Sailor Moon Portugal, A Navegante da Lua

[Terminada] Elegia

#1
Autor: Maylene
Título: Elegia

Estado - Concluída
Género - Drama / Romance / Tragédia
Personagens - Originais

Esta é uma fic que fiz a algum tempo e que me deu muito prazer ao escrever. É uma história curtinha com capítulos pequenos e que aborda sobretudo os temas "amar e saber que se vai perder a pessoa amada" e "querer viver mais do que tudo sabendo que se vai morrer".
As personagens que dão vida a esta história são dois meninos (é uma história de amor entre rapazes - Shounen-Ai), em que ambos ganham uma coisa preciosa para logo a seguir perderem-na.
Os capítulos estão construídos sob o ponto de vista de cada personagem, em que reflectem vários momentos da sua vida.

A inspiração para a fic veio quando li o mangá "The Day I Become a Butterfly" de Sumomo Yumeka e segui o mesmo plot até ao 3º capítulo. A partir deste capítulo o plot é todo da minha autoria.

Resumo: Takeru Sumomo é um rapaz com um estranho poder que o devora internamente. Nos seus sonhos ele vê a morte das pessoas e na sua cabeça ouve as suas vozes a gritar e a pedir por ajuda.
Certo dia, ele conhece Koji, um rapaz cuja morte está próxima e que tem consciência disso. Koji possui tudo o que Takeru odeia e não se quer envolver com aquela pessoa prestes a morrer mas... quando ele dá por isso já se apaixonou.

PS: A fic está já concluída mas irei postar os capítulos à vez.


INDICE

1º Capítulo – A vida pela qual me apaixonei
2º Capítulo – A morte que eu aceitei
3º Capítulo – O dia em que dissemos o primeiro adeus
4º Capítulo – Procurando o fim do arco-íris
5º Capítulo – A oração que me ensinaste
6º Capítulo – O filme da nossa vida
7º Capítulo – Existimos...
8º Capítulo – Os dias que passam
9º Capítulo – A caixa de Pandora que abri
10º Capítulo – A frase que se tornou hábito
11º Capítulo – O dia em que choveu
12º Capítulo – Funeral de almas

Nas Asas de um Anjo (CAP 03) - A história de um rapaz que deseja o Céu e de um anjo que se envolve numa mentira.
Elegia (CAP 10) - E se antecipássemos a morte das pessoas nos sonhos e nos apaixonássemos por uma delas?
#2
1º Capítulo – A vida pela qual me apaixonei


A vida nunca foi divertida. Viver não é mais do que um mero perder tempo enquanto se vive várias angústias em nome de uma felicidade que depois não dura mais do que breves segundos. Sempre vivi de uma forma pesarosa, sem caminho por onde seguir. Possuo um poder estranho pelo qual sempre me censuraram. As pessoas, por mais humanas e compreensíveis que se auto-dominem, acabam sempre por não aceitar as diferenças que se põem entre elas e os outros.

Este não é um segredo que eu escondo mas também não é algo que goste de partilhar. Muitas vezes perguntam-me: “Que estás tu a ver Takeru? Que vês nos teus sonhos?” e só há uma resposta possível: “Vejo a tua morte!”. Não! Pessoas não devem conhecer estes factos, porque a partir do momento em que elas souberem a data da sua morte, simplesmente deixarão de viver.

---

Chamo-me Takeru Sumomo e tenho 19 anos. Pelo menos era esta a idade que eu tinha quando deixei de viver. Dentro das minhas veias corre um poder raro e muito agressivo psicologicamente – eu consigo ver a morte das pessoas nos meus sonhos e ouço as suas vozes a suplicar por mais um minuto de vida… por mais uma oportunidade...

Se calhar, em alguma vez na tua vida, já tiveste sonhos semelhantes mas, de certo, nenhum deles se realizou… os meus realizam-se sempre. Realizam-se tão dolorosamente que me arrastam com eles para um vazio sem fim; que multiplicam esta dor perdida em recordações passadas… Mas antes de eu morrer verdadeiramente, gostaria de partilhar a minha história com alguém.

---

Foi num dia chuvoso que ele entrou por aquela porta da sala de aula. Era um pouco mais baixo que eu e os seus cabelos lhe cobriam os olhos parcialmente escondendo os bonitos olhos esmeralda que cintilavam por detrás. Caminhou demasiado lentamente até à mesa do professor dando tempo para todos notarem a sua enorme fragilidade.

- Apresento-vos o Koji Maeda. Ele será o vosso novo colega e por isso sejam simpáticos com ele.

Repulsa foi a primeira sensação que tive dele e não era muito diferente da opinião de todos os outros. Aqueles cabelos desalinhados e pouco cuidados deixavam transparecer a sua falta de vivacidade. E eu ouvi… ouvi uma voz aflitiva a gritar por ajuda. Mas essa voz era diferente! Em vez de pedir por ajuda para viver… ela suplicava pela chegada do seu último dia.

Fiquei a fitá-lo… Não havia dúvidas. Era mesmo a sua voz que ressoava na minha cabeça e que invadira o meu sonho na noite passada. Ele notou o meu olhar e devolveu-o.

A sua expressão era vazia. Por detrás dele não corria qualquer emoção e a mínima vontade de sorrir. Era um espectro que vagava pelos corredores da escola solitário – um espectro que só se fazia notar quando a luz incidia sobre ele directamente.

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Certo dia alguém me perguntou quem seria a primeira pessoa da turma a morrer. Ignorei e entrei na sala de aula. Todos os meus colegas faziam apostas sobre o assunto mas só um deles estava certo. Era o Koji, e seria uma coincidência o facto de saber que seria o primeiro a morrer?

- Takeru, quem acertou na aposta?

Havia rumores na escola. Eu não era o único. Koji também conseguia saber. Ele ouvia uma voz antes de uma vida apagar-se. E ele estava a ouvir a sua própria voz.

A meio da aula um caderno espalhou-se pelo chão. Koji foi o único que não se mostrou surpreendido e pediu desculpas. Levantou-se e saiu até à enfermaria.

Todos mentiam à sua volta. Ninguém tinha coragem de dizer o quanto a vida daquele pobre jovem duraria mais. Todos os dias via aquela expressão conformada com o destino que ele aceitara para si. Conseguiria mesmo ouvir a sua própria voz de que iria morrer em breve?

---

Nunca nos demos bem. Não conseguíamos conviver sob o mesmo tecto por mais do que breves instantes. Eu odiava-o! Eu odiava aquela existência tão efémera, aquele olhar de sofrimento, aqueles gestos conformados… Mas o que eu odiava realmente… era ver que ele próprio sabia que a sua vida estava no fim.

Por vezes pensava se poderia aproximar-me dele e falarmos. Mas não havia futuro nessa relação de simples amizade. Não havia forma de ser amigo de uma pessoa que não tinha futuro.

Se algum dia me perguntar… se ele quiser mesmo saber se irá morrer… eu não irei mentir. E é isso que comecei a odiar em mim.

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Uma noite tive um sonho. Uma criança desesperada gritava por ajuda do fundo de um poço. A voz dela ecoou nos meus ouvidos a madrugada inteira. Eu sabia que não estava morta mas se ninguém a fosse salvar, morreria de certeza. Não havia nada que pudesse fazer… não poderia interferir assim no futuro já decidido.

Nesse dia Koji não apareceu na escola e quando regressei a casa e liguei a televisão vi as confirmações da minha suspeita. Uma criança havia desaparecido. Tinha apenas 7 anos e após ir brincar na rua não voltara para casa. Ali estava a polícia à porta de uma casa. A mãe chorava desesperadamente e na janela alguém espreitava tristemente. Alguém… aquela voz… Koji? A filha dos Maeda era a criança que tinha desaparecido.

Corri pela rua. A chuva começou a molhar o meu caminho repentinamente. Cheguei perto da casa dos Maeda e vi que a policia já tinha saído. Havia choros dentro de casa mas havia uma janela que brilhava com uma luz cálida. Aproximei-me e espreitei. Lá dentro estava o Koji e ele viu-me. Saiu a correr de casa e atravessou a entrada molhada descalço. Ainda chovia torrencialmente.

- Perto da ponte. Num poço.

Ele correu como nunca tinha visto. Aquele corpo doente tinha encontrado forças para sobreviver um pouco mais. Nessa mesma noite a criança regressou a casa salva.

Eu tinha interferido no futuro. Se eu não tivesse estes poderes… aquela vida já não existiria.

---

No dia seguinte ele foi a segunda pessoa a entrar na sala. Ajoelhou-se aos meus pés a agradecer.

