[Filme/Livro] Ensaio sobre a cegueira
A pouco cheguei a casa do cinema e fui ver o Ensaio sobre a cegueira.
Primeiro quero salientar algumas coisas, das quais algumas já foram faladas aqui.
Inicialmente(nem sabia que tinha a ver com o Jóse Saramago) quis ver o filme porque o trailler dava a entender tratar-se de um filme sobre ficção cientifica. (o que é verdade) e o elenco é muito bom.
Quando soube tratar-se de um filme baseado num livro dele, perdoe-me mas fiquei um pouco parva. Jóse Saramago?ficçaõ cientifica?? OMG , mas depois de ler o Memorial torna-se dificil de actreditar.
Enfim, foi assim que fiquei com imensa curiosidade e hoje fui ver.
Não vós vou contar o filme, mas o que posso dizer é que é diferente. Dá-nos uma representação do que seria o mundo se todos (excepto um,neste caso) ficassem cegos.
É forte, tem cenas muito marcantes, degradantes e chocantes. Ainda mais as atitudes e o comportamento humano naquela situação.
:
:
Tem algumas partes realmente fortes e nojentas.
Eu fui ver com uns amigos e um deles tinha lido o livro e disse que cortaram muito, principalmente muitas cenas mais chocantes. E que as cenas que aparecem no filme, no livro são ainda mais fortes. (:g3: , dificil de acreditar) mas não impossivel. Visto que em palavras as vezes se consegue descrever melhor sem restrições.
Gostei, embora seja diferente dos filmes de ficção cientifica que estamos habituados. Afinal o autor é quem é.
Ele foca mais no comportamento e adaptação das pessoas do que na doença, que tem um papel muito pequeno. As pessoas ficam cegas e pronto.
Fiquei agarrada do inicio ao fim, a minha atenção só no filme. Queria sempre saber o que ia acontecer e ao mesmo tempo não queria, porque sabia que ia ser mau.
Acho que posso dizer que gostei e aconselho.:
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Primeiro quero salientar algumas coisas, das quais algumas já foram faladas aqui.
Inicialmente(nem sabia que tinha a ver com o Jóse Saramago) quis ver o filme porque o trailler dava a entender tratar-se de um filme sobre ficção cientifica. (o que é verdade) e o elenco é muito bom.
Quando soube tratar-se de um filme baseado num livro dele, perdoe-me mas fiquei um pouco parva. Jóse Saramago?ficçaõ cientifica?? OMG , mas depois de ler o Memorial torna-se dificil de actreditar.
Enfim, foi assim que fiquei com imensa curiosidade e hoje fui ver.
Não vós vou contar o filme, mas o que posso dizer é que é diferente. Dá-nos uma representação do que seria o mundo se todos (excepto um,neste caso) ficassem cegos.
É forte, tem cenas muito marcantes, degradantes e chocantes. Ainda mais as atitudes e o comportamento humano naquela situação.
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: Tem algumas partes realmente fortes e nojentas.
Eu fui ver com uns amigos e um deles tinha lido o livro e disse que cortaram muito, principalmente muitas cenas mais chocantes. E que as cenas que aparecem no filme, no livro são ainda mais fortes. (:g3: , dificil de acreditar) mas não impossivel. Visto que em palavras as vezes se consegue descrever melhor sem restrições.
Gostei, embora seja diferente dos filmes de ficção cientifica que estamos habituados. Afinal o autor é quem é.
Ele foca mais no comportamento e adaptação das pessoas do que na doença, que tem um papel muito pequeno. As pessoas ficam cegas e pronto.
Fiquei agarrada do inicio ao fim, a minha atenção só no filme. Queria sempre saber o que ia acontecer e ao mesmo tempo não queria, porque sabia que ia ser mau.
Acho que posso dizer que gostei e aconselho.:
':Vi finalmente este filme na quarta-feira, depois de ter lido várias e diferentes opiniões. Não sabia mesmo o que esperar dele.
