Ficou-lhe a dúvida se devia ir visitar Janice, que morava mais perto, ou visitar a mansão como tinha planeado.
Depois reflectiu sobre Caroline e Marie e achou por bem não as deixar plantadas. Queria ir à casa sozinha porque algo lhe dizia que era melhor assim. Além disso, podia visitar Janice depois, tal como Daisy e as respectivas famílias.
Andar com os seus próprios pés sobre a calçada era tão reconfortante como deitar-se numa cama quente. Ainda que estivesse a chuviscar tão levemente como se fosse orvalho, Margarett não se importou de andar a pé. Afinal, quantas e quantas vezes tinha feito aquele trajecto quando era jovem sem se preocupar com a distância? Era até melhor para rever a cidade. Podia parar para ver as mudanças e cumprimentar as pessoas. Podia capturar mentalmente novos pormenores da cidade. Mais importante do que isso, podia repensar se ia mesmo fazer aquilo.
A única coisa que indagava era o porquê da sua hesitação. Nada podia correr assim tão mal. Imaginava já o tipo de homem que a receberia.
Talvez um senhor de idade, de cabelos grisalhos, com uma filha jovem e criados por toda a casa.
Era engraçado pensar nisso. Sentia imensa felicidade pela casa não ter caído em ruína e esquecimento total. Era um belo sítio e o reaproveitamento era algo a apostar. Tinha pena de não ter sido ela própria a reerguê-la, mas quem queria enganar?
Nunca seria capaz disso. Não era suficientemente desafoga financeiramente, além de que a casa só seria confortável com uma boa companhia. Ou com a companhia certa.
Ela começou a avistar a mansão ao longe. A propriedade já se estendia muito antes da entrada, pelo que Margarett caminhou paralelamente á vedação bastantes metros.
Durante a caminhada final que a separava da mansão, pensou em Pierre. Os projectos que ele tinha para comprarem uma casa juntos em Paris. Eram todas luxuosas e modernas, mas não se comparavam àquilo. Não tinham a essência que aquela casa tinha. Talvez ela considerasse isso por causa das recordações que guardava no seu mais profundo ser.
De qualquer modo, Pierre nunca seria uma boa companhia, nem mesmo naquela mansão. Terminar o noivado nunca lhe parecera tão aliviante como no momento em que parou em frente ao portão de metal.
Tocou à campainha e espreitou para dentro da propriedade. Era ainda maior do que se lembrava. Pelos vistos tinha sido alargada.
A porta de entrada abriu-se e de lá surgiu um homem bem vestido.
Margarett calculou que fosse o proprietário.
-Bom dia, senhor! – Saudou.
O homem aproximou-se do portão de ferro e olhou a jovem de cima a baixo:
-Bom dia. O que deseja?
Margarett corou e aconchegou-se mais no casaco quente:
-Peço desculpa por importunar, mas eu sou de cá e estive fora muitos anos. Conheci esta casa ainda quando estava em ruínas e, se me permitir, seria uma honra revê-la. Estás um belo projecto e eu ficaria mesmo feliz se me deixasse visitá-la. Se não importuná-lo, claro.
Augusto, que se apresentara no portão, franziu o cenho:
-Desculpe, senhorita, mas eu não sei se posso fazer isso.
Uma luz de desilusão passou pelo olhar de Margarett.
-Oh… Bem, eu compreendo. A casa é sua. Mas deixo os meus parabéns, fez um excelente trabalho.
Antes que o mordomo pudesse desenganá-la, uma voz soou atrás dele:
-Augusto! - Margarett levantou o olhar para saber quem chamara o homem. À porta, uma rapariga de cabelo encaracolado olhava-a com dúvida - Quem é?
O sujeito respondeu em italiano, deixando Margarett sem noção do que ele estava a dizer à rapariga. Ela, no entanto, sorriu e desceu os degraus da entrada para se aproximar:
-Deixa a senhorita entrar! – Exclamou a rapariga com um sotaque tão apertado que era improvável ela estar na cidade há muito tempo – Nós não nos incomodamos com visitas!
Margarett sorriu, encantada. Estranhou, porém, que o homem obedecesse tão prontamente à rapariga e só depois analisou-lhe os trajes mais a fundo. Era o mordomo.
-O meu nome é Giuliana, e o seu?
Margarett sorriu pela energia da jovem:
-Margarett! – Prontificou – Não quero incomodar muito.
Giuliana encolheu os ombros:
-É a primeira visita que recebemos. É um gosto!
Mag olhou para os lados. Não se tinha enganado. A propriedade estava mais ampla e mais cuidada. O velho chafariz mantinha-se, mas agora jorrava água das quatro bocas.
-O Augusto disse-me que você conhecia esta casa. – Comentou a mais nova atravessando a porta para entrar.
Margarett hesitou antes de o fazer. Sentiu um friozinho no estômago.
-Entre, por favor! – Exclamou Giuliana ao verificar que a visita ficara lá fora - É bem-vinda!
-Obrigada! – Conseguiu Mag dizer, antes de se atrever a colocar o pé no interior da mansão.
O seu coração descompassou-se assim que o fez. As paredes, tão límpidas e hirtas, sem vestígios de queda ou de podridão. As escadas, esculpidas em madeira de cedro envernizada. Portas com puxadores dourados e texturas leves. Os tapetes eram bonitos e vistosos, com estampados vivos e no tecto, uma pequena clarabóia que transmitia uma luz natural quente.
-Vamos para a sala. Quer um chã?
A pequena não se deu conta do deslumbramento da mais velha. Para ela, era simplesmente divertido receber alguém ali.
-Não, obrigada. Acabei de tomar o pequeno-almoço.
Entraram na sala.
Margarett teve de suster a respiração para não dar um grito histérico ali mesmo. A disposição dos móveis era obcecadamente igual àquela que ela conhecera. De facto, o mobiliário era diferente, mais moderno. Mas a forma como estava distribuído obrigava-as a fazer o trajecto que Margarett se tinha habituado a fazer. No entanto, pela primeira vez, havia um piano ao canto, perto da janela, que era novo.
-Como é que conhecia esta casa? – Perguntou a jovenzinha, sentando-se no sofá.
Margarett continuou a olhar em redor, estupefacta com as comparações que era quase obrigada a fazer:
-Eu… Frequentei-a.
-Frequentou? Pensei que ela estava abandonada há anos sem conta!
Margarett olhou a rapariga e corou. Sentou-se ao lado dela, injuriada:
- Não devias avisar os teus pais que têm visitas?
Giuliana negou com a cabeça, séria:
-Os meus pais não estão cá…
Margarett não compreendeu o duplo sentido daquela resposta, por isso nem sequer a explorou:
-Que idade tens? És muito faladora. E mesmo sem o consentimento da tua família, deixaste-me entrar em tua casa.
-Tenho quase 14 anos. – Respondeu – Todos me dizem que já sou responsável!
Margarett riu-se:
-De onde vens, posso saber? Tens uma forma de falar distinta.
A jovem assentiu:
-Itália! – Depois franziu os lábios - Eu sei que ainda falo um pouco mal inglês, mas acho que vou melhorar agora que nos mudamos para cá!
-Acho que falas bastante bem para alguém que se mudou recentemente.
-Eu comecei a aprender antes. Para melhorar a comunicação com… - A rapariga hesitou. David havia-lhe dito que se pessoas intrometidas lhe perguntassem muitas coisas sobre a vida dela, para dizer que ele era seu irmão ou seu tutor. Giuliana, no entanto, esquivou-se – A sua cara é-me familiar, mas não sei aonde é que já a vi!
Margarett olhou com atenção a miúda:
-Acho que não nos conhecemos. Também acabei de chegar à cidade.
-Ah sim? – Indagou a rapariga curiosa – E de onde vem?
-Venho de França. – Esclareceu a loira - Como vês nós vimos de países vizinhos.
-Oh, estivemos em França um mês antes de virmos para cá!
-A sério? Em que cidade?
-Paris. – Respondeu a mais nova.
-Então se calhar é daí que me achas familiar. Também vivia em Paris. Talvez nos tenhamos cruzado sem saber!
Giuliana riu-se, divertida com aquela curiosidade. Levantou-se e pegou numa caixinha de vidro que tinha em cima da mesinha de café:
-Pegue num chocolate! São suíços.
Margarett não disse que não. Pegou num bombom redondo.
Augusto aproximou-se das duas e fingiu uma tosse seca.
-Menina Giuliana, achei por bem anunciar a visita ao amo. Ele foi cavalgar mas está quase de volta. Senhorita, se não se importar de aguardar…
-Com certeza! – Respondeu Margarett – E eu não vou ficar muito tempo. Vim só pela casa, mas fico muito feliz por estar a ser tão bem recebida! – Declarou, piscando o olho a Giuliana.
A jovem sorriu amavelmente. Depois, reparou que Margarett olhava em redor com um ar de encanto que não era possível descrever. Simultaneamente com o tom maravilhado, havia um pingo de saudade. Giuliana reconheceu aquele olhar. Vira-o no primeiro dia que entrara naquela casa, em David.
-Que idade tem, senhorita?
-Tenho 26 anos, porquê a pergunta?
Giuliana ofereceu outro bombom a Margarett e retirou um para si.
-Estava a pensar que talvez tenha conhecido o David.
Margarett não chegou a morder o bombom. Sentiu-se a empalidecer.
-David?
Giuliana engoliu o seu bombom com alguma gula:
-Bom, você disse ao Augusto que era de cá mas que teve muitos anos fora. Achei uma coincidência engraçada.
Margarett sentiu o chão a tremer. Olhou para os pés, tentado compreender se o chão tremera mesmo ou se tinha sido uma tontura da sua cabeça.
-Quem é o David? – Perguntou.
-É… - Giuliana ponderou na resposta e depois ergueu o queixo e melhorou a sua postura – o meu responsável.
Tinha sido a sua melhor resposta. Não mentiria ao dizer que era o irmão, nem o colocaria num posto tão severo quanto um tutor. Para Margarett, no entanto, aquela resposta causava-lhe mais conflitos interiores do que propriamente esclarecimentos.
A sua imaginação era tão traiçoeira que pensar em algo assim era como prender uma corrente na perna com 100 quilos agarrados e atirar-se a um poço fundo. Afinal de contas, quem ela queria iludir uma vez mais? O nome David era tão comum como qualquer outro. Para quê martirizar-se, sonhando com uma hipótese tão remota como a de se tratar da mesma pessoa. Alem disso, nove anos passados, continuava na incerteza da vida ou da morte.
Esse pensamento deu-lhe um calafrio que a obrigou a apertar os botões do casaco.
Voltou a sentir o chão a tremer e analisou o soalho para ter a certeza que o problema era mesmo do chão e não da sua cabeça.
-Não se preocupe. É por causa do Veloz. Ele ainda está a ser treinado, mas como é pesado, às vezes o chão treme quando ele se aproxima da casa.
-Ah! – Margarett suspirou – Por momentos pensei que era eu que estava a ter uma quebra de tensão.
O bombom caiu-lhe directamente na boca depois de dizer isso. Por um motivo que lhe era superior, sentiu o coração descompassado. Sentiu, pela primeira vez desde que entrara na casa, que não devia ter lá ido.
Olhou para o relógio de pêndulo que tinha dentro da sala e levantou-se:
-Bom… Já se está a fazer tarde para mim. Tenho de ir!
Giuliana levantou-se também, de rompante:
-Já? Mas ainda nem viu a casa. Espere só 5 minutos. O David está a chegar! Não ouve?
Margarett aproximou-se da janela instintivamente. Ouviu. O galopar de um cavalo a aproximar-se.
Em vez de se sentir mais encorajada a ficar, o impulso para tentar ir-se embora foi maior.
-Não… Desculpa, Giuliana! Foi um gosto imenso conhecer-te. Mas eu tenho mesmo de ir.
A mais jovem agarrou-lhe o braço:
-Bom, nesse caso, se quiser vir cá noutro dia, será muito bem-vinda! Dou cumprimentos seus ao…
O relinchar de um cavalo distraiu Giuliana. Ela sorriu e anunciou:
-Ele chegou!
Margarett ruborizou. Mas não pôde fazer mais nada. Estava a ser um pouco estúpida. Sabia que ao ir àquela mansão seria desrespeitoso não conhecer o anfitrião. Então porque estava tão hesitante?
Num acto que ela não controlou, sentiu-se atraída para a porta da entrada. Giuliana seguiu-a, indiferente àquele pressentimento.
Augusto, o mordomo, já tinha aberto a porta de entrada e estava do lado de fora. Falava em italiano, coisa que Giuliana se apressou a imitar, passando à frente de Margarett para sair para o exterior:
-David, abbiamo un visitatore!** – Anunciou.
Margarett inspirou e expirou profundamente. Fê-lo com tanta intensidade como se fosse mergulhar numa piscina profunda. A luminosidade que entrava pela porta era tal, que lhe surgia como uma luz ao fundo de um túnel e chegar até àquela entrada nunca lhe pareceu um caminho tão estranhamente longo.
Quando chegou à porta, passou para o exterior.
Um cavalo castanho apresentou-se na paisagem, desmontado. Tinha uma cela em pele negra, com um trabalhado elegante.
Atrás dele, soube que estava alguém e desceu um degrau, ficando um nível mais abaixo de Augusto e Giuliana.
-È offerto un tè o un caffè, Giu?***
A voz soou familiar a um nivel assustador.
Margarett abriu a boca em choque:
-David!? – Vociferou.
O cavalo relinchou e empinou ao pressentir uma aproximação brusca de Margarett. A pessoa, que tinha o cavalo à sua frente, agarrou-lhe as rédeas para que ele não fugisse e tornou-se visível ao espreitar à frente do animal. A surpresa atravessou-lhe o olhar tão rapidamente como a luz:
-Margarett?
Ele soltou as rédeas, sem querer saber mais delas.
Margarett tapou a boca com o choque. Era como ver um fantasma.
Ganhou força nas pernas e moveu-as com pressa. Queria ir ter com ele e abraça-lo com muita saudade.
David deixou o cavalo solto e avançou na direcção dela também.
Só parou quando a envolveu nos seus braços num abraço profundo e percebeu.
Não era um sonho.
 