- Eu ouvi a voz da minha irmã a pedir ajuda mas não conseguia alcançá-la. Se não me tivesses dito… ela nunca seria encontrada. Obrigada!

- Também acreditas no que esses idiotas dizem? Que consigo ver pessoas a morrer nos meus sonhos?

Ele baixou a cara e levantou-se ainda cabisbaixo.

- Não. Eu tenho a certeza que tens esse poder. Mesmo agora tu estás a ver a minha morte…

Ele fitou-me e eu aguardei. Aguardei que finalmente perguntasse detalhes da sua morte como todos faziam mas não disse mais nada.

- Obrigado!

- Eu estava só de passagem. Não fiz nada de especial.

- Tu vieste o caminho todo a chover para me dizeres onde ela estava. Para ajudares alguém que odeias!

Como ele sabia que o odiava? Para além de ouvir as vozes… ele também consegue ler os pensamentos? Odeio esse teu olhar desesperado, odeio esse teu corpo tão débil, odeio a tua curta existência, odeio tudo em ti… mas talvez ainda odeie mais o facto de estares a tentar esconder isso tudo de todos, de estares a mostrar que és um rapaz normal como qualquer outro.

---

Novamente a rotina regressou. Dei por mim a fitá-lo durante as aulas. A ver os movimentos daquele cadáver ainda vivo a moverem-se tão inseguramente. Continuei a ouvir aquela voz a gritar, a pedir pelo fim. A voz continuou a ressoar o tempo todo na minha cabeça. Não aguentei e tapei os ouvidos. Cala-te por favor!

E de repente ela calou-se. Koji estava caído no chão sem conseguir respirar. Todos estavam a gritar.

- Chamem o médico depressa!

Todos estavam à volta dele.

- Eu estou bem!

Levantei-me e caminhei até ele. Fui o primeiro a pegar no seu corpo fraco e guiá-lo até à enfermaria antes que qualquer outro pudesse fazer algo. Antes de chegarmos à enfermaria dei conta que o estava a abraçar. Que o protegia entre os meus braços como se fosse uma existência indefesa.

Ele sabia que ia morrer mas não se importava. Ele sabia que eu sabia que ele morreria mas nunca perguntou nada. Continuou a olhar para mim com aquela expressão preocupante como se sentisse pena de mim, de certo modo. Mas és tu que irás morrer e não eu. És tu que tens de chorar pela tua vida. Eu odeio-te tanto!!! Odeio-te por não lutares por essa vida… Mas…sem saber… eu tinha me apaixonado por ele.

Fim

Nas Asas de um Anjo (CAP 03) - A história de um rapaz que deseja o Céu e de um anjo que se envolve numa mentira.
Elegia (CAP 10) - E se antecipássemos a morte das pessoas nos sonhos e nos apaixonássemos por uma delas?
#4
[ Mim entra no tópico, por curiosidade, lê o primeiro capítulo, e ... ]

Eu vou ser muito sincera, das fics que eu já li, neste fórum, poucas me fizeram ficar agarrada ao ecrã e querer ler mais como a tua fez ! E a tua escrita é, tão, tão bonita e detalhada !

Fico à espera, ansiosamente, do próximo capítulo !
#5
Até aqui Maylene Ç-Ç vens postar essa fic? Já não bastava eu a ter lido e chorado no fim Ç-Ç...tu não descansas Ç-Ç

Mas que eu hei-de fazer? Enfim! Respondo agora para todos os capitulos...achei linda a história e o seu contexto. Amei simplesmente o romance entre eles dois e dispensava a ***, tu sabes Mal disposto'!

Espero que as outras pessoas gostem dela também XD

Editado pela última vez em

#6
Monica - Obrigada por teres lido. O primeiro e o segundo capítulo são no fundo introduções e depois tudo fica mais interessante. Espero que continues a acompanhar.

DanielaClerigo - Fico muito feliz por ter conseguido prender a tua atenção. A fic ainda vai ficar mais bonita porque enquanto fui escrevendo fui melhorando várias coisas. Espero que continues a ler e a gostar.

Sayra - É claro que a venho postar aqui. Qualquer dia até edito um livro com ela. É daquelas fics que me sairam mesmo bem e é o meu pequeno orgulho. Embaracoso

Nas Asas de um Anjo (CAP 03) - A história de um rapaz que deseja o Céu e de um anjo que se envolve numa mentira.
Elegia (CAP 10) - E se antecipássemos a morte das pessoas nos sonhos e nos apaixonássemos por uma delas?
#7
2º Capítulo – A morte que eu aceitei


Eu nunca odiei a vida. Sempre me senti vivo por dentro apesar de estar a morrer por fora. Viver é uma experiência de felicidade que não se volta a sentir mais. Sempre fui querido por todos e sei que o meu destino custa mais às pessoas que me rodeiam do que a mim próprio. Não sou mais que uma pobre alma que nasceu num corpo frágil e doente. Escolhi um recipiente tão quebradiço para viver míseros dias de felicidade. Mas mesmo assim fui feliz.

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Chamo-me Koji Maeda e tenho 19 anos. Esta será a idade máxima que alguma vez alcançarei.

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Foi num dia chuvoso que entrei naquela escola. O meu olhar cruzou-se com o de um colega um pouco mais alto que eu e com o cabelo solto e disperso sobre o seu olhar carrancudo acinzentado. Chamava-se Takeru Sumomo e olhava-me com uma expressão de ódio, como estivesse a odiar-me internamente. Ele ficou a fitar-me tão intensamente que me fazia sentir mal. Parecia que a minha presença era um incómodo, mesmo para um desconhecido. Não queria… não queria que ninguém sofresse com a minha existência…

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Haviam rumores… haviam murmúrios que aquele rapaz, que me olhava com tanto ódio, conseguia ver a morte das pessoas nos seus sonhos.

Certo dia os meus colegas fizeram apostas. Eles apostaram em quem seria o primeiro a morrer. Que jogo tão inútil… levantei a minha mão mas não apostei. Uma coisa de que temos a certeza nunca será uma aposta; é apenas uma verdade.

- Eu serei o primeiro a morrer.

E os rumores aumentaram. Já não era só Takeru que ouvia as vozes, eu também as ouvia. Eu também ouvia uma voz antes de ela se apagar. Mas a única voz que conseguia ouvir era a minha própria voz. Ela dilacerava-me e suplicava para viver, ela insistia em sobreviver, mas até mesmo a vontade da alma nada pode contra um corpo programado a morrer.

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A meio da aula o meu caderno caiu. Senti uma pontada no peito e uma dor intensa. A respiração paralisou e agarrei-me à garganta.

- Desculpe.

Recolhi o caderno e sai da aula. Na enfermaria assistiram e mandaram-me descansar. Quanto mais tempo de vida me resta, doutor?

Sim… todos mentiam à minha volta. Talvez porque a realidade era dura, ou talvez porque ainda viam esperança que estivessem errados. Mas não estavam. Esta doença consumia-me lentamente sem ceder, sem abrandar. Ia morrer, eu sabia. Esta ideia já me possuía desde pequeno. Estava preparado para morrer sim. Já estava conformado com este destino cruel.

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Ele nunca se quis aproximar de mim. No entanto, eu queria aproximar-me dele. Queria falar com ele. Queria ajudá-lo a suportar aquele peso tão grande sobre os seus ombros. Seria mesmo verdade que conseguia saber quando uma pessoa estava para morrer? Teria a minha própria voz também o alcançado?

Queria aproximar-me e falar com ele. Queria que fossemos amigos… mas isso só lhe traria mais dor e desgosto. Afinal eu não tinha futuro. Não havia futuro em ser-se amigo de alguém que em breve iria morrer.

Gostava de um dia lhe perguntar quando irei morrer… mas se perguntar… eu sei que ele não me irá mentir e ele próprio se odiará por essa cruel verdade.

---

Naquele dia, tudo estava calmo. Regressava de mais um dia de aulas como sempre. A minha mãe aguardava-me em casa com um ar preocupado.

- Koji, viste a tua irmã? Ela saiu para brincar e ainda não regressou…

Não, não a tinha visto. A hora do jantar aproximava-se, então em breve regressaria. Mas não regressou. A mãe disse-me para ficar em casa. Não me podia arriscar a sair com um temporal daqueles e a piorar o meu estado de saúde.

Foi uma noite longa e desesperante. A minha pequena irmã não voltou e não deixámos de procurá-la. No dia seguinte informámos a policia e pedimos por ajuda. Eu queria fazer algo, queria procurar também mas não me deixavam. Era o fim… Talvez ela nunca regressasse.
Fitei tristemente o vidro da janela da sala, contra a qual a chuva batia torrencialmente. Tive um vislumbre. Do outro lado alguém olhava cá para dentro. Era o Takeru. Sai a correr ao seu encontro. Havia algo que tinha para me dizer?

