Sailor Moon Portugal, A Navegante da Lua

Fairy Tales - O início

#144
Oh pessoal, más notícias.

Apanhei um infecção na garganta na semana passada. Passei a semana (quase) toda em casa (quase o mesmo se isto fosse a Gripe A), a tomar antibióticos e a ver as séries da Fox (tou com uma paranóia qualquer).
Na terça, comecei com a febre que ultrapassa os 39º e tosse, fui às Urgências. Remediou de alguma coisa?
Não.
No corredor comecei a ter alucinações (a sério!) devido ao ar condicionado (quem foi o idiota que mandou instalar isso na sala de espera?)
Resposta do médico: Ah, é apenas uma constipaçãozinha devido à mudança de estação. P.S. - o tipo tinha a cara espalmada e ao lado estava um médico espanhol. Óptimas condições, apesar de não influenciarem nada.
Quarta, a minha mãe obrigou-me a ficar em casa. Apesar de eu ter coisas...escolares importantes para fazer (agradeçam-lhe, agora vou ter nota baixa a I.A.M. porque eu simplesmente faltei. Esperancoso )
Foi um dia nojento, bastante...
Vomitei ao jantar... 1
Tinha 39º de febre enquanto estava a ter o meu momento relaxante, que é basicamente a altura em que estou escondida no meio dos sofás, a ouvir música nos phones...2
Depois do número 2, fui-me enfiar na cama, apesar de ainda serem umas 19:30 na altura. Depois de estar lá enfiada, a minha mãe lembrou-se de telefonar à minha avó (para quem não sabe, que é todos, eu moro com um casal de avós, os pais do meu pai. Os pais da minha mãe moram no outro lado da ilha. São desses que estou a falar.) a dar a big notícia que eu estava a morrer *literalmente, não foi assim* . Okay, rodopios, outro telefonema e lá fui eu recambiada para o meu médico que eu, sinceramente, não sei qual é a especialidade dele. É que trata de tudo. Eu é que não deixo que seja meu ginecologista.
Resposta do médico 2: Infecção na garganta. Vou passar-lhe uns antibióticos. É para tomar de 24 em 24 h. Ah, e 7up. Tens é de mexer com uma colher para tirar o gás. E a declaração médica...é...o resto da semana sem sair.

Sim, foi óptimo! Tenho razões para não sair da cama e todas as faltas justificadas! O problema é compensar tudo a seguir. Tipo, testes que não fiz, matéria que não dei. No mínimo, estou lixada.


Capítulo 9 - Relâmpagos e Trovões




Recompôs-se e procurou por roupa para vestir. Agarrou num saco de plástico e colocou lá os jeans rasgados. Esses tinham que estar bem escondidos até ter oportunidade de colocá-los para bem longe dali. Vestiu a roupa que escolhera, mas apercebeu-se que estava demasiado nervosa e atrapalhada para conseguir fazê-lo normalmente. Todo o corpo tremia como gelatina. Por momentos esqueceu-se que estava a tentar portar-se normalmente para ninguém achar que ela estava com problemas.


Problemas que pensava tornarem-se bem piores a qualquer hora. Tinha de manter segredos que custariam a sua vida; por cada passo dado, apareciam criaturas de outro mundo para, possivelmente matá-la. E não era humana. O que podia ser mais terrível do que não ser...normal? Haveria forma de pôr fim àquele pesadelo?

E então lembrou-se que rapaz havia saído sem lhe ter contado o que acontecera com o monstro. E isso era uma prioridade.


Outra atenções que deveria dar era, possivelmente, manter-se viva até conseguir perceber...não, resolver as coisas. Como poderia ela continuar a viver como uma pessoa se não o era?

Ouviu um estrondo suave do outro lado. Tinha chegado alguém. Verificou se estava com a vestimenta apresentável.


Espreitou pela porta entreaberta e respirou de alívio quando viu a figura reconhecível da sua mãe.


- Mãe? - perguntou, enquanto saía do quarto. A mulher virou-se e olhou-a,
esboçando um sorriso quente e maternal.

- Olá querida! Desculpa se fiz muito barulho. Estavas a estudar?

- Hum, sim, claro! - mentiu. Cravou as unhas na palma da mão, sabendo que estava a cometer um erro. A mãe olhou-a e o sorriso desvaneceu, tomando um olhar de preocupação.

- Está tudo bem? Pareces...agoniada...

Karen amaldiçoou-se por não ter ido a um espelho verificar se estava com boa figura. Teve que arranjar solução:

- Ah, não é nada, acho que estou apenas...cansada - não era totalmente
mentira. Desde o encontro de há pouco que sentia dores no peito. Talvez...aflições de pouco escala.

- Okay. - voltou a sorrir ternamente - Porque não vais tomar um banho enquanto preparo o jantar? Relaxas um pouco dos trabalhos de casa.

Karen assentiu. Sim, melhor a cabeça em água iria acalma-la. Fechou-se no banheiro e olhou rapidamente para o espelho. Até que apanhou um susto
com as expressões.

Os ossos estavam bastante salientes na zona das bochechas. Nunca fora do tipo "bochechuda", mas já tivera mais carne nos lados do rosto. Nunca vira as olheiras tão lívidas, até lhe davam uma impressão de dar a volta ao estômago. Parecia um fantasma, já que tinha o rosto pálido a combinar. Abriu a torneira de água quente da banheira. O espaço rapidamente encheu-se com uma espessa neblina. Despiu (novamente!) a roupa e temperou a banheira com um pouco de água fria, até que ficou com a temperatura ideal.


Entrou devagarinho, deixando a pele aquecer sobre a água; passou o sabão por todo o corpo e molhou o cabelo para colocar champô. Concluída a acção, deixou-se ficar até que a temperatura arrefeceu e os dedos estremeciam com o frio. Agarrou numa toalha e envolveu o tronco nela e usou outra para secar o cabelo.

Saiu dali como renovada, apesar de saber que nada iria conseguir tirar com facilidade a aflição estampada na face. Como conseguiria ela agir normalmente? A família, ao menor descuido, era capaz de descobrir o que se passava.

Seguiu um rasto de cheiro delicioso até à cozinha e deparou-se com a progenitora a preparar a refeição. Deixou-se ficar em silêncio encostada num canto, enquanto observava os movimentos rápidos e eficientes. Sempre tão útil e carinhosa, e ela, uma idiota quase sem jeito e problemática.

Devia estar a pensar em voz alta, pois ela apercebeu-se da sua presença, parando o que estava a fazer para meter conversa:

- Como foi o teu dia?

- Normal. Como sempre - expressou outra mentira. Ela já se estava a sentir-se mal por isso.

- Acho que aprendi algo novo com a gente daqui. Não conseguem comportar-se normalmente com estrangeiros.

- Faz sentido.

- Olha, podes pôr a mesa?

- Claro.


Karen foi buscar os pratos e os talheres e dispôs tudo na mesa.

Afinal, a prioridade não era a sua sobrevivência, mas sim a da sua família. Não era capaz de imaginar a sua mãe a passar pelo mesmo que havia acontecido naquela tarde. Impensável!

Uma criatura daquelas, vermelha cor de sangue, sem pernas e com um símbolo estranho gravado a fogo no peito, esmagá-la-ia com apenas um murro.


O que poderia fazer para que nada daquilo acontecesse? Entregar-se sem saber a razão porque estava a ser perseguida?

Após completa a acção, fechou-se no quarto, e encostou a nuca à parede, olhando para o lado de fora da janela. Nenhum sinal de nuvens escuras ou de tempestade. O céu estava limpo por completo e havia ganho um tom alaranjado. Separado do resto, estava visível um pouco do oceano aberto que, a pouco e pouco, ia mudando de um leve rosa para o laranja, enquanto que a noite chegava a passos largos.

Antes mesmo da luz solar desaparecer por completo, a Lua ia-se tornando visível com um ténue cinza. Uma perfeita sintonia antes da escuridão chegar. A cada bocadinho, relembrava-se do sol mágico de outro mundo, das folhas transparentes como cristais, da água fresca e do cheiro agradável e diferente de tudo.


Depois, quando a única coisa que conseguia ouvir era o trânsito lá em baixo e o lado exterior era apenas um mar de escuridão, mergulhou a cabeça nas almofadas colocadas ao acaso e dobrou as pernas sobre o peito, enquanto fechava os olhos e adormecia calorosamente.

Quando voltou a abri-los, a noite ainda reinava, mas era impossível conseguir ouvir algo na rua. Tudo submerso num silêncio mudo e quedo.


Ficou mais uns minutos (que pareceram uma eternidade) deitada da forma como estava, apenas olhando para um vazio no tecto.


Como não havia jantado, o estômago rugia de fome. Mas havia um sabor estranho, algo ácido e azedo instalado na língua. Determinou ser a bebida que o rapaz a levara a tomar. Ainda estava para saber o que era.

Andou em pés-de-lã até à cozinha, fazendo o menor ruído possível. Encheu uma caneca com leite e bebeu-a com prazer. Enquanto o líquido escorria pela garganta, sentiu que o paladar estranho ia-se desfazendo com a temperatura gélida. Depois, foi enfiar o nariz nos livros, onde estudou e
fez os trabalhos de casa até que amanhecesse e supostamente, fosse horas de acordar.

