30 Memórias Perdidas: Digimon Adventure
Bom...
Esta fanfic é apenas uma compilação de one-shots, escritas em homenagem à geração de Digimon Adventure, depois da derrota de Belial Vamdemon (Malo Myotismon na versão americana) e Armagedemon (o 4º filme). Serve para entretenimento pessoal e não pretende ser nada de rigoroso.
Cada capitulo pode estar (ou não) relacionado com capítulos anteriores.
Título: Cartas Perdidas 1 - Memórias do Futuro
Género: Drama, Angst (?)
Dia de Publicação: 11 de Junho 2008
Temporada: Digimon Adventure Zero two
Personagem(ns): Yamato Ishida
Classificação: K (todas as idades)
“O mundo é pequeno… talvez por isso ninguém pense muito nele. Quando eu era mais novo, também não pensava muito nas reviravoltas que o globo pode dar quando não prestamos muita atenção e, sem querer, lhe damos um encontrão...
Foi exactamente o que aconteceu há seis anos. Nessa altura vivíamos em Hikarigaoka. Era eu um miúdo de oito anos que sorria como um idiota e que nunca largava a mão da mãe. Frequentemente testava-lhe a paciência para me comprar doces. Quando ela se recusava, eu resmungava e fazia birra… Mas, de vez em quando, era bem recompensado: quando partilhava os meus doces e brinquedos com o meu irmão mais novo, a mãe apreciava sempre o gesto. E nessas alturas ela dava-me o melhor presente de todos... o sorriso dela. Eu costumava adorar o sorriso da minha mãe. Era eu um rapaz mimado… como o meu irmão.
Assim foi Ishida Yamato.
Mas foi naquele dia, no Verão de Hikarigaoka, que as coisas começaram a mudar. Foi no dia que se seguiu ao ataque terrorista… o pai ficou muito estranho. A mãe começou a chorar e também ficou estranha. Não me lembro da razão – acho que nunca soube – mas os dois começaram a discutir e a situação piorou de dia para dia. Lembro-me do meu pai gritar “Tu sempre o amaste!”. Nessa altura fiquei com medo. Muito medo. A minha mãe parecia estar a gostar de outra pessoa e a nossa família começava a ficar separada. Várias vezes fingi-me de surdo; era sempre eu quem tentava acalmar o choro do Takeru, quando o pai e a mãe gritavam na cozinha. E eu comecei a ter raiva pela minha mãe. Por culpa dela, tudo estava a correr mal. Foi culpa dela, por se ter apaixonado por outra pessoa.
A separação não foi novidade. Deu-se em apenas alguns meses… e foi nessa altura que tive de tomar a decisão mais difícil da minha vida. Eu, Yamato, de oito anos, tive de escolher com quem eu iria viver: com o meu pai, ou com a minha mãe. Foi duro… porque jurei a mim mesmo que nunca mais iria chorar. Já tinha chorado o suficiente quando descobri que ficaríamos separados e que não haveria volta atrás. Nessa altura, por isso, pensei no que seria melhor para o Takeru. Ele era o único inocente no meio de toda a história. De algum modo, eu sentia-me envolvido e culpado, porque cabia a mim a decisão final dos nossos futuros. O meu pai achou que eu tinha esse direito, mas… para mim, foi como se a minha decisão fosse a derradeira confirmação da separação da nossa família. E essa marca de culpa acompanhar-me-ia para o resto da vida. Odiei ter de tomar essa decisão… mas, ao mesmo tempo, não fui capaz de dizer isso aos meus pais. Engoli o nó que sentia na garganta... e, naquela noite, o meu pai já tinha feito as malas. Não tive coragem de dizer “adeus” quando olhei para trás e contemplei os olhos cheios de lágrimas da minha mãe… e o meu irmão olhava-me com ar confuso. Quando me voltei para seguir o meu pai, de mão dada, lembro-me de ouvir perguntar “Mamã… onde vai o Yama? E o papá?”. Essa foi a única vez que vi o meu pai chorar. Mas ele não parou. Nunca entendi porquê; se ele tinha assim tanta vontade de voltar para trás... Mas ele não voltou. A minha última esperança morreu… e fiquei, literalmente, de relações cortadas com ela.