- Perto da ponte. Num poço.

Entendi.

Corri o máximo que o meu corpo permitiu. Corri sem voltar para trás e vestir-me correctamente para enfrentar o temporal. Junto à ponte… num poço… e lá estava ela! A minha pobre irmãzinha, sozinha, assustada, abandonada e molhada. Tinha escorregado enquanto brincava e não conseguira subir após ter torcido um pé. Era um local escondido e se nunca tivessem dito que ela estava ali, nunca a teríamos encontrado.
Abracei-a desesperadamente. Estava salva e segura nos meus braços. Se não fosse pelo Takeru, esta vida em breve deixaria de existir.

---

No dia seguinte corri mais uma vez para a escola. Fui a segunda pessoa a entrar na sala de aula e lá estava ele. Fitava a janela tão melancolicamente como se estivesse a ver sonhos terríveis para lá dela. Aproximei-me e ajoelhei-me a seus pés. Não sabia… ele não podia saber o que a minha irmã representava para mim e para a minha mãe. Afinal, quando eu deixasse de existir só restaria ela para preencher o coração quebrado da minha família.

- Eu ouvi a voz da minha irmã a pedir ajuda mas não conseguia alcançá-la. Se não me tivesses dito… ela nunca seria encontrada. Obrigada!

Eu tinha ouvido… Não era o mesmo poder que ele possuía mas era algo como a intuição. A voz da minha irmã a querer chegar desesperada até mim e eu sem conseguir saber de nada.

Novamente ele desviou o olhar para o vidro da janela.

- Também acreditas no que esses idiotas dizem? Que consigo ver pessoas a morrer nos meus sonhos?

Oh… como não poderia acreditar se a noite passada provou ser verdade. Esse olhar que ele me devolve desde o primeiro momento em que me conheceu… Ele sempre soube e por isso sempre me odiou.

Levantei-me cabisbaixo.

- Não. Eu tenho a certeza que tens esse poder. Mesmo agora tu estás a ver a minha morte…
Fitei-o desesperadamente. Queria saber… quantos dias mais restariam? Como seria? O que aconteceria depois? Mas se perguntar ele não irá mentir como todos os outros e ainda sofrerá com isso. Ele tem estado a sofrer este tempo todo com esse poder. Todas as noites sonha e todas as noites sofre silenciosamente. Se isto é o mínimo que posso fazer para aliviar o seu sofrimento… então não perguntarei nada.

- Obrigado!

- Eu estava só de passagem. Não fiz nada de especial.

- Tu vieste o caminho todo a chover para me dizeres onde ela estava. Para ajudares alguém que odeias!

Eu sei que ele me odeia. Não sei é o motivo. Odeia-me por ser fraco? Odeia-me por estar destinado a morrer? Odeia-me por ser o único que conhece a verdade? Mas tudo o que quero mostrar para todos é que sou uma pessoa normal. Quero ser um rapaz como todos os outros, pelo menos até à hora da minha morte.

---

E foi naquele dia que o meu desespero começou. Foi naquela vez que deixei de me conformar com este destino cruel.

A aula decorria normalmente quando o ataque começou. Deixei de respirar e deixei de sentir a vida à minha volta. Levei as mãos a garganta a tentar gritar e pedir por ajuda. Cai da cadeira e embati sobre o chão frio. Todos gritavam mas eu não conseguia ouvi-los. Todos estavam à minha volta.

- Eu estou bem!

Alguém se aproximou de mim e pegou no meu frágil corpo ao colo. Senti os sentidos a regressar e um forte arrepio a percorrer o corpo. Um calor tão agradável envolveu-me e os dois corpos uniram-se. Takeru estava a abraçar-me enquanto me envolvia docemente nos seus braços tentando dar-me protecção.

Ele sabe que morrerei e isso está a incomodá-lo imenso. Continua a olhar para mim como se desejasse que o seu sofrimento parasse. Mas sou eu quem morrerá e tu continuarás a ver pessoas a morrer à tua volta. Eu apenas serei mais uma delas e depois esquecerás que eu alguma vez existi. Não precisas de chorar pela minha vida, não precisas de te lamentares por isso. E não me odeies por ir morrer! Não me odeies por esta vida efémera… E… quero que me apertes mais no calor emanado pelo teu corpo porque eu… eu… eu estou a apaixonar-me por ti…

Fim

Nas Asas de um Anjo (CAP 03) - A história de um rapaz que deseja o Céu e de um anjo que se envolve numa mentira.
Elegia (CAP 10) - E se antecipássemos a morte das pessoas nos sonhos e nos apaixonássemos por uma delas?
#10
Obrigada por mais comentários! Embaracoso

Espero que também gostem do 3º capítulo.

Nas Asas de um Anjo (CAP 03) - A história de um rapaz que deseja o Céu e de um anjo que se envolve numa mentira.
Elegia (CAP 10) - E se antecipássemos a morte das pessoas nos sonhos e nos apaixonássemos por uma delas?
#11
3º Capítulo – O dia em que dissemos o primeiro adeus


A vida é tão injusta… Porque é que os sentimentos surgem quando não estamos preparados para eles?

- Obrigado Takeru por me teres ajudado. Foi apenas um ataque mas agora estou bem.

Ele estava sentado na cadeira à minha espera. O seu olhar devolvido para a janela como sempre fazia. Parecia que para lá dela conseguia ver alguma esperança que lhe permitisse aguentar aquela dor.

- Por momentos pensei que talvez não me odiasses… que poderias ser meu amigo. Mas é claro que está tudo bem na mesma. Não precisas de te preocupar comigo. Já deve ser bastante doloroso…

Quantas vezes me veria ele nos seus sonhos? Seria amanhã? Depois? Ele iria estar lá naquela hora? Como seria? Porque o meu coração está a bater tão fortemente só de olhá-lo?

- Talvez…
- Como?
- Talvez não te odeie como pensava. Sim… só pode ser isso.

Como foi isto acontecer? O que ele estava a fazer? Se te envolveres comigo irás sofrer. Todos sofrerão e também eu acabarei por sofrer ao ver o sofrimento de todos. Mas, mesmo quando eu achava que tinha de desistir de tentar falar contigo… Foste tu que quiseste falar comigo.

---

E tudo mudou. Tudo mudou de uma lógica para uma incoerência. Os dias chatos tornaram-se divertidos. Takeru passou a cumprimentar-me sempre e eu sorria para aliviar a sua expressão carrancuda. Não sabia que sonhos tinha durante a noite mas se o meu sorriso pudesse fazê-lo esquecer, mesmo que por poucos segundos… então eu ficaria a sorrir para sempre.

Aos poucos começamos a falar regularmente, até mesmo durante os intervalos. Ele passou a acompanhar-me sempre até meio caminho de casa.

- Porquê eu? Não temos nada em comum e tu sabes… eu não viverei durante muito tempo.
- Eu sei… e também não sei… Acho… que apenas não o podia evitar.
- Estás sempre ansioso e nervoso, não é verdade? Andas sempre atormentado e… continuas sem falar com mais ninguém.

Ele parou no caminho e fitou o céu.

- E tu sentas-te todos os dias na sala de aula, parecendo que está tudo bem. Deves andar assustado todos os dias e mesmo assim não o mostras…
- Eu…

Fitei o passeio. Carros passavam na nossa berma.

- Eu fiquei muito feliz quando disseste que não me odiavas. Fiquei tão feliz… que pela primeira vez tive medo. Medo de morrer e não aproveitar estes dias que vieram.

Carinhosamente ele afagou a minha cabeça sem desviar o olhar do céu.

* * *

E de repente a vida ficou cor-de-rosa. Não era o único a sofrer e também já não estava sozinho. O dia-a-dia passou de uma incoerência para uma lógica quotidiana. Todos os dias falávamos e caminhávamos juntos. Partilhávamos meio caminho até casa.

---

Amuando, correndo, sorrindo e chorando. Essas expressões do Koji eram tão lindas! Quem me dera puder ser como ele.

Uma semana passou e ele não veio à escola em nenhum dia. Naquela tarde estava de saída da escola quando o meu telemóvel tocou.

- Estou?
“- Ainda gostas de mim? Takeru… ainda gostas de mim? Eu lamento por esta semana, se te preocupei. Eu…”

Não é uma situação que eu já não tenha vivido. Desejava ser como ele mas tudo o que podia fazer… era apenas aceitar que em breve ele deixaria de existir. E isto é muito difícil para mim.

- Sim.