--------


* -Encantado, Madame! A minha filha falou-me muito sobre você! Ouvi dizer que foi uma grande ajuda para ela todos estes anos! E perdoe-me o meu sotaque. Não exerço o meu Francês há muito tempo!
-É um prazer, Sr. Wilson! A Margarett e eu somos grandes amigas e tenho ouvido muito sobre si!
-A senhora é muito bonita! E esta é Marie?
-Sim, senhor! A minha filha! O meu marido não pôde vir por causa do trabalho, mas enviou saudações!
-Oh, eu estou muito feliz pela sua presença! Por favor, entre!
-Obrigado, Sr. Wilson!
 

**David, temos uma visita!


***Ofereceste um Chá ou um Café, Giu?


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PS: O Capitulo supostamente não acabava aqui, mas eu resolvi fazer um corte, e por isso terão de esperar pelo próximo capitulo para saber o que aconteceu a seguir! Muhahahaha!
Até à próxima!
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#213
Esta sou Eu e estou dividida em fragmentos do meu ser. Felizmente, um deles chama-se Bom Senso e hoje ele decidiu iniciar este comentário com a eficaz técnica de "Começar pelo início e deixar o frustrante final para... bem, o fim". 

No geral, gostei imenso do capítulo. Após algum tempo, sabemos umas coisas acerca da Maggie. Ainda estou curiosa no motivo do porquê ela ter acabado com o Pierre (não que me esteja a opor a essa decisão, calma!) mas pelo que deste a entender foi algo muito pessoal. Estarei a imaginar coisas quando li pelas entrelinhas que a Maggie ainda está apaixonada pelo David? Ok, verdade que isso já toda a gente sabia. Mas o David não comprometeu a sua vida por causa dela. Aliás, ele bem que nos enganou (um poucochinho) e dado a entender que já seguia a sua vida muito bem sem ela, até ver a fotografia na casa do William e da Daisy. Caso um deles tivesse morrido, não consigo deixar de pensar em como estes capítulos seriam lidos com outra luz. Seria tudo muito mais dramático e triste e eu bem que começava a chorar. 
Mas mudando para assuntos mais "leves", adorei a Marie. Coisinha mais fofa! E claro, tinha que sair à mãe e à madrinha com os seus trapinhos dentro da moda. Foi bom saber do belo desfecho da história da Caroline e do Patrick. Foi uma pequena historiazita à parte muito agradável de se ver. Ainda bem que a Caroline está lá para ajudar a Maggie. Pode não parecer, mas acho que ela vai ser muito necessária nos próximos capítulos. 
Ah, e já agora. Essa cadeia de hotéis onde podemos encontrar? Parece-me ser demasiado bom para ser verdade. É o verdadeiro sonho dos pobrezitos chamados normalmente de estudantes universitários. E o pessoal aqui da faculdade anda à procura de algo do género para passar as férias. Era mesmo fixe se houvesse um hotel assim Esperancoso 

Fora isso, foi excelente rever antigas personagens. Eu no capítulo anterior queria perguntar-te sobre a Janice e o Eric, até porque ele era o melhor amigo do David e este parece que se esqueceu disso, mas acabei (também) por me esquecer. Felizmente, não foste igual nem a mim, nem ao David Matreiro
E pronto, tem tudo final feliz com excepção da Maggie e do David, que ainda têm que se encontrar e... (Bom senso - Calma, já chegamos a essa parte!)
Ainda não é desta que sabemos a parte que falta da história do David e da Maggie, mas acredito que não nos vais deixar à mão. 
Foi bom ver a Maggie a rever certas partes da cidade-sem-nome no Estado-sem-nome onde viveu (Sorry, não resisti Razz), principalmente a casa. Pensando bem, ela teria que ir a aquela casa mesmo que o David tivesse morrido. É uma forma se ela "fechar" aquele capítulo da sua vida e foi muito bom como expressaste. 
E depois a cena da casa. A Giu foi mesmo simpática e foi engraçado a Maggie confundir o mordomo com o dono da casa. Tipo, como é que o Augusto está vestido? Era hoje o dia de folga dele? A Maggie, acima de qualquer personagem, deveria distinguir a roupa de patrão e de empregado. Matreiro

E agora, a cena em que o David aparece a montar o cavalo....
*Fúria a subir até aos poros*
Bom senso - Relaxa Ana!
*Inspira* 
*Expira* 
*Não te passes* 
*Não te passes* 
*Inspira* 
*Expira* 
*Holding my breath*
....
Bom senso - Péssima decisão

A SÉRIO QUE ACABAS AÍ!!!! APÓS TANTOS CAPÍTULOS DE FRUSTRAÇÕES, DECIDES CORTAR O FIM!!!!!!!!!!!!!!! EU NÃO CONSIGO ESPERAR TANTO TEMPO PARA SABER O RESTO! PRECISO DE SABER!!!!!

