Sailor Moon Portugal, A Navegante da Lua

[Terminada] As rosas De Roquette

#41
*Snif, snif* ;_;
Ai ando sem tempo nenhum para ler e postar! ;_; Saudadinhas da fic pá! Esperancoso
Eu vi logo que a Melanie já tinha topado o urso! Ela não me pareceu uma qualquer! Gosto imenso da imagem que idealizas para ela! Está perfeita! Esperancoso
A conversa entre ela e o urso foi óptima para perceber certas coisas, por exemplo, a verdadeira maneira de ser de Bruno. Ainda assim, Claire está presa a Raphael por um laço forte: o casamento! E depois desta ultima parte não restam duvidas que há algo mais! Gostei tanto! Como disse a Titinha: Que Bom! Embaracoso
Tentarei comentar quando houver mais, mas não prometo nada!

PS: A praxe cansa!!! v.v
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#42
Muito obrigada pelos comentários. Tenho sempre grande prazer em lê-los x)
Aqui está o novo capítulo (que vão começar a deixar de serem tão regulares)!
Spoiler
Oh Lulu mas praxe é mesmo assim. Não consegues comer? Uau, o que é que eles te obrigam a fazer? A minha amiga tá no ISEP e lá só a mandam berrar. Chega a casa toda rouca. E digo já que não canções inocentes como a dos patinhos Matreiro
Ya, praxe cansa. Mas deve ser uma alegria em estar lá nos dias bons. Pelo que me contaram, é um união tremenda. Vai um à casa de banho, vão todos os outros atrás. Matreiro
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A Fuga

Em tempos, ouvira-se a história do criado que ouviu dizer que, no mercado, a Morte andava à procura dele e ele, aterrorizado, fugira para o reino vizinho a trote no cavalo emprestado do patrão. Este encontrara a Morte mais tarde e balbuciou uma desculpa qualquer de que o criado estava na cama, doente. A Morte pareceu confusa, pois poderia jurar que o criado estava no sítio errado. Porque a Morte tinha um encontro com ele à meia-noite… no reino vizinho.
Claire sentia-se como o criado a fugir do próprio destino. Só que, no caso dela, era mesmo o Destino que ela queria evitar. Ser uma salvadora em troca da vida da sua família. Quantos outros não desejavam isso? Poder, fama, dinheiro. Ela poderia ter tudo, mas recusava-se. Tentava fugir ao destino que os Fados lhe traçaram, impedindo-a de morrer, ao mesmo tempo que a condenavam a um castigo muito pior.
Ela tinha apenas uma vaga lembrança da sua juventude, de quando Rose lhe lia histórias e elas se aventuravam pelos bosques. Da sua memória, abundavam recordações de Rose ainda que ela podia contar a sua infância até o seu sexto aniversário. A partir daí, tudo mudou.
A sua família desmoronou-se completamente, mas a maior perda sentida por Claire fora a sua irmã. A irmã que a protegia dos males que a menina nunca via, mas que estavam sempre lá. Aquela que, uma vez, a defendera de salteadores. Aquela que defendeu a sua honra quando o seu marido a beijara no casamento, acto impróprio para os bons costumes. Depois, tudo o que lhe sobrara fora uma mãe despedaçada e uma amiga para consolá-la. E essa mesma amiga ajudou-a a esconder-se e a salvar-se, se bem que não fosse preciso. Claire parecia não sofrer do mal que arrastava todo o sangue azul das duas Terras. Pouco a pouco, todos os castelos caíam juntamente com os seus senhores, reis, princesas, duques, barões. Todos eles padeciam de doentes enfermas, guerras e muitos tentavam mesmo à sua própria mão, tomando a atitude cobarde de fugir e deixar as suas responsabilidades nos outros.
Claire procurou auxílio nas Terras Baixas, junto de Bruno. E lá ficara até que tivera conhecimento de Kedar, chefe das forças da Resistência. Este ouvira falar de Claire e mostrara um invulgar interesse nela. Todavia, não forçou a rapariga a lutar, nem mesmo a se mostrar como uma salvadora. Essa decisão fora tomada pela própria Claire quando, anos mais tarde, de volta ao seu castelo nas Terras Altas, sofreram um ataque e Claire conseguiu, com muito esforço, tirar a mãe e todos os outros do castelo em chamas. E a palavra espalhou-se. Juntando aqueles relatos dos Fados premeditados a Claire e a união da família desta com a família real das Terras Baixas, o título indesejado de Claire não podia mais ser evitado.
Pobre rapariga, tanto acontecera em tão poucos anos. Doze, para ser exacto. Sabia mais histórias que todas as crianças do mundo e muitas delas por experiência própria. Todavia, não se atrevia a contar nenhuma. O medo corrompia-lhe as veias de cada vez que pensava naqueles evento que testemunhara pouco antes de Raphael ter sido transformado e as duas Terras perderem todo o seu sangue nobre.
Claire e Bruno eram os últimos nobres vivos. E agora Raphael.
Agarrou-se ao pêlo espesso do Urso com força, abraçando-se no meio de um pequeno rio de lágrimas que ela não sabia que tinha acumulado faziam anos.
Urso não se moveu, como que temendo uma reacção negativa por parte de Claire. Esta soluçou um pouco, antes de se afastar, fitando o olhar incrédulo do marido:
-Não entendo… julguei que tu ficasses feliz com a minha morte.
Os lábios de Claire mexeram-se, a fim de murmurarem uma resposta, mas fecharam-se no mesmo instante. Claire era o que muitos chamavam uma “alma pura” que não desejava mal a ninguém. Muito menos a Raphael. Porém, sentia-se contente por não ter o esposo ao seu lado, sem lhe dar ordens e permitindo que ela impusesse um certo receio nos soldados e nas mulheres. Gostava da independência e do modo como todos se afastavam por saberem que ela era casada.
Todos, menos Bruno, mas esse caso já sabíamos.
Não. Talvez não fosse saudade. E muito menos pena.
Era um fôlego prendido que se soltara naquele momento. Raphael, Rose. Sempre interligara os acontecimentos seguidos ao seu casamento com o desaparecimento de Raphael. E temia o que a irmã lhe pudesse ter feito. As palavras venenosas que Rose sussurrara após o casamento nunca lhe saíram da cabeça e durante anos pensou no que ela tivesse feito ao marido. Saber que ele fora apenas transformado num urso encheu-lhe o peito de uma alegria profunda.
Ela suspirou, fechando as pálpebras por uns meros segundos, antes de o fitar.
-Temi o que ela te pudesse fazer. Após tu… - hesitou um pouco, mas ele sabia do que ela falava. O beijo. Claire tentou acalmar-se e, soltando uma grande lufada de ar, prosseguiu. – Me teres beijado, ela ficou furiosa e jurou vingança. Temi o teu destino.
-Mesmo tendo mais motivos para me detestar do que para me defender? – Perguntou ele, o seu peito enchendo-se de alegria involuntária.
Claire lançou um sorriso um tanto matreiro.
-Na altura não sabia o significado do beijo que me tinhas dado. Nem sequer sabia que havia tanta importância para o primeiro toque de lábios. Era pequena.
-Perdão. – Disse ele, a sua cabeça baixa. Dizia agora as palavras que devia ter proferido anos antes. Não a Charles, que preocupava-se mais com os costumes do que com a própria filha, mas a Claire.
Esta riu-se.
-Isso não importa agora… Nem sei porque te preocupas por algo que se passou fazem muitos anos. O mais importante agora é voltar a pôr-te no teu estado…
Interrompeu-se a si mesma, entendendo o erro que estava a fazer. Se Raphael voltasse, ela seria a esposa dele. E tinha agora idade suficiente para consumar o maldito casamento.
Urso decifrou os seus pensamentos, com profunda tristeza. Custava-lhe muito dizer aquelas palavras mas, ele queria que Claire fosse feliz, nem que fosse com o seu irmão. Suspirou pesadamente, o seu ar expirado mais pesado e saindo quente das suas grandes narinas.
-Dar-te-ei liberdade se me quiseres ajudar. – Claire fitou-o, céptica, mal querendo acreditar no que estava a ouvir. – Anularei o nosso casamento. Serás livre. Só te peço que não me afastes. Habituei-me a estar perto de ti e quero proteger-te.
Ela ficou em silêncio por uns momentos, os seus olhos não saindo de cima dos dele. Quando por fim falou, foi um minúsculo sussurro.
-O que te aconteceu? – Perguntou, mal mexendo os lábios.
Amadureci por estar tanto tempo sozinho com os meus pensamentos. E apaixonei-me… por ti pensou ele, lamurioso. No entanto, não se atreveu a repetir os seus pensamentos em voz alta.
-Mudei. – Disse simplesmente.
Claire desviou os olhos dele, fitando a sua própria sombra criada pela grande iluminação das inúmeras velas de cera que circulavam a sala.
-Pareces mesmo diferente. – Sussurrou, a voz doce soando a uma melodia suave que se ouvia ao despertar da alvorada.
-Era assim tão mau?
-Rose… contou-me coisas acerca de ti. Já esperava que tu… - Claire parecia perdida em pensamentos, falando mais para si do que para Urso, que a observava atentamente.
-Claire… - chamou ele, sentindo um aperto no coração em apenas dizer o nome dela. Ela prendeu a respiração, as pálpebras fechadas e algumas lágrimas correndo o seu rosto pálido. Quando abriu os olhos, estes brilhavam tanto quanto ametistas, mas ainda encontravam-se longe. Vendo para além das paredes.
Por fim, após um longo silêncio, ela voltou a fitar Urso, desta vez traçando um pequeno sorriso.
-Não podemos esperar mais. Digo, tu não podes esperar mais. Doze anos é muito tempo… - parou um pouco, pensando em cada palavra que iria dizer. A pobre rapariga parecia remoer de dor por dentro. – Ajudar-te-ei e dar-me-ás a liberdade matrimonial. Não me importo que fiques junto a mim, pelo contrário, até agradeço. Foste muito útil como Urso, será o mesmo como humano.
Claire parou, ainda que tivesse dado a sugestão de haver mais por dizer. Mas Urso entendeu.
A criatura assentiu calmamente.
-Agradeço. Mas… como o faremos?
O rosto de Claire ficou rígido.
-Vamos à fonte de energia. Aonde Rose teve acesso à magia negra.
-Tu sabes? Tu… estavas lá? – Perguntou ele, incrédulo. O rosto de Claire parecia rocha.
-Sim. Estava lá. É uma longe história. Contar-te-ei quando voltares a ser homem. Até lá, falaremos pouco. A viagem é comprida e não temos muito tempo.
-Tempo?
Claire semicerrou os olhos.
-Quero estar aqui antes de os homens atacarem as bestas. Por isso temos apenas três semanas.
-Será suficiente.
Claire assentiu.
-Sim… penso que sim…

Uma hora depois…

-Sabias?
Melanie olhou para Kedar, procurando uma reacção. Apesar de Claire ter falado para ela, sabia que a pergunta também era para Kedar. Este fitou Claire sem qualquer receio e assentiu lentamente. Quando a morena encarou Melanie, esta viu-se obrigada a fazer o mesmo. Ainda que Claire fosse a sua melhor amiga, havia alturas em que se lembrava dos tempos em que era uma simples serva e Claire a sua patroa. Hábitos antigos eram difíceis de quebrar…
A jovem rapariga nunca viu a amiga tão furiosa quanto naquela altura. Parecia que ia explodir, transpirando ira pelos poros da pele. Os cabelos pareciam harmonizados com o temperamento de Claire, estando espalhados pelos seus cotovelos num grande desatino e pequenos cabelos junto à testa erguiam-se na vertical, destacando ainda mais a cor da pele dela que, naquelas alturas, não era tão bonita de se ver. Afinal, quem é o parvo que quer ver moças lindas como as irmãs De Roquette furiosas? Que experiencias como estas lhes sirvam de lição. Claire não é santa mas, ao contrário da irmã, não age cinicamente como tal, ainda que o seu aspecto físico a traísse.
-Vocês sabiam e não nos contaram! A mim e a Bruno! Vocês não têm ideia do mal que causaram a ele? O seu próprio irmão!
-Raphael também não contou a ninguém. – Argumentou Kedar, sempre calmo. – Além disso, preferi vigiá-lo à distância, ver em que tipo de homem ele se tinha tornado.
-Tu o conhecias? – Perguntou Claire, um pouco mais calma. A voz de Kedar era como uma cura milagrosa que muitos curandeiros não possuíam.
Kedar abanou a cabeça.
-Nunca pessoalmente. Sabes que nunca tive importância nos salões da corte. Mas eu vim das Terras Baixas, ouvi mais sobre Raphael do que tu e a tua família alguma vez tivessem ouvido. Ele era egocêntrico e arrogante mas, tal como o irmão, escondia algo melhor dentro dele. Uma faceta altruísta e honrada que ele apenas mostrava às pessoas da sua mais alta confiança. Ou seja, Bruno. Mas os criados têm ouvidos e sabem muito mais sobre os patrões do que eles mesmos. Eles sabiam como Raphael era perto de Bruno. Era como se a marca cínica que todos os nobres usavam no dia-a-dia caísse. Era o irmão mais velho dele e amava o seu pequeno irmão e tentava protegê-lo de tudo, mesmo que isso indicasse que tivesse que aturar aquele mundo que ele abominava… parece-te familiar?
Os olhos escuros de Kedar procuraram os de Claire, focando-se neles intensamente. A rapariga ficou chocada, sem dizer uma palavra, deixando que as palavras de Kedar penetrassem o ambiente da pequena sala. Melanie, apoiada na mesa de madeira, olhava tanto para o chefe da Resistência como para Claire, que parecia ter engolido um limão azedo.
Sim, aquela história parecia-lhe muito familiar…

Os preparativos para a viagem demoraram dois dias, ainda que Melanie, Claire e Urso trabalhassem depressa. Era necessário manter o máximo sigilo possível. Principalmente de Bruno. Depois de uma conversa com Urso, Claire decidira não contar nada, pois Bruno provavelmente tentaria ir com eles. Mas a sua presença nos túneis era muito necessária, tornando impossível a sua ida. De qualquer modo, Urso não se sentia preparado.
Kedar pedira para falar com Claire antes de esta partir, enquanto Urso esperava lá fora com Melanie, observando o vento a soprar nos pinheiros fortemente.
-O tempo está sombrio. – Comentou a rapariga, ainda que já não o conseguisse entender naquele dia. Urso assentiu.
Virou-se para a toca, os seus olhos focando-se na porta falsa. Ficou tentado em perguntar a Melanie o que estaria do outro lado, mas sabia que ela não o entenderia. Claire havia-lhe dito que se tratava de uma besta molestada por Kedar. Todavia, não havia provas. A porta nunca fora aberta.
Lá dentro, Kedar dava conselhos á rapariga que via como uma neta, tal como Melanie. Foi para junto de uma cadeira feita à mão, onde pegou nalgumas roupas largas e grossas.
-Para Raphael. Quando voltar a ser homem, duvido que tenha as suas roupas vestidas. Além disso, estará frio para onde vão.
-Obrigada Kedar - agradeceu Claire sinceramente, colocando as roupas no meio do seu grande embrulho de viagem, cheio de cobertas e comida para vários dias. Tinha vestido a sua capa preta e entrelaçado os cabelos desengonçados, de modo a que estes não a incomodassem na viagem. – A tua ajuda sempre foi muito importante para mim.
Kedar sorriu.
-Minha querida. – Pegou no rosto de Claire com as suas mãos, beijando uma das faces da rapariga. – Vejo-te como uma neta que nunca tive e admiro-te pelo teu coração. Mas, verás nesta viagem, que há coisas pelo qual vale a pena arriscar.
-Que coisas? – Questionou Claire, desconfiada. Kedar suspirou.
-Isso terás tu que descobrir por ti própria. Não tenhas medo Claire! – Aproximou-se do ouvido dela, sussurrando palavras que atingiram a rapariga fortemente, como se um arqueiro a usasse como alvo para as suas flechas. – Ela nunca te matará, mas não a deixes destruir a tua vida.
E antes que Claire pudesse articular alguma forma racional de resposta, Kedar saiu, com um aceno de cabeça. Claire ficou parada no meio da divisão quente, completamente imóvel e sem saber o que fazer. A sua cabeça andava à roda de tão confusa que estava.
Perdida e pensamentos, nem notou que Bruno a observava, com um olhar apaixonado e quase faminto.
-Para onde vais? – Perguntou, mirando o embrulho nas mãos de Claire. Esta tentou balbuciar alguma desculpa.
-Para Norte. Para… o meu castelo.
-Porque voltarias para lá? Não disseste que fora tudo destruído? – Perguntou, clara dúvida e desconfiança no seu tom de voz.
Claire assentiu nervosamente, tentando evitar contacto visual com Bruno.
-Deixei lá… uma coisa importante… tenho que a ir buscar.
-Vais com o Urso? – Perguntou ele, a voz neutra, mas obviamente escondendo outras emoções.
Claire voltou a abanar a cabeça em tom afirmativo. Os lábios de Bruno contraíram-se.
Não sabia explicar, mas não se sentia bem com Urso. Era uma estranha sensação de familiaridade que ele não sentia fazia anos. Todavia, a criatura não falava para ninguém, com excepção de Claire, ainda que esta o tentasse esconder (há que lembrar que Bruno é um homem esperto e observador. Detalhes que muitos ignoram são visíveis a olho nu pelo rei das Terras Baixas) e sempre que estava na mesma sala que ele e Claire, sentia-o como uma ameaça. Não conseguia suportar a ideia de ver Claire com Urso, ainda que ele fosse um animal. Era como se aquele urso fosse mais do que aparentava. Apesar de não falar, parecia entender tudo aquilo que as pessoas diziam e, às vezes, dava por ele a responder a perguntas simples de Melanie, perguntas em que as respostas se limitavam a um aceno de cabeça.
Não, não gostava daquela criatura. Pelo menos, no momento em que Claire estava envolvida. Fora isso… era como se o conhecesse e o tivesse perdido. Mal fazia ele ideia…
-Tens a certeza que podes confiar nele? – Perguntou, talvez a terceira vez desde que vira Urso pela primeira vez. Claire semicerrou os olhos.
-Achas mesmo que, após tanto tempo, não o faria?
-Ele podia estar à espera do momento oportuno para te atacar. E agora vais ao teu castelo… é a altura perfeita para…
-Chega, Bruno! – Interrompeu Claire, elevando a voz. Ele calou-se, mas lançou-lhe um olhar penetrante. Ela desviou os olhos dos dele, não conseguindo o enfrentar.
-Confia em mim. Eu sei que Urso é de confiança. Tenho razões.
-Quais razões? – Exigiu ele, aproximando-se dela. Claire não se mexeu, limitando-se a morder o lábio.
-O meu instinto. – Disse, pouco segura. Bruno sorriu.
-Ele conseguiu manipular-te, não?
-Duvidas dos meus instintos?
Bruno respondeu devagar, como que tentando afagar uma criança raivosa.
-Não, mas quando alguém se intromete nesses teus instintos, eles podem falhar. Principalmente se essa pessoa for manipuladora.
Se havia coisa que Raphael nunca fora em vida, era manipulador, mas isso Claire não disse em voz alta. Limitou-se a erguer o queixo, ofendida.
-Julgas-me assim tão fraca? Não importa a tua opinião. Vou fazer esta viagem, quer queiras quer não. Urso virá comigo. Estarei de volta antes do ataque.
E sem esperar resposta, dirigiu-se para a porta.
-Claire! – Gritou Bruno, em pânico. Não podia deixá-la ir zangada com ele. Temia que ela nunca chegasse a tempo e que ele morresse em combate. Não queria que o último momento em que a visse fosse recordado como uma discussão.
A rapariga virou-se lentamente e, ao ver o olhar perdido e desolado de Bruno, não conseguiu deixar de ficar quieta, enquanto ele se aproximava e a beijava tenramente nos lábios.
-Tem cuidado. Só não confio nele porque és tu que te podes magoar. – Sussurrou, tentando dar-lhe outro beijo, mas Claire afastou-se.
-Eu confio nele. – Repetiu, a voz decidida, mas o seu olhar longe do de Bruno. Depois, saiu da sala, deixando o Rei das Terras Baixas sozinho com os seus pensamentos.
Urso afectava Claire, ainda que esta não se apercebesse. Fosse Urso um homem, Bruno teria apostado todo o seu reinado de que Claire estava apaixonada por ele.

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P.s A história mencionada no inicio do capítulo é real. É conhecida como Encontro em Samarra.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
#43
olá Ana! bem, eu já tinha lido este capitulo no outro dia mas por falta de tempo não comentei. Agora, infelizmente, não me lembro de todos os pormenores mas digo já que este capitulo me deixou muita agua na boca! para começar, a reacção da Claire foi muito linda! Esperancoso Acho que a relação dela e do Urso está mais forte e nota-se um laço muito bonito a uni-los. Tal como Bruno, eu arriscaria dizer que a Claire está apaixonada por ele! Fiquei admirada por kedar já saber. No fundo não é surpreendente, mas é sempre aquela coisa do tipo, sabia e não fez nada?! LOL o.O
Gostei mesmo muito das deduções da Claire e isso agora gerou-me ainda mais curiosidade. O que vão fazer quanto ao encantamento?! mal posso esperar para saber!

Fico à espera de mais! Embaracoso Bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#44
Hello! Bem, eu já tinha lido o capítulo o outro dia, mas esqueci-me de comentar. >.<
Gostei muito da reacção da Claire, e era tão bom que depois do Urso voltar a ser o Raphael que eles se dessem "bem". Esperancoso Sem menosprezar Bruno, que mesmo tendo as suas "manias", ele deve gostar também de Claire.
(Nem sei se me fiz entender o.o)
Fico à espera do próximo! Very Happy
#45
Ana: Olá meninas! Que bom chegar aqui e ler os vossos comentários. Very Happy
Cat (o meu lado louco/sarcastico/chato): Tipo.... Rolling Eyes já leste os comentários há uns dias. Tu é que és preguiçosa em vir cá agradecer mais cedo.
Ana: Embarassed Tens cá uma lata em chamar-me preguiçosa... Mas adiante. Já li há algum tempo, sim senhora, mas comento agora, ao mesmo tempo que aproveito para postar um novo capítulo.
Cat: *secamente* Finalmente....
Ana: *lançando ao seu lado louco um olhar penetrante* Tenho mais que fazer, sabes?
Cat: Tipo, ficar na cama até mais tarde? Já pareces a Sailor Moone.
Ana: *empinando o nariz* Vou considerar isso um elogio.
Cat abre a boca para retorquir, mas Ana interrompe antes mesmo que ela faça um pio.
Ana: Como dizia. Agradeço os comentários e, mais uma vez, peço desculpa pela demora. Por um lado, foi perda de tempo, por outro foi desânimo. Não consigo avançar mais nesta fanfic. Preciso de incentivos e, quem sabe, talvez ideias para um pouco de "palha".
Cat: E que tal pores o Bruno a arder? Twisted Evil
Ana: Mal disposto ninguém te pediu a opinião.
Cat: Mas era uma boa ideia, não? *dirige-se às leitoras da fic* Não concordam comigo?
Ana empurra Cat para o lado. Esta caí desastradamente no chão, ficando a massajar a traseira dorida.
Ana: Esclarecendo alguns pontos mencionados nos comentários. Kedar sabe porque é um homem sábio e...
Cat: *fazendo voz esganiçada e irritante* homem sábio e que tudo observa... Mais vale admitires que nem sabes como é que ele descobriu e que cometeste um erro.
Ana: Simpatico2 Não cometi erro coissima nenhuma. Kedar sabe porque conheçeu Raphael e sabia que algo lhe tinha acontecido. Ele também sabia que Urso o seguia desde parte da viagem e talz...
Cat: Isso só prova que ele era de confiança. Parvoice
Ana: Para além de ser tão esperto quanto um humano. E qual era a probabilidade de um urso ser assim? Era humano obviamente.
Cat: Isso não quer dizer que ele era Raphael.
Ana: Mal disposto Tu não deves ler nem sequer a Bravo. O escritor não tem que explicar tudo timtim por timtim. Kedar sabia que ele era um humano nas peles de urso. Mas só mais para frente sabemos que Kedar sabia que Urso era Raphael. Entretanto, podia ter descoberto pelas atitudes do animal. O facto de não ter contado a ninguém foi respeito à decisão de Raphael.
Cat: Mas...
Ana: CALA-TE!
Cat: Só ia dizer que acho que Kedar queria que Claire descobrisse por si própria. Afasta
Ana: Ah... Assobiar talvez... não pensei muito nisso.
Cat: Rolling Eyes crias personagens inteligentes e nem as sabes usar.... és cá uma mente sábia... Mal disposto
Ana: Lembra-te que fazes parte de mim.
Cat fica calada durante um bom bocado.
Ana: Sem paciencia *suspirando* Acerca da reacção de Claire, matutei muito nisso. Queria que fosse uma reacção tipica da rapariga mas, ao mesmo tempo, inesperada. Acreditem que imaginei a cena de diferentes primas na minha cabeça, em diversos locais e alturas. Mas pareceu-me uma atitude correcta Claire abraçar-se a Urso.
Cat: *recompondo-se* Como assim?
Ana: Tenho me focado demasiado na Claire e achei que devia postar mais coisas acerca da Rose. Tais como as consequências das acções dela. Não poderiam as suas acções alterar o comportamento de Claire?
Cat: Sim. Mas... como?
Ana: As palavras ditas no casamento.
Cat: >_> E a miuda vai lembrar-se disso?
Ana: Recorda-te que ela lembra-se mais das alturas com Rose do que do resto da sua vida. Ela teme e ama a irmã.
Cat: Simpatico2 Um pouco como tu e eu.
Ana: *Chegando-se para o lado* Não sou narcisista, que me lembre.
Cat: Calma, estava apenas a citar a tua irmã.
Ana: Eh, essa é que eu era capaz de pôr a arder Mal disposto
Cat: Ou mandar-lhe uma seta pelo ** acima. Devias fazer isso ao Bruno!
Ana: Desiludido Que ideias são essas? Que mal Bruno te fez?
Cat: *encolhendo ombros* Nenhum. Mas as tuas leitoras são do Team Raphael. Já tão todas crentes que ela está apaixonada.
Ana: Isso é mentira. Tenho mantido sempre uma mente aberta a todo o tipo de hipóteses.
Cat: Isso não quer dizer que eu não possa estar do lado delas. Razz
Ana: Tipico Mal disposto Para tua informação, há o mínimo de romance nesta história, lembra-te.
Cat: Diz aquela que só lê romances no Fanfiction Net.
Dá uma birra a Ana e ela vai-se embora.
Cat: ESPERA! Aonde vais?
*suspiro*
Cat: E depois EU é que sou o lado louco. Pois bem, fica aqui o próximo capítulo. Como a Ana dizia, vão continuar a demorar os updates, mas não desistem desta fanfic, ok? Não sei se repararam mas eu e a Ana (uma pessoa só), temos um bichinho pela escrita e por isso decidimos partilhar esta conversa chacha para vossos entreternimento. Em compensação... só pedimos comentários gigantes, ok? Por favor... não me façam implorar, ok?

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A Jornada

-Que criatura está por detrás da porta da frente? – Perguntou Urso, assim que os dois iniciaram a sua longa viagem. Claire ficara melancólica e mal reagia, limitando-se a andar passivamente, pálida como um fantasma.
A rapariga encolheu os ombros, não desviando os olhos do seu caminho.
-Não sei. Kedar nunca disse. Dizem que é uma besta que fora apanhada e encarcerada ali, sendo deixada à fome e à sede. Para mim não faz sentido, pois o carvalho não é assim tão estável, uma besta furibunda destruí-lo-ia. Em todos os casos, esperemos que a porta não se abra.
-Será assim tão mau? – Perguntou Urso, tentando aliviar a tensão. Claire virou-se para ele, os olhos sombrios.
-Só o inimigo é que cometerá a estupidez de abrir a porta da frente. Se a porta for aberta, quer dizer que o inimigo descobriu o nosso esconderijo. A besta lá escondida só serve para ganhar tempo. Em todo o caso, teríamos que fugir…
-E presumo que não haja muitos locais para se esconderem. – Concluiu Urso.
Claire abanou a cabeça.
-Antes havia… mas somos muitos e os nossos recursos são esgotáveis. É difícil caçar, pescar ou até mesmo cultivar. Temos feitos milagres e todos os anos nascem centenas de crianças mas… Não é o suficiente. Se sairmos dali, é que não haverá hipóteses. Pior, as crianças morrerão de frio e fome.
Ela deixou de falar, deixando que o ar frio das montanhas se esbatesse nos corpos com força. Claire tremeu de frio e Urso, não querendo vê-la doente, aproximou-se.
-Vem! – Disse, apontando a cabeça para as suas costas. – Sobe para as minhas costas.
-Não é preciso.
-Eu insisto!
A ventania não parava e Claire sabia que ela estava a atrasar a viagem. Quando Raphael voltasse à sua forma original, demorariam os dias necessários para um humano fazer a travessia a pé. Todavia, sendo ainda um urso, podiam poupar tempo.
Subiu para cima da pelagem negra dela, agarrando-se com força. Podia sentir o corpo dele a aquecer, ainda que os ventos lhes gelasse os ossos. E, sem se dar ao luxo de mais pensamentos, correu.

