Maior de 16 anos -Ironias do Amor
OMG!
Esta ultima part foi mesmo HOT!!!
So foi pena ela ter parado por ali.
Bem, ela n devia ter parado... no momento em q se deixou ser beijada por ele, cometeu logo o erro da traiçao... por isso, mais valia ter.se deixado ir pois o mal ja estava feito e aqla coisa de ter o namorado ja nao surte efeito...
eh como dizem...
enqto brincávamos, partimos uma jarra... mas agora, mais vale continuar a brincar visto q n ah nada q se possa fazer para recuperar a jarra
Amei! espero ansiosamente por mais!
Bjinho**
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Bem, ela n devia ter parado... no momento em q se deixou ser beijada por ele, cometeu logo o erro da traiçao... por isso, mais valia ter.se deixado ir pois o mal ja estava feito e aqla coisa de ter o namorado ja nao surte efeito...
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Amei! espero ansiosamente por mais!
Bjinho**
CAPÍTULO IV
Agora que entregara o seu trabalho final, Usagi pressentia apreensi¬va que a fase mais dura apenas começava.
Que passaria com folga, ela não tinha nenhuma dúvida. Dedicara-se com empenho ao curso desde o primeiro dia, apresentara quase todos os seus trabalhos dentro do prazo e se destacara na classe. To¬davia, a coordenadora do curso, uma mulher ativa, sempre bem arrumada, não podia ter sido mais franca. Marketing era uma área compe¬titiva, e, mesmo com as melhores notas do mundo, Usagi não tinha experiência profissional.
As duas agências de emprego que Usagi visitara na semana que tinha passado lhe disseram mais ou menos a mesma coisa, mas de uma forma um pouco mais atrativa.
Usagi se consolava com a idéia de que uma semana não era muito tempo quando se tratava de achar um trabalho.
De uma forma menos racional, também era um alívio que a ansie¬dade da procura de um emprego lhe ajudasse a afastar dos pensamen¬tos a distração perigosa chamada Mamoru Chiba e o precipício em que ela quase se jogara naquela noite.
Naquele momento pelo menos ela podia relaxar. Tinha uma noite de folga, sem a presença de Motoki em casa.
Ele tinha dedicado um silêncio raro ao tópico curso terminado, mas compensado a trégua por passar a maior parte do tempo longe de casa.
Passados dois dias ela perguntou sobre o seu paradeiro e Motoki respondeu com a sua típica agressividade.
Usagi tirou os sapatos e deixou que a paz da casa vazia a tomasse. Ponderou sobre ligar a TV, mas avaliou se realmente precisava se bombardear com os típicos programas de domingo à noite na televi¬são e decidiu que não.
Mais fácil se esparramar na poltrona, de olhos fechados, e deixar a mente vagar.
Um pouco perturbador que os pensamentos vagassem muito mais por Mamoru Chiba do que por Motoki, mesmo que houvesse um milhão de coisas que ela precisava tratar no seu namoro, coisas que não podiam mais esperar.
O que Mamoru estava pensando sobre ela?
Usagi simplesmente fugiu do apartamento luxuoso. Levou na ca¬beça o instante de surpresa gravado no rosto moreno dele, diante da revelação que ela fizera.
A imaginação de Usagi não parava de especular sobre a impres¬são que ela deixara. A repulsa que Mamoru deveria ter sentido ao pen¬sar que Usagi respondera ao seu charme, quando não se encontrava em situação para tal. Ela teria feito jus às piores expectativas dele, confirmado a suspeita de que não passava de uma garçonete de casa noturna que se fazia de difícil. Talvez ele até considerasse a possibi¬lidade de que ela posara de moralista para tentar fisgá-lo.
A campainha tocou e interrompeu as especulações de Usagi.
Ela hesitou. Levou alguns segundos para registrar que não poderia ser Motoki, pois o namorado tinha uma chave da porta. Aliviada com a conclusão, ela levantou-se para atender.
O alívio durou exatamente os segundos que Usagi precisou para abrir a porta. Relaxada, escorada no vão de entrada, a pessoa que ela pensava que não iria ver de novo. Nunca mais.
— O que você está fazendo aqui? — A contrariedade deu o tom à pergunta, mas o coração dela traiçoeiro saltava ao vê-lo. Desta vez, vestido de modo casual e ainda mais bonito. Calça creme, gola social creme, surgindo de debaixo da suéter. As cores da vestimenta desta¬cavam a pele morena, diferente das roupas escuras de trabalho. Usagi precisou se esforçar para não revelar o seu encantamento.
— Eu decidi fazer uma visitinha para avaliar o meu rival — res¬pondeu Mamoru indo direto ao assunto, aproveitando-se da perplexi¬dade dela para entrar sem ser convidado.
— Você o quê! Você está louco? Como você descobriu onde moro? Não, me deixe adivinhar. Tayki contou!
Ele andou descontraído rumo à sala, examinou a escada estreita que havia no caminho e agora olhava em volta, interessado e sem nenhum constrangimento.
— Hmmm. Interessante composição de cores. De certa maneira, eu a associava com algo bem mais sóbrio, estiloso. — Finalmente, ele virou-se para encará-la. Como ela conseguia ficar tão atraente num short folgado e numa camiseta grande a ponto de esconder cada curva do seu corpo? — E então? Cadê o namorado?
O tom de voz dele era leve mas seus olhos, não. Usagi pôde deci¬frar a mensagem no olhar de Mamoru. Ele vinha cobrar explicações sobre a falsidade dela, dizer o que pensava dela. Besteira aquele ne¬gócio de checar o rival.
— Ele não está. E o nome dele é Motoki. Você não pode ficar aqui. Se Motoki chegar, ele vai...
— Ele vai... O quê?
— Olha, se você quer que peça desculpas por... por não ter dito antes, tudo bem. Me desculpa. Eu deveria ter contado a você desde o começo.
— E por que não o fez?
— Por que não fiz o quê? — reagiu Usagi. Na presença de Mamoru, a sala se tornava um cenário feio, bagunçado e mal conservado. Não era de admirar o comentário jocoso dele sobre a falta de estilo.
— Uma xícara de café seria ótimo. Sem leite e sem açúcar.
— Você não pode ficar aqui para uma xícara de café! Você nem deveria estar aqui! Isso não vai ficar barato para Tayki! Dando o meu endereço de casa para qualquer um!
— Eu não sou qualquer um — replicou ele friamente. — Eu come¬ço a suspeitar de que você está com medo desse seu namorado. — Certamente, ela não estava apaixonada pelo cara, pois não teria se mostrado tão atraída por ele, Mamoru, na última vez em que se encon¬traram. Mamoru passara a última semana irritado consigo mesmo por ter sido passado para trás, furioso por não conseguir tirá-la da cabeça e, finalmente, concluindo sem piedade que era mais do que justifica¬do ele se dedicar ao máximo para seduzi-la, uma vez que ela houvera lhe dado corda.
— Ele bate em você? — indagou ele, sem perdê-la de vista.
— Não seja ridículo! Claro que ele não me bate! Você acha que algum dia ficaria com um homem que levantasse a mão para mim?
— Então o que você está fazendo com ele, pois com certeza abso¬luta você não o ama.
— E como você sabe isso? Após duas ou três conversas comigo, você se sente de súbito qualificado para tirar conclusões sobre a mi¬nha vida pessoal?
— Responda rápido: o que você está fazendo aqui com um homem que você não ama, quando o que você preferiria era estar comigo?
— Você é um canalha arrogante! Você sabe disso, não sabe?
— Sei, mas eu gosto de ouvir você dizer.
Ela suspirou profundamente e desistiu.
— Eu preparo um café, e em seguida você vai embora. Estamos de acordo?
— Não, mas aceito o café, de qualquer modo.
Mamoru a seguiu de volta pelo pequeno corredor e dali para a cozi¬nha. Usagi podia senti-lo atrás dela, o que provocava uma pane no seu sistema nervoso.
Ela se acostumara com aquela casa. Naquele momento, no entan¬to, Usagi enxergava o ambiente com os olhos dele. Mamoru possivel¬mente nunca estivera em uma moradia tão pequena e descuidada.
A cozinha não melhoraria muito a sua impressão.
Quando Motoki e ela se mudaram, Usagi se entusiasmou em fa¬zer algo no lugar. Afinal de contas, eles não estavam mais alugando. A casa pertencera aos pais dele, uma ex-moradia do governo, que sofria da falta de reformas essenciais. A vida contudo a desanimou. Primeiro a depressão do namorado, depois que um câncer de pulmão matou a mãe. Ela deixou a casa, as lembranças, mas infelizmente nenhum irmão com quem pudesse dividir a dor da sua morte. Depois Motoki sofreu o acidente e caiu em decadência. Recentemente ela ficou sem tempo, equilibrando-se entre empregos e estudo.
Usagi tinha a cabeça empinada ao entrar na cozinha, ligar a cha¬leira elétrica e apanhar duas canecas.
— Eu posso ver o que você está pensando. Não precisa deixar tão óbvio — disse ela, de braços cruzados para simular uma distância entre eles, dada as dimensões da cozinha.
— No que estou pensando?
— Você está pensando na casa miserável em que vivo. — A água na chaleira ferveu. Ela deu as costas a ele e começou a preparar o café, com as mãos trêmulas.
— Por que você não se muda? — Aquela era a pergunta. Se fosse um pouco sabida, Usagi desconfiaria de que ele não se referia à casa, mas ao homem com quem ela dividia o lugar.
Pensar no tal namorado já fazia Mamoru se roer de ciúme. Ciúme primitivo, monstruoso. Um sentimento que, se até então nunca tinha sucumbido na vida, agora o vinha desnorteando.
— Tente adivinhar. Por que no meu lugar você não mudaria? Aqui está o seu café. — Usagi sentou-se na cadeira de pinho, junto à pequena mesa. — Você pode sentar se quiser.
— Dinheiro? É por isso que você mora aqui?
— Não pagamos aluguel. A casa era dos pais de Motoki. O pai dele morreu quando ele tinha 12 anos, e a mãe deixou o imóvel ao falecer pouco tempo atrás.
Mamoru sentou-se e se pôs a observá-la. Ele desejava que ela lhe contasse tudo, falasse da casa, do que sentia pelo cara. Amor não era, pois aquele lar não transmitia amor. Nenhuma foto dos dois nas pare¬des ou sobre os móveis. Nada que aparentasse ter sido comprado com esforço e afeto.
— Você entregou o seu último trabalho? — Ele surpreendeu Usagi com a mudança de assunto, permitindo que ela relaxasse um pouco.
— Na sexta-feira.
— Você não saiu para celebrar?
— Num domingo? — Não houve festa nenhuma. Ela foi trabalhar como de costume. Voltou para encontrar a casa sem ninguém, e Motoki só retornou na hora do almoço do dia seguinte.
— Você não me disse onde está o seu namorado?
— Ele foi... Ele saiu com alguns amigos. Está no bar da esquina, acho. — Usagi olhou para o lado com uma cara que entregava a história toda.
— Ele passa um monte de tempo no bar, não passa?
Usagi se aterrorizou com as lágrimas que lhe vinham aos olhos e trincou os dentes para interromper o trajeto delas. Não choraria. Ela parará de chorar há muito tempo e não daria àquele homem tal privi¬légio.
— Você não entende. — Usagi respirou profundamente duas ou três vezes e levantou os olhos para Mamoru. A inesperada expressão de compreensão dele quase a fez ruir. — Para você, tudo está bem. Você não sabe o que é abrir os olhos de manhã com a certeza de que terá um dia de sacrifício. Às vezes, é mais fácil simplesmente desistir e seguir o caminho mais simples para lidar com as coisas. Quase sempre esse caminho é o que leva ao bar mais próximo.
Mamoru não disse nada. Ele continuou brincando com a caneca, sem tirar os olhos dela.
— Um monte de gente enfrenta uma vida de sacrifícios. Um mon¬te de gente não nasce em berço de ouro. Mas a maioria não vira alcoólatra.
— Motoki não é um alcoólatra!
— Por que você o defende? Você trabalha numa casa noturna porque precisa do dinheiro. O que me leva a concluir que você preci¬sa pagar as contas porque o seu namorado não trabalha.
Apesar de transtornada de raiva, Usagi não tinha como contestá-lo. Mamoru falara de forma implacável a pura verdade.
— Ele... Ele vai conseguir um.
— Entre uma ou outra visita ao bar com os amigos? — Mamoru deu gargalhada cruelmente, e notou o nervosismo dela. — Você tem cer¬teza de que ele está com amigos?
— O que você quer dizer?
— Você sabe o que eu quero dizer?
Os dois se entreolharam por alguns segundos de tensão. Usagi ficou em pé e virou-se de costas para ele. Na pia uma pilha de pratos sujos. Ela começou a lavar a louça na esperança de que as suas mãos não estivessem tremendo a ponto de derrubar algo.
— Não há uma outra mulher.
— Você está certa disso?
— Por que você veio aqui? Para arrancar um pedido de perdão? Você não precisa fazer isso. Eu já pedi desculpas.
— Me veio à cabeça a idéia de que você e o seu namorado talvez estejam conspirando contra mim. Quem sabe o casal não deduziu que se você fosse capaz de me enrolar, seria apenas uma questão de tem¬po para começar a tirar dinheiro de mim? — Mamoru não ventilara nenhuma hipótese como esta, mas queria jogar lenha na ira dela, forçá-la a cuspir a fúria e assim cuspir também os sentimentos, pois a imagem dela o havia atormentado durante toda a semana.
Usagi voltou-se para ele como se em estado de choque.
— Isso foi a coisa mais... mais... horrenda que você já me disse! Como você ousa?
Ela caminhou em direção a ele com o pano de prato em uma das mãos cega de raiva. Mamoru desejou puxá-la com força, colocá-la no colo e arrancar com um beijo aquela expressão da face dela.
— Eu sou um homem extremamente rico. Riqueza traz suspeita.
— Então lamento muito por você, lamento demais!
— Não seria a primeira vez que sou perseguido por uma merce¬nária.
— Se eu me lembro bem, você é quem está perseguindo aqui! — Usagi estava de pé, de frente para ele sentado na cadeira, e curvava-se para confrontá-lo.
— É verdade, mas talvez você seja uma oportunista engenhosa que sabe aproveitar uma chance quando essa se apresenta...
— Você é... Você é...
— Alguém acostumado a ler os motivos atrás de cada ação...
— Eu não estou interessada no seu dinheiro estúpido! E nunca armaria um golpe com ninguém!
— Nem mesmo com o homem que você defende de modo tão eloquente, nem mesmo com o homem que você ama?
— Eu não amo Motoki! Eu posso até morar com ele, mas não o amo.
Ele ouviu Usagi tomar fôlego, para que o cérebro dela processas¬se o que ela acabara de admitir. Mamoru não podia estar mais satisfeito. Ele deu um meio sorriso e com as duas mãos segurou o rosto dela.
— E nunca acreditei, nem por um momento, que você fosse uma mercenária...
— Você me enganou. — Usagi se afastou dele e, em vez de irri¬tar-se ainda mais, sentiu uma certa admiração pela inteligência com a qual ele a envolvera. Sentou-se de novo diante dele.
— Me diga por que você mora aqui com ele.
— Porque... Porque eu não tenho dinheiro para morar em outro lugar. Não. Não é por isso. Pelo menos, não é só por isso. — Ela o fitou daquela maneira desconfiada, com os olhos entreabertos, com a qual Mamoru já se acostumava.
— Então por que é? Me diga?
Usagi olhou para baixo, para as mãos que tinha apoiadas sobre a mesa. Espiou Mamoru de relance antes de começar a falar:
— Nós crescemos juntos. Quando éramos adolescentes, saíamos juntos. Motoki sempre foi o cara que as raparigas olhavam. Bonito, atlético... — Usagi sorriu, e Mamoru se segurou de raiva por esse homem, mesmo em retrospecto ser capaz de fazê-la a sorrir.
— Ele ia ser um jogador de futebol. Isso foi o que ele sempre quis. Ele jogaria por um grande clube , faria fortuna e realizaria o seu sonho. Contudo, quando ele tinha 19 anos a mãe morreu, e Motoki ficou arrasado. — Usagi ainda não desviara o olhar dos seus próprios de¬dos sobre a mesa. Sentia-se como se falasse consigo mesma, mas nunca poderia ignorar os olhos escuros e atentos a observá-la. — Nessa época, eu já pensava em deixá-lo. Eu avaliava que me tornara mais madura do que ele. Eu ainda gostava dele, mas... — Isso era uma coisa que ela nunca admitira, nem mesmo para si própria.
— Mas você não queria abandonar os próprios sonhos — comple¬tou Mamoru, sem perturbar a atmosfera. Ele a viu concordar com a cabeça, num gesto lento.
— Eu não podia deixá-lo quando ele mais precisava de mim. Eu adiei o curso para o qual eu havia passado e continuei com o meu trabalho. Os pais dele compraram esta casa do governo anos atrás. Nós nos mudamos para cá. — Usagi soltou um longo suspiro. — Eu acho que vou tomar algo — cortou ela. — Você quer?
Mamoru balançou a cabeça negativamente. Usagi abriu a geladeira, fez uma careta e pegou uma cerveja.
— Eu normalmente não bebo isso — comentou ela, sentando-se de volta e abrindo a lata. — Mas... — Usagi deu de ombros e encheu a boca de cerveja, diretamente da lata. Enquanto bebia vigiava Mamoru, o que o levou a concluir que Usagi apenas encenava para ele. Mais uma pequena encenação para deixar claro que ela não era o tipo de mulher que bebericava a sua cerveja em um copo, ou que ela era o tipo de mulher que, sim, bebia cerveja.
Mamoru tinha que tirar chapéu para ela. Mulher como essa ele não havia ainda conhecido.
— Vocês se mudaram... — Mamoru deu a deixa delicadamente.
— Nós nos mudamos para cá. Durante um tempo funcionou. Mas um dia ele saiu para beber à noite e sofreu um acidente. Ele não estava dirigindo. Nada sério, não envolveu nenhum outro carro...
— O que aconteceu?
— O carro saiu da estrada, rodou, e a lateral do veículo bateu numa árvore. O problema é que... ele machucou uma das pernas. — Usagi tomara somente um gole e não queria realmente beber mais do que aquilo. Precisava somente do impulso. Além disso, ela abominava o hábito de beber cerveja direto da lata. — Não feriu muito, mas o bastante para terminar com as esperanças de ser um atleta profissional.
— Um golpe duro. — Mamoru não necessitava de mais explicações para deduzir o que ocorrera depois, mas ela não se esquivou e seguiu com a história, pensativa, no mesmo tom baixo de voz. A inevitável decadência, raiva e frustração dele, e a pena que a amarrava ao namo¬rado.
— Como você vê, estou aqui por muitas razões e, não simples¬mente pelo fato de que não tenho dinheiro para pagar um aluguel.
— Você pode aplicar o dinheiro que utiliza para sustentá-lo numa moradia só para você...
— E como ficaria Motoki?
Mamoru teve ímpetos de sacudi-la para que Usagi acordasse para a vida. Em vez disso, ele respondeu suavemente:
— Ele daria um jeito, eu imagino, porque ele teria que se virar. A necessidade de sobreviver sem a sua ajuda poderia ajudá-lo a se livrar da necessidade de afogar as mágoas na bebida.
Usagi ficou de pé, e Mamoru percebeu que as persianas dela de novo se abaixavam; ela se fechava. Ele era o milionário e ela, a garota esperta, formada nas ruas. Mamoru não tinha nenhuma dúvida de que Usagi cruzara antes com garotos endinheirados. Já deveria ter sido alvo de meia dúzia deles, pois era muito atraente, e desenvolvera um talento para ignorar abordagens, recolher-se.
— Eu o acompanho até a porta? — Ela esperou até que ele se levantasse. Em seguida, Usagi caminhou rumo à saída. Já na porta, deteve-se para que Mamoru lentamente terminasse o percurso pela casa. — Você conseguiu. Pode ir embora tranqüilo, ciente de que não corria o risco de ser seduzido a gastar os seus preciosos milhões com tipos como eu.
— Com tipos como você... — murmurou Mamoru, recostando-se na porta e curvando a cabeça para encará-la. — Eu posso ver por que o seu namorado acabou se refugiando numa bolha... ou seja lá em que ou em quem ele se refugia... mas por que você guarda tanto ressenti¬mento?
— Eu não guardo tanto ressentimento.
— Claro que guarda, ressentimento do tamanho de um bonde.
— Porque eu não quero por livre e espontânea vontade ir para a cama com você?
— Porque você não desiste de me mostrar que as fronteiras entre nós são intransponíveis.
— Elas são. — Usagi podia ouvir o medo na sua voz e torceu para que ele não percebesse.
— E com esse Motoki? Vocês cresceram juntos, mas nem por isso o relacionamento deu certo.
— Ele precisa de mim.
Eu preciso de você, reagiu imediatamente o raciocínio de Mamoru. O pensamento provocou-lhe um estremecimento. Precisar? Necessi¬dade nunca constara das relações dele com o sexo oposto. Desejo sim. Vontade, afeto, mas nunca necessidade, e, certamente, nunca amor como ele havia descoberto à própria custa.
— Você é a babá dele.
— Isto é mentira!
— Evidente que não. Ciscando em volta dele, relevando as falhas dele e abstendo-se de viver.
O dedo em riste acusador provocava nela mais do que dúvidas agora. Golpeava-lhe a consciência como um objeto cortante.
— Eu não estou deixando de viver! Eu acabei de terminar o meu curso!
— Para o qual, eu presumo, o seu amado Motoki lhe deu toda a ajuda e o apoio generosos de que você precisava. Confere? — A respos¬ta estava escrita no rosa delicado que invadira as bochechas dela.
— Ele... Ele tem os seus próprios demônios para exorcizar — murmurou ela, baixando os olhos para evitar a conclusão fria dos dele.
Usagi gostaria que Mamoru saísse de frente da porta, pois assim ela a abriria e poria um fim naquele horrível destrinchar das suas intimidades. Mamoru, porém decerto não pretendia ceder terreno.
Até quando, Usagi perguntou-se.
— E você vai ficar com ele até que ele os exorcize? — perguntou Mamoru friamente. — Seja lá quanto tempo isso leve? É melhor você rezar para que nenhuma outra tragédia caia sobre ele, caso contrário você pode acabar envelhecendo na companhia de um homem que você esqueceu como amar. A comiseração não serve de base para nenhuma relação.
Usagi levantou os olhos pronta para a briga. Quem sabe o con¬fronto não alivie o peso da verdade que Mamoru a obrigava a engolir, como se ele pudesse saber tudo sobre tudo.
— Ah, não? E o que é? Se você sabe tanto sobre relações, eu adoraria saber por que você está sozinho.
Touché, pensou Mamoru, com uma cara de desagrado. Enquanto a observava, imaginou como ela reagiria se ele se aproximasse e a envolvesse nos braços. Isso era o que tinha vontade de fazer. Isso e muito mais.
— Temos aqui um caso de eu-te-contei-a-minha-vida-agora-você-me-conta-a-sua!
— Pelo menos seria justo, uma vez que você dedicou a última hora pregando sobre os meus erros e problemas.
— E qual seria o meu incentivo para contar? — Evidentemente, Mamoru não tinha a menor intenção de enveredar por aí, mas a alterna¬tiva a isso seria liberar a porta da casa por ele bloqueada, coisa que também não pensava em fazer.
— Jogo limpo?
— Conceito interessante.
Este não era o confronto que Usagi havia tramado. Tratava-se de um flerte ainda mais perigoso por estar subentendido. Cada nervo do corpo dela encontrava-se de prontidão, à espera da iniciativa de Mamoru. A agressiva garota eu-posso-tomar-conta-de-mim-mesma-muito-obrigada dava lugar a uma irreconhecível e insensata me-beija-agora, transformação que a deixava zonza.
— Eu tenho como regra não fazer confidencias aos outros. — O sorriso de escárnio de Mamoru a excitou e a contrariou ainda mais.
— Mesmo? — certificou-se Usagi, sem forças.
— Mesmo. As pessoas têm o hábito maldoso de guardar os segre¬dos para usá-los contra você num encontro futuro.
— Não haverá nenhum encontro futuro, logo os seus segredos estarão seguros comigo.
— Você precisa me tentar um pouco mais.
— É? E o que você sugere que eu faça? — Pergunta idiota. Ele havia a conduzido direto para a emboscada. O que Mamoru queria que Usagi fizesse estava cristalino no olhar indolente dele. Pior ainda era que a mensagem ia ao encontro do rasgo quente de desejo dela. — Não. Eu já disse que não estou disponível...
A frase ficou em suspenso, pois a sua boca procurou a dela, e, ca¬ramba, foi excelente. Usagi fez menção de empurrá-lo antes de gemer interiormente e retribuir o beijo com um tremendo entusiasmo.
As mãos dela ziguezaguearam pelas costas dele até a nuca; os dedos entre os cabelos pressionaram Mamoru contra ela, enquanto a boca respondia à língua intrometida de Mamoru.
As posições de ambos se alteraram. Mamoru se moveu da porta sem que a sua boca abandonasse a dela, para escorá-la contra a parede e ali confiná-la entre os braços. As mãos ansiavam percorrer cada canto dela, mas ele sabia que seria prudente domar os instintos naquele momento.
Mamoru contentou-se em senti-la derreter ao toque dele e em ouvir os gemidos curtos e suaves que o deixavam louco de desejo.
Quando eles finalmente se desgrudaram, os dois estampavam caras de atordoados.
— Me diga aquilo de novo? — exigiu Mamoru numa voz que derre¬tia gelo. Ele brincava com o cabelo dela, prendia mechas atrás das orelhas e enrolava outras nos próprios dedos.
— Dizer o quê?
— Que você não está disponível para... ficadas? Era isso que você ia dizer?
— Você não é bom para mim — resmungou Usagi. — Eu sei que você acha que as fronteiras entre as pessoas não são instransponíveis, e talvez não sejam mesmo, mas do jeito que vejo as coisas seria a garçonete do magnata, e tudo entre nós pareceria sempre uma farsa.
Mamoru reprimiu o impulso de esbravejar contra tamanho contra-senso. Eles se desejavam. A linguagem dos corpos dizia tudo. Não era suficiente?
— Você não pode ficar aqui — afirmou ele, em vez de liberar a angústia. Tinha a voz vacilante de quem continha as emoções.
— Eu não posso deixá-lo. Agora, não.
— E enquanto isso abro mão do que nós temos...
— Nós não temos nada.
— Correção: do que nós poderíamos ter.
— Você aprendeu a nunca confidenciar, e aprendi a nunca especu¬lar. — Enfim, Usagi recuperava o mínimo de autocontrole, mas a proximidade dele ainda sufocava. Ela se contorceu, e Mamoru imedia¬tamente se afastou.
