Maior de 16 anos -Ironias do Amor
CAPÍTULO VIII
Makoto foi para casa. Mamoru lhe dera a tarde de folga, um rasgo de compaixão em meio à actual má vontade dele. A coitada tinha sofrido com o mau humor do chefe nos últimos 15 dias, tomando todos os cuidados para não aborrece-lo.
Mamoru gostava da sua secretária. No entanto, não conseguia se controlar. Não conseguia tirar Usagi da cabeça, o modo como ela terminara o relacionamento dos dois. De um só golpe, Usagi o havia transformado em uma espécie de monstro oportunista e interesseiro, que usou de todas as armas ao seu dispor para levá-la para cama.
Mamoru reproduzira a última conversa deles tantas vezes na sua cabeça que já estava a ponto de enlouquecer.
Não tantas vezes, porém, quanto o número de ocasiões em que se debruçara pensativo na janela do seu escritório, ignorando as chama¬das telefónicas e os e-mails no computador e avaliando se valia a pena procurá-la.
Ali estava Mamoru de novo. Na janela, às 18h30, quando deveria aproveitar o período de relativa calma para checar a pilha de correspon¬dências à sua espera. Escorado na janela, franzia a testa e se amaldiçoa¬va por ter se deixado envolver daquela maneira, por ter permitido que ela se apossasse do seu coração. O coração que Mamoru considerava anestesiado após as supostamente assimiladas lições do passado.
Praguejando para si mesmo, Mamoru passou a andar de lá para cá em seu escritório, como um tigre preso na jaula.
E se ele for vê-la? Qual o problema? Uma nova discussão, com os mesmos resultados, mas desta vez diante de uma plateia de colegas de trabalho dela. Mamoru não poderia encurralá-la no apartamento, pois Usagi se mudara. Para onde, ele não tinha idéia. Provavelmente voltou para o ex. Tal hipótese o levava a insultar o destino.
O seu grande erro foi telefonar para Haruka Tenioh, a chefe dela, e casualmente puxar assunto sobre o desempenho de Usagi. Aí Mamoru descobriu que ela havia se mudado de lá.
O telefonema ocorrera cinco dias antes. Cinco dias péssimos, tem¬po mais do que necessário para Mamoru perceber que, se não vê-la equivalia a uma morte lenta e dolorosa, imaginá-la nos braços de Motoki era ainda pior. Cinco pesadelos de noites nas quais fora for¬çado a reconhecer que o que havia se iniciado como um caso casual terminara como uma relação muito mais do que séria, que ele, idiota, jogara no lixo.
Mamoru vestia o casaco que retirara da cadeira, quando o telefone tocou.
Ele deixou o aparelho soar, ponderando se ainda lhe restava hu¬mor para mais uma conversa supérflua com algum cliente. Decidiu que não podia prejudicar o trabalho por causa dos problemas na sua vida pessoal.
Do outro lado da linha, tensa a esperar, Usagi não tinha a menor noção do drama que Mamoru atravessava. A única coisa da qual ela tinha noção neste momento era o ritmo acelerado do seu próprio coração, o nervosismo que a fazia transpirar pela expectativa de ouvir a voz dele.
O telefone tocou várias vezes, e ela quase deixou o celular cair ao escutar finalmente o olá seco e apressado dele. Deduziu que possivel¬mente Mamoru estava para ir embora e ficou cismada. Para onde ele iria?
— Olá, Mamoru. Sou eu, Usagi. — Sentimentos agitados, voz supercontrolada.
Diante da frieza da voz dela, todas as lamentações de Mamoru pelo papel que ele teve para o fim da relação desapareceram como fuma¬ça. Voltava a raiva irracional de ter sido dispensado, dispensado, por alguém que dele recebeu o maior dos favores: uma carreira profissional.
Ele deveria informá-la com poucas frases curtas que não tinha mais nada a tratar com ela. O orgulho de Mamoru assim exigia.
— Pois não? — Sua voz saiu igualmente fria.
— Você estava de saída? — indagou Usagi. Aquilo não iria aca¬bar bem. Ela não chegaria a lugar nenhum, se não colocasse a cabeça no lugar.
— Sim. O que você quer?
— A gente precisa conversar.
— É mesmo? — Ele tinha o olhar perdido no horizonte do lado de fora da janela. Sentiu um impulso de excitação ao ouvir a proposta dela. A emoção com a perspectiva de encontrá-la ainda era maior pelo fato de ter partido dela o convite. — Sobre o quê? Mais do que mesmo? Ou você caiu em si e notou, enfim, que não cometi nenhum crime?
— Aonde você vai esta noite? Alguma coisa que você possa can¬celar? Eu preferiria ver você o quanto antes. — Usagi largou as palavras de uma vez só e manteve a respiração presa ao esperar a resposta dele.
— Eu acho que posso cancelar o meu... compromisso. — Que compromisso? O único compromisso que tinha era um encontro com a garrafa de uísque e com a televisão. — Eu posso ir ao seu aparta¬mento...
— Eu mudei – me.
Mamoru simulou surpresa. Usagi teria um dia inteiro de festa se soubesse que ele se dera ao trabalho de ligar para Haruka para saber a respeito dela.
— Mudas-te-te? Para onde? Não, me deixa adivinhar, para o fracas¬sado daquele seu namorado. De volta ao já conhecido, mesmo que isso seja ruim para a sua saúde.
Usagi não se conteve.
— E você acha que você é bom para a minha saúde, Mamoru? Abrindo caminho com mentiras e trapaças para... a minha cama. — Para o meu coração, quase lhe escapou.
— É sobre isso que precisamos conversar, Usagi? Para você me atirar mais acusações? — E se fosse sobre isso? Bem, ele ainda assim quereria vê-la, Mamoru reconhecera, contrariado.
— Não — respondeu Usagi, arrependida por ter se impacientado. Não era ocasião para aquilo, ela não deixaria que ele a desviasse do destino traçado.
Usagi tivera tempo para reavaliar o que Mamoru fizera e, mesmo assim, continuava furiosa com ele. No entanto, havia também um reconhecimento incómodo de que Mamoru a ajudara. Uma ajuda que ela recusaria sem pestanejar se ele a oferecesse abertamente.
O emprego era perfeito. Usagi nunca encontraria um lugar ideal como aquele sem o auxílio dele. E, goste ela disso ou não, fazia sentido o argumento de Mamoru de que, se quisesse realmente manipu¬lá-la, ele teria balançado a cenoura no ar, à mostra, para o coelho saltar e pegar.
— E então... Você ainda não disse. — Aborrecia-o bater nesta mesma tecla, mas, droga, ele precisava saber.
— Ainda não disse o quê?
— Onde você está morando agora, já que você saiu do aparta¬mento?
— Eu não voltei para a casa de Motoki — disse Usagi, relutante¬mente. — Eu achei um lugar perto de Wimbledon. É pequeno e não é na melhor área do bairro, mas dá para viver. O arrendamento é muito mais barato do que nos bairros centrais.
Os ombros de Mamoru relaxaram de alívio.
— Onde você está? — perguntou ele, disposto a se mostrar gene¬roso, agora que o pior cenário imaginado acabara de ser descartado.
— Naquele prédio a dois quarteirões do seu escritório.
— Você quer dizer que foi para esse prédio na expectativa que eu pudesse encontrá-la já? — perguntou Mamoru, surpreso.
— Parece-me um lugar como outro qualquer. — Usagi olhou em volta. Havia uma quantidade razoável de pessoas no prédio, todas elegantes em suas roupas de trabalho. Não era o tipo de lugar para o qual se saía do escritório para se embebedar. — Eu peguei uma mesa nos fundos. Você pode vir?
— Eu estarei aí em dez minutos.
E o mundo repentinamente parecia um lugar maravilhoso para se viver, cheio de luzes, cores e... possibilidades. Mamoru vestiu o casaco e chegou quase a assobiar no elevador até o estacionamento. O carro dele estava lá, mas não havia necessidade conduzir para um restaurante a poucos minutos de distância.
Usagi estava lá. Esperando por ele! É verdade que ela foi um pouco fria ao telefone, mas poderia ter sido algum problema na linha. O fato agora era que Usagi telefonou para ele e queria vê-lo. E ele se empenharia ao máximo para resolver cada mal-entendido entre os dois, porque não podia mais imaginar a sua vida sem ela.
Mamoru fez o percurso do trabalho ao restaurante em tempo recorde.
Lá estava ela, como prometera, sentada a uma mesa dos fundos, formal, em um vestido cinza-escuro e um casaco preta. Durante alguns segundos, Mamoru aproveitou para observá-la. Pensativa, ela tinha os olhos voltados para a taça de vinho à sua frente. Contornava a borda da taça com um dos dedos.
Neste exato momento, Usagi olhou para a frente, e os olhos de ambos se encontraram. Mamoru caminhou na direção dela muito mais cauteloso do que mandava o seu coração.
— Você foi rápido. — Usagi sorriu, tensa e misteriosa.
— Eu disse dez minutos.
— Eu pensei que você gastaria algum tempo entrando em contato com quem esperava, cancelando o seu compromisso.
A moderação e a formalidade que ele não queria ver nela. Ainda de pé, Mamoru olhou para o balcão onde eram servidas bebidas e para Usagi de novo.
— Vou pegar alguma coisa para beber. O que você quer? O que você está bebendo?
— Só uma água mineral, por favor.
— Comida? Vou pedir o menu! — Conversavam como estra¬nhos. Não era o que ele desejava, mas Mamoru a deixaria sem pressa chegar até onde ela queria. A intenção dela só poderia ser um reata¬mento. O que mais a levaria a procurá-lo?
— Pode pedir para mim o peixe que estiver no menu.
Mamoru assim o fez e voltou à mesa com a sua bebida, a água dela e confuso demais para processar os próprios pensamentos.
— Então, como vai você? — perguntou ele, com extrema edu¬cação.
— No trabalho, tudo óptimo. — Usagi esforçava-se para manter o controle sobre a situação. Vê-lo era muito pior do que ouvi-lo, o que já tinha sido péssimo.
— Por que você saiu do apartamento?
— Você sabe por quê.
— Surpreende-me, neste caso, que você não tenha aberto mão do emprego para longe também.
— Olha, vamos deixar uma coisa clara. Seja lá o que tenha moti¬vado a fazer isso, eu amo o que estou fazendo.
— Então, no fim das contas, não sou tão monstruoso assim?
— Eu não quero falar sobre isso.
— Então sobre o que você quer falar? — Mamoru começava a per¬der a paciência em meio a tantas formalidades.
— O que você tem feito nessas últimas semanas? — Usagi mudou de assunto de um modo um pouco brusco. Sentia-se ferida e em pâni¬co. Com receio do que Mamoru vá pensar daqui a uma hora, quando ela já tiver dito a ele o que tinha para falar.
— Trabalhando muito. — Mamoru terminara a sua bebida e, no momento que a comida estava sendo servida, pediu mais uma.
— E jogando muito também?
— Você pode definir o que você quer dizer com jogando muito?
— Nada. Esqueça.
— Não, não estou saindo com uma mulher por noite, se é isso que você está insinuando. Você acha que sou uma espécie de mulherengo impiedoso, que tão logo uma mulher vá embora, já estou ligando para outra? — A conversa não estava indo pelo caminho que o antes opti¬mista Mamoru imaginara.
— Eu não quero discutir com você. — Usagi baixou os olhos e perguntou a si mesma por que estava ali. Não, ela sabia por que o havia procurado. Brincava com a comida no prato e, quando final¬mente levou uma garfada à boca, sentiu gosto a papelão.
— E o que exatamente você quer? Vamos direto ao assunto.
— Você teria me ligado se eu não tivesse entrado em contato com você? — Usagi tinha que perguntar. Uma outra pergunta que evita¬va, mas algo a induzia a esclarecer.
— Você expressou claramente a sua vontade na última vez em que nos encontramos. — Mamoru cruzou o garfo e a faca. O que ele neces¬sitava mesmo era de uma outro copo de uisquie. — Eu era o Lobo Mal que consegui cercar a Chapeuzinho Vermelho. Mesmo tendo assegu¬rado que ela atravessasse sem problemas a floresta e tendo abrigado da chuva num chalezinho de primeira classe, eu era o lobo mau e grande porque deveria ter contado para ela o que estava fazendo. Deveria ter dado a ela a oportunidade de jogar a oferta de volta na minha cara.Se você acha que eu vou te dar satisfações sobre o que eu faria se você não tivesse ligado, sente-se, porque você vai esperar para sempre. — Orgulho. Orgulho teimoso de volta ao seu lugar devido. A verdade cruel é que, sim, ele telefonaria para ela. Inventaria uma desculpa esfarrapada, mas entraria em contato com Usagi, simplesmente porque ele necessitaria falar com ela.
— Tudo bem.
A aceitação curta e grossa de todo aquele discurso apenas alimen¬tou a raiva de Mamoru.
— O que você esperava que eu dissesse? — pressionou Mamoru, irritado com a passividade dela e com o fato de ter esquecido em algum lugar o seu autocontrole.
— Nada. A verdade. Que foi exatamente o que você acabou de me dizer. — Usagi pegou o seu copo de água, notou que a sua mão tremia e imediatamente recolocou-o na mesa.
— Fico contente que a gente esteja se entendendo — disse ele. — Assim, nós podemos discutir o que eu tenho para dizer como adultos.
— Discutir... o quê?
— Eu estou grávida.
O silêncio foi ensurdecedor. Pareceu durar, durar, durar por horas. Se o assunto não fosse tão sério, Usagii quem sabe riria ao ver aquele homem perigosamente bonito, para quem as palavras nunca falta¬vam, totalmente mudo.
E para ser sincera, ela imaginava que ele viesse a ter exatamente essa reação, desde que ela própria recebera a notícia, horas antes.
— Como é que é? — As quatro palavras caíram como pedras em água parada.
Usagi empenhou-se em olha-lo calmamente nos olhos. A calma possível naquelas circunstâncias.
— Você me ouviu. Eu estou grávida.
— Você me chamou aqui para contar isso? — Mamoru empurrou o prato para o lado a fim de se apoiar na mesa e aproximar-se dela,
— Você preferiria que eu nem o procurasse? — devolveu Usagi. — Acredite, essa possibilidade passou pela minha cabeça, mas como tenho alguma moral...
— Poupa-me de sermões, Usagi...
— Eu estou contando isso porque acho que você tem o direito de saber que você gerou uma criança. Eu peço as mais sinceras descul¬pas se você preferia não saber de nada!
— O que quero dizer é por que você me trouxe aqui para me dar esta notícia? Para este lugar? Como vamos discutir um assunto como este aqui, cercado de pessoas e barulho? — Mamoru olhou em volta, irrequieto.
— Eu pensei que a gente teria uma conversa rápida...
— Uma conversa rápida!
— E depois, já com tempo para assimilar tudo isso, você poderia me encontrar para a gente discutir as coisas... com mais detalhes. Eu não sei se é isso que você quer... — Os olhos dela se esquivaram dos dele.
— O que você acha que eu quero?
— Olha, Mamoru, eu sei que é um pouco chocante...
— Um pouco chocante. E você uma vez me chamou de mestre do eufemismo!
— Foi um choque para mim também.
Em meio à agitação, a afirmação de Usagi fizera Mamoru parar e pensar um pouco. É claro que fora um choque também para ela. Usagi apenas iniciava sua trajetória profissional. A notícia da gravidez devia ter caído como uma bomba na vida dela.
Os poderes de recuperação de Usagi, entretanto, não perdiam para ninguém, Mamoru pensou, um pouco ácido. Certamente ela não se assemelhava a uma mulher em estado de choque. Estava calma, fria, comedida. As marcas registradas de uma mulher que quer deixar cla¬ro que não sente um pingo de emoção pelo que está contando.
— Olha, vou pegar uma outra bebida. Você quer alguma coisa? — ofereceu Mamoru. Ele buscava se acalmar um pouco, ditar um mínimo de ordem as suas idéias e sentimentos.
Usagi acenou não com a cabeça e o viu caminhar até o balcão e lá esperar, inquieto, dando pancadinhas na bancada.
