[Terminada] As rosas De Roquette
Finalmente, após muita coisa, acabou-se a louca (não sei se isso é bom ou mau... enfim, há de haver qualquer coisa e eu volto a perder-la
)
O que quero dizer é que posto hoje o novo capítulo. E o amanhã o próximo porque este é pequeno.
Espero que gostem =)
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Luz obscura
Claire não sentia mais controlo sobre os pés, que se movimentavam um tanto desajeitados pelos túneis, os olhos só vendo o escuro da passagem. Melanie ia atrás dela, a sua respiração tão acelerada quanto a da amiga se bem que Melanie tentava correr para alcançar Claire, feito nunca antes realizado, pois a jovem negrinha tinha pernas bem mais compridas que as de Claire, características muito desejadas pelos outros homens.
Finalmente, ao fim de uns longos minutos de corrida, Claire viu uma pequena luz no fundo do túnel e apressou o passo, obrigando a pobre Melanie (de notar que as metáforas não são propositadas) a dar passadas ainda mais desconfortáveis porque, naqueles túneis, pernas compridas eram o desastre, pois obrigavam a cabeça dos indivíduos de alta estatura a roçar no tecto de terra escura, dificultando ainda mais a caminhada.
Num segundo, Claire via-se numa sala pouco iluminada, com algumas camas contendo aleijados e outras vazias. Algumas mulheres que cuidavam desses feridos ergueram as cabeças quando a viram, para depois as baixarem, não antes sem lhe mandar um olhar de pena.
Pobre Claire, que perderás a tua mãe ainda antes de a hora terminar.
A jovem correu para a cama mais nas traseiras, afastada dos outros e com uma parede de leve tecido a tapar o corpo magro deitado na pobre e fraca cama feita de feno. O último privilégio para alguém da alta nobreza. Uma vela acesa dava possibilidade de visualizar o rosto de uma mulher.
Em que desgraça caíra Hélene De Roquette. Tão jovem, bela e mais astuta que as damas da corte comuns, terminava assim, feita maltrapilha que ninguém quis se importar. Se bem que tinha que dar graças. Muitos iguais a si já tinham padecido. Tinham sido os primeiros. Agora só restara ela e a filha. Havia outros mas…
-Claire… - chamou a mulher, a voz muito fraca e rouca. Hélene tinha quarenta e poucos anos e assim postava, desgraçada, pior que muitos plebeus de setentas – e isso não era elogio nenhum. Talvez fosse a paga por ter vivido no meio de dias de sol, enquanto as tempestades caíam em si dos mais necessitados. Enfim, quem sabe. Mas os Fados foram generosos. Não lhe tiraram a filha. Pelo menos esta…
-Mãe! – Claire ajoelhou-se perante a mãe, pegando na sua mão. Esperou que a mais velha dissesse algo. No fundo, sabia que eram as suas últimas palavras.
-Quem me dera não ter tido tanto tempo. – Lamentou-se Hélene, não deixando a filha lhe interromper. Porém, Claire não o faria. Bons costumes da alta nobreza assim lho ensinaram. – Os Fados deram-me este tempo de modo a eu pagar pelos meus erros.
-Mãe… - um gesto de Hélene foi o suficiente para silenciar Claire. Melanie estava atrás da parede improvisada, dando privacidade às duas De Roquette, ainda que não se excluísse da cena. Afinal, era a mãe da melhor amiga.
-Não cuidei da roseira. – Sussurrou Hélene, de olhos fechados e rosto fatigado. Algumas madeixas do seu cabelo ruivo escuro caíam no seu rosto húmido e espessas olheiras podiam ser vistas. Abriu os olhos, tão verdes quanto os da filha mais velha, fitando a mais nova. A última que dera à luz. Que saíra do seu ventre gritando como qualquer criança saudável. E que, no fundo, sabia ter errado mais do que aos outros dois. Havia algo que ela tinha que lhe dizer. Algo que talvez garantisse a sua protecção…
Claire entendera o comentário da mãe no segundo. Mas longe de trazer memórias dolorosas fez o que qualquer boa filha faria no seu lugar. Tentou mudar de assunto, falando ainda antes que a mãe pudesse abrir a boca.
-O tempo piorou. Elas não podiam aguentar. Murcharam.
-A tua não – apontou Hélene, virando-se para o seu lado esquerdo, junto a um pequeno vitral falso. Claire olhou e viu uma pequena jarra de barro, onde uma pequena rosa branca florescia para a imagem falsa de uma Santa das Terras Baixas, que transformara pão em rosas. Só que eram vermelhas. Não brancas.
Claire suspirou, tentando arranjar forma de mudar de assunto. Mas Hélene continuou:
-Plantei uma roseira de rosas vermelhas quando Rose nascera e uma branca quando tu abençoaste-nos com o teu grito de vida. Nunca outro trabalho árduo eu realizara em toda uma vida. Mas fiz aquilo. Minha mãe tinha plantado uma roseira para mim e eu prometi que faria o mesmo para as minhas filhas, se as tivesse. Os vossos nomes, as cores das rosas... Tudo fora pensado. Nunca murcharam. Em mais nenhum lado das Terras Altas foi possível o cultivo de rosas. E as minhas rosas foram abençoadas pelos Fados… Até a uma dada altura…
A voz de Hélene sumiu, ficando um fio estrangulado e indistinguível. Claire encerrou as pálpebras por uns momentos, semelhante a uma oração. Esperava um sinal. Hélene estivera doente durante muitos anos. Seria de esperar que padecesse a qualquer momento. Mas, mesmo que esperasse a vida toda por aquele instante, nunca estaria preparada para o que vinha a seguir. Não quando o que vinha no seu futuro era uma vida de órfã se é que já não o era. Pobre Claire, que já perdeste o marido, o irmão, o pai e a irmã, para agora perderes a mãe. Uma mãe que, ainda que de sangue nobre, sempre fora mãe.
-Nunca murcharão… as tuas rosas… Claire.
-Mãe? – A voz de Claire saiu num tom de desespero e medo.
-Salva-a… por favor…- suplicou Hélene num sussurro, os olhos fechados e a cabeça a baloiçar, cheia de febre alta. Claire não se mexeu, limitando-se a segurar na mão da mãe e a chorar. Já nada podia fazer. – Minha filha, os Fados premeditaram a tua glória. Não será o fim da guerra que te trará paz, filha. Mas sim a vossa salvação. Por favor… salva-te a ti… e a ela.
E com estas palavras, Hélene De Roquette deu o seu último suspiro. Ao lado, como se adivinhasse o momento certo, a luz da vela de cera extinguiu-se.
)O que quero dizer é que posto hoje o novo capítulo. E o amanhã o próximo porque este é pequeno.
Espero que gostem =)
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Luz obscura
Claire não sentia mais controlo sobre os pés, que se movimentavam um tanto desajeitados pelos túneis, os olhos só vendo o escuro da passagem. Melanie ia atrás dela, a sua respiração tão acelerada quanto a da amiga se bem que Melanie tentava correr para alcançar Claire, feito nunca antes realizado, pois a jovem negrinha tinha pernas bem mais compridas que as de Claire, características muito desejadas pelos outros homens.
Finalmente, ao fim de uns longos minutos de corrida, Claire viu uma pequena luz no fundo do túnel e apressou o passo, obrigando a pobre Melanie (de notar que as metáforas não são propositadas) a dar passadas ainda mais desconfortáveis porque, naqueles túneis, pernas compridas eram o desastre, pois obrigavam a cabeça dos indivíduos de alta estatura a roçar no tecto de terra escura, dificultando ainda mais a caminhada.
Num segundo, Claire via-se numa sala pouco iluminada, com algumas camas contendo aleijados e outras vazias. Algumas mulheres que cuidavam desses feridos ergueram as cabeças quando a viram, para depois as baixarem, não antes sem lhe mandar um olhar de pena.
Pobre Claire, que perderás a tua mãe ainda antes de a hora terminar.
A jovem correu para a cama mais nas traseiras, afastada dos outros e com uma parede de leve tecido a tapar o corpo magro deitado na pobre e fraca cama feita de feno. O último privilégio para alguém da alta nobreza. Uma vela acesa dava possibilidade de visualizar o rosto de uma mulher.
Em que desgraça caíra Hélene De Roquette. Tão jovem, bela e mais astuta que as damas da corte comuns, terminava assim, feita maltrapilha que ninguém quis se importar. Se bem que tinha que dar graças. Muitos iguais a si já tinham padecido. Tinham sido os primeiros. Agora só restara ela e a filha. Havia outros mas…
-Claire… - chamou a mulher, a voz muito fraca e rouca. Hélene tinha quarenta e poucos anos e assim postava, desgraçada, pior que muitos plebeus de setentas – e isso não era elogio nenhum. Talvez fosse a paga por ter vivido no meio de dias de sol, enquanto as tempestades caíam em si dos mais necessitados. Enfim, quem sabe. Mas os Fados foram generosos. Não lhe tiraram a filha. Pelo menos esta…
-Mãe! – Claire ajoelhou-se perante a mãe, pegando na sua mão. Esperou que a mais velha dissesse algo. No fundo, sabia que eram as suas últimas palavras.
-Quem me dera não ter tido tanto tempo. – Lamentou-se Hélene, não deixando a filha lhe interromper. Porém, Claire não o faria. Bons costumes da alta nobreza assim lho ensinaram. – Os Fados deram-me este tempo de modo a eu pagar pelos meus erros.
-Mãe… - um gesto de Hélene foi o suficiente para silenciar Claire. Melanie estava atrás da parede improvisada, dando privacidade às duas De Roquette, ainda que não se excluísse da cena. Afinal, era a mãe da melhor amiga.
-Não cuidei da roseira. – Sussurrou Hélene, de olhos fechados e rosto fatigado. Algumas madeixas do seu cabelo ruivo escuro caíam no seu rosto húmido e espessas olheiras podiam ser vistas. Abriu os olhos, tão verdes quanto os da filha mais velha, fitando a mais nova. A última que dera à luz. Que saíra do seu ventre gritando como qualquer criança saudável. E que, no fundo, sabia ter errado mais do que aos outros dois. Havia algo que ela tinha que lhe dizer. Algo que talvez garantisse a sua protecção…
Claire entendera o comentário da mãe no segundo. Mas longe de trazer memórias dolorosas fez o que qualquer boa filha faria no seu lugar. Tentou mudar de assunto, falando ainda antes que a mãe pudesse abrir a boca.
-O tempo piorou. Elas não podiam aguentar. Murcharam.
-A tua não – apontou Hélene, virando-se para o seu lado esquerdo, junto a um pequeno vitral falso. Claire olhou e viu uma pequena jarra de barro, onde uma pequena rosa branca florescia para a imagem falsa de uma Santa das Terras Baixas, que transformara pão em rosas. Só que eram vermelhas. Não brancas.
Claire suspirou, tentando arranjar forma de mudar de assunto. Mas Hélene continuou:
-Plantei uma roseira de rosas vermelhas quando Rose nascera e uma branca quando tu abençoaste-nos com o teu grito de vida. Nunca outro trabalho árduo eu realizara em toda uma vida. Mas fiz aquilo. Minha mãe tinha plantado uma roseira para mim e eu prometi que faria o mesmo para as minhas filhas, se as tivesse. Os vossos nomes, as cores das rosas... Tudo fora pensado. Nunca murcharam. Em mais nenhum lado das Terras Altas foi possível o cultivo de rosas. E as minhas rosas foram abençoadas pelos Fados… Até a uma dada altura…
A voz de Hélene sumiu, ficando um fio estrangulado e indistinguível. Claire encerrou as pálpebras por uns momentos, semelhante a uma oração. Esperava um sinal. Hélene estivera doente durante muitos anos. Seria de esperar que padecesse a qualquer momento. Mas, mesmo que esperasse a vida toda por aquele instante, nunca estaria preparada para o que vinha a seguir. Não quando o que vinha no seu futuro era uma vida de órfã se é que já não o era. Pobre Claire, que já perdeste o marido, o irmão, o pai e a irmã, para agora perderes a mãe. Uma mãe que, ainda que de sangue nobre, sempre fora mãe.
-Nunca murcharão… as tuas rosas… Claire.
-Mãe? – A voz de Claire saiu num tom de desespero e medo.
-Salva-a… por favor…- suplicou Hélene num sussurro, os olhos fechados e a cabeça a baloiçar, cheia de febre alta. Claire não se mexeu, limitando-se a segurar na mão da mãe e a chorar. Já nada podia fazer. – Minha filha, os Fados premeditaram a tua glória. Não será o fim da guerra que te trará paz, filha. Mas sim a vossa salvação. Por favor… salva-te a ti… e a ela.
E com estas palavras, Hélene De Roquette deu o seu último suspiro. Ao lado, como se adivinhasse o momento certo, a luz da vela de cera extinguiu-se.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
O olhar do Urso
Sob o ar frio do Outono, uma figura caminhava lentamente, os pêlos negros eriçados devido à leve brisa fresca. O Urso olhou em volta, atento ao seu redor, como se a qualquer momento, pudesse surgir alguém perigoso. Os seus instintos animais diziam-lhe que alguém se aproximava. Confirmaram-se quando ouviu o som de passadas.
Lentas e leves, pareciam as passadas de uma criança. O Urso ergueu as suas pequenas orelhas redondas, de modo a interpretar o som e a distância que se encontrava de si. Pensou em esconder-se numa toca próxima, mas algo dentro da sua cabeça disse-lhe para não o fazer. Olhando em volta, viu uns arbustos espessos e escuros, grandes o suficiente para o esconder. Dirigiu-se para o seu novo esconderijo e esperou.
Rapidamente descobriu porque os arbustos eram melhor esconderijo do que a toca. Nos arbustos era possível visualizar quem vinha aí. E não havia dúvidas de que era um ser humano. E Urso não via humanos fazia muito tempo. Doze invernos para ser exacto. A sua espessa pelagem negra continuava na mesma, mas os seus movimentos já eram menos rápidos, bem como a resistência. Ainda tinha energia e vontade e era isso que lhe importava. Tantos anos naqueles bosques sem ver vivalma mudaram aquele urso antes jovem, agora em meia-idade. Remorsos, sabedoria, instintos renovados. Podia gabar-se de os Fados lhe terem poupado a vida e de lhe terem entregado novos dons que permitiram a sua sobrevivência na floresta e até para o futuro. Porque ele ainda tinha esperança. Só que pouca.
No entanto, ele não se gaba de coisa alguma. É um feito, milagre de quem o conhecia na sua vida anterior, que o ser dentro daquela pele de urso não se sentisse arrogante e confiante. Pois bem, a dureza da vida muda as pessoas.
Durante o Verão e a Primavera caçava diversas espécies de peixes no rio, sendo salmão o seu preferido e, infelizmente, o mais difícil de pescar. Depois, recolhia a sua caça numa toca provisória, onde hibernaria durante o Inverno. A toca nunca era a mesma, pois as bestas avançavam a cada estação, tornando-se impossível ficar no mesmo sítio. Sendo ele animal, não devia temê-los. Mas temia. Afinal, fora a magia daquelas criaturas que o havia transformado. Apesar de valente, não era estúpido. Sabia que, se voltasse a enfrentar magia negra, sairia derrotado e nem a sua pele de urso o salvaria.
Mas tantos anos de silêncio matavam-no por dentro. Não havia encontrado outros da sua espécie. Parecia que todos os ursos haviam desaparecido à face da Terra. Era-lhe também impossível comunicar com outras criaturas, se bem que raramente as encontrava. Os poucos animais que restavam eram herbívoros e, portanto, criaturas que temiam ursos carnívoros, como ele.
Ninguém… nem um único humano… Os seus conhecimentos era tão poucos sobre o que acontecia nas Terras. O pouco que ouvira em doze anos viera das bestas e claro que nunca fora uma conversa calma e agradável. Haviam sempre detalhes horrorosos acerca de batalhas, destruições de aldeias e castelos. Sabia que quase toda a nobreza havia caído. Bruno era um dos poucos que restavam.
O seu irmão
Será que o procurava? Ou teria pensado que ele fugira ou que morrera? Urso sempre esperara que o irmão algum dia o encontrasse mas, mesmo que o fizesse, não o reconheceria. Afinal era um Urso e ninguém sabia que ele havia sido transformado.
Claro que isso não o impedira de procurar o irmão. Todavia, a tarefa tornara-se difícil quando se apercebeu do cerco das bestas às Terras Baixas. Mesmo que conseguisse entrar, tomá-lo-iam como inimigo e matá-lo-iam antes que ele pudesse comunicar com Bruno.
Urso engoliu em seco, ao ouvir o som de folhas a arrastarem-se. Distinguiu também mais dois pares de pegadas.
Por detrás dos arbustos, surgiu um homem alto, negro e com pouco cabelo, aparentando os cinquenta. O homem contraiu as narinas, como se tentasse cheirar a sua presença, para depois dar um passo em frente, sempre cauteloso, os seus mantos castanhos arrastando-se pelo chão. Estava tão distraído que nem notou no aparecimento de mais duas figuras. Uma rapariga e, atrás dela, um outro homem barrigudo e careca.
-Kedar, será que estamos perto? – Perguntou o homem, deitando um olho no homem negro, outro na rapariga, que estava de costas para o Urso. Os olhos deste aumentaram de tamanho em reconhecimento. Kedar, chefe da Resistência às Trevas. Seria possível que o primeiro ser humano que visse em tanto tempo fosse alguém que o pudesse ajudar?
Isto é, sem que soubesse a sua verdadeira identidade.
Kedar assentiu.
-Não temas Goulard, não estamos em perigo. – Algo no seu tom de voz alertou Urso. Era como se Kedar não estivesse seguro do seu redor. Saberia ele que Urso estava nos arbustos a ouvir a conversa?
Provavelmente, afinal tratava-se de Kedar, filho de um profeta e de uma escrava, que apenas aprendera a ler em fase adulta e que sabia mais que as cabeças de muitos príncipes, nobres e magistrados juntos, só de viver a vida.
-Caminhamos faz quase três semanas. Por volta desta altura…
Kedar ergueu a mão, calando Goulard num segundo.
-Claire faz este caminho há muito tempo. E eu confio nela. – Disse ele, calmamente. Aí, a rapariga virou-se, sendo possível a Urso ver a sua cara.
Para descrever as emoções do Urso, antes esposo daquela rapariga, é necessário utilizar um eufemismo. Chocado, talvez? Ou talvez surpreendido?
Enfim, é fácil de ver que Urso esperava tudo, menos voltar a ver Claire.
Após aqueles anos, Claire tinha agora dezassete anos, se ele não estava enganado. Já não era uma menina. Era uma mulher.
E que mulher… o pato feio havia-se brotado numa flor magnifica, tal e qual às rosas brancas junto à sua janela.
Os cabelos continuam compridos e encaracolados, negros como o ébano. Os lábios, outrora murchos, eram agora vermelhos como o sangue, destacando-se ainda mais na sua pele branca como a neve.
Os olhos eram grandes e brilhavam num tom de azul-violeta que ele nunca vira em mais nenhuma mulher. O corpo crescera, e já não era desproporcional. Ao contrário da irmã, cuja beleza era intoxicante, Claire possuía um ar angelical.
Tão bela…
E pensar que quando a conhecera era tão pequena em comparação a ele.
-Kedar? – Chamou a rapariga num sussurro, imóvel. Os olhos piscavam de um lado para o outro, todos os sentidos em alerta. – Não acho que seja seguro estarmos aqui.
-Penso o mesmo Claire, mas temos que passar por aqui. Em breve, estaremos junto à Fronteira. Umas horas e encontraremos Bruno e os seus aliados.
Bruno? Eles iriam encontrar Bruno? Urso sentiu uma estranha corrente de esperança no seu estômago. Talvez ainda pudesse… se tivesse sorte…
-Demorará meio-dia a lá chegar. – Assegurou Claire, virando-se para Goulard, que parecia céptico. – Acompanhar-nos-á?
-Claire, sua Alteza. – Respondeu o homem, com uma vénia. – É claro.
Claire nada disse, limitando-se a morder o lábio inferior. Urso sabia que ela não gostava do seu título real.
Honestamente, ele entendia. As bestas haviam dito tudo aquilo que ele precisava de saber acerca de Claire e o quanto ela era adorada pelos resistentes. Muitos não sabiam o motivo de Claire ser a salvadora de todos. Acreditavam ser tudo obra dos Fados predestinados. Mas não era. Havia um motivo mais obscuro para Claire ser a vida mais importante do lado da Luz. Ironicamente, ela não era tão pura quanto gostavam de imaginar. A rapariga de vestes brancas tinha segredos. Segredos que respondiam à negação dos apelos dos resistentes a que Claire usasse magia branca. Urso sabia. Nunca se esquecera dos dois dias que passara no castelo dos De Roquette, nem tampouco da conversa de Claire com a jovem negrinha.
Claire era das poucas que sabia com o que estava a lidar. Sabia quem era o inimigo e de como o derrotar. A combatente da Luz que entendia as Trevas.
Oh, se eles soubessem…
Os três resistentes seguiram caminho, ignorando os arbustos onde Urso estava escondido. Este deixou escapar um suspiro que nem sabia que estava preso. Apesar de ser um esconderijo eficaz, não podia se esquecer que não fora transformado num simples coelho. Ursos eram criaturas muitos chamativas, devido ao seu enorme tamanho.
Tivera sorte… por agora. Se os Fados houvessem tomado a decisão de lhe sorrir hoje, talvez pudesse arriscar segui-los, em vez de tomar um outro caminho para a Fronteira. Se o fizesse demoraria mais e havia probabilidade de não encontrar Bruno a quando a sua chegada, o que era vital na viagem.
Decidiu segui-los. Esperou que eles estivessem a uns bons cinco metros de distância e caminhou atrás deles, os olhos sempre postos em Claire que, volta e meia, virava o pescoço, como se tivesse pressentido a sua presença.
No final do dia, poderia gabar-se de ter consigo realizar a proeza de seguir Kedar sem ser ouvido ou sentido por nenhum dos homens. Mas, tal como naquele dia quando ouvira a conversa das duas meninas, desconheceu que Claire e Kedar tinham conhecimento da sua presença. Apenas esperava pelo momento oportuno.
A viagem avançou, tendo os três apenas parado para merendar em poucos minutos. Pouco foi dito durante a viagem, visto estarem todos vigilantes. A certa altura, Urso tomou-se com uma preocupação. Ninguém parecia notar que alguém ou algo os seguia. Que esperavam? Seriam assim tão maus a notar no seu redor? Se assim fosse, como é que ainda nunca foram apanhados pelas trevas?
Havia muita coisa que Urso não sabia. Ansiava por reencontrar o seu irmão e comunicar com um ser humano pela primeira vez em doze anos e arranjar forma de voltar a ser o que era. E, pelo caminho, entender o que se passava à sua volta.
Ironicamente, a resposta para todas as suas perguntas e objectivos futuros estava à sua frente, vestida de branco.
Sob o ar frio do Outono, uma figura caminhava lentamente, os pêlos negros eriçados devido à leve brisa fresca. O Urso olhou em volta, atento ao seu redor, como se a qualquer momento, pudesse surgir alguém perigoso. Os seus instintos animais diziam-lhe que alguém se aproximava. Confirmaram-se quando ouviu o som de passadas.
Lentas e leves, pareciam as passadas de uma criança. O Urso ergueu as suas pequenas orelhas redondas, de modo a interpretar o som e a distância que se encontrava de si. Pensou em esconder-se numa toca próxima, mas algo dentro da sua cabeça disse-lhe para não o fazer. Olhando em volta, viu uns arbustos espessos e escuros, grandes o suficiente para o esconder. Dirigiu-se para o seu novo esconderijo e esperou.
Rapidamente descobriu porque os arbustos eram melhor esconderijo do que a toca. Nos arbustos era possível visualizar quem vinha aí. E não havia dúvidas de que era um ser humano. E Urso não via humanos fazia muito tempo. Doze invernos para ser exacto. A sua espessa pelagem negra continuava na mesma, mas os seus movimentos já eram menos rápidos, bem como a resistência. Ainda tinha energia e vontade e era isso que lhe importava. Tantos anos naqueles bosques sem ver vivalma mudaram aquele urso antes jovem, agora em meia-idade. Remorsos, sabedoria, instintos renovados. Podia gabar-se de os Fados lhe terem poupado a vida e de lhe terem entregado novos dons que permitiram a sua sobrevivência na floresta e até para o futuro. Porque ele ainda tinha esperança. Só que pouca.
No entanto, ele não se gaba de coisa alguma. É um feito, milagre de quem o conhecia na sua vida anterior, que o ser dentro daquela pele de urso não se sentisse arrogante e confiante. Pois bem, a dureza da vida muda as pessoas.
Durante o Verão e a Primavera caçava diversas espécies de peixes no rio, sendo salmão o seu preferido e, infelizmente, o mais difícil de pescar. Depois, recolhia a sua caça numa toca provisória, onde hibernaria durante o Inverno. A toca nunca era a mesma, pois as bestas avançavam a cada estação, tornando-se impossível ficar no mesmo sítio. Sendo ele animal, não devia temê-los. Mas temia. Afinal, fora a magia daquelas criaturas que o havia transformado. Apesar de valente, não era estúpido. Sabia que, se voltasse a enfrentar magia negra, sairia derrotado e nem a sua pele de urso o salvaria.
Mas tantos anos de silêncio matavam-no por dentro. Não havia encontrado outros da sua espécie. Parecia que todos os ursos haviam desaparecido à face da Terra. Era-lhe também impossível comunicar com outras criaturas, se bem que raramente as encontrava. Os poucos animais que restavam eram herbívoros e, portanto, criaturas que temiam ursos carnívoros, como ele.
Ninguém… nem um único humano… Os seus conhecimentos era tão poucos sobre o que acontecia nas Terras. O pouco que ouvira em doze anos viera das bestas e claro que nunca fora uma conversa calma e agradável. Haviam sempre detalhes horrorosos acerca de batalhas, destruições de aldeias e castelos. Sabia que quase toda a nobreza havia caído. Bruno era um dos poucos que restavam.
O seu irmão
Será que o procurava? Ou teria pensado que ele fugira ou que morrera? Urso sempre esperara que o irmão algum dia o encontrasse mas, mesmo que o fizesse, não o reconheceria. Afinal era um Urso e ninguém sabia que ele havia sido transformado.
Claro que isso não o impedira de procurar o irmão. Todavia, a tarefa tornara-se difícil quando se apercebeu do cerco das bestas às Terras Baixas. Mesmo que conseguisse entrar, tomá-lo-iam como inimigo e matá-lo-iam antes que ele pudesse comunicar com Bruno.
Urso engoliu em seco, ao ouvir o som de folhas a arrastarem-se. Distinguiu também mais dois pares de pegadas.
Por detrás dos arbustos, surgiu um homem alto, negro e com pouco cabelo, aparentando os cinquenta. O homem contraiu as narinas, como se tentasse cheirar a sua presença, para depois dar um passo em frente, sempre cauteloso, os seus mantos castanhos arrastando-se pelo chão. Estava tão distraído que nem notou no aparecimento de mais duas figuras. Uma rapariga e, atrás dela, um outro homem barrigudo e careca.
-Kedar, será que estamos perto? – Perguntou o homem, deitando um olho no homem negro, outro na rapariga, que estava de costas para o Urso. Os olhos deste aumentaram de tamanho em reconhecimento. Kedar, chefe da Resistência às Trevas. Seria possível que o primeiro ser humano que visse em tanto tempo fosse alguém que o pudesse ajudar?
Isto é, sem que soubesse a sua verdadeira identidade.
Kedar assentiu.
-Não temas Goulard, não estamos em perigo. – Algo no seu tom de voz alertou Urso. Era como se Kedar não estivesse seguro do seu redor. Saberia ele que Urso estava nos arbustos a ouvir a conversa?
Provavelmente, afinal tratava-se de Kedar, filho de um profeta e de uma escrava, que apenas aprendera a ler em fase adulta e que sabia mais que as cabeças de muitos príncipes, nobres e magistrados juntos, só de viver a vida.
-Caminhamos faz quase três semanas. Por volta desta altura…
Kedar ergueu a mão, calando Goulard num segundo.
-Claire faz este caminho há muito tempo. E eu confio nela. – Disse ele, calmamente. Aí, a rapariga virou-se, sendo possível a Urso ver a sua cara.
Para descrever as emoções do Urso, antes esposo daquela rapariga, é necessário utilizar um eufemismo. Chocado, talvez? Ou talvez surpreendido?
Enfim, é fácil de ver que Urso esperava tudo, menos voltar a ver Claire.
Após aqueles anos, Claire tinha agora dezassete anos, se ele não estava enganado. Já não era uma menina. Era uma mulher.
E que mulher… o pato feio havia-se brotado numa flor magnifica, tal e qual às rosas brancas junto à sua janela.
Os cabelos continuam compridos e encaracolados, negros como o ébano. Os lábios, outrora murchos, eram agora vermelhos como o sangue, destacando-se ainda mais na sua pele branca como a neve.
Os olhos eram grandes e brilhavam num tom de azul-violeta que ele nunca vira em mais nenhuma mulher. O corpo crescera, e já não era desproporcional. Ao contrário da irmã, cuja beleza era intoxicante, Claire possuía um ar angelical.
Tão bela…
E pensar que quando a conhecera era tão pequena em comparação a ele.
-Kedar? – Chamou a rapariga num sussurro, imóvel. Os olhos piscavam de um lado para o outro, todos os sentidos em alerta. – Não acho que seja seguro estarmos aqui.
-Penso o mesmo Claire, mas temos que passar por aqui. Em breve, estaremos junto à Fronteira. Umas horas e encontraremos Bruno e os seus aliados.
Bruno? Eles iriam encontrar Bruno? Urso sentiu uma estranha corrente de esperança no seu estômago. Talvez ainda pudesse… se tivesse sorte…
-Demorará meio-dia a lá chegar. – Assegurou Claire, virando-se para Goulard, que parecia céptico. – Acompanhar-nos-á?
-Claire, sua Alteza. – Respondeu o homem, com uma vénia. – É claro.
Claire nada disse, limitando-se a morder o lábio inferior. Urso sabia que ela não gostava do seu título real.
Honestamente, ele entendia. As bestas haviam dito tudo aquilo que ele precisava de saber acerca de Claire e o quanto ela era adorada pelos resistentes. Muitos não sabiam o motivo de Claire ser a salvadora de todos. Acreditavam ser tudo obra dos Fados predestinados. Mas não era. Havia um motivo mais obscuro para Claire ser a vida mais importante do lado da Luz. Ironicamente, ela não era tão pura quanto gostavam de imaginar. A rapariga de vestes brancas tinha segredos. Segredos que respondiam à negação dos apelos dos resistentes a que Claire usasse magia branca. Urso sabia. Nunca se esquecera dos dois dias que passara no castelo dos De Roquette, nem tampouco da conversa de Claire com a jovem negrinha.
Claire era das poucas que sabia com o que estava a lidar. Sabia quem era o inimigo e de como o derrotar. A combatente da Luz que entendia as Trevas.
Oh, se eles soubessem…
Os três resistentes seguiram caminho, ignorando os arbustos onde Urso estava escondido. Este deixou escapar um suspiro que nem sabia que estava preso. Apesar de ser um esconderijo eficaz, não podia se esquecer que não fora transformado num simples coelho. Ursos eram criaturas muitos chamativas, devido ao seu enorme tamanho.
Tivera sorte… por agora. Se os Fados houvessem tomado a decisão de lhe sorrir hoje, talvez pudesse arriscar segui-los, em vez de tomar um outro caminho para a Fronteira. Se o fizesse demoraria mais e havia probabilidade de não encontrar Bruno a quando a sua chegada, o que era vital na viagem.
Decidiu segui-los. Esperou que eles estivessem a uns bons cinco metros de distância e caminhou atrás deles, os olhos sempre postos em Claire que, volta e meia, virava o pescoço, como se tivesse pressentido a sua presença.
No final do dia, poderia gabar-se de ter consigo realizar a proeza de seguir Kedar sem ser ouvido ou sentido por nenhum dos homens. Mas, tal como naquele dia quando ouvira a conversa das duas meninas, desconheceu que Claire e Kedar tinham conhecimento da sua presença. Apenas esperava pelo momento oportuno.
A viagem avançou, tendo os três apenas parado para merendar em poucos minutos. Pouco foi dito durante a viagem, visto estarem todos vigilantes. A certa altura, Urso tomou-se com uma preocupação. Ninguém parecia notar que alguém ou algo os seguia. Que esperavam? Seriam assim tão maus a notar no seu redor? Se assim fosse, como é que ainda nunca foram apanhados pelas trevas?
Havia muita coisa que Urso não sabia. Ansiava por reencontrar o seu irmão e comunicar com um ser humano pela primeira vez em doze anos e arranjar forma de voltar a ser o que era. E, pelo caminho, entender o que se passava à sua volta.
Ironicamente, a resposta para todas as suas perguntas e objectivos futuros estava à sua frente, vestida de branco.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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Olá Ana!
Amei os dois capítulos.
Pobre Claire. Perdeu toda a família. No entanto não me parece que a Rose tenha morrido....
Fiquei curiosa sobre os segredos da Claire, imagino que tenha tudo a ver com Rose.
Finalmente apareceu o Raphael! Agora isto vai ficar mesmo interessante.
Continuas a escrever muito bem.
É sempre um prazer ler.
Espero pelo próximo.
Bjo
Amei os dois capítulos.
Pobre Claire. Perdeu toda a família. No entanto não me parece que a Rose tenha morrido....
Fiquei curiosa sobre os segredos da Claire, imagino que tenha tudo a ver com Rose.
Finalmente apareceu o Raphael! Agora isto vai ficar mesmo interessante.
Continuas a escrever muito bem.