A expressão no rosto dele era pesada de desaprovação, e Usagi não pôde evitar que o olhar de Mamoru mais uma vez a excitasse. A realidade porém a cerrou de novo. Motoki. Emprego. Servir mesas em trajes sumários para ganhar a vida. E aquele homem, que não precisaria de mais de um minuto para conquistá-la e que era incom¬patível com ela em todos os aspectos.
— Vá.
— Isto não é o fim.
Usagi fez o tradicional gesto evasivo com os ombros. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas nada saiu, pois ambos escutaram ao mesmo tempo o ruído da chave na porta. Usagi virou-se para a entrada, com Mamoru irrequieto a observá-la.
O que diabos ela estava pensando? Que Motoki nunca voltaria? Ela estava tão envolvida com Mamoru Chiba que se esqueceu por completo da realidade?
Aí chegava a realidade, Usagi afirmou a si mesma com rigor, e não se esqueça disso.
Cambaleante, Motoki entrou em casa com o tradicional olhar be¬ligerante, adotado sempre quando bêbado e o comportamento ques¬tionado por Usagi. Demorou um instante até que o namorado notasse um Mamoru de cabeça erguida e sem aparentar nenhum constrangi¬mento com a situação. Aquilo modificou a expressão de Motoki. De bravo para estupefato em segundos.
— Quem é esse cara? — As palavras saíam com dificuldade, mas o cérebro de Motoki ainda operava.
Mamoru deu dois passos adiante, sem se preocupar em estender a mão para cumprimentá-lo. Tampouco teve a iniciativa de se apresentar.
— O meu substituto. Bom proveito — foi tudo o que ele disse para ela. Usagi mal olhou para Mamoru. Como ele pôde?
Partiu. Sem pressa. Por último, fitara com desprezo o inebriado Motoki.
Agora que entregara o seu trabalho final, Usagi pressentia apreensi¬va que a fase mais dura apenas começava.
Que passaria com folga, ela não tinha nenhuma dúvida. Dedicara-se com empenho ao curso desde o primeiro dia, apresentara quase todos os seus trabalhos dentro do prazo e se destacara na classe. To¬davia, a coordenadora do curso, uma mulher ativa, sempre bem arrumada, não podia ter sido mais franca. Marketing era uma área compe¬titiva, e, mesmo com as melhores notas do mundo, Usagi não tinha experiência profissional.
As duas agências de emprego que Usagi visitara na semana que tinha passado lhe disseram mais ou menos a mesma coisa, mas de uma forma um pouco mais atrativa.
Usagi se consolava com a idéia de que uma semana não era muito tempo quando se tratava de achar um trabalho.
De uma forma menos racional, também era um alívio que a ansie¬dade da procura de um emprego lhe ajudasse a afastar dos pensamen¬tos a distração perigosa chamada Mamoru Chiba e o precipício em que ela quase se jogara naquela noite.
Naquele momento pelo menos ela podia relaxar. Tinha uma noite de folga, sem a presença de Motoki em casa.
Ele tinha dedicado um silêncio raro ao tópico curso terminado, mas compensado a trégua por passar a maior parte do tempo longe de casa.
Passados dois dias ela perguntou sobre o seu paradeiro e Motoki respondeu com a sua típica agressividade.
Usagi tirou os sapatos e deixou que a paz da casa vazia a tomasse. Ponderou sobre ligar a TV, mas avaliou se realmente precisava se bombardear com os típicos programas de domingo à noite na televi¬são e decidiu que não.
Mais fácil se esparramar na poltrona, de olhos fechados, e deixar a mente vagar.
Um pouco perturbador que os pensamentos vagassem muito mais por Mamoru Chiba do que por Motoki, mesmo que houvesse um milhão de coisas que ela precisava tratar no seu namoro, coisas que não podiam mais esperar.
O que Mamoru estava pensando sobre ela?
Usagi simplesmente fugiu do apartamento luxuoso. Levou na ca¬beça o instante de surpresa gravado no rosto moreno dele, diante da revelação que ela fizera.
A imaginação de Usagi não parava de especular sobre a impres¬são que ela deixara. A repulsa que Mamoru deveria ter sentido ao pen¬sar que Usagi respondera ao seu charme, quando não se encontrava em situação para tal. Ela teria feito jus às piores expectativas dele, confirmado a suspeita de que não passava de uma garçonete de casa noturna que se fazia de difícil. Talvez ele até considerasse a possibi¬lidade de que ela posara de moralista para tentar fisgá-lo.
A campainha tocou e interrompeu as especulações de Usagi.
Ela hesitou. Levou alguns segundos para registrar que não poderia ser Motoki, pois o namorado tinha uma chave da porta. Aliviada com a conclusão, ela levantou-se para atender.
O alívio durou exatamente os segundos que Usagi precisou para abrir a porta. Relaxada, escorada no vão de entrada, a pessoa que ela pensava que não iria ver de novo. Nunca mais.
— O que você está fazendo aqui? — A contrariedade deu o tom à pergunta, mas o coração dela traiçoeiro saltava ao vê-lo. Desta vez, vestido de modo casual e ainda mais bonito. Calça creme, gola social creme, surgindo de debaixo da suéter. As cores da vestimenta desta¬cavam a pele morena, diferente das roupas escuras de trabalho. Usagi precisou se esforçar para não revelar o seu encantamento.
— Eu decidi fazer uma visitinha para avaliar o meu rival — res¬pondeu Mamoru indo direto ao assunto, aproveitando-se da perplexi¬dade dela para entrar sem ser convidado.
— Você o quê! Você está louco? Como você descobriu onde moro? Não, me deixe adivinhar. Tayki contou!
Ele andou descontraído rumo à sala, examinou a escada estreita que havia no caminho e agora olhava em volta, interessado e sem nenhum constrangimento.
— Hmmm. Interessante composição de cores. De certa maneira, eu a associava com algo bem mais sóbrio, estiloso. — Finalmente, ele virou-se para encará-la. Como ela conseguia ficar tão atraente num short folgado e numa camiseta grande a ponto de esconder cada curva do seu corpo? — E então? Cadê o namorado?
O tom de voz dele era leve mas seus olhos, não. Usagi pôde deci¬frar a mensagem no olhar de Mamoru. Ele vinha cobrar explicações sobre a falsidade dela, dizer o que pensava dela. Besteira aquele ne¬gócio de checar o rival.
— Ele não está. E o nome dele é Motoki. Você não pode ficar aqui. Se Motoki chegar, ele vai...
— Ele vai... O quê?
— Olha, se você quer que peça desculpas por... por não ter dito antes, tudo bem. Me desculpa. Eu deveria ter contado a você desde o começo.
— E por que não o fez?
— Por que não fiz o quê? — reagiu Usagi. Na presença de Mamoru, a sala se tornava um cenário feio, bagunçado e mal conservado. Não era de admirar o comentário jocoso dele sobre a falta de estilo.
— Uma xícara de café seria ótimo. Sem leite e sem açúcar.
— Você não pode ficar aqui para uma xícara de café! Você nem deveria estar aqui! Isso não vai ficar barato para Tayki! Dando o meu endereço de casa para qualquer um!
— Eu não sou qualquer um — replicou ele friamente. — Eu come¬ço a suspeitar de que você está com medo desse seu namorado. — Certamente, ela não estava apaixonada pelo cara, pois não teria se mostrado tão atraída por ele, Mamoru, na última vez em que se encon¬traram. Mamoru passara a última semana irritado consigo mesmo por ter sido passado para trás, furioso por não conseguir tirá-la da cabeça e, finalmente, concluindo sem piedade que era mais do que justifica¬do ele se dedicar ao máximo para seduzi-la, uma vez que ela houvera lhe dado corda.
— Ele bate em você? — indagou ele, sem perdê-la de vista.
— Não seja ridículo! Claro que ele não me bate! Você acha que algum dia ficaria com um homem que levantasse a mão para mim?
— Então o que você está fazendo com ele, pois com certeza abso¬luta você não o ama.
— E como você sabe isso? Após duas ou três conversas comigo, você se sente de súbito qualificado para tirar conclusões sobre a mi¬nha vida pessoal?
— Responda rápido: o que você está fazendo aqui com um homem que você não ama, quando o que você preferiria era estar comigo?
— Você é um canalha arrogante! Você sabe disso, não sabe?
— Sei, mas eu gosto de ouvir você dizer.
Ela suspirou profundamente e desistiu.
— Eu preparo um café, e em seguida você vai embora. Estamos de acordo?
— Não, mas aceito o café, de qualquer modo.
Mamoru a seguiu de volta pelo pequeno corredor e dali para a cozi¬nha. Usagi podia senti-lo atrás dela, o que provocava uma pane no seu sistema nervoso.
Ela se acostumara com aquela casa. Naquele momento, no entan¬to, Usagi enxergava o ambiente com os olhos dele. Mamoru possivel¬mente nunca estivera em uma moradia tão pequena e descuidada.
A cozinha não melhoraria muito a sua impressão.
Quando Motoki e ela se mudaram, Usagi se entusiasmou em fa¬zer algo no lugar. Afinal de contas, eles não estavam mais alugando. A casa pertencera aos pais dele, uma ex-moradia do governo, que sofria da falta de reformas essenciais. A vida contudo a desanimou. Primeiro a depressão do namorado, depois que um câncer de pulmão matou a mãe. Ela deixou a casa, as lembranças, mas infelizmente nenhum irmão com quem pudesse dividir a dor da sua morte. Depois Motoki sofreu o acidente e caiu em decadência. Recentemente ela ficou sem tempo, equilibrando-se entre empregos e estudo.
Usagi tinha a cabeça empinada ao entrar na cozinha, ligar a cha¬leira elétrica e apanhar duas canecas.
— Eu posso ver o que você está pensando. Não precisa deixar tão óbvio — disse ela, de braços cruzados para simular uma distância entre eles, dada as dimensões da cozinha.
— No que estou pensando?
— Você está pensando na casa miserável em que vivo. — A água na chaleira ferveu. Ela deu as costas a ele e começou a preparar o café, com as mãos trêmulas.
— Por que você não se muda? — Aquela era a pergunta. Se fosse um pouco sabida, Usagi desconfiaria de que ele não se referia à casa, mas ao homem com quem ela dividia o lugar.
Pensar no tal namorado já fazia Mamoru se roer de ciúme. Ciúme primitivo, monstruoso. Um sentimento que, se até então nunca tinha sucumbido na vida, agora o vinha desnorteando.
— Tente adivinhar. Por que no meu lugar você não mudaria? Aqui está o seu café. — Usagi sentou-se na cadeira de pinho, junto à pequena mesa. — Você pode sentar se quiser.
— Dinheiro? É por isso que você mora aqui?
— Não pagamos aluguel. A casa era dos pais de Motoki. O pai dele morreu quando ele tinha 12 anos, e a mãe deixou o imóvel ao falecer pouco tempo atrás.
Mamoru sentou-se e se pôs a observá-la. Ele desejava que ela lhe contasse tudo, falasse da casa, do que sentia pelo cara. Amor não era, pois aquele lar não transmitia amor. Nenhuma foto dos dois nas pare¬des ou sobre os móveis. Nada que aparentasse ter sido comprado com esforço e afeto.
— Você entregou o seu último trabalho? — Ele surpreendeu Usagi com a mudança de assunto, permitindo que ela relaxasse um pouco.
— Na sexta-feira.
— Você não saiu para celebrar?
— Num domingo? — Não houve festa nenhuma. Ela foi trabalhar como de costume. Voltou para encontrar a casa sem ninguém, e Motoki só retornou na hora do almoço do dia seguinte.
— Você não me disse onde está o seu namorado?
— Ele foi... Ele saiu com alguns amigos. Está no bar da esquina, acho. — Usagi olhou para o lado com uma cara que entregava a história toda.
— Ele passa um monte de tempo no bar, não passa?
Usagi se aterrorizou com as lágrimas que lhe vinham aos olhos e trincou os dentes para interromper o trajeto delas. Não choraria. Ela parará de chorar há muito tempo e não daria àquele homem tal privi¬légio.
— Você não entende. — Usagi respirou profundamente duas ou três vezes e levantou os olhos para Mamoru. A inesperada expressão de compreensão dele quase a fez ruir. — Para você, tudo está bem. Você não sabe o que é abrir os olhos de manhã com a certeza de que terá um dia de sacrifício. Às vezes, é mais fácil simplesmente desistir e seguir o caminho mais simples para lidar com as coisas. Quase sempre esse caminho é o que leva ao bar mais próximo.
Mamoru não disse nada. Ele continuou brincando com a caneca, sem tirar os olhos dela.
— Um monte de gente enfrenta uma vida de sacrifícios. Um mon¬te de gente não nasce em berço de ouro. Mas a maioria não vira alcoólatra.
— Motoki não é um alcoólatra!
— Por que você o defende? Você trabalha numa casa noturna porque precisa do dinheiro. O que me leva a concluir que você preci¬sa pagar as contas porque o seu namorado não trabalha.
Apesar de transtornada de raiva, Usagi não tinha como contestá-lo. Mamoru falara de forma implacável a pura verdade.
— Ele... Ele vai conseguir um.
— Entre uma ou outra visita ao bar com os amigos? — Mamoru deu gargalhada cruelmente, e notou o nervosismo dela. — Você tem cer¬teza de que ele está com amigos?
— O que você quer dizer?
— Você sabe o que eu quero dizer?
Os dois se entreolharam por alguns segundos de tensão. Usagi ficou em pé e virou-se de costas para ele. Na pia uma pilha de pratos sujos. Ela começou a lavar a louça na esperança de que as suas mãos não estivessem tremendo a ponto de derrubar algo.
— Não há uma outra mulher.
— Você está certa disso?
— Por que você veio aqui? Para arrancar um pedido de perdão? Você não precisa fazer isso. Eu já pedi desculpas.
— Me veio à cabeça a idéia de que você e o seu namorado talvez estejam conspirando contra mim. Quem sabe o casal não deduziu que se você fosse capaz de me enrolar, seria apenas uma questão de tem¬po para começar a tirar dinheiro de mim? — Mamoru não ventilara nenhuma hipótese como esta, mas queria jogar lenha na ira dela, forçá-la a cuspir a fúria e assim cuspir também os sentimentos, pois a imagem dela o havia atormentado durante toda a semana.
Usagi voltou-se para ele como se em estado de choque.
— Isso foi a coisa mais... mais... horrenda que você já me disse! Como você ousa?
Ela caminhou em direção a ele com o pano de prato em uma das mãos cega de raiva. Mamoru desejou puxá-la com força, colocá-la no colo e arrancar com um beijo aquela expressão da face dela.
— Eu sou um homem extremamente rico. Riqueza traz suspeita.
— Então lamento muito por você, lamento demais!
— Não seria a primeira vez que sou perseguido por uma merce¬nária.
— Se eu me lembro bem, você é quem está perseguindo aqui! — Usagi estava de pé, de frente para ele sentado na cadeira, e curvava-se para confrontá-lo.
— É verdade, mas talvez você seja uma oportunista engenhosa que sabe aproveitar uma chance quando essa se apresenta...
— Você é... Você é...
— Alguém acostumado a ler os motivos atrás de cada ação...
— Eu não estou interessada no seu dinheiro estúpido! E nunca armaria um golpe com ninguém!
— Nem mesmo com o homem que você defende de modo tão eloquente, nem mesmo com o homem que você ama?
— Eu não amo Motoki! Eu posso até morar com ele, mas não o amo.
Ele ouviu Usagi tomar fôlego, para que o cérebro dela processas¬se o que ela acabara de admitir. Mamoru não podia estar mais satisfeito. Ele deu um meio sorriso e com as duas mãos segurou o rosto dela.
— E nunca acreditei, nem por um momento, que você fosse uma mercenária...
— Você me enganou. — Usagi se afastou dele e, em vez de irri¬tar-se ainda mais, sentiu uma certa admiração pela inteligência com a qual ele a envolvera. Sentou-se de novo diante dele.
— Me diga por que você mora aqui com ele.
— Porque... Porque eu não tenho dinheiro para morar em outro lugar. Não. Não é por isso. Pelo menos, não é só por isso. — Ela o fitou daquela maneira desconfiada, com os olhos entreabertos, com a qual Mamoru já se acostumava.
— Então por que é? Me diga?
Usagi olhou para baixo, para as mãos que tinha apoiadas sobre a mesa. Espiou Mamoru de relance antes de começar a falar:
— Nós crescemos juntos. Quando éramos adolescentes, saíamos juntos. Motoki sempre foi o cara que as raparigas olhavam. Bonito, atlético... — Usagi sorriu, e Mamoru se segurou de raiva por esse homem, mesmo em retrospecto ser capaz de fazê-la a sorrir.
— Ele ia ser um jogador de futebol. Isso foi o que ele sempre quis. Ele jogaria por um grande clube , faria fortuna e realizaria o seu sonho. Contudo, quando ele tinha 19 anos a mãe morreu, e Motoki ficou arrasado. — Usagi ainda não desviara o olhar dos seus próprios de¬dos sobre a mesa. Sentia-se como se falasse consigo mesma, mas nunca poderia ignorar os olhos escuros e atentos a observá-la. — Nessa época, eu já pensava em deixá-lo. Eu avaliava que me tornara mais madura do que ele. Eu ainda gostava dele, mas... — Isso era uma coisa que ela nunca admitira, nem mesmo para si própria.
— Mas você não queria abandonar os próprios sonhos — comple¬tou Mamoru, sem perturbar a atmosfera. Ele a viu concordar com a cabeça, num gesto lento.
— Eu não podia deixá-lo quando ele mais precisava de mim. Eu adiei o curso para o qual eu havia passado e continuei com o meu trabalho. Os pais dele compraram esta casa do governo anos atrás. Nós nos mudamos para cá. — Usagi soltou um longo suspiro. — Eu acho que vou tomar algo — cortou ela. — Você quer?
Mamoru balançou a cabeça negativamente. Usagi abriu a geladeira, fez uma careta e pegou uma cerveja.
— Eu normalmente não bebo isso — comentou ela, sentando-se de volta e abrindo a lata. — Mas... — Usagi deu de ombros e encheu a boca de cerveja, diretamente da lata. Enquanto bebia vigiava Mamoru, o que o levou a concluir que Usagi apenas encenava para ele. Mais uma pequena encenação para deixar claro que ela não era o tipo de mulher que bebericava a sua cerveja em um copo, ou que ela era o tipo de mulher que, sim, bebia cerveja.
Mamoru tinha que tirar chapéu para ela. Mulher como essa ele não havia ainda conhecido.
— Vocês se mudaram... — Mamoru deu a deixa delicadamente.
— Nós nos mudamos para cá. Durante um tempo funcionou. Mas um dia ele saiu para beber à noite e sofreu um acidente. Ele não estava dirigindo. Nada sério, não envolveu nenhum outro carro...
— O que aconteceu?
— O carro saiu da estrada, rodou, e a lateral do veículo bateu numa árvore. O problema é que... ele machucou uma das pernas. — Usagi tomara somente um gole e não queria realmente beber mais do que aquilo. Precisava somente do impulso. Além disso, ela abominava o hábito de beber cerveja direto da lata. — Não feriu muito, mas o bastante para terminar com as esperanças de ser um atleta profissional.
— Um golpe duro. — Mamoru não necessitava de mais explicações para deduzir o que ocorrera depois, mas ela não se esquivou e seguiu com a história, pensativa, no mesmo tom baixo de voz. A inevitável decadência, raiva e frustração dele, e a pena que a amarrava ao namo¬rado.
— Como você vê, estou aqui por muitas razões e, não simples¬mente pelo fato de que não tenho dinheiro para pagar um aluguel.
— Você pode aplicar o dinheiro que utiliza para sustentá-lo numa moradia só para você...
— E como ficaria Motoki?
Mamoru teve ímpetos de sacudi-la para que Usagi acordasse para a vida. Em vez disso, ele respondeu suavemente:
— Ele daria um jeito, eu imagino, porque ele teria que se virar. A necessidade de sobreviver sem a sua ajuda poderia ajudá-lo a se livrar da necessidade de afogar as mágoas na bebida.
Usagi ficou de pé, e Mamoru percebeu que as persianas dela de novo se abaixavam; ela se fechava. Ele era o milionário e ela, a garota esperta, formada nas ruas. Mamoru não tinha nenhuma dúvida de que Usagi cruzara antes com garotos endinheirados. Já deveria ter sido alvo de meia dúzia deles, pois era muito atraente, e desenvolvera um talento para ignorar abordagens, recolher-se.
— Eu o acompanho até a porta? — Ela esperou até que ele se levantasse. Em seguida, Usagi caminhou rumo à saída. Já na porta, deteve-se para que Mamoru lentamente terminasse o percurso pela casa. — Você conseguiu. Pode ir embora tranqüilo, ciente de que não corria o risco de ser seduzido a gastar os seus preciosos milhões com tipos como eu.
— Com tipos como você... — murmurou Mamoru, recostando-se na porta e curvando a cabeça para encará-la. — Eu posso ver por que o seu namorado acabou se refugiando numa bolha... ou seja lá em que ou em quem ele se refugia... mas por que você guarda tanto ressenti¬mento?
— Eu não guardo tanto ressentimento.
— Claro que guarda, ressentimento do tamanho de um bonde.
— Porque eu não quero por livre e espontânea vontade ir para a cama com você?
— Porque você não desiste de me mostrar que as fronteiras entre nós são intransponíveis.
— Elas são. — Usagi podia ouvir o medo na sua voz e torceu para que ele não percebesse.
— E com esse Motoki? Vocês cresceram juntos, mas nem por isso o relacionamento deu certo.
— Ele precisa de mim.
Eu preciso de você, reagiu imediatamente o raciocínio de Mamoru. O pensamento provocou-lhe um estremecimento. Precisar? Necessi¬dade nunca constara das relações dele com o sexo oposto. Desejo sim. Vontade, afeto, mas nunca necessidade, e, certamente, nunca amor como ele havia descoberto à própria custa.
— Você é a babá dele.
— Isto é mentira!
— Evidente que não. Ciscando em volta dele, relevando as falhas dele e abstendo-se de viver.
O dedo em riste acusador provocava nela mais do que dúvidas agora. Golpeava-lhe a consciência como um objeto cortante.
— Eu não estou deixando de viver! Eu acabei de terminar o meu curso!
— Para o qual, eu presumo, o seu amado Motoki lhe deu toda a ajuda e o apoio generosos de que você precisava. Confere? — A respos¬ta estava escrita no rosa delicado que invadira as bochechas dela.
— Ele... Ele tem os seus próprios demônios para exorcizar — murmurou ela, baixando os olhos para evitar a conclusão fria dos dele.
Usagi gostaria que Mamoru saísse de frente da porta, pois assim ela a abriria e poria um fim naquele horrível destrinchar das suas intimidades. Mamoru, porém decerto não pretendia ceder terreno.
Até quando, Usagi perguntou-se.
— E você vai ficar com ele até que ele os exorcize? — perguntou Mamoru friamente. — Seja lá quanto tempo isso leve? É melhor você rezar para que nenhuma outra tragédia caia sobre ele, caso contrário você pode acabar envelhecendo na companhia de um homem que você esqueceu como amar. A comiseração não serve de base para nenhuma relação.
Usagi levantou os olhos pronta para a briga. Quem sabe o con¬fronto não alivie o peso da verdade que Mamoru a obrigava a engolir, como se ele pudesse saber tudo sobre tudo.
— Ah, não? E o que é? Se você sabe tanto sobre relações, eu adoraria saber por que você está sozinho.
Touché, pensou Mamoru, com uma cara de desagrado. Enquanto a observava, imaginou como ela reagiria se ele se aproximasse e a envolvesse nos braços. Isso era o que tinha vontade de fazer. Isso e muito mais.
— Temos aqui um caso de eu-te-contei-a-minha-vida-agora-você-me-conta-a-sua!
— Pelo menos seria justo, uma vez que você dedicou a última hora pregando sobre os meus erros e problemas.
— E qual seria o meu incentivo para contar? — Evidentemente, Mamoru não tinha a menor intenção de enveredar por aí, mas a alterna¬tiva a isso seria liberar a porta da casa por ele bloqueada, coisa que também não pensava em fazer.
— Jogo limpo?
— Conceito interessante.
Este não era o confronto que Usagi havia tramado. Tratava-se de um flerte ainda mais perigoso por estar subentendido. Cada nervo do corpo dela encontrava-se de prontidão, à espera da iniciativa de Mamoru. A agressiva garota eu-posso-tomar-conta-de-mim-mesma-muito-obrigada dava lugar a uma irreconhecível e insensata me-beija-agora, transformação que a deixava zonza.
— Eu tenho como regra não fazer confidencias aos outros. — O sorriso de escárnio de Mamoru a excitou e a contrariou ainda mais.
— Mesmo? — certificou-se Usagi, sem forças.
— Mesmo. As pessoas têm o hábito maldoso de guardar os segre¬dos para usá-los contra você num encontro futuro.
— Não haverá nenhum encontro futuro, logo os seus segredos estarão seguros comigo.
— Você precisa me tentar um pouco mais.
— É? E o que você sugere que eu faça? — Pergunta idiota. Ele havia a conduzido direto para a emboscada. O que Mamoru queria que Usagi fizesse estava cristalino no olhar indolente dele. Pior ainda era que a mensagem ia ao encontro do rasgo quente de desejo dela. — Não. Eu já disse que não estou disponível...
A frase ficou em suspenso, pois a sua boca procurou a dela, e, ca¬ramba, foi excelente. Usagi fez menção de empurrá-lo antes de gemer interiormente e retribuir o beijo com um tremendo entusiasmo.
As mãos dela ziguezaguearam pelas costas dele até a nuca; os dedos entre os cabelos pressionaram Mamoru contra ela, enquanto a boca respondia à língua intrometida de Mamoru.
As posições de ambos se alteraram. Mamoru se moveu da porta sem que a sua boca abandonasse a dela, para escorá-la contra a parede e ali confiná-la entre os braços. As mãos ansiavam percorrer cada canto dela, mas ele sabia que seria prudente domar os instintos naquele momento.
Mamoru contentou-se em senti-la derreter ao toque dele e em ouvir os gemidos curtos e suaves que o deixavam louco de desejo.
Quando eles finalmente se desgrudaram, os dois estampavam caras de atordoados.
— Me diga aquilo de novo? — exigiu Mamoru numa voz que derre¬tia gelo. Ele brincava com o cabelo dela, prendia mechas atrás das orelhas e enrolava outras nos próprios dedos.
— Dizer o quê?
— Que você não está disponível para... ficadas? Era isso que você ia dizer?