Ela tomara a medida certa ao propor o encontro num lugar públi¬co. Uma decisão um pouco covarde, mas sábia, porque pelo menos Mamoru não poderia ceder à óbvia tentação de esbravejar e insultá-la. Não faria um escândalo com tantas pessoas em volta dele. Seria for¬çado a discutir o assunto como um adulto, e ela precisava que ele assim procedesse. Se Mamoru lhe dirigisse uma só palavra enviesada, ela não agüentaria o choque. Por baixo dos gestos e do rosto calmo, as emoções dela estavam a ponto de explodir.
Mamoru poderia até mesmo acusá-la de engravidar de forma propo¬sitada para arrancar algum tipo de compromisso dele. E a palavra compromisso era um palavrão para ele.
— Tudo aconteceu na nossa primeira vez, a única em que a gente não se protegeu. Nós estávamos tão excitados que não colocamos o preservativo. — Usagi deu prosseguimento ao tema no instante em que Mamoru se sentava de volta à mesa. Ela mantinha-se formal, como se estivesse discutindo um negócio.
— Eu sei.
— E eu não estava acostumada com preservativo. Até então, só tinha relações sexuais com Motoki. Eu sempre tomei pílula. Resolvi parar há uns seis meses, já que eu e Motoki... nos últimos tempos... Bem, resolvi parar, dar um tempo para o meu corpo...
— Entendo.
— Olha, lamento muito tudo isso. — Usagi teve um súbito mal-estar, como se o que vivenciava ali não fosse real. — Eu sei que você está pensando que isso vai virar a sua vida de cabeça para baixo, mas não vai.
— E como você sabe isso?
Você não está nem aí, não é mesmo?, ela queria gritar.
— Nada vai mudar entre a gente. Eu só acho que é correto que você saiba, mas é uma formalidade...
— Uma formalidade! — Mamoru socou a mesa.
— Shhhh!
— Não me mande ficar quieto, Usagi! Você escolheu este lugar ridículo para me contar uma coisa dessas, agora aguente se por acaso eu não ficar cochichando em segredinho!
— Gritos não vão nos levar a lugar nenhum.
— E o que você propõe que a gente faça? Que lugar é este que você tem em mente?
— Talvez a gente não devesse mesmo ter se encontrado aqui — sussurrou Usagi, mordendo os lábios. Várias pessoas olharam para eles quando Mamoru esmurrou a mesa, e ela podia notar as orelhas antenadas diante da possibilidade de um escândalo.
— Você escolhe o lugar!
— Você pode baixar o tom de voz?
— Eu grito tão alto quanto eu quiser! — De propósito, Mamoru aumentou ainda mais o volume e foi premiado com o silêncio súbito das mesas em volta. Como ousava ela pensar que poderia carregar o bebé dele na barriga e reduzir o seu papel de pai a uma mera formali¬dade?
Usagi estava pálida e tensa, e Mamoru, num impulso, levantou-se, ajudou Usagi a se pôr de pé e a abraçou até que ela aparentasse uma pequena melhora.
— Vamos sair daqui — disse ele, decidido. — Isto não é lugar para discutir um assunto como este, e você sabe disso. Vamos para o meu apartamento. Está a dez minutos daqui, e lá teremos alguma privacidade.
— De jeito nenhum! — A idéia de estar a sós com ele naquele apartamento, o lugar onde eles tiveram tantos bons momentos juntos, onde o amor dela se enraizou e cresceu sem que ela nem se desse conta, a colocou em pânico. — Já que é assim, podemos ir para o... meu apartamento, mas não há nada que possamos conversar lá que nós não possamos falar aqui.
— Óptimo.
Ela não descreveria assim o tempo em que os dois passaram em silêncio total no banco de trás de um táxi a caminho de Wimblendon. Horrível era mais de acordo. E se sentia encurralada, miserável e na expectativa do impossível quando nem sozinha com Mamoru estava, imagine que experiência teria só com ele na diminuta sala do seu apartamento?
Os minutos mais pareceram décadas até o táxi estacionar em fren¬te à desgastada casa vitoriana convertida em apartamentos.
— Você mora aqui? — indagou Darius de forma quase cruel. — Você saiu daquele apartamento para morar aqui?
— É barato, é o que posso pagar. — respondeu Usagi sem demo¬ra, abrindo a porta da frente.
— Você tem consciência — disse Mamoru, dentro do apartamento, assim que Usagi acabara de fechar a porta — que é inaceitável o fato de você morar aqui. — Ele se pôs no meio da sala e reparou em volta com um olhar de desdém.
— Pois eu acho muito confortável.
— Um conjugado com uma cama que também é sofá, um banheiro onde só cabe uma anoréxica e uma cozinha... — Mamoru examinou a cozinha com a mesma cara de desaprovação. — Uma cozinha grande o suficiente para uma mesa com duas cadeiras.
Usagi sentiu que iria chorar, deu-lhe as costas rapidamente, mas não com a velocidade necessária.
Os braços de Mamoru em volta dela foram como um santuário, um refúgio, e ela recebeu de frente o calor dele, como quem se abrigava com um cobertor.
— Agora não se trata mais só de você. — As palavras de Mamoru mergulhavam nos cabelos dela. — Você está carregando o meu bebé, e não vou deixá-la enfrentar esta gravidez sozinha, num apartamento desses.
— Você não vai deixar? — Usagi se livrou do abraço traiçoeiro, e afastou-se em direção à janela. — Eu não o procurei para que você pudesse... pudesse me manipular... de novo!
— Eu não estou nem aí para como você chama isso, Usagi, mas me escute. Me escute com muita atenção... — Mamoru falava baixo, e a voz viajava da sua boca até os ouvidos dela como uma flecha. — Você não vai dar à luz o meu bebé num lugar como este. Você não vai ficar descendo e subindo escadas durante a gravidez, arriscando-se à toa. Você pode não gostar, me chamar de arrogante, mas não vou deixar.
Usagi estava boquiaberta.
— Ma... Mas por quê? — gaguejou ela. — Isso não é... não é uma espécie de conto de fadas. Você interpretou mal as minhas intenções em contar sobre a gravidez! Eu sei que você nunca quis ser pai. E por mais forte que seja o seu senso de dever, não pretendo me tornar vítima dele.
— Mas isso não diz respeito só a você. — Ele virou-se para enca¬rá-la. — E não estamos discutindo aqui se eu queria ser pai ou não. A realidade é que você está grávida do meu filho, e pretendo cuidar desta situação.
— Isso não é uma situação — disse Usagi, apesar de uma parte pequena e traiçoeira dela implorar para ser cuidada, amparada. Foi a mesma parte que um dia lhe dissera que ela podia lidar com um homem como Mamoru. Sábio seria evitar aquela tentação como quem evita uma praga.
— Um evento. Uma ocorrência. Um acontecimento. Chame como quiser, mas você não vai fugir de mim desta vez.
A respiração de Usagi diminuiu o ritmo, as batidas do seu coração pareceram ter desacelerado também.
— Nós vamos nos casar.
Makoto foi para casa. Mamoru lhe dera a tarde de folga, um rasgo de compaixão em meio à actual má vontade dele. A coitada tinha sofrido com o mau humor do chefe nos últimos 15 dias, tomando todos os cuidados para não aborrece-lo.
Mamoru gostava da sua secretária. No entanto, não conseguia se controlar. Não conseguia tirar Usagi da cabeça, o modo como ela terminara o relacionamento dos dois. De um só golpe, Usagi o havia transformado em uma espécie de monstro oportunista e interesseiro, que usou de todas as armas ao seu dispor para levá-la para cama.
Mamoru reproduzira a última conversa deles tantas vezes na sua cabeça que já estava a ponto de enlouquecer.
Não tantas vezes, porém, quanto o número de ocasiões em que se debruçara pensativo na janela do seu escritório, ignorando as chama¬das telefónicas e os e-mails no computador e avaliando se valia a pena procurá-la.
Ali estava Mamoru de novo. Na janela, às 18h30, quando deveria aproveitar o período de relativa calma para checar a pilha de correspon¬dências à sua espera. Escorado na janela, franzia a testa e se amaldiçoa¬va por ter se deixado envolver daquela maneira, por ter permitido que ela se apossasse do seu coração. O coração que Mamoru considerava anestesiado após as supostamente assimiladas lições do passado.
Praguejando para si mesmo, Mamoru passou a andar de lá para cá em seu escritório, como um tigre preso na jaula.
E se ele for vê-la? Qual o problema? Uma nova discussão, com os mesmos resultados, mas desta vez diante de uma plateia de colegas de trabalho dela. Mamoru não poderia encurralá-la no apartamento, pois Usagi se mudara. Para onde, ele não tinha idéia. Provavelmente voltou para o ex. Tal hipótese o levava a insultar o destino.
O seu grande erro foi telefonar para Haruka Tenioh, a chefe dela, e casualmente puxar assunto sobre o desempenho de Usagi. Aí Mamoru descobriu que ela havia se mudado de lá.
O telefonema ocorrera cinco dias antes. Cinco dias péssimos, tem¬po mais do que necessário para Mamoru perceber que, se não vê-la equivalia a uma morte lenta e dolorosa, imaginá-la nos braços de Motoki era ainda pior. Cinco pesadelos de noites nas quais fora for¬çado a reconhecer que o que havia se iniciado como um caso casual terminara como uma relação muito mais do que séria, que ele, idiota, jogara no lixo.
Mamoru vestia o casaco que retirara da cadeira, quando o telefone tocou.
Ele deixou o aparelho soar, ponderando se ainda lhe restava hu¬mor para mais uma conversa supérflua com algum cliente. Decidiu que não podia prejudicar o trabalho por causa dos problemas na sua vida pessoal.
Do outro lado da linha, tensa a esperar, Usagi não tinha a menor noção do drama que Mamoru atravessava. A única coisa da qual ela tinha noção neste momento era o ritmo acelerado do seu próprio coração, o nervosismo que a fazia transpirar pela expectativa de ouvir a voz dele.
O telefone tocou várias vezes, e ela quase deixou o celular cair ao escutar finalmente o olá seco e apressado dele. Deduziu que possivel¬mente Mamoru estava para ir embora e ficou cismada. Para onde ele iria?
— Olá, Mamoru. Sou eu, Usagi. — Sentimentos agitados, voz supercontrolada.
Diante da frieza da voz dela, todas as lamentações de Mamoru pelo papel que ele teve para o fim da relação desapareceram como fuma¬ça. Voltava a raiva irracional de ter sido dispensado, dispensado, por alguém que dele recebeu o maior dos favores: uma carreira profissional.
Ele deveria informá-la com poucas frases curtas que não tinha mais nada a tratar com ela. O orgulho de Mamoru assim exigia.
— Pois não? — Sua voz saiu igualmente fria.
— Você estava de saída? — indagou Usagi. Aquilo não iria aca¬bar bem. Ela não chegaria a lugar nenhum, se não colocasse a cabeça no lugar.
— Sim. O que você quer?
— A gente precisa conversar.
— É mesmo? — Ele tinha o olhar perdido no horizonte do lado de fora da janela. Sentiu um impulso de excitação ao ouvir a proposta dela. A emoção com a perspectiva de encontrá-la ainda era maior pelo fato de ter partido dela o convite. — Sobre o quê? Mais do que mesmo? Ou você caiu em si e notou, enfim, que não cometi nenhum crime?
— Aonde você vai esta noite? Alguma coisa que você possa can¬celar? Eu preferiria ver você o quanto antes. — Usagi largou as palavras de uma vez só e manteve a respiração presa ao esperar a resposta dele.
— Eu acho que posso cancelar o meu... compromisso. — Que compromisso? O único compromisso que tinha era um encontro com a garrafa de uísque e com a televisão. — Eu posso ir ao seu aparta¬mento...
— Eu mudei – me.
Mamoru simulou surpresa. Usagi teria um dia inteiro de festa se soubesse que ele se dera ao trabalho de ligar para Haruka para saber a respeito dela.
— Mudas-te-te? Para onde? Não, me deixa adivinhar, para o fracas¬sado daquele seu namorado. De volta ao já conhecido, mesmo que isso seja ruim para a sua saúde.
Usagi não se conteve.
— E você acha que você é bom para a minha saúde, Mamoru? Abrindo caminho com mentiras e trapaças para... a minha cama. — Para o meu coração, quase lhe escapou.
— É sobre isso que precisamos conversar, Usagi? Para você me atirar mais acusações? — E se fosse sobre isso? Bem, ele ainda assim quereria vê-la, Mamoru reconhecera, contrariado.
— Não — respondeu Usagi, arrependida por ter se impacientado. Não era ocasião para aquilo, ela não deixaria que ele a desviasse do destino traçado.
Usagi tivera tempo para reavaliar o que Mamoru fizera e, mesmo assim, continuava furiosa com ele. No entanto, havia também um reconhecimento incómodo de que Mamoru a ajudara. Uma ajuda que ela recusaria sem pestanejar se ele a oferecesse abertamente.
O emprego era perfeito. Usagi nunca encontraria um lugar ideal como aquele sem o auxílio dele. E, goste ela disso ou não, fazia sentido o argumento de Mamoru de que, se quisesse realmente manipu¬lá-la, ele teria balançado a cenoura no ar, à mostra, para o coelho saltar e pegar.
— E então... Você ainda não disse. — Aborrecia-o bater nesta mesma tecla, mas, droga, ele precisava saber.
— Ainda não disse o quê?
— Onde você está morando agora, já que você saiu do aparta¬mento?
— Eu não voltei para a casa de Motoki — disse Usagi, relutante¬mente. — Eu achei um lugar perto de Wimbledon. É pequeno e não é na melhor área do bairro, mas dá para viver. O arrendamento é muito mais barato do que nos bairros centrais.
Os ombros de Mamoru relaxaram de alívio.
— Onde você está? — perguntou ele, disposto a se mostrar gene¬roso, agora que o pior cenário imaginado acabara de ser descartado.
— Naquele prédio a dois quarteirões do seu escritório.
— Você quer dizer que foi para esse prédio na expectativa que eu pudesse encontrá-la já? — perguntou Mamoru, surpreso.
— Parece-me um lugar como outro qualquer. — Usagi olhou em volta. Havia uma quantidade razoável de pessoas no prédio, todas elegantes em suas roupas de trabalho. Não era o tipo de lugar para o qual se saía do escritório para se embebedar. — Eu peguei uma mesa nos fundos. Você pode vir?
— Eu estarei aí em dez minutos.
E o mundo repentinamente parecia um lugar maravilhoso para se viver, cheio de luzes, cores e... possibilidades. Mamoru vestiu o casaco e chegou quase a assobiar no elevador até o estacionamento. O carro dele estava lá, mas não havia necessidade conduzir para um restaurante a poucos minutos de distância.
Usagi estava lá. Esperando por ele! É verdade que ela foi um pouco fria ao telefone, mas poderia ter sido algum problema na linha. O fato agora era que Usagi telefonou para ele e queria vê-lo. E ele se empenharia ao máximo para resolver cada mal-entendido entre os dois, porque não podia mais imaginar a sua vida sem ela.
Mamoru fez o percurso do trabalho ao restaurante em tempo recorde.
Lá estava ela, como prometera, sentada a uma mesa dos fundos, formal, em um vestido cinza-escuro e um casaco preta. Durante alguns segundos, Mamoru aproveitou para observá-la. Pensativa, ela tinha os olhos voltados para a taça de vinho à sua frente. Contornava a borda da taça com um dos dedos.
Neste exato momento, Usagi olhou para a frente, e os olhos de ambos se encontraram. Mamoru caminhou na direção dela muito mais cauteloso do que mandava o seu coração.
— Você foi rápido. — Usagi sorriu, tensa e misteriosa.
— Eu disse dez minutos.
— Eu pensei que você gastaria algum tempo entrando em contato com quem esperava, cancelando o seu compromisso.
A moderação e a formalidade que ele não queria ver nela. Ainda de pé, Mamoru olhou para o balcão onde eram servidas bebidas e para Usagi de novo.
— Vou pegar alguma coisa para beber. O que você quer? O que você está bebendo?
— Só uma água mineral, por favor.
— Comida? Vou pedir o menu! — Conversavam como estra¬nhos. Não era o que ele desejava, mas Mamoru a deixaria sem pressa chegar até onde ela queria. A intenção dela só poderia ser um reata¬mento. O que mais a levaria a procurá-lo?