…foi a Digital World… os meus amigos… foram eles que me devolveram a esperança... a esperança de viver uma vida com futuro alegre. Foi graças à Digital World que recuperei a alegria de existir. E foi graças a ele, Taichi, que voltei a deixar o meu coração falar mais alto, abrindo, mais uma vez, espaço para criar laços com as pessoas. Eu era uma concha fechada, com medo de se expor à violência do mundo. Criei uma redoma de gelo... Mas ele… Ele quebrou o gelo que mais ninguém quebrara. Graças a ele… posso agora olhar o mundo com outros olhos. Realmente, agora percebo: para revolver um problema, não nos podemos deixar consumir por ele e deixar que nos afecte e contamine a alma. Para resolver esse problema é preciso, antes de mais, encará-lo de frente. Voltei a chorar… e o meu parceiro chorou comigo naquela caverna. Gabumon.
Foi o primeiro passo para me libertar das correntes da dor. Essas correntes deixaram feridas profundas… mas as cicatrizes não doem. São apenas marcas de chagas que já não existem. Um passado que já passou. O Presente… esse é mais importante agora.
O mais estranho, admito, é que a minha mãe nunca se casou novamente… e pergunto-me, afinal, qual terá sido o verdadeiro motivo da separação. O Takeru contou-me… (ele conta-me agora muitas coisas) a nossa mãe teve vários pretendentes, e ela nunca se interessou por nenhum deles. Sorri e diz sempre que nenhum homem será capaz de substituir o lugar do nosso pai. Amor, realmente, é uma coisa estranha…
Felizmente, agora, tenho alguém… alguém capaz de me dar esse estranho sentimento. Alguém capaz de me explicar como funciona o verdadeiro Amor. É verdade que o Presente pode revelar futuros extraordinários, se olharmos para eles.
Sora… obrigado. Obrigado por me salvares das trevas… e obrigado por me devolveres o sorriso de infância. Obrigado por me devolveres o Céu… Agora já não sou larva nem casulo. Agora, sou uma borboleta adulta. E, fora da caverna, iluminado pelo Sol... encherei os meus pulmões de esperança e abrirei as minhas asas cheias de novas cores. Em direcção a ti voarei… voarei… voarei em direcção ao céu… voarei… em direcção ao futuro."
Ishida Yamato
25 de Dezembro de 2003











Aqui está o 1º capítulo; conforme o feedback, trarei os próximos capítulos.

Esta fanfic é apenas uma compilação de one-shots, escritas em homenagem à geração de Digimon Adventure, depois da derrota de Belial Vamdemon (Malo Myotismon na versão americana) e Armagedemon (o 4º filme). Serve para entretenimento pessoal e não pretende ser nada de rigoroso.
Cada capitulo pode estar (ou não) relacionado com capítulos anteriores.
~ 30 Memórias Perdidas: Digimon Adventure ~
por Rayana Wolfer
por Rayana Wolfer
Título: Cartas Perdidas 1 - Memórias do Futuro
Género: Drama, Angst (?)
Dia de Publicação: 11 de Junho 2008
Temporada: Digimon Adventure Zero two
Personagem(ns): Yamato Ishida
Classificação: K (todas as idades)
1ª Memória
“O mundo é pequeno… talvez por isso ninguém pense muito nele. Quando eu era mais novo, também não pensava muito nas reviravoltas que o globo pode dar quando não prestamos muita atenção e, sem querer, lhe damos um encontrão...
Foi exactamente o que aconteceu há seis anos. Nessa altura vivíamos em Hikarigaoka. Era eu um miúdo de oito anos que sorria como um idiota e que nunca largava a mão da mãe. Frequentemente testava-lhe a paciência para me comprar doces. Quando ela se recusava, eu resmungava e fazia birra… Mas, de vez em quando, era bem recompensado: quando partilhava os meus doces e brinquedos com o meu irmão mais novo, a mãe apreciava sempre o gesto. E nessas alturas ela dava-me o melhor presente de todos... o sorriso dela. Eu costumava adorar o sorriso da minha mãe. Era eu um rapaz mimado… como o meu irmão.