Raios, Lulu agora foste mesmo malvada. Eu não me lembro de alguma vez te ter feito isto nas minhas fanfics! Sad Agora vou andar deprimida até o próximo capítulo.... E o teu "Até à próxima!" foi muito vago. Quando é que isso irá acontecer.... Oh, não! Sad Sad 

Que o próximo capítulo venha depressa, por favor!!Crying or Very sad 





P.S Calhou eu passar pelo Índice e vi que ainda só está até ao capítulo 38. Vá, eu sei que para mim, a Bun e a Carolina isso é coisa desnecessária. Mas para o caso de vires a ter novos leitores, é melhor não os enganar Smile
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
#214
SÓ TENHO 2 COISAS A DIZER:

1- Adoro a Marie... visto que te inpiras-t em mim pr a Caroline, aposto q tambem t inspiras-t na discrição da minha filha, quanto Às roupas. Quando a aparecia... parece ser uma BONEQUINHA. Espero q um dia a minha filha seja assim! MUAHAHAHAHAH XD

2- MAS QUE M**** de final de capítulo é este?!
Queres-me matar de ataque cardíaco????? A SÉRIO?? A SÉRIO?? :'(
#215
cof cof cof Assobiar Assobiar Assobiar  Assobiar7 meses e dois dias xd
cá bem a desmazelada  mais uma vez muito tempo depois do ultimo comentário. Martelar Martelar Martelar Martelar Martelar Engate 
isto nao quer dizer que nao esteja a seguir a tua fanfinc mas esta preguiça de comentar é o problema xd.Embaracoso 
Como podes te parar a li~~ ... como... és ma>Furioso ! xd olha se te apresentares as contas do hospital devido a espera do proximo capitula já sabes do que é.Tramar alguma  xd
cada capitulo cada palavra prende-me mais a tua finc tens um incrível jeito para prenderes as pessoas. xd
Esperancoso Esperancoso Esperancoso Esperancoso Super contente Super contente Super contente Super contente
a minha primeira fic "AS FILHAS DA LUA"passem na minha fic e comentem XD

Traços do destino

visitem o meu forum http://eterna-sailor-moon4.forumeiros.com/forum.htm
#216
Olá Lulu! Smile
Gostei tanto do capítulo. Não é o teu capítulo favorito, ora eu não sei porquê. Está muito agradável de ler. 
Foi muito engraçado ver a Maggie rever a cidade, saber de velhos amigos. E finalmente tivemos novidades da Carol e do Patrick.
Achei aquele hotel muito bem estruturado, e perguntei-me se por acaso não será obra do David....
Eu quase que não acreditei quando li que a Maggie desfez o noivado a um mês de casar. A questão é: como é que ela sequer aceitou?! A sério, a rapariga não tem juízo algum.... Incredulo 
A melhor cena, foi evidentemente o reencontro. Lindo.  Emocionada 
Agora, quando vem o próximo Lulu? Já está escrito, certo?
Então que tal aproveitando o espírito natalicio, ofereças o próximo capítulo às tuas fiéis leitoras? Sim?   Simpatico  

Lamento pela demora no comentário. Embaracoso 

Beijinhos grandes e boas festas! santa
#217

Err, errr… Feliz Natal! Very Happy
Pois… Demorei, eu sei… :xMas pelo lado positivo cheguei antes do Final do ano! Very Happy
Vá, desculpem mesmo pela demora.
Entretanto, tenho algumas coisas a dizer sobre este capitulo…  Mas só digo no final, para não corromper as vossas interpretações.
Pronto, no final do tópico falamos! Entretanto, boa leitura!


Capitulo 47 – (Sem nome! help me, please!!!)