---

Tenho de estar preparado para o pior. Aliás, eu já estou preparado para o futuro que só é um. Mas o fim parece tão próximo do inicio…

O telemóvel voltou a tocar. Acordei de mais um dos meus sonhos tenebrosos.

- Estou?
“- Takeru, acordei-te? Desculpa… apenas queria ouvir a tua voz.”
- Está tudo bem. Era apenas mais um sonho horrível. Fico feliz por ter acordado.

E… queria ver-te novamente Koji.

“- Eu apenas… eu… não era nada.”
- Posso ir até aí se quiseres.

Preciso esquecer este sonho. Não posso adormecer para não sonhar.

“- Agora? Mas não é tarde? A minha irmã está aqui e…”

Eu sei que me queres ver. Tens algo que me queres dizer, não é verdade? Eu preciso de te ver. Preciso de ouvir a tua voz.

- Então irei buscar-te e virás para minha casa.

* * *

Tinha acabado de chegar do hospital. Já era noite, já era tarde. Precisava de ouvir a voz dele para me consolar. Havia uma hipótese… havia uma esperança de prolongar a minha vida mesmo que fosse por poucos dias, talvez meses. Mas para agarrar este fragmento de esperança teria de arriscar a vida que dura no momento.

Não aguentei e peguei no telemóvel. Procurei o número na lista e liguei.

“- Estou?”

Uma voz meio adormecida atendeu. O meu coração acelerou…

- Takeru, acordei-te? Desculpa…apenas queria ouvir a tua voz.
“- Está tudo bem. Era apenas mais um sonho horrível. Fico feliz por ter acordado.”

Sorri. Se a minha voz consegue calar essas vozes e parar esses sonhos… Então ligarei sempre. Ligarei a todo o momento só para não te deixar dormir.

Quero ver-te Takeru! Quero que fiques comigo. Quero que não me deixes partir. Quero que me venhas buscar. Mas porque é que estas palavras não saíam da minha boca?

- Eu apenas… eu… não era nada.
“- Posso ir até aí se quiseres.”

Virias? Virias mesmo buscar? Impedirias que esta operação esperançosa retirasse os últimos dias da minha vida precocemente?

- Agora? Mas não é tarde? A minha irmã está aqui e…
“- Então irei buscar-te e virás para minha casa.”

Vem… Eu quero… quero contar-te o que me aconteceu esta semana. Quero contar-te acerca da operação. Quero saber a tua opinião e… Na verdade, quero que me digas se morrerei durante ela. Porque se for morrer… eu não quero morrer.

---

Falámos durante horas na sua casa. Contei-lhe tudo. O prognóstico do médico e o tempo que seria adicionado à minha vida se tudo corresse bem. O que não lhe contei foi o meu medo de morrer.

Ele escutou-me sem murmurar nada. Takeru afagou a minha cara gentilmente e continuou a olhar com a sua expressão vazia.

- Queres ficar aqui esta noite?
- Tenho de voltar para casa. Porque se eu ficar aqui mais tempo… posso nunca mais querer voltar.
- Então porque não ficas? Se ficares talvez eu não volte a ter esses terríveis sonhos durante a noite.

Se a minha presença parar esses sonhos, então eu ficarei. Eu faço qualquer coisa por ti, Takeru e… não. Eu não estou a fazer nada que não seja por mim. Sou tão egoísta… Eu quero que sejas todo meu, Takeru. Quero ser o único importante na tua vida, mesmo que saiba que irás sofrer com isso. Como é que me fui tornar assim tão egoísta?

* * *

Ele contou-me tudo. Eu sabia qual o resultado final daquela intervenção cirúrgica mas não lhe disse nada. Sei que ele queria saber mas mesmo assim não disse nada. Mesmo que me perguntes, eu irei mentir. Eu mentirei as vezes que for preciso só para não te ver chorar.
Ele adormeceu na minha cama. O seu rosto resplandecia de paz e tranquilidade. Tinha-se tornado numa pessoa muito egoísta. Telefonar-me a todo o momento a perguntar se gostava dele, interromper-me os sonhos só para ouvir a minha voz e agora espetar-se na minha cama só para me fazer sonhar com ele novamente. Koji sabe que se isto continuar assim eu irei sofrer ainda mais. Ele próprio irá sofrer imenso e mesmo assim não nos poupa aos dois de tal sofrimento.

Fechei os olhos. Fechei os olhos e sonhei. Sonhei com Koji. Sonhei com a morte novamente. Ouvi a voz. Ouvi a sua voz a chamar por mim. Abri os olhos. Ele ainda respirava ao meu lado.

É lindo! É tão lindo enquanto dorme. Se essa tua beleza fosse eterna…

O meu corpo moveu-se sozinho. Colocou-se por cima dele e fitou-o. Beijei-o na face e como resposta as suas mãos envolveram-me as costas.

- Não consegues dormir? Ou sonhaste novamente?

Ele sorriu. Um sorriso egoísta a tentar obter uma só resposta. Ele queria que tivesse sonhado com ele mesmo que isso significasse sonhar com a sua morte.

- Ouvi a tua voz a chamar.

A minha mão moveu-se e agarrou o braço dele. Sentámo-nos frente a frente a olhamos os olhos tristes um do outro.

Eu queria saber porque tenho este poder.

---

“Eu desejava saber porque o Takeru tem aquele poder.”

---

Ambos desejávamos saber… porque o destino nos tinha juntado. E os lábios tocaram-se. Os lábios tocaram-se e já não se conseguiram separar.

---

E o dia chegou. Koji foi internado no dia antes de ser operado. Mesmo naquele momento ele estava a sorrir para mim.

Pensei desistir tantas vezes. Repeti para mim próprio, vezes sem conta, que não havia futuro nesta relação. Não havia futuro em perseguir alguém que já tinha partido. Mas quando dei por mim já não me conseguia parar a mim próprio. Porque é que tinha de acontecer sempre comigo?

- Takeru… eu não deixarei que este seja o último dia em que te vejo.

Sorri-lhe antes de levantar a mão e despedi-me num aceno gracioso.

Eu sei, Koji. Eu sei que este não será o último dia… Mas também sei que já não restarão muitos mais.

Fim

Nas Asas de um Anjo (CAP 03) - A história de um rapaz que deseja o Céu e de um anjo que se envolve numa mentira.
Elegia (CAP 10) - E se antecipássemos a morte das pessoas nos sonhos e nos apaixonássemos por uma delas?
#13
Obrigada por mais um comentário.

Aqui vai mais um capítulo.
Este é um dos capítulos mais bonito da fic para mim. Adorei escrevê-lo.

Nas Asas de um Anjo (CAP 03) - A história de um rapaz que deseja o Céu e de um anjo que se envolve numa mentira.
Elegia (CAP 10) - E se antecipássemos a morte das pessoas nos sonhos e nos apaixonássemos por uma delas?
#14
4º Capítulo – Procurando o fim do arco-íris


Uma fina linha une almas. Ela junta duas pessoas mesmo que estejam separadas pelo tempo e pelo espaço. Mais tarde ou mais cedo a linha encolhe, arrastando consigo esses dois seres que finalmente se encontram. Ela ata-se à volta dos dois corpos e nunca poderá ser cortada.

---

O comboio passa nos carris apressado. Não pára pois esta não é a sua paragem. Outro comboio passa na linha paralela. Esse comboio já pára porque é esta a sua paragem. Muitos mais comboios vão e regressam, sincronizados por 20 minutos de distância.
Estou sentado no banco frente à estação a ver os comboios passarem. Eles deslizam tão ruidosamente sobre o caminho-de-ferro ladrilhado a pedras, enquanto passageiros entram e saiem.

Não quero entrar. Também não quero sair da estação. Consulto o relógio e reparo que já se passou uma hora. Koji está atrasado.

* * *

Paisagens deslizam pelo vidro da carruagem. Há estações em que o comboio pára e outras em que não pára. Eu não me importaria se ele deixasse de parar nas paragens em que devia parar, se isso o fizesse chegar mais rápido à estação em que quero sair. Olho para o relógio e reparo que já estou atrasado uma hora. Estará ainda o Takeru à minha espera?

* * *

Mais um comboio pára. De uma das carruagens sai uma figura conhecida. É aquele que tanto aguardo.

- Takeru!

Koji corre até mim. Chega a ofegar, enquanto se debruça sobre as pernas a desculpar-se.

- Desculpa o atraso.
- Não tem problema.

---

Caminhamos pela estação até chegarmos à saída. Esta é uma bonita manhã que gostaria que congelasse. Mas não congela. Ela não tem esse poder e o tempo continua a contar. Segundos transformam-se em minutos e minutos transformam-se em horas. As horas somam-se e só restam os dias. Os dias correm e vêm os anos. Os anos dividem-se pelo tempo da vida da humanidade e sobra um resultado quase negativo. Afinal o tempo em que estivemos juntos não passou de um número negativo.