Assim foi Ishida Yamato.
Mas foi naquele dia, no Verão de Hikarigaoka, que as coisas começaram a mudar. Foi no dia que se seguiu ao ataque terrorista… o pai ficou muito estranho. A mãe começou a chorar e também ficou estranha. Não me lembro da razão – acho que nunca soube – mas os dois começaram a discutir e a situação piorou de dia para dia. Lembro-me do meu pai gritar “Tu sempre o amaste!”. Nessa altura fiquei com medo. Muito medo. A minha mãe parecia estar a gostar de outra pessoa e a nossa família começava a ficar separada. Várias vezes fingi-me de surdo; era sempre eu quem tentava acalmar o choro do Takeru, quando o pai e a mãe gritavam na cozinha. E eu comecei a ter raiva pela minha mãe. Por culpa dela, tudo estava a correr mal. Foi culpa dela, por se ter apaixonado por outra pessoa.
A separação não foi novidade. Deu-se em apenas alguns meses… e foi nessa altura que tive de tomar a decisão mais difícil da minha vida. Eu, Yamato, de oito anos, tive de escolher com quem eu iria viver: com o meu pai, ou com a minha mãe. Foi duro… porque jurei a mim mesmo que nunca mais iria chorar. Já tinha chorado o suficiente quando descobri que ficaríamos separados e que não haveria volta atrás. Nessa altura, por isso, pensei no que seria melhor para o Takeru. Ele era o único inocente no meio de toda a história. De algum modo, eu sentia-me envolvido e culpado, porque cabia a mim a decisão final dos nossos futuros. O meu pai achou que eu tinha esse direito, mas… para mim, foi como se a minha decisão fosse a derradeira confirmação da separação da nossa família. E essa marca de culpa acompanhar-me-ia para o resto da vida. Odiei ter de tomar essa decisão… mas, ao mesmo tempo, não fui capaz de dizer isso aos meus pais. Engoli o nó que sentia na garganta... e, naquela noite, o meu pai já tinha feito as malas. Não tive coragem de dizer “adeus” quando olhei para trás e contemplei os olhos cheios de lágrimas da minha mãe… e o meu irmão olhava-me com ar confuso. Quando me voltei para seguir o meu pai, de mão dada, lembro-me de ouvir perguntar “Mamã… onde vai o Yama? E o papá?”. Essa foi a única vez que vi o meu pai chorar. Mas ele não parou. Nunca entendi porquê; se ele tinha assim tanta vontade de voltar para trás... Mas ele não voltou. A minha última esperança morreu… e fiquei, literalmente, de relações cortadas com ela.
…foi a Digital World… os meus amigos… foram eles que me devolveram a esperança... a esperança de viver uma vida com futuro alegre. Foi graças à Digital World que recuperei a alegria de existir. E foi graças a ele, Taichi, que voltei a deixar o meu coração falar mais alto, abrindo, mais uma vez, espaço para criar laços com as pessoas. Eu era uma concha fechada, com medo de se expor à violência do mundo. Criei uma redoma de gelo... Mas ele… Ele quebrou o gelo que mais ninguém quebrara. Graças a ele… posso agora olhar o mundo com outros olhos. Realmente, agora percebo: para revolver um problema, não nos podemos deixar consumir por ele e deixar que nos afecte e contamine a alma. Para resolver esse problema é preciso, antes de mais, encará-lo de frente. Voltei a chorar… e o meu parceiro chorou comigo naquela caverna. Gabumon.
Foi o primeiro passo para me libertar das correntes da dor. Essas correntes deixaram feridas profundas… mas as cicatrizes não doem. São apenas marcas de chagas que já não existem. Um passado que já passou. O Presente… esse é mais importante agora.
O mais estranho, admito, é que a minha mãe nunca se casou novamente… e pergunto-me, afinal, qual terá sido o verdadeiro motivo da separação. O Takeru contou-me… (ele conta-me agora muitas coisas) a nossa mãe teve vários pretendentes, e ela nunca se interessou por nenhum deles. Sorri e diz sempre que nenhum homem será capaz de substituir o lugar do nosso pai. Amor, realmente, é uma coisa estranha…
Felizmente, agora, tenho alguém… alguém capaz de me dar esse estranho sentimento. Alguém capaz de me explicar como funciona o verdadeiro Amor. É verdade que o Presente pode revelar futuros extraordinários, se olharmos para eles.