Durante dias, percorreram vários quilómetros a pé, fazendo o mínimo número de paragens para comer e descansar. Quando mais percorriam caminho a norte e contornavam a montanha, pior ficava o tempo. Nas montanhas das Terras Altas, a neve ainda era espessa e todos os dias choviam blocos de gelo branco. O vento pintava o rosto de Claire num tom rosado que Urso achou adorável e, com o tempo, o frio deixou de os incomodar. Urso, com o seu corpo de mamífero habituado a grandes invernos e Claire, com a graça habilidade de moça que nascera nas Terras Altas.
Claire jamais reclamara ou protestara de coisa alguma. Qualquer marca de sofrimento que pudesse ver vista, era logo disfarçada. Era estranho para Raphael ver uma mulher a esconder as suas fraquezas. O que ele não sabia era que Claire, a contrário de muitas, não escondia as fraquezas por causa do homem em questão, mas por força de vontade. Uma espécie de teste à sua resistência.
Algo que Rose lhe ensinara.
As marcas de sofrimentos que Urso via, eram apenas traços tristes de recordações da sua vida anterior, quando brincava com a irmã nos bosques perto de casa, fugia no meio de empregadas atrás de Rose, que corria alegremente, ignorando os protestos das criadas atarefadas. Memórias longínquas, mas que Claire ainda sentia no seu coração.
A viagem era instintiva, como se ela tivesse percorrido aqueles caminhos íngremes inúmeras vezes. Felizmente, só fora lá uma vez, mas fora o suficiente para ela nunca mais se esquecer daquele dia. De facto, em dois meses, muitos acontecimentos marcaram a sua vida e a de Rose. E tudo começara quando elas encontraram o maldito duende.
-Para onde vamos? – Perguntou Urso, ao fim de oito dias de viagem. Era a primeira vez que perguntava o sítio exacto do seu destino. Sabia que passariam pelos bosques próximos do castelo dos De Roquette mas, a partir daí, o caminho era-lhe desconhecido.
Já estavam nos arvoredos e Claire não fez nem sequer um simples movimento de reconhecimento do caminho. Era como se estivesse em transe, hipnotizada pelo encanto mágico e traiçoeiro daqueles bosques e recordando memórias aterradoras de salteadores atacando e tentando estuprar duas jovens meninas. Naquele momento ignorava que, a umas dezenas de passos dali, encontrava-se no local onde ela nascera e perdera tudo.
Ele confiava em Claire, daí que nunca tivesse perguntado o que iriam fazer. Mas agora estava mais cauteloso. Pela expressão de Claire, não iriam entrar em territórios amigáveis.
-Para a fonte de origem do poder de Rose. – Repetiu Claire num murmúrio, os olhos fitando o horizonte e o corpo assumindo uma posição de alerta.
E, pela primeira vez desde que saiu do velho carvalho, virou à esquerda.

Urso tentou não fazer-se ouvir respirar nas seguintes horas em que seguiu Claire lentamente ao longo da densa vegetação. Alguns ramos eram pisados e os seus sons ecoavam pelo bosque, mas ninguém lhes prestava atenção. Claire atentava à sua volta, mas não parecia procurar nada. Os olhos não tinham qualquer brilho, tal como no dia de casamentos deles, lembrou-se Urso.
Então aquilo era a fonte de todos os problemas da família De Roquette.
Estranhamente, Urso sentiu-se invadido por uma longínqua memória de bailes das suas terras, quando ainda era um miúdo imprudente. Ele achava que aquela memória fora há muito perdida, mas não pode deixar de se recordar do dia em que Bruno entrara pela primeira vez no salão sozinho, a corte toda vendo o jovem príncipe já um homem. Homem num sentido, porque Bruno tinha cerca de quatro anos e ainda cambaleava como um bêbado. Estava vestido de preto, como devia ser. A mãe dos dois, a Rainha, tinha morrido meses antes e a corte ainda estava de luto. Um luto dividido pelos desinteressados que apenas cumprem ordens e pelas pessoas que lamentavam verdadeiramente a morte da rainha, tais como amigos próximos, os amantes e os filhos.
O pobre pequeno quase que iria chorar ao dar passadas um tanto atrasadas para um rapaz da sua idade. E Raphael via as pessoas a tentarem não troçar do rapaz. Ele sabia que, não fosse aquele o filho do Rei, teriam desatado a rir. Todavia, isso não evitaria os rumores. Que o príncipe era atrasado, que tinha bebido, enfim… coisas absurdas que só idiotas inventavam.
Raphael sentiu a raiva a subir-lhe pelas veias e o seu rosto a ficar vermelho. Sem olhar para trás e muito menos para o pai, atravessou o salão até ao irmão, segurando-lhe no braço. Com um leve apoio Bruno já conseguia caminhar direito, talvez ainda melhor que muitos outros. Mas claro que as más-línguas não viam isso. Apenas viam que o príncipe ainda era incapaz de fazer seja o que for. E muitos comentaram o azar do rei para herdeiros. Um filho rebelde e outro retardado.
Bruno pensava que o irmão o iria conduzir até ao Rei, mas Raphael não iria sujeitar o irmão a mais humilhações. Sem dizer palavra, conduziu o irmão para fora do salão. Ouvira murmúrios irritantes e sentira dois olhares em si. O do irmão, que expressava uma tremenda gratidão e o do pai, cujo semblante era semelhante ao de um homem envergonhado. Homem estúpido! Igual aos nobres todos que abundavam as terras. Ricos, mas sem valores morais. Um pai como ele deveria ver o amor por detrás da ajuda do filho mais velho ao mais novo. Deveria ver o laço que unia os dois irmãos. A mudança de atitude dos dois quando estavam perto um do outro. Raphael não era egocêntrico perto de Bruno e Bruno não era tão orgulhoso perante o irmão mais velho.
Era este o milagre dos laços de sangue. Conseguem transpor ao de cima o lado mais luminoso e escuro de uma pessoa. Olharem-se um para o outro era como ver através de uma vidraça transparente. Não se esconde nada. Aceitam-se os defeitos. Adoram-se as qualidades.
O laço é uma ligação pura, jamais quebrada. Os príncipes das Terras Baixas não são os protagonistas desta história, mas também são um exemplo do grande amor que dois irmãos podem nutrir um pelo outro, ainda que andem sempre às turras. Perto dos irmãos, não há cinismo, nem falsidade. Verdadeiro, puro...
-Eram sete. – Disse Claire de repente, sobressaltando Urso.
-O quê?
-Eram sete… os duendes que aqui estavam. Era uma colónia, mas eram sete líderes.
Claire falava num tom monótono, como se tivesse acabado de lembrar algo que havia tentado esquecer. Urso sentia-se confuso.
-Aqui?
E foi aí que ele notara. Haviam entrado numa gruta escura sem ele se aperceber. Atravessaram o antro cautelosamente, sendo o ruído de pingas de água caindo em pequenas poças e formando minúsculas estalactites o único som audível, agregadas às paredes escuras e cobertas com musgo na zona virada para o sol. Era comprida e Urso podia jurar que, quanto mais avançavam, mais o som se desvanecia (e não devido à distância), vestígios de vida desapareciam e que a luz deixava de ser tão luminosa.
Chegaram ao outro lado e Urso viu uma gigante clareira, onde não havia tempestades de neve e a temperatura subira consideravelmente. Vegetação verde-clara e árvores com fruto abundavam a zona, cheia de casinhas de palha minúsculas e abandonadas. Parecia uma cidade em miniatura, cujo cenário de fundo fora pintado com uma imagem do Éden.
Claire suspirou, falando num tom de desprezo:
-Bem-vindo a Niflheim.

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p.s Juro que nunca usei tantos smiles na minha vida Matreiro
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
#46
Mais um capítulo! Very Happy
Bem... Nem sei o que hei-de dizer em relação a este capítulo... Apenas o que consigo dizer é que gostei muito daquela pequena lembrança que o Urso teve enquanto ainda era Raphael e a, supostamente, ajudar o seu irmão.
Quero saber o que Claire vai fazer para o fazer voltar a ser Raphael.
Fico à espera! Simpatico2

Beijinhos.
#47
Muhahahahah! Twisted Evil A Ana Catarina deu a louca! Muhahahah! Matreiro
Mas é perfeitamente compreensível, a Catarina é sempre mais tr*nga do que a Ana (Mim falar por experiência própria! Mim ser Ana Catrina tambem! Mongloide) e de vez em quando sai-se com coisas assim! >F
Mas olha que eu gostei das ideias da Cat em relação ao Bruno! Muhahahaha! Simpatico2 No entanto, a minha parte Ana obriga-me a admitir que o Bruno não é tão mau como pensamos e prova disso é a recordação linda do nosso urso Teddy favorito! <3
Estás sem ideias?! Oh pá eu até ajudava só que não sou lá muito boa a dar sugestões. Além disso eu não sei que tipo de rumo queres dar às personagens para poder dizer o tipo de palha que nos devias pôr a comer! Mongloide2 Mas pronto, podias, sei lá, meter aí pró meio um clichezito, ou então um morte, ou um romancezeco secundário para haver pimenta no tempero! Matreiro Ou tipo, sei lá, não sei, como disse não tenho jeito para dar sugestões! Matreiro
Adiante, em relação ao capitulo! GOD!!! Super contente Duendes!!! Ai estou tão curiosa para saber se o Raphael vai recuperar a forma! Ai era tão fixe que ele voltasse ao normal e chocasse todos ao aparecer todo gostoso como o vinho do porto, que quanto mais velho, melhor! Engate
Yahoo Ahhh!!! Tive um ideia!!! Mega contente
Spoiler
Tipo, o Raphael voltava ao normal, ele e a Claire regressavam juntos, todos meio abananados porque pronto, o sujeito não ficou com pança de urso e a Claire está mais do que na idade de percebe o que é bom! Matreiro. Tipo eles voltavam, chocavam tudo e todos e depois o Kedar ou assim explicava-lhes que eles precisavam de consumar o casamento por algum motivo importante. O Bruno ficava todo f*dido e reclamava, mas o Raphael e a Claire nem comentavam. Depois fazias assim uma cena buéda porno! Tramar alguma Lol Estou a brincar!!! Matreiro Mas podias fazer uma cena em que eles oficializassem as coisas, num clima simultaneamnete de receio e cautela misturado com algum amor daqueles muito puros e especiais. Simpatico2
Prosseguindo! Gosto de ver as cenas em que a Claire recorda factos importantes como a fonte de poder da Rose. Brincalhao É mesmo fantástico estar a descobrir que havia 7 duendes e que um deles foi o que tramou as manas! Cheira-me é que vão haver mais problemas com o raio dos duendes! >( Ou eles nem vao aparecer >.> (Mato-te se fazes isso! >T Espera só um bocadinho que eu vou afiar a faca...! *Mim faz barulhos sinistros a afiar as facas e regressa com meia dúzia delas* Agora, isto só depende de ti! Estou sem bifes na residência e não me apetece nada ir comprar. Dorminhoco De uma maneira ou de outra vais ter de fazer o que eu quero (capítulos e/ou bifes! >F ). Pensa no que é melhor para ti! Engate )
ai e gosto mesmo muito quanto a Claire monta no urso (esta soou-me estranha! Incredulo ) Acho essas cenas mesmo fofas e só mostra o quão próximos eles estão um do outro!
Enfim, não sei que diga mais! Capitulo show, uma jornada bem descrita e a curiosidade ficou mais uma vez no ar!
Eu podia ter comentado mais cedo, mas não comentei porque estava cansada e sem imaginação! É caso para fizer. Poder, eu podia, mas não era a mesma coisa!
Agora espero por um boa continuação!
Bjokas! ;D

PS: Já reparaste que competi contigo em relação aos smiles!? Muhahaha!!! Twisted Evil Ganhei!! Yahoo
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#48
Oh minhas ricas, que bom é ler estes comentários Esperancoso Felizmente (ou não...), a louca passou-me. O aborrecimento foi-se e deu lugar ao stresse. Fiz 18 em Agosto mas aposto que daqui a uns tempos faço 24. Agora que entrei na Fac o relógio parece ter 2 horas em vez de 12. O dia passa muito depressa, tenho sempre muito que fazer. Vir para o computador foi raro nestes dias. Gostava imenso de responder timtim por timtim aos vossos comentários, mas não consigo. A minha estamina para a escrita esgotou-se no que toca às minhas histórias. Não se preocupem, eu vou acabar esta história, mas não sei quando. Era suposto já estar acabada, mas ainda vou atrasada. Adicionei um capítulo extra e, fora este e o Epílogo, os dois que me faltam são os mais compridos da fic, se não os mais complexos em termos de história. Já nem sei o que fazer. Neste momento, tenho que estudar Fisica, Algebra e Quimica Ino. mas só me apetece ficar aqui no pc a escrever e a comer bifes com natas. (Oh Lulu, os bifes tão caros. Ainda que não me importasse de cozinhar uns e partilhar um bocadinho - só um bocadinho Toma toma - contigo, mais vale eu dar capitulos)
Por isso, digo apenas obrigada pelos comentários e que continuem a ler a fanfic.
Lulu, acerca da tua sugestão... vou pensar nisso Tramar alguma . Nunca escrevi um capítulo desses, será um autêntico desafio.

E, depois da demora, aqui está o novo capítulo. Espero que gostem e, já sabem, espero capítulo grandes! Smile
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Os salteadores de Niflheim

Era um lugar curioso. Niflheim parecia uma aldeia de pobres camponeses, com as casas de palha e vegetação selvagem em abundância. Mas, longe de aparentar ser um local para civilização, havia que notar na ausência de campos, ainda que árvores e terrenos não faltassem. A beleza da paisagem parecia quase divina. Algo estava errado.
-Magia. – Disse Claire, respondendo aos pensamentos de Urso. Ela avançou por entre a vegetação, esperando ser seguida.
Urso olhou para cima. O céu estava muito azul. Extremamente azul.
-Então isto é falso. – Comentou.
-Já foi verdadeiro.
-Então…
-Já disse, magia. – Disse ela, continuando a vaguear. O seu olhar parecia preso às pequenas casas, como se algo maligno pudesse vir dali. O que até era verdade…
Mas não havia vivalma ali. Os duendes tinham desaparecido.
-Para onde foram? – Questionou-se Urso, falando baixo, mas o suficiente para Claire o ouvir.
-Mortos. – Respondeu a rapariga, sem emoção.
-Por quem?
Claire não respondeu, ainda que Urso tivesse uma ideia de quem estaria por detrás do genocídio dos duendes.
-O que sabes sobre os duendes? – Perguntou finalmente, sentando-se numa rocha e colocando o embrulho no chão. Urso deitou-se ao lado dela, os olhos bem abertos e curiosos.
-Sei que são criaturas baixas… e há rumores de que possuem muito ouro.
-Estás correcto. Os duendes são as criaturas mais ricas. Dizem até que fabricam o seu próprio ouro, que desaparece ao fim de algumas horas. O objectivo é enganar o homem.
-Sempre foi. – Interrompeu Urso num sussurro frustrado, não conseguindo evitar. Claire ignorou o comentário.
-Os duendes costumavam viver nos bosques, como meras criaturas. São muito parecidos com os anões, só que mais pequenos. Há histórias que afirmam que os duendes são muito espertos, mas que não falam a nossa língua. Isso é tudo falso. A grande diferença entre anões e duendes, é que os anões são homens de baixa estatura, muito espertos e com barba, enquanto os duendes também são espertos, têm os mais vastos conhecimentos da floresta, também têm barba, mas não têm aspecto humano. O duende mais alto não ultrapassa o topo dos meus joelhos.
Urso fez um som que, em tempos humanos, era o mais semelhante a um assobio, mas que agora mais parecia um rugido desafinado. Ele não sabia que os duendes eram tão baixos.
Claire suspirou suavemente, como que experimentando o ar, antes de prosseguir, a voz tão calma como se estivesse a contar uma das suas histórias às crianças.
-A magia já veio com a formação da Terra, muito antes de o homem conquistá-la. A magia fazia parte da natureza e era assim que o Criador queria. Os Fados relataram tudo em manuscritos antigos, expondo as fórmulas da magia a olho nu. Sabiam quem seriam os usurpadores daquela forma da natureza no seu estado puro. - Pausou por uns momentos, tirando um pedaço de pão do seu embrulho. Estendeu um bocado a Urso, que declinou com um aceno de cabeça, ansioso pela continuação. Claire comeu calmamente o pedaço de pão e, após sacudir as migalhas do vestido e beber um gole de água, prosseguiu – Estava em todo o lado. Nas árvores, nos animais… a Vida que o Criador criara era magnífica e equilibrada. Mas claro, algo tinha que estragar esse equilíbrio.
«Os duendes sempre foram criaturas astutas e gananciosas, que tinham um grande interesse em metais preciosos e brilhantes. Muitos vivam junto de minas de ouro e diamantes, divertindo-se a admirá-las e a gabarem-se de as possuir.
Mas queriam mais… muito mais….
Consultando os duendes mais velhos – que eram mais sábios e sensatos – descobriram a magia. Durante anos, os vários povos de duendes jovens lutaram para possuir o segredo da magia, até que o povo de Niflheim conseguiu decifrar as fórmulas do Criador. E roubou a magia.»
-Roubou? – Interrompeu Urso, espantado. – Mas como podem roubar magia?
Claire pensou um pouco antes de responder.
-Sabes porque o Homem é diferente do macaco? Ou do urso? O que é que as espécies têm de tão diferente?
-Raciocinam – respondeu Urso automaticamente. Não era necessário relembrar os seus anos de solidão como mamífero. Os seus ensinamentos no palácio eram o suficiente para entender o que Claire queria dizer. – Daí que tenham o dom da fala e do pensamento. Os animais agem por instinto acima de tudo.
-E ainda assim, por vezes agem melhor que humanos. – Sussurrou Claire. Urso soltou uma gargalhada falsa.
-Concordo! Chamam os guerreiros de animais, devido à sujeira que fazem por onde passam, mas a verdade é que… nós somos animais! No campo de batalha não temos tempo para pensar, temos que agir de acordo com os nossos instintos, mesmo que esses não sejam os mais correctos. Todavia, podem salvar-nos a vida.
Claire assentiu em concordo, emitindo um pequeno sorriso à alegria de Urso. Não conseguiu deixar de pensar em como seria a vida dela depois de Raphael se transformar. Não o poderia afastar, mas tê-lo por perto poderia ser perigoso.
-Imagina que não era apenas o homem que tinha o dom da fala, do pensamento, da consciência, da emoção… imagina que todo o ser do planeta possuía esses dons? Pois bem, esse mundo agora imaginário já existiu, mas os duendes destruíram-no, roubando a magia. Agora o homem é a única criatura com os dons, pois era a criatura mais recente.
-E os duendes?
-Eles foram despromovidos de consciência pelos Fados. Já não eram criaturas abençoadas.
-E nós somos? – Perguntou ele, céptico. Claire encolheu os ombros, entendo o seu ponto de vista.
-Parece que sim. Uns são abençoados com sabedoria, outros com coragem, outros com o poder da Visão, outros…
Claire não continuou, os olhos húmidos de lágrimas que teimavam cair. Urso aproximou-se dela, tentando consolá-la.
-Outros são abençoados com um coração tão puro, que não conseguem evitar serem amados por todos aqueles que os conhecem. – Disse, calmo e sincero.
Claire riu-se amarguradamente.
-Para quê amar se não podemos ter esse amor? Porque quereremos nós sofrer? Mais vale ficar em plena solidão, sem ninguém por perto.
-Deveras…? – Perguntou ele, a voz fria como gelo.
Claire ofegou, envergonhada.
-Desculpa, Raphael. Eu… não pensei…
-Não faz mal. – Respondeu o mamífero, afastando as desculpas dela. – É normal que te sintas assim. É preciso passares por uma experiência como a minha para entenderes que o amor é uma das coisas mais bonitas do mundo. Se alguma vez o sentiste antes, então mais tarde torna-se na vela que te guiará pelo túnel. Que te dará esperança.
-Bruno?
Urso assentiu.
-Tenho muitos erros, mas amo o meu irmão. Morreria por ele.
-Porque não te aproximaste dele? Porque desperdiçaste a tua oportunidade de falar, comigo?
-Nunca encontrei Bruno. Além disso, foi algo instintivo. Na altura pensava que não tinha outra opção se não abrir-me contigo, mas estava enganado. Era apenas o meu instinto a dizer-me que tu eras a melhor opção. Não estava preparado para enfrentar o meu irmão. E tu poderias ajudar-me mais do que ele.
Claire assentiu, passando a mão pelo pêlo dele. Urso fechou os olhos, saboreando o toque das mãos quentes dela e ouvindo o som do ar a atravessar a clareira. Ficaram os dois em silêncio, juntos, ouvindo a natureza a protestar silenciosamente o roubo do seu dom.
A certa altura, Urso sentiu a respiração de alguém na sua orelha.
-Vais ter que voltar a ser homem, sabes?
Ele abriu os olhos, lentamente.
-Sinto-me mais útil como urso. – Disse, sem pensar. Era como se todos os pensamentos encravados na mente e no coração tivessem se libertado subitamente. Claire continuava a massajar o seu pêlo.
-Eles precisam de ti, Raphael. Precisam de um líder.
-Bruno não quererá perder o seu lugar de chefe e rei.
-Não. – Concordou com um aceno de cabeça. – Mas não se importará de o perder para ti. Para o seu irmão. Aquele que ele sente falta acima de tudo.
Urso teve a leve sensação de que já não falavam dele e de Bruno. Teve as suas suspeitas confirmadas quando Claire voltou a sussurrar-lhe no ouvido.
-Oxalá a minha irmã mais velha voltasse…
Ele não soube o que responder. Talvez pudesse pedir perdão, mas algo lhe dizia que Claire não queria isso. Era apenas um conselho. Para não fazer a Bruno o que Rose lhe tinha feito a ela.
Ergueu-se, esperando que Claire fizesse o mesmo. Mais uma vez, ela olhou as casas.
-Penso que esteja ali. – Sussurrou e avançou cautelosamente, fazendo um gesto para que Urso a seguisse.
-Ali o quê?
Claire ignorou-o e só voltou a emitir um som quando, ao fim de uns minutos, estavam no centro da pequeníssima aldeia, frente a frente a uma casa de tamanho maior, onde crianças podiam entrar de pé.
Claire continuou a caminhar em frente, desta vez fitando o horizonte como se estivesse sob o efeito de hipnotismo. Quando chegou perto da minúscula porta, saiu do transe temporário.
-Sabes o que aconteceu a seguir? – Perguntou, como se nada tivesse acontecido desde que parou de contar a história. Urso, apanhado de surpresa, não conseguiu articular nenhuma palavra coerente. De qualquer modo, Claire continuou como se não tivesse feito pergunta alguma.
-Despromovidos de consciência, tornaram-se salteadores. Roubavam tudo aquilo que podiam e até assassinavam os da sua espécie. A magia tornara-os loucos, diziam eles. Mas eles é que estavam loucos. O mal fora feito por eles. A magia estava contaminada. O ouro desaparecia, os poderes eram fracos ou nada impressionantes e eles eram odiados por todas as espécies do bosque, incluindo o homem.
«Daí que entraram em clausura, unindo-se em grupos em diversas cavernas. Foi aí que todos os povos de duendes de todo o planeta concentraram-se em Niflheim, junto dos que possuíam o segredo da magia. Estes também não tinham consciência, mas eram lúcidos e mais espertos e conseguiram realizar a seguinte proeza: Esconder a magia em algo que os duendes pudessem sempre ter consigo, mas nem sempre utilizar. Algo que podia catalisar o seu poder, mas em pequenas dimensões, de modo a que a magia não esgotasse e que pudesse ser usufruída por todos os duendes. Esta ideia foi sábia e poupou a população de duendes de Niflheim. Anos mais tarde, a população diminuíra porque muitos continuavam gananciosos e queriam ter mais poder que os seus vizinhos, tentando roubar os objectos onde carregavam a magia deles. Mas os Fados decidiram pregar uma partida matreira às criaturas. Nenhuma alma impura jamais poderia roubar a magia de outro duende. Isso contribuiu para uma clausura ainda mais feroz das criaturas, pois alguns humanos possuíam as características necessárias para se tornarem autênticos salteadores de magia.»
-Quem?
-As crianças. – Respondeu Claire, calmamente. – Elas têm sentimentos puros e uma inocência que mais nenhum humano podia ter. Elas podem roubar a energia do duende.
-Tu já… roubaste, não foi? – Perguntou Urso, receoso. A história que ela lhe contava parecia-lhe bater qualquer coisa na cabeça. Não tinha ela contado uma história em que…
-Sim. – Confirmou Claire. - E guardei aqui. Não queria ter aquela coisa comigo depois do que acontecera.
Ela enfiou a cabeça dentro da pequena casa, espreitando os arredores. Quando encontrou o que procurava, torceu o nariz e estendeu o braço para pegar em milhares de fios prateados, todos postos num manto vermelho como o sangue.
-Isso é…? – A história que Claire contara às crianças encaixava agora com detalhes da história de Niflheim. Tudo fazia mais sentido.
-É exactamente aquilo que pensas. – Respondeu ela, sorrindo maliciosamente. – Os duendes guardavam magia nas suas barbas.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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#49
uuuuhhhuuuhhh!!!! Super contente
Miga, ca cena! gostei mesmo deste capitulo! Para começar eu amo, amo, amo flashbacks, históriazinhas e ceninhas do género! Logo, adorei ler a historia que a Claire estava a contar ao urso! Mongloide

A Claire é mesmo uma personagem fácil de se gostar. É misteriosa e tem sempre algo novo para contar! Quem diria que a Catraia tinha roubado um duende, hein?! Agora só me questiono o que aconteceu ao certo com a Rose! Já agora uma questão, essa história que ela estava a relatar foste tu que inventaste ou encontraste na Internet e adaptaste? Seja como for é uma óptima justificação para tudo o que se passa na natureza (da fic! Matreiro). E vivam os humanos que ainda têm bastantes dons! Era fenomenal que a magia voltasse a ser distribuída por todas as criaturas. Se bem que por outro lado... Desiludido humm... dá que pensar! Mas os duendes haviam de ficar todos sem barba! Toma toma

Agora, falando de coisas fofas: URSO!!! Yahoo owh, tipo ele é tão owh! Esperancoso Mim gotar munto dewe! Simpatico2 O que a Claire desabafou com ele sobre a Rose foi tão cutxi! Embaracoso E nunca pensei que ela se emocionasse ao ponto de soltar umas lágrimas ao lado dele! Só prova que eles são mesmo, mesmo,mesmo chagadinhos! Esperancoso Amoro-os!

Ahaha, à parte do mundo fanfiction, Parabéns! és oficialmente caloira! Não sei como é na tua faculdade, mas na minha os da 3ª fase do ano passado só foram praxados este ano, só que como alteraram o calendário da latada acho que este ano os caloiros da 3ª fase vão poder participar, logo no próximo ano não tem de repetir (o que por um lado é mau. Os da 1ª fase, como eu, sofreram mais de metade daquilo que os da 2ª sofreram, por isso imagino os da terceira. Acredita, a praxe não é nada fácil e todos os dias uma pessoa pensa em desistir, só que lá está, todos temos força de vontade para prosseguir!) Entraste em Engenharia química, certo? Bem, só o nome aterroriza-me, por isso, muito boa sorte! Smile
Espero que te adaptes bem!

PS: Não deixes de postar! Esperancoso Mim morrer s não tiver um miminho de vez em quando!!! Chorar
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-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#50
E, depois de uma semana e meia de espera, aqui está o meu novo capítulo. Penso que vocês irão gostar dele e mais não digo Matreiro

P.S: Já sabem, ok? Comentários grandes, gigantes, do tamanho do mundo, entendido? Se assim for, talvez poste o proximo no fim de semana. Mas aviso já que, depois do proximo capítulo (que ainda não revi) vai começar a demorar porque ainda não acabei o outro :/

Boa Leitura!