— Você não é bom para mim — resmungou Usagi. — Eu sei que você acha que as fronteiras entre as pessoas não são instransponíveis, e talvez não sejam mesmo, mas do jeito que vejo as coisas seria a garçonete do magnata, e tudo entre nós pareceria sempre uma farsa.
Mamoru reprimiu o impulso de esbravejar contra tamanho contra-senso. Eles se desejavam. A linguagem dos corpos dizia tudo. Não era suficiente?
— Você não pode ficar aqui — afirmou ele, em vez de liberar a angústia. Tinha a voz vacilante de quem continha as emoções.
— Eu não posso deixá-lo. Agora, não.
— E enquanto isso abro mão do que nós temos...
— Nós não temos nada.
— Correção: do que nós poderíamos ter.
— Você aprendeu a nunca confidenciar, e aprendi a nunca especu¬lar. — Enfim, Usagi recuperava o mínimo de autocontrole, mas a proximidade dele ainda sufocava. Ela se contorceu, e Mamoru imedia¬tamente se afastou.
A expressão no rosto dele era pesada de desaprovação, e Usagi não pôde evitar que o olhar de Mamoru mais uma vez a excitasse. A realidade porém a cerrou de novo. Motoki. Emprego. Servir mesas em trajes sumários para ganhar a vida. E aquele homem, que não precisaria de mais de um minuto para conquistá-la e que era incom¬patível com ela em todos os aspectos.
— Vá.
— Isto não é o fim.
Usagi fez o tradicional gesto evasivo com os ombros. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas nada saiu, pois ambos escutaram ao mesmo tempo o ruído da chave na porta. Usagi virou-se para a entrada, com Mamoru irrequieto a observá-la.
O que diabos ela estava pensando? Que Motoki nunca voltaria? Ela estava tão envolvida com Mamoru Chiba que se esqueceu por completo da realidade?
Aí chegava a realidade, Usagi afirmou a si mesma com rigor, e não se esqueça disso.
Cambaleante, Motoki entrou em casa com o tradicional olhar be¬ligerante, adotado sempre quando bêbado e o comportamento ques¬tionado por Usagi. Demorou um instante até que o namorado notasse um Mamoru de cabeça erguida e sem aparentar nenhum constrangi¬mento com a situação. Aquilo modificou a expressão de Motoki. De bravo para estupefato em segundos.
— Quem é esse cara? — As palavras saíam com dificuldade, mas o cérebro de Motoki ainda operava.
Mamoru deu dois passos adiante, sem se preocupar em estender a mão para cumprimentá-lo. Tampouco teve a iniciativa de se apresentar.
— O meu substituto. Bom proveito — foi tudo o que ele disse para ela. Usagi mal olhou para Mamoru. Como ele pôde?
Partiu. Sem pressa. Por último, fitara com desprezo o inebriado Motoki.
Tá tudo gozando!!!!! omg
nao sei o que dizer...tou absulutamente sem palavras...
acho que foi um dos melhores capitulos teus...
esperu ansiosamente pelo proximo...que espero que seja rapido...porque eu nao aguentu esta ansiedade de saber o que vai acontecer...
bjinhu
acho que foi um dos melhores capitulos teus...
esperu ansiosamente pelo proximo...que espero que seja rapido...porque eu nao aguentu esta ansiedade de saber o que vai acontecer...
bjinhu
**podem tratar-me por Vânia ou Banny-chan**
fic: Sayonara sweet days
fic: Sayonara sweet days
CAPÍTULO V
— O que está acontecendo aqui, Usagi? — Motoki se mostrou confuso e vulnerável, e a piedade a inundou por dentro. Ela titubeava sobre quem odiar mais: Mamoru, por deixá-la naquela situação, ou ela, por permitir.
— Nós precisamos ter uma conversa, Motoki. Amanhã. Quando você estiver...
— Em condições mais apresentáveis? — Ele riu com amargura. — Melhor terminar logo com isso. — O namorado cambaleou até a sala e desabou sobre o sofá.
Usagi chegou a deduzir que ele dormira, mas Motoki coçou os olhos e a fitou.
— Você tem que ficar em pé aí na entrada como um sargento estúpido?
— Olha, Motoki... — Com alguns passos ela juntou-se a ele na sala. Sentou-se na poltrona e levantou as pernas para abraçar os joe¬lhos. Buscava concentrar forças, já que a sua moral ficara lá embaixo.
— Há quanto tempo está rolando, Usagi? Um mês? Dois? Um ano? — Motoki cobriu o rosto com as duas mãos. Quando olhou de volta para ela, ele não aparentava raiva ou ciúme, e sim tristeza e arrependimento.
— Não tem nada rolando, Motoki. Você tem de acreditar em mim. Eu o encontrei há uma semana na boate. Bem, ele me encontrou, me seguiu, mas nada aconteceu. — Os beijos de Mamoru vieram à cabeça dela, os mesmos que a fizeram desmoronar. Ainda que não tivessem dormido juntos, na cabeça dela a traição havia sido cometida.
— Eu não a culpo, Usagi. — Desta vez havia uma espécie de autodesprezo no riso dele. — Olhe para mim. Você acha que não sei no que me transformei? Nada do homem que você pensou que fosse me tornar. Um fracassado, está escrito aqui na minha testa.
— Não. — Ela sentiu as lágrimas lhe alfinetarem os olhos e correu até o sofá onde ele estava jogado para abraçá-lo. Abraçou-o como uma mãe a consolar o filho machucado.
— Eu e você, Usagi, nós não estamos indo a lugar nenhum.
— Não diga isso, Motoki. Eu... Você sabe o quanto...
— Me amou um dia? Sei, sei que sim. — Ele segurou os braços dela. Pela primeira vez em muito, muito tempo, eles tinham um con¬tato físico. Nenhum estímulo sexual os inspirava, apenas o afeto de anos de convívio.
— Eu ainda o amo, Motoki. Eu nunca o magoaria, nunca! E Mamoru não é ninguém. Nós não tivemos relações sexuais.
— E eu nunca quis machucar você, amor, mas a gente está fazendo mal um para o outro. Não podemos negar. Eu ia ser alguém, mas veio o acidente, e tudo se perdeu. Eu, você, nós. Duas crianças brincando de casinha, isto é o que somos.
— Não diga isso. — As lágrimas hesitantes progrediram para um choro silencioso.
— Eu sei que você não tem um outro lugar para ficar, Usagi, e não vou botá-la pra fora. Nunca faria isso. Você pode ficar aqui pelo tempo quiser, mas...
Ela já havia refletido sobre tudo aquilo, reconhecia a verdade em cada palavra dita agora pelo namorado, mas sentia-se despedaçada em milhares de cacos. Para o bem ou para o mal, Motoki fora sempre a certeza da vida dela.
— Eu transformei a sua vida num inferno nos últimos meses, Usagi. Me odiei por fazer isso, mas simplesmente não podia evitar. Não chore, meu amor. Eu tenho um lenço aqui, em algum lugar. Não, não tenho. Use a minha camisa.
— Eu não deveria ter feito esse curso. Eu deveria ter ficado no meu emprego. Você estava certo.
— Você está falando besteira, e você sabe disso. — Motoki suspi¬rou e a abraçou com mais força. — Eu estava com ciúme, só isso. Vendo você avançar, prosperar, e eu caindo na bebida. Usagi, nós éramos garotos quando nos conhecemos. Então tudo aquilo aconte¬ceu, a gente cresceu, e...
— Não diga isso — sussurrou Usagi.
Ela sabia o que o namorado iria dizer. Usagi já havia dito o mes¬mo para si.
— A gente não serve um para o outro, Usagi. Meu Deus, a gente não se toca há meses. Passou muito tempo desde que a gente não conseguia se descolar um do outro! Você se lembra? Quando éramos jovens?
— Eu não posso me separar de você, Motoki. Não depois de tudo que a gente já passou.
— Você precisa, Usagi. Não posso depender da sua boa vontade durante toda a minha vida. Amanhã, vou sair daqui por um tempo. Você fica com a casa por enquanto e prepara a sua mudança sem pressa.
— Para onde você vai? — Ela levantou o rosto de choro para olhar o namorado.
— Não se preocupe com isso. Eu tenho amigos.
A conversa com Motoki se repetiu nos seus ouvidos pelos dias que se seguiram. Usagi carregava as palavras dele como um peso invisível.
Um peso que não demorou muito a se desfazer.
De repente, como uma neblina, começou a se dissolver. E talvez tenha sido o otimismo de que ela poderia retomar a sua vida e contro¬lar o seu destino que havia atraído a sorte grande.
Sorte grande na forma da possibilidade de um novo trabalho, não por intermédio de uma agência de empregos, mas via Michiru Kaiou, a formidável coordenadora do curso. Ela chamara Usagi porque, segundo palavras da própria professora, tinha uma surpresa agradável para a aluna.
"Naturalmente, não é algo certo", advertia a professora, "mas uma entrevista é um passo vital." Ela combinava rigor e gentileza ao falar com a sua aluna mais esforçada. "E creio que você não terá problemas para impressionar qualquer patrão em potencial."
A sorte de Usagi era tão boa, que ela se beliscou para certificar-se de que não sonhava, de que não acordaria de volta para o mesmo impasse, para a situação deplorável em que vivia.
Motoki cumpriu a sua palavra e não a procurou. Telefonou algu¬mas vezes e deu a impressão de estar muito mais feliz longe dela do que quando morava ali. Deu-lhe os parabéns, que soaram sinceros, pelo emprego em potencial.
Usagi esperava que ele aparecesse em algum momento para que os dois pudessem discutir a mudança dela. Quando dez dias depois de ter sido aceita pelo Grupo Devereux, ela ouviu o toque da campainha de casa, levantou-se com um salto, contente em saber que a conversa agora não doeria nem metade do último encontro com Motoki havia sofrido.
Usagi, por um momento, sofreu o abalo de se deparar com Mamoru do outro lado da porta. Passado o susto, aceitou tranquila a presença dele. No fundo, sem saber como e por que, ela contava com a vinda dele e o esperava.
— Você vai me convidar para entrar, ou a gente precisa ficar se olhando aqui por mais alguns minutos?
Aquela voz blasé e suave! A mesma que lhe invadia os sonhos todas as noites, a mesma com a qual conversava em seus pensamen¬tos, contando tudo o que se passava na vida dela.
— Perdão. — Usagi deu dois passos para trás. Em vez de seguir em direção à sala, Mamoru entrou e esperou que ela fechasse a porta.
— Você está... diferente — murmurou ele examinando-a. Parecia que anos se passaram desde a última vez que a vira. Mamoru havia se contido para não visitá-la antes. Seja lá o que tivesse saído do acerto de contas entre Usagi e Motoki, o resultado ainda estaria muito re¬cente para que ela tolerasse vê-lo.
Mamoru não se dispusera a correr o risco de afugentá-la. Não após se convencer de que a teria, não importa as circunstâncias ou conse¬quências. E a teria de acordo com as regras dele, isto é, queria a livre concordância de Usagi, e não que a mulher se sujeitasse a ele pelo fato de o corpo dela, temporariamente, não obedecer à mente. Usagi tinha que se entregar por inteiro, sem nenhum drama de consciência.
Para isso ele precisara esperar.
— Diferente? — Usagi sorriu, um pouco nervosa. — Eu aparei o meu cabelo. — Você não gostou?, quis perguntar. — Os cabelos longos estavam OK para a boate, mas... Bem, na verdade, eu não trabalho mais lá... Minha última noite foi na semana passada.
Mamoru olhou para baixo por uma fração de segundo, antes de abrir um sorriso para ela.
— Eu suponho que um monte de coisas aconteceu com você. Por que não jantamos juntos para você me contar tudo?
O convite despertou todas as velhas dúvidas em relação a ele, mas de imediato elas foram dando lugar a uma sensação que Usagi não experimentara ainda na presença de Mamoru, um sentimento de auto-estima.
— Claro. Por que não? — Ela reparou no que vestia e deu uma risada. — Fast-food em algum lugar, ou devo me vestir de forma mais apresentável?
— Fast-food?
— Sim, você sabe do que eu estou falando. Pedaços de frango empanados, batatas fritas meio moles, talheres de plástico, letreiros lu¬minosos, fila no caixa... — Mamoru fez uma cara de tão chocado com a possibilidade que Usagi se conteve para não gargalhar.
— Uma garrafa de Chablis, salmão, pommes frites...
— Em outras palavras, peixe com fritas.
— Mas com prato e talheres para gente grande. — Mamoru sorriu. — Conheço um lugar excelente para se comer frutos do mar. Você gosta de frutos do mar?
— Minha comida preferida. Eu vou mudar de roupa. Por que você não entra e me espera na sala? Motoki...
Mamoru observou o lamento cruzar o rosto dela e ansiou, aflito, que longe dos olhos significasse neste caso longe também do coração.
— Motoki não vai irromper porta adentro...
Ela vestiu-se com rapidez e cuidado. Nada sexy, nada que lem¬brasse a garçonete que ela havia sido. Chique, a elegância que ela podia sustentar com o seu orçamento limitado.
Uma saia preta justa, mas que chegava até os joelhos, uma camise¬ta de seda rosa, combinando com o casaquinho, sapatos pretos de salto baixo, comprados para o novo emprego, meia-calça preta, pois o verão se despedia e o vento frio voltara há poucas semanas.
Quando Usagi finalmente se pôs de frente ao espelho, seus olhos brilhavam, inquietos. Voltou à sala, sentindo-se como uma adoles¬cente em seu primeiro encontro.
Mamoru não sentara. Perto da janela, tinha as mãos nos bolsos da calça. No momento que Usagi reapareceu, ele virou-se para vê-la chegar.
— Melhor? — perguntou Usagi nervosa. Muito nervosa! — Ou eu devo usar a minha tiara de diamantes?
— A tiara poderia ficar um pouquinho exagerada. — Meu Deus, ela estava deliciosa, pensou Mamoru. O cabelo mais curto combinou bem, lhe deu uma beleza mais refinada, ainda mais tentadora.
— Então — murmurou ele, logo após os dois entrarem no carro e partirem para Chiswick. — Não mais, Motoki?
— Não mais, Motoki.
— Feliz? — Ele gostaria de poder prestar atenção nela, monitorar-lhe as expressões para avaliar o que passava naquela cabeça. Precisa¬va, contudo, se concentrar no volante. Ela representava uma distra¬ção até para os motoristas mais cuidadosos.
— Sim e não.
— O que isso significa? — As mãos dele espremeram a direção, mas Mamoru manteve o tom de voz equilibrado.
— As coisas não andavam bem entre nós. Quero dizer, é bom que... que ambos tenhamos chegado à mesma conclusão, mas... ele foi parte da minha vida por muito tempo, eu preciso ainda me acostumar... — Usagi abria o coração. — Ele me deixou ficar na casa até que eu ache um lugar para ficar... e adivinha o quê?
— O quê?
— Me ofereceram um emprego e... — Ela fez uma pausa para fazer um suspense sobre o que contaria em seguida. — Como parte do contrato, eles me ofereceram um apartamento! Você acredita nis¬so? Eu não pude. A empresa está liderando a campanha publicitária de um empreendimento enorme no sul de Londres. Apartamentos, academias, lojas, um montão de coisas! E, enquanto estiver envolvi¬da com o marketing, a minha companhia tem o direito de alojar seus empregados em alguns apartamentos do empreendimento. Tudo aconteceu no momento certo. Não é fantástico?
— Fantástico. — Ele sentiu uma pontada de culpa, mas se conso¬lou com o fato de que Usagi chegaria lá, de qualquer maneira. Ela era dedicada. Caso contrário, como terminaria o curso enfrentando tan¬tos problemas? E ela era talentosa também. A melhor aluna da facul¬dade desde que colocou pela primeira vez o pé na sala de aula.
— Você não parece muito feliz por mim. — E isso feria Usagi.
— Eu estou imensamente feliz por você — cortou Mamoru. — Como Motoki reagiu depois que fui embora?
— Não da maneira que esperei. Você me acha capaz de dar conta desse emprego, não acha?
— Se você é capaz de estudar de dia e trabalhar à noite, você está capacitada para ser a primeira-ministra do país.
— É, bem, acho que o fator experiência não conta a meu favor.
— O que você quis dizer com "não da maneira que esperei"?
— Ele não deu nenhum ataque de ciúmes, muito pelo contrário. Resignou-se. Na verdade, foi ele quem terminou tudo.
Melhor assim, pensou Mamoru. Desse modo, ela nunca vai ficar imaginando o que poderia ter sido. Ele a queria livre, livre para ele.
O restaurante apareceu diante deles, sem que Mamoru se desse con¬ta de que eles haviam chegado. A fachada antiga e charmosa contras¬tava com o interior do lugar. Ao entrarem, Mamoru pôde ouvir Usagi tomar fôlego para assimilar o ambiente luxuoso. Muito vidro na de¬coração, muito cromo, e pessoas bonitas, que se achavam mais vir¬tuosas quando comiam peixe em vez de carne vermelha.
— Não diga isso. — Mamoru curvou-se para adverti-la, e Usagi sentiu o sussurro quente junto à nuca.
— Não diga o quê?
— Que este não é o tipo de lugar que você costuma ir.
— Este não é o tipo de lugar que eu costumo ir — informou ela, como se cumprisse uma obrigação. No entanto, ninguém ali notaria. Para Usagi, foi como entrar no futuro brilhante que a esperava, um presente de Natal aguardando para ser desembrulhado.
Usagi teve a impressão de que Mamoru podia ler os seus pensamen¬tos e se alegrava com a conclusão a que ela chegava. A conclusão de que as fronteiras entre as pessoas só existiam na cabeça dela.
A partir daí, eles passaram a ser paparicados, levados até a sua mesa, brindados com o cardápio, que mais lembrava um pergaminho, pois era necessário desenrolá-lo para lê-lo.
— Hmmm. Suflê de frutos do mar! — Usagi imitou grã-fino. — Salmão, grelhado, salpicado de molho de cogumelos selvagens! O meu favorito!
Mamoru recostou-se para assistir à satisfação dela. Ele ficaria ali para sempre.
Sob aquele olhar de ternura, ela sentiu-se de repente e de forma inesperada envergonhada. Aonde teria ido a mulher firme e hostil? Mamoru não mudou, ainda habitava um mundo diferente do dela, e Usagi ordenou a si mesma que melhor seria se ela não se esquecesse disso.
— Então — disse ele, devagar —, salmão grelhado, ao molho de cogumelos hoje. E amanhã?
— Você deve pensar que sou um pouco ridícula. Todo esse alarde apenas porque estou saindo para o mundo real. Bem, não exatamente real, mas...
— Você está agarrando as suas oportunidades. Não tem nada de ridículo nisso.
— Eu acho que as mulheres... com quem você se relaciona não têm esse tipo de dilema. — Usagi sorriu e ficou aliviada com a chegada do garçom para anotar os pedidos.
— Não — afirmou Mamoru. — A maioria delas se conforma em desperdiçar as oportunidades. É claro que encontrei mulheres no tra¬balho que deram duro para construir suas carreiras. Porém, conheci mulheres cuja ambição na vida era casar com um homem rico.
— E qual delas você prefere? — indagou Usagi.
A resposta ficou em suspenso devido à chegada do prometido Chablis à mesa.
— Eu não classifico as mulheres que acho atraentes.
— Bem, você não respondeu. — disse Usagi contrariada. Mamoru riu da reação dela. — E não se esqueça que nós fizemos um acordo...
— Um acordo?
— Isso mesmo. — Usagi terminou a primeira taça de vinho, e Mamoru lhe serviu mais.
Usagi nunca fora uma amante do álcool. A primeira taça de vinho foi direto para a sua cabeça e, de modo prazeroso, diluiu o nervosismo.
— Eu lhe contei uma versão compacta da história da minha vida quando nos encontramos pela última vez. Isto é, quando você apare¬ceu sem ser convidado na minha casa. E você me prometeu contar a sua também.
O garçom trouxera as entradas, mas Usagi quase não notou, ocu¬pada que estava em se concentrar no homem diante dela.
Mamoru a examinava em meio a uma mordida no salmão defumado.
— Eu pensei que você já tinha o meu currículo. Pelo menos você insistiu em me qualificar todas as vezes que nos encontramos.
— Onde você cresceu?
— Grécia e Inglaterra. Grécia para as férias, Inglaterra para estu¬dar. Entrei no colégio interno aos 11 anos.
— E como foi? — A escola foi um pesadelo para Usagi. A neces¬sidade de se adequar ao que pensava e dizia a maioria dos colegas foi grande. Ler livros e estudar eram coisas que tinham de ser feitas escondidas da galera. Não que os seus pais não a encorajavam, mas ela encarava as aulas com a indiferença de quem já era o centro das atenções no mundo dos adolescentes. A garota mais bonita, que na¬morava o cara mais cobiçado.
Usagi ouvia com inveja Mamoru contar as experiências dele na escola, ria das histórias dele com os colegas. Já naquela idade, ele sabia que da escola iria para a universidade e alcançaria os mais altos degraus na vida profissional.
Ela também contou a ele sobre os seus tempos de colégio. As garotas que fumavam atrás do abrigo para bicicletas. Os garotos que ficavam bêbados. As aulas matadas. Meninas grávidas, o que na épo¬ca era um escândalo. Risadas e burburinho em apoio aos garotos baderneiros, admirados pelo desleixo em sala de aula e pelos comen¬tários ridículos para irritar os professores. Nada de canivetes ou vio¬lência de verdade. Não se chegava a esse ponto.
Entretida, Usagi surpreendeu-se ao perceber que eles haviam fi¬nalizado a primeira garrafa de vinho e já bebiam da segunda.
Fazia tempo que ela não se sentia tão relaxada. Ela comeu o peixe e disse a Mamoru que a refeição não fora nem um pouco melhor do que o tradicional peixe frito com batata frita que ela comia numa lancho¬nete em Shepherds Bush.
— E quando vou poder tirar a prova disso? — perguntou Mamoru.
— Ah, não. — Usagi sorriu, sedutora, e brincou: — O serviço vai cair se os grã-finos invadirem o lugar.
— Eu posso me vestir de forma mais relaxada — rebateu Mamoru, rindo da tirada, exagerando no tom solene. Se uma bomba atómica caísse ali, ele nem se daria conta, pois tudo o que podia ver na sua frente era aquela criatura de rosto alegre e vivido, mãos finas delica¬das e expressivas.
— Eu aposto que você nunca se vestiu de um jeito largado na vida.
— Jeans? Camiseta amarrotada? Tênis? Eu consigo, sim. — Ele coçou o queixo, pensativo. — Mas é claro que eu precisaria fazer umas compras...
Mamoru sabia que a piada a divertiria, e ele queria ouvir a risada dela.
Ele pediu a conta com um gesto.
Usagi lamentava que a noite aproximava-se do fim.
— Eu posso pegar um táxi de volta para casa — afirmou ela, enquanto Mamoru assinava o comprovante do cartão de crédito.
— Isso tem um quê de déjà-vu — resmungou Mamoru, pondo-se de pé.
— Nós não podemos... — Não adiantava fingir que ela não tinha lido as intenções no olhar de Mamoru. Nem se enganar sobre o que a vontade dele excitara nela. Mas era já preocupante ela ter se divertido tanto no jantar, um passo perigoso para se viciar na companhia dele. Dormir com Mamoru seria perder todo o juízo que restara.
— Por que nós não podemos? — murmurou Mamoru.
Ele pôs a mão no cotovelo dela e a escoltou até a saída do restau¬rante. Ao toque dele, Usagi esforçou-se para manter inteiro o seu bom senso, que se esfarelava em meio à excitação e ao medo de ser sugada pelos próprios instintos.
— Motoki e eu terminamos há pouco tempo — explicou Usagi, apelando para ele e para ela também. — Eu não estou disponível agora.
— Por que nós devemos lutar contra o que sentimos? Eu vou chamar um táxi para nós dois. Isso já passou dos limites.
— E o seu carro?
— Ele fica aqui. Eu mando o meu motorista pegá-lo.
— Está vendo por que nós não podemos nos envolver!
— Por que vou ter que deixar o meu carro aqui.
— Você está deliberadamente se fazendo de desentendido!
— E você está deliberadamente tentando encontrar desculpas. Por quê? — Mamoru inclinou-se para ficar frente a frente com ela. Usagi inspirou fundo o aroma limpo e masculino dele. — Por que você foge tanto? — O tom da pergunta de Mamoru misturava inconformismo e zombaria pelas idas e vindas dela.
— Eu não quero me envolver — reagiu Usagi, sem a mesma ênfase de protestos anteriores. O táxi pedido se aproximava.
— Sobre que tipo de envolvimento você está falando? Um homem pendurado nos seus ombros como um peso morto? Era isso que você tinha com ele, ou você se esqueceu? Acredite em mim, eu tampouco quero envolvimento.
O táxi parou, e Mamoru, pela janela do motorista, deu o seu endere¬ço como destino. Em seguida, olhou para Usagi e abriu devagar um sorriso. A barriga dela gelou.
— Ser ou não ser...?
Usagi entrou no carro e deslizou no banco de trás para dar espaço para ele. Uma excitação quente e traiçoeira pulsava nas veias dela. Ela não sabia por que insistia em discutir. Cada argumento que apre¬sentava, ele rebatia com uma resposta razoável.
— Você prefere morar com um homem pelo qual tem pena e se proibir de qualquer outra experiência? O hábito pode ser uma coisa destrutiva, Usagi.
— Motoki não... — Ah, sim, ele fez. O ex-namorado a exauriu, riu das suas aspirações, assistiu à batalha da namorada para ganhar dinhei¬ro, enquanto bebia as economias, sem se dar ao trabalho de procurar um emprego. Ele foi egoísta, egoísta como uma criança. E foi provavel¬mente por causa do lado infantil dele que ela o suportou.
Mamoru Chiba não era uma criança. Ele era cem por cento homem. Ele poderia magoá-la de uma maneira diferente, Usagi intuía.
— Pare de arrumar desculpas para esse homem — disse Mamoru. — Você pode conhecê-lo há muito tempo, mas isso não o impede de ter sido uma corda no seu pescoço.
— Você é tão frio e calculista — resmungou Usagi.
— Eu sou realista. Nós dois somos adultos e estamos atraídos um pelo outro. Mais: nenhum dos dois busca compromisso ou casamen¬to. Ou não?
— Eu, definitivamente, não — respondeu Usagi brava. — Você não precisa ter medo de se enrolar com uma mulher que não tem absolutamente nada a ver com você.
— É assim que você vê as coisas. — Todo o autocontrole dele estava empenhado em evitar uma aproximação, um toque nela. Mamoru não conseguia se lembrar de quando quis tanto uma mulher como queria Usagi, ou de quando foi obrigado a conter tanto os seus ins¬tintos. — Que não haveria nenhuma chance de eu querer uma relação séria com você por sermos de origens sociais diferentes?
