Entrevista a Cristina Paiva

Cristina Paiva nasceu a 17 de Setembro de 1966 em Setúbal. Aos 16 anos começou a fazer teatro num grupo amador da sua cidade natal. Mais tarde, estudou no antigo Conservatório Nacional (actual Escola Superior de Teatro e Cinema), iniciando a sua vida profissional na Companhia de Teatro de Portalegre. Actualmente, dirige a Andante – Associação Artistica, uma companhia de teatro que transforma poesia, romances ou contos em peças de teatro para apresentar em qualquer local que não seja uma sala de espectáculos.
Em Sailor Moon – As Navegantes da Lua, Cristina Paiva emprestou a sua voz a Maria Kino / Navegante de Júpiter, Joana Lima / Navegante de Vénus, Petzite, JunJun e Sailor Lead Crow.

 


Entrevista

 

SMpt: Como é que as dobragens de desenhos animados surgiram na sua vida?
Cristina Paiva
: Comecei a fazer dobragens quando estava a trabalhar em Lisboa, por volta de 1995. Na altura precisavam de pessoas para as fazer, realizei o teste e acabei por ser escolhida.

 

Dobrou a voz de duas personagens de grande destaque n' "As Navegantes da Lua" – a Júpiter e a Vénus – que têm timbres e personalidades bastante diferentes. Como foi a selecção?
Bem, a escolha foi deles, eu não sei porque me escolheram (risos). Uma das razões tem a ver com os custos. Ter mais um actor a dobrar é mais dinheiro que tem que se pagar. Sinceramente, não sei porque me escolheram para fazer uma voz tão grave e outra tão aguda. Fiz os testes e eles seleccionaram. Suponho que como consegui fazer os dois timbres, tenham gostado e escolheram-me.

 

Achou difícil o trabalho de dobragem?
Achei difícil, sim. É um trabalho muito exigente, de rigor e concentração, para além da criatividade que tem que se ter para acertar com a boca dos bonecos. Quando vemos reportagens com actores americanos que dobram filmes, eles não estão muito preocupados em fazer encaixar a voz na boca da personagem porque, muitas vezes, os bonecos são adaptados às vozes depois de gravadas. Há bonecos que são construídos a partir daí.
Cá, é diferente, dobramos filmes que já estão feitos e é preciso acertar com os movimentos da boca, acertar com as emoções, com as intenções. A meu ver, exige muito rigor e muita energia. E também muita alegria a fazer porque, se não, não se faz (risos).

 

Tinha alguma técnica para fazer com que as falas coincidissem com a boca do boneco?
Não há bem uma técnica. Tem a ver com a intuição. Eu olhava para o movimento da boca e para o tamanho da frase que tinha para ler. Depois, é um trabalho que também tem a ver com a pessoa que está a dirigir, além de que os técnicos de som têm meios para apurar as gravações. Às vezes não fica completamente bem feito e eles depois acertam tudo na pós-produção. Mas atenção, este foi um trabalho que fiz há uma data de anos, se calhar já não é nada assim e se falar com um colega meu talvez lhe diga uma coisa completamente diferente.

 

Costumava improvisar texto ou seguia apenas o guião?
Apenas o que estava no guião. Eu sou péssima em improviso. Há pessoas que o fazem como quem bebe água. Eu não, de todo, não sou assim. Custa-me bastante improvisar.

 

Como era o processo de dobragem? Pode descrever-nos o ambiente?
Eu estava num estúdio de som, com um ecrã à frente. Via a imagem e ouvia as vozes originais. Lembro-me que via duas ou três vezes a cena e, depois, pedia para não ouvir as vozes enquanto gravava em português. Fazia-me muita confusão ter tudo ao mesmo tempo. Então, gravava sem ouvir a voz lá por baixo.