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O regresso do Príncipe

Urso admirou as centenas de fios prateados, uns mais curtos que outros, mas todos da mesma cor de prata cintilante. O manto vermelho que os continha estava muito sujo e roto, ainda que não houvesse sinais de insectos ali por perto.
-Então… está aqui. – Disse ele, por fim, o fim de uns longos minutos de silêncio. Claire olhava também para os fios, mas sem o entusiasmo de Urso. Era como se admirasse um amuleto do mau-olhado, os seus dedos nunca tocando nos fios, ficando ao simples abrigo do manto vermelho. – A solução para os nossos problemas.
Claire olhou para ele.
-Se problemas queres dizer que te porá no teu estado original, então sim, é a solução. Estas barbas não serão utilizadas por mais ninguém e para mais nenhum efeito.
-Mas Claire! – protestou Urso. – Talvez isto poupasse a vida de várias pessoas. Se for usado para o bem.
-Não dá! – Gritou ela, em desespero. – A magia foi contaminada. Se a usarmos, poderá haver consequências terríveis. Eu nunca usei a magia escondida no meio destas barbas, por isso usar agora não fará muita diferença, mas usar mais magia poderá salvar vidas, mas tirar outras. Já não há magia branca!
Urso não respondeu, limitando-se a assentir em compreensão. Sentiu uma espécie de pontada no estômago ao reflectir nas suas acções.
-Sim entendo. Peço perdão por ter posto a ideia em consideração. Devia ter-me lembrado que tu saberias mais sobre isto do que eu.
Claire sorriu, apesar de não se estender por completo.
-Não precisas. É natural ficares maravilhado. Eu também fiquei quando soube… se eu soubesse, teria dado meia volta e nunca mais cá voltado. – Disse, a voz descendo de volume, até que terminou num diminuto sussurro.
-Deve custar-te muito vires aqui. Porque vens então? – Perguntou ele, há muito curioso sobre a questão. Claire humedeceu os lábios, ao mesmo tempo que brincava com as mãos, nervosa.
-Considera a paga de uma divida. A minha irmã transformou-te, então convém a mim, sendo uma De Roquette, pôr-te na tua forma original.
Urso assentiu, satisfeito. Apesar de tudo, Claire ainda demonstrava ter sangue de nobre, obedecendo a regras e códigos de honra que poucas pessoas nas tocas tinham.
-Então… como faremos? – Perguntou, cada vez mais ansioso. Olhou para as suas garras, com um misto de alegria e um pouco de saudade. Não iria voltar a vê-las.
Claire não respondeu. Uma estranha sensação percorreu o ar, e um certo vazio preencheu os olhos de Claire, extraindo-lhe a essência de vida que existia nos seus olhos. O seu estado de transe foi apenas temporário até que a rapariga ergueu os olhos para o céu, os braços elevando o manto com as barbas cinzentas equilibradamente. Sussurrou umas palavras indistinguíveis a Urso, fechando as pálpebras lentamente. Urso, incapaz de se manter quieto e incomodado com a imagem de Claire, deu algumas passadas em direcção à casa maior, onde podia jurar que tinha ouvido um sussurro estranho. Era como se o vento soprasse num quarto fechado, indo em contra as paredes fortes, tentando derrubá-las em vão.
Foi então que viu, apenas por relance. Um pequeno pedaço de pergaminho castanho com uma leve escrita a tinta negra brilhava intensamente. Talvez Claire estivesse a usar mais energia do que devia. Não traria aquilo consequências?
O pergaminho cedeu à pressão, desvanecendo-se no ar. Não havia mais.
Por cima das suas cabeças, o céu ficava negro, mais negro como estava do outro lado da gruta. O ar resfriou e alguma neve começou a cair. As árvores perderam os frutos e as folhas e baloiçavam à força do vento que provinha de Claire.
Urso olhou para a rapariga, boquiaberto. A capa caíra e ela agora segurava o manto de olhos abertos, estes fixados em Urso. A bainha do vestido voava ao sabor do vento, tal como os cabelos, que se haviam soltado da trança por formas mágicas. Ele sentiu uma sensação de deja vu, ao olhar para uma irmã De Roquette, pequena, bela, de ar frágil mas, ao mesmo tempo, com um ar tão poderoso e vencedor.
Já não era apenas o som do vento que ele ouvia. Um zumbido limitou a audição de Urso e tudo que ele passou a ouvir foi um eco gracioso. Era como se os anjos cantassem para ele, sendo possível distinguir um ruído de fundo semelhante ao canto de trovadores, mas sem o auxílio dos instrumentos. Vozes angelicais que parecia erguê-lo para os céus.
Uma rajada de vento rodeou-o e ele sentiu uma súbita náusea em todo o corpo. Experimentou o seu corpo a mudar, sentia pele e músculo a cobrir-lhe o corpo e a gordura a desaparecer. As garras foram-se, sendo substituídas pelas suas unhas finas cor de marfim. O crânio mudara a sua forma para uma mais humana, os cabelos negros caindo-lhe pelos ombros. Ergueu uma mão, tocando na face, incrédulo. Sentiu a sua pele livre de pêlo, com excepção de uma fina barba escura. Os pêlos do seu peito, braços e pernas eriçaram-se de frio, mas ele estava demasiado entusiasmado para se importar. Tentou pôr-se de pé, notando que a sua coluna dorsal conseguia manter-se na vertical sem qualquer problema. O frio era de tremer dos pés descalços à cabeça, mas ele pôs essas emoções de lado. Havia outras mais importantes.
Estava livre. Era humano outra vez. Uma sensação de euforia percorreu-o, e Raphael deu-se ao prazer de gritar a alto e bom som, erguendo o punho no ar e mexendo os pés de um lado para o outro, experimentando a sensação de caminhar com duas pernas, em vez de quatro patas.
Olhou para Claire, tentando controlar a grande vontade de a beijar, desta vez como um verdadeiro homem. Viu que ela saíra do seu transe e que olhava para ele, claramente contente.
Depois, ele pareceu engasgar-se, os olhos aumentando de tamanho consideravelmente e tapou a boca com as duas mãos, deixando cair o manto no chão. Ele notou de relance que as barbas tinham perdido todo o brilho.
Ao ver que Claire não se mexia, Raphael julgou que estivesse a passar mal e aproximou-se dela.
-Afasta-te! – Gritou ela, a ofegar, olhando para o lado, cheia de embaraço. Raphael então reparou que ela estava com a face completamente vermelha.
E que ele estava completamente nu.
Corando ele próprio bastante, aproximou-se do embrulho de viagem, tirando algumas roupas confortáveis. Quando cobriu o seu corpo com elas, sentiu uma sensação de alívio. O frio passara um pouco, para além de ele se sentir na sua pele mais uma vez.
-Podes olhar. – Disse ele, ouvindo a sua voz ficar menos grossa de quando era urso, mas não tanto.
Claire virou-se para ele, as bochechas pintadas num tom rosado que provocou um sorriso em Raphael. Ela ainda estava um pouco constrangida, mas avançou para ele.
-Obrigado. – Disse ele, sincero. – Estar-te-ei eternamente grato.
-Não precisas de agradecer, Raphael. Já te expliquei os meus motivos. – Disse ela, olhando para todo o lado menos para ele. Incomodado, levou uma mão ao rosto de Claire, sentindo o prazer de tocar num ser humano em vários anos. A pele dela era tão suave como seda e extremamente intoxicante. Pelo menos para um homem que estivera longe de tentações durante doze anos.
Suavemente, rodou o maxilar dela para si, obrigando aqueles olhos azul-violeta brilhantes a fitarem os seus negros, mas ele não adivinhava que os seus próprios olhos brilhavam tanto quanto diamantes. Era como se aquelas pérolas cor de ametistas lhe tivessem lançado um encantamento que encarcerassem os seus instintos animais e ele agora só olhava para Claire com desejo. Mas não desejo animal. Aquele desejo que um homem é dono quando olha para a sua amante. Agora que voltara a ser homem, era como se as suas emoções tivessem atingindo o seu pico. Os seus sentimentos pareciam ter diminuído de intensidade enquanto urso, pois estes não possuíam o dom do amor. Todavia, ele sentira enquanto criatura. Agora, era algo mais.
Ele amava-a profundamente. Seria capaz de ficar urso para todo o sempre, caso significasse que ela estaria sempre a seu lado. Agora temia que ela o afastasse.
Porque ele conseguia interpretar o medo nos olhos dela. Medo e algo mais. Ele prometera a Deus, aos Fados, a Charles, a Rose e até si mesmo. Jamais magoaria Claire. Jamais a forçaria a viver uma vida condenada ao sofrimento.
-Ainda assim. – Disse ele, a voz parecendo se afogar num poço. – Não sabes como eu me sinto neste momento.
-Eufórico presumo. – Disse ela, sorrindo levemente, ainda que o medo não saíra dos olhos dela.
-Não tiveste medo de mim no dia do nosso casamento. Porque tens agora? – Perguntou ele, um pouco magoado. Claire tentou desviar o olhar, mas Raphael não deixou, obrigando-a a fitar aqueles olhos tão semelhantes aos de Bruno, até mesmo no brilho.
-Não é de ti. É de… do que vai acontecer. No nosso casamento, eu não sabia o que viria aí. Agora… não é a mesma coisa. Tenho medo de… cometer um erro.
Ela tinha medo de cometer um erro? Ele é que passara doze longos anos na pele de um urso. Doze anos sem sentir o toque de uma mulher e que agora estava ali frente a frente a uma, cujo corpo nunca fora tocado por nenhum homem e que lhe pertencia legalmente. E ela é que tinha medo de cometer um erro?
Em vez de responder, Raphael lançou-lhe um olhar exasperado e aproximou-a de si, encostando a cabeça dela ao seu peito. Claire tremeu por uns segundos, até que acomodar nos braços dele que a aqueciam mais do que ela esperava.
Ele beijou o topo da cabeça dela, massajando os cabelos negros e encaracolados. Recordou o primeiro dia em que a viu, com os cabelos tão despenteados que até metia dó. Agora, eram a coisa mais adorável do mundo. Aquele abraço, aquele toque humano. Oh, as saudades que ele tinha. E, ainda assim, aquele abraço soava-lhe a algo diferente. Até porque, fora o irmão e umas poucas amantes, ele nunca abraçara ninguém e muito menos daquela forma.
Abraçaram-se no meio da clareira, os corpos quentes apesar do frio. Enquanto Raphael aproveitava aquela sensação, Claire enfrentava uma batalha consigo mesma. Parte dela queria afastar-se e partir de volta para as tocas, mas a outra queria ficar, com o marido. Ali estava ela, abraçada ao último homem que achava que alguma vez se sentiria bem a abraçar. Ela sempre imaginara que acabaria por casar com Bruno, ainda que o tentasse afastar. Sabia que não poderia ignorá-lo por muito tempo. Mas agora, com Raphael por perto… ela fizera o maldito acordo, mas agora via-se com dúvidas. Seria melhor ela anular o acordo e manter o seu casamento?
Claire, não faças isso! Se mantiveres o casamento, terás que o consumar, disse-lhe uma voz à cabeça, tão semelhante à da irmã. A questão era, seria isso tão importante? Ela, que nunca se dera a luxúrias, via-se agora ali com uma resposta para pecados que ela nunca cometera, mas que sempre desejara no fundo. E mais, entregar-se a ele não seria pecado, pois os Fados os haviam juntado. Valeria a pena trocar a sua inocência por prazer?
Suspirou, cansada de combater contra si própria. A resposta era tão óbvia. Nem sabia porque lutava. Mas afastou tais pensamentos, trocando-os por outros mais importantes. Tinham primeiro que voltar e ajudar no ataque.
Encostou-se um pouco mais a ele, agradando o cheio a mofo dos trapos dele e o odor da sua pele. Ele morava perto das Terras Baixas, as terras que encontravam o mar. Mas não morava no litoral. Daí que se tivesse surpreendido ao sentir um aroma salgado na sua pele, que estava tão entranhado que nem doze anos de peles espessas expostas aos invernos das Terras Altas haviam eliminado.
Ela nem notava no que fazia. Mas ele sim. Sentindo como se alguém lhe tivesse dado o mundo, sorriu e olhou para Claire. Quinze anos os separavam, mas ali ele era homem e ela era mulher. Iguais na espécie. Um só.
Afastou a cabeça dela do seu peito, vendo-a olhar para ele desconfiada, mas sem medo. E, sem esperar mais, beijou-a tenramente nos lábios, sentindo o sabor adocicado da boca dela e muitos outros, ao mesmo tempo que os músculos dos seus lábios se estenderam ao máximo cheios de prazer em domar aquela boca carnuda. Para surpresa dele, Claire beijou-o de volta, deixando que ele tomasse aquilo que era seu por direito mas que, de alguma forma, ele pedia como se fosse o último com permissão para tal.
Os lábios dos dois uniram-se em harmonia, enquanto as mãos dele procuravam o cabelo dela e a sua cintura. Aprofundou o beijo, deliciado. Era como beijar uma rosa.
De repente, ela cessou o beijo, um pouco atordoada. Parecia incomodada com o que tinha feito.
E ele ficou imóvel, sem saber o que dizer. Anos antes, ele saberia sempre o que dizer. Adorara ter sempre a última palavra mas com Claire era diferente. Era como abrir uma caixa diferente todos os dias, ainda que aparentasse ser simples. As palavras morriam na sua garganta e todos os músculos do seu corpo ficavam rígidos. Não dava a última palavra pois temia dizer qualquer palavra:
-Não tenhas medo. – Sussurrou ele por fim, o som da voz dele misturando-se com o vento como se fosse um grito do Além. Ela tremia, mas não de frio. Mordeu o lábio e fitou-o.
-Não tenho medo de ti. Tenho medo de Rose.
Raphael ergueu o sobrolho.
-Como assim? – Perguntou, confuso.
Claire suspirou pesadamente.
-Acho que está na altura de te contar a história toda. De como Rose teve acesso à magia negra e o que aconteceu após tu seres transformado. Mas antes, faremos uma fogueira.
E assim foi. Raphael, deliciado com o facto de poder utilizar braços, fez a fogueira junto à borda da gruta, ainda com vista para a clareira. Ali, o vento não batia com tanta força, dando possibilidades à pequena chama feita por intermédio do choque entre duas rochas, de crescer até ficar grande o suficiente para os aquecer.
Claire espreitou a sua merenda. Só tinham comida para um dia. Deitou um olhar de relance a Raphael, que também reparara nos poucos restos alimentares:
-Amanhã dá-me o teu punhal. Arranjarei comida.
-Mas os animais estão em hibernação. – Contra-argumentou ela, bebendo um gole de água do seu odre e estendendo-o a Raphael.
Raphael abanou a cabeça, recebendo o odre e satisfazendo a sua sede. Limpou a boca com a mão e prosseguiu.
-O inverno está a cessar. Os rios ainda estão gelados, mas já dá para pescar algumas espécies. Além disso, dá-me a sensação de apenas estar frio aqui. – Virou-se para a direita, onde se via um prolongamento simétrico da gruta húmida e escura em relação ao outro lado. Uns dois metros mais adiante era solo das Terras Altas, dois metros para o outro lado, era terra de Niflheim.
-E pensas pescar com o meu punhal?
Raphael mandou-lhe um sorriso trocista.
-Não. Planeio construir as ferramentas para pescar.
-Mas estamos longe do rio. – Apontou ela, ainda não convencida.
-Mas não do lago. – Ripostou ele, com um sorriso. Claire ia retorquir mas mudou de ideias. Raphael lançou-lhe um olhar vitorioso. – E, sem bem me lembro aquilo que o escriba de meu pai me contou, não há lá árvores que tapem o sol. O dia está aberto. Se estiver assim amanhã, então o lago estará descongelado.
Claire assentiu, admitindo derrota.
-Vocês homens e a vossa lógica. – Murmurou, como quem roga uma praga. Raphael soltou uma gargalhada. – Falas como se conhecesses esta terra melhor do que eu.
Ele encolheu os ombros.
-Tu nasceste aqui, mas não exploraste estas terras como eu. Sendo urso, convinha procurar fontes de alimento em vários locais, principalmente no inverno. E sabes, há coisas que aprendi ao andar na guerra. Outras foram contigo.
Claire ergueu a cabeça, surpreendida.
-Comigo?
-Sim. Estar sempre perto de ti nas tocas, ajudou-me a aprender muitas coisas. Como manter um esconderijo seguro e quente, como aproveitar todos os recursos sem desperdícios e até mesmo a poupá-los. Aquilo que sei é instinto de sobrevivência, algo que aprendi desse pequeno e melhorei como urso. Mas aquilo que aprendi foram as mulheres que mo ensinaram. Os homens usam mais o instinto que as mulheres. Como elas usam-no menos, conseguem ser mais eficientes naquilo que fazem. Se mais tarde fazem algo instintivamente bem, é força do hábito. Imagina agora isso acontecer a um homem que mal sabe cortar madeira?
Suspirou, remexendo na madeira da fogueira com um pau. Não notou em Claire a observá-lo, como um tesouro raro. Não a viu sorrir. Bem, não viu, mas sentiu. Mas, se tivesse os olhos postos nela, qual era a sua vontade, teria notado no brilho raro que percorria os olhos dela e que o sorriso misterioso que escondia milhares de significados mas todos eles eram tenros para ele.
Cearam em silêncio, ainda que deitassem olhares esquivos um ao outro de vez em quando. Claire divertiu-se a ver Raphael voltar a comer com as duas mãos, que tinham dedos em vez de garras. Soltou uma gargalhada ao vê-lo olhar para uma maçã com um ar perdido.
-Basta morderes, sabes?
-Não te rias! Dias antes, bastava enfiar a maçã inteira na minha boca e agora tenho que dar várias trincas. Já não sou jovem. Os meus dentes estão sensíveis. – Disse, ao mesmo tempo que mostrava os dentes à rapariga, que não parava de soltar risadinhas. Semicerrando os olhos para ela, estendeu-lhe a maçã. – Queres?
Claire olhou a maçã vermelha com medo fingido.
-Não é venenosa, pois não?
-Eu não enveneno donzelas. – Disse Raphael, firmemente. Claire sorriu e pegou na maçã e deu uma trinca. – Prefiro vê-las sufocarem. – Completou sinistramente.
Sobressaltada, Claire quase que se engasgou, forçando-se a cuspir o pedaço de maçã. Raphael tentou não se rir.
-Nunca falha. Vocês mulheres são umas desconfiadas! Para quem precisa de veneno, quando basta brincarmos com as vossas mentes?
Claire lançou-lhe um olhar penetrante, se bem que os seus lábios lutaram para não se contraírem num sorriso. Deu outra trinca e estendeu a maçã de novo para ele que, com olhos de homem inseguro, trincou ele próprio. Engoliu o pedaço com alguma dificuldade.
-Não dês grandes trincas. – Aconselhou Claire, divertida. – Ainda sufocas.
-Eu sei. Não nasci urso, sabes?
-Pela forma como comes, até desconfiava.
-Sendo assim, todo homem é urso.
Claire teve que colocar a mão na boca para que não perdesse a compostura do quão forte era a vontade de rir. À sua frente, Raphael mirava-a, comendo a maçã pacientemente.
-Acho que está na altura de me contares uma história. – Disse. O sorriso de Claire desapareceu como por magia, assumindo um semblante sério.
Assentiu e acomodou as pernas cruzadas.
-Não é fácil - sussurrou.
-Dá o teu melhor. – Encorajou ele, dando uma última trinca na maçã e colocando o caroço de lado. Pegou nas mãos dela e disse – Coragem.
Claire sorriu para ele e, com uma longa inspiração, começou:
-Tudo começou no dia em Scarlett e eu…
-Scarlett? Lembro-me desse nome. – Disse Raphael, a sua mente procurando uma memória que nunca fora esquecida. – Chamaste Rose dessa forma horas antes do nosso casamento. Ao falares com Melanie.
Claire ficou pálida.
-Tu ouviste? Mas eu pensei que tivesse sido Bruno e… - abanou a cabeça. – Não importa. Há coisas mais importantes para falar agora.
«Sim, eu tratava a minha irmã por Scarlett e ela tratava-me por Bianca. E os motivos eram bem simples…»

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Tenho uma pergunta. Conhecem alguém que tenha maozinhas de fada no que toca ao Sony Vegas? Deu-me uma vontade enorme de fazer um video acerca desta fic, até tenho música e tudo. A sério, começei a ouvi-la e só me fazia lembrar a Rose, o Raphael e a Claire, porque a letra encaixa nas duas relações em diversos sentidos. Talvez um dia consiga fazer um video/trailer, mas se voces conhecessem alguém...
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
#51
Ai...! Esperancoso Wonderfull! Esperancoso
Gostei, tanto! Finalmente! Yeih!!! Super contente
Este foi o melhor capitulo desde descrições, a sentimentos transmitidos e a acontecimentos! Páh... Esperancoso O Raphael Voltou! Lagrimas e Nu! Sorte grande da Claire (ou não)... Oh pá, mas eu nem sei o que dizer! Ainda estou em estado de choque (acabei de ser baptizada, já dei 3 banhos e este cheiro continua! Mal disposto').
Por partes:
- é assim... quando a Claire estava lá a olhar para a barba e de repente me começa a fazer magia, eu assustei-me...! Desiludido Fiquei com medo que ela ainda ficasse possuída como a Rose! Fiquei mesmo preocupada, pá! E pela tua descrição aquilo deve ter sido um feitiço bastante poderoso (até levantou o Urso... Um URSO gordo!) mas o resultado final... LINDO! As unhinhas a aparecerem, os musculos, o cranio, a coluna, o pénis, os pés e por aí adiante! O sujeito voltou como chegou ao mundo! Fabulous! Simpatico2
- Ai os sentimentos dele quando voltou! Esperancoso Ele está taummmm apaixonado! Mongloide E eu juro que não estava à espera que ele desse o passo em frente! E mais! estou chocada que a Claire tenha "admitido" que deseja o Raphael! Esperancoso Amei, amei, amei!!!
-E eles beijaram-se! Yahoo fiquei tão, tão...! (falta-me a palavra! Mal disposto') Feliz?! Eu estava mesmo ansiosa por este momento! E gostei da reacção dos dois! Smile
A Claire tem mesmo que ser do Raphael! E pensando nisso estou mesmo curiosa para ver a reacção do Bruno quando encarar o irmão em carne e osso! Super contente
-outra coisa que gostei muito foi daquela cena da maçã! Sente-se aquela aroma a Branca de Neve, e isso agora fez-me pensar se vais colocar uma cena da maçã envenenada na fanfic? Esperancoso Por mim seria fantástico, mas espero para ver!
-Finalmente.... Eu quero mesmo saber o que é que aconteceu com a Scarlett e com a Bianca e o porquê desses nomes!
Mim estar muito ansiosa por outro capitulo!
E eu mereço um no fim-de-semana para compensar este cheirinho! Matreiro
Em relação ao trailer, eu não conheço ninguém que faça isso, caso contrario também ja teria feito das minhas fanfic's todas! Esperancoso Se encontrares alguem depois diz-me porque eu tambem gostava de fazer das minhas historias! ;D
P.S: Demorei cerca de 3 horas a escrever este comentário! O.O’ Literalmente! Cheguei do baptismo, fui tomar banho, depois comecei a escrever, entretanto fui lanchar, depois voltei a escrever, depois a minha mae fez uma vídeo-chamada comigo e por fim terminei! Ufa, preciso de tempo! Nem sei como vou pegar na minha fic. Já não lhe toco desde Setembro!
P.S.S: Quando fui para postar, a net foi abaixo e quando voltei a tentar postar, o fórum ficou suspenso! Mal disposto‘ Kill me! Desiludido
P.S.S.S: Ok, passou quase um dia! Tentei postar às 3 da manhã e nada! Mal disposto'
Espero que seja de vez!

as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#52
6 de Novembro - Argth, aqui estou eu a dar uma olhadela no capítulo. Já o escrevi há muito tempo, mas ainda não me agrada. Vamos a ver se altero alguma coisa.
15 de Novembro - Tive que vir aqui esta tarde. Esta noite tive um sonho estranho em que a Lulu reclamava comigo por eu não actualizar a fanfic... opah, fiquei com medo Desiludido
22 de Novembro - FINALMENTE, está completo. Alterei tudo aquilo que pude mas, tenho a dizer, não gosto. Não ficou do modo que eu queria e vi que, por mais alterações que faça, nunca fica exactamente igual ao que eu queria. Esta versão é o mais aproximado que há, completamente fiel. Mas não está tão bem descrito como queria. Podem vir a gostar mas eu, como escritora, declaro este capítulo um autêntico fracasso pois representa a história toda. É de longe o capítulo mais importante de toda a fic e não o representei como devia. Shame on me! affraid
Ainda assim, espero que não haja dúvidas acerca do capítulo. Alguma dúvida, digam. Ah e só uma coisa. Vai demorar muito para o próximo aparecer. Porquê? Porque este foi o último capítulo escrito adiantadamente. Ainda só escrevi um terço do próximo e metade do outro, porque cheguei a uma parte em que não me apetece escrever. Tanta história, tanta inspiração, mas ganhei preguiça em partilhá-la com os outros. Vamos a ver se isto melhora. Antes das férias, um capítulo é certo.
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O destino de Bianca e Scarlett