Usagi balançou a cabeça de modo cínico.
— Não que isso faça alguma diferença para mim — disse ela. — Estou apenas tentando esclarecer as coisas.
— Você quer dizer que não ficaria magoada se esse fosse o caso?
No minuto em que ele fez a indagação, disparada com a costumei¬ra precisão para atingi-la na região mais vulnerável, Usagi levantou a crista para se defender.
— Por que deveria? Eu venho apontando as nossas diferenças desde que nos conhecemos.
— E venho falando, desde que você começou com esse papo de que somos de mundos distintos, que a sua origem não faz nenhuma diferença para mim. — Mamoru balançou a cabeça com impaciência. — Talvez pelo fato de não ser inglês a minha cabeça não foi martela¬da com toda essa baboseira sobre classes sociais. Não, não quero nenhum envolvimento, por que...
— Por que o quê?
Mamoru a observou em silêncio por alguns poucos segundos, antes de passar a mão pelos cabelos, tenso.
— Fale, vamos — pediu Usagi. — Você é muito bom em deixar sem respostas as perguntas que você não quer responder, e estou cansada disso.
— Você está... O quê...?
— Você não pode culpar uma garota por querer saber um pouqui¬nho sobre o cara que está tentando levá-la para cama.
Mamoru soltou uma risada e a olhou com apreço, em vez de impa¬ciência.
— Eu começo a pensar que você adotou o tipo eu-a-garota-pobre só para conduzir as coisas à sua maneira.
— Um namoro frustrado? — pressionou Usagi. — Alguma coita¬da se envolveu mais do que devia com você e se transformou na corda do seu pescoço?
— Você me excita.
— Você está mudando de assunto. — Aquelas três palavras fize¬ram com que Usagi ficasse totalmente ávida por aquele homem, pois o corpo não obedecia ao seu cérebro.
Mamoru a fitava, pensativo. Afastou-se para examiná-la melhor. Se havia alguma coisa que essa mulher não era, essa coisa era evasiva, e ele gostava disso.
— Seis meses atrás terminei com uma mulher chamada Rei. — E você é a primeira pessoa com quem converso sobre isso, Mamoru poderia ter acrescentado. — A gente saiu por quase um ano, e, no decorrer desse ano, ela se transformou de uma pessoa fácil e divertida para uma grudenta e possessiva.
— O que deve ter sido um golpe duro para um espírito livre como o seu — opinou Usagi. Na escuridão do carro Mamoru corou, atingido pela alfinetada.
— Será que foi de sarcasmo o tom de voz diferente deste comen¬tário?
— Se você vestiu a carapuça... O que aconteceu então?
— Eu preciso entrar em detalhes?
— Precisa. — Ela estava adorando aquilo tudo. — Quem começa vai até o fim.
— Me poupe dos provérbios, por favor. — Mamoru apoiou o coto¬velo na porta do carro e o queixo na mão. Matutava sobre o motivo pelo qual ele estava tão caído por aquela mulher.
— Me poupe das evasivas.
— Bom, se você quer saber, ela começou a telefonar para o meu escritório. Não apenas uma vez ou duas por dia, mas literalmente dúzias. No fim, tive que orientar a minha secretária a bloquear as ligações. Quando tentava conversar com ela a respeito, ela chorava, o famoso truque das mulheres.
— Ei! Das mulheres que você conhece.
— E você nunca derramou uma lágrima?
— Não como parte de chantagem emocional — respondeu Usagi, enojada.
— Bem, ela derramou. Depois ficou pior. Ela foi das lágrimas para a raiva. Enfim, disse a ela que a relação tinha acabado. Aí, ela começou a me seguir. Eu ia para casa à noite e encontrava o carro dela estacionado do lado de fora, e ela me esperando chegar. Um pesadelo.
Usagi escutava o relato quieta, contendo a revolta com tal com¬portamento.
— O que você fez?
— Eu a enfrentei. Falei que se aquilo não acabasse eu procuraria a polícia, e os pais dela ficariam sabendo de tudo. Felizmente, isso funcionou, mas essa é a razão de eu, vamos dizer assim, estar um pouco cauteloso em relação a envolvimentos com o sexo frágil. Está vendo, os resumos de nossas vidas têm mais em comum do que você pensava.
O táxi parava em frente ao prédio dele. Usagi até se esquecera que andava de carro. Saiu do carro, esperou que Mamoru se juntasse a ela e lhe perguntou, cuidadosa, a caminho da portaria:
— E como você se sente, você sabe, em relação a ela?
— Como me sinto? — Desta vez não haveria conversas embaraço¬sas na recepção. Ele a levava diretamente para o elevador, embora, por mais absurdo que pudesse soar, não tinha ainda certeza se acaba¬ria com ela no seu colchão king-size.
— Sim, sentir. Você ainda a ama?
— Eu gostava dela no início.
— Eu estou falando de amor.
— Amor? — As portas do elevador se fecharam. Os espelhos nas laterais da cabine os refletiam. Mamoru pôde ver aqueles olhos azuis de franqueza observando cada ângulo dele, enquanto Usagi subia pelas paredes aguardando a resposta que ela, acabara de descobrir, não queria ouvir. Não queria imaginá-lo ressentido por ter se apaixo¬nado por uma mulher que se revelou a mulher errada para ele. Ela preferia ficar com a opção de que Mamoru gostara da ex-namorada por que... por que...
Ela suspirou aliviada quando as portas se abriram, mas o alívio durou pouco, desbancada pelo coração acelerado. As batidas se tor¬navam mais intensas à medida que ele encaixava a chave na fechadura e abria a porta de casa.
— Isso é passado, Usagi — murmurou Mamoru, afastando-se para lhe abrir caminho. — Isto aqui é o presente. Para nós dois. Você não acha?
— O que está acontecendo aqui, Usagi? — Motoki se mostrou confuso e vulnerável, e a piedade a inundou por dentro. Ela titubeava sobre quem odiar mais: Mamoru, por deixá-la naquela situação, ou ela, por permitir.
— Nós precisamos ter uma conversa, Motoki. Amanhã. Quando você estiver...
— Em condições mais apresentáveis? — Ele riu com amargura. — Melhor terminar logo com isso. — O namorado cambaleou até a sala e desabou sobre o sofá.
Usagi chegou a deduzir que ele dormira, mas Motoki coçou os olhos e a fitou.
— Você tem que ficar em pé aí na entrada como um sargento estúpido?
— Olha, Motoki... — Com alguns passos ela juntou-se a ele na sala. Sentou-se na poltrona e levantou as pernas para abraçar os joe¬lhos. Buscava concentrar forças, já que a sua moral ficara lá embaixo.
— Há quanto tempo está rolando, Usagi? Um mês? Dois? Um ano? — Motoki cobriu o rosto com as duas mãos. Quando olhou de volta para ela, ele não aparentava raiva ou ciúme, e sim tristeza e arrependimento.
— Não tem nada rolando, Motoki. Você tem de acreditar em mim. Eu o encontrei há uma semana na boate. Bem, ele me encontrou, me seguiu, mas nada aconteceu. — Os beijos de Mamoru vieram à cabeça dela, os mesmos que a fizeram desmoronar. Ainda que não tivessem dormido juntos, na cabeça dela a traição havia sido cometida.
— Eu não a culpo, Usagi. — Desta vez havia uma espécie de autodesprezo no riso dele. — Olhe para mim. Você acha que não sei no que me transformei? Nada do homem que você pensou que fosse me tornar. Um fracassado, está escrito aqui na minha testa.
— Não. — Ela sentiu as lágrimas lhe alfinetarem os olhos e correu até o sofá onde ele estava jogado para abraçá-lo. Abraçou-o como uma mãe a consolar o filho machucado.
— Eu e você, Usagi, nós não estamos indo a lugar nenhum.
— Não diga isso, Motoki. Eu... Você sabe o quanto...
— Me amou um dia? Sei, sei que sim. — Ele segurou os braços dela. Pela primeira vez em muito, muito tempo, eles tinham um con¬tato físico. Nenhum estímulo sexual os inspirava, apenas o afeto de anos de convívio.
— Eu ainda o amo, Motoki. Eu nunca o magoaria, nunca! E Mamoru não é ninguém. Nós não tivemos relações sexuais.
— E eu nunca quis machucar você, amor, mas a gente está fazendo mal um para o outro. Não podemos negar. Eu ia ser alguém, mas veio o acidente, e tudo se perdeu. Eu, você, nós. Duas crianças brincando de casinha, isto é o que somos.
— Não diga isso. — As lágrimas hesitantes progrediram para um choro silencioso.
— Eu sei que você não tem um outro lugar para ficar, Usagi, e não vou botá-la pra fora. Nunca faria isso. Você pode ficar aqui pelo tempo quiser, mas...
Ela já havia refletido sobre tudo aquilo, reconhecia a verdade em cada palavra dita agora pelo namorado, mas sentia-se despedaçada em milhares de cacos. Para o bem ou para o mal, Motoki fora sempre a certeza da vida dela.
— Eu transformei a sua vida num inferno nos últimos meses, Usagi. Me odiei por fazer isso, mas simplesmente não podia evitar. Não chore, meu amor. Eu tenho um lenço aqui, em algum lugar. Não, não tenho. Use a minha camisa.
— Eu não deveria ter feito esse curso. Eu deveria ter ficado no meu emprego. Você estava certo.
— Você está falando besteira, e você sabe disso. — Motoki suspi¬rou e a abraçou com mais força. — Eu estava com ciúme, só isso. Vendo você avançar, prosperar, e eu caindo na bebida. Usagi, nós éramos garotos quando nos conhecemos. Então tudo aquilo aconte¬ceu, a gente cresceu, e...
— Não diga isso — sussurrou Usagi.
Ela sabia o que o namorado iria dizer. Usagi já havia dito o mes¬mo para si.
— A gente não serve um para o outro, Usagi. Meu Deus, a gente não se toca há meses. Passou muito tempo desde que a gente não conseguia se descolar um do outro! Você se lembra? Quando éramos jovens?
— Eu não posso me separar de você, Motoki. Não depois de tudo que a gente já passou.
— Você precisa, Usagi. Não posso depender da sua boa vontade durante toda a minha vida. Amanhã, vou sair daqui por um tempo. Você fica com a casa por enquanto e prepara a sua mudança sem pressa.
— Para onde você vai? — Ela levantou o rosto de choro para olhar o namorado.
— Não se preocupe com isso. Eu tenho amigos.
A conversa com Motoki se repetiu nos seus ouvidos pelos dias que se seguiram. Usagi carregava as palavras dele como um peso invisível.
Um peso que não demorou muito a se desfazer.
De repente, como uma neblina, começou a se dissolver. E talvez tenha sido o otimismo de que ela poderia retomar a sua vida e contro¬lar o seu destino que havia atraído a sorte grande.
Sorte grande na forma da possibilidade de um novo trabalho, não por intermédio de uma agência de empregos, mas via Michiru Kaiou, a formidável coordenadora do curso. Ela chamara Usagi porque, segundo palavras da própria professora, tinha uma surpresa agradável para a aluna.
"Naturalmente, não é algo certo", advertia a professora, "mas uma entrevista é um passo vital." Ela combinava rigor e gentileza ao falar com a sua aluna mais esforçada. "E creio que você não terá problemas para impressionar qualquer patrão em potencial."
A sorte de Usagi era tão boa, que ela se beliscou para certificar-se de que não sonhava, de que não acordaria de volta para o mesmo impasse, para a situação deplorável em que vivia.
Motoki cumpriu a sua palavra e não a procurou. Telefonou algu¬mas vezes e deu a impressão de estar muito mais feliz longe dela do que quando morava ali. Deu-lhe os parabéns, que soaram sinceros, pelo emprego em potencial.
Usagi esperava que ele aparecesse em algum momento para que os dois pudessem discutir a mudança dela. Quando dez dias depois de ter sido aceita pelo Grupo Devereux, ela ouviu o toque da campainha de casa, levantou-se com um salto, contente em saber que a conversa agora não doeria nem metade do último encontro com Motoki havia sofrido.
Usagi, por um momento, sofreu o abalo de se deparar com Mamoru do outro lado da porta. Passado o susto, aceitou tranquila a presença dele. No fundo, sem saber como e por que, ela contava com a vinda dele e o esperava.
— Você vai me convidar para entrar, ou a gente precisa ficar se olhando aqui por mais alguns minutos?
Aquela voz blasé e suave! A mesma que lhe invadia os sonhos todas as noites, a mesma com a qual conversava em seus pensamen¬tos, contando tudo o que se passava na vida dela.
— Perdão. — Usagi deu dois passos para trás. Em vez de seguir em direção à sala, Mamoru entrou e esperou que ela fechasse a porta.
— Você está... diferente — murmurou ele examinando-a. Parecia que anos se passaram desde a última vez que a vira. Mamoru havia se contido para não visitá-la antes. Seja lá o que tivesse saído do acerto de contas entre Usagi e Motoki, o resultado ainda estaria muito re¬cente para que ela tolerasse vê-lo.
Mamoru não se dispusera a correr o risco de afugentá-la. Não após se convencer de que a teria, não importa as circunstâncias ou conse¬quências. E a teria de acordo com as regras dele, isto é, queria a livre concordância de Usagi, e não que a mulher se sujeitasse a ele pelo fato de o corpo dela, temporariamente, não obedecer à mente. Usagi tinha que se entregar por inteiro, sem nenhum drama de consciência.
Para isso ele precisara esperar.
— Diferente? — Usagi sorriu, um pouco nervosa. — Eu aparei o meu cabelo. — Você não gostou?, quis perguntar. — Os cabelos longos estavam OK para a boate, mas... Bem, na verdade, eu não trabalho mais lá... Minha última noite foi na semana passada.
Mamoru olhou para baixo por uma fração de segundo, antes de abrir um sorriso para ela.
— Eu suponho que um monte de coisas aconteceu com você. Por que não jantamos juntos para você me contar tudo?
O convite despertou todas as velhas dúvidas em relação a ele, mas de imediato elas foram dando lugar a uma sensação que Usagi não experimentara ainda na presença de Mamoru, um sentimento de auto-estima.
— Claro. Por que não? — Ela reparou no que vestia e deu uma risada. — Fast-food em algum lugar, ou devo me vestir de forma mais apresentável?
— Fast-food?
— Sim, você sabe do que eu estou falando. Pedaços de frango empanados, batatas fritas meio moles, talheres de plástico, letreiros lu¬minosos, fila no caixa... — Mamoru fez uma cara de tão chocado com a possibilidade que Usagi se conteve para não gargalhar.
— Uma garrafa de Chablis, salmão, pommes frites...
— Em outras palavras, peixe com fritas.
— Mas com prato e talheres para gente grande. — Mamoru sorriu. — Conheço um lugar excelente para se comer frutos do mar. Você gosta de frutos do mar?
— Minha comida preferida. Eu vou mudar de roupa. Por que você não entra e me espera na sala? Motoki...
Mamoru observou o lamento cruzar o rosto dela e ansiou, aflito, que longe dos olhos significasse neste caso longe também do coração.
— Motoki não vai irromper porta adentro...
Ela vestiu-se com rapidez e cuidado. Nada sexy, nada que lem¬brasse a garçonete que ela havia sido. Chique, a elegância que ela podia sustentar com o seu orçamento limitado.
Uma saia preta justa, mas que chegava até os joelhos, uma camise¬ta de seda rosa, combinando com o casaquinho, sapatos pretos de salto baixo, comprados para o novo emprego, meia-calça preta, pois o verão se despedia e o vento frio voltara há poucas semanas.
Quando Usagi finalmente se pôs de frente ao espelho, seus olhos brilhavam, inquietos. Voltou à sala, sentindo-se como uma adoles¬cente em seu primeiro encontro.
Mamoru não sentara. Perto da janela, tinha as mãos nos bolsos da calça. No momento que Usagi reapareceu, ele virou-se para vê-la chegar.
— Melhor? — perguntou Usagi nervosa. Muito nervosa! — Ou eu devo usar a minha tiara de diamantes?
— A tiara poderia ficar um pouquinho exagerada. — Meu Deus, ela estava deliciosa, pensou Mamoru. O cabelo mais curto combinou bem, lhe deu uma beleza mais refinada, ainda mais tentadora.
— Então — murmurou ele, logo após os dois entrarem no carro e partirem para Chiswick. — Não mais, Motoki?
— Não mais, Motoki.
— Feliz? — Ele gostaria de poder prestar atenção nela, monitorar-lhe as expressões para avaliar o que passava naquela cabeça. Precisa¬va, contudo, se concentrar no volante. Ela representava uma distra¬ção até para os motoristas mais cuidadosos.
— Sim e não.
— O que isso significa? — As mãos dele espremeram a direção, mas Mamoru manteve o tom de voz equilibrado.
— As coisas não andavam bem entre nós. Quero dizer, é bom que... que ambos tenhamos chegado à mesma conclusão, mas... ele foi parte da minha vida por muito tempo, eu preciso ainda me acostumar... — Usagi abria o coração. — Ele me deixou ficar na casa até que eu ache um lugar para ficar... e adivinha o quê?
— O quê?
— Me ofereceram um emprego e... — Ela fez uma pausa para fazer um suspense sobre o que contaria em seguida. — Como parte do contrato, eles me ofereceram um apartamento! Você acredita nis¬so? Eu não pude. A empresa está liderando a campanha publicitária de um empreendimento enorme no sul de Londres. Apartamentos, academias, lojas, um montão de coisas! E, enquanto estiver envolvi¬da com o marketing, a minha companhia tem o direito de alojar seus empregados em alguns apartamentos do empreendimento. Tudo aconteceu no momento certo. Não é fantástico?
— Fantástico. — Ele sentiu uma pontada de culpa, mas se conso¬lou com o fato de que Usagi chegaria lá, de qualquer maneira. Ela era dedicada. Caso contrário, como terminaria o curso enfrentando tan¬tos problemas? E ela era talentosa também. A melhor aluna da facul¬dade desde que colocou pela primeira vez o pé na sala de aula.
— Você não parece muito feliz por mim. — E isso feria Usagi.
— Eu estou imensamente feliz por você — cortou Mamoru. — Como Motoki reagiu depois que fui embora?
— Não da maneira que esperei. Você me acha capaz de dar conta desse emprego, não acha?
— Se você é capaz de estudar de dia e trabalhar à noite, você está capacitada para ser a primeira-ministra do país.
— É, bem, acho que o fator experiência não conta a meu favor.
— O que você quis dizer com "não da maneira que esperei"?
— Ele não deu nenhum ataque de ciúmes, muito pelo contrário. Resignou-se. Na verdade, foi ele quem terminou tudo.
Melhor assim, pensou Mamoru. Desse modo, ela nunca vai ficar imaginando o que poderia ter sido. Ele a queria livre, livre para ele.
O restaurante apareceu diante deles, sem que Mamoru se desse con¬ta de que eles haviam chegado. A fachada antiga e charmosa contras¬tava com o interior do lugar. Ao entrarem, Mamoru pôde ouvir Usagi tomar fôlego para assimilar o ambiente luxuoso. Muito vidro na de¬coração, muito cromo, e pessoas bonitas, que se achavam mais vir¬tuosas quando comiam peixe em vez de carne vermelha.
— Não diga isso. — Mamoru curvou-se para adverti-la, e Usagi sentiu o sussurro quente junto à nuca.
— Não diga o quê?
— Que este não é o tipo de lugar que você costuma ir.
— Este não é o tipo de lugar que eu costumo ir — informou ela, como se cumprisse uma obrigação. No entanto, ninguém ali notaria. Para Usagi, foi como entrar no futuro brilhante que a esperava, um presente de Natal aguardando para ser desembrulhado.
Usagi teve a impressão de que Mamoru podia ler os seus pensamen¬tos e se alegrava com a conclusão a que ela chegava. A conclusão de que as fronteiras entre as pessoas só existiam na cabeça dela.
A partir daí, eles passaram a ser paparicados, levados até a sua mesa, brindados com o cardápio, que mais lembrava um pergaminho, pois era necessário desenrolá-lo para lê-lo.
— Hmmm. Suflê de frutos do mar! — Usagi imitou grã-fino. — Salmão, grelhado, salpicado de molho de cogumelos selvagens! O meu favorito!
Mamoru recostou-se para assistir à satisfação dela. Ele ficaria ali para sempre.
Sob aquele olhar de ternura, ela sentiu-se de repente e de forma inesperada envergonhada. Aonde teria ido a mulher firme e hostil? Mamoru não mudou, ainda habitava um mundo diferente do dela, e Usagi ordenou a si mesma que melhor seria se ela não se esquecesse disso.
— Então — disse ele, devagar —, salmão grelhado, ao molho de cogumelos hoje. E amanhã?
— Você deve pensar que sou um pouco ridícula. Todo esse alarde apenas porque estou saindo para o mundo real. Bem, não exatamente real, mas...
— Você está agarrando as suas oportunidades. Não tem nada de ridículo nisso.
— Eu acho que as mulheres... com quem você se relaciona não têm esse tipo de dilema. — Usagi sorriu e ficou aliviada com a chegada do garçom para anotar os pedidos.
— Não — afirmou Mamoru. — A maioria delas se conforma em desperdiçar as oportunidades. É claro que encontrei mulheres no tra¬balho que deram duro para construir suas carreiras. Porém, conheci mulheres cuja ambição na vida era casar com um homem rico.
— E qual delas você prefere? — indagou Usagi.
A resposta ficou em suspenso devido à chegada do prometido Chablis à mesa.
— Eu não classifico as mulheres que acho atraentes.
— Bem, você não respondeu. — disse Usagi contrariada. Mamoru riu da reação dela. — E não se esqueça que nós fizemos um acordo...
— Um acordo?
— Isso mesmo. — Usagi terminou a primeira taça de vinho, e Mamoru lhe serviu mais.
Usagi nunca fora uma amante do álcool. A primeira taça de vinho foi direto para a sua cabeça e, de modo prazeroso, diluiu o nervosismo.
— Eu lhe contei uma versão compacta da história da minha vida quando nos encontramos pela última vez. Isto é, quando você apare¬ceu sem ser convidado na minha casa. E você me prometeu contar a sua também.
O garçom trouxera as entradas, mas Usagi quase não notou, ocu¬pada que estava em se concentrar no homem diante dela.
Mamoru a examinava em meio a uma mordida no salmão defumado.
— Eu pensei que você já tinha o meu currículo. Pelo menos você insistiu em me qualificar todas as vezes que nos encontramos.
— Onde você cresceu?
— Grécia e Inglaterra. Grécia para as férias, Inglaterra para estu¬dar. Entrei no colégio interno aos 11 anos.
— E como foi? — A escola foi um pesadelo para Usagi. A neces¬sidade de se adequar ao que pensava e dizia a maioria dos colegas foi grande. Ler livros e estudar eram coisas que tinham de ser feitas escondidas da galera. Não que os seus pais não a encorajavam, mas ela encarava as aulas com a indiferença de quem já era o centro das atenções no mundo dos adolescentes. A garota mais bonita, que na¬morava o cara mais cobiçado.
Usagi ouvia com inveja Mamoru contar as experiências dele na escola, ria das histórias dele com os colegas. Já naquela idade, ele sabia que da escola iria para a universidade e alcançaria os mais altos degraus na vida profissional.
Ela também contou a ele sobre os seus tempos de colégio. As garotas que fumavam atrás do abrigo para bicicletas. Os garotos que ficavam bêbados. As aulas matadas. Meninas grávidas, o que na épo¬ca era um escândalo. Risadas e burburinho em apoio aos garotos baderneiros, admirados pelo desleixo em sala de aula e pelos comen¬tários ridículos para irritar os professores. Nada de canivetes ou vio¬lência de verdade. Não se chegava a esse ponto.
Entretida, Usagi surpreendeu-se ao perceber que eles haviam fi¬nalizado a primeira garrafa de vinho e já bebiam da segunda.
Fazia tempo que ela não se sentia tão relaxada. Ela comeu o peixe e disse a Mamoru que a refeição não fora nem um pouco melhor do que o tradicional peixe frito com batata frita que ela comia numa lancho¬nete em Shepherds Bush.
— E quando vou poder tirar a prova disso? — perguntou Mamoru.
— Ah, não. — Usagi sorriu, sedutora, e brincou: — O serviço vai cair se os grã-finos invadirem o lugar.
— Eu posso me vestir de forma mais relaxada — rebateu Mamoru, rindo da tirada, exagerando no tom solene. Se uma bomba atómica caísse ali, ele nem se daria conta, pois tudo o que podia ver na sua frente era aquela criatura de rosto alegre e vivido, mãos finas delica¬das e expressivas.
— Eu aposto que você nunca se vestiu de um jeito largado na vida.
— Jeans? Camiseta amarrotada? Tênis? Eu consigo, sim. — Ele coçou o queixo, pensativo. — Mas é claro que eu precisaria fazer umas compras...
Mamoru sabia que a piada a divertiria, e ele queria ouvir a risada dela.
Ele pediu a conta com um gesto.
Usagi lamentava que a noite aproximava-se do fim.
— Eu posso pegar um táxi de volta para casa — afirmou ela, enquanto Mamoru assinava o comprovante do cartão de crédito.
— Isso tem um quê de déjà-vu — resmungou Mamoru, pondo-se de pé.
— Nós não podemos... — Não adiantava fingir que ela não tinha lido as intenções no olhar de Mamoru. Nem se enganar sobre o que a vontade dele excitara nela. Mas era já preocupante ela ter se divertido tanto no jantar, um passo perigoso para se viciar na companhia dele. Dormir com Mamoru seria perder todo o juízo que restara.
— Por que nós não podemos? — murmurou Mamoru.
Ele pôs a mão no cotovelo dela e a escoltou até a saída do restau¬rante. Ao toque dele, Usagi esforçou-se para manter inteiro o seu bom senso, que se esfarelava em meio à excitação e ao medo de ser sugada pelos próprios instintos.
— Motoki e eu terminamos há pouco tempo — explicou Usagi, apelando para ele e para ela também. — Eu não estou disponível agora.
— Por que nós devemos lutar contra o que sentimos? Eu vou chamar um táxi para nós dois. Isso já passou dos limites.
— E o seu carro?
— Ele fica aqui. Eu mando o meu motorista pegá-lo.
— Está vendo por que nós não podemos nos envolver!
— Por que vou ter que deixar o meu carro aqui.
— Você está deliberadamente se fazendo de desentendido!