 

Tem uma opinião formada sobre a evolução das dobragens no nosso País?
Não tenho muita noção dessa evolução. O que me lembro é que, no início, as dobragens em Portugal eram um trabalho muito bem visto. Entre os actores, ir fazer uma dobragem era uma coisa particular, especialmente boa, não só pelo dinheiro que se podia ganhar e por ser uma actividade complementar ao teatro, mas porque era um trabalho criativo, feito com condições, etc.
Quando começaram, digamos, a "industrializar-se", começou a haver uma certa competição entre as produtoras. Começaram a baixar custos, o que significa diminuir as condições de trabalho em que as pessoas fazem dobragens.
Lembro-me que quando trabalhei em dobragem eu gravava sozinha, por exemplo. Sempre estive sozinha a gravar as minhas personagens, gravava não sei quantos episódios numa tarde, quase sem ligação às histórias e quase sem perceber o que estava a fazer. Ia gravando conforme o guião que tinha à frente. A ideia que tenho é que continua a ser assim ou ainda mais duro para os actores. Mas, atenção, é a ideia que tenho, porque já não estou no meio há muito tempo. Às vezes põem um actor a fazer tantas personagens num só episódio da mesma série, que é difícil as pessoas conseguirem fazê-lo bem. É complicado fazer várias vozes diferentes e isso ficar brilhante. Até se consegue, mas por momentos. E, aliás, conseguiria fazer-se bem se se tivesse um mês para preparar o trabalho, o que não é o caso, os actores não têm essa hipótese. Chegam lá no próprio dia e têm que fazer. Imagine o que é fazer 6/7 vozes num episódio…

 

Preferia ter gravado em conjunto com outros actores?
Preferia, porque o trabalho seria diferente e muito melhor. Sairia uma interpretação muito melhor. É preciso ter tempo para ensaiar, estudar intenções e tempos de reacção, etc. Tempo que não havia.

 

Acha que a dobragem d' "As Navegantes da Lua" estava fiel à original ou não tinha noção disso?
A única coisa que me lembro é de ouvir as minhas personagens em japonês. A sensação que guardei disso é que a dobragem original era mais estridente, mais gritada, mas poderá ter a ver com a língua.

 

Lembra-se de como reagiu quando soube que trocaram os sexos dos gatos da série?
Tenho uma vaga ideia de se falar nisso, mas como não gravávamos juntos, muito raramente se falava no que acontecia… A ideia que tenho é que só tinham descoberto lá mais para o meio [da primeira temporada]. Achei graça, como é que se faz um trabalho e depois se percebe que trocaram o género aos personagens? Lembro-me de me rir com isso.

 

Vários episódios tinham músicas cantadas pelas actrizes originais. Cá, só uma foi dobrada, pela Cristina Cavalinhos.  Os nossos actores não tinham muita queda para as cantorias?
Acho que não terá a ver com isso. Deve mesmo ter sido a falta de tempo. Às vezes os episódios chegavam em cima da hora, tinham que ser gravados à pressa e seguir para a televisão. Que me lembre, nunca me pediram para cantar.

 

Lembra-se dos colegas de dobragem d' "As Navegantes da Lua"?
A Cristina Cavalinhos é uma amiga de infância, Estudámos juntas, começámos a fazer teatro juntas e fizémos uma série de trabalhos juntas. Não falo com ela há bastante tempo, mas vamos mantendo o contacto.

 

E do António Semedo?
Soube que tinha morrido bastante tempo depois de ter acontecido (pausa). Era um homem muito divertido, generoso. Foi uma pessoa com quem estive só nas dobragens. Ele era muito engraçado, sempre a fazer graças. A imagem que guardo do Tó é que era uma pessoa divertida, bem disposta e generosa.

 

"As Navegantes da Lua" foi a série de maior notoriedade em que trabalhou. Lembra-se de outras?
Não me lembro dos nomes… (pausa) Há uma que é a Starla! (risos) Recordo-me que fiz uma que tinha uns cães e uma mulher muito má. Eu era a mulher má (risos). Comecei pel' "As Navegantes da Lua" e depois apareceram outras séries em que eram precisas vozes e fui fazer.

 

Qual terá sido a mais exigente para si?
Não me lembro de uma ter sido mais complicada que outra. Mas acho que o grau de dificuldade tinha a ver com o próprio episódio que dobrava no momento. Às vezes fazia muitas vozes diferentes e quando um actor faz mais que uma voz numa série, no mesmo episódio, é complicado porque é preciso destacar um personagem do outro. Acho que era essa a maior dificuldade.

 

Se regressá-se-mos agora aos anos 90 e tivesse que dobrar apenas uma das personagens que fez n' "As Navegantes da Lua". Qual escolhia?
Bem, isso é complicado… Até porque não me lembro das personagens todas (risos). Mas suponho que, se pudesse, escolhia a Maria, gostei mais dela.