É sempre um prazer ler.
Espero pelo próximo.
Bjo
Dois capitulos!!!! Ahhh Maravilha!
Ok, eu admito, podia ter vindo antes comentar, mas enfim, stresses cá para os meus lados e não tive tempo!
Agora em relação aos capitulo... Oh pá, tadinha da Claire. Lá se foi a mãe! O ambiente era daquele ultimo suspiro era muito...? estranho? Mistico? Nem sei! Mas deu a sensação essencial!
Essa Santa cujo pão se transforma em flores eu já ouvi falar, ma agoira não sei o nome!
Em relação ao "olhar do urso" Oh pá, amei! Foi fantastico ver o Raphael passados tantos anos, e especialmente ver como ele mudou de atitude! Ficou logo pelo beicinho pela Claire! muahahahaha!!!
Agora estou é curiosa para ver desvendadas as mesmas questões que o Urso colocou! Porque é que eles não reagem À sua presença? E o que raio é feito da "Rosa vermelha"?
Mim Querer Saber!
Agora vou a correr postar na minha fic e torcer para que actualizes em breve!
Bjokas
Ok, eu admito, podia ter vindo antes comentar, mas enfim, stresses cá para os meus lados e não tive tempo!
Agora em relação aos capitulo... Oh pá, tadinha da Claire. Lá se foi a mãe! O ambiente era daquele ultimo suspiro era muito...? estranho? Mistico? Nem sei! Mas deu a sensação essencial!
Essa Santa cujo pão se transforma em flores eu já ouvi falar, ma agoira não sei o nome!

Em relação ao "olhar do urso" Oh pá, amei! Foi fantastico ver o Raphael passados tantos anos, e especialmente ver como ele mudou de atitude! Ficou logo pelo beicinho pela Claire! muahahahaha!!!
Agora estou é curiosa para ver desvendadas as mesmas questões que o Urso colocou! Porque é que eles não reagem À sua presença? E o que raio é feito da "Rosa vermelha"?
Mim Querer Saber!

Agora vou a correr postar na minha fic e torcer para que actualizes em breve!

Bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
A Rosa Vermelha morreu 
Pelo menos tenho escrito como se tal tivesse acontecido. Por isso, tou a considerar mudar o titulo da história. Ficava a ser "A rosa De Roquette". Mas é que não quero mesmo nada. Em dois dias, escrevi três capítulos. Faltam três para acabar (mas posso vir a dividir alguma coisa) e ainda estou perdidas nestes caminhos das duas irmãs.
A Santa mencionada é a Santa Isabel, mulher de D.Dinis. A minha história passa-se na idade média, todavia, basei-me no mapa da Europa para criar as Terras. As Terras Baixas são as latinas, tipo Itália, Espanha, Sul de França e Portugal. Daí que os principes das Terras Baixas tenham nomes latinos (Raphael e Bruno). As Terras Altas são as germanicas (Alemanha, Dinamarca e Suecia), Suiça, Polónia, Russia, Paises Baixos e Norte de França. (Não considerei a Grecia, Filandia, Ilhas Britanicas e paises de Leste) Daí os nomes franceses para a familia De Roquette (Charles, Hélene, Rose e Claire)
Sr. Urso vai continuar nesta fanfic até ao fim. Pelo menos, até agora, só contei um capítulo onde ele não aparece. Agora, o que irá acontecer entre ele e Claire... ainda irei decidir. Eu disse que não haveria romances, pois não vos enganei. Poderão vir a pensar que a Srª Claire está apaixonada e talz, mas há que pensar na imagem maior. Não posso explicar mais mas, volto a dizer, o amor de irmão e irmã é o verdadeiro romance desta história.
E, como é claro, o meu costume "obrigado" pelos comentários, pois sempre dá-me gosto de os ler =)

Pelo menos tenho escrito como se tal tivesse acontecido. Por isso, tou a considerar mudar o titulo da história. Ficava a ser "A rosa De Roquette". Mas é que não quero mesmo nada. Em dois dias, escrevi três capítulos. Faltam três para acabar (mas posso vir a dividir alguma coisa) e ainda estou perdidas nestes caminhos das duas irmãs.
A Santa mencionada é a Santa Isabel, mulher de D.Dinis. A minha história passa-se na idade média, todavia, basei-me no mapa da Europa para criar as Terras. As Terras Baixas são as latinas, tipo Itália, Espanha, Sul de França e Portugal. Daí que os principes das Terras Baixas tenham nomes latinos (Raphael e Bruno). As Terras Altas são as germanicas (Alemanha, Dinamarca e Suecia), Suiça, Polónia, Russia, Paises Baixos e Norte de França. (Não considerei a Grecia, Filandia, Ilhas Britanicas e paises de Leste) Daí os nomes franceses para a familia De Roquette (Charles, Hélene, Rose e Claire)
Sr. Urso vai continuar nesta fanfic até ao fim. Pelo menos, até agora, só contei um capítulo onde ele não aparece. Agora, o que irá acontecer entre ele e Claire... ainda irei decidir. Eu disse que não haveria romances, pois não vos enganei. Poderão vir a pensar que a Srª Claire está apaixonada e talz, mas há que pensar na imagem maior. Não posso explicar mais mas, volto a dizer, o amor de irmão e irmã é o verdadeiro romance desta história.
E, como é claro, o meu costume "obrigado" pelos comentários, pois sempre dá-me gosto de os ler =)
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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Ora bem, aqui está o novo capítulo. Pessoalmente, não gosto. Não ficou do modo que realmente queria e alterações a um ponto, tornavam-no ridiculo noutro. Enfim, não gosto, é dos piores capítulos que já fiz. Este e o próximo 
----------------------------------------------------------
Intenções Reais
A chegada á Fronteira foi a mais calma possível, com quase nenhum ruído feito e nenhuma palavra dita. O sol nascia por entre as colinas do este, uma pequena mancha luminosa inserida no cenário celeste turquesa e violeta. Não havia nuvens visíveis e a brisa soprava levemente para oeste. A temperatura subira um pouco, visto terem andado para sul, em terras mais quentes.
Kedar, após pararem no topo de uma colina, falou brevemente para Claire e Goulard e seguiu caminho sozinho, deixando os outros dois sós, esperando por um sinal. Urso observou Goulard tornar-se para Claire, esperando alguma ordem, mas Claire limitou-se a fitar o horizonte, pensativa.
Ao fim de uns minutos de pesado silêncio, em que o estômago de Urso deu-se ao prazer de rugir suavemente, Claire esticou a cabeça para baixo e semicerrou os olhos, como quem encontra algo ao longe. Virou-se para o outro homem:
-Vai, Goulard. Kedar espera-te. – Ordenou simplesmente, querendo ver-se livre do homem. Este assentiu e desceu o monte, um tanto trapalhão e a sua grande barriga a saltitar.
Depois tornou-se, o rosto cheio de fúria. Abriu a boca vermelha para falar, mas um som congelou-a. Urso ergueu as suas pequenas orelhas, tendo ouvido o mesmo.
Suaves pegadas aproximavam-se. Claire colocou a mão dentro do manto, como se escondesse algo no meio das suas vestes e só relaxou quando reconheceu a pessoa. Demorou mais tempo a Urso, pois haviam se passado doze anos. Era tempo suficiente para caras conhecidas se tornarem estranhas.
Um jovem homem, não aparentando mais do que os vinte e cinco anos, com cabelos castanhos dourados e olhos tão negros quanto os cabelos de Claire aproximou-se, a vista focada na rapariga.
-Vieste. – Disse, num sussurro. Claire assentiu, ainda um pouco rígida.
-Precisavas de ajuda, viemos te acolher. Não viste Kedar? – Perguntou, erguendo o sobrolho, desconfiada.
-Vi, mas precisava de falar contigo. – O homem olhou em volta para cada canto, tentando descobrir algum intruso. Por sorte, não notou no Urso, escondido por entre os arvoredos espessos e arbustos selvagens. Claire também olhou em volta e Urso engoliu em seco. Podia jurar que o primeiro sítio onde Claire olhara fora o exacto local onde ele estava escondido.
-Estás só. – Sussurrou ele, findas as vistas. Por algum motivo, Urso não gostou do tom de voz daquele que outrora fora o seu irmão de sangue. E ainda é, para o que desse e viesse.
-Que isso tem de importância, Bruno? – Murmurou Claire, ríspida. Bruno fitou-a, o olhar negro escondendo as suas intenções. Depois, sorriu.
-Sabes bem do que falo, Claire. Mas falemos de outras coisas… as minhas Terras foram tomadas, temos que tomar medidas.
-Já sabes que nós preocupamo-nos com a nossa sobrevivência. Não temos hipótese contra as bestas e o Reino das Trevas.
-Eu tenho guerreiros treinados. Mas preciso de mais…
-Nunca tiveste interesse em batalhas. – Comentou Claire, cruzando os braços. – Sempre foste homem do trono.
-Sempre fui e sempre serei. Mas tenho que admitir que Raphael tinha as suas utilidades…
Os olhos de Urso e Claire lançaram faíscas de raiva. Bruno apenas notou nas reacções da rapariga, os olhos brilhando de um modo estranho.
-Como podes falar assim do teu irmão?
Urso podia jurar que ouvira um tom de dor e amargura na voz de Claire. Mas, mesmo que assim o fosse, Bruno não reagiu.
-Raphael era um excelente guerreiro, mas péssimo no trono. Caso nosso pai tivesse bom senso, nunca teríamos estes problemas. – Disse Bruno, cuspindo quase todas as palavras. Colocou as mãos atrás das costas e começou a andar em pequenos círculos, olhando ocasionalmente para o horizonte, como se tentasse controlar a si próprio. Ele sabia disso. Já fora homem, sabia qual era a sensação de estar perto de uma rapariga tão bela quanto Claire. Até o mais leve perfume conseguia desnortear a cabeça de um homem ajuizado. A certa altura, parou e virou-se para a rapariga. Aí, Urso não teve dúvidas. Havia desejo nos olhos dele. Desejo que ele não conseguia controlar, ainda que controlasse todas as suas forças.
-Mas tinha grandes privilégios. – Sussurrou, os olhos brilhando de uma forma estranha. Fitou Claire intensamente. – Privilégios extremamente bons.
Em duas grandes e rápidas passadas, estava próximo de Claire e tomava a boca dela, dando pouca margem de movimento para ela protestar, uma mão segurando o maxilar dela e a outra a anca magra. A forma como a beijava, tal salteador perante grandes saques reais, deixava no ar a possível ideia de Bruno vir a poder fazer a Claire muito mais do que beijá-la. Raiva cega invadiu Urso, que preparou as suas garras para atacar. Mas, antes que o pudesse fazer, Claire libertou-se, ofegando por ar e por distância do homem.
-Não podemos…
Bruno parecia fora de si, agarrando o braço dela à bruta, talvez querendo deixar lá uma marca.
-Não vais vacilar outra vez, Claire. – Pousou a outra mão nos cabelos dela, afastando-os do seu rosto branco, aproveitando para acaricia-la. – És tão bela. – sussurrou, sem conseguir evitar.
-Não tão bela quanto Rose. – Retorquiu Claire, furiosa, tentando libertar-se em vão. O rosto de Bruno contraiu-se, como se este tivesse ficado ofendido.
-Desejei-a como qualquer outro homem. Mas tu és diferente. – Disse, aproximando os seus lábios dos dela. Claire recuou.
-Desejas-me tal como desejaste a minha irmã. Além disso, sou casada.
Para surpresa de Urso, Bruno sorriu maliciosamente.
-Claire, Claire, Claire, não podes usar esse argumento para sempre. Raphael desapareceu e, além disso, o casamento não foi consumado. Legalmente, não é legítimo. És muito importante para a população agora Claire. Sem esposo, sem filhos, sem pai. Precisas de um marido.
-E porque tu serias a melhor escolha? É tão baixo quanto Raphael! – Ripostou Claire, vendo-se finalmente livre de Bruno. Este ficou furibundo. – Podes ser meu amigo em muitos assuntos, mas partilhar o leito contigo é impensável!
O rosto de Bruno contorceu-se de novo. As palavras magoavam-no muito mais do que Urso imaginava.
-Não sou igual ao meu irmão. Além disso, que sabes tu dele? Na altura eras apenas uma miúda.
Agora era a vez de Claire sorrir.
-Era pequena, mas perspicaz. Ouvi coisas que mais nenhuma rapariga da minha idade ouvia. E o pouco que me faltava, Melanie contava-me. Já sabia quem Raphael era mal o vira. Já sabia que ele iria cair nas garras de Rose a partir do momento em que pôs os olhos nela.
A forma de como eles falavam da sua pessoa chocara Urso. Seria possível que a sua partida tivesse sido tão desejada? Que ninguém se importara com ele?
Claire prosseguira:
-Quando desapareceu, percebi que Rose tinha feito algo.
Bruno semicerrou os olhos, curioso.
-O quê? Nunca me disseste.
-Nunca perguntaste. Nunca quiseste saber para onde o teu irmão fora e o que lhe acontecera.
Bruno encolheu os ombros. Urso teve a sensação que ele já sabia.
-Sempre tive em curiosidade em saber como é que Rose conseguira afastar Raphael das nossas vidas. Podes pensar o contrário, mas era meu irmão mais velho. Eu amava-o.
-Tanto que tu nunca te preocupaste em saber dele.
-Sei que está seguro.
-Seguro? – Claire olhou incrédula para o cunhado. – Tu sabes o que lhe aconteceu?
-Eu não. Mas a tua mãe sabia. Ela viera me falar, mas o teu pai interrompeu. Nunca mais tive um momento privado com ela.
E, nos confins da mente de Claire, uma voz gritava, entristecida. Nem nunca mais terás.
-Mas ela disse-me que ele estava vivo e, tendo em conta o que acontecera depois disso, achei por bem esperar que as águas acalmassem para eu procurar Raphael. Mas nunca tive oportunidade.
-Até que desististe. – Concluiu Claire, num tom neutro.
-Se ele estivesse vivo, ter-me-ia procurado, mas nunca o fizera. Das duas, uma: ou está bem onde está ou está morto. Ambas as hipóteses são melhores a ter um Raphael aqui no meio da guerra.
-Não dizias tu que ele nos ajudaria? – Perguntou Claire, o tom de voz novamente azedo.
Bruno riu-se secamente.
-Raphael sim, um bravo guerreiro, excelente estratega. Mas não o teu esposo. – Aproximou-se de Claire, sussurrando-lhe ao ouvido, impedindo a Urso de o ouvir. – Sabes bem que ela nunca o deixaria em paz. – Afastou-se dela, dando um passo atrás. – Melhor assim. Ao menos, está em paz.
Bruno observou Claire atentamente por uns momentos até que, de repente, virou o rosto para o horizonte, onde homens se acumulavam num pequeno aglomerado escuro nas terras amarelo-castanhado. Urso notou numas pequenas rugas no rosto do irmão. Pois bem, é assim a vida de rei. E pensavam os estúpidos que esses tinham tudo. Bem… até tinham, mas também detinham muitas responsabilidades.
Dissera alguém uma vez: Quanto maior o saque, maior a responsabilidade.
-Talvez um dia te entenda, Claire. O motivo porque insistes em Raphael, quando eu poderei amar-te e gerar-te um filho para continuar o legado da tua família e da minha. O motivo porque vês as coisas a cinzento quando elas são pretas ou brancas.
-Ou o cálice vazio, quando tu o vês cheio. – Cortou a rapariga, fitando-o. – Entende uma coisa, Bruno. Jamais me poderás controlar, nem tu nem ninguém. Não quero um marido, nem um guardião. Entende que eu quero apenas uma coisa…
Bruno talvez esperasse que ela prosseguisse, mas Claire não o fez.
-Vai-te – disse, sem tirar os olhos de cima dele. Bruno viu algo na íris de Claire que Urso não vira, pois o Rei das Terras Baixas obedeceu a Claire De Roquette e desceu o monte, juntando-se aos seus homens e a Kedar, formulando um plano de escape.
Claire ficou de costas para Urso. Até que abriu o manto e, de lá, tirou um pequeno objecto, que Urso não conseguiu ver.
Virou-se para ele, os seus olhos fitando um ponto por detrás de Urso. Aproximando-se, deixando visível uma navalha cravejada a prata e bronze. Estava agora muito próxima dele e Urso sabia que tinha sido apanhado. Jamais conseguiria sair dali sem que ela se apercebesse.
De repente, os olhos de Claire encontraram os seus. Estavam isentes de brilho e Urso sentiu um calafrio só por estar perto da mais nova do clã De Roquette.
-O que fazes aqui? – Perguntou ela, a voz semelhante a gelo impenetrável.