— E você está deliberadamente tentando encontrar desculpas. Por quê? — Mamoru inclinou-se para ficar frente a frente com ela. Usagi inspirou fundo o aroma limpo e masculino dele. — Por que você foge tanto? — O tom da pergunta de Mamoru misturava inconformismo e zombaria pelas idas e vindas dela.
— Eu não quero me envolver — reagiu Usagi, sem a mesma ênfase de protestos anteriores. O táxi pedido se aproximava.
— Sobre que tipo de envolvimento você está falando? Um homem pendurado nos seus ombros como um peso morto? Era isso que você tinha com ele, ou você se esqueceu? Acredite em mim, eu tampouco quero envolvimento.
O táxi parou, e Mamoru, pela janela do motorista, deu o seu endere¬ço como destino. Em seguida, olhou para Usagi e abriu devagar um sorriso. A barriga dela gelou.
— Ser ou não ser...?
Usagi entrou no carro e deslizou no banco de trás para dar espaço para ele. Uma excitação quente e traiçoeira pulsava nas veias dela. Ela não sabia por que insistia em discutir. Cada argumento que apre¬sentava, ele rebatia com uma resposta razoável.
— Você prefere morar com um homem pelo qual tem pena e se proibir de qualquer outra experiência? O hábito pode ser uma coisa destrutiva, Usagi.
— Motoki não... — Ah, sim, ele fez. O ex-namorado a exauriu, riu das suas aspirações, assistiu à batalha da namorada para ganhar dinhei¬ro, enquanto bebia as economias, sem se dar ao trabalho de procurar um emprego. Ele foi egoísta, egoísta como uma criança. E foi provavel¬mente por causa do lado infantil dele que ela o suportou.
Mamoru Chiba não era uma criança. Ele era cem por cento homem. Ele poderia magoá-la de uma maneira diferente, Usagi intuía.
— Pare de arrumar desculpas para esse homem — disse Mamoru. — Você pode conhecê-lo há muito tempo, mas isso não o impede de ter sido uma corda no seu pescoço.
— Você é tão frio e calculista — resmungou Usagi.
— Eu sou realista. Nós dois somos adultos e estamos atraídos um pelo outro. Mais: nenhum dos dois busca compromisso ou casamen¬to. Ou não?
— Eu, definitivamente, não — respondeu Usagi brava. — Você não precisa ter medo de se enrolar com uma mulher que não tem absolutamente nada a ver com você.
— É assim que você vê as coisas. — Todo o autocontrole dele estava empenhado em evitar uma aproximação, um toque nela. Mamoru não conseguia se lembrar de quando quis tanto uma mulher como queria Usagi, ou de quando foi obrigado a conter tanto os seus ins¬tintos. — Que não haveria nenhuma chance de eu querer uma relação séria com você por sermos de origens sociais diferentes?
Usagi balançou a cabeça de modo cínico.
— Não que isso faça alguma diferença para mim — disse ela. — Estou apenas tentando esclarecer as coisas.
— Você quer dizer que não ficaria magoada se esse fosse o caso?
No minuto em que ele fez a indagação, disparada com a costumei¬ra precisão para atingi-la na região mais vulnerável, Usagi levantou a crista para se defender.
— Por que deveria? Eu venho apontando as nossas diferenças desde que nos conhecemos.
— E venho falando, desde que você começou com esse papo de que somos de mundos distintos, que a sua origem não faz nenhuma diferença para mim. — Mamoru balançou a cabeça com impaciência. — Talvez pelo fato de não ser inglês a minha cabeça não foi martela¬da com toda essa baboseira sobre classes sociais. Não, não quero nenhum envolvimento, por que...
— Por que o quê?
Mamoru a observou em silêncio por alguns poucos segundos, antes de passar a mão pelos cabelos, tenso.
— Fale, vamos — pediu Usagi. — Você é muito bom em deixar sem respostas as perguntas que você não quer responder, e estou cansada disso.
— Você está... O quê...?
— Você não pode culpar uma garota por querer saber um pouqui¬nho sobre o cara que está tentando levá-la para cama.
Mamoru soltou uma risada e a olhou com apreço, em vez de impa¬ciência.
— Eu começo a pensar que você adotou o tipo eu-a-garota-pobre só para conduzir as coisas à sua maneira.
— Um namoro frustrado? — pressionou Usagi. — Alguma coita¬da se envolveu mais do que devia com você e se transformou na corda do seu pescoço?
— Você me excita.
— Você está mudando de assunto. — Aquelas três palavras fize¬ram com que Usagi ficasse totalmente ávida por aquele homem, pois o corpo não obedecia ao seu cérebro.
Mamoru a fitava, pensativo. Afastou-se para examiná-la melhor. Se havia alguma coisa que essa mulher não era, essa coisa era evasiva, e ele gostava disso.
— Seis meses atrás terminei com uma mulher chamada Rei. — E você é a primeira pessoa com quem converso sobre isso, Mamoru poderia ter acrescentado. — A gente saiu por quase um ano, e, no decorrer desse ano, ela se transformou de uma pessoa fácil e divertida para uma grudenta e possessiva.
— O que deve ter sido um golpe duro para um espírito livre como o seu — opinou Usagi. Na escuridão do carro Mamoru corou, atingido pela alfinetada.
— Será que foi de sarcasmo o tom de voz diferente deste comen¬tário?
— Se você vestiu a carapuça... O que aconteceu então?
— Eu preciso entrar em detalhes?
— Precisa. — Ela estava adorando aquilo tudo. — Quem começa vai até o fim.
— Me poupe dos provérbios, por favor. — Mamoru apoiou o coto¬velo na porta do carro e o queixo na mão. Matutava sobre o motivo pelo qual ele estava tão caído por aquela mulher.
— Me poupe das evasivas.
— Bom, se você quer saber, ela começou a telefonar para o meu escritório. Não apenas uma vez ou duas por dia, mas literalmente dúzias. No fim, tive que orientar a minha secretária a bloquear as ligações. Quando tentava conversar com ela a respeito, ela chorava, o famoso truque das mulheres.
— Ei! Das mulheres que você conhece.
— E você nunca derramou uma lágrima?
— Não como parte de chantagem emocional — respondeu Usagi, enojada.
— Bem, ela derramou. Depois ficou pior. Ela foi das lágrimas para a raiva. Enfim, disse a ela que a relação tinha acabado. Aí, ela começou a me seguir. Eu ia para casa à noite e encontrava o carro dela estacionado do lado de fora, e ela me esperando chegar. Um pesadelo.
Usagi escutava o relato quieta, contendo a revolta com tal com¬portamento.
— O que você fez?
— Eu a enfrentei. Falei que se aquilo não acabasse eu procuraria a polícia, e os pais dela ficariam sabendo de tudo. Felizmente, isso funcionou, mas essa é a razão de eu, vamos dizer assim, estar um pouco cauteloso em relação a envolvimentos com o sexo frágil. Está vendo, os resumos de nossas vidas têm mais em comum do que você pensava.
O táxi parava em frente ao prédio dele. Usagi até se esquecera que andava de carro. Saiu do carro, esperou que Mamoru se juntasse a ela e lhe perguntou, cuidadosa, a caminho da portaria:
— E como você se sente, você sabe, em relação a ela?
— Como me sinto? — Desta vez não haveria conversas embaraço¬sas na recepção. Ele a levava diretamente para o elevador, embora, por mais absurdo que pudesse soar, não tinha ainda certeza se acaba¬ria com ela no seu colchão king-size.
— Sim, sentir. Você ainda a ama?
— Eu gostava dela no início.
— Eu estou falando de amor.
— Amor? — As portas do elevador se fecharam. Os espelhos nas laterais da cabine os refletiam. Mamoru pôde ver aqueles olhos azuis de franqueza observando cada ângulo dele, enquanto Usagi subia pelas paredes aguardando a resposta que ela, acabara de descobrir, não queria ouvir. Não queria imaginá-lo ressentido por ter se apaixo¬nado por uma mulher que se revelou a mulher errada para ele. Ela preferia ficar com a opção de que Mamoru gostara da ex-namorada por que... por que...
Ela suspirou aliviada quando as portas se abriram, mas o alívio durou pouco, desbancada pelo coração acelerado. As batidas se tor¬navam mais intensas à medida que ele encaixava a chave na fechadura e abria a porta de casa.
— Isso é passado, Usagi — murmurou Mamoru, afastando-se para lhe abrir caminho. — Isto aqui é o presente. Para nós dois. Você não acha?
Tá tudo gozando!!!!! omg
CAPÍTULO VI
Ele fazia com que tudo parecesse perfeito. Duas pessoas, ambas de¬siludidas com as suas relações anteriores, sem que pudessem evitar a atração recíproca, mas cientes da inconveniência de se apaixonarem.
Gato escaldado tem medo de água fria, pensava Usagi agora. Ti¬nha o raciocínio movido a provérbios.
Motoki e ela deveriam ter constituído o casal ideal. Evoluíram de amiguinhos de infância para namorados da adolescência. Tinham que terminar, logicamente, como adultos felizes e realizados, mas acaba¬ram mais enrolados do que um novelo de lã.
E Mamoru nem precisava lhe revelar o que ela já havia deduzido por conta própria. Rei pertencia ao mesmo meio social que ele, e mesmo assim a relação ruiu sob o peso das incompatibilidades.
E aí estavam Mamoru e Usagi agora, sem almejar nada além do presente.
E meu Deus, como ela o queria, cada músculo do corpo dela o queria.
Usagi recusou a oferta de uma bebida. Encarou-o. Estremeceu e delirou diante do calor intenso da olhada dele.
— Não quer mesmo um drinque para criar coragem? — perguntou Mamoru, enfim, cedendo ao anseio de tocá-la. Acariciou o rosto de Usagi com suas mãos largas.
— Eu só preciso de álcool para fazer o que eu não quero fazer — respondeu Usagi. Ela espalmou as duas mãos no peito de Mamoru e começou a desabotoar a camisa dele com os dedos trêmulos. A cada botão fora da sua casa, Usagi contemplava um pouco mais do tórax bronzeado, firme, e dos ombros musculosos.
— Melhor você parar por aí — aconselhou Mamoru, com a voz rouca. — Ou não vai dar tempo de a gente chegar até o quarto.
Ele a pegou no colo e a levou para um dos quartos do apartamento, chutando a porta para abrir a passagem.
Gentilmente, Mamoru a acomodou na sua cama. Em silêncio, ele a observou deitada por uns poucos segundos, nos quais Usagi sentiu que o coração dela desacelerou. Mamoru, então, acendeu um dos aba¬jures da cômoda que tomava uma parede inteira do aposento.
Usagi tinha vontade de se esticar na cama como um gato, para que o calor do olhar dele a aquecesse por inteiro. Ela se contorceu um pouco, suspirou e assistiu fascinada a Mamoru tirar a roupa.
A um desavisado, Usagi passaria a ideia de ser uma virgem mara¬vilhada com as primeiras imagens do corpo masculino em toda a sua glória. Não que todos os corpos masculinos fossem gloriosos como o de Mamoru. Se é que havia um tão glorioso.
Ele livrou-se da camisa social e expôs os ombros largos, a barriga dura, de músculos definidos, mamilos planos e escuros. Lentamente, desafivelou o cinto. O olhar de Usagi seguia as mãos de Mamoru e se fixava agora no ponto onde ele abria o zíper da calça, a cintura perfei¬ta dele.
— Prepare-se — afirmou Mamoru, sorrindo. — Quando eu acabar, vai ser a sua vez...
— Eu posso ter usado vestidinhos apertados em boates, mas strip-tease não é a minha especialidade. — Usagi ficou com a boca seca, ao acompanhar Mamoru deslizar os dedos por entre o elástico da cueca boxer. E então os lábios dela curvaram-se num sorriso malicioso, de pura satisfação, ao avistarem e constatarem o tamanho da masculinidade dele.
— Bem, vamos ter que aprimorar esse seu lado. — Mamoru debru¬çou-se sobre Usagi e começou a despi-la, saboreando cada segundo da exposição gradual do corpo dela.
A pele de Usagi tinha textura de cetim. Primeiro, os ombros. Depois o resto, exceto o sutiã de renda que mal lhe escondia os seios. Um toque no fecho e pronto. Mamoru abriu o sutiã e gemeu ao libertar as duas elevações brancas, generosas, e ao revelar os botões de rosa, que ele sonhara acariciar.
Usagi permanecia deitada, sem se mover, trocando olhares com ele. Uma onda de desejo, de tão poderosa, a obrigou a fechar os olhos e a fez suspirar.
Ela queria que Mamoru a tocasse. Seus seios ansiavam pelo toque dele.
Em vez disso, ele terminou o que iniciara. Tirou toda a roupa dela até que Usagi ficasse inteiramente nua.
— Feliz? — perguntou ele, com uma voz trêmula. Deitou-se então sobre ela e, por alguns momentos, somente a olhou. Mais do que tudo, queria vê-la feliz, saber que Usagi se entregava a ele de corpo e alma, sem dúvidas, sem culpas.
— Feliz — reconheceu Usagi, tão trêmula quanto ele. Ela levan¬tou os braços para colocar as mãos em volta da cabeça de Mamoru e trazê-lo para beijá-la. O beijo pareceu sem fim, devagar, estimulante. O beijo explorador, sem pressa, de um casal para o qual o tempo finalmente parará.
— Eu me sinto como uma adolescente. — Usagi sorriu, sem fôlego.
— Nós deveríamos ter nos encontrado quando você era uma.
— Ah, aos 16, eu estava encantada por Motoki. — Usagi espi¬chou o pescoço para dar uma série de beijos rápidos na sua boca, movendo o corpo sinuosamente debaixo de Mamoru, adorando sentir seu membro duro contra ela.
— Porque você não tinha ainda me conhecido. — Mamoru moveu-se para baixo, trilhando com a língua o pescoço dela, descendo até o vão entre os seios. Usagi prendeu a respiração e curvou a espinha para facilitar o trabalho dele. Soltou um gemido longo de absoluto prazer, quando por fim Mamoru envolveu com a boca um dos mamilos dela e se pôs a sugá-lo, acariciá-lo com a língua.
Mamoru segurou as mãos inquietas de Usagii e as prendeu uma em cada lado dos seus corpos, enquanto continuava a brincar com os seios dela, provocá-los com a boca. Primeiro um, depois o outro, até que os dois mamilos latejassem.
Quando ela gritou, parecia a voz de uma outra pessoa, vinda de um outro lugar.
À mercê do ritual lento e cuidadoso de Mamoru, Usagi nunca expe¬rimentara tamanha sensualidade. Ela tinha consciência de como se remexia embaixo dele. Queria mais. E queria agora.
No entanto, Mamoru seguia sem pressa.
Ele havia esperado por aquela mulher. Ao tocá-la, sentir o movi¬mento dela, ouvi-la gemer por ele, Mamoru tinha a impressão de que a esperara por toda a vida. Não correria com as coisas agora, embora soubesse que bastaria Usagi tomar a iniciativa para que ele corresse o sério risco de não se segurar. Ele não era mais o mestre do amor. O amor o comandava agora.
Mamoru soltou as mãos de Usagi e moveu-se ainda mais para bai¬xo, sentindo com a boca a carne tensa do ventre dela. Passou para o umbigo. O corpo de Usagi respondeu aos carinhos instintivamente, afastando as pernas para acomodar a língua dele.
Usagi buscou ar, sem folego, no momento em que as mãos de Mamoru gentilmente pressionaram o interior suave das suas coxas, permitindo a ele acesso irrestrito à feminilidade úmida dela.
A partir daí, a ponta da língua dele começou a jogar com aquele pequeno botão, para lá e para cá, até Usagi estar a ponto de gritar de maravilhosa agonia. Sempre que a levava até o limite, Mamoru retroce¬dia, deixando a emoção dela vazar, para voltar a saboreá-la, a lambê-la, a enviando para outro planeta, um que Usagi nunca visitara antes.
Será que ele se sentia excitado de maneira tão selvagem e descon¬trolada pelo fato de ter ele esperado por ela, e não vice-versa? Mamoru não saberia responder. Admirá-la deitada passiva na cama, nua e glo¬riosa, o eletrizava tanto, que ele havia sido momentaneamente priva¬do de pensamentos.
E agora, enfim, sentindo o movimento dela sob ele...
Mamoru afastou-se um pouco e girou com ela para que agora fosse a vez de Usagi estar por cima. Os seios, tentadores, se bateram no ar sobre o rosto dele, e Mamoru capturou um dos mamilos com a boca. Sugou-o com força, mesmo já tendo a mulher colada no seu corpo. Usagi encaixara Mamoru nela de forma justa, aconchegante. Ela me¬xia-se em um ritmo perfeito, dançando junto com ele.
Os corpos de ambos estavam sintonizados. Unidos como se fos¬sem um só. Finalmente, os dois atingiram o clímax. Chegaram lá juntos.
Demorou até que o corpo agitado e trêmulo de Mamoru se restabe¬lecesse do impacto do orgasmo. Usagi então se esparramou sobre ele com um pequeno suspiro. Minutos se passaram até que ela rolasse para se deitar ao lado dele. Com o cotovelo sobre o colchão, Usagi apoiou o rosto na mão para observá-lo de cima.
Ela poderia contemplá-lo ali para sempre. Mamoru virou-se, e eles se examinaram. Delicadamente, ele tirou o cabelo que cobria o rosto dela e a trouxe de volta para cima dele. Posicionou a cabeça de Usagi debaixo do seu queixo e beijou os cabelos finos e louros.
— Eu acho que devo começar a pensar em voltar para casa — disse Usagi, após um tempo. Ela traçara pequenos círculos imaginá¬rios com o dedo no peito dele e se divertia naquele momento em percorrer o contorno de um dos mamilos de Mamoru.
— Por quê?
— Por que é lá frequentemente que eu passo as noites.
— Frequentemente?
— Satisfazer as nossas vontades, você quer dizer. — Em vez de ligar o motor, Mamoru enfiou a chave na ignição e se pôs a observá-la.
Ele poderia partir para o ataque neste momento e fazer amor com Usagi mais uma vez. Neste exato instante, neste exato lugar, como um adolescente aflito, sem a privacidade de um quarto para abrigar-se. Ela o excitava. Não apenas pelo corpo, mas também pela maneira como o olhava, uma olhada contemplativa.
Não, era mais do que isso, era a maneira como ela agia. Direta, engraçada, discreta, com um raciocínio ágil, nunca visto por Mamoru antes.
— Ah, é? — Usagi riu. — Então você está pensando nas nossas vontades! Bem, talvez numa outra vez. Agora eu acho que você deve¬ria se mexer. Não quero que você vá dormir muito tarde por minha causa. Os donos de impérios precisam de um sono tranqüilo.
Mamoru ligou o carro e deixou o estacionamento. Ele não se impor¬taria em tirar um dia de folga, se a contrapartida fosse passar o tempo inteiro na cama com ela.
— Pro seu governo, eu só preciso de umas poucas horas de sono para funcionar bem. Eu geralmente durmo pouco. Você vai fazer alguma coisa amanhã?
— Amanhã? — Ela se virou para a paisagem na janela e franziu a testa. — Eu preciso comprar umas roupas decentes para trabalhar e devo tentar me encontrar com Motoki, para combinar quando ele vai voltar para debaixo do próprio teto. Eu não faço a menor idéia de onde ele esteja, mas aposto que dormindo no chão da casa de alguém. — A voz de Usagi suavizou-se. — Ele tem sido fantástico durante todo esse tempo de separação.
As mãos de Mamoru espremeram o volante.
— Que herói — murmurou ele sarcástico, e Usagi o olhou de cara feia.
Se Usagi não tivesse a cabeça bem no lugar, ela poderia até detec¬tar uma ponta de ciúme no comentário quase inaudível.
A idéia de um Mamoru ciumento, porém, provocaria gargalhadas, principalmente se a razão para tal sentimento fosse ela, uma mulher com quem ele mantinha uma relação adulta, sem compromissos, se é que o que eles tinham poderia ser chamado de uma relação.
— Eu por acaso penso que é heróico, sim, me deixar morar na própria casa, quando a gente não está mais junto. Você teria feito o mesmo?
— Eu não lido com hipóteses.
— Ah, me parece que a sua imaginação deixou você na mão. — Apesar da ofensiva, Usagi não encontrava nela disposição para um confronto com Mamoru. Os olhos de ambos se cruzaram por um segun¬do, e a sintonia entre os dois provocou em Usagi um arrepio, que a amedrontou.
— Disso eu nunca fui acusado antes.
O tom de voz de Mamoru levou Usagi a suspeitar que ele se referia à imaginação dele na cama e ela não queria pensar nele entre lençóis com outra mulher.
— Bem, se você gasta as suas noites com bonequinhas de papel...
Mamoru riu, estendeu o braço e espalmou a mão sobre a coxa dela.
Usagi se excitou.
— Dirigir com uma das mãos não é seguro — disse ela, um pouco ofegante.
— Que pena. — Ele tirou a mão, deixando a perna dela fria e carente. — Há sempre a possibilidade de remediarmos a situação quando chegarmos à sua casa...
Usagi dividia-se entre a tentação de se entregar mais uma vez a ele e a voz da consciência que lhe dizia que não, que ela deveria se preservar, e isso significava traçar e explicitar os limites. Usagi ba¬lançou a cabeça negativamente e com firmeza para ele.
— Então quando vou vê-la de novo? — Mamoru estacionava em frente à porta da casa dela. — Se você está ocupada amanhã, então eu pego você na sexta-feira, às 19h30. A gente pode jantar em algum lugar.
Usagi abriu a porta do carro, prevendo que ele a acompanharia até a entrada de casa. Ele assim procedeu. Mas Mamoru não poderia de jeito nenhum entrar na casa. Não quando parecia que bastaria ele se aproximar um pouco para ela perder o controle sobre si mesma.
— Não sei — despistou ela.
Não sei? Que diabos aquela mulher queria dizer com aquilo! Mamoru tomou a frente dela e obstruiu a porta da casa com os braços cruzados. Logo ele! O homem que abominava qualquer pessoa pos¬sessiva! Ele que nunca, em toda a vida, mostrou o menor sinal de tal inconveniente emoção! Flagrava-se agora submisso, exigindo saber cada passo que ela planejava.
— Eu começo no emprego na segunda-feira — afirmou Usagi. — Você se importaria em sair da frente? Eu não posso entrar em casa se você ficar aí.
— Até aí estou entendendo. O que não compreendo é o que isso tem a ver com o fato de não poder ver você. — Autocontrole, Mamoru repetia para si. Ele era o mestre do autocontrole. Pelo menos assim ele pensava. Não se sentia tão controlado neste momento e permane¬ceu, convicto, no mesmo lugar.
— Eu tenho um monte de coisas para fazer antes de começar no trabalho. Motoki vai querer voltar para casa o quanto antes. Logo, vou ter que me mudar no fim de semana. Eu vou ver a gerente de Recursos Humanos na sexta de manhã para assinar o que tiver para ser assinado.
— Você disse que o seu novo apartamento é... onde exatamente?
Usagi levantou as sobrancelhas, desconfiada, mas deu a ele o endereço.
— Tudo bem. — Ele desimpediu o caminho até a porta da casa e a olhou ainda um pouco contrariado. — Você pode precisar de uma ajuda com a mudança... Eu posso arrumar um caminhão ou uma ca¬minhonete de qualquer tamanho.
Desta vez, Usagi riu com vontade.
— Eu não acho que isso tudo vai ser necessário. Os meus perten¬ces cabem no banco de trás de um carro desportivo. — Antes que Usagi pudesse esboçar qualquer reação, Mamoru segurou uma das suas mãos, a virou e a beijou na palma. Em seguida, beijou Usagi na boca.
Como ele a fazia tão... tão feliz! Será que por ter agüentado tanto tempo uma relação falida com ela agora se lambuzava com esse pouquinho de atenção?
— Sábado — murmurou Mamoru, descolando-se dela, mas próximo o suficiente para que Usagi sentisse o hálito quente dele. — Nove horas em ponto. Eu estarei aqui para ajudá-la com a mudança.
— Não seja ridículo. Eu sou totalmente...
— Eu sei. Totalmente capaz de fazer isso sozinha. Por que você não aceita uma ajudazinha pelo menos uma vez, quando essa ajuda é oferecida com a melhor das boas intenções?
O problema era saber qual era a intenção.
Obviamente, ela deveria ter batido o pé e recusado calmamente. Ele acabaria sendo mais um impedimento do que uma ajuda. No entanto, não foi assim que Usagi agiu. Como resultado, Mamoru teve a chance de se mostrar extremamente pontual, chegando à casa dela no sábado na hora marcada, a bordo de uma Ferrari prata rebaixada, que caía como uma luva nele.
De queixo caído, Usagi o viu descer do carro. Fechou a boca, pois não queria dar a impressão de ser uma daquelas que se impressiona¬vam com carros. Estava disposta a lhe dizer isso, tão logo ela abrisse a porta de casa para ele.
— Cheguei — anunciou-se, rindo. — E vim vestido para a oca¬sião.
Usagi espantou-se ao vê-lo de perto em jeans desbotado, tênis e um agasalho verde-escuro. Ela aprovou. Nele, o tradicional jeans desbotado ganhava um charme novo.
— E também trouxe o carro desportivo solicitado. — Mamoru estalou um beijo na ponta do nariz dela.
— O que passou pela sua cabeça para achar que as minhas coisas caberiam num carro desportivo! — Usagi riu e mostrou com o braço a pilha de coisas pacientemente trazidas escada abaixo.
Mamoru passeou pela casa, examinando a coleção de pertences dela, com uma expressão de quem aceitara a brincadeira.
— E quem disse que acreditei na historinha da mulher com pouca bagagem? O meu motorista está estacionado lá fora com um muito mais sensato Range Rover. Podemos segui-lo na Ferrari.
Usagi titubeou, mas cedeu. Por que se incomodar com aquilo? Mamoru estava certo ao opinar que ela precisava aprender a ignorar o orgulho e aceitar ajuda. E era uma grande ajuda tê-lo ali para auxiliar na mudança. Motoki se ofereceu, mas Usagi achou importante não aceitar. Mudar-se da casa dele representava o início de uma nova vida. Motoki não insistiu. Na verdade, aparentou alívio e disse algo sobre arrumar as próprias coisas, mas não entrou em detalhes.
Usagi sorriu:
— Tudo bem.
— Você vai e espera no carro. Eu e George vamos levar as coisas para a caminhonete. Há algo que você queira levar com você?
— Apenas a minha mochila. — Ela afastou-se, enquanto Mamoru media com os olhos tudo que teria de ser transportado. Usagi tentou conter o prazer de passar para ele o controle das ações. Receber cui¬dados, em vez de cuidar de alguém o tempo inteiro, representava uma mudança enorme.