 

Há alguma cena d' "As Navegantes da Lua" que a tenha marcado, especialmente?
(pausa) Há uma que me marcou pela negativa e nunca mais hei-de esquecer. É uma cena [no episódio 139] em que uma mãe bate numa filha com um pau. Lembro-me perfeitamente de ter ido falar com a Direcção e dizer "eu não gravo isto, isto é uma coisa horrível". E dobrei a mãe que está à paulada com a filha, como se fosse uma coisa normal. Esta nunca mais esqueci, mesmo…
Pela positiva, lembro-me que havia coisas mais divertidas, mas não de uma especificamente.
Depois, há questões que têm a ver com os bastidores. Estamos a gravar uma personagem e temos o técnico do outro lado e, de vez em quando, a interpretação saía de uma forma mais engraçada e ficávamos ali a rir durante não sei quanto tempo. Durante as dobragens, e ainda o fiz durante algum tempo, seguramente houve dias engraçados e em que interpretava de uma outra maneira, mais engraçada, a explorar outras coisas.

 

Além dos 200 episódios que gravou n' "As Navegantes da Lua", existem ainda 3 filmes e vários episódios especiais. Cá, só os 200 episódios foram dobrados para português. Se, hoje, a convidassem para dobrar os filmes e especiais, aceitava?
Dificilmente. Por uma simples razão: não foi um trabalho que eu tivesse gostado muitíssimo, por causa das condições em que trabalhávamos. A não ser que eu precisasse mesmo, dificilmente aceitava.

 

E se os fãs da série lhe pedissem muito, muito, muito?
(risos) Não é uma questão de dizer que não e de fazer "finca pé" nisso. Mas se eu não tivesse trabalho e precisasse… O que faço actualmente é muito envolvente em termos de disponibilidade. Para mim, é complicado fazer várias coisas ao mesmo tempo. Tem a ver com isso, com a falta de disponibilidade, de tempo e de cabeça. O trabalho que faço é tão intenso e absorvente… Temos uma série de espectáculos em cena em simultâneo… Seria difícil.

 

Qual era a frase que a Navegante de Júpiter, a Maria, usava para se transformar, lembra-se?
Ah, eram umas quantas… Lembro-me de uma que era "Raios e Trovões!", não é?

 

Isso era um "ataque".
Ah, era um ataque (pausa). Não era para se transformar (pausa). Pois não… Mas vou-lhe dizer: também só sabia essa porque há um filho de uma amiga minha que passa o tempo a gozar comigo. Descobriu que eu fazia "As Navegantes da Lua" e então passa a vida a dizer "Raios e Trovões!" (risos).

 

Qual é a sensação que tem ao saber que ainda hoje é reconhecida por ter dobrado "As Navegantes da Lua"?
É muito bizarro (risos). Uma vez reconheceram-me num espectáculo que fiz e depois enviaram-me um e-mail a perguntar se tinha feito "As Navegantes da Lua". Nunca me tinham falado em semelhante coisa, o que foi bizarro, já tinha feito este trabalho há tanto tempo… Isto é uma novidade para mim, foi inesperado, mas fico contente.

 

Uma palavra sobre este projecto, o Sailor Moon Portugal?
Acho que esta preservação da memória é muito engraçada. Devo dizer que os actores e as pessoas que trabalham para o público precisam bastante do que os espectadores demonstram. Nós não vemos o público e, muitas vezes, estamos distantes do que pensam e do que sentem. Este tipo de projectos acaba por nos revelar o que as pessoas sentiram com o nosso trabalho. Acho engraçado mas, para mim, é surpreendente, é uma coisa que tem tanto tempo, não imaginava. Mas espero que seja um projecto divertido, que não seja nada de obcessivo ou uma coisa assim estranha (risos). Na verdade, são só uns bonecos animados e era feito para divertir as pessoas. Para mim, foi engraçado descobrir este vosso projecto.
Deixo os meus agradecimentos por prestarem atenção e terem este carinho e este trabalho.
Gostava, também, de passar a ideia de que os actores que fazem as dobragens e as telenovelas, por exemplo, fazem outras coisas também. Eu teria o maior prazer que viessem conhecer o meu trabalho de agora. É completamente diferente, não tem nada a ver com o que fiz nessa altura. Este é o trabalho com o qual me identifico mais. Uma vez que tenho estes novos amigos, se quiserem vir conhecer o meu trabalho, terei muito gosto.

 

Texto: Star Uranus



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