O comentário que vou redigir funciona como uma espécie de reflexão e não colocarei spoilers. São pensamentos que me surgiram depois do filme terminar, questões que, se pudessem ler, ficaria agradecida de verdade. Espero que os administradores/moderadores não se importem, pois está dentro do tema...
Por norma, sou uma pessoa que encara a vida com esperança. Acho que esta palavra é a melhor que encontro para uma definição, se é que isto é possível. Quando olho para as pessoas, quando olho para as situações mais negras, mais tristes. E acredito numa cegueira capaz de ser dissolvida. Uma cegueira que seja destruída por todos, que sejamos capazes de ver para além daquilo que vemos à primeira vista. Acredito nisto há muito tempo.
Como em tudo, temos crises. Existem fases em que tudo aquilo que acreditamos é posto em causa, quer seja numa religião, quer seja na vida íntima de cada um. E, em mim, este filme provocou-me uma sensação que dificilmente consigo explicar... Uma sensação de mágoa tão grande. Tão grande. Durante a exibição, dei por mim a desviar o olhar durante alguns segundos para conter as lágrimas. Lágrimas de desilusão, algumas de raiva. Uma descrença que eu não queria. Uma sensação antiga que eu não queria recuperar. Perguntas infindáveis que desfilavam pela minha cabeça e que me deixavam tonta. E um silêncio que me preenchia.
Existem alturas em que me pergunto se seremos mesmo assim. Será a humanidade um pedaço de cegueira entranhada nas nossas acções? Será a humanidade apenas mais um ser cuja essência é o instinto e somente o instinto? Que seria de nós se ficássemos cegos e apenas os mais fortes sobrevivessem? Aliar-nos-íamos aos mais fortes e renegaríamos os nossos valores? Afinal de contas, o que são valores? O que são preconceitos? O que é o Homem?
O que é o Homem...?
Esta pergunta, tão curta, tão simples, magoava-me tanto enquanto pensava nela e via o filme. As imagens que Saramago escreveu a desfilarem pelo ecrã, suavizadas por Fernando Meirelles e tão criticadas em Cannes. Só conseguia pensar que era irremediável. Que não podia ser possível as pessoas serem assim.
Olho para este filme e ainda sinto uma mágoa no meu interior. Pode parecer-vos estranho, estúpido até que eu diga isto. Mas quando acreditamos nas pessoas, que existe esperança, que existem pessoas capazes de nos darem as mãos e não nos prejudicarem isto faz-nos pensar. Dei por mim a perguntar o que seria de facto a bondade ou a maldade. Se existiria uma definição para cada um destes termos que tanto usamos. Existe maldade? Existem pessoas boas? Ou existem Humanos, homens e mulheres cujo instinto de sobrevivência é o primeiro regente, é o que nos determina?
E penso muito na personagem que podia ver. Na dor, na enorme dor que seria poder ver tudo aquilo. Vermos as pessoas a serem... elas próprias. A serem uma repetição infindável daquilo que eram enquanto pessoas com visão. Nós, envoltos por catástrofes por ficarmos cegos, incapazes de nos ajudarmos. Incapazes de contornarem a situação, os homens são apenas homens e deixam-se reger pela cegueira que já possuíam. Roubam. Mentem. Violam os direitos dos outros. Matam. Destroem.
Porque é que o Homem é assim?...
Durante alguns dias senti-me diferente. Andar no metro e no comboio, normalmente algo que faço sem obrigação, olhando para tudo com atenção, tornou-se penoso. Aquele pensamento não me saía da cabeça, aquela imagem de pessoas hipócritas desmascarada. Tentei abstrair-me delas e concentrar-me naquilo em que acredito. Vi pessoas a atropelarem-se no metro. Pessoas a não darem passagem a idosos. Carros a buzinarem. Pessoas a resmungarem contra o vendedor de castanhas que se atravessa pelo caminho. Pessoas cabisbaixas num hospital. Pessoas a enganarem um amigo. E todos estes pensamentos pareciam-me estranhamente legítimos... Terá Saramago razão?