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Intenções Reais
A chegada á Fronteira foi a mais calma possível, com quase nenhum ruído feito e nenhuma palavra dita. O sol nascia por entre as colinas do este, uma pequena mancha luminosa inserida no cenário celeste turquesa e violeta. Não havia nuvens visíveis e a brisa soprava levemente para oeste. A temperatura subira um pouco, visto terem andado para sul, em terras mais quentes.
Kedar, após pararem no topo de uma colina, falou brevemente para Claire e Goulard e seguiu caminho sozinho, deixando os outros dois sós, esperando por um sinal. Urso observou Goulard tornar-se para Claire, esperando alguma ordem, mas Claire limitou-se a fitar o horizonte, pensativa.
Ao fim de uns minutos de pesado silêncio, em que o estômago de Urso deu-se ao prazer de rugir suavemente, Claire esticou a cabeça para baixo e semicerrou os olhos, como quem encontra algo ao longe. Virou-se para o outro homem:
-Vai, Goulard. Kedar espera-te. – Ordenou simplesmente, querendo ver-se livre do homem. Este assentiu e desceu o monte, um tanto trapalhão e a sua grande barriga a saltitar.
Depois tornou-se, o rosto cheio de fúria. Abriu a boca vermelha para falar, mas um som congelou-a. Urso ergueu as suas pequenas orelhas, tendo ouvido o mesmo.
Suaves pegadas aproximavam-se. Claire colocou a mão dentro do manto, como se escondesse algo no meio das suas vestes e só relaxou quando reconheceu a pessoa. Demorou mais tempo a Urso, pois haviam se passado doze anos. Era tempo suficiente para caras conhecidas se tornarem estranhas.
Um jovem homem, não aparentando mais do que os vinte e cinco anos, com cabelos castanhos dourados e olhos tão negros quanto os cabelos de Claire aproximou-se, a vista focada na rapariga.
-Vieste. – Disse, num sussurro. Claire assentiu, ainda um pouco rígida.
-Precisavas de ajuda, viemos te acolher. Não viste Kedar? – Perguntou, erguendo o sobrolho, desconfiada.
-Vi, mas precisava de falar contigo. – O homem olhou em volta para cada canto, tentando descobrir algum intruso. Por sorte, não notou no Urso, escondido por entre os arvoredos espessos e arbustos selvagens. Claire também olhou em volta e Urso engoliu em seco. Podia jurar que o primeiro sítio onde Claire olhara fora o exacto local onde ele estava escondido.
-Estás só. – Sussurrou ele, findas as vistas. Por algum motivo, Urso não gostou do tom de voz daquele que outrora fora o seu irmão de sangue. E ainda é, para o que desse e viesse.
-Que isso tem de importância, Bruno? – Murmurou Claire, ríspida. Bruno fitou-a, o olhar negro escondendo as suas intenções. Depois, sorriu.
-Sabes bem do que falo, Claire. Mas falemos de outras coisas… as minhas Terras foram tomadas, temos que tomar medidas.
-Já sabes que nós preocupamo-nos com a nossa sobrevivência. Não temos hipótese contra as bestas e o Reino das Trevas.
-Eu tenho guerreiros treinados. Mas preciso de mais…
-Nunca tiveste interesse em batalhas. – Comentou Claire, cruzando os braços. – Sempre foste homem do trono.
-Sempre fui e sempre serei. Mas tenho que admitir que Raphael tinha as suas utilidades…
Os olhos de Urso e Claire lançaram faíscas de raiva. Bruno apenas notou nas reacções da rapariga, os olhos brilhando de um modo estranho.
-Como podes falar assim do teu irmão?
Urso podia jurar que ouvira um tom de dor e amargura na voz de Claire. Mas, mesmo que assim o fosse, Bruno não reagiu.
-Raphael era um excelente guerreiro, mas péssimo no trono. Caso nosso pai tivesse bom senso, nunca teríamos estes problemas. – Disse Bruno, cuspindo quase todas as palavras. Colocou as mãos atrás das costas e começou a andar em pequenos círculos, olhando ocasionalmente para o horizonte, como se tentasse controlar a si próprio. Ele sabia disso. Já fora homem, sabia qual era a sensação de estar perto de uma rapariga tão bela quanto Claire. Até o mais leve perfume conseguia desnortear a cabeça de um homem ajuizado. A certa altura, parou e virou-se para a rapariga. Aí, Urso não teve dúvidas. Havia desejo nos olhos dele. Desejo que ele não conseguia controlar, ainda que controlasse todas as suas forças.
-Mas tinha grandes privilégios. – Sussurrou, os olhos brilhando de uma forma estranha. Fitou Claire intensamente. – Privilégios extremamente bons.
Em duas grandes e rápidas passadas, estava próximo de Claire e tomava a boca dela, dando pouca margem de movimento para ela protestar, uma mão segurando o maxilar dela e a outra a anca magra. A forma como a beijava, tal salteador perante grandes saques reais, deixava no ar a possível ideia de Bruno vir a poder fazer a Claire muito mais do que beijá-la. Raiva cega invadiu Urso, que preparou as suas garras para atacar. Mas, antes que o pudesse fazer, Claire libertou-se, ofegando por ar e por distância do homem.
-Não podemos…
Bruno parecia fora de si, agarrando o braço dela à bruta, talvez querendo deixar lá uma marca.
-Não vais vacilar outra vez, Claire. – Pousou a outra mão nos cabelos dela, afastando-os do seu rosto branco, aproveitando para acaricia-la. – És tão bela. – sussurrou, sem conseguir evitar.
-Não tão bela quanto Rose. – Retorquiu Claire, furiosa, tentando libertar-se em vão. O rosto de Bruno contraiu-se, como se este tivesse ficado ofendido.
-Desejei-a como qualquer outro homem. Mas tu és diferente. – Disse, aproximando os seus lábios dos dela. Claire recuou.
-Desejas-me tal como desejaste a minha irmã. Além disso, sou casada.
Para surpresa de Urso, Bruno sorriu maliciosamente.
-Claire, Claire, Claire, não podes usar esse argumento para sempre. Raphael desapareceu e, além disso, o casamento não foi consumado. Legalmente, não é legítimo. És muito importante para a população agora Claire. Sem esposo, sem filhos, sem pai. Precisas de um marido.
-E porque tu serias a melhor escolha? É tão baixo quanto Raphael! – Ripostou Claire, vendo-se finalmente livre de Bruno. Este ficou furibundo. – Podes ser meu amigo em muitos assuntos, mas partilhar o leito contigo é impensável!
O rosto de Bruno contorceu-se de novo. As palavras magoavam-no muito mais do que Urso imaginava.
-Não sou igual ao meu irmão. Além disso, que sabes tu dele? Na altura eras apenas uma miúda.
Agora era a vez de Claire sorrir.
-Era pequena, mas perspicaz. Ouvi coisas que mais nenhuma rapariga da minha idade ouvia. E o pouco que me faltava, Melanie contava-me. Já sabia quem Raphael era mal o vira. Já sabia que ele iria cair nas garras de Rose a partir do momento em que pôs os olhos nela.
A forma de como eles falavam da sua pessoa chocara Urso. Seria possível que a sua partida tivesse sido tão desejada? Que ninguém se importara com ele?
Claire prosseguira:
-Quando desapareceu, percebi que Rose tinha feito algo.
Bruno semicerrou os olhos, curioso.
-O quê? Nunca me disseste.
-Nunca perguntaste. Nunca quiseste saber para onde o teu irmão fora e o que lhe acontecera.
Bruno encolheu os ombros. Urso teve a sensação que ele já sabia.
-Sempre tive em curiosidade em saber como é que Rose conseguira afastar Raphael das nossas vidas. Podes pensar o contrário, mas era meu irmão mais velho. Eu amava-o.
-Tanto que tu nunca te preocupaste em saber dele.
-Sei que está seguro.
-Seguro? – Claire olhou incrédula para o cunhado. – Tu sabes o que lhe aconteceu?
-Eu não. Mas a tua mãe sabia. Ela viera me falar, mas o teu pai interrompeu. Nunca mais tive um momento privado com ela.
E, nos confins da mente de Claire, uma voz gritava, entristecida. Nem nunca mais terás.
-Mas ela disse-me que ele estava vivo e, tendo em conta o que acontecera depois disso, achei por bem esperar que as águas acalmassem para eu procurar Raphael. Mas nunca tive oportunidade.
-Até que desististe. – Concluiu Claire, num tom neutro.
-Se ele estivesse vivo, ter-me-ia procurado, mas nunca o fizera. Das duas, uma: ou está bem onde está ou está morto. Ambas as hipóteses são melhores a ter um Raphael aqui no meio da guerra.
-Não dizias tu que ele nos ajudaria? – Perguntou Claire, o tom de voz novamente azedo.
Bruno riu-se secamente.
-Raphael sim, um bravo guerreiro, excelente estratega. Mas não o teu esposo. – Aproximou-se de Claire, sussurrando-lhe ao ouvido, impedindo a Urso de o ouvir. – Sabes bem que ela nunca o deixaria em paz. – Afastou-se dela, dando um passo atrás. – Melhor assim. Ao menos, está em paz.
Bruno observou Claire atentamente por uns momentos até que, de repente, virou o rosto para o horizonte, onde homens se acumulavam num pequeno aglomerado escuro nas terras amarelo-castanhado. Urso notou numas pequenas rugas no rosto do irmão. Pois bem, é assim a vida de rei. E pensavam os estúpidos que esses tinham tudo. Bem… até tinham, mas também detinham muitas responsabilidades.
Dissera alguém uma vez: Quanto maior o saque, maior a responsabilidade.
-Talvez um dia te entenda, Claire. O motivo porque insistes em Raphael, quando eu poderei amar-te e gerar-te um filho para continuar o legado da tua família e da minha. O motivo porque vês as coisas a cinzento quando elas são pretas ou brancas.
-Ou o cálice vazio, quando tu o vês cheio. – Cortou a rapariga, fitando-o. – Entende uma coisa, Bruno. Jamais me poderás controlar, nem tu nem ninguém. Não quero um marido, nem um guardião. Entende que eu quero apenas uma coisa…
Bruno talvez esperasse que ela prosseguisse, mas Claire não o fez.
-Vai-te – disse, sem tirar os olhos de cima dele. Bruno viu algo na íris de Claire que Urso não vira, pois o Rei das Terras Baixas obedeceu a Claire De Roquette e desceu o monte, juntando-se aos seus homens e a Kedar, formulando um plano de escape.
Claire ficou de costas para Urso. Até que abriu o manto e, de lá, tirou um pequeno objecto, que Urso não conseguiu ver.
Virou-se para ele, os seus olhos fitando um ponto por detrás de Urso. Aproximando-se, deixando visível uma navalha cravejada a prata e bronze. Estava agora muito próxima dele e Urso sabia que tinha sido apanhado. Jamais conseguiria sair dali sem que ela se apercebesse.
De repente, os olhos de Claire encontraram os seus. Estavam isentes de brilho e Urso sentiu um calafrio só por estar perto da mais nova do clã De Roquette.
-O que fazes aqui? – Perguntou ela, a voz semelhante a gelo impenetrável.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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Olá Ana!
Pior capítulo? Não diria tanto.
Eu gostei de ler, teve pouca ação (isto do novo acordo ortográfico dá-me arrepios....parece que estou a cometer erros), mas continuou com o ambiente de mistério que envolve toda esta história.
Foi interessante ver a relação do Bruno com a Claire, e perceber o tipo de pessoa que ele é.
A Claire continua a esconder algo como sempre, que coisa é que ela quer?
Fiquei intrigada, então afinal a pessoa que viu tudo acontecer foi a mãe da Claire?
Mas como soube o Bruno de que tinha sido a Rose a culpada do desaparecimento do irmão?
E o que vai acontecer agora que finalmente a Claire confrontou o Raphael?
Esperando pelo próximo! (que não acredito ser tão mau quanto dizes
)
Beijinhos*
Pior capítulo? Não diria tanto.
Eu gostei de ler, teve pouca ação (isto do novo acordo ortográfico dá-me arrepios....parece que estou a cometer erros), mas continuou com o ambiente de mistério que envolve toda esta história.
Foi interessante ver a relação do Bruno com a Claire, e perceber o tipo de pessoa que ele é.
A Claire continua a esconder algo como sempre, que coisa é que ela quer?
Fiquei intrigada, então afinal a pessoa que viu tudo acontecer foi a mãe da Claire?
Mas como soube o Bruno de que tinha sido a Rose a culpada do desaparecimento do irmão?
E o que vai acontecer agora que finalmente a Claire confrontou o Raphael?
Esperando pelo próximo! (que não acredito ser tão mau quanto dizes
)Beijinhos*
ok, explica-me: Tu não gostas deste capitulo?! É o pior?! E já agora... estás LOUCA?!
Eu adorei este capitulo. Acho que tudo o que aconteceu nele foi envolvente. Pode não ter tido uma cena de pura ação mas eu realmente gostei dele (Parece que estou a escrever Brasuca o.O).
Gostei do Bruno a atirar-se à Claire, gostei da conversa deles e gostei de conhecer este novo lado do Bruno que ninguem conhecia. Explicou algumas coisas! E mais, amei o final em que ela vê o urso!
Não podia estar melhor, Ana, e como dizes que o próximo capitulo não é bom, começo a achar que ainda vou gostar mais do que deste! Muhahahaha!
Agora estou curiosa por causa do reencontro do Urso e da Claire. O que é que vai sair dali?!
Mim estar a ficar muito ansiosa pelo proximo capitulo!
Manda bir, mai lobe!!
(adoro este smile!
)
Eu adorei este capitulo. Acho que tudo o que aconteceu nele foi envolvente. Pode não ter tido uma cena de pura ação mas eu realmente gostei dele (Parece que estou a escrever Brasuca o.O).
Gostei do Bruno a atirar-se à Claire, gostei da conversa deles e gostei de conhecer este novo lado do Bruno que ninguem conhecia. Explicou algumas coisas! E mais, amei o final em que ela vê o urso!
Não podia estar melhor, Ana, e como dizes que o próximo capitulo não é bom, começo a achar que ainda vou gostar mais do que deste! Muhahahaha!
Agora estou curiosa por causa do reencontro do Urso e da Claire. O que é que vai sair dali?!
Mim estar a ficar muito ansiosa pelo proximo capitulo!
Manda bir, mai lobe!!
(adoro este smile!
)
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Mesmo depois de ler os vossos comentários, continuo a achar que este capítulo sabe a pouco (ya, Lulu eu sou louca
). Aqui, há muito dialogo e pouca descrição, logo não consigo dar-lhe o toque de conto que tanto gosto de pôr nesta fic.
Para já, não sei quando irei postar o novo capítulo. Talvez sexta ou sabado, não sei...
Mais uma vez, obrigada pelos comentários. Ah.. e mais uma coisa. Tomem atenção a cada expressão ou gesto de cada personagem. Outro motivo para não gostar deste capítulo é porque ficou um pouco dificil eu deixar uma mensagem acerca de Bruno.
). Aqui, há muito dialogo e pouca descrição, logo não consigo dar-lhe o toque de conto que tanto gosto de pôr nesta fic. Para já, não sei quando irei postar o novo capítulo. Talvez sexta ou sabado, não sei...
Mais uma vez, obrigada pelos comentários. Ah.. e mais uma coisa. Tomem atenção a cada expressão ou gesto de cada personagem. Outro motivo para não gostar deste capítulo é porque ficou um pouco dificil eu deixar uma mensagem acerca de Bruno.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
Aqui está o novo capítulo. Como já disse, não gosto muito dele. Mas espero que gostem dele à mesma. =)
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Confiança
Já longe ia a memória da jovem e inocente Claire. Aqui estava uma rapariga marcada pela vida e pela dor, tanto que as suas acções mais pareciam as de um ser supérfluo e maldoso.
Fora-se a inocência, fora-se a juventude. Claire tinha dezassete mas, tal como Bruno, envelhecera mais do que devia. Entendia-se. Perdera quase toda a família num curto espaço de tempo, todos contavam com ela para alcançar a paz nas duas Terras e tinha responsabilidades para com o trono de Raphael e o legado De Roquette.
Urso perguntou-se se Claire, secretamente, o culpava pelo seu destino. Bem, não tinha sido ele a determinar os Fados dela, tão grandiosos quanto podiam ser. Grandiosos e dolorosos, deviam dizer. Seu pai havia dito uma vez que para obter o poder absoluto e a glória, era necessário fazer certos sacrifícios. E assim ocorria o mesmo com Claire. Seria a heroína de todos. Mas, pelo caminho, perderia toda a família. Todavia, em todo o caso e qual era a vontade humana de arranjar um bode expiratório no mundo terreno para os seus males, ela podia sentir algum rancor para com ele. Tomara que não. Claire deveria guardar mais rancor pelo seu destino do que qualquer habitante das duas Terras. Tudo porque fora abençoada pelos Fados.
E que grandes aldrabões eram os Fados. Mas o pior era que não podiam virar as costas a aquilo que eles diziam. Afinal, tratava-se do destino da pessoa.
Naquele momento, Urso não podia negar que o seu destino chegara a um beco sem saída. Claire fitara-o ameaçadoramente, como se já houve tomado a decisão de o matar.
Oxalá ainda houvesse compaixão na antes menina das rosas brancas.
-Eu perguntei, que fazes aqui? – Repetiu, a voz tão gelada que provocou um calafrio na espinha de Urso.
E agora, que faria? Não podia comunicar com ela. Não podia gastar a sua única hipótese de comunicação com a sua esposa. Mas, se não o fizesse, Claire certamente o tomaria como espião ou pior…
Iria matá-lo.
Por outro lado, Urso tinha a certeza que havia mais vantagens em comunicar com Claire do que com Bruno. Era mais fácil estar perto dela do que do Rei das Terras Baixas e isso já facilitava muita coisa. E, finalmente, ela era a irmã de Rose. Poderia ajudá-lo com mais aptidão que Bruno.
Estava decidido. Falaria com Claire.
Sentiu um brilho azul-marinho cercá-lo por uns longos segundos, tão brilhante que forçou Urso e Claire a fecharem as pálpebras. Quando cessou, fitaram-se e Urso viu os olhos de Claire aumentarem de tamanho, em estado de choque.
Oh, mas que parvo, pensou para si próprio, amaldiçoando-se pela sua estupidez. Claire não esperava que ele respondesse em palavras coerentes. Tudo que tinha a fazer era grunhir que ela o tomaria como um urso vulgar.
Bem, agora era tarde de mais. Pagara pelo seu erro de não pensar bem antes de abrir a boca. Ou pensar, tal era o caso.
-Tu… não és um urso vulgar. – Conseguiu articular Claire, agarrando o cabo da navalha com as duas mãos, dando um passo atrás.
-Não. – Confirmou Urso, alegre por ouvir a sua própria voz ao fim de doze anos, mais rouca do que supostamente era, soando à voz de um velho. – Mas também não sou inimigo.
-Andaste a seguir-nos. – Afirmou Claire, sem tirar a vista do enorme Urso.
-Sim. Preciso da tua ajuda, Claire. Só tu me podes ajudar.
-E porquê eu? – Perguntou ela, cautelosa. – Se pensas que, por eu ser…
-Eu sei que não gostas do teu título, mas preciso da tua ajuda. Não porque és considerada a nossa salvadora mas porque a conheces.
Urso deu um passo atrás, sabendo que atingira um nervo. Claire lançou-lhe um olhar penetrante, os lábios tecendo uma linha recta. Mas, para além disso, não se mexeu. Não o podia negar.
Afinal, era por isso que ela era considerada a salvadora de todos. Como já fora dito, muitos pensavam que era por causa dos Fados, mas enganavam-se.
Claire conhecia o inimigo. E o inimigo jamais a mataria.
Afinal, quem mataria a própria irmã?
Cautelosamente, Urso prosseguiu:
-Deves saber como ela me enfeitiçou. – Disse calmamente, esperando que Claire o escutasse. Claire franziu a testa, confusa.
-Ela… enfeitiçou-te? O que te fez? – Perguntou calmamente, mas num tom grosso, como se fosse saltar em defesa de Rose a qualquer momento.
Urso engoliu em seco. Anos como urso haviam-lhe ensinado muita coisa. Afinal, o homem extraíra a sabedoria da natureza. Porque seria diferente com ele? Pois bem, agora podia orgulhar-se de ser um homem… melhor Urso, mais sábio do que alguma vez fora.
No entanto, não era necessário ser-se um génio para saber que ele não podia contar a Claire a sua verdadeira identidade. Primeiro, tinha que ganhar a sua confiança. Mas, ao mesmo tempo, não conseguia lhe mentir. A dor expressa nos belos olhos azul-violeta enfraquecia as suas fortes patas.
Decidiu-se por contar-lhe meias verdades. Completaria o resto mais tarde.
-Ela... tirou-me tudo. A minha família, o meu lar... Destruiu tudo.
-E achas que podes ganhar tudo de volta se eu te ajudar? – Perguntou Claire, céptica. – Não posso ressuscitar os mortos. – Disse, uma leve ponta de desespero e dor na sua voz.
-Eles não estão mortos. Estão no meu lar. Preciso de ir ter com eles.
-Aonde? – Perguntou Claire.
Aí estava uma boa pergunta. Aos olhos de todos, família era um grupo de pessoas que te amavam e com quem podias contar. Pessoas que tinham ligações contigo, quer por sangue, quer por amizade. Em tempos humanos, ele não tivera amigos. Apenas camaradas e muitos haviam padecido nas guerras. O seu pai havia morrido, ou Bruno não reinaria as Terras Baixas. Só lhe restava o irmão.
E a esposa.
-Nos bosques. – Respondeu ele. – Para o lado das montanhas.
-Nas Terras Altas? Não sabia que havia ursos nas Terras Altas.
-Já houve. – Disse Urso, honestamente. Havia ouvido seu pai mencionar as grandes caçadas que Charles De Roquette fazia no Verão. – Agora foram-se.
Ela não iria acreditar nele. Que motivos teria? Ele era um Urso falante e, nos tempos que corriam, não valia a pena arriscar novas amizades e confianças com criaturas estranhas e fantásticas. Além disso, de que valeria a sua palavra? Como saberia ela que ele não acabaria por a trair?
De repente, ambos ouviram sons distantes e gritos de homens. Claire afastou-se para observar uma espécie de tumulto abaixo do monte. A rapariga entrou em pânico:
-Kedar e Bruno! Estão a ser atacados!
Urso viu-a o olhar dela encher-se de desespero e de determinação. E então ele próprio entrou em pânico. O que iria ela fazer? Não podia lutar. Era uma donzela.
Claire aprontou a navalha na mão direita e preparou-se para descer o monte quando Urso, numa inspiração corajosa, se meteu à frente dela:
-Porque vais?
-Não os posso deixar lutar sozinhos!
-És donzela. – Argumentou ele, como se quisesse dizer tudo. Claire não gostou.
-E…? Eles precisam de ajuda.
-São homens e soldados. Foram treinados para se defenderem. Além disso, presumo que Kedar te queira proteger mais do que a sua própria vida.
Claire sabia que isso era verdade, mas recusava-se a admitir que Urso tinha razão.
Urso fora o primeiro a ouvir. Gritos de bestas que se aproximavam. Tudo aconteceu tão depressa que Urso apenas teve tempo para saltar para cima de Claire, derrubando-a no chão, ao mesmo tempo que um bando de setas cruzava o mesmo espaço onde antes estivera Claire, encontrando o chão ao invés.
E então apareceram as criaturas. Enquanto a sua maioria atacava abaixo do monte, um pequeno grupo viera ao topo ao sentir o cheiro a carne humana. Tratava-se de fusões de diversos animais carnívoros num corpo apenas. Muitos tinham cara de boi, cauda de cavalo e tronco de leão. Outros, cara de rinoceronte, cornos de boi e tronco de cavalo. E as misturas não terminavam por ali, mas ninguém dava-se ao trabalho de as contar. Pudera, quando uma besta aparecia, a preocupação principal era sobreviver ao encontro pois as bestas agiam como tais. Destruíam tudo o que aparecia à sua frente. E, naquele momento, viam um grande urso em cima de uma rapariga humana. E todos sabiam o quão instáveis ao sangue humano eles ficavam quando presente.
As bestas que surgiam, cerca de meia dúzia, traziam diversas ferramentas de guerra outrora utilizadas pelos homens. Martelos, arcos, espadas e escudos eram alguns dos materiais de ferro e bronze, que eles levavam junto ao corpo espesso coberto de pêlo e uma leve túnica de pele de carneiro.
Sem hesitar, atacaram os outros dois, lançando rugidos de guerra. Urso rugiu de volta e atirou-se para cima das duas primeiras bestas a chegarem-se perto dele. Fosse como fosse, não deixaria que ninguém magoasse Claire. Tinha diversos motivos para a proteger, mas o mais importante era mesmo a sua honra de guerreiro, em proteger todas as outras almas que podiam ser atacadas pelo inimigo. E, naquele momento, ele não era Urso, nem o príncipe Raphael, era um guerreiro, um soldado das mais diversas batalhas que combatia junto dos seus homens e que lutava como um igual.
E pensar que, num campo de batalha, sua alteza real era tão semelhante aos outros quanto podia. Todavia, quando se aprumasse com roupas de seda fina, ficava tão emproado como um pavão. Se houvesse quem estendesse certas mentes…
Urso deu uma patada na primeira besta com tanta força que acabou por lhe partir o pescoço. Fez o mesmo com a segunda, apesar de esta ter dado luta com o seu martelo, deferindo um ferimento na pata traseira de Urso. Este rugiu de dor, mas apenas provocou um aumento de raiva e adrenalina. Em dois segundos, já estava à procura de mais bestas. Derrubou uma, trazendo mais duas ao chão, tal efeito dominó. Não lhes deu tempo suficiente para se defenderem ou para lhe infligirem dor. Com as suas presas de urso, matou-os quase instantaneamente, deixando um rasto de sangue encarnado por todo o lado.
Foi aí que notou que faltava uma. Ao ouvir um ofegar incessante, virou-se para ver a última criatura morta junto de Claire, cuja navalha parecia ter sido afogada em sangue e as roupas um pouco rasgadas. Esta, ao ver Urso e os corpos das várias criaturas, fechou as pálpebras e inspirou o ar, que tresandava a corpo em decomposição.
-Claire! – Ouviu-se ao longe. Urso virou o pescoço para fitar Kedar, Goulard, Bruno e alguns homens, todos com as suas vestes esfarrapadas, cheias de sangue e cortes no corpo, mas vivos. – Estás bem?
Ao ver Urso, Bruno ergueu a sua espada, o seu movimento seguido pelos seus homens. Por instinto, Urso baixou a cabeça, preparando a garras para um eventual ataque.
Ataque que nunca chegou a acontecer, pois Claire tinha-se colocado à frente dele.
-PAREM! Não o magoem!
-Claire, é um Urso encantado. Obviamente um inimigo. – Atirou Bruno, a espada apontada ao focinho do Urso. – Pode vir a magoar-te.
Claire lançou-lhe um olhar cheio de cólera.
-Se fosse meu inimigo, ter-me-ia feito mal mais cedo. Seguiu-me o caminho todo e estivemos sozinhos por momentos. Não me atacou nessa altura nem nunca. Alias, até me salvou a vida. – Disse e virou-se para a criatura, sorrindo, grata. Havia qualquer coisa no olhar dela que sobressaltou Urso. Era como se a rapariga tivesse um comportamento bipolar. Um momento agressiva, outro amável. Não fosse a tensão do momento, Urso teria pensado melhor e chegado à conclusão que Claire encontrava-se no meio de hienas. Necessitava de erguer um escudo de protecção para se proteger, para além do facto de a vida lhe ter endurecido o rosto. No entanto, por ele lhe ter salvado a vida, algo no coração da jovem derreteu a armadura de gelo. Um pouco, mas sempre algo. Afinal, Claire não confiava em ninguém a não ser em Kedar e Melanie. Nem a sua própria “gente” era de confiança. Mas algo lhe dizia que podia confiar nele. Podia confiar naquele Urso para a proteger e não lhe fazer qualquer mal.
Urso lançou um rugido, mas só Claire ouvira as palavras.
Obrigado.
Ela sorriu, os olhos dela focados nos negros dele. Havia algo familiar naqueles olhos. Era como se já os tivesse visto em alguma parte da sua moça vida. Mal sabia ela que já os vira, sim. Uma vez. E ela nunca os esquecera, por muito que tentasse ignorar o facto.
-Voltará connosco. – Disse, decidida, falando para Kedar. Este lançou um olhar penetrante a Urso, como se lhe quisesse ler a mente. No entanto, ao contrário de Claire, chegara a algo, a uma confirmação de algo que ela já desconfiava. Rodou o maxilar, semicerrando os olhos, como se tivesse reconhecido algo escondido nas profundezas da alma da criatura. Depois assentiu.
-Sim, que venha. Poderá ser-nos grande ajuda. – Disse, virando-se para Goulard e os homens de Bruno. Este não parecia satisfeito, os olhos escuros focando o do Urso. Este tentou manter o contacto visual, em busca de algum reconhecimento. Mas Bruno nada disse, lançando ao animal um olhar de desdém, antes de lhe virar as costas, não antes de fazer uma vénia forçada a Claire.
-A caminhada vai ser comprida, mas temos lugar que chegue para todos. Pretendemos alastrar os nossos esconderijos para nordeste das Terras Altas. As trevas ainda não se apoderaram desse território. – Disse Kedar, a sua voz grossa ecoando no ar. – Teremos todo o cuidado possível. E, mais tarde, quando nós tivermos instalado, trataremos da estratégia.
-Estratégia? – Perguntou Claire, confusa. Olhando para o lado de Kedar, viu Bruno sorrir, vitorioso.
Kedar suspirou pesadamente.
-Lamento minha filha, mas Bruno tem razão. Não podemos continuar assim. Temos jovens fortes nos esconderijos e estes homens. – Apontou para os poucos sobreviventes do exército de Bruno. – Poderão treiná-los. Com a estratégia correcta, não necessitaremos de um grande número de soldados. Apenas de inteligência.
-Mas Kedar, o outro lado tem magia! – Protestou Claire, desesperada. – Nenhum homem terá hipótese!
-Se os apanharmos de surpresa, não terão tempo para usar magia em nós. – Disse Bruno, calmamente, os braços cruzados e o tronco apoiado numa árvore. Parecia estar a divertir-se com o desespero de Claire.
-Isto vindo de um homem. – Murmurou Urso. Claire tornou-se para ele, espantada. Os outros, tendo ouvido apenas um rugido, fitaram a grande criatura, confusos. – Um homem que quer enfrentar o inimigo com espadas quando o outro lado tem magia do duende… e é comandado por uma mulher… Garanto no que te digo, cairão na armadilha que nem patos durante a caça.
Os olhos de Claire aumentaram de tamanho.
-Como sabes de…? – Sussurrou, aterrorizada.
-Claire, que estás a fazer? – Perguntou Kedar, preocupado. Os olhos dele procuraram Urso, tentando descobrir o que se passava. Alguns homens atreveram-se a tocar no punho das suas espadas.
A rapariga sentia-se confusa. O Urso tinha falado… não tinha?
-Eles não me entendem. Só tu. Não faças perguntas até estarmos sozinhos. – Disse o mamífero, saindo um rugido da sua enorme boca, confundindo os homens. Bruno semicerrou os olhos, como se algo lhe tivesse ocorrido, mas nada disse, fitando o animal desconfiado.
Claire desviou os olhos do Urso e virou-se para os homens, em especial Kedar.
-Ele é seguro. Não nos fará mal. – Disse, a sua voz traindo um pouco de receio. Mexeu os dedos das mãos, nervosa, acto que só fora visto pelo homem ancião e pelo Urso.
Kedar assentiu, sorrindo abertamente, como se partilhasse uma anedota interior. Com os dedos, fez sinais aos homens para o seguirem por entre as árvores, rumo às Terras Altas. Estes lançaram um olhar a Bruno antes de o seguirem, como se um novo chefe tivesse sido escolhido. O jovem franziu a testa, moldando o rosto num semblante severo.
Claire e Urso não se mexeram, esperando que Bruno fosse atrás de Kedar, acto que demorou longos minutos de silêncio. Bruno olhava para o Urso como se este o ameaçasse, querendo roubar-lhe a presa. Mal sabia ele o quão próximo da verdade estava…
Só os abandonou quando Kedar o chamou, a sua voz já longínqua, correndo para o alcançar.
Claire engoliu em seco antes de dar um passo em frente, atrás do grupo de homens. Mas uma voz chamando o seu nome travou-a.
Urso tinha a cabeça baixada, perdido em pensamentos e emoções. Durante doze anos tentara encontrar o seu irmão, crente que ele o poderia ajudar. Como poderia adivinhar que Bruno tornara-se num homem orgulhoso, ambicioso e arrogante, tal como ele fora antes de ser transformado?
Agora ali, depois de apenas umas horas com Claire, sabia que ela o ajudaria até aos confins do mundo. Apesar de receosa da sua decisão, defendera-o e salvara-o da morte certa. Tudo não passava de uma máscara de gelo erguida devido à dureza do tempo e da vida. Mas por baixo, junto ao coração que poucas pessoas alcançavam, encontrava-se amor e respeito. E ele pretendia obter o respeito de Claire. Era a melhor hipótese de salvar o seu corpo… e a sua alma.
Todavia, precisava que ela confiasse nele.
-Claire, não temas. Não te farei mal.
-Eu sei. – Respondeu ela automaticamente. – Já o terias feito se quisesses.
-Mas quero que saibas que podes contar sempre comigo. Mesmo depois de me teres ajudado, jamais te deixarei. Ser-te-ei sempre leal. Porém, tenho de saber… confias em mim?
Confiar, o quão forte impacto aquela palavra tinha numa pessoa. Confiança era algo raro naqueles dias e difícil era alcançarmos tal segurança de espírito para com uma pessoa. Ela só confiava em Kedar e Melanie após a morte do pai. Não confiava plenamente em Bruno, apesar de este ser um aliado poderoso e, nalgumas ocasiões, um grande amigo.
Ela reflectiu. Tinha vários motivos para confiar nele. Ele defendera-a das bestas, matando-as. Seguira-os o caminho todo desde as Terras Altas e não os atacara, falara do inimigo como se o conhecesse pessoalmente. Tragicamente, não era motivos muito fortes pois o ataque ocorrera na exacta altura em que Urso tentara conquistar a confiança de Claire. Talvez não os tivesse atacado porque preferira esperar pelo momento mais oportuno para convencer Claire a deixá-lo entrar nos seus esconderijos.
Todavia, ela sentia que podia confiar nele. O seu instinto dizia-lhe que sim. Ao olhar nos olhos negros do Urso, sentiu um calafrio familiar percorrer a sua pele. Era como se já o conhecesse, apesar de ela nunca o ter visto. Sentiu a pele branca a aquecer e soube. Soube que podia confiar nele. Até que ponto, ainda tinha dúvidas, mas sabia que ele manteria a sua palavra e que lhe seria leal sempre. Em troca, apenas pedia a sua ajuda e a sua confiança.
Ela sorriu e fez-lhe sinal para que a seguisse, não trocando nenhuma palavra. Ele seguiu-a silenciosamente mas, por dentro, o seu coração palpitava alegremente.
Ela confiava nele. Iria ajudá-lo.
Afinal, havia esperança.
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Ok, eu tenho mesmo que partilhar esta imagem. Encontrei-a só mesmo por acaso e fiquei boquiaberta. A rapariga é exactamente como eu imaginava a Rose, mas com olhos azuis em vez de verdes. Deixo aqui a imagem para vocês verem.
Rose
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Confiança
Já longe ia a memória da jovem e inocente Claire. Aqui estava uma rapariga marcada pela vida e pela dor, tanto que as suas acções mais pareciam as de um ser supérfluo e maldoso.
Fora-se a inocência, fora-se a juventude. Claire tinha dezassete mas, tal como Bruno, envelhecera mais do que devia. Entendia-se. Perdera quase toda a família num curto espaço de tempo, todos contavam com ela para alcançar a paz nas duas Terras e tinha responsabilidades para com o trono de Raphael e o legado De Roquette.
Urso perguntou-se se Claire, secretamente, o culpava pelo seu destino. Bem, não tinha sido ele a determinar os Fados dela, tão grandiosos quanto podiam ser. Grandiosos e dolorosos, deviam dizer. Seu pai havia dito uma vez que para obter o poder absoluto e a glória, era necessário fazer certos sacrifícios. E assim ocorria o mesmo com Claire. Seria a heroína de todos. Mas, pelo caminho, perderia toda a família. Todavia, em todo o caso e qual era a vontade humana de arranjar um bode expiratório no mundo terreno para os seus males, ela podia sentir algum rancor para com ele. Tomara que não. Claire deveria guardar mais rancor pelo seu destino do que qualquer habitante das duas Terras. Tudo porque fora abençoada pelos Fados.
E que grandes aldrabões eram os Fados. Mas o pior era que não podiam virar as costas a aquilo que eles diziam. Afinal, tratava-se do destino da pessoa.
Naquele momento, Urso não podia negar que o seu destino chegara a um beco sem saída. Claire fitara-o ameaçadoramente, como se já houve tomado a decisão de o matar.
Oxalá ainda houvesse compaixão na antes menina das rosas brancas.
-Eu perguntei, que fazes aqui? – Repetiu, a voz tão gelada que provocou um calafrio na espinha de Urso.
E agora, que faria? Não podia comunicar com ela. Não podia gastar a sua única hipótese de comunicação com a sua esposa. Mas, se não o fizesse, Claire certamente o tomaria como espião ou pior…
Iria matá-lo.
Por outro lado, Urso tinha a certeza que havia mais vantagens em comunicar com Claire do que com Bruno. Era mais fácil estar perto dela do que do Rei das Terras Baixas e isso já facilitava muita coisa. E, finalmente, ela era a irmã de Rose. Poderia ajudá-lo com mais aptidão que Bruno.
Estava decidido. Falaria com Claire.
Sentiu um brilho azul-marinho cercá-lo por uns longos segundos, tão brilhante que forçou Urso e Claire a fecharem as pálpebras. Quando cessou, fitaram-se e Urso viu os olhos de Claire aumentarem de tamanho, em estado de choque.
Oh, mas que parvo, pensou para si próprio, amaldiçoando-se pela sua estupidez. Claire não esperava que ele respondesse em palavras coerentes. Tudo que tinha a fazer era grunhir que ela o tomaria como um urso vulgar.
Bem, agora era tarde de mais. Pagara pelo seu erro de não pensar bem antes de abrir a boca. Ou pensar, tal era o caso.
-Tu… não és um urso vulgar. – Conseguiu articular Claire, agarrando o cabo da navalha com as duas mãos, dando um passo atrás.
-Não. – Confirmou Urso, alegre por ouvir a sua própria voz ao fim de doze anos, mais rouca do que supostamente era, soando à voz de um velho. – Mas também não sou inimigo.
-Andaste a seguir-nos. – Afirmou Claire, sem tirar a vista do enorme Urso.
-Sim. Preciso da tua ajuda, Claire. Só tu me podes ajudar.
-E porquê eu? – Perguntou ela, cautelosa. – Se pensas que, por eu ser…
-Eu sei que não gostas do teu título, mas preciso da tua ajuda. Não porque és considerada a nossa salvadora mas porque a conheces.
Urso deu um passo atrás, sabendo que atingira um nervo. Claire lançou-lhe um olhar penetrante, os lábios tecendo uma linha recta. Mas, para além disso, não se mexeu. Não o podia negar.
Afinal, era por isso que ela era considerada a salvadora de todos. Como já fora dito, muitos pensavam que era por causa dos Fados, mas enganavam-se.
Claire conhecia o inimigo. E o inimigo jamais a mataria.
Afinal, quem mataria a própria irmã?
Cautelosamente, Urso prosseguiu:
-Deves saber como ela me enfeitiçou. – Disse calmamente, esperando que Claire o escutasse. Claire franziu a testa, confusa.
-Ela… enfeitiçou-te? O que te fez? – Perguntou calmamente, mas num tom grosso, como se fosse saltar em defesa de Rose a qualquer momento.
Urso engoliu em seco. Anos como urso haviam-lhe ensinado muita coisa. Afinal, o homem extraíra a sabedoria da natureza. Porque seria diferente com ele? Pois bem, agora podia orgulhar-se de ser um homem… melhor Urso, mais sábio do que alguma vez fora.
No entanto, não era necessário ser-se um génio para saber que ele não podia contar a Claire a sua verdadeira identidade. Primeiro, tinha que ganhar a sua confiança. Mas, ao mesmo tempo, não conseguia lhe mentir. A dor expressa nos belos olhos azul-violeta enfraquecia as suas fortes patas.
Decidiu-se por contar-lhe meias verdades. Completaria o resto mais tarde.
-Ela... tirou-me tudo. A minha família, o meu lar... Destruiu tudo.
-E achas que podes ganhar tudo de volta se eu te ajudar? – Perguntou Claire, céptica. – Não posso ressuscitar os mortos. – Disse, uma leve ponta de desespero e dor na sua voz.
-Eles não estão mortos. Estão no meu lar. Preciso de ir ter com eles.
-Aonde? – Perguntou Claire.
Aí estava uma boa pergunta. Aos olhos de todos, família era um grupo de pessoas que te amavam e com quem podias contar. Pessoas que tinham ligações contigo, quer por sangue, quer por amizade. Em tempos humanos, ele não tivera amigos. Apenas camaradas e muitos haviam padecido nas guerras. O seu pai havia morrido, ou Bruno não reinaria as Terras Baixas. Só lhe restava o irmão.
E a esposa.
-Nos bosques. – Respondeu ele. – Para o lado das montanhas.
-Nas Terras Altas? Não sabia que havia ursos nas Terras Altas.
-Já houve. – Disse Urso, honestamente. Havia ouvido seu pai mencionar as grandes caçadas que Charles De Roquette fazia no Verão. – Agora foram-se.
Ela não iria acreditar nele. Que motivos teria? Ele era um Urso falante e, nos tempos que corriam, não valia a pena arriscar novas amizades e confianças com criaturas estranhas e fantásticas. Além disso, de que valeria a sua palavra? Como saberia ela que ele não acabaria por a trair?
De repente, ambos ouviram sons distantes e gritos de homens. Claire afastou-se para observar uma espécie de tumulto abaixo do monte. A rapariga entrou em pânico:
-Kedar e Bruno! Estão a ser atacados!
Urso viu-a o olhar dela encher-se de desespero e de determinação. E então ele próprio entrou em pânico. O que iria ela fazer? Não podia lutar. Era uma donzela.
Claire aprontou a navalha na mão direita e preparou-se para descer o monte quando Urso, numa inspiração corajosa, se meteu à frente dela:
-Porque vais?
-Não os posso deixar lutar sozinhos!
-És donzela. – Argumentou ele, como se quisesse dizer tudo. Claire não gostou.
-E…? Eles precisam de ajuda.
-São homens e soldados. Foram treinados para se defenderem. Além disso, presumo que Kedar te queira proteger mais do que a sua própria vida.
Claire sabia que isso era verdade, mas recusava-se a admitir que Urso tinha razão.
Urso fora o primeiro a ouvir. Gritos de bestas que se aproximavam. Tudo aconteceu tão depressa que Urso apenas teve tempo para saltar para cima de Claire, derrubando-a no chão, ao mesmo tempo que um bando de setas cruzava o mesmo espaço onde antes estivera Claire, encontrando o chão ao invés.
E então apareceram as criaturas. Enquanto a sua maioria atacava abaixo do monte, um pequeno grupo viera ao topo ao sentir o cheiro a carne humana. Tratava-se de fusões de diversos animais carnívoros num corpo apenas. Muitos tinham cara de boi, cauda de cavalo e tronco de leão. Outros, cara de rinoceronte, cornos de boi e tronco de cavalo. E as misturas não terminavam por ali, mas ninguém dava-se ao trabalho de as contar. Pudera, quando uma besta aparecia, a preocupação principal era sobreviver ao encontro pois as bestas agiam como tais. Destruíam tudo o que aparecia à sua frente. E, naquele momento, viam um grande urso em cima de uma rapariga humana. E todos sabiam o quão instáveis ao sangue humano eles ficavam quando presente.
As bestas que surgiam, cerca de meia dúzia, traziam diversas ferramentas de guerra outrora utilizadas pelos homens. Martelos, arcos, espadas e escudos eram alguns dos materiais de ferro e bronze, que eles levavam junto ao corpo espesso coberto de pêlo e uma leve túnica de pele de carneiro.
Sem hesitar, atacaram os outros dois, lançando rugidos de guerra. Urso rugiu de volta e atirou-se para cima das duas primeiras bestas a chegarem-se perto dele. Fosse como fosse, não deixaria que ninguém magoasse Claire. Tinha diversos motivos para a proteger, mas o mais importante era mesmo a sua honra de guerreiro, em proteger todas as outras almas que podiam ser atacadas pelo inimigo. E, naquele momento, ele não era Urso, nem o príncipe Raphael, era um guerreiro, um soldado das mais diversas batalhas que combatia junto dos seus homens e que lutava como um igual.
E pensar que, num campo de batalha, sua alteza real era tão semelhante aos outros quanto podia. Todavia, quando se aprumasse com roupas de seda fina, ficava tão emproado como um pavão. Se houvesse quem estendesse certas mentes…
Urso deu uma patada na primeira besta com tanta força que acabou por lhe partir o pescoço. Fez o mesmo com a segunda, apesar de esta ter dado luta com o seu martelo, deferindo um ferimento na pata traseira de Urso. Este rugiu de dor, mas apenas provocou um aumento de raiva e adrenalina. Em dois segundos, já estava à procura de mais bestas. Derrubou uma, trazendo mais duas ao chão, tal efeito dominó. Não lhes deu tempo suficiente para se defenderem ou para lhe infligirem dor. Com as suas presas de urso, matou-os quase instantaneamente, deixando um rasto de sangue encarnado por todo o lado.
Foi aí que notou que faltava uma. Ao ouvir um ofegar incessante, virou-se para ver a última criatura morta junto de Claire, cuja navalha parecia ter sido afogada em sangue e as roupas um pouco rasgadas. Esta, ao ver Urso e os corpos das várias criaturas, fechou as pálpebras e inspirou o ar, que tresandava a corpo em decomposição.
-Claire! – Ouviu-se ao longe. Urso virou o pescoço para fitar Kedar, Goulard, Bruno e alguns homens, todos com as suas vestes esfarrapadas, cheias de sangue e cortes no corpo, mas vivos. – Estás bem?
Ao ver Urso, Bruno ergueu a sua espada, o seu movimento seguido pelos seus homens. Por instinto, Urso baixou a cabeça, preparando a garras para um eventual ataque.
Ataque que nunca chegou a acontecer, pois Claire tinha-se colocado à frente dele.
-PAREM! Não o magoem!
-Claire, é um Urso encantado. Obviamente um inimigo. – Atirou Bruno, a espada apontada ao focinho do Urso. – Pode vir a magoar-te.
Claire lançou-lhe um olhar cheio de cólera.
-Se fosse meu inimigo, ter-me-ia feito mal mais cedo. Seguiu-me o caminho todo e estivemos sozinhos por momentos. Não me atacou nessa altura nem nunca. Alias, até me salvou a vida. – Disse e virou-se para a criatura, sorrindo, grata. Havia qualquer coisa no olhar dela que sobressaltou Urso. Era como se a rapariga tivesse um comportamento bipolar. Um momento agressiva, outro amável. Não fosse a tensão do momento, Urso teria pensado melhor e chegado à conclusão que Claire encontrava-se no meio de hienas. Necessitava de erguer um escudo de protecção para se proteger, para além do facto de a vida lhe ter endurecido o rosto. No entanto, por ele lhe ter salvado a vida, algo no coração da jovem derreteu a armadura de gelo. Um pouco, mas sempre algo. Afinal, Claire não confiava em ninguém a não ser em Kedar e Melanie. Nem a sua própria “gente” era de confiança. Mas algo lhe dizia que podia confiar nele. Podia confiar naquele Urso para a proteger e não lhe fazer qualquer mal.
Urso lançou um rugido, mas só Claire ouvira as palavras.
Obrigado.
Ela sorriu, os olhos dela focados nos negros dele. Havia algo familiar naqueles olhos. Era como se já os tivesse visto em alguma parte da sua moça vida. Mal sabia ela que já os vira, sim. Uma vez. E ela nunca os esquecera, por muito que tentasse ignorar o facto.
-Voltará connosco. – Disse, decidida, falando para Kedar. Este lançou um olhar penetrante a Urso, como se lhe quisesse ler a mente. No entanto, ao contrário de Claire, chegara a algo, a uma confirmação de algo que ela já desconfiava. Rodou o maxilar, semicerrando os olhos, como se tivesse reconhecido algo escondido nas profundezas da alma da criatura. Depois assentiu.
-Sim, que venha. Poderá ser-nos grande ajuda. – Disse, virando-se para Goulard e os homens de Bruno. Este não parecia satisfeito, os olhos escuros focando o do Urso. Este tentou manter o contacto visual, em busca de algum reconhecimento. Mas Bruno nada disse, lançando ao animal um olhar de desdém, antes de lhe virar as costas, não antes de fazer uma vénia forçada a Claire.
-A caminhada vai ser comprida, mas temos lugar que chegue para todos. Pretendemos alastrar os nossos esconderijos para nordeste das Terras Altas. As trevas ainda não se apoderaram desse território. – Disse Kedar, a sua voz grossa ecoando no ar. – Teremos todo o cuidado possível. E, mais tarde, quando nós tivermos instalado, trataremos da estratégia.
-Estratégia? – Perguntou Claire, confusa. Olhando para o lado de Kedar, viu Bruno sorrir, vitorioso.
Kedar suspirou pesadamente.
-Lamento minha filha, mas Bruno tem razão. Não podemos continuar assim. Temos jovens fortes nos esconderijos e estes homens. – Apontou para os poucos sobreviventes do exército de Bruno. – Poderão treiná-los. Com a estratégia correcta, não necessitaremos de um grande número de soldados. Apenas de inteligência.
-Mas Kedar, o outro lado tem magia! – Protestou Claire, desesperada. – Nenhum homem terá hipótese!
-Se os apanharmos de surpresa, não terão tempo para usar magia em nós. – Disse Bruno, calmamente, os braços cruzados e o tronco apoiado numa árvore. Parecia estar a divertir-se com o desespero de Claire.
-Isto vindo de um homem. – Murmurou Urso. Claire tornou-se para ele, espantada. Os outros, tendo ouvido apenas um rugido, fitaram a grande criatura, confusos. – Um homem que quer enfrentar o inimigo com espadas quando o outro lado tem magia do duende… e é comandado por uma mulher… Garanto no que te digo, cairão na armadilha que nem patos durante a caça.
Os olhos de Claire aumentaram de tamanho.
-Como sabes de…? – Sussurrou, aterrorizada.
-Claire, que estás a fazer? – Perguntou Kedar, preocupado. Os olhos dele procuraram Urso, tentando descobrir o que se passava. Alguns homens atreveram-se a tocar no punho das suas espadas.
A rapariga sentia-se confusa. O Urso tinha falado… não tinha?
-Eles não me entendem. Só tu. Não faças perguntas até estarmos sozinhos. – Disse o mamífero, saindo um rugido da sua enorme boca, confundindo os homens. Bruno semicerrou os olhos, como se algo lhe tivesse ocorrido, mas nada disse, fitando o animal desconfiado.
Claire desviou os olhos do Urso e virou-se para os homens, em especial Kedar.
-Ele é seguro. Não nos fará mal. – Disse, a sua voz traindo um pouco de receio. Mexeu os dedos das mãos, nervosa, acto que só fora visto pelo homem ancião e pelo Urso.
Kedar assentiu, sorrindo abertamente, como se partilhasse uma anedota interior. Com os dedos, fez sinais aos homens para o seguirem por entre as árvores, rumo às Terras Altas. Estes lançaram um olhar a Bruno antes de o seguirem, como se um novo chefe tivesse sido escolhido. O jovem franziu a testa, moldando o rosto num semblante severo.
Claire e Urso não se mexeram, esperando que Bruno fosse atrás de Kedar, acto que demorou longos minutos de silêncio. Bruno olhava para o Urso como se este o ameaçasse, querendo roubar-lhe a presa. Mal sabia ele o quão próximo da verdade estava…
Só os abandonou quando Kedar o chamou, a sua voz já longínqua, correndo para o alcançar.
Claire engoliu em seco antes de dar um passo em frente, atrás do grupo de homens. Mas uma voz chamando o seu nome travou-a.
Urso tinha a cabeça baixada, perdido em pensamentos e emoções. Durante doze anos tentara encontrar o seu irmão, crente que ele o poderia ajudar. Como poderia adivinhar que Bruno tornara-se num homem orgulhoso, ambicioso e arrogante, tal como ele fora antes de ser transformado?
Agora ali, depois de apenas umas horas com Claire, sabia que ela o ajudaria até aos confins do mundo. Apesar de receosa da sua decisão, defendera-o e salvara-o da morte certa. Tudo não passava de uma máscara de gelo erguida devido à dureza do tempo e da vida. Mas por baixo, junto ao coração que poucas pessoas alcançavam, encontrava-se amor e respeito. E ele pretendia obter o respeito de Claire. Era a melhor hipótese de salvar o seu corpo… e a sua alma.
Todavia, precisava que ela confiasse nele.
-Claire, não temas. Não te farei mal.
-Eu sei. – Respondeu ela automaticamente. – Já o terias feito se quisesses.
-Mas quero que saibas que podes contar sempre comigo. Mesmo depois de me teres ajudado, jamais te deixarei. Ser-te-ei sempre leal. Porém, tenho de saber… confias em mim?
Confiar, o quão forte impacto aquela palavra tinha numa pessoa. Confiança era algo raro naqueles dias e difícil era alcançarmos tal segurança de espírito para com uma pessoa. Ela só confiava em Kedar e Melanie após a morte do pai. Não confiava plenamente em Bruno, apesar de este ser um aliado poderoso e, nalgumas ocasiões, um grande amigo.
Ela reflectiu. Tinha vários motivos para confiar nele. Ele defendera-a das bestas, matando-as. Seguira-os o caminho todo desde as Terras Altas e não os atacara, falara do inimigo como se o conhecesse pessoalmente. Tragicamente, não era motivos muito fortes pois o ataque ocorrera na exacta altura em que Urso tentara conquistar a confiança de Claire. Talvez não os tivesse atacado porque preferira esperar pelo momento mais oportuno para convencer Claire a deixá-lo entrar nos seus esconderijos.
Todavia, ela sentia que podia confiar nele. O seu instinto dizia-lhe que sim. Ao olhar nos olhos negros do Urso, sentiu um calafrio familiar percorrer a sua pele. Era como se já o conhecesse, apesar de ela nunca o ter visto. Sentiu a pele branca a aquecer e soube. Soube que podia confiar nele. Até que ponto, ainda tinha dúvidas, mas sabia que ele manteria a sua palavra e que lhe seria leal sempre. Em troca, apenas pedia a sua ajuda e a sua confiança.
Ela sorriu e fez-lhe sinal para que a seguisse, não trocando nenhuma palavra. Ele seguiu-a silenciosamente mas, por dentro, o seu coração palpitava alegremente.
Ela confiava nele. Iria ajudá-lo.
Afinal, havia esperança.
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Ok, eu tenho mesmo que partilhar esta imagem. Encontrei-a só mesmo por acaso e fiquei boquiaberta. A rapariga é exactamente como eu imaginava a Rose, mas com olhos azuis em vez de verdes. Deixo aqui a imagem para vocês verem.
Rose
Spoiler

Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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Anokas, sua tota! Eu que disse, gostei tanto deste capitulo como do outro! :b
Aii eu já conhecia essa actriz mas agora não me lembro de que filme!
'
Gostei mesmo de a Claire ter aceite o Urso e não o ter espezinhado! Ai esse Bruno é que agora me revolta, pá! ainda está pior do que o antigo Raphael!
' Estupido, pá!
' É muito sarcástico para o meu gosto. Começo a pensar se ele não será um dos inimigos infiltrado!
O Urso é tão Bravo, pá! A cena dele a matar as bestas foi boa! Gosto mesmo dele e ainda bem que a Claire confia nele (ou assim parece).
Não tenho muito mais a dizer. Estou à espera de mais!
Bjokas
Aii eu já conhecia essa actriz mas agora não me lembro de que filme!
'Gostei mesmo de a Claire ter aceite o Urso e não o ter espezinhado! Ai esse Bruno é que agora me revolta, pá! ainda está pior do que o antigo Raphael!
' Estupido, pá!
' É muito sarcástico para o meu gosto. Começo a pensar se ele não será um dos inimigos infiltrado!O Urso é tão Bravo, pá! A cena dele a matar as bestas foi boa! Gosto mesmo dele e ainda bem que a Claire confia nele (ou assim parece).
Não tenho muito mais a dizer. Estou à espera de mais!

Bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
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Hello! 
Ana não sei se te lembras, mas houve uma altura na "Guardiã dos Sonhos" que tu falavas que devíamos atirar-te tijolos porque escrevias mal.
Pois bem, vou mesmo atirá-los!
Muito bem, depois de por umas quantas nódoas negras na Ana já estou mais aliviada!
Claro que levaste com eles não por escreveres mal, mas por dizeres sucessivamente que não gostas de capítulos que eu acho que estão bastante bons!
Realmente tb conheço a actriz e não sei de onde.
Gostei do reencontro entre o urso e a Claire. Mas eu pensava que ela sabia que era o Raphael. O Raphael amadureceu bastante, agora dava um óptimo rei ao contrário do irmão. O Bruno está mesmo uma pessoa horrível. E a cena da luta ficou mesmo gira.
Esta história está cada vez mais gira.
Espero pelo próximo.Beijinhos grandes*

Ana não sei se te lembras, mas houve uma altura na "Guardiã dos Sonhos" que tu falavas que devíamos atirar-te tijolos porque escrevias mal.
Pois bem, vou mesmo atirá-los!
Muito bem, depois de por umas quantas nódoas negras na Ana já estou mais aliviada!

Claro que levaste com eles não por escreveres mal, mas por dizeres sucessivamente que não gostas de capítulos que eu acho que estão bastante bons!
Realmente tb conheço a actriz e não sei de onde.
Gostei do reencontro entre o urso e a Claire. Mas eu pensava que ela sabia que era o Raphael. O Raphael amadureceu bastante, agora dava um óptimo rei ao contrário do irmão. O Bruno está mesmo uma pessoa horrível. E a cena da luta ficou mesmo gira.
Esta história está cada vez mais gira.
Espero pelo próximo.
Spoiler
Lamento que não tenhas entrado na faculdade, no curso onde querias. Estou a torcer para que tudo corra bem contigo. Não desanimes. 

A actriz chama-se Rachel Hurd-Wood e a imagem pertence ao filme Perfume, a história de um assassino. Todavia, voces conheçem-na do Peter Pan como Wendy Darling.
E Bun, mandaste-me tijolos? Isso explica a estranha dor de cabeça que sofri a meio do shopping ontem à tarde
Opah, este é o capítulo que menos gosto, mas não quer dizer necessariamente que não goste dele. Acreditem, em todas as fics, há sempre aqueles que menos gostamos e onde os escritores pensam ter falhado um pouco (lulu, tu entendes-me não?) nas suas intenções (Bons escritores são sempre auto-criticos Bunyzinha. É por isso que eles evoluem. Tretas, não ligues ao que eu digo
).
Bem, como este capítulo é muito curto, posto-o agora e na quinta posto o outro. Até lá, remoem naquilo que mostro agora. Finalmente mudei o prisma da história. Temporariamente, mas prontex :/Espero que gostem =)
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A Rainha Negra
Nuvens negras preenchiam o céu, obscurecendo o sol dos finais do Outono. Ventos gelados e tempestades violentas estragavam a harmonia da fauna e da flora da região, que outrora fora governada por reis e rainhas em diferentes condados. Agora, a única alma humana residente naquele grandioso castelo naquela antes viva terra, era uma figura de mantos negros como asa de corvo que lhe cobriam toda a parte do corpo com excepção do rosto, branco como a neve. Usava uma altíssima coroa escura com minúsculas jóias brilhantes, cujo brilho mal se notava em tanta escuridão. A mulher suspirou o ar, mirando a paisagem da torre mais alta do seu castelo.
Esperava por notícias acerca dos avanços das forças rebeldes. Noticias que lhe dariam as informações necessárias para as derrotar. Todos, excepto uma.
Matara à idade de treze, o número maldito, e conquistara territórios valiosos antes de completar os dezassete. Agora estava no topo do mundo, era detentora da maior fonte de poder do mundo.
A magia do duende.
Uma poderosa e mística magia criada nos bosques obscuros das Terras Altas por criaturas pequenas, com cara de batata e corpo pequeno e enrugado, tapados por vestes escuras e um barrete púrpura com um minúsculo símbolo em forma de pentágono. Ainda hoje ela não conseguira decifrar o tão misterioso símbolo. Não entendia o significado do pentágono, nem as minúsculas estrelas ou pontos. Alguns nobres afirmavam serem os planetas em torno da Terra, mas a organização era confusa. Era mais como se todos os planetas girassem em torno de uma estrela maior que obviamente não era a Terra. E havia também dois pequenos triângulos dentro do pentágono mal distinguíveis a olho nu, que formavam pequenas linhas, semelhantes a fronteiras entre dois territórios.
Mas, interpretações à parte, ela tinha tudo o que desejava. Tudo, menos uma coisa.
Bianca, sua Schneewittchen.
Queria-a a seu lado, observando a queda dos reinos e dos nobres. Aceitaria a plebe sobrevivente, contando que a aceitasse como sua soberana. Mas todos os que nasceram em berço de ouro morreriam. Todos, menos ela e Bianca.
Na sua mão, a mulher segurava uma rosa branca. A única recordação que tinha da pequena menina com quem brincara nos bosques na sua juventude. A rosa ainda vivia, tão branca quanto a lua da noite.
As notícias teriam que chegar depressa. Não conseguia suportar mais aquela espera. Queria vê-la. Queria abraçá-la. Aquela que ela mais amava.
Sem notar no que fazia, esmagou a rosa com o punho, descarregando toda a sua frustração encarcerada há várias épocas. Levemente atrapalhada pela perda do seu autocontrolo, largou a rosa do cimo da torre, deixando a suave flor cair no escuro, a inocência do seu ser brilhando no coração de uma alma negra e destroçada.
E Bun, mandaste-me tijolos? Isso explica a estranha dor de cabeça que sofri a meio do shopping ontem à tarde

Opah, este é o capítulo que menos gosto, mas não quer dizer necessariamente que não goste dele. Acreditem, em todas as fics, há sempre aqueles que menos gostamos e onde os escritores pensam ter falhado um pouco (lulu, tu entendes-me não?) nas suas intenções (Bons escritores são sempre auto-criticos Bunyzinha. É por isso que eles evoluem. Tretas, não ligues ao que eu digo
).Bem, como este capítulo é muito curto, posto-o agora e na quinta posto o outro. Até lá, remoem naquilo que mostro agora. Finalmente mudei o prisma da história. Temporariamente, mas prontex :/
Spoiler
Obrigada Bun. Já concorri à 2ª fase. Vamos a ver se é desta
Mas, por outro lado, até tenho medo de ir para a fac. Uma amiga hoje teve que faltar por causa da praxe e, devo dizer, já nem devo ir para Eng.Quimica por isso x(
Mas, por outro lado, até tenho medo de ir para a fac. Uma amiga hoje teve que faltar por causa da praxe e, devo dizer, já nem devo ir para Eng.Quimica por isso x( -----------------------------------------------------------------------------------
A Rainha Negra
Nuvens negras preenchiam o céu, obscurecendo o sol dos finais do Outono. Ventos gelados e tempestades violentas estragavam a harmonia da fauna e da flora da região, que outrora fora governada por reis e rainhas em diferentes condados. Agora, a única alma humana residente naquele grandioso castelo naquela antes viva terra, era uma figura de mantos negros como asa de corvo que lhe cobriam toda a parte do corpo com excepção do rosto, branco como a neve. Usava uma altíssima coroa escura com minúsculas jóias brilhantes, cujo brilho mal se notava em tanta escuridão. A mulher suspirou o ar, mirando a paisagem da torre mais alta do seu castelo.
Esperava por notícias acerca dos avanços das forças rebeldes. Noticias que lhe dariam as informações necessárias para as derrotar. Todos, excepto uma.
Matara à idade de treze, o número maldito, e conquistara territórios valiosos antes de completar os dezassete. Agora estava no topo do mundo, era detentora da maior fonte de poder do mundo.
A magia do duende.
Uma poderosa e mística magia criada nos bosques obscuros das Terras Altas por criaturas pequenas, com cara de batata e corpo pequeno e enrugado, tapados por vestes escuras e um barrete púrpura com um minúsculo símbolo em forma de pentágono. Ainda hoje ela não conseguira decifrar o tão misterioso símbolo. Não entendia o significado do pentágono, nem as minúsculas estrelas ou pontos. Alguns nobres afirmavam serem os planetas em torno da Terra, mas a organização era confusa. Era mais como se todos os planetas girassem em torno de uma estrela maior que obviamente não era a Terra. E havia também dois pequenos triângulos dentro do pentágono mal distinguíveis a olho nu, que formavam pequenas linhas, semelhantes a fronteiras entre dois territórios.
Mas, interpretações à parte, ela tinha tudo o que desejava. Tudo, menos uma coisa.
Bianca, sua Schneewittchen.
Queria-a a seu lado, observando a queda dos reinos e dos nobres. Aceitaria a plebe sobrevivente, contando que a aceitasse como sua soberana. Mas todos os que nasceram em berço de ouro morreriam. Todos, menos ela e Bianca.
Na sua mão, a mulher segurava uma rosa branca. A única recordação que tinha da pequena menina com quem brincara nos bosques na sua juventude. A rosa ainda vivia, tão branca quanto a lua da noite.
As notícias teriam que chegar depressa. Não conseguia suportar mais aquela espera. Queria vê-la. Queria abraçá-la. Aquela que ela mais amava.
Sem notar no que fazia, esmagou a rosa com o punho, descarregando toda a sua frustração encarcerada há várias épocas. Levemente atrapalhada pela perda do seu autocontrolo, largou a rosa do cimo da torre, deixando a suave flor cair no escuro, a inocência do seu ser brilhando no coração de uma alma negra e destroçada.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
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Ena, foi curto mas gostei muito!
Então é assim que vive a Rose...acho que vai ser interessante ver como isto vai acabar, afinal ela não vai ser capaz de matar a Claire, vê-se perfeitamente que ela adora a irmã.
Mas a minha questão é: porque fez a Rose tudo isto?
Só pelo poder?
Vou ficar à espera do próximo, soube a pouco!
Bjo*
Então é assim que vive a Rose...acho que vai ser interessante ver como isto vai acabar, afinal ela não vai ser capaz de matar a Claire, vê-se perfeitamente que ela adora a irmã.
Mas a minha questão é: porque fez a Rose tudo isto?
Só pelo poder?
Vou ficar à espera do próximo, soube a pouco!

Bjo*
bem, eu já podia ter vindo comentar antes, mas ando um pouco deprimida/nervosa/ansiosa. Tive de ir ao médico e agora é esperar que os meus sintomas ansiosos (vomitos secos
') abrandem com a medicação.
Ora, falando de coisas mais lindas: Novo capitulo!
Owh, tão pequenito...! Por outro lado, o que é bom vem em doses pequenas!
o que dizer...? Talvez por eu estar mais avariada tenha feito um bocado de confusão ao ler umas coisas.
mas gostei de ver o que se passa do outro lado da historia, ou melhor, do lado inimigo. E que inimigo. Só tenho uma duvida. O nome Bianca é o nome verdadeiro da Claire ou foi coisa inventada pela "rainha das trevas"?
Espero pelo proximo capitulo!
') abrandem com a medicação.Ora, falando de coisas mais lindas: Novo capitulo!

Owh, tão pequenito...! Por outro lado, o que é bom vem em doses pequenas!
o que dizer...? Talvez por eu estar mais avariada tenha feito um bocado de confusão ao ler umas coisas.
mas gostei de ver o que se passa do outro lado da historia, ou melhor, do lado inimigo. E que inimigo. Só tenho uma duvida. O nome Bianca é o nome verdadeiro da Claire ou foi coisa inventada pela "rainha das trevas"?Espero pelo proximo capitulo!