- Olha Takeru! Estão a vender gelados!

Ele corre. Corre como uma criança encantada com a magnitude da vida. Pede morango e para mim traz chocolate. Esses são os dois sabores da vida que ele quer misturar. Morango e chocolate misturam-se num novo aroma que enche esta atmosfera fria.

- O tempo ainda está frio para comeres um gelado.

Ele olha para mim a sorrir. Há gelado de morango a pintar o seu nariz enquanto derrete lentamente sobre a sua pele.

- Até qualquer gelado deixa de o ser se eu estiver ao teu lado, Takeru.

Uno as sobrancelhas e sinto a surpresa a espelhar-se-me na face. Ele apenas devolve outro sorriso.

- Novamente com esse ar carrancudo? Anda…

Agarra na minha mão e começa a correr novamente. Eu paro e arrasto-o comigo. Inclino a minha face sobre a sua e recolho com a língua o pedaço de gelado derretido a escorrer pelo nariz. A sua expressão paralisada faz-me sorrir. Morango afinal é bom. Este será o teu sabor.

- Desculpa. Tinhas gelado a escorrer pelo nariz.

* * *

Sinto-me envergonhado mas também me sinto muito feliz. A língua do Takeru sobre a minha face deixou-me corado. Mas… poderias repetir, por favor?

Caminhamos juntos pelo passeio. Logo irá chover. Sei que não podemos demorar muito tempo mas mesmo assim será óptimo se for só um momento.

Takeru está a lamber o gelado. Chocolate… aquela cor escura mas que derrete em provocações e prazeres. Por isso gostas de chocolate? Sentir nas veias o prazer de um sabor deveras viciante. E se eu…

- Takeru, a tua língua é tão macia…

Levantei a mão até à minha face e sorri. Ele surpreendeu-se e assustou-se. O gelado embateu na sua boca e esborrachou-se entre os seus lábios, pintando também o queixo. Coloquei-me em bicos de pés e lambi. Os meus lábios sucumbiram ao desejo e continuaram a subir, perdidos naquela tentação de chocolate e encontraram-se com os dele. Chocolate afinal é irresistível. Este será o teu sabor.

- Desculpa. Tinhas gelado a escorrer pela tua boca.

* * *

Sinto-me tão embaraçado e feliz. Sinto que poderia ficar assim eternamente.
Desviei a face ruborizada e continuámos a caminhar lado a lado. O seu braço roçava no meu e a sua mão tentou encontrar a minha, deslizando e agarrando-a. Era tão quente e suave… Apertei-a entre os meus dedos e continuamos a avançar de mãos dadas.

---

O tempo cedeu e a chuva despontou. Corremos para nos abrigarmos debaixo de um toldo. Estava frio. A nossa respiração marcava a atmosfera com vapor. Os braços de Koji fecharam-se sobre a minha cintura, enquanto ele procurava algum aconchego no calor do meu corpo. Ficámos ali a olhar. Ficámos à espera que a chuva parasse.

A chuva parou e o sol voltou a brilhar. Ou teria sido o sol que viera correr com a chuva? Koji estendeu a mão para fora do abrigo.

- Parece que já não chove, Takeru.

Prosseguimos o nosso caminho de mãos dadas. Lentamente a atmosfera aquecia com aquela radiação solar gentil. Tinha deixado de ouvir. Tinha deixado de ouvir a sua voz desesperada a pedir pelo fim. Tudo o que agora preenchia a minha mente nos sonhos nocturnos era o sorriso de Koji. Ele vinha até mim a sorrir. A sua expressão de felicidade enchia a minha alma tão calorosamente.

Olhei para ele. Procurei aqueles olhos verdes brilhantes e tão cheios de vivacidade. Se pudesse captar um pouco desse brilho…

Mas foi então que o mundo ficou escuro. A mão dele largou a minha e senti o seu corpo a afastar-se. A sua voz ressoou na minha cabeça. Ela gritava desesperada. Queria viver. Queria viver e não queria morrer. Era a primeira vez que ouvia aquele lamento tão desesperado vindo dele a suplicar por mais um dia, por mais outro e por muitos mais dias de vida. O sonho voltou. Lembrei-me daquele pesadelo aterrador. O Koji respirava. O Koji falava. O Koji vivia. E o Koji morria.

- Takeru?

Voltei a mim. Ele estava na minha frente a fitar-me curioso. Agarrava a minha mão junto do seu peito.

- Olha Takeru!

Voltou-se para o céu e apontou.

- Um arco-íris!

Segui a direcção em que apontava e lá estava ele. Um bonito arco-íris com as suas cores brilhantes, completamente definidas, a brilhar sobre nós. Estendia-se a todo o comprimento até onde o olhar se perdia. O espectro de cores contínuo separava elegantemente as cores de que a luz do sol era feita. As cores substituíam-se em intervalos regulares, contrastando umas com as outras – vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta.

- E se o seguíssemos? E se tentássemos descobrir onde o arco-íris acaba?

E seguimos. Percorremos atrás do final daquele arco-íris, em busca do pote dourado. Mas não era o pote dourado que buscávamos. Era apenas mais uma desculpa para ficarmos juntos mais alguns momentos. Koji estava irradiante. Ele não parava de exclamar que aquele arco-íris era o símbolo da nossa união. Aquilo que ele não sabia… era que este seria também o último arco-íris da sua vida.

---

E a linha que unia as duas almas continuou a encolher. A cada momento nós dois estávamos mais próximos um do outro. Em breve já não haveria mais linha para encolher e nos juntar mais do que isto. Estávamos juntos no tempo e no espaço, neste presente. No futuro deixaríamos de estar juntos no espaço.

Mas esta linha tem uma pequena imperfeição. Quanto mais encolhe mais frágil fica. Em breve esta linha inquebrável irá quebrar e quando quebrar… será o dia em que o arco-íris da minha vida desaparecerá.

Fim

Nas Asas de um Anjo (CAP 03) - A história de um rapaz que deseja o Céu e de um anjo que se envolve numa mentira.
Elegia (CAP 10) - E se antecipássemos a morte das pessoas nos sonhos e nos apaixonássemos por uma delas?
#16
Nota-se dona Maylene...quando editares um livro vou critica-lo Elegia 238373 Elegia 895608...e tu sabes porquê!

Vá quero continuar a criticar LOOOL

Está giro e por acaso tens razão ao dizer que foi uma das melhor...e adorei acompanhar a história até ao fim =)
#18
5º Capítulo – A oração que me ensinaste


Pai Nosso, que estais nos Céus,
Santificado seja o Vosso nome.
Venha a nós o Vosso reino,
Seja feita a Vossa vontade
Assim na Terra como no Céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje.
Perdoai-nos as nossas ofensas
Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido
E não nos deixeis cair em tentação
Mas livrai-nos do mal.
Amén.


Amén… A oração termina e os choros voltam a soar. Dentro do caixão, no meio da igreja, repousa um corpo sem alma. O corpo será devolvido à terra. A alma já foi devolvida aos céus. Lamentos e gritos preenchem a igreja, no meio de rezas e orações sem sentido. Tudo não passa de um simples ritual para uma última despedida a uma pessoa que esteve, mas já não voltará, a pisar este mundo.

Ela era uma vizinha que morava numa das muitas casas da rua da frente. A sua voz ecoava na minha mente há já um ano. Os sonhos começaram o mês passado. Ela morreu ontem. A voz calou-se. Felizmente não consigo ouvir as vozes que só pertencem ao outro mundo.

---

Cansei-me dos prantos e dos louvores. Não há nada que traga uma vida de volta após ter partido. Também não sobra nada de bom em recordar essa vida. Isso traz tristezas e ainda mais sofrimento.

Levanto-me de um dos bancos da frente e retiro-me da igreja. Saio pela alta porta trabalhada em carvalho e os meus olhos são encadeados pela luz do sol. Elevo a mão para os proteger e sinto uma tontura. O cheiro da cera derretida e do fumo das linhas queimadas que me anestesiavam são limpos pela aragem fresca que sopra.

Junto à laje da ombreira da porta está o Koji. As suas costas encostam-se à parede enquanto os pés brincam com uma pequena pedra no chão que lhe rouba a atenção. Ele apercebe-se que regressei e volta a devolver-me o seu habitual sorriso.

- Terminaste?
- Sim. Já não tenho mais nada a fazer aqui.