— Pode pedir para mim o peixe que estiver no menu.
Mamoru assim o fez e voltou à mesa com a sua bebida, a água dela e confuso demais para processar os próprios pensamentos.
— Então, como vai você? — perguntou ele, com extrema edu¬cação.
— No trabalho, tudo óptimo. — Usagi esforçava-se para manter o controle sobre a situação. Vê-lo era muito pior do que ouvi-lo, o que já tinha sido péssimo.
— Por que você saiu do apartamento?
— Você sabe por quê.
— Surpreende-me, neste caso, que você não tenha aberto mão do emprego para longe também.
— Olha, vamos deixar uma coisa clara. Seja lá o que tenha moti¬vado a fazer isso, eu amo o que estou fazendo.
— Então, no fim das contas, não sou tão monstruoso assim?
— Eu não quero falar sobre isso.
— Então sobre o que você quer falar? — Mamoru começava a per¬der a paciência em meio a tantas formalidades.
— O que você tem feito nessas últimas semanas? — Usagi mudou de assunto de um modo um pouco brusco. Sentia-se ferida e em pâni¬co. Com receio do que Mamoru vá pensar daqui a uma hora, quando ela já tiver dito a ele o que tinha para falar.
— Trabalhando muito. — Mamoru terminara a sua bebida e, no momento que a comida estava sendo servida, pediu mais uma.
— E jogando muito também?
— Você pode definir o que você quer dizer com jogando muito?
— Nada. Esqueça.
— Não, não estou saindo com uma mulher por noite, se é isso que você está insinuando. Você acha que sou uma espécie de mulherengo impiedoso, que tão logo uma mulher vá embora, já estou ligando para outra? — A conversa não estava indo pelo caminho que o antes opti¬mista Mamoru imaginara.
— Eu não quero discutir com você. — Usagi baixou os olhos e perguntou a si mesma por que estava ali. Não, ela sabia por que o havia procurado. Brincava com a comida no prato e, quando final¬mente levou uma garfada à boca, sentiu gosto a papelão.
— E o que exatamente você quer? Vamos direto ao assunto.
— Você teria me ligado se eu não tivesse entrado em contato com você? — Usagi tinha que perguntar. Uma outra pergunta que evita¬va, mas algo a induzia a esclarecer.
— Você expressou claramente a sua vontade na última vez em que nos encontramos. — Mamoru cruzou o garfo e a faca. O que ele neces¬sitava mesmo era de uma outro copo de uisquie. — Eu era o Lobo Mal que consegui cercar a Chapeuzinho Vermelho. Mesmo tendo assegu¬rado que ela atravessasse sem problemas a floresta e tendo abrigado da chuva num chalezinho de primeira classe, eu era o lobo mau e grande porque deveria ter contado para ela o que estava fazendo. Deveria ter dado a ela a oportunidade de jogar a oferta de volta na minha cara.Se você acha que eu vou te dar satisfações sobre o que eu faria se você não tivesse ligado, sente-se, porque você vai esperar para sempre. — Orgulho. Orgulho teimoso de volta ao seu lugar devido. A verdade cruel é que, sim, ele telefonaria para ela. Inventaria uma desculpa esfarrapada, mas entraria em contato com Usagi, simplesmente porque ele necessitaria falar com ela.
— Tudo bem.
A aceitação curta e grossa de todo aquele discurso apenas alimen¬tou a raiva de Mamoru.
— O que você esperava que eu dissesse? — pressionou Mamoru, irritado com a passividade dela e com o fato de ter esquecido em algum lugar o seu autocontrole.
— Nada. A verdade. Que foi exatamente o que você acabou de me dizer. — Usagi pegou o seu copo de água, notou que a sua mão tremia e imediatamente recolocou-o na mesa.
— Fico contente que a gente esteja se entendendo — disse ele. — Assim, nós podemos discutir o que eu tenho para dizer como adultos.
— Discutir... o quê?
— Eu estou grávida.
O silêncio foi ensurdecedor. Pareceu durar, durar, durar por horas. Se o assunto não fosse tão sério, Usagii quem sabe riria ao ver aquele homem perigosamente bonito, para quem as palavras nunca falta¬vam, totalmente mudo.
E para ser sincera, ela imaginava que ele viesse a ter exatamente essa reação, desde que ela própria recebera a notícia, horas antes.
— Como é que é? — As quatro palavras caíram como pedras em água parada.
Usagi empenhou-se em olha-lo calmamente nos olhos. A calma possível naquelas circunstâncias.
— Você me ouviu. Eu estou grávida.
— Você me chamou aqui para contar isso? — Mamoru empurrou o prato para o lado a fim de se apoiar na mesa e aproximar-se dela,
— Você preferiria que eu nem o procurasse? — devolveu Usagi. — Acredite, essa possibilidade passou pela minha cabeça, mas como tenho alguma moral...
— Poupa-me de sermões, Usagi...
— Eu estou contando isso porque acho que você tem o direito de saber que você gerou uma criança. Eu peço as mais sinceras descul¬pas se você preferia não saber de nada!
— O que quero dizer é por que você me trouxe aqui para me dar esta notícia? Para este lugar? Como vamos discutir um assunto como este aqui, cercado de pessoas e barulho? — Mamoru olhou em volta, irrequieto.
— Eu pensei que a gente teria uma conversa rápida...
— Uma conversa rápida!
— E depois, já com tempo para assimilar tudo isso, você poderia me encontrar para a gente discutir as coisas... com mais detalhes. Eu não sei se é isso que você quer... — Os olhos dela se esquivaram dos dele.
— O que você acha que eu quero?
— Olha, Mamoru, eu sei que é um pouco chocante...
— Um pouco chocante. E você uma vez me chamou de mestre do eufemismo!
— Foi um choque para mim também.
Em meio à agitação, a afirmação de Usagi fizera Mamoru parar e pensar um pouco. É claro que fora um choque também para ela. Usagi apenas iniciava sua trajetória profissional. A notícia da gravidez devia ter caído como uma bomba na vida dela.
Os poderes de recuperação de Usagi, entretanto, não perdiam para ninguém, Mamoru pensou, um pouco ácido. Certamente ela não se assemelhava a uma mulher em estado de choque. Estava calma, fria, comedida. As marcas registradas de uma mulher que quer deixar cla¬ro que não sente um pingo de emoção pelo que está contando.
— Olha, vou pegar uma outra bebida. Você quer alguma coisa? — ofereceu Mamoru. Ele buscava se acalmar um pouco, ditar um mínimo de ordem as suas idéias e sentimentos.
Usagi acenou não com a cabeça e o viu caminhar até o balcão e lá esperar, inquieto, dando pancadinhas na bancada.
Ela tomara a medida certa ao propor o encontro num lugar públi¬co. Uma decisão um pouco covarde, mas sábia, porque pelo menos Mamoru não poderia ceder à óbvia tentação de esbravejar e insultá-la. Não faria um escândalo com tantas pessoas em volta dele. Seria for¬çado a discutir o assunto como um adulto, e ela precisava que ele assim procedesse. Se Mamoru lhe dirigisse uma só palavra enviesada, ela não agüentaria o choque. Por baixo dos gestos e do rosto calmo, as emoções dela estavam a ponto de explodir.
Mamoru poderia até mesmo acusá-la de engravidar de forma propo¬sitada para arrancar algum tipo de compromisso dele. E a palavra compromisso era um palavrão para ele.
— Tudo aconteceu na nossa primeira vez, a única em que a gente não se protegeu. Nós estávamos tão excitados que não colocamos o preservativo. — Usagi deu prosseguimento ao tema no instante em que Mamoru se sentava de volta à mesa. Ela mantinha-se formal, como se estivesse discutindo um negócio.
— Eu sei.
— E eu não estava acostumada com preservativo. Até então, só tinha relações sexuais com Motoki. Eu sempre tomei pílula. Resolvi parar há uns seis meses, já que eu e Motoki... nos últimos tempos... Bem, resolvi parar, dar um tempo para o meu corpo...
— Entendo.
— Olha, lamento muito tudo isso. — Usagi teve um súbito mal-estar, como se o que vivenciava ali não fosse real. — Eu sei que você está pensando que isso vai virar a sua vida de cabeça para baixo, mas não vai.
— E como você sabe isso?
Você não está nem aí, não é mesmo?, ela queria gritar.
— Nada vai mudar entre a gente. Eu só acho que é correto que você saiba, mas é uma formalidade...
— Uma formalidade! — Mamoru socou a mesa.
— Shhhh!
— Não me mande ficar quieto, Usagi! Você escolheu este lugar ridículo para me contar uma coisa dessas, agora aguente se por acaso eu não ficar cochichando em segredinho!
— Gritos não vão nos levar a lugar nenhum.
— E o que você propõe que a gente faça? Que lugar é este que você tem em mente?
— Talvez a gente não devesse mesmo ter se encontrado aqui — sussurrou Usagi, mordendo os lábios. Várias pessoas olharam para eles quando Mamoru esmurrou a mesa, e ela podia notar as orelhas antenadas diante da possibilidade de um escândalo.
— Você escolhe o lugar!
— Você pode baixar o tom de voz?
— Eu grito tão alto quanto eu quiser! — De propósito, Mamoru aumentou ainda mais o volume e foi premiado com o silêncio súbito das mesas em volta. Como ousava ela pensar que poderia carregar o bebé dele na barriga e reduzir o seu papel de pai a uma mera formali¬dade?
Usagi estava pálida e tensa, e Mamoru, num impulso, levantou-se, ajudou Usagi a se pôr de pé e a abraçou até que ela aparentasse uma pequena melhora.
— Vamos sair daqui — disse ele, decidido. — Isto não é lugar para discutir um assunto como este, e você sabe disso. Vamos para o meu apartamento. Está a dez minutos daqui, e lá teremos alguma privacidade.
— De jeito nenhum! — A idéia de estar a sós com ele naquele apartamento, o lugar onde eles tiveram tantos bons momentos juntos, onde o amor dela se enraizou e cresceu sem que ela nem se desse conta, a colocou em pânico. — Já que é assim, podemos ir para o... meu apartamento, mas não há nada que possamos conversar lá que nós não possamos falar aqui.
— Óptimo.
Ela não descreveria assim o tempo em que os dois passaram em silêncio total no banco de trás de um táxi a caminho de Wimblendon. Horrível era mais de acordo. E se sentia encurralada, miserável e na expectativa do impossível quando nem sozinha com Mamoru estava, imagine que experiência teria só com ele na diminuta sala do seu apartamento?
Os minutos mais pareceram décadas até o táxi estacionar em fren¬te à desgastada casa vitoriana convertida em apartamentos.
— Você mora aqui? — indagou Darius de forma quase cruel. — Você saiu daquele apartamento para morar aqui?
— É barato, é o que posso pagar. — respondeu Usagi sem demo¬ra, abrindo a porta da frente.
— Você tem consciência — disse Mamoru, dentro do apartamento, assim que Usagi acabara de fechar a porta — que é inaceitável o fato de você morar aqui. — Ele se pôs no meio da sala e reparou em volta com um olhar de desdém.
— Pois eu acho muito confortável.
— Um conjugado com uma cama que também é sofá, um banheiro onde só cabe uma anoréxica e uma cozinha... — Mamoru examinou a cozinha com a mesma cara de desaprovação. — Uma cozinha grande o suficiente para uma mesa com duas cadeiras.
Usagi sentiu que iria chorar, deu-lhe as costas rapidamente, mas não com a velocidade necessária.
Os braços de Mamoru em volta dela foram como um santuário, um refúgio, e ela recebeu de frente o calor dele, como quem se abrigava com um cobertor.
— Agora não se trata mais só de você. — As palavras de Mamoru mergulhavam nos cabelos dela. — Você está carregando o meu bebé, e não vou deixá-la enfrentar esta gravidez sozinha, num apartamento desses.
— Você não vai deixar? — Usagi se livrou do abraço traiçoeiro, e afastou-se em direção à janela. — Eu não o procurei para que você pudesse... pudesse me manipular... de novo!
— Eu não estou nem aí para como você chama isso, Usagi, mas me escute. Me escute com muita atenção... — Mamoru falava baixo, e a voz viajava da sua boca até os ouvidos dela como uma flecha. — Você não vai dar à luz o meu bebé num lugar como este. Você não vai ficar descendo e subindo escadas durante a gravidez, arriscando-se à toa. Você pode não gostar, me chamar de arrogante, mas não vou deixar.
Usagi estava boquiaberta.
— Ma... Mas por quê? — gaguejou ela. — Isso não é... não é uma espécie de conto de fadas. Você interpretou mal as minhas intenções em contar sobre a gravidez! Eu sei que você nunca quis ser pai. E por mais forte que seja o seu senso de dever, não pretendo me tornar vítima dele.
— Mas isso não diz respeito só a você. — Ele virou-se para enca¬rá-la. — E não estamos discutindo aqui se eu queria ser pai ou não. A realidade é que você está grávida do meu filho, e pretendo cuidar desta situação.
— Isso não é uma situação — disse Usagi, apesar de uma parte pequena e traiçoeira dela implorar para ser cuidada, amparada. Foi a mesma parte que um dia lhe dissera que ela podia lidar com um homem como Mamoru. Sábio seria evitar aquela tentação como quem evita uma praga.
— Um evento. Uma ocorrência. Um acontecimento. Chame como quiser, mas você não vai fugir de mim desta vez.
A respiração de Usagi diminuiu o ritmo, as batidas do seu coração pareceram ter desacelerado também.
— Nós vamos nos casar.
Tá tudo gozando!!!!! omg
Esta mt bom, este... nunca pensei k ela fosse ficar gravida... ammm a principio pensei k ele fosse atrofiar cm ela por estar gravida quando eles chegaram a casa dela, mas afinal ele foi bastante compreensido e kiduh
Ele disse que s vao casar? bem.... tou admirada, ela vai aceitar n vai? n s vai armar em pparva e dizer k o bebe nao vai ser o motivo d uniao deles, ela n vai dizer isso pois n? n vai dizer que o casamento e algo serio, e que eles se deveriam casar s se amassem e nao porque vao ter um filho. ela n vai ser parva, n pode
fico a espera do proximo
Ele disse que s vao casar? bem.... tou admirada, ela vai aceitar n vai? n s vai armar em pparva e dizer k o bebe nao vai ser o motivo d uniao deles, ela n vai dizer isso pois n? n vai dizer que o casamento e algo serio, e que eles se deveriam casar s se amassem e nao porque vao ter um filho. ela n vai ser parva, n pode
fico a espera do proximo
CAPÍTULO IX
Usagi deu uma risada. Caminhara em direção à surrada cama de solteiro, improvisada como sofá com o acréscimo de três almofadas e um pano colorido, e ali espalhou-se com as pernas esticadas.
— Casar? Não seja ridículo. Nós não estamos mais na Idade Média. No caso de você não ter entrado ainda no século XXI. Hoje em dia mulheres engravidam e têm os seus bebés de forma eficiente e autónoma.
— Óptimo para elas. — Mamoru reagiu com indiferença. — Felizmente a vida delas não tem nada a ver comigo. — Ele previa que Usagi protestasse, mas estava mais do que preparado para ouvir as objecções dela. Ela casaria, sim, e a ideia estava longe de desagradá-lo. O destino lhe concedera uma oportunidade, e ele não pretendia desperdiçá-la.
Usagi apertou uma almofada contra o peito. Casamento sem amor. Apenas mais um negócio proposto por ele, igual ao primeiro, que ela foi uma idiota ao aceitar. Por mais moderna que pudesse ser, não aceitaria tomar parte em uma união sem amor. Isso significaria dias, anos de amargura, de espera silenciosa pelo impossível. Iria se tornar um peso amarrado aos pés de Mamoru, que ele suportaria sem reclamar pelo bem do filho.
— Olha, Mamoru... — Usagi controlou o tom de voz, na tentativa de ser persuasiva. — Nós dois sabemos por que a gente se envolveu, e nós dois sabemos quais eram as regras desse envolvimento. Sem compromissos, o que dizer de casamento. — Como ela queria ter descoberto antes o que agora sabia, que Mamoru era um homem capaz de subtrair a emoção de qualquer situação. Sem emoção, tudo era possível, até mesmo casar-se com uma mulher que não amava. Ele teria relaçõs sexuais com ela até enjoar e, então, discretamente, conduziria uma vida privada fora do casamento. O filho o manteria ligado ao lar.