“A arte do reencontro conforta a alma.”
Thaty Vasconcelos
 
Margarett parecia uma boneca envolta por David. Sentiu-se tão pequena. Tão jovem como ele sempre a fizera sentir.
Apertou-o mais fortemente. Pressentiu os olhos marejados quando enterrou a cara no ombro dele. Não podia acreditar naquilo.
-David…! – Murmurou, num estado de debilidade eminente.
Instintivamente, cheirou-o; E era mesmo ele.
David abriu a boca, sentindo a respiração um pouco presa. Depois corou, ao ver Giuliana tão espantada com a sua atitude.
Desajeitadamente, ele separou-se de Margarett e olhou-a:
-Como estás? – Perguntou vacilante, segurando-lhe o rosto para ter a certeza que a sua visão não o tinha enganado.
Apercebendo-se da cor rosada que pintava as bochechas da loira, largou-a.
Ela humedeceu os lábios, ainda sem palavras, e olhou para si mesma procurando uma resposta:
-Eu… – Ela gaguejou de inconstância, alisando o vestido numa tentativa de esconder as mãos suadas – Estou bem… - Tentou convencer, mas em vão pois foi denunciada pelas lágrimas no cantos dos olhos e pela voz frágil - E tu? – Indagou, olhando-o de frente.
David só acenou afirmativamente com a cabeça e, entre a emoção patente nos seus traços, riu-se tão jovial e feliz como sempre fora.
-Onde…? – Começou ela, confusa - Eu pensei que tu…
Tapou a boca. Não lhe ia dizer aquilo.
Teve vontade de gritar histericamente, de rir, de chorar, de lhe bater e de o abraçar. Sentia-se tão estranha por dentro que era incapaz de se mover. Era tão irreal.
Olhou para todos os lados em busca de algo que lhe provasse que aquilo era mesmo verdade, mas viu-se interrompida:
-Tu estás igual… – Comentou David.
Ele não retirara a atenção dela. Analisara-lhe o mesmo rosto de menina, o mesmo cabelo grosso e dourado. A sua vista fugiu para as mãos dela. Nenhuma espécie horrenda e comprometedora de anel. Ele sorriu, ainda que aquilo já não lhe dissesse respeito.
Margarett sorriu de volta. Não soube se de alegria ou de timidez, mas o facto foi que não resistiu a apertá-lo de novo num abraço profundo.
-Espero que tu também! – Disse ela, tremente, contendo o seu corpo ao máximo para não dar um ou mais passos em falso - Meu Deus… - Suspirou - Senti tanto a tua falta.
O homem não respondeu verbalmente.
Perante aquilo, Giuliana teve um vislumbre que a recordou. Já sabia de onde a cara de Margarett lhe era familiar. As fotos que tinha visto dias antes na casa dos Finkie e que tinham deixado David tão constrangido eram a resposta. A rapariga que aparecia nas fotos com David era Margarett.
A jovem sorriu e desceu as escadas:
-Então vocês já se conheciam mesmo! – Declarou, animada, fazendo com que Margarett, conscientemente, desapegasse do velho amigo – David, a senhorita Margarett veio para ver a casa.
Margarett afastou-se dele, sentindo-se injuriada com aquela denúncia. Era uma situação mais comprometedora do que imaginaria que fosse. Olhou Giuliana com algum arrependimento e respondeu-lhe:
-Oh, mas eu não devo! O meu tempo acabou. – Afirmou, olhando David para o alertar - Na verdade, eu já me ia embora mas… isto é tão inesperado!
David inspirou fundo e segurou o braço de Margarett, cautelosamente. Ela arfou, arrepiada. Era como ser tocada por um espírito. David, por outro lado, voltou a sentir uma imensa falta de ar momentânea, mas não foi isso que o impediu de falar:
-Não te vás embora! – Implorou, aflito - Fica um pouco, por favor. É tão bom ter-te aqui… – E dito aquilo, ele tossiu numa tentativa de recuperar o fôlego. – Almoça cá…
Giuliana idolatrou a ideia.
-Sim, seria agradável!
-Eu… – Mag hesitou. Sentia-se constrangida de uma forma infantil. - Eu tenho pessoas à minha espera no hotel em que estou alojada. – Foi sincera. Caroline e Marie já deviam estar a ferver.
-Nós levamo-la lá, então. – Sugeriu a mais nova.
David sentiu um leve temor pela afirmação de Margarett. Não obstante, concordou com Giuliana.
-Sim, nós acompanhamos-te, se não te importares.
Depois olhou para si mesmo e envergonhou-se. Estava completamente suado, a camisola estava suja e as calças não eram as melhores. Claro que não se tinha equipado como um jóquei de corrida para cavalgar, mas também não esperava ter visitas. Especialmente uma visita como aquela.
Sentiu o pó do feno a fazer-lhe novamente comichão na garganta e tossiu. Sentiu-se a ficar roxo, devido à falta de ar de novo. Contendo a sua aflição para passar despercebido, gesticulou para que as damas passassem à sua frente:
-Vamos entrar! – Sugeriu - Augusto, leva o Veloz ao estábulo dele, por favor.
-Sim, senhor… – Respondeu o homem.
Margarett espreitou por cima dos ombros, incerta.
Senhor?
Ela fez uma careta desentendida, mas não era estúpida. Tinha percebido que a casa era de David. Mas daí a ter um mordomo e a ser tratado por “senhor”? Perguntou-se que reviravolta tinha sido aquela. Quis-lhe perguntar, mas não teve coragem. O assunto ainda lhe soava demasiado delicado, mesmo passados 9 anos.
-Quer ouvir-me tocar piano? – Perguntou Giuliana.
David alinhou-se junto dela:
-Sim, entretém a senhorita Margarett. – Incentivou ele, mantendo contacto visual com a velha amiga - Vou tomar banho e venho já ter convosco!
Margarett quis dizer algo agradável, mas a sensação de incapacidade tinha tomado conta dela. Giuliana arrastou-a para dentro da sala consigo e ela só foi capaz de ver David subir as escadas a correr.
Ele, incerto, abandonou as duas com alguma pressa. Entrou no seu quarto, retirou a camisola suada e vasculhou na sua mesinha de cabeceira. Quando encontrou o que queria, sentiu-se aliviado. Colocou a bomba na boca e inspirou duas vezes.
Já devia saber que todas as manhãs tinha de inalar o vapor da sua bomba, mas às vezes ignorava a obrigação. Depois, acontecia aquilo, especialmente depois de cavalgar. Uma falta de ar abafada pelo cheiro do feno ou de qualquer outro resíduo no ar.
Sentou-se na cama, mais calmo.
Pegou no rolex que estava pousado na mesinha e verificou as horas. Não podia correr o risco de deixar Margarett ir-se embora.
Entrou na casa de banho e tomou o duche mais apressado de toda a sua vida. Depois penteou-se, colocou um pouco de colónia e abriu o armário para retirar algo mais decente do que as calças de ganga e a camisola de algodão.
Quando pronto, saiu do quarto.
Reconheceu as notas de “Für Elise” de Beethoven a encherem o espaço. Giuliana devia estar a demonstrar os seus dotes de pianista a Margarett.
Ele sorriu.
Desceu as escadas ao som da melodia e depois entrou na sala em silêncio.
Margarett e Giuliana estavam as duas sentadas no banco, enquanto a mais nova carregava nas teclas a um ritmo quase perfeito.
Ele aproveitou o despercebido para inspirar profundamente e ponderar sobre como ia abordar Margarett após tanto tempo.
Reparou que, por algum motivo, ela sorriu para Giuliana. O sorriso dela era o mesmo com que ele sonhara tantas vezes durante nove anos. Percebeu que ela estava tensa e era facilmente compreensível para ele qual a razão daquele olhar nervoso. Talvez porque ele partilhasse desse mesmo olhar.
Tinha tanto para lhe dizer e perguntar mas os anos não tinham sido facilitadores. A distância e o tempo eram grandes contribuintes para que eles se tornassem perfeitos desconhecidos. Aquilo que tinham vivido na adolescência tinha ficado para trás, ainda que fosse uma boa recordação. E, com anel ou não, Margarett podia muito bem ter um namorado à espera dela algures.
Ele suspirou com essa dedução. Não poderia esperar que passado tanto tempo, tudo tivesse ficado igual. Ele próprio tinha seguido com a sua vida e bastante bem. Mas vê-la ali, dentro daquela mesma casa, era tão hipnotizante como se nunca se tivessem separado.
Um desafino na melodia, causado por um toque em falso na tecla, fê-lo acordar. Ele riu-se. Giuliana enganava-se sempre naquela parte.
-Pensei mesmo que desta vez ias acertar! – Comentou.
Margarett deu um pulinho discreto no banco.
-Para a próxima não erro! – Apostou a rapariga, irritada.
-Eu acho que tocas muito bem. – Elogiou Margarett, levantando-se do banco.
Depois olhou David e deu um passo atrás surpreendida.
A roupa dele transformara-o. Tinha trocado a camisola suada por uma camisa branca de algodão, uma gravata fina de seda e um casaco de fazenda comprido e elegante. As calças de ganga foram substituídas por umas calças mais clássicas e os pés apresentavam uns sapatos monge, pretos.
-Não queres tomar alguma coisa? – Perguntou David, expectante.
Margarett negou e sorriu:
-A Giuliana encheu-me de bombons, obrigada!
O clima voltou a ficar tenso. David verificou as horas e depois aproximou-se de Giuliana:
-Giuliana, indosserà qualcosa di più appropriato! [1]
-Okay! – Exclamou a rapariga, correndo para sair da sala.
Margarett colocou o cabelo atrás da orelha, nervosa por se ver sozinha com David naquela sala. Era como tentar conter uma explosão de emoções numa caixa.
-Falas Italiano? – Questionou.
David assentiu.
Aproximou-se mais dela e convidou-a a sentar-se no sofá.
Margarett sentou-se. Era melhor do que estar de pé e dar-lhe uma coisinha má.
-Há quanto tempo estás aqui? – Quis ele saber.
-Vim há pouco. A Giuliana recebeu-me!
-Não... – David tossiu desta vez para aclarar a voz – Eu quero dizer, há quanto tempo… estás aqui? Na cidade.
Margarett humedeceu os lábios:
-Ah… Cheguei antes de ontem, à noite.
David franziu as sobrancelhas. Queria fazer-lhe uma pergunta, mas aquilo podia afugenta-la. Para sua surpresa, da boca dela saiu exactamente aquilo que ele estava a pensar:
-O que é que te aconteceu?
Ele olhou-a, perturbado. Estaria a ser irónica? Bastava que perguntasse a Mr. Wilson para ter a resposta.
-Eu viajei. – Respondeu, simplesmente.
Ela apertou as mãos sobre as pernas.
-Porque é que não deste notícias?
David encarou-a, perplexo:
-Como assim, não dei notícias?
Margarett não compreendeu aquela resposta. Talvez não devesse ter sido tão frontal.
-Esquece. – Pediu, ruborizada - Não tinhas a obrigação, de qualquer modo.
David interrompeu-a:
-Mantive o contacto com o teu pai durante um ano. Mas ele nunca me respondeu.
A recém-chegada sentiu-se pálida com aquela informação. Abriu a boca para protestar, mas Giuliana irrompeu na sala.
-Podemos ir! – Exclamou.
Mag nem sequer a ouviu. Ficou tão atarantada com aquilo, que se tornou frustrante não poder aprofundar o assunto. Levantou-se e, educadamente, analisou a jovem.
Ela parecia um trevo de quatro folhas. Um rosto que poderia indicar toda a sorte do mundo, mesmo que isso não fosse bem assim.
-Estás muito bonita! – Gabou, afastando-se de David para se aproximar dela.
O dono da casa, porém, sentiu-se ainda mais confuso do que ela. Perguntou-se se Margarett e Mr. Wilson tinham mantido contacto sem que ele tivesse sido alertado.
-Aonde é para te levar? – Perguntou, levantando-se do sofá.
-Ao Union Palace Hotel! – Respondeu.
David não comentou nada e avançou para o exterior. Giuliana e Margarett seguiram-no até à garagem. A perplexidade passou pelo rosto de Margarett quando viu o carro. Nem Pierre tinha um assim. O bichinho da curiosidade queria perguntar a David onde tinha ido buscar tanto dinheiro para aquilo, mas preferiu estar calada.
Entrou no veículo e sentiu-lhe o cheiro a novo.
Quando David entrou no lugar de condutor, o cheiro misturou-se com uma deliciosa fragrância masculina. Margarett corou com a sensação que aquele cheiro lhe proporcionou.
-David, abbiamo il pranzo in albergo?
-Lo penserò...[2]
Giuliana bateu palmas de entusiasmo.
Os bancos do automóvel eram tão confortáveis como uma almofada de penas. Margarett sentiu-se intimidada desde que abandonara a mansão até chegar ao Hotel. A viagem foi feita maioritariamente em silêncio.
Durante a mesma, David perguntou-se sobre o paradeiro de Mrs. Wilson. Quis saber, com todas as forças, se Margarett tinha regressado com ela, apesar de temer a resposta. Ninguem tinha conhecimento, no entanto, a ultima vez que vira Dorianne Wilson fora ainda naquele mês, quando ele e Giuliana passaram em Paris. Encontrou-a num bairro obscuro da cidade, depois de muito procurar pelo paradeiro daquela família. Nunca imaginaria, mas a mulher estava na podridão. Não tinha dinheiro, não tinha uma boa casa e, para sua surpresa e desilusão, não tinha Margarett com ela, o que o levou à estaca zero. Lembrava-se do olhar dela ao vê-lo, como se tivesse sido no dia anterior. O choque ao revê-lo tão bem vestido, tão afortunado. Ela perguntou-lhe o que é que ele estava ali a fazer, no entanto, a única resposta que levou foi tão vaga como a própria situação.
Mrs. Wilson ficou assombrada com aquela aparição e David deixou-a, assim. Deu-lhe uma nota, como se ela fosse uma mera mendiga, e foi embora. Ela já não lhe servia de nada.
Ele despertou dessa reflexão quando o Hotel ficou no seu ângulo de visão.
Quando David parou o carro, em frente ao Hotel, deixou que Margarett e Giuliana saíssem do automóvel primeiro:
-Vou estacionar. Vão entrando.
Margarett saiu do automóvel e entrou tão rapidamente no hotel, que nem sequer percebeu David a dirigir o carro na direcção do lugar reservado especialmente ao patrão.
De facto, só uma pessoa podia ocupar aquele cargo, e essa pessoa era ele.
Trancou o carro, tenso, e deslocou-se para a entrada. Cumprimentou Thomas, o porteiro e depois dirigiu-se à recepção.
-Bom dia, Mr. Mabb!
O homem endireitou a gravata, surpreendido:
-Bom dia, Mr. Paisen!
Margarett estranhou que o gerente já conhecesse David, mas não ligou. Em vez disso quis afastar-se um pouco para respirar:
-Bom, eu tenho pessoas à minha espera na suite. – Anunciou, colocando David numa inquietude desagradável -Foi um prazer conhecer-te Giuliana! – Disse ela, dando-lhe dois beijos na face para se despedir.
-O gosto foi todo meu! – Respondeu a adolescente.
Margarett olhou David de seguida, mais constrangida:
-E foi muito bom reencontrar-te, David!
David sorriu. Aquele sorriso encantador que ele nunca perdera.
Ela teve um certo receio, mas fê-lo. Deu-lhe dois beijos na face que lhe causaram choques e, para seu espanto, borboletas no estômago.
-Tenho esperança que nos reencontremos mais vezes.
Margarett sorriu:
-Eu também! Obrigada pela boleia!
David esperou que ela entrasse no elevador para suspirar de descontracção. Sorriu que nem um idiota.
-Mr. Mabb, reserve uma mesa para mim e para a Giuliana, por favor. E deixe-me ver os registos e o inventário.
-Sim, Mr. Paisen. – Obedeceu o homem, apresentando-lhe dois livros.
David começou a analisar os dados de cada um, concentrado.
-E como estão os preparativos para a inauguração?
-Os cartazes e os panfletos começam a ser distribuídos hoje.
-Óptimo. Já agora, é capaz de me dizer por quanto tempo é que a Senhorita Wilson vai ficar cá hospedada?
O gerente mostrou-se admirado com aquele pedido:
-Essa informação é confidencial, Mr. Paisen!
David olhou-o autoritariamente.
O homem, atabalhoado, gaguejou e verificou o livro do Check-in:
-Bom, mas tendo em conta que o senhor é o patrão, julgo que não haja problema!
-Exactamente! – Confirmou David, satisfeito.
O gerente revirou as páginas e encontrou:
-A reserva está feita com data de saída em Dezembro.
-Já? – David teve receio do que aquilo quereria dizer. Recompôs-se e endireitou-se – Obrigado, Mr. Mabb. Agora, por favor, mantenha a confidencialidade dos registos e não abra excepções!
-Com certeza, senhor!
-Tenho outra tarefa para si. – Anunciou.
O gerente ajeitou os punhos da camisa:
-O que quiser, Mr. Paisen!
David retirou da sua carteira um papel escrito e mostrou-o a Mr. Mabb.
-Quero que envie um convite formal para estes endereços. Faço questão que estas pessoas compareçam na inauguração.
O homem confirmou:
-Mais alguma coisa?
-Não. Bom trabalho, Mr. Mabb!
-Obrigado, Mr. Paisen! A sua mesa está pronta no salão!
-Obrigado!
Giuliana acompanhou David para o salão de almoço. Tinham a mesa mais bem situada, junto à janela. Sentaram-se e David voltou a ver as horas. Se tivesse sorte Margarett iria almoçar dentro de minutos.
-Porque ficaste tão nervoso ao pé dela? – Indagou a mais nova com um olhar desconfiado e trocista.
David disfarçou o rosto com o cardápio:
-Eu não fiquei nervoso. Fiquei admirado!
Giuliana riu-se da cara dele, mas calou-se.
Ele acabaria por se descair.
 