Ele volta a sorrir. A pedra fica esquecida para trás e avança à minha frente com as mãos atrás das costas. Começo a ouvir uma vozinha baixa no meu ouvido e fecho os olhos. Certamente é uma nova voz que vai começar a gritar, mas não começa. A voz começa a cantarolar ao meu lado e noto que é apenas o Koji feliz. Sorrio timidamente. Coloco as mãos nos bolsos das calças e caminho ao seu lado, enquanto nos afastamos dos tijolos sagrados e das pedras tumulares que ficam para trás.

---

Avançamos pela rua deserta. As vizinhanças encontram-se todas a prestar as últimas preces à vida que partiu. Um sol agradável ilumina o nosso caminho. Koji continua a cantarolar ao meu lado. A sua voz está muito agradável e despreocupada hoje.

- Takeru, podias ajudar-me a estudar para o exame de Matemática? Não é das minhas matérias preferidas e há muita coisa que não compreendo.

Estudar para um exame? Perder tempo numa vida curta como a tua? Deves estar louco!

- A minha mãe ficaria feliz se eu levasse uma boa nota como tu.

Há tanta coisa boa para aproveitar e tu apenas queres tirar uma boa nota que depois não te servirá para nada… Mas ele está a sorrir novamente. Na face está espelhada uma esperança de que aceitarei o seu pedido. Percebo… queres apenas deixar boas recordações tuas quando partires e…

- Assim ficaremos juntos mais um pouco.
- Pode ser em minha casa. A minha mãe ficará de banco no hospital esta noite e o meu pai trabalhará até muito tarde.
- Hehehe!

Ele ri alto e dá uma pequena corrida para adquirir uma vantagem sobre o meu passo. Volta-se para mim e começa a caminhar para trás. Os seus olhos fecham e a boca continua a sorrir. Há uma pedra no caminho. Ele não a pode ver. Tropeça nela e cai no chão.

- Cuidado!

Corro até ele para ajudá-lo. Está a fitar um pequeno arranhão que fez na mão, mas quando olha para mim vejo que a sua expressão continua a mesma. Continua a sorrir como estava.

- Eu estou bem, Takeru.

---

A raiz quadrada do número quarenta e três sobre uma fracção de numerador cinco e denominador oito. Fórmulas… equações… problemas e resoluções. Assim passámos aquela tarde agradável em minha casa. Eu sentado na cadeira junto à secretária e Koji deitado na minha cama a tentar resolver os exercícios que o professor tinha passado.

- Agora aplicas esta fórmula aqui e tens a resolução correcta.

Apontei para uma das muitas fórmulas escritas numa folha branca. Koji usou-a e em 2 minutos já tinha o problema certo.

- Obrigado Takeru.

Ele levantou-se da cama e caminhou até à minha estante, onde estavam os livros, os cds e os filmes. Após observá-la durante 2 minutos retirou um filme enquanto dava um pequeno grito de exclamação.

- Tens este filme? Há séculos que estava para vê-lo.

Repartiu o olhar encantado com que olhava a capa do DVD para mim, suplicante. Levantei a mão à cabeça para a coçar.

- Está bem.

---

Liguei o leitor de DVD e a televisão. Sentei-me no sofá ao seu lado. Com uma manta cobrimos as nossas costas enquanto víamos o filme. Teriam passado 15 minutos (ou teriam sido 50 minutos?) quando a cabeça dele pendeu para cima do meu ombro. Os seus olhos fecharam-se e adormeceu ainda a sorrir. Não conseguia ver o seu rosto mas imaginava-o. A sua respiração ritmada acompanhava a minha. Lentamente deixei a minha cabeça descair até tocar na sua. Os seus cabelos eram tão macios e perfumados. Fechei os olhos e o filme deixou de existir.

---

O exame terminou e todos comentavam. O último problema tinha sido complicado resolver mas devia estar certo. Os colegas contavam pelos dedos as alíneas que tinha errado e as que não tinham feito. Apoiei a cabeça sobre o braço direito e fitei a janela. O sol começava aquecer a atmosfera neste começo primaveril.

Um vulto aproximou-se de mim com os cadernos entalados entre os braços e o peito.

- Obrigada Takeru. Acho que a minha nota será mais alta desta vez.

Desperdiçar tempo e desperdiçar vida. Não havia outro significado para o que tínhamos feito durante aquela tarde de estudo. Mas havia algo que não tínhamos desperdiçado e que tinha sido mais um momento juntos. Não quero que o tempo continue a avançar.

- De nada.

Levantei-me e saímos até ao pátio. As folhas começavam a despontar das árvores e já havia uma ou outra flor corajosa que desabrochava nos canteiros. Se eu pudesse iria cobri-te de flores. Usaria camélias que ficariam bem no teu cabelo. Camélias rosas e brancas ficariam bem com o teu sorriso.

De repente parei. Uma voz irrompeu pelos meus ouvidos de forma agressiva. Nunca a tinha ouvido antes. Na nossa frente passou um homem de meia-idade com os cabelos grisalhos e um porte forte e imponente – o director da escola. À sua volta seguiam vários professores que conversavam, provavelmente de trabalho.

A voz continuou a penetrar-me a mente e berrar o mais alto que conseguia. Olhei muito fixamente para o director. Koji também parou ao meu lado e curioso seguiu a direcção do meu olhar. O director da escola… ali estava ele a conversar alegremente enquanto atravessava o pátio e caminhava para o carro. Já não consegui desviar mais a vista dele até que o carro arrancou e desapareceu. E naquela altura soube… soube que o director apareceria nessa noite nos meus sonhos. Ao meu lado, o Koji também deve-se ter apercebido porque o sorriso dele desvaneceu-se e desviou a cabeça para o lado.

* * *

Agitei-me na cama enquanto aquele pesadelo me envolvia. Virei-me para a esquerda, depois virei-me para a direita. Os lençóis prendiam os movimentos do meu corpo mas a cabeça não parava de se mover. Não aguentei o choque do pesadelo e acordei violentamente. Ergui-me na cama a soluçar e a tremer. Pelo meu rosto escorria o suor e o coração parecia querer saltar do peito. Durante momentos tentei acalmar-me mas aquele sonho persistia em não partir. Um acidente… ia ser um acidente muito violento. Dois carros colidiriam mas apenas um cairia da falésia. O director, esmagado por entre os destroços do carro, sentiria muita dor e sofrimento e morreria nas primeiras horas da madrugada. Eu sentira todo o terror do homem espelhado na minha mente como se fosse eu que estivesse no lugar dele.

Olhei para a mesa-de-cabeceira para consultar as horas. O meu olhar fixou-se no telemóvel sobre a mesa. Queria ligar ao Koji. Queria apenas ouvir a sua voz. Ainda a tremer estiquei a mão e peguei no telemóvel. Procurei o número da lista e liguei.

Preciso de ouvir a tua voz Koji.

* * *

Já perdi a conta das voltas que dei na cama. Por mais que tente não consigo adormecer. Uma da manhã, duas da manhã, três da manhã… que horas serão agora?

Sentei-me na cama e o meu olhar abateu-se sobre o telemóvel em cima da mesa-de-cabeceira.

Que sonho está o Takeru a ter? Está a sonhar com a morte do director de certeza. Durante a manhã o olhar se prendera nele de uma forma assustadora. Se eu puder ajudá-lo… se eu puder fazê-lo acordar daquele sonho… Sim. Quero ligar-lhe. Quero acordá-lo. Quero ouvir a tua voz Takeru.
Peguei no telemóvel e procurei o número na lista e liguei.

* * *

O telefonema soou impedido.

* * *

O telefonema soou impedido.

* * *

O Koji está a falar com alguém?

* * *

O Takeru não tem o telemóvel disponível?

* * *

Desliguei e atirei o telemóvel para cima dos lençóis. Atirei com as costas contra a parede, contra a qual bateram com força. Elevei o meu olhar para o tecto e não suportei ver as horas. Seria uma questão de minutos até àquela voz se calar para sempre.

* * *

Desliguei e afundei o telemóvel entre as mãos. Encostei as costas na cabeceira da cama e a minha cabeça pendeu para trás. Olhei para o lado e vi o relógio a marcar as 4:30 da noite. Em breve estaria aí a madrugada.

---

O Takeru chegou atrasado no dia seguinte à escola. Não fazia qualquer diferença porque as aulas estavam suspensas. Ele entrou pelos portões de ferro com um olhar miserável e uma expressão cansada. Caminhou até mim num passo pesaroso e doentio. Dei-lhe a minha mão e ajudei-o a sentar-se no banco mais próximo.

Não havia nada para dizer. Ambos sabíamos o que se estava a passar. Pela expressão do Takeru, teria a morte sido assim tão horrível?

O olhar de Takeru prendeu-se no nada à sua frente. Não fixava nem se apercebia das correrias e tumultos à nossa volta.