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Ora bem, meninas, aqui está o novo capítulo, como prometido. Prometo que, a partir daqui, as coisas ficam um pouco mais mexidas. Para já, não há batalhas nem coisas do género, apenas conversas e convivios.
Em resposta à pergunta da Bun: Vais ver porquê. Mas dou-te uma pista. O motivo é o cerne da opinião de qualquer mente sensata que estudou a história das classes sociais. Confudi-te?
Em resposta à pergunta da Lulu: É um pouco dos dois. Verás em capítulos mais avançados.
Mais uma coisa, este capítulo é dedicado à lulumoon porque.. bem.. ela faz ANOS! PARABENS!!! 18 aninhos, já tá cota
Espero que gostem=)
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Branca de Neve
A pedido de Bruno, Kedar bloqueou o acesso de Claire a informações acerca dos seus ataques, com o pretexto de ser um assunto de homens e não para jovens raparigas. Claire não contestou, pois sabia que tinha que formular a sua própria defesa. Construir um túnel para nordeste, de modo às curandeiras chegarem depressa às terras, podendo assim salvar inúmeras vidas. Não que Claire não confiasse nas estratégias dos homens da resistência. Apenas sabia lidar com o lado oposto. Facto que todos os homens se lembravam de cada vez que se reuniam em torno de uma grande mesa de madeira, com Bruno a discursar e Claire ausente. Kedar também sabia do grande erro que Bruno estava a cometer, mas não o travou. Apesar de tudo, ainda era o rei das Terras Baixas e exigia respeito. Para além disso, tivera uma educação rigorosa e isso incluía detalhes das batalhas dos seus antepassados. Kedar pretendia deixar que Bruno formulasse uma estratégia e depois consultar Claire antes de agir.
Mas fora das salas de treino e reunião, Claire, Melanie, Urso e todas as outras mulheres e crianças escavavam o túnel discretamente, debaixo do nariz de Bruno. Com a ajuda do forte animal, o túnel prometia estar pronto antes do fim do inverno, o que era uma vantagem.
Naquele dia, Claire saíra para procurar madeira, com Urso e Melanie atrás. Izabele, líder das mulheres, ficara de coser cobertores com panos antigos que os homens de Bruno trouxeram das Terras Baixas. Eram essenciais para o aquecimento, visto que a terra ficava húmida com as chuvas e a queda de neve. Apesar de risco de rebocada ser mínimo, devido às fortes infra-estruturas e pilares que sustinham os túneis, a terra continuava fria, principalmente mais acima da superfície e, apesar de porta junto ao velho carvalho ser muito resistente, as outras não o eram e o ar que provinha dos buracos cercados em arames congelava as tocas, ao invés de as ventilar como fazia nos verões.
As duas raparigas passaram por entre os arbustos, agora cobertos por neve, com Urso atrás.
-Está difícil com esta humidade. – Comentou Melanie, os pés enterrando-se na espessa neve a cada passada. Claire assentiu.
-Vai ser complicado arranjar madeira nestas condições. Não podemos utilizar a madeira do pinhal porque assim chamará a atenção ao inimigo. – Explicou a Urso, que ouvia atentamente.
De repente, ele lembrou-se então de algo importante.
-Junto a uma clareira aqui perto, tem sobreiros. A madeira deles não é boa para os vossos afins? – Perguntou a Claire.
-O que é que ele disse? – Perguntou Melanie. Só se tinham passado duas semanas desde que Claire voltara com os homens e Urso. Estranhamente, não precisara de dizer nada à amiga, pois esta entendeu logo que Claire era a única que entendia que Urso. Esta não questionou. Fez bem, porque ela sabia melhor do que ninguém que o sangue de Melanie, duas gerações antes, interligou-se com as das videntes. E Melanie bem que escondia isso de todos.
A sua interacção com Urso era ainda mais estranha. Era a única que não tivera medo quando o vira, falava para ele como uma pessoa normal e até parecia, por vezes, entender aquilo que ele dizia. Já o próprio não teve a ousadia de comentar com Claire o facto. Estar muitos anos sozinhos na floresta, torna-os mais sábio. Não precisava saber o porquê, mas apenas aceitá-lo. O facto de Melanie parecer saber muito e, ainda assim, aparentar gostar do Urso era motivo para festejo e não suspeita.
-Disse que há uma clareira de sobreiros aqui perto.
Os olhos de Melanie arregalaram-se, subitamente animada.
-Estamos à espera de quê? Vamos!
Claire abanou a cabeça, passando o seu machado para a outra mão.
-Penso que é muito longe. Com a madeira que carregaremos na volta, já será noite antes de chegarmos.
-Eu posso ajudar. – Ofereceu-se Urso. Claire olhou-o com suspeita.
-Como?
-Sobe para as minhas costas. – Indicou ele, olhando em seguida para Melanie. – Diz-lhe para ela fazer o mesmo e que segure o trenó com cuidado.
Claire hesitou um pouco antes de trepar sob o monte de pelo sedoso e escuro do Urso. Ao toque, uma corrente de electricidade libertou-se no corpo do Urso, que ficou um pouco atrapalhado por uns momentos.
-Melanie, sobe. Ele vai levar-nos até lá.
A rapariga não esperou que lhe dissessem duas vezes e trepou para cima do animal, que arrancou o mais rápido que podia. Apesar de ter três pesos extra, elas eram magras e ele um urso forte, de tal modo que isso não dificultara em nada a viagem, indo apressadamente por entre o matagal com o pequeno trenó de madeira a deslizar atrás, algumas vezes saltitando por entre uma pedra ou outra.
A clareira dos sobreiros estava silenciosa. Muito silenciosa. Todos os animais ali residentes, haviam entrado em hibernação e os sobreiros, de folha caduca, haviam perdido as suas folhas, sendo possível visualizar o céu claro e frio.
Não perdendo tempo, as duas raparigas apressaram-se a cortar a madeira com os seus machados, enquanto Urso ajudava com as suas garras. Com a ajuda extra da criatura, conseguiram deitar duas arvores abaixo. Perderam uma hora a cortar os troncos em pedaços de lenha mais pequenos, alguns do comprimento de espadas, outros do tamanho de machados, antes de finalmente poderem partir.
Passaram o resto das horas a caminhar por entre o solo branco calmamente, com Urso a carregar o trenó cheio de madeira.
-Isto chegará? – Perguntou, lançando um olhar à madeira que carregava.
Claire assentiu.
-Não fomos as únicas que partiram em busca de lenha. Outras três foram na direcção oposta uma hora antes.
-Terão já voltado? – Perguntou Urso, o tom de voz mostrando preocupação. Não lhe agradava a ideia de mulheres saírem dos esconderijos em busca de madeira. Melanie e Claire sabiam defender-se, mas aquelas mulheres não. Aliás, era dever dos homens acompanhá-las. Apenas não protestava o desinteresse do sexo masculino com estas duas porque ele estava com elas. Afinal, em tempos humanos, ele fora homem.
Atrás de Urso e Claire, Melanie observava-os com um sorriso, caminhando devagar propositadamente. Evidentemente, ela sabia quem estava por debaixo do pêlo espesso de Urso. E sabia que ele, no fundo, já não era o mesmo. Até que ponto, ela ainda tinha que decidir.
Claire reflectiu um pouco antes de responder.
-Não sei. – Disse, com pesar. – Normalmente vai sempre um homem com elas e ainda assim voltam tarde. Mas três sozinhas…
Urso rugiu involuntariamente.
-Porquê o desinteresse? – Perguntou, sentindo a ira a subir-lhe até à ponta dos seus pêlos.
Claire não respondeu, sem saber o que dizer. Melanie perguntou-lhe o que ele dissera e a amiga contou-lhe. Melanie franziu a testa.
-O homem crê que a mulher serve apenas para os deveres domésticos e a procriação, enquanto o homem vai em batalhas. O problema está que estas ideias não têm funcionado no passado e muito menos nestes tempos. As mulheres tornaram-se chave vital para a sobrevivência e isso atingiu o ego de certos homens. – Explicou Melanie.
-Muitos não gostam da ideia de eu ter a última palavra nos planos dos homens. – Acrescentou Claire.
-Mas não sabem eles dos Fados? – Perguntou Urso, um pouco incomodado. Claire repetiu a pergunta do mamífero a Melanie.
-Sabem, mas não gostam. Tal como Charles, eles acreditam que o “escolhido” devia ser homem. O facto de ser mulher é um golpe nos egos e até mesmo virilidade dos homens. Com Claire no topo, todas as mulheres estão no topo. Todas elas têm propósitos diferentes que as suas antepassadas. E os homens machistas recusam-se a ceder os seus direitos de poder às mulheres, temendo serem ultrapassados, as suas opiniões em último. Daí que aproveitem todas as oportunidades em mostrar o quanto as mulheres são vulneráveis sem os homens. Daí que, de vez em quando, os homens recusam-se a ir com as mulheres buscar lenha. Inventam pretextos, dizendo que têm reuniões, quando na verdade querem apenas que a busca corra mal e que as mulheres lhes venham chorar aos pés, pedindo-lhes ajuda. – Melanie despejou as palavras com profundo nojo. – É isto a sociedade de hoje em dia. Já existem poucos homens decentes. Por isso Kedar é chefe. É sábio e entende o nosso lado. O facto de ser tão esperto torna-o indispensável. Os homens não se podem livrar dele facilmente.
-Tal como o Bruno quer… - sussurrou Urso. Sentia-se mal pois sabia que, se estivesse no lugar daqueles homens, faria o mesmo.
-Bruno não quer o lugar de Kedar. – Disse Claire, olhando para Urso de lado.
-Então porque tenta mostrar o seu domínio sobre ele, impor as suas ideias como validas e indispensáveis e te tenta seduzir?
Claire parou de repente, o rosto sem qualquer expressão. Melanie perguntou acerca do que Urso teria dito, mas Claire ignorou-a.
-Bruno não quer o lugar de Kedar. Quer o meu. Sou a esposa do legítimo rei das Terras Baixas, tenho o poder das Terras Altas, todos me respeitam!
-E ele pensa que o ganha só por te ter? – Inquiriu Urso, que também tinha parado.
Claire suspirou.
-Não sei. Tudo o que tento fazer é afastá-lo. Não o desejo. Para além disso…
Urso gostava imenso de acreditar que ela iria dizer que não poderia ter nada com Bruno porque não havia garantias da morte do esposo. Mas pedir fidelidade de Claire era demais, até porque ela tinha muito na sua cabeça.
-Ele jamais terá a tua vantagem. – Disse Urso, tentando consolá-la. – Ter-te é apenas um prémio, mas ele subestima-te. Se ele soubesse da verdade…
Claire olhou-o nos olhos, confundida.
-Que queres dizer com isso?
-Que ele não sabe o verdadeiro motivo pelo qual tu és a salvadora de todos. – Explicou a criatura calmamente. – Ela nunca te matará.
O rosto de Claire ficou rígido.
-Como sabes disso?
Urso bem que podia dizer a verdade. Que ele fora transformado porque a beijara quando ela era uma criança. Mas preferiu omitir a verdade. Fosse como fosse, Rose mataria pela irmã. Mesmo que fosse o seu mais precioso aliado.
-Porque ela é tua irmã. – Respondeu simplesmente.
Claire continuou a caminhar, de costas viradas para ele, de modo a que ele não visse o seu rosto. Atrás dele, Melanie fitava-os alheiamente, sem saber do que é que eles falavam. Todavia, nos seus pensamentos mais íntimos, sabia do que tinham falado. Afinal, não era qualquer assunto que punha a amiga em tão triste humor.
Silêncio seguiu a viagem, em que Melanie ficou mais para trás, com um grande ramo a eliminar o rasto de pegadas na espessa camada de neve.
Urso chegou-se perto de Claire, examinando as suas expressões antes de falar. Ela parecia mais calma, mas ainda era inseguro falar sobre guerras. Tratou então de falar de outras coisas.
-Conheces bem esta floresta, não é?
Claire sorriu, ainda que fosse um pouco forçado.
-Cresci aqui. Costumava vir brincar para aqui quando era mais nova. – Urso entendeu que Rose ficaria ocultada naquela história mas, para sua surpresa, Claire não o fez. – Eu e a minha irmã fugíamos das criadas e vínhamos brincar com os animais. Se eu trouxesse pão e o pusesse na minha mão, vinham todos os pássaros comer. Rose dizia que eu era um “contra-espantalho”, porque eu atraia os pássaros em vez de os espantar. Mas eu gostava de vir era no Inverno.
-Por causa da neve? – Adivinhou Urso, vendo que a história a punha mais feliz, devido à nostalgia dos tempos perdidos.
Claire assentiu, ainda com um sorriso posto no semblante.
-Minha mãe e Rose chamavam-me Schneewittchen nessas alturas. Com as roupas brancas que eu usava e o meu tom de pele, sempre que eu me via no exterior, todos me olhavam espantados. As minhas rosas brancas pareciam florescer mais belas e a minha mãe dizia que eu parecia ser a Rainha dos Invernos.
-Schneewittchen?
Claire adquiriu um semblante triste.
-Branca de Neve. A minha mãe parou de me chamar isso depois de…
Urso não disse mais nada. Lembrava-se dos lindos roseirais que vira no palácio dos De Roquette e das rosas brancas que Claire levara para o seu casamento. Imaginar aquela menina, tão feiinha em idade tenra, no meio da neve… Talvez fosse por isso que Claire lhe pareceu uma peça mal colocada. Ela não tinha cara de quem pertencia aos altos reinos, mas também não parecia uma plebeia como ele supunha. Era uma menina da natureza e era ali que ele via a sua verdadeira beleza.
-Não me pareces muito branca. – Comentou ele, tendo uma súbita ideia para animá-la.
Claire fez uma careta.
-Achas que o branco da minha pele e das minhas roupas não chega?
-Não. Faltam os olhos e os cabelos. Esses são muito escuros. Como o ébano.
-E?
-Isso contradiz a ideia de Branca de Neve.
Claire soltou uma gargalhada.
-Ou seja, só seria uma verdadeira Branca de Neve caso fosse loira?
-Sim. – Disse Urso, descontraidamente. – Felizmente, o teu caso tem cura. Ainda posso ajudar-te.
A rapariga não teve tempo para perguntar como ele a ajudaria quando um pouco de neve lhe atingiu em cheio na cara, escorrendo lentamente pelo corpo todo.
-Agora é que estás mesmo branca! – Brincou o mamífero, rindo-se alegremente. Não conseguiu parar de rir até que uma grande quantidade de neve entrou na sua grande boca, quase o sufocando, obrigando-o a tossir gravemente, ao mesmo tempo que ignorava uma forte dor de cabeça. Depois era Claire que se ria, fugindo do Urso com os troncos na mão. Este foi atrás dela, mandando uma patada ocasionalmente, lançando neve para cima da moça, com o trenó cheio de lenha a deslizar desajeitadamente atrás deles.
Melanie observou os dois com um amistoso sorriso, caminhando lentamente e arrastando atrás dela o grande ramo, apagando todos os traços da vinda dos três a aquela zona. Ela sabia que fazia muito tempo que Urso tivera uma interacção com alguém e que aquele momento era extremamente precioso tanto para ele, como para Claire, que vivia fechada em enclausuras e momentos sérios, sem ter oportunidade de ser criança.
Os meses passaram-se e tanto Claire como Urso e Melanie trabalhavam e experimentava o saboroso gosto da vida. Pela primeira vez, Claire e Melanie deram-se ao gosto de desfrutar de algumas brincadeiras e de conversas fúteis e banais, ao mesmo tempo que ajudavam no retiro e no túnel. Urso ajudara na construção do túnel, na busca de lenha, guiando as mulheres desamparadas e cuidando as crianças. Os mais novos divertiam-se a trepar o Urso e a dormir sob o manto espesso de pêlo escuro, enquanto as raparigas tricotavam sob risadas.
O desdém dos homens por Urso era evidente, mas poucos o demonstravam. O único que parecia mesmo detestar Urso era Bruno, que não perdia uma oportunidade para o insultar e queixar-se do desconforto que era ter um carnívoro ali. Todavia, todos concordavam com Claire e Kedar, que acreditavam no bom coração do Urso.
Longe das atenções, Melanie observava. Via a interacção dos dois irmãos e Claire. Era fácil de ver que os dois a disputavam, de uma forma discreta. Bruno tinha ciúmes de Urso, por este estar tanto tempo com Claire, para além de ter a sua simpatia e respeito.
Também não era difícil ver que a amiga gostava do Urso. Que se estava a apaixonar pelo marido. Infelizmente, ela nunca iria admitir os seus sentimentos. Era vital que Raphael, que todos conheciam agora por Urso, lhe revelasse a verdade. Melanie sabia que ele apenas não interceptara Claire para o ajudar porque se sentia confortável no meio de tantas pessoas que gostavam dele. Era sem dúvida uma sensação que ele não queria abandonar.
Todavia, ele tinha que o fazer. E ela o iria ajudar. Por ele. Por Claire. Por todos.
Em resposta à pergunta da Bun: Vais ver porquê. Mas dou-te uma pista. O motivo é o cerne da opinião de qualquer mente sensata que estudou a história das classes sociais. Confudi-te?

Em resposta à pergunta da Lulu: É um pouco dos dois. Verás em capítulos mais avançados.
Mais uma coisa, este capítulo é dedicado à lulumoon porque.. bem.. ela faz ANOS! PARABENS!!! 18 aninhos, já tá cota