Margarett entrou na Suite e bateu a porta com força. O seu coração estava a mil. Atirou-se para a cama de barriga para cima e respirou profundamente.
-Meu Deus… - Sussurrou, tapando a boca.
Benzeu-se três vezes e depois levantou-se. Caroline e Marie não estavam. Deviam ter ido conhecer as atracções do hotel ou já estariam no salão para almoçar.
Sentiu os olhos aquosos e apressou-se a limpá-los. Não ia chorar. Não tinha motivos.
Andou de um lado para o outro no quarto e deixou-se sorrir levemente. Colocou a mão sobre o peito para sentir a velocidade a que o seu coração dançava. Sorriu mais alto e voltou a limpar as pestanas.
Depois aproximou-se da janela e espreitou o exterior. Surpreendeu-se ao ver que o carro de David ainda estava ali, a um canto discreto.
Perguntou-se se devia tê-lo deixado tão depressa.
-Que estúpida, Margarett… – Reclamou, arrependida.
Num impulso, pegou na chave do quarto e voltou a sair dele. Seria demasiado doida se deixasse aquele momento acabar tão depressa. Correu até ao elevador e desceu até à recepção, onde se deslocou ao gerente, apressada, e abordou-o:
-Desculpe, Senhor!
-Sim, senhorita Wilson?
-Sabe-me dizer se Mr. Paisen, aquele homem que me estava a acompanhar, já se foi embora?
-Não, senhorita. Mr. Paisen e a menina Giuliana estão a almoçar no salão!
Mag abriu um sorriso largo:
-Obrigada, Mr. Mabb!
O homem anuiu e depois viu a sujeita a correr desvairada na direcção do salão.
Ela parou em frente à porta e arranjou-se antes de entrar.
Tentou manter a postura ao introduzir-se no salão. Procurou pela mesa em que eles podiam estar e quando avistou encheu-se de coragem e aproximou-se.
-Olá de novo… Posso juntar-me a vocês?
David levantou-se e assentiu, puxando-lhe uma cadeira. Giuliana sorriu.
-Será um prazer! – Assumiu ele.
Ela sorriu-lhe cordialmente e sentou-se de frente para ele.
-Não tinha pessoas à sua espera, senhorita Margarett? – Perguntou Giuliana.
Margarett não negou:
-Não estava ninguém na minha suite. Provavelmente foram usufruir de alguma actividade do hotel.
-Zona Oeste? – Questionou David, fugindo ao incómodo de pensar que ela estava a dividir a sua suíte com alguém.
Margarett assentiu.
-Sim. Já cá estiveram alojados?
-Não. – Respondeu David, sem mentir – Mas tenho conhecimento do sistema.
Giuliana riu-se, divertida com a indiferença de Mag e com a falta de esclarecimento de David.
-Eu peço desculpa por ter sido tão apressada a despedir-me de vocês. Na verdade, David, não terminamos a nossa pequena conversa.
David pegou no cálice de vinho maduro e tomou um gole:
-Não sei se a Giuliana tem paciência para nos ouvir…
A mais nova pestanejou. Margarett concordou com David:
-Realmente. Deve ser maçante para ela.
O garçon apresentou o cardápio à loira, cujo ela agradeceu.
Giuliana bebeu um pouco de sumo de laranja e olhou de um para o outro:
-Eu não me importo.
David e Margarett sorriram, constrangidos. Mas telepaticamente resolveram que não iam tocar em assuntos dramáticos.
David humedeceu os lábios e ofereceu um pouco do vinho que havia na mesa. Mag aceitou. Precisava de força.
-Então… Quando é que vocês chegaram à cidade?
-Recentemente. – Informou David - Há pouco mais de uma semana.
Margarett provou o vinho. Era perfumado e aveludado.
-De Itália?
Desta vez foi David que encostou o cálice do vinho aos lábios:
-Sim…
Margarett sentiu a face a ficar vermelha, mas não por vergonha, nem tampouco por causa do vinho.
-Tão perto… - murmurou para com os seus botões, baixo o suficiente para não ser perceptível.
E, de facto, era, comparativamente ao que ela imaginara ser o paradeiro de David durante todos aqueles anos.
O garçon aproximou-se e ela fez o seu pedido. Depois tomou outro gole do vinho.
-Ouço falar maravilhas sobre Itália. – Declarou – Em que cidade estavam?
-Milão! – Respondeu Giuliana orgulhosa – É a minha cidade Natal!
Margarett sorriu-lhe docemente. Depois reflectiu sobre qual a origem daquela jovem e qual a razão de estar com David:
-É indiscrição perguntar qual é a vossa ligação?
David olhou-a de soslaio e demorou um pouco a responder:
-Sou o responsável pela Giuliana. Ela é a minha… pequena educanda!
Margarett desenhou uma feição de interrogação, mas se David não tivesse mudado muito, aquela resposta tão vaga era indicativa de falta de vontade para aprofundar o assunto. E, olhando para Giuliana, percebia que a vontade dos dois era semelhante. De forma adulta, ela não insistiu.
Os pratos de David e da pequena chegaram. Tinham uma apresentação deliciosa e muita cor. Parecia-lhe pato.
David pegou no guardanapo branco de pano e dobrou-o cuidadosamente. Depois pousou-o sobre as pernas, tudo feito de uma forma tão natural como se ele toda a vida o tivesse feito.
-Então, Margarett... O que fazes? – Questionou ele, pegando nos talheres com uma elegância tão desconhecida para Mag como o próprio passado dele.
Ela retirou as suas atenções daquele pormenor.
-Trabalhava em Paris, numa Maison de alta-costura. Nos tempos livres geria uma retrosaria e contribuía na ajuda dos figurinos da Ópera de Paris.
David semicerrou os olhos. No meio daquela informação apenas uma coisa o surpreendeu:
-Porque falaste de tudo no passado?
Ela encolheu os ombros e não respondeu. Ainda não tinha a certeza se tinha feito a coisa certa ao demitir-se.
-Então e tu? O que fazes?
O garçon retornou com o prato de Margarett. David esperou que ele a servisse para continuar:
-Adivinha.
Giuliana sorriu.
Margarett não escondeu o fascínio que aquela resposta criara na sua mente. Encarou David com alguma imaginação:
-Há uma infinidade de hipóteses!
-De facto… - o olhar que David lhe lançou de seguida mais intenso. Algo que deixou Margarett quente. - Mas mesmo assim podes arriscar. Não perdes nada por isso.
Ela sorriu, ligeiramente inebriada. Provou a comida, pensativa, e ponderou que tipo de profissões poderiam dar a David poder financeiro ao ponto de ele restaurar uma mansão antiga, ter um mordomo, um carro da última geração e até um cavalo.
-Médico? – Palpitou, duvidando que aquela profissão fosse suficiente para tudo aquilo.
David, como ela esperava, negou com a cabeça.
-São sou propriamente um salva-vidas!
Giuliana fez um som de indignação ao mesmo tempo que Mag se sentiu culpada. Aquilo não era bem verdade, mas a mais velha prosseguiu:
-Político?
Desta vez, David gargalhou:
-Não, de todo!
Margarett riu-se, por ter pensado aquilo um minuto que fosse:
-És artista! Musico! – Atirou ao ar, rindo da suposição.
-Musico?
Naquele momento foi Giuliana quem se riu.
O tom de David era divertido. Por momentos, Mag lembrou-se do melhor amigo que pensava ter perdido.
-Posso dar uma pista? – Sugeriu a mais nova.
David permitiu e ela como resposta apontou em seu redor.
Margarett descolou os lábios para dar outro palpite sem nexo, mas travou-se. Olhou com mais atenção para o que Giuliana apontara. Comida, serventes, pinturas, decoração, arranjos florais… traduzindo para o mundo das profissões, via as palavras Chefe, Garçon, Pintor, Designer, Jardineiro… Mas não era isso. Era algo maior. Mais dispendioso, mas também muito lucrativo. Os seus olhos brilharam, não crendo na sua própria ideia. Pensou que ia dizer uma grande asneira, mas depois reconheceu que havia algum motivo para David ter sido recebido ali com tanta formalidade.
-O Hotel…? Tu… - Ao ver um aceno afirmativo de cabeça de Giuliana, ela abriu a boca, chocada – Oh meu Deus, David… És o dono deste hotel?
David levantou o copo, incitando um brinde:
-Bem-vinda ao Union Pace Hotel, onde todos podem ser felizes!
Uma emoção inexplicável afundou Mag. Ela ergueu o seu copo para corresponder ao brinde de David:
-Isto é fenomenal. – Assumiu - Parabéns!
-Irias adorar o hotel em Dublin. – Disse Giuliana, chocando o copo de sumo de laranja com os copos de vinho dos mais velhos – Tem vista para o rio e tem um estilo muito charmoso!
Não foi possível a Margarett fechar a boca para esconder o espanto:
-Dublin? Dublin como na Irlanda?
-Dublin exactamente na Irlanda. – Confirmou David, rindo-se - Mas o hotel não é tão grande como este!
-Mas foi o primeiro, por isso tem outra essência! – Combateu a italiana.
Margarett viu o copo a ficar vazio. David, ao aperceber-se, serviu-a com o líquido proveniente da uva.
-E há mais algum?
Uma vez mais, a resposta não veio de David, que se mostrou sem jeito.
-Um em Milão e outro em Genebra, na Suiça!
Margarett tragou um pouco da sua bebida. Começava a sentir-se tonta, por isso decidiu focar-se na comida:
-Uau… Eu estou muito admirada!
-Sim… Às vezes eu também fico… - Assumiu o homem feito.
A loira fitou-o com muita consideração e para sua surpresa o olhar dele coincidiu com os seus olhos. Por segundos, Mag teve a sensação que passou entre os dois uma energia electrizante que a fez grudar-se ainda mais nele.
Essa energia quebrou-se quando uma voz infantil a chamou para o mundo real:
- Tante Margarett! Tante Margarett! [3]
Ela olhou para baixo, ao nível da pequena que a abordara:
-Marie, ma petite![4] – Exclamou, surpreendida por vê-la ali.
-Où étiez-vous, tante Margarett?[5]
-Je suis allé faire un tour! Et vous, mon petit?[6]
A menina calou-se ao observar que Margarett estava acompanhada. A pequenina ficou intimidada e escondeu o rosto no braço de Margarett. Esta riu-se e pegou-a para o seu colo:
- Où est ta mère?[7]
- Je suis ici! – Exclamou Caroline aproximando-se, ofegante - Marie ne tourne pas à me fuir![8]
Margarett limpou os lábios no guardanapo e levantou-se com Marie no colo:
-David, Giuliana, estas são a minha amiga Caroline e a minha afilhada Marie. – Apresentou.
David levantou-se também para as saudar.
-Caroline, rencontre un vieil ami! David Paisen et Giuliana![9]
Caroline aproximou-se de David, educadamente, e disse poucas palavras na mesma língua:
-Olá! É um gosto!
David saudou-a com um beijo na mão e falou:
-C'est un goût familier, madame! Peut parler français à la maison. Je comprends très bien! Déjà le déjeuner?[10]
Margarett voltou a abrir a boca, estupefacta.
-Oui, déjà! Merci! S'il vous plaît continuer! – Respondeu Caroline - Oh, Margarett, vous aurait dit que M. Paisen parlait français![11]
Margarett corou violentamente e olhou de Caroline para David:
-Je ne sais pas![12] – Respondeu e depois voltou-se para David – Desde quando?
David voltou a sentar-se e Margarett tombou o rabo na cadeira também:
-Há alguns anos. Mas não exercito muito. – Ele olhou para Marie e sorriu - Elle est adorable![13]
Marie sorriu envergonhada e saltou do colo de Margarett para voltar para a beira da mãe.
-Merci! – Exclamou Caroline, orgulhosa.
Margarett gemeu. Sentiu-se como um pedaço de açucar na boca de alguém; cada segundo se dissolvia mais um pouco.
-Votre père a téléphoné à l'hôtel, Margaret. Il voulait vraiment parler de vous, si vous étiez disponible.[14]
O olhar de Mag arrefeceu. Ela olhou David com alguma insegurança. Por um lado questionou-se se ele tinha percebido, apesar de ele ter garantido a Caroline que a compreendida perfeitamente. Por outro, a dúvida que ficara pendente antes de saírem de casa tinha regressado e, talvez fosse impressão sua ou não, mas a necessidade de respostas não era só requerida por ela.
Pacientemente, ela inspirou fundo e tomou atenção à sua comida:
-Malheureusement, il faudra attendre. Quels sont quelques heures ou même des jours malheureux pour ceux qui ont attendu neuf ans de vie?[15]
David humedeceu os lábios, incomodado. Pegou no seu cálice e tragou uma leve gota de vinho, apenas para lhe sentir o paladar. Margarett, incomodada de modo semelhante, limpou os lábios ao guardanapo de pano e olhou Caroline:
-J'avais pensé à visiter certains de mes amis cet après-midi. Vous voulez venir avec moi, Caroline?[16]
Caroline não compreendeu ao certo aquela resposta. Olhou de Margarett para Giuliana e depois para David. Assentiu com a cabeça e despediu-se:
- Très bien. Donc, je vais à la suite avec Marie. Avoir un bon déjeuner! So long, et il était un avant-goût de le connaître, M. Paisen![17]
David levantou-se e saudou Caroline, assim como Giuliana:
-J'espère que vous avez un bon moment, madame! Jusqu'à la prochaine fois![18]
Caroline sorriu e levou Marie consigo.
Margarett não fez qualquer espécie de comentário. Colocou os olhos no seu prato e colocou comida na boca, séria.
Giuliana estranhou aquela mudança de humor súbita, apesar de não ter percebido nada da conversa e endireitou-se na cadeira:
-A comida está fraca?
Margarett corou e sorriu por gentileza, com medo de passar uma mensagem errada:
-Não, está uma delícia, de verdade! – Ela levantou o olhar em frente e voltou a baixá-lo, envergonhada por voltar a criar contacto visual sem querer com David.
Questionou-se o que ele estaria a pensar. Achou-se idiota por querer perguntar-lhe se ele queria ir ver o pai dela com ela. Mas não ia fazer isso. Isso seria estranho, constrangedor, intimidante e muito inconveniente. Lá porque ela não tinha ultrapassado aquelas sombras, não tinha o direito de arrastar o feliz e renovado David com ela para um assunto tão tenebroso como aquele. Era passado e isso era o mais importante.
No entanto, ela não podia adivinhar os pensamentos de David. Ele estava tão confuso que era homem para pegar no carro e ir confrontar Mr. Wison naquele preciso momento. Mas, uma vez mais, tinham passado nove anos e ele não podia exigir explicações que não trariam qualquer mudança naquele passado.
-Sabias que o William e a Daisy casaram? – Indagou ele para tentar amenizar a situação.
-A Ally contou-me esta manhã. – Respondeu-lhe - Sabias que ela agora gere o Lily’s Diner?
David assentiu:
-Sabes porque é que ela não precisou de mudar o nome do estabelecimento?
Margarett isso já não sabia por isso encolheu os ombros, curiosa.
-Não. Porquê?
-É um trocadilho. O marido dela chama-se Liam e ela é Ally. Fizeram uma amálgama com os dois nomes e resultou precisamente em “Lily”. Pessoalmente acho que foi de génio. Assim mantiveram o nome para velhos clientes, mas melhoraram o espaço e o atendimento!
Margarett sentiu o mesmo:
-Eu nunca teria tido uma ideia melhor!
David finalizou a sua refeição e depois riu-se alto:
-Lembras-te daquele cozinheiro barulhento? Ele passava a vida a gritar com ela e com a Daisy e a Janice! Acho que se reformou!
-Graças a Deus! – Margarett compatilhou o riso. Era uma boa recordação.
-Vocês passavam lá muito tempo? – Indagou Giuliana.
David e Margarett trocaram um olhar cúmplice:
-Algum. – Disse ele.
Margarett completou a informação:
-Bem, o David passava mais tempo do que eu. Com muita pena minha, só aproveitei o espaço durante um Verão…
David selou os lábios numa linha recta e firme e rezou para que Giuliana não fizesse mais perguntas.
A pequena terminou a refeição e ele notou que Margarett também já estava no fim.
-Vão querer sobremesa?
Mag negou depois de ver as horas.
Giuliana também não quis:
-Bem, nesse caso está na hora de irmos embora, Giuliana. Sabes onde temos de ir.
Giuliana torceu o nariz e concordou.
Esperaram que Margarett terminasse a refeição e depois saíram do salão juntos. Pela segunda vez naquele dia, despediram-se.
David e Giuliana tinham planos naquela tarde. Tendo em consideração que se tinham mudado definitivamente, era a hora de Giuliana assentar na escola. Teria um acompanhamento especial por não ser de naturalidade americana e a partir daí era uma questão de sorte com os professores e os colegas.
Margarett, por outro lado, tinha repensado na ideia de visitar os velhos amigos.
Ela subiu até à sua suite, preparada para confrontar Caroline e as suas questões. Todavia, não estava com humor para falar muito sobre o pai, sobretudo depois da vaga impressão que David lhe tinha dado sobre a omissão das cartas por parte de Mr. Wilson.
Ela entrou na suite devagarinho. Caroline estava sentada na poltrona a ler uma revista francesa que tinha comprado antes de viajar, por via das dúvidas.
Reparou que Marie estava sonolenta.
Sem nada dizer, dirigiu-se à cama e tombou sobre ela. Descalçou-se, suspirou e fechou os olhos. Depois abriu-os e passou os dedos pela coberta. Rodou para ficar de barriga para cima e olhou os pormenores da decoração e da construção. Deu por si a sorrir, maravilhada.
-Este hotel é magnífico… - comentou e, seguidamente, virou-se de lado.
Caroline fitou-a com alguma desconfiança. Margarett parecia estar muito aluada.
-Achei que já tinhas percebido isso. – Ao ver que não teve resposta, ela prosseguiu – Porque é que ficaste tão estranha quando te informei sobre o teu pai?
Margarett perdeu o sorriso:
-Descobri que o meu pai pode ter feito algo que me magoou muito… - Ela levantou-se e bufou. Ainda não tinha a certeza de nada – Ele disse o que queria?
Caroline negou:
-Não concretamente, mas ele ligou cedo. Acho que era para te dizer algo antes que saísses do hotel.
Margarett somou os factos. Que mais quereria o pai de manhã cedo a não ser impedi-la de ir á mansão? No dia anterior ele mostrara-se inconformado com aquela ideia contudo, ingenuamente, ela nem pensara na hipótese de Mr. Wilson querer impedi-la de saber sobre David. A revolta voltou a consumi-la:
-O meu pai terá de aprender que há outros modos de cuidar de mim.
-Estás esquisita hoje. Aonde foste ao certo? O bilhete que deixaste não foi muito esclarecedor.
Mag suspirou:
-Eu acho fui de encontro ao destino, sem saber.
Caroline fechou a revista e virou-se para ela:
-Ainda estou divida entre a ideia de estares feliz e aluada, ou nostálgica e revoltada.
-Isso é porque estou os dois. – Assumiu a mais nova – Reencontrei o meu melhor amigo, Caroline. O amigo que eu pensava que tinha morrido há anos atrás por minha culpa…
Os olhos de Margarett revelaram-se aquosos. Caroline não esperava tanta emoção depositada naquelas órbitas. Aproximou-se da amiga e sentou-se ao pé dela:
-Aquele homem? Nunca me tinhas falado disso.
Margarett pestanejou para limpar as pestanas. Levantou-se. Sentia-se demasiado grata a Deus para deixar-se chorar.
-Às vezes é mais fácil cortar o mal pela raiz. Fingir que nunca aconteceu, sabes? – Ela voltou a sorrir – Não te vou maçar com isto, Caroline! Estou feliz. O David está vivo e… E ele conquistou o mundo. Eu estou orgulhosa.
Caroline não debateu o assunto. A sua falta de conhecimento impedia-a de compreender o grau dos sentimentos de Margarett. E pior que isso, não percebia como é que Mag nunca lhe tinha feito nenhuma referência a este David, sendo ele tão importante para ela.
-Não penses nisso, Carol…O que achas? Estás com disposição para fazermos uma visita a um casal amigo meu?
-Sim, claro. – Confirmou a francesa - Eu e a Marie ficamos a manhã toda neste hotel.
Mag ficou feliz. Pegou no endereço que Ally lhe havia dado naquela manhã e, tendo em consideração a distância das moradas, decidiu fazer uma visita à casa mais próxima.
Ally tinha-lhe preparado terreno ao mencionar que Eric e Janice tinham três filhos, dois deles gémeos. Sabia que a sua visita era inesperada para o casal, mas nada lhe daria mais prazer do que ver a evolução que os dois adolescentes fogosos tinham feito na relação. Também morria de curiosidade para saber de William e da surpreendente esposa, Daisy. Ela própria não teria encontrado par mais apropriado para aquele que fora o seu primeiro namorado. Infelizmente, não poderia estar com todos num mesmo dia. De facto, o seu estado pós-David era de tal modo tonto que ela teria mais sucesso se dormisse a tarde toda.
Não obstante, ela não tinha tempo a perder com essas coisas.
A casa de Erik e Janice era a coisa mais amorosa do mundo. Situada num bairro muito familiar, destacava-se pelas bicicletas pequeninas que estavam à entrada e pela cadeira de baloiço no alpendre.
Margarett reconheceu-se naquele ambiente. Reparou nas duas meninas com cerca de 5 anos a brincarem à entrada. Tinham um ar travesso.
Quando ela e Caroline chegaram àquela casa pediram-lhes que chamassem os pais. Quem veio recebê-las foi Janice. Ela ficou tão estupefacta com aquela visita que se esqueceu da chaleira ao lume, o que causou alarido, mas isso era algo divertido e típico de Janice. Eric não estava. Fora trabalhar e só voltava mais tarde.
Margarett e Caroline conheceram a casa e as crianças. Nenhuma se parecia com Janice. As gémeas eram fortemente traçadas pelo pai e o mais novo era a cara idêntica dele.
Janice convenceu Margarett a ficar para jantar com Caroline e Marie, para assim estarem com Eric.
Elas aceitaram.
Quando Eric chegou e reviu a velha Margarett teve uma atitude típica. Ao princípio estranhou e não soube o que dizer. Depois começou a falar pelos cotovelos sobre tudo o que se lembrava dela. Margarett ia traduzindo para Caroline e assim passaram a noite até regressarem ao hotel.
Margarett, naquela noite, deitou-se mais leve. Durante anos tinha dormido com pesos invisíveis nos ombros e na mente, algo que ela se tinha tentado livrar por várias vezes sem sucesso. Pesos esses que lhe tiravam o sono e lhe davam pesadelos em tons de fogo noite sim, noite não.
Passados nove anos, pela primeira vez, foi capaz de se deitar e fechar os olhos em paz.
A sua noite foi serena. Não havia chamas no seu inconsciente, mas uma cama de dossel e uma cortina a dançar suavemente com a brisa que entrava pela janela.
O seu despertar foi risonho, apesar de ser causado por uma batida na porta do quarto.
Ela levantou-se e antes que Caroline e Marie acordassem abriu a porta.
Era Mr. Mabb.
-Desculpe incomodá-la, senhorita Wilson, mas foi-me pedido que lhe entregasse isto. – Mag recebeu um pequeno bilhete celado. Era pequenino mas em papel grosso. – Se precisar de algo, alerte-me. Continuação de um bom dia!
-Obrigada, Mr. Mabb.
Mag esperou que o gerente do hotel se fosse embora para abrir o bilhete.
O seu coração acelerou ao reconhecer a caligrafia e o rosto foi adornado por um sorriso ainda maior do que aquele com que acordara ao ler as palavras. Ela encostou o cartão ao peito e saltitou dentro do quarto como uma pequena bailarina, rodopiando até tombar no colchão
Riu-se em segredo e, baixinho, releu a nota.