— Isso era antes, agora o momento é outro.
— Eu simplesmente não posso me casar com você. Eu não poderia me casar com ninguém sem amor. Por que você acha que nunca me casei com Motoki? Lá no fundo eu sabia que nunca poderia me casar com ele, pois não havia ali o tipo de amor que fizesse um casamento funcionar.
Mamoru simulou um riso curto e gozão.
— E que tipo de amor é esse, Usagi? O que leva uma cereja vermelha no topo?
— Você é tão cínico! — rebateu Usagi. — É o tipo de amor que mantém os meus pais juntos! E os seus pais, também!
Mamoru deu de ombros.
— Eles pertencem a uma geração diferente, e não costumo fugir das minhas responsabilidades.
— Não estou pedindo que fuja de nada! — protestou Usagi, desesperada. — Quando o bebé nascer, você poderá visitá-lo quando quiser...
— Quando o bebé nascer, não haverá necessidade disso, porque vai estar morando comigo, sob o meu teto, como a minha mulher. Eu não vou ter um filho meu nascendo de forma ilegítima... — Mamoru levantou a mão para impedir que Usagi, abismada, voltasse a protestar. — Não perca tempo em me dizer que ilegitimidade é a regra nos dias de hoje. De onde venho, bebés nascem de um matrimónio.
— De um matrimónio feliz. — Disse Usagi com voz trémula.
— Matrimónio feliz é um matrimónio que dá certo, e temos os ingredientes para que o matrimónio dê certo. Nós gostamos um do outro, a gente se entende muito bem na cama, vamos ter um filho, e, por último, sem o amor para embaralhar as coisas, a nossa relação tem ainda mais chances de sobreviver.
O último argumento, Mamoru sabia, era o mais importante para convencê-la. Frio e lógico. Nada de mencionar as noites em que ele se angustiara, quando a sua imaginação batia asas e se recusava a voltar à Terra. Lidaria com isso sozinho.
— E depois, quando... o entendimento na cama começar a minguar?
Mamoru olhou para baixo por alguns instantes. Minguar? Esta mulher o fazia sentir vivo de forma sensacional. Ele seriamente não podia imaginar o dia em que não a desejaria na cama.
— Por que se preocupar com algo que ainda não aconteceu? — perguntou Mamoru. — Agora, para quem você contou sobre... isso? Para os seus pais? Amigos?
Usagi fez-se de indiferente. Os pais podem ter engolido a vida dela em pecado com Motoki, mas solteira e grávida de um homem que eles não conheciam e que não figuraria como parte integrante da vida dela dali por diante era uma coisa bem diferente.
— Você é a única pessoa que sabe, e começo a me arrepender de não ter ficado com a boca fechada.
— Eu não ficaria se fosse você. — disse Mamoru de forma severa.
— Não ficaria o quê?
— Pensando no que teria acontecido se não tivesse me contado. Cedo ou tarde, eu descobriria, e você iria desejar não ter nascido.
— Se é assim que pretende me convencer a casar...
— Pense a respeito, Usagi. Como acha que eu reagiria? Como qualquer homem normal reagiria?
— Um monte dos chamados homens normais respiraria aliviado por não ter recebido o fardo de criar uma criança vinda do nada!
— Não há sentido em ficar discutindo isso até a eternidade. Quando você pretende contar para os seus pais?
— Logo — disse Usagi, incomodada.
— E o que você acha que eles vão dizer de você morando aqui sozinha e grávida?
Não muito, Usagi especulou, com a pior das sensações. Certamente não aplaudirão de alegria. Mais provável que mostrassem a sua decepção pelo silêncio.
— E o que eles vão dizer quando descobrirem que o pai da criança propôs casamento e você recusou?
O quadro se tornaria ainda mais desastroso.
— E como eles descobririam isso?
— Eu contaria, naturalmente.
— Isso é chantagem emocional!
Mamoru absteve-se de informá-la que faria isso e muito mais para recolocá-la de volta na vida dele, o lugar ao qual Usagi pertencia. Nem mesmo o seu orgulho, que o alfinetava a cada vez que ele imaginava Usagi o afastando com um aceno após o sexo, era capaz de demovê-lo do desejo, da necessidade de tê-la de volta.
— Claro — continuou Mamoru, sem hesitar, sem alterar o tom de voz, como uma escavadeira a forçar o solo firme. — E isso não vai ser nada comparado ao que o nosso filho vai sentir daqui a alguns anos, quando ele ou ela entender que uma vida em família havia sido possível, mas que a mãe teimosa...
Usagi ficou de queixo caído diante dos artifícios de Mamoru.
— Você não seria capaz — disse Usagi, quase sem voz.
— Eu seria, sim. Agora, vamos logo com isso.
Antes que Usagi pudesse se mover, Mamoru já estava junto à cómoda, gavetas abertas, colocando as roupas sobre a cama. Para ser mais preciso, em cima dela.
O branco na cabeça de Usagi se desfez, e ela começou a recolher as próprias roupas amontoadas, ao mesmo tempo que exigia dele explicações.
Mamoru parou por um instante e olhou firme para Usagi.
— Vamos tirar você daqui, obviamente. Você vai vir comigo.
— Coloque essas roupas de volta nas gavetas! Agora!
— Você vai acordar os vizinhos se continuar gritando desse jeito. Onde estão as suas malas? — Mamoru não lhe dera tempo para responder. Checou embaixo do sofá, o único lugar em que elas poderiam estar, e, decidido, puxou-as e começou a forrá-las com as roupas. — O resto vai ter que esperar até amanhã. Eu venho com Nicholas buscar o que sobrou. Como você mudou para cá, por falar nisso? Quem ajudou-a?
— Você não pode fazer isso! Eu não vou me casar com você, Mamoru Chiba!
— Não me diga que ficou trazendo as coisas por etapas, por conta própria, no seu estado.
— No meu estado? Eu estou grávida, não estou doente!
— Bem, enquanto estiver comigo, você não vai ficar carregando nada pra lá e pra cá. Você precisa se poupar. — Mamoru alongou os músculos e partiu para a cozinha, com Usagi em seu encalço.
— Eu disse. Eu não...
— Ótimo. Você guardou umas caixas. Isso aqui está bom para começar. — Ele puxou uma das caixas de papelão de debaixo da mesa. — Sente-se. Eu vou empacotar logo umas coisas por aqui. Menos trabalho para amanhã.
Usagi sentou-se. As suas pernas estavam bambas. E como não ficariam?
— Você não pode simplesmente entrar aqui e tomar conta da minha vida dessa maneira!
— Eu posso e estou. Esta é toda a comida que você tem neste lugar? — Mamoru olhou espantado dentro do armário da cozinha, praticamente vazio. Um vidro de café, açúcar, legumes e atum enlatados. — Você tem comido alguma coisa?
— Claro que sim! — O sentimento de culpa deixou-a na defensiva.
— Você nem tocou na comida nesta noite, eu percebi.
— Você vai me culpar? Eu estava me sentindo um pouco nervosa por ter de contar tudo!
— Você precisa, acima de tudo, dê supervisão para garantir que você coma direito. — Mamoru abriu a geladeira, quase tão vazia quanto o armário.
— Supervisão? Isso está ficando absurdo. E, por favor, feche esta geladeira? O motor começa a falhar quando ela fica aberta por muito tempo!
Mamoru fechou o frigorifico sem alarido, encostou-se nele e encarou Usagi com um olhar de censura.
— Isso diz tudo sobre este lugar, não é mesmo? O seu senhorio tem de ser denunciado. Por falar nisso, eu acho...
— Tudo bem! Eu volto para o apartamento. Tenho certeza de que a Haruka não se importará...
— Você vai comigo agora, e amanhã vamos às compras. Comprar as alianças. Depois, vamos cuidar da papelada. Você vai ligar para os seus pais, e eu vou ligar para os meus.
— Eu nem ainda contei para Motoki — sussurrou ela.
Usagi neste instante se sentiu muito frágil. Acomodou a cabeça entre os braços, sobre a mesa.
Desligou-se inclusive da presença de Mamoru, até ele tocá-la na cabeça. O gesto proporcionou a ela uma sensação de alívio. Ouviu-o então arrastar a outra cadeira e sentar-se ao seu lado.
— Que confusão — definiu Usagi, virando-se para olhá-lo, mas sem tirar a cabeça da mesa.
— Por que você está tão chateada por não ter contado a Motoki? — Mantenha a tranquilidade, Mamoru ordenou-se, nada de ameaças. A simples menção do nome daquele fracassado era o suficiente para acender a raiva dentro dele. Num momento como este, a última pessoa em quem ela deveria pensar era no ex-namorado.
— Nem havia pensado antes em contar para ele — admitiu Usagi.
Mamoru ficou tentado a abrir um sorriso. Controlou-se e continuou a acariciar os cabelos dela.
— E por que deveria? Sua mente deve estar um pouco fora do lugar. Estou surpreso que você consiga pensar de forma coerente.
— É, acho que sim. — Usagi levantou a cabeça. Os olhos grandes e azuis dela brilhavam ainda mais devido às lágrimas.
Um pensamento perturbador golpeou Mamoru com força. E se agora que ela podia estabelecer uma comparação, Usagi deduzia que o que sentia por Motoki era mesmo amor? O amor genuíno, aquele amor que ela não sentia por ele, Mamoru? Ele tinha consciência de que poderia ser arrogante e, na verdade, egoísta. E se Usagi decidira que era preferível a atitude não-estou-nem-aí-com-a-vida do ex-namorado ao monstro que não se importou em manipular a vida dela para conseguir o que queria? Não era assim que ela o via?
Mamoru trincou os dentes de dor e incerteza. Adicionou às duas sensações à já longa lista de sentimentos que transgrediam o autocontrole de ferro, a capacidade de concentração e o domínio completo sobre a própria vida, traços que ele considerava características da sua personalidade.
— Bem — Mamoru levantou-se, impaciente consigo mesmo. — Não faz sentido ficar perdendo tempo aqui. Vamos.
— Está bem. Eu vou com você, Mamoru, mas nada de alianças e nada de papelada.
— Vamos ver.
Usagi não embarcou em mais uma discussão infrutífera com ele. Por agora, ela iria para o apartamento dele e se asseguraria que dormiria no quarto de hóspedes. Amanhã, lhe diria o que tinha para dizer, imporia os seus limites, afirmaria as suas vontades, caso contrário, acabaria fazendo exatamente o que ele queria. Este era o seu maior temor. Seria conduzida a isso não por crer que o casamento era a única ou a melhor opção, mas porque a ideia de passar o resto da vida com o homem que ela amava era perigosamente sedutora.
A descoberta das manobras de Mamoru em relação ao emprego havia feito Usagi parar para pensar, e ela sabia que ou se agarrava ao que aprendera com o episódio, ou os riscos agora seriam maiores.
Somente ao deitar-se sozinha na cama, uma hora mais tarde, Usagi começou a sentir a pressão.
Ela conseguiu o que exigira, a solidão da cama do quarto de hóspedes, mas isto estava longe de ter um sabor de vitória. Mamoru cedeu à menor das reivindicações dela. E ainda assim, por quanto tempo? Ele não retornara ao tema casamento, mas Usagi não duvidava que na manhã seguinte a ofensiva seria retomada. Pelo menos, ele não tentara tocá-la, pois ela como sempre teria sucumbido aos seus braços.
A angústia lhe tirou boa parte do sono e aumentou quando, durante o resto do fim de semana, o assunto alianças, casamento e papelada não voltou à baila.
Eles passaram o sábado fazendo compras. Não em joalherias, mas em lojas de roupas femininas. Ela precisaria de trajes para gestantes, ele a assegurou. A dedicação dele até a sensibilizaria, se Usagi não estivesse tão ocupada em se proteger da perigosa rede com a qual Mamoru ameaçava envolvê-la.
Ele insistia em levá-la ao sector de alimentação da Harrods, determinado a ver se ela já poderia ter desejos de grávida. Usagi, relutante, acabou achando graça no esforço dele.
Toda a preocupação de Mamoru não era fingimento. Após o choque inicial, ele se surpreendia por se adaptar de maneira tão fácil à ideia de inserir uma criança em sua vida. Uma criança e uma esposa. Porque Usagi seria dele. No entanto, concluíra que forçar a situação como fizera no apartamento dela não serviria a nenhum propósito.
Usag era obstinada, e o erro dele foi pensar que ela docemente ouviria os seus argumentos e aceitaria a sua proposta. Equivocou-se pelo desespero em tê-la.
Para alguém que cresceu em uma realidade dura, que batalhou para vencer todas as adversidades, Usagi tinha uma visão romântica de amor e casamento. E essa visão não o incluía. Não ainda.
Mamoru passaria a maior parte da semana seguinte fora do país. O fato aliviou e ao mesmo tempo desapontou Usagi. Aliviou-se porque disporia de um tempo só para si para decidir como lidar com o presente impasse. Desapontou-se porque, gostasse ela disso ou não, sentiria saudade dele.
— Eu quero voltar na quinta-feira e encontrá-la aqui... — disse Mamoru. Ficou claro o tom de alerta dele ao se despedir na segunda-feira pela manhã.
— Certamente, não vou voltar para o meu apartamento, já que você disse ao senhorio que ele não veria mais a cor do meu dinheiro e o ameaçou, insinuando que colocaria fiscais atrás do pobre homem, se ele não melhorasse o estado do edifício. — Vestida também para o trabalho, Usagi lutava contra o violento impulso de aproximar-se de Mamoru e beijar aqueles lábios que insistiram em ficar longe dela durante todo o fim de semana.
Mamoru deve ter lido os pensamentos de Usagi, porque ele deu um beijo delicado, beijo que evoluiu para um explosivo, faminto.
Com as pernas bambas, Usagi se agarrou à lapela do casaco de Mamoru, puxando-o ao encontro dela, para sentir a língua dele invadir cada centímetro possível da sua boca.
Usagi tremia como uma folha de árvore quando, finalmente, eles se separaram. Ela podia admitir ou não, mas o seu corpo se recordava do dele e o desejava de volta.
Usagi afastou-se, e Mamoru ficou muito tentado a segurá-la, antes que ela tivesse tempo para recuar. Entretanto, Mamoru decidira dar um tempo. Na quinta-feira, ele voltaria e daria um basta nas hesitações dela. Usagi o desejava tanto quanto ele. Com o beijo, não restava dúvidas. É verdade que ela deixara claro que não o amava, mas, por carregar o filho dele, se casaria, sim.
Ele não mais permitiria que Usagi passasse as noites no quarto de hóspedes. Até quando iria aquela novela? Daria para ela todo o tempo do mundo para se adaptar à novidade, assumiria um papel de pai coadjuvante e depois veria chegar o dia em que Usagi arrumaria as malas para seguir com a vida que ele lhe permitira levar? Não. Casamento, cama de casal e uma vida a dois. Tudo poderia ser ajustado, uma vez que esses três pilares estivessem plantados.
Mamoru há semanas não sentia a satisfação que exibia ao sair para o trabalho. Usagi, que fechou a porta após a partida dele, não estava nada satisfeita. Pelo contrário, deixava-a furiosa o modo como ele, educadamente, sem remorsos ou maiores reflexões, baixava leis para as quais esperava completa obediência. Não podia continuar morando com Mamoru, porque ele acabaria passando um rolo compressor por cima dela. O amor de novo a faria de idiota.
Pela primeira vez desde que começou no emprego, Usagi se pegou distraída no trabalho. Era muito tarde para fugir? Mamoru a encontraria aonde fosse, e a raiva dele não teria limites. De qualquer modo, ele era o pai do seu bebé, e ela nunca poderia fugir daquela obrigação moral com o filho. Mas deixaria o apartamento dele. Mamoru só voltará na quinta. Tempo mais do que suficiente para empacotar as suas coisas e ir embora. Não tinha como voltar para o apartamento em Wimbledon. Também não para o que Mamoru lhe arrumara, pois dali ele a tiraria facilmente. Só restou um lugar. A casa de Motoki.