Obediente, ela foi para a Ferrari e observou Mamoru e o motorista descarregaram a bagagem no jipe 4x4. Depois, seguiram devagar, devido ao tráfego intenso no centro de Londres, rumo ao novo lar.
O empreendimento seria o maior no gênero, e a campanha publi¬citária orgulhosamente anunciava as vantagens de morar ao sul do rio Tamisa. O projeto englobava suítes privadas, escritórios, um andar inteiro de academias de ginástica, vários salões de beleza, espaços para conferência, estacionamento no subsolo e uma sala de cinema para uso exclusivo dos residentes. Tudo isso construído em volta de uma área central aberta e gramada.
Usagi descrevia tudo em detalhes, até perceber que ela conduzia um monólogo, e não uma conversa.
— Você não precisava vir e me ajudar — disse ela, colocando o orgulho de volta no lugar.
— Eu sei. — Mamoru sabia exatamente no que Usagi estava pen¬sando. Entusiasmada, ela detalhara a grande oportunidade que tinha, só para esbarrar no muro de silêncio dele.
Mais cedo ou mais tarde, Mamoru teria que lhe contar. Ele se con¬traía de preocupação diante desta perspectiva. Não era a hora ainda de falar. Esperaria ela se sentir segura no emprego, capaz de aceitar a verdade com moderação, talvez com bom humor.
Mamoru não dava corda para que Usagi prolongasse a conversa. Como alternativa, ele puxava papo sobre as atualidades de Londres, perguntava-lhe sobre os colegas do antigo trabalho na boate, se ela sentia falta de alguém, se mantinha contato com o pessoal. Em alguns minutos, a tensão evaporava do corpo dele.
Eles já podiam avistar do carro o empreendimento, de modernida¬de suntuosa e irreverente, dominando o horizonte.
Mamoru passou com a Ferrari por um arco direto para a área central, contornada com vagas para os carros dos visitantes.
— Qual é o apartamento? — indagou ele, admirando o edifício com satisfação profissional. — Certo. Você sobe, e eu e Nicholas a seguimos com as coisas.
Usagi ainda fazia, extasiada, o reconhecimento dos seus novos domínios, quando a última mala surrada bateu contra o piso do apar¬tamento.
— Não é fantástico? — Ela caminhou até a janela para contemplar a vista incrível da cidade: rio, pontes, carros e pessoas aglomerados como brinquedos em movimento.
— Onde você vai dormir, meu Deus?
Usagi reagiu com uma cara de perplexa, como se Mamoru estivesse fora de si.
— No chão, é claro. Como você vê, não há um só móvel, e eu não tinha nenhum para trazer comigo.
— No chão? — A expressão de Mamoru transbordava de increduli¬dade.
— Num saco de dormir. — Usagi reformulou a resposta. — Ve¬lho, mas ainda útil. E trouxe um travesseiro. Não há por que ficar parado aí como se estivesse atuando num filme de terror. Você pode achar a idéia de um saco de dormir inconcebível, mas eu, não.
— Quem sabe ao se ajeitar nele você não descubra que o chão é mais duro do que você pensa? — Não havia nem passado pela cabeça de Mamoru que o apartamento não era mobiliado. Ele deveria ter insis¬tido que Usagi morasse com ele até que eles pudessem equipar a casa com pelo menos os utensílios mais rudimentares. Imediatamente, ele se questionou. Que diabos estava pensando? Morar com ele? Ele quase riu em alto e bom som do absurdo da hipótese que brotou do nada nas suas idéias.
— Eu conheço sacos de dormir, Mamomu. — Usagi, de braços cru¬zados, recostava-se no parapeito da impressionante janela de três fa¬ces, que avançava para além da parede. — Eu já acampei diversas vezes, coisa que acredito você nunca fez. — Por mais que estivessem próximos, era difícil acomodar as diferenças entre dois. A cada con¬traste banal que surgia, Usagi se dava conta de quão diferentes eram os dois.
— Nós vamos ter que arrumar alguns móveis para você — reagiu Mamoru. — Ninguém pode esperar que você viva assim. Por que você não trouxe mais algumas coisas da casa? — perguntou ele.
— Porque elas não me pertenciam. Porque eu poderia ter sido acusada de roubo.
— E ele nunca ofereceu nada a você? Apesar do fato de você ter passado anos pagando as contas? Nós podemos ir à Harrods e com¬prar algumas coisas. Umas cadeiras, uma mesa, um tel...
— Espere aí! — Será que ele pensava que poderia de certa forma comprá-la? Desejo sexual era uma coisa. Equipar a casa para ela estava fora de questão. A conversa invadia um mundo totalmente diferente do qual eles haviam concordado em dividir. Usagi ficou zonza ao especular como seria receber presentes por amor, com a força que poderia ter tal gesto. Ela piscou os olhos uma ou duas vezes para recobrar-se.
— Você não vai comprar nada para mim. Se quiser alguma coisa, eu vou economizar para comprar.
— Pelo amor de Deus, Usagi. Eu posso...
— Esqueça. Eu não aceitarei nada de você, não vou viver com a idéia de que você de alguma maneira conseguiu me comprar.
Ficou mais do que claro para Mamoru o brilho de determinação nos olhos dela, e ele recuou. Preferiu não pensar no caos que a sua própria criação poderia resultar. Não. Organizaria a situação quando chegas¬se o momento propício, pois nunca tivera problemas em consertar qualquer coisa antes.
— Tudo bem — concordou ele, mais sensual. — Um almoço pas¬saria no seu teste de orgulho?
Usagi exibiu um meio sorriso, involuntário.
— Seguida por uma festinha para dois no novo apartamento?
Como ela resistiria? Usagi havia sido tão forte quando o conhece¬ra. Tinha consciência de que ele era um homem de um planeta dife¬rente. Quando Darius desenvolveu o talento para vencer a resistência dela? E quanto tempo levaria, Usagi se perguntava, alarmada, para que ela perdesse toda a imunidade a ele?
Ele fazia com que tudo parecesse perfeito. Duas pessoas, ambas de¬siludidas com as suas relações anteriores, sem que pudessem evitar a atração recíproca, mas cientes da inconveniência de se apaixonarem.
Gato escaldado tem medo de água fria, pensava Usagi agora. Ti¬nha o raciocínio movido a provérbios.
Motoki e ela deveriam ter constituído o casal ideal. Evoluíram de amiguinhos de infância para namorados da adolescência. Tinham que terminar, logicamente, como adultos felizes e realizados, mas acaba¬ram mais enrolados do que um novelo de lã.
E Mamoru nem precisava lhe revelar o que ela já havia deduzido por conta própria. Rei pertencia ao mesmo meio social que ele, e mesmo assim a relação ruiu sob o peso das incompatibilidades.
E aí estavam Mamoru e Usagi agora, sem almejar nada além do presente.
E meu Deus, como ela o queria, cada músculo do corpo dela o queria.
Usagi recusou a oferta de uma bebida. Encarou-o. Estremeceu e delirou diante do calor intenso da olhada dele.
— Não quer mesmo um drinque para criar coragem? — perguntou Mamoru, enfim, cedendo ao anseio de tocá-la. Acariciou o rosto de Usagi com suas mãos largas.
— Eu só preciso de álcool para fazer o que eu não quero fazer — respondeu Usagi. Ela espalmou as duas mãos no peito de Mamoru e começou a desabotoar a camisa dele com os dedos trêmulos. A cada botão fora da sua casa, Usagi contemplava um pouco mais do tórax bronzeado, firme, e dos ombros musculosos.
— Melhor você parar por aí — aconselhou Mamoru, com a voz rouca. — Ou não vai dar tempo de a gente chegar até o quarto.
Ele a pegou no colo e a levou para um dos quartos do apartamento, chutando a porta para abrir a passagem.
Gentilmente, Mamoru a acomodou na sua cama. Em silêncio, ele a observou deitada por uns poucos segundos, nos quais Usagi sentiu que o coração dela desacelerou. Mamoru, então, acendeu um dos aba¬jures da cômoda que tomava uma parede inteira do aposento.
Usagi tinha vontade de se esticar na cama como um gato, para que o calor do olhar dele a aquecesse por inteiro. Ela se contorceu um pouco, suspirou e assistiu fascinada a Mamoru tirar a roupa.
A um desavisado, Usagi passaria a ideia de ser uma virgem mara¬vilhada com as primeiras imagens do corpo masculino em toda a sua glória. Não que todos os corpos masculinos fossem gloriosos como o de Mamoru. Se é que havia um tão glorioso.
Ele livrou-se da camisa social e expôs os ombros largos, a barriga dura, de músculos definidos, mamilos planos e escuros. Lentamente, desafivelou o cinto. O olhar de Usagi seguia as mãos de Mamoru e se fixava agora no ponto onde ele abria o zíper da calça, a cintura perfei¬ta dele.
— Prepare-se — afirmou Mamoru, sorrindo. — Quando eu acabar, vai ser a sua vez...
— Eu posso ter usado vestidinhos apertados em boates, mas strip-tease não é a minha especialidade. — Usagi ficou com a boca seca, ao acompanhar Mamoru deslizar os dedos por entre o elástico da cueca boxer. E então os lábios dela curvaram-se num sorriso malicioso, de pura satisfação, ao avistarem e constatarem o tamanho da masculinidade dele.
— Bem, vamos ter que aprimorar esse seu lado. — Mamoru debru¬çou-se sobre Usagi e começou a despi-la, saboreando cada segundo da exposição gradual do corpo dela.
A pele de Usagi tinha textura de cetim. Primeiro, os ombros. Depois o resto, exceto o sutiã de renda que mal lhe escondia os seios. Um toque no fecho e pronto. Mamoru abriu o sutiã e gemeu ao libertar as duas elevações brancas, generosas, e ao revelar os botões de rosa, que ele sonhara acariciar.
Usagi permanecia deitada, sem se mover, trocando olhares com ele. Uma onda de desejo, de tão poderosa, a obrigou a fechar os olhos e a fez suspirar.
Ela queria que Mamoru a tocasse. Seus seios ansiavam pelo toque dele.
Em vez disso, ele terminou o que iniciara. Tirou toda a roupa dela até que Usagi ficasse inteiramente nua.
— Feliz? — perguntou ele, com uma voz trêmula. Deitou-se então sobre ela e, por alguns momentos, somente a olhou. Mais do que tudo, queria vê-la feliz, saber que Usagi se entregava a ele de corpo e alma, sem dúvidas, sem culpas.
— Feliz — reconheceu Usagi, tão trêmula quanto ele. Ela levan¬tou os braços para colocar as mãos em volta da cabeça de Mamoru e trazê-lo para beijá-la. O beijo pareceu sem fim, devagar, estimulante. O beijo explorador, sem pressa, de um casal para o qual o tempo finalmente parará.
— Eu me sinto como uma adolescente. — Usagi sorriu, sem fôlego.
— Nós deveríamos ter nos encontrado quando você era uma.
— Ah, aos 16, eu estava encantada por Motoki. — Usagi espi¬chou o pescoço para dar uma série de beijos rápidos na sua boca, movendo o corpo sinuosamente debaixo de Mamoru, adorando sentir seu membro duro contra ela.
— Porque você não tinha ainda me conhecido. — Mamoru moveu-se para baixo, trilhando com a língua o pescoço dela, descendo até o vão entre os seios. Usagi prendeu a respiração e curvou a espinha para facilitar o trabalho dele. Soltou um gemido longo de absoluto prazer, quando por fim Mamoru envolveu com a boca um dos mamilos dela e se pôs a sugá-lo, acariciá-lo com a língua.
Mamoru segurou as mãos inquietas de Usagii e as prendeu uma em cada lado dos seus corpos, enquanto continuava a brincar com os seios dela, provocá-los com a boca. Primeiro um, depois o outro, até que os dois mamilos latejassem.
Quando ela gritou, parecia a voz de uma outra pessoa, vinda de um outro lugar.
À mercê do ritual lento e cuidadoso de Mamoru, Usagi nunca expe¬rimentara tamanha sensualidade. Ela tinha consciência de como se remexia embaixo dele. Queria mais. E queria agora.
No entanto, Mamoru seguia sem pressa.
Ele havia esperado por aquela mulher. Ao tocá-la, sentir o movi¬mento dela, ouvi-la gemer por ele, Mamoru tinha a impressão de que a esperara por toda a vida. Não correria com as coisas agora, embora soubesse que bastaria Usagi tomar a iniciativa para que ele corresse o sério risco de não se segurar. Ele não era mais o mestre do amor. O amor o comandava agora.
Mamoru soltou as mãos de Usagi e moveu-se ainda mais para bai¬xo, sentindo com a boca a carne tensa do ventre dela. Passou para o umbigo. O corpo de Usagi respondeu aos carinhos instintivamente, afastando as pernas para acomodar a língua dele.
Usagi buscou ar, sem folego, no momento em que as mãos de Mamoru gentilmente pressionaram o interior suave das suas coxas, permitindo a ele acesso irrestrito à feminilidade úmida dela.
A partir daí, a ponta da língua dele começou a jogar com aquele pequeno botão, para lá e para cá, até Usagi estar a ponto de gritar de maravilhosa agonia. Sempre que a levava até o limite, Mamoru retroce¬dia, deixando a emoção dela vazar, para voltar a saboreá-la, a lambê-la, a enviando para outro planeta, um que Usagi nunca visitara antes.
Será que ele se sentia excitado de maneira tão selvagem e descon¬trolada pelo fato de ter ele esperado por ela, e não vice-versa? Mamoru não saberia responder. Admirá-la deitada passiva na cama, nua e glo¬riosa, o eletrizava tanto, que ele havia sido momentaneamente priva¬do de pensamentos.
E agora, enfim, sentindo o movimento dela sob ele...
Mamoru afastou-se um pouco e girou com ela para que agora fosse a vez de Usagi estar por cima. Os seios, tentadores, se bateram no ar sobre o rosto dele, e Mamoru capturou um dos mamilos com a boca. Sugou-o com força, mesmo já tendo a mulher colada no seu corpo. Usagi encaixara Mamoru nela de forma justa, aconchegante. Ela me¬xia-se em um ritmo perfeito, dançando junto com ele.
Os corpos de ambos estavam sintonizados. Unidos como se fos¬sem um só. Finalmente, os dois atingiram o clímax. Chegaram lá juntos.
Demorou até que o corpo agitado e trêmulo de Mamoru se restabe¬lecesse do impacto do orgasmo. Usagi então se esparramou sobre ele com um pequeno suspiro. Minutos se passaram até que ela rolasse para se deitar ao lado dele. Com o cotovelo sobre o colchão, Usagi apoiou o rosto na mão para observá-lo de cima.
Ela poderia contemplá-lo ali para sempre. Mamoru virou-se, e eles se examinaram. Delicadamente, ele tirou o cabelo que cobria o rosto dela e a trouxe de volta para cima dele. Posicionou a cabeça de Usagi debaixo do seu queixo e beijou os cabelos finos e louros.
— Eu acho que devo começar a pensar em voltar para casa — disse Usagi, após um tempo. Ela traçara pequenos círculos imaginá¬rios com o dedo no peito dele e se divertia naquele momento em percorrer o contorno de um dos mamilos de Mamoru.
— Por quê?
— Por que é lá frequentemente que eu passo as noites.
— Frequentemente?
— Satisfazer as nossas vontades, você quer dizer. — Em vez de ligar o motor, Mamoru enfiou a chave na ignição e se pôs a observá-la.
Ele poderia partir para o ataque neste momento e fazer amor com Usagi mais uma vez. Neste exato instante, neste exato lugar, como um adolescente aflito, sem a privacidade de um quarto para abrigar-se. Ela o excitava. Não apenas pelo corpo, mas também pela maneira como o olhava, uma olhada contemplativa.
Não, era mais do que isso, era a maneira como ela agia. Direta, engraçada, discreta, com um raciocínio ágil, nunca visto por Mamoru antes.
— Ah, é? — Usagi riu. — Então você está pensando nas nossas vontades! Bem, talvez numa outra vez. Agora eu acho que você deve¬ria se mexer. Não quero que você vá dormir muito tarde por minha causa. Os donos de impérios precisam de um sono tranqüilo.
Mamoru ligou o carro e deixou o estacionamento. Ele não se impor¬taria em tirar um dia de folga, se a contrapartida fosse passar o tempo inteiro na cama com ela.
— Pro seu governo, eu só preciso de umas poucas horas de sono para funcionar bem. Eu geralmente durmo pouco. Você vai fazer alguma coisa amanhã?
— Amanhã? — Ela se virou para a paisagem na janela e franziu a testa. — Eu preciso comprar umas roupas decentes para trabalhar e devo tentar me encontrar com Motoki, para combinar quando ele vai voltar para debaixo do próprio teto. Eu não faço a menor idéia de onde ele esteja, mas aposto que dormindo no chão da casa de alguém. — A voz de Usagi suavizou-se. — Ele tem sido fantástico durante todo esse tempo de separação.
As mãos de Mamoru espremeram o volante.
— Que herói — murmurou ele sarcástico, e Usagi o olhou de cara feia.
Se Usagi não tivesse a cabeça bem no lugar, ela poderia até detec¬tar uma ponta de ciúme no comentário quase inaudível.
A idéia de um Mamoru ciumento, porém, provocaria gargalhadas, principalmente se a razão para tal sentimento fosse ela, uma mulher com quem ele mantinha uma relação adulta, sem compromissos, se é que o que eles tinham poderia ser chamado de uma relação.
— Eu por acaso penso que é heróico, sim, me deixar morar na própria casa, quando a gente não está mais junto. Você teria feito o mesmo?
— Eu não lido com hipóteses.
— Ah, me parece que a sua imaginação deixou você na mão. — Apesar da ofensiva, Usagi não encontrava nela disposição para um confronto com Mamoru. Os olhos de ambos se cruzaram por um segun¬do, e a sintonia entre os dois provocou em Usagi um arrepio, que a amedrontou.
— Disso eu nunca fui acusado antes.
O tom de voz de Mamoru levou Usagi a suspeitar que ele se referia à imaginação dele na cama e ela não queria pensar nele entre lençóis com outra mulher.
— Bem, se você gasta as suas noites com bonequinhas de papel...
Mamoru riu, estendeu o braço e espalmou a mão sobre a coxa dela.
Usagi se excitou.
— Dirigir com uma das mãos não é seguro — disse ela, um pouco ofegante.
— Que pena. — Ele tirou a mão, deixando a perna dela fria e carente. — Há sempre a possibilidade de remediarmos a situação quando chegarmos à sua casa...
Usagi dividia-se entre a tentação de se entregar mais uma vez a ele e a voz da consciência que lhe dizia que não, que ela deveria se preservar, e isso significava traçar e explicitar os limites. Usagi ba¬lançou a cabeça negativamente e com firmeza para ele.
— Então quando vou vê-la de novo? — Mamoru estacionava em frente à porta da casa dela. — Se você está ocupada amanhã, então eu pego você na sexta-feira, às 19h30. A gente pode jantar em algum lugar.
Usagi abriu a porta do carro, prevendo que ele a acompanharia até a entrada de casa. Ele assim procedeu. Mas Mamoru não poderia de jeito nenhum entrar na casa. Não quando parecia que bastaria ele se aproximar um pouco para ela perder o controle sobre si mesma.
— Não sei — despistou ela.
Não sei? Que diabos aquela mulher queria dizer com aquilo! Mamoru tomou a frente dela e obstruiu a porta da casa com os braços cruzados. Logo ele! O homem que abominava qualquer pessoa pos¬sessiva! Ele que nunca, em toda a vida, mostrou o menor sinal de tal inconveniente emoção! Flagrava-se agora submisso, exigindo saber cada passo que ela planejava.
— Eu começo no emprego na segunda-feira — afirmou Usagi. — Você se importaria em sair da frente? Eu não posso entrar em casa se você ficar aí.
— Até aí estou entendendo. O que não compreendo é o que isso tem a ver com o fato de não poder ver você. — Autocontrole, Mamoru repetia para si. Ele era o mestre do autocontrole. Pelo menos assim ele pensava. Não se sentia tão controlado neste momento e permane¬ceu, convicto, no mesmo lugar.
— Eu tenho um monte de coisas para fazer antes de começar no trabalho. Motoki vai querer voltar para casa o quanto antes. Logo, vou ter que me mudar no fim de semana. Eu vou ver a gerente de Recursos Humanos na sexta de manhã para assinar o que tiver para ser assinado.
— Você disse que o seu novo apartamento é... onde exatamente?
Usagi levantou as sobrancelhas, desconfiada, mas deu a ele o endereço.
— Tudo bem. — Ele desimpediu o caminho até a porta da casa e a olhou ainda um pouco contrariado. — Você pode precisar de uma ajuda com a mudança... Eu posso arrumar um caminhão ou uma ca¬minhonete de qualquer tamanho.
Desta vez, Usagi riu com vontade.
— Eu não acho que isso tudo vai ser necessário. Os meus perten¬ces cabem no banco de trás de um carro desportivo. — Antes que Usagi pudesse esboçar qualquer reação, Mamoru segurou uma das suas mãos, a virou e a beijou na palma. Em seguida, beijou Usagi na boca.
Como ele a fazia tão... tão feliz! Será que por ter agüentado tanto tempo uma relação falida com ela agora se lambuzava com esse pouquinho de atenção?
— Sábado — murmurou Mamoru, descolando-se dela, mas próximo o suficiente para que Usagi sentisse o hálito quente dele. — Nove horas em ponto. Eu estarei aqui para ajudá-la com a mudança.
— Não seja ridículo. Eu sou totalmente...
— Eu sei. Totalmente capaz de fazer isso sozinha. Por que você não aceita uma ajudazinha pelo menos uma vez, quando essa ajuda é oferecida com a melhor das boas intenções?
O problema era saber qual era a intenção.
Obviamente, ela deveria ter batido o pé e recusado calmamente. Ele acabaria sendo mais um impedimento do que uma ajuda. No entanto, não foi assim que Usagi agiu. Como resultado, Mamoru teve a chance de se mostrar extremamente pontual, chegando à casa dela no sábado na hora marcada, a bordo de uma Ferrari prata rebaixada, que caía como uma luva nele.
De queixo caído, Usagi o viu descer do carro. Fechou a boca, pois não queria dar a impressão de ser uma daquelas que se impressiona¬vam com carros. Estava disposta a lhe dizer isso, tão logo ela abrisse a porta de casa para ele.
— Cheguei — anunciou-se, rindo. — E vim vestido para a oca¬sião.
Usagi espantou-se ao vê-lo de perto em jeans desbotado, tênis e um agasalho verde-escuro. Ela aprovou. Nele, o tradicional jeans desbotado ganhava um charme novo.
— E também trouxe o carro desportivo solicitado. — Mamoru estalou um beijo na ponta do nariz dela.
— O que passou pela sua cabeça para achar que as minhas coisas caberiam num carro desportivo! — Usagi riu e mostrou com o braço a pilha de coisas pacientemente trazidas escada abaixo.
Mamoru passeou pela casa, examinando a coleção de pertences dela, com uma expressão de quem aceitara a brincadeira.
— E quem disse que acreditei na historinha da mulher com pouca bagagem? O meu motorista está estacionado lá fora com um muito mais sensato Range Rover. Podemos segui-lo na Ferrari.
Usagi titubeou, mas cedeu. Por que se incomodar com aquilo? Mamoru estava certo ao opinar que ela precisava aprender a ignorar o orgulho e aceitar ajuda. E era uma grande ajuda tê-lo ali para auxiliar na mudança. Motoki se ofereceu, mas Usagi achou importante não aceitar. Mudar-se da casa dele representava o início de uma nova vida. Motoki não insistiu. Na verdade, aparentou alívio e disse algo sobre arrumar as próprias coisas, mas não entrou em detalhes.
Usagi sorriu:
— Tudo bem.
— Você vai e espera no carro. Eu e George vamos levar as coisas para a caminhonete. Há algo que você queira levar com você?
— Apenas a minha mochila. — Ela afastou-se, enquanto Mamoru media com os olhos tudo que teria de ser transportado. Usagi tentou conter o prazer de passar para ele o controle das ações. Receber cui¬dados, em vez de cuidar de alguém o tempo inteiro, representava uma mudança enorme.
Obediente, ela foi para a Ferrari e observou Mamoru e o motorista descarregaram a bagagem no jipe 4x4. Depois, seguiram devagar, devido ao tráfego intenso no centro de Londres, rumo ao novo lar.
O empreendimento seria o maior no gênero, e a campanha publi¬citária orgulhosamente anunciava as vantagens de morar ao sul do rio Tamisa. O projeto englobava suítes privadas, escritórios, um andar inteiro de academias de ginástica, vários salões de beleza, espaços para conferência, estacionamento no subsolo e uma sala de cinema para uso exclusivo dos residentes. Tudo isso construído em volta de uma área central aberta e gramada.
Usagi descrevia tudo em detalhes, até perceber que ela conduzia um monólogo, e não uma conversa.
— Você não precisava vir e me ajudar — disse ela, colocando o orgulho de volta no lugar.
— Eu sei. — Mamoru sabia exatamente no que Usagi estava pen¬sando. Entusiasmada, ela detalhara a grande oportunidade que tinha, só para esbarrar no muro de silêncio dele.
Mais cedo ou mais tarde, Mamoru teria que lhe contar. Ele se con¬traía de preocupação diante desta perspectiva. Não era a hora ainda de falar. Esperaria ela se sentir segura no emprego, capaz de aceitar a verdade com moderação, talvez com bom humor.
Mamoru não dava corda para que Usagi prolongasse a conversa. Como alternativa, ele puxava papo sobre as atualidades de Londres, perguntava-lhe sobre os colegas do antigo trabalho na boate, se ela sentia falta de alguém, se mantinha contato com o pessoal. Em alguns minutos, a tensão evaporava do corpo dele.
Eles já podiam avistar do carro o empreendimento, de modernida¬de suntuosa e irreverente, dominando o horizonte.
Mamoru passou com a Ferrari por um arco direto para a área central, contornada com vagas para os carros dos visitantes.
— Qual é o apartamento? — indagou ele, admirando o edifício com satisfação profissional. — Certo. Você sobe, e eu e Nicholas a seguimos com as coisas.
Usagi ainda fazia, extasiada, o reconhecimento dos seus novos domínios, quando a última mala surrada bateu contra o piso do apar¬tamento.
— Não é fantástico? — Ela caminhou até a janela para contemplar a vista incrível da cidade: rio, pontes, carros e pessoas aglomerados como brinquedos em movimento.
— Onde você vai dormir, meu Deus?
Usagi reagiu com uma cara de perplexa, como se Mamoru estivesse fora de si.
— No chão, é claro. Como você vê, não há um só móvel, e eu não tinha nenhum para trazer comigo.
— No chão? — A expressão de Mamoru transbordava de increduli¬dade.