- «Eu tinha cinco anos e era a filha mais nova de Charles De Roquette. Longe de isso ser uma dádiva, era uma maldição. Os meus aposentos eram os mais distantes possíveis dos da minha mãe e da minha irmã e isso custava-me. Tinha aias aos meus serviços a todas as horas do dia e da noite, mas não era isso que eu pedia. E Rose concordava.
Ela era uma rebelde. Detestava as regras que o nosso pai lhe impunha, mas suportava-as de qualquer maneira, impondo no seu rosto uma expressão de quem cheira algo desagradável de cada vez que meu pai lhe dava uma ordem que ela não concordava. Mas essa atitude só piorou com a minha vinda. Ela sempre me fora sincera. Nunca me escondera nada. Antes mesmo que eu pudesse formular as minhas próprias opiniões acerca dos acontecimentos em meu redor, já Rose me ensinava a ver o mundo através dos seus olhos.
Ela amava-me. E eu amava-a a ela.
Juntas, escondíamo-nos das regras, fugíamos para os bosques e sujávamos os nossos vestidos de propósito, num acto de rebeldia. Desagradava a Rose a ideia de que eu, tão nova, já tinha noivo. De que eu já tinha o meu destino marcado à custa dos Fados. O que ela não adivinhava era que as atitudes de meu pai não eram o destino traçado pelos Fados, mas o motivo para tal.
Penso que, quando puseste os pés no nosso castelo, chegaste a notar nas diferenças entre as duas Terras de um modo mais sombrio. A polpa, elegância, falsidade e requinte eram características das Terras Baixas, enquanto a frieza, beleza natural, cinismo e mesquinhez reinavam nas Terras onde a neve dominava o sol. Comparando as Terras numa única divisão, veríamos os habitantes das Terras Baixas trajados de mantos com pedras preciosas e cores quentes, simbolizando o calor e o requinte que percorria as suas veias, enquanto os das Terras Altas teriam roupas prateadas, como as barbas de duendes, olhares sérios, frios e astutos e fariam menos esforços para atrair o centro das atenções. Desde pequena que, sem o auxilio de Rose, me apercebi que nenhuma das imagens era o desenho ideal do Homem. Mas Rose já definira uma linha de ideias. Apercebera-se que mais depressa confiava numa serva do que num conde. Mais depressa um pajem dizia a verdade do que um príncipe. De repente, ela mostrou-me uma outra imagem. Era castanha e preta e, no meio dos trajes dourados e prateados, rodeavam a sala, como uma aresta definida de um desejo. Os criados, servos, gente do povo. Rose apaixonou-se pela vida deles. Dura e exaustiva, quando estavam longe dos patrões, faziam o que queriam e casavam com quem queriam. Para não falar que podiam ter orgulho das suas filhas, pois ter filho varão ou filha dama não fazia nenhuma diferença para o seu estatuto social. Um dia, quando senti o meu estômago a roncar, saltei da cama e fui ao quarto de Rose. Esta levou-me às cozinhas pé ante pé, sem querer acordar ninguém. A cozinha estava muito suja e um cheiro insuportável inundava o ar mas isso não incomodava os servos que cantavam os parabéns a uma menina pouco mais velha do que eu. Ela rasgou um grande sorriso, mostrando dentes cor de pérola, com dois em falta.
Todos batiam palmas e cantavam alegremente. Era ambiente de festa. E nenhum deles, sabíamos nós, era pai ou mãe daquela menina.
Rose e eu ficamos espantada e também com um pouco de inveja por aquela menina. Tal como as outras que trabalhavam no castelo, era órfã mas era amada por estranhos. Nós nem isso. Nossa mãe amava-nos mas nunca foi de demonstrar esse amor. Imagina, uma mãe plantar roseiras para as filhas mas não as amamentar. Minha mãe era um poço de contradições. Mas… nunca deixou de ser a minha mãe.
Detestávamos o nosso apelido. Era sempre motivo para as pessoas baixarem as cabeças por onde quer que fossemos e para que as pessoas mais cínicas das Terras Altas tentassem cair nas nossas boas graças. Mas tínhamos as duas os olhos abertos. Sabíamos o quão falso era aquele mundo e, ao invés de fazermos o mesmo que nossa mãe e juntarmo-nos à corrente, decidimos opormo-nos. Nosso pai culpou Rose pela minha jovem rebeldia. Querendo castigá-la, condenou-a a não arranjar marido e deserdou-a de qualquer direito. A única coisa agora que a ligava aos De Roquette era o nome e o sangue. Mas a Rose agradou-lhe a ideia. Após, mais uma vez, fugirmos às inúmeras aias e guardas que nos deviam proteger e impedir de nos juntarmos, falamos em ter novos nomes, pois não havia mais nenhuma Rose e Claire nas Terras Altas. Era bem fácil associar os nomes. Rose planeou fugas e eu escutava, os meus olhos brilhando em entusiasmo e inocência.
Chamou-se a si própria de Scarlett e a mim, Bianca, tendo os dois nomes originais significados semelhantes aos nossos novos cognomes. Melanie era a única que sabia desta alteração. Havia feito amizade com ela no dia após a minha escapadela para a cozinha, quando eu preparava-me para tomar banho e ela apareceu, com uma jarra de água quente. Tinha os olhos pregados no chão e, quando notou que eu não parava de olhar para ela, corou. Apercebi-me de que era a mesma rapariga que fizera anos no dia anterior e dei-lhe os parabéns atrasados. Os seus olhos ganharam um brilho estranho, como se ela já soubesse. Bem, ela sabia. Sempre soube que eu a espiara no dia anterior com a minha irmã. Mas não esperava que eu lhe dirigisse a palavra como uma irmã. A nossa relação só evoluiu a partir dali. Melanie mostrou-me o outro lado para além do castelo e de como tudo funcionava por detrás dos salões. Sem dar por mim, ansiava por viver no mundo dela. Invejei-a por, apesar de órfã, ter recebido um beijo dos ambos os pais e por saber mais sobre a vida do que eu. Com cinco anos, não me importava de trocar os meus vestidos luxuosos e as luzes altas da corte por uma vida modesta, mas cheia de amor e carinho. Pedi a Rose para levar Melanie connosco caso fugíssemos, pois a tia que tomava conta dela no castelo tinha morrido recentemente e ela não tinha mais ninguém. Rose ficou relutante, mas aceitou por fim. Penso que agradava-lhe a ideia de eu ter uma amiga verdadeira, no meio daquele ninho de cobras. Todavia, as duas eram muito desconfiadas uma da outra. Melanie parecia saber mais sobre Rose do que ela própria e Rose temia contar-lhe fosse o que fosse. Aquelas desconfianças resultavam em pequenas zangas entre mim e Scarlett. Eu ficava no quarto a chorar até que ela aparecesse para me pedir desculpas. Ao fim de algum tempo, percebi que a minha tristeza a magoava e, ao invés de a usar para atingir os meus objectivos, controlei-me, deixando que Rose ganhasse as zangas. Que ela fizesse tudo como ela quisesse.
Scarlett ou Rose – chega a uma altura em que não faço a distinção dos nomes. – odiava o mundo nobre cada vez que um dia passava. Desprezava-o tanto que começou a evitar os bailes e foi uma alegria quando nosso pai a proibiu de os frequentar. Penso que ele temia que a presença de Rose nos bailes, levasse à atracção de pretendentes que ele teria que recusar, se quisesse ser fiel à sua palavra. E as más-línguas perguntar-se-iam porque Charles De Roquette não queria casar a filha mais velha. E meu pai preferia morrer a deixar transparecer que a mais velha era uma rebelde que, pouco a pouco, descaminhava a verdadeira herdeira da família. Era muito mais fácil desenrolar uma mentira em como Rose tinha a ambição de se tornar freira nos grandiosos e vazios conventos das Terras Baixas. Era mais fácil admitir que a filha detestava a religião, ao invés dos costumes.
Mas nada disso travava Rose de me ver ou de prosseguir com o encaminhamento dos nossos planos. Sempre que ela me quisesse ver, ordenava a uma criada que deixasse uma rosa vermelha no meu quarto. Era o nosso código. Uma rosa vermelha significava que ela me queria ver. E eu, sem hesitar, dirigia-me para o quarto dela, umas vezes acompanhada por Melanie. Várias vezes a encontrei a olhar sonhadora para o céu nocturno, junto à janela. Em que ela pensava não sabia.
Numa noite, ela deixou-me uma rosa vermelha no quarto. Eu sai cautelosamente, pé ante pé, evitando fazer o mínimo dos barulhos. As paredes nuas e frias do castelo alastravam-se pelo corredor, tornando-o mais comprido para mim que, na altura, era muito pequena. Os meus pés estavam descalços e pareciam congelar ao tocar no frio chão de mármore e não tinha mais nada vestido a não ser um simples trapo branco, que usava para dormir. Já era tarde, a lua estava no céu, emitindo um brilho leitoso que me servia de iluminação no meu longo caminho.
Ouvia o som dos mochos lá fora, voando em círculos à procura de caça, enquanto o vento soprava para norte, chocando contra os obstáculos no seu caminho. Senti frio nos braços e nos pés e abracei-me a mim própria até chegar à entrada, os meus pés tocando no solo de pedra fria. Rose estava junto ao canteiro das violetas, agasalhada pelo seu manto de cor negra. Tinha nas mãos, outro de cor carmim.
Quando me viu, o seu rosto iluminou-se e apressou-se a vestir-me com o manto vermelho como a cor dos meus lábios. Ao notar que eu não tinha sapatos, deu-me umas sandálias de couro de viagem quatro tamanhos acima do meu. Ela colocou o capuz na minha cabeça, alguns cabelos escuros saindo para fora. Esboçou um sorriso.
-Estás muito bonita. – Disse, os olhos verdes faiscando. Eu retornei o sorriso, sem saber o que dizer. Naquela altura, não entendia o drama que as mulheres faziam com o seu aspecto. Meu pai diziam-me sempre que eu era muito vulgar e, se os Fados quisessem, talvez viesse a ganhar melhor aspecto com o tempo. Havia sempre alguma crítica no que tocava ao meu aspecto. Os meus cabelos, que eu preferia soltos do que amarrados com tanta força que chegava a doer. A minha preferência ao branco, a minha timidez.
Ninguém sabia porque é que eu gostava de branco, quando essa era uma cor que apenas as criadas usavam, sendo o tecido branco mais barato, enquanto as damas da corte raramente usavam essa cor, a não ser para as suas vestes para dormir. Ainda hoje, não sei o motivo exacto porque comecei a usar branco. Era um traço meu e assim me acostumei. Mas como começou, apenas tenho ideias. Lembro-me de fugir quando ainda mal andava e caminhava pelo castelo quase nua, apenas com um farrapo branco a tapar-me até às canelas. Talvez fosse isso, ou talvez fosse o fascínio que era a ideia de uma menina bebé de branco no meio das rosas alvas, que minha mãe dizia serem minhas. Rose nunca usava vermelho, mas os seus cabelos eram numa cor semelhante, por isso, talvez a minha mente infantil tivesse adoptado essa ideia.
Fosse como fosse, eu era sempre algo estranho naquele castelo. Naquele mundo. E, ao contrário de Rose, nada fazia para os contrariar. Fazia tudo o que me mandavam e tentava melhorar. Mas havia sempre mais. Nunca mudou.
Ela agarrou-me a mão e, juntas, saímos pelo portão das traseiras, por onde entrava o gado, mercadorias e frutas. Ninguém nos impediu de sair. Não era uma entrada muito bem vigiada, para quem queria sair do castelo. E nenhum guarda viu duas figuras caminhando rapidamente para longe do castelo, camuflando-se no meio do negrume da floresta.
Caminhamos pelo que pareceu ser várias horas e Rose não dizia nada, apenas apertava a minha mão enquanto me guiava para dentro da escuridão. Cada vez se tornava mais difícil de ver o quer que seja, o silêncio irrompeu pelos bosques, quebrado ocasionalmente pelo som de um animal noctívago. Naquela altura, a minha coragem começara a esgotar-se e desejei estar na minha cama, rodeada por cobertores quentes. Rose nem notara que os meus pés arrastavam-se pela terra escura, saindo das sandálias, vermelhos devido ao frio. Como ela não me dizia nada, comecei a suspeitar que Rose não sabia por onde ia. Não trouxera nada com ela, a não ser o manto. Perguntei-lhe se já tínhamos chegado e Rose mandou-me calar.
Ao longe, vi uma estrada para carroças. A estrada daria a volta ao castelo, em direcção às Terras Baixas. Rose largou-me a mão e, mandando-me ficar no sitio, procurou algo nos arbustos mais adiante. Finalmente, ofegou de satisfação e, dos ramos duros, tirou um embrulho com comida e roupas.
-Não podíamos trazer nada connosco esta noite porque, caso fossemos apanhadas, saberiam dos nossos planos. Assim é mais seguro. Paguei a umas criadas para deixarem aqui algumas roupas e comida antes do recolher e para não dizerem nada à nossa mãe.
-Rose? – Perguntei, confusa. Ela sorriu para mim, tentando elevar a minha confiança.
-Vamos embora Claire. Seguiremos a estrada até aparecer uma carroça que nos levará até às Terras Baixas.
Na altura, eu não fazia ideia das falhas que aquele plano tinha. O risco de salteadores, a imensa distância entre as duas Terras, a pouca probabilidade de algum homem nos dar boleia sem exigir algo em troca. Nada daquilo me passou pela cabeça. A minha inocência de cinco anos não me fizera pensar nos riscos daquilo que íamos cometer. Fez-me acreditar que Rose sabia o que estava a fazer, qual fora a ideia que aprendera desde muito cedo. Não desconfiava que Rose era tão inocente quanto eu. Que, caso salteadores viessem no nosso caminho, ela não teria apenas que dar o embrulho a eles. Isto é, se ela não quisesse que eles me tocassem.
Não, o único pensamento que me passou pela cabeça naquele momento foi o mais fútil de todos:
-E então Melanie?
O rosto de Rose adquiriu um tom sombrio, que nada tinha a ver com a escuridão da noite.
-Não há tempo. Pela calada da aurora, eles irão descobrir que estamos fora das nossas camas.
-Podíamos ter avisado. Podias ter-me dito. – Insisti, não querendo deixar a minha melhor amiga para trás.
Rose pareceu perder a paciência.
-Queres ir embora ou não? Se não formos, perderemos a nossa hipótese e aí é que nunca conseguiremos ser livres. Melanie é uma serva. Poderá um dia vir às Terras Baixas para ajudar no cargo de mercadorias e então junta-se a nós.
Aquele argumento não me convenceu, mas Rose não me deu mais oportunidades para protestar. Agarrou-me pelo pulso e seguimos pela estrada fora, o luar como única forma de visualização do caminho.
Depois aconteceu. Num momento estávamos sozinhas em plena estrada, encolhidas no silêncio da noite, noutra ouvíamos passos de homens atrás de nós. Rose não parou, mas vi o seu rosto empalidecer. A questão dos salteadores passava-lhe agora pela cabeça. Qual era o meu erro. Rose era esperta, sabia o que fazia. Pensei que ela estivesse em pânico e queria apenas fugir dali. Mas éramos duas miúdas pequenas, ela com doze e eu com cinco. Nunca chegaríamos longe, considerando que eram dois homens grandes.
Eles começaram a correr atrás de nós e aí, Rose forçou-me a correr. Eu senti pequenas pedras cravarem-se nos meus pés como agulha grossas e mal afiadas assim que sentia as sandálias a escaparem-me dos pés, mas a dor não era nada em comparação ao medo que sentia. A escuridão não ajudava. Era como se a natureza se tivesse unido para ajudar aqueles homens a chegarem-se perto de nós, jovens meninas.
Corremos o mais longe que pudemos, mas senti braços fortes a agarrarem-me por trás. Soltei um grito de pavor e tentei libertar-me. Mas aqueles braços pertenciam a um homem forte e com um cheiro nauseabundo que me deu vómitos. Eles agarraram a minha cintura e os meus braços com brusquidão e perspicácia. Libertou uma mão para tapar os meus gritos, mas eu mordi-o. Ouvi o homem berrar blasfémias a torto e a direito, barafustando palavras que nunca ouvira na vida e tentando controlar-me ao mesmo tempo. Então o outro homem gritou ao companheiro instruções. O que fazer connosco. Vi então que o outro homem tinha agarrado Rose pela cintura e uma mão mexia nos cordões do seu vestido, desamarrando-o. Vi o vestido da minha irmã escorrer-lhe pelos ombros lentamente, mostrando os ombros nus ao luar. O homem que a segurava cheirou-lhe a pele branca e os cabelos, mostrando um sorriso torto e vitorioso. O outro homem olhava para ele com inveja, um pouco ressentido de me estar a segurar. Soube que eles não me tocariam, pois até ladrões têm um pingo de consciência. Mas a virtude de Rose não seria salva naquela noite.
Olhei para todo o lado, procurando ajuda. Mas ninguém vinha de nenhum dos lados. Ninguém sabia que nós andávamos desaparecidas. Nem mesmo Melanie.
Os minutos seguintes foram, na altura, assustadores. Mas, com o passar do tempo, apercebi-me da sorte que eu e Rose tivemos naquela noite, quando o meu corpo se alterou e histórias acerca do consumo de casamentos me foram contadas. Quando tive consciência de como crianças eram feitas e de como homens se aproveitavam dos corpos das esposas, senti uma náusea ao recordar aquela noite.
Ali mesmo, em plena estrada, o homem despiu a minha irmã até à cintura, beijando-lhe o pescoço como um cão com cio. Os pequenos seios já formados da minha irmã ficaram diante dos nossos olhos e eu sentia o outro homem a ficar inquieto perante tal visão. O homem, que eu notei ser completamente moreno e com barba espessa, usou uma mão para apertar o peito dela com força. Vi Rose encolher-se em dor, os olhos fechados e o seu corpo imóvel, enquanto o indivíduo passava a mão por dentro do seu vestido, remexendo em qualquer coisa lá dentro. Rose soltou um gemido de dor, algumas lágrimas caindo no rosto pálido. Os meus olhos tentavam seguir a mão do homem e foi ai que notei que também Rose tinha uma mão dentro das suas vestes. Rose estabeleceu contacto visual comigo, enquanto o homem remexia no que parecia ser as pernas dela, a outra mão segurando Rose num ângulo em que o braço cercava a cintura e o braço esquerdo dela mas a mão parava no seio direito, apertando-o constantemente como um novelo de lã. Era uma imagem horrível e Rose tentava desesperadamente mandar-me alguma mensagem com os olhos, deixando que o homem tomasse as liberdades que quisesse com as mãos. Após o que me pareceu a mim e também a Rose uma eternidade, entendi o que ela queria que eu fizesse.
Soube que algo iria acontecer, dai que me mantive quieta no meu lugar. O homem murmurou palavras incoerentes para Rose e depois, sem aviso, gritou.
O seu bramido aterrorizado ecoou por toda a floresta e eu vi sangue caírem pelas pernas da minha irmã, para fora do vestido e espalhando-se no chão. Juntamente com um grande pedaço de carne envolvido em pele.
Uma mão humana.
No meio do êxtase, nenhum dos homens notara que Rose segurava um punhal na sua mão esquerda, escondido por entre as vestes do manto. Nenhum deles notara em Rose a enfiar o punhal dentro do vestido, esperando pelo momento certo para realizar um movimento rápido que, em junção à capacidade do punhal de cortar um cabelo, cortou a mão atrevida e suja do homem, rapidamente. A escuridão aí viera em nosso favor, já que o homem que me segurava não entendera rapidamente o que se passava. Mordi o braço do homem, libertando-se e correndo para junto de Rose. Esta pontapeou a mão, pegou no embrulho e, agarrando-me na mão, correu para o outro lado da floresta. O outro homem veio atrás de nós, alcançando-nos rapidamente. E, desta vez, não planeava deixar-nos escapar. Agarrou-me pelos cabelos, fazendo-me soltar um grito de dor e cair no chão. Rose veio atrás mas antes mesmo que pudesse erguer-se, já o outro homem estava em cima dela, tentando completar o trabalho que o companheiro não fizera. Conseguiu ir mais longe que o outro, cujos gritos ainda se ouviam dali, mas esqueceu-se de um facto importante. Eu.
Ao ver a minha irmã completamente vulnerável, tentando arranhar a cara do homem e tira-lo de cima dela, por entre gemidos e gritos de pavor e de ódio, tentei levantar-me e procurei pelo punhal. Quando o encontrei, peguei nela com toda a força que podia. A lâmina era muito grossa e afiada e o seu peso explicava como conseguira partir o osso.
O homem estava em cima de Rose, sem notar em mim, atrás dele. Mexi-me lentamente até ter o punhal apontado às suas costas.
Sem hesitar e antes que ele cometesse mais algum mal à minha irmã, cravei o punhal no ombro direito, cuja mão segurava Rose na barriga. O homem, tal como o companheiro, gritou de dor e Rose conseguiu afastá-lo para o lado. Rose tinha o peito à mostra, mas ignorou esse detalhes, recolhendo o embrulho e puxando as mangas do vestido para cima e arrastou-me para fora dali, para longe dos gritos angustiados dos homens.
Mais à frente, quando já não ouvíamos nada, ajudei Rose a vestir-se e a limpar todo o sangue que a cobria. Ela não disse nada por enquanto, mantendo um ar firme e digno. Todavia, quando se sentou à minha beira, perdeu a compostura. Lágrimas caíram-lhe pelo rosto e eu consolei a minha irmã durante as horas que se seguiram, as duas unidas pelo medo. As nossas lágrimas juntaram-se em sintonia e, por volta da aurora, já estávamos calmas, o medo já desaparecido.
-Os homens só nos querem pelos corpos. – Chorara ela no meu ombro, recolhendo-se no meu abraço. – É impossível amarmos algum.
Eu não disse anda, a experiência da noite anterior ainda assaltando a minha cabeça. Não sabia o que era mais horrível. Se ver o homem despir a minha irmã para a violar, se ver Rose a mutilar o seu abusador ou se eu própria matasse alguém. Porque aquele medo atacou-me desde o primeiro minuto. Ainda hoje pergunto-me se ele sobreviveu. Se eu cheguei a matar um homem. Estranhamente, assustava-me mais a ideia de alguém saber o que os dois homens nos tentaram fazer do que souberem do que as irmãs tinham feito a eles com o punhal.
Segurei naquela arma estranha, que apenas vira nas mãos de cozinheiras e tecelãs. Era feita de bronze e prata e muito pesada, como já tinha dito. Devia pesar quase três quilos, sem exagero. Passei a carregá-lo com alguma dificuldade dentro do meu vestido e manto, pois Rose parecia não ser capaz de pegar em tal arma, lembrando-se sempre do que tinha feito. Comemos uma pequena merenda e seguimos caminho. Estávamos muito dentro do bosque, muito mais para dentro do que alguma vez tivemos. Enquanto corríamos, afastamo-nos demasiado da estrada. Podíamos voltar para trás, mas o risco de sermos apanhadas era agora mais extenso. Já era quase meio-dia, de certo que teriam notado pela nossa falta.
Os bosques ficaram mais densos e deixamos de ouvir o som de animais. Ficamos atentas, sem largarmos a mão uma da outra. Até que chegamos a uma gruta. Musgo e líquenes escorriam daquele abrigo escuro e frio mas não nos queixamos quando paramos ali para descansar. Ficamos lá uma hora, sem falar uma com a outra. Rose perdera-se em pensamentos enquanto eu escutava os sons em meu redor. Parecia que a gruta tinha mais do que supunha, devido ao eco distante que ouvia. Ia perguntar a Rose se ela sabia o que era, quando ouvimos um som longínquo, do lado da floresta, semelhante à queda de uma árvore. Saltamos do nosso lugar, escutamos o som com atenção. Ouvimos uma voz gritar e praguejar em palavras que eu nunca ouvi unidas, criando uma tremenda blasfémia verbal. Rose ficou curiosa. Parecia que alguém estava em apuros.
Cautelosamente, aproximamo-nos quando vimos um tronco de árvore caído. E, preso a essa mesma árvore estava uma criatura com cara de batata, olhos grandes em forma de hexágono, corpo pequeno e desproporcional, barrete púrpura com um estranho símbolo e uma comprida barba prateada, que se encontrava presa à árvore.
Um duende. Eu e Rose nunca tínhamos visto tal coisa, tendo apenas ouvido história acerca da magia roubada por tais criaturas e o quão malvadas elas podiam ser. E estava ali um, mesmo à nossa frente. Naquele momento, eu esqueci-me de todas as histórias, deixando-me levar pelo fascínio que era ver uma criatura fora do comum. Abri a minha boca de espanto, observando o duende lutando com todas as suas forças para que a barba saísse debaixo do tronco. Rose olhou o duende de forma estranha. Se eu tivesse interpretado aquele olhar… interpretei muitos dela, mas não aquele. Logo o mais importante.
O duende notou que nós estávamos ali. Não pareceu aliviado.
-O que raio estão a fazer, suas burras? Ficam aí a olhar e nem sequer me ajudam. Que miúdas tão malcriadas. – Gritou, lançando nos um olhar de morte.
Rose lançou-lhe um olhar penetrante.
-Como ousas falarmos dessa maneira? Devias ficar grato termos passado por aqui e te encontrado. Caso contrário, ficarias aí para sempre. A barba está bem presa. Não a tiras tão facilmente.
-Grato sim senhora. Vocês estão ai paradas feitas preguiçosas e ainda querem que fique grato com a vossa companhia. Como se eu não tivesse mais nada que fazer.
Eu parecia ser a única espantada pela forma como o duende falava, bem como a linguagem dele. Falava a nossa língua mas, por algum motivo, os sons nasais que ele produzia pareciam indicar que ele falava uma língua e que nós entendíamos outra. Mas não conseguia explicar aquela ideia. Sabes como era a mente de uma menina de cinco anos. Muitas ideias sem fundamento. Todavia, aquela até era certa.
Rose bufou e, não querendo ser mal-educada, aproximou-se das costas do duende e puxou-o pelos braços. Apesar de ele ser pequeno, a tarefa aparentava-se difícil, pois a barba estava bem presa.
-Bianca, anda ajudar-me! – Pediu Rose, continuando a puxar o duende, juntos gemendo de esforço. Eu franzi a testa, confusa.
-Scarlett? – Chamei a minha irmã, receosa. Os dois ignoraram-me.
-Bianca, anda ajudar! – Repetiu Rose, aparentando cansaço. Lembra-te, somos damas, não soldados. Não estávamos em boa forma.
Eu abri a boca para dizer algo, mas desisti. Mais avalia agir. Vista do meu prisma de visão, a cena não só era cómica – Rose puxando um duende maltrapilho e com cara de malvado – como também estúpida. Era a barba que estava presa, não o homem. E, sem hesitar, peguei no punhal e cortei a barba mesmo junto ao tronco.
Como na altura Rose e o duende faziam esforços, caíram de costas, a criatura ficando em cima de Rose. Esta libertou-se da criatura e sorriu-me.
-Excelente ideia, Bianca.
Senti-me corar e fui, juntamente com a minha irmã, ajudar o duende a levantar-se. Este ao ver-se sem um bom pedaço da barba, ficou com o rosto vermelho de raiva, semelhante a uma batata quente.
-Suas safadas, burras, estúpidas! Ninguém vos pediu para cortarem as minhas barbas. As minhas preciosas barbas. – Lamentou-se ele, gritando-nos como se nós tivéssemos sido as culpadas por ele quase ter sido esmagado pela árvore. Rose ficou furibunda.
-Seu ingrato! Ajudamos-te e tu ainda nos agradeces desse jeito. Por isso devíamos ter-te deixado aqui a apodrecer.
-Antes isso que perder as minhas preciosas barbas. – Lamentou-se o duende, lançando-nos um olhar profundo. Tremi dos pés à cabeça perante aquele olhar. Duendes não eram criaturas nada bonitas. – Devolvam-mas! – Exigiu ele.
-Devolver? – Rose torceu o nariz. – Para isso teríamos que levantar a árvore. Não o conseguimos fazer.
-Não quero saber. Arranjem solução! – Exigiu o duende e pude jurar que vi fumo a sair-lhe pelas orelhas. – Se não…
-Se não o quê? O que nos podes fazer? – Rose colocou-se à minha frente, bloqueando-me do campo de visão do duende. – Não passas de…
Ela olhou-o de alto a baixo, tentando descobrir o que ele era. O duende pareceu levar esse gesto como uma ofensa pessoal. Não o culpei.
-É um duende. – Disse eu, timidamente, espreitando por entre as saias da minha irmã.
-Até a pequena é mais esperta do que tu, sua burra. Sou um duende, caso não consigas entender o que a minorcas disse, e…
O duende calou-se e o seu rosto ficou muito branco de repente, olhando para mim aterrorizado. Um segundo olhar a Rose acalmou-o um pouco mas eu parecia sobressaltá-lo.
Ele engoliu em seco e tentou pôr um sorriso na cara. Pareceu ter muita dificuldade.
-Agradeço a vossa ajuda, meninas. Podem ir embora, eu trato disto. – Disse ele, numa tentativa de ser simpático. Rose semicerrou os olhos, desconfiada. Já eu participava numa disputa de olhares com o duende e parecia que ganhava sem qualquer esforço. O duende temia olhar-me nos olhos fixamente.
-Nunca vi ninguém com olhos violeta. – Murmurou ele, numa fusão de incredulidade e receio.
Até hoje, nunca percebi porque a cor dos meus olhos fora tão importante para os acontecimentos que se seguiram. Horas depois, entenderia que havia duendes com todo o tipo de cor nos olhos, menos azul e violeta. E eu tinha logo as duas cores na minha íris. Mas porque isso sobressaltava tanto os duendes, não tinha ideia. Supus sempre que era a minha aparência que os assustava. Rose era alta em comparação ao duende, facilmente parecia uma adulta, mas eu era pequena, tinha roupas brancas e a minha cara gritava inocência a quem quer que me pusesse a vista em cima.
Anos mais tarde, recordar-me-ia destes pequenos detalhes e, juntando aos conhecimentos que ganhei depois, soube que devia ter ignorado a imensa curiosidade que aquela criatura me punha. Horas antes, salteadores tiraram-me a cor da pele mas aquilo era algo diferente. Algo mais incerto e misterioso. Era pequena, não sabia que este tipo de mistério era daqueles que não se deviam explorar. Porque na vida real, a curiosidade não mata gatos, mas sim meninas bisbilhoteiras. Neste caso, os papéis inverteram-se.
Pensando melhor no que acontecera, cheguei à conclusão que o duende ou planeava afastarmo-nos da árvore o mais depressa possível, porque eu era uma criança pura, ou planeava usar-me para roubar as barbas dos seus companheiros. Eu, sendo a primeira criança próxima das terras de Niflheim em gerações, podia roubar-lhe o seu mais valioso pertence. Mas, ao ver-me de perto, penso que quis ter a certeza de que eu nunca poria os meus pés em Niflheim. Que eu nem pusesse lá os pés a seu comando. Como se as consequências fossem piores do que perder a barba.
-De onde vieram? – Perguntou o duende, cauteloso.
Rose não respondeu de imediato, olhando o duende cautelosamente.
-Para além do lago. – Respondeu simplesmente. O duende semicerrou um olho. Imagem estranha, devo dizer.
-Não têm nada a ver com os De Roquette, pois não? – Perguntou devagar.
Sem dar por mim, assenti com a cabeça, as minhas mãos pregadas ao tecido do vestido da minha irmã. O duende não perdeu o meu gesto. E a resposta não era o seu agrado. Ele sabia dos Fados. Como, nunca soube.
-Não deviam estar aqui!
- Viemos cá parar distraidamente. – Retorquiu Rose, agressiva. – Faremos o nosso caminho.
-Para onde? – Perguntou o duende, erguendo o sobrolho. – Que eu saiba são as duas umas menininhas. E tu, a mais velha, nem sequer tens miolos.
As feições de Rose contraíram-se, fazendo-me temer pela vida do duende.
-Vamos Bianca. Nem sei porque perdemos tempo a ajudar este ingrato! – Torcendo o nariz, Rose virou costas ao duende, arrastando-me com ela. O duende viu-nos caminhar na direcção oposta e, sem nós darmos conta a inicio, começou a seguir-nos. Queria ter a certeza de que não voltávamos atrás.
Rose acelerou o passo, puxando-me pela mão sem olhar para trás. Já eu confiei na minha irmã como minha guia e dei-me ao luxo de olhar para o duende e de vê-lo a passar a mão pelas barbas e olhar para o tronco com um olhar lamentoso. Senti a curiosidade e estranhar-se em mim, afogando o medo e a tristeza que sentia. Por muito que confiasse em Rose, não deixava de duvidar nos seus planos, de sentir a falta da minha mãe ou até mesmo da minha aia. Para não falar de Melanie. Aquela experiência apenas servira para entender o quão duro era o mundo fora do castelo, que nada era fácil. Fez-me entender o mundo de Melanie, ainda que as suas histórias fossem muito leves em comparação com a realidade.
Eu queria saber mais. Queria saber porque o duende tinha necessidade de nos ver longe dali. Porque ele dava tanto valor às suas barbas. Naqueles tempos, homens maduros caiam bem com barbas mas cortá-las não era mau sinal. Talvez mau gosto em questão às tendências da Corte, mas ela sempre voltava a crescer.
Quando deixei de ver o duende, abrandei. Rose também parou, surpreendida.
-Porque paraste? – Perguntou, baixinho.
Eu não respondi. Aliás, penso que a minha língua estava tão enrolada naquele momento que nem a mais forte das pimentas me faria soltá-la. Fora alguns sons e palavras soltas, mais nada disse nos dias que se seguiram. A curiosidade apoderara-se de mim. Senti-me dentro de uma espécie de transe que nunca sentira antes. Todas as perguntas que fazia desde que aprendia a falar pareceram-me ridículas. A minha curiosidade nunca fora tão grande quanto naquele momento. E, sem dar por isso, liderei eu e a minha irmã para a queda das duas Terras e da minha própria família.
Larguei a mão de Rose e, com o olhar, pedi para ela me seguir de volta à árvore, girando nos meus calcanhares. Rose veio atrás de mim, curiosa e atenta ao seu redor. Não esquecia que o duende nos seguira por um bocado. Quando nos apercebemos que o duende não estava em lado nenhum, caminhamos silenciosamente para a mesma árvore caída no meio de tantas, formando uma espécie de clareira rectangular. Ramos de folhas foram calcados e alguns sons emitidos, mas eram sussurros em comparação aos gemidos que ouvíamos vindo do tronco.
A imagem era das mais cómicas, principalmente imaginando a história por detrás da situação. O idiota do duende havia tentado desviar a árvore. Usara um pouco de magia, ainda que na altura nós não soubéssemos, e conseguira movê-la. Mas penso que ele não tinha qualquer controlo na magia, pois a árvore acabara por se desviar para o lado onde ele estava, quase o esmagando entretanto.
Ele, mal nos viu, gemeu com mais força soltando palavras incoerentes e tentando soltar-se desesperadamente da árvore. No meio de tanta força investida, perdeu o controlo e bateu com a cabeça no tronco da árvore. Rose controlou uma gargalhada de tão ridícula fora a cena, mas ajudou-me a tentar tirá-lo dali.
-Não há outra forma. – Sussurrou Rose, virando-se para mim. – Temos que cortar a barba.
Entreguei-lhe o punhal e via chegar a lâmina junto aos fios prateados mesmo perto do queixo. Não cortou.
-Não entendo! – Disse Rose, olhando o punhal como se este tivesse algum defeito. – Como é que não consigo?
Tentou uma vez, e outra, e outra. As barbas pareciam de ferro quando Rose tentava cortá-las. Ela bufou de frustração e deixou-se cair na relva, olhando o duende. Este ainda estava inconsciente. A pancada devia ter sido forte.
Inconscientemente, toquei nas barbas ao de leve. Senti uma corrente de energia fluir-me por entre as membranas dos dedos, soltando uma pequena quantidade de calor que me sobressaltou. Afastei a mão, espantada. Rose observara-me o tempo todo e, sem saber perguntas, colocou-me o punhal na mão. Soube o que tinha a fazer. Cortei as barbas até sobrar apenas uma fina camada de fios brancos no rosto feio do duende.
Alguns fios caíram na minha capa vermelha mas eu não tirava os olhos daquela beleza que parecia hipnotizar. Quando Rose tocou nas barbas, soube que ela sentira o mesmo.
-O que é isto? – Murmurou Rose para si. Aquela energia era tão misteriosa e atraente. Comparei a um dia solarengo, quando a minha mãe tomara a gentileza em acordar-me um pouco ríspida, mas tentando ser doce ao mesmo tempo. O seu cheiro a rosas perfumava o meu quarto e todo aquele momento era quente, seguro, mágico.
Dei as barbas a Rose e tirei a minha capa, estendendo-a no chão. Olhei para a minha irmã, cujos olhos estavam vidrados nas barbas prateadas.
-Rose? – Chamei timidamente, esperando que ela pusesse os fios no tecido vermelho. Ela mordeu o lábio e um estranho brilho invadiu a sua íris verde.
-Sabes o que é isto? – Perguntou-me de repente, sem aviso. Eu abanei a cabeça. Na altura fora abençoada pela ignorância.
-É magia. Só pode. Ouvi falar de histórias acerca dos duendes. Mas nunca achei que fosse real… - Ela monologava, o seu tom de voz baixando até se tornar num sussurro à velocidade de uma sinfonia em adágio. A sua voz ia alternando os tons, como uma autêntica sinfonia. Mas as palavras... Oh as palavras, eram as notas musicais… e estavam completamente desafinadas. Entendia o desejo, a obsessão que Rose ganhara a respeito da magia. Tive logo ideia do quão perigosas poderiam ser as suas ideias. Mas só mais tarde tomaria as consequências por não a ter impedido.
Ela teve uma ideia e colocou-a logo em planos. A minha curiosidade de infante traiu-me e eu obedecia-a sem hesitar, ainda que a atracção que sentia pela magia obrigava uma vozinha dentro de mim a gritar cautela. Pegamos no corpo do duende e arrastamo-lo para a gruta. Rose queria saber de onde ele vinha e, para isso, teriam que esperar que ele acordasse.
Mas ele demorava a acordar. Não ouvíssemos a sua pesada respiração, diríamos que ele estava morto. Talvez tivesse dormido. Ou talvez tivesse uma mente mais frágil do que as dos humanos. Rose fartou-se de esperar e ordenou-me que eu ficasse quieta e que gritasse quando ele acordasse. Sem esperar pela minha resposta, percorreu o resto da gruta sem mim.
Minutos passaram-se em silêncio até que ela veio a correr a gritar, alegremente. Descobrira Niflheim, ainda que não soubesse o seu nome. Pegamos no duende e seguimos caminho por entre a gruta escura. Jamais conseguirei descrever a ansiedade e sensação estranha que sentia no estômago. Os meus olhos nunca haviam ansiado por tanta luz e parte de mim já sabia que, o quer que estivesse do outro lado, seria algo irreal, mágico.
Era muito mais do que isso.
Aquela terra era muito mais exótica do que aquilo que viste. Havia vida. Duendes de todos os tamanhos, mas nenhum muito mais alto do que eu, passeavam por todo o lado, enchendo a clareira, falando uns com os outros, brincando, lendo. Um autêntico povo semelhante aos homens, mas de aspecto desproporcional e baixa estatura, quase semelhante a bonecas gigantes.
Eles pararam os seus afazeres, assim que nos viram, segurando um companheiro deles. Olharam-nos surpresos e alguns ousaram em pegar em enxadas de ferro a fim de nos atacar.
A comoção silenciosa foi quebrada com a vinda de seis figuras vestidas de púrpura. Todas elas usavam barretes semelhantes ao do duende que segurávamos, com símbolos que eu não conseguia ver dali. Ao verem o duende nos nossos braços, ergueram os queixos:
-Que fazem com Helgardh? – Perguntou o do meio, mais alto por três polegadas.
Eu e Rose entreolhamo-nos.
-Este é vosso companheiro? – Perguntou Rose, elevando a voz. Os duendes assentiram com as cabeças. – Encontramo-lo. Teve um acidente e nós salvamo-lo. Sou Scarlett e esta é Bianca.
Ainda que me tivesse apresentado, não me apontou. Isso fez com que nem todas as cabeças me tivessem visto. Só os seis duendes notaram a minha presença. Os seus olhos castanhos-escuros aumentaram de tamanho, ficando maiores do que o calcanhar de um bebé sem exagero.
-Bianca. – Sussurraram alguns, fitando ora o companheiro sem barba ora eu com a capa com os fios na mão.
O duende do meio engoliu em seco e olhou para os seus companheiros. Na altura não sabia, mas eles planearam de imediato tirar-nos as barbas, tentando claro não cometer o risco de perder as suas. Duendes não têm qualquer pinga de lealdade para com eles. Pelo menos no que toca à magia.
-Sejam bem-vindas a Niflheim! – Disseram os duendes, traçando sorrisos amistosos.
Se eu soubesse, teria partido na altura. Mas não o fiz. Segui a minha irmã pela aldeia, muitos aproximando-se para nos observar. A maioria ficava de boca aberta perante Rose, tão bela e alta e eu afugentava os duendes, antes mesmo de abrir a boca. Ironia, não? Que os animais me amem mas que os duendes me odiassem, enquanto com Rose era o contrário?
Instalaram-nos na casa maior, os seus olhos nunca saindo de cima de mim. Por precaução, agarrei a capa com mais força e nem para dormir nem livrei dela. Numa mão escondia a capa, na outra, o meu punhal. Penso que foi isso que me salvou nos dias seguintes.
O duende que salvamos, Helgardh, acordara horas depois, começando a barafustar com a perda das suas barbas. Os companheiros conseguiram acalmá-lo e, no dia seguinte, ele pedia desculpas pelo seu comportamento. Apesar de tudo, foi sempre o duende com quem me dei melhor.
Vivemos naquele sítio por sete dias e sete noites. Os sete duendes contaram-nos a história de Niflheim – a mesma que te contei – e de como esta funcionava. Sobre o sistema de trocas, como obtinham os seus alimentos, como educavam as crias. Tentaram afastar-me de Rose, colocando-me com as outras crianças a brincar. Penso que queriam que eu me distraísse e assim largasse a capa. Mas nunca o fiz. Nunca brinquei com os duendes pequenos. Eles eram malcriados e não gostavam de mim. Dizia coisas na sua língua que eu não percebia, mas que sabia que eram maldosas porque não ousavam a traduzi-las para a minha língua. A maioria dos duendes evitava-me quando passavam por mim, sem sequer me dirigir a palavra. Só Helgardh reconhecia a minha existência, os seus olhos fulminando a minha capa longinquamente. Algumas vezes tentei falar com ele, mas ele sempre me ignorara.
Sempre que podia, ia ter com a minha irmã, querendo saber o que ela fazia. E, pela primeira vez, vi o lado mais negro e manipulador da minha irmã. As palavras que saiam da sua boca carnuda afectavam também os duendes machos, manipulando-os e seduzindo-os a fazerem aquilo que ela queria. Demorou um pouco mas ela era paciente. Nos primeiros dias, ria-se de tudo aquilo que eles diziam. Concordava com cada frase, cada insultos que os duendes mandavam, mesmo que fosse à sua própria família. E era propositadamente descuidadosa. Os duendes não têm aspectos humanos, mas são animais com desejos e que também fornicam. O facto de raciocinarem, permitia que eles conseguissem distinguir beleza feminina quando a viessem. Ela deixava a saia subir, deixando grande parte das pernas brancas à mostra e desapertava duas linhas do corpete, deixando parte dos seios já desenvolvidos visíveis aos olhos deles, ávidos por possui-la. Sussurrava palavras nos seus ouvidos, mordia os lábios regularmente, os seus belos olhos focando-se nos deles. E eles contaram-lhe tudo. Como trabalhar com a magia, que palavras na língua deles utilizar. Deram-lhe acesso aos registos da magia, que dizia-se terem sido escritos pelos Fados. Ela leu-os. E eu também. Fui assim que soube como usar as barbas. E foi assim que ela teve acesso à magia. E foi desses registos que ela soube como retirar o poder das barbas.
Mas, para tal, tinha que possui-las.
Penso que ela nem se lembrou que eu já tinha barbas na minha posse. Uma noite, a última que passamos lá, ela acordou-me suavemente.
Eu soltei um grunhido, sonolenta.
-Bianca? Preciso da tua ajuda. – Disse Rose apressadamente. – Preciso que venhas comigo e com o punhal.
Estava muito cansada e queria dormir. Além disso, não me agradava a ideia de Rose querer que eu a ajudasse… com o punhal.
Sei que te disse que me lembro exactamente do que aconteceu naquele dia mas, nesta alturas, as minhas memórias confundem-se todas num aglomerados de novelo de lã. Não sei como ela conseguiu acalmar todos os duendes, como o trabalho de lhes cortar as barbas foi tão fácil, sem qualquer resistência por parte de nenhum duende. Mas sei que percorri toda a Niflheim e cortei as barbas a todos aqueles que as tinham. O resultado fora um conjunto de fios na capa negra de Rose. Esta não escondeu a euforia que era ver aqueles fios frente ao seu nariz.
-Finalmente. – Sussurrou, radiante. Olhou para mim, os olhos brilhantes. – Finalmente teremos aquilo que queremos.
-Como? – Perguntei, medrosamente. Naquele momento, eu só tinha medo da minha irmã.
Rose sorriu.
-Não te preocupes. Eu sei o que faço.
O silêncio foi cortado com um berro. Era Helgardh, o único que Rose não conseguira manipular, pois mostrara a sua verdadeira natureza no primeiro encontro.
-Ladras, ladras! Têm a nossa magia, têm a nossa magia! – Berrou a alto e bom som, acordando os outros habitantes. Se Rose os havia colocado num encantamento bem, esse terminara. Todos os habitantes de Niflheim correram para fora das suas casas com enxadas que usavam no trabalho das minas na mão. Soltaram um berro em uníssono, vindo em nossa direcção. Mas Rose não parou de sorrir.
E, mais uma vez, os acontecimentos deixam de ter ordem. O caos reinou Niflheim. Eu ouvi gritos histéricos, som de enxadas a cortar carne e osso, o som de corpos a caírem no chão… era um tumulto de raiva e ganância. Todos queriam as barbas nas mãos de Rose e todos lutavam contra si. Fugi da minha irmã e tentei afastar-me dos duendes que se acumulavam. Eles viam-me, mais alta que alguns e de roupas brancas, e tentavam atacar-me mas consegui colocar-me debaixo de uma carroça que mal me cobria e evitar as investidas contra mim. Por entre as rodas de madeira, vi os pés dos duendes a arrastarem-se em todas as direcções. Com o tempo, os gritos de guerra cessaram e a luz do sol artificial rompeu em Niflheim. Estava tudo coberto de cadáveres e o cheiro a decomposição infestava o ar. Não havia insectos ali, mas senti formigueiros em todo o corpo. Gritei em pânico perante tal atrocidade. O genocídio dos duendes durara a noite toda e percebi que os sons jamais sairiam da minha cabeça.
Em completo desespero, voltei à casa e deixei lá o manto vermelho com as barbas de Helgardh e apressei-me a sair dali. Encontrei Rose na entrada. As barbas tinham desaparecido. Ela sorria, enquanto cobria as costas com o manto escuro e os cabelos ruivos caindo em cascata. O seu sorriso era sinistro, mas não tanto que me assustasse mais do que aquilo que ouvira a noite toda.
-Vamos? – Disse, estendendo-me a mão. Eu agarrei-a e, com ela, fui-me embora de Niflheim para sempre…. Bem, até agora.»
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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#53
Olá Ana! Bem, não tenho andado muito inspirada para escrever - ainda menos para comentar- portanto perdoa-me se o meu comentário sair uma caca! Enfim, em relação capitulo.... Palavras para quê?! não me decepcionaste, eu adorei a historia toda por trás da Scarlett e da Bianca! e ouvir a Historia sob o ponto de vista da Claire tornou tudo mais profundo! A parte da quase violação da Rose foi por um lado chocante, mas por outro compreensível, afinal de contas algumas coisa devia ter sucedido depois de tanta rebeldia! Agora, chocante mesmo foi o facto de a Claire assassinar (ou não) alguém!
Associei os duendes aos 7 anões. Mesmo sendo personalidades completamente diferentes não pude deixar de associar por causa do numero! No final, aquele genocídio foi deprimente, como não poderia deixar de ser! E é incrível como a Rose foi tão fria e macabra, capaz de matar duendes e ainda ir embora feliz da vida, sem pensar na pobre criança que a seguia!
Depois disto é óbvio que estou super curiosa pelo proximo capitulo! Very Happy
Bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
#54
FELIZ NATAL!!! santa tecnicamente já não natal, mas coiz... Assobiar
Quase dois meses e aqui estou eu com novo capítulo! Eu disse que postaria um nas férias, não disse?
Querem saber a melhor? Andei semanas sem escrever nada neste capítulo mas hoje recebi uma onda de inspiração, sentei-me a escrever e voilá, aqui está o meu novo capítulo. Pode parecer um pouco apressado, mas estou farta de descrever viagens e queria imenso avançar esta história. Por isso aqui está.
O titulo é A Rosa vermelha, mas bem que podia ser O Elo mais Forte. Honestamente, nem sei que nome dar a este capítulo e como fiz alterações de última hora, acabou por ficar assim. Espero que gostem Smile
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A Rosa vermelha