Ainda sentia uma ligeira impressão de ter dormido com a roupa que havia vestido à pressa. Colocou algo um pouco mais confortável e arrumou tudo o que precisava para o resto do dia.

Quando acabou de se arranjar, verificou se estava alguém no corredor. Não se sentia bem se alguém a observasse a carregar um saco com jeans rasgadas dentro. Então, sem fazer barulho, foi andando até à saída.

Antes de tocar a fechadura, sentiu um calafrio pela espinha acima e dores
que não tinha havia à uma semana. Poderia estar a achar-se doida, mas escutava aquela sensação como um sinal desconcertante de perigo.

Teve receio em rodar a maçaneta, com medo do desconhecido. Do que se passava do outro lado.

Abanou a cabeça com força para afastar todas aquelas ideias. Era impossível que algo acontecesse, ou pelo menos era o que queria achar naquelas situações.

Uma barriga dolorida não diz o que está a acontecer no lado exterior. E nunca era possível determinar se é bom ou mau sinal quando um arrepio atravessa alguém à saída.

Como um ladrão fugitivo que acabara de assaltar uma loja qualquer, escapuliu-se de mansinho, e nunca representara tão bem o martírio que estava a passar naquele momento. Ninguém se punha a correr de casa às 7h45, com um saco do lixo na mão e com cara de quem esbarrou com um fantasma no caminho. Excepto ela.

Despachou-se a deitar a roupa num local apropriado. Pelo menos, já havia
destruído as "provas" de que andara à luta com uma criatura de outro mundo no dia anterior. Será que tinha mais a fazer para que ninguém descobrisse?

Meteu-se no caminho habitual, com o andar rápido e sem pausas. Não havia nada nem ninguém igual àquele pesadelo. Apenas tinha de estar focada.

O foco estava distante. Muito...mesmo.
#145
Más noticias. Tambem estive doente! v.v
Pois é, nao tenho andado nada bem, e por culpa dos exames e essas tretas todas nao deu para vir ao forum antes!
Bom, nao há muito a dizer sobre o capitulo, apenas o costume: Invejo a tua escrita!
Santo Senhor Jesus Deus do Céu! o.O Como é que consegues?! Escreves tudo tao direitinho e suavemente! Nao consigo deixar de reparar nisso! A historia tem mesmo um fio condutor! Eu por outro lado, apesar de ter a minha fic já traçada na minha cabeça, acabo sempre por colocar acontecimentos conforme o meu estado de espirito! é algo que odeio! Mas tu nao! tu tens sempre tudo diretinho como deve ser, a fazer todo o sentido em relaçao ao que se passa na historia!
Este capitulo é a prova disso. Mesmo que nao se tenha passado nada de crucial, consegues mostrar comoa Karen se mantem afectada pelo que lhe está a acontecer e pelos sentimentos que a dominam em relaçao á familia, a ela propria e ás suas duvidas sobre... ela?
Bom, descriçoes soberbas, bla bla bla, quero mais!
Fico á espera! Embaracoso
bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#146
Agora as gripes mandam-se pelo correio? o.O

Ah, tipo, eu também tinha tudo pensado desde que comecei a escrever. Mas há sempre uma altura em que pensamos que aquele pormenor é foleiro e lá se vai fazer alterações. Eu sou assim, e às vezes fico a pensar se as mudanças estão de tal modo "radicais" que não há fio que se lhe pegue.
#147
Nota: Capítulo com violência (quero dizer, muita). Depois não digam que eu não vos avisei.
Semelhanças com "Pesadelo em Elm Street" são pura coincidência (ok, parei Matreiro).