— Num saco de dormir. — Usagi reformulou a resposta. — Ve¬lho, mas ainda útil. E trouxe um travesseiro. Não há por que ficar parado aí como se estivesse atuando num filme de terror. Você pode achar a idéia de um saco de dormir inconcebível, mas eu, não.
— Quem sabe ao se ajeitar nele você não descubra que o chão é mais duro do que você pensa? — Não havia nem passado pela cabeça de Mamoru que o apartamento não era mobiliado. Ele deveria ter insis¬tido que Usagi morasse com ele até que eles pudessem equipar a casa com pelo menos os utensílios mais rudimentares. Imediatamente, ele se questionou. Que diabos estava pensando? Morar com ele? Ele quase riu em alto e bom som do absurdo da hipótese que brotou do nada nas suas idéias.
— Eu conheço sacos de dormir, Mamomu. — Usagi, de braços cru¬zados, recostava-se no parapeito da impressionante janela de três fa¬ces, que avançava para além da parede. — Eu já acampei diversas vezes, coisa que acredito você nunca fez. — Por mais que estivessem próximos, era difícil acomodar as diferenças entre dois. A cada con¬traste banal que surgia, Usagi se dava conta de quão diferentes eram os dois.
— Nós vamos ter que arrumar alguns móveis para você — reagiu Mamoru. — Ninguém pode esperar que você viva assim. Por que você não trouxe mais algumas coisas da casa? — perguntou ele.
— Porque elas não me pertenciam. Porque eu poderia ter sido acusada de roubo.
— E ele nunca ofereceu nada a você? Apesar do fato de você ter passado anos pagando as contas? Nós podemos ir à Harrods e com¬prar algumas coisas. Umas cadeiras, uma mesa, um tel...
— Espere aí! — Será que ele pensava que poderia de certa forma comprá-la? Desejo sexual era uma coisa. Equipar a casa para ela estava fora de questão. A conversa invadia um mundo totalmente diferente do qual eles haviam concordado em dividir. Usagi ficou zonza ao especular como seria receber presentes por amor, com a força que poderia ter tal gesto. Ela piscou os olhos uma ou duas vezes para recobrar-se.
— Você não vai comprar nada para mim. Se quiser alguma coisa, eu vou economizar para comprar.
— Pelo amor de Deus, Usagi. Eu posso...
— Esqueça. Eu não aceitarei nada de você, não vou viver com a idéia de que você de alguma maneira conseguiu me comprar.
Ficou mais do que claro para Mamoru o brilho de determinação nos olhos dela, e ele recuou. Preferiu não pensar no caos que a sua própria criação poderia resultar. Não. Organizaria a situação quando chegas¬se o momento propício, pois nunca tivera problemas em consertar qualquer coisa antes.
— Tudo bem — concordou ele, mais sensual. — Um almoço pas¬saria no seu teste de orgulho?
Usagi exibiu um meio sorriso, involuntário.
— Seguida por uma festinha para dois no novo apartamento?
Como ela resistiria? Usagi havia sido tão forte quando o conhece¬ra. Tinha consciência de que ele era um homem de um planeta dife¬rente. Quando Darius desenvolveu o talento para vencer a resistência dela? E quanto tempo levaria, Usagi se perguntava, alarmada, para que ela perdesse toda a imunidade a ele?
Tá tudo gozando!!!!! omg
CAPÍTULO VII
— E absolutamente fantástico. Encontrar possíveis clientes. Traba­lhar em conjunto com o pessoal de propaganda para tornar os aparta­mentos irresistíveis. E falei da ideia de transformar parte do espaço coberto anexo ao jardim em um restaurante?
Não, não havia falado. Mamoru afastou a cadeira, sorrindo para ela com a satisfação de um criador diante da sua criatura. A nova Usagi era empolgada, autoconfiante. Ficava na defensiva somente uma vez ou outra, quando ele, por exemplo, insistia que ela passasse a noite em Chelsea, em vez de voltar para o novo apartamento. Lá, após três semanas, Mattie conseguira pelo menos colocar uma cama, uma ge­ladeira bem pequena e um jogo de mesa e cadeiras de pinho.
— Você não está prestando atenção numa só palavra do que eu estou dizendo — resmungou ela. Usagi levava os pratos e os talheres da mesa para a pia. O casal agora comia no apartamento dele de forma mais frequente. O que, depois de um mês, ainda correspondia a só três noites por semana, noites pelas quais ela esperava ansiosa.
— Eu estava pensando que a gente poderia ir para o interior ama­nhã. Passar um fim de semana no campo. Eu preciso dar uma olhada na minha casa lá, me certificar de que tudo esteja bem. — Mamoru espreguiçou-se e, discretamente, a examinou com o canto dos olhos. Como ele gostava de observá-la! Pensou em desabotoar a blusa dela, para deliciar-se dos seus seios, liberá-los da renda que os oprimia. Desfez da cabeça a fantasia, para se deparar com ela, cara de brava, encostada na pia.
— Não há nenhuma necessidade de me olhar desta maneira — reagiu Mamoru, irritado. — É apenas uma sugestão. Sair de Londres por um fim de semana, respirar um pouco de ar puro. — Ele enfim levantou-se da cadeira e foi ao lugar onde ela permanecia em silên­cio, pensativa.
— Por que pensar tanto sobre um simples convite? — Mamoru não escondeu a frustração.
— Não sei se seria umaboa idéia.
— Por que não seria? — exigiu Mamoru. — Quando foi a última vez que você saiu de Londres?
— Não é esse o problema, Mamoru. — Usagi não tinha muita cer­teza sobre qual seria o problema, mas sabia que havia um. Ele adora­va conduzir as coisas da sua própria maneira e contava com métodos variados e eficientes para assim proceder.
— E então? Quando foi a última vez?
Aí estava uma das táticas dele, Usagi reconhecia. Mamoru ignorava objeções e seguia com uma linha de questionamentos até conquistar o que queria.
— Eu não lembro agora. — Usagi suspirou. — Vá e sente-se. Eu não consigo pensar direito com você me pressionando assim.
— Ótimo, não quero que você pense direito quando está comigo.
— Você está agindo como uma criança mimada.
— O quê...? — Mamoru manteve a boca aberta de indignação. Uma criança mimada? Nunca fora alvo de tal acusação.
— O fato de você querer alguma coisa não significa que automati­camente ela vá acontecer. — Usagi precisava se impor, ou acabaria se afogando nessa chamada relação-sem-compromissos, combinada para não durar mais do que uns poucos meses, se isso.
Mamoru deixara tudo perfeitamente claro desde o início, e não era necessário ser um prémio Nobel para concluir que ele teria a cons­ciência tranqüila quando as coisas inevitavelmente terminarem.
Os dois nunca planejaram nada com consequências para o futuro. Eles se encontravam, desfrutavam um da companhia do outro e mar­cavam uma saída para os dias seguintes, no máximo. Qualquer coisa, além disso, ultrapassava os limites da relação.
Usagi falava com regularidade sozinha que a preocupação de Mamoru com o presente era o de que ela precisava. Ela via como um sopro de ar renovado a oportunidade de trabalhar com coisas interessantes, de viver um dia de cada vez.
— Nós precisamos conversar a respeito — resmungou Mamoru, saindo dali e espalhando-se indignado no sofá.
— Eu tenho muito que fazer e não posso viajar no fim de semana — disse Usagi, sentando-se no braço do sofá.
— O quê?
— Eu quero dar uma olhada em TVs. Comprar uma portátil.
— Você não precisa comprar uma televisão — rebateu Mamoru. — Há duas neste apartamento. Quando você quiser ver algo na TV, basta vir aqui.
— Agora, você está sendo ridículo.
— Você pode simplesmente pegar uma das minhas. Isso, pegue emprestada uma das minhas TVs. — Para Mamoru, a idéia de ir à casa de campo sem ela perdia todo o encanto. Longe de representar a possibilidade de um fim de semana em agradável solidão, como nor­malmente era o caso, a hipótese oferecia o prognóstico de um isola­mento não desejado.
E ele realmente tinha que ir até a propriedade para ver como tudo estava. Setsuna, a caseira, lhe telefonara dois dias atrás e informara que havia uma infiltração grave no térreo. O encanador fora chama­do, mas existiam problemas do seguro para resolver. O piso de ma­deira ficara arruinado, e o aquecedor precisava ser trocado.
— Eu imaginei que você gostasse de ir para lá sozinho, por conta própria.
— Eu falei isso?
— Sim. Você me disse que a casa de campo era o único lugar onde você podia escapar do ritmo insano e relaxar com um livro.
Mamoru corou, embaraçado.
— Eu queria somente que você também tivesse um tempo livre — explicou. Ele voltou à carga. — Você não pode me acusar de não me preocupar com você.
O coração de Usagi pareceu parar no meio de uma batida. Isso foi o mais perto que Mamoru chegou de sugerir que o que ela pensava, dizia e fazia o afetava de alguma maneira. Usagi se repreendeu por se emocionar com um comentário repentino e inconseqüente e orde­nou que a mente recobrasse a razão.
— Tudo bem. Eu não vou acusá-lo.
Por algum motivo e sem justificativa, Mamoru se sentiu ofendido pela réplica rápida dela.
— Lembre-me de nunca mais sugerir para você algo tão complica­do quanto umas férias — ironizou ele. — Você poderia entrar em coma só de pensar isso.
— Férias? — balbuciou ela, incapaz de abafar a surpresa.
— Isso. Uma coisa que as pessoas normalmente fazem, principal­mente quando querem passar um tempo juntas. — Mamoru tinha cons­ciência de que deveria retroceder, enquanto mantinha vantagem, mas, sem saber explicar por que, ele queria ir adiante.
— Eu sei o que são férias. — Usagi riu, não dando a mínima para aquela discussão.
— Você teve várias férias, não?
— Você sabe que não.
— Ah, sim, esqueci que você trabalhava e estudava para pagar as contas, enquanto o seu namorado preguiçoso a criticava e bebia todo o dinheiro que sobrava.
Usagi preferiu ignorar os comentários sobre Motoki. O ex-namorado, definitivamente parte do seu passado, insistia em reaparecer no seu presente nas formas e momentos mais inesperados.
— Eu costumava ir à Cornualha quando criança — confidenciou ela, um tanto melancólica. — E você tirou férias com Rei? — provocou.
— Nunca me passou pela cabeça — respondeu Mamoru, sincero. Poderia até acrescentar que tirar férias sozinho com uma mulher re­presentaria uma experiência inédita para ele. As suas férias tradicio­nalmente se resumiam em visitar a família na Grécia. Mamoru tinha muito trabalho para se dar ao luxo de se isolar em algum lugar remoto e exótico.
Como havia dito a Usagi, os fins de semana no campo eram o seu único refúgio.
— Por que não?
— Para começar, não teria condições de me afastar do escritório por muito tempo. Além disso, não tinha a mínima vontade de viajar com ela.
Mamoru mudou de assunto com uma voz sensual e persuasiva:
— Eu não gosto que você fique sentada na outra ponta do sofá quando conversa comigo. Vem cá. — Mamoru bateu duas vezes na almofada ao lado dele. Usagi atendeu prontamente. Apoiou as costas no peito de Mamoru e encaixou a cabeça na curva entre o pescoço e o ombro dele.
O abraço, o jeito que Mamoru a abrigava no seu colo, tinha algo de possessivo e aconchegante. Ela queria ronronar com um prazer felino.
— Um homem como você não deveria nunca planejar férias com uma mulher — afirmou Usagi, um pouco deprimida.
— E por quê?
— Porque quando a ocasião das férias chegasse haveria uma boa chance de que você já estivesse cansado da mulher em questão.
— O que me leva de volta ao assunto do fim de semana no campo. Eu posso garantir que até amanhã não terei me cansado de você. — Mamoru abria devagar os botões perolados da blusa de Usagi.
Ela sentiu uma onda de calor brotar dentro dela. Roçou o seu corpo no dele.
— Diga que você vai comigo amanhã — sussurrou Mamoru no ouvi­do dela.
Usagi envolveu o pescoço dele com os braços, projetando os seios com o movimento.
Ele gemeu e demorou para abrir o último e teimoso botão. Quase o arrancou de angústia. Em seguida, desabotoou por trás o sutiã de Usagi e moveu a peça, arrastando a mão pelo abdômen dela.
Usagi não disse nada sobre o fim de semana. Quando Mamoru a tocava assim, ela não era capaz de ordenar as idéias. Ele massageava os seus seios com aquelas mãos enormes. Usagi observava o movi­mento dos dedos firmes e fortes dele a brincar com ela. Mamoru se recompôs no sofá para abrir o botão e o zíper da calça preta dela, e Usagi, além das idéias, perdeu o fôlego.
As pernas de Usagi instintivamente se abriram. Com ele, ela não tinha inibições. Usagi fechou os olhos quando os dedos que antes acariciavam os seus seios penetraram por dentro da calcinha, desli­zando até a fresta úmida que latejava ansiosa pelo toque dele.
Mamoru interrompeu o movimento, e ela quase gemeu de decepção.
— Usagi, olhe para mim.
Meio grogue, ela se virou para ele.
— Eu quero que você venha comigo neste fim de semana, e não posso entender por que você reluta em aceitar o meu convite.
— Nós nunca dormimos juntos.
— Nunca dormimos juntos? Meu Deus, mulher, o que a gente vem fazendo há semanas?
— Eu quero dizer que nós nunca passamos uma noite inteira jun­tos. Dormir num dia e acordar no outro na mesma cama.
— Não que não tenha tentado.
— Eu não acho que seja uma boa idéia.
— Você não pode fazer comunicados como esse sem ao menos uma explicação. — Esta era uma relação baseada em liberdade e atração mútua, mas ele se mostrava sempre decidido a convencer Usagi de ultrapassar os limites antes estipulados. Por quê? Mamoru não tinha a menor idéia. Só podia atribuir isso a algum até então desconhecido rasgo de teimosia.
Claro, ele odiava mulheres possessivas, mas era necessário que Usagi o tratasse com desprendimento tão resignado, despreocupado e entusiasmado?
— Você está com medo de passar uma noite comigo? — pergun­tou Mamoru, deixando vermelho o rosto dela.
— Eu deveria? Você se transforma em lobisomem à meia-noite?
— Confie em mim. É uma casa de campo aprazível. Muito quieta.
— Bem, eu estava planejando trabalhar um pouquinho amanhã de manhã antes de sair em busca da minha televisão...
— Trabalhar? — Mamoru fez uma pausa. — Você não está levando o seu compromisso com o trabalho um pouquinho longe demais?
— Você é que é a máquina de trabalhar aqui, se não estou enga­nada.
— É diferente — resmungou ele.
— Por quê? Porque você é muito mais poderoso e importante do que eu? — Usagi o olhou e se enterneceu ao encontrá-lo levemente corado. — Tente não esquecer de que tudo isso é novidade para mim — insistiu ela. — Eu quero fazer diferença. E não vou viajar até o fim do mundo para chegar ao trabalho! É uma questão de minutos ir do meu apartamento até o salão de conferências que a gente está usando no térreo!
— Olha — interrompeu Mamoru, bruscamente. — Há algo que eu acho que tenho que dizer...
— Mas pretendo trabalhar somente por uma hora, não muito mais do que isso. Eu falei para Haruka que poderia dar uma passada lá e termi­nar alguns orçamentos de outdoors em Charing Cross...
Um fim de semana faria tanto estrago? Deixá-lo todas as noites em que eles se encontravam já consistia em sacrifício o bastante. Era crime ela se dar ao luxo de tirar uma folga?
— É sobre o seu emprego...
— Eu sei que exige muito, mas gosto dele. — Usagi abriu um sorriso. — Eu vou com você. Me dê uma hora e meia para fazer o que preciso e venha me apanhar.
Ela concordara, enfim, mas isso não resolvia o dilema maior de Mamoru. O que ele precisava contar a Usagi não foi dito. Mamoru riu de volta para ela. No final dos dois dias no campo, ele revelaria tudo.
— Satisfeito? — Usagi sorria, sedutora. De repente, ela passou a se sentir livre, feliz diante da perspectiva de passar um fim de semana sem obrigações e com ele.
Na manhã seguinte, ela quase desejou não ter assumido compro­misso em trabalhar. uSAGI jogou na mala peças íntimas, uma muda de roupas e uma camisola, que provavelmente seria dispensável, e desceu para o térreo.
Ela entrou no salão de conferências sem fazer barulho, aproveitan­do o silêncio incomum no ambiente de trabalho, preparou uma xícara de café e se dirigiu à sala de Haruka, delimitada por divisórias.
Não muito longe dali, no escritório improvisado num dos quartos do seu apartamento, Mamoru Chiba não conseguia se concentrar nos números à sua frente na tela do computador.
A atenção dele se desviava dos últimos relatórios do seu contador-chefe para a mulher que estaria aguardando-o no apartamento dela em 45 minutos.
Mamoru passou a caminhar nervoso pela casa. A sensação era a mesma de um garoto prestes a sair pela primeira vez com uma meni­na. Desde que iniciou a relação com Usagi, ele sempre se sentia como um garoto no primeiro encontro. Naturalmente, a aura de novidade não duraria muito mais. Quando sentimentos como aquele duravam?
Mamoru passou os dedos longos nos cabelos escuros e olhou com o pensamento longe a vista da janela.
A sua consciência ficaria muito mais leve, se ele não soubesse o que Usagi estava fazendo naquele momento. Usagi dava provas de dedicação e talento no trabalho, o que ele já sabia, e percebeu instin­tivamente durante os primeiros contatos com ela. Infelizmente, o fato também o deixava numa situação incómoda e indicava que a conver­sa que precisava ter com Usagi não poderia mais ser adiada.
Mamoru arrefeceu a mente ao checar o relógio pela oitava vez em poucos minutos e se dar conta que já era hora de partir para apanhá-la. Ele calculara inclusive o tempo que perderia nos engarrafamentos que esperava encontrar.
No caminho, Mamoru se pôs a imaginar qual seria a reação dela à sua casa de campo. A propriedade era muito charmosa, nada de exa­geros ou ostentações. Usagi não tinha razão para estar sempre em guarda contra ele, daquele jeito pit bull: mãos na cintura, faces ver­melhas, recitando de cor a ladainha sobre as diferenças entre os dois.
Embora... Ele sorriu, e a idéia fixa de conversar com ela sobre o emprego foi se apagando na sua cabeça. Embora os comentários pers­picazes e ferinos fossem parte do charme dela. Para dar a partida no fim de semana, ele poderia mostrar a Usagi a jacuzzi, no jardim da casa. Apresentá-la aos prazeres da água borbulhante e aquecida...
Tal expectativa acabou gerando em Mamoru uma leve irritação, quando, ao chegar pontualmente ao apartamento dela, ele verificou, após tocar repetidas vezes a campainha, que Usagi não estava em casa.
Obviamente, o prognóstico de um fim de semana a dois não des­pertara nela a mesma ansiedade.
Mamoru tampouco sabia onde exatamente no edifício ela trabalha­va, e nem havia ninguém por perto para perguntar.
A busca levou uns vinte minutos, tempo em que a sua irritação aumentou. Usagi tinha a cara enfiada nas drogas das planilhas de orçamento, ele deduzia, esquecendo-se das inúmeras vezes em que perdera a noção do tempo por causa do trabalho.
A porta do escritório estava entreaberta, e Mamoru a empurrou e entrou no recinto em um movimento contínuo. Usagi não se encon­trava na mesa em frente ao computador.
Ela debruçava-se sobre uma das janelas que davam para o jardim central e parecia, inclusive, que esperava por ele.
— Eu disse a você que horas chegaria, Usagi. O que diabos você ainda está fazendo aqui? — Com passos firmes e rápidos, Mamoru caminhou na direção dela e, nervoso, sentou-se numa das mesas. — Você está sendo remunerada por essas horas extras voluntárias? Eu sei que você quer causar boa impressão, mas alguns patrões são muito abusados e tiram proveito de funcionários super entusiasmados.
— Como você?
— O quê? — Mamoru estava tão tomado pela própria irritação que só agora reparava na expressão no rosto de Usagi.
— Como você. — Usagi saiu da janela e andou com firmeza até a mesa dela. Sentou-se na cadeira preta giratória, de maneira que pu­desse encará-lo. Ela entrelaçou os dedos das mãos sobre a mesa e rezou para que ele não se aproximasse. Usagi não queria que tivesse início aquela disputa patética entre o corpo e a mente dela.
— Do que você está falando, Usagi? — Ele passou os dedos pelos cabelos, já adotando cautela. — Briga não é a melhor maneira para iniciar o fim de semana que a gente tinha combinado passar juntos. Você já terminou, ou ainda há uma ou duas planilhas perdidas que você queira finalizar? — Mamoru deixou escapar o toque de sarcasmo.
A ironia não provocou nela o sorriso alegre de costume. Pelo contrá­rio, somente acirrou o olhar de desprezo.
— Na verdade terminei as planilhas há um bom tempo. E você não acreditaria no quão interessante foi o trabalho.
— O que está acontecendo aqui, Usagi? Você se importaria em me contar, ou nós vamos ficar falando em códigos?
— Desde que comecei aqui, me envolvi bastante com o lado finan­ceiro da coisa. Tenho lidado com os números sobre o potencial de negócios.
— E você parece bem feliz por ter recebido mais responsabilida­des. Se isso exige a manhã de sábado do fim de semana que nós planejamos viajar juntos, quem sou eu para reclamar?
— Mas eu fiz uma descoberta muito interessante nesta manhã, enquanto procurava uns papéis que precisava no arquivo de Haruka.
— Ah, é? E que descoberta foi essa?
— A sua ligação com esse grupo de pessoas que foi contratado para fazer o marketing do empreendimento. — Usagi examinou cuidadosamente a face dele. Buscava algum sinal, por menor que fosse, que indicasse que ela estava equivocada. Nenhum sinal. Usagi presenciou, sim, Mamoru corar, constrangido. Ela havia acertado na mosca.
Ele a manipulara da pior maneira possível. O emprego, com o apartamento a tiracolo, era resultado de uma manobra de Mamoru.
E ela sabia por que ele fizera isso. Mamoru a queria desde o momen­to em que pôs os olhos nela. Com a sua tradicional arrogância, tomou as medidas necessárias para possuir o que desejava. Nada melhor para se livrar da inconveniência chamada Motoki do que arrumar um emprego para ela, com um apartamento incluído no pacote. Mamoru queria vê-la longe daquele marco perigoso, no qual ela insistia em se agarrar. Para isso, lhe arranjou um trabalho que a elevaria à categoria de mulher de negócios, capaz de sacudir dos ombros o peso morto do namorado.
Usagi sentiu que lágrimas a ameaçavam e trincou os dentes para contê-las.
— Eu encontrei uma carta sua no fundo do arquivo cumprimen­tando Kunzite por adquirir o prédio, pedindo que ele o mantivesse informado sobre o que faria com o lugar. — Usagi podia ouvir o interior dela implorando pela negação que não veio.
— E então o que você fez, Mamoru? — sussurrou ela. — Pediu um favor? Pediu a ele que abrisse um lugarzinho para mim numa equipe competente e qualificada? Eu, uma imbecil incapaz de conseguir um emprego por conta própria? Como você pôde? Como você pôde ma­nipular a minha vida dessa maneira?
— Eu não manipulei a sua vida, Usagi. Não!
— Ah, está certo! Você uma vez me disse que sempre conquistava o que queria. Você não estava agora apenas garantindo a tradição? Mesmo sendo a tática escolhida uma das mais honestas? — Frustra­ção e raiva impregnavam a voz dela. Mamoru fez menção de se aproxi­mar, e Usagi afastou-se imediatamente em rejeição.
— Tudo bem. Talvez não tenha agido corretamente. Talvez deves­se ter dito para você desde o início que poderia arrumar este emprego para você, mas eu pergunto: Você daria ouvidos? Ou você botaria o seu bloco na rua contra mim e negaria a si mesma a oportunidade apenas por ser cabeça-dura?
— Isso não tem nada a ver!
— Você não respondeu à minha pergunta?
— Eu quero conquistar as coisas pelo meu esforço. Eu não pedi e não precisava da sua ajuda!
— Você está agindo como se eu tivesse cometido um crime contra o seu orgulho, Usagi. E quantas oportunidades a gente perde na vida por causa do orgulho?
— Pare de tentar distorcer as coisas para que você possa parecer o santo dessa história. — Amedrontava Usagi o quanto ela torcia para que Mamoru tivesse sucesso. — Você me manipulou. Este é o centro da questão.
Mamoru deu um murro na mesa, derrubando um porta-canetas e espalhando o conteúdo. Usahi o olhou, fascinada e calada.
— Esse não é o centro da questão, droga! — Desta vez, a cara de indiferença e frieza dela não foi suficiente para detê-lo, e Mamoru percorreu a distância entre eles em poucos e furiosos segundos. — Eu posso não ter sido franco como deveria...
— O eufemismo do ano! — interrompeu Usagi. Ela voltou para a cadeira para evitar que a presença imponente dele a engolisse por completo.
— Se estava tentando manipulá-la, por que não falei para você a respeito do emprego? — perguntou Mamoru. — Eu não teria me aproveitado da primeira chance para fazer você sentir que me devia algo? Droga, eu não fiz isso, fiz?
— Bem, você poderia estar guardando essa informação como um trunfo — reagiu Usagi. — A carta que você puxaria da manga se ou quando necessário! Um jeitinho! Você é muito bom nisso, não é, Mamoru? Igualzinho à nossa primeira saída, quando você deu um jeiti­nho com Taiky! Você acha que todo mundo pode dançar conforme a sua música, e isso é... Isso é abominável.
Deu-se um silêncio, o ambiente continuou carregado, e abrupta­mente Mamoru se afastou rumo à mesma janela em que Usagi parecia esperá-lo quando ele chegou.
— Eu tentei contar...
— Quando? — exigiu Usagi, elevando o tom de voz. Ela girou na cadeira para vê-lo.
— Ontem. Eu falei que precisava falar com você, mas a gente foi adiando, e decidi contar depois deste fim de semana.
É verdade, ela se lembrava, sim, de que ele havia iniciado uma conversa nessa linha, mas a última coisa em que Usagi pretendia pensar agora. Deixar-se levar foi o seu grande erro desde o primeiro instante.
— Eu não acredito em você, Mamoru — disse ela, com frieza. — Você me queria, e você tomou as medidas necessárias para possuir-me. Você nunca perdeu um só momento para pensar nos meus senti­mentos, porque você não sabe o que significa sensibilidade. — A voz de Usagi tornava-se amarga. — A nossa relação se resume a isso: desejo, luxúria, sexo. Nunca houve espaço para sentimento.