Sora… obrigado. Obrigado por me salvares das trevas… e obrigado por me devolveres o sorriso de infância. Obrigado por me devolveres o Céu… Agora já não sou larva nem casulo. Agora, sou uma borboleta adulta. E, fora da caverna, iluminado pelo Sol... encherei os meus pulmões de esperança e abrirei as minhas asas cheias de novas cores. Em direcção a ti voarei… voarei… voarei em direcção ao céu… voarei… em direcção ao futuro."
Ishida Yamato
25 de Dezembro de 2003











Aqui está o 1º capítulo; conforme o feedback, trarei os próximos capítulos.

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Título: Alma de Gelo
Género: Drama, Angst (?)
Dia de Publicação: 13 de Agosto 2008
Temporada: depois de Digimon Adventure Zero two
Personagem(ns): Yagami Taichi, Ishida Yamato
Classificação: K (todas as idades)
A tempestade de neve aumentou com intensidade, à medida que o vento soprava e o frio aumentava. Mas caminhavam há tanto tempo… há tantas horas… que tinham perdido completamente a noção do perigo. Taichi sentia-se sonolento, exausto, e sabia que as coisas não davam sinais de melhorar. Sentia um sufoco no peito que se esforçava por abafar. Todos estavam profundamente abalados pelos acontecimentos dessa manhã… e ninguém parecia ter forças para tocar sequer no assunto.
Emocionalmente, sentiam na alma a derrota... Queriam desesperadamente salvar os parceiros… mas na Digital World... não tinham forças suficientes para fazê-lo sozinhos... se não chegassem lá mortos… A neve fustigava-lhes os rostos sofridos. Na mente de Taichi, o mesmo mantra repetia-se como um bordão: não podiam parar... não podiam parar… mesmo que tivesse que fazer um esforço tremendo para não dar ouvidos à sua emoção interior, que queria fazer explodir o nó que sentia na garganta... não podiam parar… A imagem de Agumon, ferido, derrotado e capturado pela Aliança… naquele momento... parecia um pesadelo surreal...
Só sabia que tinha de por um pé a frente do outro... e o seu coração tinha de ser mais frio do que aquela neve… Se ele fosse abaixo... todos os amigos cairiam com ele...
- ...M-mina... - a voz de Mimi balbuciou algures atrás dele. Mesmo em silêncio e a tremer de frio, ela tinha estado a chorar durante todo o caminho. A tristeza impedira-a de falar durante todo aquele tempo… contudo, parecia que já estava no limite. Ela soluçou e parou no meio da neve, como uma criança desesperada - P-podemos parar?
A voz fraca dela materializou o desgaste que todos sentiam. Taichi olhou para trás, hesitante... e viu cada membro do grupo parar para olhar para trás, para Mimi... e todos partilhavam a mesma simpatia por ela. Sora balbuciou no mesmo tom de voz baixo e exausto:
- Já andamos há horas...
Fez-se um silêncio profundo. Todos estavam quietos e cabisbaixos... provavelmente há espera que alguém dissesse alguma coisa...
- Vamos parar... - disse Yamato por fim.
Uma falsa sensação de alívio pareceu percorrê-los... talvez a única fonte de calor naquele frio intenso que parecia espetar-lhes a carne com agulhas. Mas Taichi olhou para Yamato... e disse numa voz gelada.
- Ainda não.
Má hora. Automaticamente foi alvo do olhar consternado de todos... e Taichi estacou, piscando os olhos. Viu que todos olharam para ele com ar acusador... e um sentimento desconfortável de mágoa invadiu-o.
Talvez... talvez as suspeitas que tivera antes não fossem tão infundadas. Aquela era, provavelmente, a paga pelas asneiras que ele cometera... e embora ninguém o dissesse textualmente, ele sabia: aqueles olhares tinham
perdido o seu calor.