Capítulo 10 - Foco

«Mais vale sozinho do que mal acompanhado.»
E se... a ideia-objectivo sofresse algumas alterações? E se a palavra-chave fosse "não confiar"?
Ken encostou a tez ao vidro gélido, enquanto recebia os míseros raios de sol que conseguiam atravessar as espessas folhagens das figueiras.
Por vezes, pensava se seria melhor aproveitar a luz matinal pelos orifícios existentes no sotão.
Mas havia escuro...muito. E silêncio que não podia ser respondido por barulho.
E todo um monte de lembranças que preferia esquecer.
***
Ele não sabia se aquilo era a primeira noite a recordar a última a esquecer. Mas foi a sua primeira sensação como um novo: nada.
Não havia sensação.
Acordara como uma estátua que caíra sob os próprios pés: estendido, hirto e com a barriga para baixo.
O primeiro reflexo seria gritar. Mas os pesadelos demoravam minutos a desaparecer.
Talvez até horas. Mas aquilo era demasiado sensível e palpável para ser mentira.
A primeira falta de ar só ocorreu três horas depois de ter acordado. Dali a pouco escassearia para poder gritar.
Pairou inconsciente durante mais umas horas, até que a falta de ar salpicou-lhe a garganta. Seria dia...ou seria noite?
Apenas sabia que deveria ter entrado num período pós-vida qualquer.
Aquele homem... a esbracejar por socorro... Não, era uma armadilha.
Entrou na água para ajudá-lo. Andou, até que ficasse-lhe pelo ombro. Mas, antes que conseguisse mergulhar, agarrar o elfo pela cintura e puxá-lo até à margem, o tipo desapareceu. Não se sabe como. Simplesmente, puff! foi-se. Demorou a raciocinar o que havia acontecido. Foi esse tempo desperdiçado que lhe custou muita coisa.
O homem desempenhara o seu papel na perfeição. Quando o seu alvo apareceu, escondeu-se num ângulo em que fosse quase impossível encontrá-lo. Depois, era só deixá-lo confuso.
Ele devia ter desconfiado logo ao primeiro sinal, mas estava cheio de pensamentos para ler sequer a sua aura em apuros.
Depois, apenas houve um silvo de dor a correr pelas veias até estremecer por todo o seu corpo e deixá-lo à tona. Foi esfaqueado no abdómen uma única vez. Os músculos estremeceram e todo o corpo gritou em uníssono.
A segunda facada cortou-lhe a respiração pela raiz. A lâmina trespassou-lhe o pulmão e, durante dois segundos, sorveu água ensaguentada.
Era isso que ocupou a sua mente durante horas a fio. Enquanto isso, a visão turva ia tornando-se clara e compreensível.
Tinha passado um dia inteiro até que a mulher chegou a seu lado e libertou-o. Depois, sem cerimónia, colocou uma tigela com água a seus pés.
Ele não a reconheceu, mas a primeira impressão que teve foi que não era humana.
Depois, retirou-se sem proferir uma única palavra. E esse ritual seguiu-se durante três dias, altura em que o corpo de Ken começou a implorar por energia solar. E era inevitável: ou saía à rua e continuava vivo ou mantinha o corpo na escuridão e apodrecia.
A mulher não se resignou a abrir um buraco no tecto do sotão; quis levá-lo até perto da fonte luminosa. Foi a primeira vez que viu o sol desde que passara para o outro lado.
- Tu não tens ninguém. Os teus pais biológicos estão mortos e o elfo com quem moraste até agora está morto. - a voz da mulher era dura e mostrava um carácter frio. - Tu és uma farsa; toda a tua vida foi uma acusação.
Ele não demorou a absorver a informação e a julgá-la como verdadeira.
Após dizer isto, a mulher retirou-se sem dizer uma única palavra, deixando-o sozinho a receber a energia solar. Não deu um único passo atrás para observar a reacção. E assim nunca mais voltou a tocar no assunto.
Será que ele estaria a reagir como uma pessoa normal o faria? Apesar do choque, sentiu que nada mudara no seu rosto. Apenas estava... normal.
Após ter sido alimentado pela primeira vez e lhe ter sido concedida uma muda de roupa, recebeu a Missão, o que era basicamente uma folha enrolada e selada. O que estava escrito no documento era confidencial e não devia ser dado a conhecer o conteúdo.
A informação foi-lhe bastante clara. Se conseguisse realizá-la, estaria safo. Caso mais alguém descobrisse era morto. E não havia volta a dar.
Tudo isto acontecera há cerca de um ano. A Missão ainda estava por concluir. E o tempo fluia rapidamente.
***
Vestiu um casaco enquanto que observava o efeito espelhado da espada, deitada sobre os cobertores. Há tanto tempo que não via sangue derramado sobre a lâmina. Sentia necessidade de violência.
Não resistiu a passar-lhe um pano lentamente, antes de voltar a envolvê-la e colocá-la num sítio seguro.
Saiu da casa dita "assombrada", pois não havia curioso que fosse capaz de aproximar-se. Aliás, pensava-se que estava deserta.
Demorou até que o caminho estivesse livre. Caminhou rapidamente, sem olhar para trás. Era a rotina: passar despercebido. Às vezes gostaria de saber como conseguia.
Desceu a avenida com o menor ruído possível, até ser disparado com dezenas de vozes berrantes. Aquele não era o local perfeito para uma manhã de silêncio. Talvez mais como um suplício matinal.
Instalou o corpo numa saliência perfeita na rocha, e repousou um pouco a cabeça. Era tão duro conseguir dormir numa noite daquelas, principalmente quando se tratava duma noite de derrotas, como o ocorrido no dia anterior. Jurara a si próprio que não voltaria a acontecer, mas ocorria sempre o oposto. Quando perdia o alvo, sentia-se como se tivesse sido apunhalado. E as cicatrizes quase que rasgavam-se com fúria.
Era a única memória que queria esquecer.
"Eu sou uma farsa."
Logo após ter sido designado como tal, a sua cabeça começou a funcionar. E tudo passou a fazer sentido, tudo por culpa dos pesadelos. Eram inúmeras as vezes que acordava, lavado em suor e as feridas latejantes a explodir sangue com fúria. E tinha a mesma imagem gravada no cérebro: um casal a ser assassinado com dois tiros. Nunca conseguia desvendar o atirador.
Ele era orfão. As personagens mortas na sua cabeça eram os seus pais.
Não conseguia pensar em como fora capaz de passar toda a sua vida a acreditar que sempre vivera com a sua família.
Tudo uma mentira.
A campainha estridente soou-lhe nos tímpanos com um som forte e chato. Ken suspirou de cansaço enquanto saía do esconderijo. Andou, nas calmas, até à sala correta, rodeada por caras conhecidas, mas que preferia esquecer. Todos aqueles humanos à sua volta faziam-no lembrar-se do primeiro que vira. Era apenas uma criança, não mais do que sete anos de idade. Tinha-o observado numa daqueles primeiros dias em que aproveitava o tempo a recarregar energias ao sol e a gastá-las a treinar. O míudo brincava aos pontapés com uma bola de futebol. Como ali não passavam automóveis, decerto não havia problemas a brincar na estrada.
Tinha achado doentio a forma como o rapazinho respirava o ar acinzentado, correspondente à sua aura, que pairava sobre si. Apesar disso, não compreendia como os humanos era chamados de "seres sem vida". Só porque a sua aura era apenas uma coisa parecida com fumo?
Há uns tempos, uma multidão como aquela era sinal de perigo. Agora era uma situação habitual. Tão habitual que certamente se surpreenderia se avistasse alguém da sua espécie.
Excepto aquele trio. Bom, não eram assustadores, ...eram irritantes. A forma como integravam-se na sociedade dava-lhe a volta ao miolo.
Porque seria a sua Missão apanhar um deles vivo e levá-lo até àquela mulher? Queria saber, mas estava totalmente fora de questão falara sobre isso.
A sua mente despertou na hora certa, quando todos estavam a entrar. Sentou-se no lugar mais insólito, enquanto os outros se sentavam à sua volta, no meio de uma nuvem cinzenta.
O resto acontecia quase instantaneamente. Entrar, escrever o sumário, dar matéria e sair. Era aborrecido de tão habitual que esta rotina se tornara.
Recostou-se um pouco na cadeira, enquanto que a mulher ao lado do quadro falava sem se cansar. Ken não lhe deu ouvidos.
Apesar de ser dia, a luz solar que conseguia chegar ao solo era pouca e muito e fraca. A humidade presente no ar deixava um rasto que anunciava a chegada das chuvas regulares.
Não queria nem pensar nisso. A falta de sol reflectia-se depois por todo o seu corpo. A pele mudaria para um amarelo pálido e doentio; os olhos perderiam a cor e torna-se-iam baços. Depois, não conseguiria armazenar energia, nem sequer para se movimentar. A carne entraria num estado de decomposição. Era capaz de adormecer com o cansaço que sentia. Este parecia acumular-se nas pálpebras, fazendo-as bem pesadas.
Manteve-se assim, quase imóvel, até ao fina da aula. Suspirou de alívio quando saiu daquela sala, num estado quase claustrofóbico. Seguiu para a aula diária de Educação Física, que seria no pavilhão oposto.
No sair para o exterior chovia fortemente. Adicionado a isto, o vento soprava contra os ramos densos das árvores, arracando as primeiras folhas secas. Estas eram depois arrastadas pela água das chuvas, agarrando-se às grades dos esgotos ou nos patamares das escadas.
Esboçou um sorriso quando a brisa cutucou-lhe a cara, trazendo tantos cheiros distintos. Sentia-se tão único por ser apenas ele a passar por aquilo.
Continuou a seguir o seu caminho, com a água a molhar-lhe a roupa, acompanhado com os assobios do vento.
Entrou nos balneários, e trocou de roupa rapidamente. Odiava os olhares alheios e atentos às cicatrizes que tinha no tronco. Reparava-se perfeitamente no golpe, principalmente porque nunca as tratou. Nem ponto, nem medicamentos, nem nada. As feridas estavam perfeitamente abertas e bem visíveis sobre a pele bronzeada. Só ele sabia como doiam.
A aula começou e as duas horas fluíram rapidamente em basquetebol. No final, apesar de terem estado a correr, a saltar e a jogar como cães, Ken não se mostrava minimamente cansado. Era muito difícil fingir perante uma turma inteira, enquanto que estes estavam a suar, a arfar e o rosto avermelhado.
Vestiu-se para a aula seguinte, com a mesma rapidez anterior. Depois, comprou uma garrafa de água numa máquina que estava por perto.
Dava pequenos goles quando se sentiu arrastado por uma mão forte que estava atrás de si. O rapaz puxou para um canto mais reservado do pavilhão, escondido dos que passavam. Ele mostrava-se bastante aflito, e os olhos lacrimejantes já contavam a história.
- 'Tou com problemas, meu! - soluçou, o corpo a tremer de medo.
- Mas o que se passa?
- Dei cabo do joelho e não posso participar no Corta-Mato...
Ken fez um esforço para não soltar uma gargalhada sonora.
- E?
- Preciso que me substituas!
Qual era a ideia daquele tipo, afinal? Tinha que escolher logo um que mal conhecia?
- A que respeito?
O outro congelou rapidamente. Parou de tremer, o coração falhou uma batida e custou-lhe a acalmar a respiração. Quando abriu a boca, começou a gaguejar:
- S-Seria uma vergonha se... se não passarmos para as regionais.
Ken absorveu três segundos com uma espressão pensativa, fingindo que reflectia sobre o assunto.
- Está bem - disse, por fim, esboçando um sorriso falso.
O míudo deixou o ar de preocupação para trás e sorriu-lhe também, sem desconfiar que ele estava a anos-luz de fazer o que lhe pedira.
- Okay. Obrigada, meu - despediu-se, todo contente, a coxear da perna esquerda.
Ao lado de Ken estava Beatriz, uma rapariga bonita com o cabelo castanho-claro bem curto e as íris de um azul celestial. Era magra, mas a roupa acentuava-lhe perfeitamente as curvas. Apesar disso, era bastante baixa; o topo da nuca só chegava aos ombros dele. Ele mal teve que olha-la para perceber a sua presença feminina.
- Se vens para que substitua-te nalguma coisa, arranja outro imbecil - disse, arrogante. Beatriz nem pareceu importar-se com a forma dura com que ele falava.
- Não - negou. A voz dela era doce e melodiosa. - Vim fazer-te uma proposta.
"O que vem aí..." - pensou Ken.
- Estava a pensar se não quererias ir treinar hoje à noite - continuou, mas trocou a expressão "confiante" para algo mais tímido e reservado. - Tudo bem com isso?
Ter um compromisso com uma adolescente humana era a última coisa que desejava fazer naquele dia.
Após um longo suspiro, e de observar as expressões ansiosas na face graciosa dela, assentiu:
- Okay. Mas nada de contar a todos que ando a fazer favores a torto e a direito.
- Uh, eu nunca faria isso - exclamou, tentando manter a voz baixa, sem perder o tom de alegria. - Nove horas, à frente do portão. Está bom para ti?
- Perfeito - Ken respondeu Nem mesmo assim ela arredou pé.
- Sabes, se não aceitasses, eu não conseguiria arrastar os outros "imbecis" para irem comigo. Em princípio, seremos só nós dois a participar - ela esperou que ele se mostrasse furioso. Mas, pelo contrário, não aconteceu nada. Parecia que os músculos facias haviam sido aprisionados pelo cansaço. Ele apenas olhou-a longamente. Beatriz tomou isso como um pretexto para ir-se. - Bem, eu acho que já estou a chatear quem não devia... - e foi-se
Enquanto a observava a sair, não conteu um sorriso. O dia anterior havia perdido, hoje conseguiria vencer.



