Entrevista de Naoko Takeuchi à revista ROLa (parte II)

Temas: Anime - anos 90, Manga, Musicais, Produtos, Sailor Moon Crystal por @Star_UranusComentar

Parte I para ler aqui

(Traduzido na íntegra)

 

Através de algum milagre, o meu desejo de entrevistar a Naoko Takeuchi tornou-se real. Enquanto falo com a minha deusa, e ela descreve os seus sentimentos, ela torna-se mais humana diante dos meus olhos, o seu sorriso faz-me sentir completamente atordoado. Nesta entrevista começámos por falar do nascimento de Sailor Moon, mas desta vez vamos falar sobre o novo merchandise, bem como algumas informações da nossa deusa em pessoa. Esta peça é realmente valiosa. Espero que a valorizem tanto como eu, então leiam!

 

 

Aya: Estes dias têm sido como quando a Sailor Moon foi lançada – há tanto novo merchandise à venda. Eu tenho colecionado.

Takeuchi: Eu também costumava comprar muito; costumava ter um monte gigante de coisas por toda a casa. E depois também fui vendendo. Agora arrependo-me disso.

 

Aya: Saber isso faz-me querer chorar… Ouvi dizer que a Naoko teve alguma influência no design dos mesmos, não é verdade?

Osano: Havia um ceptro (“Super Spiral Heart Rod[n.t.: “Ceptro Lunar de Espiral”]) em particular que ela fez. Estivemos acordados até tarde numa noite num restaurante e foi lá que ela fez todo o design.

Takeuchi: Isso é tão nostálgico. Ainda que eu já não esteja envolvida, acho que os novos artigos parecem realmente autênticos. Eu queria que os novos designs fossem realistas, com belas imagens, e os designers realmente conseguiram ir ao encontro da realização do meu pedido.

 

Aya: Então quer que as crianças de hoje em dia tenham luxo.

Takeuchi: Sabe, há algo que nunca irei esquecer – estava a falar com o nosso agente na Bandai sobre os preços, e ele disse, “Se formos pelo seu plano, vamos perder a .04 do iene.” Quando penso nessa conversa agora, acho que ele se referia ao preço de fabrico dos artigos na China, e como manter o preço baixo, os nossos agentes costumavam negociar em reduzir os preços nem que fosse por um iene. Eu fiquei mesmo chocada por isso.

 

Aya: E pensar que tantas coisas maravilhosas surgiram desses negócios. Mas, ainda assim, todos os artigos de Sailor Moon têm neles uma elegância feminina.

Takeuchi: Era impressionante – havia uma agente na Bandai que insistia em dizer “A aura é muito importante”. A que “aura” se referia? Eu costumava pensar para mim mesma – talvez ela queira dizer que eu deveria estar por perto. “Por favor, certifique-se que isto tem a aura certa”, ou “Esta aura aqui” – ela dizia isso sempre, a “aura” era a palavra-chave, e ela fez tudo o que podia para ter a certeza que havia isso nos artigos.

 

Aya: Então a razão por de trás do esplendor dos artigos deve-se a esta importante “aura”!

Takeuchi: Quando criei a Sailor Moon estava nos meus vintes, e havia muitas agentes femininas na Bandai. Acho que o timing entre nós raparigas era perfeito – de facto, há muito que esperávamos estar envolvidas na indústria. Hoje em dia, há séries como “K-On!” que acho que são muito fofinhas, e daquilo que eu entendo há muitas mulheres no staff envolvido nessas concessões. As mulheres têm um certo sentido estético, e penso que as suas sensibilidades se refletem nos produtos que criam, o que é algo que eu sempre quis ver acontecer.

 

– As Deusas da Deusa 

 

Aya: Sra. Takeuchi, tenho umas questões mais pessoais desta vez. Ouvi dizer que, antes da sua estreia como artista de manga, costumava desenhar acetatos originais por entretenimento.

Takeuchi: Não vou ser demasiado específica, para não ceder a minha idade, mas, quando eu estava no liceu eu comprei kit numa loja de anime chamado “Como desenhar sequências de Anime” (risos) eu era uma miúda completamente nerd.

 

Aya: Pode partilhar connosco algumas das suas séries de banda desenhada feminina preferidas? 

Takeuchi: Quando estava no jardim-de-infância, eu tinha três primas, todas irmãs, que eram minhas vizinhas e costumavam sempre mostrar-me os mangas delas. Eu amava “Aim for the Ace!”, “A Rosa de Versalhes”, “Haikara-san ga Tooru”, “Suna no Shiro”, e outros – as minhas primas estabeleceram que manga eu teria de ler, mas um que eu amei mesmo quando era miúda foi “Candy Candy” – entrava em transe quando lia.