Ninguém disse palavra... mas Taichi soube que ninguém o ouviu. Mimi, Joe, Yamato e os outros dispersaram-se para improvisar um acampamento numa gruta, que Koushiro encontrara. Taichi mordeu o lábio inferior e engoliu alguma dor para si. Queria acreditar que podia suportar aquilo e que a falta de apoio dos amigos não podia afectá-lo... Mas agora que começavam a colocá-lo de lado nas decisões do grupo... não tinha tanta certeza. Talvez fosse a pressão de tudo o que lhes acontecera...
Se eles alguma vez iam perdoá-lo... não sabia. Yamato e Sora estavam cada vez mais distantes... O ambiente pesado parecia ter convencido até Hikari, sua irmã, a seguir o exemplo do grupo, remetendo-se a um silêncio incómodo. Joe hesitava e olhava para os amigos antes de aprovar qualquer ideia que saísse da sua boca. O único que parecia estar ainda do seu lado era Koushiro, mas até ele estava distante naquele momento... Yamato chamou-o quando teve finalmente oportunidade para lhe falar a sós... e Taichi pensou que tinha de acabar com aquilo. Quando os amigos se sentaram à volta da lareira, dentro da gruta, não se juntou a eles... Naquela noite... Todos partilhavam taças improvisadas de sopa e tentavam alimentar os estômagos à força de uma conversa mais ou menos animada... sem nunca tomar no assunto dessa manhã. Talvez estivessem demasiado cansados para isso... ou talvez quisessem esquecer o assunto, até à manhã seguinte...
Ninguém sabia.
Taichi esqueceu-se que tinha fome e que os músculos das pernas protestavam-lhe de cansaço... esqueceu-se que estava cheio de frio e que tinha medo que aquela vitória da Aliança conduzisse os amigos à morte… Afastou-se, de cabeça mergulhada na reflexão, e soube que dali para a frente… a única solução passaria por resolver o problema que ele mesmo criara. Não soube quanto tempo vagueou pela noite de floresta e neve... mas o pressentimento de que ninguém daria pela sua ausência, durante tantas horas... confirmou-se. A tempestade já tinha acalmado. A Lua ia alta
quando voltou e quando encontrou todo o grupo a dormir na caverna, aquecida por uma chama pálida, de um fogo quase extinto... Não sabia se alguém se tinha dado ao incómodo de procurar por si...
Naquele instante... limpava as lágrimas teimosas com uma mão fria... e não viu que Hikari soluçava durante o sono...
A noite soprou... a réstia de chama que porfiava vacilou... e apagou-se...
Título: Alma de Gelo
Género: Drama, Angst (?)
Dia de Publicação: 13 de Agosto 2008
Temporada: depois de Digimon Adventure Zero two
Personagem(ns): Yagami Taichi, Ishida Yamato
Classificação: K (todas as idades)
2ª Memória
A tempestade de neve aumentou com intensidade, à medida que o vento soprava e o frio aumentava. Mas caminhavam há tanto tempo… há tantas horas… que tinham perdido completamente a noção do perigo. Taichi sentia-se sonolento, exausto, e sabia que as coisas não davam sinais de melhorar. Sentia um sufoco no peito que se esforçava por abafar. Todos estavam profundamente abalados pelos acontecimentos dessa manhã… e ninguém parecia ter forças para tocar sequer no assunto.
Emocionalmente, sentiam na alma a derrota... Queriam desesperadamente salvar os parceiros… mas na Digital World... não tinham forças suficientes para fazê-lo sozinhos... se não chegassem lá mortos… A neve fustigava-lhes os rostos sofridos. Na mente de Taichi, o mesmo mantra repetia-se como um bordão: não podiam parar... não podiam parar… mesmo que tivesse que fazer um esforço tremendo para não dar ouvidos à sua emoção interior, que queria fazer explodir o nó que sentia na garganta... não podiam parar… A imagem de Agumon, ferido, derrotado e capturado pela Aliança… naquele momento... parecia um pesadelo surreal...
Só sabia que tinha de por um pé a frente do outro... e o seu coração tinha de ser mais frio do que aquela neve… Se ele fosse abaixo... todos os amigos cairiam com ele...