Então, o que acham que vai acontecer? Matreiro
#148
Uh! que capitulo! o.o
Duas facadas? Coitado do rapaz, tu nao perdoas Karen Embaracoso'
Até estou para ver que treinos sao esses! Afinal a rapariga era humana? O que é que ela sabe? Ou sou eu que estou a fazer filmes?! Humm... Espero para ver!
Sabes, o ken até nao parece muito mauzinho, agora... Só arrogante e... Sei lá! Rancoroso talvez?
Bem, hoje estou pouco inspirada para fazer comentarios, mas mais uma vez gostei muito, enfim a conversa do costume! Matreiro
Continua!
Bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#149
lulumoon escreveu:Uh! que capitulo! o.o
Duas facadas? Coitado do rapaz, tu nao perdoas Karen Embaracoso'
Até estou para ver que treinos sao esses! Afinal a rapariga era humana? O que é que ela sabe? Ou sou eu que estou a fazer filmes?! Humm... Espero para ver!
Sabes, o ken até nao parece muito mauzinho, agora... Só arrogante e... Sei lá! Rancoroso talvez?
Bem, hoje estou pouco inspirada para fazer comentarios, mas mais uma vez gostei muito, enfim a conversa do costume! Matreiro
Continua!
Bjokas

Ei ei ei (shu, não se diz nada, há menores aqui) Matreiro. E sim, eu não perdoo. O rapaz não ia tornar-se mauzinho assim, de vontade (até podia) Mal disposto.
A rapariga é humana. Sem dúvida alguma.
AH, e se fores, do tipo... muito sensível... ou só sensivel, eu desaconcelho-te a ler o resto. Mas como és a única que comenta, acho que tenho que te obrigar.
#150
Karen_95 escreveu:
lulumoon escreveu:Uh! que capitulo! o.o
Duas facadas? Coitado do rapaz, tu nao perdoas Karen Embaracoso'
Até estou para ver que treinos sao esses! Afinal a rapariga era humana? O que é que ela sabe? Ou sou eu que estou a fazer filmes?! Humm... Espero para ver!
Sabes, o ken até nao parece muito mauzinho, agora... Só arrogante e... Sei lá! Rancoroso talvez?
Bem, hoje estou pouco inspirada para fazer comentarios, mas mais uma vez gostei muito, enfim a conversa do costume! Matreiro
Continua!
Bjokas

Ei ei ei (shu, não se diz nada, há menores aqui) Matreiro. E sim, eu não perdoo. O rapaz não ia tornar-se mauzinho assim, de vontade (até podia) Mal disposto.
A rapariga é humana. Sem dúvida alguma.
AH, e se fores, do tipo... muito sensível... ou só sensivel, eu desaconcelho-te a ler o resto. Mas como és a única que comenta, acho que tenho que te obrigar.

Eu nao sou sensivel. Para ser sincera sou muito fria, mas vá, pelas coisas que escrevo se calhar até pareço o contrario! mas enfim, nao te preocupes porque eu leio o resto! Matreiro nao é preciso obrigares-me! Matreiro
bjokas
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#151
Capítulo 10 - Foco