Às 18h30, de banho tomado, trocada e com o pequeno telefone celular na mão, Usagi, mesmo sentindo-se culpada, ligou para Motoki. No momento em que ouviu a voz do ex-namorado do outro lado da linha, ela se convencera de que a última coisa que poderia fazer era voltar para a casa dele. Aquela casa, Motoki e tudo que eles compartilharam pertenciam agora a um outro mundo. Desde então, ela dera passos gigantescos, para o bem ou para o mal, e não tinha como voltar atrás.
Contudo, foi maravilhoso ouvir a voz de Motoki, especialmente por ela sentir-se tão frágil. Num impulso, ela o convidou para uma visita, decidida a contá-lo sobre a gravidez. Ele não seria capaz de dizê-la o que fazer. Não tentaria suavizar a situação incómoda. Motoki era acima de tudo uma pessoa prática em lidar com a vida. Sentia-se infeliz e então mergulhara na bebida. Eles não se entendiam mais, e ele então terminara tudo. As soluções do ex-namorado não eram as mais recomendáveis, mas a franqueza dele, a falta de papas na língua, a animaria.
Quando, quarenta minutos depois, Motoki chegou, Usagi parecia ver um estranho. Ele era mais baixo do que ela lembrava, e o rosto bonito que fizera o coração da menina de 16 anos acelerar não podia ser comparado à beleza agressiva de Mamoru.
Usagi piscou, sorriu e se encheu de afeto ao vê-lo. Hesitante, ele estendeu um buquê de flores para ela.
— Você parece óptima, Usagi. — Motoki sorriu e olhou em volta o apartamento luxuoso de Mamoru. — Este estilo fino de vida combina com você. Eu trouxe isto. — Ele entregou as flores para ela e, admirado, deu uma nova olhadela no ambiente, enquanto ela pegava uma cerveja para servi-lo.
— Nada de álcool, querida.
— Você parou de beber!
Motoki a seguiu até a cozinha, pendurando o casaco jeans em uma das cadeiras no caminho.
— Tive que parar. Não poderia arrumar um emprego de outra maneira, depois que você fugiu e deixou todas as contas para pagar.
Usagi virou-se para Motoki e deu de cara com ele sorrindo.
— É, é isso mesmo. Consegui um emprego, você acredita? O velho Jeidite do bar da esquina arrumou um trabalho para mim com um dos seus fornecedores, e agora não bebo mais, Usagi, eu vendo bebida. — Motoki sentara-se em um dos bancos altos em cromo junto à bancada. — Agora, só bebo nos fins de semana.
— Nada de álcool, um emprego... Você se importa de perguntar por que isso nunca passou pela sua cabeça quando eu ainda estava por perto? — Usagi se sentiu muito feliz por tê-lo procurado e também culpada por não ter feito isso há mais tempo. Na verdade, isso nem havia passado pela cabeça dela. Mamoru se apossou dos seus pensamentos, da sua vida, e não havia restado nada para mais ninguém.
Ela preparou um café, sentou-se diante dele na bancada e abriu o coração. Escancarou. Contou tudo. Ela precisava desabafar com alguém e, por mais incrível que pareça, depois de todo o tempo em que eles ficaram sem diálogo, Motoki era a pessoa que a ouvia, fazendo os gestos e ruídos de quem acolhia e compreendia.
— E então? O que devo fazer? — indagou Usagi, dando-se conta que terminara a xícara de café e que precisava esticar as pernas. Ela levantou-se, pegou a garrafa de água na geladeira e olhou para Motoki, ansiosa.
— Case com o bacana. Eu não vejo problemas, mas você sempre foi muito obstinada, Usagi. Você mete uma coisa na cabeça e não consegue tirar.
— Eu devo ir embora. Eu sei que devo, Motoki.
— Por quê? Para onde você vai? Usagi deu de ombros e suspirou.
— Seja realista, Usagi, um homem como esse não vai deixar você viver num buraco enquanto tiver o bebé dele na barriga. Ele vai cuidar do que é dele!
— Este é o problema, Motoki. Ele não pode me comprar, e ele não me ama. Eu preciso sair dessa.
— Não, você não precisa. — Motoki deu um suspiro. — Você se lembra quando a gente era criança, Usagi? A gente ficava na rua como pequenos mendigos, sem modos, uniformes escolares usados. Por que escolher isso para o seu filho, quando você pode ter o melhor?
— Não exagera. Além disso, consegui um emprego...
— Por quanto tempo? — Motoki a encarou, pensativo, e depois baixou os olhos numa rara demonstração de constrangimento. — Você não pode bancar ainda uma casa decente pelo que você me disse. E, Usagi, eu adoraria ajudar, mas tenho um probleminha...
— Eu não estou pedindo sua ajuda. — Mas ele despertou a curiosidade dela. — Probleminha...?
— O seu finório não é o único cara que vai ser pai. — A expressão no rosto de Motoki era de culpa e felicidade. — Na verdade, Usagi, eu estava saindo com uma garota antes de a gente terminar. Ela se chama Reika. Eu me odiei por tê-la traído, sei que não fui sincero com você, mas não podia simplesmente pedir a você que fosse embora. Perdão, Usagi. — Motoki soltou a respiração. — Ela está morando comigo, e acho que ela não vai gostar se eu oferecer um quarto para a minha ex.
A mente de Usagi reagiu com surpresa, indignação e alegria. A alegria sobressaiu, e ela sem pensar o abraçou, mais certa do que nunca de que o tipo de afecto que eles por tanto tempo dividiram não existia mais.
E os braços de Motoki responderam ao gesto dela no exato instante em que uma chave abriu a fechadura da porta da frente, e Mamoru entrou no apartamento.
Usagi deu uma risada. Caminhara em direção à surrada cama de solteiro, improvisada como sofá com o acréscimo de três almofadas e um pano colorido, e ali espalhou-se com as pernas esticadas.
— Casar? Não seja ridículo. Nós não estamos mais na Idade Média. No caso de você não ter entrado ainda no século XXI. Hoje em dia mulheres engravidam e têm os seus bebés de forma eficiente e autónoma.
— Óptimo para elas. — Mamoru reagiu com indiferença. — Felizmente a vida delas não tem nada a ver comigo. — Ele previa que Usagi protestasse, mas estava mais do que preparado para ouvir as objecções dela. Ela casaria, sim, e a ideia estava longe de desagradá-lo. O destino lhe concedera uma oportunidade, e ele não pretendia desperdiçá-la.
Usagi apertou uma almofada contra o peito. Casamento sem amor. Apenas mais um negócio proposto por ele, igual ao primeiro, que ela foi uma idiota ao aceitar. Por mais moderna que pudesse ser, não aceitaria tomar parte em uma união sem amor. Isso significaria dias, anos de amargura, de espera silenciosa pelo impossível. Iria se tornar um peso amarrado aos pés de Mamoru, que ele suportaria sem reclamar pelo bem do filho.
— Olha, Mamoru... — Usagi controlou o tom de voz, na tentativa de ser persuasiva. — Nós dois sabemos por que a gente se envolveu, e nós dois sabemos quais eram as regras desse envolvimento. Sem compromissos, o que dizer de casamento. — Como ela queria ter descoberto antes o que agora sabia, que Mamoru era um homem capaz de subtrair a emoção de qualquer situação. Sem emoção, tudo era possível, até mesmo casar-se com uma mulher que não amava. Ele teria relaçõs sexuais com ela até enjoar e, então, discretamente, conduziria uma vida privada fora do casamento. O filho o manteria ligado ao lar.
— Isso era antes, agora o momento é outro.
— Eu simplesmente não posso me casar com você. Eu não poderia me casar com ninguém sem amor. Por que você acha que nunca me casei com Motoki? Lá no fundo eu sabia que nunca poderia me casar com ele, pois não havia ali o tipo de amor que fizesse um casamento funcionar.
Mamoru simulou um riso curto e gozão.
— E que tipo de amor é esse, Usagi? O que leva uma cereja vermelha no topo?
— Você é tão cínico! — rebateu Usagi. — É o tipo de amor que mantém os meus pais juntos! E os seus pais, também!
Mamoru deu de ombros.
— Eles pertencem a uma geração diferente, e não costumo fugir das minhas responsabilidades.
— Não estou pedindo que fuja de nada! — protestou Usagi, desesperada. — Quando o bebé nascer, você poderá visitá-lo quando quiser...
— Quando o bebé nascer, não haverá necessidade disso, porque vai estar morando comigo, sob o meu teto, como a minha mulher. Eu não vou ter um filho meu nascendo de forma ilegítima... — Mamoru levantou a mão para impedir que Usagi, abismada, voltasse a protestar. — Não perca tempo em me dizer que ilegitimidade é a regra nos dias de hoje. De onde venho, bebés nascem de um matrimónio.
— De um matrimónio feliz. — Disse Usagi com voz trémula.
— Matrimónio feliz é um matrimónio que dá certo, e temos os ingredientes para que o matrimónio dê certo. Nós gostamos um do outro, a gente se entende muito bem na cama, vamos ter um filho, e, por último, sem o amor para embaralhar as coisas, a nossa relação tem ainda mais chances de sobreviver.
O último argumento, Mamoru sabia, era o mais importante para convencê-la. Frio e lógico. Nada de mencionar as noites em que ele se angustiara, quando a sua imaginação batia asas e se recusava a voltar à Terra. Lidaria com isso sozinho.
— E depois, quando... o entendimento na cama começar a minguar?
Mamoru olhou para baixo por alguns instantes. Minguar? Esta mulher o fazia sentir vivo de forma sensacional. Ele seriamente não podia imaginar o dia em que não a desejaria na cama.
— Por que se preocupar com algo que ainda não aconteceu? — perguntou Mamoru. — Agora, para quem você contou sobre... isso? Para os seus pais? Amigos?
Usagi fez-se de indiferente. Os pais podem ter engolido a vida dela em pecado com Motoki, mas solteira e grávida de um homem que eles não conheciam e que não figuraria como parte integrante da vida dela dali por diante era uma coisa bem diferente.
— Você é a única pessoa que sabe, e começo a me arrepender de não ter ficado com a boca fechada.
— Eu não ficaria se fosse você. — disse Mamoru de forma severa.
— Não ficaria o quê?
— Pensando no que teria acontecido se não tivesse me contado. Cedo ou tarde, eu descobriria, e você iria desejar não ter nascido.
— Se é assim que pretende me convencer a casar...
— Pense a respeito, Usagi. Como acha que eu reagiria? Como qualquer homem normal reagiria?
— Um monte dos chamados homens normais respiraria aliviado por não ter recebido o fardo de criar uma criança vinda do nada!
— Não há sentido em ficar discutindo isso até a eternidade. Quando você pretende contar para os seus pais?
— Logo — disse Usagi, incomodada.
— E o que você acha que eles vão dizer de você morando aqui sozinha e grávida?
Não muito, Usagi especulou, com a pior das sensações. Certamente não aplaudirão de alegria. Mais provável que mostrassem a sua decepção pelo silêncio.
— E o que eles vão dizer quando descobrirem que o pai da criança propôs casamento e você recusou?
O quadro se tornaria ainda mais desastroso.
— E como eles descobririam isso?
— Eu contaria, naturalmente.
— Isso é chantagem emocional!
Mamoru absteve-se de informá-la que faria isso e muito mais para recolocá-la de volta na vida dele, o lugar ao qual Usagi pertencia. Nem mesmo o seu orgulho, que o alfinetava a cada vez que ele imaginava Usagi o afastando com um aceno após o sexo, era capaz de demovê-lo do desejo, da necessidade de tê-la de volta.
— Claro — continuou Mamoru, sem hesitar, sem alterar o tom de voz, como uma escavadeira a forçar o solo firme. — E isso não vai ser nada comparado ao que o nosso filho vai sentir daqui a alguns anos, quando ele ou ela entender que uma vida em família havia sido possível, mas que a mãe teimosa...
Usagi ficou de queixo caído diante dos artifícios de Mamoru.
— Você não seria capaz — disse Usagi, quase sem voz.
— Eu seria, sim. Agora, vamos logo com isso.
Antes que Usagi pudesse se mover, Mamoru já estava junto à cómoda, gavetas abertas, colocando as roupas sobre a cama. Para ser mais preciso, em cima dela.
O branco na cabeça de Usagi se desfez, e ela começou a recolher as próprias roupas amontoadas, ao mesmo tempo que exigia dele explicações.
Mamoru parou por um instante e olhou firme para Usagi.
— Vamos tirar você daqui, obviamente. Você vai vir comigo.
— Coloque essas roupas de volta nas gavetas! Agora!
— Você vai acordar os vizinhos se continuar gritando desse jeito. Onde estão as suas malas? — Mamoru não lhe dera tempo para responder. Checou embaixo do sofá, o único lugar em que elas poderiam estar, e, decidido, puxou-as e começou a forrá-las com as roupas. — O resto vai ter que esperar até amanhã. Eu venho com Nicholas buscar o que sobrou. Como você mudou para cá, por falar nisso? Quem ajudou-a?
— Você não pode fazer isso! Eu não vou me casar com você, Mamoru Chiba!
— Não me diga que ficou trazendo as coisas por etapas, por conta própria, no seu estado.
— No meu estado? Eu estou grávida, não estou doente!
— Bem, enquanto estiver comigo, você não vai ficar carregando nada pra lá e pra cá. Você precisa se poupar. — Mamoru alongou os músculos e partiu para a cozinha, com Usagi em seu encalço.
— Eu disse. Eu não...
— Ótimo. Você guardou umas caixas. Isso aqui está bom para começar. — Ele puxou uma das caixas de papelão de debaixo da mesa. — Sente-se. Eu vou empacotar logo umas coisas por aqui. Menos trabalho para amanhã.
Usagi sentou-se. As suas pernas estavam bambas. E como não ficariam?
— Você não pode simplesmente entrar aqui e tomar conta da minha vida dessa maneira!
— Eu posso e estou. Esta é toda a comida que você tem neste lugar? — Mamoru olhou espantado dentro do armário da cozinha, praticamente vazio. Um vidro de café, açúcar, legumes e atum enlatados. — Você tem comido alguma coisa?
— Claro que sim! — O sentimento de culpa deixou-a na defensiva.
— Você nem tocou na comida nesta noite, eu percebi.
— Você vai me culpar? Eu estava me sentindo um pouco nervosa por ter de contar tudo!
— Você precisa, acima de tudo, dê supervisão para garantir que você coma direito. — Mamoru abriu a geladeira, quase tão vazia quanto o armário.
— Supervisão? Isso está ficando absurdo. E, por favor, feche esta geladeira? O motor começa a falhar quando ela fica aberta por muito tempo!
Mamoru fechou o frigorifico sem alarido, encostou-se nele e encarou Usagi com um olhar de censura.
— Isso diz tudo sobre este lugar, não é mesmo? O seu senhorio tem de ser denunciado. Por falar nisso, eu acho...
— Tudo bem! Eu volto para o apartamento. Tenho certeza de que a Haruka não se importará...
— Você vai comigo agora, e amanhã vamos às compras. Comprar as alianças. Depois, vamos cuidar da papelada. Você vai ligar para os seus pais, e eu vou ligar para os meus.
— Eu nem ainda contei para Motoki — sussurrou ela.
Usagi neste instante se sentiu muito frágil. Acomodou a cabeça entre os braços, sobre a mesa.
Desligou-se inclusive da presença de Mamoru, até ele tocá-la na cabeça. O gesto proporcionou a ela uma sensação de alívio. Ouviu-o então arrastar a outra cadeira e sentar-se ao seu lado.
— Que confusão — definiu Usagi, virando-se para olhá-lo, mas sem tirar a cabeça da mesa.
— Por que você está tão chateada por não ter contado a Motoki? — Mantenha a tranquilidade, Mamoru ordenou-se, nada de ameaças. A simples menção do nome daquele fracassado era o suficiente para acender a raiva dentro dele. Num momento como este, a última pessoa em quem ela deveria pensar era no ex-namorado.
— Nem havia pensado antes em contar para ele — admitiu Usagi.