Mas, e então, na estação de Santa Apolónia, acidentalmente bati com as rodas da minha mala na mesa dum casal. Atrapalhada, pedi desculpas. E fui recebida por um sorriso enorme que me disse que não fazia mal. Sorri também e, após ter comprado a minha comida, sentei-me num banco da estação. Foi quando o mesmo senhor idoso passa por mim, deseja-me um bom jantar e viagem e parte com o seu sorriso.
E este gesto tão simples deixou-me de lágrimas nos olhos, algo que eu precisava tanto. Porque, e apesar de tudo, eu quero continuar a acreditar que existem pessoas que se libertam da cegueira. Pessoas que vêem o mundo como ele é e não como o fazemos. Pessoas que no metro dão passagem às outras, que nos perguntam se queremos ajuda, pessoas que oferecem o seu lugar, pessoas que sorriem com sinceridade, pessoas que nos oferecem a sua amizade sem exigirem nada em troca, pessoas espontâneas que nos abraçam, pessoas que lutam com força, pessoas que se libertam das correntes materialistas.
E este enorme texto serve para vos dizer que este filme me marcou. Sim, é um filme intenso, onde o mundo não é cor de rosa. É um mundo manchado de cinza, negro e branco. Posso dizer que me surpreendeu, que gostei imenso da interpretação do Ruffalo, que tem cenas muito bem concebidas. Mas tudo isto me parece irrelevante tendo em conta o conteúdo da mensagem a ser transmitida. E que, para mim, o mundo continuará a ser feito de muitas cores, pois é nisso em que acredito e pelo que lutarei.
A dizer também que concordo com o facto do filme não poder ser visto por pessoas com menos de 16 anos. E acho, sobretudo, que este filme pode chocar pessoas de qualquer idade, de qualquer religião, de qualquer coisa. Saramago decerto escreveu uma obra brilhante que talvez não tenha coragem para ler. Talvez um dia, quando for mais forte, seja.
O comentário que vou redigir funciona como uma espécie de reflexão e não colocarei spoilers. São pensamentos que me surgiram depois do filme terminar, questões que, se pudessem ler, ficaria agradecida de verdade. Espero que os administradores/moderadores não se importem, pois está dentro do tema...
Por norma, sou uma pessoa que encara a vida com esperança. Acho que esta palavra é a melhor que encontro para uma definição, se é que isto é possível. Quando olho para as pessoas, quando olho para as situações mais negras, mais tristes. E acredito numa cegueira capaz de ser dissolvida. Uma cegueira que seja destruída por todos, que sejamos capazes de ver para além daquilo que vemos à primeira vista. Acredito nisto há muito tempo.
Como em tudo, temos crises. Existem fases em que tudo aquilo que acreditamos é posto em causa, quer seja numa religião, quer seja na vida íntima de cada um. E, em mim, este filme provocou-me uma sensação que dificilmente consigo explicar... Uma sensação de mágoa tão grande. Tão grande. Durante a exibição, dei por mim a desviar o olhar durante alguns segundos para conter as lágrimas. Lágrimas de desilusão, algumas de raiva. Uma descrença que eu não queria. Uma sensação antiga que eu não queria recuperar. Perguntas infindáveis que desfilavam pela minha cabeça e que me deixavam tonta. E um silêncio que me preenchia.
Existem alturas em que me pergunto se seremos mesmo assim. Será a humanidade um pedaço de cegueira entranhada nas nossas acções? Será a humanidade apenas mais um ser cuja essência é o instinto e somente o instinto? Que seria de nós se ficássemos cegos e apenas os mais fortes sobrevivessem? Aliar-nos-íamos aos mais fortes e renegaríamos os nossos valores? Afinal de contas, o que são valores? O que são preconceitos? O que é o Homem?
O que é o Homem...?