Não precisou de preocupar-se com os pormenores daquela noite: os planos mais obscuros eram quase sempre mudados à pressa e à última da hora. Mas resultavam sempre.
Quando a hora do encontro soou, tudo estava escuro, apenas iluminado pela ínfima luz vinda dos candeeiros de rua. Ken estava escondido num canto, tentando evitar ao máximo a iluminação. O verde dos olhos tornara-se negro, como acontecia todas as noites. A vítima estava prestes a chegar e poderia perceber as diferenças.
Notou aquela presença a aproximar-se, um passo acelerado. Ele fingiu não se aperceber e distanciou o olhar para a copa das árvores que erguiam-se do outro lado da estrada.
Ela aproximou-se, batendo o pé:
- Nunca pensei que viesses realmente, mas parece que cumprir promessas é contigo.
Ken espiou-a pelo canto do olho.
- Tinhas dúvidas?
Ela soltou uma breve gargalhada.
- Sabe-se lá - pôs-se a andar pelo recinto, por uma reacção do outro. Depois de momentos de silêncio pesado, Beatriz puxou-o pelo braço para junto de si. Inesperadamente, os dois corpos juntaram-se. Da forma que Beatriz era baixa, Ken conseguia sentir a respiração quente no pescoço. A espinha espevitou-se e enviou sinais pelo resto do corpo, algo como explosivos, e ele começou a suar frio.
Para se separarem, ele empurrou-a pelos ombros. Beatriz balançou trôpega. Quando tomou consciência do que havia feito, o rosto ganhou cor e a temperatura pareceu subir.
- D-Desculpa - gaguejou, as mãos coladas à face avermelhada - Isto foi...foi...f-foi um pouco despropositado.
- É, um ultraje, foi o que foi - Ken não queria, mas a voz soou-lhe como um berro, grave e alto. Ela encolheu-se com medo, tremendo com o sermão.
Vendo a forma como ela estava, Ken resistiu à fúria que atravessou-lhe o corpo. Cerrou os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos. Depois, reencostou-se ao canto escondido onde estava anteriormente, tentando desviar a atenção para um lugar bem longe dali.
- Desculpa. Eu fico nervoso quando estou...assim - continuou. Ela pareceu conseguir acalmar-se. Demorou a esboçar um sorriso, apesar de fraco e um pouco amarelo, e sentou-se ao lado dele, tendo o cuidado de manter uma distância considerável entre os dois.
- Assim como? - ela perguntou, quando acomodou-se ao lado, encostando as costas na parede fria e no chão gelado pela noite e pela humidadde.
- Não consigo dormir devidamente à algumas noites - respondeu, num tom baixo, quase um murmúrio.
- Oh...
Beatriz olhou-o num momento de silêncio. Nunca havia visto os olhos dele a expressarem o negro daquela forma tão dramática, um pouco obscura. Um arrepio atravessou-lhe a espinha. Nunca havia visto tamanha beleza, tão irreal. Ele não era um tipo cheio de pormenores. Ele era... simples. A simplicidade é o que tornava-o belo e diferente. O nariz era pequeno e fino e os lábios cheios e levemente rosados. Os olhos revelavam uma ponta de mistério por tecer. Um rosto tão romanesco, mas sempre cego por um esgar de raiva. Queria tocar-lhe, saber se a pele dourada era suave ou áspera na ponta dos dedos. Mas estavam separados por vinte centímetros, uma barreira impenetrável carregada de ódio.
Ele apercebeu-se de quem o fitava.
- Que foi? - retorquiu.
- N-Nada - recompôs-se desastradamente, fitando um ponto qualquer no infinito, e pôs-se a tentar esquecer aqueles pensamentos perversos da cabeça.
- Era isto?
- O quê?
- Combinaste um encontro para te atirares a mim.
Ela não se sentiu ofendida nem supreendida. Não era preciso ser-se um tipo muito inteligente para topar aquilo tudo. Beatriz gostava dele. Ponto final. Mas ele era difícil de dar a torcer.
- Julgo que sim - murmurou, após um momento pesado de silêncio. Ken soltou um som de desaprovação.
- Não dês esperanças. Eu sou um idiota - Beatriz arregalou os olhos, mas não o contrariou.
Ouviu-o a levantar-se, mas não o fitou. Apenas o observou a andar para cá e para lá pelo canto do olho. Quando parou de caminhar, ela levantou a cabeça e não contou com o que viu.
Ele tinha a mão estendida; aquelas mãos grandes e fortes, que eram quase como um desejo tocar e agarrar.
- Anda - Ken disse, expectativo com a reacção dela. Beatriz também estendeu a mão, sem saber o que fazer. Os dedos roçaram uns nos outros. O calor subiu-lhe à flor-da-pele e o coração ecoou-lhe nos ouvidos. Ken, aborrecido, agarrou-lhe o pulso levantado e puxou-a para cima com a maior facilidade. Ela cambaleou um pouco antes antes de pôr-se totalmente em pé. A mão ardia-lhe como fogo. Ainda sentia aquela sensação afável na palma da mão. Um pouco entorpecida pelo ocorrido, perguntou:
- Onde vamos?
- Dar uma volta, já que o que estava combinado foi pelo cano.
Apesar de estar um pouco surda para o mundo exterior e com a cabeça fora do lugar, percebeu o rancor que ele não conseguia esconder, muito menos quando falava com ela. Decerto que guardava ódio, um puro ódio sobre ela.
Pela segunda vez em menos de um minuto, Ken agarrou-lhe a mão, não como um gesto amoroso, mas de provocação, visível pela rudeza com que entrelaçava os dedos na humana. Não iria deixá-la escapar.
E ela nem desconfiava disso.
Durante os primeiros metros, ela foi "arrastada", pois o seu cérebro nem era capaz de raciocinar direito. Tinha a mão que ele segurava a escaldar, o que fazia o resto do corpo parecer um completo iceberg. Como se estivesse a reaprender a andar, acertou um ritmo adequado, até ser capaz de colocar cada pé à frente do outro como uma pessoa normal. Dessa forma, os dois corpos roçaram-se, e Ken apercebeu-se disso, pois abrandou o passo e espiou-a por cima do ombro.
Beatriz não conseguia respirar sem que cada inspiração soasse como um apito desafinado. E isso soava-lhe mal, mesmo muito mal. Talvez o seu sentido de olfacto estivesse apuradíssimo, já que conseguia sentir a roupa dele a transpirar um cheiro delicioso e apetecível. Sentia-se viciada, fora-de-série com aquele odor amistoso. Controlou um reflexo de agarrá-lo pela camisola só para sentir o aroma caloroso de encontro à sua face. Foi quando lembrou-se que ele a odiava e repetiu para si mesma que deixasse de ser uma tarada sem moral e maníaca apaixonada.
Ela não apercebeu-se do tempo passar. Apenas deu conta que deviam ter andado bastante, pois o companheiro largou-lhe a mão. Estavam diante de um muro branco, um lugar que lhe era desconhecido.
- Onde estamos? - ela estava confusa.
- Atalho - foi o que Ken respondeu. Ela ficou cada vez mais desordenada.
- Atalho de quê?
- Já vais ver.
Como por instinto, ele colocou as mãos no topo do muro (que por acaso, nem era muito alta para ele) e içou-se para cima. Num lance, ele tinha desaparecido no outro lado da propriedade.
Ela passou algum tempo sem saber o que fazer. Tinha a garganta demasiado seca para gritar por ele. Mas não sabia se era o certo a fazer. E se alguém a ouvia?
Enquanto estava envolvida naquelas interrogações, Ken colocou a cabeça no cimo da construção e olhou para ela, com um misto de aborrecimento e fúria.
- Sobes ou não? - ele atirou-lhe.
Demorou segundos a pensar se seguiria ou não. No fim, a resposta soou-lhe como um murmúrio de medo:
- Nós não devíamos fazer isto.
- Não me digas que nunca saltaste um muro.
Beatriz balançou a cabeça negativamente. Ele bufou.
- Vá lá, eu ajudo-te a subir.
- Não - ela sabia que aquilo estava errado. E se alguém os visse e chamasse as autoridades? - Deve estar gente em casa e decerto que nos ouvirão.
- Só vão perceber a nossa presença se gritares por eles, não achas?
Ela deixou-se vencer e levantou os braços. Como pensava, era demasiado baixa para alcançar o topo. Ken içou-a para cima e ela escalou a parede com alguma dificuldade. Depois, já no cimo, com os joelhos assentes no topo da elevação e já pronta para saltar em terra firme, teve uma visão terrível, que a amedrontou por dentro e fora. A casa era pequena e tinha apenas uma porta principal, que era aquela que estava virada para eles. Deitado à frente da entrada um pastor-alemão, uma besta medonha, adormecido. O poderoso tórax elevava-se quando o animal inspirava, e a cabeça grande e comprida deitada sobre uma perna musculosa.
- Então? Não me digas que estás com medo de um cão. Ele está preso, não te preocupes.
A voz do outro atemorizou-a ainda mais. E sentiu-se no meio duma dúvida. Não conseguia decidir em continuar e saltar para frente, ou desistir, pular para o lado contrário e correr para casa.
- Ele vai denunciar-nos.
- Oh, por favor, é apenas um cão.
- Não, não é "apenas um cão". É um cão de guarda. Ele vai ladrar para nós como se fôssemos ladrões.
- E achas que somos? Viemos apenas pegar um atalho.
- Talvez o dono da moradia não pense assim.
Ken estava a começar a ficar irritado. Cerrou os punhos para acalmar-se e não começar a discutir ali mesmo.
- Apenas faz pouco barulho que o animal não ladra.
Beatriz engoliu em seco e sentiu-se derrotada. Desceu o mais silenciosamente que pôde, e poisou as pés no solo. Foi um tom baixo, um baque seco, quase inaudível. Mas para ela, com os nervos à flor-da-pele, soou como se algo tivesse explodido debaixo dos pés.
O animal também deve ter tido a mesma sensação, pois levantou a cabeça pesada e olhou o escuro até achá-los. Rugiu entredentes, até começar a latir feito louco.
Queria atirar um "eu disse-te!", mas apenas foi capaz de encostar as costelas com força na parede, sem ser capaz de respirar, com medo de começar a gritar.
A seu lado, o rapaz estava calmo, sem mostrar uma expressão alterada pela reacção do pastor-alemão. Olhou para a miúda assustada. Sabia que, se houvesse um buraco bem fundo no chão, ela escondia-se lá. Só faltava ela chorar como uma criança.
Agarrou-lhe com força no braço, e ela não reagiu. Conseguiu arrastá-la até ao outro lado do pátio sem que ela parasse de fitar os olhos hipnóticos do animal que tentava alcançá-los, mas em vão, devido à coleira bem apertada à volta do pescoço. A coleira tilintava com a força que o cão exercia para libertar-se.
Do outro lado do pátio existia um pomar que ocupava metade de toda a propriedade. Ken colocou-a debaixo de uma árvore que logo supôs ser uma laranjeira. Era baixa, mas larga o suficiente para esconder a humana sentada, enquanto esta soluçava, amedrontada.
- Acalma-te, tola, sou eu - colocou a mão sobre o ombro, que subia e descia com força, mas não resolveu de nada.
- Eu sabia que isto ia acontecer, eu sabia!
- Mas não vai resolver de nada porque não há ninguém em casa!
- Hã?! Como estás tão seguro disso?
- Não achas que, da maneira como o cão ladra, alguém viria a correr ver o que se passava? A não ser que seje tudo surdo.
Mesmo assim, ela não achava isso credível, mas conseguiu com que a respiração deixasse de soar como um miúdo com asma. Voltou a olhar para cima, e ele tinha desaparecido de vista. Voltou o pescoço até ver uma silhueta masculina fora da protecção da árvore. Ele tinha um olhar de controlo sobre o cão. Olhou também para o animal, que não pareceu dar por ela. Ele parecia vidrado no outro . Se os animais tivessem alguma expressão de medo, talvez aquela fosse a certa. Ele gemeu de volta , rodou e deitou-se novamente com a cabeça sobre a pata, e a latir baixinho como um animal ferido. Neste caso, pelo orgulho animal e pelo controlo.
- Levanta-te - agora Ken a observava, não com a mesma expressão com que olhara a besta, mas ainda com um pouco de provocação. Ele voltou-lhe as costas.
Enquanto ela se erguia e o seguia, o pastor levantou a cabeçorra, e seguiu-os com um olhar derrotado, sem ser capaz de soltar um latido pelo medo.
- Wow - Beatriz surpreendeu-se com a mudança repentina - O que lhe fizeste?
- Pu-lo no seu lugar.
Esta resposta pareceu-lhe um pouco controversa, mas ela não comentou. Atravessaram o resto do pomar em silêncio, até chegarem a uma elevação de pedra feita ao acaso. Do outro lado, erguia-se uma mata cerrada, bem escura. Ela mal conseguiu focar os olhos no que se seguia.
Ken foi o primeiro a saltar para cima das rochas. Deu um olhar para o chão, e após uns segundos de profundo silêncio, advertiu:
- Cuidado, isto é só a descer. - foi o primeiro a seguir em frente. Ela ouviu um baque seco de pés no chão, e um silvo de algo escorregar. Depois, silêncio.
Atravessou a parede e pôs os pés no outro lado. Não os sentiu firmes, e pela forma como quase escorregava pelo solo, pensou que havia musgo escorregadio espalhado por todos os lados. Apalpou a escuridão até achar uma rocha grande e firme, e seguiu-a com as mãos até achar solo horizontal e firme.
Lá em baixo era bem diferente do caminho que acabara de descer. Havia luz ténue, fraca, que descia pelas folhagens e espalhava-se pelo chão. Assim, conseguiu orientar-se pelo caminho torturoso.
Onde ele estaria? Houve uma ponta de preocupação a passar-lhe pela cabeça, mas acalmou-se ao ouvir passos e uma respiração no pescoço. Ele seguiu-a até chegarem a uma clareira iluminada, altura em que ela parou e encostou a coluna a um tronco limpo de uma criptoméria e seguiu os passos lentos de Ken. Este não disse uma única palavra e, durante alguns minutos, o cérebro de Beatriz berrava por diálogo. Estava a sentir-se nervosa pela forma como ele reagia, principalmente com o que havia acontecido minutos antes.
Por fim, soltou algo um pouco inesperado, sem que tivesse pensado sobre isso:
- Os teus pais sabem que estás fora?
Num instante ele parou de andar de um lado para o outro. Mordeu o lábio com força a ponto de começar a sangrar. Contaria a verdade ou inventaria uma mentira para a ocasião? Pensou como ela conseguia ser imprevisível. Ele achou ser esquivo e mudar de assunto, mas conseguiu soltar tudo cá para fora.
- Eles estão mortos. Eu não tenho pais.
Ouviu a respiração dela aumentar de velocidade, e logo sentiu-se mal.
- Lamento... - foi a única coisa que a fez redimir - Como é que...
- Eu moro com uma tia, irmã da minha mãe - nesta altura teve mesmo que mentir.
- E...hum...chegaste a conhecê-los?
- Não. Eles morreram quando eu era um bebé de meses.
Ela fez um esforço para olhá-lo nos olhos, mas não conseguiu. Um sentimento de culpa invadiu-a por inteiro. Como fora capaz de trazer este assunto à superfície. Mas ela não sabia. Como iria adivinhar?
- Desculpa por ter falado sobre isto.
- Esquece. A culpa não é tua. Não sabias. Ninguém sabe - Ken sentou-se à frente dela, cruzando as pernas. E, pela primeira vez em meses, conseguiu sorrir verdadeiramente. Não algo falso e provocador.
O rosto de Beatriz iluminou-se também. Isto acabou com o nervosismo dela, e voltou a acender o calor que sentia quando estava perto dele. Quis tocar-lhe, mas controlou-se, pois sabia que aquela não era a situação certa.
Passou uma brisa fria pelos dois, e o sorriso de Ken apagou-se. Ela engoliu em seco. O que se passaria a seguir?
- Está tudo bem?
Ele acenou afirmativamente.
- Eu apenas preciso de...um momento. Fica aqui. - ordenou, enquanto se erguia do chão. Beatriz imitou-o, mas um gesto fê-la parar. Ele estava a sentir-se mal devido a ela!
Ken saiu da clareira e despareceu pelo misto de árvores. Após certificar-se que não estava a ser seguido e que Beatriz não conseguia vê-lo, esmurrou um tronco.
Não sabia o que estava sentir. Por um lado, a fúria corria-lhe nas veias, e estaria pronto para acabar com aquilo tudo naquele preciso momento. Mas, o outro lado gritava por atenção. Era tudo um rodopio de sentimentos que o magoavam. Amizade, carinho...amor.
Estaria a enloquecer? Parecia que sim.
Porque sentiria tanta necessidade de gritar? De libertar-se?
Era culpa daquela miúda. Ele estava descontrolado.
Olhou para o lado e algo chamou-lhe a atenção. Por instinto, aproximou-se e cutucou o escuro, até achar o objecto escondido. Quando conseguiu clarear a visão, um arrepio atravessou-lhe a espinha. Não passava de uma pedra dura e fria, e bastante pontiaguda. O suficiente para dilacerar carne... humana.
Os instintos naturais de assassino gritaram-lhe um "Sim!", mas o resto do corpo queria impedi-lo de fazer algo demoníaco. Não sabia o que fazer. Toda a sua cabeça estava perdida num redemoinho de pensamentos. Pensamentos que o conseguiram dividir em dois: o corpo sim e o corpo não. O corpo sim reclamava quase toda a atenção. O lado da violência, da fúria. O corpo não era o contrário. gemia por uma segunda oportunidade, uma forma de voltar a ser o que era. A voltar a amar.
Sem conseguir saber o que fazer, um reflexo comandou-o a esconder a arma pontiaguda debaixo da roupa. Ele seguiu-o e prendeu-a com o cinto. Mas depois não soube seguir o resto das instruções do lado sim. Não conseguia voltar a olhá-la. Voltar a sentir aquele olhar inocente a perfurar-lhe a pele. Mas, sem que desse por isso, estava a andar de volta a ela. Não conseguia impedir-se.
- O que se passa? - Beatriz corria de encontro a ele.
- Pára... - ele murmurou, num sopro inaudível. Recuou para que ele não o alcançasse.
Estavam a um metro um do outro, e Ken tinha parado de fugir. Beatriz também tinha deixado de tentar apanhá-lo. Apenas deixou-se ficar parada, a vê-lo lutar contra a sua mente, de forma furiosa e violenta, que ela não conseguia perceber. Ficou apenas a olhá-lo confusa.
- Esquece - desta vez, o lado sim dominou-o. Ele aproximou-se, fechando a distância entre os dois, e alisou-lhe a bochecha.
Beatriz não conseguia acreditar. Estava tão perto, e conseguia sentir aquele perfume irresistível invadir-lhe as narinas. Era isso, a única coisa que queria sentir. Se fosse um sonho, desejou nunca voltar a acordar.
Mas não era um sonho. Era bem real. E estava prestes a tornar-se um vívido pesadelo.
- Não digas nada - ele murmurou-lhe no ouvido, numa voz provocante e sensual, que nunca havia usado. O corpo sim, novamente. A tentar seduzi-la, para depois... Ken não conseguiu berrar de horror. Não queria deixar aquilo acontecer. Não podia ser... um assassino. Não naquele momento.
"Pára!"
As bocas roçaram uma na outra, deixando um rasto de desejo no ar. Desejo insaciável, incontrolável por fogo. Um beijo húmido, embriagado, quente.
O beijo apagou tudo. As vezes que cometia erros, as vezes que fugia da realidade. As vezes em que desejava voltar a viver.
Não queria perder. Não queria que o seu corpo comandasse algo tão demoníaco. Ela tinha um olhar tão inocente, os lábios sabiam a um néctar que incendiava-se com o calor da paixão.
Nunca poderia deixá-la morrer.
Encostou a sua testa à da humana e deixou o calor escorrer pelos labios até desfazer-se numa brisa.
Foi quando sentiu algo maciço a cutucar-lhe a mão direita. Algo que não queria tocar ou ver. Tentou controlar aquela acção tão controversa, tão mortal. Mas o corpo não lhe obedecia.
O som fatal foi a pior que ouvira em toda a sua vida. Beatriz arregalou-lhe os olhos, sem conseguir falar. Sem conseguir gritar.
Ela caiu-lhe nos braços, a tentar agarrar a força que lhe escorria pelos dedos. Não conseguia lutar. Nem por si nem por ninguém. O aroma a cobre foi a última coisa que conseguiu sentir nas narinas.