Mamoru ficou tentado a abrir um sorriso. Controlou-se e continuou a acariciar os cabelos dela.
— E por que deveria? Sua mente deve estar um pouco fora do lugar. Estou surpreso que você consiga pensar de forma coerente.
— É, acho que sim. — Usagi levantou a cabeça. Os olhos grandes e azuis dela brilhavam ainda mais devido às lágrimas.
Um pensamento perturbador golpeou Mamoru com força. E se agora que ela podia estabelecer uma comparação, Usagi deduzia que o que sentia por Motoki era mesmo amor? O amor genuíno, aquele amor que ela não sentia por ele, Mamoru? Ele tinha consciência de que poderia ser arrogante e, na verdade, egoísta. E se Usagi decidira que era preferível a atitude não-estou-nem-aí-com-a-vida do ex-namorado ao monstro que não se importou em manipular a vida dela para conseguir o que queria? Não era assim que ela o via?
Mamoru trincou os dentes de dor e incerteza. Adicionou às duas sensações à já longa lista de sentimentos que transgrediam o autocontrole de ferro, a capacidade de concentração e o domínio completo sobre a própria vida, traços que ele considerava características da sua personalidade.
— Bem — Mamoru levantou-se, impaciente consigo mesmo. — Não faz sentido ficar perdendo tempo aqui. Vamos.
— Está bem. Eu vou com você, Mamoru, mas nada de alianças e nada de papelada.
— Vamos ver.
Usagi não embarcou em mais uma discussão infrutífera com ele. Por agora, ela iria para o apartamento dele e se asseguraria que dormiria no quarto de hóspedes. Amanhã, lhe diria o que tinha para dizer, imporia os seus limites, afirmaria as suas vontades, caso contrário, acabaria fazendo exatamente o que ele queria. Este era o seu maior temor. Seria conduzida a isso não por crer que o casamento era a única ou a melhor opção, mas porque a ideia de passar o resto da vida com o homem que ela amava era perigosamente sedutora.
A descoberta das manobras de Mamoru em relação ao emprego havia feito Usagi parar para pensar, e ela sabia que ou se agarrava ao que aprendera com o episódio, ou os riscos agora seriam maiores.
Somente ao deitar-se sozinha na cama, uma hora mais tarde, Usagi começou a sentir a pressão.
Ela conseguiu o que exigira, a solidão da cama do quarto de hóspedes, mas isto estava longe de ter um sabor de vitória. Mamoru cedeu à menor das reivindicações dela. E ainda assim, por quanto tempo? Ele não retornara ao tema casamento, mas Usagi não duvidava que na manhã seguinte a ofensiva seria retomada. Pelo menos, ele não tentara tocá-la, pois ela como sempre teria sucumbido aos seus braços.
A angústia lhe tirou boa parte do sono e aumentou quando, durante o resto do fim de semana, o assunto alianças, casamento e papelada não voltou à baila.
Eles passaram o sábado fazendo compras. Não em joalherias, mas em lojas de roupas femininas. Ela precisaria de trajes para gestantes, ele a assegurou. A dedicação dele até a sensibilizaria, se Usagi não estivesse tão ocupada em se proteger da perigosa rede com a qual Mamoru ameaçava envolvê-la.
Ele insistia em levá-la ao sector de alimentação da Harrods, determinado a ver se ela já poderia ter desejos de grávida. Usagi, relutante, acabou achando graça no esforço dele.
Toda a preocupação de Mamoru não era fingimento. Após o choque inicial, ele se surpreendia por se adaptar de maneira tão fácil à ideia de inserir uma criança em sua vida. Uma criança e uma esposa. Porque Usagi seria dele. No entanto, concluíra que forçar a situação como fizera no apartamento dela não serviria a nenhum propósito.
Usag era obstinada, e o erro dele foi pensar que ela docemente ouviria os seus argumentos e aceitaria a sua proposta. Equivocou-se pelo desespero em tê-la.
Para alguém que cresceu em uma realidade dura, que batalhou para vencer todas as adversidades, Usagi tinha uma visão romântica de amor e casamento. E essa visão não o incluía. Não ainda.
Mamoru passaria a maior parte da semana seguinte fora do país. O fato aliviou e ao mesmo tempo desapontou Usagi. Aliviou-se porque disporia de um tempo só para si para decidir como lidar com o presente impasse. Desapontou-se porque, gostasse ela disso ou não, sentiria saudade dele.
— Eu quero voltar na quinta-feira e encontrá-la aqui... — disse Mamoru. Ficou claro o tom de alerta dele ao se despedir na segunda-feira pela manhã.
— Certamente, não vou voltar para o meu apartamento, já que você disse ao senhorio que ele não veria mais a cor do meu dinheiro e o ameaçou, insinuando que colocaria fiscais atrás do pobre homem, se ele não melhorasse o estado do edifício. — Vestida também para o trabalho, Usagi lutava contra o violento impulso de aproximar-se de Mamoru e beijar aqueles lábios que insistiram em ficar longe dela durante todo o fim de semana.
Mamoru deve ter lido os pensamentos de Usagi, porque ele deu um beijo delicado, beijo que evoluiu para um explosivo, faminto.
Com as pernas bambas, Usagi se agarrou à lapela do casaco de Mamoru, puxando-o ao encontro dela, para sentir a língua dele invadir cada centímetro possível da sua boca.
Usagi tremia como uma folha de árvore quando, finalmente, eles se separaram. Ela podia admitir ou não, mas o seu corpo se recordava do dele e o desejava de volta.
Usagi afastou-se, e Mamoru ficou muito tentado a segurá-la, antes que ela tivesse tempo para recuar. Entretanto, Mamoru decidira dar um tempo. Na quinta-feira, ele voltaria e daria um basta nas hesitações dela. Usagi o desejava tanto quanto ele. Com o beijo, não restava dúvidas. É verdade que ela deixara claro que não o amava, mas, por carregar o filho dele, se casaria, sim.
Ele não mais permitiria que Usagi passasse as noites no quarto de hóspedes. Até quando iria aquela novela? Daria para ela todo o tempo do mundo para se adaptar à novidade, assumiria um papel de pai coadjuvante e depois veria chegar o dia em que Usagi arrumaria as malas para seguir com a vida que ele lhe permitira levar? Não. Casamento, cama de casal e uma vida a dois. Tudo poderia ser ajustado, uma vez que esses três pilares estivessem plantados.
Mamoru há semanas não sentia a satisfação que exibia ao sair para o trabalho. Usagi, que fechou a porta após a partida dele, não estava nada satisfeita. Pelo contrário, deixava-a furiosa o modo como ele, educadamente, sem remorsos ou maiores reflexões, baixava leis para as quais esperava completa obediência. Não podia continuar morando com Mamoru, porque ele acabaria passando um rolo compressor por cima dela. O amor de novo a faria de idiota.
Pela primeira vez desde que começou no emprego, Usagi se pegou distraída no trabalho. Era muito tarde para fugir? Mamoru a encontraria aonde fosse, e a raiva dele não teria limites. De qualquer modo, ele era o pai do seu bebé, e ela nunca poderia fugir daquela obrigação moral com o filho. Mas deixaria o apartamento dele. Mamoru só voltará na quinta. Tempo mais do que suficiente para empacotar as suas coisas e ir embora. Não tinha como voltar para o apartamento em Wimbledon. Também não para o que Mamoru lhe arrumara, pois dali ele a tiraria facilmente. Só restou um lugar. A casa de Motoki.
Às 18h30, de banho tomado, trocada e com o pequeno telefone celular na mão, Usagi, mesmo sentindo-se culpada, ligou para Motoki. No momento em que ouviu a voz do ex-namorado do outro lado da linha, ela se convencera de que a última coisa que poderia fazer era voltar para a casa dele. Aquela casa, Motoki e tudo que eles compartilharam pertenciam agora a um outro mundo. Desde então, ela dera passos gigantescos, para o bem ou para o mal, e não tinha como voltar atrás.
Contudo, foi maravilhoso ouvir a voz de Motoki, especialmente por ela sentir-se tão frágil. Num impulso, ela o convidou para uma visita, decidida a contá-lo sobre a gravidez. Ele não seria capaz de dizê-la o que fazer. Não tentaria suavizar a situação incómoda. Motoki era acima de tudo uma pessoa prática em lidar com a vida. Sentia-se infeliz e então mergulhara na bebida. Eles não se entendiam mais, e ele então terminara tudo. As soluções do ex-namorado não eram as mais recomendáveis, mas a franqueza dele, a falta de papas na língua, a animaria.
Quando, quarenta minutos depois, Motoki chegou, Usagi parecia ver um estranho. Ele era mais baixo do que ela lembrava, e o rosto bonito que fizera o coração da menina de 16 anos acelerar não podia ser comparado à beleza agressiva de Mamoru.
Usagi piscou, sorriu e se encheu de afeto ao vê-lo. Hesitante, ele estendeu um buquê de flores para ela.
— Você parece óptima, Usagi. — Motoki sorriu e olhou em volta o apartamento luxuoso de Mamoru. — Este estilo fino de vida combina com você. Eu trouxe isto. — Ele entregou as flores para ela e, admirado, deu uma nova olhadela no ambiente, enquanto ela pegava uma cerveja para servi-lo.
— Nada de álcool, querida.
— Você parou de beber!
Motoki a seguiu até a cozinha, pendurando o casaco jeans em uma das cadeiras no caminho.
— Tive que parar. Não poderia arrumar um emprego de outra maneira, depois que você fugiu e deixou todas as contas para pagar.
Usagi virou-se para Motoki e deu de cara com ele sorrindo.
— É, é isso mesmo. Consegui um emprego, você acredita? O velho Jeidite do bar da esquina arrumou um trabalho para mim com um dos seus fornecedores, e agora não bebo mais, Usagi, eu vendo bebida. — Motoki sentara-se em um dos bancos altos em cromo junto à bancada. — Agora, só bebo nos fins de semana.
— Nada de álcool, um emprego... Você se importa de perguntar por que isso nunca passou pela sua cabeça quando eu ainda estava por perto? — Usagi se sentiu muito feliz por tê-lo procurado e também culpada por não ter feito isso há mais tempo. Na verdade, isso nem havia passado pela cabeça dela. Mamoru se apossou dos seus pensamentos, da sua vida, e não havia restado nada para mais ninguém.
Ela preparou um café, sentou-se diante dele na bancada e abriu o coração. Escancarou. Contou tudo. Ela precisava desabafar com alguém e, por mais incrível que pareça, depois de todo o tempo em que eles ficaram sem diálogo, Motoki era a pessoa que a ouvia, fazendo os gestos e ruídos de quem acolhia e compreendia.
— E então? O que devo fazer? — indagou Usagi, dando-se conta que terminara a xícara de café e que precisava esticar as pernas. Ela levantou-se, pegou a garrafa de água na geladeira e olhou para Motoki, ansiosa.
— Case com o bacana. Eu não vejo problemas, mas você sempre foi muito obstinada, Usagi. Você mete uma coisa na cabeça e não consegue tirar.
— Eu devo ir embora. Eu sei que devo, Motoki.
— Por quê? Para onde você vai? Usagi deu de ombros e suspirou.
— Seja realista, Usagi, um homem como esse não vai deixar você viver num buraco enquanto tiver o bebé dele na barriga. Ele vai cuidar do que é dele!
— Este é o problema, Motoki. Ele não pode me comprar, e ele não me ama. Eu preciso sair dessa.
— Não, você não precisa. — Motoki deu um suspiro. — Você se lembra quando a gente era criança, Usagi? A gente ficava na rua como pequenos mendigos, sem modos, uniformes escolares usados. Por que escolher isso para o seu filho, quando você pode ter o melhor?
— Não exagera. Além disso, consegui um emprego...
— Por quanto tempo? — Motoki a encarou, pensativo, e depois baixou os olhos numa rara demonstração de constrangimento. — Você não pode bancar ainda uma casa decente pelo que você me disse. E, Usagi, eu adoraria ajudar, mas tenho um probleminha...
— Eu não estou pedindo sua ajuda. — Mas ele despertou a curiosidade dela. — Probleminha...?
— O seu finório não é o único cara que vai ser pai. — A expressão no rosto de Motoki era de culpa e felicidade. — Na verdade, Usagi, eu estava saindo com uma garota antes de a gente terminar. Ela se chama Reika. Eu me odiei por tê-la traído, sei que não fui sincero com você, mas não podia simplesmente pedir a você que fosse embora. Perdão, Usagi. — Motoki soltou a respiração. — Ela está morando comigo, e acho que ela não vai gostar se eu oferecer um quarto para a minha ex.
A mente de Usagi reagiu com surpresa, indignação e alegria. A alegria sobressaiu, e ela sem pensar o abraçou, mais certa do que nunca de que o tipo de afecto que eles por tanto tempo dividiram não existia mais.
E os braços de Motoki responderam ao gesto dela no exato instante em que uma chave abriu a fechadura da porta da frente, e Mamoru entrou no apartamento.
Tá tudo gozando!!!!! omg
bem s fosse a bunny eu aceitava o Mamoru mal ele tinha pedido. o motoki traiu a? O.O ker dizer, andava cm outra, enquanto k a bunny n ligava nenhuma? Mamoru comeca a mexer te, toda a gente ta a apoiar a tua decisao, ate o motoki. E bunny da la uma chance ao jeitoso, de certeza k ele n ker mal, so ker tar ctg lol
beijo e fico a espera do proximo
beijo e fico a espera do proximo
CAPÍTULO X
— Que diabos está acontecendo aqui?
Usagi e Motoki foram um para cada lado, como amantes pegos em flagrante. Mais do que tudo apreensiva, ela não pôde deixar de sentir uma pontinha de alegria pela volta inesperada de Mamoru, apesar da expressão de ódio com que ele avançou em direção à bancada.
Motoki saltou do banco e com as mãos nos bolsos e cara de bravo. Usagi reconheceu a reacção. O ex-namorado nunca levantara uma mão para ela, mas já tinha se envolvido em inúmeras confusões de bar para que Usagi soubesse quando ele se preparava para uma briga.
A consciência de que Motoki levaria a pior contra o homem enorme que o mirava raivoso levou Usagi a se posicionar no meio dos dois.
— Nada está acontecendo aqui, Mamoru — disse Usagi, tentando demonstrar frieza. Ela nunca o tinha visto assim. Nervoso a ponto de matar alguém.
— Você é o tal de Motoki, não é? Bem, se você quiser continuar inteiro, sugiro que você se mande agora da minha casa, antes que eu jogue o que sobrar de você pela janela.
— Tente, meu canalha. — A voz de Motoki soou menos confiante do que as suas palavras. — Eu estava de saída quando você chegou.
— Você o chamou aqui? — Os olhos azuis e brilhantes de Mamoru focaram no rosto branco de Usagi. Ela balançou a cabeça positivamente. Motoki ainda dava uma impressão convincente de que não se deixaria enxotar por homem nenhum. — Saia daqui agora. E nem pense em voltar, porque você não vai ser convidado de novo. Não é, Usagi?
Ela se pegou de novo acenando a cabeça, concordando com Mamoru. Motoki partiu, e Mamoru, do outro lado da sala, tinha os olhos inflamados fixos nela. Era vez de Usagi pedir explicações.
— Você tinha que agir como um marginal? — As palavras saíram de forma impulsiva da sua boca, e ele teve uma reação imediata. Em segundos, eles já estavam cara a cara.
— Ele devia agradecer por não lhe ter quebrado o pescoço! — esbravejou Mamoru. — No que diabos você estava pensando para chamar o seu ex-namorado aqui? Quando o gato vai embora os ratos saem para brincar?
Bombardeada com perguntas insultuosas, Usagi, perplexa, permaneceu em silêncio. Terminada a munição, Mamoru desapareceu em direção ao quarto.
Ela o seguiu em passos acelerados e chegou ao quarto no momento em que ele com um movimento se livrava da camisa e se sentava na cama.
— Eu pensei que você não voltaria até quinta-feira — disse Usagi, impressionada com os músculos dos ombros dele.
— Desculpe por desapontá-la, querida.
— Eu sei o que você está pensando, Mamoru.
— Eu sei o que vi. — Ele desafivelou o cinto.
— É por causa disso que não podemos nos casar!