O som das chamas a estalar era tudo o que se ouvia. O vento parecia petrificado assim como qualquer forma da natureza. A rapariga havia acabado a sua história, o rosto não traindo qualquer emoção. Raphael escutou-a atentamente, sem perder cada palavra, cada expressão que ela dizia. Cada frase tinha diversos significados e agora sabia como tudo aquilo começara. Como o seu mundo chegara a aquele ponto.
Uma rapariga, que detestava o mundo cínico onde vivia. Uma rapariga que desejava ter as rédeas do seu destino e do da sua irmã.
E encontrou. Na magia do duende.
Infelizmente, as perguntas não terminavam ali.
-Porque Niflheim ficou assim? Julguei que os traços da natureza fossem mais lentos aqui. Os cadáveres deviam estar à vista. – Perguntou, olhando para o lado de Niflheim. Claire brincava com um pau, colocando-o na fraca fogueira, vendo a sua ponta a arder.
-Eu nunca mais cá voltei mas julgo que Rose sim. Quando olhei para dentro da casa, os registos tinham desaparecido todos. Julgo que ela os queimou. Pelo menos aqueles que eram das barbas que ela roubara. Os registos das minhas ficaram por lá. Houve um desequilíbrio na magia que circulava a zona. Agora… - Olhou de relance para a vila deserta. – Voltou tudo ao normal.
Raphael, lembrando-se do pedaço de papel que vira arder, assentiu. Claire, sem olhar para ele, continuou.
-Ela teve necessidade de apagar tudo aquilo que me fizesse derrotá-la.
Raphael ergueu o sobrolho.
-Queres dizer que ela te considerava uma inimiga naquela altura?
-Não. Apenas influenciada. Não sei. A verdade é que não vejo Rose há onze anos.
O rosto dela estava contraído em agonia e Raphael sentiu uma enorme vontade de abraçá-la. Controlou-se, abraçando os braços junto ao corpo.
-O que aconteceu? – Perguntou, um pouco receoso.
-Tu desapareceste. O meu pai ordenou buscas para te encontrar nas Terras Altas, enquanto teu pai e Bruno voltavam às Terras Secas. Bruno mandava-me cartas regularmente, querendo saber notícias, mas tu parecias ter desaparecido à face da Terra. Jamais imaginaríamos que tinhas sido transformado.
«As coisas lentamente voltaram ao normal no nosso castelo. Se é que se pode chamar aquilo que tínhamos de normal.
Era impossível imaginar a minha vida naquele castelo como normal. Quando voltáramos de Niflheim, minha mãe abraçou-me contra o seu peito pela primeira vez, chorando rios de lágrimas pelas duas. Rose aceitou o abraço, os olhos nunca encontrando os meus nem os da minha mãe. Fomos trancadas nos nossos quartos durante dias e, estranhamente, Rose não protestou.
Eu encontrei Melanie alguns dias depois, pouco antes de tu chegares, mas não consegui dizer nada. Fiquei calada, sem saber o que dizer. Melanie entendeu o meu silêncio mas fez-me prometer que nunca mais sairia do palácio sem avisar um adulto. Só mais tarde me apercebi que ela temia que eu ficasse sozinha com Rose.
E meses após teres desaparecido, o caos instalou-se no nosso castelo. De facto, fazia um ano desde que eu conhecera Niflheim e todos os outros desastres que se seguiam. Um ano desde que eu aprendera blasfémias que nunca me saíram da cabeça, um ano desde que me casara e que entendera que há escolhas que podem marcar uma vida.
Nessa noite, fui aos aposentos de Rose mas ela não estava lá. Peguei no meu xaile e procurei-a pelo castelo, nunca sendo vista por ninguém. Pelo caminho, encontrei uma jarra com as minhas rosas brancas. Nunca gostei de ver as minhas rosas noutro sítio que não a roseira da minha janela por isso peguei nelas. Finalmente, decidi ir para os aposentos mais distantes, onde as aias dormiam juntas. Lá, vi Rose junto à porta, observando. Alguns grunhidos e suspiros eram ouvidos dentro do quarto, mas estes não prestavam atenção à jovem ruiva vestida com um manto negro que os olhava com nojo. Aproximei-me de Rose, mas ela não fez sinal de me ter visto. Eu olhei para dentro.
Na altura não entendi o que estava a ver. Era o meu pai a beijar uma das minhas aias, uma morena muito bonita. Estavam os dois na cama e sem roupa e a aia gritava como se o meu pai a estivesse a magoar de alguma forma. Então Rose olhou para mim e pousou um dedo nos lábios. Os olhos verdes dela escureceram até ficarem negros e, por um segundo, o mundo parou.
De repente, todos os espelhos e janelas quebraram-se, lançando estilhaços de vidro por toda a parte. À minha volta, pedaços inundaram o chão e as correntes de ar da noite congelaram o meu corpo, que já tinha bastante frio mesmo com o xaile.
Eu gritei de medo mas Rose tapou-me a boca e obrigou-me a correr. De relance, vi a cama cheia de sangue, mas não soube se o meu pai fora atingido.
Os meus pés arrastaram-se pelo soalho de pedra, magoando-me nos pedaços de vidro que calcava naquele chão imundo e frio. Rose só parou quando ouviu os gritos de nossa mãe.
-Rose? Claire? O que se passa? – Gritou ela, apavorada ao ver a comoção de aias e guardas gritando cheio de medo e correndo de um lado para o outro.
-Fiz-lhe um favor, mãe! Aquele homem não nos faria bem! – Retorquiu Rose, friamente. Vi o nosso irmão a aparecer, também ele assustado e a agarrar-se às saias da nossa mãe. – Venham comigo. Já nada poderão fazer aqui. Eu irei protegê-los.
-Proteger-nos de quê? Filha do que falas?
-Daquele homem que a usou, mãe. Aquele homem que se ousa chamar nosso pai. Oh, mãe a forma como ele olha para mim. Temo que haja o dia em que eu irei substituir as aias no seu leito. – Eu soube de imediato que Rose mentia. Ainda que nosso pai pudesse sentir alguma atracção por ela, nunca a satisfaria, pois ainda tinha modos. Além disso, para quê querer a filha, quando tinha a mãe, uma replica quase exacta.
-Não falas a verdade! – Gritou a nossa mãe, horrorizada, caindo no chão com o nosso irmão ainda agarrado a si. Melanie surgiu por trás dela e lançou um olhar penetrante a Rose.
-Bem me parecia que tinhas sido corrompida. – Silvou ela, venenosamente. - Os Fados assim o tinham dito…
-Que importa os Fados!? – Gritou Rose, enfurecida. – São os Fados que nos prendem a esta vida miserável. São os Fados que me prendem a esta vida sem liberdade, que obrigam a Claire a casar-se, que te obrigam a trabalhar que nem uma escrava.
-A vida é uma história contada pelo Criador. Não podes rebelar-te contra isso, Rose. É contra as Leis da Natureza. No teu caso, Ele sempre soube. – Retorquiu Melanie, serenamente. Eu encontrava-me no meio das duas, sem saber o que fazer. Os meus pés sangravam e já mais ninguém passava por aqui, ainda que mais vidros a partirem-se fossem ouvidos ao longe.
-Blasfémias! – Explodiu Rose, perdendo toda a beleza que tinha. Fiquei assustada. Aquele lado negro da minha irmã surgia cada vez mais frequentemente. E eu dei por mim a ter medo dela.
-Recusam a minha ajuda? – Rose fitou a nossa mãe e o nosso irmão, fazendo os dois recolher do seu sítio. – Idiotas! Irão morrer! – Suspirou, tentando acalmar-se e vi as suas feições a suavizarem.
- Vamos Claire. – Ordenou, virando costas a aquela que a parira no mundo.
E era assim. Ela escolhera o meu caminho. Nem pensara que eu poderia não querer ir. Estava a marcar-me como dela. Eu, que passara por infernos por causa dela, dei por mim a ter uma escolha. Por muitas obrigações que nosso pai lhe impunha, Rose conseguiu sempre rebelar-se e tomar as suas próprias decisões. E agora era a minha vez de o fazer.
Olhei de relance para Melanie e para a minha mãe e soube o que tinha a fazer.
Quando avancei para junto da minha mãe, irmão e melhor amiga, soube que perdera Rose para sempre. Podia jurar que ouvira o coração dela partir-se em mil e um pedaços, tal como os vidros que ela quebrara para magoar os residentes do castelo De Roquette. Soube que estava a ignorar o único membro da minha família que eu tinha a certeza que me amava. Que estava a escolher o caminho que me ligaria ao destino traçado pelos Fados.
Ao virar-me para o lado que eu escolhi, deixei cair uma das minhas rosas brancas. As outras haviam, de alguma forma, caído da minha mão enquanto corria. Rose pegou nela e desapareceu para sempre. Até hoje pergunto-me que significado teria aquela rosa branca para a minha irmã. Se alguma vez a iria ver. Se alguma vez a quereria ver…»
Raphael soube que não podia questionar Claire muito mais, ainda que ainda tivesse muitas perguntas para fazer. Ela chegara ao seu limite e agora o melhor a fazer seria descansar, já que a aurora não tardava a chegar.
Ele fez questão de colocar mais madeira na fogueira, para que esta não se apagasse enquanto eles dormiam e deitou-se no canto oposto ao de Claire. A noite estava fresca mas não era isso que o impedia de dormir. Imaginar o corpo que dormia ao seu lado a passar por tudo aquilo que passara antes de fazer os sete anos era difícil. Era muito mais do que as crianças de prisioneiros passavam. Ou até as filhas dos camponeses que passavam fome. Como ele sabia? Porque perguntara a Melanie no único dia em que ela podia falar com ele. Quisera saber tudo sobre a vida dela e não fora para sua surpresa que a descoberta do mundo para além dos salões fosse mais agradável do que tudo aquele em que ele vivera.
Ele não sabia o que fazer assim que voltasse. Se iria lutar juntamente com os outros homens ou se ficaria junto de Claire. Era uma decisão que teria que tomar o mais cedo possível.
Ouviu a rapariga tremer de frio e, ignorando qualquer protesto da sua consistência, aproximou-se dela e abraçou-a nas costas. Claire sobressaltou-se, mas não o afastou.
-Nunca me irás abandonar, pois não? – Longe de ser ríspido, soou um tanto desesperado.
-Não. – Respondeu ele, beijando a têmpora dela suavemente. – Tal como o padre do nosso casamento dissera, estamos unidos até que a morte nos separe. - Ela arrepiou-se com o toque quente dos lábios dele mas rapidamente acomodou-se nos braços dele.
O silêncio reinou, as chamas da fogueira a estalar e o vento selvagem a correr os prados montanhosos das Terras Altas batendo nos seus obstáculos com a força de um chicote.
-Sempre me senti sozinha. – Sussurrou Claire ao fim de algum tempo. Falou tão baixo que Raphael demorou um pouco a interpretar o que ela dissera, temendo que ela não se quisesse repetir.
-Por causa de Rose? – Interpretou, cauteloso. Claire confirmou com a cabeça, levemente.
-Ela marcou-me. Depois disso, nunca mais pertenci a ninguém. Melanie é minha amiga, mas temo sempre perdê-la. Há uma parede que me separa dela, nem a lealdade a ultrapassa. Meu pai sobreviveu aquele dia, mas morreu uma semana depois devido a graves ferimentos. Meu irmão morreu mais tarde, tal como os Fados previram e a minha mãe também. Só restei eu.
-Tens-me a mim. – Disse ele, antes que se pudesse controlar. Claire abafou uma gargalhada seca.
-Não será por muito tempo.
-Claire, nunca te irei abandonar. Prometo.
Ela não respondeu. Não falava de companhia. Nisso ela tinha Melanie até o seu dia da sua morte. Ela falava em algo mais. Algo mais forte que ela temia sentir por alguém.
Porque ninguém pode amar Claire De Roquette. Não quando Rose De Roquette encontrava-se por aí, assassinando traidores à coroa da Rainha Negra. O seu reinado expandira-se rapidamente, enquanto o diabo piscava o olho e em poucos anos o mundo onde Claire nascera desaparecera. Ela era agora uma mulher.
Mas uma mulher marcada…
E eis que, lá e cima nas alturas mais superiores do Universo, os Fados abanam as suas cabeças – fingimos que eles têm cabeça, pois senão não se pode comparar as suas reacções aos comportamentos dos mortais – perante tamanha idiotice. Claire era marcada sim. Mas só o seria se ela quisesse.
As marcas do destino podiam facilmente desaparecer. Rose, Claire, Raphael, Melanie, Bruno… estava tudo interligado.
O elo mais forte é aquele que sobrevive às mais duras batalhas e que, no final, conquista a felicidade que tanto procurava. Ou pelo menos a paz de espírito. Raphael sabia disso perfeitamente. Homem de batalha, com vinte anos já enfrentara inúmeros duques e condes pretensiosos em duelos até à morte e em todos saíra vivo e vitorioso, para além de ter enfrentado um grupo de rebelde e liderado cem soldados para o prado próximo da Fronteiras entre as duas Terras. E, tão jovem capitão como era soldado, saíra vitorioso. O povo aclamava-o como herói de guerra, excelentíssimo futuro rei. Porque eles não sabiam do lado mais negro de Raphael. Nem tampouco do seu lado mais branco. As zonas acinzentadas eram as mais visíveis para todos. Ninguém era excepção. E o elo mais forte era aquele que controlava esses lados negros e puros. Era aquele que sabia quando devia ser forte e quando podia mostrar inocência e emoções. Era aquele que aguentava até ao fim.
A vida era um jogo de xadrez e os Fados disputavam um jogo amigável entre o bem e o mal desde o inicio dos tempos. Controlando peões, torres, reis e rainhas, os lados viviam em constante disputa, nunca o jogo completamente terminado. Para cada rei morto, um novo renasceria, para cada cavalo, mais um surgia. A batalha continuava. E as peças que permaneciam em jogo eram as mais fortes.
Escusado será dizer que, num jogo, todos pretendem chegar ao fim, ganhando ou perdendo. Todos querem ser os elos mais fortes.
Porém, Claire não o era. Pelo menos agora. Naquele momento, Raphael era o elo mais forte. Era ele a Rainha que protegia o Rei. Era ele que estaria sempre do lado de Claire até ao fim.
Porque os Fados não jogam jogos por brincadeira. Oh não, eles escolhem sempre os verdadeiros amantes como peças principais. Até porque os Fados – comparando-os as humanos com prazeres mundanos – têm um certo prazer sádico em ver amores despedaçados em tempos de guerra. Verifiquem os registos! Claire e Raphael não foram o primeiro casal de apaixonados com relações complicadas (se não impossíveis). E muito menos serão os últimos.
Não, o jogo continuava. A busca pelo elo mais forte continuava.
E assim, a mulher marcada dormiu junto do homem que a protegeria sempre. O único que o único que receberia o seu coração, o único que alguma vez teria a hipótese de lhe gerar um filho. O único que levaria o Rei à vitória, destruindo a marca do Destino.
Foi aí que os Fados repararam. Esqueceram-se de mencionar essa parte na bênção de Claire! Mas, como Fados interessados que eram, encolheram os ombros – fingindo que eles tinham ombros para encolher – e continuaram a jogar, desta vez cada vez mais atentos.
Porque eles sabiam que a batalha final estava a chegar.