*******, ***** ** ****! ***-** *****, *******!!
(Tradução: Esta fic é uma porcaria sacana...pa caramba!)
Mas com que juízo é que fui escrever isto, hã?! ALguém explica-me, hã. Agora eu fico a pensar que o tipo tem o quê? Dupla personalidade?! *******!

Mas eu disse que seria violento, por isso não se queixem Matreiro
#152
Karen, até t6e ofendo, pá! Como é?! Eu a pensar que ia rolar, que o rapaz ia cair na real, e tu, zas! já foste! Fosga-se!
Coitada da rapariga! era por ela estar apaixonada?! Cheira-me que isso ainda o vai deixar mais revoltado do que já era! Sua má!
Agora a serio, o inicio do capitulo estava a deixar-me confusa. Tanto misterio, um encontro nocturnos, toda a paisagem que atravessaram para chegar á clareira! No final és uma Killer! Grrr!
Uma coisa que me deixa sempre parva é a maneira comoe screves! Onde é que tu aprendeste?! Bolas, deves ler desde que aprendeste, nao?! tens um vocabulario extenso, em comparaçao a mim e muitas outras pessoas mais velhas que escrevem! Tenho a certeza que se publicares livros vais ser bem criticada! PAravbens!
Embaracoso
Fico á espera de mais morte! muahahaha! Nao, mentira, agora quero mais historia e esclarecimentos sobre todos estes acontecimntos!
bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#153
As férias estão a ser uma porcaria. Ainda bem que estão a acabar.