 

Aya: Então gostava das coisas que estavam do lado mais feminino.

Takeuchi: Eu gostava imenso das difíceis mas sombrias obras dos anos 60, especialmente os de Machiko Satonaka e Waki Yamato. Depois disso, gostava dos belos, dramáticos trabalhos de Kimiko Uehara. E também amava os trabalhos oníricos de Chieko Hara e Yumiko Igarashi, essas cinco mulheres eram como deusas para mim. E, claro – Suzue Miuchi também é a minha deusa! Tenho todos os tankoubon que ela lançou. A sua série “Glass Mask” é fantástica. Eu costumava lê-la em série, demasiadas vezes, e teve um efeito tremendo sob mim.

 

Aya: Então a própria deusa também tem as suas deusas…

Takeuchi: Bem, sabe, eu não estava só interessada em banda desenhada feminina. Eu tornei-me completamente absorvida por “Locke the Superman”, de Yuki Hijiri. Eu amava. Foi uma das séries que motivou o meu enorme interesse em ficção científica.

 

Aya: Certamente soa que a essência de “Sailor Moon” provém de diversos lugares.

Takeuchi: Exatamente. Eu também gostava dos trabalhos de ficção científica de Leiji Matsumoto, e li um monte de séries de manga da Moto Hagio e Keiko Takemiya! Ainda hoje gosto. Essas quatro são como deusas para mim. 

 

Aya: Ouvir a deusa em pessoa descrever estes trabalhos… enche-me de emoção.

Takeuchi: Quando me tornei adulta, eu reli os trabalhos de todos os mestres, os artworks e as histórias eram perfeitas, não havia quaisquer lapsos. Nesses dias, o screentoning [n.t.: preenchimento com padrão no desenho] e o GC [n.t.: literalmente “Grand Chase”, quando se dá ênfase a uma cena em particular com linhas, exemplo] não era muito utilizado, e os trabalhos mesmo assim eram incríveis. Fico constrangida no quanto o meu trabalho, em comparação, era de tão má qualidade. Os meus rabiscos não eram algo autêntico. E, para os meus fãs, tenho de dizer, o quão terrivelmente lamento pela minha falta de profissionalismo no que toca a esse assunto. Lamento mesmo muito o quão o meu manga é desagradável à vista.

 

Aya: Como pode dizer isso de si mesma! 

 

– Acordar às 5 da manhã para fazer o almoço 

 

Aya: Atualmente, tem algum tempo-livre?

Takeuchi: Eu continuo a adorar comprar roupa, tal como antigamente, mas hoje em dia compro online – é muito mais barato e há tanta coisa bonita para escolher. Ainda que, para ser honesta, não tenho oportunidade de comprar assim tanta vez, raramente tenho tempo.

Osano: Ainda que acordes mesmo muito cedo pela manhã, certo?

Takeuchi: Certo. Eu acordo todos os dias às 5 da manhã para fazer o almoço para os meus filhos…

 

Aya: A deusa faz almoço dos miúdos!?

Takeuchi: Bem, as crianças têm de comer um almoço adequado, e tal não poderia acontecer se eu não o fizesse.

 

Aya: Está a brincar! Agora quase me apetece repreender alguém por causa disso! De qualquer maneira, os seus filhos, como é que eles vão…

Takeuchi: O meu filho está agora no 1.º ano e a minha filha tem 4 anos.

 

Aya: Mostrou Sailor Moon à sua filha…?

Takeuchi: Só um pouquinho. Envergonha-a. Se ela vai acampar, digamos, com uma pequena mochila da Sailor Moon, todos apontam para ela e dizem “Oh vejam, é a Sailor Moon em pessoa!” – até os professores. (risos)

 

Aya: Eu iria pensar que encontrar-me com a Sailor Moon ao acaso seria romântico. Talvez eles apenas tenham inveja que ela tenha a deusa em pessoa como mamã.

Takeuchi: Oh não, tenho a certeza que não – eu sou uma mãe bem assustadora em casa. (risos) Eu sempre pensei que quando me tornasse mãe, iria criar os meus filhos com imensa liberdade, que não seria como os meus próprios pais foram. Agora que penso nisso, dera-me ser mais como os meus pais eram, apanho-me a mim mesma a dizer “Não podes fazer isso” “Também não podes fazer isso”, “Não, não, não” a toda a hora. Afinal, sou apenas uma velha e vulgar mãe. (risos)

 

Aya: Quase parece que me está a repreender agora…

 

Continua…

 

ROLa, Novembro de 2013, Japão 

Traduzido de inglês para português por Dumpling*

Tradução do japonês para inglês por MissDream

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