[1] Giuliana, veste algo mais apropriado!
[2] -David, vamos almoçar no Hotel?
  -Vou Pensar…
[3] Tia Margarett! Tia Margarett!
[4] -Marie, minha querida!
[5] -Onde esteve, tia Margarett?
[6] -Eu fui dar um passeio. E tu, minha pequenina?
[7] -Onde está a tua mãe?
[8] -Estou aqui! Marie, não me voltes a fugir!
[9] -Caroline, reencontrei um velho amigo! David Paisen e a Giuliana
[10] É um gosto conhecê-la, madame! Pode falar francês à vontade. Eu compreendo perfeitamente! Já almoçou?
[11] -Sim já! Obrigada. Por favor, continuem!
Oh, Margarett, não me disseste que M. Paisen falava francês!
[12] -Eu não sabia!
[13] -Ela é adorável!
[14] -O teu pai telefonou para o hotel, Margarett! Ele queria muito falar contigo assim que possível!
[15] -Infelizmente, terá de esperar. Afinal o que são umas miseras horas ou mesmo dias para quem esperou 9 anos de vida?
[16] -Eu tinha pensado em visitar um casal de amigos à tarde. Queres vir comigo, Caroline?
[17] -Está bem. Então eu vou para a suite com a Marie. Tenham um bom almoço! Até logo, e foi um prazer conhecê-lo, M. Paisen!
[18] -Espero que tenha uma boa estadia, madame! Até à próxima!