Estendi a minha mão até à dele, que repousava sobre o seu colo. Não há nada que possa fazer por ti sem ser isto.

Ele permitiu que os meus dedos se entrelaçassem nos dele e agarrou a minha mão sem qualquer palavra.

Voltei a olhar para ele e tentei sorrir. Não consegui encontrar forças para esboçar o meu sorriso perante o aspecto dele. Segui a direcção do seu olhar até ao vazio e ali ficámos os dois de mãos dadas.

* * *

Pai Nosso, que estais nos Céus,
Santificado seja o Vosso nome.
Venha a nós o Vosso reino,
Seja feita a Vossa vontade
Assim na Terra como no Céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje.
Perdoai-nos as nossas ofensas
Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido
E não nos deixeis cair em tentação
Mas livrai-nos do mal.
Amén.


Mais uma oração que termina e rezas são dedicadas ao cadáver que reside no caixão. Lamentos, condolências, velas e flores. O ambiente é muito pesado. Levanto-me do último banco e saio pela porta. O Koji espera-me no exterior enquanto brinca com a mesma pedra. Ao ver-me chuta a pedra para longe e vem até mim. Olho para ele e tento ver o seu sorriso para me aquecer o coração. Mas esse sorriso não existe hoje. Coloco uma mão no bolso das calças e passo-lhe a outra pelo ombro. Ele envolve o seu braço na minha cintura. Caminhamos. Cruzamos os portões e dobramos a esquina no passeio.

Terminem essas orações de uma vez e deixem a alma partir. O corpo não é mais que matéria enquanto a alma é a própria vida. Após a morte a alma liberta-se no corpo e ascende aos céus para ser livre e poder, um dia, voltar a este mundo. Porém… essa alma fica presa à terra pelas recordações que permanecem. Até que a última recordação desapareça… a alma não alcançará o céu. Quando a alma alcançar o céu, então estará pronta para regressar.

Fim

Nas Asas de um Anjo (CAP 03) - A história de um rapaz que deseja o Céu e de um anjo que se envolve numa mentira.
Elegia (CAP 10) - E se antecipássemos a morte das pessoas nos sonhos e nos apaixonássemos por uma delas?
#19
Obrigada por terem lido e espero que continuem a gostar =)

Nas Asas de um Anjo (CAP 03) - A história de um rapaz que deseja o Céu e de um anjo que se envolve numa mentira.
Elegia (CAP 10) - E se antecipássemos a morte das pessoas nos sonhos e nos apaixonássemos por uma delas?
#20
6º Capítulo – O filme da nossa vida


“Se tu morreres… se morreres, eu deixarei de viver.”

Imagens passam no grande ecrã como se fossem fotografias da nossa vida. O filme decorre num cenário de sonhos e impossibilidades. Os actores tentam ganhar tempo num amor destinado a fracassar.

Fecho os olhos e suspiro. Se o Koji morrer, se ele morrer… eu deixarei de ter vontade de viver. É a isto que chamam de amor?

- Takeru? Takeru?

A consciência do espaço regressa quando sinto a mão dele sobre o meu braço e a sacudi-lo. Com a outra mão segura o copo da bebida que chupava ruidosamente. Fito-o.

- Estás aborrecido?

A sua voz soa calma e confortável.

- Um pouco.

Ele desvia o olhar para o grande ecrã e devolve-o logo de seguida para mim.

- Se calhar devíamos ter ido ver outro filme.
- Deixa estar.

Olho-o durante segundos e volto a afundar-me na cadeira para continuar a ver aquele filme dramático.

“Se tu morreres… se morreres, eu deixarei de viver.”

É… eu acho que também me sentirei assim muito em breve.

* * *

“AHHHHH!!!!”

O actor usa todas as suas forças para fugir do demónio que o persegue. Tudo o que deseja é devorar a sua alma e afundá-la no inferno. Não resta outra esperança do que gritar e correr, numa tentativa vã de salvar a sua vida.

Seria óptimo se pudéssemos correr assim e fugir de tudo na nossa vida. Infelizmente, por mais que tentemos fugir, há coisas que não podemos evitar.

Toda a sala está em silêncio, com excepção dos ruídos das pessoas a encolherem-se com medo. Abro a boca e bocejo.

Koji está agarrado ao meu braço a tremer. A sua face está afundada no meu blusão e só espreita de vez em quando para o filme. Não sabia que terror o assustava tanto.

Puxo o meu braço para que o largue. Quase que obrigado, ele recua mas mostra o seu rosto indignado sobre aquela luz ténue que é reflectia do ecrã escuro sobre nós. Que expressão tão engraçada que ele faz mesmo que continue arrepiado e a estremecer.

Estico o meu braço e agarro-o no ombro. Arrasto-o para junto de mim. Ele esconde a sua face no meu peito e deixa de tremer.

“AHHHHH!!!!”
“Tu vais comigo para o inferno!”

Isto mais parece um filme de comédia do que de terror.

* * *

“Sabiam que um elefante sai da água molhado?”

Gargalhadas enchem o cinema. O Koji, ao meu lado, não consegue parar de rir. Com as suas mãos agarra na barriga enquanto se debruça sobre ela, quase aflito sem conseguir respirar. Os seus olhos choram desesperadamente, numa tentativa de parar o riso. Mas não consegue. Ele não consegue deixar de rir.

Encontro-me a olhar para o ecrã e sinto os meus olhos quase a fecharem-se. Adormeceria se a sala não estivesse tão barulhenta com tantos risos.

Olho para ele de esguelha. A sua boca contorce-se de forma tão definida e agradável. Se a vida fosse assim tão feliz, eu adorava também me puder rir com essa mesma expressão que tens agora.

Entrego a minha atenção novamente ao ecrã, tentando procurar uma piada que me faça rir. Porém, ao ouvir o teu sorriso, tudo o que encontro é uma enorme vontade de chorar. Chorar porque em breve irei perdê-lo.

“Sabiam que um elefante sai da água molhado?”

E vocês sabiam que todos aqueles que entram nos meus sonhos estão destinados a morrer brevemente?

* * *

“Rute, agarra a corda e pula da falésia!”

O actor principal atira uma corda à actriz principal e pede para ela saltar. No fundo da falésia esconde-se uma arca cheia de ouro.

Não desgosto de filmes de aventuras. Eles até são agradáveis de se ver. Acabam sempre bem e dão para passar o tempo. Quem me dera que o Koji sentisse o mesmo…

Ao meu lado a cabeça dele pende no assento. Adormeceu e deixou as pipocas a meio.

Estico o meu braço e agarro na bebida que ele comprou para si. Bebo pela palhinha dele e devolvo o copo quase vazio.

“Eu vou saltar!”

Se fosse com o Koji eu saltaria de qualquer lugar para encontrar com ele uma arca talhada a ouro. Dentro dessa arca deveria estar o segredo da vida e o fim destes sonhos.

É… eu realmente gosto destes filmes.

* * *

“Se tu morreres… se morreres, eu deixarei de viver.”

E lá voltamos novamente a mais um drama. Sinceramente, este é o filme que combina mais com a história da nossa vida.

Koji chupa ruidosamente pela palhinha enquanto espalha uma boa quantidade de pipocas pelo chão.

Afundo-me na cadeira e fecho os olhos.

- Não gostas de dramas Takeru?
- Não.
- Desculpa por te obrigar a vires ver o filme comigo, novamente.
- Não tem problema.

Acomodo-me melhor na cadeira e contínuo com os olhos fechados. Para assistir a um drama já chega a minha vida. Tudo sempre foi um drama desde o dia em nasci.
Conhecer-te tornou tudo ainda mais dramático. Se pelo menos pudessem existir sempre finais felizes…

O filme atinge o momento do clímax final. O tempo está a acabar. Tem de haver uma cura para a heroína salvar o seu amado. Mas não existe. Passaram o filme todo a procurar por ela e agora só faltam 15 minutos para tudo terminar.

Correr contra o tempo… aproveitar ao máximo a vida que nos é dada… Mas quanto mais a aproveitamos… descobrimos que há ainda mais coisas que queremos fazer. Todo o tempo é pouco. Uma só vida não é suficiente.

Sinto pipocas a caírem sobre as minhas calças e a rebolarem para o chão. Será que o Koji não sabe que deveria encher menos a boca?

- Takeru, estive a pensar e acho que nesta vida há cura para tudo.
- Andas a ver filmes a mais…

Resmungo qualquer coisa entre os dentes e acomodo-me ainda mais na cadeira.

- Não. Eu estou a falar a sério. Queres que te prove?
- Pode ser.