Sabem aqueles momentos em que mulheres orgulhosas ganham um ódio profundo aos homens eficazes e versáteis ao vê-los realizarem tarefas um tanto difíceis como se fosse tão fácil como levantar um saco de arroz?
Bem, Claire passava por um desses momentos. Ver Raphael a cortar troncos de uma árvore com o seu punhal e com esse mesmo punhal fazer uma espécie de cana para pescar era aterrador. Fazia sentir-se inútil.
E não ajudava nada o facto de, duas horas depois, estavam os dois a jantar excelentes pescadas e com um cesto com meia dúzia.
-Como conseguiste? – Perguntou ela, tentando esconder o orgulho ferido. Raphael olhou para ela de lado, sabendo como ela se sentia. Felizmente, ele era esperto e soube que não deveria esfregar a sua vitória na cara dela.
-Viste as minhocas que apanhei? Usei-as como isco. – Respondeu ele, cuspindo uma espinha para o chão.
-E como sabias disso?
Raphael encolheu os ombros, tentando parecer despreocupado. Todavia, ele sabia que estava a pôr Claire ainda mais furiosa.
-Alguns dos soldados que estiveram ao meu serviço eram pescadores. Sabes como é, eram jovens, queriam aventura e regalias e a guerra dava-lhe isso. Acho que eles tiveram sorte. Não me lembro de nenhum pescador que não tivesse voltado para casa.
-Fantástico, eu conheci pescadores toda a minha vida e nunca nenhum me contou isso!
-Provavelmente porque nenhum deles achasse que algum dia irias pescar. – Comentou Raphael naturalmente, apercebendo-se tarde de mais do seu erro. Claire lançou-lhe um olhar penetrante.
-Ou seja, achas que mulheres não devem pescar? Demasiado fracas para isso?
Raphael engoliu em seco. Aquilo era território perigoso. Felizmente, era fácil de contornar.
-Acho que já te dei o meu parecer acerca desse assunto. As mulheres são extremamente eficazes, mas há homens que não o acham. De qualquer maneira… - Raphael relaxou um pouco ao ver o olhar violeta de Claire suavizar. Todavia, ele ria-se por dentro. Até era divertido ver Claire zangada. – Qual é a probabilidade de tu parares num rio para pescar nestes dias?
Claire ergueu o sobrolho e olhou em volta como resposta. Raphael revirou os olhos.
-Sem homem? Tu raramente sais das tocas. É perigoso.
-É claro… - respondeu a rapariga, sarcasticamente. – Preciso sempre de um homem para me proteger as costas. E considerar que já fiz milhares de viagens sem que ninguém me apanhasse. Viagens em que nem sempre eu levava comida suficiente para ida e volta. É bom saber que existe confiança no sexo feminino.
Sem dar hipótese de Raphael contra-argumentar, Claire levantou-se e afastou-se em direcção à floresta. Raphael grunhiu e, sussurrando algo muito semelhante a “mulheres”, levantou-se também e preparou-se para a viagem.


-Durante quanto tempo vais ficar chateada comigo? – Perguntou Raphael, ao fim de umas horas. O sol começava a pôr-se e Claire ainda não falava com ele.
Esta ignorou-o, empinado o nariz num ar indignado e seguindo em frente. Raphael tinha agora a certeza de que ela estava a troçar dele.
-O que queres que eu faça para que me perdoes? – Tentou mais uma vez, e acelerou ao ver que Claire afastava-se cada vez mais. Habituado a andar com quatro patas, Raphael ainda habituava-se ao seu ritmo de duas pernas. Além disso, Claire era ágil como uma lebre.
-Cala-te. – Foi a resposta dela e Raphael soube que ela se estava a divertir da desgraça dele. Naquele momento, ele amaldiçoou as mulheres por fazerem a ida dos homens mais difícil.
O tempo começava a piorar, visto estarem longe de Niflheim. Uma espessa camada de neve cobria os prados montanhosos. Por sorte, não estava muito vento. E Raphael ansiava por estar outra vez nas tocas. E ver Bruno e falar com ele pela primeira vez em quase treze anos.
De repente Claire parou. As árvores haviam desaparecido, chegaram a uma clareira. Raphael sabia que agora tinha que ser cautelosos, pois bestas podiam surgir vindos de qualquer lado e não havia locais para se esconderem. Mas não parecia ser isso que fizera Claire parar.
No centro da clareira, sobre o manto branco, postava uma rosa pintada em vermelho vivo aberta com um caule cheio de espinhos e uma única folha verde.
Claire ficou petrificada, o rosto pálido e os olhos maiores que o normal, ao olhar aquela lindíssima rosa. Raphael soube no que ela estava a pensar.
O código entre as duas irmãs. O significado da rosa vermelha.
Rose queria vê-la.
E Raphael sabia que, em tempos como aqueles, aquilo que a Rainha Negra queria, ela sempre conseguia.

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Curiosidade: Não sei se já disse, mas As Rosas De Roquette foram uma ideia original minha mas ganhei inspiração ao ver Snow White, a Tale of Terror, com a Monica Keena com o papel principal. Após tanto remoer a tola e rever o filme, cheguei á conclusão que a Monica naquele filme tem a aparência mais próxima da Claire De Roquette que eu imaginei. Por isso, aqui está:
Spoiler
Claire De Roquette
As rosas De Roquette - Página 2 Claire10
-Para quem leu a minha primeira fanfic A Guardiã dos Sonhos, aviso que estou a fazer uma revisão dos capítulos e a reescrevê-los. Já encontrei erros graves e, para além de corrigi-los, alterei um pouco a história pois quando comecei a escrever não fazia a melhor ideia de como acabá-la (ex. A estupidez que é Linda ir á Universidade de Medicina com as outras raparigas para ver rapazes passarem por uma linha de solteiros ou comprometidos? Tipo, o que raio eu estava a pensar ao escrever aquilo?) Para quem quiser...
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




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#55
Yeih! novo capitulo! Delicia! Embaracoso Sinceramente, Ana, só queria ter a tua vontade para escrever! Ando mesmo chocha! Mal disposto' Apesar de estes últimos dias me apetecer escrever, não posso porque tenho de tirar a porcaria da carta de condução e fazer trabalhos para a faculdade! Mal disposto' Que raiva! Quando eu tiver tempo, já não vou querer escrever! Mal disposto' é o costume!
Enfim, passando ao que realmente interessa, parece que passaram anos desde que li o capitulo anterior, tanto que até tive de parar para reflectir o que tinha acontecido antes e eis que me lembrei! Então, a Rose não deixa de surpreender. Como se não bastasse cometer um genocídio de duendes ainda assassinou de forma abrupta o pai (e a aia, calculo). A Claire é um sujeita traumatizada, sem duvida. Às coisas que ela viu na infância, não podia ser, de todo, 100% normal! Não admira que seja especial. Os fados ditaram-lhe o destino, mas Rose, quer queira, quer não, contribuiu para a concretização das profecias relativas à irmã! Se ela não se tivesse tornado tão malvada, a Claire não teria um destino tão marcado! E por falar em Marcado, custa-me pensar que a Claire sinta que o Rafael não estará ao lado dela por estar marcada! Mal disposto' Em contrapartida, eles são tão fofis! Esperancoso
Têm a típica relação "toma lá, dá cá" mas sempre com a cautela para não passar aquela linha invisível que marca o que já é demais!
Agora, outra coisa importante. A rosa vermelha... Medo! Afasta Estou com curiosidade para saber o que quer a Rose da Claire!
Olha, honestamente, gosto mais desta imagem da Claire do que da Outra que deste! Sempre a imaginei mais assim do que como tinhas mostrado na outra imagem! E já agora até gostava de saber como imaginas o Raphael e a Rose! Wink

Ah, estás a rever a fic? Mais uma vez repito, só queria ter a tua vontade! Sei que tenho cada gafanhoto em angelical... Jesus Christ! Desiludido Hahaha, mas realmente, só agora é que uma pessoa vê o quão parvas foram certas coisas que escrevemos. Eu ainda me lembro de umas passagens absurdas que escrevi na minha primeira fic e mesmo na ultima! God, só passando pelas experiências é que as podemos relatar! Toma toma

Bem, fico à espera de actualizações! Very Happy
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#56
Hei lulu, que saudades Matreiro
Para começar, esta imagem é o que imagino de Claire De Roquette. A outra imagem (a ruiva) era o que eu imaginava de Rose De Roquette. Aliás, Bruno e Raphael são os únicos dos cinco principais que não têm imagem, porque não tenho ideia concreta na cabeça ao contrário das raparigas.
E eu também não tenho tido vontade nenhuma. Como disse o inicio, andei este mês a sentar-me em frente ao pc a fazer trabalhos e outras coisas mas nunca conseguia escrever. Até que ontem deu-me uma epifania e prontex...
Estou a rever A Guardiã dos Sonhos porque os primeiros capítulos ajudam-me e até porque não fazia a mínima ideia do que estava a escrever quando comecei. Decidi alterar isso. Até ao Capítulo 14 vão haver muitas alterações mas a partir daí penso que será tudo quase o mesmo. (O Epílogo acho que nem vou mexer). Há alguns detalhes que estou a alterar, como a cena de fuga. Linda estava no palácio e não na herdade da família (a mesma herdade do epilogo).
Para não falar dos erros de sintaxe e ortográficos. Que medo... Desiludido

Ah e claro. Muito obrigada pelo comentário e espero por um capítulo teu menina.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




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#57
Não.... não é um capítulo... é um aviso de autor.
Sei que todos detestam isso, mas tem que ser. Prefiro assim a ficar meses sem aparecer por cá e nem dizer nada.
Vou ter que ser honesta. O próximo capítulo (que se chamará Veia Escarlate) está quase pronto, mas vai demorar muito tempo a postar. Tenho exames aí perto e isso é completamente lixado. Hoje escrevi um bom pedaço e agora paro durante, pelo menos, três semanas. Posso dizer que este está a ser dificil porque tenho que lidar com muitas emoções e ultimamente tenho estado muito seca para essas coisas. Daí que tenha vindo a escrever um pedaço de cada vez e parado umas outras milhares para reflectir naquilo que tou a fazer. E digo já que este pode demorar ainda umas semanas extra porque recuso-me a falhar neste capítulo. Não vou acabar e postá-lo logo, porque sofro de algo chamado perfeccionismo no que toca à escrita. Este capítulo terá que estar às minhas expectativas!
E resumindo, era isto que tinha a dizer. O capítulo vai demorar porque:
a. Exames
b. Perfeccionismo
c. Dificuldade em expressar-me.
Mas o capítulo vem aí.... Antes dos finais de Fevereiro, entendido? Por isso não desistam de ler!
No próximo capítulo irei fornecer um resumo dos capítulos anteriores, para se relembrarem do que aconteceu anteriormente na história. Wink

E antes que me esqueça, mostro aqui as fotos de como imagino quatro dos cinco protagonistas. Infelizmente, não consigo arranjar um Bruno decente e nem me vou dar ao trabalho de procurar, mas andava sempre com duas caras na minha cabeça para Raphael e depois, ao ver os dois actores consegui decidir-me (imaginando-me como Claire) em qual deles preferira ver nu depois de uma longa transformação mágica Matreiro
Fora essa, as outras são as mesmas mas é apenas para relembrar.
Spoiler

Melanie
Actriz: Angel Coulby
Baseada em: Guinevere Pendragon da série Merlin e Bonnie Bennett da série Vampire Diaries
As rosas De Roquette - Página 2 Melani10

Claire De Roquette
Actriz: Monica Keena
Baseada em: Lilianna em Snow While, a Tale of Terror

As rosas De Roquette - Página 2 Claire10

Rose De Roquette
Actriz: Rachel Hurd-Wood
Baseada em: Inocência/Beleza - Wendy Darling de Peter Pan; Malvadez: Katherine Pierce da série Vampire Diaries

As rosas De Roquette - Página 2 Rose10

Raphael
Actor: Jim Caviezel
Baseado em: Não há personagem concreta em que eu me baseara. Contudo, a mais aproximada seria James Potter de Harry Potter pois este era um rapaz arrogante e malvado quando era novo e que depois amadurecera no homem que o filho tanto admirava.

As rosas De Roquette - Página 2 Raphae10

Desejo a todos os universitários uns bons exames... porque nós vamos precisar Desiludido
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




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#58
Olá Ana! Very Happy

Li os capítulos em atraso (sim, mais uma vez, shame on me, Embarassed ), e senti-me numa autêntica montanha russa. Nos capítulos que li; os quais vou ser franca, me souberam mesmo a muito pouco (não vou choramingar por mais, porque sei o que é ter falta de tempo, mas acredita vontade não falta!); senti alegria, pavor, por momentos tenho a certeza que, inconscientemente, quase sustive a respiração, tal a expectativa do que viria a seguir. Foi fabuloso, céus já não me lembrava como amo as tuas histórias!

Fico feliz que estejas a rever a Guardiã dos Sonhos! Amei essa história, não me importo de ler novamente! Wink
Não achei parva a ideia da fila de solteiros, até achei imensa graça, não foi assim tão disparatada como imaginas. Smile

Então tal, como fiz com a lulumoon, vou comentar cada capítulo individualmente.

Branca de Neve

Não gostei muito do facto do Bruno manter a Claire afastada das reuniões, o que ela faz é também uma parte muito importante, felizmente o Kedar não é tão casmurro quanto o Bruno.
Fiquei impressionada pelo Raphael ajudar na construção dos túneis, cada vez gosto mais dele. Smile
Apesar de já simpatizar com a Melanie, foi interessante saber que ela também tem um lado vidente e tal como Kedar suspeitou logo quem Urso era de verdade. E foi bom para Raphael saber que tinha a confiança dela. =)
A ideia que ele deu para a madeira foi genial, e quando elas treparam para as costas dele, lembrei-me logo duma cena do filme "A Bússola dourada", não sei se viram mas há uma cena semelhante com a protagonista. A cena que descreveste é fabulosa.
Achei muito querido da parte da Melanie deixá-los a conversar sozinhos, ficando para trás propositadamente. E aquela conversa foi importante para o Raphael conhecer melhor a Claire. Conseguiu deixá-la suficientemente feliz para dar uma gargalhada, acho que só mostra o quanto ela gosta dele. A cena com as bolas de neve foi amorosa, tão cute. Esperancoso
O empurrão da Melanie vai ser fundamental para o Raphael, acho que não fora isso, e ele ficaria para sempre urso para estar ao lado de Claire.

Equinócio exacto

Cada vez admiro mais o Raphael, preferir suportar dores atrozes só para não sair do lado de Claire. Ele está maduro, bastante diferente e claramente muito apaixonado. Esperancoso
Aquela conversa com Melanie fez toda a diferença, ainda bem que o ajudou a decidir-se, quero que ele volte ao normal!
E a Claire estava tão fofa a contar histórias às crianças. Simpatico2
Nunca pensei que Claire o abraçasse depois de saber a verdade... Surpreso que bom! Super contente

A Fuga

Por acaso também já conhecia a história do Encontro em Samarra. A conversa entre eles foi emocionante, o Raphael lembrou-me o David, estar disposto a afastar-se da pessoa que ama, para que ela esteja feliz. Lagrimas Ele está tão diferente, espero que independentemente do que aconteça, e apesar de teres dito que isto não é uma história de amor entre homem e mulher, e sim entre irmão e irmã (que eu interpreto como a relação entre os dois irmãos e as duas irmãs), que no final a Claire seja feliz com o Raphael, ambos o merecem.
Não foi surpresa descobrir que Kedar já sabia a verdade, isso já tinha ficado subentendido anteriormente. Confesso que gostei de ver a Claire perder a compostura, mostrou um lado desconhecido dela. Tenho pena de Bruno, ele ama a Claire e ela nunca vai corresponder. Imagino que seja um choque, mas uma imensa alegria ver o irmão voltar, mas perder a mulher que ama para ele...pergunto-me se levará isso a bem.

Ana e Cat - adorei o teu lado louco! Super contente Devia aparecer mais vezes!

A Jornada

Fiquei com curiosidade para saber o que estava por detrás daquela porta, há realmente uma besta? Pensativo 2
Não imaginas como amei a descrição da vida do Raphael com o irmão mais novo, mostrou um lado tão terno dele. Esperancoso

"Bem-vindo a Niflheim"
Não sei porquê mas quando li esta frase, senti que aquele era um sítio sinistro.... pale

Eu achava as cenas em que a Claire montava o Raphael extraordinárias, como a lulumoon mencionou só mostrava o quanto eram próximos, e só o facto de imaginar um humano a fazer isso com um animal selvagem já é algo digno de nota. E eu na minha inocência, Razz, achava uma cena fantástica, isto é, até a lulumoon ter feito o seguinte comentário que passo a citar "ai e gosto mesmo muito quanto a Claire monta no urso (esta soou-me estranha! )".
Pronto acabou-se!
Tu nem imaginas o que ri à custa deste comentário, e continuo a rir, até agora, enquanto escrevo! LOOOL
Agora cada vez que imagino a Claire montar o Raphael, kekeke, Tramar alguma, desmancho-me a rir!


Os salteadores de Niflheim

Adorei a história que a Claire contou sobre o início da Terra, ela tem muito jeito para contar histórias, e tenho de dizer que adoro cada momento em que a Claire e o Raphael conversam, todas as vezes têm sempre um significado profundo, nesta percebe-se perfeitamente o quanto ambos amam os irmãos apesar de tudo. Uau, magia nas barbas, esta eu não esperava! Razz

O Regresso do Príncipe

Ai achei tão querido o Raphael! Ele ficou tão feliz quando voltou ser novamente humano! Que bom! Esperancoso
Que engraçado terem ficado ambos embaraçados quando o Raphael ficou sem roupa,loool. Oh Claire com uma visão dessas não se virava o rosto, tss tss, estas raparigas. Hum será que ela espreitou quando ele se estava a vestir? kekeke. Tramar alguma
Oh céus fiquei completamente derretida quando ele se apercebe que a ama mais do que imaginava. Apaixonada

"Ela tinha medo de cometer um erro? Ele é que passara doze longos anos na pele de um urso. Doze anos sem sentir o toque de uma mulher e que agora estava ali frente a frente a uma, cujo corpo nunca fora tocado por nenhum homem e que lhe pertencia legalmente. E ela é que tinha medo de cometer um erro?"

Tive tanta vontade de rir com isto! Tramar alguma

O resto do capítulo foi maravilhoso! Desde o beijo até à divertida cena da maçã, foi encantador. Amei!

O destino de Bianca e Scarlett

Para mim este capítulo foi aterrador. Acho que não voltarei a lê-lo.
Foi um capítulo importante, foi possível ver uma faceta de Rose desconhecida até então, e colocou-a sobre uma nova perspectiva. Creio que ela não é a vilã que se supunha, no final das contas a única coisa que sempre quis foi proteger a irmã daquele mundo, tal como fez Raphael. Fiquei aterrada quando elas fugiram do palácio e foram encontradas por aqueles salteadores, temi o pior. Pensei que Rose fosse realmente violada e foi uma cena que me custou a ler.
Finalmente a história como Rose se tornou dona de magia foi também revelada. Mas tudo o que Claire passou, apunhalando um homem para salvar a irmã e vendo depois toda aquela carnificina na cidade dos duendes, foi horrível para alguém tão pequeno, foi traumatizante. Agora ainda admiro mais Claire.

A Rosa vermelha

Fiquei boquiaberta, a Rose provocou a morte ao próprio pai. Realmente eu também fiquei profundamente enojada com a cena, mas daí a matá-lo...
A Claire teve de tomar a decisão mais dificil da sua vida ao recusar ir com a irmã. Fiquei com imensa pena dela. Beicinho
Fiquei maravilhada quando escreveste sobre os Fados, li cada palavra com a maior atenção, e fiquei muito contente por saber que com a proteção do Raphael a Claire vai vencer! Very Happy
Que cómico o Raphael, ele a fazer troça e ela a ficar toda ofendida, que cute. Simpatico2

Rosa vermelha, muito mau sinal! Afasta

Já vem acabar com o romance destes dois, sniff. Lagrimas

Até ao próximo capítulo!

Beijinhos*





#59
(Não faço a mínima ideia do motivo de eu não ter recebido nenhum email de notificação acerca deste tópico. Só reparei agora no comentário da Bun mesmo por acaso, ao comentar a fic da Lulu).

Oh Bun, adorei ler os teus comentários! Esperancoso Tenho pena que te tenham sabido a pouco e estou a tentar melhorar nesse aspecto. Só me faltam três capítulos para terminar e quero fazer isso decentemente.
Acerca do Raphael... Se eu passasse esta história para livro, seria toda do ponto de vista do Raphael. Ele era a melhor personagem para o efeito, ao invés de Claire ou até mesmo do "narrador". Adorei imenso escrever sobre ele. Um homem que sofreu em solidão, experimentando o salto da arrogância para a humildade.
Oh não... e voltamos ao mesmo. Já foi o mesmo com "A Voz" na Guardiã dos Sonhos. Agora vais ficar naquela de quem é a besta Matreiro Infelizmente, só saberão daqui a dois capítulos porque o próximo será sem grande acção (quero dizer.... >.> deixa pra lá).
Ai minhas perversas!! Super contente A cena de Claire a montar o Urso realmente inspirei-me na Bússola Dourada, mas nunca tive assim ideias tão... perversas! E eu parto-me a rir com isso Matreiro
O capítulo mais difícil de escrever foi sem dúvida alguma O Destino de Bianca e Scarlett. A cena dos salteadores escrevi-a quando estava de mau humor, ou seja, não tinha muita atenção ao que estava a escrever. Ao reler, fiquei enjoada e tive que refazer a cena e cortar detalhes. Mas não a pude eliminar. Não conseguia. Precisava de motivos sólidos (explico mais a abaixo) e também de ser realista. Naquele tempo, assaltos eram muito comuns nas estradas, mesmo aos nobres. Qual era a probabilidade de duas raparigas, uma de doze e a outra de cinco, conseguirem fazer a caminhada mal planeada sem recursos e até mesmo sem qualquer perigo? Os salteadores acabariam por aparecer na viagem, mas também não as queria muito longe.

No que toca à faceta de Rose. Rose detestava a autoridade. Charles era a autoridade. Não podia imaginar outro fim para ele do que a morte provocada pela própria filha. E sim, Rose não é a vilã do costume. Eu tinha dito que o motivo dela era (e agora cito-me a mim própria Matreiro) o cerne da opinião de qualquer mente sensata que estudou a história das classes sociais.
Ou seja, as regras da classe que ela vivia. As desigualdades que o povo passava - mas em liberdade - em comparação à riqueza e ausência de amor que os ricos viviam. Rose detestava isso. Os casamentos obrigatórios, o cumprimento do dever, a falta de liberdade... Honestamente, quando aprendi o estado em que o povo viviam na Idade Média / Idade das Trevas em comparação com os nobres, fiquei boquiaberta porque não era essa a ideia que ganhara nos contos de fadas. :naive:
Daí que tivesse assassinado todos os nobres. Porque o Bruno ainda está vivo esqueçam, que é um erro. Uma alteração a meio da história Matreiro
E lembras-te de eu ter dito que estava infeliz com os acontecimentos da história? De como me custava a inserir Rose? Já tratei do assunto. E penso que já devem ter reparado.
Acerca do romance. Parem de olhar por esse prisma! Eu ainda posso matar um desses dois, entendido? Principalmente se eu não me sentir muito romântica nesse dia e agora têm sorte de eu não escrever o final no dia de São Valentim
No que toca à escolha de Claire. Se formos a ver, ela tinha motivos concretos para não escolher a irmã. Todo o mal que ela vira em toda a sua vida fora devido a ela. A má faceta do pai, as más-línguas acerca de Raphael e do casamento, o genocídio dos duendes, os salteadores. Ou seja, ela não era normal por causa de Rose. E, apesar de tudo era uma menina. Eu acho que quando meninas se sentem ameaçadas, estas correm sempre para os braços da mãe. E, apesar dos defeitos que ponho a Hélene, nunca deixei no ar a dúvida se ela amava as filhas. Pelo contrário!
Rose não sabia o que fazer, era instável e insegura. E Claire ganhou medo. Era uma menina, queria sentir-se protegida. Não deixou de custar, pois gostava muito da irmã, mas como menina penso que isso não seria tão importante como sentir-se segura nos braços da mãe.