- ...M-mina... - a voz de Mimi balbuciou algures atrás dele. Mesmo em silêncio e a tremer de frio, ela tinha estado a chorar durante todo o caminho. A tristeza impedira-a de falar durante todo aquele tempo… contudo, parecia que já estava no limite. Ela soluçou e parou no meio da neve, como uma criança desesperada - P-podemos parar?
A voz fraca dela materializou o desgaste que todos sentiam. Taichi olhou para trás, hesitante... e viu cada membro do grupo parar para olhar para trás, para Mimi... e todos partilhavam a mesma simpatia por ela. Sora balbuciou no mesmo tom de voz baixo e exausto:
- Já andamos há horas...
Fez-se um silêncio profundo. Todos estavam quietos e cabisbaixos... provavelmente há espera que alguém dissesse alguma coisa...
- Vamos parar... - disse Yamato por fim.
Uma falsa sensação de alívio pareceu percorrê-los... talvez a única fonte de calor naquele frio intenso que parecia espetar-lhes a carne com agulhas. Mas Taichi olhou para Yamato... e disse numa voz gelada.
- Ainda não.
Má hora. Automaticamente foi alvo do olhar consternado de todos... e Taichi estacou, piscando os olhos. Viu que todos olharam para ele com ar acusador... e um sentimento desconfortável de mágoa invadiu-o.
Talvez... talvez as suspeitas que tivera antes não fossem tão infundadas. Aquela era, provavelmente, a paga pelas asneiras que ele cometera... e embora ninguém o dissesse textualmente, ele sabia: aqueles olhares tinham
perdido o seu calor.
Ninguém disse palavra... mas Taichi soube que ninguém o ouviu. Mimi, Joe, Yamato e os outros dispersaram-se para improvisar um acampamento numa gruta, que Koushiro encontrara. Taichi mordeu o lábio inferior e engoliu alguma dor para si. Queria acreditar que podia suportar aquilo e que a falta de apoio dos amigos não podia afectá-lo... Mas agora que começavam a colocá-lo de lado nas decisões do grupo... não tinha tanta certeza. Talvez fosse a pressão de tudo o que lhes acontecera...
Se eles alguma vez iam perdoá-lo... não sabia. Yamato e Sora estavam cada vez mais distantes... O ambiente pesado parecia ter convencido até Hikari, sua irmã, a seguir o exemplo do grupo, remetendo-se a um silêncio incómodo. Joe hesitava e olhava para os amigos antes de aprovar qualquer ideia que saísse da sua boca. O único que parecia estar ainda do seu lado era Koushiro, mas até ele estava distante naquele momento... Yamato chamou-o quando teve finalmente oportunidade para lhe falar a sós... e Taichi pensou que tinha de acabar com aquilo. Quando os amigos se sentaram à volta da lareira, dentro da gruta, não se juntou a eles... Naquela noite... Todos partilhavam taças improvisadas de sopa e tentavam alimentar os estômagos à força de uma conversa mais ou menos animada... sem nunca tomar no assunto dessa manhã. Talvez estivessem demasiado cansados para isso... ou talvez quisessem esquecer o assunto, até à manhã seguinte...
Ninguém sabia.
Taichi esqueceu-se que tinha fome e que os músculos das pernas protestavam-lhe de cansaço... esqueceu-se que estava cheio de frio e que tinha medo que aquela vitória da Aliança conduzisse os amigos à morte… Afastou-se, de cabeça mergulhada na reflexão, e soube que dali para a frente… a única solução passaria por resolver o problema que ele mesmo criara. Não soube quanto tempo vagueou pela noite de floresta e neve... mas o pressentimento de que ninguém daria pela sua ausência, durante tantas horas... confirmou-se. A tempestade já tinha acalmado. A Lua ia alta
quando voltou e quando encontrou todo o grupo a dormir na caverna, aquecida por uma chama pálida, de um fogo quase extinto... Não sabia se alguém se tinha dado ao incómodo de procurar por si...
Naquele instante... limpava as lágrimas teimosas com uma mão fria... e não viu que Hikari soluçava durante o sono...
A noite soprou... a réstia de chama que porfiava vacilou... e apagou-se...
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