— Isso é o que você buscava também. Ou você convenientemente já se esqueceu?
Não, ela não havia se esquecido. No entanto, Usagi cometera o erro básico de não honrar no seu íntimo o acordo que eles haviam acertado. O acordo de que era tudo um acordo. Duas pessoas, ambas sem querer maiores envolvimentos, cedendo a seus instintos e con­cordando que a relação não passaria disso. Foi uma porcaria de acor­do, Usagi dava-se conta agora, pois em algum momento do processo ela se expôs ao risco fatal de gostar dele, de se apaixonar por ele.
A conclusão era terrível. Usagi cerrou os olhos, por poucos se­gundos, em desespero. Quando ela voltou a abri-los, havia uma nova firmeza, uma resignação neles.
— Não temos mais nada para conversar, Mamoru. — Usagi espal­mou uma das mãos no tampo da escrivaninha e levantou-se, deixando a mesa de trabalho como uma barreira entre ambos. — Eu não gostei do que você fez. Eu não posso respeitar ninguém que age dessa ma­neira. Esta relação, ou seja lá o que isso for, não vai dar em lugar nenhum, e agora estou pondo um fim nela. — Usagi virou-se para uma das janelas, dando-lhe as costas. Espinha reta, ombros curvados para trás. O coração dela pedia que visse Mamoru pela última vez, mas a cabeça dela rejeitou tal desejo.
Usagi percebeu a hesitação de Mamoru. Ouviu os passos dele até a porta. Ele fez uma pequena pausa, e então estava tudo acabado. Mamoru se fora.
— E absolutamente fantástico. Encontrar possíveis clientes. Traba­lhar em conjunto com o pessoal de propaganda para tornar os aparta­mentos irresistíveis. E falei da ideia de transformar parte do espaço coberto anexo ao jardim em um restaurante?
Não, não havia falado. Mamoru afastou a cadeira, sorrindo para ela com a satisfação de um criador diante da sua criatura. A nova Usagi era empolgada, autoconfiante. Ficava na defensiva somente uma vez ou outra, quando ele, por exemplo, insistia que ela passasse a noite em Chelsea, em vez de voltar para o novo apartamento. Lá, após três semanas, Mattie conseguira pelo menos colocar uma cama, uma ge­ladeira bem pequena e um jogo de mesa e cadeiras de pinho.
— Você não está prestando atenção numa só palavra do que eu estou dizendo — resmungou ela. Usagi levava os pratos e os talheres da mesa para a pia. O casal agora comia no apartamento dele de forma mais frequente. O que, depois de um mês, ainda correspondia a só três noites por semana, noites pelas quais ela esperava ansiosa.
— Eu estava pensando que a gente poderia ir para o interior ama­nhã. Passar um fim de semana no campo. Eu preciso dar uma olhada na minha casa lá, me certificar de que tudo esteja bem. — Mamoru espreguiçou-se e, discretamente, a examinou com o canto dos olhos. Como ele gostava de observá-la! Pensou em desabotoar a blusa dela, para deliciar-se dos seus seios, liberá-los da renda que os oprimia. Desfez da cabeça a fantasia, para se deparar com ela, cara de brava, encostada na pia.
— Não há nenhuma necessidade de me olhar desta maneira — reagiu Mamoru, irritado. — É apenas uma sugestão. Sair de Londres por um fim de semana, respirar um pouco de ar puro. — Ele enfim levantou-se da cadeira e foi ao lugar onde ela permanecia em silên­cio, pensativa.
— Por que pensar tanto sobre um simples convite? — Mamoru não escondeu a frustração.
— Não sei se seria umaboa idéia.
— Por que não seria? — exigiu Mamoru. — Quando foi a última vez que você saiu de Londres?
— Não é esse o problema, Mamoru. — Usagi não tinha muita cer­teza sobre qual seria o problema, mas sabia que havia um. Ele adora­va conduzir as coisas da sua própria maneira e contava com métodos variados e eficientes para assim proceder.
— E então? Quando foi a última vez?
Aí estava uma das táticas dele, Usagi reconhecia. Mamoru ignorava objeções e seguia com uma linha de questionamentos até conquistar o que queria.
— Eu não lembro agora. — Usagi suspirou. — Vá e sente-se. Eu não consigo pensar direito com você me pressionando assim.
— Ótimo, não quero que você pense direito quando está comigo.
— Você está agindo como uma criança mimada.
— O quê...? — Mamoru manteve a boca aberta de indignação. Uma criança mimada? Nunca fora alvo de tal acusação.
— O fato de você querer alguma coisa não significa que automati­camente ela vá acontecer. — Usagi precisava se impor, ou acabaria se afogando nessa chamada relação-sem-compromissos, combinada para não durar mais do que uns poucos meses, se isso.
Mamoru deixara tudo perfeitamente claro desde o início, e não era necessário ser um prémio Nobel para concluir que ele teria a cons­ciência tranqüila quando as coisas inevitavelmente terminarem.
Os dois nunca planejaram nada com consequências para o futuro. Eles se encontravam, desfrutavam um da companhia do outro e mar­cavam uma saída para os dias seguintes, no máximo. Qualquer coisa, além disso, ultrapassava os limites da relação.
Usagi falava com regularidade sozinha que a preocupação de Mamoru com o presente era o de que ela precisava. Ela via como um sopro de ar renovado a oportunidade de trabalhar com coisas interessantes, de viver um dia de cada vez.
— Nós precisamos conversar a respeito — resmungou Mamoru, saindo dali e espalhando-se indignado no sofá.
— Eu tenho muito que fazer e não posso viajar no fim de semana — disse Usagi, sentando-se no braço do sofá.
— O quê?
— Eu quero dar uma olhada em TVs. Comprar uma portátil.
— Você não precisa comprar uma televisão — rebateu Mamoru. — Há duas neste apartamento. Quando você quiser ver algo na TV, basta vir aqui.
— Agora, você está sendo ridículo.
— Você pode simplesmente pegar uma das minhas. Isso, pegue emprestada uma das minhas TVs. — Para Mamoru, a idéia de ir à casa de campo sem ela perdia todo o encanto. Longe de representar a possibilidade de um fim de semana em agradável solidão, como nor­malmente era o caso, a hipótese oferecia o prognóstico de um isola­mento não desejado.
E ele realmente tinha que ir até a propriedade para ver como tudo estava. Setsuna, a caseira, lhe telefonara dois dias atrás e informara que havia uma infiltração grave no térreo. O encanador fora chama­do, mas existiam problemas do seguro para resolver. O piso de ma­deira ficara arruinado, e o aquecedor precisava ser trocado.
— Eu imaginei que você gostasse de ir para lá sozinho, por conta própria.
— Eu falei isso?
— Sim. Você me disse que a casa de campo era o único lugar onde você podia escapar do ritmo insano e relaxar com um livro.
Mamoru corou, embaraçado.
— Eu queria somente que você também tivesse um tempo livre — explicou. Ele voltou à carga. — Você não pode me acusar de não me preocupar com você.
O coração de Usagi pareceu parar no meio de uma batida. Isso foi o mais perto que Mamoru chegou de sugerir que o que ela pensava, dizia e fazia o afetava de alguma maneira. Usagi se repreendeu por se emocionar com um comentário repentino e inconseqüente e orde­nou que a mente recobrasse a razão.
— Tudo bem. Eu não vou acusá-lo.
Por algum motivo e sem justificativa, Mamoru se sentiu ofendido pela réplica rápida dela.
— Lembre-me de nunca mais sugerir para você algo tão complica­do quanto umas férias — ironizou ele. — Você poderia entrar em coma só de pensar isso.
— Férias? — balbuciou ela, incapaz de abafar a surpresa.
— Isso. Uma coisa que as pessoas normalmente fazem, principal­mente quando querem passar um tempo juntas. — Mamoru tinha cons­ciência de que deveria retroceder, enquanto mantinha vantagem, mas, sem saber explicar por que, ele queria ir adiante.
— Eu sei o que são férias. — Usagi riu, não dando a mínima para aquela discussão.
— Você teve várias férias, não?
— Você sabe que não.
— Ah, sim, esqueci que você trabalhava e estudava para pagar as contas, enquanto o seu namorado preguiçoso a criticava e bebia todo o dinheiro que sobrava.
Usagi preferiu ignorar os comentários sobre Motoki. O ex-namorado, definitivamente parte do seu passado, insistia em reaparecer no seu presente nas formas e momentos mais inesperados.
— Eu costumava ir à Cornualha quando criança — confidenciou ela, um tanto melancólica. — E você tirou férias com Rei? — provocou.
— Nunca me passou pela cabeça — respondeu Mamoru, sincero. Poderia até acrescentar que tirar férias sozinho com uma mulher re­presentaria uma experiência inédita para ele. As suas férias tradicio­nalmente se resumiam em visitar a família na Grécia. Mamoru tinha muito trabalho para se dar ao luxo de se isolar em algum lugar remoto e exótico.
Como havia dito a Usagi, os fins de semana no campo eram o seu único refúgio.
— Por que não?
— Para começar, não teria condições de me afastar do escritório por muito tempo. Além disso, não tinha a mínima vontade de viajar com ela.
Mamoru mudou de assunto com uma voz sensual e persuasiva:
— Eu não gosto que você fique sentada na outra ponta do sofá quando conversa comigo. Vem cá. — Mamoru bateu duas vezes na almofada ao lado dele. Usagi atendeu prontamente. Apoiou as costas no peito de Mamoru e encaixou a cabeça na curva entre o pescoço e o ombro dele.
O abraço, o jeito que Mamoru a abrigava no seu colo, tinha algo de possessivo e aconchegante. Ela queria ronronar com um prazer felino.
— Um homem como você não deveria nunca planejar férias com uma mulher — afirmou Usagi, um pouco deprimida.
— E por quê?
— Porque quando a ocasião das férias chegasse haveria uma boa chance de que você já estivesse cansado da mulher em questão.
— O que me leva de volta ao assunto do fim de semana no campo. Eu posso garantir que até amanhã não terei me cansado de você. — Mamoru abria devagar os botões perolados da blusa de Usagi.
Ela sentiu uma onda de calor brotar dentro dela. Roçou o seu corpo no dele.
— Diga que você vai comigo amanhã — sussurrou Mamoru no ouvi­do dela.
Usagi envolveu o pescoço dele com os braços, projetando os seios com o movimento.
Ele gemeu e demorou para abrir o último e teimoso botão. Quase o arrancou de angústia. Em seguida, desabotoou por trás o sutiã de Usagi e moveu a peça, arrastando a mão pelo abdômen dela.
Usagi não disse nada sobre o fim de semana. Quando Mamoru a tocava assim, ela não era capaz de ordenar as idéias. Ele massageava os seus seios com aquelas mãos enormes. Usagi observava o movi­mento dos dedos firmes e fortes dele a brincar com ela. Mamoru se recompôs no sofá para abrir o botão e o zíper da calça preta dela, e Usagi, além das idéias, perdeu o fôlego.
As pernas de Usagi instintivamente se abriram. Com ele, ela não tinha inibições. Usagi fechou os olhos quando os dedos que antes acariciavam os seus seios penetraram por dentro da calcinha, desli­zando até a fresta úmida que latejava ansiosa pelo toque dele.
Mamoru interrompeu o movimento, e ela quase gemeu de decepção.
— Usagi, olhe para mim.
Meio grogue, ela se virou para ele.
— Eu quero que você venha comigo neste fim de semana, e não posso entender por que você reluta em aceitar o meu convite.
— Nós nunca dormimos juntos.
— Nunca dormimos juntos? Meu Deus, mulher, o que a gente vem fazendo há semanas?
— Eu quero dizer que nós nunca passamos uma noite inteira jun­tos. Dormir num dia e acordar no outro na mesma cama.
— Não que não tenha tentado.
— Eu não acho que seja uma boa idéia.
— Você não pode fazer comunicados como esse sem ao menos uma explicação. — Esta era uma relação baseada em liberdade e atração mútua, mas ele se mostrava sempre decidido a convencer Usagi de ultrapassar os limites antes estipulados. Por quê? Mamoru não tinha a menor idéia. Só podia atribuir isso a algum até então desconhecido rasgo de teimosia.
Claro, ele odiava mulheres possessivas, mas era necessário que Usagi o tratasse com desprendimento tão resignado, despreocupado e entusiasmado?
— Você está com medo de passar uma noite comigo? — pergun­tou Mamoru, deixando vermelho o rosto dela.
— Eu deveria? Você se transforma em lobisomem à meia-noite?
— Confie em mim. É uma casa de campo aprazível. Muito quieta.
— Bem, eu estava planejando trabalhar um pouquinho amanhã de manhã antes de sair em busca da minha televisão...
— Trabalhar? — Mamoru fez uma pausa. — Você não está levando o seu compromisso com o trabalho um pouquinho longe demais?
— Você é que é a máquina de trabalhar aqui, se não estou enga­nada.
— É diferente — resmungou ele.
— Por quê? Porque você é muito mais poderoso e importante do que eu? — Usagi o olhou e se enterneceu ao encontrá-lo levemente corado. — Tente não esquecer de que tudo isso é novidade para mim — insistiu ela. — Eu quero fazer diferença. E não vou viajar até o fim do mundo para chegar ao trabalho! É uma questão de minutos ir do meu apartamento até o salão de conferências que a gente está usando no térreo!
— Olha — interrompeu Mamoru, bruscamente. — Há algo que eu acho que tenho que dizer...
— Mas pretendo trabalhar somente por uma hora, não muito mais do que isso. Eu falei para Haruka que poderia dar uma passada lá e termi­nar alguns orçamentos de outdoors em Charing Cross...
Um fim de semana faria tanto estrago? Deixá-lo todas as noites em que eles se encontravam já consistia em sacrifício o bastante. Era crime ela se dar ao luxo de tirar uma folga?
— É sobre o seu emprego...
— Eu sei que exige muito, mas gosto dele. — Usagi abriu um sorriso. — Eu vou com você. Me dê uma hora e meia para fazer o que preciso e venha me apanhar.
Ela concordara, enfim, mas isso não resolvia o dilema maior de Mamoru. O que ele precisava contar a Usagi não foi dito. Mamoru riu de volta para ela. No final dos dois dias no campo, ele revelaria tudo.
— Satisfeito? — Usagi sorria, sedutora. De repente, ela passou a se sentir livre, feliz diante da perspectiva de passar um fim de semana sem obrigações e com ele.
Na manhã seguinte, ela quase desejou não ter assumido compro­misso em trabalhar. uSAGI jogou na mala peças íntimas, uma muda de roupas e uma camisola, que provavelmente seria dispensável, e desceu para o térreo.
Ela entrou no salão de conferências sem fazer barulho, aproveitan­do o silêncio incomum no ambiente de trabalho, preparou uma xícara de café e se dirigiu à sala de Haruka, delimitada por divisórias.
Não muito longe dali, no escritório improvisado num dos quartos do seu apartamento, Mamoru Chiba não conseguia se concentrar nos números à sua frente na tela do computador.
A atenção dele se desviava dos últimos relatórios do seu contador-chefe para a mulher que estaria aguardando-o no apartamento dela em 45 minutos.
Mamoru passou a caminhar nervoso pela casa. A sensação era a mesma de um garoto prestes a sair pela primeira vez com uma meni­na. Desde que iniciou a relação com Usagi, ele sempre se sentia como um garoto no primeiro encontro. Naturalmente, a aura de novidade não duraria muito mais. Quando sentimentos como aquele duravam?
Mamoru passou os dedos longos nos cabelos escuros e olhou com o pensamento longe a vista da janela.
A sua consciência ficaria muito mais leve, se ele não soubesse o que Usagi estava fazendo naquele momento. Usagi dava provas de dedicação e talento no trabalho, o que ele já sabia, e percebeu instin­tivamente durante os primeiros contatos com ela. Infelizmente, o fato também o deixava numa situação incómoda e indicava que a conver­sa que precisava ter com Usagi não poderia mais ser adiada.
Mamoru arrefeceu a mente ao checar o relógio pela oitava vez em poucos minutos e se dar conta que já era hora de partir para apanhá-la. Ele calculara inclusive o tempo que perderia nos engarrafamentos que esperava encontrar.
No caminho, Mamoru se pôs a imaginar qual seria a reação dela à sua casa de campo. A propriedade era muito charmosa, nada de exa­geros ou ostentações. Usagi não tinha razão para estar sempre em guarda contra ele, daquele jeito pit bull: mãos na cintura, faces ver­melhas, recitando de cor a ladainha sobre as diferenças entre os dois.
Embora... Ele sorriu, e a idéia fixa de conversar com ela sobre o emprego foi se apagando na sua cabeça. Embora os comentários pers­picazes e ferinos fossem parte do charme dela. Para dar a partida no fim de semana, ele poderia mostrar a Usagi a jacuzzi, no jardim da casa. Apresentá-la aos prazeres da água borbulhante e aquecida...
Tal expectativa acabou gerando em Mamoru uma leve irritação, quando, ao chegar pontualmente ao apartamento dela, ele verificou, após tocar repetidas vezes a campainha, que Usagi não estava em casa.
Obviamente, o prognóstico de um fim de semana a dois não des­pertara nela a mesma ansiedade.
Mamoru tampouco sabia onde exatamente no edifício ela trabalha­va, e nem havia ninguém por perto para perguntar.
A busca levou uns vinte minutos, tempo em que a sua irritação aumentou. Usagi tinha a cara enfiada nas drogas das planilhas de orçamento, ele deduzia, esquecendo-se das inúmeras vezes em que perdera a noção do tempo por causa do trabalho.
A porta do escritório estava entreaberta, e Mamoru a empurrou e entrou no recinto em um movimento contínuo. Usagi não se encon­trava na mesa em frente ao computador.
Ela debruçava-se sobre uma das janelas que davam para o jardim central e parecia, inclusive, que esperava por ele.
— Eu disse a você que horas chegaria, Usagi. O que diabos você ainda está fazendo aqui? — Com passos firmes e rápidos, Mamoru caminhou na direção dela e, nervoso, sentou-se numa das mesas. — Você está sendo remunerada por essas horas extras voluntárias? Eu sei que você quer causar boa impressão, mas alguns patrões são muito abusados e tiram proveito de funcionários super entusiasmados.
— Como você?
— O quê? — Mamoru estava tão tomado pela própria irritação que só agora reparava na expressão no rosto de Usagi.
— Como você. — Usagi saiu da janela e andou com firmeza até a mesa dela. Sentou-se na cadeira preta giratória, de maneira que pu­desse encará-lo. Ela entrelaçou os dedos das mãos sobre a mesa e rezou para que ele não se aproximasse. Usagi não queria que tivesse início aquela disputa patética entre o corpo e a mente dela.
— Do que você está falando, Usagi? — Ele passou os dedos pelos cabelos, já adotando cautela. — Briga não é a melhor maneira para iniciar o fim de semana que a gente tinha combinado passar juntos. Você já terminou, ou ainda há uma ou duas planilhas perdidas que você queira finalizar? — Mamoru deixou escapar o toque de sarcasmo.
A ironia não provocou nela o sorriso alegre de costume. Pelo contrá­rio, somente acirrou o olhar de desprezo.
— Na verdade terminei as planilhas há um bom tempo. E você não acreditaria no quão interessante foi o trabalho.
— O que está acontecendo aqui, Usagi? Você se importaria em me contar, ou nós vamos ficar falando em códigos?
— Desde que comecei aqui, me envolvi bastante com o lado finan­ceiro da coisa. Tenho lidado com os números sobre o potencial de negócios.
— E você parece bem feliz por ter recebido mais responsabilida­des. Se isso exige a manhã de sábado do fim de semana que nós planejamos viajar juntos, quem sou eu para reclamar?
— Mas eu fiz uma descoberta muito interessante nesta manhã, enquanto procurava uns papéis que precisava no arquivo de Haruka.
— Ah, é? E que descoberta foi essa?
— A sua ligação com esse grupo de pessoas que foi contratado para fazer o marketing do empreendimento. — Usagi examinou cuidadosamente a face dele. Buscava algum sinal, por menor que fosse, que indicasse que ela estava equivocada. Nenhum sinal. Usagi presenciou, sim, Mamoru corar, constrangido. Ela havia acertado na mosca.
Ele a manipulara da pior maneira possível. O emprego, com o apartamento a tiracolo, era resultado de uma manobra de Mamoru.
E ela sabia por que ele fizera isso. Mamoru a queria desde o momen­to em que pôs os olhos nela. Com a sua tradicional arrogância, tomou as medidas necessárias para possuir o que desejava. Nada melhor para se livrar da inconveniência chamada Motoki do que arrumar um emprego para ela, com um apartamento incluído no pacote. Mamoru queria vê-la longe daquele marco perigoso, no qual ela insistia em se agarrar. Para isso, lhe arranjou um trabalho que a elevaria à categoria de mulher de negócios, capaz de sacudir dos ombros o peso morto do namorado.
Usagi sentiu que lágrimas a ameaçavam e trincou os dentes para contê-las.
— Eu encontrei uma carta sua no fundo do arquivo cumprimen­tando Kunzite por adquirir o prédio, pedindo que ele o mantivesse informado sobre o que faria com o lugar. — Usagi podia ouvir o interior dela implorando pela negação que não veio.
— E então o que você fez, Mamoru? — sussurrou ela. — Pediu um favor? Pediu a ele que abrisse um lugarzinho para mim numa equipe competente e qualificada? Eu, uma imbecil incapaz de conseguir um emprego por conta própria? Como você pôde? Como você pôde ma­nipular a minha vida dessa maneira?
— Eu não manipulei a sua vida, Usagi. Não!
— Ah, está certo! Você uma vez me disse que sempre conquistava o que queria. Você não estava agora apenas garantindo a tradição? Mesmo sendo a tática escolhida uma das mais honestas? — Frustra­ção e raiva impregnavam a voz dela. Mamoru fez menção de se aproxi­mar, e Usagi afastou-se imediatamente em rejeição.
— Tudo bem. Talvez não tenha agido corretamente. Talvez deves­se ter dito para você desde o início que poderia arrumar este emprego para você, mas eu pergunto: Você daria ouvidos? Ou você botaria o seu bloco na rua contra mim e negaria a si mesma a oportunidade apenas por ser cabeça-dura?
— Isso não tem nada a ver!
— Você não respondeu à minha pergunta?
— Eu quero conquistar as coisas pelo meu esforço. Eu não pedi e não precisava da sua ajuda!
— Você está agindo como se eu tivesse cometido um crime contra o seu orgulho, Usagi. E quantas oportunidades a gente perde na vida por causa do orgulho?
— Pare de tentar distorcer as coisas para que você possa parecer o santo dessa história. — Amedrontava Usagi o quanto ela torcia para que Mamoru tivesse sucesso. — Você me manipulou. Este é o centro da questão.
Mamoru deu um murro na mesa, derrubando um porta-canetas e espalhando o conteúdo. Usahi o olhou, fascinada e calada.
— Esse não é o centro da questão, droga! — Desta vez, a cara de indiferença e frieza dela não foi suficiente para detê-lo, e Mamoru percorreu a distância entre eles em poucos e furiosos segundos. — Eu posso não ter sido franco como deveria...
— O eufemismo do ano! — interrompeu Usagi. Ela voltou para a cadeira para evitar que a presença imponente dele a engolisse por completo.
— Se estava tentando manipulá-la, por que não falei para você a respeito do emprego? — perguntou Mamoru. — Eu não teria me aproveitado da primeira chance para fazer você sentir que me devia algo? Droga, eu não fiz isso, fiz?
— Bem, você poderia estar guardando essa informação como um trunfo — reagiu Usagi. — A carta que você puxaria da manga se ou quando necessário! Um jeitinho! Você é muito bom nisso, não é, Mamoru? Igualzinho à nossa primeira saída, quando você deu um jeiti­nho com Taiky! Você acha que todo mundo pode dançar conforme a sua música, e isso é... Isso é abominável.
Deu-se um silêncio, o ambiente continuou carregado, e abrupta­mente Mamoru se afastou rumo à mesma janela em que Usagi parecia esperá-lo quando ele chegou.
— Eu tentei contar...
— Quando? — exigiu Usagi, elevando o tom de voz. Ela girou na cadeira para vê-lo.
— Ontem. Eu falei que precisava falar com você, mas a gente foi adiando, e decidi contar depois deste fim de semana.
É verdade, ela se lembrava, sim, de que ele havia iniciado uma conversa nessa linha, mas a última coisa em que Usagi pretendia pensar agora. Deixar-se levar foi o seu grande erro desde o primeiro instante.
— Eu não acredito em você, Mamoru — disse ela, com frieza. — Você me queria, e você tomou as medidas necessárias para possuir-me. Você nunca perdeu um só momento para pensar nos meus senti­mentos, porque você não sabe o que significa sensibilidade. — A voz de Usagi tornava-se amarga. — A nossa relação se resume a isso: desejo, luxúria, sexo. Nunca houve espaço para sentimento.
— Isso é o que você buscava também. Ou você convenientemente já se esqueceu?
Não, ela não havia se esquecido. No entanto, Usagi cometera o erro básico de não honrar no seu íntimo o acordo que eles haviam acertado. O acordo de que era tudo um acordo. Duas pessoas, ambas sem querer maiores envolvimentos, cedendo a seus instintos e con­cordando que a relação não passaria disso. Foi uma porcaria de acor­do, Usagi dava-se conta agora, pois em algum momento do processo ela se expôs ao risco fatal de gostar dele, de se apaixonar por ele.
A conclusão era terrível. Usagi cerrou os olhos, por poucos se­gundos, em desespero. Quando ela voltou a abri-los, havia uma nova firmeza, uma resignação neles.
— Não temos mais nada para conversar, Mamoru. — Usagi espal­mou uma das mãos no tampo da escrivaninha e levantou-se, deixando a mesa de trabalho como uma barreira entre ambos. — Eu não gostei do que você fez. Eu não posso respeitar ninguém que age dessa ma­neira. Esta relação, ou seja lá o que isso for, não vai dar em lugar nenhum, e agora estou pondo um fim nela. — Usagi virou-se para uma das janelas, dando-lhe as costas. Espinha reta, ombros curvados para trás. O coração dela pedia que visse Mamoru pela última vez, mas a cabeça dela rejeitou tal desejo.
Usagi percebeu a hesitação de Mamoru. Ouviu os passos dele até a porta. Ele fez uma pequena pausa, e então estava tudo acabado. Mamoru se fora.
Tá tudo gozando!!!!! omg
quero mais esta muito gira
continua que eu estou a amar ler a tua fic. bjx

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a minha primeira fic "AS FILHAS DA LUA"passem na minha fic e comentem XD

Traços do destino
visitem o meu forum http://eterna-sailor-moon4.forumeiros.com/forum.htm

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