E o meu lado louco é capaz de não voltar a aparecer. Toma toma Sabes, só aparece quando estou assim... com os neurónios a arder. A Fac não me dá descanso, não é possível ser louca (a não ser que esta sexta eu chegue a casa com os copos e me chegue perto do computador. Ai sim, verão o meu lado louco Matreiro)
E, finalmente, a revisão completa de A Guardiã dos Sonhos ainda vai demorar. Alterei mais do que devia. Agora saltar de um capítulo para o outro parece que estamos a ler duas histórias diferentes Matreiro

Muito obrigado pelo gigante comentário e desculpa a demora Smile
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
#60
Olá gentiiii!!! Como prometi, aqui está o novo capítulo. Revi e revi e acho que ficou bom. Consegui expressar aquilo que quis nalgumas partes e explorei muitas variáveis. Mais uma vez, Rose está omnipresente mas não será por muito tempo. Matreiro
Este capítulo trai um pouco a minha ideia de anti-romance, porque houve aqui uns pedidos de determinadas leitoras (ela sabe de quem eu estou a falar) e senti uma certa vontade de satisfazer esse pedido. Daí este capítulo.
E digam-me as vossas opiniões. Assim, do género um comentário gigantesco, ok? Iria ficar muito feliz Brincalhao
E agora, antes que se esqueçam da história, vem aqui um resumo dos capítulos anteriores. Tentei fazer o melhor que podia e acho que falei do mais importante Very Happy
Spoiler

Ao contrário de muitas famílias das Terras Altas, os De Roquette tiveram a sorte dos Fados lerem o futuro dos seus três filhos. Um prevê-se que morrerá jovem, devido a doença, outra será uma marca negra, a destruição do mundo como eles o conhecem. A terceira será a salvadora.
Devido à importância de Claire De Roquette, sua segunda filha e terceira criança, Charles De Roquette arranja casamento entre Claire e o Príncipe Herdeiro das Terras Baixas, Raphael. Raphael é um jovem arrogante e frio, mas muito valente e curioso. A sua curiosidade armazena peças essenciais no seu futuro. Após o seu casamento com Claire, os instintos de Raphael levam-no a cometer o acto que levará ao seu atroz destino. Beijar a pequena menina nos lábios. A sua atitude provoca a ira na irmã mais velha, Rose, que o transforma em Urso.
Anos depois, Claire tem dezassete e é a salvadora predestinada da Resistência, que reside em Tocas subterrâneas, longe do exterior. Após a morte da mãe, Claire parte com Kedar, chefe da Resistência, para as Terras Baixas a fim de se encontrar com Bruno, irmão mais novo de Raphael. Pelo caminho, são ouvidos por uma criatura. Um urso. Este segue os viajantes até as Terras Baixas, onde Claire reencontra Bruno. Bruno revela ser um jovem arrogante como o irmão mais velho, mas que é louco de paixão por Claire. Quando Bruno vira costas, Claire encontra o Urso que não é nada mais, nada menos do que Raphael. Este salva Claire das bestas e fala com ela, para espanto da própria, explicando que Rose tirara-lhe tudo, mas omitindo a sua identidade. Urso volta com Claire e os outros para as Tocas e assim nasce uma forte amizade entre os dois e até mesmo entre Melanie, melhor amiga e antiga serva de Claire.
Enquanto os homens planeiam um ataque às Trevas, as mulheres e Urso criam um túnel de modo a socorrer os soldados feridos em plena batalha. Quando o túnel está quase no fim, no equinócio de primavera, Melanie convence Urso a revelar a sua verdadeira identidade a Claire. Esta surpreende com a sua reacção, ao abraçar o marido. Urso promete anular o casamento caso Claire o ajude a transformar-se em homem outra vez. Apesar de parecer seguro da sua decisão, a escolha dói a Urso, pois apaixonou-se por Claire durante o tempo que esteve com ela, acabando por a ver com diferentes olhos. A sua decisão prova a todos o quão diferente ele era do seu eu mais novo.
Os dois partem em direcção a uma gruta, onde Claire a atravessa, revelando que chegaram a Nilfheim. Após explicar as origens da terra, Claire recolhe uma capa vermelha com vários fios prateados e inicia o feitiço necessário para pôr Raphael de volta ao normal. Quando este se vê humano, agradece a Claire. É aí que a jovem fica confusa pois os momentos seguintes que passa com Raphael fazem-na mudar de ideias a cerca de seu respeito. A pedido do homem, Claire conta a história da terra, de como ela e Rose a encontraram e de como a irmã obtivera o poder para o transformar em urso, para além dos acontecimentos após o seu desaparecimento, em que levaram à morte de Charles, ao exílio de Rose e à escolha de Claire.
No retorno às tocas, a relação dos dois cresce, confundindo Claire cada vez mais. Mas os seus pensamentos são interrompidos quando vê uma rosa vermelha no meio da neve. Um antigo código de que Rose a quer ver.
E, sem mais demoras, posto aqui o novo capítulo!
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Veia escarlate

O túnel estava pronto. Os treinos cessaram. Agora todos os residentes das Tocas, crianças incluídas, contavam as horas para o nascer do sol, quando iriam atacar o reino Oeste das Terras Altas. Haviam obtido importantes informações de espiões fiéis que passaram semanas escondidos ao relento, procurando a exacta localização da Rainha Negra e do seu castelo com sucesso. Dos quatro enviados, só um regressara vivo. Kedar preocupou-se com o facto, a ideia de Rose ter torturado os pobres homens em busca de informações a passar-lhe pela cabeça. Também temia que o ataque já não fosse surpresa. Temia que todo aquele esforço fosse apenas custar vidas. Os homens haviam treinado, por entre descampados vigiados e tocas mais amplas, até terem alcançado o nível de rapidez e excelência de guerreiro exigida por todos os reis rígidos.
Eles tinham soldados, armas, estratégia, localização.
Bastava agora saber se teriam sorte…

Melanie afastou as grandes mantas das cadeiras de madeira. Os homens haviam decidido fazer um simples banquete, uma espécie de despedida para quem iria lutar amanhã. Ou seja, todos os homens jovens e válidos. E Melanie temia por esses homens, especialmente aqueles que ela considerava amigos. Eram pouco mais que uma centena, muitos deles ainda com barba a nascer e iam amanhã para a guerra, feitos homens adultos que tudo no mundo haviam vivido.
Ela sabia que todos eles procurariam o conforto de uma mulher naquela noite. E também sabia que muitas das suas antigas companheiras no castelo De Roquette iriam encorajá-la a passara a noite com um dos soldados. Melanie preferiu abster-se e tentou evitar contacto com homens nos últimos dias, sabendo que a maioria procurava uma amante já em antemão. Melanie era jovem e formosa, possuía muitos dotes que muitas jovens da sua idade invejavam nela, mas era o género de rapariga que nunca pensara duas vezes nos aspectos físicos e matrimoniais. Nunca pensara em casamento. Não quando a sua melhor amiga parecia condenada a uma vida encarcerada por correntes invisíveis, seguradas pelos malditos Fados que, infelizmente, ela tão bem entendia. E ela rogava pragas ao dom da sua família ao se aperceber como este afectava alguém que ela tanto amava.
Nunca desejara tanto que Claire chegasse com Raphael como naquele momento. Desejou que ela estivesse ali, perto de si. Sem Claire, sentia um vazio no coração, como se perdesse parte de ela mesma. Muitos julgavam-na louca por ser amiga da sua patroa, mas ela não podia evitar. Claire era como uma irmã para ela. Era um daqueles laços adquiridos que nunca mais perderia. Mas já havíamos reflectido acerca do laço das duas, não? Claire sentia uma muralha a separá-la e Melanie não era indiferente a essa mesma muralha. Mas que tipo de amiga seria ela para desistir? As regras da amizade eram surdas e mudas e nunca ninguém aprendeu a escrevê-las. Porque, felizmente, os Fados tornaram-nas inatas para os meros mortais que habitavam aquelas Terras. Melanie não precisava que ninguém lhe dissesse o que fazer no que tocava a Claire. Como sua melhor amiga, esperaria por ela. Esperaria que ela se encontrasse, que deixasse aquela muralha que ela erguera involuntariamente e que voltasse a ser a pequena rapariga que lhe desejara um feliz aniversário atrasado.
À sua volta, mulheres e homens passavam, todos sempre com algo para fazer. Poucos haviam comentado a ausência de Claire e de Urso. Poucos haviam sentido necessidade de os ter por perto.
Daí que Izabele e a filha Tanya, quando estavam na sala próxima da entrada, revendo planos para o banquete, espantaram-se da porta se abrir e verem uma jovem morena e um homem entrarem por entre a porta de madeira. As duas cabeças tornaram-se para as duas mulheres, estas assumindo semblantes de espanto.
-Claire? – Izabele reconheceu a rapariga mal a surpresa passou, mas o outro indivíduo ainda a assustava. Havia algo familiar em como os seus olhos escuros brilhavam ou até mesmo a forma como ele respirava, tal homem seguro de si mesmo. Izabele não era uma mulher estúpida. Sabia reconhecer um sobrevivente quando o via. Mas o seu instinto dizia que ele era algo mais.
-Voltamos Izabele. – Respondeu Claire, olhando Tanya e Izabele com apreensão, entendendo que estas desconhecessem a identidade de Raphael. Provavelmente estranhavam ela ter partido com um urso e retornado com um homem.
-Quem é ele? – Perguntou Tanya, timidamente. A rapariga cruzara os braços, como se estivesse encolhida e não tirava os olhos de Raphael, não escondendo um pouco o medo que era ver uma nova cara nas tocas.
-É melhor chamarem Kedar, Melanie e Bruno primeiro. – Retorquiu a jovem, não escondendo algum nervosismo. Ao seu lado, o homem (que aparentava ter o dobro da idade de Claire e Tanya) era de longe a pessoa mais calma da divisão.
-Vossa graça, pode por favor acalmar os nossos corações e dizer-nos quem é este homem. Nunca o vimos por aqui! – Disse Izabele, o seu rosto contraído numa expressão insegura, como se ponderasse no que haveria de dizer. Já sabem como era a fama de Claire pelas tocas. Para uns ofendê-la era um crime grave, mas naquele caso a curiosidade Izabele e o seu medo dominou a sua submissão a leis estúpidas.
Claire suspirou pesadamente, olhando para Raphael antes de responder. Este encolheu os ombros, indiferente.
-Este é o meu marido, Raphael, herdeiro do Supremo Reino das Terras Baixas.


Melanie quase que saltou para os braços da amiga assim que a viu, apertando-a contra si com todas as forças que tinha.
-Voltaste. – Disse, sorrindo aliviada contra a pele fria da amiga. Claire correspondeu ao toque com igual sentimento, ignorando as pessoas que chegavam para vê-la. Kedar surgiu e os seus olhos iluminaram-se ao ver Claire e Raphael vivos ali nas tocas. Aproximou-se do homem, que observava Melanie e Claire alegremente e estendeu uma mão. Raphael olhou duvidosamente apenas por uns segundos. E depois apertou. E agora vejamos que acto mais significativo que temos aqui. Este aperto de mão, feito por um príncipe e um plebeu, significa muito mais do que união de duas classes sociais. O topo da hierarquia e a sua base. Significava também maturidade. Para conhecermos o verdadeiro carácter de um homem, vejamos como ele trata os seus inferiores. No passado, Raphael não seria tão supuro. Agora tudo era diferente.
Enquanto Kedar perguntava a Claire detalhes da viagem, Melanie e Raphael entreolharam-se.
-Como te sentes? – Perguntou ela, calmamente.
Raphael suspirou.
-Humano. – Respondeu simplesmente, sorrindo. E depois, sem qualquer aviso, algo feito por instinto, pegou na mão de Melanie e beijou o seu dorso. A mão estava um pouco suja, para alguém do facto de Melanie possuir a cor da pele dos escravos. Príncipe de maior casta real nunca ousaria beijar tal menina. Mas ele apertara a mão do homem mais sábio que ele conhecia. Agora beijava a mão de uma grande amiga.
Em torno deles, as pessoas tentavam controlar a sua curiosidade tão grande de se virar para o vizinho e sussurrar acerca da vida alheia, neste caso, do facto de o legítimo rei das Terras Baixas ter recentemente regressado da cova, como era pensamento de todos, e de ter beijado a mão de uma plebeia. Mas o incomodo, o respeito e até mesmo um certo receio impedia qualquer um de abrir as suas bocas. Raphael sentia esse incómodo e tentou engolir o seu próprio nervosismo para dentro, não largando a mão de Melanie. Esta sorriu e apertou a mão dele num gesto de consolo.
De repente, o ar ficou mais pesado. E o momento que Raphael mais temia chegara.
Bruno entrou na sala, o rosto um pouco ansioso e os olhos muito abertos. Parecia que tinha corrido e o seu braço contorcia-se da mais ligeira dor, como se tivesse ido de encontro a algum objecto á alta velocidade.
Silêncio total predominou as Tocas. Todos ouviam as suas próprias respirações e todos sentiam aquele peso invisível que preencheu o espaço. Kedar tossiu suavemente e fez sinal para que todos saíssem, deixando os dois irmãos a sós. Só quando a porta se fechara é que ambos notaram que estavam sozinhos. Fitaram-se e assim permaneceram durante algum tempo. Raphael várias vezes abrira a boca para falar, mas tão depressa o fazia, tão depressa a fechava, não sabendo o que realmente dizer naquela situação. Quase treze anos sem falar com irmão, via-se agora frente a ele em carne e osso e não sabia o que lhe dizer. Da última vez que o vira, ele era um menino de doze anos, esperto e cauteloso. Agora era um homem cujo poder o corrompera quase até à raiz. Mas ele sabia que o verdadeiro Bruno ainda lá estava, escondido por entre a armadura daquele rei prematuro cujos desejos nunca foram consumados. Seu pai vira-se livre do filho mais velho e então decidira crucificar o mais novo, tornando-o numa criatura ambiciosa e arrogante. Tal como ele era antes do seu exílio nas florestas das Terras Altas.
Bruno não parecia acreditar no que via. Os seus olhos escuros examinavam Raphael de alto a baixo, procurando reconhecimento. Mas doze anos eram muito tempo. O menino fizera-se jovem. E o jovem fizera-se homem.
-Bruno… - murmurou Raphael calmamente, tentando chamar a atenção do irmão. Os olhos negros de Bruno encontraram os seus e ele soube que Bruno o reconhecera. Porque só houvera uma coisa que naqueles anos nunca mudara em si. A sua voz.
Ouviu a respiração de Bruno travar bruscamente e a boca deste a abrir-se cautelosamente.
-Raphael?
Ele sabia. Sabia que estava em frente ao seu irmão mais velho desaparecido. Sabia porque assim o seu coração o dizia. Mas a mente, sempre tão cautelosa e racional, obrigara-o a confirmar as suas suspeitas. Mas a sua voz… aquela voz profunda que escondia grandes emoções por detrás de indiferenças e alguma frieza. Essa era a voz do seu irmão agora ali completamente rendida às emoções.
Então porque chamara pelo nome dele? Porque queria apenas sentir o sabor de dizer o nome dele sem ser em vão. De chamá-lo outra vez, como antes. Em vez de o mencionar como seu falecido irmão, grande guerreiro, esposo da mulher que ele amava. Então ele quis chamar o seu irmão sabendo que, pela primeira vez em anos, teria resposta.
Raphael sorriu e aproximou-se de Bruno, sem qualquer medo. Bruno também deu um passo em frente e abraçou o irmão, puxando-o contra si com todas as suas forças, mesmo que isso significasse alguns ossos estalados. Bruno esboçou um semi-sorriso de contentamento, enquanto Raphael soltou um suspiro há muito guardado dentro de si.
-Como estás, pequeno? – Sussurrou Raphael, não quebrando o abraço.
Bruno soltou uma gargalhada aliviada.
-Nem sabes o peso que tiraste de cima de mim, irmão. – Afastaram-se, mas sem tirar os olhos um do outro. – Julguei que nunca mais te voltaria a ver.
-Bem, aqui estou. E dificilmente te livrarás de mim, pequeno.
O rosto de Bruno adquiriu um semblante sério.
-Há já muito que não sou pequeno. – Comentou, vagamente. Raphael suspirou.
-Eu sei mas, para mim, nada mudará. Serás sempre o meu irmão caçula.
-Onde estiveste? – Perguntou Bruno, desejoso por saber as andanças do seu irmão desaparecido. Raphael hesitou em responder.
-Terei mesmo que responder? – Perguntou, cautelosamente. – Gostava de aproveitar para compensar o tempo perdido, se fosse possível.
Bruno assentiu, também ele um pouco aliviado pela decisão. Pousou a mão no ombro do irmão e voltou a sorrir, não conseguindo esconder a euforia que era ver o seu irmão mais velho passado tanto tempo. Nunca os dois se sentiram tão leves. Era como se o tempo tivesse passado e apagado todas as cicatrizes, deixando a pouco verosímil sensação de que tudo estava bem.


O tempo passava e todas as celebrações para o banquete decorriam sem problemas. Ninguém nas Tocas descansava. Todos tinham algo a fazer, desde preparar a comida, até garantir a eficácia das armas para a batalha do amanhã. Machados, espadas, armaduras, tudo amontoado numa pilha de metal e aço num canto das Tocas. E os poucos porcos e outros animais de quinta que puderam ser criados, juntamente com algumas frutas e peixe, amontoavam-se no outro, enquanto os vários homens e mulheres adultos procediam à realização dos preparativos. O tempo escasseava e, ainda que o sol ainda estivesse a atingir o seu pico do dia, nunca o amanhã estivera tão perto. Bruno e Raphael conversavam numa das salas de treino. Falavam de tudo o que lhes vinha à cabeça. Relembranças das Terras Baixas, do que acontecera no castelo dos De Roquette. Raphael contou tudo ao irmão, desde a transformação por parte de Rose até à parte em que Claire o transformara num homem de novo. Bruno ficara muito surpreendido com o que ouvira:
-O urso…. – Disse ele, olhando para todo o lado, menos para o irmão. Este sentiu a tão familiar sensação de já ter vivido aquele momento, em que falava para o irmão e este perdia-se nos seus próprios pensamentos, olhando através dos objectos. – Foste tu este tempo todo.
Raphael não sabia o que dizer, limitando-se a assentir com a cabeça.
-Porque não me revelaste a tua identidade? Porque me deixaste no escuro? – Bruno ergueu-se, sentindo-se subitamente com raiva. – Eu sou teu irmão e estiveste aqui estes meses todos sem me dizer. Diz lá! – Agora Bruno quase que gritava, erguendo o braço em protesto. – Porque não me disseste? Não confiavas em mim?
Uma lágrima vagabunda caiu do canto do olho de Bruno, enquanto este tentava recompor-se. Raphael reflectiu naquilo que ia dizer. A verdade nem sempre era fácil de se dizer, como muitos mortais assim o experimentaram. E talvez por isso se entregaram ao pecado da traição, da mentira, do comodismo. Ele não queria mentir. Nem tampouco queria dizer a verdade.
-Odiava quem eu era. – Sussurrou o mais velho, a cabeça virada para o chão. – Aquela pessoa que nunca ninguém gostara, que ninguém se chegava perto a não ser tu. Ninguém verdadeiramente me respeitava. Muitos me queriam ver pelas costas. Eu troçava dos idiotas que falavam em amor, quando a única amostra desse valoroso sentimento que eu recebera fora de ti. Mas quando me tornei urso e a Claire me encontrou… - pausou para suspirar. - Foi algo novo. Após o receio, todos se habituaram à minha presença e, de um momento para o outro, fui aceite por todos. Perdão, quase todos, mas ao menos não havia mentira naqueles que diziam gostar de mim. E aí acomodei-me, era mais fácil ser urso, olhar-te de longe e proteger todas aquelas pessoas que se tornaram parte de mim. Sei o nome de quase todas elas, sabes? Claro que nenhuma delas se lembrará das coisas que disse à minha frente, pensando que eu não as entendesse, mas eu lembro-me. Eu conheço-as, ainda que elas não me conheçam. Eu, como urso, tinha aquilo que sempre quis, mas que sempre ignorei que precisava. Respeito e carinho.
Fitou o irmão, cujo rosto estava contraído.
-Tu eras o meu objectivo principal. Era contigo que eu queria falar. – Ao ver a cara confusa de Bruno, apressou-se a explicar. – Rose disse-me que só uma pessoa me poderia entender na minha língua de urso. Mas para isso tinha que a encontrar. Após tantos anos na solidão, encontrei Kedar e Claire e seguiu-os até às Terras Baixas, onde sabia que tu estavas. E ouvi a tua conversa com Claire. Nunca fiquei tão confuso na minha vida. E depois Claire descobriu-me e de repente tudo desenrolou-se à minha volta. E eu falava com Claire e não contigo.
Não se atreveu a acrescentar que nunca se arrependera de ter gasto a hipótese com Claire. O tempo que passara com ela fora precioso e nunca o trocaria por nada naquele mundo. Bem, talvez uma coisa…
-Observei-te sabes? Nunca deixei de te ouvir e de perguntar a Claire discretamente acerca de ti. Ela não sabia quem eu era, por isso não podia ser muito óbvio. Mas tu deixavas-me confuso. Não sabia no que te tinhas tornado sem mim. Culpei-me porque não tinha mais ninguém para culpar. Fui uma decepção como irmão mais velho, tal como Rose fora com Claire. E, quando finalmente encontrei o meu irmão mais novo em ti, quando te descobri, percebi que já não precisavas de mim.
-Disparates! – Gritou Bruno. – Sempre precisei de ti, nunca digas isso! E nunca me falhaste! Não tu…
Raphael ergueu-se e colocou as mãos nos ombros do irmão.
-Não eu? Nunca tiveste mais ninguém a não ser eu e no fim, deixei-te sozinho. Para ti, foi apenas um mau destino dos Fados, ou até de Deus, mas para mim foi um fracasso para contigo.
Bruno engoliu em seco, não esperando aquela reacção vinda de Raphael.
-Isso está no passado. Agora estás aqui e é isso que importa. – Disse, tentando dar a conversa por terminada. Raphael sorriu e voltou a abraçar o irmão, pouco se importando com a rigidez do corpo de Bruno, como se este não estivesse habituado ao toque. Oh, como ele sabia o que era a sensação…
Afastaram-se e Bruno caminhou pela sala, passando por uma mesa onde espadas afiadas reflectiam com a pouca luz que provinha do exterior. Sendo uma sala de treino, era a única que tinha um buraco maior que os outros para ventilar o ar que rapidamente ficava pesado na sala onde muitos corpos suavam como porcos.
-Vais lutar amanhã? – Perguntou Bruno casualmente. Raphael abanou a cabeça.
-Não serei grande ajuda. Não tenho prática com a espada.
Para sua surpresa, Bruno sorriu.
-Que eu me lembre tu mal precisavas de treinar para conseguir derrotar dois soldados, quando mais um exercito. Todos os nossos tutores assim o diziam. Aliás, foste tu que me ensinaste.
-Já se passaram anos…
Mas Raphael viu-se de repente sem desculpas, pois Bruno atirara-lhe uma espada, obrigando-o a apanhá-la instintivamente. Ao sentir aquele peso familiar na mão, Raphael sentiu uma espécie de formigueiro na mão que apenas provava aquilo que Bruno dizia. Ali, com uma arma na mão, ele sentia-se como um verdadeiro rei. Sentia poder.
Antes mesmo que pudesse formular algum movimento, alguma posição, Bruno atacava ferozmente, tentando atingir o peito do irmão. Raphael reagiu instintivamente, colocando a espada entre a lâmina da espada do irmão e o seu peito desprotegido de armadura. Investiu contra o mais novo, desviando a sua espada para o lado e tentando atacá-lo nos seus pontos mais fracos. Ao fim de uns minutos, Bruno viu-se sem espada. Os dois homens transpiravam do esforço cometido, mas Bruno sorria de contentamento.
-Não perdeste o jeito. – Comentou. Raphael sorriu em retorno. Era um certo alívio segurar uma espada. Desde pequeno assim o fazia, substituindo as lâminas de madeira progressivamente por outras mais afiadas.
Ainda que tivesse as suas dúvidas, a sua mente já vagueava por entre os campos de batalha, lutando junto aos outros soldados. Sabia os pontos fracos das bestas e até poderia proteger o irmão e até mesmo Claire. Principalmente ela. E foi esse ponto que o fez decidir-se.
-Que o seja. – Disse a Bruno, determinado. Este anuiu, satisfeito, e voltou a pegar na sua espada, forçando o irmão a lutar o dia todo. Vários homens vieram lutar contra Raphael, muitos surpreendidos pelo jeito que este ainda possuía apesar da falta de prática e da perda de agilidade, provocada pela idade. Eventualmente, Raphael conseguiu lutar contra os mais ágeis e com mais experiência sem qualquer ferimento ou até mau movimento, conseguindo até mesmo derrotar dois deles.
-Espantoso! – Comentou um rapaz que Raphael sabia chamar-se Michel. Era talvez o único soldado ali presente que Raphael conhecera nos tempos de urso. Michel tinha três irmãs para cuidar, após perder o pai num ataque e a mãe no parto da sua irmã mais nova. Melanie e Claire tomavam conta das irmãs dele sempre que ele precisasse. Aliás, foram elas que haviam falado dele em primeiro lugar, logo nos primeiros dias. Era o único rapaz eu viera do castelo dos De Roquette e tinha cerca de vinte anos. Era corajoso e determinado e Claire só conseguiu salvar toda a gente que se encontrava no castelo, incluindo a sua mãe, porque Michel deitara fogo ao castelo, matando as bestas e dando tempo para Melanie fugir com mais de metade das pessoas. O resto fora salvo num acto miraculoso de Claire. Até hoje, ninguém sabia o que realmente havia acontecido lá dentro, até porque Claire havia salvado principalmente a mãe, duas criadas e todas as crianças que lá procuravam refúgio. Só sabiam que Michel e Melanie e todos os outros olhavam a entrada do castelo, horrorizados, quando Claire surgiu a segurar a mãe, duas crianças agarradas à sua saia e todos os outros a correr ao seu lado. O seu rosto determinado e firme só alargou os rumores da sua força enquanto salvadora.
Todavia, após a aventura que tivera com Claire, Raphael não podia deixar de se perguntar se havia magia envolvida na história. Afinal, ainda que a magia estivesse contaminada, haveria sempre alguma pura. Principalmente nas mãos de Claire que, na altura, tinha pouco mais do que catorze anos.
Por isso tudo e muito mais, Raphael observara Michel durante a sua estadia nas Tocas. E agora, como homem, fazia o mesmo. O rapaz fazia-o lembrar a si próprio quando era mais novo. Pelo menos o seu eu não corrompido pela arrogância e pelo poder.
O rapaz tinha cabelos loiros e olhos castanhos e era um bom soldado. Bruno falara muito bem dele. Mas Raphael ouvira algum receio na voz do irmão e soube logo porquê. Se Michel morresse, as suas irmãs – todas elas muito jovens - ficariam sozinhas. Infelizmente, o rapaz não podia ficar de fora da lista de homens alistados. Não podia ser uma excepção.
-Como te mantiveste assim? – Perguntou Michel, recebendo olhares exasperando perante a sua ousadia. Raphael sorriu, divertido com a reacção geral. Michel era o único que não o tratava por Vossa Majestade, mas sim como um velho amigo.
-Como urso, os meus instintos animais alargaram-se, tal como o meu instinto natural e força muscular. De volta a homem, não perdi essas capacidades físicas. Aliás, até as tinha alargado, continuando forte apesar da idade e com o instinto capaz. E como todos sabem, o instinto é a melhor arma de um homem num campo de batalha. Pode salvar-nos a vida.
Alguns homens abaram as suas cabeças em acordo. Os olhos de Michel brilharam em entusiasmo.
-Bem… - Raphael tossiu dramaticamente, querendo desviar as atenções. – Continuaremos?