Spoiler
Lembrei-me agora... não te tinha eu dedicado um capítulo o ano passado na Guardiã dos Sonhos pelo teu aniversário tbm?
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Branca de Neve
A pedido de Bruno, Kedar bloqueou o acesso de Claire a informações acerca dos seus ataques, com o pretexto de ser um assunto de homens e não para jovens raparigas. Claire não contestou, pois sabia que tinha que formular a sua própria defesa. Construir um túnel para nordeste, de modo às curandeiras chegarem depressa às terras, podendo assim salvar inúmeras vidas. Não que Claire não confiasse nas estratégias dos homens da resistência. Apenas sabia lidar com o lado oposto. Facto que todos os homens se lembravam de cada vez que se reuniam em torno de uma grande mesa de madeira, com Bruno a discursar e Claire ausente. Kedar também sabia do grande erro que Bruno estava a cometer, mas não o travou. Apesar de tudo, ainda era o rei das Terras Baixas e exigia respeito. Para além disso, tivera uma educação rigorosa e isso incluía detalhes das batalhas dos seus antepassados. Kedar pretendia deixar que Bruno formulasse uma estratégia e depois consultar Claire antes de agir.
Mas fora das salas de treino e reunião, Claire, Melanie, Urso e todas as outras mulheres e crianças escavavam o túnel discretamente, debaixo do nariz de Bruno. Com a ajuda do forte animal, o túnel prometia estar pronto antes do fim do inverno, o que era uma vantagem.
Naquele dia, Claire saíra para procurar madeira, com Urso e Melanie atrás. Izabele, líder das mulheres, ficara de coser cobertores com panos antigos que os homens de Bruno trouxeram das Terras Baixas. Eram essenciais para o aquecimento, visto que a terra ficava húmida com as chuvas e a queda de neve. Apesar de risco de rebocada ser mínimo, devido às fortes infra-estruturas e pilares que sustinham os túneis, a terra continuava fria, principalmente mais acima da superfície e, apesar de porta junto ao velho carvalho ser muito resistente, as outras não o eram e o ar que provinha dos buracos cercados em arames congelava as tocas, ao invés de as ventilar como fazia nos verões.
As duas raparigas passaram por entre os arbustos, agora cobertos por neve, com Urso atrás.
-Está difícil com esta humidade. – Comentou Melanie, os pés enterrando-se na espessa neve a cada passada. Claire assentiu.
-Vai ser complicado arranjar madeira nestas condições. Não podemos utilizar a madeira do pinhal porque assim chamará a atenção ao inimigo. – Explicou a Urso, que ouvia atentamente.
De repente, ele lembrou-se então de algo importante.
-Junto a uma clareira aqui perto, tem sobreiros. A madeira deles não é boa para os vossos afins? – Perguntou a Claire.
-O que é que ele disse? – Perguntou Melanie. Só se tinham passado duas semanas desde que Claire voltara com os homens e Urso. Estranhamente, não precisara de dizer nada à amiga, pois esta entendeu logo que Claire era a única que entendia que Urso. Esta não questionou. Fez bem, porque ela sabia melhor do que ninguém que o sangue de Melanie, duas gerações antes, interligou-se com as das videntes. E Melanie bem que escondia isso de todos.
A sua interacção com Urso era ainda mais estranha. Era a única que não tivera medo quando o vira, falava para ele como uma pessoa normal e até parecia, por vezes, entender aquilo que ele dizia. Já o próprio não teve a ousadia de comentar com Claire o facto. Estar muitos anos sozinhos na floresta, torna-os mais sábio. Não precisava saber o porquê, mas apenas aceitá-lo. O facto de Melanie parecer saber muito e, ainda assim, aparentar gostar do Urso era motivo para festejo e não suspeita.
-Disse que há uma clareira de sobreiros aqui perto.
Os olhos de Melanie arregalaram-se, subitamente animada.
-Estamos à espera de quê? Vamos!
Claire abanou a cabeça, passando o seu machado para a outra mão.
-Penso que é muito longe. Com a madeira que carregaremos na volta, já será noite antes de chegarmos.
-Eu posso ajudar. – Ofereceu-se Urso. Claire olhou-o com suspeita.
-Como?
-Sobe para as minhas costas. – Indicou ele, olhando em seguida para Melanie. – Diz-lhe para ela fazer o mesmo e que segure o trenó com cuidado.
Claire hesitou um pouco antes de trepar sob o monte de pelo sedoso e escuro do Urso. Ao toque, uma corrente de electricidade libertou-se no corpo do Urso, que ficou um pouco atrapalhado por uns momentos.
-Melanie, sobe. Ele vai levar-nos até lá.
A rapariga não esperou que lhe dissessem duas vezes e trepou para cima do animal, que arrancou o mais rápido que podia. Apesar de ter três pesos extra, elas eram magras e ele um urso forte, de tal modo que isso não dificultara em nada a viagem, indo apressadamente por entre o matagal com o pequeno trenó de madeira a deslizar atrás, algumas vezes saltitando por entre uma pedra ou outra.
A clareira dos sobreiros estava silenciosa. Muito silenciosa. Todos os animais ali residentes, haviam entrado em hibernação e os sobreiros, de folha caduca, haviam perdido as suas folhas, sendo possível visualizar o céu claro e frio.
Não perdendo tempo, as duas raparigas apressaram-se a cortar a madeira com os seus machados, enquanto Urso ajudava com as suas garras. Com a ajuda extra da criatura, conseguiram deitar duas arvores abaixo. Perderam uma hora a cortar os troncos em pedaços de lenha mais pequenos, alguns do comprimento de espadas, outros do tamanho de machados, antes de finalmente poderem partir.
Passaram o resto das horas a caminhar por entre o solo branco calmamente, com Urso a carregar o trenó cheio de madeira.
-Isto chegará? – Perguntou, lançando um olhar à madeira que carregava.
Claire assentiu.
-Não fomos as únicas que partiram em busca de lenha. Outras três foram na direcção oposta uma hora antes.
-Terão já voltado? – Perguntou Urso, o tom de voz mostrando preocupação. Não lhe agradava a ideia de mulheres saírem dos esconderijos em busca de madeira. Melanie e Claire sabiam defender-se, mas aquelas mulheres não. Aliás, era dever dos homens acompanhá-las. Apenas não protestava o desinteresse do sexo masculino com estas duas porque ele estava com elas. Afinal, em tempos humanos, ele fora homem.
Atrás de Urso e Claire, Melanie observava-os com um sorriso, caminhando devagar propositadamente. Evidentemente, ela sabia quem estava por debaixo do pêlo espesso de Urso. E sabia que ele, no fundo, já não era o mesmo. Até que ponto, ela ainda tinha que decidir.
Claire reflectiu um pouco antes de responder.
-Não sei. – Disse, com pesar. – Normalmente vai sempre um homem com elas e ainda assim voltam tarde. Mas três sozinhas…
Urso rugiu involuntariamente.
-Porquê o desinteresse? – Perguntou, sentindo a ira a subir-lhe até à ponta dos seus pêlos.
Claire não respondeu, sem saber o que dizer. Melanie perguntou-lhe o que ele dissera e a amiga contou-lhe. Melanie franziu a testa.
-O homem crê que a mulher serve apenas para os deveres domésticos e a procriação, enquanto o homem vai em batalhas. O problema está que estas ideias não têm funcionado no passado e muito menos nestes tempos. As mulheres tornaram-se chave vital para a sobrevivência e isso atingiu o ego de certos homens. – Explicou Melanie.
-Muitos não gostam da ideia de eu ter a última palavra nos planos dos homens. – Acrescentou Claire.
-Mas não sabem eles dos Fados? – Perguntou Urso, um pouco incomodado. Claire repetiu a pergunta do mamífero a Melanie.
-Sabem, mas não gostam. Tal como Charles, eles acreditam que o “escolhido” devia ser homem. O facto de ser mulher é um golpe nos egos e até mesmo virilidade dos homens. Com Claire no topo, todas as mulheres estão no topo. Todas elas têm propósitos diferentes que as suas antepassadas. E os homens machistas recusam-se a ceder os seus direitos de poder às mulheres, temendo serem ultrapassados, as suas opiniões em último. Daí que aproveitem todas as oportunidades em mostrar o quanto as mulheres são vulneráveis sem os homens. Daí que, de vez em quando, os homens recusam-se a ir com as mulheres buscar lenha. Inventam pretextos, dizendo que têm reuniões, quando na verdade querem apenas que a busca corra mal e que as mulheres lhes venham chorar aos pés, pedindo-lhes ajuda. – Melanie despejou as palavras com profundo nojo. – É isto a sociedade de hoje em dia. Já existem poucos homens decentes. Por isso Kedar é chefe. É sábio e entende o nosso lado. O facto de ser tão esperto torna-o indispensável. Os homens não se podem livrar dele facilmente.
-Tal como o Bruno quer… - sussurrou Urso. Sentia-se mal pois sabia que, se estivesse no lugar daqueles homens, faria o mesmo.
-Bruno não quer o lugar de Kedar. – Disse Claire, olhando para Urso de lado.
-Então porque tenta mostrar o seu domínio sobre ele, impor as suas ideias como validas e indispensáveis e te tenta seduzir?
Claire parou de repente, o rosto sem qualquer expressão. Melanie perguntou acerca do que Urso teria dito, mas Claire ignorou-a.
-Bruno não quer o lugar de Kedar. Quer o meu. Sou a esposa do legítimo rei das Terras Baixas, tenho o poder das Terras Altas, todos me respeitam!
-E ele pensa que o ganha só por te ter? – Inquiriu Urso, que também tinha parado.
Claire suspirou.
-Não sei. Tudo o que tento fazer é afastá-lo. Não o desejo. Para além disso…
Urso gostava imenso de acreditar que ela iria dizer que não poderia ter nada com Bruno porque não havia garantias da morte do esposo. Mas pedir fidelidade de Claire era demais, até porque ela tinha muito na sua cabeça.
-Ele jamais terá a tua vantagem. – Disse Urso, tentando consolá-la. – Ter-te é apenas um prémio, mas ele subestima-te. Se ele soubesse da verdade…
Claire olhou-o nos olhos, confundida.
-Que queres dizer com isso?
-Que ele não sabe o verdadeiro motivo pelo qual tu és a salvadora de todos. – Explicou a criatura calmamente. – Ela nunca te matará.
O rosto de Claire ficou rígido.
-Como sabes disso?
Urso bem que podia dizer a verdade. Que ele fora transformado porque a beijara quando ela era uma criança. Mas preferiu omitir a verdade. Fosse como fosse, Rose mataria pela irmã. Mesmo que fosse o seu mais precioso aliado.
-Porque ela é tua irmã. – Respondeu simplesmente.
Claire continuou a caminhar, de costas viradas para ele, de modo a que ele não visse o seu rosto. Atrás dele, Melanie fitava-os alheiamente, sem saber do que é que eles falavam. Todavia, nos seus pensamentos mais íntimos, sabia do que tinham falado. Afinal, não era qualquer assunto que punha a amiga em tão triste humor.
Silêncio seguiu a viagem, em que Melanie ficou mais para trás, com um grande ramo a eliminar o rasto de pegadas na espessa camada de neve.
Urso chegou-se perto de Claire, examinando as suas expressões antes de falar. Ela parecia mais calma, mas ainda era inseguro falar sobre guerras. Tratou então de falar de outras coisas.
-Conheces bem esta floresta, não é?
Claire sorriu, ainda que fosse um pouco forçado.
-Cresci aqui. Costumava vir brincar para aqui quando era mais nova. – Urso entendeu que Rose ficaria ocultada naquela história mas, para sua surpresa, Claire não o fez. – Eu e a minha irmã fugíamos das criadas e vínhamos brincar com os animais. Se eu trouxesse pão e o pusesse na minha mão, vinham todos os pássaros comer. Rose dizia que eu era um “contra-espantalho”, porque eu atraia os pássaros em vez de os espantar. Mas eu gostava de vir era no Inverno.
-Por causa da neve? – Adivinhou Urso, vendo que a história a punha mais feliz, devido à nostalgia dos tempos perdidos.
Claire assentiu, ainda com um sorriso posto no semblante.
-Minha mãe e Rose chamavam-me Schneewittchen nessas alturas. Com as roupas brancas que eu usava e o meu tom de pele, sempre que eu me via no exterior, todos me olhavam espantados. As minhas rosas brancas pareciam florescer mais belas e a minha mãe dizia que eu parecia ser a Rainha dos Invernos.
-Schneewittchen?
Claire adquiriu um semblante triste.
-Branca de Neve. A minha mãe parou de me chamar isso depois de…
Urso não disse mais nada. Lembrava-se dos lindos roseirais que vira no palácio dos De Roquette e das rosas brancas que Claire levara para o seu casamento. Imaginar aquela menina, tão feiinha em idade tenra, no meio da neve… Talvez fosse por isso que Claire lhe pareceu uma peça mal colocada. Ela não tinha cara de quem pertencia aos altos reinos, mas também não parecia uma plebeia como ele supunha. Era uma menina da natureza e era ali que ele via a sua verdadeira beleza.
-Não me pareces muito branca. – Comentou ele, tendo uma súbita ideia para animá-la.
Claire fez uma careta.
-Achas que o branco da minha pele e das minhas roupas não chega?
-Não. Faltam os olhos e os cabelos. Esses são muito escuros. Como o ébano.
-E?
-Isso contradiz a ideia de Branca de Neve.
Claire soltou uma gargalhada.
-Ou seja, só seria uma verdadeira Branca de Neve caso fosse loira?
-Sim. – Disse Urso, descontraidamente. – Felizmente, o teu caso tem cura. Ainda posso ajudar-te.
A rapariga não teve tempo para perguntar como ele a ajudaria quando um pouco de neve lhe atingiu em cheio na cara, escorrendo lentamente pelo corpo todo.
-Agora é que estás mesmo branca! – Brincou o mamífero, rindo-se alegremente. Não conseguiu parar de rir até que uma grande quantidade de neve entrou na sua grande boca, quase o sufocando, obrigando-o a tossir gravemente, ao mesmo tempo que ignorava uma forte dor de cabeça. Depois era Claire que se ria, fugindo do Urso com os troncos na mão. Este foi atrás dela, mandando uma patada ocasionalmente, lançando neve para cima da moça, com o trenó cheio de lenha a deslizar desajeitadamente atrás deles.
Melanie observou os dois com um amistoso sorriso, caminhando lentamente e arrastando atrás dela o grande ramo, apagando todos os traços da vinda dos três a aquela zona. Ela sabia que fazia muito tempo que Urso tivera uma interacção com alguém e que aquele momento era extremamente precioso tanto para ele, como para Claire, que vivia fechada em enclausuras e momentos sérios, sem ter oportunidade de ser criança.
Os meses passaram-se e tanto Claire como Urso e Melanie trabalhavam e experimentava o saboroso gosto da vida. Pela primeira vez, Claire e Melanie deram-se ao gosto de desfrutar de algumas brincadeiras e de conversas fúteis e banais, ao mesmo tempo que ajudavam no retiro e no túnel. Urso ajudara na construção do túnel, na busca de lenha, guiando as mulheres desamparadas e cuidando as crianças. Os mais novos divertiam-se a trepar o Urso e a dormir sob o manto espesso de pêlo escuro, enquanto as raparigas tricotavam sob risadas.
O desdém dos homens por Urso era evidente, mas poucos o demonstravam. O único que parecia mesmo detestar Urso era Bruno, que não perdia uma oportunidade para o insultar e queixar-se do desconforto que era ter um carnívoro ali. Todavia, todos concordavam com Claire e Kedar, que acreditavam no bom coração do Urso.
Longe das atenções, Melanie observava. Via a interacção dos dois irmãos e Claire. Era fácil de ver que os dois a disputavam, de uma forma discreta. Bruno tinha ciúmes de Urso, por este estar tanto tempo com Claire, para além de ter a sua simpatia e respeito.
Também não era difícil ver que a amiga gostava do Urso. Que se estava a apaixonar pelo marido. Infelizmente, ela nunca iria admitir os seus sentimentos. Era vital que Raphael, que todos conheciam agora por Urso, lhe revelasse a verdade. Melanie sabia que ele apenas não interceptara Claire para o ajudar porque se sentia confortável no meio de tantas pessoas que gostavam dele. Era sem dúvida uma sensação que ele não queria abandonar.
Todavia, ele tinha que o fazer. E ela o iria ajudar. Por ele. Por Claire. Por todos.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements
Oh Ana, capitulo mais lindo e dedicado a mim! Muito obrigada! Ainda por cima gostei tanto dele! já animou o meu dia (que infelizmente não está a ser grande coisa. estou constipada, dói-me garganta, discuti ferozmente com os meus pais e ando tão stressada por causa da faculdade que tive de ir ao médico e ate estou a tomar medicação
')
Agora, falando da prendinha em si: olha, eu adoro o Urso!
Acho-o mesmo fofo! Este capitulo foi delicioso especialmente por ter mostrado a relação entre a Claire e ele. É maravilhoso que eles se deiam tão bem e é nestas alturas que se vê como Raphael está maduro, sábio e de bom coração. Por um lado a Rose fez-lhe um bem! Agora o Bruno. Bem, eu no inicio da fic achava que ela até era inteligente e tal, mas agora é que vi que os papeis se inverteram. Machista, arrogante e só quer poder! A Claire havia de pegar no machado de cortar a lenha e cortar-lhe umas coisas que eu cá sei! E mais uma vez penso que o Bruno às tantas ainda está mais do lado dos inimigos do que da Claire. Não sei, ele tem atitudes que não me convencem. Posso estar enganada, mas é o que eu acho!
A Melanie faz-me lembrar a Bonnie (de "The Vampire Diaries") por ser tão madura, esperta e ter todos aqueles feelings sobre o que se passa em seu redor. Só o facto de ela entender a relação do urso e da Claire e ficar feliz por isso, já mostra a boa amiga que ela é! E é compreensível o repudio dela pela atitude dos homens do seu tempo. Não há muitos que se aproveitem (Kedar e Urso são a excepção, para já!)
Bom, não tenho muito mais a dizer!
Amei o capitulo e obrigada!
Mal posso esperar pelo próximo!
Bjokas
')Agora, falando da prendinha em si: olha, eu adoro o Urso!
Acho-o mesmo fofo! Este capitulo foi delicioso especialmente por ter mostrado a relação entre a Claire e ele. É maravilhoso que eles se deiam tão bem e é nestas alturas que se vê como Raphael está maduro, sábio e de bom coração. Por um lado a Rose fez-lhe um bem! Agora o Bruno. Bem, eu no inicio da fic achava que ela até era inteligente e tal, mas agora é que vi que os papeis se inverteram. Machista, arrogante e só quer poder! A Claire havia de pegar no machado de cortar a lenha e cortar-lhe umas coisas que eu cá sei! E mais uma vez penso que o Bruno às tantas ainda está mais do lado dos inimigos do que da Claire. Não sei, ele tem atitudes que não me convencem. Posso estar enganada, mas é o que eu acho!A Melanie faz-me lembrar a Bonnie (de "The Vampire Diaries") por ser tão madura, esperta e ter todos aqueles feelings sobre o que se passa em seu redor. Só o facto de ela entender a relação do urso e da Claire e ficar feliz por isso, já mostra a boa amiga que ela é! E é compreensível o repudio dela pela atitude dos homens do seu tempo. Não há muitos que se aproveitem (Kedar e Urso são a excepção, para já!)
Bom, não tenho muito mais a dizer!
Amei o capitulo e obrigada!
Mal posso esperar pelo próximo!

Bjokas
as minhas fic's:
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
-Unidos pelo destino, unidos por todos!
-Angelical
Leiam, vale a pena! e nao se eskeçam de comentar! ^^
Ana! Vou ser sincera... No início, quando comecei a ler, tive que ler 2x o 1º capítulo para perceber quem era quem, e assim.
Mas estou a adorar bastante! Gosto da proximidade que a Claire tem com o, agora, Urso. Só espero que tudo se resolva!
PS: adoro a maneira como tu e a lulumon escrever, que inveja!
Mas estou a adorar bastante! Gosto da proximidade que a Claire tem com o, agora, Urso. Só espero que tudo se resolva!
PS: adoro a maneira como tu e a lulumon escrever, que inveja!

Tininha: Obrigada (yupii, nova leitora
). Adorei ler o teu comentário. É bom saber que gostas da minha escrita. Pareceu-te confuso? É normal, são personagens completamente novas, é de esperar que alguem fique confuso logo no principio.
Lulu: Xii, não penses tão mal do Bruno. Nem todos podem ser perfeitos
Ele continua o mesmo.. ok, mudou um pouco, mas eu não sou daquelas de mudar o caracter de uma personagem de uma forma tão drastica. Era preciso bons motivos para isso, cmo o exilio do Raphael. Bruno apenas teve motivos para melhorar ou manter-se o mesmo, mas com ligeiras diferenças na personalidade. Acho que me explicarei melhor neste capítulo.
A Melanie... ah, eu nem me lembrei da Bonnie imediatamente. Ás tantas é capaz, o meu subconsciente criou a Melanie de um dia para o outro, baseando-se na Bonnie involuntariamente. Todavia, gosto de pensar que me baseiei na Gwen de Merlin para o papel de Melanie, tanto fisico como psicologicamente.
Ora bem, aqui está mais um capítulo. Espero que gostem =)
----------------------------------------------------------------------------------
Equinócio exacto
Urso viu ao longe pequenas estalactites de gelo pingando gotas de água para o chão. Em breve, a primavera chegava.
Estranhamente, sentia-se pouco ansioso pela estação amena. A vinda da primavera significava que o túnel estaria em breve pronto, que os homens poriam os seus planos em prática e que Urso perderia aqueles momentos preciosos que passara com Claire.
Ele pensara em livrar-se da sua maldição. Todavia, a alegria que Claire mostrava quando o via fazia-o sempre mudar de ideias. Não queria voltar a ser o esposo dela, que ela não amava. Preferia ser o Urso, grande amigo, do que Raphael, aquele que nunca teria o respeito dela. Para ele perder Claire era a pior dor de todas. Até mesmo as dores de cabeça que ele costumava ter. Sempre que estava com ela, sentia uma forte dor, como se alguém lhe estivesse a esmagar-lhe o crânio com um machado. Mas ele aguentava. Porque sabia o seu significado.
Ele desejava Claire. E Rose fizera questão de o amaldiçoar até mesmo no dia em que ele desse verdadeiro valor às qualidades da sua irmã mais nova. Durante todos aqueles meses, ele suportara aquela dor aguda com paciência, por vezes desviando o focinho das pessoas, para que ninguém visse as suas lágrimas de dor. Era difícil, mas ele aguentou. Contudo, Claire parecia suspeitar. Afinal, ele estava sempre perto dela quando as dores atrozes o invadiam. Quando ela contava histórias às crianças, quando conversava com Melanie e com Urso. Eram alturas em que ele via a Claire que ela teria sido caso os Fados tivessem sido generosos. A Claire que exibia um sorriso luminoso a todos os resistentes, iluminando-os de esperança.
Suspirou, vendo o ar expirado sair em forma de vapor. Lembrava-se de um dia como aquele, doze anos antes, pouco depois do seu casamento. Quando vira as belas roseiras da família De Roquette. E quando ele se transformara em Urso.
Durante todos aqueles anos, sempre que encontrava uma criatura da floresta, questionava-a acerca dos duendes. Onde viveriam? Como funcionaria a sua magia? Porém, nada encontrara. Os duendes já não existiam e quando viviam, isolavam-se em locais obscuros de tal modo que nunca nenhuma criatura soube do seu paradeiro.
Só tinha uma pista: Claire. A conversa dela e Melanie anos antes jamais lhe saíra da cabeça. Talvez porque mencionara um detalhe da sua inimiga que poucos sabiam. Claire tratava a irmã por Scarlett e havia dito que ela mudara. Somando esta pequena informação com as histórias de Claire acerca das criaturas das Terras Altas, era obvio que algo havia acontecido pouco antes do casamento.
Algo que mudara Rose por completo. Algo que lhe dera os poderes.
E Claire era a única que sabia.
Era a sua esperança.
-Que pensas? – Disse uma voz serena. Urso virou-se, vendo Melanie fitando-o curiosamente. Ele abriu a boca para responder, desistindo a meio do acto. Afinal, a rapariga não o entenderia.
-Melanie…
-Não devias estar aqui. – Disse a rapariga, fechando a porta do esconderijo e sentando-se ao lado dele na leve camada de neve. – Podem notar.
Fitou-o com os seus olhos castanhos tão escuros quanto a casca do pinheiro, como se tentasse vê-lo por debaixo da pele. Ver através da alma.
-Estás com medo. – Comentou, sorrindo. – Não devias, Raphael.
Urso ergueu-se, sobressaltado. Fazia muito tempo que não era chamado pelo seu nome.
-Como…
-Tenho os meus meios. – Respondeu Melanie, com ar radiante. Urso deixou cair a grande boca num perfeito “O”.
-Entendes-me?
Melanie limitou-se a assentir, o sorriso marcado no rosto.
-Hoje é dia 21 de Março, dia do Equinócio de Primavera. – Respondeu, simplesmente, como se a data fosse a resposta para todas as perguntas. Ao ver o ar confuso do Urso, suspirou. – Sabes que os Fados são lidos no Solstício de Inverno. Bem, nessa altura, eles lêem o futuro. No Solstício de Verão, lêem o passado.
-Porque leriam o passado? – Interrompeu Urso, desordenado.
-Nem sempre a história deixa marcas coerentes. Tu, que eras guerreiro, devias saber disso. Como fora que o teu antepassado Claude conseguira expulsar os povos emigrantes dos territórios das Terras Baixas? Os livros ditam os seus actos heróicos, mas sabes lá tu que não fora um acto de cobardia e traição que dera a Claude o território. Sabes lá tu se o sangue derramado nos campos de batalha era o de inocentes em vez do de bandidos. O homem escreve os registos. Tanto pode dizer a verdade, como a mentira. Mas os Fados não enganam.
Urso assentiu e Melanie prosseguiu:
-O Equinócio de Primavera e de Outono é quando as videntes focam-se no presente. Os Fados evidenciam-se no tempo e no espaço. No Outono, o tempo é a palavra-chave. Mas nestas alturas, é o espaço. E tu foste vigiado pelos Fados.
-Presumo que foste tu que o fizeste. Tens sangue de vidente?
Melanie assentiu.
-Minha bisavó era uma. Eu, felizmente, não consigo prever o futuro nem o passado, mas o presente consigo.
-Como se prevê o presente? – Urso perguntou, não querendo saber a resposta, pois mostrava-se céptico à arte da adivinhação. Mesmo depois de tudo o que se acontecera.
-Não se prevê. Sabe-se. Temos acesso a informações vitais que noutras alturas não teríamos. Nenhuma magia se intromete entre nós. – O sorriso dela aumentou. – Daí que hoje eu te entenda tão bem quanto Claire.
-Nunca lhe contaste. Quem eu sou…
O sorriso de Melanie desapareceu lentamente.
-Preferi que Claire descobrisse sozinha.
-E a mãe dela também não contou. – Continuou Urso calmamente, como que guiando um certo raciocínio.
Melanie virou-se para o horizonte, vendo um grande pedaço de neve cair do grosso ramo do pinheiro bravo, misturando-se com a fina camada que esbranquiçava o solo.
-Hélene tinha o coração cheio de feridas. Tudo aconteceu tão depressa. Acho que ela não tomou o teu problema como algo de muito grave em comparação ao que acontecera à sua família em tão curto espaço de tempo.
Urso ouviu uma leve corrente de mágoa na voz de Melanie, mas não disse mais nada, limitando-se a observar a neve a derreter lentamente, enquanto o sol brilhante inundava as Terras Altas com sua luminosa luz.
-Terei que lhe contar a verdade, não?
-Sim, a não ser que queiras ficar um urso para sempre.
Urso baixou a cabeça.
-Parece mais… fácil. Se for humano, ela irá odiar-me. Não me quererá por perto…
Melanie olhou para ele, levemente surpresa, com um sorriso radioso.
-E preferes que ela queria a tua companhia em vez de a forçares? Oh, Raphael, mudaste mesmo!
Urso fez um movimento semelhante a um encolher de ombros, os olhos ainda fitando o chão.
-Como poderia permanecer igual se fora a minha estupidez que me pusera nesta situação? Tinha vinte anos na altura, mas não era um homem. Era ainda uma criança.
-Mas tu eras um homem. De que outra forma Rose te poderia enganar? – Interrompeu Melanie, tentando erguer o bom senso de Urso. Não seria muito difícil, considerando que ele, no fundo, procurava motivos para que tudo corresse bem caso contasse a verdade a Claire. O tempo que ele passara com a rapariga fizera com que se desenvolvesse sentimentos mais profundos. Já não havia dor de cabeça. Ele sentia pela esposa algo muito mais forte do que desejo. Algo que Rose não contava que Urso sentisse.
-Se chamas um homem a uma criatura que caí em desejos caprichosos, então a Terra está condenada.
-Tu eras caprichoso?
Urso suspirou pesadamente.
-Sim… e Bruno está a ir pelos mesmos caminhos.
Melanie abanou a cabeça.
-Não. Só há uma coisa que faz com que Bruno perca a cabeça.
-Claire. – Completou Urso, num sussurro desanimado. A jovem assentiu, distraída.
-Sim. Fora isso, ele é o mesmo. Parece-te diferente porque tu apenas o vês com Claire. Não sabes como ele age quando ela não está por perto. Nós dizemos-te que Bruno quer provar que é melhor do que Claire, mas não é isso. Ele quer provar a Claire que é capaz. Quer mostrar a todos que daria um bom marido para a tua esposa.
-E Claire? – Perguntou Urso, fitando a jovem, o olhar emitindo um brilho um tanto aflito. – Como ela reage? Eu não sei se ela…
-O ama? Não. – Negou Melanie, abanando a cabeça. – Gosta muito dele. Estima-o. Bruno ajudou Claire após a morte do pai dela e garantiu que Hélene tivesse todos os cuidados necessários no breve tempo que as duas estiveram nas Terras Baixas.
-Então ele está mesmo apaixonado por Claire?
Melanie lançou-lhe um olhar compreensivo e triste.
-Sim. Mas Claire prefere ficar solteira.
-Porque sabe que Rose magoaria Bruno se soubesse. – Finalizou Urso, temendo o pior.
Melanie ficou cabisbaixa.
-E dizes que ela não o ama? – Perguntou ele, sentindo a ira subir-lhe até à ponta do pêlo.
-Não da forma que estás a pensar. Ama-o como um irmão. Nada mais.
Então Urso entendeu porque Claire não atacara Bruno quando ele a beijara, nem fora violenta para com ele. E também entendia a frustração de Bruno à rejeição de Claire.
Ironicamente, esperava-lhe o mesmo destino. Tal como o irmão mais novo, apaixonara-se por Claire e iria ser rejeitado por ela assim que ela descobrisse a verdade. O que não iria demorar. Não podia lhe mentir por muito mais tempo.
Sem dizer mais nada, entrou no esconderijo, percorrendo os túneis inconscientemente até chegar a uma sala grande, onde várias crianças estava sentadas à volta de Claire:
-…O duende continuava a gritar, por isso ela remexeu no avental. – Contou Claire, fazendo gestos expressivos para a plateia, que a ouvia atentamente, não querendo perder nem uma palavra. – Pegou na tesoura e…
As crianças ofegaram, algumas soltando pequenos gritinhos ou engolindo a própria saliva, os rostos amedrontados.
-…e cortou-lhe a barba. – Finalizou Claire, com um sorriso vitorioso. Olhou para a criança com os olhos semicerrados, parecendo divertida com a reacção deles. – O que é que vocês achavam que ela ia cortar?
Algumas crianças coraram e outras soltaram risadinhas embaraçadas, fazendo Claire rir-se às gargalhadas.
-Vocês têm pensamentos que crianças inocentes não deveriam ter.
Agora todas as crianças exibiam brilhantes pigmentos encarnados, umas mordendo os lábios em embaraço, mas todos tentando se recompor, fosse lá uma das suas mães entrar pela sala adentro.
-Conta mais uma história, Claire? – Pediu uma menina de cabelos compridos, ajustando as suas saias, de modos a estar sentada confortavelmente no chão. Claire suspirou dramaticamente.
-Ainda não acabei esta. Além disso, vocês estão sempre a pedir-me histórias.
-Mas já sabemos como acaba. O duende vai-se embora sem agradecer à rapariga, não é? – Disse um rapaz muito pequeno e com grande cabeleira. – E tu contas muito melhor que as nossas mães.
À sua volta, todas as crianças assentiram em acordo. As bochechas de Claire ficaram um pouco cor-de-rosas, dando-lhe um ar adorável, aos olhos de Urso. Assim que o viu, fez-lhe sinal para se aninhar junto a ela, como fazia sempre, por vezes deixando algum miúdo traquina o trepar.
Ele aproximou-se, sem tirar os olhos de cima de Claire, e sentou-se ao lado da jovem. Esta tossiu dramaticamente, como que preparando a voz:
-Têm razão, ele foi-se embora sem agradecer. Mas… e se desta vez, ela não foi atrás?
Os olhos das crianças aumentaram de tamanhos, todos brilhando em entusiasmo. E a história prosseguiu, com Claire fazendo pausas dramáticas para as crianças ofegaram e se agarrarem umas às outras, ora com medo, ora com espanto. Era um espectáculo fantástico em ver a inocência daquelas crianças em tempos tão negros. Urso sabia que tanto ele como Claire havia nascido em tempos alegres, mas que nunca haviam desfrutado de uma infância pura. De uma verdadeira família. Era algo que eles tinham em comum. Urso raramente vira a sua mãe, que morrera quando fizera onze, e não tinha uma boa relação com o pai. Bruno era tudo o que tinha. Era a coisa mais próxima de família. E sabia que Rose era a família de Claire.
Rose, a marca do destino. Aquela que iria influenciar vidas. E apenas a sua irmã mais nova a poderia travar. Porque ela a amava.
Ele sabia que faria o mesmo por Bruno. E também por Claire.
Alias, ele faria tudo para fazer Claire feliz. Se, para isso, ele tivesse que se afastar e deixar que Bruno provasse o seu valor a Claire, assim o faria.
-Gostaste? – Perguntou uma voz feminina, tirando Urso dos seus pensamentos. Claire fitava-o intensamente, como que vendo para além da sua alma, tal como Melanie e Bruno faziam. As crianças já tinham saído da sala, deixando os dois sozinhos.
Urso assentiu, sem dizer uma palavra.
-Tens jeito para contar histórias. – Disse, tentando puxar a conversa para humores alegres antes de largar a flecha.
Claire encolheu os ombros.
-Nem todas são inventadas. – Sussurrou, a voz tão deliciosa e doce como o mel. Urso sentiu uma leve pontada na cabeça. Fechou os olhos, tentando controlar a dor, que já não sentia fazia algum tempo. Infelizmente, Claire notou.
-Passa-se alguma coisa? – Perguntou, preocupada.
-Não. É só uma dor. É melhor ir apanhar ar fresco para ver se passa.
-Olha que não devias estar lá fora. É perigoso.
-Prefiro arriscar.
-Gostas do ar livre. – Comentou Claire, com um leve sorriso.
-Vivi assim durante doze anos e já antes preferia a vida no exterior do que ficar confinado nos castelos.
Claire congelou, sobressaltada. Urso virou-se para ela, o olhar implorando compreensão.
-Tu eras…
-Humano? Sim, era. Rose transformou-me e perdi tudo, tal como te contei.
-Porque me mentiste? – Perguntou ela, a voz assumindo um tom ríspido. Urso falou com cautela.
-Não te menti. Ela tirou-me tudo. Apenas não te contei que era humano antes. Temia que não me ajudasses se o soubesses.
-Porque não te ajudaria? – Inquiriu a rapariga, confusa. – Se eras um homem inocente que Rose marcara…
-Aos olhos de Rose, eu não era inocente. – Murmurou ele, desanimado. – No fundo, ela até tinha razão.
Claire não questionou-o. Urso sabia que ela começava a juntar as peças todas. Ele fora humano, rico ao ponto de possuir um castelo e fora transformado há doze anos. Urso engoliu em seco, temendo a reacção de Claire quando descobrisse a sua identidade.
-Foste… o primeiro? – Perguntou Claire, calmamente.
-Sim. – Respondeu ele simplesmente, não tirando os olhos de Claire.
Finalmente, Claire entendeu. Os seus olhos aumentaram de tamanho e ergueu-se tão depressa que sobressaltou Urso, que recuou cautelosamente. As palavras de Bruno, o facto de sua mãe saber o paradeiro do marido, a certeza de que ele estava vivo, o facto de Urso saber coisas sobre ela e a irmã que mais ninguém sabia, as palavras de Rose…
-Raphael! – Sussurrou ela, com medo de ouvir a sua própria voz.
Urso permaneceu imóvel, temendo fazer o mínimo dos movimentos. Na sua cabeça, soavam pragas a si próprio por ter arruinado tudo pelo seu lado irracional, enquanto a sua consciência louvava-o e tentava consolá-lo, dizendo que Claire o perdoaria pela sua honestidade. Estava tão perdido nos seus pensamentos que os seus olhos ficaram vítreos e não viu mais as mudanças de expressões de Claire. Por um lado, até foi bom pois assim Urso, que nascera com o nome de Raphael, não notou na tristeza e no alívio que percorreu o rosto da rapariga.
Daí que fosse apanhado de surpresa pelo seguinte movimento da rapariga. De todas as reacções, aquela era a menos esperada pela mente racional, mas desejada pelo seu coração apaixonado.
Claire abraçou-o.
). Adorei ler o teu comentário. É bom saber que gostas da minha escrita. Pareceu-te confuso? É normal, são personagens completamente novas, é de esperar que alguem fique confuso logo no principio.Lulu: Xii, não penses tão mal do Bruno. Nem todos podem ser perfeitos
Ele continua o mesmo.. ok, mudou um pouco, mas eu não sou daquelas de mudar o caracter de uma personagem de uma forma tão drastica. Era preciso bons motivos para isso, cmo o exilio do Raphael. Bruno apenas teve motivos para melhorar ou manter-se o mesmo, mas com ligeiras diferenças na personalidade. Acho que me explicarei melhor neste capítulo.A Melanie... ah, eu nem me lembrei da Bonnie imediatamente. Ás tantas é capaz, o meu subconsciente criou a Melanie de um dia para o outro, baseando-se na Bonnie involuntariamente. Todavia, gosto de pensar que me baseiei na Gwen de Merlin para o papel de Melanie, tanto fisico como psicologicamente.
Spoiler