— Por causa disso o quê? Por que você não seria capaz de se afastar do seu ex-amante?
— Porque você é um machista arrogante!
— Eu não considero arrogante esperar que você convide ex-amantes para o meu apartamento!
— Eu precisava conversar com alguém.
— Você pode conversar comigo! — disse Mamoru. Cada palavra que deixava a sua boca era equivocada. Ele sabia disso, mas não conseguia se controlar.
Mamoru se dirigia para o banheiro, quando parou, virou-se para ela e voltou à carga:
— Fala! Você não quer falar? Fala!
— Não com você neste estado. — Usagi gemeu baixinho e escondeu o rosto com as mãos, mas não a tempo de Mamoru perceber que ela chorava. Deixá-la sozinha agora seria o fim. Ele tinha consciência disso tanto quanto sabia que o fim da relação significaria o fim dele também. Sem alternativas, respirou fundo e se aproximou na expectativa de que ela o afastaria.
Em vez disso, Usagi baixou a guarda, rendeu-se ao abraço e, com um suspiro de cansaço, escondeu a cabeça no peito nu de Mamoru. Ela pôde ouvir a emoção do coração dele e espalmou ali a mão para também senti-la.
— Eu não posso suportar a idéia de que você tenha qualquer coisa a ver com aquele homem. — Com os dedos entre os cabelos dela, Mamoru a apertava contra o seu peito.
— Você está com ciúme?
Mamoru forçou uma risada.
— Eu? Ciúme? De alguém como Motoki? Sim, estou.
O coração de Usagi disparou. Quanto custaria para um homem como Mamoru admitir tal fraqueza? Fraqueza para ele, pois ela não via assim. Ela se livrou do abraço para poder olhá-lo nos olhos.
— O que você está tentando me dizer, Mamoru?
— Nada. — Ele virou o rosto, ruborizado de vergonha.
— Ah, tudo bem. Eu tive uma esperança... — Usagi baixou a cabeça e sentou-se na cama.
— Esperança? De quê? — interrompeu Mamoru. — Você está dizendo... — insistiu, até que Usagi o olhasse novamente.
— Eu não amo o Motoki, caso você esteja com medo disso.
Mamoru deu um sorriso . Olhava para ela, olhava para a parede.
— Claro que não ama — afirmou ele, tão metido que Usagi achou graça.
— Isso não significa que aceite seu comportamento, embora... acho que entenda. Eu não deveria tê-lo convidado. Foi um acto estúpido.
— Ele não deveria ter vindo. — Ela não amava Motoki. Ele sentia-se como uma criança em uma loja de brinquedos. — Eu suponho que ele tenha ficado sentido quando você falou sobre o nosso filho.
— Pelo contrário. Ele também vai ser pai. — Usagi deitou-se na cama, com o olhar perdido no teto e a cabeça apoiada nas mãos. — Ele estava tendo uma outra relação nos últimos meses que passamos juntos.
— Que canalha! — Como um homem em sã consciência pode ter uma amante quando recebe a bênção de morar com uma mulher fabulosa como aquela?
Agora Mamoru sentava na cama.
— E você ficou furiosa?
— Furiosa? Por que ele me traía? Eu gostaria que ele tivesse tido a coragem de me contar na ocasião, mas não fiquei furiosa.
— Você tem certeza?
Usagi se encostou nos travesseiros na cabeceira da cama, encolheu as pernas e o olhou com um sorriso.
Ela não aguentava mais aquele jogo. Poderia afugentá-lo, mas assumiria seus sentimentos em relação a ele, pois agora sabia que Mamoru sentia mais do que desejo. Ele gostava dela. Do contrário, jamais admitiria o ciúme. E gostar poderia evoluir para amar, não é?
— Tem uma coisa que quero dizer para você. — Usagi tinha a voz trêmula. Mamoru estava concentrado, pronto para ouvi-la.
— O quê? — sussurrou Mamoru.
— Quando a gente se conheceu... Quando você me abordou pela primeira vez... Não... Eu não estou dizendo o que quero dizer...
— Você não precisa dizer nada — disse Mamoru. — Apenas... Apenas case-se comigo. Depois, a gente conversa. — Rebaixar-se a esse nível. Que tipo de homem era ele? Ele deveria exigir o casamento, e não implorar daquele jeito.
— Está certo.
O silêncio assemelhava-se a uma corrente elétrica em volta deles. Antes que Mamoru pudesse quebrá-lo, Usagi levantou a mão. Ela respirou fundo.
— Não porque você acha que não tenho outra alternativa. Eu tenho. Nós poderíamos ter uma criança, sem nos casarmos. Eu vou me casar com você por que...
— Por que...
— Porque em qualquer casamento, não importa o que você diga, tem de haver amor, e o amo. Em algum momento, você derrubou as minhas barreiras, e me apaixonei. Eu tenho por você amor suficiente que dê para nós dois, e, se vier a me decepcionar, tudo bem. Eu apenas não posso mais continuar lutando contra isso. — Ela enfim dissera. Fechou os olhos, suspirou e jogou a cabeça para trás.
Usagi notou que ele se aproximou, mas tinha muito receio para abrir os olhos e encará-lo.
— Eu compreenderei se você quiser reconsiderar o seu pedido de casamento, depois disso.
— Você pode... Você pode repetir o que você acabou de dizer?
— Eu entenderei se você mudar de opinião.
— Não, não esta parte. A outra parte.
Agora, Usagi abriu os olhos e viu a expressão de contentamento em seu rosto.
— Não é nada engraçado — afirmou ela, recusando-se a acreditar no que o coração lhe dizia. O coração dela não era confiável.
— Sim, é engraçado. É muito engraçado por que... — Ele ainda sorria como um bobo ao tocar sua bochecha apenas com um dedo. — Porque voltei com antecedência a fim de contar-lhe o mais rápido possível a mesma coisa.
Usagi duvidou de que escutara corretamente.
— Você me ama? Amor... Amor, mesmo? Ou apenas gosta muito?
— O sentimento que nunca tive por qualquer mulher que tenha passado pela minha vida. — Mamoru baixou a cabeça e a beijou, um beijo longo, lento, que parecia durar para sempre.
Ele então ajeitou-se na cama para ter uma visão completa de Usagi.
— Quando vi na boate, fervi. Nunca havia sentido um desejo tão forte por uma mulher. Quando você não me respondeu da maneira que esperava, alguma coisa me fez persegui-la.
— Meu pobre Mamoru. Sentir-se impelido a perseguir uma mulher. Deve ter sido um choque.
— Você está gostando disso, não está? — brincou Mamoru. — Você gosta do fato de estar totalmente sob o seu poder?
Usagi fez que sim com a cabeça e riu para ele.
— É uma via de duas mãos — murmurou ela.
— Eu sei disso. — Usagi não tinha nada por baixo vestido de algodão. Mamoru retirou o agasalho dela e acariciou-lhe os seios, como se fosse o seu dono. — Sem sutiã. Ainda bem que não sabia disso quando a encontrei abraçada com o seu ex. Eu o jogaria pela janela.
— E ele não teria merecido isso. — Usagi envolveu seu pescoço com os braços e se empinou um pouco para sentir os seus mamilos contra o peito de Mamoru.
— Você disse a ele que me amava? Que ele não significava nada para você?
— Mais ou menos isso.
— Óptimo. — Com uma das mãos, ele começou a deixar a calça de malha de Usagi. Ela o auxiliou balançando as pernas.
— E você não ficou chateado por causa do bebé?
— Chateado? — Mamoru riu, divertindo-se pelo tanto que ela se equivocara. — Você estava grávida, e isso me dava a desculpa perfeita para fazê-la casar comigo.
— Eu nem suspeitei disso. Eu pensei que você estava apenas assumindo as suas responsabilidades e que seria um peso indesejado a despencar na sua vida.
— Bobinha.
Uusagi não saberia precisar quando exatamente eles se despiram completamente. Ela percebeu, sim, quando os dois fizeram amor, um sentimento doce de completa felicidade, acompanhando o conhecido desejo intenso.
Depois, eles retomaram a conversa que haviam interrompido.
— Eu nunca tentei manipulá-la quando consegui o emprego para você — murmurou Mamoru. Tinha uma das mãos repousada, possessiva, sobre os seios de Usagi, e a outra encaixada sob a cabeça dela. — Eu acho que já a amava, eu queria vê-la longe daquela casa, longe daquele homem. Contar sobre o que eu havia feito tornava-se cada vez mais difícil, à medida que ficava cada vez mais envolvido, mais dependente de você.
— Dependente? — Aquelas palavras eram música para os ouvidos de Usagi.
— Inteiramente dependente. De um homem que não suportava a ideia de uma mulher a se meter na sua vida, virei um frustrado porque a mulher para quem eu dissera que queria um relacionamento sem compromissos me tomou ao pé da letra. Eu a queria possessiva, porque eu estava ficando mais e mais possessivo.
— Que bom — reagiu Usagi, extasiada. Ela escorregou a mão pela barriga de músculos definidos de Mamoru mais para baixo, onde a masculinidade dele dizia o quanto estavam atraídos um pelo outro.
Mamoru, a exemplo de Usagi, esticou o braço para senti-la e a acariciou até que ela começasse a tremer.
— Não tem problema para a gente fazer... fazer isso? Fazer amor não vai machucar o bebé, vai...?
— Eu acho que a gente pode fazer amor quantas vezes quiser. — A respiração de Usagi se acelerou em resposta aos dedos dele, e ela gemia em meio ao esforço para manter o fôlego. — Nosso lindo bebé vai nascer em uma casa cheia de amor. O que poderia ser melhor?
Mamoru Júnior Chiba nasceu mesmo em um ambiente de amor, e ele deve ter se dado conta disso, pois foi o mais feliz dos bebés. Cabelos e olhos escuros e brilhantes, ele era a imagem do pai orgulhoso. Aos oito meses, já engatinhava com energia pelo quarto.
O casamento do casal foi simples, sem pompas. Não foi necessário o tradicional esforço para quebrar o gelo entre os pais do noivo e da noiva, já que o bebé era assunto suficiente para que as famílias se integrassem, assim como o longamente planejado batizado na Grécia. Motoki e a sua namorada estiveram presentes, com o consentimento de Mamoru, assim como Tayki e algumas meninas da boate com quem Usagi manteve contato. A casa de campo de Mamoru, onde agora o casal vive com o filho, é grande o bastante para alojar a mãe e o pai de Usagi, quando decidem visitá-los. A visita dos sogros dá a Mamoru a oportunidade de passar um excitante fim de semana a dois com a esposa no seu apartamento em Londres.
E era justamente ali onde agora eles estavam, esparramados no colchão king-size, saciados após uma longa sessão de sexo, que começara às 18 horas, quando eles voltaram de um agitado dia de compras, e somente interrompida pela necessidade de degustar a comida tailandesa que o casal pedira a um restaurante que entregasse em casa.
Nesses ocasionais fins de semana a sós, Usagi se alegrava por ver Mamoru mais ansioso do que ela sobre como estaria Mamoru Juniorr sem eles. Neste instante, ele, com a testa franzida de preocupação, pensava nos riscos de um acidente por causa dos primeiros movimentos do filho. O bebé não respeitava nada quando saía em exploração.
Usagi concedeu um tempo para o discurso rabugento de pai superprotetor, antes de se encolher junto ao peito de Mamoru com um sorriso.
— E estou aqui — murmurou ela, contornando a boca dele com o dedo. — Eu pensava ser mulher o suficiente para distraí-lo das suas pequenas preocupações...
Mamoru agarrou o dedo dela com a boca, começou a sugá-lo e presenciou o rosto de Usagi corar de prazer.
— Você sabe do que você precisa, não sabe? — provocou ela.
— É claro que sei, minha bruxinha adorável...
— Uma outra criança... — Usagi esperou que Mamoru processasse a informação. Observava o rosto lindo dele, o rosto que um dia foi tão misterioso, e que agora revelava amor em cada traço.
— Você não está...
— Eu estou. Eu fiz o teste nesta manhã e estava aguardando a melhor hora para contar.
— Um outro bambino.
— Ou bambina. — Usagi riu, divertindo-se com a cara que ele fazia.
— Como a mama. — Ele sorriu, beijou-a na ponta do nariz e pela primeira vez se perguntou o que ele havia feito para alcançar uma felicidade tão perfeita como aquela...
— Que diabos está acontecendo aqui?
Usagi e Motoki foram um para cada lado, como amantes pegos em flagrante. Mais do que tudo apreensiva, ela não pôde deixar de sentir uma pontinha de alegria pela volta inesperada de Mamoru, apesar da expressão de ódio com que ele avançou em direção à bancada.
Motoki saltou do banco e com as mãos nos bolsos e cara de bravo. Usagi reconheceu a reacção. O ex-namorado nunca levantara uma mão para ela, mas já tinha se envolvido em inúmeras confusões de bar para que Usagi soubesse quando ele se preparava para uma briga.
A consciência de que Motoki levaria a pior contra o homem enorme que o mirava raivoso levou Usagi a se posicionar no meio dos dois.
— Nada está acontecendo aqui, Mamoru — disse Usagi, tentando demonstrar frieza. Ela nunca o tinha visto assim. Nervoso a ponto de matar alguém.
— Você é o tal de Motoki, não é? Bem, se você quiser continuar inteiro, sugiro que você se mande agora da minha casa, antes que eu jogue o que sobrar de você pela janela.
— Tente, meu canalha. — A voz de Motoki soou menos confiante do que as suas palavras. — Eu estava de saída quando você chegou.
— Você o chamou aqui? — Os olhos azuis e brilhantes de Mamoru focaram no rosto branco de Usagi. Ela balançou a cabeça positivamente. Motoki ainda dava uma impressão convincente de que não se deixaria enxotar por homem nenhum. — Saia daqui agora. E nem pense em voltar, porque você não vai ser convidado de novo. Não é, Usagi?
Ela se pegou de novo acenando a cabeça, concordando com Mamoru. Motoki partiu, e Mamoru, do outro lado da sala, tinha os olhos inflamados fixos nela. Era vez de Usagi pedir explicações.
— Você tinha que agir como um marginal? — As palavras saíram de forma impulsiva da sua boca, e ele teve uma reação imediata. Em segundos, eles já estavam cara a cara.
— Ele devia agradecer por não lhe ter quebrado o pescoço! — esbravejou Mamoru. — No que diabos você estava pensando para chamar o seu ex-namorado aqui? Quando o gato vai embora os ratos saem para brincar?
Bombardeada com perguntas insultuosas, Usagi, perplexa, permaneceu em silêncio. Terminada a munição, Mamoru desapareceu em direção ao quarto.
Ela o seguiu em passos acelerados e chegou ao quarto no momento em que ele com um movimento se livrava da camisa e se sentava na cama.
— Eu pensei que você não voltaria até quinta-feira — disse Usagi, impressionada com os músculos dos ombros dele.
— Desculpe por desapontá-la, querida.
— Eu sei o que você está pensando, Mamoru.
— Eu sei o que vi. — Ele desafivelou o cinto.
— É por causa disso que não podemos nos casar!
— Por causa disso o quê? Por que você não seria capaz de se afastar do seu ex-amante?
— Porque você é um machista arrogante!
— Eu não considero arrogante esperar que você convide ex-amantes para o meu apartamento!
— Eu precisava conversar com alguém.
— Você pode conversar comigo! — disse Mamoru. Cada palavra que deixava a sua boca era equivocada. Ele sabia disso, mas não conseguia se controlar.
Mamoru se dirigia para o banheiro, quando parou, virou-se para ela e voltou à carga:
— Fala! Você não quer falar? Fala!
— Não com você neste estado. — Usagi gemeu baixinho e escondeu o rosto com as mãos, mas não a tempo de Mamoru perceber que ela chorava. Deixá-la sozinha agora seria o fim. Ele tinha consciência disso tanto quanto sabia que o fim da relação significaria o fim dele também. Sem alternativas, respirou fundo e se aproximou na expectativa de que ela o afastaria.
Em vez disso, Usagi baixou a guarda, rendeu-se ao abraço e, com um suspiro de cansaço, escondeu a cabeça no peito nu de Mamoru. Ela pôde ouvir a emoção do coração dele e espalmou ali a mão para também senti-la.