O banquete estava preparado e, sem muito mais para fazer, as mulheres deitaram as crianças e trataram de se preparar elas próprias. Poucas iriam atender a festa, mas a que iam não poderiam ir vestidas normalmente. Antes mesmo que os mais novos se deitassem, despediram-se dos seus familiares, que seriam capazes de nunca mais os voltar a ver.
Claire encontrava-se no seu quarto, o mais próximo de uma gruta foragida. Era nessa gruta que a sua mãe colocara as suas rosas brancas, que conseguira trazer do castelo em chamas. Ela e Bruno eram os únicos que não dividiam quartos com ninguém, um pequeno direito a alguém de sangue nobre. Os outros, incluindo Kedar e Melanie, dormiam em quartos alargados todos juntos no mesmo sítio.
Deitada na banheira comprida de madeira, limpava os ombros da sujidade da terra após um longo dia na preparação do banquete e na verificação do túnel, que já se encontrava pronto. No dia seguinte, seria capaz de socorrer os homens podendo vir a salvar várias vidas.
Melanie entrou, vendo a amiga pensativa e colocou um conjunto de tecidos no chão, junto às cortinas escuras que dividiam o quarto de Claire dos corredores e avançou para ela com uma grande chaleira de ferro de onde saia fumo.
-Como está a água? – Perguntou. Claire encolheu os ombros.
-Morna.
Melanie sorriu e despejou a água da chaleira na banheira. Devido ao súbito aumento da temperatura, Claire ofegou, mexendo as pernas agitadamente. Melanie pousou a chaleira no chão, tentando controlar a gargalhada que queria libertar.
-Como podes aguentar as maiores tempestades das Terras Altas, mas não suportas uma simples chaleira de água quente?
-Dou-me bem com o frio. – Respondeu Claire. Melanie pegou numa esponja e aproximou-se da amiga, começando a ensaboar as suas costas calmamente. E por momentos, ficaram as duas sossegadas, sem perturbar o silêncio que se acomodara.
-Ele vai lutar, não vai? – Perguntou Claire ao fim de algum tempo. Melanie não respondeu logo.
-Penso que sim. Tem estado com os homens a treinar, isso é certo.
Claire fez um som estrangulado com a garganta que Melanie quase tomou por uma simples onomatopeia de desprezo.
-Era de esperar não era? Ele sempre foi guerreiro, não pode mudar a sua natureza. – Disse secamente, abraçando os joelhos com os braços. Melanie parou de ensaboar.
-Ele já é crescido. – Recomeçou a sua anterior acção, passando a esponja distraidamente pelas costas da amiga. – Pode tomar as suas decisões.
Melanie sentiu a respiração de Claire a acelerar e os músculos das suas costas a ficarem rígidos. A rapariga não gostara do que ouvira.
-Muito racionais que são, essas decisões. Há poucos dias ainda andava de quatro patas e mal podia comer uma maçã e agora planeia lutar com outros com o auxílio de uma mísera espada. Quando penso que ele amadureceu…
-Não sabes porque ele tomou essa decisão, não podes falar sem saber. – Argumentou Melanie, tentando não soar ríspida. Claire tremeu levemente, sentindo o frio do quarto a chocar contra a sua pele molhada. A água ainda estava quente.
-Esta noite pode vir a ser a tua última. – Disse Melanie. Claire virou-se para ela, confusa.
-A minha última? A minha última quê?
-A tua última oportunidade em afirmares aquilo que queres. – Esclareceu a jovem. Pegou na esponja, mergulhou-a em água e passou-a suavemente pelo rosto de Claire. – A tua última oportunidade de seres tu.
Claire pousou a cabeça na borda da banheira, reflectindo naquilo que Melanie dissera.
-Melanie, o que é que eu quero?
Esta tinha a resposta na ponta da língua mas, infelizmente, os Fados não permitiam que falasse. Melanie já estava habituada a guardar os mais íntimos segredos de Claire para si, mesmo sem que a mesma o pedisse. Era a sua mais difícil tarefa de amiga. Ajudá-la a entender aquilo que a mesma desconhecia. Desde sempre fora assim. Com Rose, Bruno e agora Raphael.
É certo que ambas sabiam o que estava em jogo, mas Claire não sabia o que era arriscar. Não sabia o que era remar contra a maré. Era talvez um daqueles limites desconhecidos que a maturidade daqueles tempos por vezes alcançava, mesmo em casos especiais como Claire De Roquette.
Claire ergueu-se da banheira e Melanie envolveu-a numa toalha comprida. Saiu pé ante pé, até se ver no meio da divisão, ficando de costas para a cortina.
-A água ainda está quente, Melanie. Podes lavar-te. – Disse calmamente, e fitou a amiga atentamente. A sua forma de a obrigar a fazer aquilo que ela queria. Porque Melanie tinha a tendência de agir como uma serva quando ela a queria como uma amiga. Hesitando, Melanie apressou-se a despir-se e Claire sorriu, satisfeita, quando a viu entrar na água. Melanie soltou um suspiro de contentamento.
-Adoras água quente. – Comentou Claire, pegando na pilha de roupa que Melanie deixara no chão.
-Sabe bem depois de um dia frio. – Respondeu a jovem, passando água pelos ombros escuros. Ao ver Claire a olhar para as roupas desorientada, explicou. – Trouxe um vestido a mais para veres se o queres usar.
Claire não o queria usar. Era escarlate como o sangue. Como os cabelos de Rose. Aliás, era o tipo de vestido que Rose usaria em bailes, sempre usando cores vivas para chamar a atenção.
-Obrigada, mas irei com meu branco.
-Usas sempre branco. Porque é que hoje não usas outra cor?
Claire tornou-se para Melanie.
-Porque usaria outra cor?
Melanie sorriu, apoiando-se na beira da banheira como Claire estava antes. Os cabelos negros encaracolados estavam molhados e soltos e davam-lhe um ar de ninfa, um ser misterioso e mágico, mas que não se pode confiar. Todavia, Claire sabia que as aparências enganavam. Oh, como ela bem sabia…
-Porque hoje tu não serás Claire De Roquette. Serás a rainha das Terras Baixas. Serás a mulher de outro homem.
Isso relembrou a Claire da promessa de Raphael. Ele iria anular o casamento. De súbito entendeu o que Melanie quis dizer. O branco era o simbolismo de Claire De Roquette. Mas hoje, com o esposo vivo e de boa saúde, seria a sua esposa até a aurora derrotar a noite e a batalha iniciar. E no fim, já não seria mais a esposa de Raphael. Nunca mais. E, considerando naquilo que poderia acontecer nas próximas horas, era também a sua última oportunidade em ser algo diferente.
Vestiu o vestido apressadamente, enquanto Melanie a observava, provavelmente perguntando-se das intenções da amiga. O problema era que nem a própria sabia.
-Veste o meu vestido branco. – Disse Claire para Melanie, enquanto apertava os cordões do seu espartilho. – Se hoje não sou Claire De Roquette, tu também não serás a minha aia.


As pessoas começavam a entrar e a sentar-se, mas Bruno e Raphael conversavam alheios a tudo. Até a altura, nenhum deles se atrevera a mencionar Claire nas suas diversas conversas, mas não era por isso que deixariam de pensar na bela morena que atormentava os pensamentos dos dois irmãos.
Finalmente, quando a sala estava quase cheia, é que Bruno se atreveu a mencionar Claire. Tudo porque Kedar havia entrado na sala e ocupado o lugar junto de Bruno, como honra que era ser o líder da Resistência e de estar sentado na mesma mesa que os dois reis das Terras Secas. Kedar cumprimentou ambos com um aceno de cabeça, ainda que o de Raphael tenha sido maior e acompanhado por um sorriso amigável e virara-se logo para Michel, sentado ao seu lado a pedido de Raphael. E Bruno notara que só dois lugares permaneciam desocupados. Dois perto de Raphael. Um para Melanie e o outro para a esposa do irmão.
-Presumo que a tua mulher se vá sentar à tua beira. – Comentou, tentando soar o mais casual possível. Ao seu lado, Raphael tremeu nervosamente.
-É provável. – Respondeu, tentando permanecer calmo. Não pela verdade crua que Bruno proferira, mas devido aquilo que ele próprio iria dizer. Custava-lhe mas ele dera a sua palavra. Reflectira muito mas não havia outra solução. – Mas será a primeira e última vez.
-Como assim?
Inspirando fundo, Raphael iniciou aquilo que seria o seu discurso mais doloroso.
-Dei a minha palavra a Claire que anularia o nosso casamento caso ela me transformasse. Sei que eu a estou a prender e não seria justo. Até porque ela não me ama. – Tentando manter a compostura, tornou-se para o irmão, que o escutava incrédulo. – Sei que a amas e não o tentes negar. Sei que é impossível resistir a uma rapariga encantadora como Claire. E sei que lhe farás bem. Por isso peço-te irmão que… em caso algo me aconteça amanhã. Que tomarás conta dela. Apesar da minha promessa em quebrar o casamento, ficarei junto dela. Estive muito tempo perto dela enquanto urso e foi nessa altura em que entendi o teu desespero para com ela. Quero protegê-la. Mas, se algo me aconteça, quero que o faças por mim. Talvez a ti… - Raphael hesitou apenas por um segundo que lhe pareceu longo. – Ela consiga amar.
Bruno não tinha palavras. O seu irmão acabara de admitir que estava apaixonado por Claire, mas que não iria lutar por ela. Era uma sensação agridoce em que ele reencontrara o seu irmão e tinha hipóteses em conquistar a donzela que detinha o seu coração. Mas o toque amargo do momento provinha do sacrifício do seu próprio irmão. Ele sacrificava-se do maior tesouro do mundo por ele. E por ela. Bruno não sabia se haveria de ficar contente ou triste por não ser como o seu irmão mais velho. Por ser ele o egoísta e não o nobre apaixonado.
-Prometo. – Foi tudo o que disse e Raphael soube que as suas palavras seriam repetidas várias vezes ao longo da noite, pois Kedar e Michel fitavam-no com olhos curiosos, como que perguntando o que ele tinha feito. Se ele estava maluco. Infelizmente, Raphael sentia-se sano. Infelizmente…
De repente, alguns homens calaram-se ao olhar para a entrada e verem Melanie entrar, vestida com um dos vestidos brancos de Claire. O vestido acentuava-lhe na perfeição, ainda que fosse mais curto devido à sua maior altura em comparação a Claire. Melanie sentou-se dois lugares afastada de Raphael e sorriu para todos os que a cumprimentaram, em especial Raphael, Kedar e Michel, este último respondendo o sorriso, provocando uma certa coradez na jovem. Felizmente, ninguém notou a não ser Raphael, que soltava altas gargalhadas por dentro. As suas gargalhadas interiores não duraram muito, pois algo tirou-lhe a fala, o pensamento, a respiração.
Claire entrara naturalmente, sem olhar ninguém nos olhos, mas de queixo erguido. A sua imagem de marca estava corrompida por um vestido escarlate ao invés dos seus vestidos brancos e os cabelos negros como o ébano encontravam-se presos numa fina rede ao invés de soltos. Usava brincos que deviam pertencer à sua falecida mãe e as mãos unidas sob o vestido, como uma autêntica dama da corte. Raphael sentiu-se a ser transportado para tempos longínquos, quando vira Rose e Hélene De Roquette pela primeira vez. Ambas autênticas damas, belas e seguras de elas mesmas. Claire parecia aparentar essa mesma firmeza, mas um pequeno brilho nos seus olhos azul-violeta mostrava que ela estava até um pouco divertida com a reacção de todos. Porque, devido ao estranho e pequeno acontecimento que era ver a salvadora das duas Terras vestida de vermelho como uma Rainha, toda a sala – a maior de todas nas Tocas – entrou em absoluto silêncio. Cálices, risadas, conversas, todos os sons cessaram quando notaram na presença de Claire, que continuou a ignorar os olhares e sentou-se entre Melanie e Raphael. Este ficou boquiaberto a observar Claire a trocar umas palavras amigáveis com Melanie e Kedar, sem notar que todos ainda estavam calados. Quando a própria se fartou da atenção, virou-se para Raphael e arqueou uma sobrancelha divertida, como que ordenando-o que fizesse alguma coisa em vez de ficar especado a olhar para ela. Embaraçado por ter sido apanhado, Raphael clareou a garganta e pediu a todos para prosseguirem com o banquete.


Ao fim de algum tempo, já toda a tensão inicial fora dispersada e todos falavam sobre vários tópicos, desde treinos, mulheres, famílias, terras, culturas. Mas ninguém falava do amanhã. Ninguém se atrevia. Bruno trocava palavras com o irmão e Claire, mas não se atreveu a referir a batalha do dia seguinte. Porque falar disso levaria à promessa. E a promessa seria última coisa que ele quereria falar naquele momento.
Ela estava tão bonita. Anos antes havia ficado surpreendido pela áurea mágica que ela irradiava, como se fosse uma fada da natureza. Pareceu-lhe pequena naquele enorme palácio e soube que não pertencia ali. E observou-a ao longo dos anos, crescendo e ficando tão bela quanto a mãe e a irmã. Mas ela sempre se destacara. Claire possuía traços de Charles e de Hélene, distinguindo-se do seu irmão e irmã mais velha. A fusão da frieza com a fraqueza. Estranho como ela não ficara assim. Pelo menos era o que ele pensava. Mas as opiniões dos apaixonados são sempre muito confusas e, por isso, não deviam ser levadas a peito.
Por seu lado, Claire não sabia se haveria de rir ou de chorar. Parecia ser a única naquela sala que sentia aquela tensão. Algo se passava com os dois irmãos e ela temia o que fosse. Bruno não tirava os olhos de cima dela, como se tivesse algo mais a acrescentar. Todavia, abstinha-se de o fazer. E Raphael não a olhava nos olhos. Mas ela sabia o que esse escondia. E queria falar com ele sobre isso. Mas a noite não parecia estar a seu favor. Todos queriam ter uma palavra com ou sobre Raphael. Perguntar acerca das suas aventuras pelas Terras Altas, o relato de um sobrevivente.
E, paralelamente, não conseguia estar jovial o suficiente por Melanie finalmente comportar-se como uma dama e não como uma serva. Tais acções permitiram que ela deixasse de ter a cabeça virada para o chão mas sim para a frente, onde Michel falava com ela serenamente acerca da vida de ambos no castelo dos De Roquette. E Claire, sem qualquer opção, abandonou qualquer tentativa de falar com o marido e prosseguiu conversa com os outros dois jovens. A conversa alegrou-se, com a descrição das passagens secretas que os três usaram diversas vezes, por diferentes motivos. Claire soltou uma gargalhada quando Michel lhe contou a história de um porco que viera deformado das quintas do povo, tendo apenas três pernas. Michel, tendo pena dele, apressou-se a escondê-lo nas passagens secretas, cuidando dele como um animal de estimação. Fora Melanie que o encontrara e o ajudara a escondê-lo. Claire virara-se então para a amiga, que estava tão corada que até era visível na sua pele mais escura:
-Isso explica porque havia alturas em que não te conseguia encontrar. Estavas escondida nas passagens secretas. Pergunto-me como nunca vos descobri. Eu e Rose andávamos sempre lá metidas.
Michel riu-se da cara de Melanie.
-A Melanie não tinha outra hipótese. Se a tia dela descobrisse que a sobrinha andava nas passagens secretas com a patroa em vez de limpar a cozinha, estava em grandes sarilhos. Aí que prometi não contar o seu segredo, se ela guardasse o meu.
-E assim o fiz. Até agora. – Comentou Melanie secamente, levando o cálice aos lábios. Michel sorriu.
-Penso que a patroa não terá problemas em saber.
Claire concordou, também ela cheia de sorrisos. Perguntou-se se seria efeito do vinho, pois a sala começava a ficar muito quente e uma estranha euforia percorria o seu corpo. Raphael notou e impediu a mão dela de pegar no cálice.
-Acho que á bebeste de mais. – Sussurrou, não querendo que ninguém ouvisse.
-Porque te importas? – Ripostou ela, os olhos a arder. Apanhado de surpresa, Raphael largou-lhe a mão e aproximou-se do ouvido dela.
-Se fazes isto por causa de Rose, então digo-te já que não vale a pena. Ninguém sabe o que virá no amanhã, não tens que ter medo.
E com umas simples frases, Raphael quebrara duas regras. Mencionara o amanhã e mencionara a rosa.
Assim que vira a rosa vermelha deitada na neve, Claire empalideceu e Raphael soube de imediato o seu significado. Que Rose queria ver a irmã. E, sabendo que o amanhã traria uma batalha, Raphael sabia que Claire não podia fugir do seu destino por muito mais tempo. Claire ficara imobilizada durante muito tempo e não falara o resto da viagem. Só quando chegaram à toca, na clareira do velho carvalho, é que ela se virara para ele, o rosto adquirindo um semblante sério:
-Não menciones. – Ele soube o que ela quis dizer. E assim o fez. Não mencionara a rosa. Nem tampouco mencionara a Bruno que ele teria que proteger Claire não só de bestas mas de Rose. Permitir que a rapariga não fosse encarcerada pela própria irmã.
Não o mencionou.
Até agora.
Os olhos de Claire aumentaram de tamanho significativamente, o estranho brilho no azul elucidando Raphael, que julgou tratarem-se de lágrimas ressentidas. Mas Claire virou-se para o seu prato, sem comentar aquilo que ele dissera e ele soube porque é que ela viera de vermelho.
O amanhã traria muitas surpresas mas, no caso de Claire, traria o seu futuro. Quando a alvorada rompesse, Claire não seria nunca mais ela mesma. Pertenceria a Rose ou a um dos irmãos. De certa forma, aquela era a sua última noite de liberdade.
A noite passara e Claire sentia-se ligeiramente melhor, tendo deixado de beber após o aviso de Raphael. Abriram espaço e, ao som de um flautim, muitos atreveram-se a dançar, alguns pela última vez. Após muita teimosia, Melanie aceitou dançar com Michel e Bruno divertiu-se com outras jovens, encantadas pela formosura do jovem rei. Mas Raphael não se levantou. Limitou-se a observar Claire a dançar com várias pessoas, todos conhecidos para ele e quando finalmente a viu livre de candidatos, aproximou-se:
-Minha dama? – Perguntou, já enferrujado nos bons costumes. Mal fazia ideia como dançar, mas queria fazê-lo. Uma última vez.
Claire aceitou a sua mão e os dois rodopiaram nos braços um do outro, o resto do mundo esquecido para eles. A música soava pela divisão num tom semi-baixos, mas que todos conseguiam ouvir. Nas Tocas falar alto era um luxo e a música era outro ainda mais raro. Daí que as conversas eram quase extintas enquanto um jovem tocava flautim como um mestre na arte, a sua suave melodia acalmando os sentidos do casal que quase que se abraçava em plena sala.
-Porque vais lutar? – Sussurrou Claire, os braços apoiados nos ombros de Raphael. Este suspirou, sabendo que o momento calmo terminara.
-Quero fazer algo do útil. Quero proteger-te.
-Podias ficar aqui, onde ficarias mais seguro. – Insistiu Claire e Raphael não sabia se haveria de lhe contar a verdade ou se lhe deveria ocultar. A última hipótese seria a melhor, mas ela parecia tão triste…
Raphael afastou-se, o seu rosto a centímetros dos de Claire.
-O meu lugar é num campo de batalha. Sempre foi assim.
-Seria assim se… - Claire não continuou, obrigando Raphael a pressioná-la, querendo saber.
-Assim se?
-Se tudo não tivesse corrido da mesma maneira. Far-me-ias isto? Ir para batalhas, deixando-me sozinha num castelo grande e vazio?
Raphael ficou sem palavras, porque não tinha forma de como responder. Era verdade. Ele nunca ficaria por casa se tudo tivesse corrido normalmente. Se Rose não tivesse enlouquecido pela magia do duende. Mas o que lhe mais custava a pensar era que ele nunca veria motivos para regressar caso nada daquilo tivesse acontecido. Ele não teria mudado. Ele não teria se apaixonado por Claire. Iria traí-la, ter bastardos com outras e estragar a sua beleza, dia após dia, tal como muitos outros homens fazem às suas esposas alcançando a postura de um casal firme, poderoso e formoso mas caindo aos bocados por dentro. Tal como os seus pais. Tal como Charles e Hélene De Roquette.
-Sim. – Disse finalmente. – É assim que eu sou.
Claire semicerrou os olhos.
-Então és como todos os outros. Um egoísta. – Falava baixo, mas Raphael tinha a sensação que toda a gente os ouvia de tão altas lhe soavam. Felizmente, poucos haviam notado que eles haviam parado de dançar. – Amanhã podes vir a morrer e nem pensas em como irei ficar. Rose fez a mesma coisa. Fez as coisas à maneira dela, ignorando as minhas ideias, as minhas opiniões. E até mesmo Bruno. Como podem vocês disputar a minha atenção, quando no fundo nem querem saber de mim?
Raphael ergueu o queixo, ofendido.
-Não digas isso. Nunca! Podes duvidar dos sentimentos dos outros, mas nunca duvides dos meus. Não sabes porque vou para a batalha.
-Então diz-me! – Exigiu ela, erguendo o tom de voz apenas um pouco. Todos agora olhavam para o casal, a música e a dança já esquecidas. Raphael, ignorando tudo e todos, tentou acalmar-se. Se não se acalmasse, acabaria por cometer o mesmo erro de há quase treze anos atrás.
-Claire?
-Diz-me! – Repetiu a jovem, também ela ignorando os outros seres da sala. Encerrou a mão e, num acesso de raiva e de auto-controlo deu um soco no peito de Raphael. Este nem se mexeu. – Se realmente te importas, diz-me.
A última frase não era uma exigência. Era um pedido, quase a implorar. Raphael quase que pode ver as lágrimas a cair dos cantos dos olhos de Claire. E deixou-se levar, tal como anos antes no dia do seu casamento. Aproximou os lábios dos dela e beijou-os.
Nenhum som de ouviu na sala, onde todos observavam espantados o acto de ousadia do Rei legitimo das Terras Baixas em beijar a sua esposa em locais públicos. Quando Raphael quebrou o beijo, continuou a ignorar o seu redor e aproximou os lábios da orelha dela:
-Porque quero proteger-te. Sou um homem de palavra. Disse-te que iria anular o nosso casamento. E assim o farei. Amanhã irei lutar e, ao final do dia, serás uma mulher livre.
Quando percebeu o significado das suas palavras, Claire levou a mão à boca, tentando abafar um grito de pavor, abanando a cabeça repetitivamente. Raphael não se atreveu a fitá-la nos olhos e saiu da sala, sem olhar para trás.
Alguns sussurros foram ouvidos e Melanie, vendo a cara de horror da amiga, aproximou-se dela, abraçando-a contra si. Os sussurros aumentaram, mas as duas ignoraram.
-O que é que ele disse? – Perguntou a jovem mulata, temendo a resposta. Claire deixou uma lágrima cair.
-Ele vai morrer. – Disse ela fracamente. Melanie ficou de olhos arregalados, incrédula.
-O quê? – Mas a pergunta era desnecessária porque ela já sabia.
-Ele só pode anular o casamento se um de nós morrer. Ele vai deixar-se morrer amanhã.
Claire agora chorava e isso chamou a atenção de Bruno. Este ficara parado quando vira os acontecimentos de há doze anos atrás voltarem a suceder-se mas nada fez para impedir o irmão. Porque desta vez, ela tinha a certeza que ele estava apaixonado. E, mais uma vez, não sabia o que fazer com essa informação. Não sabendo a decisão que ele tomara.
-Claire, estás bem?
Esta não respondeu. Fitou-o curiosamente, lembrando-se dos beijos dele. Dos beijos de Raphael. E até mesmo dos beijos no rosto que Rose lhe dava.
Colocou a mão no coração, sentindo-o palpitar nervosamente e entendendo. A vida seleccionava sempre o elo mais forte. E ela não o era. Fora marcada por três pessoas diferentes, que agora governavam a sua vida sem que ela se apercebesse. Estava marcada por Rose, Raphael e Bruno. Os três a exigiam. Os três a queriam. Caso Raphael não tivesse voltado, ela teria se casado com Bruno sem dúvida.
Porque ela era o elo mais fraco. A líder da Resistência. A salvadora. Ironicamente, era tão vulnerável e influenciável perante a irmã, o marido e o cunhado.
Ou melhor, perante a irmã e o cunhado. Raphael deixara várias vezes a ideia de que se curvaria perante ela. Ao contrário dos outros, a sua marca era diferente, menos nítida, menos possessiva. Significava apenas que ele estaria do lado dela para sempre. Até que a morte os separasse.
E, em poucas horas, talvez isso viesse a acontecer. Claire sabia que os Fados não a matariam até ela completar a sua missão. E também sabia que, em poucas horas, o seu destino seria traçado. As suas marcas iriam surgir.
Não eram necessárias palavras. Ela sabia que Bruno a tomaria amanhã caso Raphael morresse e que Rose, assim que a visse, a afastaria de todos e mataria aqueles que postassem contra ela.
Em suma, tudo ficaria decidido amanhã. Amanhã, Claire não poderia controlar o seu próprio destino. Pelo menos não mais do que já controlara.
Mas agora era diferente. Afastou-se de Melanie e de Bruno e saiu da sala a correr. Até lá, ela escolheria o seu rumo.
Sabia o que ia fazer ainda antes de chegar ao seu destino. Nenhum arrependimento sobressaltou-a pelo caminho. Era a decisão correcta a fazer. Por ele e por ela.


Raphael passeava pelo quarto que dividia com Bruno, reflectindo. Quando a viu, não disse nada. Apenas fitou-a, curioso.
Claire avançou lentamente, sem tirar os olhos dele.
-Claire… - sussurrou ele em vão. Ela tapou os lábios dele com os dedos, emitindo um pequeno sorriso.
-Toda a minha vida fui fraca, guiada pelos pensamentos dos outros. Poucas vezes me senti vantajosa ou até mesmo em estado de igualdade. Muitos pensamentos cruzavam a minha mente, lembrando-me de que alguém me exigia. Alguém me queria. Ate que te conheci. E foi ai que eu conheci a vontade. Sou tua. Mas tu és meu.
-Eu não te quero magoar. – Disse ele suavemente, afastando uma madeixa de cabelo do rosto frio dela. – Quero que sejas feliz.
-Não me vais magoar. E só serei feliz se amanhã voltares vivo da batalha. – Aproximou-se da orelha dele. – Amanhã tu podes morrer e aí, eu pertencerei a outro. Caso ganhe as Trevas, serei de Rose, caso ganhe a resistência, serei de Bruno. Mas hoje, e para sempre, serei tua.
Raphael não conseguiu responder. O seu peito encheu-se de ar e ele mal o conseguia libertar. Mal conseguia acreditar que estava a ouvir aquelas palavras. Aproximou o rosto dela cautelosamente, sentindo o bafo dela contra o seu. E então, Claire beijou-o, envolvendo-o no beijo mais apaixonado que ele alguma vez sentira. O toque suave dos lábios dela assemelhava-se ao carburante para o fogo que irradiava dentro do corpo de Raphael. As suas mãos vagueavam pelo corpo de Claire, cada toque dos seus dedos ardendo como ácido, enquanto a boca dela exigia entrada. Ele deixou-se ir, deixou que as línguas dos dois lutassem entre si libertando uma mistura de sabores afrodisíacos que prometeram a Raphael um ataque cardíaco caso ele não parasse.
Afastou-se, um pouco atordoado. Levou um pouco a aperceber-se do que tinha acontecido. Claire havia o marcado. Caso ela morresse e ele não, sabia que nunca amaria outra mulher. E, de alguma forma, soube que o sentimento era recíproco.
-Amo-te. – Disse, a sua respiração completamente acelerada. Beijou os lábios quentes dela e, quando sentiu a boca dela a abrir-se para ele, aprofundou o beijo puxando o rosto dela para si, as suas mãos procurando a cintura dela e as delas apoiando-se nos seus largos ombros. – Jamais senti algo assim… - murmurou tão baixo que Claire mal ouviu.
Ela olhou-o nos olhos e Raphael viu que o azul desaparecera. Estavam completamente num tom claro de violeta, tão brilhantes que até o fazia arder só de olhar.
-Nem eu. Serei tua e tu serás meu, meu amor. – Sussurrou ela em retorno. Raphael sentiu a sua respiração a falhar.
-O quê? – Perguntou, um tanto desesperado. Queria tanto ouvir aquelas palavras. Ouvir era mais importante do que respirar.
Ela sorriu e beijou a maçã-de-adão dele carinhosamente.
-Eu amo-te, Raphael.
Os lábios dos dois voltaram a unir-se, desta vez em completa sintonia. As mãos exploraram os corpos até que Claire conseguiu ver a carne pálida de Raphael por entre as suas vestes. O colete caiu no chão, assim como a camisa de pano e ela olhou para o tronco dele. Um autêntico homem. Raphael viu algum receio nos olhos dela e abriu a boca para a travar, para que eles voltassem atrás. Mas, antes mesmo que ele pudesse dizer alguma coisa, Claire beijou uma pequena cicatriz que ele tinha no tronco, ganha numa luta anos antes. Uma recordação dos tempo difíceis que ele vivera na pele de um urso. Atordoado pelo gesto, ignorou que as mãos dela já não exploravam o corpo. Ela olhou para ele, um pouco atrapalhada mas os olhos brilhando de determinação. Não sabia o que fazer. Controlando um sorriso presunçoso, acariciou o rosto dela e envolveu-a num beijo, querendo distrai-la o máximo que pudesse.
Era o beijo mais apaixonado que ele lhe entregara, transmitindo todo o amor que ele sentia por ela. Ele era dela. Ao contrário dos seus antepassados, amaria uma única mulher para o resto da sua vida.
Ela sabia os riscos. Ele sabia os riscos. Amanhã poderiam nunca mais ficar juntos. Por isso, seriam um só por uma única noite. Se amanhã ela fosse de Bruno ou de Rose e ele caminhasse por entre os vivos ou por entre os mortos, não importava. A tomada de posses já acontecera. Amanhã nenhum dos lados ganharia. Só eles.
Nenhum dos dois falou. Aliás, as palavras estavam extintas nas suas gargantas, tão sedentas e gastas pelos beijos. Deixaram que os pensamentos abandonassem as suas mentes até que Raphael e Claire deixaram de olhar um para o outro, mas para os tecidos que cobriam os seus corpos. As mãos esguias de Raphael percorreram o tecido do vestido escarlate até alcançar os cordões do espartilho. Desapertou-os.


Poucos sons foram ouvidos nas tocas. A lua enchia o céu do seu branco leitoso e algumas estrelas atreveram-se a comparar os seus brilhos entre si. A noite prometia ser bela. Mas ninguém a admirava. Só uma pessoa.
Melanie acendeu uma vela ao aproximar-se das roseiras brancas, notando que as rosas estavam finalmente abertas. Tirou uma e qual foi o seu espanto quando sentiu um espinho trespassar a sua pele suavemente, a dor mal sentida. Uma gota de sangue caiu na rosa branca, manchando-a de vermelho.
A vela ficou mais luminosa, devido à baixa intensidade do vento. As rosas baloiçavam suavemente ao sabor do vento e Melanie suspirou, estranhamente feliz. Tudo corria de acordo com as vontades dos Fados.
Agora, era só esperar pelo amanhã.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!




Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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