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Equinócio exacto
Urso viu ao longe pequenas estalactites de gelo pingando gotas de água para o chão. Em breve, a primavera chegava.
Estranhamente, sentia-se pouco ansioso pela estação amena. A vinda da primavera significava que o túnel estaria em breve pronto, que os homens poriam os seus planos em prática e que Urso perderia aqueles momentos preciosos que passara com Claire.
Ele pensara em livrar-se da sua maldição. Todavia, a alegria que Claire mostrava quando o via fazia-o sempre mudar de ideias. Não queria voltar a ser o esposo dela, que ela não amava. Preferia ser o Urso, grande amigo, do que Raphael, aquele que nunca teria o respeito dela. Para ele perder Claire era a pior dor de todas. Até mesmo as dores de cabeça que ele costumava ter. Sempre que estava com ela, sentia uma forte dor, como se alguém lhe estivesse a esmagar-lhe o crânio com um machado. Mas ele aguentava. Porque sabia o seu significado.
Ele desejava Claire. E Rose fizera questão de o amaldiçoar até mesmo no dia em que ele desse verdadeiro valor às qualidades da sua irmã mais nova. Durante todos aqueles meses, ele suportara aquela dor aguda com paciência, por vezes desviando o focinho das pessoas, para que ninguém visse as suas lágrimas de dor. Era difícil, mas ele aguentou. Contudo, Claire parecia suspeitar. Afinal, ele estava sempre perto dela quando as dores atrozes o invadiam. Quando ela contava histórias às crianças, quando conversava com Melanie e com Urso. Eram alturas em que ele via a Claire que ela teria sido caso os Fados tivessem sido generosos. A Claire que exibia um sorriso luminoso a todos os resistentes, iluminando-os de esperança.
Suspirou, vendo o ar expirado sair em forma de vapor. Lembrava-se de um dia como aquele, doze anos antes, pouco depois do seu casamento. Quando vira as belas roseiras da família De Roquette. E quando ele se transformara em Urso.
Durante todos aqueles anos, sempre que encontrava uma criatura da floresta, questionava-a acerca dos duendes. Onde viveriam? Como funcionaria a sua magia? Porém, nada encontrara. Os duendes já não existiam e quando viviam, isolavam-se em locais obscuros de tal modo que nunca nenhuma criatura soube do seu paradeiro.
Só tinha uma pista: Claire. A conversa dela e Melanie anos antes jamais lhe saíra da cabeça. Talvez porque mencionara um detalhe da sua inimiga que poucos sabiam. Claire tratava a irmã por Scarlett e havia dito que ela mudara. Somando esta pequena informação com as histórias de Claire acerca das criaturas das Terras Altas, era obvio que algo havia acontecido pouco antes do casamento.
Algo que mudara Rose por completo. Algo que lhe dera os poderes.
E Claire era a única que sabia.
Era a sua esperança.
-Que pensas? – Disse uma voz serena. Urso virou-se, vendo Melanie fitando-o curiosamente. Ele abriu a boca para responder, desistindo a meio do acto. Afinal, a rapariga não o entenderia.
-Melanie…
-Não devias estar aqui. – Disse a rapariga, fechando a porta do esconderijo e sentando-se ao lado dele na leve camada de neve. – Podem notar.
Fitou-o com os seus olhos castanhos tão escuros quanto a casca do pinheiro, como se tentasse vê-lo por debaixo da pele. Ver através da alma.
-Estás com medo. – Comentou, sorrindo. – Não devias, Raphael.
Urso ergueu-se, sobressaltado. Fazia muito tempo que não era chamado pelo seu nome.
-Como…
-Tenho os meus meios. – Respondeu Melanie, com ar radiante. Urso deixou cair a grande boca num perfeito “O”.
-Entendes-me?
Melanie limitou-se a assentir, o sorriso marcado no rosto.
-Hoje é dia 21 de Março, dia do Equinócio de Primavera. – Respondeu, simplesmente, como se a data fosse a resposta para todas as perguntas. Ao ver o ar confuso do Urso, suspirou. – Sabes que os Fados são lidos no Solstício de Inverno. Bem, nessa altura, eles lêem o futuro. No Solstício de Verão, lêem o passado.
-Porque leriam o passado? – Interrompeu Urso, desordenado.
-Nem sempre a história deixa marcas coerentes. Tu, que eras guerreiro, devias saber disso. Como fora que o teu antepassado Claude conseguira expulsar os povos emigrantes dos territórios das Terras Baixas? Os livros ditam os seus actos heróicos, mas sabes lá tu que não fora um acto de cobardia e traição que dera a Claude o território. Sabes lá tu se o sangue derramado nos campos de batalha era o de inocentes em vez do de bandidos. O homem escreve os registos. Tanto pode dizer a verdade, como a mentira. Mas os Fados não enganam.
Urso assentiu e Melanie prosseguiu:
-O Equinócio de Primavera e de Outono é quando as videntes focam-se no presente. Os Fados evidenciam-se no tempo e no espaço. No Outono, o tempo é a palavra-chave. Mas nestas alturas, é o espaço. E tu foste vigiado pelos Fados.
-Presumo que foste tu que o fizeste. Tens sangue de vidente?
Melanie assentiu.
-Minha bisavó era uma. Eu, felizmente, não consigo prever o futuro nem o passado, mas o presente consigo.
-Como se prevê o presente? – Urso perguntou, não querendo saber a resposta, pois mostrava-se céptico à arte da adivinhação. Mesmo depois de tudo o que se acontecera.
-Não se prevê. Sabe-se. Temos acesso a informações vitais que noutras alturas não teríamos. Nenhuma magia se intromete entre nós. – O sorriso dela aumentou. – Daí que hoje eu te entenda tão bem quanto Claire.
-Nunca lhe contaste. Quem eu sou…
O sorriso de Melanie desapareceu lentamente.
-Preferi que Claire descobrisse sozinha.
-E a mãe dela também não contou. – Continuou Urso calmamente, como que guiando um certo raciocínio.
Melanie virou-se para o horizonte, vendo um grande pedaço de neve cair do grosso ramo do pinheiro bravo, misturando-se com a fina camada que esbranquiçava o solo.
-Hélene tinha o coração cheio de feridas. Tudo aconteceu tão depressa. Acho que ela não tomou o teu problema como algo de muito grave em comparação ao que acontecera à sua família em tão curto espaço de tempo.
Urso ouviu uma leve corrente de mágoa na voz de Melanie, mas não disse mais nada, limitando-se a observar a neve a derreter lentamente, enquanto o sol brilhante inundava as Terras Altas com sua luminosa luz.
-Terei que lhe contar a verdade, não?
-Sim, a não ser que queiras ficar um urso para sempre.
Urso baixou a cabeça.
-Parece mais… fácil. Se for humano, ela irá odiar-me. Não me quererá por perto…
Melanie olhou para ele, levemente surpresa, com um sorriso radioso.
-E preferes que ela queria a tua companhia em vez de a forçares? Oh, Raphael, mudaste mesmo!
Urso fez um movimento semelhante a um encolher de ombros, os olhos ainda fitando o chão.
-Como poderia permanecer igual se fora a minha estupidez que me pusera nesta situação? Tinha vinte anos na altura, mas não era um homem. Era ainda uma criança.
-Mas tu eras um homem. De que outra forma Rose te poderia enganar? – Interrompeu Melanie, tentando erguer o bom senso de Urso. Não seria muito difícil, considerando que ele, no fundo, procurava motivos para que tudo corresse bem caso contasse a verdade a Claire. O tempo que ele passara com a rapariga fizera com que se desenvolvesse sentimentos mais profundos. Já não havia dor de cabeça. Ele sentia pela esposa algo muito mais forte do que desejo. Algo que Rose não contava que Urso sentisse.
-Se chamas um homem a uma criatura que caí em desejos caprichosos, então a Terra está condenada.
-Tu eras caprichoso?
Urso suspirou pesadamente.
-Sim… e Bruno está a ir pelos mesmos caminhos.
Melanie abanou a cabeça.
-Não. Só há uma coisa que faz com que Bruno perca a cabeça.
-Claire. – Completou Urso, num sussurro desanimado. A jovem assentiu, distraída.
-Sim. Fora isso, ele é o mesmo. Parece-te diferente porque tu apenas o vês com Claire. Não sabes como ele age quando ela não está por perto. Nós dizemos-te que Bruno quer provar que é melhor do que Claire, mas não é isso. Ele quer provar a Claire que é capaz. Quer mostrar a todos que daria um bom marido para a tua esposa.
-E Claire? – Perguntou Urso, fitando a jovem, o olhar emitindo um brilho um tanto aflito. – Como ela reage? Eu não sei se ela…
-O ama? Não. – Negou Melanie, abanando a cabeça. – Gosta muito dele. Estima-o. Bruno ajudou Claire após a morte do pai dela e garantiu que Hélene tivesse todos os cuidados necessários no breve tempo que as duas estiveram nas Terras Baixas.
-Então ele está mesmo apaixonado por Claire?
Melanie lançou-lhe um olhar compreensivo e triste.
-Sim. Mas Claire prefere ficar solteira.
-Porque sabe que Rose magoaria Bruno se soubesse. – Finalizou Urso, temendo o pior.
Melanie ficou cabisbaixa.
-E dizes que ela não o ama? – Perguntou ele, sentindo a ira subir-lhe até à ponta do pêlo.
-Não da forma que estás a pensar. Ama-o como um irmão. Nada mais.
Então Urso entendeu porque Claire não atacara Bruno quando ele a beijara, nem fora violenta para com ele. E também entendia a frustração de Bruno à rejeição de Claire.
Ironicamente, esperava-lhe o mesmo destino. Tal como o irmão mais novo, apaixonara-se por Claire e iria ser rejeitado por ela assim que ela descobrisse a verdade. O que não iria demorar. Não podia lhe mentir por muito mais tempo.
Sem dizer mais nada, entrou no esconderijo, percorrendo os túneis inconscientemente até chegar a uma sala grande, onde várias crianças estava sentadas à volta de Claire:
-…O duende continuava a gritar, por isso ela remexeu no avental. – Contou Claire, fazendo gestos expressivos para a plateia, que a ouvia atentamente, não querendo perder nem uma palavra. – Pegou na tesoura e…
As crianças ofegaram, algumas soltando pequenos gritinhos ou engolindo a própria saliva, os rostos amedrontados.
-…e cortou-lhe a barba. – Finalizou Claire, com um sorriso vitorioso. Olhou para a criança com os olhos semicerrados, parecendo divertida com a reacção deles. – O que é que vocês achavam que ela ia cortar?
Algumas crianças coraram e outras soltaram risadinhas embaraçadas, fazendo Claire rir-se às gargalhadas.
-Vocês têm pensamentos que crianças inocentes não deveriam ter.
Agora todas as crianças exibiam brilhantes pigmentos encarnados, umas mordendo os lábios em embaraço, mas todos tentando se recompor, fosse lá uma das suas mães entrar pela sala adentro.
-Conta mais uma história, Claire? – Pediu uma menina de cabelos compridos, ajustando as suas saias, de modos a estar sentada confortavelmente no chão. Claire suspirou dramaticamente.
-Ainda não acabei esta. Além disso, vocês estão sempre a pedir-me histórias.
-Mas já sabemos como acaba. O duende vai-se embora sem agradecer à rapariga, não é? – Disse um rapaz muito pequeno e com grande cabeleira. – E tu contas muito melhor que as nossas mães.
À sua volta, todas as crianças assentiram em acordo. As bochechas de Claire ficaram um pouco cor-de-rosas, dando-lhe um ar adorável, aos olhos de Urso. Assim que o viu, fez-lhe sinal para se aninhar junto a ela, como fazia sempre, por vezes deixando algum miúdo traquina o trepar.
Ele aproximou-se, sem tirar os olhos de cima de Claire, e sentou-se ao lado da jovem. Esta tossiu dramaticamente, como que preparando a voz:
-Têm razão, ele foi-se embora sem agradecer. Mas… e se desta vez, ela não foi atrás?
Os olhos das crianças aumentaram de tamanhos, todos brilhando em entusiasmo. E a história prosseguiu, com Claire fazendo pausas dramáticas para as crianças ofegaram e se agarrarem umas às outras, ora com medo, ora com espanto. Era um espectáculo fantástico em ver a inocência daquelas crianças em tempos tão negros. Urso sabia que tanto ele como Claire havia nascido em tempos alegres, mas que nunca haviam desfrutado de uma infância pura. De uma verdadeira família. Era algo que eles tinham em comum. Urso raramente vira a sua mãe, que morrera quando fizera onze, e não tinha uma boa relação com o pai. Bruno era tudo o que tinha. Era a coisa mais próxima de família. E sabia que Rose era a família de Claire.
Rose, a marca do destino. Aquela que iria influenciar vidas. E apenas a sua irmã mais nova a poderia travar. Porque ela a amava.
Ele sabia que faria o mesmo por Bruno. E também por Claire.
Alias, ele faria tudo para fazer Claire feliz. Se, para isso, ele tivesse que se afastar e deixar que Bruno provasse o seu valor a Claire, assim o faria.
-Gostaste? – Perguntou uma voz feminina, tirando Urso dos seus pensamentos. Claire fitava-o intensamente, como que vendo para além da sua alma, tal como Melanie e Bruno faziam. As crianças já tinham saído da sala, deixando os dois sozinhos.
Urso assentiu, sem dizer uma palavra.
-Tens jeito para contar histórias. – Disse, tentando puxar a conversa para humores alegres antes de largar a flecha.
Claire encolheu os ombros.
-Nem todas são inventadas. – Sussurrou, a voz tão deliciosa e doce como o mel. Urso sentiu uma leve pontada na cabeça. Fechou os olhos, tentando controlar a dor, que já não sentia fazia algum tempo. Infelizmente, Claire notou.
-Passa-se alguma coisa? – Perguntou, preocupada.
-Não. É só uma dor. É melhor ir apanhar ar fresco para ver se passa.
-Olha que não devias estar lá fora. É perigoso.
-Prefiro arriscar.
-Gostas do ar livre. – Comentou Claire, com um leve sorriso.
-Vivi assim durante doze anos e já antes preferia a vida no exterior do que ficar confinado nos castelos.
Claire congelou, sobressaltada. Urso virou-se para ela, o olhar implorando compreensão.
-Tu eras…
-Humano? Sim, era. Rose transformou-me e perdi tudo, tal como te contei.
-Porque me mentiste? – Perguntou ela, a voz assumindo um tom ríspido. Urso falou com cautela.
-Não te menti. Ela tirou-me tudo. Apenas não te contei que era humano antes. Temia que não me ajudasses se o soubesses.
-Porque não te ajudaria? – Inquiriu a rapariga, confusa. – Se eras um homem inocente que Rose marcara…
-Aos olhos de Rose, eu não era inocente. – Murmurou ele, desanimado. – No fundo, ela até tinha razão.
Claire não questionou-o. Urso sabia que ela começava a juntar as peças todas. Ele fora humano, rico ao ponto de possuir um castelo e fora transformado há doze anos. Urso engoliu em seco, temendo a reacção de Claire quando descobrisse a sua identidade.
-Foste… o primeiro? – Perguntou Claire, calmamente.
-Sim. – Respondeu ele simplesmente, não tirando os olhos de Claire.
Finalmente, Claire entendeu. Os seus olhos aumentaram de tamanho e ergueu-se tão depressa que sobressaltou Urso, que recuou cautelosamente. As palavras de Bruno, o facto de sua mãe saber o paradeiro do marido, a certeza de que ele estava vivo, o facto de Urso saber coisas sobre ela e a irmã que mais ninguém sabia, as palavras de Rose…
-Raphael! – Sussurrou ela, com medo de ouvir a sua própria voz.
Urso permaneceu imóvel, temendo fazer o mínimo dos movimentos. Na sua cabeça, soavam pragas a si próprio por ter arruinado tudo pelo seu lado irracional, enquanto a sua consciência louvava-o e tentava consolá-lo, dizendo que Claire o perdoaria pela sua honestidade. Estava tão perdido nos seus pensamentos que os seus olhos ficaram vítreos e não viu mais as mudanças de expressões de Claire. Por um lado, até foi bom pois assim Urso, que nascera com o nome de Raphael, não notou na tristeza e no alívio que percorreu o rosto da rapariga.
Daí que fosse apanhado de surpresa pelo seguinte movimento da rapariga. De todas as reacções, aquela era a menos esperada pela mente racional, mas desejada pelo seu coração apaixonado.
Claire abraçou-o.
Espero por ti em cada segundo , porque tu és o meu mundo!

Se para salvares aqueles que amas, tivesses que recordar o passado que tanto receias... O que farias?
Visitem a minha 1ª Fic ----->The Four elements

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Agora deixaste-me curiosa para saber o que vai acontecer no próximo! >.<
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