— Eu não posso suportar a idéia de que você tenha qualquer coisa a ver com aquele homem. — Com os dedos entre os cabelos dela, Mamoru a apertava contra o seu peito.
— Você está com ciúme?
Mamoru forçou uma risada.
— Eu? Ciúme? De alguém como Motoki? Sim, estou.
O coração de Usagi disparou. Quanto custaria para um homem como Mamoru admitir tal fraqueza? Fraqueza para ele, pois ela não via assim. Ela se livrou do abraço para poder olhá-lo nos olhos.
— O que você está tentando me dizer, Mamoru?
— Nada. — Ele virou o rosto, ruborizado de vergonha.
— Ah, tudo bem. Eu tive uma esperança... — Usagi baixou a cabeça e sentou-se na cama.
— Esperança? De quê? — interrompeu Mamoru. — Você está dizendo... — insistiu, até que Usagi o olhasse novamente.
— Eu não amo o Motoki, caso você esteja com medo disso.
Mamoru deu um sorriso . Olhava para ela, olhava para a parede.
— Claro que não ama — afirmou ele, tão metido que Usagi achou graça.
— Isso não significa que aceite seu comportamento, embora... acho que entenda. Eu não deveria tê-lo convidado. Foi um acto estúpido.
— Ele não deveria ter vindo. — Ela não amava Motoki. Ele sentia-se como uma criança em uma loja de brinquedos. — Eu suponho que ele tenha ficado sentido quando você falou sobre o nosso filho.
— Pelo contrário. Ele também vai ser pai. — Usagi deitou-se na cama, com o olhar perdido no teto e a cabeça apoiada nas mãos. — Ele estava tendo uma outra relação nos últimos meses que passamos juntos.
— Que canalha! — Como um homem em sã consciência pode ter uma amante quando recebe a bênção de morar com uma mulher fabulosa como aquela?
Agora Mamoru sentava na cama.
— E você ficou furiosa?
— Furiosa? Por que ele me traía? Eu gostaria que ele tivesse tido a coragem de me contar na ocasião, mas não fiquei furiosa.
— Você tem certeza?
Usagi se encostou nos travesseiros na cabeceira da cama, encolheu as pernas e o olhou com um sorriso.
Ela não aguentava mais aquele jogo. Poderia afugentá-lo, mas assumiria seus sentimentos em relação a ele, pois agora sabia que Mamoru sentia mais do que desejo. Ele gostava dela. Do contrário, jamais admitiria o ciúme. E gostar poderia evoluir para amar, não é?
— Tem uma coisa que quero dizer para você. — Usagi tinha a voz trêmula. Mamoru estava concentrado, pronto para ouvi-la.
— O quê? — sussurrou Mamoru.
— Quando a gente se conheceu... Quando você me abordou pela primeira vez... Não... Eu não estou dizendo o que quero dizer...
— Você não precisa dizer nada — disse Mamoru. — Apenas... Apenas case-se comigo. Depois, a gente conversa. — Rebaixar-se a esse nível. Que tipo de homem era ele? Ele deveria exigir o casamento, e não implorar daquele jeito.
— Está certo.
O silêncio assemelhava-se a uma corrente elétrica em volta deles. Antes que Mamoru pudesse quebrá-lo, Usagi levantou a mão. Ela respirou fundo.
— Não porque você acha que não tenho outra alternativa. Eu tenho. Nós poderíamos ter uma criança, sem nos casarmos. Eu vou me casar com você por que...
— Por que...
— Porque em qualquer casamento, não importa o que você diga, tem de haver amor, e o amo. Em algum momento, você derrubou as minhas barreiras, e me apaixonei. Eu tenho por você amor suficiente que dê para nós dois, e, se vier a me decepcionar, tudo bem. Eu apenas não posso mais continuar lutando contra isso. — Ela enfim dissera. Fechou os olhos, suspirou e jogou a cabeça para trás.
Usagi notou que ele se aproximou, mas tinha muito receio para abrir os olhos e encará-lo.
— Eu compreenderei se você quiser reconsiderar o seu pedido de casamento, depois disso.
— Você pode... Você pode repetir o que você acabou de dizer?
— Eu entenderei se você mudar de opinião.
— Não, não esta parte. A outra parte.
Agora, Usagi abriu os olhos e viu a expressão de contentamento em seu rosto.
— Não é nada engraçado — afirmou ela, recusando-se a acreditar no que o coração lhe dizia. O coração dela não era confiável.
— Sim, é engraçado. É muito engraçado por que... — Ele ainda sorria como um bobo ao tocar sua bochecha apenas com um dedo. — Porque voltei com antecedência a fim de contar-lhe o mais rápido possível a mesma coisa.
Usagi duvidou de que escutara corretamente.
— Você me ama? Amor... Amor, mesmo? Ou apenas gosta muito?
— O sentimento que nunca tive por qualquer mulher que tenha passado pela minha vida. — Mamoru baixou a cabeça e a beijou, um beijo longo, lento, que parecia durar para sempre.
Ele então ajeitou-se na cama para ter uma visão completa de Usagi.
— Quando vi na boate, fervi. Nunca havia sentido um desejo tão forte por uma mulher. Quando você não me respondeu da maneira que esperava, alguma coisa me fez persegui-la.
— Meu pobre Mamoru. Sentir-se impelido a perseguir uma mulher. Deve ter sido um choque.
— Você está gostando disso, não está? — brincou Mamoru. — Você gosta do fato de estar totalmente sob o seu poder?
Usagi fez que sim com a cabeça e riu para ele.
— É uma via de duas mãos — murmurou ela.
— Eu sei disso. — Usagi não tinha nada por baixo vestido de algodão. Mamoru retirou o agasalho dela e acariciou-lhe os seios, como se fosse o seu dono. — Sem sutiã. Ainda bem que não sabia disso quando a encontrei abraçada com o seu ex. Eu o jogaria pela janela.
— E ele não teria merecido isso. — Usagi envolveu seu pescoço com os braços e se empinou um pouco para sentir os seus mamilos contra o peito de Mamoru.
— Você disse a ele que me amava? Que ele não significava nada para você?
— Mais ou menos isso.
— Óptimo. — Com uma das mãos, ele começou a deixar a calça de malha de Usagi. Ela o auxiliou balançando as pernas.
— E você não ficou chateado por causa do bebé?
— Chateado? — Mamoru riu, divertindo-se pelo tanto que ela se equivocara. — Você estava grávida, e isso me dava a desculpa perfeita para fazê-la casar comigo.
— Eu nem suspeitei disso. Eu pensei que você estava apenas assumindo as suas responsabilidades e que seria um peso indesejado a despencar na sua vida.
— Bobinha.
Uusagi não saberia precisar quando exatamente eles se despiram completamente. Ela percebeu, sim, quando os dois fizeram amor, um sentimento doce de completa felicidade, acompanhando o conhecido desejo intenso.
Depois, eles retomaram a conversa que haviam interrompido.
— Eu nunca tentei manipulá-la quando consegui o emprego para você — murmurou Mamoru. Tinha uma das mãos repousada, possessiva, sobre os seios de Usagi, e a outra encaixada sob a cabeça dela. — Eu acho que já a amava, eu queria vê-la longe daquela casa, longe daquele homem. Contar sobre o que eu havia feito tornava-se cada vez mais difícil, à medida que ficava cada vez mais envolvido, mais dependente de você.
— Dependente? — Aquelas palavras eram música para os ouvidos de Usagi.
— Inteiramente dependente. De um homem que não suportava a ideia de uma mulher a se meter na sua vida, virei um frustrado porque a mulher para quem eu dissera que queria um relacionamento sem compromissos me tomou ao pé da letra. Eu a queria possessiva, porque eu estava ficando mais e mais possessivo.
— Que bom — reagiu Usagi, extasiada. Ela escorregou a mão pela barriga de músculos definidos de Mamoru mais para baixo, onde a masculinidade dele dizia o quanto estavam atraídos um pelo outro.
Mamoru, a exemplo de Usagi, esticou o braço para senti-la e a acariciou até que ela começasse a tremer.
— Não tem problema para a gente fazer... fazer isso? Fazer amor não vai machucar o bebé, vai...?
— Eu acho que a gente pode fazer amor quantas vezes quiser. — A respiração de Usagi se acelerou em resposta aos dedos dele, e ela gemia em meio ao esforço para manter o fôlego. — Nosso lindo bebé vai nascer em uma casa cheia de amor. O que poderia ser melhor?
Mamoru Júnior Chiba nasceu mesmo em um ambiente de amor, e ele deve ter se dado conta disso, pois foi o mais feliz dos bebés. Cabelos e olhos escuros e brilhantes, ele era a imagem do pai orgulhoso. Aos oito meses, já engatinhava com energia pelo quarto.
O casamento do casal foi simples, sem pompas. Não foi necessário o tradicional esforço para quebrar o gelo entre os pais do noivo e da noiva, já que o bebé era assunto suficiente para que as famílias se integrassem, assim como o longamente planejado batizado na Grécia. Motoki e a sua namorada estiveram presentes, com o consentimento de Mamoru, assim como Tayki e algumas meninas da boate com quem Usagi manteve contato. A casa de campo de Mamoru, onde agora o casal vive com o filho, é grande o bastante para alojar a mãe e o pai de Usagi, quando decidem visitá-los. A visita dos sogros dá a Mamoru a oportunidade de passar um excitante fim de semana a dois com a esposa no seu apartamento em Londres.
E era justamente ali onde agora eles estavam, esparramados no colchão king-size, saciados após uma longa sessão de sexo, que começara às 18 horas, quando eles voltaram de um agitado dia de compras, e somente interrompida pela necessidade de degustar a comida tailandesa que o casal pedira a um restaurante que entregasse em casa.
Nesses ocasionais fins de semana a sós, Usagi se alegrava por ver Mamoru mais ansioso do que ela sobre como estaria Mamoru Juniorr sem eles. Neste instante, ele, com a testa franzida de preocupação, pensava nos riscos de um acidente por causa dos primeiros movimentos do filho. O bebé não respeitava nada quando saía em exploração.
Usagi concedeu um tempo para o discurso rabugento de pai superprotetor, antes de se encolher junto ao peito de Mamoru com um sorriso.
— E estou aqui — murmurou ela, contornando a boca dele com o dedo. — Eu pensava ser mulher o suficiente para distraí-lo das suas pequenas preocupações...
Mamoru agarrou o dedo dela com a boca, começou a sugá-lo e presenciou o rosto de Usagi corar de prazer.
— Você sabe do que você precisa, não sabe? — provocou ela.
— É claro que sei, minha bruxinha adorável...
— Uma outra criança... — Usagi esperou que Mamoru processasse a informação. Observava o rosto lindo dele, o rosto que um dia foi tão misterioso, e que agora revelava amor em cada traço.
— Você não está...
— Eu estou. Eu fiz o teste nesta manhã e estava aguardando a melhor hora para contar.
— Um outro bambino.
— Ou bambina. — Usagi riu, divertindo-se com a cara que ele fazia.
— Como a mama. — Ele sorriu, beijou-a na ponta do nariz e pela primeira vez se perguntou o que ele havia feito para alcançar uma felicidade tão perfeita como aquela...
FIM
Tá tudo gozando!!!!! omg
tatxianny escreveu:Isto deve ser a coisa mais difícil de um homem admitir.
— Eu? Ciúme? De alguém como Motoki? Sim, estou.
tatxianny escreveu:Adorei esta parte. A maneira como ela diz que o ama está maravilhosa
— Porque em qualquer casamento, não importa o que você diga, tem de haver amor, e o amo. Em algum momento, você derrubou as minhas barreiras, e me apaixonei. Eu tenho por você amor suficiente que dê para nós dois, e, se vier a me decepcionar, tudo bem. Eu apenas não posso mais continuar lutando contra isso. — Ela enfim dissera. Fechou os olhos, suspirou e jogou a cabeça para trás.
...
— Você pode... Você pode repetir o que você acabou de dizer?

tatxianny escreveu:Não podia haver final mais perfeito
— Você sabe do que você precisa, não sabe? — provocou ela.
— É claro que sei, minha bruxinha adorável...
— Uma outra criança... — Usagi esperou que Mamoru processasse a informação. Observava o rosto lindo dele, o rosto que um dia foi tão misterioso, e que agora revelava amor em cada traço.
— Você não está...
— Eu estou. Eu fiz o teste nesta manhã e estava aguardando a melhor hora para contar.
— Um outro bambino.
— Ou bambina. — Usagi riu, divertindo-se com a cara que ele fazia.
— Como a mama. — Ele sorriu, beijou-a na ponta do nariz e pela primeira vez se perguntou o que ele havia feito para alcançar uma felicidade tão perfeita como aquela...

Tenho pena de a fic ter chegado ao fim, era uma das minhas preferidas.
Espero que continues a escrever.

MoonSerenidade escreveu:Não podia haver final mais perfeito
Tenho pena de a fic ter chegado ao fim, era uma das minhas preferidas.
Espero que continues a escrever.
Peço desculpa mas postei à tarde e estava a dar erro... bem...
Olha tatxiani tava hoje pelo ff.net quando li a fic e logo pelo prólogo sabia que era uma fic adaptada. No entanto, esperei que mencionasses a real autora no primeiro capítulo, não o fizeste, ia comentar e li um comentário a dizer que era uma fic que realmente não era tua. E agora encontro-a aqui no fórum, novamente, sem citares a real autora Cathy Williams.
É muito feio tatxiani recebermos louvores pelo que não fazemos. A única coisa que fizeste na fic foi mudar os nomes. Facilmente qualquer pessoa que andava a acompanhar podia ter lido de empreitada pelo e-book.
Não te estou a apontar o dedo, mas que nestes casos eu tenho algo a dizer, tenho. É que há gente que escreve com a alma e coração, vejo pela Anita4 do ff e mal recebem comentários, depois há quem adapte, não diz quem é o real autor e leva com montes de comentários.
É o caso. Se não é teu, tens de realmente dizer no prólogo que é adaptada... e tenta escrever algo teu. Não custa e é mais sincero.
P.S. - Acredita que para mim custa ler que até pensava que escrevias bem, e fiquei feliz por até ler o meu nick no teu perfil do ff, por saber que incentivei algo... mas depois deste meu comentário tiraste. Mas acredita que foi pior para mim saber que não era algo teu. Não julgues que os outros fazem as coisas para teu mal, eu li aquele comentário e fiquei a pensar na capacidade que podes ter em escrever. Acredita que não quero saber que tenhas tirado o meu nome, sou beta reader e tenho-o feito com fics aqui e lá, sou sempre de opinião honesta, e adoro poder ajudar alguém. Se algum dia precisares, em algo teu, terei o maior gosto, tal como tenho nas fics que me dão a ler. Mas "seria bom que as pessoas que mandam reviews maliciosas que se
identifiquem... isso e de muito mau gosto criticarem os outros e nao se
identificarem... isso e cobarde ... realmente a historia nao e minha mas
simplesmente dei-a a conhecer a quem nao conhecia ..." Eu não sei quem te mandou a review, mas foi alguém sincero e não malicioso, eu li, e já vi criticas maliciosas. Aquela não era, apenas te alertou ao facto. Eu leio fics lá, raro comentar a não ser a Anita que leio desde os 12 ou a Beka, mas sempre que há alguma deste género eu vejo-a com o nome verdadeiro da autora como "Bodas de Fogo" ou "Brincando com o fogo", por exemplo. E na última a menina até diz "foi uma história que li e gostei". Tu não tens de meter no teu perfil mas sim no prólogo, não tens noção do que é plágio, mas seria bom teres. Sim, é bom receber comentários, mas tem mais significado quando nos tocam o coração por saber que foi algo do nosso esforço. Não temas criticas tatiana e escreve algo teu. E é apenas a minha opinião, não estou a ser má contigo mas qualquer pessoa vê, ok. Nem sabes o que direitos de autor se podem tornar.

gomawo Tinoco-chan ♡♡ a dor passa, mas a beleza permanece ♥
Tens de entrar para responderes neste tópico.
isso nao é justo agora vou ficar a morrer de curiosidade
LOL... Eu gosto imenso da tua fic!! continua...



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