Capítulo 11 - Imagem
Apesar de não se lembrar se havia sonhado ou tido um pesadelo, havia acordado com o eco de um berro nos ouvidos. E ensurdecia-a.
Trovejava do lado de fora. As gotas embatiam na janela como se fossem pequenos cristais de gelo, o tilintar do vidro interrompido ocasionalmente por um estrondo mais forte.
Virou-se de barriga para baixo e enfiou as orelhas na almofada. Minutos depois, com a respiração abafada pelos lençóis a dificultar-lhe a chegada do sono, voltou à posição inicial, observando um ponto vazio no tecto.
Mesmo estando a chover, a temperatura no quarto fazia-a suar. Saltou da cama e sentou-se na beira, olhando a janela. As gotas escorriam pelos vidros, deixando tudo num panorama maçador.
Que horas seriam? Ergueu os olhos para o despertador. Ainda era demasiado cedo para o dia nascer. Bufou aborrecida e aproximou-se um pouco mais do lado de fora, encostando o nariz ao vidro. Tudo estava coberto por uma névoa densa. Nem conseguia distinguir a ruela distante lá em baixo.
Instantaneamente, as têmpora tiniram de dor. Ela massajou-as, com um leve zumbido a incomodar-lhe os tímpanos. Ainda tinha o berro gravado na mente, não como se fosse sua imaginação, mas como se tivesse ouvido o grito na realidade. Isso fazia-a estremecer nas pontas dos dedos.
***
Não soube como conseguira passar a madrugada sem pregar olho. Assim, as horas chegaram e ela sentia-se cansada, sonolenta, os músculos doloridos pela falta de sono.
Arranjou-se lentamente e saiu. A tempestade nocturna havia deixado as suas marcas; as poças acumulavam-se nas fendas da calçada. O oceano revoltava-se e batia contra as rochas, virando espuma branca salgada.
Era a primeira vez que assistia uma tempestade a sério naquele lugar. Parecia que era verdade o que diziam: o tempo era muito instável.
- Bom dia! - Diana exclamou quando a avistou. Estava sentada no lugar mais distante das janelas e guardava uma cadeira. Karen acomodou-se ao lado dela.
- Ei - respondeu, enquanto dispunha o seu material na mesa - Deus, estou morta de cansaço!
- Huh, o que se passou?
- Não viste a tempestade?
Ela abanou a cabeça negativamente.
- Só reparei que houvera trovoada hoje de manhã.
Karen suspirou. Como é que ela conseguira ignorar tais ruídos.
A aula começou segundos depois. Após ser feita a chamada, o professor apanhou um maço de papéis dispostos pela secretária e misturou-os.
- Bem, turma - disse, dando o sinal que a aula começaria naquele instante. Todos calaram-se - Tenho aqui um trabalho de pares que é para realizarem.
Logo a parede de silêncio desfez-se e foi trocada por uma onda de murmúrios indiscretos. O homem limpou a garganta para se fazer ouvir.
- E é para entregar na próxima semana.
Uma miúda na fila da frente levantou o braço e o professor fez sinal para que falasse.
- Conta para a média?
- Claro. Tudo aqui conta na média final - após responder, começou a dispor um papel da pila em frente a cada aluno - Atenção, turma, cada folha está marcada com um número no lado superior direiro. Isso que significa que quem tem mesmo número que vocês é o vosso par. Ah, e resolvam isso no intervalo. Não quero saber nem quero ouvir reclamações sobre o grupo de cada um.
Quando acabou de distribuir, sentou-se de novo na secretária e escrevinhou qualquer coisa. Diana virou-se para Karen enquanto lia a folha numerada.
- Calhou-me o doze. E a ti?
- O cinco - respondeu. Diana fez um som de desaprovação.
- Não sei qual é a mania dessa gente de não termos os grupos escolhidos pelo nosso dedo. Parece que vai rebentar alguma bomba se tal acontecer. Só espero que não fique com algum totó.
- Tu conhece-os melhor do que eu. Sabes quem se safa ou não.
Diana fez um estalido com a língua - Eles nem sempre são pêra doce.
Karen ouviu mais uns comentários desaprovadores enquanto guardava a folha numa mica e aguardava que a aula fosse dada.
No final, as raparigas estavam todas juntas num bando enorme. Diana juntou-se a elas enquanto que Karen esperava sentada num banco. Viu-a conversando com algumas até que, passados uns momentos, juntou-se ao lado dela e exclamou:
- Já sem quem é a idiota que tenho de aturar.
Karen deixou escapar uma leve gargalhada.
- A sério?
- Sim. Ah, e também perguntei por alguém com o cinco. Pelo que percebi, não há ninguém.
- O quê? Não há ninguém?
- Não foi isso que eu disse. Não há ninguém...rapariga!
Ela esbugalhou os olhos e demorou algum tempo a engolir a informação.
- Isso significa que vou ficar com um...rapaz? Macho?
- Yup.
"Oh Deus!". Ela sentiu-se um pouco indisposta. Para o facto de não estar completamente integrada naquele sítio, ainda tinha que trabalhar com alguém do sexo oposto? Aquela ideia soou-lhe mal. Mesmo muito mal.
- Queres que descubra quem é e peça para trocar?
- Não, não! Não quero dar parte de fraca nestas situações. Eu safo-me.
Diana levantou as mãos em sinal de derrota e ergueu-se, começando a passear de um lado para outro, impaciente com qualquer coisa. De vez em quando, trocava alguma palavras com alguém, sem nunca desaparecer de vista.
- É este, não é?
Estava tão distante que não dera pelo corpo que se pusera à frente.
- Desculpa?
- É este? - Ethan perguntou uma segunda vez. Os olhos dela viajaram rapidamente do indíviduo para a folha que ele dispunha na sua frente. Como por instinto, colaram-se ao lado superior direito e teve que segurar a chegada de um vómito.
"Só pode estar a brincar!" pensou, olhando-o com confusão. Não sabia se conseguia responder a uma pergunta tão simples.
- Então? - ele acordou-a naquele rodopio de pensamentos enleios.
- É...- murmurou, e não foi capaz de explicar a expressão que surgiu no rosto dele, mas não lhe pareceu perplexo.
Ele continuou defronte a ela; achou indelicado afastar-se numa situação tão embaraçosa.
- Queres que troque, é isso?
- Não, não, assim está bom! Mais vale...isto...do que qualquer outro. Acho...
Mesmo assim, Ethan não se sentiu confiante em continuar a falar sobre assuntos escolares, por isso dirigiu a conversa a outro rumo.
- Eu sei que o meu irmão falou contigo - arriscou. Ela continuou melancólica.
- Oh.
- Ele provocou-te?
Karen não soube o que responder. Não tinha bem a certeza se as palavras dele (um pouco cínicas, é verdade) haviam tido o intuito de provocá-la.
- Não - respondeu, apesar de não saber se era a resposta correcta.
- É que...bem... ele é um pouco dono do seu próprio mundo e não gosta de conviver com estranhos. pensei que ele fosse fazer o que faz sempre.
- Eu é que devia estar grata. O teu irmão salvou-me a vida.
- Ele não consegue ignorar situações extremas.
- Fugiu antes de eu perguntar-lhe o nome.
- Koichi. É o nome verdadeiro dele - murmurou esta última frase, olhando para o pessoal em redor - Parece que a tua amiga está à tua espera.
- Quem? - ela olhou para o lado. Diana parecia divertida enquanto os observava e deixava correr olhares atrevidos - Só porque estamos a falar?
Ele sorriu, mostrando os dentes brancos. Karen sentiu-se derreter por dentro.
- De certeza - respondeu. Diana estava mais do que entretida com os dois, mas não conseguia ouvir pitada de nada - Eu vou-me antes que alguém invente algo sobre nós.
- E o que haveriam de inventar?
- Tudo e mais alguma coisa.
Karen juntou as mãos e entrelaçou os dedos, ainda um pouco nervosa. Viu-o afastar-se no meio da multidão. Ainda não era capaz de pensar nela como amiga dele, principalmente depois de tantas revelações. Ethan era fabuloso demais para conviver com alguém que não servia de nada.
Logo que Ethan se pôs longe de vista, Diana sentou-se novamente e atacou com ar malicioso:
- Uh uh, Julieta, o que anda aí?
Karen revirou os olhos com o comentário gracejado.
- Nada de mais.
- Nada? - gargalhou como se ela tivesse dito alguma piada - Achas que não vi?
- Eu penso que estás a delirar. Ele é...hum...com quem vou trabalhar.
- A sério?! - ela esbugalhou os olhos de perplexidade e entusiasmo - Mas que sortuda que tu és!
Deu-lhe uma tapinha no ombro com alguma força, mas Karen mal a sentiu. Estava com a cabeça a milhas.
***
Na MTV, o videoclipe "All the right moves" dos OneRepublic enchia o ar da sala. Karen deitou a cabeça no sofá e deixou o cabelo molhado escorrer sobre os ombros. A música ressoava-lhe nos ouvidos e ela nem se preocupou a olhar o televisor. Enquanto relaxava com o som, o corpo amoleceu e quis cerrar as pálpebras e adormecer. O cansaço havia-se prolongado pelo resto do dia e naquela hora parecia ter duplicado. A única coisa que queria agora era dormir, fosse em que lugar fosse, e acordar a horas certas. Isto é, se fosse mesmo possível naquele momento.
A campainha tocou no exacto momento em que estava a entrar no inconsciente. Bufou de tédio e tentou ignorar, pensando que quem estivesse do outro lado desistisse de chamar a sua atenção. É claro que não aconteceu. O tipo voltou a chamá-la segundos depois.
Karen desligou o televisor e andou com um passo lento até à entrada. Destrancou a porta e olhou de relance para o convidado e nem conseguiu esboçar um esgar de admiração.
- Tu...aqui - foi a primeira coisa que conseguu murmurar - Entra.
- O que tens? - o rapaz loiro indagou quando passoun pela entrada. Havia muitas coisas que ela conseguia esconder, mas não a cara de carneiro mal-morto que tinha.
- Não é nada.
- Mentirosa. Tens um ar de cansaço. Estás a morrer de sono - Ethan retorquiu, enquanto a via cair no sofá com a cara escondida entre as mãos - Há quanto tempo é que não dormes?
- Acordei a meio da noite e não consegui voltar a adormecer. Apenas isso...- quando virou a cabeça, ele estava sentado a seu lado, a preocupação estampada no rosto - O que vieste aqui fazer?
- Eu vim...ver se conseguíamos fazer alguma coisa do projecto. Mas parece que não consegues adiantar nada.
- Ei, estou sonolenta, não inválida!
- Tu vais descansar enquanto eu trato disto, okay?
- Mas...
- Karen...!
Ela suspirou desanimada. Foi cambaleando até ao quarto, sempre seguida pelo olhar atento do rapaz, que continuou a sentir quando fechou a porta. Por um lado, sentia-se mal por deixá-lo sozinho, a trabalhar por ela. Mesmo que tenha sido a sua decisão. Mas, por outro lado, sentia-se protegida. De uma forma errada, certamente. Ele parecia guardá-la. E porque estariam eles sempre que ela se metia em apuros. Porquê?
Enroscou-se nos cobertores, enquanto pensava nisso com amargura. Mesmo que tentasse, que cerrasse as pálpebras e acomodasse a nuca na almofada, custou-lhe a adormecer. Não queria que se fosse embora. Desejava acordar e voltar a encontrá-lo com o nariz enfiado nos livros e a tomar notas. Pela primeira vez, percebeu que estava atraída por ele.
Quando tornou a acordar, já havia anoitecido. Tinha os lençóis espalhados pelo chão, enquanto estava deitada em posição fetal. Uma aragem fria tocou-lhe no corpo e ela tremelicou.
Quando se habituou à escuridão, arrumou os cobertores de volta nos seus lugares e andou até à porta.
Estava tudo escuro e silencioso; um pensamento mau passou-lhe pela mente. Teria ele já ido embora? Caminhou silenciosamente e esgueirou-se para o sofá.
Alguém estava lá, era certo. Podia ser qualquer um. Aproximou-se um pouco mais e os dois corpos roçaram, transmitindo-lhe uma vibração quente e poderosa, que espalhou-se por toda a pele em segundos.
Mas era apenas ele.
Inconscientemente, virou a cabeça até conseguir poisá-la no seu ombro macio e forte, apenas para sentir aquela fragrância que exalava do pescoço nu acariciar-lhe a bochecha. Não sabia se estava acordado, mas isso não lhe importava.
O nariz roçou no cabelo feito linho dourado. As veias do pescoço pulsavam com brusquidão. Ele estava tão vivo, tão perto de si, que cada toque era uma emanação de luz e cor. Não queria acordá-lo , mas aconteceu.
Ela logo espevitou e sentou-se no canto mais distante do sofá, procurando no escuro. Ouviu-o a mexer-se, e os restos da vibração intensa dissiparam-se. Ele balbuciou algumas palavras incompreensíveis, e depois falou baixinho:
- Nem acredito que adormeci!
Karen limpou a garganta.
- Acordei-te, foi?
- Não, porquê? Era suposto teres feito algo para me acordares?
Ela não respondeu. Levantou-se, cambaleando devagar enquanto procurava pelo interruptor.
Estava nervosíssima.Será que ele descobrira o que ela acabara de fazer? Com a luz acesa, tentou esconder os sinais óbvios de nervosismo.
- Os meus pais... Eles não te viram por aqui?
- Não - respondeu, enquanto espreguiçava-se - Mandaram uma mensagem.
- Mandaram?
- Acho que dizia que o teu pai teve um turno extra e a mulher ficou com ele. Algo assim.
Havia demasiada coincidência espalhada pelo ar. Sentia-se tão irritada por estar a acontecer cada coisa a seu redor e nem dar por isso.
Caiu no cadeirão ao lado do sofá e sentou-se toda enrolada, com as mãos a segurar os tornozelos. Viu-o a virar e a reler meia dúzia de páginas de um caderno, todas elas escritas; isso deixava-a com um sentimento de culpa entalado na garganta. Ethan escrevera naquele trabalho durante horas a fio, enquanto era obrigada a recuperar as horas de sono perdidas. Parecia que estava a ser manipulada. Pior: por algo que, ainda por cima, não era humano.
Nem ela.
Continuaram num silêncio desconfortável; havia muita tensão na sala, e Karen sentia-se sufocar ali. Não queria nem pensar em alguém descobrir no que fizera uns minutos atrás. Sentira-se quente a tocá-lo, a garganta a arder com o cheiro. Naquele momento achava-se mais uma das suas pretendentes loucas, com o benefício de ele já ter adormecido no seu sofá, e de saber toda a verdade .
Ethan fechou os apontamentos devagar e ela acordou do transe quando ouviu-o a levantar-se.
- Espero que não te importes que vá buscar água à cozinha - ainda estava estática como uma múmia, mas anuiu lentamente para que ele percebesse a sua resposta. Quando percebeu que ele estava longe o suficiente, deitou os pés ao chão. Sentia-os um pouco dormentes por ter estado muito tempo enrolada naquela posição.
Decerto que não faria mal se desse uma espreitadela naquelas folhas; já que se tinha dado ao trabalho, mais valia apreciá-lo. Como uma ladra a mexer onde não devia, virou a capa e observou a primeira página. Foi aí que o queixo caiu-lhe de surpresa.
Não estava escrito com letras, mas sim com símbolos que desconhecia, que enchia todas as linhas. E era da mesma forma no resto das folhas. Nem uma palavrinha que fosse reconhecível naquela barafunda toda.
Desistiu de procurar uma tradução, e pôs-se a ver o que havia no resto do livrinho. Nada. Haviam só folhas em branco. Até chegar ao fim.
A última folha estava colada à capa, e mostrava que o lado escondido estava rabiscado a lápis. Karen estacou, apreensiva com o próximo passo a dar. Daria uma vista de olhos no que estava escondido ou não? Se estava colado, o mais óbvio era que Ethan não queria que se soubesse o que estava escrito.
Sem querer, um dedo deslizou sobre o verso escondido e a unha arrancou um dos lados colado. Oh bem, era provável que fosse mais uma confusão daqueles desenhos nas primeiras páginas. Apreensiva, desceu a mão para que fosse arrancado o resto da cola na página.
Se pudesse, desejaria nunca o ter feito...
Voltou-a com cuidado, como se fosse uma bomba prestes a explodir. A expressão infantil sorria-lhe, como uma criança sem saber no que se estava a meter.
"Como...?" Sem se aperceber, as lágrimas rolavam pelas bochechas e o lábio trincado tornara-se branco como o cal. Era apenas um desenho a grafite; uma menina reguila a aproveitar um dia de sol na praia, com o manto do mar a lamber-lhe os pés descalços, e o traje branco de cerimónia, que a fazia lembrar da manhã de um domingo na missa. Por fim, o cabelo despenteado e adornado com um grande chapéu de palha, que o vento de verão levantava com a roupa.
Estava perante um desenho seu, havia exactamente quatro anos. Um momento inesquecível, e todas as expressões haviam sido capturadas.
Subitamente, perdeu a força dos braços e o caderno caiu, o som abafado pela alcatifa. Ela não tinha nenhuma fotografia que explicasse aquele desenho. Nada, mas estava tudo marcado numa folha de papel.
Arrumou-o no sítio onde se lembrava de retirá-lo, e limpou as lágrimas da alma no manto que cobria o sofá, enquanto os passos se iam aproximando.
- Não acredito que te deste ao trabalho de fazê-lo todo sozinho - comentou, sem esconder a ironia. Ele não percebeu.
- Seria melhor se tivesse feito tudo em português. Não deves ter percebido patavina.
Karen forçou um sorriso, enquanto apertava os dedos até os nós se tornarem brancos, como precaução para não tornar a chorar outra vez. Ethan começou a juntar todas os seus materiais e ela começou a sentir-se desconfortante, desesperada.
- Vais-te embora já?
- Acho que não seria um quadro muito bonito se alguém nos visse a estas horas - começou a ajudá-lo também, mas estacou com uma caneta na mão estendida, o olhar fixo na sua cara e o queixo caído. Ele apercebeu-se disso e virou-lhe a face, tentando esconder os sinais apreensivos.
- Os teus olhos... - ela começou, quase a perder a voz - Os teus olhos estão negros!
E era verdade. Ethan parecia uma pessoa totalmente diferente, algo malévola, sem o olhar azul distinto. Sem eles, a pupila e a íris formavam um buraco feio na retina.
- O que aconteceu?
O rapaz deixou de arrumar as coisas ordenadamente e começou a enxutá-las para dentro da mochila.
- N-Nada. Eles ficam assim de noite - respondeu no meio dos solavancos. Saiu apressadamente, sem olhar para trás, e Karen esperou que a porta batesse, com o receio que ele carregava nos ombros. Mas nunca aconteceu; Ethan mostrou respeito para que não fosse perceptível o pressentimento triste, deixando impávida a olhar para o objecto que ainda tinha pousado na palma da mão.
#154
Ai que saudades Karen!
Valeu a pena a espera, adorei este capitulo! Hu, a Karen está a ficar muito atraida pelo ethan! XD
Adorei o momento entre os dois, estava tao bem descrito que eu até consegui ver a cena á minha frente! Gostava de saber como é que o Ethan tinha aquele desenho, e mais ainda porque é que ele ficou com os olhos negros! seria só por causa da escuridão ou havia outra razão?!
Espero para descobrir!
bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#155
Olá Karen!