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Ora, então cá vou eu alisar o terreno… A questão começa nas vossas expectativas. Eu sei que no último capitulo ficou um grande momento a pairar sobre o ar. Os mais românticos estariam a pensar num reencontro apaixonado, cheio de beijos, frases amorosas e blá,blá,blá!
Lamento, pessoas mais românticas (sendo eu uma delas). Por muito que eu adorasse meter uma cena toda on fire neste capitulo,a lógica foi mais forte. Ora, passaram 9 anos, minha gente. E a minha grande dúvida enquanto escrevia este capítulo era: como é que duas pessoas que eram profundamente ligadas na adolescência, reagem ao reencontrarem-se quase uma década depois? Na minha mente, iria haver mais constrangimento do que propriamente trocas de carinho. Pronto, também não sei tudo. Não existo assim à tanto tempo para ter noção disso. Mas a minha lógica é: as coisas mudam. Os pensamentos alteram-se, as experiências variam. E devido a isso não coloquei a Mag e o David a caírem perdidos nos braços um do outro. Não podia. Eles já não se conhecem como antes. O sentimento, apesar de estar lá, está dormente. Não me vou prolongar porque acho que vocês já perceberam a ideia. Em suma, este capitulo está estranho. Mas pronto. Para o ano há mais! ;D
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#218
Oh Lulu, isto não se faz!! O que dizia a nota? Quero saber?!!    Lagrimas 
Eu adorei o capítulo! Compreendo perfeitamente o teu ponto de vista. Passaram nove anos, é normal que as coisas sejam diferentes. Claro que seria extremamente romântico se voltasse a ser tudo como antes, em questão de minutos, mas não muito realista. Prefiro a tua abordagem . É muito mas interessante observar como se conquistam novamente um ao outro, percebendo as pequenas mudanças, o que permanece. Apaixonarem-se um pelo outro por quem são agora, não por uma imagem do passado.
Afinal o hotel era mesmo do David, o meu palpite estava certo. Razz
O sr Wilson merece uma boa reprimenda, e acho bem que a tenha.  
Quero mais!! Quero a continuação! Vou esperar ansiosamente por ela!
Beijinhos e boa passagem de ano! Wink
#219
Primeira reação...
1-Sim o capitulo não está nada de mais, mas tinhas q ter um capitulo assim para contares promenores ainda não existentes