Sinto um corpo a debruçar-se sobre mim e a respiração dele atinge a minha face. Os seus lábios tocam nos meus e abro os olhos surpreendido. Com as minhas mãos tento separar a sua boca da minha mas não consigo. Koji domina este momento. Se um beijo pudesse ser a tua cura, então te daria todos os que fossem necessários.

Apesar deste filme ter um final feliz, o filme da nossa vida não o terá. Só me resta esperar. Esperar pelo dia em que desejarei morrer.

Fim

Nas Asas de um Anjo (CAP 03) - A história de um rapaz que deseja o Céu e de um anjo que se envolve numa mentira.
Elegia (CAP 10) - E se antecipássemos a morte das pessoas nos sonhos e nos apaixonássemos por uma delas?
#21
7º Capítulo – Existimos…


Este mundo brilha mais a cada dia que passa. Brilha tão intensamente que num certo momento, de repente, o brilho cessará. Caminho, coberto de luz, mas esse caminho leva-me até à escuridão. É por isso que quero que a tua luz nunca desapareça. O teu sorriso aclara todo o negrume que me cobre.

- O Koji anda muito feliz ultimamente. Mesmo assim é estranho. Ele sempre foi um rapaz muito fechado e tímido. Mas estou feliz por vocês serem amigos.

A senhora Maeda é uma mãe muito carinhosa e também uma óptima cozinheira. Quem me dera que os meus pais tivessem para mim metade do tempo que esta mulher dedica a ambos os filhos. Fui convidado para lanchar mas cheguei um pouco antes da hora. Koji está a tomar banho.

- Takeru!!!

Ele aparece na porta da sala completamente despenteado.

- Que figuras são essas Koji? Vai já vestir-te em condições e pentear esse cabelo todo molhado. Não te deves apresentar assim diante de convidados.
- Não faz mal mãe. O Takeru não se importa.

Sorrio ligeiramente. De facto não me incomoda nada.

- Devias era cortar esse cabelo. Já viste o tamanho dele?
- Mas o Takeru gosta dele assim, não é verdade?
Aceno com a cabeça e o sorriso dele ainda se abre mais.
- Vês mãe? Não o cortarei. Anda Takeru… vamos para o meu quarto.

---

A família Maeda é muito simpática e calorosa. O pai de Koji abandonou a sua primeira esposa para se casar com outra mulher. O seu nome nem sequer é pronunciado naquela casa. No entanto isto parece não afectar nenhum deles. A irmã mais nova ainda é pequena mas comporta-se já como uma pessoa crescida. Ela é muito preocupada com o seu irmão e ajuda a mãe sempre que pode. Chamaria a isto de família perfeita…

Porém, esta família não é perfeita. Existe uma pequena lasca que se enterrava cada vez mais fundo no ambiente desta casa e que em breve tudo destruirá. O filho mais velho vai morrer. Vai morrer com a sua doença.

* * *

A minha vida está a acabar. Tenho a completa consciência disso. Só existe um lugar para mim, ao qual vou chegar brevemente.

Eu… tenho a sensação que algo está a segurar-me aqui. Aquela pessoa prende-me neste lugar.

Este mundo está cheio de coisas inúteis. Nada do que ele possa oferecer pode salvar a minha vida. Mas... quando a hora chegar… eu não vou querer partir. Não sei como tudo acabou assim. É algo que não posso explicar. Se tiver que partir, vou querer levá-lo comigo.

Este mundo de inutilidades deu-me uma coisa maravilhosa. O que foi uma vez vazio está a preencher-se aos poucos, tão depressa… que temo que também irá terminar antes do tempo.

* * *

O mundo está inundado de coisas inúteis. Tudo o que é negro cobre-nos mais do que devia e pouco espaço sobra para o branco. Mas essas coisas supérfluas… vou guardá-las todas para partilhar contigo. O vazio que abriguei no meu peito está a ser preenchido. Está a ser preenchido por ti, Koji.

Os sonhos não cessam. Eles são a prova de que eu existo. É uma dor enorme que sinto todos os dias após acordar e que me mostra o quanto estou vivo. Este mundo está cheio de coisas que eu não queria ver. Sempre tentei ficar longe delas e não me envolver excessivamente. Mas até mesmo a protecção que tinha lançado sobre mim está a desaparecer. É impossível separar-me de ti agora!

* * *

“- Encontramo-nos às 3 horas frente à fachada amarela da gelataria, ao pé do jardim.”

Sempre pensei que viveria a minha vida sozinho. Não havia a mínima hipótese de alguém notar a minha existência. Viveria e morreria assim. Era o melhor! Não viver verdadeiramente e não causar sofrimento desnecessário.

Naquele dia, na escola, Takeru olhou para mim. A partir daí soube que ele me odiava, e para odiar tivera de me notar. Agora não consigo deixar de segui-lo.

- Raios… onde ficava mesmo a gelataria?

Uma voz soou atrás de mim e uma mão agarrou no meu cabelo, assustando-me.

- Idiota! Disse-te que era ao pé do jardim. Porque raio vieste ter à gelataria perto da escola?
- Desculpa Takeru.

Levei as mãos ao rosto e as lágrimas saíram-me tão naturalmente. Eu estava sempre tão perdido, sem nada que me prendesse à vida… E tu chegaste e encontraste-me!

- Estava a brincar Koji! Estava só a brincar.

Ele estava aflito. Pensava que chorava pelo que me tinha dito. Como podia chorar por isso? Estou realmente feliz! Tão feliz que sinto que quando morrer terá de ser nos teus braços.

---

Começava a escurecer quando dissemos o adeus na entrada da minha casa. A minha mãe acabara de o convidar para jantar connosco mas ele recusara, dizendo que a mãe dele aguardava em casa.

O seu telemóvel tocou e atendeu. Acenou-me um adeus rápido e caminhou. Fiquei a vê-lo enquanto se afastava de mim e novamente as lágrimas voltaram. Não vás! Por favor, volta. Volta. Volta. Por favor, olha para mim. E ele parou. Guardou o telemóvel no bolso e voltou-se.

- Ah… eu…

Ficou estático a olhar para mim. Viu que tinha o meu rosto todo coberto por lágrimas. Aproximou-se.

- A minha mãe teve uma emergência no hospital e virá mais tarde. Se não for inconveniente gostaria de ficar para jantar.

Limpei a cara com a manga do casaco e sorri.

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- Podes ficar na cama. Sempre desejei dormir num futon!
- Que disparate é esse? A cama é tua e não minha.

Estávamos a discutir. Era a nossa primeira discussão.

Após o jantar a minha mãe insistira para que ele ficasse lá em casa. Sei que ela fez isso por mim. Como mãe, tudo o que ela quer é a minha felicidade. E eu estava feliz.

Tínhamos feito uma cama no chão ao lado da minha. E agora discutíamos quem dormia onde.

Ao final de apresentar o meu 30º argumento, Takeru lá aceitou a minha escolha. Queria experimentar uma caminha daquelas pelo menos uma vez na vida.

- Tens mesmo a certeza?
- Sim.

Fez-me sinal para me aproximar dele.

- Queres um beijo de boa noite Takeru?

Assim que me aproximei, ele agarrou fortemente o pulso e atirou-me para cima da cama. Deitou-se em cima de mim e vi o seu rosto a aproximar-se do meu. Fiquei tão embaraçado que reagi por impulso. A minha mão cobriu imediatamente a boca dele, parando o beijo que me ia dar. Ele parou e fitou-me. Quando me apercebi do que tinha feito fiquei tremendamente arrependido.

- Pára com isso!

Afastou a minha mão da cara dele e apertou-a entre os seus próprios dedos. Fitei-o embaraçado.

- Pára de fingir! Eu sei que choras porque o nosso tempo juntos está a acabar. Ainda te vejo nos meus sonhos e isso não vai mudar. Tu sabes que sim, que a tua vida está a chegar ao final. E tudo o que nós temos feito este tempo todo foi… dependermos ainda mais um do outro. Aprofundámos a nossa relação a um ponto que brevemente deixará de haver volta a dar e ambos sofreremos com isso. Eu posso ouvir a tua voz, tu sabes.

- Eu sei mas… como disseste, já não há volta a dar. Amo-te!

O seu rosto caiu sobre o meu. Os lábios uniram e as bocas exploraram-se.

Eu não estou a fingir. Apenas… todos os meus problemas deixaram de existir quando descobri que te amava.

Fim

Nas Asas de um Anjo (CAP 03) - A história de um rapaz que deseja o Céu e de um anjo que se envolve numa mentira.
Elegia (CAP 10) - E se antecipássemos a morte das pessoas nos sonhos e nos apaixonássemos por uma delas?

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