Esta pergunta, tão curta, tão simples, magoava-me tanto enquanto pensava nela e via o filme. As imagens que Saramago escreveu a desfilarem pelo ecrã, suavizadas por Fernando Meirelles e tão criticadas em Cannes. Só conseguia pensar que era irremediável. Que não podia ser possível as pessoas serem assim.
Olho para este filme e ainda sinto uma mágoa no meu interior. Pode parecer-vos estranho, estúpido até que eu diga isto. Mas quando acreditamos nas pessoas, que existe esperança, que existem pessoas capazes de nos darem as mãos e não nos prejudicarem isto faz-nos pensar. Dei por mim a perguntar o que seria de facto a bondade ou a maldade. Se existiria uma definição para cada um destes termos que tanto usamos. Existe maldade? Existem pessoas boas? Ou existem Humanos, homens e mulheres cujo instinto de sobrevivência é o primeiro regente, é o que nos determina?
E penso muito na personagem que podia ver. Na dor, na enorme dor que seria poder ver tudo aquilo. Vermos as pessoas a serem... elas próprias. A serem uma repetição infindável daquilo que eram enquanto pessoas com visão. Nós, envoltos por catástrofes por ficarmos cegos, incapazes de nos ajudarmos. Incapazes de contornarem a situação, os homens são apenas homens e deixam-se reger pela cegueira que já possuíam. Roubam. Mentem. Violam os direitos dos outros. Matam. Destroem.
Porque é que o Homem é assim?...
Durante alguns dias senti-me diferente. Andar no metro e no comboio, normalmente algo que faço sem obrigação, olhando para tudo com atenção, tornou-se penoso. Aquele pensamento não me saía da cabeça, aquela imagem de pessoas hipócritas desmascarada. Tentei abstrair-me delas e concentrar-me naquilo em que acredito. Vi pessoas a atropelarem-se no metro. Pessoas a não darem passagem a idosos. Carros a buzinarem. Pessoas a resmungarem contra o vendedor de castanhas que se atravessa pelo caminho. Pessoas cabisbaixas num hospital. Pessoas a enganarem um amigo. E todos estes pensamentos pareciam-me estranhamente legítimos... Terá Saramago razão?
Mas, e então, na estação de Santa Apolónia, acidentalmente bati com as rodas da minha mala na mesa dum casal. Atrapalhada, pedi desculpas. E fui recebida por um sorriso enorme que me disse que não fazia mal. Sorri também e, após ter comprado a minha comida, sentei-me num banco da estação. Foi quando o mesmo senhor idoso passa por mim, deseja-me um bom jantar e viagem e parte com o seu sorriso.
E este gesto tão simples deixou-me de lágrimas nos olhos, algo que eu precisava tanto. Porque, e apesar de tudo, eu quero continuar a acreditar que existem pessoas que se libertam da cegueira. Pessoas que vêem o mundo como ele é e não como o fazemos. Pessoas que no metro dão passagem às outras, que nos perguntam se queremos ajuda, pessoas que oferecem o seu lugar, pessoas que sorriem com sinceridade, pessoas que nos oferecem a sua amizade sem exigirem nada em troca, pessoas espontâneas que nos abraçam, pessoas que lutam com força, pessoas que se libertam das correntes materialistas.
E este enorme texto serve para vos dizer que este filme me marcou. Sim, é um filme intenso, onde o mundo não é cor de rosa. É um mundo manchado de cinza, negro e branco. Posso dizer que me surpreendeu, que gostei imenso da interpretação do Ruffalo, que tem cenas muito bem concebidas. Mas tudo isto me parece irrelevante tendo em conta o conteúdo da mensagem a ser transmitida. E que, para mim, o mundo continuará a ser feito de muitas cores, pois é nisso em que acredito e pelo que lutarei.
A dizer também que concordo com o facto do filme não poder ser visto por pessoas com menos de 16 anos. E acho, sobretudo, que este filme pode chocar pessoas de qualquer idade, de qualquer religião, de qualquer coisa. Saramago decerto escreveu uma obra brilhante que talvez não tenha coragem para ler. Talvez um dia, quando for mais forte, seja.
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