2-Sim eu também acho que fizes-t bem em não os meter as beijos e afins, porque na minha opinião também acho q 9 anos enfraqueceu a confiança, não o amor. 9 Anos fez com que o David cresce-se na via, e a Meg acabou por se aperceber disso

3-QUANDO É QUE APARECE O FINAL?! :(Estou tão curiosa com os capítulos que viram... devem ser os melhores de toda a história! Smile
#220
Já devia ter comentado antes mas os preparativos para a passagem de ano e o inevitável "descanso" nos dois dias seguintes causaram esta demora. E pensar que já estou a estudar para os exames e há dias estava de férias a fazer nenhum.  Sad  

Acerca do capítulo, devo dizer que sinto-me estúpida por ter ficado surpreendida com o facto de o David ser o dono do Hotel. Tipo, devia estar á espera disso, não? O proprietário teria que ser obviamente uma pessoa humilde e com bastante dinheiro e se há coisa que não existe em histórias, são coincidências Matreiro
Ahaha, não pude deixar de esboçar um sorriso matreiro quando a Maggie chegou à conclusão do que o pai tinha feito. Como já tinha dito em comentários anteriores, entendo a atitude do Sr. Adolfe mas isso não quer dizer que tenha sido a melhor. No fim, a sua decisão era como uma faca de dois gumes que não tinha como acabar bem. Quero ver agora como irá ser o confronto entre pai e filha e até mesmo o que o Sr. Adolfe dirá a David sobre as cartas. 
Outra coisa interessantíssima: O David procurou a mãe da Maggie? Ora isso não estava à espera. Devia ser isso que a Srª. Wilson estava a tentar dizer à filha! De qualquer maneira, ainda bem que puseste o David a encarar a Dorianne uma última vez, só mesmo para a bruxa ver que ele tornou-se exactamente aquilo que ela duvidava que ele alguma vez seria!  Twisted Evil 

Agora, em relação à tua nota final. Gostei imenso da forma como abordaste o reencontro. Não era preciso amor e muitos beijos, mas basicamente o carinho que os dois amigos tinham um pelo outros desde o primeiro capítulo da história. Adorei o constrangimento entre os dois mas, ao mesmo tempo, a nostalgia que sentiram ao olhar um para o outro. Miúda, tens aqui muito bom material para a história e, tal como a Bun e a Carolina, vai custar esperar por mais um capítulo. 
A única coisa que ficou um pouco fora das minhas expectativas foi a conversa no hotel, principalmente porque foi minutos depois de eles se terem reencontrado e se terem apercebido que ainda não estavam confortáveis um com o outro após tanto tempo. Não estou a dizer que não gostei, porque adorei (e muito!), mas a cena inicial foi tão linda e depois, até à Caroline chegar fiquei um pouco naquela... Acho que até fiquei um pouco como a Maggie à beira do David Matreiro

Não leves este pequeno aparte muito a sério. Adoro a tua história, está cada vez mais complexa e apetitosa para o meu paladar de leitora e espero mesmo que o próximo não demore muito Very Happy
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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