Li a tua história toda hoje e diverti-me muito! Gostei mesmo dela!

Quando li o último capítulo não me apercebi que não havia mais e quase não consegui acreditar! Fiquei tipo: OMG não é possível, não há mais? Crying or Very sad LOOL

Está muito interessante. Então a Karen está com um fraquinho pelo Ethan, acho que o sentimento será mútuo, lool, veremos...

A Karen é uma fada muito poderosa, mas que parece não ter consciência disso.

Mas porque é que o Ethan fez um desenho dela quatro anos antes?

Fiquei com imensa pena do Ken, ele não é tão mau como parece, não é nenhum vilão, apenas alguém que já sofreu muito. Não se conseguir controlar e matar a Beatriz, que me pareceu não lhe ser indiferente, acho que ele poderia gostar dela a sério, foi mesmo dramático. Acho que só o irá deixar ainda mais revoltado consigo e com o mundo.

Resumindo estou a ADORAR! Esperancoso Vou passar a comentar!

Concordo ctg as férias tão uma seca.... (mas ler fics giras como a tua são óptimas para tornar os dias mais divertidos Simpatico2 )

Espero pela continuação!

Bjo*

Editado pela última vez em

#156
Vou nem comentar sobre a fic Matreiro

tá muito fixe

Continua assim Exclamation


*mim ter curiosidade mas não dizer*

Tens de entrar para responderes neste tópico.